Um ilustre professor de medicina, kaluanda, meu amigo de fresca data, corrigiu há dias um e-mail através do qual o Blogador lhe enviava uma destas estórias com mural ao fundo. Pensou ele, o meu amigo, que toda a estória tem uma moral (ou seja, um desfecho ou uma conclusão em geral edificante). E que portanto havia uma gralha (das grossas) no título usado pelo Blogador.
Mas não, meu caro Mário: diz o Blogador que estas estórias são mesmo com mural (parede pintada) ao fundo. E às vezes com a moral, essa sim, em baixo...
Aproveito, em nome do Blogador, para daqui enviar um ciberkandandu (abraço) para @s car@s amig@s da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, lá em baixo, na doce e crioula Luanda, hoje de novo terra de esperança e porto de abrigo de desvairadas gentes. E agradecer ao Mário a sua vigilância crítica em relação ao (ab)uso da bela língua que temos o privilégio de partilhar e de todos os dias enriquecer cá e lá.
E já que falamos de português, queria aqui evocar um belíssimo poema de amor à angolanidade que eu descobri num blogue de uma brasuca, Paty Carvalho, nascida no Recife, 29 anos, dentista, a viver e a trabalhar em Angola desde 2001.
O blogue dá pelo nome Notícias D'Angola e merece uma visita pela sua prosa gostosa e pela ternura quente com que a Paty fala da terra e das gentes angolanas. Destaco em especial um post de 30 de Outubro de 2003, sob a forma de pergunta e resposta sobre as actuais condições de vida que poderá esperar um candidato a imigrante de luxo em Angola.
Pergunta um imaginário brasuca: " (...) eu gostaria de saber se vale a pena me aventurar por aí, porque soube que aí dá para ganhar USD 1,000,000.00 por semana, trabalhando de segunda a quinta, das 10 às 14h. Isso é verdade??? Gostaria de saber como é a vida aí, algumas pessoas disseram-me que não se pode andar sozinho nas ruas, é verdade? Por que isso acontece? Como está a questão da segurança? E o custo de vida, soube que é bem alto. Quanto deve uma pessoa ganhar por mês para ter uma vida razoável? Finalizando, gostaria que você me fornecesse maiores informações sobre o país. Vale a pena ir?"
A resposta de Paty alia a maior das ternuras pelo povo angolano e a mais fina ironia em relação aos (pre)conceitos que os estrangeiros (brasileiros e portugueses incluídos) têm sobre a situação actual e as perspectivas futuras da África, em geral, e de Angola, em particular. Limito-me a citar alguns excertos:
"Se você não tiver sensibilidade para entender o que é a falta de água em 80% das residências, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você não tiver sensibilidade para respeitar o ritmo de trabalho das pessoas que ganham um salário muito baixo, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você acha que no Brasil não se passa fome, se ainda acredita que só se morre de fome nestes países da África Sub-Sahariana, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você, mesmo que involuntariamente, costuma associar problemas sócio-econômicos à cor da pele das pessoas, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você acha que o Brasil é um país melhor do que Angola, não venha. Olhe primeiro para o Brasil (...).
"O que te dará condições de viver bem aqui em Angola será a capacidade (...) de se entrosar, principalmente com o povo angolano, sem medos ou conceitos pré-formados. Isso vai fazer você entender o país e seu povo, e vai te fazer abraçá-los da mesma forma como você se sentirá abraçado(a) por eles, que, por sinal, fazem isso muito melhor do que muitos de nós, brasileiros. Abraçam sim, um kandandu bem angolano, cheio de calor e troca de boas energias, mas só o fazem quando confiam em você e sentem que você veio contribuir com o contexto e com a melhoria do país, e não apenas consigo próprio e com seu bolso (...).
"Finalizando, o Brasil é a cara da mãe dele. E o Brasil tem que ter orgulho disso. A mãe África é forte, batalhadora, sofrida, carrega muito peso nas costas e vê suas riquezas serem levadas de suas mãos o tempo todo, sem receber nada em troca disso. Mas consegue mesmo assim ser a mãe mais bonita do mundo, consegue ter um sorriso iluminado e uma ginga no corpo que nenhuma outra mãe tem. A mãe África vai caminhando de sua casa até o trabalho a pé, por muitos quilômetros e com um sol muito forte batendo em sua cabeça, mesmo com a lata de água protegendo um pouco desse sol lindo que só existe aqui. Minto. Ela não caminha, ela vai dançando, e usa para isso o ritmo dado pela percussão de seu coração. E segue em frente com porte de rainha e sorriso no rosto, até chegar em seu destino. Por tudo isso, a mãe África merece muito todo o respeito e admiração de seu filho Brasil que, infelizmente, nem sempre é um filho exemplar nesse aspecto (...).
"Espero ter ajudado. Desculpe-me novamente se eu tiver sido grosseira, a primeira intenção sempre é a de ser sincera e de querer ajudar a trazer pessoas que possam ter Angola no coração e considerá-la como uma segunda Pátria, como a mãe do Brasil. E não apenas como uma mina de ouro".
Uma miúda inteligente e generosa, essa Paty, além de bonita. É pena que tenha deixado de blogar antes do fim do ano de 2003. Mudanças(s) na vida dela, explicou. Mas continua em Angola onde se sente "em casa". Um chicoração para ela. De Lisboa com amor.
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
23 janeiro 2004
Estórias com mural ao fundo - XX: Uma questão cá entre nós (ou o triângulo Lisboa-Luanda-Recife)
Um ilustre professor de medicina, kaluanda, meu amigo de fresca data, corrigiu há dias um e-mail através do qual o Blogador lhe enviava uma destas estórias com mural ao fundo. Pensou ele, o meu amigo, que toda a estória tem uma moral (ou seja, um desfecho ou uma conclusão em geral edificante). E que portanto havia uma gralha (das grossas) no título usado pelo Blogador.
Mas não, meu caro Mário: diz o Blogador que estas estórias são mesmo com mural (parede pintada) ao fundo. E às vezes com a moral, essa sim, em baixo...
Aproveito, em nome do Blogador, para daqui enviar um ciberkandandu (abraço) para @s car@s amig@s da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, lá em baixo, na doce e crioula Luanda, hoje de novo terra de esperança e porto de abrigo de desvairadas gentes. E agradecer ao Mário a sua vigilância crítica em relação ao (ab)uso da bela língua que temos o privilégio de partilhar e de todos os dias enriquecer cá e lá.
E já que falamos de português, queria aqui evocar um belíssimo poema de amor à angolanidade que eu descobri num blogue de uma brasuca, Paty Carvalho, nascida no Recife, 29 anos, dentista, a viver e a trabalhar em Angola desde 2001.
O blogue dá pelo nome Notícias D'Angola e merece uma visita pela sua prosa gostosa e pela ternura quente com que a Paty fala da terra e das gentes angolanas. Destaco em especial um post de 30 de Outubro de 2003, sob a forma de pergunta e resposta sobre as actuais condições de vida que poderá esperar um candidato a imigrante de luxo em Angola.
Pergunta um imaginário brasuca: " (...) eu gostaria de saber se vale a pena me aventurar por aí, porque soube que aí dá para ganhar USD 1,000,000.00 por semana, trabalhando de segunda a quinta, das 10 às 14h. Isso é verdade??? Gostaria de saber como é a vida aí, algumas pessoas disseram-me que não se pode andar sozinho nas ruas, é verdade? Por que isso acontece? Como está a questão da segurança? E o custo de vida, soube que é bem alto. Quanto deve uma pessoa ganhar por mês para ter uma vida razoável? Finalizando, gostaria que você me fornecesse maiores informações sobre o país. Vale a pena ir?"
A resposta de Paty alia a maior das ternuras pelo povo angolano e a mais fina ironia em relação aos (pre)conceitos que os estrangeiros (brasileiros e portugueses incluídos) têm sobre a situação actual e as perspectivas futuras da África, em geral, e de Angola, em particular. Limito-me a citar alguns excertos:
"Se você não tiver sensibilidade para entender o que é a falta de água em 80% das residências, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você não tiver sensibilidade para respeitar o ritmo de trabalho das pessoas que ganham um salário muito baixo, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você acha que no Brasil não se passa fome, se ainda acredita que só se morre de fome nestes países da África Sub-Sahariana, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você, mesmo que involuntariamente, costuma associar problemas sócio-econômicos à cor da pele das pessoas, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você acha que o Brasil é um país melhor do que Angola, não venha. Olhe primeiro para o Brasil (...).
"O que te dará condições de viver bem aqui em Angola será a capacidade (...) de se entrosar, principalmente com o povo angolano, sem medos ou conceitos pré-formados. Isso vai fazer você entender o país e seu povo, e vai te fazer abraçá-los da mesma forma como você se sentirá abraçado(a) por eles, que, por sinal, fazem isso muito melhor do que muitos de nós, brasileiros. Abraçam sim, um kandandu bem angolano, cheio de calor e troca de boas energias, mas só o fazem quando confiam em você e sentem que você veio contribuir com o contexto e com a melhoria do país, e não apenas consigo próprio e com seu bolso (...).
"Finalizando, o Brasil é a cara da mãe dele. E o Brasil tem que ter orgulho disso. A mãe África é forte, batalhadora, sofrida, carrega muito peso nas costas e vê suas riquezas serem levadas de suas mãos o tempo todo, sem receber nada em troca disso. Mas consegue mesmo assim ser a mãe mais bonita do mundo, consegue ter um sorriso iluminado e uma ginga no corpo que nenhuma outra mãe tem. A mãe África vai caminhando de sua casa até o trabalho a pé, por muitos quilômetros e com um sol muito forte batendo em sua cabeça, mesmo com a lata de água protegendo um pouco desse sol lindo que só existe aqui. Minto. Ela não caminha, ela vai dançando, e usa para isso o ritmo dado pela percussão de seu coração. E segue em frente com porte de rainha e sorriso no rosto, até chegar em seu destino. Por tudo isso, a mãe África merece muito todo o respeito e admiração de seu filho Brasil que, infelizmente, nem sempre é um filho exemplar nesse aspecto (...).
"Espero ter ajudado. Desculpe-me novamente se eu tiver sido grosseira, a primeira intenção sempre é a de ser sincera e de querer ajudar a trazer pessoas que possam ter Angola no coração e considerá-la como uma segunda Pátria, como a mãe do Brasil. E não apenas como uma mina de ouro".
Uma miúda inteligente e generosa, essa Paty, além de bonita. É pena que tenha deixado de blogar antes do fim do ano de 2003. Mudanças(s) na vida dela, explicou. Mas continua em Angola onde se sente "em casa". Um chicoração para ela. De Lisboa com amor.
Mas não, meu caro Mário: diz o Blogador que estas estórias são mesmo com mural (parede pintada) ao fundo. E às vezes com a moral, essa sim, em baixo...
Aproveito, em nome do Blogador, para daqui enviar um ciberkandandu (abraço) para @s car@s amig@s da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, lá em baixo, na doce e crioula Luanda, hoje de novo terra de esperança e porto de abrigo de desvairadas gentes. E agradecer ao Mário a sua vigilância crítica em relação ao (ab)uso da bela língua que temos o privilégio de partilhar e de todos os dias enriquecer cá e lá.
E já que falamos de português, queria aqui evocar um belíssimo poema de amor à angolanidade que eu descobri num blogue de uma brasuca, Paty Carvalho, nascida no Recife, 29 anos, dentista, a viver e a trabalhar em Angola desde 2001.
O blogue dá pelo nome Notícias D'Angola e merece uma visita pela sua prosa gostosa e pela ternura quente com que a Paty fala da terra e das gentes angolanas. Destaco em especial um post de 30 de Outubro de 2003, sob a forma de pergunta e resposta sobre as actuais condições de vida que poderá esperar um candidato a imigrante de luxo em Angola.
Pergunta um imaginário brasuca: " (...) eu gostaria de saber se vale a pena me aventurar por aí, porque soube que aí dá para ganhar USD 1,000,000.00 por semana, trabalhando de segunda a quinta, das 10 às 14h. Isso é verdade??? Gostaria de saber como é a vida aí, algumas pessoas disseram-me que não se pode andar sozinho nas ruas, é verdade? Por que isso acontece? Como está a questão da segurança? E o custo de vida, soube que é bem alto. Quanto deve uma pessoa ganhar por mês para ter uma vida razoável? Finalizando, gostaria que você me fornecesse maiores informações sobre o país. Vale a pena ir?"
A resposta de Paty alia a maior das ternuras pelo povo angolano e a mais fina ironia em relação aos (pre)conceitos que os estrangeiros (brasileiros e portugueses incluídos) têm sobre a situação actual e as perspectivas futuras da África, em geral, e de Angola, em particular. Limito-me a citar alguns excertos:
"Se você não tiver sensibilidade para entender o que é a falta de água em 80% das residências, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você não tiver sensibilidade para respeitar o ritmo de trabalho das pessoas que ganham um salário muito baixo, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você acha que no Brasil não se passa fome, se ainda acredita que só se morre de fome nestes países da África Sub-Sahariana, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você, mesmo que involuntariamente, costuma associar problemas sócio-econômicos à cor da pele das pessoas, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.
"Se você acha que o Brasil é um país melhor do que Angola, não venha. Olhe primeiro para o Brasil (...).
"O que te dará condições de viver bem aqui em Angola será a capacidade (...) de se entrosar, principalmente com o povo angolano, sem medos ou conceitos pré-formados. Isso vai fazer você entender o país e seu povo, e vai te fazer abraçá-los da mesma forma como você se sentirá abraçado(a) por eles, que, por sinal, fazem isso muito melhor do que muitos de nós, brasileiros. Abraçam sim, um kandandu bem angolano, cheio de calor e troca de boas energias, mas só o fazem quando confiam em você e sentem que você veio contribuir com o contexto e com a melhoria do país, e não apenas consigo próprio e com seu bolso (...).
