Eu, blogador, me confesso: sei agora até que ponto sou um tecnicodependente. Em boa verdade, sou um pobre tecnicodependente. Estive dois dias sem computador e, imaginem!, foi como se eu tivesse partido as pernas, o mundo desabado, a vida perdido o seu sentido.
A placa gráfica do meu PC, de topo de gama (talvez a peça mais cara do meu brinquedo!), bifou, e o resto da máquina recusou-se a trabalhar. O material é assim. Neste mundo é o material que tem razão. Aliás, o material tem sempre razão, dizem os engenheiros. Mas, eu, tecnicodependente, é que não estou nada pelos ajustes. Tive um ataque de nervos, digno de um verdadeiro primata.
Triste episódio este, ridícula situação a minha... Um homem já não é mais mais o que era, sobretudo depois de regressar vivo, mas não incólume, da guerra (colonial). É duro, mas tenho de confessá-lo.
À parte este registo intimista, deixem-me dizer-vos que felizmente valeu-me, nesta triste ocasião, a pronta assistência do meu fornecedor e sobretudo a amizade do João. O meu PC estava dentro da garantia e eu tive um tratamento VIP. Por sorte, havia duas placas gráficas do mesmo modelo e marca em armazém. Mas por azar nenhuma delas funcionava. Dizem-me que é um erro de produção num lote inteiro, um erro de série. Eu digo que é falha grave ou ausência total de garantia de qualidade por parte do fabricante... Enfim, à terceira tentativa lá se optou por um novo modelo de placa gráfica, de outra marca, mas igualmente made in China.
Podiam ter-me dito: o seu PC vai para arranjar e, quando estiver pronto, a gente telefona-lhe. Mas não, deram-me um tratamento VIP... Tenho pena de não poder publicitar aqui os seus nomes, o da empresa e a dos seus colaboradores que me atenderam e resolveram o meu problema. Mas a minha vontade era mesmo elegê-los os portugas da semana.
Devo dizer-vos que é gente do melhor. E bem precisava o país de multiplicar o seu número por cem. Juntando mais 10 AutoEuropas tínhamos muitos dos nossos problemas colectivos resolvidos. Para já tudo somado, eram mais uns 150 mil postos de trabalho com um significativo peso no nosso PIBezito, graças ao seu considerável valor acrescentado bruto (VAB).
Já que estou aqui hoje, e para mais em maré de confidências, direi que o que é bom no tratamento VIP é tu sentires mais do que cliente, é sentires-te gente. Eu gostei de sentir-me gente esta manhã, mesmo tendo perdido uma manhã da minha vida à espera que resolvessem o meu pequeno grande problema. Sentir-se gente é uma coisa que começa a faltar neste país. Uma pessoa sentir-se gente faz bem à nossa auto-estima, diz o meu psicólogo que passou a substituir o meu confessor do tempo de menino e moço.
Quanto ao problema técnico que causou a minha infelicidade durante dois dias, ele é apenas um dos muitos efeitos perversos da globalização. Graças à mão de obra quase escrava da China, a globalização operou este espantoso milagre do embaratecimento do material electrónico, incluindo os PC e os respectivos periféricos. Lembro-me do primeiro PC que comprei há mais de um dúzia de anos... Era um oito seis e troca o passo! Custou-me os olhos da cara. Hoje nem para peça de museu o queriam em lado nenhum. Já foi para o lixo, depois de anos passados no limbo do sótão das velharias.
Deixem dizer-vos que me separei dele, sem uma ponta de emoção: estava velho, obsoleto, ultrapassado. Foi para o sótão, foi para o lixo. Foi tratado afinal como se tratam hoje os velhos neste país. Já o mesmo não aconteceu à minha velha máquina de escrever: esqueci o nome da marca e do modelo, mas ainda hoje a recordo com a ternura dos meus 17 verdes anos... E que saudades do martelar seco das pequenas teclas!
De qualquer modo, protesto contra todas as formas de tecnicodependência, seja a do carro, a do telemóvel, do micro-ondas, do multibanco ou do PC. Um dia o mundo desaba mesmo e a gente não sabe sequer escrever a giz no quadro de ardósia da nossa velha escolinha, plantar umas pencas, enterrar um morto, cuidar de um vivo ou fugir a sete pés dos nossos predadores.
É um cenário aterrador mas perfeitamente verosímil. A regressão (económica, social, tecnológica, política, cultural, humana...) tem-se passado em muitos países à nossa volta, nas nossas barbas, da antiga Jugoslávia ao Iraque. Perdi o contacto com as minhas amigas croatas e sérvias, todas elas médicas. Uma amizade que fiz em Valência em 1991. Estava eu para partir para Zagrebe, para frequentar um curso de verão, quando eclodiu a guerra civil nos Balcãs. Acabei por ficar o tórrido mês de Agosto em Valência, traduzindo para inglês as más notícias que nos chegavam da Jugoslávia. Ironicamente, em Valência ainda se faziam sentir, na memória dos mais velhos, as marcas cruéis da guerra civil espanhola de 1936-1939.
Passados estes anos todos, perdi-lhes o rasto, às minhas amigas jugoslavas, uma delas sérvia casada com um bósnio... E sobretudo tenho pudor em perguntar por aí se elas ainda estão vivas, se estão bem, se não foram violadas, fuziladas, enterradas numa vala comum... E se as encontrassse não saberia como perguntar-lhes, olhos nos olhos, se elas tinham conseguido voltar à vida depois do pesadelo que foi o desmembramento do seu país e, em muitos casos, das suas famílias...
Rezo, ao menos, para que elas tenham voltado a sorrir e a ter esperança. Mesmo sem computador, e-mail, webpage ou blog. Pensar nas desgraças piores que as nossas sempre alivia um pouco. É safado, mas alivia.
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
08 janeiro 2004
Socio(b)logia - IV: A tecnicodependência
Eu, blogador, me confesso: sei agora até que ponto sou um tecnicodependente. Em boa verdade, sou um pobre tecnicodependente. Estive dois dias sem computador e, imaginem!, foi como se eu tivesse partido as pernas, o mundo desabado, a vida perdido o seu sentido.
A placa gráfica do meu PC, de topo de gama (talvez a peça mais cara do meu brinquedo!), bifou, e o resto da máquina recusou-se a trabalhar. O material é assim. Neste mundo é o material que tem razão. Aliás, o material tem sempre razão, dizem os engenheiros. Mas, eu, tecnicodependente, é que não estou nada pelos ajustes. Tive um ataque de nervos, digno de um verdadeiro primata.
Triste episódio este, ridícula situação a minha... Um homem já não é mais mais o que era, sobretudo depois de regressar vivo, mas não incólume, da guerra (colonial). É duro, mas tenho de confessá-lo.
À parte este registo intimista, deixem-me dizer-vos que felizmente valeu-me, nesta triste ocasião, a pronta assistência do meu fornecedor e sobretudo a amizade do João. O meu PC estava dentro da garantia e eu tive um tratamento VIP. Por sorte, havia duas placas gráficas do mesmo modelo e marca em armazém. Mas por azar nenhuma delas funcionava. Dizem-me que é um erro de produção num lote inteiro, um erro de série. Eu digo que é falha grave ou ausência total de garantia de qualidade por parte do fabricante... Enfim, à terceira tentativa lá se optou por um novo modelo de placa gráfica, de outra marca, mas igualmente made in China.
Podiam ter-me dito: o seu PC vai para arranjar e, quando estiver pronto, a gente telefona-lhe. Mas não, deram-me um tratamento VIP... Tenho pena de não poder publicitar aqui os seus nomes, o da empresa e a dos seus colaboradores que me atenderam e resolveram o meu problema. Mas a minha vontade era mesmo elegê-los os portugas da semana.
Devo dizer-vos que é gente do melhor. E bem precisava o país de multiplicar o seu número por cem. Juntando mais 10 AutoEuropas tínhamos muitos dos nossos problemas colectivos resolvidos. Para já tudo somado, eram mais uns 150 mil postos de trabalho com um significativo peso no nosso PIBezito, graças ao seu considerável valor acrescentado bruto (VAB).
Já que estou aqui hoje, e para mais em maré de confidências, direi que o que é bom no tratamento VIP é tu sentires mais do que cliente, é sentires-te gente. Eu gostei de sentir-me gente esta manhã, mesmo tendo perdido uma manhã da minha vida à espera que resolvessem o meu pequeno grande problema. Sentir-se gente é uma coisa que começa a faltar neste país. Uma pessoa sentir-se gente faz bem à nossa auto-estima, diz o meu psicólogo que passou a substituir o meu confessor do tempo de menino e moço.
Quanto ao problema técnico que causou a minha infelicidade durante dois dias, ele é apenas um dos muitos efeitos perversos da globalização. Graças à mão de obra quase escrava da China, a globalização operou este espantoso milagre do embaratecimento do material electrónico, incluindo os PC e os respectivos periféricos. Lembro-me do primeiro PC que comprei há mais de um dúzia de anos... Era um oito seis e troca o passo! Custou-me os olhos da cara. Hoje nem para peça de museu o queriam em lado nenhum. Já foi para o lixo, depois de anos passados no limbo do sótão das velharias.
Deixem dizer-vos que me separei dele, sem uma ponta de emoção: estava velho, obsoleto, ultrapassado. Foi para o sótão, foi para o lixo. Foi tratado afinal como se tratam hoje os velhos neste país. Já o mesmo não aconteceu à minha velha máquina de escrever: esqueci o nome da marca e do modelo, mas ainda hoje a recordo com a ternura dos meus 17 verdes anos... E que saudades do martelar seco das pequenas teclas!
De qualquer modo, protesto contra todas as formas de tecnicodependência, seja a do carro, a do telemóvel, do micro-ondas, do multibanco ou do PC. Um dia o mundo desaba mesmo e a gente não sabe sequer escrever a giz no quadro de ardósia da nossa velha escolinha, plantar umas pencas, enterrar um morto, cuidar de um vivo ou fugir a sete pés dos nossos predadores.
É um cenário aterrador mas perfeitamente verosímil. A regressão (económica, social, tecnológica, política, cultural, humana...) tem-se passado em muitos países à nossa volta, nas nossas barbas, da antiga Jugoslávia ao Iraque. Perdi o contacto com as minhas amigas croatas e sérvias, todas elas médicas. Uma amizade que fiz em Valência em 1991. Estava eu para partir para Zagrebe, para frequentar um curso de verão, quando eclodiu a guerra civil nos Balcãs. Acabei por ficar o tórrido mês de Agosto em Valência, traduzindo para inglês as más notícias que nos chegavam da Jugoslávia. Ironicamente, em Valência ainda se faziam sentir, na memória dos mais velhos, as marcas cruéis da guerra civil espanhola de 1936-1939.
Passados estes anos todos, perdi-lhes o rasto, às minhas amigas jugoslavas, uma delas sérvia casada com um bósnio... E sobretudo tenho pudor em perguntar por aí se elas ainda estão vivas, se estão bem, se não foram violadas, fuziladas, enterradas numa vala comum... E se as encontrassse não saberia como perguntar-lhes, olhos nos olhos, se elas tinham conseguido voltar à vida depois do pesadelo que foi o desmembramento do seu país e, em muitos casos, das suas famílias...
Rezo, ao menos, para que elas tenham voltado a sorrir e a ter esperança. Mesmo sem computador, e-mail, webpage ou blog. Pensar nas desgraças piores que as nossas sempre alivia um pouco. É safado, mas alivia.
A placa gráfica do meu PC, de topo de gama (talvez a peça mais cara do meu brinquedo!), bifou, e o resto da máquina recusou-se a trabalhar. O material é assim. Neste mundo é o material que tem razão. Aliás, o material tem sempre razão, dizem os engenheiros. Mas, eu, tecnicodependente, é que não estou nada pelos ajustes. Tive um ataque de nervos, digno de um verdadeiro primata.
Triste episódio este, ridícula situação a minha... Um homem já não é mais mais o que era, sobretudo depois de regressar vivo, mas não incólume, da guerra (colonial). É duro, mas tenho de confessá-lo.
À parte este registo intimista, deixem-me dizer-vos que felizmente valeu-me, nesta triste ocasião, a pronta assistência do meu fornecedor e sobretudo a amizade do João. O meu PC estava dentro da garantia e eu tive um tratamento VIP. Por sorte, havia duas placas gráficas do mesmo modelo e marca em armazém. Mas por azar nenhuma delas funcionava. Dizem-me que é um erro de produção num lote inteiro, um erro de série. Eu digo que é falha grave ou ausência total de garantia de qualidade por parte do fabricante... Enfim, à terceira tentativa lá se optou por um novo modelo de placa gráfica, de outra marca, mas igualmente made in China.
Podiam ter-me dito: o seu PC vai para arranjar e, quando estiver pronto, a gente telefona-lhe. Mas não, deram-me um tratamento VIP... Tenho pena de não poder publicitar aqui os seus nomes, o da empresa e a dos seus colaboradores que me atenderam e resolveram o meu problema. Mas a minha vontade era mesmo elegê-los os portugas da semana.
Devo dizer-vos que é gente do melhor. E bem precisava o país de multiplicar o seu número por cem. Juntando mais 10 AutoEuropas tínhamos muitos dos nossos problemas colectivos resolvidos. Para já tudo somado, eram mais uns 150 mil postos de trabalho com um significativo peso no nosso PIBezito, graças ao seu considerável valor acrescentado bruto (VAB).
Já que estou aqui hoje, e para mais em maré de confidências, direi que o que é bom no tratamento VIP é tu sentires mais do que cliente, é sentires-te gente. Eu gostei de sentir-me gente esta manhã, mesmo tendo perdido uma manhã da minha vida à espera que resolvessem o meu pequeno grande problema. Sentir-se gente é uma coisa que começa a faltar neste país. Uma pessoa sentir-se gente faz bem à nossa auto-estima, diz o meu psicólogo que passou a substituir o meu confessor do tempo de menino e moço.
Quanto ao problema técnico que causou a minha infelicidade durante dois dias, ele é apenas um dos muitos efeitos perversos da globalização. Graças à mão de obra quase escrava da China, a globalização operou este espantoso milagre do embaratecimento do material electrónico, incluindo os PC e os respectivos periféricos. Lembro-me do primeiro PC que comprei há mais de um dúzia de anos... Era um oito seis e troca o passo! Custou-me os olhos da cara. Hoje nem para peça de museu o queriam em lado nenhum. Já foi para o lixo, depois de anos passados no limbo do sótão das velharias.
Deixem dizer-vos que me separei dele, sem uma ponta de emoção: estava velho, obsoleto, ultrapassado. Foi para o sótão, foi para o lixo. Foi tratado afinal como se tratam hoje os velhos neste país. Já o mesmo não aconteceu à minha velha máquina de escrever: esqueci o nome da marca e do modelo, mas ainda hoje a recordo com a ternura dos meus 17 verdes anos... E que saudades do martelar seco das pequenas teclas!
De qualquer modo, protesto contra todas as formas de tecnicodependência, seja a do carro, a do telemóvel, do micro-ondas, do multibanco ou do PC. Um dia o mundo desaba mesmo e a gente não sabe sequer escrever a giz no quadro de ardósia da nossa velha escolinha, plantar umas pencas, enterrar um morto, cuidar de um vivo ou fugir a sete pés dos nossos predadores.
É um cenário aterrador mas perfeitamente verosímil. A regressão (económica, social, tecnológica, política, cultural, humana...) tem-se passado em muitos países à nossa volta, nas nossas barbas, da antiga Jugoslávia ao Iraque. Perdi o contacto com as minhas amigas croatas e sérvias, todas elas médicas. Uma amizade que fiz em Valência em 1991. Estava eu para partir para Zagrebe, para frequentar um curso de verão, quando eclodiu a guerra civil nos Balcãs. Acabei por ficar o tórrido mês de Agosto em Valência, traduzindo para inglês as más notícias que nos chegavam da Jugoslávia. Ironicamente, em Valência ainda se faziam sentir, na memória dos mais velhos, as marcas cruéis da guerra civil espanhola de 1936-1939.
Passados estes anos todos, perdi-lhes o rasto, às minhas amigas jugoslavas, uma delas sérvia casada com um bósnio... E sobretudo tenho pudor em perguntar por aí se elas ainda estão vivas, se estão bem, se não foram violadas, fuziladas, enterradas numa vala comum... E se as encontrassse não saberia como perguntar-lhes, olhos nos olhos, se elas tinham conseguido voltar à vida depois do pesadelo que foi o desmembramento do seu país e, em muitos casos, das suas famílias...
Rezo, ao menos, para que elas tenham voltado a sorrir e a ter esperança. Mesmo sem computador, e-mail, webpage ou blog. Pensar nas desgraças piores que as nossas sempre alivia um pouco. É safado, mas alivia.
05 janeiro 2004
Humor com humor se paga - XVII: A reposição da verdade a propósito dos Reis Magos
Comentário de Hélio Pereira a propósito do meu primeiro post do Novo Ano:
Como estamos nos Reis, há que repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber, (i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões; (ii) Semiramis de Babilónia e (iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada; a segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia (ou Youssef J. da equipa nacional de andebol da Tunísia); a ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.
