10 fevereiro 2004

Socio(b)logia - VII: A nossa língua quase comum: a propósito do pimba e do brega

Se o Portugal S. A. quer dizer Portugal Sociedade Anal, então o que dizer destes cabras ? Se nós, com 800 anos de evolução, ainda hoje estamos na fase anal, então eles, com menos de 200, ainda deveriam estar na fase oral...



O Brasil tem fama de infantilizar os cabras que para lá vão... Mas o Zé Portuga adora este jeitinho de falar do moleque... Tenho trocado correspondência com uma amiga minha que foi passar uma temporada ao Brasil com o filho (portuga) e os netos (brazucas)... O último e-mail que recebi dela começava assim: "Olá, galera, tudo bem ? Por aqui tudo xou!"...



Bem razão tem o Jô Soares quando fala da nossa língua quase comum... Tem-se dito e escrito muito sobre a criatividade do brasileiro que todos os dias reinventaria o português... O exemplo que hoje vos deixo deveria figurar em próxima antologia luso-brasileira do pimba e do brega...



Obrigado ao nosso ciberfornecedor de hoje, o Hugo Rolim... É pena não poderem ligar o som e ouvir, deliciados, este I Love you tonight .Trata-se de uma canção com direitos de autor (Falcão/Rodrigo Santoro/Marcos Romera). ...



Na realidade, Falcão é o Quim Barreiros brasileiro, é um cantor e compositor do Ceará que surgiu no iníco da década de 90, com (re)leituras satíricas da música brega, utilizando o inglês macarrónico e dando espectáculos marcados pela teatralidade e a provocação. Houve quem lhe chamasse o "rei da breguice existencial e intelectualizada" que verteu para o inglês canções como Fuscão Preto e Eu Não Sou Cachorro Não.



Um dos seus discos mais populares foi A um Passo da MPB (1997), título irónico ou até mesmo provocador. É desse álbum a letra e a música do I love you que aqui reproduzo (para efeitos meramente didácticos, não-comerciais, entenda-se).



O género brega continua a ser muito popular no Brasil e a vender discos (muitos). Tal como cá o género pimba, seu primo. No Brasil, em Portugal e em toda a parte. Seria interessante especular porquê, nesta era da grande globalização. Cultura de massas versus cultura das elites ? Subcultura popular versus subcultura erudita ? Culutura local versus cultura global ? A propósito, alguém chamou à MPB (Música Popular Brasileira) a casa grande e ao brega a sanzala... Mas Falcão, o rei do brega (e parece que há muitos mais no país de Caetano), defende que mais vale ser brega ou cafona (pimba) do que parecer chique, não o sendo nem o podendo ser... O povão é brega porque não pode ser chique (vd. entrevista recente do cara).



I love você

e sei que você

também love mim.



I love you...

E quero receber

o que você prometeu

only para eu.



Only for you...



Se não for assim,

é melhor para mim

ficar sem ver tu.

I need you...

Pois esse seu jeitin

me deixa doidin,

doidin for you



Refrão:



I love you...

I love you tonighti

tonight ... tonight

I love you tonighti

tonight ... tonight

I love you tonighti

tonight ... tonight



I love you tumatchi

I love seu corpinho

I love seu umbiguinho

I love seu pézinho

I love seus cabelinho

I love seu pescocinho

and I love seu buchinho.



chuchuchurá...



I love seu rostinho

I love seu sovaquinho

I love seu olhinhos

I love sua bochechinha

I love sua bundinha

and I love you todinha



Refrão (...).



Socio(b)logia - VII: A nossa língua quase comum: a propósito do pimba e do brega

Se o Portugal S. A. quer dizer Portugal Sociedade Anal, então o que dizer destes cabras ? Se nós, com 800 anos de evolução, ainda hoje estamos na fase anal, então eles, com menos de 200, ainda deveriam estar na fase oral...

O Brasil tem fama de infantilizar os cabras que para lá vão... Mas o Zé Portuga adora este jeitinho de falar do moleque... Tenho trocado correspondência com uma amiga minha que foi passar uma temporada ao Brasil com o filho (portuga) e os netos (brazucas)... O último e-mail que recebi dela começava assim: "Olá, galera, tudo bem ? Por aqui tudo xou!"...

Bem razão tem o Jô Soares quando fala da nossa língua quase comum... Tem-se dito e escrito muito sobre a criatividade do brasileiro que todos os dias reinventaria o português... O exemplo que hoje vos deixo deveria figurar em próxima antologia luso-brasileira do pimba e do brega...

Obrigado ao nosso ciberfornecedor de hoje, o Hugo Rolim... É pena não poderem ligar o som e ouvir, deliciados, este I Love you tonight .Trata-se de uma canção com direitos de autor (Falcão/Rodrigo Santoro/Marcos Romera). ...

Na realidade, Falcão é o Quim Barreiros brasileiro, é um cantor e compositor do Ceará que surgiu no iníco da década de 90, com (re)leituras satíricas da música brega, utilizando o inglês macarrónico e dando espectáculos marcados pela teatralidade e a provocação. Houve quem lhe chamasse o "rei da breguice existencial e intelectualizada" que verteu para o inglês canções como Fuscão Preto e Eu Não Sou Cachorro Não.

Um dos seus discos mais populares foi A um Passo da MPB (1997), título irónico ou até mesmo provocador. É desse álbum a letra e a música do I love you que aqui reproduzo (para efeitos meramente didácticos, não-comerciais, entenda-se).

O género brega continua a ser muito popular no Brasil e a vender discos (muitos). Tal como cá o género pimba, seu primo. No Brasil, em Portugal e em toda a parte. Seria interessante especular porquê, nesta era da grande globalização. Cultura de massas versus cultura das elites ? Subcultura popular versus subcultura erudita ? Culutura local versus cultura global ? A propósito, alguém chamou à MPB (Música Popular Brasileira) a casa grande e ao brega a sanzala... Mas Falcão, o rei do brega (e parece que há muitos mais no país de Caetano), defende que mais vale ser brega ou cafona (pimba) do que parecer chique, não o sendo nem o podendo ser... O povão é brega porque não pode ser chique (vd. entrevista recente do cara).

I love você
e sei que você
também love mim.

I love you...
E quero receber
o que você prometeu
only para eu.

Only for you...

Se não for assim,
é melhor para mim
ficar sem ver tu.
I need you...
Pois esse seu jeitin
me deixa doidin,
doidin for you

Refrão:

I love you...
I love you tonighti
tonight ... tonight
I love you tonighti
tonight ... tonight
I love you tonighti
tonight ... tonight

I love you tumatchi
I love seu corpinho
I love seu umbiguinho
I love seu pézinho
I love seus cabelinho
I love seu pescocinho
and I love seu buchinho.

chuchuchurá...

I love seu rostinho
I love seu sovaquinho
I love seu olhinhos
I love sua bochechinha
I love sua bundinha
and I love you todinha

Refrão (...).

Socio(b)logia - VI: Portugal S(ociedade) A(nal)

Não sei se o Zé Portuga tem um apurado sentido de humor (crítico), ou se é apenas o eterno espectador (passivo) da queda dos anjos, dos mitos, dos heróis, dos poderosos, dos reis e das rainhas...



Quando há sangue, ou cheiro a sangue, ele é sempre o primeiro a parecer na primeira fila dos espectadores que se juntam em redor do cadafalso ou da fogueira... Acontece em todo o lado e em todas as épocas. Hoje como no tempo da Santa Inquisição, há sempre figurantes em número suficiente para enquadrar e dignificar o espectáculo.



Será que este é um traço de crueldade da personalidade do Zé Povinho, ou apenas a sabedoria (milenar) de que (i) o poder é volátil, que (ii) a glória do mundo passa, que (iii) a revolução engole os seus filhos, que (iv) a fúria justiceira é como um vulcão adormecido, que (v) a vida é um suplício de Sísifo, que (vi) quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão, etc. ?!



Enfim, deixemo-nos de sociologia espontânea, e debrucemo-nos sobre a fotomontagem que circula pela Net e em que aparecem os principais implicados no caso Casa Pia, em lugar dos personagens do Senhor dos Anéis. Trata-se de uma paródia e de um trocadilho: Senhor dos Anais, Sociedade Anal...



Não o reproduzo aqui o boneco por razões éticas, de bom senso e de bom gosto: as pessoas em causa, conhecidas figuras públicas, embora acusadas de vários crimes, estão inocentes até prova em contrário, ou seja, até à sentença transitada em julgado (tenho aprendido umas coisas com esta sobre-exposição mediática da Senhora Justiça, Cega-Surda-E-Muda)... Mas é caso para o Blogador perguntar se o Portugal S. A. em que hoje vivemos não quer dizer justamente Portugal Sociedade Anal ?



