18 novembro 2003

(Ex)citações de cada dia - VIII: A principal motivação para um homem ou uma mulher deixar de fumar

"(...) Pais Clemente [otorrinolaringologista do Hospital de São João, no Porto, e presidente do Conselho de Prevenção do Tabagismo ] defende que a luta contra o tabaco se deve basear numa 'cultura de informação', mais do que em campanhas 'radicais e fundamentalistas' contra os fumadores, que poderiam surtir 'um efeito contrário'.



"O otorrrinolaringologista sabe do que fala: está comprovado que as mulheres se assustam mais com a mensagem de que fumar provoca rugas e que os homens só se alarmam a sério com o alerta de que o tabaco causa impotência. 'Ninguém está preocupado com o cancro ou com as doenças cardiovasculares', lamenta" (Bold do blogador).



In: Campos, Alexandra (2003) - Consultas nos Hospitais para Parar de Fumar Têm Listas de Espera. Público. 17 de Novembro de 2003.

(Ex)citações de cada dia - VIII: A principal motivação para um homem ou uma mulher deixar de fumar

"(...) Pais Clemente [otorrinolaringologista do Hospital de São João, no Porto, e presidente do Conselho de Prevenção do Tabagismo ] defende que a luta contra o tabaco se deve basear numa 'cultura de informação', mais do que em campanhas 'radicais e fundamentalistas' contra os fumadores, que poderiam surtir 'um efeito contrário'.

"O otorrrinolaringologista sabe do que fala: está comprovado que as mulheres se assustam mais com a mensagem de que fumar provoca rugas e que os homens só se alarmam a sério com o alerta de que o tabaco causa impotência. 'Ninguém está preocupado com o cancro ou com as doenças cardiovasculares', lamenta" (Bold do blogador).

In: Campos, Alexandra (2003) - Consultas nos Hospitais para Parar de Fumar Têm Listas de Espera. Público. 17 de Novembro de 2003.

17 novembro 2003

Blognecos - IV: (Não) fumo, logo existo

mais um dia, anual, global, mundial, nacional, regional, local, do não fumador. só não o foi na minha freguesia. nem no tasco que eu frequento. nem na fábrica onde trabalho. nem no meu bairro (social) onde não há trabalho decente para a gente. nem na minha casa em que o tabaco é o xanax dda muçlher e das filhas.



dizem-me que se aperta o cerco aos fumadores. que pelas estatísticas são os que ainda não trabalham mais os que já trabalham e que estão na casa dos trinta e mais os que já deixaram de trabalhar. (os que ficaram pelo caminho ou na ponta final da linha de montagem).



ouvi o telejornalista de serviço (fez-me lembrar o porta-voz do tribunal do santo ofício que condenou à fogueira o tetravô do meu tetravô, cristão-novo). o inquisidor-mor malha nas mulheres portugas que estão a estragar as estatísticas sanitárias. diz o papagaio: os portugas ainda podem orgulhar-se, ao menos, valha-nos deus!, de serem os menos fumadores da eurolândia. repete o papagaio: não fumar está na moda. é fixe. os portugas que não fumam ou deixaram de fumar estão na moda. são fixes. eu, fumador, de maço e meio, pecador me confesso: não quero estar na moda. não quero ser fixe.



cerco, é isso. os tempos são bons para apertar o cerco. aos fumantes. aos novos párias sociais. aos novos inimigos da ordem pública. o pretexto pode ser a nova peste branca. os direitos dos não fumadores. o fumo passivo. a nova ética do trabalho. a produtividade do trabalho e a competitividade das empresas. a identidade da nação. os superiores desígnios do estado. a poluição tabágica que, além dos pulmões dos colarinhos azuis e do resto do corpinho da gente, dá cabo da pintura dos tectos e das paredes, do sistema de ar condicionado, dos equipamentos, dos circuitos dos computadores, das mother boards, dos chips, das placas gráficas, dos neurónios dos colarinhos brancos e dourados, dos estofos do carro do patrão. o tabaco que mata meio milhão de eurolandeses por ano. morrem que nem tordos, diz o sanitário de serviço. doze mil, falando só de portugas. e o mulherio a dar cabo da estatística, diz o telepapagaio.



não vi, todavia, as empresas portuguesas seguirem o exemplo das suas congéneres multinacionais que operam cá no burgo como a ibm ou a siemens. não vi os senhores gestores engravatados lá da minha tasca virem à televisão dizer com orgulho: somos mais uma smoke free company. eles não têm lata para o fazer. porque antes disso teriam que dar o exemplo. e mostrar que também dão exemplos de boas práticas noutras matérias como a proteção ambiental, a proteção da saúde e segurança dos trabalhadores, a consulta e a participação do zé portuga, a garantia do trabalho decente, o sentido de responsabilidade social da empresa.



a propósito: alguém sabe explicar-me o que é isso de trabalho decente, vida decente, salário decente, condições de trabalho decentes, cuidados de saúde de decentes, ambiente decente, educação decente, habitação decente ?



hoje é dia mundial do não fumador. uma vez por ano todos os anos. só não o foi na minha freguesia. nem no tasco que eu frequento. nem na fábrica onde trabalho. nem no meu bairro (social) onde não há trabalho decente para a gente nem dinheiro para o tabaco que engana a fome, e a apagada e vil tristeza do nosso quotidiano, a falta de dinheiro para oferecer uma rosa à patroa que agora vai fazer 45 anos.



hoje foi um dia trivial. como os outros. hoje o estado arrecadou mais de 600 mil euros de imposto sobre o vício de fumar. 33 portugas morreram de doenças relacionadas com o tabagismo. não vi nem ouvi o ministro da saúde preocupar-se com os que trabucam e fumam. com os pobres que fumam e que vão morrer. tal como os outros que não fumam, nunca fumaram ou deixaram de fumar. "um dia todos vamos morrer". conheço essa teoria, a da dissonância cognitiva, diz-me o médico do trabalho lá da fábrica e que até é um gajo porreiro porque fuma e sabe que faz à saúde. a gente precisa sempre de um bom alibi para adiar a morte, meu caro zé portuga. a doença. a dor. a subida ao céu. a descida aos infernos. o trânsito no purgatório. amen. padre nosso. avé-maria.