As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável. São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo. Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por nuestro hermano.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.
Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino... De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade,seja ela qual for.
Boa saúde, bom trabalho, bom Dia de Reis!
Hélio Pereira
Como estamos nos Reis, há que repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber, (i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões; (ii) Semiramis de Babilónia e (iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada; a segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia (ou Youssef J. da equipa nacional de andebol da Tunísia); a ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.
As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável. São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo. Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por nuestro hermano.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.
Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino... De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade,seja ela qual for.
Boa saúde, bom trabalho, bom Dia de Reis!
Hélio Pereira
Humor com humor se paga - XVII: A reposição da verdade a propósito dos Reis Magos
Comentário de Hélio Pereira a propósito do meu primeiro post do Novo Ano:
Como estamos nos Reis, há que repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber, (i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões; (ii) Semiramis de Babilónia e (iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada; a segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia (ou Youssef J. da equipa nacional de andebol da Tunísia); a ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.
As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável. São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo. Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por nuestro hermano.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.
Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino... De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade,seja ela qual for.
Boa saúde, bom trabalho, bom Dia de Reis!
Hélio Pereira
Como estamos nos Reis, há que repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber, (i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões; (ii) Semiramis de Babilónia e (iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada; a segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia (ou Youssef J. da equipa nacional de andebol da Tunísia); a ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.
As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável. São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo. Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por nuestro hermano.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.
Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino... De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade,seja ela qual for.
Boa saúde, bom trabalho, bom Dia de Reis!
Hélio Pereira
04 janeiro 2004
Humor com humor se paga - XVI: E se os Reis Magos fossem.. Elas ?
Se os Reis Magos fossem elas (Rainhas Magas...), é possível que o curso da história tivesse sido outro... Este é um chiste machista que me mandou um amigo do país vizinho. Circula na Net e está a fazer algum sucesso nesta Navidad (que, como sabem, para os espanhóis corresponde à festa dos Reis Magos e não propriamente ao dia de Natal).
Transcrevo-a aqui, sem retoques, e ofereço-a como um regalo às minhas ciberamigas do peito, ainda no rescaldo desta maravilhosa (ou hipócrita, conforme o ponto de vista) quadra festiva que é constituída pelas miniférias de Natal e Ano Novo. Uma quadra em que o nosso PIB, se não aumentou de valor, pelo menos terá aumentado... de peso. Façam as contas: os portugas engordaram, no mínimo, 5 mil toneladas ou 5 milhões de quilos (meio quilo por portuga só na Consoada!).
Contradizendo a teoria da depressão colectiva, os portugas afinal não se suicidaram em massa: uns (talvez os mais privilegiados) foram para a neve ou para as praias do nordeste brasileiro (neve e Brasil estão agora na moda); outros (a grande maioria, como eu) matou saudades da santa terrinha e enfartou-se de batatas, pencas, bacalhau, aletria, rabanadas, filhós, sonhos e mil e um outros docinhos tradicionais. A factura paga-se mais tarde: como diz o Zé Portuga, "vale o mal que faz pelo bem que sabe"...
Não sou economista para saber o que é que isto pode eventualmente representar em termos de produto interno bruto.... Seguramente que representa muito, em termos valor acrescentado bruto (VAB) à massa corporal nacional (MCN)...
Foi talvez por isso que eu estranhei, hoje, de manhã, num domingo de sol radioso, tanta gente, em grupo, bem equipada, motivada e optimista, a fazer o seu jogging ou o seu cicloturismo no Parque Florestal de Monsanto... Os portugas são uma das minorias étnicas em vias de extinção que não me param de surpreender há mais de meio século!
Fazendo jus ao provérbio Ano novo, vida nova, muitos portugas terão feito a si próprios as habituais promessas de mudança de vida, ao comerem as doze passas correspondentes às doze badaladas da última meia noite do ano de 2003. Promessas do género: "Vou deixar de fumar", "vou passar a cuidar mais da minha saúde", "vou fazer exercício", "vou declarar o meu amor por ela", "vou ser feliz", "vou ser assertivo", "vou ser optimista", "vou ser mais amigo do meu chefe", "vou deixar de dar porrada na minha mulher", "vou deixar de ser pedófilo", "vou deixar de ouvir música pimba", "vou ser um caso de sucesso", etc. A mim só me apetece comentar: Grandes portugas que bem mereciam outros Reis Magos!
Correspondendo aos meus votos de Feliz e Próspero Ano Novo (ver post de 31 de Dezembro de 2003), houve um aluno meu, Hélio P., que me mandou este bocado de lucidíssima prosa (existencialista):
"Que o blogador não desespere!... Afinal o Sísifo anda a rolar a pedra há pelo menos 4500 milhões de anos, e ainda não foi despenalizado pelo(s) criador(es)...É o velho estigma dos lusitanos: vêem a vida constantemente perturbada por uma transcendência impossível em que nem sequer acreditam... Mas enfim... que Criador poderá perdoar a um país que começa com o filho a bater na mãe?! ... Bom 2004... e seguintes... e que ninguém se magoe a sério ao cair de 1 cm mais alto"...
Grande Hélio, portuga dos quatro costados! Eu tinha sugerido, timidamente, em subir 1 cm a fasquia das nossas expectativas, individuais e colectivas... Se calhar fui muito pouco ambicioso!
_____________
¿Qué hubiera sucedido si en lugar de 3 Reyes Magos, hubieran sido 3 Reinas Magas?
- Ellas habrían pedido ayuda para llegar.
- Habrían llegado a tiempo.
- Habrían ayudado en el parto.
- Habrían hecho una limpieza en el establo.
- Habrían llevado regalos útiles.
- Habrían llevado una comidita.
Pero... ¿qué hubieran dicho al salir de allí? Tan pronto hubieran salido dirían...
- ¿Vieron las sandalias que María estaba usando con aquella túnica?
- El niño no se parece a José.
- ¿Cómo es que ella puede dejar todos aquellos animales dentro de la casa?
- Y el burro que ellos tienen está bastante acabado...
- Yo sólo quiero ver, cuándo ella te va a devolver la cazuela, que le llevaste con el macarrón.
- Me dijeron que José está desempleado...
- Virgen que caramba! Yo me acuerdo muy bien de ella, en la época del colegio!
Transcrevo-a aqui, sem retoques, e ofereço-a como um regalo às minhas ciberamigas do peito, ainda no rescaldo desta maravilhosa (ou hipócrita, conforme o ponto de vista) quadra festiva que é constituída pelas miniférias de Natal e Ano Novo. Uma quadra em que o nosso PIB, se não aumentou de valor, pelo menos terá aumentado... de peso. Façam as contas: os portugas engordaram, no mínimo, 5 mil toneladas ou 5 milhões de quilos (meio quilo por portuga só na Consoada!).
Contradizendo a teoria da depressão colectiva, os portugas afinal não se suicidaram em massa: uns (talvez os mais privilegiados) foram para a neve ou para as praias do nordeste brasileiro (neve e Brasil estão agora na moda); outros (a grande maioria, como eu) matou saudades da santa terrinha e enfartou-se de batatas, pencas, bacalhau, aletria, rabanadas, filhós, sonhos e mil e um outros docinhos tradicionais. A factura paga-se mais tarde: como diz o Zé Portuga, "vale o mal que faz pelo bem que sabe"...
Não sou economista para saber o que é que isto pode eventualmente representar em termos de produto interno bruto.... Seguramente que representa muito, em termos valor acrescentado bruto (VAB) à massa corporal nacional (MCN)...
Foi talvez por isso que eu estranhei, hoje, de manhã, num domingo de sol radioso, tanta gente, em grupo, bem equipada, motivada e optimista, a fazer o seu jogging ou o seu cicloturismo no Parque Florestal de Monsanto... Os portugas são uma das minorias étnicas em vias de extinção que não me param de surpreender há mais de meio século!
Fazendo jus ao provérbio Ano novo, vida nova, muitos portugas terão feito a si próprios as habituais promessas de mudança de vida, ao comerem as doze passas correspondentes às doze badaladas da última meia noite do ano de 2003. Promessas do género: "Vou deixar de fumar", "vou passar a cuidar mais da minha saúde", "vou fazer exercício", "vou declarar o meu amor por ela", "vou ser feliz", "vou ser assertivo", "vou ser optimista", "vou ser mais amigo do meu chefe", "vou deixar de dar porrada na minha mulher", "vou deixar de ser pedófilo", "vou deixar de ouvir música pimba", "vou ser um caso de sucesso", etc. A mim só me apetece comentar: Grandes portugas que bem mereciam outros Reis Magos!
Correspondendo aos meus votos de Feliz e Próspero Ano Novo (ver post de 31 de Dezembro de 2003), houve um aluno meu, Hélio P., que me mandou este bocado de lucidíssima prosa (existencialista):
"Que o blogador não desespere!... Afinal o Sísifo anda a rolar a pedra há pelo menos 4500 milhões de anos, e ainda não foi despenalizado pelo(s) criador(es)...É o velho estigma dos lusitanos: vêem a vida constantemente perturbada por uma transcendência impossível em que nem sequer acreditam... Mas enfim... que Criador poderá perdoar a um país que começa com o filho a bater na mãe?! ... Bom 2004... e seguintes... e que ninguém se magoe a sério ao cair de 1 cm mais alto"...
Grande Hélio, portuga dos quatro costados! Eu tinha sugerido, timidamente, em subir 1 cm a fasquia das nossas expectativas, individuais e colectivas... Se calhar fui muito pouco ambicioso!
_____________
¿Qué hubiera sucedido si en lugar de 3 Reyes Magos, hubieran sido 3 Reinas Magas?
- Ellas habrían pedido ayuda para llegar.
- Habrían llegado a tiempo.
- Habrían ayudado en el parto.
- Habrían hecho una limpieza en el establo.
- Habrían llevado regalos útiles.
- Habrían llevado una comidita.
Pero... ¿qué hubieran dicho al salir de allí? Tan pronto hubieran salido dirían...
- ¿Vieron las sandalias que María estaba usando con aquella túnica?
- El niño no se parece a José.
- ¿Cómo es que ella puede dejar todos aquellos animales dentro de la casa?
- Y el burro que ellos tienen está bastante acabado...
- Yo sólo quiero ver, cuándo ella te va a devolver la cazuela, que le llevaste con el macarrón.
- Me dijeron que José está desempleado...
- Virgen que caramba! Yo me acuerdo muy bien de ella, en la época del colegio!
Humor com humor se paga - XVI: E se os Reis Magos fossem.. Elas ?
Se os Reis Magos fossem elas (Rainhas Magas...), é possível que o curso da história tivesse sido outro... Este é um chiste machista que me mandou um amigo do país vizinho. Circula na Net e está a fazer algum sucesso nesta Navidad (que, como sabem, para os espanhóis corresponde à festa dos Reis Magos e não propriamente ao dia de Natal).
Transcrevo-a aqui, sem retoques, e ofereço-a como um regalo às minhas ciberamigas do peito, ainda no rescaldo desta maravilhosa (ou hipócrita, conforme o ponto de vista) quadra festiva que é constituída pelas miniférias de Natal e Ano Novo. Uma quadra em que o nosso PIB, se não aumentou de valor, pelo menos terá aumentado... de peso. Façam as contas: os portugas engordaram, no mínimo, 5 mil toneladas ou 5 milhões de quilos (meio quilo por portuga só na Consoada!).
Contradizendo a teoria da depressão colectiva, os portugas afinal não se suicidaram em massa: uns (talvez os mais privilegiados) foram para a neve ou para as praias do nordeste brasileiro (neve e Brasil estão agora na moda); outros (a grande maioria, como eu) matou saudades da santa terrinha e enfartou-se de batatas, pencas, bacalhau, aletria, rabanadas, filhós, sonhos e mil e um outros docinhos tradicionais. A factura paga-se mais tarde: como diz o Zé Portuga, "vale o mal que faz pelo bem que sabe"...
Não sou economista para saber o que é que isto pode eventualmente representar em termos de produto interno bruto.... Seguramente que representa muito, em termos valor acrescentado bruto (VAB) à massa corporal nacional (MCN)...
Foi talvez por isso que eu estranhei, hoje, de manhã, num domingo de sol radioso, tanta gente, em grupo, bem equipada, motivada e optimista, a fazer o seu jogging ou o seu cicloturismo no Parque Florestal de Monsanto... Os portugas são uma das minorias étnicas em vias de extinção que não me param de surpreender há mais de meio século!
Fazendo jus ao provérbio Ano novo, vida nova, muitos portugas terão feito a si próprios as habituais promessas de mudança de vida, ao comerem as doze passas correspondentes às doze badaladas da última meia noite do ano de 2003. Promessas do género: "Vou deixar de fumar", "vou passar a cuidar mais da minha saúde", "vou fazer exercício", "vou declarar o meu amor por ela", "vou ser feliz", "vou ser assertivo", "vou ser optimista", "vou ser mais amigo do meu chefe", "vou deixar de dar porrada na minha mulher", "vou deixar de ser pedófilo", "vou deixar de ouvir música pimba", "vou ser um caso de sucesso", etc. A mim só me apetece comentar: Grandes portugas que bem mereciam outros Reis Magos!
Correspondendo aos meus votos de Feliz e Próspero Ano Novo (ver post de 31 de Dezembro de 2003), houve um aluno meu, Hélio P., que me mandou este bocado de lucidíssima prosa (existencialista):
"Que o blogador não desespere!... Afinal o Sísifo anda a rolar a pedra há pelo menos 4500 milhões de anos, e ainda não foi despenalizado pelo(s) criador(es)...É o velho estigma dos lusitanos: vêem a vida constantemente perturbada por uma transcendência impossível em que nem sequer acreditam... Mas enfim... que Criador poderá perdoar a um país que começa com o filho a bater na mãe?! ... Bom 2004... e seguintes... e que ninguém se magoe a sério ao cair de 1 cm mais alto"...
Grande Hélio, portuga dos quatro costados! Eu tinha sugerido, timidamente, em subir 1 cm a fasquia das nossas expectativas, individuais e colectivas... Se calhar fui muito pouco ambicioso!
_____________
¿Qué hubiera sucedido si en lugar de 3 Reyes Magos, hubieran sido 3 Reinas Magas?
- Ellas habrían pedido ayuda para llegar.
- Habrían llegado a tiempo.
- Habrían ayudado en el parto.
- Habrían hecho una limpieza en el establo.
- Habrían llevado regalos útiles.
- Habrían llevado una comidita.
Pero... ¿qué hubieran dicho al salir de allí? Tan pronto hubieran salido dirían...
- ¿Vieron las sandalias que María estaba usando con aquella túnica?
- El niño no se parece a José.
- ¿Cómo es que ella puede dejar todos aquellos animales dentro de la casa?
- Y el burro que ellos tienen está bastante acabado...
- Yo sólo quiero ver, cuándo ella te va a devolver la cazuela, que le llevaste con el macarrón.
- Me dijeron que José está desempleado...
- Virgen que caramba! Yo me acuerdo muy bien de ella, en la época del colegio!
Transcrevo-a aqui, sem retoques, e ofereço-a como um regalo às minhas ciberamigas do peito, ainda no rescaldo desta maravilhosa (ou hipócrita, conforme o ponto de vista) quadra festiva que é constituída pelas miniférias de Natal e Ano Novo. Uma quadra em que o nosso PIB, se não aumentou de valor, pelo menos terá aumentado... de peso. Façam as contas: os portugas engordaram, no mínimo, 5 mil toneladas ou 5 milhões de quilos (meio quilo por portuga só na Consoada!).
Contradizendo a teoria da depressão colectiva, os portugas afinal não se suicidaram em massa: uns (talvez os mais privilegiados) foram para a neve ou para as praias do nordeste brasileiro (neve e Brasil estão agora na moda); outros (a grande maioria, como eu) matou saudades da santa terrinha e enfartou-se de batatas, pencas, bacalhau, aletria, rabanadas, filhós, sonhos e mil e um outros docinhos tradicionais. A factura paga-se mais tarde: como diz o Zé Portuga, "vale o mal que faz pelo bem que sabe"...
Não sou economista para saber o que é que isto pode eventualmente representar em termos de produto interno bruto.... Seguramente que representa muito, em termos valor acrescentado bruto (VAB) à massa corporal nacional (MCN)...
Foi talvez por isso que eu estranhei, hoje, de manhã, num domingo de sol radioso, tanta gente, em grupo, bem equipada, motivada e optimista, a fazer o seu jogging ou o seu cicloturismo no Parque Florestal de Monsanto... Os portugas são uma das minorias étnicas em vias de extinção que não me param de surpreender há mais de meio século!
