1. Este ano, ante o assédio pornográfico do Pai Natal, deu-me na veneta mandar imagens de grutas para @s ciberamig@s da minha mailing lista de gente gira (leia-se: bem humorada). Imagens que transmitissem um sentimento de pureza, silêncio, quietude, poesia, natureza, liberdade livre...
Imagens para gente esquecer: (i) o lado feio deste mundo, (ii) o Bush, o Saddam e os seus clones, (iii) o consumo compulsivo, (iv) a poluição estética dos nossos antros comerciais, (v) etc., etc., incluindo a tristeza dos subúrbios onde a gente dorme. Imagens para a gente reconciliar-se com o verdadeiro Natal. O da nossa infância. Ou pelo menos o da minha infância... O Natal simples das pessoas simples, a que eu sempre associo a imagem da gruta, da lapinha, do presépio...
Esqueçamos por uns breves segundos a lista das compras que ainda falta fazer até à véspera da consoada-do-bacalhau-com-grelhos-e-bolo-rei e o stresse festivaleiro destes dias... Ah!, e cuidado com o castrol!!!
Se o corpo aguentar e o cibertráfico não entupir (o Clix já me está está a clixar com ameaças de ciberrengarrafamentos nestes próximos dias...), aqui ficam, de reserva, para o que der e vier, as minhas melhores cibersaudações natalícias. É da praxe, e eu gosto de cumprir a tradição. Afinal sou um gajo minimamente civilizado.
Car@s Ciberamig@s: Qualquer que seja o vosso Natal (cristão, pagão, ateu, consumista, materialista dialéctico, neoliberal, capitalista, conservador, judeu, muçulmano, budista ou ene-ista qualquer coisa), que ele nos purifique, tonifique e inspire a todos.
A tod@s vocês, car@s ciberamig@s, onde quer que estejam no ciberespaço eu desejo que continuem, ao longo de 2004, a serem @s ciberamig@s que eu sempre conheci: activ@s, produtiv@s, saudáveis, bem dispost@s, razoavelmente bem humorad@s, irreverentes q.b., crític@s (sempre) mas também amig@s (vez em quando) deste ciberamigo.
A Paula merece um brinde especial por que é uma fornecedora especial da minha ciberloja... E o Pena Luís não lhe fica atrás. Mas também o Anacleto, a Marta, os Manéis (Madeira, Salselas), os Mários (Madureira, Faria), o Paulo, a Mariana, a Susana, a Sandra... E ainda a AIG, o Álvaro, a Antónia, o Carlos, o Filipe, o Hugo, o Jaime, a Joana, o (Padre) Jakim, a Zezinha, o Zé Cardoso, tudo moiros & morcões do melhor. Portugas, acima de tudo e de todos. Façam o favor de serem felizes!
2. E depois há os querid@s amig@s com criancinhas! Ora, para todos vocês que têm criancinhas, incluindo os pais das criancinhas que ainda não pararam de crescer, mais @s man@s das criancinhas que se recusam a crescer...
A gente deseja-vos tudo o que há de bom neste mundo, desde que não vos faça mal, a vocês e às criancinhas... Façam o favor de, no mínimo, se divertirem, as criancinhas, os manos e os pais... A gente vai tentar e depois diz como foi. Muitos bjs e chicorações, que a quadra natalícia é propícia para estes doces eflúvios emocionais. (Mensagem de família).
http://web.icq.com/shockwave/0,,4845,00.swf
PS - Isto não é um assalto, é uma orquestra adhoc... É favor de clicar na rapaziada toda. Sem som, não tem piada nenhuma...
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
20 dezembro 2003
Car@s ciberamig@s - III: Cibersaudações natalícias
1. Este ano, ante o assédio pornográfico do Pai Natal, deu-me na veneta mandar imagens de grutas para @s ciberamig@s da minha mailing lista de gente gira (leia-se: bem humorada). Imagens que transmitissem um sentimento de pureza, silêncio, quietude, poesia, natureza, liberdade livre...
Imagens para gente esquecer: (i) o lado feio deste mundo, (ii) o Bush, o Saddam e os seus clones, (iii) o consumo compulsivo, (iv) a poluição estética dos nossos antros comerciais, (v) etc., etc., incluindo a tristeza dos subúrbios onde a gente dorme. Imagens para a gente reconciliar-se com o verdadeiro Natal. O da nossa infância. Ou pelo menos o da minha infância... O Natal simples das pessoas simples, a que eu sempre associo a imagem da gruta, da lapinha, do presépio...
Esqueçamos por uns breves segundos a lista das compras que ainda falta fazer até à véspera da consoada-do-bacalhau-com-grelhos-e-bolo-rei e o stresse festivaleiro destes dias... Ah!, e cuidado com o castrol!!!
Se o corpo aguentar e o cibertráfico não entupir (o Clix já me está está a clixar com ameaças de ciberrengarrafamentos nestes próximos dias...), aqui ficam, de reserva, para o que der e vier, as minhas melhores cibersaudações natalícias. É da praxe, e eu gosto de cumprir a tradição. Afinal sou um gajo minimamente civilizado.
Car@s Ciberamig@s: Qualquer que seja o vosso Natal (cristão, pagão, ateu, consumista, materialista dialéctico, neoliberal, capitalista, conservador, judeu, muçulmano, budista ou ene-ista qualquer coisa), que ele nos purifique, tonifique e inspire a todos.
A tod@s vocês, car@s ciberamig@s, onde quer que estejam no ciberespaço eu desejo que continuem, ao longo de 2004, a serem @s ciberamig@s que eu sempre conheci: activ@s, produtiv@s, saudáveis, bem dispost@s, razoavelmente bem humorad@s, irreverentes q.b., crític@s (sempre) mas também amig@s (vez em quando) deste ciberamigo.
A Paula merece um brinde especial por que é uma fornecedora especial da minha ciberloja... E o Pena Luís não lhe fica atrás. Mas também o Anacleto, a Marta, os Manéis (Madeira, Salselas), os Mários (Madureira, Faria), o Paulo, a Mariana, a Susana, a Sandra... E ainda a AIG, o Álvaro, a Antónia, o Carlos, o Filipe, o Hugo, o Jaime, a Joana, o (Padre) Jakim, a Zezinha, o Zé Cardoso, tudo moiros & morcões do melhor. Portugas, acima de tudo e de todos. Façam o favor de serem felizes!
2. E depois há os querid@s amig@s com criancinhas! Ora, para todos vocês que têm criancinhas, incluindo os pais das criancinhas que ainda não pararam de crescer, mais @s man@s das criancinhas que se recusam a crescer...
A gente deseja-vos tudo o que há de bom neste mundo, desde que não vos faça mal, a vocês e às criancinhas... Façam o favor de, no mínimo, se divertirem, as criancinhas, os manos e os pais... A gente vai tentar e depois diz como foi. Muitos bjs e chicorações, que a quadra natalícia é propícia para estes doces eflúvios emocionais. (Mensagem de família).
http://web.icq.com/shockwave/0,,4845,00.swf
PS - Isto não é um assalto, é uma orquestra adhoc... É favor de clicar na rapaziada toda. Sem som, não tem piada nenhuma...
Imagens para gente esquecer: (i) o lado feio deste mundo, (ii) o Bush, o Saddam e os seus clones, (iii) o consumo compulsivo, (iv) a poluição estética dos nossos antros comerciais, (v) etc., etc., incluindo a tristeza dos subúrbios onde a gente dorme. Imagens para a gente reconciliar-se com o verdadeiro Natal. O da nossa infância. Ou pelo menos o da minha infância... O Natal simples das pessoas simples, a que eu sempre associo a imagem da gruta, da lapinha, do presépio...
Esqueçamos por uns breves segundos a lista das compras que ainda falta fazer até à véspera da consoada-do-bacalhau-com-grelhos-e-bolo-rei e o stresse festivaleiro destes dias... Ah!, e cuidado com o castrol!!!
Se o corpo aguentar e o cibertráfico não entupir (o Clix já me está está a clixar com ameaças de ciberrengarrafamentos nestes próximos dias...), aqui ficam, de reserva, para o que der e vier, as minhas melhores cibersaudações natalícias. É da praxe, e eu gosto de cumprir a tradição. Afinal sou um gajo minimamente civilizado.
Car@s Ciberamig@s: Qualquer que seja o vosso Natal (cristão, pagão, ateu, consumista, materialista dialéctico, neoliberal, capitalista, conservador, judeu, muçulmano, budista ou ene-ista qualquer coisa), que ele nos purifique, tonifique e inspire a todos.
A tod@s vocês, car@s ciberamig@s, onde quer que estejam no ciberespaço eu desejo que continuem, ao longo de 2004, a serem @s ciberamig@s que eu sempre conheci: activ@s, produtiv@s, saudáveis, bem dispost@s, razoavelmente bem humorad@s, irreverentes q.b., crític@s (sempre) mas também amig@s (vez em quando) deste ciberamigo.
A Paula merece um brinde especial por que é uma fornecedora especial da minha ciberloja... E o Pena Luís não lhe fica atrás. Mas também o Anacleto, a Marta, os Manéis (Madeira, Salselas), os Mários (Madureira, Faria), o Paulo, a Mariana, a Susana, a Sandra... E ainda a AIG, o Álvaro, a Antónia, o Carlos, o Filipe, o Hugo, o Jaime, a Joana, o (Padre) Jakim, a Zezinha, o Zé Cardoso, tudo moiros & morcões do melhor. Portugas, acima de tudo e de todos. Façam o favor de serem felizes!
2. E depois há os querid@s amig@s com criancinhas! Ora, para todos vocês que têm criancinhas, incluindo os pais das criancinhas que ainda não pararam de crescer, mais @s man@s das criancinhas que se recusam a crescer...
A gente deseja-vos tudo o que há de bom neste mundo, desde que não vos faça mal, a vocês e às criancinhas... Façam o favor de, no mínimo, se divertirem, as criancinhas, os manos e os pais... A gente vai tentar e depois diz como foi. Muitos bjs e chicorações, que a quadra natalícia é propícia para estes doces eflúvios emocionais. (Mensagem de família).
http://web.icq.com/shockwave/0,,4845,00.swf
PS - Isto não é um assalto, é uma orquestra adhoc... É favor de clicar na rapaziada toda. Sem som, não tem piada nenhuma...
19 dezembro 2003
Portugal sacro-profano - XIII: O Alentejo, os ficalheiros, o cante, a viola campaniça, um CD
Não é propriamente por causa da blogaria do Natal e da estranha pulsão das compras que ataca o portuga por esta ocasião do ano... Mas já agora que tens que gastar a guita que não tens, aqui fica uma sugestão do Blogador. Se tu gostas do Alentejo, das suas gentes, do seu cante, da viola campaniça, oferece neste Natal aos teus amigos o CD Serões do Alentejo (Editora - Edições Convite à Música).
Trata-se de um trabalho singelo, modesto, mas sério e escorreito de recolha de música e poesia de gente talentosa e generosa. Um grupo de amigos de Vila Verde de Ficalho, a aldeia raiana da margem esquerda do Guadiana, também conhecida como a aldeia sem tabaco... Uma terra de gente boa e hospitaleira, onde o cante alentejano ainda se cultiva nas tabernas, resistindo ao rolo compressor da globalização (cultural)... Bonita capa do pintor Roberto Chichorro.
Quanto à editora (ECM), que tem sede em Santa Comba Dão (!), ponham um olho nela e façam uma visita ao seu sítio! Sobretudo aqueles que se interessam pelo ensino e formação na área da música
Trata-se de um trabalho singelo, modesto, mas sério e escorreito de recolha de música e poesia de gente talentosa e generosa. Um grupo de amigos de Vila Verde de Ficalho, a aldeia raiana da margem esquerda do Guadiana, também conhecida como a aldeia sem tabaco... Uma terra de gente boa e hospitaleira, onde o cante alentejano ainda se cultiva nas tabernas, resistindo ao rolo compressor da globalização (cultural)... Bonita capa do pintor Roberto Chichorro.
Quanto à editora (ECM), que tem sede em Santa Comba Dão (!), ponham um olho nela e façam uma visita ao seu sítio! Sobretudo aqueles que se interessam pelo ensino e formação na área da música
Portugal sacro-profano - XIII: O Alentejo, os ficalheiros, o cante, a viola campaniça, um CD
Não é propriamente por causa da blogaria do Natal e da estranha pulsão das compras que ataca o portuga por esta ocasião do ano... Mas já agora que tens que gastar a guita que não tens, aqui fica uma sugestão do Blogador. Se tu gostas do Alentejo, das suas gentes, do seu cante, da viola campaniça, oferece neste Natal aos teus amigos o CD Serões do Alentejo (Editora - Edições Convite à Música).
Trata-se de um trabalho singelo, modesto, mas sério e escorreito de recolha de música e poesia de gente talentosa e generosa. Um grupo de amigos de Vila Verde de Ficalho, a aldeia raiana da margem esquerda do Guadiana, também conhecida como a aldeia sem tabaco... Uma terra de gente boa e hospitaleira, onde o cante alentejano ainda se cultiva nas tabernas, resistindo ao rolo compressor da globalização (cultural)... Bonita capa do pintor Roberto Chichorro.
Quanto à editora (ECM), que tem sede em Santa Comba Dão (!), ponham um olho nela e façam uma visita ao seu sítio! Sobretudo aqueles que se interessam pelo ensino e formação na área da música
Trata-se de um trabalho singelo, modesto, mas sério e escorreito de recolha de música e poesia de gente talentosa e generosa. Um grupo de amigos de Vila Verde de Ficalho, a aldeia raiana da margem esquerda do Guadiana, também conhecida como a aldeia sem tabaco... Uma terra de gente boa e hospitaleira, onde o cante alentejano ainda se cultiva nas tabernas, resistindo ao rolo compressor da globalização (cultural)... Bonita capa do pintor Roberto Chichorro.
Quanto à editora (ECM), que tem sede em Santa Comba Dão (!), ponham um olho nela e façam uma visita ao seu sítio! Sobretudo aqueles que se interessam pelo ensino e formação na área da música
18 dezembro 2003
Portugal sacro-profano - XII: Cem anos de solidão
Pergunta um velhote alentejano ao seu médico de família, no primeiro exame de saúde que este lhe fez:
- Sô doutor, acha que eu ainda terei a sorte de viver até aos cem anos ?