minto: o senhor da ministro da saúde também o é da saúde pública. da saúde da gente. acaba de anunciar a sua (dele e do governo) intenção de aumentar o número de consultas hospitalares de desabituação tabágica (publico, 17.11.2003). eu aplaudo. mas quantas (consultas) não disse. nem onde nem com que meios. há montes de portugas a pedir ajuda. não há técnicos para as encomendas. e os que há são voluntários. psicólogos à procura de espaço de trabalho no mundo das batas brancas. há listas de espera de dois anos (!) para este tipo de consulta (por exemplo, no hospital egas moniz). a propósito: diz-se desabituação ou cessação tabágica ? cessação, dizem os puristas. que fumar é uma doença.



o que é que um gajo como eu, fumador compulsivo, de maço e meio que a guita não dá para mais, faz em dois anos ? dá em doido ? morre de cancro ? em dois anos um portuga fumante como eu acendeu pelo menos 21900 vezes o isqueiro. fumou pelo menos 21900 cigarros (fora o cravanço). ficou exposto a 4 mil produtos químicos x 22 mil cigarros. ou serão 5 mil ? mais mil menos mil , tanto faz. por conseguinte, um gajo está arrumado ao fim de dois anos na lista de espera e a continuar a fumar. eu queria deixar de fumar. talvez alguém me possa ajudar. lá em casa todos fumam. e as mulheres (a patroa e as duas filhas) mais do que os homens (só eu, que o puto ainda é pequenitates).



eu fico, por isso, sensibilizado com a sensibilidade do senhor ministro que se preocupa com a gente. os que fumam e trabalham como eu, classe operária, malandra, tunante e fumante como eu, embora em vias de extinção enquanto classe mal comportada. e se calhar também com os que não fumam mas apanham com o fumo dos que fumam.



no dia mundial do não fumador, eu escrevo neste blogue-fora-nada: fumo, logo existo. imaginem se não fumasse: estava tramado. ninguém se preocupava comigo. neste dia tenho a certeza que alguém se preocupou comigo. médicos, enfermeiros, psicólogos, padres, polícias, jornalistas, amigos, cangalheirpos, coveiros. hohe houve gente que se preocupou comigo. e isso tocou-me, deixou-me sensibilizado. talvez eu ainda vá a tempo de me inscrever numa consulta de desabituação (perdão, cessação) antitabágica em 2005. mesmo com meio pulmão a sorrir à vida.







Fonte: No Tobacco (Animated) © Steve Curry (17.11.2003)





Care2.com. The # 1 Environmental Network for a Healthy Living and a Healthy Planet



Blognecos - IV: (Não) fumo, logo existo

mais um dia, anual, global, mundial, nacional, regional, local, do não fumador. só não o foi na minha freguesia. nem no tasco que eu frequento. nem na fábrica onde trabalho. nem no meu bairro (social) onde não há trabalho decente para a gente. nem na minha casa em que o tabaco é o xanax dda muçlher e das filhas.

dizem-me que se aperta o cerco aos fumadores. que pelas estatísticas são os que ainda não trabalham mais os que já trabalham e que estão na casa dos trinta e mais os que já deixaram de trabalhar. (os que ficaram pelo caminho ou na ponta final da linha de montagem).

ouvi o telejornalista de serviço (fez-me lembrar o porta-voz do tribunal do santo ofício que condenou à fogueira o tetravô do meu tetravô, cristão-novo). o inquisidor-mor malha nas mulheres portugas que estão a estragar as estatísticas sanitárias. diz o papagaio: os portugas ainda podem orgulhar-se, ao menos, valha-nos deus!, de serem os menos fumadores da eurolândia. repete o papagaio: não fumar está na moda. é fixe. os portugas que não fumam ou deixaram de fumar estão na moda. são fixes. eu, fumador, de maço e meio, pecador me confesso: não quero estar na moda. não quero ser fixe.

cerco, é isso. os tempos são bons para apertar o cerco. aos fumantes. aos novos párias sociais. aos novos inimigos da ordem pública. o pretexto pode ser a nova peste branca. os direitos dos não fumadores. o fumo passivo. a nova ética do trabalho. a produtividade do trabalho e a competitividade das empresas. a identidade da nação. os superiores desígnios do estado. a poluição tabágica que, além dos pulmões dos colarinhos azuis e do resto do corpinho da gente, dá cabo da pintura dos tectos e das paredes, do sistema de ar condicionado, dos equipamentos, dos circuitos dos computadores, das mother boards, dos chips, das placas gráficas, dos neurónios dos colarinhos brancos e dourados, dos estofos do carro do patrão. o tabaco que mata meio milhão de eurolandeses por ano. morrem que nem tordos, diz o sanitário de serviço. doze mil, falando só de portugas. e o mulherio a dar cabo da estatística, diz o telepapagaio.

não vi, todavia, as empresas portuguesas seguirem o exemplo das suas congéneres multinacionais que operam cá no burgo como a ibm ou a siemens. não vi os senhores gestores engravatados lá da minha tasca virem à televisão dizer com orgulho: somos mais uma smoke free company. eles não têm lata para o fazer. porque antes disso teriam que dar o exemplo. e mostrar que também dão exemplos de boas práticas noutras matérias como a proteção ambiental, a proteção da saúde e segurança dos trabalhadores, a consulta e a participação do zé portuga, a garantia do trabalho decente, o sentido de responsabilidade social da empresa.

a propósito: alguém sabe explicar-me o que é isso de trabalho decente, vida decente, salário decente, condições de trabalho decentes, cuidados de saúde de decentes, ambiente decente, educação decente, habitação decente ?

hoje é dia mundial do não fumador. uma vez por ano todos os anos. só não o foi na minha freguesia. nem no tasco que eu frequento. nem na fábrica onde trabalho. nem no meu bairro (social) onde não há trabalho decente para a gente nem dinheiro para o tabaco que engana a fome, e a apagada e vil tristeza do nosso quotidiano, a falta de dinheiro para oferecer uma rosa à patroa que agora vai fazer 45 anos.