"Finalizando, o Brasil é a cara da mãe dele. E o Brasil tem que ter orgulho disso. A mãe África é forte, batalhadora, sofrida, carrega muito peso nas costas e vê suas riquezas serem levadas de suas mãos o tempo todo, sem receber nada em troca disso. Mas consegue mesmo assim ser a mãe mais bonita do mundo, consegue ter um sorriso iluminado e uma ginga no corpo que nenhuma outra mãe tem. A mãe África vai caminhando de sua casa até o trabalho a pé, por muitos quilômetros e com um sol muito forte batendo em sua cabeça, mesmo com a lata de água protegendo um pouco desse sol lindo que só existe aqui. Minto. Ela não caminha, ela vai dançando, e usa para isso o ritmo dado pela percussão de seu coração. E segue em frente com porte de rainha e sorriso no rosto, até chegar em seu destino. Por tudo isso, a mãe África merece muito todo o respeito e admiração de seu filho Brasil que, infelizmente, nem sempre é um filho exemplar nesse aspecto (...).
"Espero ter ajudado. Desculpe-me novamente se eu tiver sido grosseira, a primeira intenção sempre é a de ser sincera e de querer ajudar a trazer pessoas que possam ter Angola no coração e considerá-la como uma segunda Pátria, como a mãe do Brasil. E não apenas como uma mina de ouro".
Uma miúda inteligente e generosa, essa Paty, além de bonita. É pena que tenha deixado de blogar antes do fim do ano de 2003. Mudanças(s) na vida dela, explicou. Mas continua em Angola onde se sente "em casa". Um chicoração para ela. De Lisboa com amor.
22 janeiro 2004
Estórias com mural ao fundo - XIX: A lebre da promoção da saúde
Esta cena passa-se em pleno Alentejo, agora transformado em gigantesco parque zoológico e região turística de eleição ao alcance de qualquer voo charter doméstico na Eurolândia. Mês do ano: Maio florido.
Há uma lebre que vai a correr, endiabrada, afugentando porcos pretos, cegonhas, cobras e lagartos, quando passa por uma avestruz que está a enrolar um charro à sombra de uma azinheira. Vira-se para a infeliz e diz:
- Avestruz, minha boa amiga, não vês que o charro dá cabo dos teus pulmões ?! Um dia destes ainda vais morrer de cancro. Vem antes correr comigo para ficares em boa forma física e promoveres a tua saúde.
A avestruz não hesitou um segundo e seguiu atrás da lebre, sempre a abrir até ao próximo montado de sobro.
Junto a uma ribeira que corria, já exangue para o Guadiana, estava um triste, pobre e solitário elefante a snifar umas linhas de coca. A lebre, investida da nobre missão de promover a saúde da bicharada alentejana, não se intimidou com o porte do paquiderme e exortou-o:
- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco! Pela tua e pela nossa saúde!
Deitando fora o espelho, a palhinha e o pó, o elefante juntou-se ao grupo dos lídimos representantes do Movimento Saúde 2004:O Alentejo Não Pára.
Continua o grupo em grande correrria, agora a caminho de Barrancos, quando metem travões a fundo e param frente ao Rei da Selva que, pasmem vocês!, estava a injectar-se em plena charneca, atrás de umas giestas floridas. A lebre teve um gesto de compaixão para com o pobre leão toxicodependente e disse-lhe:
- Leão, meu rei e meu camarada, não te injectes mais, e ainda por cima com agulhas infectadas. Olha que apanhas a Sida e esticas o pernil sem ver a Barragem do Alqueva atingir a cota máxima e irrigar os nossos campos de golfe... Vem antes correr comigo, com a avestruz e com o elefante. Vais ver que ganhas outra disposição e outra maneira de ver o mundo.
O leão, que acabava de passar uma semana de ressaca, não esteve com meias medidas e, zás!, deu uma sapatada à pobre lebre, arrancando-lhe a cabeça de um só golpe. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra a brutalidade do leão:
- Meu filho da puta, por que é fizeste isso à pobre lebre ? Ela só te queria ajudar!
O leão continuou a meter para a veia, enquanto lhes respondia com maus modos:
- Essa chavala era maluca! Obrigava-me sempre a fazer o percurso Odemira-Barrancos todas as vezes que tomava Ecstasy!
Moral da história: Nem sempre as motivações dos promotores de saúde são as mais altruístas, óbvias e transparentes. Conselho ao Prof. Fernando Pádua e aos demais ilustres promotores da saúde em Portugal: por favor, não usem lebres nas corridas do Maio, Mês do Coração!
PS - Obrigado à minha amiga AIG por me ter mandado uma das fábulas de La Fontaine onde me fui inspirar para mais esta estória com mural ao fundo.
Há uma lebre que vai a correr, endiabrada, afugentando porcos pretos, cegonhas, cobras e lagartos, quando passa por uma avestruz que está a enrolar um charro à sombra de uma azinheira. Vira-se para a infeliz e diz:
- Avestruz, minha boa amiga, não vês que o charro dá cabo dos teus pulmões ?! Um dia destes ainda vais morrer de cancro. Vem antes correr comigo para ficares em boa forma física e promoveres a tua saúde.
A avestruz não hesitou um segundo e seguiu atrás da lebre, sempre a abrir até ao próximo montado de sobro.
Junto a uma ribeira que corria, já exangue para o Guadiana, estava um triste, pobre e solitário elefante a snifar umas linhas de coca. A lebre, investida da nobre missão de promover a saúde da bicharada alentejana, não se intimidou com o porte do paquiderme e exortou-o:
- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco! Pela tua e pela nossa saúde!
Deitando fora o espelho, a palhinha e o pó, o elefante juntou-se ao grupo dos lídimos representantes do Movimento Saúde 2004:O Alentejo Não Pára.
Continua o grupo em grande correrria, agora a caminho de Barrancos, quando metem travões a fundo e param frente ao Rei da Selva que, pasmem vocês!, estava a injectar-se em plena charneca, atrás de umas giestas floridas. A lebre teve um gesto de compaixão para com o pobre leão toxicodependente e disse-lhe:
- Leão, meu rei e meu camarada, não te injectes mais, e ainda por cima com agulhas infectadas. Olha que apanhas a Sida e esticas o pernil sem ver a Barragem do Alqueva atingir a cota máxima e irrigar os nossos campos de golfe... Vem antes correr comigo, com a avestruz e com o elefante. Vais ver que ganhas outra disposição e outra maneira de ver o mundo.
O leão, que acabava de passar uma semana de ressaca, não esteve com meias medidas e, zás!, deu uma sapatada à pobre lebre, arrancando-lhe a cabeça de um só golpe. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra a brutalidade do leão:
- Meu filho da puta, por que é fizeste isso à pobre lebre ? Ela só te queria ajudar!
O leão continuou a meter para a veia, enquanto lhes respondia com maus modos:
- Essa chavala era maluca! Obrigava-me sempre a fazer o percurso Odemira-Barrancos todas as vezes que tomava Ecstasy!
Moral da história: Nem sempre as motivações dos promotores de saúde são as mais altruístas, óbvias e transparentes. Conselho ao Prof. Fernando Pádua e aos demais ilustres promotores da saúde em Portugal: por favor, não usem lebres nas corridas do Maio, Mês do Coração!
PS - Obrigado à minha amiga AIG por me ter mandado uma das fábulas de La Fontaine onde me fui inspirar para mais esta estória com mural ao fundo.
Estórias com mural ao fundo - XIX: A lebre da promoção da saúde
Esta cena passa-se em pleno Alentejo, agora transformado em gigantesco parque zoológico e região turística de eleição ao alcance de qualquer voo charter doméstico na Eurolândia. Mês do ano: Maio florido.
Há uma lebre que vai a correr, endiabrada, afugentando porcos pretos, cegonhas, cobras e lagartos, quando passa por uma avestruz que está a enrolar um charro à sombra de uma azinheira. Vira-se para a infeliz e diz:
- Avestruz, minha boa amiga, não vês que o charro dá cabo dos teus pulmões ?! Um dia destes ainda vais morrer de cancro. Vem antes correr comigo para ficares em boa forma física e promoveres a tua saúde.
A avestruz não hesitou um segundo e seguiu atrás da lebre, sempre a abrir até ao próximo montado de sobro.
Junto a uma ribeira que corria, já exangue para o Guadiana, estava um triste, pobre e solitário elefante a snifar umas linhas de coca. A lebre, investida da nobre missão de promover a saúde da bicharada alentejana, não se intimidou com o porte do paquiderme e exortou-o:
- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco! Pela tua e pela nossa saúde!
Deitando fora o espelho, a palhinha e o pó, o elefante juntou-se ao grupo dos lídimos representantes do Movimento Saúde 2004:O Alentejo Não Pára.
Continua o grupo em grande correrria, agora a caminho de Barrancos, quando metem travões a fundo e param frente ao Rei da Selva que, pasmem vocês!, estava a injectar-se em plena charneca, atrás de umas giestas floridas. A lebre teve um gesto de compaixão para com o pobre leão toxicodependente e disse-lhe:
- Leão, meu rei e meu camarada, não te injectes mais, e ainda por cima com agulhas infectadas. Olha que apanhas a Sida e esticas o pernil sem ver a Barragem do Alqueva atingir a cota máxima e irrigar os nossos campos de golfe... Vem antes correr comigo, com a avestruz e com o elefante. Vais ver que ganhas outra disposição e outra maneira de ver o mundo.
O leão, que acabava de passar uma semana de ressaca, não esteve com meias medidas e, zás!, deu uma sapatada à pobre lebre, arrancando-lhe a cabeça de um só golpe. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra a brutalidade do leão:
- Meu filho da puta, por que é fizeste isso à pobre lebre ? Ela só te queria ajudar!
O leão continuou a meter para a veia, enquanto lhes respondia com maus modos:
- Essa chavala era maluca! Obrigava-me sempre a fazer o percurso Odemira-Barrancos todas as vezes que tomava Ecstasy!
Moral da história: Nem sempre as motivações dos promotores de saúde são as mais altruístas, óbvias e transparentes. Conselho ao Prof. Fernando Pádua e aos demais ilustres promotores da saúde em Portugal: por favor, não usem lebres nas corridas do Maio, Mês do Coração!
PS - Obrigado à minha amiga AIG por me ter mandado uma das fábulas de La Fontaine onde me fui inspirar para mais esta estória com mural ao fundo.
Há uma lebre que vai a correr, endiabrada, afugentando porcos pretos, cegonhas, cobras e lagartos, quando passa por uma avestruz que está a enrolar um charro à sombra de uma azinheira. Vira-se para a infeliz e diz:
- Avestruz, minha boa amiga, não vês que o charro dá cabo dos teus pulmões ?! Um dia destes ainda vais morrer de cancro. Vem antes correr comigo para ficares em boa forma física e promoveres a tua saúde.
A avestruz não hesitou um segundo e seguiu atrás da lebre, sempre a abrir até ao próximo montado de sobro.
Junto a uma ribeira que corria, já exangue para o Guadiana, estava um triste, pobre e solitário elefante a snifar umas linhas de coca. A lebre, investida da nobre missão de promover a saúde da bicharada alentejana, não se intimidou com o porte do paquiderme e exortou-o:
- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco! Pela tua e pela nossa saúde!
Deitando fora o espelho, a palhinha e o pó, o elefante juntou-se ao grupo dos lídimos representantes do Movimento Saúde 2004:O Alentejo Não Pára.
Continua o grupo em grande correrria, agora a caminho de Barrancos, quando metem travões a fundo e param frente ao Rei da Selva que, pasmem vocês!, estava a injectar-se em plena charneca, atrás de umas giestas floridas. A lebre teve um gesto de compaixão para com o pobre leão toxicodependente e disse-lhe:
- Leão, meu rei e meu camarada, não te injectes mais, e ainda por cima com agulhas infectadas. Olha que apanhas a Sida e esticas o pernil sem ver a Barragem do Alqueva atingir a cota máxima e irrigar os nossos campos de golfe... Vem antes correr comigo, com a avestruz e com o elefante. Vais ver que ganhas outra disposição e outra maneira de ver o mundo.
O leão, que acabava de passar uma semana de ressaca, não esteve com meias medidas e, zás!, deu uma sapatada à pobre lebre, arrancando-lhe a cabeça de um só golpe. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra a brutalidade do leão:
- Meu filho da puta, por que é fizeste isso à pobre lebre ? Ela só te queria ajudar!
O leão continuou a meter para a veia, enquanto lhes respondia com maus modos:
- Essa chavala era maluca! Obrigava-me sempre a fazer o percurso Odemira-Barrancos todas as vezes que tomava Ecstasy!
Moral da história: Nem sempre as motivações dos promotores de saúde são as mais altruístas, óbvias e transparentes. Conselho ao Prof. Fernando Pádua e aos demais ilustres promotores da saúde em Portugal: por favor, não usem lebres nas corridas do Maio, Mês do Coração!
PS - Obrigado à minha amiga AIG por me ter mandado uma das fábulas de La Fontaine onde me fui inspirar para mais esta estória com mural ao fundo.