Fazendo jus ao provérbio Ano novo, vida nova, muitos portugas terão feito a si próprios as habituais promessas de mudança de vida, ao comerem as doze passas correspondentes às doze badaladas da última meia noite do ano de 2003. Promessas do género: "Vou deixar de fumar", "vou passar a cuidar mais da minha saúde", "vou fazer exercício", "vou declarar o meu amor por ela", "vou ser feliz", "vou ser assertivo", "vou ser optimista", "vou ser mais amigo do meu chefe", "vou deixar de dar porrada na minha mulher", "vou deixar de ser pedófilo", "vou deixar de ouvir música pimba", "vou ser um caso de sucesso", etc. A mim só me apetece comentar: Grandes portugas que bem mereciam outros Reis Magos!
Correspondendo aos meus votos de Feliz e Próspero Ano Novo (ver post de 31 de Dezembro de 2003), houve um aluno meu, Hélio P., que me mandou este bocado de lucidíssima prosa (existencialista):
"Que o blogador não desespere!... Afinal o Sísifo anda a rolar a pedra há pelo menos 4500 milhões de anos, e ainda não foi despenalizado pelo(s) criador(es)...É o velho estigma dos lusitanos: vêem a vida constantemente perturbada por uma transcendência impossível em que nem sequer acreditam... Mas enfim... que Criador poderá perdoar a um país que começa com o filho a bater na mãe?! ... Bom 2004... e seguintes... e que ninguém se magoe a sério ao cair de 1 cm mais alto"...
Grande Hélio, portuga dos quatro costados! Eu tinha sugerido, timidamente, em subir 1 cm a fasquia das nossas expectativas, individuais e colectivas... Se calhar fui muito pouco ambicioso!
_____________
¿Qué hubiera sucedido si en lugar de 3 Reyes Magos, hubieran sido 3 Reinas Magas?
- Ellas habrían pedido ayuda para llegar.
- Habrían llegado a tiempo.
- Habrían ayudado en el parto.
- Habrían hecho una limpieza en el establo.
- Habrían llevado regalos útiles.
- Habrían llevado una comidita.
Pero... ¿qué hubieran dicho al salir de allí? Tan pronto hubieran salido dirían...
- ¿Vieron las sandalias que María estaba usando con aquella túnica?
- El niño no se parece a José.
- ¿Cómo es que ella puede dejar todos aquellos animales dentro de la casa?
- Y el burro que ellos tienen está bastante acabado...
- Yo sólo quiero ver, cuándo ella te va a devolver la cazuela, que le llevaste con el macarrón.
- Me dijeron que José está desempleado...
- Virgen que caramba! Yo me acuerdo muy bien de ella, en la época del colegio!
31 dezembro 2003
Car@s ciberamig@s - IV: Animação para a despedida de mais um annus horribilis
pensando (bem...) em todos os homens e mulheres de boa vontade
que habitam o planeta azul.
incluindo tod@s @s car@s ciberamig@s
que fazem parte da minha mailing list.
onde quer que vocês estejam.
onde quer que vocês vivam.
de lisboa a florianópolis, de verona a toronto,
do porto a karlstad, de luanda a maputo...
uma saudação extensiva aos blogadores,
aos grandes e aos pequenos blogadores da blogosfera lusófona.
e aos leitores deste discreto blogue-fora-nada.
que em 2004 os criadores e as suas criaturas
não cometam (tantos) erros
(de programação, execução e controlo de qualidade).
como este aqui caricaturado no belíssimo filme de animação
com a assinatura do italiano bruno bozzetto
(clicar na hiperligação assinalada no final deste post).
ou, pelo menos, que possamos nós, pobres criaturas,
ser um pouco mais optimistas
em relação ao nosso futuro em 2004
do que em 2003.
feito o balanço, no último dia de cada ano,
temos sempre (a compulsiva) tendência para dizer e escrever
que foi mais um annus horribilis...
e muito provavelmente foi.
para muita gente foi um ano horrível.
gente que morreu de sida em áfrica.
que morreu no terramoto que destruiu bam, no irão, na rota das sedas.
ou aqui mais perto de nós:
gente que perdeu o emprego no vale do ave ou na península de setúbal.
gente que emigrou para a terra dos portugas
e que perdeu a esperança.
os portugas que envellhecem e perdem o direito de sorrir.
gente que nunca chegou a conhecer os aventureiros marco polo.
nem os burlescos berlusconi.
nem os clones dos saddam e dos bush.
ou simplesmente gente que teme pela liberdade
e pela democracia neste mundo já perigosamente musculado e demente.
gente que vive na eurolândia
e que gostaria de exigir muito mais aos seus líderes.
provavelmente somos (eu sou...) pessimistas profissionais.
umas criaturas mal nascidas e mal criadas...
mas a verdade é que o ano que passou não foi lá grande coisa.
para os portugas e para o resto da humanidade...
no novo mundo. em áfrica. na fortaleza de shengen.
na euroásia. na terra onde cristo nasceu.
no resto do planeta azul.
acho que as criaturas e os seus criadores
podiam ter feito muito melhor.
o meu voto no início do ano de 2004
é para pôr a fasquia... um centímetro mais alta
e exigir que a gente (portugas incluídos)
sejamos, individual e colectivamente, melhores
do que fomos em 2003.
http://www.bozzetto.com/Flash/Life.htm
que habitam o planeta azul.
incluindo tod@s @s car@s ciberamig@s
que fazem parte da minha mailing list.
onde quer que vocês estejam.
onde quer que vocês vivam.
de lisboa a florianópolis, de verona a toronto,
do porto a karlstad, de luanda a maputo...
uma saudação extensiva aos blogadores,
aos grandes e aos pequenos blogadores da blogosfera lusófona.
e aos leitores deste discreto blogue-fora-nada.
que em 2004 os criadores e as suas criaturas
não cometam (tantos) erros
(de programação, execução e controlo de qualidade).
como este aqui caricaturado no belíssimo filme de animação
com a assinatura do italiano bruno bozzetto
(clicar na hiperligação assinalada no final deste post).
ou, pelo menos, que possamos nós, pobres criaturas,
ser um pouco mais optimistas
em relação ao nosso futuro em 2004
do que em 2003.
feito o balanço, no último dia de cada ano,
temos sempre (a compulsiva) tendência para dizer e escrever
que foi mais um annus horribilis...
e muito provavelmente foi.
para muita gente foi um ano horrível.
gente que morreu de sida em áfrica.
que morreu no terramoto que destruiu bam, no irão, na rota das sedas.
ou aqui mais perto de nós:
gente que perdeu o emprego no vale do ave ou na península de setúbal.
gente que emigrou para a terra dos portugas
e que perdeu a esperança.
os portugas que envellhecem e perdem o direito de sorrir.
gente que nunca chegou a conhecer os aventureiros marco polo.
nem os burlescos berlusconi.
nem os clones dos saddam e dos bush.
ou simplesmente gente que teme pela liberdade
e pela democracia neste mundo já perigosamente musculado e demente.
gente que vive na eurolândia
e que gostaria de exigir muito mais aos seus líderes.
provavelmente somos (eu sou...) pessimistas profissionais.
umas criaturas mal nascidas e mal criadas...
mas a verdade é que o ano que passou não foi lá grande coisa.
para os portugas e para o resto da humanidade...
no novo mundo. em áfrica. na fortaleza de shengen.
na euroásia. na terra onde cristo nasceu.
no resto do planeta azul.
acho que as criaturas e os seus criadores
podiam ter feito muito melhor.
o meu voto no início do ano de 2004
é para pôr a fasquia... um centímetro mais alta
e exigir que a gente (portugas incluídos)
sejamos, individual e colectivamente, melhores
do que fomos em 2003.
http://www.bozzetto.com/Flash/Life.htm
Car@s ciberamig@s - IV: Animação para a despedida de mais um annus horribilis
pensando (bem...) em todos os homens e mulheres de boa vontade
que habitam o planeta azul.
incluindo tod@s @s car@s ciberamig@s
que fazem parte da minha mailing list.
onde quer que vocês estejam.
onde quer que vocês vivam.
de lisboa a florianópolis, de verona a toronto,
do porto a karlstad, de luanda a maputo...
uma saudação extensiva aos blogadores,
aos grandes e aos pequenos blogadores da blogosfera lusófona.
e aos leitores deste discreto blogue-fora-nada.
que em 2004 os criadores e as suas criaturas
não cometam (tantos) erros
(de programação, execução e controlo de qualidade).
como este aqui caricaturado no belíssimo filme de animação
com a assinatura do italiano bruno bozzetto
(clicar na hiperligação assinalada no final deste post).
ou, pelo menos, que possamos nós, pobres criaturas,
ser um pouco mais optimistas
em relação ao nosso futuro em 2004
do que em 2003.
feito o balanço, no último dia de cada ano,
temos sempre (a compulsiva) tendência para dizer e escrever
que foi mais um annus horribilis...
e muito provavelmente foi.
para muita gente foi um ano horrível.
gente que morreu de sida em áfrica.
que morreu no terramoto que destruiu bam, no irão, na rota das sedas.
ou aqui mais perto de nós:
gente que perdeu o emprego no vale do ave ou na península de setúbal.
gente que emigrou para a terra dos portugas
e que perdeu a esperança.
os portugas que envellhecem e perdem o direito de sorrir.
gente que nunca chegou a conhecer os aventureiros marco polo.
nem os burlescos berlusconi.
nem os clones dos saddam e dos bush.
ou simplesmente gente que teme pela liberdade
e pela democracia neste mundo já perigosamente musculado e demente.
gente que vive na eurolândia
e que gostaria de exigir muito mais aos seus líderes.
provavelmente somos (eu sou...) pessimistas profissionais.
umas criaturas mal nascidas e mal criadas...
mas a verdade é que o ano que passou não foi lá grande coisa.
para os portugas e para o resto da humanidade...
no novo mundo. em áfrica. na fortaleza de shengen.
na euroásia. na terra onde cristo nasceu.
no resto do planeta azul.
acho que as criaturas e os seus criadores
podiam ter feito muito melhor.
o meu voto no início do ano de 2004
é para pôr a fasquia... um centímetro mais alta
e exigir que a gente (portugas incluídos)
sejamos, individual e colectivamente, melhores
do que fomos em 2003.
http://www.bozzetto.com/Flash/Life.htm
que habitam o planeta azul.
incluindo tod@s @s car@s ciberamig@s
que fazem parte da minha mailing list.
onde quer que vocês estejam.
onde quer que vocês vivam.
de lisboa a florianópolis, de verona a toronto,
do porto a karlstad, de luanda a maputo...
uma saudação extensiva aos blogadores,
aos grandes e aos pequenos blogadores da blogosfera lusófona.
e aos leitores deste discreto blogue-fora-nada.
que em 2004 os criadores e as suas criaturas
não cometam (tantos) erros
(de programação, execução e controlo de qualidade).
como este aqui caricaturado no belíssimo filme de animação
com a assinatura do italiano bruno bozzetto
(clicar na hiperligação assinalada no final deste post).
ou, pelo menos, que possamos nós, pobres criaturas,
ser um pouco mais optimistas
em relação ao nosso futuro em 2004
do que em 2003.
feito o balanço, no último dia de cada ano,
temos sempre (a compulsiva) tendência para dizer e escrever
que foi mais um annus horribilis...
e muito provavelmente foi.
para muita gente foi um ano horrível.
gente que morreu de sida em áfrica.
que morreu no terramoto que destruiu bam, no irão, na rota das sedas.
ou aqui mais perto de nós:
gente que perdeu o emprego no vale do ave ou na península de setúbal.
gente que emigrou para a terra dos portugas
e que perdeu a esperança.
os portugas que envellhecem e perdem o direito de sorrir.
gente que nunca chegou a conhecer os aventureiros marco polo.
nem os burlescos berlusconi.
nem os clones dos saddam e dos bush.
ou simplesmente gente que teme pela liberdade
e pela democracia neste mundo já perigosamente musculado e demente.
gente que vive na eurolândia
e que gostaria de exigir muito mais aos seus líderes.
provavelmente somos (eu sou...) pessimistas profissionais.
umas criaturas mal nascidas e mal criadas...
mas a verdade é que o ano que passou não foi lá grande coisa.
para os portugas e para o resto da humanidade...
no novo mundo. em áfrica. na fortaleza de shengen.
na euroásia. na terra onde cristo nasceu.
no resto do planeta azul.
acho que as criaturas e os seus criadores
podiam ter feito muito melhor.
o meu voto no início do ano de 2004
é para pôr a fasquia... um centímetro mais alta
e exigir que a gente (portugas incluídos)
sejamos, individual e colectivamente, melhores
do que fomos em 2003.
http://www.bozzetto.com/Flash/Life.htm
21 dezembro 2003
Socio(b)logia - III: O que fazer desta satisfação ?
Há uma base (a trigésima...) da Lei de Bases da Saúde (Lei n.º 48/90, de 24 de Agosto de 1990) que diz que o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (abreviadamente, SNS) deverá ser avaliado através dos seguintes indicadores (entre outros): (i) a qualidade dos serviços, (ii) o seu grau de aceitação pela população utente, (iii) o nível de satisfação dos profissionais e (iv) a razoabilidade da utilização dos recursos em termos de custos e benefícios.
Eu acho que o disposto neste diploma legal (ou pelo menos na tal Base XXX) tem sido letra morta, pelo menos no que diz respeito à avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde que trabalham no SNS. Nunca ouvi, a nenhum Ministro da Saúde, desde o tempo de Leonor Beleza até agora, dizer publicamente que a satisfação profissional dos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde é um dos indicadores de avaliação do SNS e que, como tal, faz parte do painel de bordo instalado no edifício do n.º 9 da Av. João Crisóstomo, em Lisboa (Para quem não sabe, é a sede do Ministério da Saúde).
Todo o discurso da saúde tem sido centrado no utente, como mandam as boas regras do marketing. E ainda bem: é o utente que é (ou deveria ser) o centro do sistema. Mas não se pode escamotear ou ignorar o papel dos prestadores dos cuidados de saúde. A satisfação profissional é (i) um indicador do clima organizacional, mas também (ii) um elemento determinante da avaliação da qualidade, a par da satisfação dos clientes.
Há muito, talvez desde a publicação, em 1999, do MoniQuor – Monitorização da Qualidade Organizacional dos Centros de Saúde, que eu não tenho ouvido falar deste tópico. No documento Contributos para um Plano Nacional de Saúde: Orientações Estratégicas (Direcção Geral de Saúde, 2003), há uma referência a projectos em curso no domínio da avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde, a par da satisfação dos utentes.
Diga-se, de passagem, que são projectos que vêm na sequência do louvável esforço do Instituto da Qualidade em Saúde (IQS) para desenvolver a cultura da qualidade organizacional no sistema de saúde português. Cultura que falta (ou que tarda a chegar ) aos nossos hospitais e centros de saúde.
Por outro lado, não há suficientes indícios de que a realização destes estudos, bem como a divulgação e a discussão das suas conclusões, estejam a merecer a devida atenção da tutela do SNS bem como das administrações regionais de saúde e das direcções dos hospitais. E até dos próprios profissionais de saúde, a começar pelos médicos e as suas organizações.
Eu receio que possamos vir a estar, no futuro, perante uma utilização abusiva dos resultados de estudos de avaliação da satisfação, seja dos utentes seja dos profissionais do SNS, para legitimar ou contestar orientações estratégicas, medidas políticas, alterações legislativas ou intervenções organizacionais. É possível que em breve possamos cair na tentação de fazer da avaliação periódica da satisfação dos clientes do SNS, tanto externos como internos, o mesmo que os jornais fazem das sondagens e estudos de opinião dos eleitores.
Dizem os políticos que não se pode governar com sondagens. E, de facto, mal andaria a nossa democracia se os governos decidissem apenas em função da opinião (volátil ou conjuntural) de amostras eleitorais.
Há questões teóricas e metodológicas no estudo de satisfação que eu nunca vi minimamente discutidas entre nós, no âmbito da administração de serviços de saúde, a não ser no contexto muito restrito de trabalhos de índole académica. Por exemplo, questões como a validade e a fiabilidade das escalas de atitudes e dos questionários de opinião que nós usamos.
Independentemente de tudo isso, resta a questão (primordial) de se saber o que vamos fazer com a maior ou menor satisfação dos nossos utentes e dos nossos profissionais de saúde.
No final da década de 1990, havia reconhecidamente uma dimensão em que, a par das questões remuneratórias, os profissionais de saúde (v.g., médicos de família, enfermeiros, administrativos e outro pessoal de apoio nos centros de saúde) apresentavam elevados níveis de não-satisfação. Tratava-se da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (abreviadamente, SH&ST). É legítimo perguntarmo-nos o que é que o SNS, enquanto empregador, fez nestes três primeiros anos do Século XXI para prevenir os riscos profissionais e promover a saúde dos seus trabalhadores...
Eu acho que fez pouco, muito pouco, quase nada ou nada... Falo das suas obrigações legais. E a prova disso é que há um estranho silêncio nas páginas, na Internet, do Ministério da Saúde e da Direcção Geral de Saúde a respeito desta questão...
Um silêncio não só estranho como incómodo: é que os profissionais de saúde, além de (i) não serem de ferro (é bom lembrá-lo!), (ii) também são gente. E depois acontece ainda que (iii) os trabalhadores do SNS deviam a ser os primeiros de todos a darem o exemplo, o de trabalhadores activos, produtivos, satisfeitos e saudáveis.