hoje foi um dia trivial. como os outros. hoje o estado arrecadou mais de 600 mil euros de imposto sobre o vício de fumar. 33 portugas morreram de doenças relacionadas com o tabagismo. não vi nem ouvi o ministro da saúde preocupar-se com os que trabucam e fumam. com os pobres que fumam e que vão morrer. tal como os outros que não fumam, nunca fumaram ou deixaram de fumar. "um dia todos vamos morrer". conheço essa teoria, a da dissonância cognitiva, diz-me o médico do trabalho lá da fábrica e que até é um gajo porreiro porque fuma e sabe que faz à saúde. a gente precisa sempre de um bom alibi para adiar a morte, meu caro zé portuga. a doença. a dor. a subida ao céu. a descida aos infernos. o trânsito no purgatório. amen. padre nosso. avé-maria.

minto: o senhor da ministro da saúde também o é da saúde pública. da saúde da gente. acaba de anunciar a sua (dele e do governo) intenção de aumentar o número de consultas hospitalares de desabituação tabágica (publico, 17.11.2003). eu aplaudo. mas quantas (consultas) não disse. nem onde nem com que meios. há montes de portugas a pedir ajuda. não há técnicos para as encomendas. e os que há são voluntários. psicólogos à procura de espaço de trabalho no mundo das batas brancas. há listas de espera de dois anos (!) para este tipo de consulta (por exemplo, no hospital egas moniz). a propósito: diz-se desabituação ou cessação tabágica ? cessação, dizem os puristas. que fumar é uma doença.

o que é que um gajo como eu, fumador compulsivo, de maço e meio que a guita não dá para mais, faz em dois anos ? dá em doido ? morre de cancro ? em dois anos um portuga fumante como eu acendeu pelo menos 21900 vezes o isqueiro. fumou pelo menos 21900 cigarros (fora o cravanço). ficou exposto a 4 mil produtos químicos x 22 mil cigarros. ou serão 5 mil ? mais mil menos mil , tanto faz. por conseguinte, um gajo está arrumado ao fim de dois anos na lista de espera e a continuar a fumar. eu queria deixar de fumar. talvez alguém me possa ajudar. lá em casa todos fumam. e as mulheres (a patroa e as duas filhas) mais do que os homens (só eu, que o puto ainda é pequenitates).

eu fico, por isso, sensibilizado com a sensibilidade do senhor ministro que se preocupa com a gente. os que fumam e trabalham como eu, classe operária, malandra, tunante e fumante como eu, embora em vias de extinção enquanto classe mal comportada. e se calhar também com os que não fumam mas apanham com o fumo dos que fumam.

no dia mundial do não fumador, eu escrevo neste blogue-fora-nada: fumo, logo existo. imaginem se não fumasse: estava tramado. ninguém se preocupava comigo. neste dia tenho a certeza que alguém se preocupou comigo. médicos, enfermeiros, psicólogos, padres, polícias, jornalistas, amigos, cangalheirpos, coveiros. hohe houve gente que se preocupou comigo. e isso tocou-me, deixou-me sensibilizado. talvez eu ainda vá a tempo de me inscrever numa consulta de desabituação (perdão, cessação) antitabágica em 2005. mesmo com meio pulmão a sorrir à vida.



Fonte: No Tobacco (Animated) © Steve Curry (17.11.2003)



Care2.com. The # 1 Environmental Network for a Healthy Living and a Healthy Planet


Blognecos - III: Mutilação Genital Feminina (MGF)



Fonte: GTZ Kenya (2003)





Fonte: GTZ Kenya (17.11.2003)



Um dos melhores sítios sobre este tópico (inclui lista dos principais links):

The Female Genital Cutting Education and Networking Project (USA)



A MGF e a saúde (Página da OMS):

WHO > Health topics > Female genital mutilation





A MGF no Directório do Google:

Health > Women's Health > Genital Mutilation





Um dossiê em português:

Publico.pt > Dossiers > Mutilação Genital

Blognecos - III: Mutilação Genital Feminina (MGF)


Fonte: GTZ Kenya (2003)



Fonte: GTZ Kenya (17.11.2003)

Um dos melhores sítios sobre este tópico (inclui lista dos principais links):
The Female Genital Cutting Education and Networking Project (USA)

A MGF e a saúde (Página da OMS):
WHO > Health topics > Female genital mutilation


A MGF no Directório do Google:
Health > Women's Health > Genital Mutilation


Um dossiê em português:
Publico.pt > Dossiers > Mutilação Genital

16 novembro 2003

Portugas que merecem as nossas palmas - III: A jornalista Sofia Branco e a sua luta contra a Mutilação Genital Feminina

A não perder: Sofia Branco assina hoje, na Pública (Jornal Público, 16.11.2003) mais uma notável reportagem sobre a Mutilação Genital Feminina (abreviadamente, MGF) e a procura, na Guiné-Bissau, de alternativas antropossociológicas aos aspectos mais desumanos (leia-se: violadores dos direitos humanos) da festa do fanado. Em particular, é dado destaque à inteligente luta de organizações não-governamentais como a Réné-Renté ou a Sinin Mira Nassiquê pelo “fanado alternativo”, conquistando o apoio das temíveis fanatecas. Título da reportagem: “Fanados em excisão: ritual corta a dor das meninas da Guiné” (pp. 32-42).



Sofia Branco, jornalista do Publico.pt, recebeu em 24 de Outubro último, o Prémio Natali da Federação Internacional de Jornalistas e da Comissão Europeia, pela reportagem "Mutilação Genital Feminina - o holocausto silencioso das mulheres a quem continuam a extrair o clítoris", publicado no Público, de 4 de Agosto de 2002, e disponível no dossiê do Publico.pt sobre a MGF



Este prémio foi instituído em 1992 pela Comissão Europeia para "promover o jornalismo de qualidade", nomedamente na área dos direitos humanos e do desenvolvimento.



Segundo o Público de 24.10.2003, Sofia Branco considerou a atribuição do prémio "uma grande honra" e afirmou que o galardão "reflecte como o jornalismo pode contribuir para a promoção dos direitos humanos". Sobre o trabalho premiado, a jornalista explicou como tentou "compreender o acto odioso" da MGF para, através da sua compreensão, "mudar o mundo para melhor".



Sobre a MGF e a suspeita de que ela continua a praticar-se na comunidade guineense residente em Portugal, entre as famílias de origem étnica fula, mandinga e outras, islamizadas, da Guiné-Bissau, a repórter estimou que o fenómeno "é uma questão de integração dos imigrantes na Europa" e que o continente deve agir contra "aspectos culturais que são contra os direitos humanos mais elementares".