- Bom, depende das asneiras que o meu amigo tem feito... Ora, diga-me lá: você fuma ?
- Ná, nunca me puxou prá aí.
- E beber, bebe o seu copo ?!...
- Ná, na gosto de álcool.
- E o comer ?
- Só o que a terra dá, pão, azeite, alho e coentros... Carne, pouca!
- O senhor é casado ? Tem filhos ?
- Ná, nunca tive.
- Então... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
- Ná, sô doutor. Nada disso! Fui pastor, ‘tou reformado, vivo sozinho no monte...
O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira:
- Diga-me cá uma coisa: o senhor quer viver até aos cem anos... para quê??
O alentejano, quase ofendido, muito sério, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar há pouco tempo ao centro de saúde:
- Atão porque a vida é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...
- Sô doutor, acha que eu ainda terei a sorte de viver até aos cem anos ?
- Bom, depende das asneiras que o meu amigo tem feito... Ora, diga-me lá: você fuma ?
- Ná, nunca me puxou prá aí.
- E beber, bebe o seu copo ?!...
- Ná, na gosto de álcool.
- E o comer ?
- Só o que a terra dá, pão, azeite, alho e coentros... Carne, pouca!
- O senhor é casado ? Tem filhos ?
- Ná, nunca tive.
- Então... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
- Ná, sô doutor. Nada disso! Fui pastor, ‘tou reformado, vivo sozinho no monte...
O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira:
- Diga-me cá uma coisa: o senhor quer viver até aos cem anos... para quê??
O alentejano, quase ofendido, muito sério, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar há pouco tempo ao centro de saúde:
- Atão porque a vida é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...
Portugal sacro-profano - XII: Cem anos de solidão
Pergunta um velhote alentejano ao seu médico de família, no primeiro exame de saúde que este lhe fez:
- Sô doutor, acha que eu ainda terei a sorte de viver até aos cem anos ?
- Bom, depende das asneiras que o meu amigo tem feito... Ora, diga-me lá: você fuma ?
- Ná, nunca me puxou prá aí.
- E beber, bebe o seu copo ?!...
- Ná, na gosto de álcool.
- E o comer ?
- Só o que a terra dá, pão, azeite, alho e coentros... Carne, pouca!
- O senhor é casado ? Tem filhos ?
- Ná, nunca tive.
- Então... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
- Ná, sô doutor. Nada disso! Fui pastor, ‘tou reformado, vivo sozinho no monte...
O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira:
- Diga-me cá uma coisa: o senhor quer viver até aos cem anos... para quê??
O alentejano, quase ofendido, muito sério, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar há pouco tempo ao centro de saúde:
- Atão porque a vida é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...
- Sô doutor, acha que eu ainda terei a sorte de viver até aos cem anos ?
- Bom, depende das asneiras que o meu amigo tem feito... Ora, diga-me lá: você fuma ?
- Ná, nunca me puxou prá aí.
- E beber, bebe o seu copo ?!...
- Ná, na gosto de álcool.
- E o comer ?
- Só o que a terra dá, pão, azeite, alho e coentros... Carne, pouca!
- O senhor é casado ? Tem filhos ?
- Ná, nunca tive.
- Então... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
- Ná, sô doutor. Nada disso! Fui pastor, ‘tou reformado, vivo sozinho no monte...
O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira:
- Diga-me cá uma coisa: o senhor quer viver até aos cem anos... para quê??
O alentejano, quase ofendido, muito sério, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar há pouco tempo ao centro de saúde:
- Atão porque a vida é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...
15 dezembro 2003
Saúde & Segurança do Trabalho – XIV: Medicina do trabalho à peça e ao acto
O modelo do relatório anual da actividade dos serviços de SH&ST, aprovado pela Portaria n.º 1184/2002, de 29 de Agosto de 2002, dedica uma página inteira à discriminação e à contabilidade do número de exames de admissão, periódicos e ocasionais, desagregados por escalão etário.
Pede-se além disso a discriminação dos exames complementares realizados por tipo de exame (sangue, urina, raio X ao tórax, audiograma, etc.), incluindo o número de exames exigidos por legislação específica (por ex., trabalhadores expostos a determinados substâncias perigosas como o chumbo ou o cloreto de vinilo monómero).
É legítimo (e sobretudo é relevante) interrogarmo-nos sobre a utilidade desta informação, aparentemente só de interesse estatístico-administrativo para a tutela (a administração do trabalho e da saúde). Quem vai fazer uso desta informação e para que efeitos ? A Inpecção geral do Trabalho, a Direcção Geral de Saúde, o Departamento de Estudos, Estatísticas e Planeamento (DEEP) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho ? Que garantias de validade e fiabilidade são dadas pelas empresas e estabelecimentos em relação a este e outros itens de informação ?
Além disso, há um crescente consenso na literatura científica sobre (i) o alcance e os limites deste tipo de exames médicos periódicos massificados e (ii) as vantagens da realização de exames mais personalizados e selectivos dos trabalhadores, em função não apenas dos riscos profissionais específicos a que estão expostos mas também dos seus estilos de vida e de trabalho (workstyles & lifestyles), história clínica e profissional, estado de saúde, etc.
A hipervalorização dos exames médicos representa uma armadilha para o próprio médico do trabalho e para a equipa de saúde ocupacional, no caso de esta existir. De facto, corre-se o risco de se limitar, entre nós, o exercício da medicina do trabalho à realização dos exames médicos (não confundir com exames de saúde), com todas as consequências perversas que isso implica.
Uma delas é a desvalorização de outras actividades (nobres) do médico do trabalho (por ex., visita aos locais de trabalho, reuniões com os representantes dos empregadores e dos trabalhadores, direcção técnica e/ou gestão do serviço de saúde/medicina do trabalho, envolvimento na concepção, planeamento, implementação e avaliação da política de saúde no trabalho); outra, não menos perversa, é o pagamento ao acto, à peça ou à hora, tendência que de resto se está a impor no mercado, devido à concorrência (desleal) entre muitas das empresas prestadoras de serviços externos de saúde/medicina do trabalho e/ou de segurança e higiene do trabalho...
É a total mercantilização da medicina do trabalho, a que se seguirá (se é que não está já em marcha...) um processo de racionalização técnico-burocrática da prática dos médicos do trabalho.
Uma terceira consequência, talvez ainda mais grave, é o risco de liquidação de toda e qualquer tentativa de organização e funcionamento da equipa de saúde ocupacional, multidisciplinar e multiprofissional, onde devem ter lugar, de pleno direito, o técnico e o técnico superior de segurança e higiene do trabalho, a par de outro profissionais como o enfermeiro do trabalho. É sobretudo a liquidação do futuro (que deveria ser radioso e promissor...) da saúde e segurança no trabalho neste país.
É bom que os profissionais de SH&ST pensem nisto...
Pede-se além disso a discriminação dos exames complementares realizados por tipo de exame (sangue, urina, raio X ao tórax, audiograma, etc.), incluindo o número de exames exigidos por legislação específica (por ex., trabalhadores expostos a determinados substâncias perigosas como o chumbo ou o cloreto de vinilo monómero).
É legítimo (e sobretudo é relevante) interrogarmo-nos sobre a utilidade desta informação, aparentemente só de interesse estatístico-administrativo para a tutela (a administração do trabalho e da saúde). Quem vai fazer uso desta informação e para que efeitos ? A Inpecção geral do Trabalho, a Direcção Geral de Saúde, o Departamento de Estudos, Estatísticas e Planeamento (DEEP) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho ? Que garantias de validade e fiabilidade são dadas pelas empresas e estabelecimentos em relação a este e outros itens de informação ?
Além disso, há um crescente consenso na literatura científica sobre (i) o alcance e os limites deste tipo de exames médicos periódicos massificados e (ii) as vantagens da realização de exames mais personalizados e selectivos dos trabalhadores, em função não apenas dos riscos profissionais específicos a que estão expostos mas também dos seus estilos de vida e de trabalho (workstyles & lifestyles), história clínica e profissional, estado de saúde, etc.
A hipervalorização dos exames médicos representa uma armadilha para o próprio médico do trabalho e para a equipa de saúde ocupacional, no caso de esta existir. De facto, corre-se o risco de se limitar, entre nós, o exercício da medicina do trabalho à realização dos exames médicos (não confundir com exames de saúde), com todas as consequências perversas que isso implica.
Uma delas é a desvalorização de outras actividades (nobres) do médico do trabalho (por ex., visita aos locais de trabalho, reuniões com os representantes dos empregadores e dos trabalhadores, direcção técnica e/ou gestão do serviço de saúde/medicina do trabalho, envolvimento na concepção, planeamento, implementação e avaliação da política de saúde no trabalho); outra, não menos perversa, é o pagamento ao acto, à peça ou à hora, tendência que de resto se está a impor no mercado, devido à concorrência (desleal) entre muitas das empresas prestadoras de serviços externos de saúde/medicina do trabalho e/ou de segurança e higiene do trabalho...
É a total mercantilização da medicina do trabalho, a que se seguirá (se é que não está já em marcha...) um processo de racionalização técnico-burocrática da prática dos médicos do trabalho.
Uma terceira consequência, talvez ainda mais grave, é o risco de liquidação de toda e qualquer tentativa de organização e funcionamento da equipa de saúde ocupacional, multidisciplinar e multiprofissional, onde devem ter lugar, de pleno direito, o técnico e o técnico superior de segurança e higiene do trabalho, a par de outro profissionais como o enfermeiro do trabalho. É sobretudo a liquidação do futuro (que deveria ser radioso e promissor...) da saúde e segurança no trabalho neste país.
É bom que os profissionais de SH&ST pensem nisto...
Saúde & Segurança do Trabalho – XIV: Medicina do trabalho à peça e ao acto
O modelo do relatório anual da actividade dos serviços de SH&ST, aprovado pela Portaria n.º 1184/2002, de 29 de Agosto de 2002, dedica uma página inteira à discriminação e à contabilidade do número de exames de admissão, periódicos e ocasionais, desagregados por escalão etário.
Pede-se além disso a discriminação dos exames complementares realizados por tipo de exame (sangue, urina, raio X ao tórax, audiograma, etc.), incluindo o número de exames exigidos por legislação específica (por ex., trabalhadores expostos a determinados substâncias perigosas como o chumbo ou o cloreto de vinilo monómero).
É legítimo (e sobretudo é relevante) interrogarmo-nos sobre a utilidade desta informação, aparentemente só de interesse estatístico-administrativo para a tutela (a administração do trabalho e da saúde). Quem vai fazer uso desta informação e para que efeitos ? A Inpecção geral do Trabalho, a Direcção Geral de Saúde, o Departamento de Estudos, Estatísticas e Planeamento (DEEP) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho ? Que garantias de validade e fiabilidade são dadas pelas empresas e estabelecimentos em relação a este e outros itens de informação ?
Além disso, há um crescente consenso na literatura científica sobre (i) o alcance e os limites deste tipo de exames médicos periódicos massificados e (ii) as vantagens da realização de exames mais personalizados e selectivos dos trabalhadores, em função não apenas dos riscos profissionais específicos a que estão expostos mas também dos seus estilos de vida e de trabalho (workstyles & lifestyles), história clínica e profissional, estado de saúde, etc.
A hipervalorização dos exames médicos representa uma armadilha para o próprio médico do trabalho e para a equipa de saúde ocupacional, no caso de esta existir. De facto, corre-se o risco de se limitar, entre nós, o exercício da medicina do trabalho à realização dos exames médicos (não confundir com exames de saúde), com todas as consequências perversas que isso implica.
Uma delas é a desvalorização de outras actividades (nobres) do médico do trabalho (por ex., visita aos locais de trabalho, reuniões com os representantes dos empregadores e dos trabalhadores, direcção técnica e/ou gestão do serviço de saúde/medicina do trabalho, envolvimento na concepção, planeamento, implementação e avaliação da política de saúde no trabalho); outra, não menos perversa, é o pagamento ao acto, à peça ou à hora, tendência que de resto se está a impor no mercado, devido à concorrência (desleal) entre muitas das empresas prestadoras de serviços externos de saúde/medicina do trabalho e/ou de segurança e higiene do trabalho...
É a total mercantilização da medicina do trabalho, a que se seguirá (se é que não está já em marcha...) um processo de racionalização técnico-burocrática da prática dos médicos do trabalho.
Uma terceira consequência, talvez ainda mais grave, é o risco de liquidação de toda e qualquer tentativa de organização e funcionamento da equipa de saúde ocupacional, multidisciplinar e multiprofissional, onde devem ter lugar, de pleno direito, o técnico e o técnico superior de segurança e higiene do trabalho, a par de outro profissionais como o enfermeiro do trabalho. É sobretudo a liquidação do futuro (que deveria ser radioso e promissor...) da saúde e segurança no trabalho neste país.
É bom que os profissionais de SH&ST pensem nisto...
Pede-se além disso a discriminação dos exames complementares realizados por tipo de exame (sangue, urina, raio X ao tórax, audiograma, etc.), incluindo o número de exames exigidos por legislação específica (por ex., trabalhadores expostos a determinados substâncias perigosas como o chumbo ou o cloreto de vinilo monómero).
É legítimo (e sobretudo é relevante) interrogarmo-nos sobre a utilidade desta informação, aparentemente só de interesse estatístico-administrativo para a tutela (a administração do trabalho e da saúde). Quem vai fazer uso desta informação e para que efeitos ? A Inpecção geral do Trabalho, a Direcção Geral de Saúde, o Departamento de Estudos, Estatísticas e Planeamento (DEEP) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho ? Que garantias de validade e fiabilidade são dadas pelas empresas e estabelecimentos em relação a este e outros itens de informação ?
Além disso, há um crescente consenso na literatura científica sobre (i) o alcance e os limites deste tipo de exames médicos periódicos massificados e (ii) as vantagens da realização de exames mais personalizados e selectivos dos trabalhadores, em função não apenas dos riscos profissionais específicos a que estão expostos mas também dos seus estilos de vida e de trabalho (workstyles & lifestyles), história clínica e profissional, estado de saúde, etc.
