29 janeiro 2004

Estórias com mural ao fundo – XXI: Como lidar com clientes difíceis

Cada vez mais, na Eurolândia, os trabalhadores que lidam com o público, em geral, e com utentes ou clientes, em particular, estão expostos a um novo tipo de violência, que pode assumir as mais diversas formas (verbal, gestual, física, psicológica). Isso acontece em todo o lado, desde as escolas e os hospitais, passando pelas caixas dos supermercados, pelas agências bancárias e pelos balcões das companhias de aviação comercial.



Segundo o III Inquérito Europeu sobre Condições de Trabalho, realizado em 2000, a uma amostra representativa dos 159 milhões de trabalhadores da União Europeia, pela Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Tabalho, quase 1 em cada 10 trabalhadores (9%) reportaram ter sido objecto de intimação no ano anterior à inquirição (15% na Finlândia, 4% em Portugal); 2% queixaram-se de assédio sexual (4% nos países nórdicos, 1% na Europa do Sul); e, por fim, 4% dos trabalhadores da U.E. estiveram expostos a violência física com origem fora do local de trabalho (o dobro da violência física dentro do local de trabalho) (Paoli e Merllié, 2001).



Esta história que hoje vos conto, passou-se com uma funcionária da TAP – Air Portugal, no aeroporto de Lisboa. É uma história bem-humorada e edificante. (Obrigado, mais uma vez, ao meu amigo papa-milhas, o Anacleto M., por ma ter feito chegar à caixa de correio).



Situação: Há atrasos nos aviões. Há longas filas de espera. Há gente que protesta e se impacienta. De repente, um passageiro salta do fim da bicha e mete-se à frente de todos os outros. Atira com o bilhete para cima do balcão e diz à funcionária:

- Tenho que ir sem falta neste voo. E tenho direito a um lugar na Primeira Classe.



A funcionária responde-lhe, com bons modos:

- Meu caro senhor, farei tudo o que puder para resolver o seu problema. Mas, como compreenderá, primeiro tenho que atender todas estas pessoas que estão à sua frente. Peço-lhe que retome o seu lugar e que aguarde a sua vez.



O passageiro perdeu as estribeiras e retorquiu, em voz alta para que toda a gente o ouvisse:

- Você faz alguma ideia de quem sou eu?



Sem perder a calma, a funcionária pediu um instante, pegou no microfone e fez o seguinte anúncio:

- Peço um minuto de atenção aos senhores passageiros... Nós temos aqui um senhor passageiro que não sabe quem é, presumindo-se que esteja perdido! Se alguém é responsável pelo mesmo, se é seu parente, se é seu conhecido e se o puder ajudar a descobrir a sua identidade, solicito que compareça no balcão da TAP. Obrigada.



As pessoas atrás dele soltaram uma enorme gargalha. O homem, lívido de raiva, fuzilou com o olhar a funcionária da TAP e, rangendo os dentes, ameaçou-a:

- Filha da puta, vou-te foder!!!



Sem nunca perder o sangue frio, ela disse-lhe a sorrir:

- Desculpe, meu caro Senhor, mas até para isso vai ter que esperar a sua vez na bicha!



Moral da história: História sem moral nenhuma. Mas a senhora da TAP merece a nossa chapelada!





PAOLI, P.; MERLLIÉ, D. (2001) – Third European Survey on Working Conditions 2000. Luxembourg: Office for Official Publications of the European Communities.

Estórias com mural ao fundo – XXI: Como lidar com clientes difíceis

Cada vez mais, na Eurolândia, os trabalhadores que lidam com o público, em geral, e com utentes ou clientes, em particular, estão expostos a um novo tipo de violência, que pode assumir as mais diversas formas (verbal, gestual, física, psicológica). Isso acontece em todo o lado, desde as escolas e os hospitais, passando pelas caixas dos supermercados, pelas agências bancárias e pelos balcões das companhias de aviação comercial.

Segundo o III Inquérito Europeu sobre Condições de Trabalho, realizado em 2000, a uma amostra representativa dos 159 milhões de trabalhadores da União Europeia, pela Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Tabalho, quase 1 em cada 10 trabalhadores (9%) reportaram ter sido objecto de intimação no ano anterior à inquirição (15% na Finlândia, 4% em Portugal); 2% queixaram-se de assédio sexual (4% nos países nórdicos, 1% na Europa do Sul); e, por fim, 4% dos trabalhadores da U.E. estiveram expostos a violência física com origem fora do local de trabalho (o dobro da violência física dentro do local de trabalho) (Paoli e Merllié, 2001).

Esta história que hoje vos conto, passou-se com uma funcionária da TAP – Air Portugal, no aeroporto de Lisboa. É uma história bem-humorada e edificante. (Obrigado, mais uma vez, ao meu amigo papa-milhas, o Anacleto M., por ma ter feito chegar à caixa de correio).

Situação: Há atrasos nos aviões. Há longas filas de espera. Há gente que protesta e se impacienta. De repente, um passageiro salta do fim da bicha e mete-se à frente de todos os outros. Atira com o bilhete para cima do balcão e diz à funcionária:
- Tenho que ir sem falta neste voo. E tenho direito a um lugar na Primeira Classe.

A funcionária responde-lhe, com bons modos:
- Meu caro senhor, farei tudo o que puder para resolver o seu problema. Mas, como compreenderá, primeiro tenho que atender todas estas pessoas que estão à sua frente. Peço-lhe que retome o seu lugar e que aguarde a sua vez.

O passageiro perdeu as estribeiras e retorquiu, em voz alta para que toda a gente o ouvisse:
- Você faz alguma ideia de quem sou eu?

Sem perder a calma, a funcionária pediu um instante, pegou no microfone e fez o seguinte anúncio:
- Peço um minuto de atenção aos senhores passageiros... Nós temos aqui um senhor passageiro que não sabe quem é, presumindo-se que esteja perdido! Se alguém é responsável pelo mesmo, se é seu parente, se é seu conhecido e se o puder ajudar a descobrir a sua identidade, solicito que compareça no balcão da TAP. Obrigada.

As pessoas atrás dele soltaram uma enorme gargalha. O homem, lívido de raiva, fuzilou com o olhar a funcionária da TAP e, rangendo os dentes, ameaçou-a:
- Filha da puta, vou-te foder!!!

Sem nunca perder o sangue frio, ela disse-lhe a sorrir:
- Desculpe, meu caro Senhor, mas até para isso vai ter que esperar a sua vez na bicha!

Moral da história: História sem moral nenhuma. Mas a senhora da TAP merece a nossa chapelada!


PAOLI, P.; MERLLIÉ, D. (2001) – Third European Survey on Working Conditions 2000. Luxembourg: Office for Official Publications of the European Communities.

26 janeiro 2004

Humor com humor se paga - XX: A globalização explicada às criancinhas: 'Quando passam rábanos é que é comprá-los'

Era uma vez uma princesinha inglesa, muito bonita mas infeliz, que tinha um namorado egípcio muito rico que tinha a mania que era playboy.



Aconteceu que ambos tiveram um grave acidente, do qual resultaria a sua (deles) morte, num túnel por baixo de um boulevard parisiense, num carro fabricado na Alemanha com motor montado por operários checos ex-comunistas, conduzido por um belga que bebia whisky (escocês) em demasia e que, como belga, tanto podia ser francófono como flamengo. Esse pormenor da história só interessa à polícia, incluindo os serviços secretos de sua majestade a raínha dos great britons e que é a bruxa má desta história.



E todos, a princesa e o candidato a princípe, mais o motorista belga e os guarda-costas da princesa, eram perseguidos por paparazzis italianos, em potentes motos japonesas de grande cilindrada, empunhando máquinas fotográficas japonesas com teleobjectivas de infra-vermelhos made in China, sob licença.



A princesinha, moribunda, ainda foi assistida, por uma equipa de emergência médica canadiana num grande hospital árabe de Paris, tendo-lhe sido ministrados medicamentos de uma multinacional farmacêutica, dessas sem pátria, com fábricas no Brasil.



