20 outubro 2003

(Ex)citações de cada dia - II: Verdade e terror

O tabaco e o fascismo sanitário

O procedimento das autoridades francesas ligadas à saúde pública e à segurança social terá sido eticamente correcto ? Será legítimo pôr uma população inteira em estado de choque por uma "boa causa" ? Os fins justificam os meios ?

Refiro-me à notícia, vinda no Publico de 26/6/2002, sobre um anúncio que acabava de ser exibido nas sete principais cadeias da TV francesas. Eis alguns excertos:

"Numa altura em que é cada vez mais difícil distinguir a informação da publicidade, os telespectadores gauleses viram surgir, no intervalo dos noticiários ou entre programas do horário nobre, um fundo negro sobre o qual ia aparecendo escrito um aviso. Uma voz-off acompanhava o aparecimento das palavras: "Foram detectados vestígios de ácido cianídrico, mercúrio, acetona e amoníaco num produto de grande consumo".

Ainda segundo o Público, "o anúncio remetia depois para um número de telefone gratuito, através dos qual os telespectadores poderiam obter mais informações sobre o assunto, nomeadamente sobre o produto em causa (...)".

Lançado de forma "alarmista e surpreendente", o anúncio, de cinco segundos, provocou uma onda de pânico: "as pessoas temiam que se tratasse de um alimento envenenado ou de um produto de higiene".

Ainda a notícia do Público, houve o maior secretismo no lançamento da campanha de tal modo que os próprios órgãos de comunicação social foram apanhados desprevenidos. Como resultado, o número de telefone gratuito, “preparado para atender 50 mil chamadas por hora, bloqueou e permaneceu inacessível durante a noite de domingo. Mesmo depois de uma segunda parte do anúncio ter sido exibida, explicando que o produto 'contaminado' eram os cigarros, muitas pessoas continuavam agarradas ao telefone".

Com um custo estimado de 4 milhões e meio de euros, a campanha publicitária estava programada para decorrer até 7 de Julho de 2002, tendo sido patrocinada pelo Instituto Nacional de Prevenção e Educação para a Saúde (INPES), em parceria com a Segurança Social francesa (a quem compete pagar os encargos com os cuidados de saúde, os medicamenos, as despesas médicas, a hospitalização, etc.).

Segundo a agência publicitária que criou o polémico anúncio (a Euro RSCG BETC), era preciso dramatizar a situação, com o argumento de que os epidemiologistas e demais especialistas da saúde pública estavam desesperados porque ninguém... lhes dava ouvidos!

Um responsável do INPES disse à imprensa que era preferível assustar os franceses a ter que “lidar anualmente com 60 mil mortes causadas pelo tabaco”, uma verdadeira hecatombe!...

As reacções que se seguiram foram as mais diversas: (i) uns felicitaram o "genial golpe mediático", enquanto (ii) outros se mostraram revoltados contra "contra a hipocrisia do Estado", o tal que com uma mão paga este tipo de anúncios e com a outra arrecada quantias astronómicas provenientes das elevadas taxas fiscais impostas ao consumo de tabaco.

Num fórum criado na Internet para debater a campanha podiam-se ler ainda outros argumentos: "Ok, fumar está errado", admitia um cibernauta. "Mas beber está errado, conduzir como um tarado está errado, drogar-se está errado, manter relações diplomáticas com ditadores está errado. Em vez de gastarem o meu dinheiro em campanhas inúteis mais valia aplicá-lo na investigação científica. Isso sim, seria verdadeiramente útil".

Alguns participantes temiam pela eficácia de futuras advertências, lembrando a história do pastor e do lobo: "À força de gritarem que vem lá o lobo, as pessoas não irão acreditar quando este tipo de anúncios se referir a um produto nocivo, consumido involuntariamente".

Segundo estimativas da Direcção-Gerald e Saúde morrem em Portugal cerca de 11 mil pessoas todos os anos, na sequência do consumo de tabaco: sete vezes mais do que os acidentes de automóvel e mais num só ano do que em 13 anos de guerra colonial.

Entre nós a questão que se pode levantar é a seguinte: Uma campanha deste tipo poderá ser eficaz ? Vai contribuir efectivamente para a redução da hecatombe provocada pelo tabagismo ? Será também susceptível de pôr os portugueses em estado de choque ? E sobretudo, no país dos brandos costumes, irá provocar polémica ?

Manifestei, na altura, a minha opinião, a quente: "Tenho desde já muitas reservas em relação este estilo de campanhas. A causa (a prevenção da doença e a promoção da saúde) é boa, mas os meios são perversos. Não duvido da sua eficácia (momentânea...), mas temo o precedente. Isto não é educação para a saúde, isto não é serviço público, isto é puro terror, é condenar a vítima, é desresponsabilizar o sistema (O Estado, o Governo, os serviços de saúde, a indústria tabaqueira, a ciência, a sociedade de consumo, a publicidade ...). Isto é um exemplo de "fascismo sanitário" ou pode pode ser um ensaio de "fascismo sanitário"... Não me dizem toda a verdade, mas depois acusam-me: “Agora tu sabes”... (Maintenant vous le savez...). Como quem diz: “Só a ti compete decidir: o tabaco ou a vida" (1).
___________

Post scriptum - Eu não fumo

(1) Fóruns do Publico.pt > Cidadania - Verdade e Terror: O Caso da Campanha Antitabágica em França (26.6.2002). Vd. também (Ex)citações de cada dia (Letras U-Z)

19 outubro 2003

(Ex)citações de cada dia - I: O tabaco (também) mata

Em Outubro de 2000, abri nos Fóruns do Publico.pt > Cidadania, um tema de discussão que acabou por ter uma certa animação: Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco"... O essencial das minhas intervenções (e de outros cibernautas, devidamente seleccionadas) está disponível na minha página: Saúde e Trabalho > (Ex)citações de cada dia (Letras U-Z).



Aí comecei por registar a minha homenagem aos ficalhenses, gente perdida e esquecida na margem esquerda do Guadiana, na raia de Espanha... Homenagem pela adesão ao projecto "Aldeia sem Tabaco" mas também por acreditarem que rir fazia bem... à saúde!



Essa homenagem era extensiva a excelentes profissionais de saúde, como o Dr. Edmundo de Sá, que dirigia (e ainda hoje dirige) a extensão do Centro de Saúde de Serpa, em Vila Verde de Ficalho, e a sua pequena equipa (um enfermeiro e uma administrativa), bem como o Prof. Dr. Mário Bernardo, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.



Na altura eu incluía na homenagem a Junta de Freguesia de V. V. Ficalho e outras pessoas e instituições locais e regionais que se tinham associado a uma iniciativa como aquela, aparentemente tão insólita, na área da promoção da saúde ... Entre outras actividades, eu referia a realização anual do Festival de Anedotas, o qual costumava juntar cerca de três centenas de pessoas que acreditavam que se podia e devia saber viver com saúde e com sentido de humor... em Portugal.



Ainda nos finais do ano de 2000 a "Aldeia Sem Tabaco" tinha tido honras mediáticas no programa diário Sic 10 horas, apresentado então por Júlia Pinheiro. Eram convidados, para além do Dr. Edmundo de Sá, médico de família e coordenador da equipa de saúde local, o actor Nicolau Breyner (natural de Serpa, e na altura um públicio & notório fumador de charutos) e mais 3 habitantes de Vila Verde de Ficalho, ex-fumadores.



Não se podia dizer então que o balanço de quase dois anos de vigência do programa fosse espectacular em termos de números: se bem percebi, (i) uma dúzia de pessoas terá deixado de fumar como resultado directo da implementação deste programa; (ii) não se sabia qual era percentagem de fumadores (podendo, no entanto, ser estimada em 25% a 30% numa população residente que não devia ultrapassar os 2 mil e poucos);(iii) mas o mais importante estava a ser o impacto do porgrama ao nível dos adolescentes em idade escolar. De facto, é nesta idade (por volta dos 15 anos) que o primeiro cigarro é o mais maléfico de todos os cigarros do resto das nossas vidas...



Recusando qualquer fundamentalismo antitabágico (o exemplo da América é, quanto a mim, o do fascismo sanitário), a equipa de saúde local, a junta de freguesia (que curiosamente era então presidida pelo enfermeiro da terra) e os apoiantes do programa "Vila Verde de Ficalho, a aldeia sem tabaco" eram, para mim, um exemplo efectivo e concreto do que é (e deve ser) a promoção da saúde comunitária.



Entendi que era um dever estudar, apoiar, acarinhar, acompanhar e divulgar iniciativas como esta. Um dever de todos aqueles que, como eu, gostariam de um dia poder escrever, nas paredes das fábricas ou dos escritórios onde trabalhamos ou nas paredes das casas onde vivemos o mais belo dos grafitos : "Aqui, como em Vila Verde de Ficalho, é a saúde do povo quem mais ordena". Utopia ? Tentação totalitária ? Fascismo sanitário ? Show off ? Propaganda ideológica ? Liberdade livre ?



Hoje, o Dr. Edmundo de Sá mandou-me um e-mail com os seguintes dizeres: "Amanhã pelas 22h vai haver mais um Prós e Contras na RTP1 sobre o Tabaco; convidaram-me para da plateia contar o caso da Aldeia Sem Tabaco; se tiver oportunidade veja o programa; pode ser que seja interessante".



Prometo, nesse dia, ligar o televisor, por consideração pelos ficalhenses e o seu médico de família. E a propósito do tabaco, eu não diria que ele mata; eu diria que ele também mata...



Contudo, receio que amanhã tabagistas e anti-tabagistas, mais uma vez, não consigam sair do gueto em que, uns e outros, estão confinados... Este tipo de debates, a partir de uma pergunta redutora que exige uma resposta dicotómica (sim ou não), corre sempre o risco de ser uma operação de puro terrorismo intelectual... Oxalá que não!

(Ex)citações de cada dia - I: O tabaco (também) mata

Em Outubro de 2000, abri nos Fóruns do Publico.pt > Cidadania, um tema de discussão que acabou por ter uma certa animação: Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco"... O essencial das minhas intervenções (e de outros cibernautas, devidamente seleccionadas) está disponível na minha página: Saúde e Trabalho > (Ex)citações de cada dia (Letras U-Z).

Aí comecei por registar a minha homenagem aos ficalhenses, gente perdida e esquecida na margem esquerda do Guadiana, na raia de Espanha... Homenagem pela adesão ao projecto "Aldeia sem Tabaco" mas também por acreditarem que rir fazia bem... à saúde!

Essa homenagem era extensiva a excelentes profissionais de saúde, como o Dr. Edmundo de Sá, que dirigia (e ainda hoje dirige) a extensão do Centro de Saúde de Serpa, em Vila Verde de Ficalho, e a sua pequena equipa (um enfermeiro e uma administrativa), bem como o Prof. Dr. Mário Bernardo, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

Na altura eu incluía na homenagem a Junta de Freguesia de V. V. Ficalho e outras pessoas e instituições locais e regionais que se tinham associado a uma iniciativa como aquela, aparentemente tão insólita, na área da promoção da saúde ... Entre outras actividades, eu referia a realização anual do Festival de Anedotas, o qual costumava juntar cerca de três centenas de pessoas que acreditavam que se podia e devia saber viver com saúde e com sentido de humor... em Portugal.

Ainda nos finais do ano de 2000 a "Aldeia Sem Tabaco" tinha tido honras mediáticas no programa diário Sic 10 horas, apresentado então por Júlia Pinheiro. Eram convidados, para além do Dr. Edmundo de Sá, médico de família e coordenador da equipa de saúde local, o actor Nicolau Breyner (natural de Serpa, e na altura um públicio & notório fumador de charutos) e mais 3 habitantes de Vila Verde de Ficalho, ex-fumadores.

Não se podia dizer então que o balanço de quase dois anos de vigência do programa fosse espectacular em termos de números: se bem percebi, (i) uma dúzia de pessoas terá deixado de fumar como resultado directo da implementação deste programa; (ii) não se sabia qual era percentagem de fumadores (podendo, no entanto, ser estimada em 25% a 30% numa população residente que não devia ultrapassar os 2 mil e poucos);(iii) mas o mais importante estava a ser o impacto do porgrama ao nível dos adolescentes em idade escolar. De facto, é nesta idade (por volta dos 15 anos) que o primeiro cigarro é o mais maléfico de todos os cigarros do resto das nossas vidas...