A hipervalorização dos exames médicos representa uma armadilha para o próprio médico do trabalho e para a equipa de saúde ocupacional, no caso de esta existir. De facto, corre-se o risco de se limitar, entre nós, o exercício da medicina do trabalho à realização dos exames médicos (não confundir com exames de saúde), com todas as consequências perversas que isso implica.
Uma delas é a desvalorização de outras actividades (nobres) do médico do trabalho (por ex., visita aos locais de trabalho, reuniões com os representantes dos empregadores e dos trabalhadores, direcção técnica e/ou gestão do serviço de saúde/medicina do trabalho, envolvimento na concepção, planeamento, implementação e avaliação da política de saúde no trabalho); outra, não menos perversa, é o pagamento ao acto, à peça ou à hora, tendência que de resto se está a impor no mercado, devido à concorrência (desleal) entre muitas das empresas prestadoras de serviços externos de saúde/medicina do trabalho e/ou de segurança e higiene do trabalho...
É a total mercantilização da medicina do trabalho, a que se seguirá (se é que não está já em marcha...) um processo de racionalização técnico-burocrática da prática dos médicos do trabalho.
Uma terceira consequência, talvez ainda mais grave, é o risco de liquidação de toda e qualquer tentativa de organização e funcionamento da equipa de saúde ocupacional, multidisciplinar e multiprofissional, onde devem ter lugar, de pleno direito, o técnico e o técnico superior de segurança e higiene do trabalho, a par de outro profissionais como o enfermeiro do trabalho. É sobretudo a liquidação do futuro (que deveria ser radioso e promissor...) da saúde e segurança no trabalho neste país.
É bom que os profissionais de SH&ST pensem nisto...
11 dezembro 2003
Socio(b)logia - II: Cidade e identidade
Perguntaram-me há dias, em entrevista, se a cidade e a sua dimensão influem na identidade de cada um…
A minha primeira reacção foi pensar que a pergunta era idiota. Mas depois reflecti um pouco mais. Até por consideração para com o meu jovem entrevistador, por sinal um aprendiz de sociólogo. Talvez a pergunta fizesse algum sentido... Seguramente que faz sentido. Como qualquer outra pergunta, por mais absurda que te pareça.
Eis o que eu, blogador, penso a respeito desta questão: Cada pessoa traz, no seu bilhete de identidade, o nome da localidade ou região onde nasceu. Mas também aquela onde vive. Julgo que não será tanto a dimensão da cidade, como certos traços da cidade (ou da região) onde se nasceu, que são elementos constitutivos da nossa identidade. A par de outros como a classe social dos progenitores e educadores... Em suma, o teu habitat também faz parte da tua matriz sociocultural. Que significado tem para um vienense ter nascido em Viena ? Muita: ele próprio se distingue dos restantes austríacos, segundo percebi quando lá estive… O prestígio, o glamour, a riqueza, a história, a monumentalidade, a posição geográfica, as personalidades marcantes ou a cultura da cidade são outros tantos elementos importantes de identificação… Um nova-iorquino muito provavelmente identifica-se mais com Manhattan onde nasceu do que outras zonas da grande metrópole de Nova Iorque onde provavelmente nunca foi.
Um lisboeta, filho de pais que vieram da província nos anos 60 ou 70, que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e vive hoje no Rio de Mouro, muito provavelmente só tem da vivência de Lisboa uma escassa memória que lhe vem da primeira infância. Em que medida Lisboa está associada à sua identidade como pessoa, cidadão, português ? Provavelmente volta a Lisboa, todos os dias, como trabalhador da periferia, engarrafado na famigerada IC 19 ou pendurado no combóio da linha de Sintra... Podíamos falar de uma identidade suburbana, mas não me perguntes o que é a identidade do habitante de Rio de Mouro. Noutro Rio, mas de Onor, Jorge Dias e, mais tarde, Pais de Brito, ambos antropólogos em épocas diferentes, ainda descobriram uma identidade que estava associada indelevelmente à economia agro-pastoril de montanha e à organização comunitária...
É diferente o caso do alfacinha que nasceu e viveu num dos bairros populares de Lisboa (Alfama, Mouraria, Madragoa, Alcântara, Campo de Ourique e outras “antigas aldeias” de Lisboa…). Hoje as grandes cidades são anómicas e as pessoas acabam por ser expulsas para as periferias onde a identidade se dilui ou se transforma... Estamos a falar de Lisboa, cidade, ou da Grande Lisboa, ou da Área Metropolitana de Lisboa ? Dizes que a cidade hoje é anómica, tal como ontem era um locus infectus… As nossas periferias suburbanas continuam anómicas, feias, agressivas, tristes e depremidas, apesar de algum esforço de humanização e modernização do espaço suburbano levado a cabo pelos poderes autárquico e central...
A seguir perguntas-me, meu caro jovem, em que medida os valores e a cultura de um cidade (Lisboa, Porto, Coimbra…) afectam a identidade do estudante universitário…
Respondo-te com uma outra pergunta: há um típico estudante universitário ? Lisboeta, coimbrão, portuense ? Não estudei o assunto, como sociólogo, mas em sociologuês te respondo: sem dúvida, os valores e a cultura de uma cidade, como por exemplo, Lisboa, Porto ou Coimbra, afectam a identidade de cada um de nós, enquanto estudantes universitários. Na medida em que ter sido estudante universitário (em Lisboa, Porto ou Coimbra) é algo que não se esquece, faz parte da nossa história de vida, do nosso curriculum vitae... Não tanto pela dimensão da cidade, como pela sua história e sobretudo pela organização da academia. Lisboa, por exemplo, não tem uma academia como Coimbra. Julgo que por avisada decisão do poder político: Salazar não brincava em serviço… E em Lisboa dividiu para reinar.
Lisboa tem três universidades públicas e não sei quantas privadas. Mas do ponto de vista antropológico e sociológico se calhar a identidade estudantil coimbrã é capaz de ser mais interessante ou mais forte ou mais visível. Mas o que é ser estudante hoje, em Coimbra ? Não passei por lá, não estou lá, não sou qualificado para falar do estudante coimbrão. O Porto, enquanto burgo, ainda tem uma identidade forte que lhe advêm da sua história como cidade burguesa e mercantil, de tradição liberal, resistente ao poder senhorial, primeiro, e central, depois. E mais recentemente das proezas futebolísticas de uma das suas equipas de futebol (sim, porque o Porto também é o Boavista, também é o Salgueiros, embora estes sejam clubes de bairro...). Recorde-se que as universidade do Porto e de Lisboa só existem desde 1911, embora estas duas cidades já tivessem ensino superior há mais tempo (por ex., as Escolas Médico-Cirúrgicas, desde 1836).
E o cosmopolitismo ? Também afecta o modo de pensar, a identidade, as ideias, os modos de interacção social ?
Grandes cidades cosmopolitas como Nova Iorque, Londres ou Paris seguramente que afectam a identidade de quem lá vive (e talvez de quem lá nasceu ou lá tem raízes…), a sua sociabilidade, os seus valores, as suas atitudes ou até os seus comportamentos...A sua maneira de pensar, de viver, de habitar, de trabalhar, de consumir, de amar e até de morrer... Mas acho que temos de rever o conceito de cosmopolitismo à luz da globalização. Há muitos estereótipos sobre o modo de ser citadino. O que é hoje ser romano em Roma ou parisiense em Paris ? O que é ser parisiense para um filho de um magrebino ? Ou lisboeta para um cabo-verdiano ? Ou alentejano na Amadora ? Ou turco em Berlim ?
Em todo o caso reconheço que as nossas cidades continuam a ser provincianas quando as comparamos com as grandes cidades europeias. Lisboa, Porto ou Coimbra são provincianas quando as comparamos com as de igual dimensão no país vizinho. O problema é o país que é provinciano, à escala regional e global… Claro que não o era na época dos Descobrimentos! Ou pelo menos Lisboa.
Diferenças entre Lisboa e Porto no contexto universitário ?
Bom, meu jovem, não sou sociólogo urbano nem etnólogo, fiz o meu curso de sociologia como trabalhador estudante no contexto muito particular do pós-25 de Abril. Embora sendo professor universitário em Lisboa, tenho alguma dificuldade em identificar uma identidade urbana dentro do espaço universitário lisboeta…
Por lado, não conheço muito bem a universidade do Porto, embora eu vá ao Porto com alguma regularidade ao longo do ano. Em rigor, não conheço a universidade do Porto, a não ser os edifícios das faculdades, vistos de fora… Julgo que entrei uma vez na Faculdade de Ciências Biomédicas Abel Salazar…
Em todo o caso, espero bem que existam algumas diferenças. Para melhor ou para pior. E desde que sejam estatisticamente significativas... Quanto mais não seja para contrariar a minha querida professora Maria Filomena Mónica que há dias arrasou de alto a baixo a universidade portuguesa pós-pombalina, do professores catedrático ao cão que morde ao doutor...
Bom, e para acabar: acha que essa coisa da densidade populacional é importante, é sociologicamente densa ?
Em sociologuês te respondo, meu rapaz. Se eu tivesse numa aula, seguramente que te responderia, com ar doutoral e grave, que, sem dúvida, a densidade populacional é um factor importante da sociabilidade, da qualidade de vida e da própria saúde mental das pessoas… O espaço urbano tornou-se patológico, esquizofrénico, concentraccionário, devido não só densidade populacional, à terciarização da economia, à construção em altura, à volumetria dos edifícios, à má arquitectura e ao mau urbanismo, mas sobretudo à segregação sócio-espacial. Ainda não chegámos ao arame farpado dos condomínios fechados e blindados do Rio de Janeiro, mas para lá caminhamos….
Em contrapartida, as pessoas hoje têm uma maior mobilidade geográfica e acabam por poder fugir, em liberdade condicional (e nem que seja por uns dias), do gueto onde vivem… Esse é, de resto, o papel dos “pacotes de férias” que se vendem hoje nos países ditos ricos e que servem para o anónimo cidadão, com algum crédito ou poder de compra, ir “carregar as baterias” num qualquer pseudo-paraíso terrestre… E no meio de tudo isto, acabei por perder o meu bilhete de identidade... Afinal, quem tu és, ó blogador? Bem podia ser o princípio da letra de um fado cantado pelo grande Camané...
A minha primeira reacção foi pensar que a pergunta era idiota. Mas depois reflecti um pouco mais. Até por consideração para com o meu jovem entrevistador, por sinal um aprendiz de sociólogo. Talvez a pergunta fizesse algum sentido... Seguramente que faz sentido. Como qualquer outra pergunta, por mais absurda que te pareça.
Eis o que eu, blogador, penso a respeito desta questão: Cada pessoa traz, no seu bilhete de identidade, o nome da localidade ou região onde nasceu. Mas também aquela onde vive. Julgo que não será tanto a dimensão da cidade, como certos traços da cidade (ou da região) onde se nasceu, que são elementos constitutivos da nossa identidade. A par de outros como a classe social dos progenitores e educadores... Em suma, o teu habitat também faz parte da tua matriz sociocultural. Que significado tem para um vienense ter nascido em Viena ? Muita: ele próprio se distingue dos restantes austríacos, segundo percebi quando lá estive… O prestígio, o glamour, a riqueza, a história, a monumentalidade, a posição geográfica, as personalidades marcantes ou a cultura da cidade são outros tantos elementos importantes de identificação… Um nova-iorquino muito provavelmente identifica-se mais com Manhattan onde nasceu do que outras zonas da grande metrópole de Nova Iorque onde provavelmente nunca foi.
Um lisboeta, filho de pais que vieram da província nos anos 60 ou 70, que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e vive hoje no Rio de Mouro, muito provavelmente só tem da vivência de Lisboa uma escassa memória que lhe vem da primeira infância. Em que medida Lisboa está associada à sua identidade como pessoa, cidadão, português ? Provavelmente volta a Lisboa, todos os dias, como trabalhador da periferia, engarrafado na famigerada IC 19 ou pendurado no combóio da linha de Sintra... Podíamos falar de uma identidade suburbana, mas não me perguntes o que é a identidade do habitante de Rio de Mouro. Noutro Rio, mas de Onor, Jorge Dias e, mais tarde, Pais de Brito, ambos antropólogos em épocas diferentes, ainda descobriram uma identidade que estava associada indelevelmente à economia agro-pastoril de montanha e à organização comunitária...
É diferente o caso do alfacinha que nasceu e viveu num dos bairros populares de Lisboa (Alfama, Mouraria, Madragoa, Alcântara, Campo de Ourique e outras “antigas aldeias” de Lisboa…). Hoje as grandes cidades são anómicas e as pessoas acabam por ser expulsas para as periferias onde a identidade se dilui ou se transforma... Estamos a falar de Lisboa, cidade, ou da Grande Lisboa, ou da Área Metropolitana de Lisboa ? Dizes que a cidade hoje é anómica, tal como ontem era um locus infectus… As nossas periferias suburbanas continuam anómicas, feias, agressivas, tristes e depremidas, apesar de algum esforço de humanização e modernização do espaço suburbano levado a cabo pelos poderes autárquico e central...
A seguir perguntas-me, meu caro jovem, em que medida os valores e a cultura de um cidade (Lisboa, Porto, Coimbra…) afectam a identidade do estudante universitário…
Respondo-te com uma outra pergunta: há um típico estudante universitário ? Lisboeta, coimbrão, portuense ? Não estudei o assunto, como sociólogo, mas em sociologuês te respondo: sem dúvida, os valores e a cultura de uma cidade, como por exemplo, Lisboa, Porto ou Coimbra, afectam a identidade de cada um de nós, enquanto estudantes universitários. Na medida em que ter sido estudante universitário (em Lisboa, Porto ou Coimbra) é algo que não se esquece, faz parte da nossa história de vida, do nosso curriculum vitae... Não tanto pela dimensão da cidade, como pela sua história e sobretudo pela organização da academia. Lisboa, por exemplo, não tem uma academia como Coimbra. Julgo que por avisada decisão do poder político: Salazar não brincava em serviço… E em Lisboa dividiu para reinar.