É capaz de ser uma boa pergunta, não tanto para os os historiadores, os etnopsiquiatras, os antropólogos ou os sociólogos, como sobretudo para os economistas, empresários, gestores e académicos que hoje se reunem no convento do Beato para mais um exercício (colectivo) de purga e sangria...



Acontece que no capítulo do encarniçamento terapêutico, tem uma fraca reputação: "Em Lisboa nem sangria má nem purga boa"!, já lá diz o provérbio antigo.

Socio(b)logia - VI: Portugal S(ociedade) A(nal)

Não sei se o Zé Portuga tem um apurado sentido de humor (crítico), ou se é apenas o eterno espectador (passivo) da queda dos anjos, dos mitos, dos heróis, dos poderosos, dos reis e das rainhas...

Quando há sangue, ou cheiro a sangue, ele é sempre o primeiro a parecer na primeira fila dos espectadores que se juntam em redor do cadafalso ou da fogueira... Acontece em todo o lado e em todas as épocas. Hoje como no tempo da Santa Inquisição, há sempre figurantes em número suficiente para enquadrar e dignificar o espectáculo.

Será que este é um traço de crueldade da personalidade do Zé Povinho, ou apenas a sabedoria (milenar) de que (i) o poder é volátil, que (ii) a glória do mundo passa, que (iii) a revolução engole os seus filhos, que (iv) a fúria justiceira é como um vulcão adormecido, que (v) a vida é um suplício de Sísifo, que (vi) quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão, etc. ?!

Enfim, deixemo-nos de sociologia espontânea, e debrucemo-nos sobre a fotomontagem que circula pela Net e em que aparecem os principais implicados no caso Casa Pia, em lugar dos personagens do Senhor dos Anéis. Trata-se de uma paródia e de um trocadilho: Senhor dos Anais, Sociedade Anal...

Não o reproduzo aqui o boneco por razões éticas, de bom senso e de bom gosto: as pessoas em causa, conhecidas figuras públicas, embora acusadas de vários crimes, estão inocentes até prova em contrário, ou seja, até à sentença transitada em julgado (tenho aprendido umas coisas com esta sobre-exposição mediática da Senhora Justiça, Cega-Surda-E-Muda)... Mas é caso para o Blogador perguntar se o Portugal S. A. em que hoje vivemos não quer dizer justamente Portugal Sociedade Anal ?

É capaz de ser uma boa pergunta, não tanto para os os historiadores, os etnopsiquiatras, os antropólogos ou os sociólogos, como sobretudo para os economistas, empresários, gestores e académicos que hoje se reunem no convento do Beato para mais um exercício (colectivo) de purga e sangria...

Acontece que no capítulo do encarniçamento terapêutico, tem uma fraca reputação: "Em Lisboa nem sangria má nem purga boa"!, já lá diz o provérbio antigo.

09 fevereiro 2004

Humor com humor se paga - XXII: Deus (ou o Bin Laden) também sabe escrever direito por linhas tortas ?!

O humor (negro) à volta do dia que mudou o mundo, não pára de crescer. É uma forma de, tal como os índios da Amazónia fazem com os demónios da floresta, exorcizarmos os nossos medos, fantasmas e angústias (A propósito, não percam a exposição temporária sobre as máscaras e outros artefactos culturais dos Wauja, um povo do Parque Indígena do Xingu, Brasil, no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, inaugurada em finais de Janeiro de 2004).



Talvez um dia alguém se debruce sobre esses materiais menos nobres da cultura e da comunicação entre os humanos, que são as anedotas, com a mesma curiosidade e espírito científico com que o etnólogo alemão Karl von den Stein , em 1884 e 1887, descobriu e estudou os Wauja e outros povos do Alto Xingu.

_______



Na manhã do fatídico dia 11 de Setembro de 2001, há um executivo que se despede, como habitualmente, da sua querida esposa e vai para o escritório da sua sociedade financeira, sito no 85º andar de uma das torres gémeas do World Trade Center.



No meio do congestionado trânsito novo-iorquino, ele resolve mudar de ideias e segue para casa da amante. Uma vez na cama, com a sua nova girlfriend, desligou o telemóvel para não ser incomodado...



Por volta das onze e picos, voltou a vestir-se, ligou o telemóvel e dirigiu-se ao carro. Mal se sentou ao volante, recebeu uma chamada. Era a esposa, a legítima, em pânico...

- Finalmente, My God!!! Tu estás bem, darling ? !... Diz-me onde é que estás!

- Estou óptiimo, querida. Estou aqui no escritório, a tomar um cafezinho e com a Big Apple a meus pés, mais deslumbrante do que nunca ... Mas porquê ? Aconteceu alguma coisa ?



Moral da história (privada): Mais tarde, ainda não refeito do susto ao saber das trágicas notícias, o nosso executivo, reconstituiu o filme da manhã desse dia, e concluiu que Deus (ou o Bin Laden) também sabe escrever direito por linhas tortas...



Dizem que o nosso homem teve uma crise mística, acabou por se converter ao Islão e, com o dinheiro que recebeu do seguro pela destruição do seu escritório, fundou uma comunidade religiosa algures na América profunda e evangelista.



PS – Obrigado ao António P.L. que me enviou uma primeira versão da anedota.

Humor com humor se paga - XXII: Deus (ou o Bin Laden) também sabe escrever direito por linhas tortas ?!

O humor (negro) à volta do dia que mudou o mundo, não pára de crescer. É uma forma de, tal como os índios da Amazónia fazem com os demónios da floresta, exorcizarmos os nossos medos, fantasmas e angústias (A propósito, não percam a exposição temporária sobre as máscaras e outros artefactos culturais dos Wauja, um povo do Parque Indígena do Xingu, Brasil, no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, inaugurada em finais de Janeiro de 2004).

Talvez um dia alguém se debruce sobre esses materiais menos nobres da cultura e da comunicação entre os humanos, que são as anedotas, com a mesma curiosidade e espírito científico com que o etnólogo alemão Karl von den Stein , em 1884 e 1887, descobriu e estudou os Wauja e outros povos do Alto Xingu.
_______

Na manhã do fatídico dia 11 de Setembro de 2001, há um executivo que se despede, como habitualmente, da sua querida esposa e vai para o escritório da sua sociedade financeira, sito no 85º andar de uma das torres gémeas do World Trade Center.

No meio do congestionado trânsito novo-iorquino, ele resolve mudar de ideias e segue para casa da amante. Uma vez na cama, com a sua nova girlfriend, desligou o telemóvel para não ser incomodado...

Por volta das onze e picos, voltou a vestir-se, ligou o telemóvel e dirigiu-se ao carro. Mal se sentou ao volante, recebeu uma chamada. Era a esposa, a legítima, em pânico...
- Finalmente, My God!!! Tu estás bem, darling ? !... Diz-me onde é que estás!
- Estou óptiimo, querida. Estou aqui no escritório, a tomar um cafezinho e com a Big Apple a meus pés, mais deslumbrante do que nunca ... Mas porquê ? Aconteceu alguma coisa ?

Moral da história (privada): Mais tarde, ainda não refeito do susto ao saber das trágicas notícias, o nosso executivo, reconstituiu o filme da manhã desse dia, e concluiu que Deus (ou o Bin Laden) também sabe escrever direito por linhas tortas...

Dizem que o nosso homem teve uma crise mística, acabou por se converter ao Islão e, com o dinheiro que recebeu do seguro pela destruição do seu escritório, fundou uma comunidade religiosa algures na América profunda e evangelista.

PS – Obrigado ao António P.L. que me enviou uma primeira versão da anedota.

06 fevereiro 2004

Humor com humor se paga - XXI: O humor light e amarelo

Até o humor em Portugal agora é light e amarelo. E ao fim de semana condiz com céu carregado, horizontes curtos, pensamentos baixos e emoções poucas (ou nenhumas)... Em boa verdade, o humor nacional está como o país, está de tanga (o nosso primeiro dixit)... O melhor que eu, Blogador, posso fazer é pedir-vos o favor de dar viagra ao astral, ao individual e ao colectivo...



Ainda por cima a banda (larga) está mais para o estreito do que para o largo... Eu saí da Netcabo para me meter nas mãos de outros mafiosos, o Clix ADSL Turbo... Agora armam-se em vítimas e pedem a solidariedade dos clientes contra a toda poderosa PT. Mas esta guerra não é minha...