Blogantologia(s) - VII: Deus cresceu sozinho, não teve ninguém para brincar
MINARETS
Santa Maria choose your children
Santa Maria virgin child
all our wars over you we are fighting
and all our time faith justifying
Brother caged Babylon will fall
Sister chained and bound, beaten and bleeding
The tv's on, to me this explains it
Wearing a tie like daddy speaks it
Screaming from the minarets
Later on we'll all be dancing
Screaming from the minarets
Yes indeed i'm making faces
Rain on the ground in a space
God has grown
Alone till a man looking glass in his hand
He is holding up to you
What you see
What you see
What you see
What you see is human
Screaming from the minarets
Dave Matthews Band
LIVE AT LUTHER COLLEGE
1999
Santa Maria choose your children
Santa Maria virgin child
all our wars over you we are fighting
and all our time faith justifying
Brother caged Babylon will fall
Sister chained and bound, beaten and bleeding
The tv's on, to me this explains it
Wearing a tie like daddy speaks it
Screaming from the minarets
Later on we'll all be dancing
Screaming from the minarets
Yes indeed i'm making faces
Rain on the ground in a space
God has grown
Alone till a man looking glass in his hand
He is holding up to you
What you see
What you see
What you see
What you see is human
Screaming from the minarets
Dave Matthews Band
LIVE AT LUTHER COLLEGE
1999
Blogantologia(s) - VII: Deus cresceu sozinho, não teve ninguém para brincar
MINARETS
Santa Maria choose your children
Santa Maria virgin child
all our wars over you we are fighting
and all our time faith justifying
Brother caged Babylon will fall
Sister chained and bound, beaten and bleeding
The tv's on, to me this explains it
Wearing a tie like daddy speaks it
Screaming from the minarets
Later on we'll all be dancing
Screaming from the minarets
Yes indeed i'm making faces
Rain on the ground in a space
God has grown
Alone till a man looking glass in his hand
He is holding up to you
What you see
What you see
What you see
What you see is human
Screaming from the minarets
Dave Matthews Band
LIVE AT LUTHER COLLEGE
1999
Santa Maria choose your children
Santa Maria virgin child
all our wars over you we are fighting
and all our time faith justifying
Brother caged Babylon will fall
Sister chained and bound, beaten and bleeding
The tv's on, to me this explains it
Wearing a tie like daddy speaks it
Screaming from the minarets
Later on we'll all be dancing
Screaming from the minarets
Yes indeed i'm making faces
Rain on the ground in a space
God has grown
Alone till a man looking glass in his hand
He is holding up to you
What you see
What you see
What you see
What you see is human
Screaming from the minarets
Dave Matthews Band
LIVE AT LUTHER COLLEGE
1999
21 janeiro 2004
Socio(b)logia - V: Empresas com muitos tiques e poucos toques
Esta noite sonhei que as nossas empresas e demais organizações eram hi tech & human touch. Traduzido à letra: empresas tecnologicamente evoluídas mas de rosto humano. Ou trocado por miúdos: que eram capazes de conciliar três coisas que em princípio são (ou deveriam ser) compatíveis: (i) hardware, (ii) sofwtare e (iii) humanware.
As organizações são, antes de mais, (i) nas pessoas que lá trabalham, que connosco trabalham, (ii) além da memória dos que já partiram ou nos deixaram. Há um fenómeno de amnésia nas nossas organizações que me preocupa. O termo é soft. Mas eu não queria ir tão longe: chamar-lhe branqueamento da história, backout cultural, denegação sistemática do passado... Os actores organizacionais não tem memória, suportes de memória, lembranças, emoções. Onde estão os nossos pais fundadores, o que foi feito das pessoas-chaves que marcaram a história da nossa empresa, e por aí fora ?
Há dias um amigo meu fez um agradecimento especial aos seus colegas de trabalho, uma vez findo um projecto importante onde esteve envolvido com outros colaboradores. Segundo o e-mail que me mandou, o agradecimento rezava mais ou menos assim: "A palavra amizade nunca deve ser evocada em vão, mas eu sinto que posso falar para amigos, já que vocês são, para mim, mais do que simples colegas de trabalho. Espero que não considerem isto como um aproveitamento demagógico das circunstâncias, um abuso de autoridade ou até um excesso de familiariedade. Em resumo, eu gostaria de falar para vocês, como amigos que trabalham comigo, independentemente de eu ser líder do projecto, e independentemente dos cargos, funções ou tarefas de cada um de vós. Amigos de quem tenho recebido, ao longo destes anos todos, palavras e provas de carinho e de apoio, mas também críticas e conselhos que foram (e continuam a ser) importantes para o meu desenvolvimento pessoal e profissional, para o sucesso do nosso projecto e para o êxito da nossa empresa".
Percebo agora quão traumatizante pode ser, para a maioria dos trabalhadores assalariados (incluindo os gestores e os quadros superiores das empresas), a perda do seu emprego: para além de fonte de rendimento e de status, o trabalho é algo que faz parte do projecto de vida das pessoas, da sua história de vida, da sua rede de relações sociais, da sua identidade...
Só agora me dou conta de quanto as pessoas investem, em termos afectivos, no seu local de trabalho. Os portugas investem muito no seu local de trabalho, provavelmente muito mais do que recebem em troca. Não me refiro apenas ao seu valor acrescentado bruto, à riqueza (material) que criam... Daí que a perda do trabalho possa também representar, para muitos, a perda de afectos e até levar à depressão.
Há quinze ou vinte anos atrás, dizia um médico conhecido que os hospitais portugueses tinham muitos tiques e poucos taques (queria ele referir-se à TAC - Tumografia Axial Computorizada). Uma amiga minha evocava, há tempos, em conversa, o lema da sua antiga equipa de projecto noutra empresa: Não há tique sem toque, o que eu acho um feliz aportuguesamento do inglês Hi Tech, Human Touch.
Hoje quando milhões de portugas começarem a picar o ponto, logo pela manhã, nas empresas e demais organizações onde trabalham, é muito possível que a maioria deles pense, para com os seus botões, como é uma pena estar num sítio onde há muitos tiques e poucos toques... Os portugas que trabalham merecem muito melhor!
As organizações são, antes de mais, (i) nas pessoas que lá trabalham, que connosco trabalham, (ii) além da memória dos que já partiram ou nos deixaram. Há um fenómeno de amnésia nas nossas organizações que me preocupa. O termo é soft. Mas eu não queria ir tão longe: chamar-lhe branqueamento da história, backout cultural, denegação sistemática do passado... Os actores organizacionais não tem memória, suportes de memória, lembranças, emoções. Onde estão os nossos pais fundadores, o que foi feito das pessoas-chaves que marcaram a história da nossa empresa, e por aí fora ?
Há dias um amigo meu fez um agradecimento especial aos seus colegas de trabalho, uma vez findo um projecto importante onde esteve envolvido com outros colaboradores. Segundo o e-mail que me mandou, o agradecimento rezava mais ou menos assim: "A palavra amizade nunca deve ser evocada em vão, mas eu sinto que posso falar para amigos, já que vocês são, para mim, mais do que simples colegas de trabalho. Espero que não considerem isto como um aproveitamento demagógico das circunstâncias, um abuso de autoridade ou até um excesso de familiariedade. Em resumo, eu gostaria de falar para vocês, como amigos que trabalham comigo, independentemente de eu ser líder do projecto, e independentemente dos cargos, funções ou tarefas de cada um de vós. Amigos de quem tenho recebido, ao longo destes anos todos, palavras e provas de carinho e de apoio, mas também críticas e conselhos que foram (e continuam a ser) importantes para o meu desenvolvimento pessoal e profissional, para o sucesso do nosso projecto e para o êxito da nossa empresa".
Percebo agora quão traumatizante pode ser, para a maioria dos trabalhadores assalariados (incluindo os gestores e os quadros superiores das empresas), a perda do seu emprego: para além de fonte de rendimento e de status, o trabalho é algo que faz parte do projecto de vida das pessoas, da sua história de vida, da sua rede de relações sociais, da sua identidade...
Só agora me dou conta de quanto as pessoas investem, em termos afectivos, no seu local de trabalho. Os portugas investem muito no seu local de trabalho, provavelmente muito mais do que recebem em troca. Não me refiro apenas ao seu valor acrescentado bruto, à riqueza (material) que criam... Daí que a perda do trabalho possa também representar, para muitos, a perda de afectos e até levar à depressão.
Há quinze ou vinte anos atrás, dizia um médico conhecido que os hospitais portugueses tinham muitos tiques e poucos taques (queria ele referir-se à TAC - Tumografia Axial Computorizada). Uma amiga minha evocava, há tempos, em conversa, o lema da sua antiga equipa de projecto noutra empresa: Não há tique sem toque, o que eu acho um feliz aportuguesamento do inglês Hi Tech, Human Touch.
Hoje quando milhões de portugas começarem a picar o ponto, logo pela manhã, nas empresas e demais organizações onde trabalham, é muito possível que a maioria deles pense, para com os seus botões, como é uma pena estar num sítio onde há muitos tiques e poucos toques... Os portugas que trabalham merecem muito melhor!
Socio(b)logia - V: Empresas com muitos tiques e poucos toques
Esta noite sonhei que as nossas empresas e demais organizações eram hi tech & human touch. Traduzido à letra: empresas tecnologicamente evoluídas mas de rosto humano. Ou trocado por miúdos: que eram capazes de conciliar três coisas que em princípio são (ou deveriam ser) compatíveis: (i) hardware, (ii) sofwtare e (iii) humanware.
As organizações são, antes de mais, (i) nas pessoas que lá trabalham, que connosco trabalham, (ii) além da memória dos que já partiram ou nos deixaram. Há um fenómeno de amnésia nas nossas organizações que me preocupa. O termo é soft. Mas eu não queria ir tão longe: chamar-lhe branqueamento da história, backout cultural, denegação sistemática do passado... Os actores organizacionais não tem memória, suportes de memória, lembranças, emoções. Onde estão os nossos pais fundadores, o que foi feito das pessoas-chaves que marcaram a história da nossa empresa, e por aí fora ?
Há dias um amigo meu fez um agradecimento especial aos seus colegas de trabalho, uma vez findo um projecto importante onde esteve envolvido com outros colaboradores. Segundo o e-mail que me mandou, o agradecimento rezava mais ou menos assim: "A palavra amizade nunca deve ser evocada em vão, mas eu sinto que posso falar para amigos, já que vocês são, para mim, mais do que simples colegas de trabalho. Espero que não considerem isto como um aproveitamento demagógico das circunstâncias, um abuso de autoridade ou até um excesso de familiariedade. Em resumo, eu gostaria de falar para vocês, como amigos que trabalham comigo, independentemente de eu ser líder do projecto, e independentemente dos cargos, funções ou tarefas de cada um de vós. Amigos de quem tenho recebido, ao longo destes anos todos, palavras e provas de carinho e de apoio, mas também críticas e conselhos que foram (e continuam a ser) importantes para o meu desenvolvimento pessoal e profissional, para o sucesso do nosso projecto e para o êxito da nossa empresa".
Percebo agora quão traumatizante pode ser, para a maioria dos trabalhadores assalariados (incluindo os gestores e os quadros superiores das empresas), a perda do seu emprego: para além de fonte de rendimento e de status, o trabalho é algo que faz parte do projecto de vida das pessoas, da sua história de vida, da sua rede de relações sociais, da sua identidade...
Só agora me dou conta de quanto as pessoas investem, em termos afectivos, no seu local de trabalho. Os portugas investem muito no seu local de trabalho, provavelmente muito mais do que recebem em troca. Não me refiro apenas ao seu valor acrescentado bruto, à riqueza (material) que criam... Daí que a perda do trabalho possa também representar, para muitos, a perda de afectos e até levar à depressão.
Há quinze ou vinte anos atrás, dizia um médico conhecido que os hospitais portugueses tinham muitos tiques e poucos taques (queria ele referir-se à TAC - Tumografia Axial Computorizada). Uma amiga minha evocava, há tempos, em conversa, o lema da sua antiga equipa de projecto noutra empresa: Não há tique sem toque, o que eu acho um feliz aportuguesamento do inglês Hi Tech, Human Touch.
Hoje quando milhões de portugas começarem a picar o ponto, logo pela manhã, nas empresas e demais organizações onde trabalham, é muito possível que a maioria deles pense, para com os seus botões, como é uma pena estar num sítio onde há muitos tiques e poucos toques... Os portugas que trabalham merecem muito melhor!
As organizações são, antes de mais, (i) nas pessoas que lá trabalham, que connosco trabalham, (ii) além da memória dos que já partiram ou nos deixaram. Há um fenómeno de amnésia nas nossas organizações que me preocupa. O termo é soft. Mas eu não queria ir tão longe: chamar-lhe branqueamento da história, backout cultural, denegação sistemática do passado... Os actores organizacionais não tem memória, suportes de memória, lembranças, emoções. Onde estão os nossos pais fundadores, o que foi feito das pessoas-chaves que marcaram a história da nossa empresa, e por aí fora ?
Há dias um amigo meu fez um agradecimento especial aos seus colegas de trabalho, uma vez findo um projecto importante onde esteve envolvido com outros colaboradores. Segundo o e-mail que me mandou, o agradecimento rezava mais ou menos assim: "A palavra amizade nunca deve ser evocada em vão, mas eu sinto que posso falar para amigos, já que vocês são, para mim, mais do que simples colegas de trabalho. Espero que não considerem isto como um aproveitamento demagógico das circunstâncias, um abuso de autoridade ou até um excesso de familiariedade. Em resumo, eu gostaria de falar para vocês, como amigos que trabalham comigo, independentemente de eu ser líder do projecto, e independentemente dos cargos, funções ou tarefas de cada um de vós. Amigos de quem tenho recebido, ao longo destes anos todos, palavras e provas de carinho e de apoio, mas também críticas e conselhos que foram (e continuam a ser) importantes para o meu desenvolvimento pessoal e profissional, para o sucesso do nosso projecto e para o êxito da nossa empresa".
Percebo agora quão traumatizante pode ser, para a maioria dos trabalhadores assalariados (incluindo os gestores e os quadros superiores das empresas), a perda do seu emprego: para além de fonte de rendimento e de status, o trabalho é algo que faz parte do projecto de vida das pessoas, da sua história de vida, da sua rede de relações sociais, da sua identidade...
Só agora me dou conta de quanto as pessoas investem, em termos afectivos, no seu local de trabalho. Os portugas investem muito no seu local de trabalho, provavelmente muito mais do que recebem em troca. Não me refiro apenas ao seu valor acrescentado bruto, à riqueza (material) que criam... Daí que a perda do trabalho possa também representar, para muitos, a perda de afectos e até levar à depressão.
Há quinze ou vinte anos atrás, dizia um médico conhecido que os hospitais portugueses tinham muitos tiques e poucos taques (queria ele referir-se à TAC - Tumografia Axial Computorizada). Uma amiga minha evocava, há tempos, em conversa, o lema da sua antiga equipa de projecto noutra empresa: Não há tique sem toque, o que eu acho um feliz aportuguesamento do inglês Hi Tech, Human Touch.
Hoje quando milhões de portugas começarem a picar o ponto, logo pela manhã, nas empresas e demais organizações onde trabalham, é muito possível que a maioria deles pense, para com os seus botões, como é uma pena estar num sítio onde há muitos tiques e poucos toques... Os portugas que trabalham merecem muito melhor!
