15 março 2004

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - IV: Deitar fora a criancinha com a água do banho

Há sempre um grande risco, nas reformas de tipo topdown e por decreto que os políticos tendem a protagonizar no nosso país, de deitar fora a(s) criancinha(s) com a água do banho. No caso da saúde, isso pode vir a acontecer com a reforma do subsistema de cuidados de saúde primários. O Decreto-Lei nº 60/2003, de 1 de Abril, veio criar a chamada rede de cuidados de saúde primários, e revogar o Decreto-Lei nº 157/99, de 10 de Maio (Regime de criação, organização e funcionamento dos centros de saúde).



Uma das criancinhas é o médico de família, o mesmo é dizar, a especificidade e a identidade da medicina geral e familiar. Os cerca de 1500 médicos de família, reunidos no 21º Encontro Nacional de Clínica Geral (Vilamoura, 10-13 de Março de 2004), estavam inquietos e, mais do que inquietos, receosos em relação aos possíveis efeitos perversos da implementação do novo diploma.



A entrevista que o Ministro da Saúde deu, na sua presença, no dia 12 de Março, não me parece que os tenha tranquilizado nem muito menos convenceu. Louve-se a atitude (intelectual) e até a coragem (física) do ministro, ao aceitar dar uma entrevista em terreno hostil, perante uma plateia de centenas de médicos de família reunidos no seu congresso anual.



Os compromissos assumidos publicamente pelo titular da pasta da saúde vão implicar alterações ao D. L. nº 60/2003, de 1 de Abril, dizem as estruturas representativas dos médicos de família (Ordem dos Médicos, Associação Portuguesa de Clínica Geral, sindicatos médicos). Mas uma coisa é a negociação, de boa fé, e outra coisa o discurso político para consumo interno e/ou externo.



A criancinha não é apenas o prestador de cuidados de saúde ou a "equipa de saúde multiprofissional", como se lê no preâmbulo do contestado diploma legal (o médico, “preferencialmente” da carreira de clínica geral; o médico de saúde pública, se o houver; o enfermeiro, o técnico de serviço social, o psicólogo, o pessoal de apoio administrativo, etc.). A criancinha é também, e sobretudo, o utente, o cidadão, a pessoa, no seu contexto sociofamiliar...



Para os médicos de família e os seus representantes, a questão é a seguinte: (i) este decreto-lei não acautelaria a gestão integrada da saúde e dos serviços de saúde; (ii) a carreira médica de clínica geral seria destruída; e (iii) os cuidados de saúde primários ficariam inexoravelmente na órbita centrípeta e trituradora da medicina hospitalar e da "gestão mercantilista da saúde"...



Trata-se de um parti-pris ideológico ? De uma reacção de defesa corporativa ? De uma forma de resistência à mudança ? Mesmo que assim fosse, seria sempre uma reacção saudável e necessária em qualquer sistema e em qualquer mudança, justamente para evitar que os reformadores, ofuscados pela sua agenda e pressionados pelo seu timing, acabem por esquecer o essencial, a missão, os valores, os princípios, os resultados... Ou até que façam mudanças que, embora tecnicamente bem conceptualizadas, redundem em estrondoso fracasso do ponto de vista sócio-organizacional... Infelizmente, a história dos cuidados de saúde primários em Portugal é, também ela, um sucessão de tentativas de mudança que não têm passado do papel, independentemente da cor política do ministro da tutela...



Partilho as preocupações do Senhor Presidente da República, manifestada num encontro de economistas no Palácio de Belém, no mesmíssimo dia 12 de Março de 2004, quanto aos riscos de a empresarialização dos hospitais e demais serviços de saúde e a consequente lógica de mercado não garantirem, devidamente, a equidade (ou a igualdade de oportunidades), que é essencial à operacionalização do conceito de direito à saúde, consagrado na nossa Constituição.



Seria trágico que, mais de 30 trinta anos depois da consagração portuguesa do conceito de cuidados de saúde primários (com vários anos de avanço em relação a instâncias internacionais como a OMS), nós voltássemos à estaca zero, ou seja, à caixificação da saúde/doença, ao modelo de prestação de cuidados dominante nos Serviços Médico-Sociais das Caixas da Previdência.



Ora este risco é real, e eu partilho as preocupações da minha médica de família que, o ano passado, me explicou, detalhadamente, por que razão é que ela, pela primeira vez na sua vida, fazia uma greve no seu centro de saúde. Ela não tinha nada que se justificar perante mim, simples utente da sua grossa lista, mas eu achei bonito o seu gesto. Ao sair do seu gabinete, pensei cá com os meus botões quão privilegiado era eu por ter esta mulher como minha médica de família!