As melhoras para o António P. L. que também faz parte desta anónima lista de ciberamig@s bem humorad@s e que vai passar este fim de semana no hospital, sem tocar no teclado!... (Como é possível, com esta nossa crescente ciberdependência ?). Coitado: nem sequer os cacilheiros vai poder ver da janela do 7º piso com vista para o Real Estuário do Tejo, uma das nossas últimas jóias da Coroa... O António vai tentar enfiar a banda (a outra, a da milagrosa cura do emagrecimento) pelo bucho abaixo. Para ver se perde uns quilos e poupa o coração e o orçamento.



Os seus amigos só podem desejar-lhe que regresse rápido, são e salvo, que hoje em dia é uma aventura ir para uma Hospital S. A. Sabe-se como se entra, nunca se sabe como se sai...



Em honra dele, e graças à Paula C., outra das nossas ciberfornecedores da nossa loja dos bons humores, aqui vai um peça de humor light e amarelo:



Ontem, quinta-feira, o meu chefe chamou um dos nossos colegas de escritório (um daqueles que ele tem um especial prazer sádico em assediar) e disse-lhe:



- Oiça lá, ó Zé António, aposto que este fim de semana você gostaria de me ver morto e bem morto, só para cuspir em cima do meu caixão e calcar o meu cadáver aos seus pés!

- Nem por isso, ó Chefe. Sabe, detesto estar horas e horas na bicha.



Dizem que o homem ficou branco como a cal da parede...

Humor com humor se paga - XXI: O humor light e amarelo

Até o humor em Portugal agora é light e amarelo. E ao fim de semana condiz com céu carregado, horizontes curtos, pensamentos baixos e emoções poucas (ou nenhumas)... Em boa verdade, o humor nacional está como o país, está de tanga (o nosso primeiro dixit)... O melhor que eu, Blogador, posso fazer é pedir-vos o favor de dar viagra ao astral, ao individual e ao colectivo...

Ainda por cima a banda (larga) está mais para o estreito do que para o largo... Eu saí da Netcabo para me meter nas mãos de outros mafiosos, o Clix ADSL Turbo... Agora armam-se em vítimas e pedem a solidariedade dos clientes contra a toda poderosa PT. Mas esta guerra não é minha...

As melhoras para o António P. L. que também faz parte desta anónima lista de ciberamig@s bem humorad@s e que vai passar este fim de semana no hospital, sem tocar no teclado!... (Como é possível, com esta nossa crescente ciberdependência ?). Coitado: nem sequer os cacilheiros vai poder ver da janela do 7º piso com vista para o Real Estuário do Tejo, uma das nossas últimas jóias da Coroa... O António vai tentar enfiar a banda (a outra, a da milagrosa cura do emagrecimento) pelo bucho abaixo. Para ver se perde uns quilos e poupa o coração e o orçamento.

Os seus amigos só podem desejar-lhe que regresse rápido, são e salvo, que hoje em dia é uma aventura ir para uma Hospital S. A. Sabe-se como se entra, nunca se sabe como se sai...

Em honra dele, e graças à Paula C., outra das nossas ciberfornecedores da nossa loja dos bons humores, aqui vai um peça de humor light e amarelo:

Ontem, quinta-feira, o meu chefe chamou um dos nossos colegas de escritório (um daqueles que ele tem um especial prazer sádico em assediar) e disse-lhe:

- Oiça lá, ó Zé António, aposto que este fim de semana você gostaria de me ver morto e bem morto, só para cuspir em cima do meu caixão e calcar o meu cadáver aos seus pés!
- Nem por isso, ó Chefe. Sabe, detesto estar horas e horas na bicha.

Dizem que o homem ficou branco como a cal da parede...

05 fevereiro 2004

Portugal sacro-profano - XIV: Grande poeta é o Zé Portuga

A frase banalizou-se no tempo do Estado Novo, quando a recém nascida RTP tinha um concurso, nos idos tempos de 1967/68, de triste memória para mim (mancebo, em idade militar), que dava justamente pelo título de Grande Poeta é o Povo. Um programa, se bem me lembro, apresentado pelo Artur Agostinho.



Ora ainda hoje dizem que ele (o Zé Portuga), já na escola não gostava nem de português nem de matemática !!! Eu acho que não, a avaliar por este naco de poesia e de matemática, do melhor quilate, que me chegou às mãos:



Quem 60 ao teu lado

e 70 por ti,

vai certamente rezar 1/3

para arranjar 1/2 de te levar

para 1/4

e ter a coragem de te dizer:

20 comer!!!




Se fosse um poeta da nossa praça, consagrado, cota, chato pra burro, com assento na História da Literatura dos Portugas, ele escreveria assim na soletradíssima língua de Camões:



Quem se senta ao teu lado

e se tenta por ti

vai certamente rezar um terço

para arranjar um meio de te levar

para um quarto

e ter a coragem de te dizer:

vim-te comer!




Bem lidas e vistas as coisas, não há povo como o portuga para mandar a sua rima, o seu verso, a sua quadra ou até o seu soneto à parede. Aliás, basta ver as paredes de Lisboa & arredores, pintadas de fresco a seguir a um jogo da bola entre os grandes.

Portugal sacro-profano - XIV: Grande poeta é o Zé Portuga

A frase banalizou-se no tempo do Estado Novo, quando a recém nascida RTP tinha um concurso, nos idos tempos de 1967/68, de triste memória para mim (mancebo, em idade militar), que dava justamente pelo título de Grande Poeta é o Povo. Um programa, se bem me lembro, apresentado pelo Artur Agostinho.

Ora ainda hoje dizem que ele (o Zé Portuga), já na escola não gostava nem de português nem de matemática !!! Eu acho que não, a avaliar por este naco de poesia e de matemática, do melhor quilate, que me chegou às mãos:

Quem 60 ao teu lado
e 70 por ti,
vai certamente rezar 1/3
para arranjar 1/2 de te levar
para 1/4
e ter a coragem de te dizer:
20 comer!!!


Se fosse um poeta da nossa praça, consagrado, cota, chato pra burro, com assento na História da Literatura dos Portugas, ele escreveria assim na soletradíssima língua de Camões:

Quem se senta ao teu lado
e se tenta por ti
vai certamente rezar um terço
para arranjar um meio de te levar
para um quarto
e ter a coragem de te dizer:
vim-te comer!


Bem lidas e vistas as coisas, não há povo como o portuga para mandar a sua rima, o seu verso, a sua quadra ou até o seu soneto à parede. Aliás, basta ver as paredes de Lisboa & arredores, pintadas de fresco a seguir a um jogo da bola entre os grandes.

02 fevereiro 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - V: O GEAL - Museu da Lourinhã

Eles são o Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã (GEAL). Começaram pela espeleologia, aventuraram-se pela arqueologia, calcorrearam o concelho em busca do património etnográfico em vias de se perder e por fim concentraram o melhor da sua energia e saber na paleontologia, com destaque para a paleontologia dos dinossauros. Ou fizeram tudo isto ao mesmo tempo. Nasceram há coisa de vinte e tal anos. São por isso um grupo de gente jovem.



Hoje têm uma das mais valiosas colecções de fósseis de dinossauros e outros répteis, do Jurássico Superior (c. 150 milhões de anos), não só a nível do país como até do resto da Europa. Têm seguramente a melhor exposição permanente de dionossauros em Portugal. Têm igualmente um interessante espólio na área arqueológica e sobretudo na área da etnografia agrícola e das profissões. Têm ainda muitos sonhos e projectos, incluindo o do futuro Museu do Jurássico.



O GEAL é uma associação privada, que vive das quotas dos seus sócios (duas escassas centenas), das receitas de bilheteira do museu da Lourinhã, da venda de artigos diversos (incluindo réplicas de fósseis) e de alguns subsídios de entidades públicas, com destaque para a Câmara Municipal da Lourinhã, cuja sensibilidade cultural e social merece o meu apreço.



Num orçamento de 100 mil euros, o contributo da autarquia local é de cerca de um terço da receita total do GEAL, fora outros importantes apoios, nomeadamente logísticos (máquinas, equipamentos, instalações, pessoal).



Com cinco colaboradores remunerados e a tempo inteiro (incluindo um doutorando em paleontologia dos dinossauros, o Dr. Octávio Mateus, já hoje um cientista de renome internacional, tendo como orientador de tese o Prof. Dr. Teles Antunes, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa), o GEAL vive sobretudo da paixão e da generosidade de um pequeno grupo de jovens (e de alguns menos jovens). Paixão pela vida, pela terra, pelos seres que o habitam ou habitaram, pela história, pela ciência, pela cultura, pelo património. Amor também pela sua terra, a Lourinhã.



Quanto à palavra generosidade, ela aqui significa roubar muitas horas da sua (deles) vida pessoal e familiar pela coisa pública, pela pesquisa, estudo, conhecimento e divulgação do nosso património cultural (que não pode ser apropriado por ninguém).