Na década de 1990, o SNS inglês adoptou, de modo coerente e integrado, (i) uma estratégia nacional de saúde (Our Healthier Nation, 1992 e 1999), (ii) um plano de desenvolvimento estratégico dos seus recursos humanos (Working Together: Securing a Quality Workforce for the NHS, 1998) e (iii) uma política de protecção e promoção da saúde dos seus trabalhadores (Framework for Action: Health at Work in the NHS, 1999).
O ministro da saúde inglês, Alan Milburn, escreveu na altura, no prefácio ao documento Working together (1998), as seguintes palavras: "First class health care delivered by first class staff also requires first class employers".
Como nós gostaríamos de ler, em documentos de estratégia semelhantes, escritos em português, uma frase semelhante, que fosse ao mesmos tempo um desafio e uma oportunidade para administradores, trabalhadores e utentes do SNS: “Meus senhores, cuidados de saúde de primeira classe, prestados por profissionais de primeira classe, também exigem empregadores e gestores de primeira classe”.
A gente já se contava com uma classificação deste nível, a de primeira classe. Que a classificação “de luxo”, essa, bem podia exportar-se para um qualquer país das arábias.
Eu acho que o disposto neste diploma legal (ou pelo menos na tal Base XXX) tem sido letra morta, pelo menos no que diz respeito à avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde que trabalham no SNS. Nunca ouvi, a nenhum Ministro da Saúde, desde o tempo de Leonor Beleza até agora, dizer publicamente que a satisfação profissional dos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde é um dos indicadores de avaliação do SNS e que, como tal, faz parte do painel de bordo instalado no edifício do n.º 9 da Av. João Crisóstomo, em Lisboa (Para quem não sabe, é a sede do Ministério da Saúde).
Todo o discurso da saúde tem sido centrado no utente, como mandam as boas regras do marketing. E ainda bem: é o utente que é (ou deveria ser) o centro do sistema. Mas não se pode escamotear ou ignorar o papel dos prestadores dos cuidados de saúde. A satisfação profissional é (i) um indicador do clima organizacional, mas também (ii) um elemento determinante da avaliação da qualidade, a par da satisfação dos clientes.
Há muito, talvez desde a publicação, em 1999, do MoniQuor – Monitorização da Qualidade Organizacional dos Centros de Saúde, que eu não tenho ouvido falar deste tópico. No documento Contributos para um Plano Nacional de Saúde: Orientações Estratégicas (Direcção Geral de Saúde, 2003), há uma referência a projectos em curso no domínio da avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde, a par da satisfação dos utentes.
Diga-se, de passagem, que são projectos que vêm na sequência do louvável esforço do Instituto da Qualidade em Saúde (IQS) para desenvolver a cultura da qualidade organizacional no sistema de saúde português. Cultura que falta (ou que tarda a chegar ) aos nossos hospitais e centros de saúde.
Por outro lado, não há suficientes indícios de que a realização destes estudos, bem como a divulgação e a discussão das suas conclusões, estejam a merecer a devida atenção da tutela do SNS bem como das administrações regionais de saúde e das direcções dos hospitais. E até dos próprios profissionais de saúde, a começar pelos médicos e as suas organizações.
Eu receio que possamos vir a estar, no futuro, perante uma utilização abusiva dos resultados de estudos de avaliação da satisfação, seja dos utentes seja dos profissionais do SNS, para legitimar ou contestar orientações estratégicas, medidas políticas, alterações legislativas ou intervenções organizacionais. É possível que em breve possamos cair na tentação de fazer da avaliação periódica da satisfação dos clientes do SNS, tanto externos como internos, o mesmo que os jornais fazem das sondagens e estudos de opinião dos eleitores.
Dizem os políticos que não se pode governar com sondagens. E, de facto, mal andaria a nossa democracia se os governos decidissem apenas em função da opinião (volátil ou conjuntural) de amostras eleitorais.
Há questões teóricas e metodológicas no estudo de satisfação que eu nunca vi minimamente discutidas entre nós, no âmbito da administração de serviços de saúde, a não ser no contexto muito restrito de trabalhos de índole académica. Por exemplo, questões como a validade e a fiabilidade das escalas de atitudes e dos questionários de opinião que nós usamos.
Independentemente de tudo isso, resta a questão (primordial) de se saber o que vamos fazer com a maior ou menor satisfação dos nossos utentes e dos nossos profissionais de saúde.
No final da década de 1990, havia reconhecidamente uma dimensão em que, a par das questões remuneratórias, os profissionais de saúde (v.g., médicos de família, enfermeiros, administrativos e outro pessoal de apoio nos centros de saúde) apresentavam elevados níveis de não-satisfação. Tratava-se da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (abreviadamente, SH&ST). É legítimo perguntarmo-nos o que é que o SNS, enquanto empregador, fez nestes três primeiros anos do Século XXI para prevenir os riscos profissionais e promover a saúde dos seus trabalhadores...
Eu acho que fez pouco, muito pouco, quase nada ou nada... Falo das suas obrigações legais. E a prova disso é que há um estranho silêncio nas páginas, na Internet, do Ministério da Saúde e da Direcção Geral de Saúde a respeito desta questão...
Um silêncio não só estranho como incómodo: é que os profissionais de saúde, além de (i) não serem de ferro (é bom lembrá-lo!), (ii) também são gente. E depois acontece ainda que (iii) os trabalhadores do SNS deviam a ser os primeiros de todos a darem o exemplo, o de trabalhadores activos, produtivos, satisfeitos e saudáveis.
Na década de 1990, o SNS inglês adoptou, de modo coerente e integrado, (i) uma estratégia nacional de saúde (Our Healthier Nation, 1992 e 1999), (ii) um plano de desenvolvimento estratégico dos seus recursos humanos (Working Together: Securing a Quality Workforce for the NHS, 1998) e (iii) uma política de protecção e promoção da saúde dos seus trabalhadores (Framework for Action: Health at Work in the NHS, 1999).
O ministro da saúde inglês, Alan Milburn, escreveu na altura, no prefácio ao documento Working together (1998), as seguintes palavras: "First class health care delivered by first class staff also requires first class employers".
Como nós gostaríamos de ler, em documentos de estratégia semelhantes, escritos em português, uma frase semelhante, que fosse ao mesmos tempo um desafio e uma oportunidade para administradores, trabalhadores e utentes do SNS: “Meus senhores, cuidados de saúde de primeira classe, prestados por profissionais de primeira classe, também exigem empregadores e gestores de primeira classe”.
A gente já se contava com uma classificação deste nível, a de primeira classe. Que a classificação “de luxo”, essa, bem podia exportar-se para um qualquer país das arábias.
Socio(b)logia - III: O que fazer desta satisfação ?
Há uma base (a trigésima...) da Lei de Bases da Saúde (Lei n.º 48/90, de 24 de Agosto de 1990) que diz que o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (abreviadamente, SNS) deverá ser avaliado através dos seguintes indicadores (entre outros): (i) a qualidade dos serviços, (ii) o seu grau de aceitação pela população utente, (iii) o nível de satisfação dos profissionais e (iv) a razoabilidade da utilização dos recursos em termos de custos e benefícios.
Eu acho que o disposto neste diploma legal (ou pelo menos na tal Base XXX) tem sido letra morta, pelo menos no que diz respeito à avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde que trabalham no SNS. Nunca ouvi, a nenhum Ministro da Saúde, desde o tempo de Leonor Beleza até agora, dizer publicamente que a satisfação profissional dos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde é um dos indicadores de avaliação do SNS e que, como tal, faz parte do painel de bordo instalado no edifício do n.º 9 da Av. João Crisóstomo, em Lisboa (Para quem não sabe, é a sede do Ministério da Saúde).
Todo o discurso da saúde tem sido centrado no utente, como mandam as boas regras do marketing. E ainda bem: é o utente que é (ou deveria ser) o centro do sistema. Mas não se pode escamotear ou ignorar o papel dos prestadores dos cuidados de saúde. A satisfação profissional é (i) um indicador do clima organizacional, mas também (ii) um elemento determinante da avaliação da qualidade, a par da satisfação dos clientes.
Há muito, talvez desde a publicação, em 1999, do MoniQuor – Monitorização da Qualidade Organizacional dos Centros de Saúde, que eu não tenho ouvido falar deste tópico. No documento Contributos para um Plano Nacional de Saúde: Orientações Estratégicas (Direcção Geral de Saúde, 2003), há uma referência a projectos em curso no domínio da avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde, a par da satisfação dos utentes.
Diga-se, de passagem, que são projectos que vêm na sequência do louvável esforço do Instituto da Qualidade em Saúde (IQS) para desenvolver a cultura da qualidade organizacional no sistema de saúde português. Cultura que falta (ou que tarda a chegar ) aos nossos hospitais e centros de saúde.
Por outro lado, não há suficientes indícios de que a realização destes estudos, bem como a divulgação e a discussão das suas conclusões, estejam a merecer a devida atenção da tutela do SNS bem como das administrações regionais de saúde e das direcções dos hospitais. E até dos próprios profissionais de saúde, a começar pelos médicos e as suas organizações.
Eu receio que possamos vir a estar, no futuro, perante uma utilização abusiva dos resultados de estudos de avaliação da satisfação, seja dos utentes seja dos profissionais do SNS, para legitimar ou contestar orientações estratégicas, medidas políticas, alterações legislativas ou intervenções organizacionais. É possível que em breve possamos cair na tentação de fazer da avaliação periódica da satisfação dos clientes do SNS, tanto externos como internos, o mesmo que os jornais fazem das sondagens e estudos de opinião dos eleitores.
Dizem os políticos que não se pode governar com sondagens. E, de facto, mal andaria a nossa democracia se os governos decidissem apenas em função da opinião (volátil ou conjuntural) de amostras eleitorais.
Há questões teóricas e metodológicas no estudo de satisfação que eu nunca vi minimamente discutidas entre nós, no âmbito da administração de serviços de saúde, a não ser no contexto muito restrito de trabalhos de índole académica. Por exemplo, questões como a validade e a fiabilidade das escalas de atitudes e dos questionários de opinião que nós usamos.
Independentemente de tudo isso, resta a questão (primordial) de se saber o que vamos fazer com a maior ou menor satisfação dos nossos utentes e dos nossos profissionais de saúde.
No final da década de 1990, havia reconhecidamente uma dimensão em que, a par das questões remuneratórias, os profissionais de saúde (v.g., médicos de família, enfermeiros, administrativos e outro pessoal de apoio nos centros de saúde) apresentavam elevados níveis de não-satisfação. Tratava-se da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (abreviadamente, SH&ST). É legítimo perguntarmo-nos o que é que o SNS, enquanto empregador, fez nestes três primeiros anos do Século XXI para prevenir os riscos profissionais e promover a saúde dos seus trabalhadores...
Eu acho que fez pouco, muito pouco, quase nada ou nada... Falo das suas obrigações legais. E a prova disso é que há um estranho silêncio nas páginas, na Internet, do Ministério da Saúde e da Direcção Geral de Saúde a respeito desta questão...
Um silêncio não só estranho como incómodo: é que os profissionais de saúde, além de (i) não serem de ferro (é bom lembrá-lo!), (ii) também são gente. E depois acontece ainda que (iii) os trabalhadores do SNS deviam a ser os primeiros de todos a darem o exemplo, o de trabalhadores activos, produtivos, satisfeitos e saudáveis.
Na década de 1990, o SNS inglês adoptou, de modo coerente e integrado, (i) uma estratégia nacional de saúde (Our Healthier Nation, 1992 e 1999), (ii) um plano de desenvolvimento estratégico dos seus recursos humanos (Working Together: Securing a Quality Workforce for the NHS, 1998) e (iii) uma política de protecção e promoção da saúde dos seus trabalhadores (Framework for Action: Health at Work in the NHS, 1999).
O ministro da saúde inglês, Alan Milburn, escreveu na altura, no prefácio ao documento Working together (1998), as seguintes palavras: "First class health care delivered by first class staff also requires first class employers".
Como nós gostaríamos de ler, em documentos de estratégia semelhantes, escritos em português, uma frase semelhante, que fosse ao mesmos tempo um desafio e uma oportunidade para administradores, trabalhadores e utentes do SNS: “Meus senhores, cuidados de saúde de primeira classe, prestados por profissionais de primeira classe, também exigem empregadores e gestores de primeira classe”.
A gente já se contava com uma classificação deste nível, a de primeira classe. Que a classificação “de luxo”, essa, bem podia exportar-se para um qualquer país das arábias.
Eu acho que o disposto neste diploma legal (ou pelo menos na tal Base XXX) tem sido letra morta, pelo menos no que diz respeito à avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde que trabalham no SNS. Nunca ouvi, a nenhum Ministro da Saúde, desde o tempo de Leonor Beleza até agora, dizer publicamente que a satisfação profissional dos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde é um dos indicadores de avaliação do SNS e que, como tal, faz parte do painel de bordo instalado no edifício do n.º 9 da Av. João Crisóstomo, em Lisboa (Para quem não sabe, é a sede do Ministério da Saúde).
Todo o discurso da saúde tem sido centrado no utente, como mandam as boas regras do marketing. E ainda bem: é o utente que é (ou deveria ser) o centro do sistema. Mas não se pode escamotear ou ignorar o papel dos prestadores dos cuidados de saúde. A satisfação profissional é (i) um indicador do clima organizacional, mas também (ii) um elemento determinante da avaliação da qualidade, a par da satisfação dos clientes.
Há muito, talvez desde a publicação, em 1999, do MoniQuor – Monitorização da Qualidade Organizacional dos Centros de Saúde, que eu não tenho ouvido falar deste tópico. No documento Contributos para um Plano Nacional de Saúde: Orientações Estratégicas (Direcção Geral de Saúde, 2003), há uma referência a projectos em curso no domínio da avaliação da satisfação profissional dos profissionais de saúde, a par da satisfação dos utentes.
Diga-se, de passagem, que são projectos que vêm na sequência do louvável esforço do Instituto da Qualidade em Saúde (IQS) para desenvolver a cultura da qualidade organizacional no sistema de saúde português. Cultura que falta (ou que tarda a chegar ) aos nossos hospitais e centros de saúde.
Por outro lado, não há suficientes indícios de que a realização destes estudos, bem como a divulgação e a discussão das suas conclusões, estejam a merecer a devida atenção da tutela do SNS bem como das administrações regionais de saúde e das direcções dos hospitais. E até dos próprios profissionais de saúde, a começar pelos médicos e as suas organizações.
Eu receio que possamos vir a estar, no futuro, perante uma utilização abusiva dos resultados de estudos de avaliação da satisfação, seja dos utentes seja dos profissionais do SNS, para legitimar ou contestar orientações estratégicas, medidas políticas, alterações legislativas ou intervenções organizacionais. É possível que em breve possamos cair na tentação de fazer da avaliação periódica da satisfação dos clientes do SNS, tanto externos como internos, o mesmo que os jornais fazem das sondagens e estudos de opinião dos eleitores.
Dizem os políticos que não se pode governar com sondagens. E, de facto, mal andaria a nossa democracia se os governos decidissem apenas em função da opinião (volátil ou conjuntural) de amostras eleitorais.
Há questões teóricas e metodológicas no estudo de satisfação que eu nunca vi minimamente discutidas entre nós, no âmbito da administração de serviços de saúde, a não ser no contexto muito restrito de trabalhos de índole académica. Por exemplo, questões como a validade e a fiabilidade das escalas de atitudes e dos questionários de opinião que nós usamos.
Independentemente de tudo isso, resta a questão (primordial) de se saber o que vamos fazer com a maior ou menor satisfação dos nossos utentes e dos nossos profissionais de saúde.
No final da década de 1990, havia reconhecidamente uma dimensão em que, a par das questões remuneratórias, os profissionais de saúde (v.g., médicos de família, enfermeiros, administrativos e outro pessoal de apoio nos centros de saúde) apresentavam elevados níveis de não-satisfação. Tratava-se da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (abreviadamente, SH&ST). É legítimo perguntarmo-nos o que é que o SNS, enquanto empregador, fez nestes três primeiros anos do Século XXI para prevenir os riscos profissionais e promover a saúde dos seus trabalhadores...
Eu acho que fez pouco, muito pouco, quase nada ou nada... Falo das suas obrigações legais. E a prova disso é que há um estranho silêncio nas páginas, na Internet, do Ministério da Saúde e da Direcção Geral de Saúde a respeito desta questão...
Um silêncio não só estranho como incómodo: é que os profissionais de saúde, além de (i) não serem de ferro (é bom lembrá-lo!), (ii) também são gente. E depois acontece ainda que (iii) os trabalhadores do SNS deviam a ser os primeiros de todos a darem o exemplo, o de trabalhadores activos, produtivos, satisfeitos e saudáveis.