19 janeiro 2004
Humor com humor se paga - XIX: A política vista pelas criancinhas
Uma criancinha, de seis anos, pergunta ao pai o que é isso da política. O pai responde-lhe nestes termos:
- A política é uma palavra antiga que vem do grego e que quer dizer o governo da cidade... Como é que eu hei-de explicar-te melhor ? Vejamos o exemplo da nossa casa: Eu ando a ganhar a vida lá fora e trago dinheiro para sustentar a nossa família e garantir o futuro de todos nós, por isso represento o Capitalismo; a tua mãe gasta o dinheiro, faz as compras e cuida de todos nós, é o Governo cá da casa; o avozinho defende os interesses dos menos protegidos como tu, por isso é o Sindicato; a nossa criada que faz a lida doméstica, é a Classe Operária; tu representas o Povo e a gente só quer o tu bem; o teu irmaozinho, que ainda é muito pequenino e tem de ser muito acarinhado, representa o Futuro... Estás a agora a perceber ?
O miúdo fico confuso com tantos conceitos mas não fez mais perguntas e lá se foi deitar. Durante a noite acordou, com o choro do irmão que dormia no mesmo quarto. Foi ver, tinha a fralda toda suja de chichi e cocó. Como não sabia o que fazer, foi ter ao quarto dos pais. A mãe estava a dormir um sono profundo: depois de tomar a sua dose de Prozac, não havia ninguém que a conseguisse acordar, nem sequer o terramoto de 1755. Foi ao quarto da criada e encontrou-a na cama com o pai. Estavam tão ocupados e divertidos que não ouviram os protestos do puto. Quanto ao avô, que pesava mais de 90 Kg, esse ressonava como um porco e não era possível sequer abaná-lo.
Visto não ter outro remédio, a criancinha voltou para a sua cama, pôs a chucha no irmão e adormeceu.
De manhã, o pai, muito bem disposto, quis saber se ele já era capaz de explicar na próxima aula, por palavras simples, o que era isso da política. O miúdo respondeu que sim, que quando a professora lhe perguntasse, ele iria responder da seguinte maneira:
- O Capitalismo aproveita-se da Classe Operária; o Sindicato não vê nada nem protesta; o Governo dorme; ninguém liga ao Povo; e o Futuro é só merda e cheira mal...
PS - Obrigado à Paula por mais este "regalo" humorístico...
- A política é uma palavra antiga que vem do grego e que quer dizer o governo da cidade... Como é que eu hei-de explicar-te melhor ? Vejamos o exemplo da nossa casa: Eu ando a ganhar a vida lá fora e trago dinheiro para sustentar a nossa família e garantir o futuro de todos nós, por isso represento o Capitalismo; a tua mãe gasta o dinheiro, faz as compras e cuida de todos nós, é o Governo cá da casa; o avozinho defende os interesses dos menos protegidos como tu, por isso é o Sindicato; a nossa criada que faz a lida doméstica, é a Classe Operária; tu representas o Povo e a gente só quer o tu bem; o teu irmaozinho, que ainda é muito pequenino e tem de ser muito acarinhado, representa o Futuro... Estás a agora a perceber ?
O miúdo fico confuso com tantos conceitos mas não fez mais perguntas e lá se foi deitar. Durante a noite acordou, com o choro do irmão que dormia no mesmo quarto. Foi ver, tinha a fralda toda suja de chichi e cocó. Como não sabia o que fazer, foi ter ao quarto dos pais. A mãe estava a dormir um sono profundo: depois de tomar a sua dose de Prozac, não havia ninguém que a conseguisse acordar, nem sequer o terramoto de 1755. Foi ao quarto da criada e encontrou-a na cama com o pai. Estavam tão ocupados e divertidos que não ouviram os protestos do puto. Quanto ao avô, que pesava mais de 90 Kg, esse ressonava como um porco e não era possível sequer abaná-lo.
Visto não ter outro remédio, a criancinha voltou para a sua cama, pôs a chucha no irmão e adormeceu.
De manhã, o pai, muito bem disposto, quis saber se ele já era capaz de explicar na próxima aula, por palavras simples, o que era isso da política. O miúdo respondeu que sim, que quando a professora lhe perguntasse, ele iria responder da seguinte maneira:
- O Capitalismo aproveita-se da Classe Operária; o Sindicato não vê nada nem protesta; o Governo dorme; ninguém liga ao Povo; e o Futuro é só merda e cheira mal...
PS - Obrigado à Paula por mais este "regalo" humorístico...
Humor com humor se paga - XIX: A política vista pelas criancinhas
Uma criancinha, de seis anos, pergunta ao pai o que é isso da política. O pai responde-lhe nestes termos:
- A política é uma palavra antiga que vem do grego e que quer dizer o governo da cidade... Como é que eu hei-de explicar-te melhor ? Vejamos o exemplo da nossa casa: Eu ando a ganhar a vida lá fora e trago dinheiro para sustentar a nossa família e garantir o futuro de todos nós, por isso represento o Capitalismo; a tua mãe gasta o dinheiro, faz as compras e cuida de todos nós, é o Governo cá da casa; o avozinho defende os interesses dos menos protegidos como tu, por isso é o Sindicato; a nossa criada que faz a lida doméstica, é a Classe Operária; tu representas o Povo e a gente só quer o tu bem; o teu irmaozinho, que ainda é muito pequenino e tem de ser muito acarinhado, representa o Futuro... Estás a agora a perceber ?
O miúdo fico confuso com tantos conceitos mas não fez mais perguntas e lá se foi deitar. Durante a noite acordou, com o choro do irmão que dormia no mesmo quarto. Foi ver, tinha a fralda toda suja de chichi e cocó. Como não sabia o que fazer, foi ter ao quarto dos pais. A mãe estava a dormir um sono profundo: depois de tomar a sua dose de Prozac, não havia ninguém que a conseguisse acordar, nem sequer o terramoto de 1755. Foi ao quarto da criada e encontrou-a na cama com o pai. Estavam tão ocupados e divertidos que não ouviram os protestos do puto. Quanto ao avô, que pesava mais de 90 Kg, esse ressonava como um porco e não era possível sequer abaná-lo.
Visto não ter outro remédio, a criancinha voltou para a sua cama, pôs a chucha no irmão e adormeceu.
De manhã, o pai, muito bem disposto, quis saber se ele já era capaz de explicar na próxima aula, por palavras simples, o que era isso da política. O miúdo respondeu que sim, que quando a professora lhe perguntasse, ele iria responder da seguinte maneira:
- O Capitalismo aproveita-se da Classe Operária; o Sindicato não vê nada nem protesta; o Governo dorme; ninguém liga ao Povo; e o Futuro é só merda e cheira mal...
PS - Obrigado à Paula por mais este "regalo" humorístico...
- A política é uma palavra antiga que vem do grego e que quer dizer o governo da cidade... Como é que eu hei-de explicar-te melhor ? Vejamos o exemplo da nossa casa: Eu ando a ganhar a vida lá fora e trago dinheiro para sustentar a nossa família e garantir o futuro de todos nós, por isso represento o Capitalismo; a tua mãe gasta o dinheiro, faz as compras e cuida de todos nós, é o Governo cá da casa; o avozinho defende os interesses dos menos protegidos como tu, por isso é o Sindicato; a nossa criada que faz a lida doméstica, é a Classe Operária; tu representas o Povo e a gente só quer o tu bem; o teu irmaozinho, que ainda é muito pequenino e tem de ser muito acarinhado, representa o Futuro... Estás a agora a perceber ?
O miúdo fico confuso com tantos conceitos mas não fez mais perguntas e lá se foi deitar. Durante a noite acordou, com o choro do irmão que dormia no mesmo quarto. Foi ver, tinha a fralda toda suja de chichi e cocó. Como não sabia o que fazer, foi ter ao quarto dos pais. A mãe estava a dormir um sono profundo: depois de tomar a sua dose de Prozac, não havia ninguém que a conseguisse acordar, nem sequer o terramoto de 1755. Foi ao quarto da criada e encontrou-a na cama com o pai. Estavam tão ocupados e divertidos que não ouviram os protestos do puto. Quanto ao avô, que pesava mais de 90 Kg, esse ressonava como um porco e não era possível sequer abaná-lo.
Visto não ter outro remédio, a criancinha voltou para a sua cama, pôs a chucha no irmão e adormeceu.
De manhã, o pai, muito bem disposto, quis saber se ele já era capaz de explicar na próxima aula, por palavras simples, o que era isso da política. O miúdo respondeu que sim, que quando a professora lhe perguntasse, ele iria responder da seguinte maneira:
- O Capitalismo aproveita-se da Classe Operária; o Sindicato não vê nada nem protesta; o Governo dorme; ninguém liga ao Povo; e o Futuro é só merda e cheira mal...
PS - Obrigado à Paula por mais este "regalo" humorístico...
Estórias com mural ao fundo - XVIII: Estratégia(s)
Obrigado ao meu amigo Edmundo de Sá que me fez chegar esta história. Não é nova mas é ilustrativa do poder da palavra e da necessidade de (re)pensarmos as nossas estratégias de comunicação. Na saúde, na educação, na cultura, no desporto, nos negócios, na política e nas demais blogarias que nos consomem. Todos os dias. A todos nós, portugas.
Dei-lhe, como habitualmente, o meu toque pessoal. Como de costume, o resto dos direitos de autor pertence ao fundo comum da humanidade... Um abraço para o Edmundo e demais amigos de Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco". O Blogador.
________
Na Rua Augusta, em Lisboa, havia um cego a pedir esmola. A seus pés, no chão do passeio, um boné com meia dúzia de cêntimos e um pedaço de cartão onde se lia:
- Por favor, ajude-me, sou cego.
Um jovem que por aí passava, notou o fraco resultado do peditório, pegou num cartão maior que estava no lixo, puxou da sua caneta de feltro e escreveu uma outra mensagem. Substituiu o cartaz que estava aos pés do cego e foi-se embora sem ter proferido uma única palavra. À tarde quando voltou a passar ao pé do cego reparou que o seu boné estava cheio de moedas e até notas de euros.
O cego reconheceu-o pelo andar e perguntou-lhe que palavras milagrosas é que ele tinha escrito no novo cartaz.
- Nada de especial, meu amigo... Sabe, trabalho aqui ao lado como criativo numa agência publicitária. Vi o seu pedido e fiz um anúncio como se fosse para a televisão.
O jovem sorriu e continuou o seu caminho. O cego nunca chegou a saber ao certo o teor do novo cartaz, mas este dizia assim:
- Hoje é Primavera, e eu não posso vê-la.
Moral da história: Cego não é só quem não vê, mas também quem não tem uma estratégia de marketing e comunicação...
Dei-lhe, como habitualmente, o meu toque pessoal. Como de costume, o resto dos direitos de autor pertence ao fundo comum da humanidade... Um abraço para o Edmundo e demais amigos de Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco". O Blogador.
________
Na Rua Augusta, em Lisboa, havia um cego a pedir esmola. A seus pés, no chão do passeio, um boné com meia dúzia de cêntimos e um pedaço de cartão onde se lia:
- Por favor, ajude-me, sou cego.
Um jovem que por aí passava, notou o fraco resultado do peditório, pegou num cartão maior que estava no lixo, puxou da sua caneta de feltro e escreveu uma outra mensagem. Substituiu o cartaz que estava aos pés do cego e foi-se embora sem ter proferido uma única palavra. À tarde quando voltou a passar ao pé do cego reparou que o seu boné estava cheio de moedas e até notas de euros.
O cego reconheceu-o pelo andar e perguntou-lhe que palavras milagrosas é que ele tinha escrito no novo cartaz.
- Nada de especial, meu amigo... Sabe, trabalho aqui ao lado como criativo numa agência publicitária. Vi o seu pedido e fiz um anúncio como se fosse para a televisão.
O jovem sorriu e continuou o seu caminho. O cego nunca chegou a saber ao certo o teor do novo cartaz, mas este dizia assim:
- Hoje é Primavera, e eu não posso vê-la.
Moral da história: Cego não é só quem não vê, mas também quem não tem uma estratégia de marketing e comunicação...
Estórias com mural ao fundo - XVIII: Estratégia(s)
Obrigado ao meu amigo Edmundo de Sá que me fez chegar esta história. Não é nova mas é ilustrativa do poder da palavra e da necessidade de (re)pensarmos as nossas estratégias de comunicação. Na saúde, na educação, na cultura, no desporto, nos negócios, na política e nas demais blogarias que nos consomem. Todos os dias. A todos nós, portugas.
Dei-lhe, como habitualmente, o meu toque pessoal. Como de costume, o resto dos direitos de autor pertence ao fundo comum da humanidade... Um abraço para o Edmundo e demais amigos de Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco". O Blogador.
________
Na Rua Augusta, em Lisboa, havia um cego a pedir esmola. A seus pés, no chão do passeio, um boné com meia dúzia de cêntimos e um pedaço de cartão onde se lia:
- Por favor, ajude-me, sou cego.
Um jovem que por aí passava, notou o fraco resultado do peditório, pegou num cartão maior que estava no lixo, puxou da sua caneta de feltro e escreveu uma outra mensagem. Substituiu o cartaz que estava aos pés do cego e foi-se embora sem ter proferido uma única palavra. À tarde quando voltou a passar ao pé do cego reparou que o seu boné estava cheio de moedas e até notas de euros.
O cego reconheceu-o pelo andar e perguntou-lhe que palavras milagrosas é que ele tinha escrito no novo cartaz.
- Nada de especial, meu amigo... Sabe, trabalho aqui ao lado como criativo numa agência publicitária. Vi o seu pedido e fiz um anúncio como se fosse para a televisão.
O jovem sorriu e continuou o seu caminho. O cego nunca chegou a saber ao certo o teor do novo cartaz, mas este dizia assim:
- Hoje é Primavera, e eu não posso vê-la.
Moral da história: Cego não é só quem não vê, mas também quem não tem uma estratégia de marketing e comunicação...
Dei-lhe, como habitualmente, o meu toque pessoal. Como de costume, o resto dos direitos de autor pertence ao fundo comum da humanidade... Um abraço para o Edmundo e demais amigos de Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco". O Blogador.
________
Na Rua Augusta, em Lisboa, havia um cego a pedir esmola. A seus pés, no chão do passeio, um boné com meia dúzia de cêntimos e um pedaço de cartão onde se lia:
- Por favor, ajude-me, sou cego.