Como muitas outras modestas associações privadas de interesse público, espalhadas por esse país fora, o GEAL é um pequeno exemplo da vitalidade da nossa sociedade civil, da capacidade de sonhar e de realizar dos portugas... Foi, de resto, com gratidão, admiração, reconhecimento e esperança que eu assisti ontem a uma cerimónia singela, a da reabertura do Museu da Lourinhã, agora ampliado e remodelado, oferecendo aos seus visitantes (mais de 16 mil em 2003) novos motivos de interesse, conhecimento, lazer, prazer e maravilhamento.



Insisto na palavra esperança, até porque, simbolicamente ou não, ontem estava uma manhã de sol radioso na "capital dos dinossauros" enquanto chovia na outra capital, a dos portugas e do poder: a esperança de ver, dentro em breve, o início da concretização do projecto do Museu do Jurássico que alguns, mais cépticos ou críticos, acharam (ou são capazes ainda de achar) megalómano, faraónico, eleitoralista, bairrista...



Julgo que terá sido Fernando Pessoa a dizer (ou, se não foi ele, bem poderia ter sido!) que quando um portuga sonha alto e bom som, há logo alguém que o acusa de estar fora de escala e de ser doido varrido... Eu acrescentaria (se me permitem a vaidade e a veleidade de tabaquear o caso com o grande poeta): Quando dois ou mais portugas se juntam, sonham alto e começam a fazer coisas, com inovação, verdade, rigor e credibilidade, há sempre gente que se incomoda na cadeira da inércia e da mediocridade ou que é capaz até de achar que este país é um manicómio.



Foi bom ouvir um autarca socialista dizer, olhos nos olhos, ao lado de um jovem governador civil social-democrata, que este projecto (que a CM da Lourinhã apoia deste o início na sua qualidade de parceiro privilegiado do GEAL), é (i) um projecto nacional, que (ii) vai ser contemplado pelo próximo Plano Operacional da Cultura (POC) e que (iii) já foram desafectados da reserva agrícola nacional os 35 hectares de terra onde um belo dia há-de nascer o Museu e o Parque do Jurrássico (que o projecto arquitectónico e o modelo de gestão, esses, já existem no papel)... Para deleite dos lourinhanenses, estremenhos, portugas, eurolandeses e outras desvairadas gentes que o irão visitar.



Mais: gostei de ouvir o senhor representante do povo local dizer que este projecto está acima da política e das agendas geralmente curtas dos nossos políticos, baseadas na contabilidade eleitoral do deve e do haver. Leia-se: acima da política politiqueira. O mesmo é dizer que é um projecto que exige o consenso, o apoio e o empenhamento de todos.



Mas é sobretudo para um punhado de gente magnífica que mantém este sonho de pé, que eu, Blogador, quero daqui mandar os meus aplausos. Sou suspeito por ser amigo deles (ou dalguns deles). Mas os amigos são (ou devem ser) mesmo para as ocasiões. E a ocasião não podia ser mais bem escolhida, quando reabre ao público o simpático museu da Lourinhã.



Não vou aqui citar uma longa lista de nomes, porque seria injusto para com muita gente que colabora ou já colaborou com o GEAL e que eu nem sequer conheço. Nem aqui os nomes são o mais importante. Em nome deles todos, presto a minha pequena homenagem a um homem e uma mulher que são membros fundadores do GEAL e a cuja saudável loucura muito se deve o sonho de hoje e a realidade de amanhã.



A Isabel e o Horácio Mateus (o anónimo casal de lourinhanenses que a redacção do Expresso elegeu, para surpresa geral, como figuras nacionais de 1997, pelo seu trabalho de investigação e divulgação na área da paleontologia dos dinossauros), são apenas a ponta de um pequeno iceberg O que é reconfortante é saber que o seu testemunho já passou para a geração seguinte, a dos seus filhos e a dos amigos dos seus filhos. Um chicoração muito especial para eles, extensível ao Sr. Dário de Matos, o decano e o presidente da direcção do GEAL. Deixem-me dizer-vos que é tocante o entusiasmo deste homem, exemplo de grande lourinhanse e de cidadão interventivo.

Portugas que merecem as nossas palmas - V: O GEAL - Museu da Lourinhã

Eles são o Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã (GEAL). Começaram pela espeleologia, aventuraram-se pela arqueologia, calcorrearam o concelho em busca do património etnográfico em vias de se perder e por fim concentraram o melhor da sua energia e saber na paleontologia, com destaque para a paleontologia dos dinossauros. Ou fizeram tudo isto ao mesmo tempo. Nasceram há coisa de vinte e tal anos. São por isso um grupo de gente jovem.

Hoje têm uma das mais valiosas colecções de fósseis de dinossauros e outros répteis, do Jurássico Superior (c. 150 milhões de anos), não só a nível do país como até do resto da Europa. Têm seguramente a melhor exposição permanente de dionossauros em Portugal. Têm igualmente um interessante espólio na área arqueológica e sobretudo na área da etnografia agrícola e das profissões. Têm ainda muitos sonhos e projectos, incluindo o do futuro Museu do Jurássico.

O GEAL é uma associação privada, que vive das quotas dos seus sócios (duas escassas centenas), das receitas de bilheteira do museu da Lourinhã, da venda de artigos diversos (incluindo réplicas de fósseis) e de alguns subsídios de entidades públicas, com destaque para a Câmara Municipal da Lourinhã, cuja sensibilidade cultural e social merece o meu apreço.

Num orçamento de 100 mil euros, o contributo da autarquia local é de cerca de um terço da receita total do GEAL, fora outros importantes apoios, nomeadamente logísticos (máquinas, equipamentos, instalações, pessoal).

Com cinco colaboradores remunerados e a tempo inteiro (incluindo um doutorando em paleontologia dos dinossauros, o Dr. Octávio Mateus, já hoje um cientista de renome internacional, tendo como orientador de tese o Prof. Dr. Teles Antunes, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa), o GEAL vive sobretudo da paixão e da generosidade de um pequeno grupo de jovens (e de alguns menos jovens). Paixão pela vida, pela terra, pelos seres que o habitam ou habitaram, pela história, pela ciência, pela cultura, pelo património. Amor também pela sua terra, a Lourinhã.

Quanto à palavra generosidade, ela aqui significa roubar muitas horas da sua (deles) vida pessoal e familiar pela coisa pública, pela pesquisa, estudo, conhecimento e divulgação do nosso património cultural (que não pode ser apropriado por ninguém).

Como muitas outras modestas associações privadas de interesse público, espalhadas por esse país fora, o GEAL é um pequeno exemplo da vitalidade da nossa sociedade civil, da capacidade de sonhar e de realizar dos portugas... Foi, de resto, com gratidão, admiração, reconhecimento e esperança que eu assisti ontem a uma cerimónia singela, a da reabertura do Museu da Lourinhã, agora ampliado e remodelado, oferecendo aos seus visitantes (mais de 16 mil em 2003) novos motivos de interesse, conhecimento, lazer, prazer e maravilhamento.

Insisto na palavra esperança, até porque, simbolicamente ou não, ontem estava uma manhã de sol radioso na "capital dos dinossauros" enquanto chovia na outra capital, a dos portugas e do poder: a esperança de ver, dentro em breve, o início da concretização do projecto do Museu do Jurássico que alguns, mais cépticos ou críticos, acharam (ou são capazes ainda de achar) megalómano, faraónico, eleitoralista, bairrista...

Julgo que terá sido Fernando Pessoa a dizer (ou, se não foi ele, bem poderia ter sido!) que quando um portuga sonha alto e bom som, há logo alguém que o acusa de estar fora de escala e de ser doido varrido... Eu acrescentaria (se me permitem a vaidade e a veleidade de tabaquear o caso com o grande poeta): Quando dois ou mais portugas se juntam, sonham alto e começam a fazer coisas, com inovação, verdade, rigor e credibilidade, há sempre gente que se incomoda na cadeira da inércia e da mediocridade ou que é capaz até de achar que este país é um manicómio.

Foi bom ouvir um autarca socialista dizer, olhos nos olhos, ao lado de um jovem governador civil social-democrata, que este projecto (que a CM da Lourinhã apoia deste o início na sua qualidade de parceiro privilegiado do GEAL), é (i) um projecto nacional, que (ii) vai ser contemplado pelo próximo Plano Operacional da Cultura (POC) e que (iii) já foram desafectados da reserva agrícola nacional os 35 hectares de terra onde um belo dia há-de nascer o Museu e o Parque do Jurrássico (que o projecto arquitectónico e o modelo de gestão, esses, já existem no papel)... Para deleite dos lourinhanenses, estremenhos, portugas, eurolandeses e outras desvairadas gentes que o irão visitar.

