22 outubro 2003

Humor com humor se paga - I : Os Dez Mandamentos (da Lei de Deus)

1. Quem disse que os mandamentos (da Lei de Deus) eram dez ? Em boa verdade vos digo que o número depende do género de quem os conta: para os homens, serão sempre dez; mas para as mulheres só podem ser nove... Na Sua infinita omnisciência, Deus esqueceu-se que a mulher não pode desejar a mulher (do próximo). Seria contranatura, a menos que ela fosse lésbica, o que não está provado cientificamente... Logo terá havido um lapsus linguae por parte do Criador.

´

2. O amor eterno, jurado em frente ao altar, chega a durar... escassas semanas ou poucos meses!



3. Não entres no mundo das drogas: estamos com problemas de abastecimento. Aqueles de nós que entraram, e já são muitos, não conseguem sair; e como a procura é maior do que a oferta, o produto não chega às grandes superfícies. É por isso que o seu preço está pela hora da morte...



PS - Sempre fui partidário do sistema (da livre e sã concorrência). A droga quando nasce devia ser para todos.



3. Ter a consciência limpa é, no mínimo, sinal de má memória (ou de falta dela). Segue o conselho do meu informático: substitui o disco. Ou do meu psicólogo de orientação vocacional: opta pela carreira de magistrado-de-mãos-limpas. Em último caso, muda de detergente ou de emprego.



4. Quem pobre e feio teve o azar de nascer, muito provavelmente pobre e feio vai

morrer (este mandamento é mesmo reaccionário).



5. Sou honesto, logo inadaptado social (máxima antropossociológica).



6. A escravatura não foi abolida. Simplesmente passou ao regime das oito horas por dia. Ou um pouco mais (para as mulheres) (máxima cegetepista-feminista).



7. O último a rir não é o que ri melhor, é o que não percebe a anedota que sai todos os dias nos jornais portugueses.



8. Aviso: não lutes contra a corrente; podes morrer electrocutado.



9. Se a montanha vem até ti, foge dela a sete pés: Só pode ser Maomé ou Moisés, ou então o rato parido da montanha, fugido do gato, fugido do esmoronamento, fugido do... (aqui perdeu-se o fio de Ariane ou acabou o tempo de satélite).



10 – Na História (com H grande), só há um Príncipe Encantado; é o sortudo que está na cama com a Cinderela (calma aí!, quantos anos tens ?).



11. Se um pássaro te diz "estás louco", deves estar mesmo porque os pássaros, primeiro, não falam; e, segundo, não mentem.



12. Amigos, não tomem a vida muito a sério, porque nenhum de nós sairá vivo dela (Sócrates, antes da cicuta).



13. O importante não é ganhares mas levares o outro a perder (a paciência, a bola, a cabeça, o dinheiro, a honra, a liberdade...) (Deus não podia ter dito isto!)



14. A honra, nunca esqueças da honra! Jura sempre pela tua honra... acima de todas as coisas!



15. Na Sua infinita bondade e sabedoria, Deus perguntou um dia aos Egípcios:

- Vocês querem um mandamento?

- Pode ser... mas qual seria ?

- Não cometerás adultério!

- Não, obrigado, isso vai estragar os nossos planos para o fim de semana no Algarve...



Decepcionado com a ingratidão dos Egípcios, Deus virou-se para os Fenícios:

- Vocês por acaso não estão a precisar de uns mandamentos ?

- Depende... Qual seria o primeiro ?

- Não roubarás!

- Não, muito obrigado, isso dava cabo dos nossos negócios e deixávamos de figurar no Guiness como os heróis da pré-história do capitalismo...



Entristecido (e com razão!), Deus deu um salto ao Novo Mundo e perguntou aos ianques:

- Vocês aí, rapazes, por acaso não vão querer ficar com um mandamento ?!

- O que é que tu tens para oferecer, Senhor?

- Um que diz Não matarás!

- Bolas, logo esse, não!... O que é que a gente vai fazer às armas que temos lá em casa ?



Com a Sua infinita paciência e com todo o tempo à frente Dele, Deus foi fazendo a mesma pergunta a todos os povos da terra, até que chegou ao Velho Mundo e deparou com os Portugas, na ponta mais ocidental da Europa, atarefados a construir os estádios de futebol para o Euro 2004:

- Eh!, tu aí, Zé Povinho, não vais querer um mandamento?

- Quanto é que isso custa, pá?

- Nada, para ti é de borla.

- Então manda aí uns dez...



PS - Nunca chegaremos a saber se Deus percebeu o trocadilho dos dez mandamentos/dez estádios; ou se o Zé Povinho sabe fazer a distinção entre um estádio (de futebol) e um mandamento (da Lei de Deus)... Também não sabemos se Deus, na Sua infinita misericórdia, também tem sentido de humor... O Zé Povinho, esse, já deu sobejas provas de ser um bom humorista: veja-se o seu célebre manguito!





Humor com humor se paga - I : Os Dez Mandamentos (da Lei de Deus)

1. Quem disse que os mandamentos (da Lei de Deus) eram dez ? Em boa verdade vos digo que o número depende do género de quem os conta: para os homens, serão sempre dez; mas para as mulheres só podem ser nove... Na Sua infinita omnisciência, Deus esqueceu-se que a mulher não pode desejar a mulher (do próximo). Seria contranatura, a menos que ela fosse lésbica, o que não está provado cientificamente... Logo terá havido um lapsus linguae por parte do Criador.
´
2. O amor eterno, jurado em frente ao altar, chega a durar... escassas semanas ou poucos meses!

3. Não entres no mundo das drogas: estamos com problemas de abastecimento. Aqueles de nós que entraram, e já são muitos, não conseguem sair; e como a procura é maior do que a oferta, o produto não chega às grandes superfícies. É por isso que o seu preço está pela hora da morte...

PS - Sempre fui partidário do sistema (da livre e sã concorrência). A droga quando nasce devia ser para todos.

3. Ter a consciência limpa é, no mínimo, sinal de má memória (ou de falta dela). Segue o conselho do meu informático: substitui o disco. Ou do meu psicólogo de orientação vocacional: opta pela carreira de magistrado-de-mãos-limpas. Em último caso, muda de detergente ou de emprego.

4. Quem pobre e feio teve o azar de nascer, muito provavelmente pobre e feio vai
morrer (este mandamento é mesmo reaccionário).

5. Sou honesto, logo inadaptado social (máxima antropossociológica).

6. A escravatura não foi abolida. Simplesmente passou ao regime das oito horas por dia. Ou um pouco mais (para as mulheres) (máxima cegetepista-feminista).

7. O último a rir não é o que ri melhor, é o que não percebe a anedota que sai todos os dias nos jornais portugueses.

8. Aviso: não lutes contra a corrente; podes morrer electrocutado.

9. Se a montanha vem até ti, foge dela a sete pés: Só pode ser Maomé ou Moisés, ou então o rato parido da montanha, fugido do gato, fugido do esmoronamento, fugido do... (aqui perdeu-se o fio de Ariane ou acabou o tempo de satélite).

10 – Na História (com H grande), só há um Príncipe Encantado; é o sortudo que está na cama com a Cinderela (calma aí!, quantos anos tens ?).

11. Se um pássaro te diz "estás louco", deves estar mesmo porque os pássaros, primeiro, não falam; e, segundo, não mentem.

12. Amigos, não tomem a vida muito a sério, porque nenhum de nós sairá vivo dela (Sócrates, antes da cicuta).

13. O importante não é ganhares mas levares o outro a perder (a paciência, a bola, a cabeça, o dinheiro, a honra, a liberdade...) (Deus não podia ter dito isto!)

14. A honra, nunca esqueças da honra! Jura sempre pela tua honra... acima de todas as coisas!

15. Na Sua infinita bondade e sabedoria, Deus perguntou um dia aos Egípcios:
- Vocês querem um mandamento?
- Pode ser... mas qual seria ?
- Não cometerás adultério!
- Não, obrigado, isso vai estragar os nossos planos para o fim de semana no Algarve...

Decepcionado com a ingratidão dos Egípcios, Deus virou-se para os Fenícios:
- Vocês por acaso não estão a precisar de uns mandamentos ?
- Depende... Qual seria o primeiro ?
- Não roubarás!
- Não, muito obrigado, isso dava cabo dos nossos negócios e deixávamos de figurar no Guiness como os heróis da pré-história do capitalismo...

Entristecido (e com razão!), Deus deu um salto ao Novo Mundo e perguntou aos ianques:
- Vocês aí, rapazes, por acaso não vão querer ficar com um mandamento ?!
- O que é que tu tens para oferecer, Senhor?
- Um que diz Não matarás!
- Bolas, logo esse, não!... O que é que a gente vai fazer às armas que temos lá em casa ?

Com a Sua infinita paciência e com todo o tempo à frente Dele, Deus foi fazendo a mesma pergunta a todos os povos da terra, até que chegou ao Velho Mundo e deparou com os Portugas, na ponta mais ocidental da Europa, atarefados a construir os estádios de futebol para o Euro 2004:
- Eh!, tu aí, Zé Povinho, não vais querer um mandamento?
- Quanto é que isso custa, pá?
- Nada, para ti é de borla.
- Então manda aí uns dez...

PS - Nunca chegaremos a saber se Deus percebeu o trocadilho dos dez mandamentos/dez estádios; ou se o Zé Povinho sabe fazer a distinção entre um estádio (de futebol) e um mandamento (da Lei de Deus)... Também não sabemos se Deus, na Sua infinita misericórdia, também tem sentido de humor... O Zé Povinho, esse, já deu sobejas provas de ser um bom humorista: veja-se o seu célebre manguito!


21 outubro 2003

(Ex)citações de cada dia - IV: O tabaco que mata (a) gente

1. O tabaco avisa que o Governo faz mal à saúde" (ditado brasileiro)



O programa Prós e Contras, da RTP1, juntou ontem amigos e inimigos do tabaco que mata (a) gente. Alguns esperavam sangue. Mas a discussão foi, no mínimo, civilizada.



Não tenho tempo para aqui tabaquear o caso. Retenho apenas algumas ideias da generalidade da discussão. E uma delas, sublinhada na excelente síntese final feita por esse grande jornalista que é o Adelino Gomes, refere-se justamente à questão da (in)tolerância a que eu sou particularmente sensível.



De um modo geral, os ex-fumadores têm uma atitude mais aberta, compreensiva e até cúmplice, em relação ao povo que fuma. E recusa-se a entregá-lo, simbolicamente, ao pelotão de fuzilamento. Quem fuma sabe o mal que faz a si próprio (mas, curiosamente, não está tão alertado para os perigos do tabagismo passivo...). A campanha publicitária em curso foi pensada por um espírito totalitário (no mínimo, um healthista, daqueles que não conseguem operar a distinção entre a saúde, a liberdade e a felicidade), mesmo que por detrás das suas motivações estejam as melhores intenções do mundo (do que muita gente tem dúvidas).



Gostei da análise da Vera Nobre (uma grande senhora!), a qual veio alertar para os possíveis efeitos perversos de uma campanha que se dirige à população em geral, sem se preocupar com a sua segmentação. É contra todas as regras da eficácia em comunicação & marketing. Para os adolescentes e os jovens, a mensagem "o tabaco mata" pode ser contraproducente, dada a contra-cultura deste grupo etário, que é a cultura do risco, da provocação, da afirmação contra os cotas, o sistema...



Teria, de certo, outro impacto uma campanha pela positiva, usando modelos de referência (o ídolo do rock, o grupo, o líder...). Um adolescente não decide não começar a fumar (ou deixar de fumar) só porque "tabaco mata" mas sim por que no seu grupo de pertença e de referência fumar não é socialmente aceite...



Tive o prazer de (tele)rever o meu amigo Edmundo Sá. Congratulo-me pelos desenvolvimentos que o projecto da "aldeia sem tabaco" teve neste último ano e meio em Vila Verde de Ficalho. E aplaudo, mais um vez, o trabalho que se está ali a fazer com as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos... Não é fazer "para" nem muito menos "contra" os que fumam, por parte dos que não fumam... É, sim, fazer “com e através de” todos. Essa é a grande diferença entre a promoção da saúde e o resto (a propaganda, a manipulação, o controlo social, por exemplo)...