A tecnologia de reanimação também era de uma outra multinacional que trabalhava no programa espacial da NASA (os senhores que mandam foguetões para a Lua e para Marte) e que acabava de fazer uma OPA hostil para ficar com a parte de leão do mercado da doença (Se vocês não sabem o que é uma OPA hostil, perguntem lá em casa aos paizinhos).



E eu, que sou portuga, estou-vos a contar esta história num blogue que existe na Internet, usando tecnologia desenvolvida por um senhor chamado Bill Gates e que vive na América dos cow-boys e que é podre de rico por causa da terceira vaga que ele cavalga como nenhum outro surfista do Hawai.



Vocês muito provavelmente estão a ler esta mensagem num computador que é um clone da IBM e que usa chips feitos em Taiwan, e num monitor sul-coreano, TFT de 17 polegadas, montado por trabalhadores do Bangladesh numa fábrica de Singapura, transportado em camiões TIR de uma empresa chinesa de Honk-Kong conduzidos por indianos, e que depois foram roubados (os camiões) por piratas malaios e indonésios, e descarregados por pescadores sicilianos que trabalhavam para a máfia chamada cosa nostra.



E de repente estamos numa minúscula ilha das Caraíbas onde o material (computador, monitores e demais periféricos) está a ser empacotado por campesinos mexicanos clandestinos, para depois ser transportado num porta-contentores russo de pavilhão panamiano, desembarcado em Roterdão e finalmente vendido por judeus holandeses, que escaparam ao holocausto nazi, e que até meados do Séc. XVII viviam em Portugal, prósperos, felizes e contentes.



Com eles desembarcaram, mais mortos que vivos, os novos escravos negros que fogem do inferno das costas de marfim, das libérias, das serras leoas, das guinés, dos congos. Apanhados pela polícia da eurolândia foram recambiados para as terras de fome e de morte onde nasceram.



Pois é, meus meninos, isto é que é a globalização. Convenhamos que as histórias das princesas encantadas dos tempos dos avós que se chamavam afonsinhos, eram muito mais bonitas do que esta que é triste e sórdida e imoral.



Já não me lembro do nome da princesa mas para o caso tanto faz. Em boa verdade, também não sei o verdadeiro nome dos chinos que montaram o meu computador e sem o qual eu nunca poderia comunicar com vocês que são umas encantadoras cibercriancinhas biónicas.



Se puderem escrevam um e-card com musiquinha e animação. Estamos a precisar de levantar o/a moral (desconheço o género, e não tenho aqui à mão o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, que passou a ser o meu livro de cabeceira e que eu uso em vez do xanax).



E ainnda a propósito, queria aqui referir um adágio popular, que existe na na terra dos portugas, e que diz: "Quando passam rábanos é que é comprá-los".



Não encontrei até à data mais feliz e sintética definição do que é essa coisa da globalização. Há uma profunda mas tranquila sabedoria neste adágio que só pode ser de origem moura porque os rábanos são cultivados pelos saloios da Estremadura lusitana e estes descendem dos mouros, como eu, os quais foram escravizados pelos feros francos cristãos da Reconquista.



Meus meninos, acabou a escola. podem ir para o recreio.

Humor com humor se paga - XX: A globalização explicada às criancinhas: 'Quando passam rábanos é que é comprá-los'

Era uma vez uma princesinha inglesa, muito bonita mas infeliz, que tinha um namorado egípcio muito rico que tinha a mania que era playboy.

Aconteceu que ambos tiveram um grave acidente, do qual resultaria a sua (deles) morte, num túnel por baixo de um boulevard parisiense, num carro fabricado na Alemanha com motor montado por operários checos ex-comunistas, conduzido por um belga que bebia whisky (escocês) em demasia e que, como belga, tanto podia ser francófono como flamengo. Esse pormenor da história só interessa à polícia, incluindo os serviços secretos de sua majestade a raínha dos great britons e que é a bruxa má desta história.

E todos, a princesa e o candidato a princípe, mais o motorista belga e os guarda-costas da princesa, eram perseguidos por paparazzis italianos, em potentes motos japonesas de grande cilindrada, empunhando máquinas fotográficas japonesas com teleobjectivas de infra-vermelhos made in China, sob licença.

A princesinha, moribunda, ainda foi assistida, por uma equipa de emergência médica canadiana num grande hospital árabe de Paris, tendo-lhe sido ministrados medicamentos de uma multinacional farmacêutica, dessas sem pátria, com fábricas no Brasil.

A tecnologia de reanimação também era de uma outra multinacional que trabalhava no programa espacial da NASA (os senhores que mandam foguetões para a Lua e para Marte) e que acabava de fazer uma OPA hostil para ficar com a parte de leão do mercado da doença (Se vocês não sabem o que é uma OPA hostil, perguntem lá em casa aos paizinhos).

E eu, que sou portuga, estou-vos a contar esta história num blogue que existe na Internet, usando tecnologia desenvolvida por um senhor chamado Bill Gates e que vive na América dos cow-boys e que é podre de rico por causa da terceira vaga que ele cavalga como nenhum outro surfista do Hawai.

Vocês muito provavelmente estão a ler esta mensagem num computador que é um clone da IBM e que usa chips feitos em Taiwan, e num monitor sul-coreano, TFT de 17 polegadas, montado por trabalhadores do Bangladesh numa fábrica de Singapura, transportado em camiões TIR de uma empresa chinesa de Honk-Kong conduzidos por indianos, e que depois foram roubados (os camiões) por piratas malaios e indonésios, e descarregados por pescadores sicilianos que trabalhavam para a máfia chamada cosa nostra.

E de repente estamos numa minúscula ilha das Caraíbas onde o material (computador, monitores e demais periféricos) está a ser empacotado por campesinos mexicanos clandestinos, para depois ser transportado num porta-contentores russo de pavilhão panamiano, desembarcado em Roterdão e finalmente vendido por judeus holandeses, que escaparam ao holocausto nazi, e que até meados do Séc. XVII viviam em Portugal, prósperos, felizes e contentes.

Com eles desembarcaram, mais mortos que vivos, os novos escravos negros que fogem do inferno das costas de marfim, das libérias, das serras leoas, das guinés, dos congos. Apanhados pela polícia da eurolândia foram recambiados para as terras de fome e de morte onde nasceram.

Pois é, meus meninos, isto é que é a globalização. Convenhamos que as histórias das princesas encantadas dos tempos dos avós que se chamavam afonsinhos, eram muito mais bonitas do que esta que é triste e sórdida e imoral.

Já não me lembro do nome da princesa mas para o caso tanto faz. Em boa verdade, também não sei o verdadeiro nome dos chinos que montaram o meu computador e sem o qual eu nunca poderia comunicar com vocês que são umas encantadoras cibercriancinhas biónicas.

Se puderem escrevam um e-card com musiquinha e animação. Estamos a precisar de levantar o/a moral (desconheço o género, e não tenho aqui à mão o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, que passou a ser o meu livro de cabeceira e que eu uso em vez do xanax).

E ainnda a propósito, queria aqui referir um adágio popular, que existe na na terra dos portugas, e que diz: "Quando passam rábanos é que é comprá-los".

Não encontrei até à data mais feliz e sintética definição do que é essa coisa da globalização. Há uma profunda mas tranquila sabedoria neste adágio que só pode ser de origem moura porque os rábanos são cultivados pelos saloios da Estremadura lusitana e estes descendem dos mouros, como eu, os quais foram escravizados pelos feros francos cristãos da Reconquista.

Meus meninos, acabou a escola. podem ir para o recreio.

23 janeiro 2004

Estórias com mural ao fundo - XX: Uma questão cá entre nós (ou o triângulo Lisboa-Luanda-Recife)

Um ilustre professor de medicina, kaluanda, meu amigo de fresca data, corrigiu há dias um e-mail através do qual o Blogador lhe enviava uma destas estórias com mural ao fundo. Pensou ele, o meu amigo, que toda a estória tem uma moral (ou seja, um desfecho ou uma conclusão em geral edificante). E que portanto havia uma gralha (das grossas) no título usado pelo Blogador.



Mas não, meu caro Mário: diz o Blogador que estas estórias são mesmo com mural (parede pintada) ao fundo. E às vezes com a moral, essa sim, em baixo...