Lisboa tem três universidades públicas e não sei quantas privadas. Mas do ponto de vista antropológico e sociológico se calhar a identidade estudantil coimbrã é capaz de ser mais interessante ou mais forte ou mais visível. Mas o que é ser estudante hoje, em Coimbra ? Não passei por lá, não estou lá, não sou qualificado para falar do estudante coimbrão. O Porto, enquanto burgo, ainda tem uma identidade forte que lhe advêm da sua história como cidade burguesa e mercantil, de tradição liberal, resistente ao poder senhorial, primeiro, e central, depois. E mais recentemente das proezas futebolísticas de uma das suas equipas de futebol (sim, porque o Porto também é o Boavista, também é o Salgueiros, embora estes sejam clubes de bairro...). Recorde-se que as universidade do Porto e de Lisboa só existem desde 1911, embora estas duas cidades já tivessem ensino superior há mais tempo (por ex., as Escolas Médico-Cirúrgicas, desde 1836).
E o cosmopolitismo ? Também afecta o modo de pensar, a identidade, as ideias, os modos de interacção social ?
Grandes cidades cosmopolitas como Nova Iorque, Londres ou Paris seguramente que afectam a identidade de quem lá vive (e talvez de quem lá nasceu ou lá tem raízes…), a sua sociabilidade, os seus valores, as suas atitudes ou até os seus comportamentos...A sua maneira de pensar, de viver, de habitar, de trabalhar, de consumir, de amar e até de morrer... Mas acho que temos de rever o conceito de cosmopolitismo à luz da globalização. Há muitos estereótipos sobre o modo de ser citadino. O que é hoje ser romano em Roma ou parisiense em Paris ? O que é ser parisiense para um filho de um magrebino ? Ou lisboeta para um cabo-verdiano ? Ou alentejano na Amadora ? Ou turco em Berlim ?
Em todo o caso reconheço que as nossas cidades continuam a ser provincianas quando as comparamos com as grandes cidades europeias. Lisboa, Porto ou Coimbra são provincianas quando as comparamos com as de igual dimensão no país vizinho. O problema é o país que é provinciano, à escala regional e global… Claro que não o era na época dos Descobrimentos! Ou pelo menos Lisboa.
Diferenças entre Lisboa e Porto no contexto universitário ?
Bom, meu jovem, não sou sociólogo urbano nem etnólogo, fiz o meu curso de sociologia como trabalhador estudante no contexto muito particular do pós-25 de Abril. Embora sendo professor universitário em Lisboa, tenho alguma dificuldade em identificar uma identidade urbana dentro do espaço universitário lisboeta…
Por lado, não conheço muito bem a universidade do Porto, embora eu vá ao Porto com alguma regularidade ao longo do ano. Em rigor, não conheço a universidade do Porto, a não ser os edifícios das faculdades, vistos de fora… Julgo que entrei uma vez na Faculdade de Ciências Biomédicas Abel Salazar…
Em todo o caso, espero bem que existam algumas diferenças. Para melhor ou para pior. E desde que sejam estatisticamente significativas... Quanto mais não seja para contrariar a minha querida professora Maria Filomena Mónica que há dias arrasou de alto a baixo a universidade portuguesa pós-pombalina, do professores catedrático ao cão que morde ao doutor...
Bom, e para acabar: acha que essa coisa da densidade populacional é importante, é sociologicamente densa ?
Em sociologuês te respondo, meu rapaz. Se eu tivesse numa aula, seguramente que te responderia, com ar doutoral e grave, que, sem dúvida, a densidade populacional é um factor importante da sociabilidade, da qualidade de vida e da própria saúde mental das pessoas… O espaço urbano tornou-se patológico, esquizofrénico, concentraccionário, devido não só densidade populacional, à terciarização da economia, à construção em altura, à volumetria dos edifícios, à má arquitectura e ao mau urbanismo, mas sobretudo à segregação sócio-espacial. Ainda não chegámos ao arame farpado dos condomínios fechados e blindados do Rio de Janeiro, mas para lá caminhamos….
Em contrapartida, as pessoas hoje têm uma maior mobilidade geográfica e acabam por poder fugir, em liberdade condicional (e nem que seja por uns dias), do gueto onde vivem… Esse é, de resto, o papel dos “pacotes de férias” que se vendem hoje nos países ditos ricos e que servem para o anónimo cidadão, com algum crédito ou poder de compra, ir “carregar as baterias” num qualquer pseudo-paraíso terrestre… E no meio de tudo isto, acabei por perder o meu bilhete de identidade... Afinal, quem tu és, ó blogador? Bem podia ser o princípio da letra de um fado cantado pelo grande Camané...
Socio(b)logia - II: Cidade e identidade
Perguntaram-me há dias, em entrevista, se a cidade e a sua dimensão influem na identidade de cada um…
A minha primeira reacção foi pensar que a pergunta era idiota. Mas depois reflecti um pouco mais. Até por consideração para com o meu jovem entrevistador, por sinal um aprendiz de sociólogo. Talvez a pergunta fizesse algum sentido... Seguramente que faz sentido. Como qualquer outra pergunta, por mais absurda que te pareça.
Eis o que eu, blogador, penso a respeito desta questão: Cada pessoa traz, no seu bilhete de identidade, o nome da localidade ou região onde nasceu. Mas também aquela onde vive. Julgo que não será tanto a dimensão da cidade, como certos traços da cidade (ou da região) onde se nasceu, que são elementos constitutivos da nossa identidade. A par de outros como a classe social dos progenitores e educadores... Em suma, o teu habitat também faz parte da tua matriz sociocultural. Que significado tem para um vienense ter nascido em Viena ? Muita: ele próprio se distingue dos restantes austríacos, segundo percebi quando lá estive… O prestígio, o glamour, a riqueza, a história, a monumentalidade, a posição geográfica, as personalidades marcantes ou a cultura da cidade são outros tantos elementos importantes de identificação… Um nova-iorquino muito provavelmente identifica-se mais com Manhattan onde nasceu do que outras zonas da grande metrópole de Nova Iorque onde provavelmente nunca foi.
Um lisboeta, filho de pais que vieram da província nos anos 60 ou 70, que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e vive hoje no Rio de Mouro, muito provavelmente só tem da vivência de Lisboa uma escassa memória que lhe vem da primeira infância. Em que medida Lisboa está associada à sua identidade como pessoa, cidadão, português ? Provavelmente volta a Lisboa, todos os dias, como trabalhador da periferia, engarrafado na famigerada IC 19 ou pendurado no combóio da linha de Sintra... Podíamos falar de uma identidade suburbana, mas não me perguntes o que é a identidade do habitante de Rio de Mouro. Noutro Rio, mas de Onor, Jorge Dias e, mais tarde, Pais de Brito, ambos antropólogos em épocas diferentes, ainda descobriram uma identidade que estava associada indelevelmente à economia agro-pastoril de montanha e à organização comunitária...
É diferente o caso do alfacinha que nasceu e viveu num dos bairros populares de Lisboa (Alfama, Mouraria, Madragoa, Alcântara, Campo de Ourique e outras “antigas aldeias” de Lisboa…). Hoje as grandes cidades são anómicas e as pessoas acabam por ser expulsas para as periferias onde a identidade se dilui ou se transforma... Estamos a falar de Lisboa, cidade, ou da Grande Lisboa, ou da Área Metropolitana de Lisboa ? Dizes que a cidade hoje é anómica, tal como ontem era um locus infectus… As nossas periferias suburbanas continuam anómicas, feias, agressivas, tristes e depremidas, apesar de algum esforço de humanização e modernização do espaço suburbano levado a cabo pelos poderes autárquico e central...
A seguir perguntas-me, meu caro jovem, em que medida os valores e a cultura de um cidade (Lisboa, Porto, Coimbra…) afectam a identidade do estudante universitário…
Respondo-te com uma outra pergunta: há um típico estudante universitário ? Lisboeta, coimbrão, portuense ? Não estudei o assunto, como sociólogo, mas em sociologuês te respondo: sem dúvida, os valores e a cultura de uma cidade, como por exemplo, Lisboa, Porto ou Coimbra, afectam a identidade de cada um de nós, enquanto estudantes universitários. Na medida em que ter sido estudante universitário (em Lisboa, Porto ou Coimbra) é algo que não se esquece, faz parte da nossa história de vida, do nosso curriculum vitae... Não tanto pela dimensão da cidade, como pela sua história e sobretudo pela organização da academia. Lisboa, por exemplo, não tem uma academia como Coimbra. Julgo que por avisada decisão do poder político: Salazar não brincava em serviço… E em Lisboa dividiu para reinar.
Lisboa tem três universidades públicas e não sei quantas privadas. Mas do ponto de vista antropológico e sociológico se calhar a identidade estudantil coimbrã é capaz de ser mais interessante ou mais forte ou mais visível. Mas o que é ser estudante hoje, em Coimbra ? Não passei por lá, não estou lá, não sou qualificado para falar do estudante coimbrão. O Porto, enquanto burgo, ainda tem uma identidade forte que lhe advêm da sua história como cidade burguesa e mercantil, de tradição liberal, resistente ao poder senhorial, primeiro, e central, depois. E mais recentemente das proezas futebolísticas de uma das suas equipas de futebol (sim, porque o Porto também é o Boavista, também é o Salgueiros, embora estes sejam clubes de bairro...). Recorde-se que as universidade do Porto e de Lisboa só existem desde 1911, embora estas duas cidades já tivessem ensino superior há mais tempo (por ex., as Escolas Médico-Cirúrgicas, desde 1836).
E o cosmopolitismo ? Também afecta o modo de pensar, a identidade, as ideias, os modos de interacção social ?
Grandes cidades cosmopolitas como Nova Iorque, Londres ou Paris seguramente que afectam a identidade de quem lá vive (e talvez de quem lá nasceu ou lá tem raízes…), a sua sociabilidade, os seus valores, as suas atitudes ou até os seus comportamentos...A sua maneira de pensar, de viver, de habitar, de trabalhar, de consumir, de amar e até de morrer... Mas acho que temos de rever o conceito de cosmopolitismo à luz da globalização. Há muitos estereótipos sobre o modo de ser citadino. O que é hoje ser romano em Roma ou parisiense em Paris ? O que é ser parisiense para um filho de um magrebino ? Ou lisboeta para um cabo-verdiano ? Ou alentejano na Amadora ? Ou turco em Berlim ?
Em todo o caso reconheço que as nossas cidades continuam a ser provincianas quando as comparamos com as grandes cidades europeias. Lisboa, Porto ou Coimbra são provincianas quando as comparamos com as de igual dimensão no país vizinho. O problema é o país que é provinciano, à escala regional e global… Claro que não o era na época dos Descobrimentos! Ou pelo menos Lisboa.
Diferenças entre Lisboa e Porto no contexto universitário ?
Bom, meu jovem, não sou sociólogo urbano nem etnólogo, fiz o meu curso de sociologia como trabalhador estudante no contexto muito particular do pós-25 de Abril. Embora sendo professor universitário em Lisboa, tenho alguma dificuldade em identificar uma identidade urbana dentro do espaço universitário lisboeta…
Por lado, não conheço muito bem a universidade do Porto, embora eu vá ao Porto com alguma regularidade ao longo do ano. Em rigor, não conheço a universidade do Porto, a não ser os edifícios das faculdades, vistos de fora… Julgo que entrei uma vez na Faculdade de Ciências Biomédicas Abel Salazar…
Em todo o caso, espero bem que existam algumas diferenças. Para melhor ou para pior. E desde que sejam estatisticamente significativas... Quanto mais não seja para contrariar a minha querida professora Maria Filomena Mónica que há dias arrasou de alto a baixo a universidade portuguesa pós-pombalina, do professores catedrático ao cão que morde ao doutor...
Bom, e para acabar: acha que essa coisa da densidade populacional é importante, é sociologicamente densa ?
Em sociologuês te respondo, meu rapaz. Se eu tivesse numa aula, seguramente que te responderia, com ar doutoral e grave, que, sem dúvida, a densidade populacional é um factor importante da sociabilidade, da qualidade de vida e da própria saúde mental das pessoas… O espaço urbano tornou-se patológico, esquizofrénico, concentraccionário, devido não só densidade populacional, à terciarização da economia, à construção em altura, à volumetria dos edifícios, à má arquitectura e ao mau urbanismo, mas sobretudo à segregação sócio-espacial. Ainda não chegámos ao arame farpado dos condomínios fechados e blindados do Rio de Janeiro, mas para lá caminhamos….
Em contrapartida, as pessoas hoje têm uma maior mobilidade geográfica e acabam por poder fugir, em liberdade condicional (e nem que seja por uns dias), do gueto onde vivem… Esse é, de resto, o papel dos “pacotes de férias” que se vendem hoje nos países ditos ricos e que servem para o anónimo cidadão, com algum crédito ou poder de compra, ir “carregar as baterias” num qualquer pseudo-paraíso terrestre… E no meio de tudo isto, acabei por perder o meu bilhete de identidade... Afinal, quem tu és, ó blogador? Bem podia ser o princípio da letra de um fado cantado pelo grande Camané...
A minha primeira reacção foi pensar que a pergunta era idiota. Mas depois reflecti um pouco mais. Até por consideração para com o meu jovem entrevistador, por sinal um aprendiz de sociólogo. Talvez a pergunta fizesse algum sentido... Seguramente que faz sentido. Como qualquer outra pergunta, por mais absurda que te pareça.
Eis o que eu, blogador, penso a respeito desta questão: Cada pessoa traz, no seu bilhete de identidade, o nome da localidade ou região onde nasceu. Mas também aquela onde vive. Julgo que não será tanto a dimensão da cidade, como certos traços da cidade (ou da região) onde se nasceu, que são elementos constitutivos da nossa identidade. A par de outros como a classe social dos progenitores e educadores... Em suma, o teu habitat também faz parte da tua matriz sociocultural. Que significado tem para um vienense ter nascido em Viena ? Muita: ele próprio se distingue dos restantes austríacos, segundo percebi quando lá estive… O prestígio, o glamour, a riqueza, a história, a monumentalidade, a posição geográfica, as personalidades marcantes ou a cultura da cidade são outros tantos elementos importantes de identificação… Um nova-iorquino muito provavelmente identifica-se mais com Manhattan onde nasceu do que outras zonas da grande metrópole de Nova Iorque onde provavelmente nunca foi.