Mas no final (e isso era importante que passasse na caixinha-que-mudou-o-mundo) os portugas foram para a cama com a pesada (?) consciência de que o tabaco também mata, que mata (a) gente, que mata muita gente, pelo que é hoje um dos nossos grandes problemas de saúde pública... Agora, não ponham, por favor, tudo o resto entre parêntesis! Concordo que tirem a chupeta ao Zé Povinho (Alfredo Saramago), e mesmo que isso custe mais de 250 milhões de contos ao Estado... Concordo, na condição de lhe darem algo muito melhor (Eng. Luís Coimbra) (cito de cor as palavras de um e outro).



As outras intervenções vou não comentá-las, por economia de análise. Registo apenas o que o psiquiatra Carlos Amaral Dias disse: há uma lamentável confusão entre adição e dependência, o tabagismo não é uma toxicodependência e a prova disso é que há muita gente que consegue, pelos seus próprios meios, deixar de fumar. O médico falou em 90% dos cerca de 50 milhões de americanos que desde os anos 60 deixaram de fumar (cito de cor)...



2. A Aldeia sem Tabaco



Aproveito para reproduzir aqui, com a devida vénia, os versos que foram lidos na cerimónia realizada na Junta de Freguesia de Vila Verde de Ficalho, em 13 de Março de 1999, já lá vão mais de quatro anos, e que deram início a uma história bonita que merece ser contada e divulgada... Os versos (paternalistas...) são da autoria do Prof. Dr. Políbio Serra e Silva, personalidade que na altura representou a Fundação Portuguesa de Cardiologia. Outros poetas (locais) também já puseram em letra de forma esta coisa de a gente querer proteger e promover a nossa saúde, porque ela, a saúde, também é condição necessária para sermos livres e felizes.



Em Vila Verde de Ficalho



1

Para um ambiente novo

Eu, que poucochinho valho,

Vou recomendar ao Povo,

Em Vila Verde de Ficalho.



2

Substituindo o cigarro

Pelo azeite e pelo alho,

Deixará de haver pigarro

Em Vila Verde de Ficalho.



3

Trocando a fumigação

Pela sardinha e o rodovalho,

Não há cancro do pulmão

Em Vila Verde de Ficalho.



4

E, sem cancro do pulmão,

O ferreiro bate o malho

Pois não há poluição

Em Vila Verde de Ficalho.



5

E em sofrer do coração

O povo, junto ao borralho,

Tem boa circulação

Em Vila Verde de Ficalho.



6

Sem doenças das artérias

Estou certo que não falha

Acabarão as misérias

Em Vila Verde de Ficalho.



7

E serão verdes os montes

As árvores até ao galho

E pura a água das fontes

Em Vila Verde de Ficalho





8

Toda a gente salta o muro

Vindo por estrada ou atalho

Para respirar ar puro

Em Vila Verde de Ficalho.



9

E então sem poluição

Ficará como um retalho

Na História da Prevenção

Em Vila Verde de Ficalho.



10

Pois sem o fumo que perde,

Apta para o trabalho,

Continuará sempre verde

Vila Verde de Ficalho.



Políbio Serra e Silva

(a 13 de Março de 1999, data da proclamação de Vila Verde de Ficalho – Aldeia Sem Tabaco)

(Ex)citações de cada dia - IV: O tabaco que mata (a) gente

1. O tabaco avisa que o Governo faz mal à saúde" (ditado brasileiro)

O programa Prós e Contras, da RTP1, juntou ontem amigos e inimigos do tabaco que mata (a) gente. Alguns esperavam sangue. Mas a discussão foi, no mínimo, civilizada.

Não tenho tempo para aqui tabaquear o caso. Retenho apenas algumas ideias da generalidade da discussão. E uma delas, sublinhada na excelente síntese final feita por esse grande jornalista que é o Adelino Gomes, refere-se justamente à questão da (in)tolerância a que eu sou particularmente sensível.

De um modo geral, os ex-fumadores têm uma atitude mais aberta, compreensiva e até cúmplice, em relação ao povo que fuma. E recusa-se a entregá-lo, simbolicamente, ao pelotão de fuzilamento. Quem fuma sabe o mal que faz a si próprio (mas, curiosamente, não está tão alertado para os perigos do tabagismo passivo...). A campanha publicitária em curso foi pensada por um espírito totalitário (no mínimo, um healthista, daqueles que não conseguem operar a distinção entre a saúde, a liberdade e a felicidade), mesmo que por detrás das suas motivações estejam as melhores intenções do mundo (do que muita gente tem dúvidas).

Gostei da análise da Vera Nobre (uma grande senhora!), a qual veio alertar para os possíveis efeitos perversos de uma campanha que se dirige à população em geral, sem se preocupar com a sua segmentação. É contra todas as regras da eficácia em comunicação & marketing. Para os adolescentes e os jovens, a mensagem "o tabaco mata" pode ser contraproducente, dada a contra-cultura deste grupo etário, que é a cultura do risco, da provocação, da afirmação contra os cotas, o sistema...

Teria, de certo, outro impacto uma campanha pela positiva, usando modelos de referência (o ídolo do rock, o grupo, o líder...). Um adolescente não decide não começar a fumar (ou deixar de fumar) só porque "tabaco mata" mas sim por que no seu grupo de pertença e de referência fumar não é socialmente aceite...

Tive o prazer de (tele)rever o meu amigo Edmundo Sá. Congratulo-me pelos desenvolvimentos que o projecto da "aldeia sem tabaco" teve neste último ano e meio em Vila Verde de Ficalho. E aplaudo, mais um vez, o trabalho que se está ali a fazer com as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos... Não é fazer "para" nem muito menos "contra" os que fumam, por parte dos que não fumam... É, sim, fazer “com e através de” todos. Essa é a grande diferença entre a promoção da saúde e o resto (a propaganda, a manipulação, o controlo social, por exemplo)...

Mas no final (e isso era importante que passasse na caixinha-que-mudou-o-mundo) os portugas foram para a cama com a pesada (?) consciência de que o tabaco também mata, que mata (a) gente, que mata muita gente, pelo que é hoje um dos nossos grandes problemas de saúde pública... Agora, não ponham, por favor, tudo o resto entre parêntesis! Concordo que tirem a chupeta ao Zé Povinho (Alfredo Saramago), e mesmo que isso custe mais de 250 milhões de contos ao Estado... Concordo, na condição de lhe darem algo muito melhor (Eng. Luís Coimbra) (cito de cor as palavras de um e outro).

As outras intervenções vou não comentá-las, por economia de análise. Registo apenas o que o psiquiatra Carlos Amaral Dias disse: há uma lamentável confusão entre adição e dependência, o tabagismo não é uma toxicodependência e a prova disso é que há muita gente que consegue, pelos seus próprios meios, deixar de fumar. O médico falou em 90% dos cerca de 50 milhões de americanos que desde os anos 60 deixaram de fumar (cito de cor)...

2. A Aldeia sem Tabaco

Aproveito para reproduzir aqui, com a devida vénia, os versos que foram lidos na cerimónia realizada na Junta de Freguesia de Vila Verde de Ficalho, em 13 de Março de 1999, já lá vão mais de quatro anos, e que deram início a uma história bonita que merece ser contada e divulgada... Os versos (paternalistas...) são da autoria do Prof. Dr. Políbio Serra e Silva, personalidade que na altura representou a Fundação Portuguesa de Cardiologia. Outros poetas (locais) também já puseram em letra de forma esta coisa de a gente querer proteger e promover a nossa saúde, porque ela, a saúde, também é condição necessária para sermos livres e felizes.

Em Vila Verde de Ficalho

1
Para um ambiente novo
Eu, que poucochinho valho,
Vou recomendar ao Povo,
Em Vila Verde de Ficalho.

2
Substituindo o cigarro
Pelo azeite e pelo alho,
Deixará de haver pigarro
Em Vila Verde de Ficalho.

3
Trocando a fumigação
Pela sardinha e o rodovalho,
Não há cancro do pulmão
Em Vila Verde de Ficalho.

4
E, sem cancro do pulmão,
O ferreiro bate o malho
Pois não há poluição
Em Vila Verde de Ficalho.

5
E em sofrer do coração
O povo, junto ao borralho,
Tem boa circulação
Em Vila Verde de Ficalho.

6
Sem doenças das artérias
Estou certo que não falha
Acabarão as misérias
Em Vila Verde de Ficalho.

7
E serão verdes os montes
As árvores até ao galho
E pura a água das fontes
Em Vila Verde de Ficalho


8
Toda a gente salta o muro
Vindo por estrada ou atalho
Para respirar ar puro
Em Vila Verde de Ficalho.

9
E então sem poluição
Ficará como um retalho
Na História da Prevenção
Em Vila Verde de Ficalho.

10
Pois sem o fumo que perde,
Apta para o trabalho,
Continuará sempre verde
Vila Verde de Ficalho.

Políbio Serra e Silva
(a 13 de Março de 1999, data da proclamação de Vila Verde de Ficalho – Aldeia Sem Tabaco)

20 outubro 2003

(EX)citações de cada dia - III: Aviso: O trabalho mata

Para afixar nos postos de trabalho



A actual publicidade nos maços de cigarros (O TABACO MATA), imposta por Bruxelas, inspira-se nas mesmas técnicas terroristas a que acabo de fazer referência no post anterior. Há dias recebi, na caixa de correio, uma charge humorística sobre este tópico. Vinha de amigos e rezava assim:



"Nem só o tabaco mata!... Temos assistido recentemente à aparição dos stickers nos maços de tabaco para que se deixe de fumar. Mata. E é verdade. Porém, estudos recentes dizem que trabalhar retira 10 anos à esperança de vida (do que já suspeitávamos, mas filhos da mãe do governo não nos avisaram de nada). Eis aqui uns novos stickers para que tu os coles nos

teus maços de cigarros e no teu POSTO DE TRABALHO:



- TRABALHAR mata

- O TRABALHO mata mais quem fuma

- O TRABALHO NOCTURNO e o TRABALHO POR TURNOS não é bom para ti nem para os teus

- As autoridades sanitárias advertem que MADRUGAR prejudica seriamente a saúde

- O STRESSE LABORAL pode originar cancro de estômago

- As autoridades sanitárias advertem que TRABALHAR encurta em 10 anos a esperança de vida

- TRABALHAR muito pode levar a um enfarte

- AGUENTAR BRONCAS DO CHEFE causa impotência".



(EX)citações de cada dia - III: Aviso: O trabalho mata

Para afixar nos postos de trabalho

A actual publicidade nos maços de cigarros (O TABACO MATA), imposta por Bruxelas, inspira-se nas mesmas técnicas terroristas a que acabo de fazer referência no post anterior. Há dias recebi, na caixa de correio, uma charge humorística sobre este tópico. Vinha de amigos e rezava assim:

"Nem só o tabaco mata!... Temos assistido recentemente à aparição dos stickers nos maços de tabaco para que se deixe de fumar. Mata. E é verdade. Porém, estudos recentes dizem que trabalhar retira 10 anos à esperança de vida (do que já suspeitávamos, mas filhos da mãe do governo não nos avisaram de nada). Eis aqui uns novos stickers para que tu os coles nos
teus maços de cigarros e no teu POSTO DE TRABALHO:

- TRABALHAR mata
- O TRABALHO mata mais quem fuma
- O TRABALHO NOCTURNO e o TRABALHO POR TURNOS não é bom para ti nem para os teus
- As autoridades sanitárias advertem que MADRUGAR prejudica seriamente a saúde
- O STRESSE LABORAL pode originar cancro de estômago
- As autoridades sanitárias advertem que TRABALHAR encurta em 10 anos a esperança de vida
- TRABALHAR muito pode levar a um enfarte
- AGUENTAR BRONCAS DO CHEFE causa impotência".