Recusando qualquer fundamentalismo antitabágico (o exemplo da América é, quanto a mim, o do fascismo sanitário), a equipa de saúde local, a junta de freguesia (que curiosamente era então presidida pelo enfermeiro da terra) e os apoiantes do programa "Vila Verde de Ficalho, a aldeia sem tabaco" eram, para mim, um exemplo efectivo e concreto do que é (e deve ser) a promoção da saúde comunitária.

Entendi que era um dever estudar, apoiar, acarinhar, acompanhar e divulgar iniciativas como esta. Um dever de todos aqueles que, como eu, gostariam de um dia poder escrever, nas paredes das fábricas ou dos escritórios onde trabalhamos ou nas paredes das casas onde vivemos o mais belo dos grafitos : "Aqui, como em Vila Verde de Ficalho, é a saúde do povo quem mais ordena". Utopia ? Tentação totalitária ? Fascismo sanitário ? Show off ? Propaganda ideológica ? Liberdade livre ?

Hoje, o Dr. Edmundo de Sá mandou-me um e-mail com os seguintes dizeres: "Amanhã pelas 22h vai haver mais um Prós e Contras na RTP1 sobre o Tabaco; convidaram-me para da plateia contar o caso da Aldeia Sem Tabaco; se tiver oportunidade veja o programa; pode ser que seja interessante".

Prometo, nesse dia, ligar o televisor, por consideração pelos ficalhenses e o seu médico de família. E a propósito do tabaco, eu não diria que ele mata; eu diria que ele também mata...

Contudo, receio que amanhã tabagistas e anti-tabagistas, mais uma vez, não consigam sair do gueto em que, uns e outros, estão confinados... Este tipo de debates, a partir de uma pergunta redutora que exige uma resposta dicotómica (sim ou não), corre sempre o risco de ser uma operação de puro terrorismo intelectual... Oxalá que não!

Tendências/Trends - I

Typical Situation



Por: Dave Matthews Band, EUA



A poesia e a música que os nossos filhos curtem...



Do álbum Under the Table and Dreaming,1994






Ten fingers we have each

Nine planets around the sun repeat

Eight ball is the last if you triumphant be

Seven oceans pummel the shores of the sea



It's a typical situation

In these typical times

Too many choices



Everybody's happy

Everybody's free

We'll keep the big door open

And everyone'll come around

Why are you different

Why are you that way

If you don't step in line

We'll lock you away



Six senses keeping

Five around a sense of self

Four seasons turn on and turn off

I can see three corners from this corner

Two is a perfect number

But one



Everybody's happy

Everybody's free

We'll keep the big door open

And everyone'll come around

Why are you different

Why are you that way

If you don't step in line

We'll lock you away



It's a typical situation

In these typical times

We can't do a thing about it



Tendências/Trends - I

Typical Situation

Por: Dave Matthews Band, EUA

A poesia e a música que os nossos filhos curtem...

Do álbum Under the Table and Dreaming,1994



Ten fingers we have each
Nine planets around the sun repeat
Eight ball is the last if you triumphant be
Seven oceans pummel the shores of the sea

It's a typical situation
In these typical times
Too many choices

Everybody's happy
Everybody's free
We'll keep the big door open
And everyone'll come around
Why are you different
Why are you that way
If you don't step in line
We'll lock you away

Six senses keeping
Five around a sense of self
Four seasons turn on and turn off
I can see three corners from this corner
Two is a perfect number
But one

Everybody's happy
Everybody's free
We'll keep the big door open
And everyone'll come around
Why are you different
Why are you that way
If you don't step in line
We'll lock you away

It's a typical situation
In these typical times
We can't do a thing about it

18 outubro 2003

Portugal sacro-profano - VII: A Lição de Salazar

O meu amigo Jorge Dupret fez-me chegar de Luanda alguns excertos de redacções de um Curso de Educação de Adultos, publicados originalmente no saudoso Diário de Lisboa, na sua edição de 1 de Novembro de 1963. Também encontrei, na Net, alguns desses excertos, divulgados na página de O Castanheirense, na rubrica "Rir dá Saúde"...



Eu sugiro que chamemos a esta peça antológica A Lição de Salazar, o dirigente político (lembram-se ?!) que achava que o portuga, na escola, não devia aprender mais do que ler, escrever e contar... Se o Professor Doutor Salazar ainda hoje fosse vivo e fosse a exame, seria ele certamente quem chumbaria, e não os pobres portugas que tiveram que aprender, tarde na vida, a dominar a língua materna...



SALAZAR



O Salazar fez estradas, fez pontes e até fez a minha professora. É um gajo porreiro!



A MINHA CASA



Gosto muito da minha casa, pois é lá que vivo com a minha patroa e é lá que fiz os meus filhos. Assim que saio do meu trabalho, vou logo para casa. O operário de hoje já não vai para a taberna embebedar-se e dar-se com esses gajos depois quando chigavam a casa davam porrada nas mulheres e se calhavam fazerem filhos nessa altura vinham doentes.



A PÁTRIA



A Pátria é a terra onde criam os nossos pais, os galos e os nossos irmãos. A Pátria é linda querida dos portugueses e dos nossos antepassados, e dos irmãos e dos nossos tios e avós. A Pátria é uma terra enorme e tem lá muitas igrejas e capelinhas e tabernas e lá vivem gente como na serra da estrela. Eu nunca fui à Pátria.



O INFANTE D. HENRIQUE



O Infante D. Henrique foi o primeiro rei de Portugal. O Infante D. Henrique descobriu três terras que são Madeiras e Açores. O Infante D. Henrique mais os Portugueses descobriram muitas terras com os mouros. O Infante D. Henrique foi primeiro casado com D. Filipa de Lencastre deixou cair o regaço de flores que D. Duarte beijou que eram de Stª Maria. O Infante estava a ver que nunca mais chegava ao Brasil por causa das carrancas do mar.



A REVOLUÇÃO DE 1640



A revolução de 1640 foi descoberta no reinado de Filipe III. A revolução de 1640 foram os portugueses que a descobriram. A revolução de 1640 durou muitos anos porque estiveram debaixo dos Filipes. Filipe III descobriu a guerra da

independência. Eu gosto muito da Revolução de 1640. A revolução de 1640 deu-se

para descobrirem o Miguel de Vasconcelos que estava num armário de papéis.



A CAÇA



A casa é um disporto. Para casar é preciso licença. Pode-se casar de duas maneiras à cachaporrada e à paulada mas à cachaporrada é mais perigoso. No tempo defeso não se pode casar. Quem casa sem licença vai preso.



A VACA



A vaca tem 4 partes: a dianteira e a traseira e depois o rabo ainda tem pelos. Debaixo da vaca está a leitaria. Com o rabo enxota as moscas. O marido da vaca

é o boi. Não dá leite por isso não é mamífero. Dos chifres preparam-se botões de madrepérola. A vaca é muito útil. Come-se por dentro e bebe-se por fora.



O LEITE



O leite é para nós bebermos. O leite faz queijo e manteiga. O leite é branco e eu gosto muito de leite. O leite vem dos animais que dão à gente. Os animais que dão leite são: a vaca, a cabra, a ovelha, os burros e o Sr. prior da Lata da Mourisca também dá leite mas é em pó.



Portugal sacro-profano - VII: A Lição de Salazar

O meu amigo Jorge Dupret fez-me chegar de Luanda alguns excertos de redacções de um Curso de Educação de Adultos, publicados originalmente no saudoso Diário de Lisboa, na sua edição de 1 de Novembro de 1963. Também encontrei, na Net, alguns desses excertos, divulgados na página de O Castanheirense, na rubrica "Rir dá Saúde"...

Eu sugiro que chamemos a esta peça antológica A Lição de Salazar, o dirigente político (lembram-se ?!) que achava que o portuga, na escola, não devia aprender mais do que ler, escrever e contar... Se o Professor Doutor Salazar ainda hoje fosse vivo e fosse a exame, seria ele certamente quem chumbaria, e não os pobres portugas que tiveram que aprender, tarde na vida, a dominar a língua materna...

SALAZAR

O Salazar fez estradas, fez pontes e até fez a minha professora. É um gajo porreiro!

A MINHA CASA

Gosto muito da minha casa, pois é lá que vivo com a minha patroa e é lá que fiz os meus filhos. Assim que saio do meu trabalho, vou logo para casa. O operário de hoje já não vai para a taberna embebedar-se e dar-se com esses gajos depois quando chigavam a casa davam porrada nas mulheres e se calhavam fazerem filhos nessa altura vinham doentes.

A PÁTRIA

A Pátria é a terra onde criam os nossos pais, os galos e os nossos irmãos. A Pátria é linda querida dos portugueses e dos nossos antepassados, e dos irmãos e dos nossos tios e avós. A Pátria é uma terra enorme e tem lá muitas igrejas e capelinhas e tabernas e lá vivem gente como na serra da estrela. Eu nunca fui à Pátria.

O INFANTE D. HENRIQUE

O Infante D. Henrique foi o primeiro rei de Portugal. O Infante D. Henrique descobriu três terras que são Madeiras e Açores. O Infante D. Henrique mais os Portugueses descobriram muitas terras com os mouros. O Infante D. Henrique foi primeiro casado com D. Filipa de Lencastre deixou cair o regaço de flores que D. Duarte beijou que eram de Stª Maria. O Infante estava a ver que nunca mais chegava ao Brasil por causa das carrancas do mar.

A REVOLUÇÃO DE 1640

A revolução de 1640 foi descoberta no reinado de Filipe III. A revolução de 1640 foram os portugueses que a descobriram. A revolução de 1640 durou muitos anos porque estiveram debaixo dos Filipes. Filipe III descobriu a guerra da
independência. Eu gosto muito da Revolução de 1640. A revolução de 1640 deu-se
para descobrirem o Miguel de Vasconcelos que estava num armário de papéis.

A CAÇA

A casa é um disporto. Para casar é preciso licença. Pode-se casar de duas maneiras à cachaporrada e à paulada mas à cachaporrada é mais perigoso. No tempo defeso não se pode casar. Quem casa sem licença vai preso.

A VACA

A vaca tem 4 partes: a dianteira e a traseira e depois o rabo ainda tem pelos. Debaixo da vaca está a leitaria. Com o rabo enxota as moscas. O marido da vaca
é o boi. Não dá leite por isso não é mamífero. Dos chifres preparam-se botões de madrepérola. A vaca é muito útil. Come-se por dentro e bebe-se por fora.

O LEITE

O leite é para nós bebermos. O leite faz queijo e manteiga. O leite é branco e eu gosto muito de leite. O leite vem dos animais que dão à gente. Os animais que dão leite são: a vaca, a cabra, a ovelha, os burros e o Sr. prior da Lata da Mourisca também dá leite mas é em pó.

17 outubro 2003

Portugal sacro-profano - VI: A poesia, meu estúpido!

Há tempos fizeram-me, pela enésima vez este ano, mais uma sondagem de opinião, pelo telefone, a perguntar, imaginem!, "se você fosse o Presidente da República, quem é que iria condecorar no 10 de Junho".... Respondi, ingenuamente: "Os poetas! No dez de Junho, deveríamos condecorar os poetas, os nossos poetas, que são o melhor de todos nós"....



É claro que daquela vez não ganhei o brinde, o invariável trem de cozinha ou o fabuloso fim-de-semana para dois num manhoso resort de Torremolinos... Paciência!... Esqueci-me foi de dizer à menina das sondagens que este país maltrata os seus poetas. Lembrei-me depois de um deles, o Ruy Belo, que morreu novo, e pobre, e maltratado, e esquecido. Dele sei este hino ao futuro e à (e)terna portugalidade, o único hino, de resto, que recito de cor quando o que vejo à minha volta me provoca o suficiente (des)contentamento (des)contente...



O Portugal futuro



O portugal futuro é um país

aonde o puro pássaro é possível

e sobre o leito negro do asfalto da estrada

as profundas crianças desenharão a giz

esse peixe da infância que vem na enxurrada

e me parece que se chama sável

Mas desenhem elas o que desenharem

é essa a forma do meu país

e chamem elas o que lhe chamarem

portugal será e lá serei feliz

Poderá ser pequeno como este

ter a oeste o mar e a espanha a leste

tudo nele será novo desde os ramos à raiz

A sombra dos plátanos as crianças dançarão

e na avenida que houver à beira-mar

pode o tempo mudar será verão

Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz

mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o portugal futuro



Homem de Palavra[s] (1969)

Portugal sacro-profano - VI: A poesia, meu estúpido!