Um jovem que por aí passava, notou o fraco resultado do peditório, pegou num cartão maior que estava no lixo, puxou da sua caneta de feltro e escreveu uma outra mensagem. Substituiu o cartaz que estava aos pés do cego e foi-se embora sem ter proferido uma única palavra. À tarde quando voltou a passar ao pé do cego reparou que o seu boné estava cheio de moedas e até notas de euros.
O cego reconheceu-o pelo andar e perguntou-lhe que palavras milagrosas é que ele tinha escrito no novo cartaz.
- Nada de especial, meu amigo... Sabe, trabalho aqui ao lado como criativo numa agência publicitária. Vi o seu pedido e fiz um anúncio como se fosse para a televisão.
O jovem sorriu e continuou o seu caminho. O cego nunca chegou a saber ao certo o teor do novo cartaz, mas este dizia assim:
- Hoje é Primavera, e eu não posso vê-la.
Moral da história: Cego não é só quem não vê, mas também quem não tem uma estratégia de marketing e comunicação...
11 janeiro 2004
Blogantologia(s) - VI: O adeus às armas
A guerra acabou... E depois ?
A guerra acabou e depois
os avós contarão aos netos
tintim por tintim
como foi a última batalha de Bagdade
que não chegou a haver
mas que rimava com liberdade.
Ou não contarão e arrumarão as botas.
Que os netos têm jogos mais divertidos
no último modelo da sua playstation
e já não mais têm pachorra
para aturar os cotas.
De qualquer modo foi,
disse o repórter português,
a primeira das batalhas da história
transmitidas em directo.
Uma batalha anunciada
logo com princípio meio e fim,
como no jogo do xadrez.
Uma história das arábias
onde sobraram as espadas de deus
e dos homens faltaram as palavras sábias.
Lembras-te baby
tínhamos comprado pipocas
como no cinema do nosso bairro
de classe média arruinada.
Sentámo-nos no chão
entre camelos e beduínos
à espera da queda do Saddam.
Lembro-me como se fosse hoje
estavas meio pedrada
e nós éramos coleccionadores de quedas
a última fora a do muro de Berlim
em mil nove oitenta e nove.
Regámos com vodka e coca-cola
o começo do reich dos mil anos.
Depois os soldados regressarão a casa.
E casarão. E terão filhos que vão à escola.
Ou talvez não.
Os soldados proletários
mercenários voluntários patriotas.
Os bisnetos dos escravos
das plantações de algodão do sul.
Os filhos dos imigras
de várias raças credos e nações
do grande melting pot americano.
Na fotografia tinham um ar de idiotas
usavam grandes jeans
e chapéus à texano.
Eles guardarão a espingarda
e o capacete. No sótão.
E o canhão sem recuo no jardim em Miami.
E o cartão do Tio Sam:
I wanto you for U.S. Army!
Alguns morrerão.
Talvez de solidão. Ou de tédio.
Ou de falta de fé em Deus. Ou na Humanidade.
Ou em Deus e na Humanidade ao mesmo tempo.
Ou de stresse pós-traumático de guerra
como dizem hoje os psis.
Cacimbados dirias tu meu guinéu
que no tempo da guerra colonial
estava por inventar a palavra stresse.
Morrerrão simplesmente de solidão
como as carcassas dos tanques
nos jardins suspensos da Babilónia.
Não importa ou que importa
se um dia todos temos de morrer
de uma merda qualquer
de peste sida ébola
insolação raiva insónia
bê-esse-é pneumonia atípica
cancro gás mostarda
trombose ou aperto da aorta.
O repórter de serviço diz na Têvê do Berlusconi
que esta foi a última campanha de caça
ao leão da Mesopotâmia.
Ou da Abissínia tanto faz
que o Berlusconi caga na geografia
agora com as auto-estradas da globalização.
Estranho: eu imaginava-o extinto
na época dos últimos glaciares. ao leão.
Ah! se eu não fosse um sem-abrigo
se eu não fosse um desertor da guerra colonial
se eu fosse poeta proactivo
um repórter reformado da guerra fria
com pensão cama e roupa lavada
um gajo decente com sensibilidade social
eu escreveria um grafito
no meu epitáfio no meu bunker:
Maomé meu profeta meu irmão
Estive em Badgade. Não vi nada.
Não rezei na tua mesquita azul.
Não rezei por ti nem por mim nem por nós.
Apenas tive pena do teu povo do islão
curdos xiitas sunitas árabes
e todos os outros filhos bastardos de Abraão.
Mais te direi por e-mail
que morri com um estilhaço de granada.
A meu lado um capitão dos marines
afogou-se num poço de petróleo
coberto com a bandeira dos Steites.
Era um caixa de óculos como o O’Neil
poeta portuga obscuro
que nem para contínuo serviu
do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Mas hão-de morrer mais.
Conta até mil e lê o jornal.
É a astróloga do ano que tudo viu
na sua bola de cristal.
Italianos dos carabineiros
espanhóis da secreta
espiões do efbiai
judeus errantes da diáspora
portugas de goa damão e diu.
Tudo por causa de um homem-bomba
que foi visto visto a sobrevoar
a Estátua da Liberdade Agrilhoada.
Mas agora és tu private Jessica Lynch
baby-doll em camuflado
a nova namoradinha
dos tele-espectadores globais.
Ou por breves instantes foste
a heroína. a heroinazinha.
Que a fama e a glória são
deusas avaras e cruéis.
Quiçá na próxima guerra te verei
ao serviço da bandeira da CNN
ou doutro xogum qualquer dos mass media
embeded com os bravos da mítica 7ª cavalaria.
No país do show business
das fábricas de sonhos e de fadas
e em que o sucesso é a medida de todas as coisas
está tudo a condizer.
Tu estás a condizer minha jóia
o Carlos Fino está a condizer.
Mais o pobre ministro da propaganda
de seu nome Mohamed Saeed al-Sahaf
que resistiu com um microfone na mão.
A GNR dos portugas em Nassíria está a condizer.
No tempo em que eramos todos telegénicos
Até o Bush my friend George , caraças!,
por deus e pelo diabo ladeado
segurava um perú de plástico
no dia de Acção de Graças.
Tu my darling minha querida
ouvi dizer que és filha
de um condutor de camião.
Uma heroína do povo sem pedigree
escriturária amanuense
anjo da guarda
carinha larocas de teen-ager
de uma qualquer terra saloia estado-unidense.
Ferida em combate por engano
sorry que numa lady americana
não se bate diz o puro sangue árabe.
Baleada mas logo resgatada
que um camarada morto ou ferido
nunca se deixa atrás
das linhas do fogo inimigo.
Muito menos já se vê
num hospital de retaguarda do eixo do mal,
diz o Pentágono.
Li nos jornais que acumulo no WC
que já te ofereceram um milhão
(de dólares entenda-se).
Queriam fazer um filme
com a história da tua vida
de heroína por equívoco.
Tu que só tens 19 anos. Não mais.
E já tanto (ou tão pouco) para contar.
Perdi-te o rasto, meu amor,
nas voltas que o mundo dá.
A guerra acabou.
O problema agora é de polícia
e do homem-bomba
ou da mulher do tchador
Adeus querida
adeus às armas
adeus Iraque.
E depois ?
Bem depois é amanhã
não há azar.
E amanhã há mais
cantemos o hino.
A vida pode parar
a vida pode esperar
a vida pode até perder-se.
O espectáculo é que não, my God!
O espectáculo esse tem de continuar.
Vou ter saudades do Carlos Fino.
Publicado originalmente em 14.4.2003 por L.G. em Fóruns do Publico.pt > Cidadania > Poesia contra a guerra. Nova edição aumentada, revista, melhorada e actualizada.
A guerra acabou e depois
os avós contarão aos netos
tintim por tintim
como foi a última batalha de Bagdade
que não chegou a haver
mas que rimava com liberdade.
Ou não contarão e arrumarão as botas.
Que os netos têm jogos mais divertidos
no último modelo da sua playstation
e já não mais têm pachorra
para aturar os cotas.
De qualquer modo foi,
disse o repórter português,
a primeira das batalhas da história
transmitidas em directo.
Uma batalha anunciada
logo com princípio meio e fim,
como no jogo do xadrez.
Uma história das arábias
onde sobraram as espadas de deus
e dos homens faltaram as palavras sábias.
Lembras-te baby
tínhamos comprado pipocas
como no cinema do nosso bairro
de classe média arruinada.
Sentámo-nos no chão
entre camelos e beduínos
à espera da queda do Saddam.
Lembro-me como se fosse hoje
estavas meio pedrada
e nós éramos coleccionadores de quedas
a última fora a do muro de Berlim
em mil nove oitenta e nove.
Regámos com vodka e coca-cola
o começo do reich dos mil anos.
Depois os soldados regressarão a casa.
E casarão. E terão filhos que vão à escola.
Ou talvez não.
Os soldados proletários
mercenários voluntários patriotas.
Os bisnetos dos escravos
das plantações de algodão do sul.
Os filhos dos imigras
de várias raças credos e nações
do grande melting pot americano.
Na fotografia tinham um ar de idiotas
usavam grandes jeans
e chapéus à texano.
Eles guardarão a espingarda
e o capacete. No sótão.
E o canhão sem recuo no jardim em Miami.
E o cartão do Tio Sam:
I wanto you for U.S. Army!
Alguns morrerão.
Talvez de solidão. Ou de tédio.
Ou de falta de fé em Deus. Ou na Humanidade.
Ou em Deus e na Humanidade ao mesmo tempo.
Ou de stresse pós-traumático de guerra
como dizem hoje os psis.
Cacimbados dirias tu meu guinéu
que no tempo da guerra colonial
estava por inventar a palavra stresse.
Morrerrão simplesmente de solidão
como as carcassas dos tanques
nos jardins suspensos da Babilónia.
Não importa ou que importa
se um dia todos temos de morrer
de uma merda qualquer
de peste sida ébola
insolação raiva insónia
bê-esse-é pneumonia atípica
cancro gás mostarda
trombose ou aperto da aorta.
O repórter de serviço diz na Têvê do Berlusconi
que esta foi a última campanha de caça
ao leão da Mesopotâmia.
Ou da Abissínia tanto faz
que o Berlusconi caga na geografia
agora com as auto-estradas da globalização.
Estranho: eu imaginava-o extinto
na época dos últimos glaciares. ao leão.
Ah! se eu não fosse um sem-abrigo
se eu não fosse um desertor da guerra colonial
se eu fosse poeta proactivo
um repórter reformado da guerra fria
com pensão cama e roupa lavada
um gajo decente com sensibilidade social
eu escreveria um grafito
no meu epitáfio no meu bunker:
Maomé meu profeta meu irmão
Estive em Badgade. Não vi nada.
Não rezei na tua mesquita azul.
Não rezei por ti nem por mim nem por nós.
Apenas tive pena do teu povo do islão
curdos xiitas sunitas árabes
e todos os outros filhos bastardos de Abraão.
Mais te direi por e-mail
que morri com um estilhaço de granada.
A meu lado um capitão dos marines
afogou-se num poço de petróleo
coberto com a bandeira dos Steites.
Era um caixa de óculos como o O’Neil
poeta portuga obscuro
que nem para contínuo serviu
do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Mas hão-de morrer mais.
Conta até mil e lê o jornal.
É a astróloga do ano que tudo viu
na sua bola de cristal.
Italianos dos carabineiros
espanhóis da secreta
espiões do efbiai
judeus errantes da diáspora
portugas de goa damão e diu.
Tudo por causa de um homem-bomba
que foi visto visto a sobrevoar
a Estátua da Liberdade Agrilhoada.
Mas agora és tu private Jessica Lynch
baby-doll em camuflado
a nova namoradinha
dos tele-espectadores globais.
Ou por breves instantes foste
a heroína. a heroinazinha.
Que a fama e a glória são
deusas avaras e cruéis.
Quiçá na próxima guerra te verei
ao serviço da bandeira da CNN
ou doutro xogum qualquer dos mass media
embeded com os bravos da mítica 7ª cavalaria.
No país do show business
das fábricas de sonhos e de fadas
e em que o sucesso é a medida de todas as coisas
está tudo a condizer.
Tu estás a condizer minha jóia
o Carlos Fino está a condizer.
Mais o pobre ministro da propaganda
de seu nome Mohamed Saeed al-Sahaf
que resistiu com um microfone na mão.
A GNR dos portugas em Nassíria está a condizer.
No tempo em que eramos todos telegénicos
Até o Bush my friend George , caraças!,
por deus e pelo diabo ladeado
segurava um perú de plástico
no dia de Acção de Graças.
Tu my darling minha querida
ouvi dizer que és filha
de um condutor de camião.
Uma heroína do povo sem pedigree
escriturária amanuense
anjo da guarda
carinha larocas de teen-ager
de uma qualquer terra saloia estado-unidense.
Ferida em combate por engano
sorry que numa lady americana
não se bate diz o puro sangue árabe.
Baleada mas logo resgatada
que um camarada morto ou ferido
nunca se deixa atrás
das linhas do fogo inimigo.
Muito menos já se vê
num hospital de retaguarda do eixo do mal,
diz o Pentágono.
Li nos jornais que acumulo no WC
que já te ofereceram um milhão
(de dólares entenda-se).
Queriam fazer um filme
com a história da tua vida
de heroína por equívoco.
Tu que só tens 19 anos. Não mais.
E já tanto (ou tão pouco) para contar.
Perdi-te o rasto, meu amor,
nas voltas que o mundo dá.
A guerra acabou.
O problema agora é de polícia
e do homem-bomba
ou da mulher do tchador
Adeus querida
adeus às armas
adeus Iraque.
E depois ?
Bem depois é amanhã
não há azar.
E amanhã há mais
cantemos o hino.
A vida pode parar
a vida pode esperar
a vida pode até perder-se.
O espectáculo é que não, my God!
O espectáculo esse tem de continuar.
Vou ter saudades do Carlos Fino.
Publicado originalmente em 14.4.2003 por L.G. em Fóruns do Publico.pt > Cidadania > Poesia contra a guerra. Nova edição aumentada, revista, melhorada e actualizada.
Blogantologia(s) - VI: O adeus às armas
A guerra acabou... E depois ?
A guerra acabou e depois
os avós contarão aos netos
tintim por tintim
como foi a última batalha de Bagdade
que não chegou a haver
mas que rimava com liberdade.