(Ex)citações de cada dia - II: Verdade e terror

O tabaco e o fascismo sanitário



O procedimento das autoridades francesas ligadas à saúde pública e à segurança social terá sido eticamente correcto ? Será legítimo pôr uma população inteira em estado de choque por uma "boa causa" ? Os fins justificam os meios ?



Refiro-me à notícia, vinda no Publico de 26/6/2002, sobre um anúncio que acabava de ser exibido nas sete principais cadeias da TV francesas. Eis alguns excertos:



"Numa altura em que é cada vez mais difícil distinguir a informação da publicidade, os telespectadores gauleses viram surgir, no intervalo dos noticiários ou entre programas do horário nobre, um fundo negro sobre o qual ia aparecendo escrito um aviso. Uma voz-off acompanhava o aparecimento das palavras: "Foram detectados vestígios de ácido cianídrico, mercúrio, acetona e amoníaco num produto de grande consumo".



Ainda segundo o Público, "o anúncio remetia depois para um número de telefone gratuito, através dos qual os telespectadores poderiam obter mais informações sobre o assunto, nomeadamente sobre o produto em causa (...)".



Lançado de forma "alarmista e surpreendente", o anúncio, de cinco segundos, provocou uma onda de pânico: "as pessoas temiam que se tratasse de um alimento envenenado ou de um produto de higiene".



Ainda a notícia do Público, houve o maior secretismo no lançamento da campanha de tal modo que os próprios órgãos de comunicação social foram apanhados desprevenidos. Como resultado, o número de telefone gratuito, “preparado para atender 50 mil chamadas por hora, bloqueou e permaneceu inacessível durante a noite de domingo. Mesmo depois de uma segunda parte do anúncio ter sido exibida, explicando que o produto 'contaminado' eram os cigarros, muitas pessoas continuavam agarradas ao telefone".



Com um custo estimado de 4 milhões e meio de euros, a campanha publicitária estava programada para decorrer até 7 de Julho de 2002, tendo sido patrocinada pelo Instituto Nacional de Prevenção e Educação para a Saúde (INPES), em parceria com a Segurança Social francesa (a quem compete pagar os encargos com os cuidados de saúde, os medicamenos, as despesas médicas, a hospitalização, etc.).



Segundo a agência publicitária que criou o polémico anúncio (a Euro RSCG BETC), era preciso dramatizar a situação, com o argumento de que os epidemiologistas e demais especialistas da saúde pública estavam desesperados porque ninguém... lhes dava ouvidos!



Um responsável do INPES disse à imprensa que era preferível assustar os franceses a ter que “lidar anualmente com 60 mil mortes causadas pelo tabaco”, uma verdadeira hecatombe!...



As reacções que se seguiram foram as mais diversas: (i) uns felicitaram o "genial golpe mediático", enquanto (ii) outros se mostraram revoltados contra "contra a hipocrisia do Estado", o tal que com uma mão paga este tipo de anúncios e com a outra arrecada quantias astronómicas provenientes das elevadas taxas fiscais impostas ao consumo de tabaco.



Num fórum criado na Internet para debater a campanha podiam-se ler ainda outros argumentos: "Ok, fumar está errado", admitia um cibernauta. "Mas beber está errado, conduzir como um tarado está errado, drogar-se está errado, manter relações diplomáticas com ditadores está errado. Em vez de gastarem o meu dinheiro em campanhas inúteis mais valia aplicá-lo na investigação científica. Isso sim, seria verdadeiramente útil".



Alguns participantes temiam pela eficácia de futuras advertências, lembrando a história do pastor e do lobo: "À força de gritarem que vem lá o lobo, as pessoas não irão acreditar quando este tipo de anúncios se referir a um produto nocivo, consumido involuntariamente".



Segundo estimativas da Direcção-Gerald e Saúde morrem em Portugal cerca de 11 mil pessoas todos os anos, na sequência do consumo de tabaco: sete vezes mais do que os acidentes de automóvel e mais num só ano do que em 13 anos de guerra colonial.



Entre nós a questão que se pode levantar é a seguinte: Uma campanha deste tipo poderá ser eficaz ? Vai contribuir efectivamente para a redução da hecatombe provocada pelo tabagismo ? Será também susceptível de pôr os portugueses em estado de choque ? E sobretudo, no país dos brandos costumes, irá provocar polémica ?



Manifestei, na altura, a minha opinião, a quente: "Tenho desde já muitas reservas em relação este estilo de campanhas. A causa (a prevenção da doença e a promoção da saúde) é boa, mas os meios são perversos. Não duvido da sua eficácia (momentânea...), mas temo o precedente. Isto não é educação para a saúde, isto não é serviço público, isto é puro terror, é condenar a vítima, é desresponsabilizar o sistema (O Estado, o Governo, os serviços de saúde, a indústria tabaqueira, a ciência, a sociedade de consumo, a publicidade ...). Isto é um exemplo de "fascismo sanitário" ou pode pode ser um ensaio de "fascismo sanitário"... Não me dizem toda a verdade, mas depois acusam-me: “Agora tu sabes”... (Maintenant vous le savez...). Como quem diz: “Só a ti compete decidir: o tabaco ou a vida" (1).

___________



Post scriptum - Eu não fumo



(1) Fóruns do Publico.pt > Cidadania - Verdade e Terror: O Caso da Campanha Antitabágica em França (26.6.2002). Vd. também (Ex)citações de cada dia (Letras U-Z)



(Ex)citações de cada dia - II: Verdade e terror

O tabaco e o fascismo sanitário

O procedimento das autoridades francesas ligadas à saúde pública e à segurança social terá sido eticamente correcto ? Será legítimo pôr uma população inteira em estado de choque por uma "boa causa" ? Os fins justificam os meios ?

Refiro-me à notícia, vinda no Publico de 26/6/2002, sobre um anúncio que acabava de ser exibido nas sete principais cadeias da TV francesas. Eis alguns excertos:

"Numa altura em que é cada vez mais difícil distinguir a informação da publicidade, os telespectadores gauleses viram surgir, no intervalo dos noticiários ou entre programas do horário nobre, um fundo negro sobre o qual ia aparecendo escrito um aviso. Uma voz-off acompanhava o aparecimento das palavras: "Foram detectados vestígios de ácido cianídrico, mercúrio, acetona e amoníaco num produto de grande consumo".

Ainda segundo o Público, "o anúncio remetia depois para um número de telefone gratuito, através dos qual os telespectadores poderiam obter mais informações sobre o assunto, nomeadamente sobre o produto em causa (...)".

Lançado de forma "alarmista e surpreendente", o anúncio, de cinco segundos, provocou uma onda de pânico: "as pessoas temiam que se tratasse de um alimento envenenado ou de um produto de higiene".

Ainda a notícia do Público, houve o maior secretismo no lançamento da campanha de tal modo que os próprios órgãos de comunicação social foram apanhados desprevenidos. Como resultado, o número de telefone gratuito, “preparado para atender 50 mil chamadas por hora, bloqueou e permaneceu inacessível durante a noite de domingo. Mesmo depois de uma segunda parte do anúncio ter sido exibida, explicando que o produto 'contaminado' eram os cigarros, muitas pessoas continuavam agarradas ao telefone".

Com um custo estimado de 4 milhões e meio de euros, a campanha publicitária estava programada para decorrer até 7 de Julho de 2002, tendo sido patrocinada pelo Instituto Nacional de Prevenção e Educação para a Saúde (INPES), em parceria com a Segurança Social francesa (a quem compete pagar os encargos com os cuidados de saúde, os medicamenos, as despesas médicas, a hospitalização, etc.).

Segundo a agência publicitária que criou o polémico anúncio (a Euro RSCG BETC), era preciso dramatizar a situação, com o argumento de que os epidemiologistas e demais especialistas da saúde pública estavam desesperados porque ninguém... lhes dava ouvidos!

Um responsável do INPES disse à imprensa que era preferível assustar os franceses a ter que “lidar anualmente com 60 mil mortes causadas pelo tabaco”, uma verdadeira hecatombe!...

As reacções que se seguiram foram as mais diversas: (i) uns felicitaram o "genial golpe mediático", enquanto (ii) outros se mostraram revoltados contra "contra a hipocrisia do Estado", o tal que com uma mão paga este tipo de anúncios e com a outra arrecada quantias astronómicas provenientes das elevadas taxas fiscais impostas ao consumo de tabaco.

Num fórum criado na Internet para debater a campanha podiam-se ler ainda outros argumentos: "Ok, fumar está errado", admitia um cibernauta. "Mas beber está errado, conduzir como um tarado está errado, drogar-se está errado, manter relações diplomáticas com ditadores está errado. Em vez de gastarem o meu dinheiro em campanhas inúteis mais valia aplicá-lo na investigação científica. Isso sim, seria verdadeiramente útil".

Alguns participantes temiam pela eficácia de futuras advertências, lembrando a história do pastor e do lobo: "À força de gritarem que vem lá o lobo, as pessoas não irão acreditar quando este tipo de anúncios se referir a um produto nocivo, consumido involuntariamente".

Segundo estimativas da Direcção-Gerald e Saúde morrem em Portugal cerca de 11 mil pessoas todos os anos, na sequência do consumo de tabaco: sete vezes mais do que os acidentes de automóvel e mais num só ano do que em 13 anos de guerra colonial.

Entre nós a questão que se pode levantar é a seguinte: Uma campanha deste tipo poderá ser eficaz ? Vai contribuir efectivamente para a redução da hecatombe provocada pelo tabagismo ? Será também susceptível de pôr os portugueses em estado de choque ? E sobretudo, no país dos brandos costumes, irá provocar polémica ?

Manifestei, na altura, a minha opinião, a quente: "Tenho desde já muitas reservas em relação este estilo de campanhas. A causa (a prevenção da doença e a promoção da saúde) é boa, mas os meios são perversos. Não duvido da sua eficácia (momentânea...), mas temo o precedente. Isto não é educação para a saúde, isto não é serviço público, isto é puro terror, é condenar a vítima, é desresponsabilizar o sistema (O Estado, o Governo, os serviços de saúde, a indústria tabaqueira, a ciência, a sociedade de consumo, a publicidade ...). Isto é um exemplo de "fascismo sanitário" ou pode pode ser um ensaio de "fascismo sanitário"... Não me dizem toda a verdade, mas depois acusam-me: “Agora tu sabes”... (Maintenant vous le savez...). Como quem diz: “Só a ti compete decidir: o tabaco ou a vida" (1).
___________

Post scriptum - Eu não fumo

(1) Fóruns do Publico.pt > Cidadania - Verdade e Terror: O Caso da Campanha Antitabágica em França (26.6.2002). Vd. também (Ex)citações de cada dia (Letras U-Z)

19 outubro 2003

(Ex)citações de cada dia - I: O tabaco (também) mata

Em Outubro de 2000, abri nos Fóruns do Publico.pt > Cidadania, um tema de discussão que acabou por ter uma certa animação: Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco"... O essencial das minhas intervenções (e de outros cibernautas, devidamente seleccionadas) está disponível na minha página: Saúde e Trabalho > (Ex)citações de cada dia (Letras U-Z).



Aí comecei por registar a minha homenagem aos ficalhenses, gente perdida e esquecida na margem esquerda do Guadiana, na raia de Espanha... Homenagem pela adesão ao projecto "Aldeia sem Tabaco" mas também por acreditarem que rir fazia bem... à saúde!



Essa homenagem era extensiva a excelentes profissionais de saúde, como o Dr. Edmundo de Sá, que dirigia (e ainda hoje dirige) a extensão do Centro de Saúde de Serpa, em Vila Verde de Ficalho, e a sua pequena equipa (um enfermeiro e uma administrativa), bem como o Prof. Dr. Mário Bernardo, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.



Na altura eu incluía na homenagem a Junta de Freguesia de V. V. Ficalho e outras pessoas e instituições locais e regionais que se tinham associado a uma iniciativa como aquela, aparentemente tão insólita, na área da promoção da saúde ... Entre outras actividades, eu referia a realização anual do Festival de Anedotas, o qual costumava juntar cerca de três centenas de pessoas que acreditavam que se podia e devia saber viver com saúde e com sentido de humor... em Portugal.