Aproveito, em nome do Blogador, para daqui enviar um ciberkandandu (abraço) para @s car@s amig@s da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, lá em baixo, na doce e crioula Luanda, hoje de novo terra de esperança e porto de abrigo de desvairadas gentes. E agradecer ao Mário a sua vigilância crítica em relação ao (ab)uso da bela língua que temos o privilégio de partilhar e de todos os dias enriquecer cá e lá.



E já que falamos de português, queria aqui evocar um belíssimo poema de amor à angolanidade que eu descobri num blogue de uma brasuca, Paty Carvalho, nascida no Recife, 29 anos, dentista, a viver e a trabalhar em Angola desde 2001.



O blogue dá pelo nome Notícias D'Angola e merece uma visita pela sua prosa gostosa e pela ternura quente com que a Paty fala da terra e das gentes angolanas. Destaco em especial um post de 30 de Outubro de 2003, sob a forma de pergunta e resposta sobre as actuais condições de vida que poderá esperar um candidato a imigrante de luxo em Angola.



Pergunta um imaginário brasuca: " (...) eu gostaria de saber se vale a pena me aventurar por aí, porque soube que aí dá para ganhar USD 1,000,000.00 por semana, trabalhando de segunda a quinta, das 10 às 14h. Isso é verdade??? Gostaria de saber como é a vida aí, algumas pessoas disseram-me que não se pode andar sozinho nas ruas, é verdade? Por que isso acontece? Como está a questão da segurança? E o custo de vida, soube que é bem alto. Quanto deve uma pessoa ganhar por mês para ter uma vida razoável? Finalizando, gostaria que você me fornecesse maiores informações sobre o país. Vale a pena ir?"



A resposta de Paty alia a maior das ternuras pelo povo angolano e a mais fina ironia em relação aos (pre)conceitos que os estrangeiros (brasileiros e portugueses incluídos) têm sobre a situação actual e as perspectivas futuras da África, em geral, e de Angola, em particular. Limito-me a citar alguns excertos:



"Se você não tiver sensibilidade para entender o que é a falta de água em 80% das residências, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.



"Se você não tiver sensibilidade para respeitar o ritmo de trabalho das pessoas que ganham um salário muito baixo, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.



"Se você acha que no Brasil não se passa fome, se ainda acredita que só se morre de fome nestes países da África Sub-Sahariana, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.



"Se você, mesmo que involuntariamente, costuma associar problemas sócio-econômicos à cor da pele das pessoas, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.



"Se você acha que o Brasil é um país melhor do que Angola, não venha. Olhe primeiro para o Brasil (...).



"O que te dará condições de viver bem aqui em Angola será a capacidade (...) de se entrosar, principalmente com o povo angolano, sem medos ou conceitos pré-formados. Isso vai fazer você entender o país e seu povo, e vai te fazer abraçá-los da mesma forma como você se sentirá abraçado(a) por eles, que, por sinal, fazem isso muito melhor do que muitos de nós, brasileiros. Abraçam sim, um kandandu bem angolano, cheio de calor e troca de boas energias, mas só o fazem quando confiam em você e sentem que você veio contribuir com o contexto e com a melhoria do país, e não apenas consigo próprio e com seu bolso (...).



"Finalizando, o Brasil é a cara da mãe dele. E o Brasil tem que ter orgulho disso. A mãe África é forte, batalhadora, sofrida, carrega muito peso nas costas e vê suas riquezas serem levadas de suas mãos o tempo todo, sem receber nada em troca disso. Mas consegue mesmo assim ser a mãe mais bonita do mundo, consegue ter um sorriso iluminado e uma ginga no corpo que nenhuma outra mãe tem. A mãe África vai caminhando de sua casa até o trabalho a pé, por muitos quilômetros e com um sol muito forte batendo em sua cabeça, mesmo com a lata de água protegendo um pouco desse sol lindo que só existe aqui. Minto. Ela não caminha, ela vai dançando, e usa para isso o ritmo dado pela percussão de seu coração. E segue em frente com porte de rainha e sorriso no rosto, até chegar em seu destino. Por tudo isso, a mãe África merece muito todo o respeito e admiração de seu filho Brasil que, infelizmente, nem sempre é um filho exemplar nesse aspecto (...).



"Espero ter ajudado. Desculpe-me novamente se eu tiver sido grosseira, a primeira intenção sempre é a de ser sincera e de querer ajudar a trazer pessoas que possam ter Angola no coração e considerá-la como uma segunda Pátria, como a mãe do Brasil. E não apenas como uma mina de ouro".



Uma miúda inteligente e generosa, essa Paty, além de bonita. É pena que tenha deixado de blogar antes do fim do ano de 2003. Mudanças(s) na vida dela, explicou. Mas continua em Angola onde se sente "em casa". Um chicoração para ela. De Lisboa com amor.

Estórias com mural ao fundo - XX: Uma questão cá entre nós (ou o triângulo Lisboa-Luanda-Recife)

Um ilustre professor de medicina, kaluanda, meu amigo de fresca data, corrigiu há dias um e-mail através do qual o Blogador lhe enviava uma destas estórias com mural ao fundo. Pensou ele, o meu amigo, que toda a estória tem uma moral (ou seja, um desfecho ou uma conclusão em geral edificante). E que portanto havia uma gralha (das grossas) no título usado pelo Blogador.

Mas não, meu caro Mário: diz o Blogador que estas estórias são mesmo com mural (parede pintada) ao fundo. E às vezes com a moral, essa sim, em baixo...

Aproveito, em nome do Blogador, para daqui enviar um ciberkandandu (abraço) para @s car@s amig@s da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, lá em baixo, na doce e crioula Luanda, hoje de novo terra de esperança e porto de abrigo de desvairadas gentes. E agradecer ao Mário a sua vigilância crítica em relação ao (ab)uso da bela língua que temos o privilégio de partilhar e de todos os dias enriquecer cá e lá.

E já que falamos de português, queria aqui evocar um belíssimo poema de amor à angolanidade que eu descobri num blogue de uma brasuca, Paty Carvalho, nascida no Recife, 29 anos, dentista, a viver e a trabalhar em Angola desde 2001.

O blogue dá pelo nome Notícias D'Angola e merece uma visita pela sua prosa gostosa e pela ternura quente com que a Paty fala da terra e das gentes angolanas. Destaco em especial um post de 30 de Outubro de 2003, sob a forma de pergunta e resposta sobre as actuais condições de vida que poderá esperar um candidato a imigrante de luxo em Angola.

Pergunta um imaginário brasuca: " (...) eu gostaria de saber se vale a pena me aventurar por aí, porque soube que aí dá para ganhar USD 1,000,000.00 por semana, trabalhando de segunda a quinta, das 10 às 14h. Isso é verdade??? Gostaria de saber como é a vida aí, algumas pessoas disseram-me que não se pode andar sozinho nas ruas, é verdade? Por que isso acontece? Como está a questão da segurança? E o custo de vida, soube que é bem alto. Quanto deve uma pessoa ganhar por mês para ter uma vida razoável? Finalizando, gostaria que você me fornecesse maiores informações sobre o país. Vale a pena ir?"

A resposta de Paty alia a maior das ternuras pelo povo angolano e a mais fina ironia em relação aos (pre)conceitos que os estrangeiros (brasileiros e portugueses incluídos) têm sobre a situação actual e as perspectivas futuras da África, em geral, e de Angola, em particular. Limito-me a citar alguns excertos:

"Se você não tiver sensibilidade para entender o que é a falta de água em 80% das residências, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

"Se você não tiver sensibilidade para respeitar o ritmo de trabalho das pessoas que ganham um salário muito baixo, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

"Se você acha que no Brasil não se passa fome, se ainda acredita que só se morre de fome nestes países da África Sub-Sahariana, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

"Se você, mesmo que involuntariamente, costuma associar problemas sócio-econômicos à cor da pele das pessoas, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

"Se você acha que o Brasil é um país melhor do que Angola, não venha. Olhe primeiro para o Brasil (...).