Sofia Branco dedicou o prémio "a todas e cada uma dos dois milhões de mulheres que são mutiladas todos os anos, em quase 30 países do meu mundo, do nosso mundo" (!).



Este trabalho já fora distinguido com (i) o Prémio Mulher Reportagem Maria Lamas 2002; e com (ii) o Grande Prémio Imigração e Minorias Étnicas: Jornalismo Pela tTolerância do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME); além de ter obtido (iii) uma menção honrosa no Prémio AMI - Jornalismo Contra a Indiferença.



Por tudo isto a Sofia é uma portuga credora das nossas palmas.



Portugas que merecem as nossas palmas - III: A jornalista Sofia Branco e a sua luta contra a Mutilação Genital Feminina

A não perder: Sofia Branco assina hoje, na Pública (Jornal Público, 16.11.2003) mais uma notável reportagem sobre a Mutilação Genital Feminina (abreviadamente, MGF) e a procura, na Guiné-Bissau, de alternativas antropossociológicas aos aspectos mais desumanos (leia-se: violadores dos direitos humanos) da festa do fanado. Em particular, é dado destaque à inteligente luta de organizações não-governamentais como a Réné-Renté ou a Sinin Mira Nassiquê pelo “fanado alternativo”, conquistando o apoio das temíveis fanatecas. Título da reportagem: “Fanados em excisão: ritual corta a dor das meninas da Guiné” (pp. 32-42).

Sofia Branco, jornalista do Publico.pt, recebeu em 24 de Outubro último, o Prémio Natali da Federação Internacional de Jornalistas e da Comissão Europeia, pela reportagem "Mutilação Genital Feminina - o holocausto silencioso das mulheres a quem continuam a extrair o clítoris", publicado no Público, de 4 de Agosto de 2002, e disponível no dossiê do Publico.pt sobre a MGF

Este prémio foi instituído em 1992 pela Comissão Europeia para "promover o jornalismo de qualidade", nomedamente na área dos direitos humanos e do desenvolvimento.

Segundo o Público de 24.10.2003, Sofia Branco considerou a atribuição do prémio "uma grande honra" e afirmou que o galardão "reflecte como o jornalismo pode contribuir para a promoção dos direitos humanos". Sobre o trabalho premiado, a jornalista explicou como tentou "compreender o acto odioso" da MGF para, através da sua compreensão, "mudar o mundo para melhor".

Sobre a MGF e a suspeita de que ela continua a praticar-se na comunidade guineense residente em Portugal, entre as famílias de origem étnica fula, mandinga e outras, islamizadas, da Guiné-Bissau, a repórter estimou que o fenómeno "é uma questão de integração dos imigrantes na Europa" e que o continente deve agir contra "aspectos culturais que são contra os direitos humanos mais elementares".

Sofia Branco dedicou o prémio "a todas e cada uma dos dois milhões de mulheres que são mutiladas todos os anos, em quase 30 países do meu mundo, do nosso mundo" (!).

Este trabalho já fora distinguido com (i) o Prémio Mulher Reportagem Maria Lamas 2002; e com (ii) o Grande Prémio Imigração e Minorias Étnicas: Jornalismo Pela tTolerância do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME); além de ter obtido (iii) uma menção honrosa no Prémio AMI - Jornalismo Contra a Indiferença.

Por tudo isto a Sofia é uma portuga credora das nossas palmas.

15 novembro 2003

Estórias com mural ao fundo - XVII: Quando os Chefes são mais (imbecis) que os Í­ndios

Como era habitual todos os anos, com a aproximação da estação do inverno, os pobres índios da reserva foram consultar o Chefe Cara de Pau:

- Ó Chefe, como vai ser este inverno ? Quais são as ordens ?



O Chefe Cara de Pau que tinha estudado numa escola de brancos já não sabia nada da arte ancestral de adivinhação do tempo. Mas, claro, como chefe não podia mostrar parte de fraco. Fixou os olhos no céu, entoou uma estranha canção irlandesa que tinha aprendido na igreja e estendeu um braço para recolher a resposta. Esta veio rápida e brusca como um trovão, sob a forma de uma voz de ventríloquo:

- Meu povo, vamos ter um inverno muito duro, muito duro... É bom começar a colher lenha! Muita lenha!



Surpreendido pelo resultado mas ainda pouco convicto dos seus novos dotes de adivinho, o Cara de Pau consultou no dia seguinte, pelo telefone, o Serviço Nacional de Meteorologia (SNM). As previsões dos brancos confirmavam as suas:

- Sim, o inverno deste ano vai ser muito frio!



Sentindo-se mais confortável no seu novo papel de meteorologista da reserva, o Chefe reuniu de novo os índios e insistiu:

- Inverno, muito frio, muito frio! Guerreiros, velhos, mulheres, crianças, tudo o mundo, toca a recolher lenha! Muita lenha!



Dois dias depois, ligou novamente para o SNM e ouviu a segunda confirmação:

- Sim, sim, muito frio, muito frio! Como há muito anos não acontecia.



Nova reunião com o povo, e novo aviso:

- Inverno, muito frio, muito frio! O pior do século. Recolham toda a lenha que puderem.



Uma semana depois voltou a ligar ao SNM, para uma última confirmação:

- Vocês podem confirmar a previsão sobre o próximo inverno ?

- O SNM confirma que o próximo inverno vai ser de frio intenso...

- Como podem ter tanta certeza disso ?

- É que esta ano, na reserva dos índios, houve uma inusitada corrida à lenha. Como há muito não se via!... E como diz o provérbio índio, "não há fumo sem fogo"!...



Moral da história:

Quando os chefes são mais (imbecis) do que os índios, coitados dos índios!

Estórias com mural ao fundo - XVII: Quando os Chefes são mais (imbecis) que os Í­ndios

Como era habitual todos os anos, com a aproximação da estação do inverno, os pobres índios da reserva foram consultar o Chefe Cara de Pau:
- Ó Chefe, como vai ser este inverno ? Quais são as ordens ?

O Chefe Cara de Pau que tinha estudado numa escola de brancos já não sabia nada da arte ancestral de adivinhação do tempo. Mas, claro, como chefe não podia mostrar parte de fraco. Fixou os olhos no céu, entoou uma estranha canção irlandesa que tinha aprendido na igreja e estendeu um braço para recolher a resposta. Esta veio rápida e brusca como um trovão, sob a forma de uma voz de ventríloquo:
- Meu povo, vamos ter um inverno muito duro, muito duro... É bom começar a colher lenha! Muita lenha!