Há tempos fizeram-me, pela enésima vez este ano, mais uma sondagem de opinião, pelo telefone, a perguntar, imaginem!, "se você fosse o Presidente da República, quem é que iria condecorar no 10 de Junho".... Respondi, ingenuamente: "Os poetas! No dez de Junho, deveríamos condecorar os poetas, os nossos poetas, que são o melhor de todos nós"....

É claro que daquela vez não ganhei o brinde, o invariável trem de cozinha ou o fabuloso fim-de-semana para dois num manhoso resort de Torremolinos... Paciência!... Esqueci-me foi de dizer à menina das sondagens que este país maltrata os seus poetas. Lembrei-me depois de um deles, o Ruy Belo, que morreu novo, e pobre, e maltratado, e esquecido. Dele sei este hino ao futuro e à (e)terna portugalidade, o único hino, de resto, que recito de cor quando o que vejo à minha volta me provoca o suficiente (des)contentamento (des)contente...

O Portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
A sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Homem de Palavra[s] (1969)

Portugal sacro-profano - V: A economia explicada às criancinhas

Não é fácil explicar o funcionamento da economia (ou, mais prosaica e familiarmente, do capitalismo) às criancinhas das nossas escolas... Felizmente, muitos dos nossos jovens e precários professores tem dado importantes contributos para esse grande desafio pedagógico, cívico e até patriótico, sabendo nós que elas, as criancinhas, são os futuros homens e mulheres do trabalho e do capital deste país... A seguir têm, @s car@s ciberamig@as, um exemplo de inovação pedagógica que consta de um dos manuais escolares, aprovados este ano para o 1º ciclo do ensino básico. Parabéns aos autores, editores, tutela, associações de pais e educadores e restante comunidade educativa.



O CAPITALISMO IDEAL:

Tens duas vacas. Vendes uma e compras um touro. Eles têm muitos bebés e a economia cresce. Vendes a quinta mais a manada, ganhas bué de papel e já te podes reformar!



O CAPITALISMO AMERICANO:

Tens duas cows. És um cowboy. Vendes uma e obrigas a outra a produzir o leite de quatro vacas. É claro que ela morre, no final do filme. Mas tu ficas desconfiado e chamas o FBI, não vá haver por aí a mãozinha dos inimigos da América, com o Bin Laden à cabeça (O tal do 11 de Setembro negro, lembram-se ?).



O CAPITALISMO FRANCÊS:

Tens duas vaches. Entras em greve porque querias ter três vaches, o que vai contra as orientações da PAC (Sabes o que é a PAC ? É a Política Agrícola Comum, que ninguém sabe o que é)... O capitalismo francês é vachement bête!



O CAPITALISMO CANADIANO:

Tens duas vacas (nuns sítios diz-se cows, noutros diz-se vaches). Usas o modelo do capitalismo americano. As vacas morrem. Então acusas o proteccionismo dos países do Terceiro Mundo. Depois adoptas medidas proteccionistas para ter as três vacas reivindicadas pelo capitalismo francês (Sabes o que é o Terceiro Mundo ? Se não sabes, pergunta à sotoura ou mete explicador ou vai à Internet)...



O CAPITALISMO JAPONÊS:

Tens duas vacas, importadas da América, e falta de espaço para pastagens. Desmontas as vacas. Voltas a montá-las. Fazes um checklist de todos os defeitos de fabrico. Redesenhas as duas vacas americanas para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite e de melhor qualidade. Depois fabricas bonecos electrónicos das vaquinhas, chamadas Vaquimons. Vais vendê-los para o mercado global. (‘Tás a haver as vantagens da globalização ? ! Sabes o que é a globalização ? ... Esquece, demora muito tempo a explicar).



O CAPITALISMO BRITÂNICO:

Tens duas vacas (também se diz cows). Logo por azar, as duas são loucas.



O CAPITALISMO HOLANDÊS:

Tens duas vacas (em holandês, vacalhonas). Elas não gostam de touros. Além disso, são contra as touradas de morte. Por isso decidiram viver juntas e estão curtindo numa boa (no sul de Espanha...).



O CAPITALISMO ALEMÃO:

Tens duas vacas. Elas produzem leite regularmente, dentro dos padrões de quantidade e qualidade definidos, em quintas certificadas. Religiosamente, a horas certas. A exploração é altamente lucrativa. Mas o que tu querias mesmo era criar porcos... para fazer salsichas.



O CAPITALISMO RUSSO:

Tens duas vacas. Conta-as e vês que tens 22. Contas de novo e vês que tens 112. Contas de novo e vês que agora só tens 12. Desistes de contar e abres outra garrafa de vodka.



O CAPITALISMO SUÍÇO:

Tens 500 vacas, mas nenhuma é tua. Cobras uma taxa para guardares as vacas dos outros.





O CAPITALISMO ESPANHOL:

És a pessoa mais orgulhosa do mundo porque tens duas vacas.



O CAPITALISMO ITALIANO:

Tens duas vacas... Uma delas é a tua mãe, a outra é tua sogra, maledetto!



O CAPITALISMO PORTUGUÊS:

Tens duas vacas, com o selo DOP (Denominação de Origem Protegida). Certificadíssimas. Mas reclamas contra o Governo porque: (i) a manada não cresce; (ii) as vacas têm uma produtividade inferior às das outras europeias; (iii) a Comissão Europeia diz que só podes ter uma ou então tens que pôr a outra num bordel espanhol.



O CAPITALISMO CHINÊS:

Tens duas vacas e as 300 pessoas da aldeia a mungi-las. Gabas-te de ter pleno emprego e alta produtividade. Prendes e aplicas a pena de morte ao contra-revolucionário que divulgou estes números (Além disso o chinoca andava a espalhar o vírus da pneumonia atípica)...



O CAPITALISMO HINDU:

Tens duas vacas. Sagradas. Ai de quem tocar nelas!



O CAPITALISMO ARGENTINO (1):

Tens duas vacas. Matas-te a ensiná-las a mugirem em inglês dos gringos. As vacas morrem. Entregas as carcaças ao FMI e passas o resto da vida a cantar "el tango de la desgracia" (Sabes o que é o FMI ? É o Robin dos Bosques ao contrário: tira aos pobres para dar aos ricos)...



O CAPITALISMO ARGENTINO (2):

Tens duas vacas e cada uma deve pagar os seguintes impostos e taxas: 21% de IVA, 3% de Imposto sobre Receitas Brutas, 1% para o Fundo de Desemprego, 5% para a Saúde, 8% de Imposto sobre a Antecipação dos Lucros, 5% para o Fundo dos Produtores de Leite, 1% para o Fundo da Promoção da Manteiga, 1% para o Fundo de Promoção dos Queijos Desnatados e o resto para o FMI... Ao fim de dois anos, matas as vacas e suicidas-te.



O CAPITALISMO BRASILEIRO:

Tens duas vacas e és um sem terra. Uma delas é roubada e a outra foi encontrada no mato. O governo criou a CCPV - Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e levanta-te um auto de notícia, por causa de falsas declarações relativas à CCPV. A Receita Federal (a Direcção-Geral dos Impostos lá do nosso país irmão) foi ao computador e, com base nos dados sobre o teu património e os teus sinais exteriores de riqueza (número de filhos, ocupações de terras, etc.), chega à conclusão que tu tens 200 vacas!... Ora toma, cabloco! Para te livrares desta encrenca, dás a vaca que te resta ao fiscal...



O CAPITALISMO OFF SHORE DA MADEIRA :

A Madeira é um jardim!... Tens duas vacas mas estão em nome do teu sobrinho que trabalha no casino e joga na bolsa. Vendes três para a empresa dele, que é de capital aberto e tem sede no off shore da Madeira. Usaste garantias de crédito emitidas pelo cunhado do teu primo que está na Venezuela. Depois fazes uma troca de dívidas por acções por meio de uma oferta geral associada, de forma que consegues todas as cinco vacas de volta, e para mais com isenção fiscal. Os direitos do leite das tuas seis vacas são transferidos para uma companhia das Ilhas Caimão, da qual o sócio maioritário és tu mas só o teu sobrinho é que sabe dessa cláusula secreta. Vendes os direitos das sete vacas novamente para a tua empresa. O relatório e contas do exercício de 2002, com o devido parecer dos revisores oficiais de contas e demais auditores, diz que a tua empresa possui oito vacas, com opção para mais uma. Vendes uma vaca para comprar o novo presidente da SAD do teu clube de futebol. És um homem de sucesso, com honras de telejornal. E agora ainda mais rico: acabas de vender ao Governo regional a m... que as vacas foram c... ao longo destes anos todos.

Portugal sacro-profano - V: A economia explicada às criancinhas

Não é fácil explicar o funcionamento da economia (ou, mais prosaica e familiarmente, do capitalismo) às criancinhas das nossas escolas... Felizmente, muitos dos nossos jovens e precários professores tem dado importantes contributos para esse grande desafio pedagógico, cívico e até patriótico, sabendo nós que elas, as criancinhas, são os futuros homens e mulheres do trabalho e do capital deste país... A seguir têm, @s car@s ciberamig@as, um exemplo de inovação pedagógica que consta de um dos manuais escolares, aprovados este ano para o 1º ciclo do ensino básico. Parabéns aos autores, editores, tutela, associações de pais e educadores e restante comunidade educativa.

O CAPITALISMO IDEAL:
Tens duas vacas. Vendes uma e compras um touro. Eles têm muitos bebés e a economia cresce. Vendes a quinta mais a manada, ganhas bué de papel e já te podes reformar!

O CAPITALISMO AMERICANO:
Tens duas cows. És um cowboy. Vendes uma e obrigas a outra a produzir o leite de quatro vacas. É claro que ela morre, no final do filme. Mas tu ficas desconfiado e chamas o FBI, não vá haver por aí a mãozinha dos inimigos da América, com o Bin Laden à cabeça (O tal do 11 de Setembro negro, lembram-se ?).

O CAPITALISMO FRANCÊS:
Tens duas vaches. Entras em greve porque querias ter três vaches, o que vai contra as orientações da PAC (Sabes o que é a PAC ? É a Política Agrícola Comum, que ninguém sabe o que é)... O capitalismo francês é vachement bête!

O CAPITALISMO CANADIANO:
Tens duas vacas (nuns sítios diz-se cows, noutros diz-se vaches). Usas o modelo do capitalismo americano. As vacas morrem. Então acusas o proteccionismo dos países do Terceiro Mundo. Depois adoptas medidas proteccionistas para ter as três vacas reivindicadas pelo capitalismo francês (Sabes o que é o Terceiro Mundo ? Se não sabes, pergunta à sotoura ou mete explicador ou vai à Internet)...

O CAPITALISMO JAPONÊS:
Tens duas vacas, importadas da América, e falta de espaço para pastagens. Desmontas as vacas. Voltas a montá-las. Fazes um checklist de todos os defeitos de fabrico. Redesenhas as duas vacas americanas para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite e de melhor qualidade. Depois fabricas bonecos electrónicos das vaquinhas, chamadas Vaquimons. Vais vendê-los para o mercado global. (‘Tás a haver as vantagens da globalização ? ! Sabes o que é a globalização ? ... Esquece, demora muito tempo a explicar).

O CAPITALISMO BRITÂNICO:
Tens duas vacas (também se diz cows). Logo por azar, as duas são loucas.

O CAPITALISMO HOLANDÊS:
Tens duas vacas (em holandês, vacalhonas). Elas não gostam de touros. Além disso, são contra as touradas de morte. Por isso decidiram viver juntas e estão curtindo numa boa (no sul de Espanha...).

O CAPITALISMO ALEMÃO:
Tens duas vacas. Elas produzem leite regularmente, dentro dos padrões de quantidade e qualidade definidos, em quintas certificadas. Religiosamente, a horas certas. A exploração é altamente lucrativa. Mas o que tu querias mesmo era criar porcos... para fazer salsichas.

O CAPITALISMO RUSSO:
Tens duas vacas. Conta-as e vês que tens 22. Contas de novo e vês que tens 112. Contas de novo e vês que agora só tens 12. Desistes de contar e abres outra garrafa de vodka.