Mais: gostei de ouvir o senhor representante do povo local dizer que este projecto está acima da política e das agendas geralmente curtas dos nossos políticos, baseadas na contabilidade eleitoral do deve e do haver. Leia-se: acima da política politiqueira. O mesmo é dizer que é um projecto que exige o consenso, o apoio e o empenhamento de todos.

Mas é sobretudo para um punhado de gente magnífica que mantém este sonho de pé, que eu, Blogador, quero daqui mandar os meus aplausos. Sou suspeito por ser amigo deles (ou dalguns deles). Mas os amigos são (ou devem ser) mesmo para as ocasiões. E a ocasião não podia ser mais bem escolhida, quando reabre ao público o simpático museu da Lourinhã.

Não vou aqui citar uma longa lista de nomes, porque seria injusto para com muita gente que colabora ou já colaborou com o GEAL e que eu nem sequer conheço. Nem aqui os nomes são o mais importante. Em nome deles todos, presto a minha pequena homenagem a um homem e uma mulher que são membros fundadores do GEAL e a cuja saudável loucura muito se deve o sonho de hoje e a realidade de amanhã.

A Isabel e o Horácio Mateus (o anónimo casal de lourinhanenses que a redacção do Expresso elegeu, para surpresa geral, como figuras nacionais de 1997, pelo seu trabalho de investigação e divulgação na área da paleontologia dos dinossauros), são apenas a ponta de um pequeno iceberg O que é reconfortante é saber que o seu testemunho já passou para a geração seguinte, a dos seus filhos e a dos amigos dos seus filhos. Um chicoração muito especial para eles, extensível ao Sr. Dário de Matos, o decano e o presidente da direcção do GEAL. Deixem-me dizer-vos que é tocante o entusiasmo deste homem, exemplo de grande lourinhanse e de cidadão interventivo.

29 janeiro 2004

Estórias com mural ao fundo – XXI: Como lidar com clientes difíceis

Cada vez mais, na Eurolândia, os trabalhadores que lidam com o público, em geral, e com utentes ou clientes, em particular, estão expostos a um novo tipo de violência, que pode assumir as mais diversas formas (verbal, gestual, física, psicológica). Isso acontece em todo o lado, desde as escolas e os hospitais, passando pelas caixas dos supermercados, pelas agências bancárias e pelos balcões das companhias de aviação comercial.



Segundo o III Inquérito Europeu sobre Condições de Trabalho, realizado em 2000, a uma amostra representativa dos 159 milhões de trabalhadores da União Europeia, pela Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Tabalho, quase 1 em cada 10 trabalhadores (9%) reportaram ter sido objecto de intimação no ano anterior à inquirição (15% na Finlândia, 4% em Portugal); 2% queixaram-se de assédio sexual (4% nos países nórdicos, 1% na Europa do Sul); e, por fim, 4% dos trabalhadores da U.E. estiveram expostos a violência física com origem fora do local de trabalho (o dobro da violência física dentro do local de trabalho) (Paoli e Merllié, 2001).



Esta história que hoje vos conto, passou-se com uma funcionária da TAP – Air Portugal, no aeroporto de Lisboa. É uma história bem-humorada e edificante. (Obrigado, mais uma vez, ao meu amigo papa-milhas, o Anacleto M., por ma ter feito chegar à caixa de correio).



Situação: Há atrasos nos aviões. Há longas filas de espera. Há gente que protesta e se impacienta. De repente, um passageiro salta do fim da bicha e mete-se à frente de todos os outros. Atira com o bilhete para cima do balcão e diz à funcionária:

- Tenho que ir sem falta neste voo. E tenho direito a um lugar na Primeira Classe.



A funcionária responde-lhe, com bons modos:

- Meu caro senhor, farei tudo o que puder para resolver o seu problema. Mas, como compreenderá, primeiro tenho que atender todas estas pessoas que estão à sua frente. Peço-lhe que retome o seu lugar e que aguarde a sua vez.



O passageiro perdeu as estribeiras e retorquiu, em voz alta para que toda a gente o ouvisse:

- Você faz alguma ideia de quem sou eu?



Sem perder a calma, a funcionária pediu um instante, pegou no microfone e fez o seguinte anúncio:

- Peço um minuto de atenção aos senhores passageiros... Nós temos aqui um senhor passageiro que não sabe quem é, presumindo-se que esteja perdido! Se alguém é responsável pelo mesmo, se é seu parente, se é seu conhecido e se o puder ajudar a descobrir a sua identidade, solicito que compareça no balcão da TAP. Obrigada.



As pessoas atrás dele soltaram uma enorme gargalha. O homem, lívido de raiva, fuzilou com o olhar a funcionária da TAP e, rangendo os dentes, ameaçou-a:

- Filha da puta, vou-te foder!!!



Sem nunca perder o sangue frio, ela disse-lhe a sorrir:

- Desculpe, meu caro Senhor, mas até para isso vai ter que esperar a sua vez na bicha!



Moral da história: História sem moral nenhuma. Mas a senhora da TAP merece a nossa chapelada!





PAOLI, P.; MERLLIÉ, D. (2001) – Third European Survey on Working Conditions 2000. Luxembourg: Office for Official Publications of the European Communities.

Estórias com mural ao fundo – XXI: Como lidar com clientes difíceis

Cada vez mais, na Eurolândia, os trabalhadores que lidam com o público, em geral, e com utentes ou clientes, em particular, estão expostos a um novo tipo de violência, que pode assumir as mais diversas formas (verbal, gestual, física, psicológica). Isso acontece em todo o lado, desde as escolas e os hospitais, passando pelas caixas dos supermercados, pelas agências bancárias e pelos balcões das companhias de aviação comercial.

Segundo o III Inquérito Europeu sobre Condições de Trabalho, realizado em 2000, a uma amostra representativa dos 159 milhões de trabalhadores da União Europeia, pela Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Tabalho, quase 1 em cada 10 trabalhadores (9%) reportaram ter sido objecto de intimação no ano anterior à inquirição (15% na Finlândia, 4% em Portugal); 2% queixaram-se de assédio sexual (4% nos países nórdicos, 1% na Europa do Sul); e, por fim, 4% dos trabalhadores da U.E. estiveram expostos a violência física com origem fora do local de trabalho (o dobro da violência física dentro do local de trabalho) (Paoli e Merllié, 2001).

Esta história que hoje vos conto, passou-se com uma funcionária da TAP – Air Portugal, no aeroporto de Lisboa. É uma história bem-humorada e edificante. (Obrigado, mais uma vez, ao meu amigo papa-milhas, o Anacleto M., por ma ter feito chegar à caixa de correio).

Situação: Há atrasos nos aviões. Há longas filas de espera. Há gente que protesta e se impacienta. De repente, um passageiro salta do fim da bicha e mete-se à frente de todos os outros. Atira com o bilhete para cima do balcão e diz à funcionária:
- Tenho que ir sem falta neste voo. E tenho direito a um lugar na Primeira Classe.

A funcionária responde-lhe, com bons modos:
- Meu caro senhor, farei tudo o que puder para resolver o seu problema. Mas, como compreenderá, primeiro tenho que atender todas estas pessoas que estão à sua frente. Peço-lhe que retome o seu lugar e que aguarde a sua vez.

O passageiro perdeu as estribeiras e retorquiu, em voz alta para que toda a gente o ouvisse:
- Você faz alguma ideia de quem sou eu?

Sem perder a calma, a funcionária pediu um instante, pegou no microfone e fez o seguinte anúncio:
- Peço um minuto de atenção aos senhores passageiros... Nós temos aqui um senhor passageiro que não sabe quem é, presumindo-se que esteja perdido! Se alguém é responsável pelo mesmo, se é seu parente, se é seu conhecido e se o puder ajudar a descobrir a sua identidade, solicito que compareça no balcão da TAP. Obrigada.

As pessoas atrás dele soltaram uma enorme gargalha. O homem, lívido de raiva, fuzilou com o olhar a funcionária da TAP e, rangendo os dentes, ameaçou-a:
- Filha da puta, vou-te foder!!!

Sem nunca perder o sangue frio, ela disse-lhe a sorrir:
- Desculpe, meu caro Senhor, mas até para isso vai ter que esperar a sua vez na bicha!

Moral da história: História sem moral nenhuma. Mas a senhora da TAP merece a nossa chapelada!


PAOLI, P.; MERLLIÉ, D. (2001) – Third European Survey on Working Conditions 2000. Luxembourg: Office for Official Publications of the European Communities.