Na década de 1990, o SNS inglês adoptou, de modo coerente e integrado, (i) uma estratégia nacional de saúde (Our Healthier Nation, 1992 e 1999), (ii) um plano de desenvolvimento estratégico dos seus recursos humanos (Working Together: Securing a Quality Workforce for the NHS, 1998) e (iii) uma política de protecção e promoção da saúde dos seus trabalhadores (Framework for Action: Health at Work in the NHS, 1999).
O ministro da saúde inglês, Alan Milburn, escreveu na altura, no prefácio ao documento Working together (1998), as seguintes palavras: "First class health care delivered by first class staff also requires first class employers".
Como nós gostaríamos de ler, em documentos de estratégia semelhantes, escritos em português, uma frase semelhante, que fosse ao mesmos tempo um desafio e uma oportunidade para administradores, trabalhadores e utentes do SNS: “Meus senhores, cuidados de saúde de primeira classe, prestados por profissionais de primeira classe, também exigem empregadores e gestores de primeira classe”.
A gente já se contava com uma classificação deste nível, a de primeira classe. Que a classificação “de luxo”, essa, bem podia exportar-se para um qualquer país das arábias.
20 dezembro 2003
Car@s ciberamig@s - III: Cibersaudações natalícias
1. Este ano, ante o assédio pornográfico do Pai Natal, deu-me na veneta mandar imagens de grutas para @s ciberamig@s da minha mailing lista de gente gira (leia-se: bem humorada). Imagens que transmitissem um sentimento de pureza, silêncio, quietude, poesia, natureza, liberdade livre...
Imagens para gente esquecer: (i) o lado feio deste mundo, (ii) o Bush, o Saddam e os seus clones, (iii) o consumo compulsivo, (iv) a poluição estética dos nossos antros comerciais, (v) etc., etc., incluindo a tristeza dos subúrbios onde a gente dorme. Imagens para a gente reconciliar-se com o verdadeiro Natal. O da nossa infância. Ou pelo menos o da minha infância... O Natal simples das pessoas simples, a que eu sempre associo a imagem da gruta, da lapinha, do presépio...
Esqueçamos por uns breves segundos a lista das compras que ainda falta fazer até à véspera da consoada-do-bacalhau-com-grelhos-e-bolo-rei e o stresse festivaleiro destes dias... Ah!, e cuidado com o castrol!!!
Se o corpo aguentar e o cibertráfico não entupir (o Clix já me está está a clixar com ameaças de ciberrengarrafamentos nestes próximos dias...), aqui ficam, de reserva, para o que der e vier, as minhas melhores cibersaudações natalícias. É da praxe, e eu gosto de cumprir a tradição. Afinal sou um gajo minimamente civilizado.
Car@s Ciberamig@s: Qualquer que seja o vosso Natal (cristão, pagão, ateu, consumista, materialista dialéctico, neoliberal, capitalista, conservador, judeu, muçulmano, budista ou ene-ista qualquer coisa), que ele nos purifique, tonifique e inspire a todos.
A tod@s vocês, car@s ciberamig@s, onde quer que estejam no ciberespaço eu desejo que continuem, ao longo de 2004, a serem @s ciberamig@s que eu sempre conheci: activ@s, produtiv@s, saudáveis, bem dispost@s, razoavelmente bem humorad@s, irreverentes q.b., crític@s (sempre) mas também amig@s (vez em quando) deste ciberamigo.
A Paula merece um brinde especial por que é uma fornecedora especial da minha ciberloja... E o Pena Luís não lhe fica atrás. Mas também o Anacleto, a Marta, os Manéis (Madeira, Salselas), os Mários (Madureira, Faria), o Paulo, a Mariana, a Susana, a Sandra... E ainda a AIG, o Álvaro, a Antónia, o Carlos, o Filipe, o Hugo, o Jaime, a Joana, o (Padre) Jakim, a Zezinha, o Zé Cardoso, tudo moiros & morcões do melhor. Portugas, acima de tudo e de todos. Façam o favor de serem felizes!
2. E depois há os querid@s amig@s com criancinhas! Ora, para todos vocês que têm criancinhas, incluindo os pais das criancinhas que ainda não pararam de crescer, mais @s man@s das criancinhas que se recusam a crescer...
A gente deseja-vos tudo o que há de bom neste mundo, desde que não vos faça mal, a vocês e às criancinhas... Façam o favor de, no mínimo, se divertirem, as criancinhas, os manos e os pais... A gente vai tentar e depois diz como foi. Muitos bjs e chicorações, que a quadra natalícia é propícia para estes doces eflúvios emocionais. (Mensagem de família).
http://web.icq.com/shockwave/0,,4845,00.swf
PS - Isto não é um assalto, é uma orquestra adhoc... É favor de clicar na rapaziada toda. Sem som, não tem piada nenhuma...
Imagens para gente esquecer: (i) o lado feio deste mundo, (ii) o Bush, o Saddam e os seus clones, (iii) o consumo compulsivo, (iv) a poluição estética dos nossos antros comerciais, (v) etc., etc., incluindo a tristeza dos subúrbios onde a gente dorme. Imagens para a gente reconciliar-se com o verdadeiro Natal. O da nossa infância. Ou pelo menos o da minha infância... O Natal simples das pessoas simples, a que eu sempre associo a imagem da gruta, da lapinha, do presépio...
Esqueçamos por uns breves segundos a lista das compras que ainda falta fazer até à véspera da consoada-do-bacalhau-com-grelhos-e-bolo-rei e o stresse festivaleiro destes dias... Ah!, e cuidado com o castrol!!!
Se o corpo aguentar e o cibertráfico não entupir (o Clix já me está está a clixar com ameaças de ciberrengarrafamentos nestes próximos dias...), aqui ficam, de reserva, para o que der e vier, as minhas melhores cibersaudações natalícias. É da praxe, e eu gosto de cumprir a tradição. Afinal sou um gajo minimamente civilizado.
Car@s Ciberamig@s: Qualquer que seja o vosso Natal (cristão, pagão, ateu, consumista, materialista dialéctico, neoliberal, capitalista, conservador, judeu, muçulmano, budista ou ene-ista qualquer coisa), que ele nos purifique, tonifique e inspire a todos.
A tod@s vocês, car@s ciberamig@s, onde quer que estejam no ciberespaço eu desejo que continuem, ao longo de 2004, a serem @s ciberamig@s que eu sempre conheci: activ@s, produtiv@s, saudáveis, bem dispost@s, razoavelmente bem humorad@s, irreverentes q.b., crític@s (sempre) mas também amig@s (vez em quando) deste ciberamigo.
A Paula merece um brinde especial por que é uma fornecedora especial da minha ciberloja... E o Pena Luís não lhe fica atrás. Mas também o Anacleto, a Marta, os Manéis (Madeira, Salselas), os Mários (Madureira, Faria), o Paulo, a Mariana, a Susana, a Sandra... E ainda a AIG, o Álvaro, a Antónia, o Carlos, o Filipe, o Hugo, o Jaime, a Joana, o (Padre) Jakim, a Zezinha, o Zé Cardoso, tudo moiros & morcões do melhor. Portugas, acima de tudo e de todos. Façam o favor de serem felizes!
2. E depois há os querid@s amig@s com criancinhas! Ora, para todos vocês que têm criancinhas, incluindo os pais das criancinhas que ainda não pararam de crescer, mais @s man@s das criancinhas que se recusam a crescer...
A gente deseja-vos tudo o que há de bom neste mundo, desde que não vos faça mal, a vocês e às criancinhas... Façam o favor de, no mínimo, se divertirem, as criancinhas, os manos e os pais... A gente vai tentar e depois diz como foi. Muitos bjs e chicorações, que a quadra natalícia é propícia para estes doces eflúvios emocionais. (Mensagem de família).
http://web.icq.com/shockwave/0,,4845,00.swf
PS - Isto não é um assalto, é uma orquestra adhoc... É favor de clicar na rapaziada toda. Sem som, não tem piada nenhuma...
Car@s ciberamig@s - III: Cibersaudações natalícias
1. Este ano, ante o assédio pornográfico do Pai Natal, deu-me na veneta mandar imagens de grutas para @s ciberamig@s da minha mailing lista de gente gira (leia-se: bem humorada). Imagens que transmitissem um sentimento de pureza, silêncio, quietude, poesia, natureza, liberdade livre...
Imagens para gente esquecer: (i) o lado feio deste mundo, (ii) o Bush, o Saddam e os seus clones, (iii) o consumo compulsivo, (iv) a poluição estética dos nossos antros comerciais, (v) etc., etc., incluindo a tristeza dos subúrbios onde a gente dorme. Imagens para a gente reconciliar-se com o verdadeiro Natal. O da nossa infância. Ou pelo menos o da minha infância... O Natal simples das pessoas simples, a que eu sempre associo a imagem da gruta, da lapinha, do presépio...
Esqueçamos por uns breves segundos a lista das compras que ainda falta fazer até à véspera da consoada-do-bacalhau-com-grelhos-e-bolo-rei e o stresse festivaleiro destes dias... Ah!, e cuidado com o castrol!!!
Se o corpo aguentar e o cibertráfico não entupir (o Clix já me está está a clixar com ameaças de ciberrengarrafamentos nestes próximos dias...), aqui ficam, de reserva, para o que der e vier, as minhas melhores cibersaudações natalícias. É da praxe, e eu gosto de cumprir a tradição. Afinal sou um gajo minimamente civilizado.
Car@s Ciberamig@s: Qualquer que seja o vosso Natal (cristão, pagão, ateu, consumista, materialista dialéctico, neoliberal, capitalista, conservador, judeu, muçulmano, budista ou ene-ista qualquer coisa), que ele nos purifique, tonifique e inspire a todos.
A tod@s vocês, car@s ciberamig@s, onde quer que estejam no ciberespaço eu desejo que continuem, ao longo de 2004, a serem @s ciberamig@s que eu sempre conheci: activ@s, produtiv@s, saudáveis, bem dispost@s, razoavelmente bem humorad@s, irreverentes q.b., crític@s (sempre) mas também amig@s (vez em quando) deste ciberamigo.
A Paula merece um brinde especial por que é uma fornecedora especial da minha ciberloja... E o Pena Luís não lhe fica atrás. Mas também o Anacleto, a Marta, os Manéis (Madeira, Salselas), os Mários (Madureira, Faria), o Paulo, a Mariana, a Susana, a Sandra... E ainda a AIG, o Álvaro, a Antónia, o Carlos, o Filipe, o Hugo, o Jaime, a Joana, o (Padre) Jakim, a Zezinha, o Zé Cardoso, tudo moiros & morcões do melhor. Portugas, acima de tudo e de todos. Façam o favor de serem felizes!
2. E depois há os querid@s amig@s com criancinhas! Ora, para todos vocês que têm criancinhas, incluindo os pais das criancinhas que ainda não pararam de crescer, mais @s man@s das criancinhas que se recusam a crescer...
A gente deseja-vos tudo o que há de bom neste mundo, desde que não vos faça mal, a vocês e às criancinhas... Façam o favor de, no mínimo, se divertirem, as criancinhas, os manos e os pais... A gente vai tentar e depois diz como foi. Muitos bjs e chicorações, que a quadra natalícia é propícia para estes doces eflúvios emocionais. (Mensagem de família).
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PS - Isto não é um assalto, é uma orquestra adhoc... É favor de clicar na rapaziada toda. Sem som, não tem piada nenhuma...
Imagens para gente esquecer: (i) o lado feio deste mundo, (ii) o Bush, o Saddam e os seus clones, (iii) o consumo compulsivo, (iv) a poluição estética dos nossos antros comerciais, (v) etc., etc., incluindo a tristeza dos subúrbios onde a gente dorme. Imagens para a gente reconciliar-se com o verdadeiro Natal. O da nossa infância. Ou pelo menos o da minha infância... O Natal simples das pessoas simples, a que eu sempre associo a imagem da gruta, da lapinha, do presépio...
Esqueçamos por uns breves segundos a lista das compras que ainda falta fazer até à véspera da consoada-do-bacalhau-com-grelhos-e-bolo-rei e o stresse festivaleiro destes dias... Ah!, e cuidado com o castrol!!!
Se o corpo aguentar e o cibertráfico não entupir (o Clix já me está está a clixar com ameaças de ciberrengarrafamentos nestes próximos dias...), aqui ficam, de reserva, para o que der e vier, as minhas melhores cibersaudações natalícias. É da praxe, e eu gosto de cumprir a tradição. Afinal sou um gajo minimamente civilizado.
Car@s Ciberamig@s: Qualquer que seja o vosso Natal (cristão, pagão, ateu, consumista, materialista dialéctico, neoliberal, capitalista, conservador, judeu, muçulmano, budista ou ene-ista qualquer coisa), que ele nos purifique, tonifique e inspire a todos.
A tod@s vocês, car@s ciberamig@s, onde quer que estejam no ciberespaço eu desejo que continuem, ao longo de 2004, a serem @s ciberamig@s que eu sempre conheci: activ@s, produtiv@s, saudáveis, bem dispost@s, razoavelmente bem humorad@s, irreverentes q.b., crític@s (sempre) mas também amig@s (vez em quando) deste ciberamigo.
A Paula merece um brinde especial por que é uma fornecedora especial da minha ciberloja... E o Pena Luís não lhe fica atrás. Mas também o Anacleto, a Marta, os Manéis (Madeira, Salselas), os Mários (Madureira, Faria), o Paulo, a Mariana, a Susana, a Sandra... E ainda a AIG, o Álvaro, a Antónia, o Carlos, o Filipe, o Hugo, o Jaime, a Joana, o (Padre) Jakim, a Zezinha, o Zé Cardoso, tudo moiros & morcões do melhor. Portugas, acima de tudo e de todos. Façam o favor de serem felizes!
2. E depois há os querid@s amig@s com criancinhas! Ora, para todos vocês que têm criancinhas, incluindo os pais das criancinhas que ainda não pararam de crescer, mais @s man@s das criancinhas que se recusam a crescer...
A gente deseja-vos tudo o que há de bom neste mundo, desde que não vos faça mal, a vocês e às criancinhas... Façam o favor de, no mínimo, se divertirem, as criancinhas, os manos e os pais... A gente vai tentar e depois diz como foi. Muitos bjs e chicorações, que a quadra natalícia é propícia para estes doces eflúvios emocionais. (Mensagem de família).
http://web.icq.com/shockwave/0,,4845,00.swf
PS - Isto não é um assalto, é uma orquestra adhoc... É favor de clicar na rapaziada toda. Sem som, não tem piada nenhuma...
19 dezembro 2003
Portugal sacro-profano - XIII: O Alentejo, os ficalheiros, o cante, a viola campaniça, um CD
Não é propriamente por causa da blogaria do Natal e da estranha pulsão das compras que ataca o portuga por esta ocasião do ano... Mas já agora que tens que gastar a guita que não tens, aqui fica uma sugestão do Blogador. Se tu gostas do Alentejo, das suas gentes, do seu cante, da viola campaniça, oferece neste Natal aos teus amigos o CD Serões do Alentejo (Editora - Edições Convite à Música).
Trata-se de um trabalho singelo, modesto, mas sério e escorreito de recolha de música e poesia de gente talentosa e generosa. Um grupo de amigos de Vila Verde de Ficalho, a aldeia raiana da margem esquerda do Guadiana, também conhecida como a aldeia sem tabaco... Uma terra de gente boa e hospitaleira, onde o cante alentejano ainda se cultiva nas tabernas, resistindo ao rolo compressor da globalização (cultural)... Bonita capa do pintor Roberto Chichorro.
Quanto à editora (ECM), que tem sede em Santa Comba Dão (!), ponham um olho nela e façam uma visita ao seu sítio! Sobretudo aqueles que se interessam pelo ensino e formação na área da música
Trata-se de um trabalho singelo, modesto, mas sério e escorreito de recolha de música e poesia de gente talentosa e generosa. Um grupo de amigos de Vila Verde de Ficalho, a aldeia raiana da margem esquerda do Guadiana, também conhecida como a aldeia sem tabaco... Uma terra de gente boa e hospitaleira, onde o cante alentejano ainda se cultiva nas tabernas, resistindo ao rolo compressor da globalização (cultural)... Bonita capa do pintor Roberto Chichorro.
Quanto à editora (ECM), que tem sede em Santa Comba Dão (!), ponham um olho nela e façam uma visita ao seu sítio! Sobretudo aqueles que se interessam pelo ensino e formação na área da música
Portugal sacro-profano - XIII: O Alentejo, os ficalheiros, o cante, a viola campaniça, um CD
Não é propriamente por causa da blogaria do Natal e da estranha pulsão das compras que ataca o portuga por esta ocasião do ano... Mas já agora que tens que gastar a guita que não tens, aqui fica uma sugestão do Blogador. Se tu gostas do Alentejo, das suas gentes, do seu cante, da viola campaniça, oferece neste Natal aos teus amigos o CD Serões do Alentejo (Editora - Edições Convite à Música).
Trata-se de um trabalho singelo, modesto, mas sério e escorreito de recolha de música e poesia de gente talentosa e generosa. Um grupo de amigos de Vila Verde de Ficalho, a aldeia raiana da margem esquerda do Guadiana, também conhecida como a aldeia sem tabaco... Uma terra de gente boa e hospitaleira, onde o cante alentejano ainda se cultiva nas tabernas, resistindo ao rolo compressor da globalização (cultural)... Bonita capa do pintor Roberto Chichorro.