O CAPITALISMO SUÍÇO:
Tens 500 vacas, mas nenhuma é tua. Cobras uma taxa para guardares as vacas dos outros.


O CAPITALISMO ESPANHOL:
És a pessoa mais orgulhosa do mundo porque tens duas vacas.

O CAPITALISMO ITALIANO:
Tens duas vacas... Uma delas é a tua mãe, a outra é tua sogra, maledetto!

O CAPITALISMO PORTUGUÊS:
Tens duas vacas, com o selo DOP (Denominação de Origem Protegida). Certificadíssimas. Mas reclamas contra o Governo porque: (i) a manada não cresce; (ii) as vacas têm uma produtividade inferior às das outras europeias; (iii) a Comissão Europeia diz que só podes ter uma ou então tens que pôr a outra num bordel espanhol.

O CAPITALISMO CHINÊS:
Tens duas vacas e as 300 pessoas da aldeia a mungi-las. Gabas-te de ter pleno emprego e alta produtividade. Prendes e aplicas a pena de morte ao contra-revolucionário que divulgou estes números (Além disso o chinoca andava a espalhar o vírus da pneumonia atípica)...

O CAPITALISMO HINDU:
Tens duas vacas. Sagradas. Ai de quem tocar nelas!

O CAPITALISMO ARGENTINO (1):
Tens duas vacas. Matas-te a ensiná-las a mugirem em inglês dos gringos. As vacas morrem. Entregas as carcaças ao FMI e passas o resto da vida a cantar "el tango de la desgracia" (Sabes o que é o FMI ? É o Robin dos Bosques ao contrário: tira aos pobres para dar aos ricos)...

O CAPITALISMO ARGENTINO (2):
Tens duas vacas e cada uma deve pagar os seguintes impostos e taxas: 21% de IVA, 3% de Imposto sobre Receitas Brutas, 1% para o Fundo de Desemprego, 5% para a Saúde, 8% de Imposto sobre a Antecipação dos Lucros, 5% para o Fundo dos Produtores de Leite, 1% para o Fundo da Promoção da Manteiga, 1% para o Fundo de Promoção dos Queijos Desnatados e o resto para o FMI... Ao fim de dois anos, matas as vacas e suicidas-te.

O CAPITALISMO BRASILEIRO:
Tens duas vacas e és um sem terra. Uma delas é roubada e a outra foi encontrada no mato. O governo criou a CCPV - Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e levanta-te um auto de notícia, por causa de falsas declarações relativas à CCPV. A Receita Federal (a Direcção-Geral dos Impostos lá do nosso país irmão) foi ao computador e, com base nos dados sobre o teu património e os teus sinais exteriores de riqueza (número de filhos, ocupações de terras, etc.), chega à conclusão que tu tens 200 vacas!... Ora toma, cabloco! Para te livrares desta encrenca, dás a vaca que te resta ao fiscal...

O CAPITALISMO OFF SHORE DA MADEIRA :
A Madeira é um jardim!... Tens duas vacas mas estão em nome do teu sobrinho que trabalha no casino e joga na bolsa. Vendes três para a empresa dele, que é de capital aberto e tem sede no off shore da Madeira. Usaste garantias de crédito emitidas pelo cunhado do teu primo que está na Venezuela. Depois fazes uma troca de dívidas por acções por meio de uma oferta geral associada, de forma que consegues todas as cinco vacas de volta, e para mais com isenção fiscal. Os direitos do leite das tuas seis vacas são transferidos para uma companhia das Ilhas Caimão, da qual o sócio maioritário és tu mas só o teu sobrinho é que sabe dessa cláusula secreta. Vendes os direitos das sete vacas novamente para a tua empresa. O relatório e contas do exercício de 2002, com o devido parecer dos revisores oficiais de contas e demais auditores, diz que a tua empresa possui oito vacas, com opção para mais uma. Vendes uma vaca para comprar o novo presidente da SAD do teu clube de futebol. És um homem de sucesso, com honras de telejornal. E agora ainda mais rico: acabas de vender ao Governo regional a m... que as vacas foram c... ao longo destes anos todos.

Estórias com mural ao fundo - XIII: A nova Cinderela contada às criancinhas do Séc. XXI

Há bué da taime havia uma garina cujo cota já tinha esticado o pernil e que vivia com a chunga da madrasta e as melgas das filhas dela. A Cinderela, Cindy p'ras amigas, parecia que vivia na prisa, sem tempo sequer p’ra enviar uns meiles. Com este desatino só lhe apetecia dar de frosques, porque a madrasta fazia-lhe bué de cenas. Foi então que a Cindy fica a saber da alta desbunda que ia acontecer:

- Uma party!



A gaja curtiu logo a ideia, mas as outras chavalas cortaram-lhe as bases. Ela ficou completamente passadunte, mas depois de andar à toa num coche, apareceu-lhe uma fada baril que lhe abichou uma farda baita bacana e ela ficou a parecer uma ganda febra. Só que ela só se podia afiambrar da cena até ao bater da 12 badaladas da midnaite. A tipa mordeu o esquema e foi pra a borga sempre a abrir, tás a ver. Ao entrar na party topou um mano cheio de papel, que era bom comó milho e que logo ali a galou. Aí a Cindy passou-se dos carretos e desbundaram.



Ía a naite muita louca até que ao ouvir as doze badaladas do sino ela teve de se axandrar e bazou. O mitra ficou completamente abardinado quando ela deu de frosques e foi atrás dela, mas só encontrou pelo caminho o chanato da dama. No dia seguinte, com uma alta fezada, meteu-se nos calcantes e foi à procura de um chispe que entrasse no dito chanato. Como era um alta cromo, teve uma vaca descomunal e encontrou a maluca, para ganda desatino das outras fatelas que tiveram um ganda vaipe quando souberam que eles iam juntar os trapinhos.



No final da cena, vemos a garina e o chavalo a curtirem largo. Diz a história que foram bué de felizes e tiveram bué de chavalitos e chavalitas.



Moral da história:

Fogo!, agora é que a gente vê como eram sensaboronas (leia-se: sem sal nem pimenta) as histórias da carochinha que as nossas avozinhas nos contavam quando éramos chavalitos!... Também nesse tempo não havia reality shows... nem electricidade... nem televisão... nem playstations... nem internet! Fogo, não havia mesmo nada!

Estórias com mural ao fundo - XIII: A nova Cinderela contada às criancinhas do Séc. XXI

Há bué da taime havia uma garina cujo cota já tinha esticado o pernil e que vivia com a chunga da madrasta e as melgas das filhas dela. A Cinderela, Cindy p'ras amigas, parecia que vivia na prisa, sem tempo sequer p’ra enviar uns meiles. Com este desatino só lhe apetecia dar de frosques, porque a madrasta fazia-lhe bué de cenas. Foi então que a Cindy fica a saber da alta desbunda que ia acontecer:
- Uma party!

A gaja curtiu logo a ideia, mas as outras chavalas cortaram-lhe as bases. Ela ficou completamente passadunte, mas depois de andar à toa num coche, apareceu-lhe uma fada baril que lhe abichou uma farda baita bacana e ela ficou a parecer uma ganda febra. Só que ela só se podia afiambrar da cena até ao bater da 12 badaladas da midnaite. A tipa mordeu o esquema e foi pra a borga sempre a abrir, tás a ver. Ao entrar na party topou um mano cheio de papel, que era bom comó milho e que logo ali a galou. Aí a Cindy passou-se dos carretos e desbundaram.

Ía a naite muita louca até que ao ouvir as doze badaladas do sino ela teve de se axandrar e bazou. O mitra ficou completamente abardinado quando ela deu de frosques e foi atrás dela, mas só encontrou pelo caminho o chanato da dama. No dia seguinte, com uma alta fezada, meteu-se nos calcantes e foi à procura de um chispe que entrasse no dito chanato. Como era um alta cromo, teve uma vaca descomunal e encontrou a maluca, para ganda desatino das outras fatelas que tiveram um ganda vaipe quando souberam que eles iam juntar os trapinhos.

No final da cena, vemos a garina e o chavalo a curtirem largo. Diz a história que foram bué de felizes e tiveram bué de chavalitos e chavalitas.

Moral da história:
Fogo!, agora é que a gente vê como eram sensaboronas (leia-se: sem sal nem pimenta) as histórias da carochinha que as nossas avozinhas nos contavam quando éramos chavalitos!... Também nesse tempo não havia reality shows... nem electricidade... nem televisão... nem playstations... nem internet! Fogo, não havia mesmo nada!

Estórias com mural ao fundo - XII: Engenheiros e gestores

Um turista caminha, sozinho, por uma rua numa típica vila do Baixo Alentejo, de casas térreas, obsessivamente caiadas de branco. Ao desembocar na praça central, deserta, dá conta da inesperada presença de um balão de ar quente, alguns metros acima da sua cabeça. No cesto desse balão há alguém que lhe acena, alvoraçadamente.



Perante o insólito da cena, e movido pela curiosidade e pelo pedido de ajuda, ele aproxima-se do balão, procurando ouvir o piloto que lhe grita:



- Desculpe, senhor, acha que poderia ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontraria com ele às duas da tarde, porém já são duas e meia e o problema é que nem sei onde me encontro!



O homem, com ar de turista, respondeu ao do balão, com cortesia:

- Claro que posso ajudá-lo! Você encontra-se num balão de ar quente, flutuando a uns vinte metros acima duma praça, com jardim e calçada portuguesa. Está a trinta e oito graus de latitude norte e a oito graus de longitude oeste...



O homem do balão responde-lhe com um sorriso:

- Amigo, você por acaso não é Engenheiro ?!

- Sou, sim senhor, ao seu dispor! Mas já agora... como conseguiu adivinhar logo à primeira?

- Porque tudo o que você me disse está matemática e tecnicamente correcto; e, no entanto, essa informação é-me totalmente inútil, pois continuo perdido e atrasado para o meu encontro!...



O engenheiro ficou calado, por alguns breves segundos, para logo a seguir retorquir:

- E você, por acaso, não é Gestor ?

- Como descobriu ? E eu a pensar que passava incólume e anónimo...

- Ah!, foi muito fácil! Em primeiro lugar, o sr. Gestor não sabe onde está nem para onde vai; em segundo lugar, fez uma promessa da qual não tem a mínima ideia de como a irá cumprir; em terceiro lugar, está à espera que outra pessoa resolva o seu problema. E, last but not the least, fez do Engenheiro o bode expiatório. De facto, continua exactamente tão perdido quanto estava antes de me encontrar; porém agora, por um estranho capricho, a culpa passou a ser toda minha!...



Moral da história:



A falta de produtividade e competividade das empresas portuguesas não é, seguramente, um problema nem de engenharia nem de gestão, o mesmo é dizer, de hardware e software... Por exclusão de partes, só pode ser um problema de humanware.

Estórias com mural ao fundo - XII: Engenheiros e gestores

Um turista caminha, sozinho, por uma rua numa típica vila do Baixo Alentejo, de casas térreas, obsessivamente caiadas de branco. Ao desembocar na praça central, deserta, dá conta da inesperada presença de um balão de ar quente, alguns metros acima da sua cabeça. No cesto desse balão há alguém que lhe acena, alvoraçadamente.

Perante o insólito da cena, e movido pela curiosidade e pelo pedido de ajuda, ele aproxima-se do balão, procurando ouvir o piloto que lhe grita:

- Desculpe, senhor, acha que poderia ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontraria com ele às duas da tarde, porém já são duas e meia e o problema é que nem sei onde me encontro!

O homem, com ar de turista, respondeu ao do balão, com cortesia:
- Claro que posso ajudá-lo! Você encontra-se num balão de ar quente, flutuando a uns vinte metros acima duma praça, com jardim e calçada portuguesa. Está a trinta e oito graus de latitude norte e a oito graus de longitude oeste...

O homem do balão responde-lhe com um sorriso:
- Amigo, você por acaso não é Engenheiro ?!
- Sou, sim senhor, ao seu dispor! Mas já agora... como conseguiu adivinhar logo à primeira?
- Porque tudo o que você me disse está matemática e tecnicamente correcto; e, no entanto, essa informação é-me totalmente inútil, pois continuo perdido e atrasado para o meu encontro!...