Ainda nos finais do ano de 2000 a "Aldeia Sem Tabaco" tinha tido honras mediáticas no programa diário Sic 10 horas, apresentado então por Júlia Pinheiro. Eram convidados, para além do Dr. Edmundo de Sá, médico de família e coordenador da equipa de saúde local, o actor Nicolau Breyner (natural de Serpa, e na altura um públicio & notório fumador de charutos) e mais 3 habitantes de Vila Verde de Ficalho, ex-fumadores.



Não se podia dizer então que o balanço de quase dois anos de vigência do programa fosse espectacular em termos de números: se bem percebi, (i) uma dúzia de pessoas terá deixado de fumar como resultado directo da implementação deste programa; (ii) não se sabia qual era percentagem de fumadores (podendo, no entanto, ser estimada em 25% a 30% numa população residente que não devia ultrapassar os 2 mil e poucos);(iii) mas o mais importante estava a ser o impacto do porgrama ao nível dos adolescentes em idade escolar. De facto, é nesta idade (por volta dos 15 anos) que o primeiro cigarro é o mais maléfico de todos os cigarros do resto das nossas vidas...



Recusando qualquer fundamentalismo antitabágico (o exemplo da América é, quanto a mim, o do fascismo sanitário), a equipa de saúde local, a junta de freguesia (que curiosamente era então presidida pelo enfermeiro da terra) e os apoiantes do programa "Vila Verde de Ficalho, a aldeia sem tabaco" eram, para mim, um exemplo efectivo e concreto do que é (e deve ser) a promoção da saúde comunitária.



Entendi que era um dever estudar, apoiar, acarinhar, acompanhar e divulgar iniciativas como esta. Um dever de todos aqueles que, como eu, gostariam de um dia poder escrever, nas paredes das fábricas ou dos escritórios onde trabalhamos ou nas paredes das casas onde vivemos o mais belo dos grafitos : "Aqui, como em Vila Verde de Ficalho, é a saúde do povo quem mais ordena". Utopia ? Tentação totalitária ? Fascismo sanitário ? Show off ? Propaganda ideológica ? Liberdade livre ?



Hoje, o Dr. Edmundo de Sá mandou-me um e-mail com os seguintes dizeres: "Amanhã pelas 22h vai haver mais um Prós e Contras na RTP1 sobre o Tabaco; convidaram-me para da plateia contar o caso da Aldeia Sem Tabaco; se tiver oportunidade veja o programa; pode ser que seja interessante".



Prometo, nesse dia, ligar o televisor, por consideração pelos ficalhenses e o seu médico de família. E a propósito do tabaco, eu não diria que ele mata; eu diria que ele também mata...



Contudo, receio que amanhã tabagistas e anti-tabagistas, mais uma vez, não consigam sair do gueto em que, uns e outros, estão confinados... Este tipo de debates, a partir de uma pergunta redutora que exige uma resposta dicotómica (sim ou não), corre sempre o risco de ser uma operação de puro terrorismo intelectual... Oxalá que não!

(Ex)citações de cada dia - I: O tabaco (também) mata

Em Outubro de 2000, abri nos Fóruns do Publico.pt > Cidadania, um tema de discussão que acabou por ter uma certa animação: Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco"... O essencial das minhas intervenções (e de outros cibernautas, devidamente seleccionadas) está disponível na minha página: Saúde e Trabalho > (Ex)citações de cada dia (Letras U-Z).

Aí comecei por registar a minha homenagem aos ficalhenses, gente perdida e esquecida na margem esquerda do Guadiana, na raia de Espanha... Homenagem pela adesão ao projecto "Aldeia sem Tabaco" mas também por acreditarem que rir fazia bem... à saúde!

Essa homenagem era extensiva a excelentes profissionais de saúde, como o Dr. Edmundo de Sá, que dirigia (e ainda hoje dirige) a extensão do Centro de Saúde de Serpa, em Vila Verde de Ficalho, e a sua pequena equipa (um enfermeiro e uma administrativa), bem como o Prof. Dr. Mário Bernardo, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

Na altura eu incluía na homenagem a Junta de Freguesia de V. V. Ficalho e outras pessoas e instituições locais e regionais que se tinham associado a uma iniciativa como aquela, aparentemente tão insólita, na área da promoção da saúde ... Entre outras actividades, eu referia a realização anual do Festival de Anedotas, o qual costumava juntar cerca de três centenas de pessoas que acreditavam que se podia e devia saber viver com saúde e com sentido de humor... em Portugal.

Ainda nos finais do ano de 2000 a "Aldeia Sem Tabaco" tinha tido honras mediáticas no programa diário Sic 10 horas, apresentado então por Júlia Pinheiro. Eram convidados, para além do Dr. Edmundo de Sá, médico de família e coordenador da equipa de saúde local, o actor Nicolau Breyner (natural de Serpa, e na altura um públicio & notório fumador de charutos) e mais 3 habitantes de Vila Verde de Ficalho, ex-fumadores.

Não se podia dizer então que o balanço de quase dois anos de vigência do programa fosse espectacular em termos de números: se bem percebi, (i) uma dúzia de pessoas terá deixado de fumar como resultado directo da implementação deste programa; (ii) não se sabia qual era percentagem de fumadores (podendo, no entanto, ser estimada em 25% a 30% numa população residente que não devia ultrapassar os 2 mil e poucos);(iii) mas o mais importante estava a ser o impacto do porgrama ao nível dos adolescentes em idade escolar. De facto, é nesta idade (por volta dos 15 anos) que o primeiro cigarro é o mais maléfico de todos os cigarros do resto das nossas vidas...

Recusando qualquer fundamentalismo antitabágico (o exemplo da América é, quanto a mim, o do fascismo sanitário), a equipa de saúde local, a junta de freguesia (que curiosamente era então presidida pelo enfermeiro da terra) e os apoiantes do programa "Vila Verde de Ficalho, a aldeia sem tabaco" eram, para mim, um exemplo efectivo e concreto do que é (e deve ser) a promoção da saúde comunitária.

Entendi que era um dever estudar, apoiar, acarinhar, acompanhar e divulgar iniciativas como esta. Um dever de todos aqueles que, como eu, gostariam de um dia poder escrever, nas paredes das fábricas ou dos escritórios onde trabalhamos ou nas paredes das casas onde vivemos o mais belo dos grafitos : "Aqui, como em Vila Verde de Ficalho, é a saúde do povo quem mais ordena". Utopia ? Tentação totalitária ? Fascismo sanitário ? Show off ? Propaganda ideológica ? Liberdade livre ?

Hoje, o Dr. Edmundo de Sá mandou-me um e-mail com os seguintes dizeres: "Amanhã pelas 22h vai haver mais um Prós e Contras na RTP1 sobre o Tabaco; convidaram-me para da plateia contar o caso da Aldeia Sem Tabaco; se tiver oportunidade veja o programa; pode ser que seja interessante".

Prometo, nesse dia, ligar o televisor, por consideração pelos ficalhenses e o seu médico de família. E a propósito do tabaco, eu não diria que ele mata; eu diria que ele também mata...

Contudo, receio que amanhã tabagistas e anti-tabagistas, mais uma vez, não consigam sair do gueto em que, uns e outros, estão confinados... Este tipo de debates, a partir de uma pergunta redutora que exige uma resposta dicotómica (sim ou não), corre sempre o risco de ser uma operação de puro terrorismo intelectual... Oxalá que não!

Tendências/Trends - I

Typical Situation



Por: Dave Matthews Band, EUA



A poesia e a música que os nossos filhos curtem...



Do álbum Under the Table and Dreaming,1994






Ten fingers we have each

Nine planets around the sun repeat

Eight ball is the last if you triumphant be

Seven oceans pummel the shores of the sea



It's a typical situation

In these typical times

Too many choices



Everybody's happy

Everybody's free

We'll keep the big door open

And everyone'll come around

Why are you different

Why are you that way

If you don't step in line

We'll lock you away



Six senses keeping

Five around a sense of self

Four seasons turn on and turn off

I can see three corners from this corner

Two is a perfect number

But one



Everybody's happy

Everybody's free

We'll keep the big door open

And everyone'll come around

Why are you different

Why are you that way

If you don't step in line

We'll lock you away



It's a typical situation

In these typical times

We can't do a thing about it



Tendências/Trends - I

Typical Situation

Por: Dave Matthews Band, EUA

A poesia e a música que os nossos filhos curtem...

Do álbum Under the Table and Dreaming,1994



Ten fingers we have each
Nine planets around the sun repeat
Eight ball is the last if you triumphant be
Seven oceans pummel the shores of the sea

It's a typical situation
In these typical times
Too many choices

Everybody's happy
Everybody's free
We'll keep the big door open
And everyone'll come around
Why are you different
Why are you that way
If you don't step in line
We'll lock you away

Six senses keeping
Five around a sense of self
Four seasons turn on and turn off
I can see three corners from this corner
Two is a perfect number
But one

Everybody's happy
Everybody's free
We'll keep the big door open
And everyone'll come around
Why are you different
Why are you that way
If you don't step in line
We'll lock you away

It's a typical situation
In these typical times
We can't do a thing about it

18 outubro 2003

Portugal sacro-profano - VII: A Lição de Salazar

O meu amigo Jorge Dupret fez-me chegar de Luanda alguns excertos de redacções de um Curso de Educação de Adultos, publicados originalmente no saudoso Diário de Lisboa, na sua edição de 1 de Novembro de 1963. Também encontrei, na Net, alguns desses excertos, divulgados na página de O Castanheirense, na rubrica "Rir dá Saúde"...



Eu sugiro que chamemos a esta peça antológica A Lição de Salazar, o dirigente político (lembram-se ?!) que achava que o portuga, na escola, não devia aprender mais do que ler, escrever e contar... Se o Professor Doutor Salazar ainda hoje fosse vivo e fosse a exame, seria ele certamente quem chumbaria, e não os pobres portugas que tiveram que aprender, tarde na vida, a dominar a língua materna...



SALAZAR



O Salazar fez estradas, fez pontes e até fez a minha professora. É um gajo porreiro!



A MINHA CASA



Gosto muito da minha casa, pois é lá que vivo com a minha patroa e é lá que fiz os meus filhos. Assim que saio do meu trabalho, vou logo para casa. O operário de hoje já não vai para a taberna embebedar-se e dar-se com esses gajos depois quando chigavam a casa davam porrada nas mulheres e se calhavam fazerem filhos nessa altura vinham doentes.



A PÁTRIA



A Pátria é a terra onde criam os nossos pais, os galos e os nossos irmãos. A Pátria é linda querida dos portugueses e dos nossos antepassados, e dos irmãos e dos nossos tios e avós. A Pátria é uma terra enorme e tem lá muitas igrejas e capelinhas e tabernas e lá vivem gente como na serra da estrela. Eu nunca fui à Pátria.



O INFANTE D. HENRIQUE



O Infante D. Henrique foi o primeiro rei de Portugal. O Infante D. Henrique descobriu três terras que são Madeiras e Açores. O Infante D. Henrique mais os Portugueses descobriram muitas terras com os mouros. O Infante D. Henrique foi primeiro casado com D. Filipa de Lencastre deixou cair o regaço de flores que D. Duarte beijou que eram de Stª Maria. O Infante estava a ver que nunca mais chegava ao Brasil por causa das carrancas do mar.



A REVOLUÇÃO DE 1640



A revolução de 1640 foi descoberta no reinado de Filipe III. A revolução de 1640 foram os portugueses que a descobriram. A revolução de 1640 durou muitos anos porque estiveram debaixo dos Filipes. Filipe III descobriu a guerra da

independência. Eu gosto muito da Revolução de 1640. A revolução de 1640 deu-se

para descobrirem o Miguel de Vasconcelos que estava num armário de papéis.



A CAÇA



A casa é um disporto. Para casar é preciso licença. Pode-se casar de duas maneiras à cachaporrada e à paulada mas à cachaporrada é mais perigoso. No tempo defeso não se pode casar. Quem casa sem licença vai preso.