Quanto à editora (ECM), que tem sede em Santa Comba Dão (!), ponham um olho nela e façam uma visita ao seu sítio! Sobretudo aqueles que se interessam pelo ensino e formação na área da música
Trata-se de um trabalho singelo, modesto, mas sério e escorreito de recolha de música e poesia de gente talentosa e generosa. Um grupo de amigos de Vila Verde de Ficalho, a aldeia raiana da margem esquerda do Guadiana, também conhecida como a aldeia sem tabaco... Uma terra de gente boa e hospitaleira, onde o cante alentejano ainda se cultiva nas tabernas, resistindo ao rolo compressor da globalização (cultural)... Bonita capa do pintor Roberto Chichorro.
Quanto à editora (ECM), que tem sede em Santa Comba Dão (!), ponham um olho nela e façam uma visita ao seu sítio! Sobretudo aqueles que se interessam pelo ensino e formação na área da música
18 dezembro 2003
Portugal sacro-profano - XII: Cem anos de solidão
Pergunta um velhote alentejano ao seu médico de família, no primeiro exame de saúde que este lhe fez:
- Sô doutor, acha que eu ainda terei a sorte de viver até aos cem anos ?
- Bom, depende das asneiras que o meu amigo tem feito... Ora, diga-me lá: você fuma ?
- Ná, nunca me puxou prá aí.
- E beber, bebe o seu copo ?!...
- Ná, na gosto de álcool.
- E o comer ?
- Só o que a terra dá, pão, azeite, alho e coentros... Carne, pouca!
- O senhor é casado ? Tem filhos ?
- Ná, nunca tive.
- Então... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
- Ná, sô doutor. Nada disso! Fui pastor, ‘tou reformado, vivo sozinho no monte...
O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira:
- Diga-me cá uma coisa: o senhor quer viver até aos cem anos... para quê??
O alentejano, quase ofendido, muito sério, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar há pouco tempo ao centro de saúde:
- Atão porque a vida é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...
- Sô doutor, acha que eu ainda terei a sorte de viver até aos cem anos ?
- Bom, depende das asneiras que o meu amigo tem feito... Ora, diga-me lá: você fuma ?
- Ná, nunca me puxou prá aí.
- E beber, bebe o seu copo ?!...
- Ná, na gosto de álcool.
- E o comer ?
- Só o que a terra dá, pão, azeite, alho e coentros... Carne, pouca!
- O senhor é casado ? Tem filhos ?
- Ná, nunca tive.
- Então... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
- Ná, sô doutor. Nada disso! Fui pastor, ‘tou reformado, vivo sozinho no monte...
O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira:
- Diga-me cá uma coisa: o senhor quer viver até aos cem anos... para quê??
O alentejano, quase ofendido, muito sério, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar há pouco tempo ao centro de saúde:
- Atão porque a vida é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...
Portugal sacro-profano - XII: Cem anos de solidão
Pergunta um velhote alentejano ao seu médico de família, no primeiro exame de saúde que este lhe fez:
- Sô doutor, acha que eu ainda terei a sorte de viver até aos cem anos ?
- Bom, depende das asneiras que o meu amigo tem feito... Ora, diga-me lá: você fuma ?
- Ná, nunca me puxou prá aí.
- E beber, bebe o seu copo ?!...
- Ná, na gosto de álcool.
- E o comer ?
- Só o que a terra dá, pão, azeite, alho e coentros... Carne, pouca!
- O senhor é casado ? Tem filhos ?
- Ná, nunca tive.
- Então... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
- Ná, sô doutor. Nada disso! Fui pastor, ‘tou reformado, vivo sozinho no monte...
O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira:
- Diga-me cá uma coisa: o senhor quer viver até aos cem anos... para quê??
O alentejano, quase ofendido, muito sério, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar há pouco tempo ao centro de saúde:
- Atão porque a vida é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...
- Sô doutor, acha que eu ainda terei a sorte de viver até aos cem anos ?
- Bom, depende das asneiras que o meu amigo tem feito... Ora, diga-me lá: você fuma ?
- Ná, nunca me puxou prá aí.
- E beber, bebe o seu copo ?!...
- Ná, na gosto de álcool.
- E o comer ?
- Só o que a terra dá, pão, azeite, alho e coentros... Carne, pouca!
- O senhor é casado ? Tem filhos ?
- Ná, nunca tive.
- Então... e não tem mais nenhum vício ? Quero eu dizer: jogo, mulheres... ?
- Ná, sô doutor. Nada disso! Fui pastor, ‘tou reformado, vivo sozinho no monte...
O médico ficou uns largos segundos pensativo, e depois perguntou, em tom de brincadeira:
- Diga-me cá uma coisa: o senhor quer viver até aos cem anos... para quê??
O alentejano, quase ofendido, muito sério, deu uma resposta que fez corar o jovem clínico geral, acabado de chegar há pouco tempo ao centro de saúde:
- Atão porque a vida é a única coisa que pertence a um home e que um home pode tirar a ele próprio...
15 dezembro 2003
Saúde & Segurança do Trabalho – XIV: Medicina do trabalho à peça e ao acto
O modelo do relatório anual da actividade dos serviços de SH&ST, aprovado pela Portaria n.º 1184/2002, de 29 de Agosto de 2002, dedica uma página inteira à discriminação e à contabilidade do número de exames de admissão, periódicos e ocasionais, desagregados por escalão etário.
Pede-se além disso a discriminação dos exames complementares realizados por tipo de exame (sangue, urina, raio X ao tórax, audiograma, etc.), incluindo o número de exames exigidos por legislação específica (por ex., trabalhadores expostos a determinados substâncias perigosas como o chumbo ou o cloreto de vinilo monómero).
É legítimo (e sobretudo é relevante) interrogarmo-nos sobre a utilidade desta informação, aparentemente só de interesse estatístico-administrativo para a tutela (a administração do trabalho e da saúde). Quem vai fazer uso desta informação e para que efeitos ? A Inpecção geral do Trabalho, a Direcção Geral de Saúde, o Departamento de Estudos, Estatísticas e Planeamento (DEEP) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho ? Que garantias de validade e fiabilidade são dadas pelas empresas e estabelecimentos em relação a este e outros itens de informação ?
Além disso, há um crescente consenso na literatura científica sobre (i) o alcance e os limites deste tipo de exames médicos periódicos massificados e (ii) as vantagens da realização de exames mais personalizados e selectivos dos trabalhadores, em função não apenas dos riscos profissionais específicos a que estão expostos mas também dos seus estilos de vida e de trabalho (workstyles & lifestyles), história clínica e profissional, estado de saúde, etc.
A hipervalorização dos exames médicos representa uma armadilha para o próprio médico do trabalho e para a equipa de saúde ocupacional, no caso de esta existir. De facto, corre-se o risco de se limitar, entre nós, o exercício da medicina do trabalho à realização dos exames médicos (não confundir com exames de saúde), com todas as consequências perversas que isso implica.
Uma delas é a desvalorização de outras actividades (nobres) do médico do trabalho (por ex., visita aos locais de trabalho, reuniões com os representantes dos empregadores e dos trabalhadores, direcção técnica e/ou gestão do serviço de saúde/medicina do trabalho, envolvimento na concepção, planeamento, implementação e avaliação da política de saúde no trabalho); outra, não menos perversa, é o pagamento ao acto, à peça ou à hora, tendência que de resto se está a impor no mercado, devido à concorrência (desleal) entre muitas das empresas prestadoras de serviços externos de saúde/medicina do trabalho e/ou de segurança e higiene do trabalho...
É a total mercantilização da medicina do trabalho, a que se seguirá (se é que não está já em marcha...) um processo de racionalização técnico-burocrática da prática dos médicos do trabalho.
Uma terceira consequência, talvez ainda mais grave, é o risco de liquidação de toda e qualquer tentativa de organização e funcionamento da equipa de saúde ocupacional, multidisciplinar e multiprofissional, onde devem ter lugar, de pleno direito, o técnico e o técnico superior de segurança e higiene do trabalho, a par de outro profissionais como o enfermeiro do trabalho. É sobretudo a liquidação do futuro (que deveria ser radioso e promissor...) da saúde e segurança no trabalho neste país.
É bom que os profissionais de SH&ST pensem nisto...
Pede-se além disso a discriminação dos exames complementares realizados por tipo de exame (sangue, urina, raio X ao tórax, audiograma, etc.), incluindo o número de exames exigidos por legislação específica (por ex., trabalhadores expostos a determinados substâncias perigosas como o chumbo ou o cloreto de vinilo monómero).
É legítimo (e sobretudo é relevante) interrogarmo-nos sobre a utilidade desta informação, aparentemente só de interesse estatístico-administrativo para a tutela (a administração do trabalho e da saúde). Quem vai fazer uso desta informação e para que efeitos ? A Inpecção geral do Trabalho, a Direcção Geral de Saúde, o Departamento de Estudos, Estatísticas e Planeamento (DEEP) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho ? Que garantias de validade e fiabilidade são dadas pelas empresas e estabelecimentos em relação a este e outros itens de informação ?
Além disso, há um crescente consenso na literatura científica sobre (i) o alcance e os limites deste tipo de exames médicos periódicos massificados e (ii) as vantagens da realização de exames mais personalizados e selectivos dos trabalhadores, em função não apenas dos riscos profissionais específicos a que estão expostos mas também dos seus estilos de vida e de trabalho (workstyles & lifestyles), história clínica e profissional, estado de saúde, etc.
A hipervalorização dos exames médicos representa uma armadilha para o próprio médico do trabalho e para a equipa de saúde ocupacional, no caso de esta existir. De facto, corre-se o risco de se limitar, entre nós, o exercício da medicina do trabalho à realização dos exames médicos (não confundir com exames de saúde), com todas as consequências perversas que isso implica.
Uma delas é a desvalorização de outras actividades (nobres) do médico do trabalho (por ex., visita aos locais de trabalho, reuniões com os representantes dos empregadores e dos trabalhadores, direcção técnica e/ou gestão do serviço de saúde/medicina do trabalho, envolvimento na concepção, planeamento, implementação e avaliação da política de saúde no trabalho); outra, não menos perversa, é o pagamento ao acto, à peça ou à hora, tendência que de resto se está a impor no mercado, devido à concorrência (desleal) entre muitas das empresas prestadoras de serviços externos de saúde/medicina do trabalho e/ou de segurança e higiene do trabalho...
É a total mercantilização da medicina do trabalho, a que se seguirá (se é que não está já em marcha...) um processo de racionalização técnico-burocrática da prática dos médicos do trabalho.
Uma terceira consequência, talvez ainda mais grave, é o risco de liquidação de toda e qualquer tentativa de organização e funcionamento da equipa de saúde ocupacional, multidisciplinar e multiprofissional, onde devem ter lugar, de pleno direito, o técnico e o técnico superior de segurança e higiene do trabalho, a par de outro profissionais como o enfermeiro do trabalho. É sobretudo a liquidação do futuro (que deveria ser radioso e promissor...) da saúde e segurança no trabalho neste país.
É bom que os profissionais de SH&ST pensem nisto...
Saúde & Segurança do Trabalho – XIV: Medicina do trabalho à peça e ao acto
O modelo do relatório anual da actividade dos serviços de SH&ST, aprovado pela Portaria n.º 1184/2002, de 29 de Agosto de 2002, dedica uma página inteira à discriminação e à contabilidade do número de exames de admissão, periódicos e ocasionais, desagregados por escalão etário.
Pede-se além disso a discriminação dos exames complementares realizados por tipo de exame (sangue, urina, raio X ao tórax, audiograma, etc.), incluindo o número de exames exigidos por legislação específica (por ex., trabalhadores expostos a determinados substâncias perigosas como o chumbo ou o cloreto de vinilo monómero).
É legítimo (e sobretudo é relevante) interrogarmo-nos sobre a utilidade desta informação, aparentemente só de interesse estatístico-administrativo para a tutela (a administração do trabalho e da saúde). Quem vai fazer uso desta informação e para que efeitos ? A Inpecção geral do Trabalho, a Direcção Geral de Saúde, o Departamento de Estudos, Estatísticas e Planeamento (DEEP) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho ? Que garantias de validade e fiabilidade são dadas pelas empresas e estabelecimentos em relação a este e outros itens de informação ?
Além disso, há um crescente consenso na literatura científica sobre (i) o alcance e os limites deste tipo de exames médicos periódicos massificados e (ii) as vantagens da realização de exames mais personalizados e selectivos dos trabalhadores, em função não apenas dos riscos profissionais específicos a que estão expostos mas também dos seus estilos de vida e de trabalho (workstyles & lifestyles), história clínica e profissional, estado de saúde, etc.
A hipervalorização dos exames médicos representa uma armadilha para o próprio médico do trabalho e para a equipa de saúde ocupacional, no caso de esta existir. De facto, corre-se o risco de se limitar, entre nós, o exercício da medicina do trabalho à realização dos exames médicos (não confundir com exames de saúde), com todas as consequências perversas que isso implica.
Uma delas é a desvalorização de outras actividades (nobres) do médico do trabalho (por ex., visita aos locais de trabalho, reuniões com os representantes dos empregadores e dos trabalhadores, direcção técnica e/ou gestão do serviço de saúde/medicina do trabalho, envolvimento na concepção, planeamento, implementação e avaliação da política de saúde no trabalho); outra, não menos perversa, é o pagamento ao acto, à peça ou à hora, tendência que de resto se está a impor no mercado, devido à concorrência (desleal) entre muitas das empresas prestadoras de serviços externos de saúde/medicina do trabalho e/ou de segurança e higiene do trabalho...
É a total mercantilização da medicina do trabalho, a que se seguirá (se é que não está já em marcha...) um processo de racionalização técnico-burocrática da prática dos médicos do trabalho.
Uma terceira consequência, talvez ainda mais grave, é o risco de liquidação de toda e qualquer tentativa de organização e funcionamento da equipa de saúde ocupacional, multidisciplinar e multiprofissional, onde devem ter lugar, de pleno direito, o técnico e o técnico superior de segurança e higiene do trabalho, a par de outro profissionais como o enfermeiro do trabalho. É sobretudo a liquidação do futuro (que deveria ser radioso e promissor...) da saúde e segurança no trabalho neste país.
É bom que os profissionais de SH&ST pensem nisto...
Pede-se além disso a discriminação dos exames complementares realizados por tipo de exame (sangue, urina, raio X ao tórax, audiograma, etc.), incluindo o número de exames exigidos por legislação específica (por ex., trabalhadores expostos a determinados substâncias perigosas como o chumbo ou o cloreto de vinilo monómero).
É legítimo (e sobretudo é relevante) interrogarmo-nos sobre a utilidade desta informação, aparentemente só de interesse estatístico-administrativo para a tutela (a administração do trabalho e da saúde). Quem vai fazer uso desta informação e para que efeitos ? A Inpecção geral do Trabalho, a Direcção Geral de Saúde, o Departamento de Estudos, Estatísticas e Planeamento (DEEP) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho ? Que garantias de validade e fiabilidade são dadas pelas empresas e estabelecimentos em relação a este e outros itens de informação ?
Além disso, há um crescente consenso na literatura científica sobre (i) o alcance e os limites deste tipo de exames médicos periódicos massificados e (ii) as vantagens da realização de exames mais personalizados e selectivos dos trabalhadores, em função não apenas dos riscos profissionais específicos a que estão expostos mas também dos seus estilos de vida e de trabalho (workstyles & lifestyles), história clínica e profissional, estado de saúde, etc.
A hipervalorização dos exames médicos representa uma armadilha para o próprio médico do trabalho e para a equipa de saúde ocupacional, no caso de esta existir. De facto, corre-se o risco de se limitar, entre nós, o exercício da medicina do trabalho à realização dos exames médicos (não confundir com exames de saúde), com todas as consequências perversas que isso implica.
Uma delas é a desvalorização de outras actividades (nobres) do médico do trabalho (por ex., visita aos locais de trabalho, reuniões com os representantes dos empregadores e dos trabalhadores, direcção técnica e/ou gestão do serviço de saúde/medicina do trabalho, envolvimento na concepção, planeamento, implementação e avaliação da política de saúde no trabalho); outra, não menos perversa, é o pagamento ao acto, à peça ou à hora, tendência que de resto se está a impor no mercado, devido à concorrência (desleal) entre muitas das empresas prestadoras de serviços externos de saúde/medicina do trabalho e/ou de segurança e higiene do trabalho...
É a total mercantilização da medicina do trabalho, a que se seguirá (se é que não está já em marcha...) um processo de racionalização técnico-burocrática da prática dos médicos do trabalho.