Um lisboeta, filho de pais que vieram da província nos anos 60 ou 70, que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e vive hoje no Rio de Mouro, muito provavelmente só tem da vivência de Lisboa uma escassa memória que lhe vem da primeira infância. Em que medida Lisboa está associada à sua identidade como pessoa, cidadão, português ? Provavelmente volta a Lisboa, todos os dias, como trabalhador da periferia, engarrafado na famigerada IC 19 ou pendurado no combóio da linha de Sintra... Podíamos falar de uma identidade suburbana, mas não me perguntes o que é a identidade do habitante de Rio de Mouro. Noutro Rio, mas de Onor, Jorge Dias e, mais tarde, Pais de Brito, ambos antropólogos em épocas diferentes, ainda descobriram uma identidade que estava associada indelevelmente à economia agro-pastoril de montanha e à organização comunitária...
É diferente o caso do alfacinha que nasceu e viveu num dos bairros populares de Lisboa (Alfama, Mouraria, Madragoa, Alcântara, Campo de Ourique e outras “antigas aldeias” de Lisboa…). Hoje as grandes cidades são anómicas e as pessoas acabam por ser expulsas para as periferias onde a identidade se dilui ou se transforma... Estamos a falar de Lisboa, cidade, ou da Grande Lisboa, ou da Área Metropolitana de Lisboa ? Dizes que a cidade hoje é anómica, tal como ontem era um locus infectus… As nossas periferias suburbanas continuam anómicas, feias, agressivas, tristes e depremidas, apesar de algum esforço de humanização e modernização do espaço suburbano levado a cabo pelos poderes autárquico e central...
A seguir perguntas-me, meu caro jovem, em que medida os valores e a cultura de um cidade (Lisboa, Porto, Coimbra…) afectam a identidade do estudante universitário…
Respondo-te com uma outra pergunta: há um típico estudante universitário ? Lisboeta, coimbrão, portuense ? Não estudei o assunto, como sociólogo, mas em sociologuês te respondo: sem dúvida, os valores e a cultura de uma cidade, como por exemplo, Lisboa, Porto ou Coimbra, afectam a identidade de cada um de nós, enquanto estudantes universitários. Na medida em que ter sido estudante universitário (em Lisboa, Porto ou Coimbra) é algo que não se esquece, faz parte da nossa história de vida, do nosso curriculum vitae... Não tanto pela dimensão da cidade, como pela sua história e sobretudo pela organização da academia. Lisboa, por exemplo, não tem uma academia como Coimbra. Julgo que por avisada decisão do poder político: Salazar não brincava em serviço… E em Lisboa dividiu para reinar.
Lisboa tem três universidades públicas e não sei quantas privadas. Mas do ponto de vista antropológico e sociológico se calhar a identidade estudantil coimbrã é capaz de ser mais interessante ou mais forte ou mais visível. Mas o que é ser estudante hoje, em Coimbra ? Não passei por lá, não estou lá, não sou qualificado para falar do estudante coimbrão. O Porto, enquanto burgo, ainda tem uma identidade forte que lhe advêm da sua história como cidade burguesa e mercantil, de tradição liberal, resistente ao poder senhorial, primeiro, e central, depois. E mais recentemente das proezas futebolísticas de uma das suas equipas de futebol (sim, porque o Porto também é o Boavista, também é o Salgueiros, embora estes sejam clubes de bairro...). Recorde-se que as universidade do Porto e de Lisboa só existem desde 1911, embora estas duas cidades já tivessem ensino superior há mais tempo (por ex., as Escolas Médico-Cirúrgicas, desde 1836).
E o cosmopolitismo ? Também afecta o modo de pensar, a identidade, as ideias, os modos de interacção social ?
Grandes cidades cosmopolitas como Nova Iorque, Londres ou Paris seguramente que afectam a identidade de quem lá vive (e talvez de quem lá nasceu ou lá tem raízes…), a sua sociabilidade, os seus valores, as suas atitudes ou até os seus comportamentos...A sua maneira de pensar, de viver, de habitar, de trabalhar, de consumir, de amar e até de morrer... Mas acho que temos de rever o conceito de cosmopolitismo à luz da globalização. Há muitos estereótipos sobre o modo de ser citadino. O que é hoje ser romano em Roma ou parisiense em Paris ? O que é ser parisiense para um filho de um magrebino ? Ou lisboeta para um cabo-verdiano ? Ou alentejano na Amadora ? Ou turco em Berlim ?
Em todo o caso reconheço que as nossas cidades continuam a ser provincianas quando as comparamos com as grandes cidades europeias. Lisboa, Porto ou Coimbra são provincianas quando as comparamos com as de igual dimensão no país vizinho. O problema é o país que é provinciano, à escala regional e global… Claro que não o era na época dos Descobrimentos! Ou pelo menos Lisboa.
Diferenças entre Lisboa e Porto no contexto universitário ?
Bom, meu jovem, não sou sociólogo urbano nem etnólogo, fiz o meu curso de sociologia como trabalhador estudante no contexto muito particular do pós-25 de Abril. Embora sendo professor universitário em Lisboa, tenho alguma dificuldade em identificar uma identidade urbana dentro do espaço universitário lisboeta…
Por lado, não conheço muito bem a universidade do Porto, embora eu vá ao Porto com alguma regularidade ao longo do ano. Em rigor, não conheço a universidade do Porto, a não ser os edifícios das faculdades, vistos de fora… Julgo que entrei uma vez na Faculdade de Ciências Biomédicas Abel Salazar…
Em todo o caso, espero bem que existam algumas diferenças. Para melhor ou para pior. E desde que sejam estatisticamente significativas... Quanto mais não seja para contrariar a minha querida professora Maria Filomena Mónica que há dias arrasou de alto a baixo a universidade portuguesa pós-pombalina, do professores catedrático ao cão que morde ao doutor...
Bom, e para acabar: acha que essa coisa da densidade populacional é importante, é sociologicamente densa ?
Em sociologuês te respondo, meu rapaz. Se eu tivesse numa aula, seguramente que te responderia, com ar doutoral e grave, que, sem dúvida, a densidade populacional é um factor importante da sociabilidade, da qualidade de vida e da própria saúde mental das pessoas… O espaço urbano tornou-se patológico, esquizofrénico, concentraccionário, devido não só densidade populacional, à terciarização da economia, à construção em altura, à volumetria dos edifícios, à má arquitectura e ao mau urbanismo, mas sobretudo à segregação sócio-espacial. Ainda não chegámos ao arame farpado dos condomínios fechados e blindados do Rio de Janeiro, mas para lá caminhamos….
Em contrapartida, as pessoas hoje têm uma maior mobilidade geográfica e acabam por poder fugir, em liberdade condicional (e nem que seja por uns dias), do gueto onde vivem… Esse é, de resto, o papel dos “pacotes de férias” que se vendem hoje nos países ditos ricos e que servem para o anónimo cidadão, com algum crédito ou poder de compra, ir “carregar as baterias” num qualquer pseudo-paraíso terrestre… E no meio de tudo isto, acabei por perder o meu bilhete de identidade... Afinal, quem tu és, ó blogador? Bem podia ser o princípio da letra de um fado cantado pelo grande Camané...
09 dezembro 2003
Portugal sacro-profano - XI: Monsanto ou a floresta do lobo mau
Fui ontem, feriado, fazer o meu jogging no Parque Florestal de Monsanto. Já o faço há mais de 15 anos, com maior ou menor regularidade. Sozinho ou às vezes com a família.
Monsanto é um espaço fabuloso de cerca de mil hectares (1/8 da área da cidade de Lisboa), que muitos lisboetas desconhecem ou não usufruem devidamente. E que outros maltratam, cercando-o de cimento armado e alcatrão. Ou cobiçam, na mira da especulação imobiliária. Destaco, muito em especial, os seus 300 km de caminhos pedestres, para além da riqueza da sua flora e fauna.
É certo que a manhã estava chuvosa, pouco convidativa para as actividades ao ar livre. Em mais de hora e meia, encontrei apenas um pequeno grupo de seis pessoas fazendo jogging, além de alguns cicloturistas solitários e um coelho espavorido.
Há uma estranha relação dos portugas, rurais ou citadinos, com a floresta: ela sempre nos inspirou um misto contraditadório de encantamento, respeito e medo. O medo é ancestral e, no caso das pessoas da minha geração, poderá estar associada à experiência da guerra colonial ou às vivências de África. Haverá mais de um milhão de portugueses que, ao olharem para uma árvore de uma floresta, são capazes de imaginar, por detrás dela, um RPG-7 (o mais famoso lança-granadas do mundo) ou uma kalashnikov (a mais famosa espingarda automática de todos os tempos). Ao caminhares, solitário, por Monsanto, são outros nomes, exóticos, que te vêm à cabeça, por uns instantes, em rápido flashback: as matas do Morés, do Xime ou do Corubal, o Mato Cão, a Ponta do Inglês...
No caso de Monsanto, isso é agravado por estereótipos profundamente arreigados no imaginário do lisboeta. Estereótipos associados ao crime, à prostituição e à marginalidade. Ontem e hoje. Antes de ser reflorestada a serra de Monsanto era habitada por um estranho povo, parte do lumpen-proletariado de Lisboa, com famílias inteiras vivendo como animais em furnas que o Duarte Pacheco teve que mandar obstruir!!! Essas marcas ainda são visíveis na paisagem...
Leio algures nos sítios que selecionei para os leitores deste blogue, que cerca de dois milhões de pessoas visitam anualmente este espaço, incluindo os diversos parques recreativos. Eu acho que é pouco, que é ainda pouco. E sobretudo são em número irrisório os que fazem jogging em Monsanto. Eu acho que os lisboetas e os saloios da periferia de Lisboa ainda continuam de costas voltadas para Monsanto. Sobretudo continuam muito sedentários. E, mais ainda, muito dependentes do automóvel.
Sem dúvida que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) terá que se esforçar mais para mudar esta atitude negativa dos lisboetas e demais portugas que residem nos concelhos limítrofes, como o meu, relativamente à fruição do seu "pulmão verde". De qualquer modo, deixem-me dar os meus parabéns à CML que está a executar um programa de limpeza e reflorestação para pôr Monsanto "novinho em folha"... É de aplaudir também o corte do trânsito automóvel aos fins-de-semana, no verão, a par da melhoria da segurança, da acessibilidade e da sinalização.
Aqui ficam, entretanto, alguns sítios com informações interessantes sobre o Monsanto, o mal amado, ou a floresta do lobo mau.
Câmara Municipal de Lisboa – Espaços Verdes
A segurança no Parque Florestal de Monsanto
Parque Ecológico de Monsanto
Monsanto é um espaço fabuloso de cerca de mil hectares (1/8 da área da cidade de Lisboa), que muitos lisboetas desconhecem ou não usufruem devidamente. E que outros maltratam, cercando-o de cimento armado e alcatrão. Ou cobiçam, na mira da especulação imobiliária. Destaco, muito em especial, os seus 300 km de caminhos pedestres, para além da riqueza da sua flora e fauna.
É certo que a manhã estava chuvosa, pouco convidativa para as actividades ao ar livre. Em mais de hora e meia, encontrei apenas um pequeno grupo de seis pessoas fazendo jogging, além de alguns cicloturistas solitários e um coelho espavorido.
Há uma estranha relação dos portugas, rurais ou citadinos, com a floresta: ela sempre nos inspirou um misto contraditadório de encantamento, respeito e medo. O medo é ancestral e, no caso das pessoas da minha geração, poderá estar associada à experiência da guerra colonial ou às vivências de África. Haverá mais de um milhão de portugueses que, ao olharem para uma árvore de uma floresta, são capazes de imaginar, por detrás dela, um RPG-7 (o mais famoso lança-granadas do mundo) ou uma kalashnikov (a mais famosa espingarda automática de todos os tempos). Ao caminhares, solitário, por Monsanto, são outros nomes, exóticos, que te vêm à cabeça, por uns instantes, em rápido flashback: as matas do Morés, do Xime ou do Corubal, o Mato Cão, a Ponta do Inglês...
No caso de Monsanto, isso é agravado por estereótipos profundamente arreigados no imaginário do lisboeta. Estereótipos associados ao crime, à prostituição e à marginalidade. Ontem e hoje. Antes de ser reflorestada a serra de Monsanto era habitada por um estranho povo, parte do lumpen-proletariado de Lisboa, com famílias inteiras vivendo como animais em furnas que o Duarte Pacheco teve que mandar obstruir!!! Essas marcas ainda são visíveis na paisagem...
Leio algures nos sítios que selecionei para os leitores deste blogue, que cerca de dois milhões de pessoas visitam anualmente este espaço, incluindo os diversos parques recreativos. Eu acho que é pouco, que é ainda pouco. E sobretudo são em número irrisório os que fazem jogging em Monsanto. Eu acho que os lisboetas e os saloios da periferia de Lisboa ainda continuam de costas voltadas para Monsanto. Sobretudo continuam muito sedentários. E, mais ainda, muito dependentes do automóvel.
Sem dúvida que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) terá que se esforçar mais para mudar esta atitude negativa dos lisboetas e demais portugas que residem nos concelhos limítrofes, como o meu, relativamente à fruição do seu "pulmão verde". De qualquer modo, deixem-me dar os meus parabéns à CML que está a executar um programa de limpeza e reflorestação para pôr Monsanto "novinho em folha"... É de aplaudir também o corte do trânsito automóvel aos fins-de-semana, no verão, a par da melhoria da segurança, da acessibilidade e da sinalização.
Aqui ficam, entretanto, alguns sítios com informações interessantes sobre o Monsanto, o mal amado, ou a floresta do lobo mau.
Câmara Municipal de Lisboa – Espaços Verdes
A segurança no Parque Florestal de Monsanto
Parque Ecológico de Monsanto
Portugal sacro-profano - XI: Monsanto ou a floresta do lobo mau
Fui ontem, feriado, fazer o meu jogging no Parque Florestal de Monsanto. Já o faço há mais de 15 anos, com maior ou menor regularidade. Sozinho ou às vezes com a família.
Monsanto é um espaço fabuloso de cerca de mil hectares (1/8 da área da cidade de Lisboa), que muitos lisboetas desconhecem ou não usufruem devidamente. E que outros maltratam, cercando-o de cimento armado e alcatrão. Ou cobiçam, na mira da especulação imobiliária. Destaco, muito em especial, os seus 300 km de caminhos pedestres, para além da riqueza da sua flora e fauna.