O engenheiro ficou calado, por alguns breves segundos, para logo a seguir retorquir:
- E você, por acaso, não é Gestor ?
- Como descobriu ? E eu a pensar que passava incólume e anónimo...
- Ah!, foi muito fácil! Em primeiro lugar, o sr. Gestor não sabe onde está nem para onde vai; em segundo lugar, fez uma promessa da qual não tem a mínima ideia de como a irá cumprir; em terceiro lugar, está à espera que outra pessoa resolva o seu problema. E, last but not the least, fez do Engenheiro o bode expiatório. De facto, continua exactamente tão perdido quanto estava antes de me encontrar; porém agora, por um estranho capricho, a culpa passou a ser toda minha!...

Moral da história:

A falta de produtividade e competividade das empresas portuguesas não é, seguramente, um problema nem de engenharia nem de gestão, o mesmo é dizer, de hardware e software... Por exclusão de partes, só pode ser um problema de humanware.

15 outubro 2003

Portugal sacro-profano - IV: Quando eu for grande quero ser médico

1. A anedota do regime:



Conversa entre o filho de um ministro e a filha de outro ministro:

- Tens um minuto?

- Sim, claro.

- Decidi ir para Medicina.

- Decidiste ir para Medicina... Assim?!

- ... Sim!

- Mas, ouve lá, falaste com o teu Pai ?

- Não! Falei com o teu.



2. A nova doutrina do "a-uma-situação-excepcional-um-tratamento-excepcional"



Ser ou não filh@ de algo, eis a questão (?)... Circulam pela Net, descaradamente, em formato.pdf, os documentos relativos à famosa decisão do governante que, do alto do seu cadeirão, decidiu legiferar, criando uma nova doutrina: "A uma situação excepcional, um tratamento excepcional".



Como foram parar à Net, não sei. São quatro: o requerimento de D. ao Sr. Ministro; o certificado de habilitações literárias de D.; o despacho do Sr. Ministro; a resposta do Sr. Director-Geral à requerente... De segredos de Estado passaram a segredos de Polichinelo. De qualquer modo, reconheço que a sua divulgação viola a privacidade de pelo menos uma cidadã. Outros nomes são públicos & notórios, o ministro (aliás, ex) e o seu director-geral. A própria cidadã é hoje, malgré elle, uma figura pública.

O que lhe dizer, em jeito de consolo ? Ora, minha querida D., não são apenas os media clássicos (a televisão, a rádio, os jornais...) que são predadores, a ciberdemocracia também é cruel, não respeitando nomeadamente os teus direitos de personalidade. Mas quem se expõe, cara cidadã, fica a descoberto... E quem mais perdeu nesta história foste tu, que querias estudar no teu país e ser médica!



Este caso não deixa de ser edificante para a reflexão da relação do cidadão com o Estado e para a própria prática da cidadania. Não sei se para os juristas isto é um belíssimo caso, não sei se vai tornar-se um case-study, não sei se se vão escrever grandes tratados sobre o famigerado despacho...



Felizmente somos um país feliz, e "um país feliz não tem história" (lá diz o provérbio popular). De facto, há quem pense que tudo isto não passou de um faits divers e, como tal, faz apenas parte da petite histoire ou do anedotário nacional. No fim tudo acabou em bem, como nos contos de fadas: desta vez os xico-espertos ficaram mal no filme... O Zé Povinho, que não é menos cruel que os ciberabutres, assobiou e pateou...



3. Uma profissão sem prestígio até à alvorada do Séc. XX



Cinco anos depois da grande reforma pombalina da Universidade de Coimbra, em 1772, justamente quando a estrela política de Pombal se apagava, escrevia o reitor (citado por Pina, 1938) que a faculdade de medicina era "pouco frequentada por quem tem meios de preparar-se para outros destinos mais bem reputados no conceito dos Povos" (sic) e "pela maior parte abandonada a estudantes mizeraveis e pobres" (sic). Na época, o estatuto socioeconómico do estudante universitário media-se pelo número de criados e de cavalos (ou mulas) ao seu serviço (Daí talvez o sentido irónico do provérrbio "Doutor da mula ruça").



Desde a sua criação, nos finais do Séc. XIII até à reforma pombalina de 1772, o curso de medicina sempre fôra pouco procurado:



(i) Três anos depois da instalação definitiva da universidade na cidade de Coimbra (1537), os estudantes de medicina eram apenas 10 num total de 642, ou seja, menos de 2% (Mira, 1947: 83);



(ii) Cento e setenta anos mais tarde, a proporção de alunos inscritos em medicina continuava a ser a mais baixa de todos os cursos: ao tempo em que o grande Ribeiro Sanches andou por Coimbra (1716/19), o total de matrículas em medicina, no correspondente quinquénio (1714/19), era de 466 (93, em média, por ano), o que representava apenas 5.7% do total dos alunos matriculados nas quatro faculdades (8136), nesse período;



(iii) As restantes matrículas distribuíam-se do seguinte modo: 77.6% em cânones (6315); 9.7% em leis (790); e 6.9% em teologia (565).



... Na alvorada do Séc., na Assembleia Constuinte de 1911, os médicos eram, curiosamente, o grupo profissional que estava mais representado, à frente dos militares e dos juristas... Sinais dos tempos!



Fonte: Graça, L. (1999) - A reforma pombalina dos estudos de 1772





4. Sacrificar os "verdes anos" para se ser médico



O que me preocupa na actual geração de estudantes de medicina não é tanto a quantidade como a qualidade dos médicos que vamos no futuro... Temos hoje um sistema reconhecidamente iníquo de selecção, baseado na "meritocracia" (o acesso atrvés das notas mais altas!), que pode ter consequências desvastadoras para todos: o estudante, o futuro médico, o sistema de saúde, os utentes/doentes, o país... Embora correndo o risco das generalizações abusivas, receio bem que os jovens médicos que estão a sair das nossas faculdades de medicina sejam pessoas que não tiveram adolescência ou não chegaram a completar a adolescência: sobretudo não tiveram tempo de ir à discoteca, de ler um livro de poesia ou um romance, de ir a um concerto de música ou a uma exposição de pintura, de visitar um museu, de viajar pela Europa for a (à boleia ou no interrail, como os seus pais), de namorar, de fazer asneiras (“desbundar”), de fugir de casa, em suma, de viver os "verdes anos".



Desde os 15 anos (ou desde o 10º ano do ensino secundário), pelo menos, os pobres rapazes e raparigas candidatos a especialidstas médicos passam pelo menos uma década e meia (até aos 28, 29, 30) a "marrar" (leia-se: a empinar milhares de fotocópias de compêndios!). Claro que há as honrosas excepções que salvam sempre a honra do convento...



O que é que tradicionalmente se valoriza no nosso sistema de ensino ? O gosto pela investigação científica ou o desenvolvimento tecnológico? A cidadania ? A cultura ? O saber ? O desenvolvimento pessoal ? A aventura intelectual ? A ética do trabalho, a deontologia profissional ? Nada disso: Receio que se premeie, antes de mais, a memória de elefante e a cultura de papagaio, além da capacidade de resistência dos grandes corredores de fundo!



É claro que o problema não é exclusivo da formação médica... Mas já dizia Abel Salazar, um grande médico e humanista português do Séc. XX: "Quem só sabe de medicina, não sabe de medicina nem sabe de nada"... Pode dizer-se o mesmo do direito, da engenharia, de sociologia ou de gestão. Honra se faça às nossas faculdades de medicina (e, nomeadamente, as mais recentes) que, apesar de tudo, se têm aberto ao ensino das ciências não-médicas, incluindo as ciências sociais e humanas...



Há uma revolução cultural, científica e pedagógica que está por fazer na nossa universidade. Seiscentos anos depois da sua criação (em finais do Séc. XIII), ainda não é fácil às nossas faculdades de medicina libertarem-se da “ganga” do ensino escolástico e sebenteiro.



Entretanto, a reforma da educação médica de que tanto se fala há anos é mais um parto doloroso e difícil. E não basta, meus senhores, acrescentar aos cadeirões biomédicos, uns pozinhos de sociologia, de psicologia, de economia e de saúde pública!



O que me preocupa é o perfil (humano...) do médico que estamos a preparar para o futuro. Não sei quantos jovens estudantes ficam pelo caminho, têm esgotamentos, passam por crises de depressão ou pensam em suicidar-se. Dir-me-ão que o problema não é especificamente português.



De qualquer modo, o que me preocupa é o risco de termos um jovem velho médico, aos trinta anos (e "aos trinta anos quem não é louco, é médico", diz o provérbio). Um jovem velho médico que não sabe ser nem sabe estar... não apenas como pessoa, como cidadão, como homem ou como mulher mas também como trabalhador da saúde.



Porque o nosso ensino é ainda, em parte, baseado no modelo do "mero acumulador de conhecimentos". Daí também a grande frustação de muitos médicos da geração do pós-25 de Abril que descobrem, algo tardiamente, que há coisas muitíssimo mais interessantes e fascinantes na vida do que estudar e praticar medicina. Quanto à actual geração, uma elite muito restrista, ligada à medicina mais tecnicista e economicamente rentável, terá porventura alguma chance de conhecer a fama e a glória (e ter o respectivo porveito). Para os outros, a grande maioria dos médicos, as expectativas de plena realização pessoal e profissional serão bem mais difíceis de satisfazer. Mas eu, que se calhar estava em dia não quando escrevi esta prosa, espero bem enganar-me a respeito deste cenário pessimista...

Portugal sacro-profano - IV: Quando eu for grande quero ser médico

1. A anedota do regime:

Conversa entre o filho de um ministro e a filha de outro ministro:
- Tens um minuto?
- Sim, claro.
- Decidi ir para Medicina.
- Decidiste ir para Medicina... Assim?!
- ... Sim!
- Mas, ouve lá, falaste com o teu Pai ?
- Não! Falei com o teu.

2. A nova doutrina do "a-uma-situação-excepcional-um-tratamento-excepcional"

Ser ou não filh@ de algo, eis a questão (?)... Circulam pela Net, descaradamente, em formato.pdf, os documentos relativos à famosa decisão do governante que, do alto do seu cadeirão, decidiu legiferar, criando uma nova doutrina: "A uma situação excepcional, um tratamento excepcional".

Como foram parar à Net, não sei. São quatro: o requerimento de D. ao Sr. Ministro; o certificado de habilitações literárias de D.; o despacho do Sr. Ministro; a resposta do Sr. Director-Geral à requerente... De segredos de Estado passaram a segredos de Polichinelo. De qualquer modo, reconheço que a sua divulgação viola a privacidade de pelo menos uma cidadã. Outros nomes são públicos & notórios, o ministro (aliás, ex) e o seu director-geral. A própria cidadã é hoje, malgré elle, uma figura pública.
O que lhe dizer, em jeito de consolo ? Ora, minha querida D., não são apenas os media clássicos (a televisão, a rádio, os jornais...) que são predadores, a ciberdemocracia também é cruel, não respeitando nomeadamente os teus direitos de personalidade. Mas quem se expõe, cara cidadã, fica a descoberto... E quem mais perdeu nesta história foste tu, que querias estudar no teu país e ser médica!

Este caso não deixa de ser edificante para a reflexão da relação do cidadão com o Estado e para a própria prática da cidadania. Não sei se para os juristas isto é um belíssimo caso, não sei se vai tornar-se um case-study, não sei se se vão escrever grandes tratados sobre o famigerado despacho...

Felizmente somos um país feliz, e "um país feliz não tem história" (lá diz o provérbio popular). De facto, há quem pense que tudo isto não passou de um faits divers e, como tal, faz apenas parte da petite histoire ou do anedotário nacional. No fim tudo acabou em bem, como nos contos de fadas: desta vez os xico-espertos ficaram mal no filme... O Zé Povinho, que não é menos cruel que os ciberabutres, assobiou e pateou...

3. Uma profissão sem prestígio até à alvorada do Séc. XX

Cinco anos depois da grande reforma pombalina da Universidade de Coimbra, em 1772, justamente quando a estrela política de Pombal se apagava, escrevia o reitor (citado por Pina, 1938) que a faculdade de medicina era "pouco frequentada por quem tem meios de preparar-se para outros destinos mais bem reputados no conceito dos Povos" (sic) e "pela maior parte abandonada a estudantes mizeraveis e pobres" (sic). Na época, o estatuto socioeconómico do estudante universitário media-se pelo número de criados e de cavalos (ou mulas) ao seu serviço (Daí talvez o sentido irónico do provérrbio "Doutor da mula ruça").