"O que te dará condições de viver bem aqui em Angola será a capacidade (...) de se entrosar, principalmente com o povo angolano, sem medos ou conceitos pré-formados. Isso vai fazer você entender o país e seu povo, e vai te fazer abraçá-los da mesma forma como você se sentirá abraçado(a) por eles, que, por sinal, fazem isso muito melhor do que muitos de nós, brasileiros. Abraçam sim, um kandandu bem angolano, cheio de calor e troca de boas energias, mas só o fazem quando confiam em você e sentem que você veio contribuir com o contexto e com a melhoria do país, e não apenas consigo próprio e com seu bolso (...).

"Finalizando, o Brasil é a cara da mãe dele. E o Brasil tem que ter orgulho disso. A mãe África é forte, batalhadora, sofrida, carrega muito peso nas costas e vê suas riquezas serem levadas de suas mãos o tempo todo, sem receber nada em troca disso. Mas consegue mesmo assim ser a mãe mais bonita do mundo, consegue ter um sorriso iluminado e uma ginga no corpo que nenhuma outra mãe tem. A mãe África vai caminhando de sua casa até o trabalho a pé, por muitos quilômetros e com um sol muito forte batendo em sua cabeça, mesmo com a lata de água protegendo um pouco desse sol lindo que só existe aqui. Minto. Ela não caminha, ela vai dançando, e usa para isso o ritmo dado pela percussão de seu coração. E segue em frente com porte de rainha e sorriso no rosto, até chegar em seu destino. Por tudo isso, a mãe África merece muito todo o respeito e admiração de seu filho Brasil que, infelizmente, nem sempre é um filho exemplar nesse aspecto (...).

"Espero ter ajudado. Desculpe-me novamente se eu tiver sido grosseira, a primeira intenção sempre é a de ser sincera e de querer ajudar a trazer pessoas que possam ter Angola no coração e considerá-la como uma segunda Pátria, como a mãe do Brasil. E não apenas como uma mina de ouro".

Uma miúda inteligente e generosa, essa Paty, além de bonita. É pena que tenha deixado de blogar antes do fim do ano de 2003. Mudanças(s) na vida dela, explicou. Mas continua em Angola onde se sente "em casa". Um chicoração para ela. De Lisboa com amor.

22 janeiro 2004

Estórias com mural ao fundo - XIX: A lebre da promoção da saúde

Esta cena passa-se em pleno Alentejo, agora transformado em gigantesco parque zoológico e região turística de eleição ao alcance de qualquer voo charter doméstico na Eurolândia. Mês do ano: Maio florido.



Há uma lebre que vai a correr, endiabrada, afugentando porcos pretos, cegonhas, cobras e lagartos, quando passa por uma avestruz que está a enrolar um charro à sombra de uma azinheira. Vira-se para a infeliz e diz:



- Avestruz, minha boa amiga, não vês que o charro dá cabo dos teus pulmões ?! Um dia destes ainda vais morrer de cancro. Vem antes correr comigo para ficares em boa forma física e promoveres a tua saúde.



A avestruz não hesitou um segundo e seguiu atrás da lebre, sempre a abrir até ao próximo montado de sobro.



Junto a uma ribeira que corria, já exangue para o Guadiana, estava um triste, pobre e solitário elefante a snifar umas linhas de coca. A lebre, investida da nobre missão de promover a saúde da bicharada alentejana, não se intimidou com o porte do paquiderme e exortou-o:

- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco! Pela tua e pela nossa saúde!



Deitando fora o espelho, a palhinha e o pó, o elefante juntou-se ao grupo dos lídimos representantes do Movimento Saúde 2004:O Alentejo Não Pára.



Continua o grupo em grande correrria, agora a caminho de Barrancos, quando metem travões a fundo e param frente ao Rei da Selva que, pasmem vocês!, estava a injectar-se em plena charneca, atrás de umas giestas floridas. A lebre teve um gesto de compaixão para com o pobre leão toxicodependente e disse-lhe:



- Leão, meu rei e meu camarada, não te injectes mais, e ainda por cima com agulhas infectadas. Olha que apanhas a Sida e esticas o pernil sem ver a Barragem do Alqueva atingir a cota máxima e irrigar os nossos campos de golfe... Vem antes correr comigo, com a avestruz e com o elefante. Vais ver que ganhas outra disposição e outra maneira de ver o mundo.



O leão, que acabava de passar uma semana de ressaca, não esteve com meias medidas e, zás!, deu uma sapatada à pobre lebre, arrancando-lhe a cabeça de um só golpe. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra a brutalidade do leão:

- Meu filho da puta, por que é fizeste isso à pobre lebre ? Ela só te queria ajudar!



O leão continuou a meter para a veia, enquanto lhes respondia com maus modos:

- Essa chavala era maluca! Obrigava-me sempre a fazer o percurso Odemira-Barrancos todas as vezes que tomava Ecstasy!



Moral da história: Nem sempre as motivações dos promotores de saúde são as mais altruístas, óbvias e transparentes. Conselho ao Prof. Fernando Pádua e aos demais ilustres promotores da saúde em Portugal: por favor, não usem lebres nas corridas do Maio, Mês do Coração!



PS - Obrigado à minha amiga AIG por me ter mandado uma das fábulas de La Fontaine onde me fui inspirar para mais esta estória com mural ao fundo.

Estórias com mural ao fundo - XIX: A lebre da promoção da saúde

Esta cena passa-se em pleno Alentejo, agora transformado em gigantesco parque zoológico e região turística de eleição ao alcance de qualquer voo charter doméstico na Eurolândia. Mês do ano: Maio florido.

Há uma lebre que vai a correr, endiabrada, afugentando porcos pretos, cegonhas, cobras e lagartos, quando passa por uma avestruz que está a enrolar um charro à sombra de uma azinheira. Vira-se para a infeliz e diz:

- Avestruz, minha boa amiga, não vês que o charro dá cabo dos teus pulmões ?! Um dia destes ainda vais morrer de cancro. Vem antes correr comigo para ficares em boa forma física e promoveres a tua saúde.

A avestruz não hesitou um segundo e seguiu atrás da lebre, sempre a abrir até ao próximo montado de sobro.

Junto a uma ribeira que corria, já exangue para o Guadiana, estava um triste, pobre e solitário elefante a snifar umas linhas de coca. A lebre, investida da nobre missão de promover a saúde da bicharada alentejana, não se intimidou com o porte do paquiderme e exortou-o:
- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco! Pela tua e pela nossa saúde!

Deitando fora o espelho, a palhinha e o pó, o elefante juntou-se ao grupo dos lídimos representantes do Movimento Saúde 2004:O Alentejo Não Pára.

Continua o grupo em grande correrria, agora a caminho de Barrancos, quando metem travões a fundo e param frente ao Rei da Selva que, pasmem vocês!, estava a injectar-se em plena charneca, atrás de umas giestas floridas. A lebre teve um gesto de compaixão para com o pobre leão toxicodependente e disse-lhe:

- Leão, meu rei e meu camarada, não te injectes mais, e ainda por cima com agulhas infectadas. Olha que apanhas a Sida e esticas o pernil sem ver a Barragem do Alqueva atingir a cota máxima e irrigar os nossos campos de golfe... Vem antes correr comigo, com a avestruz e com o elefante. Vais ver que ganhas outra disposição e outra maneira de ver o mundo.

O leão, que acabava de passar uma semana de ressaca, não esteve com meias medidas e, zás!, deu uma sapatada à pobre lebre, arrancando-lhe a cabeça de um só golpe. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra a brutalidade do leão:
- Meu filho da puta, por que é fizeste isso à pobre lebre ? Ela só te queria ajudar!

O leão continuou a meter para a veia, enquanto lhes respondia com maus modos:
- Essa chavala era maluca! Obrigava-me sempre a fazer o percurso Odemira-Barrancos todas as vezes que tomava Ecstasy!

Moral da história: Nem sempre as motivações dos promotores de saúde são as mais altruístas, óbvias e transparentes. Conselho ao Prof. Fernando Pádua e aos demais ilustres promotores da saúde em Portugal: por favor, não usem lebres nas corridas do Maio, Mês do Coração!

PS - Obrigado à minha amiga AIG por me ter mandado uma das fábulas de La Fontaine onde me fui inspirar para mais esta estória com mural ao fundo.