Ou não contarão e arrumarão as botas.
Que os netos têm jogos mais divertidos
no último modelo da sua playstation
e já não mais têm pachorra
para aturar os cotas.
De qualquer modo foi,
disse o repórter português,
a primeira das batalhas da história
transmitidas em directo.
Uma batalha anunciada
logo com princípio meio e fim,
como no jogo do xadrez.
Uma história das arábias
onde sobraram as espadas de deus
e dos homens faltaram as palavras sábias.
Lembras-te baby
tínhamos comprado pipocas
como no cinema do nosso bairro
de classe média arruinada.
Sentámo-nos no chão
entre camelos e beduínos
à espera da queda do Saddam.
Lembro-me como se fosse hoje
estavas meio pedrada
e nós éramos coleccionadores de quedas
a última fora a do muro de Berlim
em mil nove oitenta e nove.
Regámos com vodka e coca-cola
o começo do reich dos mil anos.
Depois os soldados regressarão a casa.
E casarão. E terão filhos que vão à escola.
Ou talvez não.
Os soldados proletários
mercenários voluntários patriotas.
Os bisnetos dos escravos
das plantações de algodão do sul.
Os filhos dos imigras
de várias raças credos e nações
do grande melting pot americano.
Na fotografia tinham um ar de idiotas
usavam grandes jeans
e chapéus à texano.
Eles guardarão a espingarda
e o capacete. No sótão.
E o canhão sem recuo no jardim em Miami.
E o cartão do Tio Sam:
I wanto you for U.S. Army!
Alguns morrerão.
Talvez de solidão. Ou de tédio.
Ou de falta de fé em Deus. Ou na Humanidade.
Ou em Deus e na Humanidade ao mesmo tempo.
Ou de stresse pós-traumático de guerra
como dizem hoje os psis.
Cacimbados dirias tu meu guinéu
que no tempo da guerra colonial
estava por inventar a palavra stresse.
Morrerrão simplesmente de solidão
como as carcassas dos tanques
nos jardins suspensos da Babilónia.
Não importa ou que importa
se um dia todos temos de morrer
de uma merda qualquer
de peste sida ébola
insolação raiva insónia
bê-esse-é pneumonia atípica
cancro gás mostarda
trombose ou aperto da aorta.
O repórter de serviço diz na Têvê do Berlusconi
que esta foi a última campanha de caça
ao leão da Mesopotâmia.
Ou da Abissínia tanto faz
que o Berlusconi caga na geografia
agora com as auto-estradas da globalização.
Estranho: eu imaginava-o extinto
na época dos últimos glaciares. ao leão.
Ah! se eu não fosse um sem-abrigo
se eu não fosse um desertor da guerra colonial
se eu fosse poeta proactivo
um repórter reformado da guerra fria
com pensão cama e roupa lavada
um gajo decente com sensibilidade social
eu escreveria um grafito
no meu epitáfio no meu bunker:
Maomé meu profeta meu irmão
Estive em Badgade. Não vi nada.
Não rezei na tua mesquita azul.
Não rezei por ti nem por mim nem por nós.
Apenas tive pena do teu povo do islão
curdos xiitas sunitas árabes
e todos os outros filhos bastardos de Abraão.
Mais te direi por e-mail
que morri com um estilhaço de granada.
A meu lado um capitão dos marines
afogou-se num poço de petróleo
coberto com a bandeira dos Steites.
Era um caixa de óculos como o O’Neil
poeta portuga obscuro
que nem para contínuo serviu
do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Mas hão-de morrer mais.
Conta até mil e lê o jornal.
É a astróloga do ano que tudo viu
na sua bola de cristal.
Italianos dos carabineiros
espanhóis da secreta
espiões do efbiai
judeus errantes da diáspora
portugas de goa damão e diu.
Tudo por causa de um homem-bomba
que foi visto visto a sobrevoar
a Estátua da Liberdade Agrilhoada.
Mas agora és tu private Jessica Lynch
baby-doll em camuflado
a nova namoradinha
dos tele-espectadores globais.
Ou por breves instantes foste
a heroína. a heroinazinha.
Que a fama e a glória são
deusas avaras e cruéis.
Quiçá na próxima guerra te verei
ao serviço da bandeira da CNN
ou doutro xogum qualquer dos mass media
embeded com os bravos da mítica 7ª cavalaria.
No país do show business
das fábricas de sonhos e de fadas
e em que o sucesso é a medida de todas as coisas
está tudo a condizer.
Tu estás a condizer minha jóia
o Carlos Fino está a condizer.
Mais o pobre ministro da propaganda
de seu nome Mohamed Saeed al-Sahaf
que resistiu com um microfone na mão.
A GNR dos portugas em Nassíria está a condizer.
No tempo em que eramos todos telegénicos
Até o Bush my friend George , caraças!,
por deus e pelo diabo ladeado
segurava um perú de plástico
no dia de Acção de Graças.
Tu my darling minha querida
ouvi dizer que és filha
de um condutor de camião.
Uma heroína do povo sem pedigree
escriturária amanuense
anjo da guarda
carinha larocas de teen-ager
de uma qualquer terra saloia estado-unidense.
Ferida em combate por engano
sorry que numa lady americana
não se bate diz o puro sangue árabe.
Baleada mas logo resgatada
que um camarada morto ou ferido
nunca se deixa atrás
das linhas do fogo inimigo.
Muito menos já se vê
num hospital de retaguarda do eixo do mal,
diz o Pentágono.
Li nos jornais que acumulo no WC
que já te ofereceram um milhão
(de dólares entenda-se).
Queriam fazer um filme
com a história da tua vida
de heroína por equívoco.
Tu que só tens 19 anos. Não mais.
E já tanto (ou tão pouco) para contar.
Perdi-te o rasto, meu amor,
nas voltas que o mundo dá.
A guerra acabou.
O problema agora é de polícia
e do homem-bomba
ou da mulher do tchador
Adeus querida
adeus às armas
adeus Iraque.
E depois ?
Bem depois é amanhã
não há azar.
E amanhã há mais
cantemos o hino.
A vida pode parar
a vida pode esperar
a vida pode até perder-se.
O espectáculo é que não, my God!
O espectáculo esse tem de continuar.
Vou ter saudades do Carlos Fino.
Publicado originalmente em 14.4.2003 por L.G. em Fóruns do Publico.pt > Cidadania > Poesia contra a guerra. Nova edição aumentada, revista, melhorada e actualizada.
A guerra acabou e depois
os avós contarão aos netos
tintim por tintim
como foi a última batalha de Bagdade
que não chegou a haver
mas que rimava com liberdade.
Ou não contarão e arrumarão as botas.
Que os netos têm jogos mais divertidos
no último modelo da sua playstation
e já não mais têm pachorra
para aturar os cotas.
De qualquer modo foi,
disse o repórter português,
a primeira das batalhas da história
transmitidas em directo.
Uma batalha anunciada
logo com princípio meio e fim,
como no jogo do xadrez.
Uma história das arábias
onde sobraram as espadas de deus
e dos homens faltaram as palavras sábias.
Lembras-te baby
tínhamos comprado pipocas
como no cinema do nosso bairro
de classe média arruinada.
Sentámo-nos no chão
entre camelos e beduínos
à espera da queda do Saddam.
Lembro-me como se fosse hoje
estavas meio pedrada
e nós éramos coleccionadores de quedas
a última fora a do muro de Berlim
em mil nove oitenta e nove.
Regámos com vodka e coca-cola
o começo do reich dos mil anos.
Depois os soldados regressarão a casa.
E casarão. E terão filhos que vão à escola.
Ou talvez não.
Os soldados proletários
mercenários voluntários patriotas.
Os bisnetos dos escravos
das plantações de algodão do sul.
Os filhos dos imigras
de várias raças credos e nações
do grande melting pot americano.
Na fotografia tinham um ar de idiotas
usavam grandes jeans
e chapéus à texano.
Eles guardarão a espingarda
e o capacete. No sótão.
E o canhão sem recuo no jardim em Miami.
E o cartão do Tio Sam:
I wanto you for U.S. Army!
Alguns morrerão.
Talvez de solidão. Ou de tédio.
Ou de falta de fé em Deus. Ou na Humanidade.
Ou em Deus e na Humanidade ao mesmo tempo.
Ou de stresse pós-traumático de guerra
como dizem hoje os psis.
Cacimbados dirias tu meu guinéu
que no tempo da guerra colonial
estava por inventar a palavra stresse.
Morrerrão simplesmente de solidão
como as carcassas dos tanques
nos jardins suspensos da Babilónia.
Não importa ou que importa
se um dia todos temos de morrer
de uma merda qualquer
de peste sida ébola
insolação raiva insónia
bê-esse-é pneumonia atípica
cancro gás mostarda
trombose ou aperto da aorta.
O repórter de serviço diz na Têvê do Berlusconi
que esta foi a última campanha de caça
ao leão da Mesopotâmia.
Ou da Abissínia tanto faz
que o Berlusconi caga na geografia
agora com as auto-estradas da globalização.
Estranho: eu imaginava-o extinto
na época dos últimos glaciares. ao leão.
Ah! se eu não fosse um sem-abrigo
se eu não fosse um desertor da guerra colonial
se eu fosse poeta proactivo
um repórter reformado da guerra fria
com pensão cama e roupa lavada
um gajo decente com sensibilidade social
eu escreveria um grafito
no meu epitáfio no meu bunker:
Maomé meu profeta meu irmão
Estive em Badgade. Não vi nada.
Não rezei na tua mesquita azul.
Não rezei por ti nem por mim nem por nós.
Apenas tive pena do teu povo do islão
curdos xiitas sunitas árabes
e todos os outros filhos bastardos de Abraão.
Mais te direi por e-mail
que morri com um estilhaço de granada.
A meu lado um capitão dos marines
afogou-se num poço de petróleo
coberto com a bandeira dos Steites.
Era um caixa de óculos como o O’Neil
poeta portuga obscuro
que nem para contínuo serviu
do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Mas hão-de morrer mais.
Conta até mil e lê o jornal.
É a astróloga do ano que tudo viu
na sua bola de cristal.
Italianos dos carabineiros
espanhóis da secreta
espiões do efbiai
judeus errantes da diáspora
portugas de goa damão e diu.
Tudo por causa de um homem-bomba
que foi visto visto a sobrevoar
a Estátua da Liberdade Agrilhoada.
Mas agora és tu private Jessica Lynch
baby-doll em camuflado
a nova namoradinha
dos tele-espectadores globais.
Ou por breves instantes foste
a heroína. a heroinazinha.
Que a fama e a glória são
deusas avaras e cruéis.
Quiçá na próxima guerra te verei
ao serviço da bandeira da CNN
ou doutro xogum qualquer dos mass media
embeded com os bravos da mítica 7ª cavalaria.
No país do show business
das fábricas de sonhos e de fadas
e em que o sucesso é a medida de todas as coisas
está tudo a condizer.
Tu estás a condizer minha jóia
o Carlos Fino está a condizer.
Mais o pobre ministro da propaganda
de seu nome Mohamed Saeed al-Sahaf
que resistiu com um microfone na mão.
A GNR dos portugas em Nassíria está a condizer.
No tempo em que eramos todos telegénicos
Até o Bush my friend George , caraças!,
por deus e pelo diabo ladeado
segurava um perú de plástico
no dia de Acção de Graças.
Tu my darling minha querida
ouvi dizer que és filha
de um condutor de camião.
Uma heroína do povo sem pedigree
escriturária amanuense
anjo da guarda
carinha larocas de teen-ager
de uma qualquer terra saloia estado-unidense.
Ferida em combate por engano
sorry que numa lady americana
não se bate diz o puro sangue árabe.
Baleada mas logo resgatada
que um camarada morto ou ferido
nunca se deixa atrás
das linhas do fogo inimigo.
Muito menos já se vê
num hospital de retaguarda do eixo do mal,
diz o Pentágono.
Li nos jornais que acumulo no WC
que já te ofereceram um milhão
(de dólares entenda-se).
Queriam fazer um filme
com a história da tua vida
de heroína por equívoco.
Tu que só tens 19 anos. Não mais.
E já tanto (ou tão pouco) para contar.
Perdi-te o rasto, meu amor,
nas voltas que o mundo dá.
A guerra acabou.
O problema agora é de polícia
e do homem-bomba
ou da mulher do tchador
Adeus querida
adeus às armas
adeus Iraque.
E depois ?
Bem depois é amanhã
não há azar.
E amanhã há mais
cantemos o hino.
A vida pode parar
a vida pode esperar
a vida pode até perder-se.
O espectáculo é que não, my God!
O espectáculo esse tem de continuar.
Vou ter saudades do Carlos Fino.
Publicado originalmente em 14.4.2003 por L.G. em Fóruns do Publico.pt > Cidadania > Poesia contra a guerra. Nova edição aumentada, revista, melhorada e actualizada.
10 janeiro 2004
Humor com humor se paga - XVIII: Humor negro num país de cegos e amblíopes
Na sequência da nova política do Governo que veio impor às empresas uma quota de emprego para deficientes, a TAP Air Portugal admitiu vários cegos, dando provas, mais uma vez, de ser uma empresa com grande sentido de responsabilidade social.
Agora é frequente ver-se nos nossos aeroportos os pilotos a dirigirem-se para o avião, com óculos escuros, bengala branca, trela e cão.
Esta cena repetiu-se há dias no Funchal. Os passageiros, que não estavam informados da situação, dividiram-se: (i) uns apreciaram e até aplaudiram o sentido de humor do comandante e do seu co-piloto; (ii) outros tiveram um ataque de pânico, quando o aparelho começou a descolar...
O pânico generalizou-se quando os passageiros se aperceberam que o avião estava prestes a chegar ao fim da pista. Um grito de horror foi solto, em uníssono. Nesse preciso momento, e como por milagre, o avião acabou por ganhar altura e voar. Foi então que o co-piloto disse para o comandante:
- ... da-se, já pensaste que, se um dia destes os gajos não gritam, vamos mesmo parar ao charco ?!
Moral da história: É sempre bom a gente gritar...
Agora é frequente ver-se nos nossos aeroportos os pilotos a dirigirem-se para o avião, com óculos escuros, bengala branca, trela e cão.