Surpreendido pelo resultado mas ainda pouco convicto dos seus novos dotes de adivinho, o Cara de Pau consultou no dia seguinte, pelo telefone, o Serviço Nacional de Meteorologia (SNM). As previsões dos brancos confirmavam as suas:
- Sim, o inverno deste ano vai ser muito frio!

Sentindo-se mais confortável no seu novo papel de meteorologista da reserva, o Chefe reuniu de novo os índios e insistiu:
- Inverno, muito frio, muito frio! Guerreiros, velhos, mulheres, crianças, tudo o mundo, toca a recolher lenha! Muita lenha!

Dois dias depois, ligou novamente para o SNM e ouviu a segunda confirmação:
- Sim, sim, muito frio, muito frio! Como há muito anos não acontecia.

Nova reunião com o povo, e novo aviso:
- Inverno, muito frio, muito frio! O pior do século. Recolham toda a lenha que puderem.

Uma semana depois voltou a ligar ao SNM, para uma última confirmação:
- Vocês podem confirmar a previsão sobre o próximo inverno ?
- O SNM confirma que o próximo inverno vai ser de frio intenso...
- Como podem ter tanta certeza disso ?
- É que esta ano, na reserva dos índios, houve uma inusitada corrida à lenha. Como há muito não se via!... E como diz o provérbio índio, "não há fumo sem fogo"!...

Moral da história:
Quando os chefes são mais (imbecis) do que os índios, coitados dos índios!

(Ex)citações de cada dia - VII: Os bons gestores que (não) temos

António Mexia, Presidente da Comissão Executiva da Galp Energia (In: À conversa com... António Mexia. Expresso, 15.11.2003):



"Não há muitos bons gestores em Portugal. A raiz do problema da produtividade tem a ver com a capacidade reduzida dos gestores, além da burocracia e rigidez do sistema. Quando o líder não tem nem ambição nem capacidade de entrega, o efeito é destrutivo, porque acaba com o esforço de toda a gente" ).



Jorge Nascimento Rodrigues (In: Retrato da (in)satisfação do empregado luso.Expresso, 15.11.2003):



"(...) O fosso entre as 'buzzwords' da moda - capital intelelectual, gestão de talentos, poder aos empregados ('empowerment'), trabalho em equipa, alinhamento organizacional - no discurso dos consultores e dos gestores e a realidade portuguesa é gritante" ).

(Ex)citações de cada dia - VII: Os bons gestores que (não) temos

António Mexia, Presidente da Comissão Executiva da Galp Energia (In: À conversa com... António Mexia. Expresso, 15.11.2003):

"Não há muitos bons gestores em Portugal. A raiz do problema da produtividade tem a ver com a capacidade reduzida dos gestores, além da burocracia e rigidez do sistema. Quando o líder não tem nem ambição nem capacidade de entrega, o efeito é destrutivo, porque acaba com o esforço de toda a gente" ).

Jorge Nascimento Rodrigues (In: Retrato da (in)satisfação do empregado luso.Expresso, 15.11.2003):

"(...) O fosso entre as 'buzzwords' da moda - capital intelelectual, gestão de talentos, poder aos empregados ('empowerment'), trabalho em equipa, alinhamento organizacional - no discurso dos consultores e dos gestores e a realidade portuguesa é gritante" ).

14 novembro 2003

Estórias com mural ao fundo - XVI: Uma gestão por resultados

Obrigado, Anacleto! É um delícia... Nada como profissionalizar a gestão do Céu, esperando com isso melhorar o desempenho dos nossos gestores cá na Terra!...

____________



Era uma vez, uma aldeia onde havia dois homens, já muito idosos, que se chamavam José Pestana. Um era padre e o outro, taxista. Quis o destino que os dois morressem no mesmo dia. À porta do Céu esperava-os São Pedro, com uma lista de admissões.

- O teu nome? - pergunta o São Pedro ao primeiro.

- José Pestana.

- O padre?

- Não, sou o outro, o taxista.



São Pedro confere o nome na lista e diz:

- Bem, meu filho, ganhaste o Paraíso. Veste esta túnica com fios de ouro e empunha esta vara de platina com incrustações de rubis. Sê bem vindo ao Reino dos Céus...

- Obrigado, obrigado!!! - diz o taxista, emocionado.



Passam mais duas ou três pessoas, até que chega a vez do outro.

- O teu nome?

- José Pestana.

- O padre?

- Esse mesmo, meu Santo.

- Muito bem, meu filho. Também tu ganhaste o Paraíso. Levas esta bata de linho e esta vara de ferro com incrustações a cobre.

- Desculpe, ó São Pedro, não é por nada, mas... deve haver aí algum engano. Eu sou o Padre José Pestana, o prior da freguesia!

- Eu sei, meu filho, estás aqui na lista, ganhaste o Paraíso. Levas esta bata de linho e...

- Não, não pode ser! Eu conheço o meu homónimo, o homem era taxista, vivia na minha aldeia! O que posso dizer dele é que era um desastre. E nem sequer ia à missa! Conduzia pessimamente, subia os passeios, levava tudo à frente, atropelava os animais, assustava as pessoas...

- Não te enerves, meu filho, tem calma...

- Não pode ser!.... Eu passei quase setenta anos da minha vida a pregar todos os domingos na igreja da paróquia, a fazer procissões, casamentos, baptizados, enterros... Como é que lhe dão, a ele, que era um incompetente e um herege, a túnica com fios de ouro e a vara de platina e a mim só isto ? Não é justo!... Vai-me desculpar, São Pedro, mas aí deve ter havido alguma erro na avaliação do mérito de cada um de nós. Houve, de certeza, confusão nos nomes!

- Não, não é nenhum engano - diz o São Pedro, já um bocado enervado com o desaforo do padre. Aqui, no Céu, nós estamos a aplicar as técnicas de gestão que vocês usam lá na Terra. Meu filho, eu tenho o MBA da Católica.

- Como assim ? Desculpe, mas não entendo.