Desde a sua criação, nos finais do Séc. XIII até à reforma pombalina de 1772, o curso de medicina sempre fôra pouco procurado:

(i) Três anos depois da instalação definitiva da universidade na cidade de Coimbra (1537), os estudantes de medicina eram apenas 10 num total de 642, ou seja, menos de 2% (Mira, 1947: 83);

(ii) Cento e setenta anos mais tarde, a proporção de alunos inscritos em medicina continuava a ser a mais baixa de todos os cursos: ao tempo em que o grande Ribeiro Sanches andou por Coimbra (1716/19), o total de matrículas em medicina, no correspondente quinquénio (1714/19), era de 466 (93, em média, por ano), o que representava apenas 5.7% do total dos alunos matriculados nas quatro faculdades (8136), nesse período;

(iii) As restantes matrículas distribuíam-se do seguinte modo: 77.6% em cânones (6315); 9.7% em leis (790); e 6.9% em teologia (565).

... Na alvorada do Séc., na Assembleia Constuinte de 1911, os médicos eram, curiosamente, o grupo profissional que estava mais representado, à frente dos militares e dos juristas... Sinais dos tempos!

Fonte: Graça, L. (1999) - A reforma pombalina dos estudos de 1772


4. Sacrificar os "verdes anos" para se ser médico

O que me preocupa na actual geração de estudantes de medicina não é tanto a quantidade como a qualidade dos médicos que vamos no futuro... Temos hoje um sistema reconhecidamente iníquo de selecção, baseado na "meritocracia" (o acesso atrvés das notas mais altas!), que pode ter consequências desvastadoras para todos: o estudante, o futuro médico, o sistema de saúde, os utentes/doentes, o país... Embora correndo o risco das generalizações abusivas, receio bem que os jovens médicos que estão a sair das nossas faculdades de medicina sejam pessoas que não tiveram adolescência ou não chegaram a completar a adolescência: sobretudo não tiveram tempo de ir à discoteca, de ler um livro de poesia ou um romance, de ir a um concerto de música ou a uma exposição de pintura, de visitar um museu, de viajar pela Europa for a (à boleia ou no interrail, como os seus pais), de namorar, de fazer asneiras (“desbundar”), de fugir de casa, em suma, de viver os "verdes anos".

Desde os 15 anos (ou desde o 10º ano do ensino secundário), pelo menos, os pobres rapazes e raparigas candidatos a especialidstas médicos passam pelo menos uma década e meia (até aos 28, 29, 30) a "marrar" (leia-se: a empinar milhares de fotocópias de compêndios!). Claro que há as honrosas excepções que salvam sempre a honra do convento...

O que é que tradicionalmente se valoriza no nosso sistema de ensino ? O gosto pela investigação científica ou o desenvolvimento tecnológico? A cidadania ? A cultura ? O saber ? O desenvolvimento pessoal ? A aventura intelectual ? A ética do trabalho, a deontologia profissional ? Nada disso: Receio que se premeie, antes de mais, a memória de elefante e a cultura de papagaio, além da capacidade de resistência dos grandes corredores de fundo!

É claro que o problema não é exclusivo da formação médica... Mas já dizia Abel Salazar, um grande médico e humanista português do Séc. XX: "Quem só sabe de medicina, não sabe de medicina nem sabe de nada"... Pode dizer-se o mesmo do direito, da engenharia, de sociologia ou de gestão. Honra se faça às nossas faculdades de medicina (e, nomeadamente, as mais recentes) que, apesar de tudo, se têm aberto ao ensino das ciências não-médicas, incluindo as ciências sociais e humanas...

Há uma revolução cultural, científica e pedagógica que está por fazer na nossa universidade. Seiscentos anos depois da sua criação (em finais do Séc. XIII), ainda não é fácil às nossas faculdades de medicina libertarem-se da “ganga” do ensino escolástico e sebenteiro.

Entretanto, a reforma da educação médica de que tanto se fala há anos é mais um parto doloroso e difícil. E não basta, meus senhores, acrescentar aos cadeirões biomédicos, uns pozinhos de sociologia, de psicologia, de economia e de saúde pública!

O que me preocupa é o perfil (humano...) do médico que estamos a preparar para o futuro. Não sei quantos jovens estudantes ficam pelo caminho, têm esgotamentos, passam por crises de depressão ou pensam em suicidar-se. Dir-me-ão que o problema não é especificamente português.

De qualquer modo, o que me preocupa é o risco de termos um jovem velho médico, aos trinta anos (e "aos trinta anos quem não é louco, é médico", diz o provérbio). Um jovem velho médico que não sabe ser nem sabe estar... não apenas como pessoa, como cidadão, como homem ou como mulher mas também como trabalhador da saúde.

Porque o nosso ensino é ainda, em parte, baseado no modelo do "mero acumulador de conhecimentos". Daí também a grande frustação de muitos médicos da geração do pós-25 de Abril que descobrem, algo tardiamente, que há coisas muitíssimo mais interessantes e fascinantes na vida do que estudar e praticar medicina. Quanto à actual geração, uma elite muito restrista, ligada à medicina mais tecnicista e economicamente rentável, terá porventura alguma chance de conhecer a fama e a glória (e ter o respectivo porveito). Para os outros, a grande maioria dos médicos, as expectativas de plena realização pessoal e profissional serão bem mais difíceis de satisfazer. Mas eu, que se calhar estava em dia não quando escrevi esta prosa, espero bem enganar-me a respeito deste cenário pessimista...

Estórias com mural ao fundo - XI: Conversas com Deus ou o direito de tabaquear o caso

Churchil, Truman, De Gaulle e Estaline, os quatro grandes vencedores da II Guerra Mundial, encontram-se à porta do Céu, depois da sua histórica passagem pela Terra. Por sugestão do São Pedro e por deferência para com tão ilustres representantes do Planeta Azul, Deus dignou-s descer do seu trono e condescendeu em ir recebê-los pessoalmente.



Quis O Todo Poderoso logo ali fazer-lhes um teste de selecção, pedindo-lhes que formulassem um desejo. Estaline, em jogada de antecipação, e de punho erguido, gritou:

- Que os americanos se danem e vão parar ao inferno, Camarada!



Truman aceitou o repto e respondeu-lhe num ápice:

- Oh My God, fazei com que a Rússia soviética seja posta a ferro e fogo!



De Gaulle, em posição de sentido, formulou expressamente o desejo de entrar no céu e gritar “Vive la France!”:

- Mon bon Dieu de France, dai-me esse privilégio ! Só pelo prazer de ouvir o eco da minha própria voz a atravessar o Atlântico e fazer tremer os vidros da Casa Branca.



- E Vossa Excelência, Sir Winston Churchil, perguntou o Criador ?

- Oh My Lord, eu só quero um charuto… Mas pode servir primeiro esses senhores, que eu não tenho pressa.



Moral da história:



(1) A vingança serve-se fria, o último a rir é o que ri melhor.



(2) Deus protege os fumadores: Se Ele quisesse que a gente não fumasse,

não nos tinha dado pulmões, nariz e boca…



(3) Deus não desce do Olimpo para tabaquear o caso connosco (dizem os alentejanos).



(4) “Smoke, don’t make war”.



(5) Não peçam muito, peçam bem.



(6) Usem, mas não abusem… Muita saúde, pouca vida, que Deus não dá tudo!



(7) Cuida-te em terra, avia-te no céu.



(8) Deus faz-nos sempre a última vontade, a do condenado à morte.



(9) Fumar mata mas não é pecado: Pelo menos, não está escrito nos dez mandamentos.



(10) Letreiro à porta do cemitério: Campo da Igualdade, rico ou pobres, médico ou doente, tanto morres do mal como morres da cura.

Estórias com mural ao fundo - XI: Conversas com Deus ou o direito de tabaquear o caso

Churchil, Truman, De Gaulle e Estaline, os quatro grandes vencedores da II Guerra Mundial, encontram-se à porta do Céu, depois da sua histórica passagem pela Terra. Por sugestão do São Pedro e por deferência para com tão ilustres representantes do Planeta Azul, Deus dignou-s descer do seu trono e condescendeu em ir recebê-los pessoalmente.

Quis O Todo Poderoso logo ali fazer-lhes um teste de selecção, pedindo-lhes que formulassem um desejo. Estaline, em jogada de antecipação, e de punho erguido, gritou:
- Que os americanos se danem e vão parar ao inferno, Camarada!

Truman aceitou o repto e respondeu-lhe num ápice:
- Oh My God, fazei com que a Rússia soviética seja posta a ferro e fogo!

De Gaulle, em posição de sentido, formulou expressamente o desejo de entrar no céu e gritar “Vive la France!”:
- Mon bon Dieu de France, dai-me esse privilégio ! Só pelo prazer de ouvir o eco da minha própria voz a atravessar o Atlântico e fazer tremer os vidros da Casa Branca.

- E Vossa Excelência, Sir Winston Churchil, perguntou o Criador ?
- Oh My Lord, eu só quero um charuto… Mas pode servir primeiro esses senhores, que eu não tenho pressa.

Moral da história:

(1) A vingança serve-se fria, o último a rir é o que ri melhor.

(2) Deus protege os fumadores: Se Ele quisesse que a gente não fumasse,
não nos tinha dado pulmões, nariz e boca…

(3) Deus não desce do Olimpo para tabaquear o caso connosco (dizem os alentejanos).

(4) “Smoke, don’t make war”.

(5) Não peçam muito, peçam bem.

(6) Usem, mas não abusem… Muita saúde, pouca vida, que Deus não dá tudo!

(7) Cuida-te em terra, avia-te no céu.

(8) Deus faz-nos sempre a última vontade, a do condenado à morte.

(9) Fumar mata mas não é pecado: Pelo menos, não está escrito nos dez mandamentos.

(10) Letreiro à porta do cemitério: Campo da Igualdade, rico ou pobres, médico ou doente, tanto morres do mal como morres da cura.

13 outubro 2003

Estórias com mural ao fundo - X: Jesus Cristo e o malandro do portuga

Estavam um inglês, um francês e um portuga num bar irlandês, junto á zona ribeirinha do Tejo, quando o inglês diz aos outros:



- Ei, man, esse gajo que acabou de entrar é mesmo igualzinho ao Jesus Cristo!

- O quê, meu ? – perguntou o portuga, incrédulo.

- Impossible, ele morreu há dois mil anos ! - arrematou o francês.

- Estou-vos a dizer. A barba, a túnica....



O inglês levanta-se, dirige-se ao recém chegado e pergunta:

- Man, tu és o Jesus Cristo, não é verdade?

-Eu? Que ideia!

-Não tenho dúvidas. Tu és mesmo o Jesus Cristo.

-Já te disse que não... Mas fala mais baixinho, if you please!

- I'm sure, tu és o filho de Deus Pai, Todo Poderoso!



Depois de tanta insistência, o homem acabou por confessar a verdade:

-Sou efectivamente o Jesus Cristo, estou de férias, de passagem por Lisboa... mas não digas a ninguém, senão isto fica aqui um pandemónio.

-Fiz uma lesão no joelho em pequeno. Cura-me, My Lord!

-Milagres, não, meu filho. Tu vais contar aos teus amigos e eu passo a tarde a trabalhar.



O inglês tanto insiste que Jesus Cristo põe-lhe a mão sobre o joelho e cura-o.

-Obrigado, Senhor! Many thanks, many thanks!-, disse emocionado o inglês

-Sim, sim. Mas não grites e vai-te embora. Não contes nada a ninguém.



Claro que o ingês, mal chegou à mesa, desbundou, contou tudo aos amigos. O francês levantou-se logo e dirigiu-se a ele.

- Mon ami anglais m' a dit que tu es le fils du Seigneur... E que operaste um grande milagre. Sou um pobre marinheiro, tenho um olho de vidro... Un accident de travail, à la mer. Cura-me, por favor.

-Não sou nada Jesus Cristo. Fala baixinho.



O francês tanto lhe rogou que Jesus Cristo acabou também por passar-lhe a mão pelos olhos e curou-o.

-Vai-te agora embora, garçon, e não contes nada a ninguém.



Mas Jesus Cristo bem o viu a contar a grande maravilha aos amigos. Curioso, ficou à espera de ver o português levantar-se e ir ter com ele. O tempo foi passando e nada. Tomou então a iniciativa de dirigir-se à mesa dos três amigos e, pondo a mão sobre o ombro do portuga, começou a reinar com ele:

-Então, ó meu, tu não queres.....