É certo que a manhã estava chuvosa, pouco convidativa para as actividades ao ar livre. Em mais de hora e meia, encontrei apenas um pequeno grupo de seis pessoas fazendo jogging, além de alguns cicloturistas solitários e um coelho espavorido.
Há uma estranha relação dos portugas, rurais ou citadinos, com a floresta: ela sempre nos inspirou um misto contraditadório de encantamento, respeito e medo. O medo é ancestral e, no caso das pessoas da minha geração, poderá estar associada à experiência da guerra colonial ou às vivências de África. Haverá mais de um milhão de portugueses que, ao olharem para uma árvore de uma floresta, são capazes de imaginar, por detrás dela, um RPG-7 (o mais famoso lança-granadas do mundo) ou uma kalashnikov (a mais famosa espingarda automática de todos os tempos). Ao caminhares, solitário, por Monsanto, são outros nomes, exóticos, que te vêm à cabeça, por uns instantes, em rápido flashback: as matas do Morés, do Xime ou do Corubal, o Mato Cão, a Ponta do Inglês...
No caso de Monsanto, isso é agravado por estereótipos profundamente arreigados no imaginário do lisboeta. Estereótipos associados ao crime, à prostituição e à marginalidade. Ontem e hoje. Antes de ser reflorestada a serra de Monsanto era habitada por um estranho povo, parte do lumpen-proletariado de Lisboa, com famílias inteiras vivendo como animais em furnas que o Duarte Pacheco teve que mandar obstruir!!! Essas marcas ainda são visíveis na paisagem...
Leio algures nos sítios que selecionei para os leitores deste blogue, que cerca de dois milhões de pessoas visitam anualmente este espaço, incluindo os diversos parques recreativos. Eu acho que é pouco, que é ainda pouco. E sobretudo são em número irrisório os que fazem jogging em Monsanto. Eu acho que os lisboetas e os saloios da periferia de Lisboa ainda continuam de costas voltadas para Monsanto. Sobretudo continuam muito sedentários. E, mais ainda, muito dependentes do automóvel.
Sem dúvida que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) terá que se esforçar mais para mudar esta atitude negativa dos lisboetas e demais portugas que residem nos concelhos limítrofes, como o meu, relativamente à fruição do seu "pulmão verde". De qualquer modo, deixem-me dar os meus parabéns à CML que está a executar um programa de limpeza e reflorestação para pôr Monsanto "novinho em folha"... É de aplaudir também o corte do trânsito automóvel aos fins-de-semana, no verão, a par da melhoria da segurança, da acessibilidade e da sinalização.
Aqui ficam, entretanto, alguns sítios com informações interessantes sobre o Monsanto, o mal amado, ou a floresta do lobo mau.
Câmara Municipal de Lisboa – Espaços Verdes
A segurança no Parque Florestal de Monsanto
Parque Ecológico de Monsanto
Monsanto é um espaço fabuloso de cerca de mil hectares (1/8 da área da cidade de Lisboa), que muitos lisboetas desconhecem ou não usufruem devidamente. E que outros maltratam, cercando-o de cimento armado e alcatrão. Ou cobiçam, na mira da especulação imobiliária. Destaco, muito em especial, os seus 300 km de caminhos pedestres, para além da riqueza da sua flora e fauna.
É certo que a manhã estava chuvosa, pouco convidativa para as actividades ao ar livre. Em mais de hora e meia, encontrei apenas um pequeno grupo de seis pessoas fazendo jogging, além de alguns cicloturistas solitários e um coelho espavorido.
Há uma estranha relação dos portugas, rurais ou citadinos, com a floresta: ela sempre nos inspirou um misto contraditadório de encantamento, respeito e medo. O medo é ancestral e, no caso das pessoas da minha geração, poderá estar associada à experiência da guerra colonial ou às vivências de África. Haverá mais de um milhão de portugueses que, ao olharem para uma árvore de uma floresta, são capazes de imaginar, por detrás dela, um RPG-7 (o mais famoso lança-granadas do mundo) ou uma kalashnikov (a mais famosa espingarda automática de todos os tempos). Ao caminhares, solitário, por Monsanto, são outros nomes, exóticos, que te vêm à cabeça, por uns instantes, em rápido flashback: as matas do Morés, do Xime ou do Corubal, o Mato Cão, a Ponta do Inglês...
No caso de Monsanto, isso é agravado por estereótipos profundamente arreigados no imaginário do lisboeta. Estereótipos associados ao crime, à prostituição e à marginalidade. Ontem e hoje. Antes de ser reflorestada a serra de Monsanto era habitada por um estranho povo, parte do lumpen-proletariado de Lisboa, com famílias inteiras vivendo como animais em furnas que o Duarte Pacheco teve que mandar obstruir!!! Essas marcas ainda são visíveis na paisagem...
Leio algures nos sítios que selecionei para os leitores deste blogue, que cerca de dois milhões de pessoas visitam anualmente este espaço, incluindo os diversos parques recreativos. Eu acho que é pouco, que é ainda pouco. E sobretudo são em número irrisório os que fazem jogging em Monsanto. Eu acho que os lisboetas e os saloios da periferia de Lisboa ainda continuam de costas voltadas para Monsanto. Sobretudo continuam muito sedentários. E, mais ainda, muito dependentes do automóvel.
Sem dúvida que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) terá que se esforçar mais para mudar esta atitude negativa dos lisboetas e demais portugas que residem nos concelhos limítrofes, como o meu, relativamente à fruição do seu "pulmão verde". De qualquer modo, deixem-me dar os meus parabéns à CML que está a executar um programa de limpeza e reflorestação para pôr Monsanto "novinho em folha"... É de aplaudir também o corte do trânsito automóvel aos fins-de-semana, no verão, a par da melhoria da segurança, da acessibilidade e da sinalização.
Aqui ficam, entretanto, alguns sítios com informações interessantes sobre o Monsanto, o mal amado, ou a floresta do lobo mau.
Câmara Municipal de Lisboa – Espaços Verdes
A segurança no Parque Florestal de Monsanto
Parque Ecológico de Monsanto
05 dezembro 2003
Portugal sacro-profano – X: Portuguezes pocos, y eses locos
Lê-se no Publico.pt de hoje, em texto da Ana Cristina Pereira (quatro estrelas num máximo de cinco!), que as prisões portuguesas têm "a mais alta taxa de contaminação de doenças infecto-contagiosas da União Europeia" (não se indica a fonte), em grande parte devido ao consumo de droga, à partilha de agulhas e ao não uso de preservativos nas relações sexuais. E muito provavelmente também, acrescento eu, devido ao deplorável estado a que terá chegado o subsistema de cuidados de saúde do sistema prisional.
Segundo a jornalista, há quem chame aos nossos estabelecimentos prisionais os "motores da epidemia HIV". Especialistas do assunto, entrevistados pelo Público, "reclamam redução de danos - como a troca de seringas e/ou as salas de consumo asséptico - para acabar com a pena de morte em Portugal" (sic).
"Comigo, não contem para isso, disse a ministra da Justiça portuguesa, refugiando-se em razões morais. Motivo de sobra para enfurecer os especialistas da área, para quem este é um problema sério de saúde pública. Mas o ministro da tutela também fala em sistema de valores e até já põe a hipótese de o Governo voltar atrás na descriminalização do consumo de droga". (Ana Cristina Pereira. Publico.pt, 5.12.2003).
Portuguezes pocos, y eses locos... Terão razão os nossos vizinhos espanhóis quando se dignam olhar para nós com o olhar altivo do Dom Quixote de la Mancha e nos mimam com este secular apodo ?
Que são poucos, são... e que às vezes parecem loucos, parecem!
Segundo a jornalista, há quem chame aos nossos estabelecimentos prisionais os "motores da epidemia HIV". Especialistas do assunto, entrevistados pelo Público, "reclamam redução de danos - como a troca de seringas e/ou as salas de consumo asséptico - para acabar com a pena de morte em Portugal" (sic).
"Comigo, não contem para isso, disse a ministra da Justiça portuguesa, refugiando-se em razões morais. Motivo de sobra para enfurecer os especialistas da área, para quem este é um problema sério de saúde pública. Mas o ministro da tutela também fala em sistema de valores e até já põe a hipótese de o Governo voltar atrás na descriminalização do consumo de droga". (Ana Cristina Pereira. Publico.pt, 5.12.2003).
Portuguezes pocos, y eses locos... Terão razão os nossos vizinhos espanhóis quando se dignam olhar para nós com o olhar altivo do Dom Quixote de la Mancha e nos mimam com este secular apodo ?
Que são poucos, são... e que às vezes parecem loucos, parecem!
Portugal sacro-profano – X: Portuguezes pocos, y eses locos
Lê-se no Publico.pt de hoje, em texto da Ana Cristina Pereira (quatro estrelas num máximo de cinco!), que as prisões portuguesas têm "a mais alta taxa de contaminação de doenças infecto-contagiosas da União Europeia" (não se indica a fonte), em grande parte devido ao consumo de droga, à partilha de agulhas e ao não uso de preservativos nas relações sexuais. E muito provavelmente também, acrescento eu, devido ao deplorável estado a que terá chegado o subsistema de cuidados de saúde do sistema prisional.
Segundo a jornalista, há quem chame aos nossos estabelecimentos prisionais os "motores da epidemia HIV". Especialistas do assunto, entrevistados pelo Público, "reclamam redução de danos - como a troca de seringas e/ou as salas de consumo asséptico - para acabar com a pena de morte em Portugal" (sic).
"Comigo, não contem para isso, disse a ministra da Justiça portuguesa, refugiando-se em razões morais. Motivo de sobra para enfurecer os especialistas da área, para quem este é um problema sério de saúde pública. Mas o ministro da tutela também fala em sistema de valores e até já põe a hipótese de o Governo voltar atrás na descriminalização do consumo de droga". (Ana Cristina Pereira. Publico.pt, 5.12.2003).
Portuguezes pocos, y eses locos... Terão razão os nossos vizinhos espanhóis quando se dignam olhar para nós com o olhar altivo do Dom Quixote de la Mancha e nos mimam com este secular apodo ?
Que são poucos, são... e que às vezes parecem loucos, parecem!
Segundo a jornalista, há quem chame aos nossos estabelecimentos prisionais os "motores da epidemia HIV". Especialistas do assunto, entrevistados pelo Público, "reclamam redução de danos - como a troca de seringas e/ou as salas de consumo asséptico - para acabar com a pena de morte em Portugal" (sic).
"Comigo, não contem para isso, disse a ministra da Justiça portuguesa, refugiando-se em razões morais. Motivo de sobra para enfurecer os especialistas da área, para quem este é um problema sério de saúde pública. Mas o ministro da tutela também fala em sistema de valores e até já põe a hipótese de o Governo voltar atrás na descriminalização do consumo de droga". (Ana Cristina Pereira. Publico.pt, 5.12.2003).
Portuguezes pocos, y eses locos... Terão razão os nossos vizinhos espanhóis quando se dignam olhar para nós com o olhar altivo do Dom Quixote de la Mancha e nos mimam com este secular apodo ?
Que são poucos, são... e que às vezes parecem loucos, parecem!
Blogantologia(s) – V: Prolóquios para a educação da mocidade
1. A merda é o adubo... da vida! (não sei se isto é biologicamente correcto...)
2. Cartaz de prevenção e segurança no trabalho: evitem acidentes, façam de propósito (... e por favor culpem as vítimas!)
3. Conselho do pai para o filho; “casa-te e sê feliz, meu filho; é importante que arranjes (i) uma mulher que seja boa dona de casa; (ii) uma mulher com uma profissão que te dê dinheiro; e (iii) uma mulher que goste de fazer amor contigo; mas mais importante ainda, é que (iv) essas três mulheres nunca se encontrem” (... tenho pena que o meu pai nunca me tenha dado tal conselho!).
4. Deus criou o homem antes da mulher, porque na altura ainda não tinha; (i) certificação de qualidade; (ii) assistência pós-venda; nem (iii) livro de reclamações (... também não havia ainda o sistema português de qualidade!)
5. Diz o rico para o pobre: há um mundo bem melhor para lá do horizonte que se avista da tua janela, só que não está ao alcance da tua bolsa (... eu acho que isto tipo de bocas miserabilistas já não se usam: basta folhear a imprensda cor de rosa!)
6. É com a merda dos grandes, que os pequenos se afogam; mas também é fazendo merda, que a gente aprende... a nadar! (... não conheço nenhuma escola em Lisboa que nos ensine a nadar na merda!)
7. Em todas as coisas da vida a prática leva à perfeição; a única excepção é a roleta russa (...confesso, nunca experimentei!)
8. Experimenta viver cada dia como se fosse o último da tua vida: verás que um dia destes acertas mesmo! (.. muito útil!)
9. Mais vale uma mosca no teu prato da sopa do que um míssil de cruzeiro na tua cozinha (provérbio árabe) (... este provérbio é muito tendencioso!)
10. Minha amiga colorida: pior do que nunca encontrares o homem certo é viveres toda a vida com o gajo errado (... a alternativa é o convento?)
11. Na minha lápide funerária quero que escrevam: "Por favor, não perturbar; estou numa cura de sono... eterno" (...não sei onde está a piada!)
12. O melhor do trabalho em equipe: se perdermos, é a culpa é do nosso treinador (... se não tivesse essa vantagem, não perderíamos tempo a falar de líderes e liderança!)
13. O paradoxo: tentar falhar e conseguir (... não sei se já alguém conseguiu!)
14. O pior da democracia é não tolerar a ditadura mas brincar com o populismo (... brinca-se muito com o fogo!)
15. O que diz o instrutor palestiniano aos seus aprendizes de homem-bomba: "Por Alá, prestem a máxima atenção que eu só posso exemplificar uma vez" (... esta piada é terrorista!)
16. Podes ser idiota (artista) e fazer uma obra de arte; mas tens de ser um génio (capitalista) para a pôr no mercado e vendê-la (... ah!, as relações da arte com o dinheiro! Mas afinal a arte não é uma mercadoria como tudo o mais ?)