- É que agora nós pássamos a orientarmo-nos por resultados, como vem nos manuais de gestão... É assim: durante os últimos vinte e cinco anos, de cada vez que tu pregavas, as pessoas adormeciam na igreja; mas de cada vez que ele pegava no carro, as pessoas começavam logo a benzer-se e a rezar. Estás a ver a diferença ? Isto é que são resultados, meu filho!... Percebeste agora?



AM/LG



Moral da estória: No Céu como na Terra, a avaliação do mérito e do desempenho dos colaboradores é que é o busílis da... gestão.



Estórias com mural ao fundo - XVI: Uma gestão por resultados

Obrigado, Anacleto! É um delícia... Nada como profissionalizar a gestão do Céu, esperando com isso melhorar o desempenho dos nossos gestores cá na Terra!...
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Era uma vez, uma aldeia onde havia dois homens, já muito idosos, que se chamavam José Pestana. Um era padre e o outro, taxista. Quis o destino que os dois morressem no mesmo dia. À porta do Céu esperava-os São Pedro, com uma lista de admissões.
- O teu nome? - pergunta o São Pedro ao primeiro.
- José Pestana.
- O padre?
- Não, sou o outro, o taxista.

São Pedro confere o nome na lista e diz:
- Bem, meu filho, ganhaste o Paraíso. Veste esta túnica com fios de ouro e empunha esta vara de platina com incrustações de rubis. Sê bem vindo ao Reino dos Céus...
- Obrigado, obrigado!!! - diz o taxista, emocionado.

Passam mais duas ou três pessoas, até que chega a vez do outro.
- O teu nome?
- José Pestana.
- O padre?
- Esse mesmo, meu Santo.
- Muito bem, meu filho. Também tu ganhaste o Paraíso. Levas esta bata de linho e esta vara de ferro com incrustações a cobre.
- Desculpe, ó São Pedro, não é por nada, mas... deve haver aí algum engano. Eu sou o Padre José Pestana, o prior da freguesia!
- Eu sei, meu filho, estás aqui na lista, ganhaste o Paraíso. Levas esta bata de linho e...
- Não, não pode ser! Eu conheço o meu homónimo, o homem era taxista, vivia na minha aldeia! O que posso dizer dele é que era um desastre. E nem sequer ia à missa! Conduzia pessimamente, subia os passeios, levava tudo à frente, atropelava os animais, assustava as pessoas...
- Não te enerves, meu filho, tem calma...
- Não pode ser!.... Eu passei quase setenta anos da minha vida a pregar todos os domingos na igreja da paróquia, a fazer procissões, casamentos, baptizados, enterros... Como é que lhe dão, a ele, que era um incompetente e um herege, a túnica com fios de ouro e a vara de platina e a mim só isto ? Não é justo!... Vai-me desculpar, São Pedro, mas aí deve ter havido alguma erro na avaliação do mérito de cada um de nós. Houve, de certeza, confusão nos nomes!
- Não, não é nenhum engano - diz o São Pedro, já um bocado enervado com o desaforo do padre. Aqui, no Céu, nós estamos a aplicar as técnicas de gestão que vocês usam lá na Terra. Meu filho, eu tenho o MBA da Católica.
- Como assim ? Desculpe, mas não entendo.
- É que agora nós pássamos a orientarmo-nos por resultados, como vem nos manuais de gestão... É assim: durante os últimos vinte e cinco anos, de cada vez que tu pregavas, as pessoas adormeciam na igreja; mas de cada vez que ele pegava no carro, as pessoas começavam logo a benzer-se e a rezar. Estás a ver a diferença ? Isto é que são resultados, meu filho!... Percebeste agora?

AM/LG

Moral da estória: No Céu como na Terra, a avaliação do mérito e do desempenho dos colaboradores é que é o busílis da... gestão.

13 novembro 2003

Saúde & Segurança no Trabalho - VIII: Saúde/doença

"Parler de la santé est toujours malaisé. Évoquer la souffrance et la maladie est, en revanche, plus facile: tout le monde le fait. Comme si, à l’instar de Dante, chacun portait en lui assez d’expérience pour d’écrire l’enfer et jamais le paradis » (Dejours, 1980.5).



Dejours, C. (1980) – Travail: usure mentale. Essai de psychopathologie du travail. Paris: Centurion.



É espantoso: eu nunca ouvi ninguém falar da saúde, em termos positivos. Não da saúde dos povos, em geral, mas da nossa saúde individual. Ninguém fala da sua saúde como fala da sua liberdade, felicidade ou paixão. Já em matéria de doença, dor e sofrimento, toda a gente é competente e tem uma história para contar. Uma ida ao médico ou à urgência do hospital. Um episódio de doença grave.

Saúde & Segurança no Trabalho - VIII: Saúde/doença

"Parler de la santé est toujours malaisé. Évoquer la souffrance et la maladie est, en revanche, plus facile: tout le monde le fait. Comme si, à l’instar de Dante, chacun portait en lui assez d’expérience pour d’écrire l’enfer et jamais le paradis » (Dejours, 1980.5).

Dejours, C. (1980) – Travail: usure mentale. Essai de psychopathologie du travail. Paris: Centurion.

É espantoso: eu nunca ouvi ninguém falar da saúde, em termos positivos. Não da saúde dos povos, em geral, mas da nossa saúde individual. Ninguém fala da sua saúde como fala da sua liberdade, felicidade ou paixão. Já em matéria de doença, dor e sofrimento, toda a gente é competente e tem uma história para contar. Uma ida ao médico ou à urgência do hospital. Um episódio de doença grave.

Blogantologia(s) - IV: Quando falta o quase

Chegou-me do Brasil, de amigos do Brasil. Essas coisas vêm sempre do Brasil (Efeito de halo ou de contaminação? É possível...). Achei piada à mensagem que o acompanhava: "Recebo dezenas de pensamentos diariamente, mas este é sensacional. Ligue o som, desligue as luzes, tire o fone do gancho, amordace as crianças! E pense na sua vida!". E numa pesquisa na Net, confirmei: o texto circula, em alta velocidade, na auto-estrada dos blogs brasileiros!... E é utilizado, indevidamente ou não, para o cara chegar, ver e vencer. Para ter sucesso no negócios (neste caso, o venda directa do elixir da vida). Ganhar muito dinheiro. Ter a casa de sonho e a conta milionária (no banco) que os sustenta (à casa e ao sonho).