26 janeiro 2004

Humor com humor se paga - XX: A globalização explicada às criancinhas: 'Quando passam rábanos é que é comprá-los'

Era uma vez uma princesinha inglesa, muito bonita mas infeliz, que tinha um namorado egípcio muito rico que tinha a mania que era playboy.



Aconteceu que ambos tiveram um grave acidente, do qual resultaria a sua (deles) morte, num túnel por baixo de um boulevard parisiense, num carro fabricado na Alemanha com motor montado por operários checos ex-comunistas, conduzido por um belga que bebia whisky (escocês) em demasia e que, como belga, tanto podia ser francófono como flamengo. Esse pormenor da história só interessa à polícia, incluindo os serviços secretos de sua majestade a raínha dos great britons e que é a bruxa má desta história.



E todos, a princesa e o candidato a princípe, mais o motorista belga e os guarda-costas da princesa, eram perseguidos por paparazzis italianos, em potentes motos japonesas de grande cilindrada, empunhando máquinas fotográficas japonesas com teleobjectivas de infra-vermelhos made in China, sob licença.



A princesinha, moribunda, ainda foi assistida, por uma equipa de emergência médica canadiana num grande hospital árabe de Paris, tendo-lhe sido ministrados medicamentos de uma multinacional farmacêutica, dessas sem pátria, com fábricas no Brasil.



A tecnologia de reanimação também era de uma outra multinacional que trabalhava no programa espacial da NASA (os senhores que mandam foguetões para a Lua e para Marte) e que acabava de fazer uma OPA hostil para ficar com a parte de leão do mercado da doença (Se vocês não sabem o que é uma OPA hostil, perguntem lá em casa aos paizinhos).



E eu, que sou portuga, estou-vos a contar esta história num blogue que existe na Internet, usando tecnologia desenvolvida por um senhor chamado Bill Gates e que vive na América dos cow-boys e que é podre de rico por causa da terceira vaga que ele cavalga como nenhum outro surfista do Hawai.



Vocês muito provavelmente estão a ler esta mensagem num computador que é um clone da IBM e que usa chips feitos em Taiwan, e num monitor sul-coreano, TFT de 17 polegadas, montado por trabalhadores do Bangladesh numa fábrica de Singapura, transportado em camiões TIR de uma empresa chinesa de Honk-Kong conduzidos por indianos, e que depois foram roubados (os camiões) por piratas malaios e indonésios, e descarregados por pescadores sicilianos que trabalhavam para a máfia chamada cosa nostra.



E de repente estamos numa minúscula ilha das Caraíbas onde o material (computador, monitores e demais periféricos) está a ser empacotado por campesinos mexicanos clandestinos, para depois ser transportado num porta-contentores russo de pavilhão panamiano, desembarcado em Roterdão e finalmente vendido por judeus holandeses, que escaparam ao holocausto nazi, e que até meados do Séc. XVII viviam em Portugal, prósperos, felizes e contentes.



Com eles desembarcaram, mais mortos que vivos, os novos escravos negros que fogem do inferno das costas de marfim, das libérias, das serras leoas, das guinés, dos congos. Apanhados pela polícia da eurolândia foram recambiados para as terras de fome e de morte onde nasceram.



Pois é, meus meninos, isto é que é a globalização. Convenhamos que as histórias das princesas encantadas dos tempos dos avós que se chamavam afonsinhos, eram muito mais bonitas do que esta que é triste e sórdida e imoral.



Já não me lembro do nome da princesa mas para o caso tanto faz. Em boa verdade, também não sei o verdadeiro nome dos chinos que montaram o meu computador e sem o qual eu nunca poderia comunicar com vocês que são umas encantadoras cibercriancinhas biónicas.



Se puderem escrevam um e-card com musiquinha e animação. Estamos a precisar de levantar o/a moral (desconheço o género, e não tenho aqui à mão o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, que passou a ser o meu livro de cabeceira e que eu uso em vez do xanax).



E ainnda a propósito, queria aqui referir um adágio popular, que existe na na terra dos portugas, e que diz: "Quando passam rábanos é que é comprá-los".



Não encontrei até à data mais feliz e sintética definição do que é essa coisa da globalização. Há uma profunda mas tranquila sabedoria neste adágio que só pode ser de origem moura porque os rábanos são cultivados pelos saloios da Estremadura lusitana e estes descendem dos mouros, como eu, os quais foram escravizados pelos feros francos cristãos da Reconquista.



Meus meninos, acabou a escola. podem ir para o recreio.

Humor com humor se paga - XX: A globalização explicada às criancinhas: 'Quando passam rábanos é que é comprá-los'

Era uma vez uma princesinha inglesa, muito bonita mas infeliz, que tinha um namorado egípcio muito rico que tinha a mania que era playboy.

Aconteceu que ambos tiveram um grave acidente, do qual resultaria a sua (deles) morte, num túnel por baixo de um boulevard parisiense, num carro fabricado na Alemanha com motor montado por operários checos ex-comunistas, conduzido por um belga que bebia whisky (escocês) em demasia e que, como belga, tanto podia ser francófono como flamengo. Esse pormenor da história só interessa à polícia, incluindo os serviços secretos de sua majestade a raínha dos great britons e que é a bruxa má desta história.

E todos, a princesa e o candidato a princípe, mais o motorista belga e os guarda-costas da princesa, eram perseguidos por paparazzis italianos, em potentes motos japonesas de grande cilindrada, empunhando máquinas fotográficas japonesas com teleobjectivas de infra-vermelhos made in China, sob licença.

A princesinha, moribunda, ainda foi assistida, por uma equipa de emergência médica canadiana num grande hospital árabe de Paris, tendo-lhe sido ministrados medicamentos de uma multinacional farmacêutica, dessas sem pátria, com fábricas no Brasil.

A tecnologia de reanimação também era de uma outra multinacional que trabalhava no programa espacial da NASA (os senhores que mandam foguetões para a Lua e para Marte) e que acabava de fazer uma OPA hostil para ficar com a parte de leão do mercado da doença (Se vocês não sabem o que é uma OPA hostil, perguntem lá em casa aos paizinhos).

E eu, que sou portuga, estou-vos a contar esta história num blogue que existe na Internet, usando tecnologia desenvolvida por um senhor chamado Bill Gates e que vive na América dos cow-boys e que é podre de rico por causa da terceira vaga que ele cavalga como nenhum outro surfista do Hawai.

Vocês muito provavelmente estão a ler esta mensagem num computador que é um clone da IBM e que usa chips feitos em Taiwan, e num monitor sul-coreano, TFT de 17 polegadas, montado por trabalhadores do Bangladesh numa fábrica de Singapura, transportado em camiões TIR de uma empresa chinesa de Honk-Kong conduzidos por indianos, e que depois foram roubados (os camiões) por piratas malaios e indonésios, e descarregados por pescadores sicilianos que trabalhavam para a máfia chamada cosa nostra.

E de repente estamos numa minúscula ilha das Caraíbas onde o material (computador, monitores e demais periféricos) está a ser empacotado por campesinos mexicanos clandestinos, para depois ser transportado num porta-contentores russo de pavilhão panamiano, desembarcado em Roterdão e finalmente vendido por judeus holandeses, que escaparam ao holocausto nazi, e que até meados do Séc. XVII viviam em Portugal, prósperos, felizes e contentes.

Com eles desembarcaram, mais mortos que vivos, os novos escravos negros que fogem do inferno das costas de marfim, das libérias, das serras leoas, das guinés, dos congos. Apanhados pela polícia da eurolândia foram recambiados para as terras de fome e de morte onde nasceram.

Pois é, meus meninos, isto é que é a globalização. Convenhamos que as histórias das princesas encantadas dos tempos dos avós que se chamavam afonsinhos, eram muito mais bonitas do que esta que é triste e sórdida e imoral.

Já não me lembro do nome da princesa mas para o caso tanto faz. Em boa verdade, também não sei o verdadeiro nome dos chinos que montaram o meu computador e sem o qual eu nunca poderia comunicar com vocês que são umas encantadoras cibercriancinhas biónicas.

Se puderem escrevam um e-card com musiquinha e animação. Estamos a precisar de levantar o/a moral (desconheço o género, e não tenho aqui à mão o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, que passou a ser o meu livro de cabeceira e que eu uso em vez do xanax).

E ainnda a propósito, queria aqui referir um adágio popular, que existe na na terra dos portugas, e que diz: "Quando passam rábanos é que é comprá-los".