Blogantologia(s) - VII: Deus cresceu sozinho, não teve ninguém para brincar

MINARETS



Santa Maria choose your children

Santa Maria virgin child

all our wars over you we are fighting

and all our time faith justifying

Brother caged Babylon will fall

Sister chained and bound, beaten and bleeding

The tv's on, to me this explains it

Wearing a tie like daddy speaks it

Screaming from the minarets

Later on we'll all be dancing

Screaming from the minarets

Yes indeed i'm making faces

Rain on the ground in a space

God has grown

Alone till a man looking glass in his hand

He is holding up to you

What you see

What you see

What you see

What you see is human

Screaming from the minarets



Dave Matthews Band



LIVE AT LUTHER COLLEGE

1999





Blogantologia(s) - VII: Deus cresceu sozinho, não teve ninguém para brincar

MINARETS

Santa Maria choose your children
Santa Maria virgin child
all our wars over you we are fighting
and all our time faith justifying
Brother caged Babylon will fall
Sister chained and bound, beaten and bleeding
The tv's on, to me this explains it
Wearing a tie like daddy speaks it
Screaming from the minarets
Later on we'll all be dancing
Screaming from the minarets
Yes indeed i'm making faces
Rain on the ground in a space
God has grown
Alone till a man looking glass in his hand
He is holding up to you
What you see
What you see
What you see
What you see is human
Screaming from the minarets

Dave Matthews Band

LIVE AT LUTHER COLLEGE
1999


21 janeiro 2004

Socio(b)logia - V: Empresas com muitos tiques e poucos toques

Esta noite sonhei que as nossas empresas e demais organizações eram hi tech & human touch. Traduzido à letra: empresas tecnologicamente evoluídas mas de rosto humano. Ou trocado por miúdos: que eram capazes de conciliar três coisas que em princípio são (ou deveriam ser) compatíveis: (i) hardware, (ii) sofwtare e (iii) humanware.



As organizações são, antes de mais, (i) nas pessoas que lá trabalham, que connosco trabalham, (ii) além da memória dos que já partiram ou nos deixaram. Há um fenómeno de amnésia nas nossas organizações que me preocupa. O termo é soft. Mas eu não queria ir tão longe: chamar-lhe branqueamento da história, backout cultural, denegação sistemática do passado... Os actores organizacionais não tem memória, suportes de memória, lembranças, emoções. Onde estão os nossos pais fundadores, o que foi feito das pessoas-chaves que marcaram a história da nossa empresa, e por aí fora ?



Há dias um amigo meu fez um agradecimento especial aos seus colegas de trabalho, uma vez findo um projecto importante onde esteve envolvido com outros colaboradores. Segundo o e-mail que me mandou, o agradecimento rezava mais ou menos assim: "A palavra amizade nunca deve ser evocada em vão, mas eu sinto que posso falar para amigos, já que vocês são, para mim, mais do que simples colegas de trabalho. Espero que não considerem isto como um aproveitamento demagógico das circunstâncias, um abuso de autoridade ou até um excesso de familiariedade. Em resumo, eu gostaria de falar para vocês, como amigos que trabalham comigo, independentemente de eu ser líder do projecto, e independentemente dos cargos, funções ou tarefas de cada um de vós. Amigos de quem tenho recebido, ao longo destes anos todos, palavras e provas de carinho e de apoio, mas também críticas e conselhos que foram (e continuam a ser) importantes para o meu desenvolvimento pessoal e profissional, para o sucesso do nosso projecto e para o êxito da nossa empresa".



Percebo agora quão traumatizante pode ser, para a maioria dos trabalhadores assalariados (incluindo os gestores e os quadros superiores das empresas), a perda do seu emprego: para além de fonte de rendimento e de status, o trabalho é algo que faz parte do projecto de vida das pessoas, da sua história de vida, da sua rede de relações sociais, da sua identidade...



Só agora me dou conta de quanto as pessoas investem, em termos afectivos, no seu local de trabalho. Os portugas investem muito no seu local de trabalho, provavelmente muito mais do que recebem em troca. Não me refiro apenas ao seu valor acrescentado bruto, à riqueza (material) que criam... Daí que a perda do trabalho possa também representar, para muitos, a perda de afectos e até levar à depressão.



Há quinze ou vinte anos atrás, dizia um médico conhecido que os hospitais portugueses tinham muitos tiques e poucos taques (queria ele referir-se à TAC - Tumografia Axial Computorizada). Uma amiga minha evocava, há tempos, em conversa, o lema da sua antiga equipa de projecto noutra empresa: Não há tique sem toque, o que eu acho um feliz aportuguesamento do inglês Hi Tech, Human Touch.



Hoje quando milhões de portugas começarem a picar o ponto, logo pela manhã, nas empresas e demais organizações onde trabalham, é muito possível que a maioria deles pense, para com os seus botões, como é uma pena estar num sítio onde há muitos tiques e poucos toques... Os portugas que trabalham merecem muito melhor!

Socio(b)logia - V: Empresas com muitos tiques e poucos toques

Esta noite sonhei que as nossas empresas e demais organizações eram hi tech & human touch. Traduzido à letra: empresas tecnologicamente evoluídas mas de rosto humano. Ou trocado por miúdos: que eram capazes de conciliar três coisas que em princípio são (ou deveriam ser) compatíveis: (i) hardware, (ii) sofwtare e (iii) humanware.

As organizações são, antes de mais, (i) nas pessoas que lá trabalham, que connosco trabalham, (ii) além da memória dos que já partiram ou nos deixaram. Há um fenómeno de amnésia nas nossas organizações que me preocupa. O termo é soft. Mas eu não queria ir tão longe: chamar-lhe branqueamento da história, backout cultural, denegação sistemática do passado... Os actores organizacionais não tem memória, suportes de memória, lembranças, emoções. Onde estão os nossos pais fundadores, o que foi feito das pessoas-chaves que marcaram a história da nossa empresa, e por aí fora ?

Há dias um amigo meu fez um agradecimento especial aos seus colegas de trabalho, uma vez findo um projecto importante onde esteve envolvido com outros colaboradores. Segundo o e-mail que me mandou, o agradecimento rezava mais ou menos assim: "A palavra amizade nunca deve ser evocada em vão, mas eu sinto que posso falar para amigos, já que vocês são, para mim, mais do que simples colegas de trabalho. Espero que não considerem isto como um aproveitamento demagógico das circunstâncias, um abuso de autoridade ou até um excesso de familiariedade. Em resumo, eu gostaria de falar para vocês, como amigos que trabalham comigo, independentemente de eu ser líder do projecto, e independentemente dos cargos, funções ou tarefas de cada um de vós. Amigos de quem tenho recebido, ao longo destes anos todos, palavras e provas de carinho e de apoio, mas também críticas e conselhos que foram (e continuam a ser) importantes para o meu desenvolvimento pessoal e profissional, para o sucesso do nosso projecto e para o êxito da nossa empresa".

Percebo agora quão traumatizante pode ser, para a maioria dos trabalhadores assalariados (incluindo os gestores e os quadros superiores das empresas), a perda do seu emprego: para além de fonte de rendimento e de status, o trabalho é algo que faz parte do projecto de vida das pessoas, da sua história de vida, da sua rede de relações sociais, da sua identidade...

Só agora me dou conta de quanto as pessoas investem, em termos afectivos, no seu local de trabalho. Os portugas investem muito no seu local de trabalho, provavelmente muito mais do que recebem em troca. Não me refiro apenas ao seu valor acrescentado bruto, à riqueza (material) que criam... Daí que a perda do trabalho possa também representar, para muitos, a perda de afectos e até levar à depressão.

Há quinze ou vinte anos atrás, dizia um médico conhecido que os hospitais portugueses tinham muitos tiques e poucos taques (queria ele referir-se à TAC - Tumografia Axial Computorizada). Uma amiga minha evocava, há tempos, em conversa, o lema da sua antiga equipa de projecto noutra empresa: Não há tique sem toque, o que eu acho um feliz aportuguesamento do inglês Hi Tech, Human Touch.