Esta cena repetiu-se há dias no Funchal. Os passageiros, que não estavam informados da situação, dividiram-se: (i) uns apreciaram e até aplaudiram o sentido de humor do comandante e do seu co-piloto; (ii) outros tiveram um ataque de pânico, quando o aparelho começou a descolar...
O pânico generalizou-se quando os passageiros se aperceberam que o avião estava prestes a chegar ao fim da pista. Um grito de horror foi solto, em uníssono. Nesse preciso momento, e como por milagre, o avião acabou por ganhar altura e voar. Foi então que o co-piloto disse para o comandante:
- ... da-se, já pensaste que, se um dia destes os gajos não gritam, vamos mesmo parar ao charco ?!
Moral da história: É sempre bom a gente gritar...
Humor com humor se paga - XVIII: Humor negro num país de cegos e amblíopes
Na sequência da nova política do Governo que veio impor às empresas uma quota de emprego para deficientes, a TAP Air Portugal admitiu vários cegos, dando provas, mais uma vez, de ser uma empresa com grande sentido de responsabilidade social.
Agora é frequente ver-se nos nossos aeroportos os pilotos a dirigirem-se para o avião, com óculos escuros, bengala branca, trela e cão.
Esta cena repetiu-se há dias no Funchal. Os passageiros, que não estavam informados da situação, dividiram-se: (i) uns apreciaram e até aplaudiram o sentido de humor do comandante e do seu co-piloto; (ii) outros tiveram um ataque de pânico, quando o aparelho começou a descolar...
O pânico generalizou-se quando os passageiros se aperceberam que o avião estava prestes a chegar ao fim da pista. Um grito de horror foi solto, em uníssono. Nesse preciso momento, e como por milagre, o avião acabou por ganhar altura e voar. Foi então que o co-piloto disse para o comandante:
- ... da-se, já pensaste que, se um dia destes os gajos não gritam, vamos mesmo parar ao charco ?!
Moral da história: É sempre bom a gente gritar...
Agora é frequente ver-se nos nossos aeroportos os pilotos a dirigirem-se para o avião, com óculos escuros, bengala branca, trela e cão.
Esta cena repetiu-se há dias no Funchal. Os passageiros, que não estavam informados da situação, dividiram-se: (i) uns apreciaram e até aplaudiram o sentido de humor do comandante e do seu co-piloto; (ii) outros tiveram um ataque de pânico, quando o aparelho começou a descolar...
O pânico generalizou-se quando os passageiros se aperceberam que o avião estava prestes a chegar ao fim da pista. Um grito de horror foi solto, em uníssono. Nesse preciso momento, e como por milagre, o avião acabou por ganhar altura e voar. Foi então que o co-piloto disse para o comandante:
- ... da-se, já pensaste que, se um dia destes os gajos não gritam, vamos mesmo parar ao charco ?!
Moral da história: É sempre bom a gente gritar...
08 janeiro 2004
Socio(b)logia - IV: A tecnicodependência
Eu, blogador, me confesso: sei agora até que ponto sou um tecnicodependente. Em boa verdade, sou um pobre tecnicodependente. Estive dois dias sem computador e, imaginem!, foi como se eu tivesse partido as pernas, o mundo desabado, a vida perdido o seu sentido.
A placa gráfica do meu PC, de topo de gama (talvez a peça mais cara do meu brinquedo!), bifou, e o resto da máquina recusou-se a trabalhar. O material é assim. Neste mundo é o material que tem razão. Aliás, o material tem sempre razão, dizem os engenheiros. Mas, eu, tecnicodependente, é que não estou nada pelos ajustes. Tive um ataque de nervos, digno de um verdadeiro primata.
Triste episódio este, ridícula situação a minha... Um homem já não é mais mais o que era, sobretudo depois de regressar vivo, mas não incólume, da guerra (colonial). É duro, mas tenho de confessá-lo.
À parte este registo intimista, deixem-me dizer-vos que felizmente valeu-me, nesta triste ocasião, a pronta assistência do meu fornecedor e sobretudo a amizade do João. O meu PC estava dentro da garantia e eu tive um tratamento VIP. Por sorte, havia duas placas gráficas do mesmo modelo e marca em armazém. Mas por azar nenhuma delas funcionava. Dizem-me que é um erro de produção num lote inteiro, um erro de série. Eu digo que é falha grave ou ausência total de garantia de qualidade por parte do fabricante... Enfim, à terceira tentativa lá se optou por um novo modelo de placa gráfica, de outra marca, mas igualmente made in China.
Podiam ter-me dito: o seu PC vai para arranjar e, quando estiver pronto, a gente telefona-lhe. Mas não, deram-me um tratamento VIP... Tenho pena de não poder publicitar aqui os seus nomes, o da empresa e a dos seus colaboradores que me atenderam e resolveram o meu problema. Mas a minha vontade era mesmo elegê-los os portugas da semana.
Devo dizer-vos que é gente do melhor. E bem precisava o país de multiplicar o seu número por cem. Juntando mais 10 AutoEuropas tínhamos muitos dos nossos problemas colectivos resolvidos. Para já tudo somado, eram mais uns 150 mil postos de trabalho com um significativo peso no nosso PIBezito, graças ao seu considerável valor acrescentado bruto (VAB).
Já que estou aqui hoje, e para mais em maré de confidências, direi que o que é bom no tratamento VIP é tu sentires mais do que cliente, é sentires-te gente. Eu gostei de sentir-me gente esta manhã, mesmo tendo perdido uma manhã da minha vida à espera que resolvessem o meu pequeno grande problema. Sentir-se gente é uma coisa que começa a faltar neste país. Uma pessoa sentir-se gente faz bem à nossa auto-estima, diz o meu psicólogo que passou a substituir o meu confessor do tempo de menino e moço.
Quanto ao problema técnico que causou a minha infelicidade durante dois dias, ele é apenas um dos muitos efeitos perversos da globalização. Graças à mão de obra quase escrava da China, a globalização operou este espantoso milagre do embaratecimento do material electrónico, incluindo os PC e os respectivos periféricos. Lembro-me do primeiro PC que comprei há mais de um dúzia de anos... Era um oito seis e troca o passo! Custou-me os olhos da cara. Hoje nem para peça de museu o queriam em lado nenhum. Já foi para o lixo, depois de anos passados no limbo do sótão das velharias.
Deixem dizer-vos que me separei dele, sem uma ponta de emoção: estava velho, obsoleto, ultrapassado. Foi para o sótão, foi para o lixo. Foi tratado afinal como se tratam hoje os velhos neste país. Já o mesmo não aconteceu à minha velha máquina de escrever: esqueci o nome da marca e do modelo, mas ainda hoje a recordo com a ternura dos meus 17 verdes anos... E que saudades do martelar seco das pequenas teclas!
De qualquer modo, protesto contra todas as formas de tecnicodependência, seja a do carro, a do telemóvel, do micro-ondas, do multibanco ou do PC. Um dia o mundo desaba mesmo e a gente não sabe sequer escrever a giz no quadro de ardósia da nossa velha escolinha, plantar umas pencas, enterrar um morto, cuidar de um vivo ou fugir a sete pés dos nossos predadores.
É um cenário aterrador mas perfeitamente verosímil. A regressão (económica, social, tecnológica, política, cultural, humana...) tem-se passado em muitos países à nossa volta, nas nossas barbas, da antiga Jugoslávia ao Iraque. Perdi o contacto com as minhas amigas croatas e sérvias, todas elas médicas. Uma amizade que fiz em Valência em 1991. Estava eu para partir para Zagrebe, para frequentar um curso de verão, quando eclodiu a guerra civil nos Balcãs. Acabei por ficar o tórrido mês de Agosto em Valência, traduzindo para inglês as más notícias que nos chegavam da Jugoslávia. Ironicamente, em Valência ainda se faziam sentir, na memória dos mais velhos, as marcas cruéis da guerra civil espanhola de 1936-1939.
Passados estes anos todos, perdi-lhes o rasto, às minhas amigas jugoslavas, uma delas sérvia casada com um bósnio... E sobretudo tenho pudor em perguntar por aí se elas ainda estão vivas, se estão bem, se não foram violadas, fuziladas, enterradas numa vala comum... E se as encontrassse não saberia como perguntar-lhes, olhos nos olhos, se elas tinham conseguido voltar à vida depois do pesadelo que foi o desmembramento do seu país e, em muitos casos, das suas famílias...
Rezo, ao menos, para que elas tenham voltado a sorrir e a ter esperança. Mesmo sem computador, e-mail, webpage ou blog. Pensar nas desgraças piores que as nossas sempre alivia um pouco. É safado, mas alivia.
A placa gráfica do meu PC, de topo de gama (talvez a peça mais cara do meu brinquedo!), bifou, e o resto da máquina recusou-se a trabalhar. O material é assim. Neste mundo é o material que tem razão. Aliás, o material tem sempre razão, dizem os engenheiros. Mas, eu, tecnicodependente, é que não estou nada pelos ajustes. Tive um ataque de nervos, digno de um verdadeiro primata.
Triste episódio este, ridícula situação a minha... Um homem já não é mais mais o que era, sobretudo depois de regressar vivo, mas não incólume, da guerra (colonial). É duro, mas tenho de confessá-lo.
À parte este registo intimista, deixem-me dizer-vos que felizmente valeu-me, nesta triste ocasião, a pronta assistência do meu fornecedor e sobretudo a amizade do João. O meu PC estava dentro da garantia e eu tive um tratamento VIP. Por sorte, havia duas placas gráficas do mesmo modelo e marca em armazém. Mas por azar nenhuma delas funcionava. Dizem-me que é um erro de produção num lote inteiro, um erro de série. Eu digo que é falha grave ou ausência total de garantia de qualidade por parte do fabricante... Enfim, à terceira tentativa lá se optou por um novo modelo de placa gráfica, de outra marca, mas igualmente made in China.
Podiam ter-me dito: o seu PC vai para arranjar e, quando estiver pronto, a gente telefona-lhe. Mas não, deram-me um tratamento VIP... Tenho pena de não poder publicitar aqui os seus nomes, o da empresa e a dos seus colaboradores que me atenderam e resolveram o meu problema. Mas a minha vontade era mesmo elegê-los os portugas da semana.
Devo dizer-vos que é gente do melhor. E bem precisava o país de multiplicar o seu número por cem. Juntando mais 10 AutoEuropas tínhamos muitos dos nossos problemas colectivos resolvidos. Para já tudo somado, eram mais uns 150 mil postos de trabalho com um significativo peso no nosso PIBezito, graças ao seu considerável valor acrescentado bruto (VAB).
Já que estou aqui hoje, e para mais em maré de confidências, direi que o que é bom no tratamento VIP é tu sentires mais do que cliente, é sentires-te gente. Eu gostei de sentir-me gente esta manhã, mesmo tendo perdido uma manhã da minha vida à espera que resolvessem o meu pequeno grande problema. Sentir-se gente é uma coisa que começa a faltar neste país. Uma pessoa sentir-se gente faz bem à nossa auto-estima, diz o meu psicólogo que passou a substituir o meu confessor do tempo de menino e moço.
Quanto ao problema técnico que causou a minha infelicidade durante dois dias, ele é apenas um dos muitos efeitos perversos da globalização. Graças à mão de obra quase escrava da China, a globalização operou este espantoso milagre do embaratecimento do material electrónico, incluindo os PC e os respectivos periféricos. Lembro-me do primeiro PC que comprei há mais de um dúzia de anos... Era um oito seis e troca o passo! Custou-me os olhos da cara. Hoje nem para peça de museu o queriam em lado nenhum. Já foi para o lixo, depois de anos passados no limbo do sótão das velharias.
Deixem dizer-vos que me separei dele, sem uma ponta de emoção: estava velho, obsoleto, ultrapassado. Foi para o sótão, foi para o lixo. Foi tratado afinal como se tratam hoje os velhos neste país. Já o mesmo não aconteceu à minha velha máquina de escrever: esqueci o nome da marca e do modelo, mas ainda hoje a recordo com a ternura dos meus 17 verdes anos... E que saudades do martelar seco das pequenas teclas!
De qualquer modo, protesto contra todas as formas de tecnicodependência, seja a do carro, a do telemóvel, do micro-ondas, do multibanco ou do PC. Um dia o mundo desaba mesmo e a gente não sabe sequer escrever a giz no quadro de ardósia da nossa velha escolinha, plantar umas pencas, enterrar um morto, cuidar de um vivo ou fugir a sete pés dos nossos predadores.
É um cenário aterrador mas perfeitamente verosímil. A regressão (económica, social, tecnológica, política, cultural, humana...) tem-se passado em muitos países à nossa volta, nas nossas barbas, da antiga Jugoslávia ao Iraque. Perdi o contacto com as minhas amigas croatas e sérvias, todas elas médicas. Uma amizade que fiz em Valência em 1991. Estava eu para partir para Zagrebe, para frequentar um curso de verão, quando eclodiu a guerra civil nos Balcãs. Acabei por ficar o tórrido mês de Agosto em Valência, traduzindo para inglês as más notícias que nos chegavam da Jugoslávia. Ironicamente, em Valência ainda se faziam sentir, na memória dos mais velhos, as marcas cruéis da guerra civil espanhola de 1936-1939.
Passados estes anos todos, perdi-lhes o rasto, às minhas amigas jugoslavas, uma delas sérvia casada com um bósnio... E sobretudo tenho pudor em perguntar por aí se elas ainda estão vivas, se estão bem, se não foram violadas, fuziladas, enterradas numa vala comum... E se as encontrassse não saberia como perguntar-lhes, olhos nos olhos, se elas tinham conseguido voltar à vida depois do pesadelo que foi o desmembramento do seu país e, em muitos casos, das suas famílias...
Rezo, ao menos, para que elas tenham voltado a sorrir e a ter esperança. Mesmo sem computador, e-mail, webpage ou blog. Pensar nas desgraças piores que as nossas sempre alivia um pouco. É safado, mas alivia.
Socio(b)logia - IV: A tecnicodependência
Eu, blogador, me confesso: sei agora até que ponto sou um tecnicodependente. Em boa verdade, sou um pobre tecnicodependente. Estive dois dias sem computador e, imaginem!, foi como se eu tivesse partido as pernas, o mundo desabado, a vida perdido o seu sentido.