A VACA



A vaca tem 4 partes: a dianteira e a traseira e depois o rabo ainda tem pelos. Debaixo da vaca está a leitaria. Com o rabo enxota as moscas. O marido da vaca

é o boi. Não dá leite por isso não é mamífero. Dos chifres preparam-se botões de madrepérola. A vaca é muito útil. Come-se por dentro e bebe-se por fora.



O LEITE



O leite é para nós bebermos. O leite faz queijo e manteiga. O leite é branco e eu gosto muito de leite. O leite vem dos animais que dão à gente. Os animais que dão leite são: a vaca, a cabra, a ovelha, os burros e o Sr. prior da Lata da Mourisca também dá leite mas é em pó.



Portugal sacro-profano - VII: A Lição de Salazar

O meu amigo Jorge Dupret fez-me chegar de Luanda alguns excertos de redacções de um Curso de Educação de Adultos, publicados originalmente no saudoso Diário de Lisboa, na sua edição de 1 de Novembro de 1963. Também encontrei, na Net, alguns desses excertos, divulgados na página de O Castanheirense, na rubrica "Rir dá Saúde"...

Eu sugiro que chamemos a esta peça antológica A Lição de Salazar, o dirigente político (lembram-se ?!) que achava que o portuga, na escola, não devia aprender mais do que ler, escrever e contar... Se o Professor Doutor Salazar ainda hoje fosse vivo e fosse a exame, seria ele certamente quem chumbaria, e não os pobres portugas que tiveram que aprender, tarde na vida, a dominar a língua materna...

SALAZAR

O Salazar fez estradas, fez pontes e até fez a minha professora. É um gajo porreiro!

A MINHA CASA

Gosto muito da minha casa, pois é lá que vivo com a minha patroa e é lá que fiz os meus filhos. Assim que saio do meu trabalho, vou logo para casa. O operário de hoje já não vai para a taberna embebedar-se e dar-se com esses gajos depois quando chigavam a casa davam porrada nas mulheres e se calhavam fazerem filhos nessa altura vinham doentes.

A PÁTRIA

A Pátria é a terra onde criam os nossos pais, os galos e os nossos irmãos. A Pátria é linda querida dos portugueses e dos nossos antepassados, e dos irmãos e dos nossos tios e avós. A Pátria é uma terra enorme e tem lá muitas igrejas e capelinhas e tabernas e lá vivem gente como na serra da estrela. Eu nunca fui à Pátria.

O INFANTE D. HENRIQUE

O Infante D. Henrique foi o primeiro rei de Portugal. O Infante D. Henrique descobriu três terras que são Madeiras e Açores. O Infante D. Henrique mais os Portugueses descobriram muitas terras com os mouros. O Infante D. Henrique foi primeiro casado com D. Filipa de Lencastre deixou cair o regaço de flores que D. Duarte beijou que eram de Stª Maria. O Infante estava a ver que nunca mais chegava ao Brasil por causa das carrancas do mar.

A REVOLUÇÃO DE 1640

A revolução de 1640 foi descoberta no reinado de Filipe III. A revolução de 1640 foram os portugueses que a descobriram. A revolução de 1640 durou muitos anos porque estiveram debaixo dos Filipes. Filipe III descobriu a guerra da
independência. Eu gosto muito da Revolução de 1640. A revolução de 1640 deu-se
para descobrirem o Miguel de Vasconcelos que estava num armário de papéis.

A CAÇA

A casa é um disporto. Para casar é preciso licença. Pode-se casar de duas maneiras à cachaporrada e à paulada mas à cachaporrada é mais perigoso. No tempo defeso não se pode casar. Quem casa sem licença vai preso.

A VACA

A vaca tem 4 partes: a dianteira e a traseira e depois o rabo ainda tem pelos. Debaixo da vaca está a leitaria. Com o rabo enxota as moscas. O marido da vaca
é o boi. Não dá leite por isso não é mamífero. Dos chifres preparam-se botões de madrepérola. A vaca é muito útil. Come-se por dentro e bebe-se por fora.

O LEITE

O leite é para nós bebermos. O leite faz queijo e manteiga. O leite é branco e eu gosto muito de leite. O leite vem dos animais que dão à gente. Os animais que dão leite são: a vaca, a cabra, a ovelha, os burros e o Sr. prior da Lata da Mourisca também dá leite mas é em pó.

17 outubro 2003

Portugal sacro-profano - VI: A poesia, meu estúpido!

Há tempos fizeram-me, pela enésima vez este ano, mais uma sondagem de opinião, pelo telefone, a perguntar, imaginem!, "se você fosse o Presidente da República, quem é que iria condecorar no 10 de Junho".... Respondi, ingenuamente: "Os poetas! No dez de Junho, deveríamos condecorar os poetas, os nossos poetas, que são o melhor de todos nós"....



É claro que daquela vez não ganhei o brinde, o invariável trem de cozinha ou o fabuloso fim-de-semana para dois num manhoso resort de Torremolinos... Paciência!... Esqueci-me foi de dizer à menina das sondagens que este país maltrata os seus poetas. Lembrei-me depois de um deles, o Ruy Belo, que morreu novo, e pobre, e maltratado, e esquecido. Dele sei este hino ao futuro e à (e)terna portugalidade, o único hino, de resto, que recito de cor quando o que vejo à minha volta me provoca o suficiente (des)contentamento (des)contente...



O Portugal futuro



O portugal futuro é um país

aonde o puro pássaro é possível

e sobre o leito negro do asfalto da estrada

as profundas crianças desenharão a giz

esse peixe da infância que vem na enxurrada

e me parece que se chama sável

Mas desenhem elas o que desenharem

é essa a forma do meu país

e chamem elas o que lhe chamarem

portugal será e lá serei feliz

Poderá ser pequeno como este

ter a oeste o mar e a espanha a leste

tudo nele será novo desde os ramos à raiz

A sombra dos plátanos as crianças dançarão

e na avenida que houver à beira-mar

pode o tempo mudar será verão

Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz

mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o portugal futuro



Homem de Palavra[s] (1969)

Portugal sacro-profano - VI: A poesia, meu estúpido!

Há tempos fizeram-me, pela enésima vez este ano, mais uma sondagem de opinião, pelo telefone, a perguntar, imaginem!, "se você fosse o Presidente da República, quem é que iria condecorar no 10 de Junho".... Respondi, ingenuamente: "Os poetas! No dez de Junho, deveríamos condecorar os poetas, os nossos poetas, que são o melhor de todos nós"....

É claro que daquela vez não ganhei o brinde, o invariável trem de cozinha ou o fabuloso fim-de-semana para dois num manhoso resort de Torremolinos... Paciência!... Esqueci-me foi de dizer à menina das sondagens que este país maltrata os seus poetas. Lembrei-me depois de um deles, o Ruy Belo, que morreu novo, e pobre, e maltratado, e esquecido. Dele sei este hino ao futuro e à (e)terna portugalidade, o único hino, de resto, que recito de cor quando o que vejo à minha volta me provoca o suficiente (des)contentamento (des)contente...

O Portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
A sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Homem de Palavra[s] (1969)

Portugal sacro-profano - V: A economia explicada às criancinhas

Não é fácil explicar o funcionamento da economia (ou, mais prosaica e familiarmente, do capitalismo) às criancinhas das nossas escolas... Felizmente, muitos dos nossos jovens e precários professores tem dado importantes contributos para esse grande desafio pedagógico, cívico e até patriótico, sabendo nós que elas, as criancinhas, são os futuros homens e mulheres do trabalho e do capital deste país... A seguir têm, @s car@s ciberamig@as, um exemplo de inovação pedagógica que consta de um dos manuais escolares, aprovados este ano para o 1º ciclo do ensino básico. Parabéns aos autores, editores, tutela, associações de pais e educadores e restante comunidade educativa.



O CAPITALISMO IDEAL:

Tens duas vacas. Vendes uma e compras um touro. Eles têm muitos bebés e a economia cresce. Vendes a quinta mais a manada, ganhas bué de papel e já te podes reformar!



O CAPITALISMO AMERICANO:

Tens duas cows. És um cowboy. Vendes uma e obrigas a outra a produzir o leite de quatro vacas. É claro que ela morre, no final do filme. Mas tu ficas desconfiado e chamas o FBI, não vá haver por aí a mãozinha dos inimigos da América, com o Bin Laden à cabeça (O tal do 11 de Setembro negro, lembram-se ?).



O CAPITALISMO FRANCÊS:

Tens duas vaches. Entras em greve porque querias ter três vaches, o que vai contra as orientações da PAC (Sabes o que é a PAC ? É a Política Agrícola Comum, que ninguém sabe o que é)... O capitalismo francês é vachement bête!



O CAPITALISMO CANADIANO:

Tens duas vacas (nuns sítios diz-se cows, noutros diz-se vaches). Usas o modelo do capitalismo americano. As vacas morrem. Então acusas o proteccionismo dos países do Terceiro Mundo. Depois adoptas medidas proteccionistas para ter as três vacas reivindicadas pelo capitalismo francês (Sabes o que é o Terceiro Mundo ? Se não sabes, pergunta à sotoura ou mete explicador ou vai à Internet)...



O CAPITALISMO JAPONÊS:

Tens duas vacas, importadas da América, e falta de espaço para pastagens. Desmontas as vacas. Voltas a montá-las. Fazes um checklist de todos os defeitos de fabrico. Redesenhas as duas vacas americanas para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite e de melhor qualidade. Depois fabricas bonecos electrónicos das vaquinhas, chamadas Vaquimons. Vais vendê-los para o mercado global. (‘Tás a haver as vantagens da globalização ? ! Sabes o que é a globalização ? ... Esquece, demora muito tempo a explicar).



O CAPITALISMO BRITÂNICO:

Tens duas vacas (também se diz cows). Logo por azar, as duas são loucas.



O CAPITALISMO HOLANDÊS:

Tens duas vacas (em holandês, vacalhonas). Elas não gostam de touros. Além disso, são contra as touradas de morte. Por isso decidiram viver juntas e estão curtindo numa boa (no sul de Espanha...).



O CAPITALISMO ALEMÃO:

Tens duas vacas. Elas produzem leite regularmente, dentro dos padrões de quantidade e qualidade definidos, em quintas certificadas. Religiosamente, a horas certas. A exploração é altamente lucrativa. Mas o que tu querias mesmo era criar porcos... para fazer salsichas.



O CAPITALISMO RUSSO:

Tens duas vacas. Conta-as e vês que tens 22. Contas de novo e vês que tens 112. Contas de novo e vês que agora só tens 12. Desistes de contar e abres outra garrafa de vodka.



O CAPITALISMO SUÍÇO:

Tens 500 vacas, mas nenhuma é tua. Cobras uma taxa para guardares as vacas dos outros.





O CAPITALISMO ESPANHOL:

És a pessoa mais orgulhosa do mundo porque tens duas vacas.



O CAPITALISMO ITALIANO:

Tens duas vacas... Uma delas é a tua mãe, a outra é tua sogra, maledetto!



O CAPITALISMO PORTUGUÊS:

Tens duas vacas, com o selo DOP (Denominação de Origem Protegida). Certificadíssimas. Mas reclamas contra o Governo porque: (i) a manada não cresce; (ii) as vacas têm uma produtividade inferior às das outras europeias; (iii) a Comissão Europeia diz que só podes ter uma ou então tens que pôr a outra num bordel espanhol.



O CAPITALISMO CHINÊS:

Tens duas vacas e as 300 pessoas da aldeia a mungi-las. Gabas-te de ter pleno emprego e alta produtividade. Prendes e aplicas a pena de morte ao contra-revolucionário que divulgou estes números (Além disso o chinoca andava a espalhar o vírus da pneumonia atípica)...



O CAPITALISMO HINDU:

Tens duas vacas. Sagradas. Ai de quem tocar nelas!



O CAPITALISMO ARGENTINO (1):

Tens duas vacas. Matas-te a ensiná-las a mugirem em inglês dos gringos. As vacas morrem. Entregas as carcaças ao FMI e passas o resto da vida a cantar "el tango de la desgracia" (Sabes o que é o FMI ? É o Robin dos Bosques ao contrário: tira aos pobres para dar aos ricos)...