Hoje quando milhões de portugas começarem a picar o ponto, logo pela manhã, nas empresas e demais organizações onde trabalham, é muito possível que a maioria deles pense, para com os seus botões, como é uma pena estar num sítio onde há muitos tiques e poucos toques... Os portugas que trabalham merecem muito melhor!

19 janeiro 2004

Humor com humor se paga - XIX: A política vista pelas criancinhas

Uma criancinha, de seis anos, pergunta ao pai o que é isso da política. O pai responde-lhe nestes termos:



- A política é uma palavra antiga que vem do grego e que quer dizer o governo da cidade... Como é que eu hei-de explicar-te melhor ? Vejamos o exemplo da nossa casa: Eu ando a ganhar a vida lá fora e trago dinheiro para sustentar a nossa família e garantir o futuro de todos nós, por isso represento o Capitalismo; a tua mãe gasta o dinheiro, faz as compras e cuida de todos nós, é o Governo cá da casa; o avozinho defende os interesses dos menos protegidos como tu, por isso é o Sindicato; a nossa criada que faz a lida doméstica, é a Classe Operária; tu representas o Povo e a gente só quer o tu bem; o teu irmaozinho, que ainda é muito pequenino e tem de ser muito acarinhado, representa o Futuro... Estás a agora a perceber ?



O miúdo fico confuso com tantos conceitos mas não fez mais perguntas e lá se foi deitar. Durante a noite acordou, com o choro do irmão que dormia no mesmo quarto. Foi ver, tinha a fralda toda suja de chichi e cocó. Como não sabia o que fazer, foi ter ao quarto dos pais. A mãe estava a dormir um sono profundo: depois de tomar a sua dose de Prozac, não havia ninguém que a conseguisse acordar, nem sequer o terramoto de 1755. Foi ao quarto da criada e encontrou-a na cama com o pai. Estavam tão ocupados e divertidos que não ouviram os protestos do puto. Quanto ao avô, que pesava mais de 90 Kg, esse ressonava como um porco e não era possível sequer abaná-lo.



Visto não ter outro remédio, a criancinha voltou para a sua cama, pôs a chucha no irmão e adormeceu.



De manhã, o pai, muito bem disposto, quis saber se ele já era capaz de explicar na próxima aula, por palavras simples, o que era isso da política. O miúdo respondeu que sim, que quando a professora lhe perguntasse, ele iria responder da seguinte maneira:



- O Capitalismo aproveita-se da Classe Operária; o Sindicato não vê nada nem protesta; o Governo dorme; ninguém liga ao Povo; e o Futuro é só merda e cheira mal...



PS - Obrigado à Paula por mais este "regalo" humorístico...

Humor com humor se paga - XIX: A política vista pelas criancinhas

Uma criancinha, de seis anos, pergunta ao pai o que é isso da política. O pai responde-lhe nestes termos:

- A política é uma palavra antiga que vem do grego e que quer dizer o governo da cidade... Como é que eu hei-de explicar-te melhor ? Vejamos o exemplo da nossa casa: Eu ando a ganhar a vida lá fora e trago dinheiro para sustentar a nossa família e garantir o futuro de todos nós, por isso represento o Capitalismo; a tua mãe gasta o dinheiro, faz as compras e cuida de todos nós, é o Governo cá da casa; o avozinho defende os interesses dos menos protegidos como tu, por isso é o Sindicato; a nossa criada que faz a lida doméstica, é a Classe Operária; tu representas o Povo e a gente só quer o tu bem; o teu irmaozinho, que ainda é muito pequenino e tem de ser muito acarinhado, representa o Futuro... Estás a agora a perceber ?

O miúdo fico confuso com tantos conceitos mas não fez mais perguntas e lá se foi deitar. Durante a noite acordou, com o choro do irmão que dormia no mesmo quarto. Foi ver, tinha a fralda toda suja de chichi e cocó. Como não sabia o que fazer, foi ter ao quarto dos pais. A mãe estava a dormir um sono profundo: depois de tomar a sua dose de Prozac, não havia ninguém que a conseguisse acordar, nem sequer o terramoto de 1755. Foi ao quarto da criada e encontrou-a na cama com o pai. Estavam tão ocupados e divertidos que não ouviram os protestos do puto. Quanto ao avô, que pesava mais de 90 Kg, esse ressonava como um porco e não era possível sequer abaná-lo.

Visto não ter outro remédio, a criancinha voltou para a sua cama, pôs a chucha no irmão e adormeceu.

De manhã, o pai, muito bem disposto, quis saber se ele já era capaz de explicar na próxima aula, por palavras simples, o que era isso da política. O miúdo respondeu que sim, que quando a professora lhe perguntasse, ele iria responder da seguinte maneira:

- O Capitalismo aproveita-se da Classe Operária; o Sindicato não vê nada nem protesta; o Governo dorme; ninguém liga ao Povo; e o Futuro é só merda e cheira mal...

PS - Obrigado à Paula por mais este "regalo" humorístico...

Estórias com mural ao fundo - XVIII: Estratégia(s)

Obrigado ao meu amigo Edmundo de Sá que me fez chegar esta história. Não é nova mas é ilustrativa do poder da palavra e da necessidade de (re)pensarmos as nossas estratégias de comunicação. Na saúde, na educação, na cultura, no desporto, nos negócios, na política e nas demais blogarias que nos consomem. Todos os dias. A todos nós, portugas.



Dei-lhe, como habitualmente, o meu toque pessoal. Como de costume, o resto dos direitos de autor pertence ao fundo comum da humanidade... Um abraço para o Edmundo e demais amigos de Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco". O Blogador.

________



Na Rua Augusta, em Lisboa, havia um cego a pedir esmola. A seus pés, no chão do passeio, um boné com meia dúzia de cêntimos e um pedaço de cartão onde se lia:

- Por favor, ajude-me, sou cego.



Um jovem que por aí passava, notou o fraco resultado do peditório, pegou num cartão maior que estava no lixo, puxou da sua caneta de feltro e escreveu uma outra mensagem. Substituiu o cartaz que estava aos pés do cego e foi-se embora sem ter proferido uma única palavra. À tarde quando voltou a passar ao pé do cego reparou que o seu boné estava cheio de moedas e até notas de euros.



O cego reconheceu-o pelo andar e perguntou-lhe que palavras milagrosas é que ele tinha escrito no novo cartaz.

- Nada de especial, meu amigo... Sabe, trabalho aqui ao lado como criativo numa agência publicitária. Vi o seu pedido e fiz um anúncio como se fosse para a televisão.



O jovem sorriu e continuou o seu caminho. O cego nunca chegou a saber ao certo o teor do novo cartaz, mas este dizia assim:

- Hoje é Primavera, e eu não posso vê-la.



Moral da história: Cego não é só quem não vê, mas também quem não tem uma estratégia de marketing e comunicação...

Estórias com mural ao fundo - XVIII: Estratégia(s)

Obrigado ao meu amigo Edmundo de Sá que me fez chegar esta história. Não é nova mas é ilustrativa do poder da palavra e da necessidade de (re)pensarmos as nossas estratégias de comunicação. Na saúde, na educação, na cultura, no desporto, nos negócios, na política e nas demais blogarias que nos consomem. Todos os dias. A todos nós, portugas.

Dei-lhe, como habitualmente, o meu toque pessoal. Como de costume, o resto dos direitos de autor pertence ao fundo comum da humanidade... Um abraço para o Edmundo e demais amigos de Vila Verde de Ficalho, a "aldeia sem tabaco". O Blogador.
________

Na Rua Augusta, em Lisboa, havia um cego a pedir esmola. A seus pés, no chão do passeio, um boné com meia dúzia de cêntimos e um pedaço de cartão onde se lia:
- Por favor, ajude-me, sou cego.

Um jovem que por aí passava, notou o fraco resultado do peditório, pegou num cartão maior que estava no lixo, puxou da sua caneta de feltro e escreveu uma outra mensagem. Substituiu o cartaz que estava aos pés do cego e foi-se embora sem ter proferido uma única palavra. À tarde quando voltou a passar ao pé do cego reparou que o seu boné estava cheio de moedas e até notas de euros.