A placa gráfica do meu PC, de topo de gama (talvez a peça mais cara do meu brinquedo!), bifou, e o resto da máquina recusou-se a trabalhar. O material é assim. Neste mundo é o material que tem razão. Aliás, o material tem sempre razão, dizem os engenheiros. Mas, eu, tecnicodependente, é que não estou nada pelos ajustes. Tive um ataque de nervos, digno de um verdadeiro primata.
Triste episódio este, ridícula situação a minha... Um homem já não é mais mais o que era, sobretudo depois de regressar vivo, mas não incólume, da guerra (colonial). É duro, mas tenho de confessá-lo.
À parte este registo intimista, deixem-me dizer-vos que felizmente valeu-me, nesta triste ocasião, a pronta assistência do meu fornecedor e sobretudo a amizade do João. O meu PC estava dentro da garantia e eu tive um tratamento VIP. Por sorte, havia duas placas gráficas do mesmo modelo e marca em armazém. Mas por azar nenhuma delas funcionava. Dizem-me que é um erro de produção num lote inteiro, um erro de série. Eu digo que é falha grave ou ausência total de garantia de qualidade por parte do fabricante... Enfim, à terceira tentativa lá se optou por um novo modelo de placa gráfica, de outra marca, mas igualmente made in China.
Podiam ter-me dito: o seu PC vai para arranjar e, quando estiver pronto, a gente telefona-lhe. Mas não, deram-me um tratamento VIP... Tenho pena de não poder publicitar aqui os seus nomes, o da empresa e a dos seus colaboradores que me atenderam e resolveram o meu problema. Mas a minha vontade era mesmo elegê-los os portugas da semana.
Devo dizer-vos que é gente do melhor. E bem precisava o país de multiplicar o seu número por cem. Juntando mais 10 AutoEuropas tínhamos muitos dos nossos problemas colectivos resolvidos. Para já tudo somado, eram mais uns 150 mil postos de trabalho com um significativo peso no nosso PIBezito, graças ao seu considerável valor acrescentado bruto (VAB).
Já que estou aqui hoje, e para mais em maré de confidências, direi que o que é bom no tratamento VIP é tu sentires mais do que cliente, é sentires-te gente. Eu gostei de sentir-me gente esta manhã, mesmo tendo perdido uma manhã da minha vida à espera que resolvessem o meu pequeno grande problema. Sentir-se gente é uma coisa que começa a faltar neste país. Uma pessoa sentir-se gente faz bem à nossa auto-estima, diz o meu psicólogo que passou a substituir o meu confessor do tempo de menino e moço.
Quanto ao problema técnico que causou a minha infelicidade durante dois dias, ele é apenas um dos muitos efeitos perversos da globalização. Graças à mão de obra quase escrava da China, a globalização operou este espantoso milagre do embaratecimento do material electrónico, incluindo os PC e os respectivos periféricos. Lembro-me do primeiro PC que comprei há mais de um dúzia de anos... Era um oito seis e troca o passo! Custou-me os olhos da cara. Hoje nem para peça de museu o queriam em lado nenhum. Já foi para o lixo, depois de anos passados no limbo do sótão das velharias.
Deixem dizer-vos que me separei dele, sem uma ponta de emoção: estava velho, obsoleto, ultrapassado. Foi para o sótão, foi para o lixo. Foi tratado afinal como se tratam hoje os velhos neste país. Já o mesmo não aconteceu à minha velha máquina de escrever: esqueci o nome da marca e do modelo, mas ainda hoje a recordo com a ternura dos meus 17 verdes anos... E que saudades do martelar seco das pequenas teclas!
De qualquer modo, protesto contra todas as formas de tecnicodependência, seja a do carro, a do telemóvel, do micro-ondas, do multibanco ou do PC. Um dia o mundo desaba mesmo e a gente não sabe sequer escrever a giz no quadro de ardósia da nossa velha escolinha, plantar umas pencas, enterrar um morto, cuidar de um vivo ou fugir a sete pés dos nossos predadores.
É um cenário aterrador mas perfeitamente verosímil. A regressão (económica, social, tecnológica, política, cultural, humana...) tem-se passado em muitos países à nossa volta, nas nossas barbas, da antiga Jugoslávia ao Iraque. Perdi o contacto com as minhas amigas croatas e sérvias, todas elas médicas. Uma amizade que fiz em Valência em 1991. Estava eu para partir para Zagrebe, para frequentar um curso de verão, quando eclodiu a guerra civil nos Balcãs. Acabei por ficar o tórrido mês de Agosto em Valência, traduzindo para inglês as más notícias que nos chegavam da Jugoslávia. Ironicamente, em Valência ainda se faziam sentir, na memória dos mais velhos, as marcas cruéis da guerra civil espanhola de 1936-1939.
Passados estes anos todos, perdi-lhes o rasto, às minhas amigas jugoslavas, uma delas sérvia casada com um bósnio... E sobretudo tenho pudor em perguntar por aí se elas ainda estão vivas, se estão bem, se não foram violadas, fuziladas, enterradas numa vala comum... E se as encontrassse não saberia como perguntar-lhes, olhos nos olhos, se elas tinham conseguido voltar à vida depois do pesadelo que foi o desmembramento do seu país e, em muitos casos, das suas famílias...
Rezo, ao menos, para que elas tenham voltado a sorrir e a ter esperança. Mesmo sem computador, e-mail, webpage ou blog. Pensar nas desgraças piores que as nossas sempre alivia um pouco. É safado, mas alivia.
A placa gráfica do meu PC, de topo de gama (talvez a peça mais cara do meu brinquedo!), bifou, e o resto da máquina recusou-se a trabalhar. O material é assim. Neste mundo é o material que tem razão. Aliás, o material tem sempre razão, dizem os engenheiros. Mas, eu, tecnicodependente, é que não estou nada pelos ajustes. Tive um ataque de nervos, digno de um verdadeiro primata.
Triste episódio este, ridícula situação a minha... Um homem já não é mais mais o que era, sobretudo depois de regressar vivo, mas não incólume, da guerra (colonial). É duro, mas tenho de confessá-lo.
À parte este registo intimista, deixem-me dizer-vos que felizmente valeu-me, nesta triste ocasião, a pronta assistência do meu fornecedor e sobretudo a amizade do João. O meu PC estava dentro da garantia e eu tive um tratamento VIP. Por sorte, havia duas placas gráficas do mesmo modelo e marca em armazém. Mas por azar nenhuma delas funcionava. Dizem-me que é um erro de produção num lote inteiro, um erro de série. Eu digo que é falha grave ou ausência total de garantia de qualidade por parte do fabricante... Enfim, à terceira tentativa lá se optou por um novo modelo de placa gráfica, de outra marca, mas igualmente made in China.
Podiam ter-me dito: o seu PC vai para arranjar e, quando estiver pronto, a gente telefona-lhe. Mas não, deram-me um tratamento VIP... Tenho pena de não poder publicitar aqui os seus nomes, o da empresa e a dos seus colaboradores que me atenderam e resolveram o meu problema. Mas a minha vontade era mesmo elegê-los os portugas da semana.
Devo dizer-vos que é gente do melhor. E bem precisava o país de multiplicar o seu número por cem. Juntando mais 10 AutoEuropas tínhamos muitos dos nossos problemas colectivos resolvidos. Para já tudo somado, eram mais uns 150 mil postos de trabalho com um significativo peso no nosso PIBezito, graças ao seu considerável valor acrescentado bruto (VAB).
Já que estou aqui hoje, e para mais em maré de confidências, direi que o que é bom no tratamento VIP é tu sentires mais do que cliente, é sentires-te gente. Eu gostei de sentir-me gente esta manhã, mesmo tendo perdido uma manhã da minha vida à espera que resolvessem o meu pequeno grande problema. Sentir-se gente é uma coisa que começa a faltar neste país. Uma pessoa sentir-se gente faz bem à nossa auto-estima, diz o meu psicólogo que passou a substituir o meu confessor do tempo de menino e moço.
Quanto ao problema técnico que causou a minha infelicidade durante dois dias, ele é apenas um dos muitos efeitos perversos da globalização. Graças à mão de obra quase escrava da China, a globalização operou este espantoso milagre do embaratecimento do material electrónico, incluindo os PC e os respectivos periféricos. Lembro-me do primeiro PC que comprei há mais de um dúzia de anos... Era um oito seis e troca o passo! Custou-me os olhos da cara. Hoje nem para peça de museu o queriam em lado nenhum. Já foi para o lixo, depois de anos passados no limbo do sótão das velharias.
Deixem dizer-vos que me separei dele, sem uma ponta de emoção: estava velho, obsoleto, ultrapassado. Foi para o sótão, foi para o lixo. Foi tratado afinal como se tratam hoje os velhos neste país. Já o mesmo não aconteceu à minha velha máquina de escrever: esqueci o nome da marca e do modelo, mas ainda hoje a recordo com a ternura dos meus 17 verdes anos... E que saudades do martelar seco das pequenas teclas!
De qualquer modo, protesto contra todas as formas de tecnicodependência, seja a do carro, a do telemóvel, do micro-ondas, do multibanco ou do PC. Um dia o mundo desaba mesmo e a gente não sabe sequer escrever a giz no quadro de ardósia da nossa velha escolinha, plantar umas pencas, enterrar um morto, cuidar de um vivo ou fugir a sete pés dos nossos predadores.
É um cenário aterrador mas perfeitamente verosímil. A regressão (económica, social, tecnológica, política, cultural, humana...) tem-se passado em muitos países à nossa volta, nas nossas barbas, da antiga Jugoslávia ao Iraque. Perdi o contacto com as minhas amigas croatas e sérvias, todas elas médicas. Uma amizade que fiz em Valência em 1991. Estava eu para partir para Zagrebe, para frequentar um curso de verão, quando eclodiu a guerra civil nos Balcãs. Acabei por ficar o tórrido mês de Agosto em Valência, traduzindo para inglês as más notícias que nos chegavam da Jugoslávia. Ironicamente, em Valência ainda se faziam sentir, na memória dos mais velhos, as marcas cruéis da guerra civil espanhola de 1936-1939.
Passados estes anos todos, perdi-lhes o rasto, às minhas amigas jugoslavas, uma delas sérvia casada com um bósnio... E sobretudo tenho pudor em perguntar por aí se elas ainda estão vivas, se estão bem, se não foram violadas, fuziladas, enterradas numa vala comum... E se as encontrassse não saberia como perguntar-lhes, olhos nos olhos, se elas tinham conseguido voltar à vida depois do pesadelo que foi o desmembramento do seu país e, em muitos casos, das suas famílias...
Rezo, ao menos, para que elas tenham voltado a sorrir e a ter esperança. Mesmo sem computador, e-mail, webpage ou blog. Pensar nas desgraças piores que as nossas sempre alivia um pouco. É safado, mas alivia.
05 janeiro 2004
Humor com humor se paga - XVII: A reposição da verdade a propósito dos Reis Magos
Comentário de Hélio Pereira a propósito do meu primeiro post do Novo Ano:
Como estamos nos Reis, há que repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber, (i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões; (ii) Semiramis de Babilónia e (iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada; a segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia (ou Youssef J. da equipa nacional de andebol da Tunísia); a ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.
As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável. São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo. Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por nuestro hermano.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.
Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino... De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade,seja ela qual for.
Boa saúde, bom trabalho, bom Dia de Reis!
Hélio Pereira
Como estamos nos Reis, há que repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber, (i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões; (ii) Semiramis de Babilónia e (iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada; a segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia (ou Youssef J. da equipa nacional de andebol da Tunísia); a ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.
As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável. São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo. Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por nuestro hermano.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.
Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino... De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade,seja ela qual for.
Boa saúde, bom trabalho, bom Dia de Reis!
Hélio Pereira
Humor com humor se paga - XVII: A reposição da verdade a propósito dos Reis Magos
Comentário de Hélio Pereira a propósito do meu primeiro post do Novo Ano:
Como estamos nos Reis, há que repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber, (i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões; (ii) Semiramis de Babilónia e (iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada; a segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia (ou Youssef J. da equipa nacional de andebol da Tunísia); a ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.
As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável. São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo. Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por nuestro hermano.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.
Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino... De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade,seja ela qual for.
Boa saúde, bom trabalho, bom Dia de Reis!
Hélio Pereira
Como estamos nos Reis, há que repor a verdade histórica... Direito por linhas tortas escreve por vezes o blogador: de facto, os visitadores eram mulheres, a saber, (i) Crucha de Mael, bela, inteligente, superioridade no porte, mas que não sabia resistir às paixões; (ii) Semiramis de Babilónia e (iii) Pentesileia, rainha das Amazonas.
A primeira tinha dois chifres na testa, que dissimulava com abundantes caracóis da sua cabeleira dourada; a segunda tem um olho azul e outro preto, o pescoço ligeiramente inclinado para a esquerda como o de Alexandre da Macedónia (ou Youssef J. da equipa nacional de andebol da Tunísia); a ultima tem seis dedos na mão esquerda e uma cabecinha de macaco por baixo do umbigo.
As três têm em comum o porte majestoso e o trato afável. São magníficas nos dispêndios, mas nem sempre sabem submeter a razão ao desejo. Foram elas convidadas pela filha rebelde de Herodes, Salomé, a estar presentes na gruta, não devido aos atributos citados, mas sim devido à sua voluntariedade de carácter transitório, tão bem descrita por nuestro hermano.
Com efeito, naquele tempo já a mulher era uma armadilha habilmente montada, sendo o seu delicioso atractivo exercido mais poderosamente à distância: representava assim a primeira tentação.
Não esqueçamos porém que a filosofia predominante na altura era a Aristotélica (ou Aristoteliana, segundo alguns exegetas), pelo que não se podia contar a história no feminino... De facto o feminino era considerado um erro ou mesmo um equívoco da Natureza... Daí a versão barbuda dos visitadores [os Reis Magos] que chegou até aos nossos dias.
Espero ter contribuído para a reposição da verdade,seja ela qual for.
Boa saúde, bom trabalho, bom Dia de Reis!
Hélio Pereira
Subscrever:
Mensagens (Atom)