O CAPITALISMO ARGENTINO (2):

Tens duas vacas e cada uma deve pagar os seguintes impostos e taxas: 21% de IVA, 3% de Imposto sobre Receitas Brutas, 1% para o Fundo de Desemprego, 5% para a Saúde, 8% de Imposto sobre a Antecipação dos Lucros, 5% para o Fundo dos Produtores de Leite, 1% para o Fundo da Promoção da Manteiga, 1% para o Fundo de Promoção dos Queijos Desnatados e o resto para o FMI... Ao fim de dois anos, matas as vacas e suicidas-te.



O CAPITALISMO BRASILEIRO:

Tens duas vacas e és um sem terra. Uma delas é roubada e a outra foi encontrada no mato. O governo criou a CCPV - Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e levanta-te um auto de notícia, por causa de falsas declarações relativas à CCPV. A Receita Federal (a Direcção-Geral dos Impostos lá do nosso país irmão) foi ao computador e, com base nos dados sobre o teu património e os teus sinais exteriores de riqueza (número de filhos, ocupações de terras, etc.), chega à conclusão que tu tens 200 vacas!... Ora toma, cabloco! Para te livrares desta encrenca, dás a vaca que te resta ao fiscal...



O CAPITALISMO OFF SHORE DA MADEIRA :

A Madeira é um jardim!... Tens duas vacas mas estão em nome do teu sobrinho que trabalha no casino e joga na bolsa. Vendes três para a empresa dele, que é de capital aberto e tem sede no off shore da Madeira. Usaste garantias de crédito emitidas pelo cunhado do teu primo que está na Venezuela. Depois fazes uma troca de dívidas por acções por meio de uma oferta geral associada, de forma que consegues todas as cinco vacas de volta, e para mais com isenção fiscal. Os direitos do leite das tuas seis vacas são transferidos para uma companhia das Ilhas Caimão, da qual o sócio maioritário és tu mas só o teu sobrinho é que sabe dessa cláusula secreta. Vendes os direitos das sete vacas novamente para a tua empresa. O relatório e contas do exercício de 2002, com o devido parecer dos revisores oficiais de contas e demais auditores, diz que a tua empresa possui oito vacas, com opção para mais uma. Vendes uma vaca para comprar o novo presidente da SAD do teu clube de futebol. És um homem de sucesso, com honras de telejornal. E agora ainda mais rico: acabas de vender ao Governo regional a m... que as vacas foram c... ao longo destes anos todos.

Portugal sacro-profano - V: A economia explicada às criancinhas

Não é fácil explicar o funcionamento da economia (ou, mais prosaica e familiarmente, do capitalismo) às criancinhas das nossas escolas... Felizmente, muitos dos nossos jovens e precários professores tem dado importantes contributos para esse grande desafio pedagógico, cívico e até patriótico, sabendo nós que elas, as criancinhas, são os futuros homens e mulheres do trabalho e do capital deste país... A seguir têm, @s car@s ciberamig@as, um exemplo de inovação pedagógica que consta de um dos manuais escolares, aprovados este ano para o 1º ciclo do ensino básico. Parabéns aos autores, editores, tutela, associações de pais e educadores e restante comunidade educativa.

O CAPITALISMO IDEAL:
Tens duas vacas. Vendes uma e compras um touro. Eles têm muitos bebés e a economia cresce. Vendes a quinta mais a manada, ganhas bué de papel e já te podes reformar!

O CAPITALISMO AMERICANO:
Tens duas cows. És um cowboy. Vendes uma e obrigas a outra a produzir o leite de quatro vacas. É claro que ela morre, no final do filme. Mas tu ficas desconfiado e chamas o FBI, não vá haver por aí a mãozinha dos inimigos da América, com o Bin Laden à cabeça (O tal do 11 de Setembro negro, lembram-se ?).

O CAPITALISMO FRANCÊS:
Tens duas vaches. Entras em greve porque querias ter três vaches, o que vai contra as orientações da PAC (Sabes o que é a PAC ? É a Política Agrícola Comum, que ninguém sabe o que é)... O capitalismo francês é vachement bête!

O CAPITALISMO CANADIANO:
Tens duas vacas (nuns sítios diz-se cows, noutros diz-se vaches). Usas o modelo do capitalismo americano. As vacas morrem. Então acusas o proteccionismo dos países do Terceiro Mundo. Depois adoptas medidas proteccionistas para ter as três vacas reivindicadas pelo capitalismo francês (Sabes o que é o Terceiro Mundo ? Se não sabes, pergunta à sotoura ou mete explicador ou vai à Internet)...

O CAPITALISMO JAPONÊS:
Tens duas vacas, importadas da América, e falta de espaço para pastagens. Desmontas as vacas. Voltas a montá-las. Fazes um checklist de todos os defeitos de fabrico. Redesenhas as duas vacas americanas para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite e de melhor qualidade. Depois fabricas bonecos electrónicos das vaquinhas, chamadas Vaquimons. Vais vendê-los para o mercado global. (‘Tás a haver as vantagens da globalização ? ! Sabes o que é a globalização ? ... Esquece, demora muito tempo a explicar).

O CAPITALISMO BRITÂNICO:
Tens duas vacas (também se diz cows). Logo por azar, as duas são loucas.

O CAPITALISMO HOLANDÊS:
Tens duas vacas (em holandês, vacalhonas). Elas não gostam de touros. Além disso, são contra as touradas de morte. Por isso decidiram viver juntas e estão curtindo numa boa (no sul de Espanha...).

O CAPITALISMO ALEMÃO:
Tens duas vacas. Elas produzem leite regularmente, dentro dos padrões de quantidade e qualidade definidos, em quintas certificadas. Religiosamente, a horas certas. A exploração é altamente lucrativa. Mas o que tu querias mesmo era criar porcos... para fazer salsichas.

O CAPITALISMO RUSSO:
Tens duas vacas. Conta-as e vês que tens 22. Contas de novo e vês que tens 112. Contas de novo e vês que agora só tens 12. Desistes de contar e abres outra garrafa de vodka.

O CAPITALISMO SUÍÇO:
Tens 500 vacas, mas nenhuma é tua. Cobras uma taxa para guardares as vacas dos outros.


O CAPITALISMO ESPANHOL:
És a pessoa mais orgulhosa do mundo porque tens duas vacas.

O CAPITALISMO ITALIANO:
Tens duas vacas... Uma delas é a tua mãe, a outra é tua sogra, maledetto!

O CAPITALISMO PORTUGUÊS:
Tens duas vacas, com o selo DOP (Denominação de Origem Protegida). Certificadíssimas. Mas reclamas contra o Governo porque: (i) a manada não cresce; (ii) as vacas têm uma produtividade inferior às das outras europeias; (iii) a Comissão Europeia diz que só podes ter uma ou então tens que pôr a outra num bordel espanhol.

O CAPITALISMO CHINÊS:
Tens duas vacas e as 300 pessoas da aldeia a mungi-las. Gabas-te de ter pleno emprego e alta produtividade. Prendes e aplicas a pena de morte ao contra-revolucionário que divulgou estes números (Além disso o chinoca andava a espalhar o vírus da pneumonia atípica)...

O CAPITALISMO HINDU:
Tens duas vacas. Sagradas. Ai de quem tocar nelas!

O CAPITALISMO ARGENTINO (1):
Tens duas vacas. Matas-te a ensiná-las a mugirem em inglês dos gringos. As vacas morrem. Entregas as carcaças ao FMI e passas o resto da vida a cantar "el tango de la desgracia" (Sabes o que é o FMI ? É o Robin dos Bosques ao contrário: tira aos pobres para dar aos ricos)...

O CAPITALISMO ARGENTINO (2):
Tens duas vacas e cada uma deve pagar os seguintes impostos e taxas: 21% de IVA, 3% de Imposto sobre Receitas Brutas, 1% para o Fundo de Desemprego, 5% para a Saúde, 8% de Imposto sobre a Antecipação dos Lucros, 5% para o Fundo dos Produtores de Leite, 1% para o Fundo da Promoção da Manteiga, 1% para o Fundo de Promoção dos Queijos Desnatados e o resto para o FMI... Ao fim de dois anos, matas as vacas e suicidas-te.

O CAPITALISMO BRASILEIRO:
Tens duas vacas e és um sem terra. Uma delas é roubada e a outra foi encontrada no mato. O governo criou a CCPV - Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e levanta-te um auto de notícia, por causa de falsas declarações relativas à CCPV. A Receita Federal (a Direcção-Geral dos Impostos lá do nosso país irmão) foi ao computador e, com base nos dados sobre o teu património e os teus sinais exteriores de riqueza (número de filhos, ocupações de terras, etc.), chega à conclusão que tu tens 200 vacas!... Ora toma, cabloco! Para te livrares desta encrenca, dás a vaca que te resta ao fiscal...

O CAPITALISMO OFF SHORE DA MADEIRA :
A Madeira é um jardim!... Tens duas vacas mas estão em nome do teu sobrinho que trabalha no casino e joga na bolsa. Vendes três para a empresa dele, que é de capital aberto e tem sede no off shore da Madeira. Usaste garantias de crédito emitidas pelo cunhado do teu primo que está na Venezuela. Depois fazes uma troca de dívidas por acções por meio de uma oferta geral associada, de forma que consegues todas as cinco vacas de volta, e para mais com isenção fiscal. Os direitos do leite das tuas seis vacas são transferidos para uma companhia das Ilhas Caimão, da qual o sócio maioritário és tu mas só o teu sobrinho é que sabe dessa cláusula secreta. Vendes os direitos das sete vacas novamente para a tua empresa. O relatório e contas do exercício de 2002, com o devido parecer dos revisores oficiais de contas e demais auditores, diz que a tua empresa possui oito vacas, com opção para mais uma. Vendes uma vaca para comprar o novo presidente da SAD do teu clube de futebol. És um homem de sucesso, com honras de telejornal. E agora ainda mais rico: acabas de vender ao Governo regional a m... que as vacas foram c... ao longo destes anos todos.

Estórias com mural ao fundo - XIII: A nova Cinderela contada às criancinhas do Séc. XXI

Há bué da taime havia uma garina cujo cota já tinha esticado o pernil e que vivia com a chunga da madrasta e as melgas das filhas dela. A Cinderela, Cindy p'ras amigas, parecia que vivia na prisa, sem tempo sequer p’ra enviar uns meiles. Com este desatino só lhe apetecia dar de frosques, porque a madrasta fazia-lhe bué de cenas. Foi então que a Cindy fica a saber da alta desbunda que ia acontecer:

- Uma party!



A gaja curtiu logo a ideia, mas as outras chavalas cortaram-lhe as bases. Ela ficou completamente passadunte, mas depois de andar à toa num coche, apareceu-lhe uma fada baril que lhe abichou uma farda baita bacana e ela ficou a parecer uma ganda febra. Só que ela só se podia afiambrar da cena até ao bater da 12 badaladas da midnaite. A tipa mordeu o esquema e foi pra a borga sempre a abrir, tás a ver. Ao entrar na party topou um mano cheio de papel, que era bom comó milho e que logo ali a galou. Aí a Cindy passou-se dos carretos e desbundaram.



Ía a naite muita louca até que ao ouvir as doze badaladas do sino ela teve de se axandrar e bazou. O mitra ficou completamente abardinado quando ela deu de frosques e foi atrás dela, mas só encontrou pelo caminho o chanato da dama. No dia seguinte, com uma alta fezada, meteu-se nos calcantes e foi à procura de um chispe que entrasse no dito chanato. Como era um alta cromo, teve uma vaca descomunal e encontrou a maluca, para ganda desatino das outras fatelas que tiveram um ganda vaipe quando souberam que eles iam juntar os trapinhos.



No final da cena, vemos a garina e o chavalo a curtirem largo. Diz a história que foram bué de felizes e tiveram bué de chavalitos e chavalitas.