Os brasileiros e, de um modo geral, os habitantes do Novo Mundo, adoram este tipo de kits, de tónicos para os neurónios, de suplementos para a vida, de massagens para muscular a alma: meia dúzia de frases feitas, de senso comum, pensamentos edificantes para consumo imediato, literatura light... Com musiquinha, de preferência, e uma jovem afro-americana, de braços abertos, em cruz, andrógina como o Jesus Cristo. Tudo isto faz parte da indústria do bem-estar que estás a destronar as velhas religiões dos nossos avoengos.



Pessoalmente, fico sempre de pé atrás contra esta filosofia barata... Muitas vezes há uma confrangedora pobreza intelectual por detrás dos ditos pensamentos... Mas às vezes também sabe bem ler e ouvir coisas... lamechas. É o encantmento do homem que que no tempo de menino e moço vendia a banha da cobra de feira e feira. A panaceia para todos os males. O segredo da vida e da morte...



Não é o caso, creio eu, deste texto atribuído ao grande cronista e escritor Luís Fernando Veríssimo (abreviadamente, LFV). Não posso garantir a autenticidade nem a integridade do texto. Não sei em que data foi escrito nem onde foi publicado. Voltei a reconhecê-lo em inúmeros blogs que atravessam a blogosfera verde e amarela. Já com algumas diferenças de pontuação, um ou outro atropelo à gramática aqui e acolá. A gente sabe, de resto, o uso e o abuso que se faz da Net de textos atribuídos a escritores sul-americanos famosos como o pobre do Gabriel Garcia Marquez, morto e ressuscitado não sei quantas vezes.



Não quero, porém, influenciar a vossa opinião. Sejam vocês os juizes, como sempre. Para @s ciberamig@s da minha mailing list mandei o ficheiro em power point e pedi para ligarem o som... Se as palavras do LFV (e a musiquinha light que as acompanhavam) os ajudou a reforçar a auto-estima ou a carregar as baterias nem que fosse por um instante, eu poderei dar por muito bem empregue os minutos que passei a escrevinhar o e-mail...



Ontem eu pensava que o ofício da amizade a isso me obrigava. Por isso desejei boa noite e bom jantar aos/às meus/minhas ciberamig@s. Hoje já não estou tão certo disso, das obrigações do ofício da amizade. Hoje é o outro dia, fui tirar sangue, dói-me o braço e quis compartilhar, ao almoço, esta prosa comestível com os blogadores que por aqui desaguam, em especial aqueles que vêm na corrente da espuma que escorre dest(s) dia(s).

______________



O Quase (crónica atribuída a Luís Fernando Veríssimo: alô, cara, posso passar a sua crónica, mesmo correndo o risco de desrespeitar o sacrossanto copyright?)



Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.



É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que

poderia ter sido e não foi.



Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.



Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.



Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.



A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.



Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.



A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.



Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.



Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.



O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.



Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance. Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência; porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.



Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.



Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.



Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

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Blogantologia(s) - IV: Quando falta o quase

Chegou-me do Brasil, de amigos do Brasil. Essas coisas vêm sempre do Brasil (Efeito de halo ou de contaminação? É possível...). Achei piada à mensagem que o acompanhava: "Recebo dezenas de pensamentos diariamente, mas este é sensacional. Ligue o som, desligue as luzes, tire o fone do gancho, amordace as crianças! E pense na sua vida!". E numa pesquisa na Net, confirmei: o texto circula, em alta velocidade, na auto-estrada dos blogs brasileiros!... E é utilizado, indevidamente ou não, para o cara chegar, ver e vencer. Para ter sucesso no negócios (neste caso, o venda directa do elixir da vida). Ganhar muito dinheiro. Ter a casa de sonho e a conta milionária (no banco) que os sustenta (à casa e ao sonho).

Os brasileiros e, de um modo geral, os habitantes do Novo Mundo, adoram este tipo de kits, de tónicos para os neurónios, de suplementos para a vida, de massagens para muscular a alma: meia dúzia de frases feitas, de senso comum, pensamentos edificantes para consumo imediato, literatura light... Com musiquinha, de preferência, e uma jovem afro-americana, de braços abertos, em cruz, andrógina como o Jesus Cristo. Tudo isto faz parte da indústria do bem-estar que estás a destronar as velhas religiões dos nossos avoengos.

Pessoalmente, fico sempre de pé atrás contra esta filosofia barata... Muitas vezes há uma confrangedora pobreza intelectual por detrás dos ditos pensamentos... Mas às vezes também sabe bem ler e ouvir coisas... lamechas. É o encantmento do homem que que no tempo de menino e moço vendia a banha da cobra de feira e feira. A panaceia para todos os males. O segredo da vida e da morte...

Não é o caso, creio eu, deste texto atribuído ao grande cronista e escritor Luís Fernando Veríssimo (abreviadamente, LFV). Não posso garantir a autenticidade nem a integridade do texto. Não sei em que data foi escrito nem onde foi publicado. Voltei a reconhecê-lo em inúmeros blogs que atravessam a blogosfera verde e amarela. Já com algumas diferenças de pontuação, um ou outro atropelo à gramática aqui e acolá. A gente sabe, de resto, o uso e o abuso que se faz da Net de textos atribuídos a escritores sul-americanos famosos como o pobre do Gabriel Garcia Marquez, morto e ressuscitado não sei quantas vezes.

Não quero, porém, influenciar a vossa opinião. Sejam vocês os juizes, como sempre. Para @s ciberamig@s da minha mailing list mandei o ficheiro em power point e pedi para ligarem o som... Se as palavras do LFV (e a musiquinha light que as acompanhavam) os ajudou a reforçar a auto-estima ou a carregar as baterias nem que fosse por um instante, eu poderei dar por muito bem empregue os minutos que passei a escrevinhar o e-mail...

Ontem eu pensava que o ofício da amizade a isso me obrigava. Por isso desejei boa noite e bom jantar aos/às meus/minhas ciberamig@s. Hoje já não estou tão certo disso, das obrigações do ofício da amizade. Hoje é o outro dia, fui tirar sangue, dói-me o braço e quis compartilhar, ao almoço, esta prosa comestível com os blogadores que por aqui desaguam, em especial aqueles que vêm na corrente da espuma que escorre dest(s) dia(s).
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O Quase (crónica atribuída a Luís Fernando Veríssimo: alô, cara, posso passar a sua crónica, mesmo correndo o risco de desrespeitar o sacrossanto copyright?)