Não encontrei até à data mais feliz e sintética definição do que é essa coisa da globalização. Há uma profunda mas tranquila sabedoria neste adágio que só pode ser de origem moura porque os rábanos são cultivados pelos saloios da Estremadura lusitana e estes descendem dos mouros, como eu, os quais foram escravizados pelos feros francos cristãos da Reconquista.

Meus meninos, acabou a escola. podem ir para o recreio.

23 janeiro 2004

Estórias com mural ao fundo - XX: Uma questão cá entre nós (ou o triângulo Lisboa-Luanda-Recife)

Um ilustre professor de medicina, kaluanda, meu amigo de fresca data, corrigiu há dias um e-mail através do qual o Blogador lhe enviava uma destas estórias com mural ao fundo. Pensou ele, o meu amigo, que toda a estória tem uma moral (ou seja, um desfecho ou uma conclusão em geral edificante). E que portanto havia uma gralha (das grossas) no título usado pelo Blogador.



Mas não, meu caro Mário: diz o Blogador que estas estórias são mesmo com mural (parede pintada) ao fundo. E às vezes com a moral, essa sim, em baixo...



Aproveito, em nome do Blogador, para daqui enviar um ciberkandandu (abraço) para @s car@s amig@s da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, lá em baixo, na doce e crioula Luanda, hoje de novo terra de esperança e porto de abrigo de desvairadas gentes. E agradecer ao Mário a sua vigilância crítica em relação ao (ab)uso da bela língua que temos o privilégio de partilhar e de todos os dias enriquecer cá e lá.



E já que falamos de português, queria aqui evocar um belíssimo poema de amor à angolanidade que eu descobri num blogue de uma brasuca, Paty Carvalho, nascida no Recife, 29 anos, dentista, a viver e a trabalhar em Angola desde 2001.



O blogue dá pelo nome Notícias D'Angola e merece uma visita pela sua prosa gostosa e pela ternura quente com que a Paty fala da terra e das gentes angolanas. Destaco em especial um post de 30 de Outubro de 2003, sob a forma de pergunta e resposta sobre as actuais condições de vida que poderá esperar um candidato a imigrante de luxo em Angola.



Pergunta um imaginário brasuca: " (...) eu gostaria de saber se vale a pena me aventurar por aí, porque soube que aí dá para ganhar USD 1,000,000.00 por semana, trabalhando de segunda a quinta, das 10 às 14h. Isso é verdade??? Gostaria de saber como é a vida aí, algumas pessoas disseram-me que não se pode andar sozinho nas ruas, é verdade? Por que isso acontece? Como está a questão da segurança? E o custo de vida, soube que é bem alto. Quanto deve uma pessoa ganhar por mês para ter uma vida razoável? Finalizando, gostaria que você me fornecesse maiores informações sobre o país. Vale a pena ir?"



A resposta de Paty alia a maior das ternuras pelo povo angolano e a mais fina ironia em relação aos (pre)conceitos que os estrangeiros (brasileiros e portugueses incluídos) têm sobre a situação actual e as perspectivas futuras da África, em geral, e de Angola, em particular. Limito-me a citar alguns excertos:



"Se você não tiver sensibilidade para entender o que é a falta de água em 80% das residências, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.



"Se você não tiver sensibilidade para respeitar o ritmo de trabalho das pessoas que ganham um salário muito baixo, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.



"Se você acha que no Brasil não se passa fome, se ainda acredita que só se morre de fome nestes países da África Sub-Sahariana, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.



"Se você, mesmo que involuntariamente, costuma associar problemas sócio-econômicos à cor da pele das pessoas, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.



"Se você acha que o Brasil é um país melhor do que Angola, não venha. Olhe primeiro para o Brasil (...).



"O que te dará condições de viver bem aqui em Angola será a capacidade (...) de se entrosar, principalmente com o povo angolano, sem medos ou conceitos pré-formados. Isso vai fazer você entender o país e seu povo, e vai te fazer abraçá-los da mesma forma como você se sentirá abraçado(a) por eles, que, por sinal, fazem isso muito melhor do que muitos de nós, brasileiros. Abraçam sim, um kandandu bem angolano, cheio de calor e troca de boas energias, mas só o fazem quando confiam em você e sentem que você veio contribuir com o contexto e com a melhoria do país, e não apenas consigo próprio e com seu bolso (...).



"Finalizando, o Brasil é a cara da mãe dele. E o Brasil tem que ter orgulho disso. A mãe África é forte, batalhadora, sofrida, carrega muito peso nas costas e vê suas riquezas serem levadas de suas mãos o tempo todo, sem receber nada em troca disso. Mas consegue mesmo assim ser a mãe mais bonita do mundo, consegue ter um sorriso iluminado e uma ginga no corpo que nenhuma outra mãe tem. A mãe África vai caminhando de sua casa até o trabalho a pé, por muitos quilômetros e com um sol muito forte batendo em sua cabeça, mesmo com a lata de água protegendo um pouco desse sol lindo que só existe aqui. Minto. Ela não caminha, ela vai dançando, e usa para isso o ritmo dado pela percussão de seu coração. E segue em frente com porte de rainha e sorriso no rosto, até chegar em seu destino. Por tudo isso, a mãe África merece muito todo o respeito e admiração de seu filho Brasil que, infelizmente, nem sempre é um filho exemplar nesse aspecto (...).



"Espero ter ajudado. Desculpe-me novamente se eu tiver sido grosseira, a primeira intenção sempre é a de ser sincera e de querer ajudar a trazer pessoas que possam ter Angola no coração e considerá-la como uma segunda Pátria, como a mãe do Brasil. E não apenas como uma mina de ouro".



Uma miúda inteligente e generosa, essa Paty, além de bonita. É pena que tenha deixado de blogar antes do fim do ano de 2003. Mudanças(s) na vida dela, explicou. Mas continua em Angola onde se sente "em casa". Um chicoração para ela. De Lisboa com amor.

Estórias com mural ao fundo - XX: Uma questão cá entre nós (ou o triângulo Lisboa-Luanda-Recife)

Um ilustre professor de medicina, kaluanda, meu amigo de fresca data, corrigiu há dias um e-mail através do qual o Blogador lhe enviava uma destas estórias com mural ao fundo. Pensou ele, o meu amigo, que toda a estória tem uma moral (ou seja, um desfecho ou uma conclusão em geral edificante). E que portanto havia uma gralha (das grossas) no título usado pelo Blogador.

Mas não, meu caro Mário: diz o Blogador que estas estórias são mesmo com mural (parede pintada) ao fundo. E às vezes com a moral, essa sim, em baixo...

Aproveito, em nome do Blogador, para daqui enviar um ciberkandandu (abraço) para @s car@s amig@s da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, lá em baixo, na doce e crioula Luanda, hoje de novo terra de esperança e porto de abrigo de desvairadas gentes. E agradecer ao Mário a sua vigilância crítica em relação ao (ab)uso da bela língua que temos o privilégio de partilhar e de todos os dias enriquecer cá e lá.

E já que falamos de português, queria aqui evocar um belíssimo poema de amor à angolanidade que eu descobri num blogue de uma brasuca, Paty Carvalho, nascida no Recife, 29 anos, dentista, a viver e a trabalhar em Angola desde 2001.

O blogue dá pelo nome Notícias D'Angola e merece uma visita pela sua prosa gostosa e pela ternura quente com que a Paty fala da terra e das gentes angolanas. Destaco em especial um post de 30 de Outubro de 2003, sob a forma de pergunta e resposta sobre as actuais condições de vida que poderá esperar um candidato a imigrante de luxo em Angola.

Pergunta um imaginário brasuca: " (...) eu gostaria de saber se vale a pena me aventurar por aí, porque soube que aí dá para ganhar USD 1,000,000.00 por semana, trabalhando de segunda a quinta, das 10 às 14h. Isso é verdade??? Gostaria de saber como é a vida aí, algumas pessoas disseram-me que não se pode andar sozinho nas ruas, é verdade? Por que isso acontece? Como está a questão da segurança? E o custo de vida, soube que é bem alto. Quanto deve uma pessoa ganhar por mês para ter uma vida razoável? Finalizando, gostaria que você me fornecesse maiores informações sobre o país. Vale a pena ir?"

A resposta de Paty alia a maior das ternuras pelo povo angolano e a mais fina ironia em relação aos (pre)conceitos que os estrangeiros (brasileiros e portugueses incluídos) têm sobre a situação actual e as perspectivas futuras da África, em geral, e de Angola, em particular. Limito-me a citar alguns excertos:

"Se você não tiver sensibilidade para entender o que é a falta de água em 80% das residências, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

"Se você não tiver sensibilidade para respeitar o ritmo de trabalho das pessoas que ganham um salário muito baixo, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

"Se você acha que no Brasil não se passa fome, se ainda acredita que só se morre de fome nestes países da África Sub-Sahariana, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

"Se você, mesmo que involuntariamente, costuma associar problemas sócio-econômicos à cor da pele das pessoas, não venha. Olhe primeiro para o Brasil.