Uma terceira consequência, talvez ainda mais grave, é o risco de liquidação de toda e qualquer tentativa de organização e funcionamento da equipa de saúde ocupacional, multidisciplinar e multiprofissional, onde devem ter lugar, de pleno direito, o técnico e o técnico superior de segurança e higiene do trabalho, a par de outro profissionais como o enfermeiro do trabalho. É sobretudo a liquidação do futuro (que deveria ser radioso e promissor...) da saúde e segurança no trabalho neste país.
É bom que os profissionais de SH&ST pensem nisto...
11 dezembro 2003
Socio(b)logia - II: Cidade e identidade
Perguntaram-me há dias, em entrevista, se a cidade e a sua dimensão influem na identidade de cada um…
A minha primeira reacção foi pensar que a pergunta era idiota. Mas depois reflecti um pouco mais. Até por consideração para com o meu jovem entrevistador, por sinal um aprendiz de sociólogo. Talvez a pergunta fizesse algum sentido... Seguramente que faz sentido. Como qualquer outra pergunta, por mais absurda que te pareça.
Eis o que eu, blogador, penso a respeito desta questão: Cada pessoa traz, no seu bilhete de identidade, o nome da localidade ou região onde nasceu. Mas também aquela onde vive. Julgo que não será tanto a dimensão da cidade, como certos traços da cidade (ou da região) onde se nasceu, que são elementos constitutivos da nossa identidade. A par de outros como a classe social dos progenitores e educadores... Em suma, o teu habitat também faz parte da tua matriz sociocultural. Que significado tem para um vienense ter nascido em Viena ? Muita: ele próprio se distingue dos restantes austríacos, segundo percebi quando lá estive… O prestígio, o glamour, a riqueza, a história, a monumentalidade, a posição geográfica, as personalidades marcantes ou a cultura da cidade são outros tantos elementos importantes de identificação… Um nova-iorquino muito provavelmente identifica-se mais com Manhattan onde nasceu do que outras zonas da grande metrópole de Nova Iorque onde provavelmente nunca foi.
Um lisboeta, filho de pais que vieram da província nos anos 60 ou 70, que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e vive hoje no Rio de Mouro, muito provavelmente só tem da vivência de Lisboa uma escassa memória que lhe vem da primeira infância. Em que medida Lisboa está associada à sua identidade como pessoa, cidadão, português ? Provavelmente volta a Lisboa, todos os dias, como trabalhador da periferia, engarrafado na famigerada IC 19 ou pendurado no combóio da linha de Sintra... Podíamos falar de uma identidade suburbana, mas não me perguntes o que é a identidade do habitante de Rio de Mouro. Noutro Rio, mas de Onor, Jorge Dias e, mais tarde, Pais de Brito, ambos antropólogos em épocas diferentes, ainda descobriram uma identidade que estava associada indelevelmente à economia agro-pastoril de montanha e à organização comunitária...
É diferente o caso do alfacinha que nasceu e viveu num dos bairros populares de Lisboa (Alfama, Mouraria, Madragoa, Alcântara, Campo de Ourique e outras “antigas aldeias” de Lisboa…). Hoje as grandes cidades são anómicas e as pessoas acabam por ser expulsas para as periferias onde a identidade se dilui ou se transforma... Estamos a falar de Lisboa, cidade, ou da Grande Lisboa, ou da Área Metropolitana de Lisboa ? Dizes que a cidade hoje é anómica, tal como ontem era um locus infectus… As nossas periferias suburbanas continuam anómicas, feias, agressivas, tristes e depremidas, apesar de algum esforço de humanização e modernização do espaço suburbano levado a cabo pelos poderes autárquico e central...
A seguir perguntas-me, meu caro jovem, em que medida os valores e a cultura de um cidade (Lisboa, Porto, Coimbra…) afectam a identidade do estudante universitário…
Respondo-te com uma outra pergunta: há um típico estudante universitário ? Lisboeta, coimbrão, portuense ? Não estudei o assunto, como sociólogo, mas em sociologuês te respondo: sem dúvida, os valores e a cultura de uma cidade, como por exemplo, Lisboa, Porto ou Coimbra, afectam a identidade de cada um de nós, enquanto estudantes universitários. Na medida em que ter sido estudante universitário (em Lisboa, Porto ou Coimbra) é algo que não se esquece, faz parte da nossa história de vida, do nosso curriculum vitae... Não tanto pela dimensão da cidade, como pela sua história e sobretudo pela organização da academia. Lisboa, por exemplo, não tem uma academia como Coimbra. Julgo que por avisada decisão do poder político: Salazar não brincava em serviço… E em Lisboa dividiu para reinar.
Lisboa tem três universidades públicas e não sei quantas privadas. Mas do ponto de vista antropológico e sociológico se calhar a identidade estudantil coimbrã é capaz de ser mais interessante ou mais forte ou mais visível. Mas o que é ser estudante hoje, em Coimbra ? Não passei por lá, não estou lá, não sou qualificado para falar do estudante coimbrão. O Porto, enquanto burgo, ainda tem uma identidade forte que lhe advêm da sua história como cidade burguesa e mercantil, de tradição liberal, resistente ao poder senhorial, primeiro, e central, depois. E mais recentemente das proezas futebolísticas de uma das suas equipas de futebol (sim, porque o Porto também é o Boavista, também é o Salgueiros, embora estes sejam clubes de bairro...). Recorde-se que as universidade do Porto e de Lisboa só existem desde 1911, embora estas duas cidades já tivessem ensino superior há mais tempo (por ex., as Escolas Médico-Cirúrgicas, desde 1836).
E o cosmopolitismo ? Também afecta o modo de pensar, a identidade, as ideias, os modos de interacção social ?
Grandes cidades cosmopolitas como Nova Iorque, Londres ou Paris seguramente que afectam a identidade de quem lá vive (e talvez de quem lá nasceu ou lá tem raízes…), a sua sociabilidade, os seus valores, as suas atitudes ou até os seus comportamentos...A sua maneira de pensar, de viver, de habitar, de trabalhar, de consumir, de amar e até de morrer... Mas acho que temos de rever o conceito de cosmopolitismo à luz da globalização. Há muitos estereótipos sobre o modo de ser citadino. O que é hoje ser romano em Roma ou parisiense em Paris ? O que é ser parisiense para um filho de um magrebino ? Ou lisboeta para um cabo-verdiano ? Ou alentejano na Amadora ? Ou turco em Berlim ?
Em todo o caso reconheço que as nossas cidades continuam a ser provincianas quando as comparamos com as grandes cidades europeias. Lisboa, Porto ou Coimbra são provincianas quando as comparamos com as de igual dimensão no país vizinho. O problema é o país que é provinciano, à escala regional e global… Claro que não o era na época dos Descobrimentos! Ou pelo menos Lisboa.
Diferenças entre Lisboa e Porto no contexto universitário ?
Bom, meu jovem, não sou sociólogo urbano nem etnólogo, fiz o meu curso de sociologia como trabalhador estudante no contexto muito particular do pós-25 de Abril. Embora sendo professor universitário em Lisboa, tenho alguma dificuldade em identificar uma identidade urbana dentro do espaço universitário lisboeta…
Por lado, não conheço muito bem a universidade do Porto, embora eu vá ao Porto com alguma regularidade ao longo do ano. Em rigor, não conheço a universidade do Porto, a não ser os edifícios das faculdades, vistos de fora… Julgo que entrei uma vez na Faculdade de Ciências Biomédicas Abel Salazar…
Em todo o caso, espero bem que existam algumas diferenças. Para melhor ou para pior. E desde que sejam estatisticamente significativas... Quanto mais não seja para contrariar a minha querida professora Maria Filomena Mónica que há dias arrasou de alto a baixo a universidade portuguesa pós-pombalina, do professores catedrático ao cão que morde ao doutor...
Bom, e para acabar: acha que essa coisa da densidade populacional é importante, é sociologicamente densa ?
Em sociologuês te respondo, meu rapaz. Se eu tivesse numa aula, seguramente que te responderia, com ar doutoral e grave, que, sem dúvida, a densidade populacional é um factor importante da sociabilidade, da qualidade de vida e da própria saúde mental das pessoas… O espaço urbano tornou-se patológico, esquizofrénico, concentraccionário, devido não só densidade populacional, à terciarização da economia, à construção em altura, à volumetria dos edifícios, à má arquitectura e ao mau urbanismo, mas sobretudo à segregação sócio-espacial. Ainda não chegámos ao arame farpado dos condomínios fechados e blindados do Rio de Janeiro, mas para lá caminhamos….
Em contrapartida, as pessoas hoje têm uma maior mobilidade geográfica e acabam por poder fugir, em liberdade condicional (e nem que seja por uns dias), do gueto onde vivem… Esse é, de resto, o papel dos “pacotes de férias” que se vendem hoje nos países ditos ricos e que servem para o anónimo cidadão, com algum crédito ou poder de compra, ir “carregar as baterias” num qualquer pseudo-paraíso terrestre… E no meio de tudo isto, acabei por perder o meu bilhete de identidade... Afinal, quem tu és, ó blogador? Bem podia ser o princípio da letra de um fado cantado pelo grande Camané...
A minha primeira reacção foi pensar que a pergunta era idiota. Mas depois reflecti um pouco mais. Até por consideração para com o meu jovem entrevistador, por sinal um aprendiz de sociólogo. Talvez a pergunta fizesse algum sentido... Seguramente que faz sentido. Como qualquer outra pergunta, por mais absurda que te pareça.
Eis o que eu, blogador, penso a respeito desta questão: Cada pessoa traz, no seu bilhete de identidade, o nome da localidade ou região onde nasceu. Mas também aquela onde vive. Julgo que não será tanto a dimensão da cidade, como certos traços da cidade (ou da região) onde se nasceu, que são elementos constitutivos da nossa identidade. A par de outros como a classe social dos progenitores e educadores... Em suma, o teu habitat também faz parte da tua matriz sociocultural. Que significado tem para um vienense ter nascido em Viena ? Muita: ele próprio se distingue dos restantes austríacos, segundo percebi quando lá estive… O prestígio, o glamour, a riqueza, a história, a monumentalidade, a posição geográfica, as personalidades marcantes ou a cultura da cidade são outros tantos elementos importantes de identificação… Um nova-iorquino muito provavelmente identifica-se mais com Manhattan onde nasceu do que outras zonas da grande metrópole de Nova Iorque onde provavelmente nunca foi.
Um lisboeta, filho de pais que vieram da província nos anos 60 ou 70, que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e vive hoje no Rio de Mouro, muito provavelmente só tem da vivência de Lisboa uma escassa memória que lhe vem da primeira infância. Em que medida Lisboa está associada à sua identidade como pessoa, cidadão, português ? Provavelmente volta a Lisboa, todos os dias, como trabalhador da periferia, engarrafado na famigerada IC 19 ou pendurado no combóio da linha de Sintra... Podíamos falar de uma identidade suburbana, mas não me perguntes o que é a identidade do habitante de Rio de Mouro. Noutro Rio, mas de Onor, Jorge Dias e, mais tarde, Pais de Brito, ambos antropólogos em épocas diferentes, ainda descobriram uma identidade que estava associada indelevelmente à economia agro-pastoril de montanha e à organização comunitária...
É diferente o caso do alfacinha que nasceu e viveu num dos bairros populares de Lisboa (Alfama, Mouraria, Madragoa, Alcântara, Campo de Ourique e outras “antigas aldeias” de Lisboa…). Hoje as grandes cidades são anómicas e as pessoas acabam por ser expulsas para as periferias onde a identidade se dilui ou se transforma... Estamos a falar de Lisboa, cidade, ou da Grande Lisboa, ou da Área Metropolitana de Lisboa ? Dizes que a cidade hoje é anómica, tal como ontem era um locus infectus… As nossas periferias suburbanas continuam anómicas, feias, agressivas, tristes e depremidas, apesar de algum esforço de humanização e modernização do espaço suburbano levado a cabo pelos poderes autárquico e central...
A seguir perguntas-me, meu caro jovem, em que medida os valores e a cultura de um cidade (Lisboa, Porto, Coimbra…) afectam a identidade do estudante universitário…
Respondo-te com uma outra pergunta: há um típico estudante universitário ? Lisboeta, coimbrão, portuense ? Não estudei o assunto, como sociólogo, mas em sociologuês te respondo: sem dúvida, os valores e a cultura de uma cidade, como por exemplo, Lisboa, Porto ou Coimbra, afectam a identidade de cada um de nós, enquanto estudantes universitários. Na medida em que ter sido estudante universitário (em Lisboa, Porto ou Coimbra) é algo que não se esquece, faz parte da nossa história de vida, do nosso curriculum vitae... Não tanto pela dimensão da cidade, como pela sua história e sobretudo pela organização da academia. Lisboa, por exemplo, não tem uma academia como Coimbra. Julgo que por avisada decisão do poder político: Salazar não brincava em serviço… E em Lisboa dividiu para reinar.
Lisboa tem três universidades públicas e não sei quantas privadas. Mas do ponto de vista antropológico e sociológico se calhar a identidade estudantil coimbrã é capaz de ser mais interessante ou mais forte ou mais visível. Mas o que é ser estudante hoje, em Coimbra ? Não passei por lá, não estou lá, não sou qualificado para falar do estudante coimbrão. O Porto, enquanto burgo, ainda tem uma identidade forte que lhe advêm da sua história como cidade burguesa e mercantil, de tradição liberal, resistente ao poder senhorial, primeiro, e central, depois. E mais recentemente das proezas futebolísticas de uma das suas equipas de futebol (sim, porque o Porto também é o Boavista, também é o Salgueiros, embora estes sejam clubes de bairro...). Recorde-se que as universidade do Porto e de Lisboa só existem desde 1911, embora estas duas cidades já tivessem ensino superior há mais tempo (por ex., as Escolas Médico-Cirúrgicas, desde 1836).
E o cosmopolitismo ? Também afecta o modo de pensar, a identidade, as ideias, os modos de interacção social ?
Grandes cidades cosmopolitas como Nova Iorque, Londres ou Paris seguramente que afectam a identidade de quem lá vive (e talvez de quem lá nasceu ou lá tem raízes…), a sua sociabilidade, os seus valores, as suas atitudes ou até os seus comportamentos...A sua maneira de pensar, de viver, de habitar, de trabalhar, de consumir, de amar e até de morrer... Mas acho que temos de rever o conceito de cosmopolitismo à luz da globalização. Há muitos estereótipos sobre o modo de ser citadino. O que é hoje ser romano em Roma ou parisiense em Paris ? O que é ser parisiense para um filho de um magrebino ? Ou lisboeta para um cabo-verdiano ? Ou alentejano na Amadora ? Ou turco em Berlim ?
Em todo o caso reconheço que as nossas cidades continuam a ser provincianas quando as comparamos com as grandes cidades europeias. Lisboa, Porto ou Coimbra são provincianas quando as comparamos com as de igual dimensão no país vizinho. O problema é o país que é provinciano, à escala regional e global… Claro que não o era na época dos Descobrimentos! Ou pelo menos Lisboa.
Diferenças entre Lisboa e Porto no contexto universitário ?
Bom, meu jovem, não sou sociólogo urbano nem etnólogo, fiz o meu curso de sociologia como trabalhador estudante no contexto muito particular do pós-25 de Abril. Embora sendo professor universitário em Lisboa, tenho alguma dificuldade em identificar uma identidade urbana dentro do espaço universitário lisboeta…
Por lado, não conheço muito bem a universidade do Porto, embora eu vá ao Porto com alguma regularidade ao longo do ano. Em rigor, não conheço a universidade do Porto, a não ser os edifícios das faculdades, vistos de fora… Julgo que entrei uma vez na Faculdade de Ciências Biomédicas Abel Salazar…
Em todo o caso, espero bem que existam algumas diferenças. Para melhor ou para pior. E desde que sejam estatisticamente significativas... Quanto mais não seja para contrariar a minha querida professora Maria Filomena Mónica que há dias arrasou de alto a baixo a universidade portuguesa pós-pombalina, do professores catedrático ao cão que morde ao doutor...
Bom, e para acabar: acha que essa coisa da densidade populacional é importante, é sociologicamente densa ?
Em sociologuês te respondo, meu rapaz. Se eu tivesse numa aula, seguramente que te responderia, com ar doutoral e grave, que, sem dúvida, a densidade populacional é um factor importante da sociabilidade, da qualidade de vida e da própria saúde mental das pessoas… O espaço urbano tornou-se patológico, esquizofrénico, concentraccionário, devido não só densidade populacional, à terciarização da economia, à construção em altura, à volumetria dos edifícios, à má arquitectura e ao mau urbanismo, mas sobretudo à segregação sócio-espacial. Ainda não chegámos ao arame farpado dos condomínios fechados e blindados do Rio de Janeiro, mas para lá caminhamos….
Em contrapartida, as pessoas hoje têm uma maior mobilidade geográfica e acabam por poder fugir, em liberdade condicional (e nem que seja por uns dias), do gueto onde vivem… Esse é, de resto, o papel dos “pacotes de férias” que se vendem hoje nos países ditos ricos e que servem para o anónimo cidadão, com algum crédito ou poder de compra, ir “carregar as baterias” num qualquer pseudo-paraíso terrestre… E no meio de tudo isto, acabei por perder o meu bilhete de identidade... Afinal, quem tu és, ó blogador? Bem podia ser o princípio da letra de um fado cantado pelo grande Camané...