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que
poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.

A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.

Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance. Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência; porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
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10 novembro 2003

Portugas que merecem as nossas palmas - II: O Paulo Dinis e a sua Ergolist

Ergolist: Uma lista de discussão com interesse, muito participada e animada, sobretudo a partir de 2002, pelos técnicos e especialistas de Segurança e Higiene do Trabalho, mas também por médicos do trabalho, ergonomistas e outros. Implica inscrição prévia para se aceder ao grupo e se poder receber e trocar mensagens.



Palmas para o jovem Paulo Dinis que está a fazer um excelente trabalho, na sua qualidade de criador e animador desta lista de discussão sobre os problemas da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (abreviadamente, SH&ST).



Acabei de mandar a seguinte mensagem aos membros deste fórum, que é sem sombra de dúvida o nº 1 neste domínio. O que é interessante, neste grupo, é o espírito de cooperação e de entreajuda, duas qualidades que comerçam a rarear entre nós e nas nossas profissões.



Car@s Ergoamig@s da Ergolist:



Em primeiro lugar, os meus parabéns pela animação que vai pela Ergolist... Vocês estão a trazer muita massa crítica à discussão das matérias relacionadas com a SH&ST. Muitos de vocês são engenheiros e estão mais orientados para as soluções concretas do que os problemas abstractos... Mas um pouco de problematização não faz mal a ninguém.



Na minha webpage encontram com uma análise crítica do relatório anual da actividade dos serviços de SH&ST. Como sabem, o prazo para a entrega deste relatório terminou, excepcionalmente este ano, em finais de Outubro de 2003. Mas há dúvidas, erros e lacunas que persistem... Sobretudo não se sabe o que vão fazer dos relatórios, das montanhas de relatórios que os competentes serviços receberam (ou deveriam ter recebido)...



Do relatório em suporte de papel, não vão fazer absolutamente nada... Do relatório em suporte informático, talvez façam uma pequena exploração estatística... Que outputs ? Que indicadores ? Que resultados vão ser apurados e distribuídos ? Como ? Quando ? Quanto custa tudo isto ? Para quê ? Para quem ?



Quem desenhou o sistema de informação foi o ex-DETEFP (aliás, ex-DEPP e agora DEEP) do MSST. Os verdadeiros gestores da informação e os verdadeiros protagonistas deveriam ser o IDICT e a Direcção Geral de Saúde, que representam a tutela da SH&ST.



Para quem perdeu muitas horas de sono, a preencher o relatório referente ao exercício de 2002 e fez questão de cumprir a lei, esta é capaz de ser uma notícia um bocado frustrante... No mínimo, espera-se que, mesmo tendo em conta o conteúdo do relatório, as dificuldades do seu preenchimento e o 1º ano de experiência, não se venha a aplicar, neste caso, o temível princípio segundo o qual em informática garbage in, garbage out (à letra: se entra lixo, sai lixo).



Um dos problemas que preocupa muita gente é o controlo da qualidade da informação (inseparável, de resto, do problema mais delicado da veracidade dos dados...).



PS - Esta discussão também pode fazer-se aqui, no blogue-fora-nada, mais ligeira e alegremente do que noutros fóruns...

Portugas que merecem as nossas palmas - II: O Paulo Dinis e a sua Ergolist

Ergolist: Uma lista de discussão com interesse, muito participada e animada, sobretudo a partir de 2002, pelos técnicos e especialistas de Segurança e Higiene do Trabalho, mas também por médicos do trabalho, ergonomistas e outros. Implica inscrição prévia para se aceder ao grupo e se poder receber e trocar mensagens.

Palmas para o jovem Paulo Dinis que está a fazer um excelente trabalho, na sua qualidade de criador e animador desta lista de discussão sobre os problemas da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (abreviadamente, SH&ST).

Acabei de mandar a seguinte mensagem aos membros deste fórum, que é sem sombra de dúvida o nº 1 neste domínio. O que é interessante, neste grupo, é o espírito de cooperação e de entreajuda, duas qualidades que comerçam a rarear entre nós e nas nossas profissões.

Car@s Ergoamig@s da Ergolist:

Em primeiro lugar, os meus parabéns pela animação que vai pela Ergolist... Vocês estão a trazer muita massa crítica à discussão das matérias relacionadas com a SH&ST. Muitos de vocês são engenheiros e estão mais orientados para as soluções concretas do que os problemas abstractos... Mas um pouco de problematização não faz mal a ninguém.

Na minha webpage encontram com uma análise crítica do relatório anual da actividade dos serviços de SH&ST. Como sabem, o prazo para a entrega deste relatório terminou, excepcionalmente este ano, em finais de Outubro de 2003. Mas há dúvidas, erros e lacunas que persistem... Sobretudo não se sabe o que vão fazer dos relatórios, das montanhas de relatórios que os competentes serviços receberam (ou deveriam ter recebido)...

Do relatório em suporte de papel, não vão fazer absolutamente nada... Do relatório em suporte informático, talvez façam uma pequena exploração estatística... Que outputs ? Que indicadores ? Que resultados vão ser apurados e distribuídos ? Como ? Quando ? Quanto custa tudo isto ? Para quê ? Para quem ?

Quem desenhou o sistema de informação foi o ex-DETEFP (aliás, ex-DEPP e agora DEEP) do MSST. Os verdadeiros gestores da informação e os verdadeiros protagonistas deveriam ser o IDICT e a Direcção Geral de Saúde, que representam a tutela da SH&ST.

Para quem perdeu muitas horas de sono, a preencher o relatório referente ao exercício de 2002 e fez questão de cumprir a lei, esta é capaz de ser uma notícia um bocado frustrante... No mínimo, espera-se que, mesmo tendo em conta o conteúdo do relatório, as dificuldades do seu preenchimento e o 1º ano de experiência, não se venha a aplicar, neste caso, o temível princípio segundo o qual em informática garbage in, garbage out (à letra: se entra lixo, sai lixo).

Um dos problemas que preocupa muita gente é o controlo da qualidade da informação (inseparável, de resto, do problema mais delicado da veracidade dos dados...).

PS - Esta discussão também pode fazer-se aqui, no blogue-fora-nada, mais ligeira e alegremente do que noutros fóruns...