"Se você acha que o Brasil é um país melhor do que Angola, não venha. Olhe primeiro para o Brasil (...).

"O que te dará condições de viver bem aqui em Angola será a capacidade (...) de se entrosar, principalmente com o povo angolano, sem medos ou conceitos pré-formados. Isso vai fazer você entender o país e seu povo, e vai te fazer abraçá-los da mesma forma como você se sentirá abraçado(a) por eles, que, por sinal, fazem isso muito melhor do que muitos de nós, brasileiros. Abraçam sim, um kandandu bem angolano, cheio de calor e troca de boas energias, mas só o fazem quando confiam em você e sentem que você veio contribuir com o contexto e com a melhoria do país, e não apenas consigo próprio e com seu bolso (...).

"Finalizando, o Brasil é a cara da mãe dele. E o Brasil tem que ter orgulho disso. A mãe África é forte, batalhadora, sofrida, carrega muito peso nas costas e vê suas riquezas serem levadas de suas mãos o tempo todo, sem receber nada em troca disso. Mas consegue mesmo assim ser a mãe mais bonita do mundo, consegue ter um sorriso iluminado e uma ginga no corpo que nenhuma outra mãe tem. A mãe África vai caminhando de sua casa até o trabalho a pé, por muitos quilômetros e com um sol muito forte batendo em sua cabeça, mesmo com a lata de água protegendo um pouco desse sol lindo que só existe aqui. Minto. Ela não caminha, ela vai dançando, e usa para isso o ritmo dado pela percussão de seu coração. E segue em frente com porte de rainha e sorriso no rosto, até chegar em seu destino. Por tudo isso, a mãe África merece muito todo o respeito e admiração de seu filho Brasil que, infelizmente, nem sempre é um filho exemplar nesse aspecto (...).

"Espero ter ajudado. Desculpe-me novamente se eu tiver sido grosseira, a primeira intenção sempre é a de ser sincera e de querer ajudar a trazer pessoas que possam ter Angola no coração e considerá-la como uma segunda Pátria, como a mãe do Brasil. E não apenas como uma mina de ouro".

Uma miúda inteligente e generosa, essa Paty, além de bonita. É pena que tenha deixado de blogar antes do fim do ano de 2003. Mudanças(s) na vida dela, explicou. Mas continua em Angola onde se sente "em casa". Um chicoração para ela. De Lisboa com amor.

22 janeiro 2004

Estórias com mural ao fundo - XIX: A lebre da promoção da saúde

Esta cena passa-se em pleno Alentejo, agora transformado em gigantesco parque zoológico e região turística de eleição ao alcance de qualquer voo charter doméstico na Eurolândia. Mês do ano: Maio florido.



Há uma lebre que vai a correr, endiabrada, afugentando porcos pretos, cegonhas, cobras e lagartos, quando passa por uma avestruz que está a enrolar um charro à sombra de uma azinheira. Vira-se para a infeliz e diz:



- Avestruz, minha boa amiga, não vês que o charro dá cabo dos teus pulmões ?! Um dia destes ainda vais morrer de cancro. Vem antes correr comigo para ficares em boa forma física e promoveres a tua saúde.



A avestruz não hesitou um segundo e seguiu atrás da lebre, sempre a abrir até ao próximo montado de sobro.



Junto a uma ribeira que corria, já exangue para o Guadiana, estava um triste, pobre e solitário elefante a snifar umas linhas de coca. A lebre, investida da nobre missão de promover a saúde da bicharada alentejana, não se intimidou com o porte do paquiderme e exortou-o:

- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco! Pela tua e pela nossa saúde!



Deitando fora o espelho, a palhinha e o pó, o elefante juntou-se ao grupo dos lídimos representantes do Movimento Saúde 2004:O Alentejo Não Pára.



Continua o grupo em grande correrria, agora a caminho de Barrancos, quando metem travões a fundo e param frente ao Rei da Selva que, pasmem vocês!, estava a injectar-se em plena charneca, atrás de umas giestas floridas. A lebre teve um gesto de compaixão para com o pobre leão toxicodependente e disse-lhe:



- Leão, meu rei e meu camarada, não te injectes mais, e ainda por cima com agulhas infectadas. Olha que apanhas a Sida e esticas o pernil sem ver a Barragem do Alqueva atingir a cota máxima e irrigar os nossos campos de golfe... Vem antes correr comigo, com a avestruz e com o elefante. Vais ver que ganhas outra disposição e outra maneira de ver o mundo.



O leão, que acabava de passar uma semana de ressaca, não esteve com meias medidas e, zás!, deu uma sapatada à pobre lebre, arrancando-lhe a cabeça de um só golpe. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra a brutalidade do leão:

- Meu filho da puta, por que é fizeste isso à pobre lebre ? Ela só te queria ajudar!



O leão continuou a meter para a veia, enquanto lhes respondia com maus modos:

- Essa chavala era maluca! Obrigava-me sempre a fazer o percurso Odemira-Barrancos todas as vezes que tomava Ecstasy!



Moral da história: Nem sempre as motivações dos promotores de saúde são as mais altruístas, óbvias e transparentes. Conselho ao Prof. Fernando Pádua e aos demais ilustres promotores da saúde em Portugal: por favor, não usem lebres nas corridas do Maio, Mês do Coração!



PS - Obrigado à minha amiga AIG por me ter mandado uma das fábulas de La Fontaine onde me fui inspirar para mais esta estória com mural ao fundo.

Estórias com mural ao fundo - XIX: A lebre da promoção da saúde

Esta cena passa-se em pleno Alentejo, agora transformado em gigantesco parque zoológico e região turística de eleição ao alcance de qualquer voo charter doméstico na Eurolândia. Mês do ano: Maio florido.

Há uma lebre que vai a correr, endiabrada, afugentando porcos pretos, cegonhas, cobras e lagartos, quando passa por uma avestruz que está a enrolar um charro à sombra de uma azinheira. Vira-se para a infeliz e diz:

- Avestruz, minha boa amiga, não vês que o charro dá cabo dos teus pulmões ?! Um dia destes ainda vais morrer de cancro. Vem antes correr comigo para ficares em boa forma física e promoveres a tua saúde.

A avestruz não hesitou um segundo e seguiu atrás da lebre, sempre a abrir até ao próximo montado de sobro.

Junto a uma ribeira que corria, já exangue para o Guadiana, estava um triste, pobre e solitário elefante a snifar umas linhas de coca. A lebre, investida da nobre missão de promover a saúde da bicharada alentejana, não se intimidou com o porte do paquiderme e exortou-o:
- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco! Pela tua e pela nossa saúde!

Deitando fora o espelho, a palhinha e o pó, o elefante juntou-se ao grupo dos lídimos representantes do Movimento Saúde 2004:O Alentejo Não Pára.

Continua o grupo em grande correrria, agora a caminho de Barrancos, quando metem travões a fundo e param frente ao Rei da Selva que, pasmem vocês!, estava a injectar-se em plena charneca, atrás de umas giestas floridas. A lebre teve um gesto de compaixão para com o pobre leão toxicodependente e disse-lhe:

- Leão, meu rei e meu camarada, não te injectes mais, e ainda por cima com agulhas infectadas. Olha que apanhas a Sida e esticas o pernil sem ver a Barragem do Alqueva atingir a cota máxima e irrigar os nossos campos de golfe... Vem antes correr comigo, com a avestruz e com o elefante. Vais ver que ganhas outra disposição e outra maneira de ver o mundo.

O leão, que acabava de passar uma semana de ressaca, não esteve com meias medidas e, zás!, deu uma sapatada à pobre lebre, arrancando-lhe a cabeça de um só golpe. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra a brutalidade do leão:
- Meu filho da puta, por que é fizeste isso à pobre lebre ? Ela só te queria ajudar!

O leão continuou a meter para a veia, enquanto lhes respondia com maus modos:
- Essa chavala era maluca! Obrigava-me sempre a fazer o percurso Odemira-Barrancos todas as vezes que tomava Ecstasy!

Moral da história: Nem sempre as motivações dos promotores de saúde são as mais altruístas, óbvias e transparentes. Conselho ao Prof. Fernando Pádua e aos demais ilustres promotores da saúde em Portugal: por favor, não usem lebres nas corridas do Maio, Mês do Coração!

PS - Obrigado à minha amiga AIG por me ter mandado uma das fábulas de La Fontaine onde me fui inspirar para mais esta estória com mural ao fundo.