O português levantou-se de um salto e afastou-se do alegado filho de Deus, com maus modos:

-Eh, pá, tira as manápulas de cima, que eu estou de baixa!





Moral da história:



Este era o milagre que o São Bagão Félix certamente gostaria que Jesus Cristo fizesse, na suas curtas férias de Lisboa, já que todos os anos há 800 mil portugueses com baixa, a cargo do Regime Geral da Segurança Social, custando cerca de 100 milhões de contos de subsídio por doença (incluindo a tuberculose)... Depois da promulgação do Código do trabalho, isto seria ouro sobre azul, o verdadeiro grande milagre: o regresso da malandragem toda ao trabalho!...



No caso desta história, bem poderia aplicar-se ao malandro do portuga o provérbio: "Faz bem ao vilão, morder-te-á a mão; castiga o vilão, beijar-te-á a mão".



Fonte: (Ex)citações de cada dia: Fóruns sobre Segurança e Saúde no Trabalho

Estórias com mural ao fundo - X: Jesus Cristo e o malandro do portuga

Estavam um inglês, um francês e um portuga num bar irlandês, junto á zona ribeirinha do Tejo, quando o inglês diz aos outros:

- Ei, man, esse gajo que acabou de entrar é mesmo igualzinho ao Jesus Cristo!
- O quê, meu ? – perguntou o portuga, incrédulo.
- Impossible, ele morreu há dois mil anos ! - arrematou o francês.
- Estou-vos a dizer. A barba, a túnica....

O inglês levanta-se, dirige-se ao recém chegado e pergunta:
- Man, tu és o Jesus Cristo, não é verdade?
-Eu? Que ideia!
-Não tenho dúvidas. Tu és mesmo o Jesus Cristo.
-Já te disse que não... Mas fala mais baixinho, if you please!
- I'm sure, tu és o filho de Deus Pai, Todo Poderoso!

Depois de tanta insistência, o homem acabou por confessar a verdade:
-Sou efectivamente o Jesus Cristo, estou de férias, de passagem por Lisboa... mas não digas a ninguém, senão isto fica aqui um pandemónio.
-Fiz uma lesão no joelho em pequeno. Cura-me, My Lord!
-Milagres, não, meu filho. Tu vais contar aos teus amigos e eu passo a tarde a trabalhar.

O inglês tanto insiste que Jesus Cristo põe-lhe a mão sobre o joelho e cura-o.
-Obrigado, Senhor! Many thanks, many thanks!-, disse emocionado o inglês
-Sim, sim. Mas não grites e vai-te embora. Não contes nada a ninguém.

Claro que o ingês, mal chegou à mesa, desbundou, contou tudo aos amigos. O francês levantou-se logo e dirigiu-se a ele.
- Mon ami anglais m' a dit que tu es le fils du Seigneur... E que operaste um grande milagre. Sou um pobre marinheiro, tenho um olho de vidro... Un accident de travail, à la mer. Cura-me, por favor.
-Não sou nada Jesus Cristo. Fala baixinho.

O francês tanto lhe rogou que Jesus Cristo acabou também por passar-lhe a mão pelos olhos e curou-o.
-Vai-te agora embora, garçon, e não contes nada a ninguém.

Mas Jesus Cristo bem o viu a contar a grande maravilha aos amigos. Curioso, ficou à espera de ver o português levantar-se e ir ter com ele. O tempo foi passando e nada. Tomou então a iniciativa de dirigir-se à mesa dos três amigos e, pondo a mão sobre o ombro do portuga, começou a reinar com ele:
-Então, ó meu, tu não queres.....

O português levantou-se de um salto e afastou-se do alegado filho de Deus, com maus modos:
-Eh, pá, tira as manápulas de cima, que eu estou de baixa!


Moral da história:

Este era o milagre que o São Bagão Félix certamente gostaria que Jesus Cristo fizesse, na suas curtas férias de Lisboa, já que todos os anos há 800 mil portugueses com baixa, a cargo do Regime Geral da Segurança Social, custando cerca de 100 milhões de contos de subsídio por doença (incluindo a tuberculose)... Depois da promulgação do Código do trabalho, isto seria ouro sobre azul, o verdadeiro grande milagre: o regresso da malandragem toda ao trabalho!...

No caso desta história, bem poderia aplicar-se ao malandro do portuga o provérbio: "Faz bem ao vilão, morder-te-á a mão; castiga o vilão, beijar-te-á a mão".

Fonte: (Ex)citações de cada dia: Fóruns sobre Segurança e Saúde no Trabalho

11 outubro 2003

Portugal Sacro-Profano- III: Raça, precisa-se

"Falta raça ao jogador português" (Expresso, 11 de Outubro de 2003)



"O português tem receio de mostrar o que é, é um pouco comedido . (...) O português parece com um pouco de receio de ser feliz" (Scolari, brasileiro, treinador da selecção portuguesa de futebol. Expresso, 11 de Outubro de 2003).



"O que eu gostaria de deixar como herança, (...) é aquilo que eu mais admiro nos meus antepassados, a capacidade de ultrapassarem as adversidades e de criar algo de novo, aceitando os desafios" (Manuel Alfredo de Mello, gestor, português, Expresso, 11 de Outubro de 2003).



"Gosto particularmente de biografias. Prefiro a realidade à ficção" (Luís Simões, empresário, português. Visão, 9 de Outubro de 2003).



"O fado, infelizmente, deixou de ser dançado e gostava de ainda ver no meu tempo o fado restituído à sua plenitude: tocado e cantado, mas também dançado "( Carlos do Carmo, fadista, português. Expresso, 11 de Outubro de 2003).







Portugal Sacro-Profano- III: Raça, precisa-se

"Falta raça ao jogador português" (Expresso, 11 de Outubro de 2003)

"O português tem receio de mostrar o que é, é um pouco comedido . (...) O português parece com um pouco de receio de ser feliz" (Scolari, brasileiro, treinador da selecção portuguesa de futebol. Expresso, 11 de Outubro de 2003).

"O que eu gostaria de deixar como herança, (...) é aquilo que eu mais admiro nos meus antepassados, a capacidade de ultrapassarem as adversidades e de criar algo de novo, aceitando os desafios" (Manuel Alfredo de Mello, gestor, português, Expresso, 11 de Outubro de 2003).

"Gosto particularmente de biografias. Prefiro a realidade à ficção" (Luís Simões, empresário, português. Visão, 9 de Outubro de 2003).

"O fado, infelizmente, deixou de ser dançado e gostava de ainda ver no meu tempo o fado restituído à sua plenitude: tocado e cantado, mas também dançado "( Carlos do Carmo, fadista, português. Expresso, 11 de Outubro de 2003).



Portugal sacro-profano - I: Do Colo do Pito à Catraia do Buraco

Terras de Espanha, areias de Portugal...



1. Estes são alguns nomes de santas terrinhas (e outros lugares menos santos ) que existem em placas toponímicas, por esse Portugal fora. Algumas foram muito provavelmente carbonizadas pelo fogo do inferno (de que Deus nos livre!), o qual, neste verão de má memória, varreu o nosso chão sagrado, de norte a sul e de leste a oeste (...Com tantas blasfémias e tanta gente ímpia, o que é que vocês esperavam ?).



Não faço a mínima ideia de quem foi o conquistador franco, o fundador, o povoador, o bandeirante, o geógrafo, o marinheiro, o corsário, o padre, o santo, o poeta ou o até o eleito (o autarca) que deu o nome à(s) coisa(s)... É certo que o país, a terra, os pais, os irmãos e o nome de baptismo a gente não é livre de escolher... (Mas devia ser, já que se fala tanto, hoje em dia, em direitos de personalidade!).



2. Convenhamos que há sítios mais (im)próprios do que outros para uma pessoa nascer, viver, respirar, amar, trabalhar e morrer....Vocês já imaginaram serem conterrâneos dos habitantes, por exemplo, de Cabrão, Cama Porca, Catraia do Buraco, Colo do Pito, Focinho de Cão, Paitorto, Picha, Punhete, Rego do Azar, Rio Seco dos Marmelos ou Venda da Gaita ? Por mim não vejo mal nenhum nisso, desde que os portugas lá nascidos não se sintam discriminados e sejam felizes... Afinal, são flores (brutas, espontâneas, singelas) destas Terras de Espanha, Areias de Portugal...



Mas um dia destes suspeito que os eurocratas de Bruxelas irão tomar conta de mais este dossiê e normalizar a(s) coisa(s)... Como têm feito com (quase) tudo o resto: a pêra e o pêro, por exemplo, que só podem ir à nossa mesa se forem calibradas pelos aferidores de Bruxelas!.. Por isso é que esses são chamados de... peritos (que são pêros mais pequenos, devidamene calibrados).



Para já, não pode haver nenhum sítio, no espaço único europeu, chamado Mata Porcas, por exemplo, pela simples razão de que matar o porco ou a porca em casa, no quintal, na praia, na rua ou no adro da igreja é um grave atentado à saúde pública e à unidade sócio-cultural do super-Estado de Schengen, para além de um espectáculo bárbaro que pode até agudizar a má-consciência dos carniceiros europeus... E depois vamos lá ver: há nomes que são perigosos, podendo ter (i) conotações pedófilas como Catraia do Buraco; ou (ii) erótico-satíricas, para não dizer mesmo pornográficas, como Senhora do Alívio, susceptíveis de ferir a sensibilidade dos crentes ou provocar a ira dos ateus...



Quanto ao Cu de Judas, garanto-vos que não foi um invenção do (do-nosso-próximo-Prémio-Nobel-da-Literatura-que-já-não-há-de-chegar-a-ser) António Lobo Antunes (e é pena, por que o gajo é um génio!).



Pois bem, o Cu de Judas existe mesmo e fica algures no meio do Atlântico... Provavelmente o sítio terá sido descoberto pelos homens da Nau Catrineta quando, sofrendo de miragens, já viam Terras-de-Espanha-Areias-de-Portugal por um canudo (Coitados naquele tempo não havia escolaridade obrigatória, nem se aprendia geografia pelos livros, nem muito menos havia internet!...).



3. Depois deste paleio todo, aqui vai a lista (necessariamente incompleta, logo aberta...) com os nomes das ditas santas terrinhas e dos outros lugares menos santos, seguidos do respectivo concelho (ou ilha). Este é o Portugal sacro-profano (como diria o saudoso poeta Ruy Belo), que também nos coube em herança.



A lista destina-se àquela camada mais adiposa dos portugas que viajam muito por países exóticos e não têm tempo para conhecer a santa terrinha que Deus lhes deu e o Dom Afonso Henriques e seus façanhudos descendentes conquistaram aos marafados dos berberes...



Se vocês se (a)lembrarem de mais alguns nomes, registem e acrescentem, que não pagam nada. Trata-se de um trabalho colectivo, de muitas e desvairadas (ciber)gentes. Provavelmente esta é a última oportunidade que ainda têm de conhecer o Portugal profundo em vias de extinção.



De futuro, e a acreditar nas projecções demográficas do INE (leia-se: Instituto Nacional de Estatística) ninguém mais nascerá no Chiqueiro, no Cemitério ou na Venda da Porca, mas sim na Maternidade Alfredo da Costa, na Júlio Dinis e sobretudo nos novos Hospitais SA do Portugal do Século XXI).