O cego reconheceu-o pelo andar e perguntou-lhe que palavras milagrosas é que ele tinha escrito no novo cartaz.
- Nada de especial, meu amigo... Sabe, trabalho aqui ao lado como criativo numa agência publicitária. Vi o seu pedido e fiz um anúncio como se fosse para a televisão.

O jovem sorriu e continuou o seu caminho. O cego nunca chegou a saber ao certo o teor do novo cartaz, mas este dizia assim:
- Hoje é Primavera, e eu não posso vê-la.

Moral da história: Cego não é só quem não vê, mas também quem não tem uma estratégia de marketing e comunicação...

11 janeiro 2004

Blogantologia(s) - VI: O adeus às armas

A guerra acabou... E depois ?



A guerra acabou e depois

os avós contarão aos netos

tintim por tintim

como foi a última batalha de Bagdade

que não chegou a haver

mas que rimava com liberdade.



Ou não contarão e arrumarão as botas.

Que os netos têm jogos mais divertidos

no último modelo da sua playstation

e já não mais têm pachorra

para aturar os cotas.



De qualquer modo foi,

disse o repórter português,

a primeira das batalhas da história

transmitidas em directo.

Uma batalha anunciada

logo com princípio meio e fim,

como no jogo do xadrez.

Uma história das arábias

onde sobraram as espadas de deus

e dos homens faltaram as palavras sábias.



Lembras-te baby

tínhamos comprado pipocas

como no cinema do nosso bairro

de classe média arruinada.

Sentámo-nos no chão

entre camelos e beduínos

à espera da queda do Saddam.



Lembro-me como se fosse hoje

estavas meio pedrada

e nós éramos coleccionadores de quedas

a última fora a do muro de Berlim

em mil nove oitenta e nove.

Regámos com vodka e coca-cola

o começo do reich dos mil anos.



Depois os soldados regressarão a casa.

E casarão. E terão filhos que vão à escola.

Ou talvez não.

Os soldados proletários

mercenários voluntários patriotas.

Os bisnetos dos escravos

das plantações de algodão do sul.

Os filhos dos imigras

de várias raças credos e nações

do grande melting pot americano.

Na fotografia tinham um ar de idiotas

usavam grandes jeans

e chapéus à texano.



Eles guardarão a espingarda

e o capacete. No sótão.

E o canhão sem recuo no jardim em Miami.

E o cartão do Tio Sam:

I wanto you for U.S. Army!











Alguns morrerão.

Talvez de solidão. Ou de tédio.

Ou de falta de fé em Deus. Ou na Humanidade.

Ou em Deus e na Humanidade ao mesmo tempo.

Ou de stresse pós-traumático de guerra

como dizem hoje os psis.



Cacimbados dirias tu meu guinéu

que no tempo da guerra colonial

estava por inventar a palavra stresse.



Morrerrão simplesmente de solidão

como as carcassas dos tanques

nos jardins suspensos da Babilónia.

Não importa ou que importa

se um dia todos temos de morrer

de uma merda qualquer

de peste sida ébola

insolação raiva insónia

bê-esse-é pneumonia atípica

cancro gás mostarda

trombose ou aperto da aorta.



O repórter de serviço diz na Têvê do Berlusconi

que esta foi a última campanha de caça

ao leão da Mesopotâmia.

Ou da Abissínia tanto faz

que o Berlusconi caga na geografia

agora com as auto-estradas da globalização.

Estranho: eu imaginava-o extinto

na época dos últimos glaciares. ao leão.



Ah! se eu não fosse um sem-abrigo

se eu não fosse um desertor da guerra colonial

se eu fosse poeta proactivo

um repórter reformado da guerra fria

com pensão cama e roupa lavada

um gajo decente com sensibilidade social

eu escreveria um grafito

no meu epitáfio no meu bunker:

Maomé meu profeta meu irmão

Estive em Badgade. Não vi nada.

Não rezei na tua mesquita azul.

Não rezei por ti nem por mim nem por nós.

Apenas tive pena do teu povo do islão

curdos xiitas sunitas árabes

e todos os outros filhos bastardos de Abraão.



Mais te direi por e-mail

que morri com um estilhaço de granada.

A meu lado um capitão dos marines

afogou-se num poço de petróleo

coberto com a bandeira dos Steites.

Era um caixa de óculos como o O’Neil

poeta portuga obscuro

que nem para contínuo serviu

do Ministério dos Negócios Estrangeiros.



Mas hão-de morrer mais.

Conta até mil e lê o jornal.

É a astróloga do ano que tudo viu

na sua bola de cristal.

Italianos dos carabineiros

espanhóis da secreta

espiões do efbiai

judeus errantes da diáspora

portugas de goa damão e diu.



Tudo por causa de um homem-bomba

que foi visto visto a sobrevoar

a Estátua da Liberdade Agrilhoada.



Mas agora és tu private Jessica Lynch

baby-doll em camuflado

a nova namoradinha

dos tele-espectadores globais.

Ou por breves instantes foste

a heroína. a heroinazinha.

Que a fama e a glória são

deusas avaras e cruéis.



Quiçá na próxima guerra te verei

ao serviço da bandeira da CNN

ou doutro xogum qualquer dos mass media

embeded com os bravos da mítica 7ª cavalaria.



No país do show business

das fábricas de sonhos e de fadas

e em que o sucesso é a medida de todas as coisas

está tudo a condizer.

Tu estás a condizer minha jóia

o Carlos Fino está a condizer.

Mais o pobre ministro da propaganda

de seu nome Mohamed Saeed al-Sahaf

que resistiu com um microfone na mão.

A GNR dos portugas em Nassíria está a condizer.

No tempo em que eramos todos telegénicos

Até o Bush my friend George , caraças!,

por deus e pelo diabo ladeado

segurava um perú de plástico

no dia de Acção de Graças.



Tu my darling minha querida

ouvi dizer que és filha

de um condutor de camião.

Uma heroína do povo sem pedigree

escriturária amanuense

anjo da guarda

carinha larocas de teen-ager

de uma qualquer terra saloia estado-unidense.

Ferida em combate por engano

sorry que numa lady americana

não se bate diz o puro sangue árabe.



Baleada mas logo resgatada

que um camarada morto ou ferido

nunca se deixa atrás

das linhas do fogo inimigo.

Muito menos já se vê

num hospital de retaguarda do eixo do mal,

diz o Pentágono.



Li nos jornais que acumulo no WC

que já te ofereceram um milhão

(de dólares entenda-se).

Queriam fazer um filme

com a história da tua vida

de heroína por equívoco.

Tu que só tens 19 anos. Não mais.

E já tanto (ou tão pouco) para contar.



Perdi-te o rasto, meu amor,

nas voltas que o mundo dá.

A guerra acabou.

O problema agora é de polícia

e do homem-bomba

ou da mulher do tchador

Adeus querida

adeus às armas

adeus Iraque.



E depois ?

Bem depois é amanhã

não há azar.

E amanhã há mais

cantemos o hino.

A vida pode parar

a vida pode esperar

a vida pode até perder-se.

O espectáculo é que não, my God!

O espectáculo esse tem de continuar.



Vou ter saudades do Carlos Fino.



Publicado originalmente em 14.4.2003 por L.G. em Fóruns do Publico.pt > Cidadania > Poesia contra a guerra. Nova edição aumentada, revista, melhorada e actualizada.



Blogantologia(s) - VI: O adeus às armas

A guerra acabou... E depois ?

A guerra acabou e depois
os avós contarão aos netos
tintim por tintim
como foi a última batalha de Bagdade
que não chegou a haver
mas que rimava com liberdade.

Ou não contarão e arrumarão as botas.
Que os netos têm jogos mais divertidos
no último modelo da sua playstation
e já não mais têm pachorra
para aturar os cotas.

De qualquer modo foi,
disse o repórter português,
a primeira das batalhas da história
transmitidas em directo.
Uma batalha anunciada
logo com princípio meio e fim,
como no jogo do xadrez.
Uma história das arábias
onde sobraram as espadas de deus
e dos homens faltaram as palavras sábias.

Lembras-te baby
tínhamos comprado pipocas
como no cinema do nosso bairro
de classe média arruinada.
Sentámo-nos no chão
entre camelos e beduínos
à espera da queda do Saddam.