17. Quando chegares a um beco sem saída e não te restar mais nenhum opção, pára e consulta o manual sobre as saídas de emergência (... sorry, mas não tenho esse manual!).
18. Roubar ideias a uma autor é plágio; roubar as ideias de muita gente, é investigação científica (... o que é roubar ?)
19. Se procuras uma mão disposta a ajudar-te, fala com o teu braço (o esquerdo ou o direito, tanto faz) (... é capaz de haver diferenças entre o esquerdo e o direito, ou não? Não percebo nada de anatomia e fisiologia...)
2. Cartaz de prevenção e segurança no trabalho: evitem acidentes, façam de propósito (... e por favor culpem as vítimas!)
3. Conselho do pai para o filho; “casa-te e sê feliz, meu filho; é importante que arranjes (i) uma mulher que seja boa dona de casa; (ii) uma mulher com uma profissão que te dê dinheiro; e (iii) uma mulher que goste de fazer amor contigo; mas mais importante ainda, é que (iv) essas três mulheres nunca se encontrem” (... tenho pena que o meu pai nunca me tenha dado tal conselho!).
4. Deus criou o homem antes da mulher, porque na altura ainda não tinha; (i) certificação de qualidade; (ii) assistência pós-venda; nem (iii) livro de reclamações (... também não havia ainda o sistema português de qualidade!)
5. Diz o rico para o pobre: há um mundo bem melhor para lá do horizonte que se avista da tua janela, só que não está ao alcance da tua bolsa (... eu acho que isto tipo de bocas miserabilistas já não se usam: basta folhear a imprensda cor de rosa!)
6. É com a merda dos grandes, que os pequenos se afogam; mas também é fazendo merda, que a gente aprende... a nadar! (... não conheço nenhuma escola em Lisboa que nos ensine a nadar na merda!)
7. Em todas as coisas da vida a prática leva à perfeição; a única excepção é a roleta russa (...confesso, nunca experimentei!)
8. Experimenta viver cada dia como se fosse o último da tua vida: verás que um dia destes acertas mesmo! (.. muito útil!)
9. Mais vale uma mosca no teu prato da sopa do que um míssil de cruzeiro na tua cozinha (provérbio árabe) (... este provérbio é muito tendencioso!)
10. Minha amiga colorida: pior do que nunca encontrares o homem certo é viveres toda a vida com o gajo errado (... a alternativa é o convento?)
11. Na minha lápide funerária quero que escrevam: "Por favor, não perturbar; estou numa cura de sono... eterno" (...não sei onde está a piada!)
12. O melhor do trabalho em equipe: se perdermos, é a culpa é do nosso treinador (... se não tivesse essa vantagem, não perderíamos tempo a falar de líderes e liderança!)
13. O paradoxo: tentar falhar e conseguir (... não sei se já alguém conseguiu!)
14. O pior da democracia é não tolerar a ditadura mas brincar com o populismo (... brinca-se muito com o fogo!)
15. O que diz o instrutor palestiniano aos seus aprendizes de homem-bomba: "Por Alá, prestem a máxima atenção que eu só posso exemplificar uma vez" (... esta piada é terrorista!)
16. Podes ser idiota (artista) e fazer uma obra de arte; mas tens de ser um génio (capitalista) para a pôr no mercado e vendê-la (... ah!, as relações da arte com o dinheiro! Mas afinal a arte não é uma mercadoria como tudo o mais ?)
17. Quando chegares a um beco sem saída e não te restar mais nenhum opção, pára e consulta o manual sobre as saídas de emergência (... sorry, mas não tenho esse manual!).
18. Roubar ideias a uma autor é plágio; roubar as ideias de muita gente, é investigação científica (... o que é roubar ?)
19. Se procuras uma mão disposta a ajudar-te, fala com o teu braço (o esquerdo ou o direito, tanto faz) (... é capaz de haver diferenças entre o esquerdo e o direito, ou não? Não percebo nada de anatomia e fisiologia...)
Blogantologia(s) – V: Prolóquios para a educação da mocidade
1. A merda é o adubo... da vida! (não sei se isto é biologicamente correcto...)
2. Cartaz de prevenção e segurança no trabalho: evitem acidentes, façam de propósito (... e por favor culpem as vítimas!)
3. Conselho do pai para o filho; “casa-te e sê feliz, meu filho; é importante que arranjes (i) uma mulher que seja boa dona de casa; (ii) uma mulher com uma profissão que te dê dinheiro; e (iii) uma mulher que goste de fazer amor contigo; mas mais importante ainda, é que (iv) essas três mulheres nunca se encontrem” (... tenho pena que o meu pai nunca me tenha dado tal conselho!).
4. Deus criou o homem antes da mulher, porque na altura ainda não tinha; (i) certificação de qualidade; (ii) assistência pós-venda; nem (iii) livro de reclamações (... também não havia ainda o sistema português de qualidade!)
5. Diz o rico para o pobre: há um mundo bem melhor para lá do horizonte que se avista da tua janela, só que não está ao alcance da tua bolsa (... eu acho que isto tipo de bocas miserabilistas já não se usam: basta folhear a imprensda cor de rosa!)
6. É com a merda dos grandes, que os pequenos se afogam; mas também é fazendo merda, que a gente aprende... a nadar! (... não conheço nenhuma escola em Lisboa que nos ensine a nadar na merda!)
7. Em todas as coisas da vida a prática leva à perfeição; a única excepção é a roleta russa (...confesso, nunca experimentei!)
8. Experimenta viver cada dia como se fosse o último da tua vida: verás que um dia destes acertas mesmo! (.. muito útil!)
9. Mais vale uma mosca no teu prato da sopa do que um míssil de cruzeiro na tua cozinha (provérbio árabe) (... este provérbio é muito tendencioso!)
10. Minha amiga colorida: pior do que nunca encontrares o homem certo é viveres toda a vida com o gajo errado (... a alternativa é o convento?)
11. Na minha lápide funerária quero que escrevam: "Por favor, não perturbar; estou numa cura de sono... eterno" (...não sei onde está a piada!)
12. O melhor do trabalho em equipe: se perdermos, é a culpa é do nosso treinador (... se não tivesse essa vantagem, não perderíamos tempo a falar de líderes e liderança!)
13. O paradoxo: tentar falhar e conseguir (... não sei se já alguém conseguiu!)
14. O pior da democracia é não tolerar a ditadura mas brincar com o populismo (... brinca-se muito com o fogo!)
15. O que diz o instrutor palestiniano aos seus aprendizes de homem-bomba: "Por Alá, prestem a máxima atenção que eu só posso exemplificar uma vez" (... esta piada é terrorista!)
16. Podes ser idiota (artista) e fazer uma obra de arte; mas tens de ser um génio (capitalista) para a pôr no mercado e vendê-la (... ah!, as relações da arte com o dinheiro! Mas afinal a arte não é uma mercadoria como tudo o mais ?)
17. Quando chegares a um beco sem saída e não te restar mais nenhum opção, pára e consulta o manual sobre as saídas de emergência (... sorry, mas não tenho esse manual!).
18. Roubar ideias a uma autor é plágio; roubar as ideias de muita gente, é investigação científica (... o que é roubar ?)
19. Se procuras uma mão disposta a ajudar-te, fala com o teu braço (o esquerdo ou o direito, tanto faz) (... é capaz de haver diferenças entre o esquerdo e o direito, ou não? Não percebo nada de anatomia e fisiologia...)
2. Cartaz de prevenção e segurança no trabalho: evitem acidentes, façam de propósito (... e por favor culpem as vítimas!)
3. Conselho do pai para o filho; “casa-te e sê feliz, meu filho; é importante que arranjes (i) uma mulher que seja boa dona de casa; (ii) uma mulher com uma profissão que te dê dinheiro; e (iii) uma mulher que goste de fazer amor contigo; mas mais importante ainda, é que (iv) essas três mulheres nunca se encontrem” (... tenho pena que o meu pai nunca me tenha dado tal conselho!).
4. Deus criou o homem antes da mulher, porque na altura ainda não tinha; (i) certificação de qualidade; (ii) assistência pós-venda; nem (iii) livro de reclamações (... também não havia ainda o sistema português de qualidade!)
5. Diz o rico para o pobre: há um mundo bem melhor para lá do horizonte que se avista da tua janela, só que não está ao alcance da tua bolsa (... eu acho que isto tipo de bocas miserabilistas já não se usam: basta folhear a imprensda cor de rosa!)
6. É com a merda dos grandes, que os pequenos se afogam; mas também é fazendo merda, que a gente aprende... a nadar! (... não conheço nenhuma escola em Lisboa que nos ensine a nadar na merda!)
7. Em todas as coisas da vida a prática leva à perfeição; a única excepção é a roleta russa (...confesso, nunca experimentei!)
8. Experimenta viver cada dia como se fosse o último da tua vida: verás que um dia destes acertas mesmo! (.. muito útil!)
9. Mais vale uma mosca no teu prato da sopa do que um míssil de cruzeiro na tua cozinha (provérbio árabe) (... este provérbio é muito tendencioso!)
10. Minha amiga colorida: pior do que nunca encontrares o homem certo é viveres toda a vida com o gajo errado (... a alternativa é o convento?)
11. Na minha lápide funerária quero que escrevam: "Por favor, não perturbar; estou numa cura de sono... eterno" (...não sei onde está a piada!)
12. O melhor do trabalho em equipe: se perdermos, é a culpa é do nosso treinador (... se não tivesse essa vantagem, não perderíamos tempo a falar de líderes e liderança!)
13. O paradoxo: tentar falhar e conseguir (... não sei se já alguém conseguiu!)
14. O pior da democracia é não tolerar a ditadura mas brincar com o populismo (... brinca-se muito com o fogo!)
15. O que diz o instrutor palestiniano aos seus aprendizes de homem-bomba: "Por Alá, prestem a máxima atenção que eu só posso exemplificar uma vez" (... esta piada é terrorista!)
16. Podes ser idiota (artista) e fazer uma obra de arte; mas tens de ser um génio (capitalista) para a pôr no mercado e vendê-la (... ah!, as relações da arte com o dinheiro! Mas afinal a arte não é uma mercadoria como tudo o mais ?)
17. Quando chegares a um beco sem saída e não te restar mais nenhum opção, pára e consulta o manual sobre as saídas de emergência (... sorry, mas não tenho esse manual!).
18. Roubar ideias a uma autor é plágio; roubar as ideias de muita gente, é investigação científica (... o que é roubar ?)
19. Se procuras uma mão disposta a ajudar-te, fala com o teu braço (o esquerdo ou o direito, tanto faz) (... é capaz de haver diferenças entre o esquerdo e o direito, ou não? Não percebo nada de anatomia e fisiologia...)
03 dezembro 2003
Portugas que merecem os nossos assobios - II: Os responsáveis da irresponsabilidade
Há uma derrocada de um prédio (centenário). Morrem duas pessoas (uma mulher idosa e um jovem de 18 anos). Ao lado está-se a construir um outro. Tudo indica que a causa imediata da derrocada seja a falta de escoramento do prédio que agora ruiu.
As pessoas, incrédulas mas conformadas, perguntam: Mas não há um plano de segurança, como manda a lei ? Se calhar existe, mas o mais provável é ter sido tirado a papel químico, como tantos outros. E então, onde estão os responsáveis, o dono da obra, o engenheiro, o técnico de segurança, a autarquia que licenciou a obra e mais os não-sei-quantos organismos que deviam fiscalizar os trabalhos ?
Na terra dos portugas, na hora da desgraça, ninguém é responsável, somos todos responsáveis irresponsáveis. É a hora de alijar a carga, assobiar e cuspir para o lado...
O que não devia acontecer, infelizmente aconteceu. Desta vez em Olhão. Parece que Olhão bisou. Pelos vistos, é uma cidade accident-prone.
Infelizmente este não é um caso virgem nem local. Repete-se por esse país fora. Desta vez teve honras mediáticas. As desgraças têm sempre honras mediáticas, à falta de melhores notícias.
Face a mais este triste exemplo do triunfo da patobravocracia (e da burocracia patológica) no país dos portugas, o blogador manda as mais veementes assobiadelas para os responsáveis por mais esta... irresponsabilidade. Acrescenta-lhe um adjectivo, já gasto e inútil: criminosa. Irresponsabilidade criminosa.
As pessoas, incrédulas mas conformadas, perguntam: Mas não há um plano de segurança, como manda a lei ? Se calhar existe, mas o mais provável é ter sido tirado a papel químico, como tantos outros. E então, onde estão os responsáveis, o dono da obra, o engenheiro, o técnico de segurança, a autarquia que licenciou a obra e mais os não-sei-quantos organismos que deviam fiscalizar os trabalhos ?
Na terra dos portugas, na hora da desgraça, ninguém é responsável, somos todos responsáveis irresponsáveis. É a hora de alijar a carga, assobiar e cuspir para o lado...
O que não devia acontecer, infelizmente aconteceu. Desta vez em Olhão. Parece que Olhão bisou. Pelos vistos, é uma cidade accident-prone.
Infelizmente este não é um caso virgem nem local. Repete-se por esse país fora. Desta vez teve honras mediáticas. As desgraças têm sempre honras mediáticas, à falta de melhores notícias.
Face a mais este triste exemplo do triunfo da patobravocracia (e da burocracia patológica) no país dos portugas, o blogador manda as mais veementes assobiadelas para os responsáveis por mais esta... irresponsabilidade. Acrescenta-lhe um adjectivo, já gasto e inútil: criminosa. Irresponsabilidade criminosa.
Portugas que merecem os nossos assobios - II: Os responsáveis da irresponsabilidade
Há uma derrocada de um prédio (centenário). Morrem duas pessoas (uma mulher idosa e um jovem de 18 anos). Ao lado está-se a construir um outro. Tudo indica que a causa imediata da derrocada seja a falta de escoramento do prédio que agora ruiu.
As pessoas, incrédulas mas conformadas, perguntam: Mas não há um plano de segurança, como manda a lei ? Se calhar existe, mas o mais provável é ter sido tirado a papel químico, como tantos outros. E então, onde estão os responsáveis, o dono da obra, o engenheiro, o técnico de segurança, a autarquia que licenciou a obra e mais os não-sei-quantos organismos que deviam fiscalizar os trabalhos ?