A

Agua Derramada - Grândola

Aliviada - Marco de Canaveses

Amor - Leiria

Angústias - Paredes de Coura

Às dez - Angra do Heroísmo



B

Bagaceira – Calheta

Bairro do Fim do Mundo - Cascais

Baixa da Banheira - Antigo Lugar da Banheira (Séc. XV), Moita

Bêbeda - Sines

Bexiga - Tomar

Bicha - Gondomar

Bicho - Santo Tirso



C

Cabeçudos - Marvão

Cabrão - Ponte de Lima

Cabrões - Santo Tirso

Cama Porca - Alhandra

Campa do Preto – Maia

Casal da Gaita - Lourinhã

Casal de Água de Todo o Ano - Abrantes

Catraia do Buraco - Belmonte

Cemitério - Paços de Ferreira

Chiqueiro – Lousã

Coina – Barreiro

Coito - (Vários concelhos)

Colo do Pito - Castro Daire

Cova da Moura - Amadaora

Coxo - Vila da Praia da Vitória, Oliveira de Azeméis e Felgueiras

Crucifixo – Tramagal

Cu de Judas – Ilha de São Miguel, Açores



D

Deixa-o-Resto – Santiago do Cacém

Deserto - Alcoutim, Coruche e Estremoz



E

Endiabrada - Aljezur e Odemira

Esgaravatadouro - Monchique



F/G/H



Focinho de Cão - Aljustrel

Garanhão - Ponte da Barca

Hospícios - Azeitão



I/J



Imaginário - Caldas da Rainha

Jerusalém do Romeu - Mirandela



M/N/O



Mal Lavado - Odemira

Máquina - Cabeceiras de Basto

Mata Cães – Torres Vedras

Mata Mouros - Vila do Bispo

Mata Porcas - Lagos e Monchique

Monte dos Tesos - Avis

Namorados - Castro Verde e Mértola

Orelhudo - Coimbra



P



Paimogo - Lourinhã

Paitorto - Mirandela

Paixão - Celorico de Basto e Vieira do Minho

Paraíso - (Vários)

Passado - Vila Verde

Pedaço Mau - Vila Nova de Ourém

Pés Escaldados - Arganil

Picha - Pedrógão Grande

Pirescoxe - Santa Iria da Azóia, Loures (a terra em que viu nascer gente operária e militantes comunistas como o Jerónimo de Sousa)

Pitões das Júnias - Montalegre

Pobreza – Caminha

Poço de Boliqueime – Loulé

Poço dos Mouros - Lisboa

Ponta - Lajes das Flores e Porto Santo

Porca - Ponte de Lima

Porqueiras - Sítio da freguesia de Seixo Amarelo, Guarda

Presa dos Mouros - Lagoa

Pulo do Lobo - Mértola (celebrizado pelo Prof. Cavaco Silva, e tornado o símbolo do Portugal profundo)

Punhete - Valongo

Purgatório - Albufeira



Q

Quartos - Vila Verde e Loulé

Quinta de Comichão - Guarda

Quinta do Himalaia - Barreiro



R

Rabo de Peixe - Ilha de São Miguel, Açores

Rabo de Porco - Penela

Rato - Barcelos e Vila Nova de Famalicão

Ratoeira - Vila Nova de Cerveira

Rata - (11 concelhos, pelo menos: Arruda dos Vinhos, Beja, Castelo de Paiva, Espinho, Maia, Melgaço, Montemor-o-Novo, Murça, Santarém, Santiago do Cacém e Tondela)

Rego do Azar - Ponte de Lima

Rio Seco dos Marmelos - Ferreira do Alentejo



S



Senhora do Alívio - Baião

Sítio das Solteiras - Tavira



T´



Terra da Gaja – Lousã

Tomates - Albufeira

Traseiros - Oliveira de Azeméis



V



Vacalouras - Castanheira de Pêra

Vaginha - Vagos

Vale da Rata – Almodôvar

Venda da Gaita - Tomar

Venda da Porca - Estremoz

Venda das Pulgas - Mafra

Venda das Raparigas - Alcobaça

Vale de Mortos - Beja

Venda dos Pretos - Leiria

Vergas - Vagos

Vila Nova do Coito - Santarém

Vilar de Vacas - Antigo nome de Ruivães, concelho de Vieira do Minho

Vinha da Desgraça - Coruche

Violência - Paredes de Coura

Portugal sacro-profano - I: Do Colo do Pito à Catraia do Buraco

Terras de Espanha, areias de Portugal...

1. Estes são alguns nomes de santas terrinhas (e outros lugares menos santos ) que existem em placas toponímicas, por esse Portugal fora. Algumas foram muito provavelmente carbonizadas pelo fogo do inferno (de que Deus nos livre!), o qual, neste verão de má memória, varreu o nosso chão sagrado, de norte a sul e de leste a oeste (...Com tantas blasfémias e tanta gente ímpia, o que é que vocês esperavam ?).

Não faço a mínima ideia de quem foi o conquistador franco, o fundador, o povoador, o bandeirante, o geógrafo, o marinheiro, o corsário, o padre, o santo, o poeta ou o até o eleito (o autarca) que deu o nome à(s) coisa(s)... É certo que o país, a terra, os pais, os irmãos e o nome de baptismo a gente não é livre de escolher... (Mas devia ser, já que se fala tanto, hoje em dia, em direitos de personalidade!).

2. Convenhamos que há sítios mais (im)próprios do que outros para uma pessoa nascer, viver, respirar, amar, trabalhar e morrer....Vocês já imaginaram serem conterrâneos dos habitantes, por exemplo, de Cabrão, Cama Porca, Catraia do Buraco, Colo do Pito, Focinho de Cão, Paitorto, Picha, Punhete, Rego do Azar, Rio Seco dos Marmelos ou Venda da Gaita ? Por mim não vejo mal nenhum nisso, desde que os portugas lá nascidos não se sintam discriminados e sejam felizes... Afinal, são flores (brutas, espontâneas, singelas) destas Terras de Espanha, Areias de Portugal...

Mas um dia destes suspeito que os eurocratas de Bruxelas irão tomar conta de mais este dossiê e normalizar a(s) coisa(s)... Como têm feito com (quase) tudo o resto: a pêra e o pêro, por exemplo, que só podem ir à nossa mesa se forem calibradas pelos aferidores de Bruxelas!.. Por isso é que esses são chamados de... peritos (que são pêros mais pequenos, devidamene calibrados).

Para já, não pode haver nenhum sítio, no espaço único europeu, chamado Mata Porcas, por exemplo, pela simples razão de que matar o porco ou a porca em casa, no quintal, na praia, na rua ou no adro da igreja é um grave atentado à saúde pública e à unidade sócio-cultural do super-Estado de Schengen, para além de um espectáculo bárbaro que pode até agudizar a má-consciência dos carniceiros europeus... E depois vamos lá ver: há nomes que são perigosos, podendo ter (i) conotações pedófilas como Catraia do Buraco; ou (ii) erótico-satíricas, para não dizer mesmo pornográficas, como Senhora do Alívio, susceptíveis de ferir a sensibilidade dos crentes ou provocar a ira dos ateus...

Quanto ao Cu de Judas, garanto-vos que não foi um invenção do (do-nosso-próximo-Prémio-Nobel-da-Literatura-que-já-não-há-de-chegar-a-ser) António Lobo Antunes (e é pena, por que o gajo é um génio!).

Pois bem, o Cu de Judas existe mesmo e fica algures no meio do Atlântico... Provavelmente o sítio terá sido descoberto pelos homens da Nau Catrineta quando, sofrendo de miragens, já viam Terras-de-Espanha-Areias-de-Portugal por um canudo (Coitados naquele tempo não havia escolaridade obrigatória, nem se aprendia geografia pelos livros, nem muito menos havia internet!...).

3. Depois deste paleio todo, aqui vai a lista (necessariamente incompleta, logo aberta...) com os nomes das ditas santas terrinhas e dos outros lugares menos santos, seguidos do respectivo concelho (ou ilha). Este é o Portugal sacro-profano (como diria o saudoso poeta Ruy Belo), que também nos coube em herança.

A lista destina-se àquela camada mais adiposa dos portugas que viajam muito por países exóticos e não têm tempo para conhecer a santa terrinha que Deus lhes deu e o Dom Afonso Henriques e seus façanhudos descendentes conquistaram aos marafados dos berberes...

Se vocês se (a)lembrarem de mais alguns nomes, registem e acrescentem, que não pagam nada. Trata-se de um trabalho colectivo, de muitas e desvairadas (ciber)gentes. Provavelmente esta é a última oportunidade que ainda têm de conhecer o Portugal profundo em vias de extinção.

De futuro, e a acreditar nas projecções demográficas do INE (leia-se: Instituto Nacional de Estatística) ninguém mais nascerá no Chiqueiro, no Cemitério ou na Venda da Porca, mas sim na Maternidade Alfredo da Costa, na Júlio Dinis e sobretudo nos novos Hospitais SA do Portugal do Século XXI).

A
Agua Derramada - Grândola
Aliviada - Marco de Canaveses
Amor - Leiria
Angústias - Paredes de Coura
Às dez - Angra do Heroísmo

B
Bagaceira – Calheta
Bairro do Fim do Mundo - Cascais
Baixa da Banheira - Antigo Lugar da Banheira (Séc. XV), Moita
Bêbeda - Sines
Bexiga - Tomar
Bicha - Gondomar
Bicho - Santo Tirso

C
Cabeçudos - Marvão
Cabrão - Ponte de Lima
Cabrões - Santo Tirso
Cama Porca - Alhandra
Campa do Preto – Maia
Casal da Gaita - Lourinhã
Casal de Água de Todo o Ano - Abrantes
Catraia do Buraco - Belmonte
Cemitério - Paços de Ferreira
Chiqueiro – Lousã
Coina – Barreiro
Coito - (Vários concelhos)
Colo do Pito - Castro Daire
Cova da Moura - Amadaora
Coxo - Vila da Praia da Vitória, Oliveira de Azeméis e Felgueiras
Crucifixo – Tramagal
Cu de Judas – Ilha de São Miguel, Açores

D
Deixa-o-Resto – Santiago do Cacém
Deserto - Alcoutim, Coruche e Estremoz

E
Endiabrada - Aljezur e Odemira
Esgaravatadouro - Monchique

F/G/H

Focinho de Cão - Aljustrel
Garanhão - Ponte da Barca
Hospícios - Azeitão

I/J

Imaginário - Caldas da Rainha
Jerusalém do Romeu - Mirandela

M/N/O

Mal Lavado - Odemira
Máquina - Cabeceiras de Basto
Mata Cães – Torres Vedras
Mata Mouros - Vila do Bispo
Mata Porcas - Lagos e Monchique
Monte dos Tesos - Avis
Namorados - Castro Verde e Mértola
Orelhudo - Coimbra

P

Paimogo - Lourinhã
Paitorto - Mirandela
Paixão - Celorico de Basto e Vieira do Minho
Paraíso - (Vários)
Passado - Vila Verde
Pedaço Mau - Vila Nova de Ourém
Pés Escaldados - Arganil
Picha - Pedrógão Grande
Pirescoxe - Santa Iria da Azóia, Loures (a terra em que viu nascer gente operária e militantes comunistas como o Jerónimo de Sousa)
Pitões das Júnias - Montalegre
Pobreza – Caminha
Poço de Boliqueime – Loulé
Poço dos Mouros - Lisboa
Ponta - Lajes das Flores e Porto Santo
Porca - Ponte de Lima
Porqueiras - Sítio da freguesia de Seixo Amarelo, Guarda
Presa dos Mouros - Lagoa
Pulo do Lobo - Mértola (celebrizado pelo Prof. Cavaco Silva, e tornado o símbolo do Portugal profundo)
Punhete - Valongo
Purgatório - Albufeira

Q
Quartos - Vila Verde e Loulé
Quinta de Comichão - Guarda
Quinta do Himalaia - Barreiro

R
Rabo de Peixe - Ilha de São Miguel, Açores
Rabo de Porco - Penela
Rato - Barcelos e Vila Nova de Famalicão
Ratoeira - Vila Nova de Cerveira
Rata - (11 concelhos, pelo menos: Arruda dos Vinhos, Beja, Castelo de Paiva, Espinho, Maia, Melgaço, Montemor-o-Novo, Murça, Santarém, Santiago do Cacém e Tondela)
Rego do Azar - Ponte de Lima
Rio Seco dos Marmelos - Ferreira do Alentejo

S

Senhora do Alívio - Baião
Sítio das Solteiras - Tavira

T´

Terra da Gaja – Lousã
Tomates - Albufeira
Traseiros - Oliveira de Azeméis

V

Vacalouras - Castanheira de Pêra
Vaginha - Vagos
Vale da Rata – Almodôvar
Venda da Gaita - Tomar
Venda da Porca - Estremoz
Venda das Pulgas - Mafra
Venda das Raparigas - Alcobaça
Vale de Mortos - Beja
Venda dos Pretos - Leiria
Vergas - Vagos
Vila Nova do Coito - Santarém
Vilar de Vacas - Antigo nome de Ruivães, concelho de Vieira do Minho
Vinha da Desgraça - Coruche
Violência - Paredes de Coura