Lembro-me como se fosse hoje
estavas meio pedrada
e nós éramos coleccionadores de quedas
a última fora a do muro de Berlim
em mil nove oitenta e nove.
Regámos com vodka e coca-cola
o começo do reich dos mil anos.

Depois os soldados regressarão a casa.
E casarão. E terão filhos que vão à escola.
Ou talvez não.
Os soldados proletários
mercenários voluntários patriotas.
Os bisnetos dos escravos
das plantações de algodão do sul.
Os filhos dos imigras
de várias raças credos e nações
do grande melting pot americano.
Na fotografia tinham um ar de idiotas
usavam grandes jeans
e chapéus à texano.

Eles guardarão a espingarda
e o capacete. No sótão.
E o canhão sem recuo no jardim em Miami.
E o cartão do Tio Sam:
I wanto you for U.S. Army!





Alguns morrerão.
Talvez de solidão. Ou de tédio.
Ou de falta de fé em Deus. Ou na Humanidade.
Ou em Deus e na Humanidade ao mesmo tempo.
Ou de stresse pós-traumático de guerra
como dizem hoje os psis.

Cacimbados dirias tu meu guinéu
que no tempo da guerra colonial
estava por inventar a palavra stresse.

Morrerrão simplesmente de solidão
como as carcassas dos tanques
nos jardins suspensos da Babilónia.
Não importa ou que importa
se um dia todos temos de morrer
de uma merda qualquer
de peste sida ébola
insolação raiva insónia
bê-esse-é pneumonia atípica
cancro gás mostarda
trombose ou aperto da aorta.

O repórter de serviço diz na Têvê do Berlusconi
que esta foi a última campanha de caça
ao leão da Mesopotâmia.
Ou da Abissínia tanto faz
que o Berlusconi caga na geografia
agora com as auto-estradas da globalização.
Estranho: eu imaginava-o extinto
na época dos últimos glaciares. ao leão.

Ah! se eu não fosse um sem-abrigo
se eu não fosse um desertor da guerra colonial
se eu fosse poeta proactivo
um repórter reformado da guerra fria
com pensão cama e roupa lavada
um gajo decente com sensibilidade social
eu escreveria um grafito
no meu epitáfio no meu bunker:
Maomé meu profeta meu irmão
Estive em Badgade. Não vi nada.
Não rezei na tua mesquita azul.
Não rezei por ti nem por mim nem por nós.
Apenas tive pena do teu povo do islão
curdos xiitas sunitas árabes
e todos os outros filhos bastardos de Abraão.

Mais te direi por e-mail
que morri com um estilhaço de granada.
A meu lado um capitão dos marines
afogou-se num poço de petróleo
coberto com a bandeira dos Steites.
Era um caixa de óculos como o O’Neil
poeta portuga obscuro
que nem para contínuo serviu
do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Mas hão-de morrer mais.
Conta até mil e lê o jornal.
É a astróloga do ano que tudo viu
na sua bola de cristal.
Italianos dos carabineiros
espanhóis da secreta
espiões do efbiai
judeus errantes da diáspora
portugas de goa damão e diu.

Tudo por causa de um homem-bomba
que foi visto visto a sobrevoar
a Estátua da Liberdade Agrilhoada.

Mas agora és tu private Jessica Lynch
baby-doll em camuflado
a nova namoradinha
dos tele-espectadores globais.
Ou por breves instantes foste
a heroína. a heroinazinha.
Que a fama e a glória são
deusas avaras e cruéis.

Quiçá na próxima guerra te verei
ao serviço da bandeira da CNN
ou doutro xogum qualquer dos mass media
embeded com os bravos da mítica 7ª cavalaria.

No país do show business
das fábricas de sonhos e de fadas
e em que o sucesso é a medida de todas as coisas
está tudo a condizer.
Tu estás a condizer minha jóia
o Carlos Fino está a condizer.
Mais o pobre ministro da propaganda
de seu nome Mohamed Saeed al-Sahaf
que resistiu com um microfone na mão.
A GNR dos portugas em Nassíria está a condizer.
No tempo em que eramos todos telegénicos
Até o Bush my friend George , caraças!,
por deus e pelo diabo ladeado
segurava um perú de plástico
no dia de Acção de Graças.

Tu my darling minha querida
ouvi dizer que és filha
de um condutor de camião.
Uma heroína do povo sem pedigree
escriturária amanuense
anjo da guarda
carinha larocas de teen-ager
de uma qualquer terra saloia estado-unidense.
Ferida em combate por engano
sorry que numa lady americana
não se bate diz o puro sangue árabe.

Baleada mas logo resgatada
que um camarada morto ou ferido
nunca se deixa atrás
das linhas do fogo inimigo.
Muito menos já se vê
num hospital de retaguarda do eixo do mal,
diz o Pentágono.

Li nos jornais que acumulo no WC
que já te ofereceram um milhão
(de dólares entenda-se).
Queriam fazer um filme
com a história da tua vida
de heroína por equívoco.
Tu que só tens 19 anos. Não mais.
E já tanto (ou tão pouco) para contar.

Perdi-te o rasto, meu amor,
nas voltas que o mundo dá.
A guerra acabou.
O problema agora é de polícia
e do homem-bomba
ou da mulher do tchador
Adeus querida
adeus às armas
adeus Iraque.

E depois ?
Bem depois é amanhã
não há azar.
E amanhã há mais
cantemos o hino.
A vida pode parar
a vida pode esperar
a vida pode até perder-se.
O espectáculo é que não, my God!
O espectáculo esse tem de continuar.

Vou ter saudades do Carlos Fino.

Publicado originalmente em 14.4.2003 por L.G. em Fóruns do Publico.pt > Cidadania > Poesia contra a guerra. Nova edição aumentada, revista, melhorada e actualizada.

10 janeiro 2004

Humor com humor se paga - XVIII: Humor negro num país de cegos e amblíopes

Na sequência da nova política do Governo que veio impor às empresas uma quota de emprego para deficientes, a TAP Air Portugal admitiu vários cegos, dando provas, mais uma vez, de ser uma empresa com grande sentido de responsabilidade social.



Agora é frequente ver-se nos nossos aeroportos os pilotos a dirigirem-se para o avião, com óculos escuros, bengala branca, trela e cão.



Esta cena repetiu-se há dias no Funchal. Os passageiros, que não estavam informados da situação, dividiram-se: (i) uns apreciaram e até aplaudiram o sentido de humor do comandante e do seu co-piloto; (ii) outros tiveram um ataque de pânico, quando o aparelho começou a descolar...



O pânico generalizou-se quando os passageiros se aperceberam que o avião estava prestes a chegar ao fim da pista. Um grito de horror foi solto, em uníssono. Nesse preciso momento, e como por milagre, o avião acabou por ganhar altura e voar. Foi então que o co-piloto disse para o comandante:



- ... da-se, já pensaste que, se um dia destes os gajos não gritam, vamos mesmo parar ao charco ?!



Moral da história: É sempre bom a gente gritar...

Humor com humor se paga - XVIII: Humor negro num país de cegos e amblíopes

Na sequência da nova política do Governo que veio impor às empresas uma quota de emprego para deficientes, a TAP Air Portugal admitiu vários cegos, dando provas, mais uma vez, de ser uma empresa com grande sentido de responsabilidade social.

Agora é frequente ver-se nos nossos aeroportos os pilotos a dirigirem-se para o avião, com óculos escuros, bengala branca, trela e cão.

Esta cena repetiu-se há dias no Funchal. Os passageiros, que não estavam informados da situação, dividiram-se: (i) uns apreciaram e até aplaudiram o sentido de humor do comandante e do seu co-piloto; (ii) outros tiveram um ataque de pânico, quando o aparelho começou a descolar...

O pânico generalizou-se quando os passageiros se aperceberam que o avião estava prestes a chegar ao fim da pista. Um grito de horror foi solto, em uníssono. Nesse preciso momento, e como por milagre, o avião acabou por ganhar altura e voar. Foi então que o co-piloto disse para o comandante:

- ... da-se, já pensaste que, se um dia destes os gajos não gritam, vamos mesmo parar ao charco ?!

Moral da história: É sempre bom a gente gritar...