Na terra dos portugas, na hora da desgraça, ninguém é responsável, somos todos responsáveis irresponsáveis. É a hora de alijar a carga, assobiar e cuspir para o lado...
O que não devia acontecer, infelizmente aconteceu. Desta vez em Olhão. Parece que Olhão bisou. Pelos vistos, é uma cidade accident-prone.
Infelizmente este não é um caso virgem nem local. Repete-se por esse país fora. Desta vez teve honras mediáticas. As desgraças têm sempre honras mediáticas, à falta de melhores notícias.
Face a mais este triste exemplo do triunfo da patobravocracia (e da burocracia patológica) no país dos portugas, o blogador manda as mais veementes assobiadelas para os responsáveis por mais esta... irresponsabilidade. Acrescenta-lhe um adjectivo, já gasto e inútil: criminosa. Irresponsabilidade criminosa.
As pessoas, incrédulas mas conformadas, perguntam: Mas não há um plano de segurança, como manda a lei ? Se calhar existe, mas o mais provável é ter sido tirado a papel químico, como tantos outros. E então, onde estão os responsáveis, o dono da obra, o engenheiro, o técnico de segurança, a autarquia que licenciou a obra e mais os não-sei-quantos organismos que deviam fiscalizar os trabalhos ?
Na terra dos portugas, na hora da desgraça, ninguém é responsável, somos todos responsáveis irresponsáveis. É a hora de alijar a carga, assobiar e cuspir para o lado...
O que não devia acontecer, infelizmente aconteceu. Desta vez em Olhão. Parece que Olhão bisou. Pelos vistos, é uma cidade accident-prone.
Infelizmente este não é um caso virgem nem local. Repete-se por esse país fora. Desta vez teve honras mediáticas. As desgraças têm sempre honras mediáticas, à falta de melhores notícias.
Face a mais este triste exemplo do triunfo da patobravocracia (e da burocracia patológica) no país dos portugas, o blogador manda as mais veementes assobiadelas para os responsáveis por mais esta... irresponsabilidade. Acrescenta-lhe um adjectivo, já gasto e inútil: criminosa. Irresponsabilidade criminosa.
01 dezembro 2003
O tripaliu(m) que mata a gente - I: Trabalho e prazer
Dizem os brazucas que "a meia idade é quando o trabalho dá menos prazer e o prazer mais trabalho"... Os portugas são muito mais radicais: sempre os ouvi dizer "Serviço é serviço, conhaque é conhaque"... É estranho porque o conhaque é francês... Na belle époque tudo o que tinha a ver com prazer, era franciú, vinha de França ou falava francês.
Dir-me-ão que a piada (brazuca) é de mau gosto e está gasta... Em todo o caso, ela serve para abrir, sem pompa nem circunstância, esta blogaria sobre o tripaliu(m) que mata a gente.
Como teletrabalhador (nocturno e diurno) exerço aqui o meu pleno direito de fazer o meu minuto de humor... no trabalho (ou na blogosfera, tanto faz). Esta figura não é jurídica: tudo o que não vem no Código de Trabalho, a partir de agora, tem de ser (re)equacionado... O break no trabalho não vem no Código, pelo que se pode questionar a sua legitimidade. Embora faça bem às costas e à saúde mental. Mas adiante.
Etimologicamente falando, a palavra Trabalho vem do latim Tripaliu(m), originalmente um instrumento composto de Tres Pales (três paus) que servia justamente para Tripaliare: neste caso, servia ao carrasco romano para trabalhar, literalmente torturar alguém (por ex., um escravo) usando para o efeito o Tripaliu(m) ... Claro que o carrasco era outro escravo, já que o cidadão romano não trabalhva com as mãos... "'Tá quieto, que trabalhar faz calos", dizia o cidadão.
É fantástico como no nosso (des)humor do dia a dia a gente ainda usa expressões que remetem para este sentido original, etimológico, do palavrão que nos coube em sorte... Veja-se de resto algumas dos nossos ditados ditos populares:
(i) "Para gozar eu; para trabalhar um irmão que Deus me deu" (a repulsa cristã e senhorial pelo trabalho manual... e o seu sucedâneo burguês e positivista: "Deus ajuda a quem trabalha, que é o capital que menos falha", "Se o trabalho dá saúde, que trabalhem os doentes";
(ii) Em suma, cibertrabalhadores, o trabalho não dignifica: "Só trabalha quem não sabe fazer mais nada"; "Mão de mestre não suja ferramenta"; "Mais vale um bom mandador do que um bom trabalhador"...
(iii) Em contrapartida, diz-se: "Trabalhar que nem um mouro" (referência aos mouros que foram escravizados pelos cristãos depois da Reconquista da península ibérica);
(iv) ou "Trabalhar que nem um galego" (referência aos aguadeiros de Lisboa no Séc. XIX, que eram justamente oriundos da Galiza);
(v) ou ainda "Trabalho é bom pró preto" (dizia-se em Portugal, no tempo do império colonial; e continua a dizer-se hoje, não por racismo mas por um qualquer lapsus linguae);
(vi) bem como "Trabalho se fez para burro e português" (no Rio de Janeiro, referindo-se à leva de emigrantes pobres que chegavam ao Brasil na 1ª metade do Séc. XX)
Pensem nisto e na sua eventual relação (ou falta dela) ... com a saúde no trabalho!
Post Scriptum - Já agora qual será a razão por que se diz: "Mal por mal antes cadeia do que hospital?"
Dir-me-ão que a piada (brazuca) é de mau gosto e está gasta... Em todo o caso, ela serve para abrir, sem pompa nem circunstância, esta blogaria sobre o tripaliu(m) que mata a gente.
Como teletrabalhador (nocturno e diurno) exerço aqui o meu pleno direito de fazer o meu minuto de humor... no trabalho (ou na blogosfera, tanto faz). Esta figura não é jurídica: tudo o que não vem no Código de Trabalho, a partir de agora, tem de ser (re)equacionado... O break no trabalho não vem no Código, pelo que se pode questionar a sua legitimidade. Embora faça bem às costas e à saúde mental. Mas adiante.
Etimologicamente falando, a palavra Trabalho vem do latim Tripaliu(m), originalmente um instrumento composto de Tres Pales (três paus) que servia justamente para Tripaliare: neste caso, servia ao carrasco romano para trabalhar, literalmente torturar alguém (por ex., um escravo) usando para o efeito o Tripaliu(m) ... Claro que o carrasco era outro escravo, já que o cidadão romano não trabalhva com as mãos... "'Tá quieto, que trabalhar faz calos", dizia o cidadão.
É fantástico como no nosso (des)humor do dia a dia a gente ainda usa expressões que remetem para este sentido original, etimológico, do palavrão que nos coube em sorte... Veja-se de resto algumas dos nossos ditados ditos populares:
(i) "Para gozar eu; para trabalhar um irmão que Deus me deu" (a repulsa cristã e senhorial pelo trabalho manual... e o seu sucedâneo burguês e positivista: "Deus ajuda a quem trabalha, que é o capital que menos falha", "Se o trabalho dá saúde, que trabalhem os doentes";
(ii) Em suma, cibertrabalhadores, o trabalho não dignifica: "Só trabalha quem não sabe fazer mais nada"; "Mão de mestre não suja ferramenta"; "Mais vale um bom mandador do que um bom trabalhador"...
(iii) Em contrapartida, diz-se: "Trabalhar que nem um mouro" (referência aos mouros que foram escravizados pelos cristãos depois da Reconquista da península ibérica);
(iv) ou "Trabalhar que nem um galego" (referência aos aguadeiros de Lisboa no Séc. XIX, que eram justamente oriundos da Galiza);
(v) ou ainda "Trabalho é bom pró preto" (dizia-se em Portugal, no tempo do império colonial; e continua a dizer-se hoje, não por racismo mas por um qualquer lapsus linguae);
(vi) bem como "Trabalho se fez para burro e português" (no Rio de Janeiro, referindo-se à leva de emigrantes pobres que chegavam ao Brasil na 1ª metade do Séc. XX)
Pensem nisto e na sua eventual relação (ou falta dela) ... com a saúde no trabalho!
Post Scriptum - Já agora qual será a razão por que se diz: "Mal por mal antes cadeia do que hospital?"
O tripaliu(m) que mata a gente - I: Trabalho e prazer
Dizem os brazucas que "a meia idade é quando o trabalho dá menos prazer e o prazer mais trabalho"... Os portugas são muito mais radicais: sempre os ouvi dizer "Serviço é serviço, conhaque é conhaque"... É estranho porque o conhaque é francês... Na belle époque tudo o que tinha a ver com prazer, era franciú, vinha de França ou falava francês.
Dir-me-ão que a piada (brazuca) é de mau gosto e está gasta... Em todo o caso, ela serve para abrir, sem pompa nem circunstância, esta blogaria sobre o tripaliu(m) que mata a gente.
Como teletrabalhador (nocturno e diurno) exerço aqui o meu pleno direito de fazer o meu minuto de humor... no trabalho (ou na blogosfera, tanto faz). Esta figura não é jurídica: tudo o que não vem no Código de Trabalho, a partir de agora, tem de ser (re)equacionado... O break no trabalho não vem no Código, pelo que se pode questionar a sua legitimidade. Embora faça bem às costas e à saúde mental. Mas adiante.
Etimologicamente falando, a palavra Trabalho vem do latim Tripaliu(m), originalmente um instrumento composto de Tres Pales (três paus) que servia justamente para Tripaliare: neste caso, servia ao carrasco romano para trabalhar, literalmente torturar alguém (por ex., um escravo) usando para o efeito o Tripaliu(m) ... Claro que o carrasco era outro escravo, já que o cidadão romano não trabalhva com as mãos... "'Tá quieto, que trabalhar faz calos", dizia o cidadão.
É fantástico como no nosso (des)humor do dia a dia a gente ainda usa expressões que remetem para este sentido original, etimológico, do palavrão que nos coube em sorte... Veja-se de resto algumas dos nossos ditados ditos populares:
(i) "Para gozar eu; para trabalhar um irmão que Deus me deu" (a repulsa cristã e senhorial pelo trabalho manual... e o seu sucedâneo burguês e positivista: "Deus ajuda a quem trabalha, que é o capital que menos falha", "Se o trabalho dá saúde, que trabalhem os doentes";
(ii) Em suma, cibertrabalhadores, o trabalho não dignifica: "Só trabalha quem não sabe fazer mais nada"; "Mão de mestre não suja ferramenta"; "Mais vale um bom mandador do que um bom trabalhador"...
(iii) Em contrapartida, diz-se: "Trabalhar que nem um mouro" (referência aos mouros que foram escravizados pelos cristãos depois da Reconquista da península ibérica);
(iv) ou "Trabalhar que nem um galego" (referência aos aguadeiros de Lisboa no Séc. XIX, que eram justamente oriundos da Galiza);
(v) ou ainda "Trabalho é bom pró preto" (dizia-se em Portugal, no tempo do império colonial; e continua a dizer-se hoje, não por racismo mas por um qualquer lapsus linguae);
(vi) bem como "Trabalho se fez para burro e português" (no Rio de Janeiro, referindo-se à leva de emigrantes pobres que chegavam ao Brasil na 1ª metade do Séc. XX)
Pensem nisto e na sua eventual relação (ou falta dela) ... com a saúde no trabalho!
Post Scriptum - Já agora qual será a razão por que se diz: "Mal por mal antes cadeia do que hospital?"
Dir-me-ão que a piada (brazuca) é de mau gosto e está gasta... Em todo o caso, ela serve para abrir, sem pompa nem circunstância, esta blogaria sobre o tripaliu(m) que mata a gente.
Como teletrabalhador (nocturno e diurno) exerço aqui o meu pleno direito de fazer o meu minuto de humor... no trabalho (ou na blogosfera, tanto faz). Esta figura não é jurídica: tudo o que não vem no Código de Trabalho, a partir de agora, tem de ser (re)equacionado... O break no trabalho não vem no Código, pelo que se pode questionar a sua legitimidade. Embora faça bem às costas e à saúde mental. Mas adiante.
Etimologicamente falando, a palavra Trabalho vem do latim Tripaliu(m), originalmente um instrumento composto de Tres Pales (três paus) que servia justamente para Tripaliare: neste caso, servia ao carrasco romano para trabalhar, literalmente torturar alguém (por ex., um escravo) usando para o efeito o Tripaliu(m) ... Claro que o carrasco era outro escravo, já que o cidadão romano não trabalhva com as mãos... "'Tá quieto, que trabalhar faz calos", dizia o cidadão.
É fantástico como no nosso (des)humor do dia a dia a gente ainda usa expressões que remetem para este sentido original, etimológico, do palavrão que nos coube em sorte... Veja-se de resto algumas dos nossos ditados ditos populares:
(i) "Para gozar eu; para trabalhar um irmão que Deus me deu" (a repulsa cristã e senhorial pelo trabalho manual... e o seu sucedâneo burguês e positivista: "Deus ajuda a quem trabalha, que é o capital que menos falha", "Se o trabalho dá saúde, que trabalhem os doentes";
(ii) Em suma, cibertrabalhadores, o trabalho não dignifica: "Só trabalha quem não sabe fazer mais nada"; "Mão de mestre não suja ferramenta"; "Mais vale um bom mandador do que um bom trabalhador"...
(iii) Em contrapartida, diz-se: "Trabalhar que nem um mouro" (referência aos mouros que foram escravizados pelos cristãos depois da Reconquista da península ibérica);
(iv) ou "Trabalhar que nem um galego" (referência aos aguadeiros de Lisboa no Séc. XIX, que eram justamente oriundos da Galiza);
(v) ou ainda "Trabalho é bom pró preto" (dizia-se em Portugal, no tempo do império colonial; e continua a dizer-se hoje, não por racismo mas por um qualquer lapsus linguae);
(vi) bem como "Trabalho se fez para burro e português" (no Rio de Janeiro, referindo-se à leva de emigrantes pobres que chegavam ao Brasil na 1ª metade do Séc. XX)
Pensem nisto e na sua eventual relação (ou falta dela) ... com a saúde no trabalho!
Post Scriptum - Já agora qual será a razão por que se diz: "Mal por mal antes cadeia do que hospital?"
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