Moral da história:

Fogo!, agora é que a gente vê como eram sensaboronas (leia-se: sem sal nem pimenta) as histórias da carochinha que as nossas avozinhas nos contavam quando éramos chavalitos!... Também nesse tempo não havia reality shows... nem electricidade... nem televisão... nem playstations... nem internet! Fogo, não havia mesmo nada!

Estórias com mural ao fundo - XIII: A nova Cinderela contada às criancinhas do Séc. XXI

Há bué da taime havia uma garina cujo cota já tinha esticado o pernil e que vivia com a chunga da madrasta e as melgas das filhas dela. A Cinderela, Cindy p'ras amigas, parecia que vivia na prisa, sem tempo sequer p’ra enviar uns meiles. Com este desatino só lhe apetecia dar de frosques, porque a madrasta fazia-lhe bué de cenas. Foi então que a Cindy fica a saber da alta desbunda que ia acontecer:
- Uma party!

A gaja curtiu logo a ideia, mas as outras chavalas cortaram-lhe as bases. Ela ficou completamente passadunte, mas depois de andar à toa num coche, apareceu-lhe uma fada baril que lhe abichou uma farda baita bacana e ela ficou a parecer uma ganda febra. Só que ela só se podia afiambrar da cena até ao bater da 12 badaladas da midnaite. A tipa mordeu o esquema e foi pra a borga sempre a abrir, tás a ver. Ao entrar na party topou um mano cheio de papel, que era bom comó milho e que logo ali a galou. Aí a Cindy passou-se dos carretos e desbundaram.

Ía a naite muita louca até que ao ouvir as doze badaladas do sino ela teve de se axandrar e bazou. O mitra ficou completamente abardinado quando ela deu de frosques e foi atrás dela, mas só encontrou pelo caminho o chanato da dama. No dia seguinte, com uma alta fezada, meteu-se nos calcantes e foi à procura de um chispe que entrasse no dito chanato. Como era um alta cromo, teve uma vaca descomunal e encontrou a maluca, para ganda desatino das outras fatelas que tiveram um ganda vaipe quando souberam que eles iam juntar os trapinhos.

No final da cena, vemos a garina e o chavalo a curtirem largo. Diz a história que foram bué de felizes e tiveram bué de chavalitos e chavalitas.

Moral da história:
Fogo!, agora é que a gente vê como eram sensaboronas (leia-se: sem sal nem pimenta) as histórias da carochinha que as nossas avozinhas nos contavam quando éramos chavalitos!... Também nesse tempo não havia reality shows... nem electricidade... nem televisão... nem playstations... nem internet! Fogo, não havia mesmo nada!

Estórias com mural ao fundo - XII: Engenheiros e gestores

Um turista caminha, sozinho, por uma rua numa típica vila do Baixo Alentejo, de casas térreas, obsessivamente caiadas de branco. Ao desembocar na praça central, deserta, dá conta da inesperada presença de um balão de ar quente, alguns metros acima da sua cabeça. No cesto desse balão há alguém que lhe acena, alvoraçadamente.



Perante o insólito da cena, e movido pela curiosidade e pelo pedido de ajuda, ele aproxima-se do balão, procurando ouvir o piloto que lhe grita:



- Desculpe, senhor, acha que poderia ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontraria com ele às duas da tarde, porém já são duas e meia e o problema é que nem sei onde me encontro!



O homem, com ar de turista, respondeu ao do balão, com cortesia:

- Claro que posso ajudá-lo! Você encontra-se num balão de ar quente, flutuando a uns vinte metros acima duma praça, com jardim e calçada portuguesa. Está a trinta e oito graus de latitude norte e a oito graus de longitude oeste...



O homem do balão responde-lhe com um sorriso:

- Amigo, você por acaso não é Engenheiro ?!

- Sou, sim senhor, ao seu dispor! Mas já agora... como conseguiu adivinhar logo à primeira?

- Porque tudo o que você me disse está matemática e tecnicamente correcto; e, no entanto, essa informação é-me totalmente inútil, pois continuo perdido e atrasado para o meu encontro!...



O engenheiro ficou calado, por alguns breves segundos, para logo a seguir retorquir:

- E você, por acaso, não é Gestor ?

- Como descobriu ? E eu a pensar que passava incólume e anónimo...

- Ah!, foi muito fácil! Em primeiro lugar, o sr. Gestor não sabe onde está nem para onde vai; em segundo lugar, fez uma promessa da qual não tem a mínima ideia de como a irá cumprir; em terceiro lugar, está à espera que outra pessoa resolva o seu problema. E, last but not the least, fez do Engenheiro o bode expiatório. De facto, continua exactamente tão perdido quanto estava antes de me encontrar; porém agora, por um estranho capricho, a culpa passou a ser toda minha!...



Moral da história:



A falta de produtividade e competividade das empresas portuguesas não é, seguramente, um problema nem de engenharia nem de gestão, o mesmo é dizer, de hardware e software... Por exclusão de partes, só pode ser um problema de humanware.

Estórias com mural ao fundo - XII: Engenheiros e gestores

Um turista caminha, sozinho, por uma rua numa típica vila do Baixo Alentejo, de casas térreas, obsessivamente caiadas de branco. Ao desembocar na praça central, deserta, dá conta da inesperada presença de um balão de ar quente, alguns metros acima da sua cabeça. No cesto desse balão há alguém que lhe acena, alvoraçadamente.

Perante o insólito da cena, e movido pela curiosidade e pelo pedido de ajuda, ele aproxima-se do balão, procurando ouvir o piloto que lhe grita:

- Desculpe, senhor, acha que poderia ajudar-me? Prometi a um amigo que me encontraria com ele às duas da tarde, porém já são duas e meia e o problema é que nem sei onde me encontro!

O homem, com ar de turista, respondeu ao do balão, com cortesia:
- Claro que posso ajudá-lo! Você encontra-se num balão de ar quente, flutuando a uns vinte metros acima duma praça, com jardim e calçada portuguesa. Está a trinta e oito graus de latitude norte e a oito graus de longitude oeste...

O homem do balão responde-lhe com um sorriso:
- Amigo, você por acaso não é Engenheiro ?!
- Sou, sim senhor, ao seu dispor! Mas já agora... como conseguiu adivinhar logo à primeira?
- Porque tudo o que você me disse está matemática e tecnicamente correcto; e, no entanto, essa informação é-me totalmente inútil, pois continuo perdido e atrasado para o meu encontro!...

O engenheiro ficou calado, por alguns breves segundos, para logo a seguir retorquir:
- E você, por acaso, não é Gestor ?
- Como descobriu ? E eu a pensar que passava incólume e anónimo...
- Ah!, foi muito fácil! Em primeiro lugar, o sr. Gestor não sabe onde está nem para onde vai; em segundo lugar, fez uma promessa da qual não tem a mínima ideia de como a irá cumprir; em terceiro lugar, está à espera que outra pessoa resolva o seu problema. E, last but not the least, fez do Engenheiro o bode expiatório. De facto, continua exactamente tão perdido quanto estava antes de me encontrar; porém agora, por um estranho capricho, a culpa passou a ser toda minha!...

Moral da história:

A falta de produtividade e competividade das empresas portuguesas não é, seguramente, um problema nem de engenharia nem de gestão, o mesmo é dizer, de hardware e software... Por exclusão de partes, só pode ser um problema de humanware.

15 outubro 2003

Portugal sacro-profano - IV: Quando eu for grande quero ser médico

1. A anedota do regime:



Conversa entre o filho de um ministro e a filha de outro ministro:

- Tens um minuto?

- Sim, claro.

- Decidi ir para Medicina.

- Decidiste ir para Medicina... Assim?!

- ... Sim!

- Mas, ouve lá, falaste com o teu Pai ?

- Não! Falei com o teu.



2. A nova doutrina do "a-uma-situação-excepcional-um-tratamento-excepcional"



Ser ou não filh@ de algo, eis a questão (?)... Circulam pela Net, descaradamente, em formato.pdf, os documentos relativos à famosa decisão do governante que, do alto do seu cadeirão, decidiu legiferar, criando uma nova doutrina: "A uma situação excepcional, um tratamento excepcional".



Como foram parar à Net, não sei. São quatro: o requerimento de D. ao Sr. Ministro; o certificado de habilitações literárias de D.; o despacho do Sr. Ministro; a resposta do Sr. Director-Geral à requerente... De segredos de Estado passaram a segredos de Polichinelo. De qualquer modo, reconheço que a sua divulgação viola a privacidade de pelo menos uma cidadã. Outros nomes são públicos & notórios, o ministro (aliás, ex) e o seu director-geral. A própria cidadã é hoje, malgré elle, uma figura pública.

O que lhe dizer, em jeito de consolo ? Ora, minha querida D., não são apenas os media clássicos (a televisão, a rádio, os jornais...) que são predadores, a ciberdemocracia também é cruel, não respeitando nomeadamente os teus direitos de personalidade. Mas quem se expõe, cara cidadã, fica a descoberto... E quem mais perdeu nesta história foste tu, que querias estudar no teu país e ser médica!



Este caso não deixa de ser edificante para a reflexão da relação do cidadão com o Estado e para a própria prática da cidadania. Não sei se para os juristas isto é um belíssimo caso, não sei se vai tornar-se um case-study, não sei se se vão escrever grandes tratados sobre o famigerado despacho...



Felizmente somos um país feliz, e "um país feliz não tem história" (lá diz o provérbio popular). De facto, há quem pense que tudo isto não passou de um faits divers e, como tal, faz apenas parte da petite histoire ou do anedotário nacional. No fim tudo acabou em bem, como nos contos de fadas: desta vez os xico-espertos ficaram mal no filme... O Zé Povinho, que não é menos cruel que os ciberabutres, assobiou e pateou...



3. Uma profissão sem prestígio até à alvorada do Séc. XX



Cinco anos depois da grande reforma pombalina da Universidade de Coimbra, em 1772, justamente quando a estrela política de Pombal se apagava, escrevia o reitor (citado por Pina, 1938) que a faculdade de medicina era "pouco frequentada por quem tem meios de preparar-se para outros destinos mais bem reputados no conceito dos Povos" (sic) e "pela maior parte abandonada a estudantes mizeraveis e pobres" (sic). Na época, o estatuto socioeconómico do estudante universitário media-se pelo número de criados e de cavalos (ou mulas) ao seu serviço (Daí talvez o sentido irónico do provérrbio "Doutor da mula ruça").



Desde a sua criação, nos finais do Séc. XIII até à reforma pombalina de 1772, o curso de medicina sempre fôra pouco procurado:



(i) Três anos depois da instalação definitiva da universidade na cidade de Coimbra (1537), os estudantes de medicina eram apenas 10 num total de 642, ou seja, menos de 2% (Mira, 1947: 83);



(ii) Cento e setenta anos mais tarde, a proporção de alunos inscritos em medicina continuava a ser a mais baixa de todos os cursos: ao tempo em que o grande Ribeiro Sanches andou por Coimbra (1716/19), o total de matrículas em medicina, no correspondente quinquénio (1714/19), era de 466 (93, em média, por ano), o que representava apenas 5.7% do total dos alunos matriculados nas quatro faculdades (8136), nesse período;



(iii) As restantes matrículas distribuíam-se do seguinte modo: 77.6% em cânones (6315); 9.7% em leis (790); e 6.9% em teologia (565).



... Na alvorada do Séc., na Assembleia Constuinte de 1911, os médicos eram, curiosamente, o grupo profissional que estava mais representado, à frente dos militares e dos juristas... Sinais dos tempos!



Fonte: Graça, L. (1999) - A reforma pombalina dos estudos de 1772





4. Sacrificar os "verdes anos" para se ser médico



O que me preocupa na actual geração de estudantes de medicina não é tanto a quantidade como a qualidade dos médicos que vamos no futuro... Temos hoje um sistema reconhecidamente iníquo de selecção, baseado na "meritocracia" (o acesso atrvés das notas mais altas!), que pode ter consequências desvastadoras para todos: o estudante, o futuro médico, o sistema de saúde, os utentes/doentes, o país... Embora correndo o risco das generalizações abusivas, receio bem que os jovens médicos que estão a sair das nossas faculdades de medicina sejam pessoas que não tiveram adolescência ou não chegaram a completar a adolescência: sobretudo não tiveram tempo de ir à discoteca, de ler um livro de poesia ou um romance, de ir a um concerto de música ou a uma exposição de pintura, de visitar um museu, de viajar pela Europa for a (à boleia ou no interrail, como os seus pais), de namorar, de fazer asneiras (“desbundar”), de fugir de casa, em suma, de viver os "verdes anos".