Socio(b)logia - II: Cidade e identidade
Perguntaram-me há dias, em entrevista, se a cidade e a sua dimensão influem na identidade de cada um…
A minha primeira reacção foi pensar que a pergunta era idiota. Mas depois reflecti um pouco mais. Até por consideração para com o meu jovem entrevistador, por sinal um aprendiz de sociólogo. Talvez a pergunta fizesse algum sentido... Seguramente que faz sentido. Como qualquer outra pergunta, por mais absurda que te pareça.
Eis o que eu, blogador, penso a respeito desta questão: Cada pessoa traz, no seu bilhete de identidade, o nome da localidade ou região onde nasceu. Mas também aquela onde vive. Julgo que não será tanto a dimensão da cidade, como certos traços da cidade (ou da região) onde se nasceu, que são elementos constitutivos da nossa identidade. A par de outros como a classe social dos progenitores e educadores... Em suma, o teu habitat também faz parte da tua matriz sociocultural. Que significado tem para um vienense ter nascido em Viena ? Muita: ele próprio se distingue dos restantes austríacos, segundo percebi quando lá estive… O prestígio, o glamour, a riqueza, a história, a monumentalidade, a posição geográfica, as personalidades marcantes ou a cultura da cidade são outros tantos elementos importantes de identificação… Um nova-iorquino muito provavelmente identifica-se mais com Manhattan onde nasceu do que outras zonas da grande metrópole de Nova Iorque onde provavelmente nunca foi.
Um lisboeta, filho de pais que vieram da província nos anos 60 ou 70, que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e vive hoje no Rio de Mouro, muito provavelmente só tem da vivência de Lisboa uma escassa memória que lhe vem da primeira infância. Em que medida Lisboa está associada à sua identidade como pessoa, cidadão, português ? Provavelmente volta a Lisboa, todos os dias, como trabalhador da periferia, engarrafado na famigerada IC 19 ou pendurado no combóio da linha de Sintra... Podíamos falar de uma identidade suburbana, mas não me perguntes o que é a identidade do habitante de Rio de Mouro. Noutro Rio, mas de Onor, Jorge Dias e, mais tarde, Pais de Brito, ambos antropólogos em épocas diferentes, ainda descobriram uma identidade que estava associada indelevelmente à economia agro-pastoril de montanha e à organização comunitária...
É diferente o caso do alfacinha que nasceu e viveu num dos bairros populares de Lisboa (Alfama, Mouraria, Madragoa, Alcântara, Campo de Ourique e outras “antigas aldeias” de Lisboa…). Hoje as grandes cidades são anómicas e as pessoas acabam por ser expulsas para as periferias onde a identidade se dilui ou se transforma... Estamos a falar de Lisboa, cidade, ou da Grande Lisboa, ou da Área Metropolitana de Lisboa ? Dizes que a cidade hoje é anómica, tal como ontem era um locus infectus… As nossas periferias suburbanas continuam anómicas, feias, agressivas, tristes e depremidas, apesar de algum esforço de humanização e modernização do espaço suburbano levado a cabo pelos poderes autárquico e central...
A seguir perguntas-me, meu caro jovem, em que medida os valores e a cultura de um cidade (Lisboa, Porto, Coimbra…) afectam a identidade do estudante universitário…
Respondo-te com uma outra pergunta: há um típico estudante universitário ? Lisboeta, coimbrão, portuense ? Não estudei o assunto, como sociólogo, mas em sociologuês te respondo: sem dúvida, os valores e a cultura de uma cidade, como por exemplo, Lisboa, Porto ou Coimbra, afectam a identidade de cada um de nós, enquanto estudantes universitários. Na medida em que ter sido estudante universitário (em Lisboa, Porto ou Coimbra) é algo que não se esquece, faz parte da nossa história de vida, do nosso curriculum vitae... Não tanto pela dimensão da cidade, como pela sua história e sobretudo pela organização da academia. Lisboa, por exemplo, não tem uma academia como Coimbra. Julgo que por avisada decisão do poder político: Salazar não brincava em serviço… E em Lisboa dividiu para reinar.
Lisboa tem três universidades públicas e não sei quantas privadas. Mas do ponto de vista antropológico e sociológico se calhar a identidade estudantil coimbrã é capaz de ser mais interessante ou mais forte ou mais visível. Mas o que é ser estudante hoje, em Coimbra ? Não passei por lá, não estou lá, não sou qualificado para falar do estudante coimbrão. O Porto, enquanto burgo, ainda tem uma identidade forte que lhe advêm da sua história como cidade burguesa e mercantil, de tradição liberal, resistente ao poder senhorial, primeiro, e central, depois. E mais recentemente das proezas futebolísticas de uma das suas equipas de futebol (sim, porque o Porto também é o Boavista, também é o Salgueiros, embora estes sejam clubes de bairro...). Recorde-se que as universidade do Porto e de Lisboa só existem desde 1911, embora estas duas cidades já tivessem ensino superior há mais tempo (por ex., as Escolas Médico-Cirúrgicas, desde 1836).
E o cosmopolitismo ? Também afecta o modo de pensar, a identidade, as ideias, os modos de interacção social ?
Grandes cidades cosmopolitas como Nova Iorque, Londres ou Paris seguramente que afectam a identidade de quem lá vive (e talvez de quem lá nasceu ou lá tem raízes…), a sua sociabilidade, os seus valores, as suas atitudes ou até os seus comportamentos...A sua maneira de pensar, de viver, de habitar, de trabalhar, de consumir, de amar e até de morrer... Mas acho que temos de rever o conceito de cosmopolitismo à luz da globalização. Há muitos estereótipos sobre o modo de ser citadino. O que é hoje ser romano em Roma ou parisiense em Paris ? O que é ser parisiense para um filho de um magrebino ? Ou lisboeta para um cabo-verdiano ? Ou alentejano na Amadora ? Ou turco em Berlim ?
Em todo o caso reconheço que as nossas cidades continuam a ser provincianas quando as comparamos com as grandes cidades europeias. Lisboa, Porto ou Coimbra são provincianas quando as comparamos com as de igual dimensão no país vizinho. O problema é o país que é provinciano, à escala regional e global… Claro que não o era na época dos Descobrimentos! Ou pelo menos Lisboa.
Diferenças entre Lisboa e Porto no contexto universitário ?
Bom, meu jovem, não sou sociólogo urbano nem etnólogo, fiz o meu curso de sociologia como trabalhador estudante no contexto muito particular do pós-25 de Abril. Embora sendo professor universitário em Lisboa, tenho alguma dificuldade em identificar uma identidade urbana dentro do espaço universitário lisboeta…
Por lado, não conheço muito bem a universidade do Porto, embora eu vá ao Porto com alguma regularidade ao longo do ano. Em rigor, não conheço a universidade do Porto, a não ser os edifícios das faculdades, vistos de fora… Julgo que entrei uma vez na Faculdade de Ciências Biomédicas Abel Salazar…
Em todo o caso, espero bem que existam algumas diferenças. Para melhor ou para pior. E desde que sejam estatisticamente significativas... Quanto mais não seja para contrariar a minha querida professora Maria Filomena Mónica que há dias arrasou de alto a baixo a universidade portuguesa pós-pombalina, do professores catedrático ao cão que morde ao doutor...
Bom, e para acabar: acha que essa coisa da densidade populacional é importante, é sociologicamente densa ?
Em sociologuês te respondo, meu rapaz. Se eu tivesse numa aula, seguramente que te responderia, com ar doutoral e grave, que, sem dúvida, a densidade populacional é um factor importante da sociabilidade, da qualidade de vida e da própria saúde mental das pessoas… O espaço urbano tornou-se patológico, esquizofrénico, concentraccionário, devido não só densidade populacional, à terciarização da economia, à construção em altura, à volumetria dos edifícios, à má arquitectura e ao mau urbanismo, mas sobretudo à segregação sócio-espacial. Ainda não chegámos ao arame farpado dos condomínios fechados e blindados do Rio de Janeiro, mas para lá caminhamos….
Em contrapartida, as pessoas hoje têm uma maior mobilidade geográfica e acabam por poder fugir, em liberdade condicional (e nem que seja por uns dias), do gueto onde vivem… Esse é, de resto, o papel dos “pacotes de férias” que se vendem hoje nos países ditos ricos e que servem para o anónimo cidadão, com algum crédito ou poder de compra, ir “carregar as baterias” num qualquer pseudo-paraíso terrestre… E no meio de tudo isto, acabei por perder o meu bilhete de identidade... Afinal, quem tu és, ó blogador? Bem podia ser o princípio da letra de um fado cantado pelo grande Camané...
A minha primeira reacção foi pensar que a pergunta era idiota. Mas depois reflecti um pouco mais. Até por consideração para com o meu jovem entrevistador, por sinal um aprendiz de sociólogo. Talvez a pergunta fizesse algum sentido... Seguramente que faz sentido. Como qualquer outra pergunta, por mais absurda que te pareça.
Eis o que eu, blogador, penso a respeito desta questão: Cada pessoa traz, no seu bilhete de identidade, o nome da localidade ou região onde nasceu. Mas também aquela onde vive. Julgo que não será tanto a dimensão da cidade, como certos traços da cidade (ou da região) onde se nasceu, que são elementos constitutivos da nossa identidade. A par de outros como a classe social dos progenitores e educadores... Em suma, o teu habitat também faz parte da tua matriz sociocultural. Que significado tem para um vienense ter nascido em Viena ? Muita: ele próprio se distingue dos restantes austríacos, segundo percebi quando lá estive… O prestígio, o glamour, a riqueza, a história, a monumentalidade, a posição geográfica, as personalidades marcantes ou a cultura da cidade são outros tantos elementos importantes de identificação… Um nova-iorquino muito provavelmente identifica-se mais com Manhattan onde nasceu do que outras zonas da grande metrópole de Nova Iorque onde provavelmente nunca foi.
Um lisboeta, filho de pais que vieram da província nos anos 60 ou 70, que nasceu na Maternidade Alfredo da Costa e vive hoje no Rio de Mouro, muito provavelmente só tem da vivência de Lisboa uma escassa memória que lhe vem da primeira infância. Em que medida Lisboa está associada à sua identidade como pessoa, cidadão, português ? Provavelmente volta a Lisboa, todos os dias, como trabalhador da periferia, engarrafado na famigerada IC 19 ou pendurado no combóio da linha de Sintra... Podíamos falar de uma identidade suburbana, mas não me perguntes o que é a identidade do habitante de Rio de Mouro. Noutro Rio, mas de Onor, Jorge Dias e, mais tarde, Pais de Brito, ambos antropólogos em épocas diferentes, ainda descobriram uma identidade que estava associada indelevelmente à economia agro-pastoril de montanha e à organização comunitária...
É diferente o caso do alfacinha que nasceu e viveu num dos bairros populares de Lisboa (Alfama, Mouraria, Madragoa, Alcântara, Campo de Ourique e outras “antigas aldeias” de Lisboa…). Hoje as grandes cidades são anómicas e as pessoas acabam por ser expulsas para as periferias onde a identidade se dilui ou se transforma... Estamos a falar de Lisboa, cidade, ou da Grande Lisboa, ou da Área Metropolitana de Lisboa ? Dizes que a cidade hoje é anómica, tal como ontem era um locus infectus… As nossas periferias suburbanas continuam anómicas, feias, agressivas, tristes e depremidas, apesar de algum esforço de humanização e modernização do espaço suburbano levado a cabo pelos poderes autárquico e central...
A seguir perguntas-me, meu caro jovem, em que medida os valores e a cultura de um cidade (Lisboa, Porto, Coimbra…) afectam a identidade do estudante universitário…
Respondo-te com uma outra pergunta: há um típico estudante universitário ? Lisboeta, coimbrão, portuense ? Não estudei o assunto, como sociólogo, mas em sociologuês te respondo: sem dúvida, os valores e a cultura de uma cidade, como por exemplo, Lisboa, Porto ou Coimbra, afectam a identidade de cada um de nós, enquanto estudantes universitários. Na medida em que ter sido estudante universitário (em Lisboa, Porto ou Coimbra) é algo que não se esquece, faz parte da nossa história de vida, do nosso curriculum vitae... Não tanto pela dimensão da cidade, como pela sua história e sobretudo pela organização da academia. Lisboa, por exemplo, não tem uma academia como Coimbra. Julgo que por avisada decisão do poder político: Salazar não brincava em serviço… E em Lisboa dividiu para reinar.
Lisboa tem três universidades públicas e não sei quantas privadas. Mas do ponto de vista antropológico e sociológico se calhar a identidade estudantil coimbrã é capaz de ser mais interessante ou mais forte ou mais visível. Mas o que é ser estudante hoje, em Coimbra ? Não passei por lá, não estou lá, não sou qualificado para falar do estudante coimbrão. O Porto, enquanto burgo, ainda tem uma identidade forte que lhe advêm da sua história como cidade burguesa e mercantil, de tradição liberal, resistente ao poder senhorial, primeiro, e central, depois. E mais recentemente das proezas futebolísticas de uma das suas equipas de futebol (sim, porque o Porto também é o Boavista, também é o Salgueiros, embora estes sejam clubes de bairro...). Recorde-se que as universidade do Porto e de Lisboa só existem desde 1911, embora estas duas cidades já tivessem ensino superior há mais tempo (por ex., as Escolas Médico-Cirúrgicas, desde 1836).
E o cosmopolitismo ? Também afecta o modo de pensar, a identidade, as ideias, os modos de interacção social ?
Grandes cidades cosmopolitas como Nova Iorque, Londres ou Paris seguramente que afectam a identidade de quem lá vive (e talvez de quem lá nasceu ou lá tem raízes…), a sua sociabilidade, os seus valores, as suas atitudes ou até os seus comportamentos...A sua maneira de pensar, de viver, de habitar, de trabalhar, de consumir, de amar e até de morrer... Mas acho que temos de rever o conceito de cosmopolitismo à luz da globalização. Há muitos estereótipos sobre o modo de ser citadino. O que é hoje ser romano em Roma ou parisiense em Paris ? O que é ser parisiense para um filho de um magrebino ? Ou lisboeta para um cabo-verdiano ? Ou alentejano na Amadora ? Ou turco em Berlim ?
Em todo o caso reconheço que as nossas cidades continuam a ser provincianas quando as comparamos com as grandes cidades europeias. Lisboa, Porto ou Coimbra são provincianas quando as comparamos com as de igual dimensão no país vizinho. O problema é o país que é provinciano, à escala regional e global… Claro que não o era na época dos Descobrimentos! Ou pelo menos Lisboa.
Diferenças entre Lisboa e Porto no contexto universitário ?
Bom, meu jovem, não sou sociólogo urbano nem etnólogo, fiz o meu curso de sociologia como trabalhador estudante no contexto muito particular do pós-25 de Abril. Embora sendo professor universitário em Lisboa, tenho alguma dificuldade em identificar uma identidade urbana dentro do espaço universitário lisboeta…
Por lado, não conheço muito bem a universidade do Porto, embora eu vá ao Porto com alguma regularidade ao longo do ano. Em rigor, não conheço a universidade do Porto, a não ser os edifícios das faculdades, vistos de fora… Julgo que entrei uma vez na Faculdade de Ciências Biomédicas Abel Salazar…
Em todo o caso, espero bem que existam algumas diferenças. Para melhor ou para pior. E desde que sejam estatisticamente significativas... Quanto mais não seja para contrariar a minha querida professora Maria Filomena Mónica que há dias arrasou de alto a baixo a universidade portuguesa pós-pombalina, do professores catedrático ao cão que morde ao doutor...
Bom, e para acabar: acha que essa coisa da densidade populacional é importante, é sociologicamente densa ?
Em sociologuês te respondo, meu rapaz. Se eu tivesse numa aula, seguramente que te responderia, com ar doutoral e grave, que, sem dúvida, a densidade populacional é um factor importante da sociabilidade, da qualidade de vida e da própria saúde mental das pessoas… O espaço urbano tornou-se patológico, esquizofrénico, concentraccionário, devido não só densidade populacional, à terciarização da economia, à construção em altura, à volumetria dos edifícios, à má arquitectura e ao mau urbanismo, mas sobretudo à segregação sócio-espacial. Ainda não chegámos ao arame farpado dos condomínios fechados e blindados do Rio de Janeiro, mas para lá caminhamos….
Em contrapartida, as pessoas hoje têm uma maior mobilidade geográfica e acabam por poder fugir, em liberdade condicional (e nem que seja por uns dias), do gueto onde vivem… Esse é, de resto, o papel dos “pacotes de férias” que se vendem hoje nos países ditos ricos e que servem para o anónimo cidadão, com algum crédito ou poder de compra, ir “carregar as baterias” num qualquer pseudo-paraíso terrestre… E no meio de tudo isto, acabei por perder o meu bilhete de identidade... Afinal, quem tu és, ó blogador? Bem podia ser o princípio da letra de um fado cantado pelo grande Camané...
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