Desde os 15 anos (ou desde o 10º ano do ensino secundário), pelo menos, os pobres rapazes e raparigas candidatos a especialidstas médicos passam pelo menos uma década e meia (até aos 28, 29, 30) a "marrar" (leia-se: a empinar milhares de fotocópias de compêndios!). Claro que há as honrosas excepções que salvam sempre a honra do convento...



O que é que tradicionalmente se valoriza no nosso sistema de ensino ? O gosto pela investigação científica ou o desenvolvimento tecnológico? A cidadania ? A cultura ? O saber ? O desenvolvimento pessoal ? A aventura intelectual ? A ética do trabalho, a deontologia profissional ? Nada disso: Receio que se premeie, antes de mais, a memória de elefante e a cultura de papagaio, além da capacidade de resistência dos grandes corredores de fundo!



É claro que o problema não é exclusivo da formação médica... Mas já dizia Abel Salazar, um grande médico e humanista português do Séc. XX: "Quem só sabe de medicina, não sabe de medicina nem sabe de nada"... Pode dizer-se o mesmo do direito, da engenharia, de sociologia ou de gestão. Honra se faça às nossas faculdades de medicina (e, nomeadamente, as mais recentes) que, apesar de tudo, se têm aberto ao ensino das ciências não-médicas, incluindo as ciências sociais e humanas...



Há uma revolução cultural, científica e pedagógica que está por fazer na nossa universidade. Seiscentos anos depois da sua criação (em finais do Séc. XIII), ainda não é fácil às nossas faculdades de medicina libertarem-se da “ganga” do ensino escolástico e sebenteiro.



Entretanto, a reforma da educação médica de que tanto se fala há anos é mais um parto doloroso e difícil. E não basta, meus senhores, acrescentar aos cadeirões biomédicos, uns pozinhos de sociologia, de psicologia, de economia e de saúde pública!



O que me preocupa é o perfil (humano...) do médico que estamos a preparar para o futuro. Não sei quantos jovens estudantes ficam pelo caminho, têm esgotamentos, passam por crises de depressão ou pensam em suicidar-se. Dir-me-ão que o problema não é especificamente português.



De qualquer modo, o que me preocupa é o risco de termos um jovem velho médico, aos trinta anos (e "aos trinta anos quem não é louco, é médico", diz o provérbio). Um jovem velho médico que não sabe ser nem sabe estar... não apenas como pessoa, como cidadão, como homem ou como mulher mas também como trabalhador da saúde.



Porque o nosso ensino é ainda, em parte, baseado no modelo do "mero acumulador de conhecimentos". Daí também a grande frustação de muitos médicos da geração do pós-25 de Abril que descobrem, algo tardiamente, que há coisas muitíssimo mais interessantes e fascinantes na vida do que estudar e praticar medicina. Quanto à actual geração, uma elite muito restrista, ligada à medicina mais tecnicista e economicamente rentável, terá porventura alguma chance de conhecer a fama e a glória (e ter o respectivo porveito). Para os outros, a grande maioria dos médicos, as expectativas de plena realização pessoal e profissional serão bem mais difíceis de satisfazer. Mas eu, que se calhar estava em dia não quando escrevi esta prosa, espero bem enganar-me a respeito deste cenário pessimista...

Portugal sacro-profano - IV: Quando eu for grande quero ser médico

1. A anedota do regime:

Conversa entre o filho de um ministro e a filha de outro ministro:
- Tens um minuto?
- Sim, claro.
- Decidi ir para Medicina.
- Decidiste ir para Medicina... Assim?!
- ... Sim!
- Mas, ouve lá, falaste com o teu Pai ?
- Não! Falei com o teu.

2. A nova doutrina do "a-uma-situação-excepcional-um-tratamento-excepcional"

Ser ou não filh@ de algo, eis a questão (?)... Circulam pela Net, descaradamente, em formato.pdf, os documentos relativos à famosa decisão do governante que, do alto do seu cadeirão, decidiu legiferar, criando uma nova doutrina: "A uma situação excepcional, um tratamento excepcional".

Como foram parar à Net, não sei. São quatro: o requerimento de D. ao Sr. Ministro; o certificado de habilitações literárias de D.; o despacho do Sr. Ministro; a resposta do Sr. Director-Geral à requerente... De segredos de Estado passaram a segredos de Polichinelo. De qualquer modo, reconheço que a sua divulgação viola a privacidade de pelo menos uma cidadã. Outros nomes são públicos & notórios, o ministro (aliás, ex) e o seu director-geral. A própria cidadã é hoje, malgré elle, uma figura pública.
O que lhe dizer, em jeito de consolo ? Ora, minha querida D., não são apenas os media clássicos (a televisão, a rádio, os jornais...) que são predadores, a ciberdemocracia também é cruel, não respeitando nomeadamente os teus direitos de personalidade. Mas quem se expõe, cara cidadã, fica a descoberto... E quem mais perdeu nesta história foste tu, que querias estudar no teu país e ser médica!

Este caso não deixa de ser edificante para a reflexão da relação do cidadão com o Estado e para a própria prática da cidadania. Não sei se para os juristas isto é um belíssimo caso, não sei se vai tornar-se um case-study, não sei se se vão escrever grandes tratados sobre o famigerado despacho...

Felizmente somos um país feliz, e "um país feliz não tem história" (lá diz o provérbio popular). De facto, há quem pense que tudo isto não passou de um faits divers e, como tal, faz apenas parte da petite histoire ou do anedotário nacional. No fim tudo acabou em bem, como nos contos de fadas: desta vez os xico-espertos ficaram mal no filme... O Zé Povinho, que não é menos cruel que os ciberabutres, assobiou e pateou...

3. Uma profissão sem prestígio até à alvorada do Séc. XX

Cinco anos depois da grande reforma pombalina da Universidade de Coimbra, em 1772, justamente quando a estrela política de Pombal se apagava, escrevia o reitor (citado por Pina, 1938) que a faculdade de medicina era "pouco frequentada por quem tem meios de preparar-se para outros destinos mais bem reputados no conceito dos Povos" (sic) e "pela maior parte abandonada a estudantes mizeraveis e pobres" (sic). Na época, o estatuto socioeconómico do estudante universitário media-se pelo número de criados e de cavalos (ou mulas) ao seu serviço (Daí talvez o sentido irónico do provérrbio "Doutor da mula ruça").

Desde a sua criação, nos finais do Séc. XIII até à reforma pombalina de 1772, o curso de medicina sempre fôra pouco procurado:

(i) Três anos depois da instalação definitiva da universidade na cidade de Coimbra (1537), os estudantes de medicina eram apenas 10 num total de 642, ou seja, menos de 2% (Mira, 1947: 83);

(ii) Cento e setenta anos mais tarde, a proporção de alunos inscritos em medicina continuava a ser a mais baixa de todos os cursos: ao tempo em que o grande Ribeiro Sanches andou por Coimbra (1716/19), o total de matrículas em medicina, no correspondente quinquénio (1714/19), era de 466 (93, em média, por ano), o que representava apenas 5.7% do total dos alunos matriculados nas quatro faculdades (8136), nesse período;

(iii) As restantes matrículas distribuíam-se do seguinte modo: 77.6% em cânones (6315); 9.7% em leis (790); e 6.9% em teologia (565).

... Na alvorada do Séc., na Assembleia Constuinte de 1911, os médicos eram, curiosamente, o grupo profissional que estava mais representado, à frente dos militares e dos juristas... Sinais dos tempos!

Fonte: Graça, L. (1999) - A reforma pombalina dos estudos de 1772


4. Sacrificar os "verdes anos" para se ser médico

O que me preocupa na actual geração de estudantes de medicina não é tanto a quantidade como a qualidade dos médicos que vamos no futuro... Temos hoje um sistema reconhecidamente iníquo de selecção, baseado na "meritocracia" (o acesso atrvés das notas mais altas!), que pode ter consequências desvastadoras para todos: o estudante, o futuro médico, o sistema de saúde, os utentes/doentes, o país... Embora correndo o risco das generalizações abusivas, receio bem que os jovens médicos que estão a sair das nossas faculdades de medicina sejam pessoas que não tiveram adolescência ou não chegaram a completar a adolescência: sobretudo não tiveram tempo de ir à discoteca, de ler um livro de poesia ou um romance, de ir a um concerto de música ou a uma exposição de pintura, de visitar um museu, de viajar pela Europa for a (à boleia ou no interrail, como os seus pais), de namorar, de fazer asneiras (“desbundar”), de fugir de casa, em suma, de viver os "verdes anos".

Desde os 15 anos (ou desde o 10º ano do ensino secundário), pelo menos, os pobres rapazes e raparigas candidatos a especialidstas médicos passam pelo menos uma década e meia (até aos 28, 29, 30) a "marrar" (leia-se: a empinar milhares de fotocópias de compêndios!). Claro que há as honrosas excepções que salvam sempre a honra do convento...

O que é que tradicionalmente se valoriza no nosso sistema de ensino ? O gosto pela investigação científica ou o desenvolvimento tecnológico? A cidadania ? A cultura ? O saber ? O desenvolvimento pessoal ? A aventura intelectual ? A ética do trabalho, a deontologia profissional ? Nada disso: Receio que se premeie, antes de mais, a memória de elefante e a cultura de papagaio, além da capacidade de resistência dos grandes corredores de fundo!

É claro que o problema não é exclusivo da formação médica... Mas já dizia Abel Salazar, um grande médico e humanista português do Séc. XX: "Quem só sabe de medicina, não sabe de medicina nem sabe de nada"... Pode dizer-se o mesmo do direito, da engenharia, de sociologia ou de gestão. Honra se faça às nossas faculdades de medicina (e, nomeadamente, as mais recentes) que, apesar de tudo, se têm aberto ao ensino das ciências não-médicas, incluindo as ciências sociais e humanas...

Há uma revolução cultural, científica e pedagógica que está por fazer na nossa universidade. Seiscentos anos depois da sua criação (em finais do Séc. XIII), ainda não é fácil às nossas faculdades de medicina libertarem-se da “ganga” do ensino escolástico e sebenteiro.

Entretanto, a reforma da educação médica de que tanto se fala há anos é mais um parto doloroso e difícil. E não basta, meus senhores, acrescentar aos cadeirões biomédicos, uns pozinhos de sociologia, de psicologia, de economia e de saúde pública!

O que me preocupa é o perfil (humano...) do médico que estamos a preparar para o futuro. Não sei quantos jovens estudantes ficam pelo caminho, têm esgotamentos, passam por crises de depressão ou pensam em suicidar-se. Dir-me-ão que o problema não é especificamente português.

De qualquer modo, o que me preocupa é o risco de termos um jovem velho médico, aos trinta anos (e "aos trinta anos quem não é louco, é médico", diz o provérbio). Um jovem velho médico que não sabe ser nem sabe estar... não apenas como pessoa, como cidadão, como homem ou como mulher mas também como trabalhador da saúde.

Porque o nosso ensino é ainda, em parte, baseado no modelo do "mero acumulador de conhecimentos". Daí também a grande frustação de muitos médicos da geração do pós-25 de Abril que descobrem, algo tardiamente, que há coisas muitíssimo mais interessantes e fascinantes na vida do que estudar e praticar medicina. Quanto à actual geração, uma elite muito restrista, ligada à medicina mais tecnicista e economicamente rentável, terá porventura alguma chance de conhecer a fama e a glória (e ter o respectivo porveito). Para os outros, a grande maioria dos médicos, as expectativas de plena realização pessoal e profissional serão bem mais difíceis de satisfazer. Mas eu, que se calhar estava em dia não quando escrevi esta prosa, espero bem enganar-me a respeito deste cenário pessimista...