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - IV: Deitar fora a criancinha com a água do banho

Há sempre um grande risco, nas reformas de tipo topdown e por decreto que os políticos tendem a protagonizar no nosso país, de deitar fora a(s) criancinha(s) com a água do banho. No caso da saúde, isso pode vir a acontecer com a reforma do subsistema de cuidados de saúde primários. O Decreto-Lei nº 60/2003, de 1 de Abril, veio criar a chamada rede de cuidados de saúde primários, e revogar o Decreto-Lei nº 157/99, de 10 de Maio (Regime de criação, organização e funcionamento dos centros de saúde).

Uma das criancinhas é o médico de família, o mesmo é dizar, a especificidade e a identidade da medicina geral e familiar. Os cerca de 1500 médicos de família, reunidos no 21º Encontro Nacional de Clínica Geral (Vilamoura, 10-13 de Março de 2004), estavam inquietos e, mais do que inquietos, receosos em relação aos possíveis efeitos perversos da implementação do novo diploma.

A entrevista que o Ministro da Saúde deu, na sua presença, no dia 12 de Março, não me parece que os tenha tranquilizado nem muito menos convenceu. Louve-se a atitude (intelectual) e até a coragem (física) do ministro, ao aceitar dar uma entrevista em terreno hostil, perante uma plateia de centenas de médicos de família reunidos no seu congresso anual.

Os compromissos assumidos publicamente pelo titular da pasta da saúde vão implicar alterações ao D. L. nº 60/2003, de 1 de Abril, dizem as estruturas representativas dos médicos de família (Ordem dos Médicos, Associação Portuguesa de Clínica Geral, sindicatos médicos). Mas uma coisa é a negociação, de boa fé, e outra coisa o discurso político para consumo interno e/ou externo.

A criancinha não é apenas o prestador de cuidados de saúde ou a "equipa de saúde multiprofissional", como se lê no preâmbulo do contestado diploma legal (o médico, “preferencialmente” da carreira de clínica geral; o médico de saúde pública, se o houver; o enfermeiro, o técnico de serviço social, o psicólogo, o pessoal de apoio administrativo, etc.). A criancinha é também, e sobretudo, o utente, o cidadão, a pessoa, no seu contexto sociofamiliar...

Para os médicos de família e os seus representantes, a questão é a seguinte: (i) este decreto-lei não acautelaria a gestão integrada da saúde e dos serviços de saúde; (ii) a carreira médica de clínica geral seria destruída; e (iii) os cuidados de saúde primários ficariam inexoravelmente na órbita centrípeta e trituradora da medicina hospitalar e da "gestão mercantilista da saúde"...

Trata-se de um parti-pris ideológico ? De uma reacção de defesa corporativa ? De uma forma de resistência à mudança ? Mesmo que assim fosse, seria sempre uma reacção saudável e necessária em qualquer sistema e em qualquer mudança, justamente para evitar que os reformadores, ofuscados pela sua agenda e pressionados pelo seu timing, acabem por esquecer o essencial, a missão, os valores, os princípios, os resultados... Ou até que façam mudanças que, embora tecnicamente bem conceptualizadas, redundem em estrondoso fracasso do ponto de vista sócio-organizacional... Infelizmente, a história dos cuidados de saúde primários em Portugal é, também ela, um sucessão de tentativas de mudança que não têm passado do papel, independentemente da cor política do ministro da tutela...

Partilho as preocupações do Senhor Presidente da República, manifestada num encontro de economistas no Palácio de Belém, no mesmíssimo dia 12 de Março de 2004, quanto aos riscos de a empresarialização dos hospitais e demais serviços de saúde e a consequente lógica de mercado não garantirem, devidamente, a equidade (ou a igualdade de oportunidades), que é essencial à operacionalização do conceito de direito à saúde, consagrado na nossa Constituição.

Seria trágico que, mais de 30 trinta anos depois da consagração portuguesa do conceito de cuidados de saúde primários (com vários anos de avanço em relação a instâncias internacionais como a OMS), nós voltássemos à estaca zero, ou seja, à caixificação da saúde/doença, ao modelo de prestação de cuidados dominante nos Serviços Médico-Sociais das Caixas da Previdência.

Ora este risco é real, e eu partilho as preocupações da minha médica de família que, o ano passado, me explicou, detalhadamente, por que razão é que ela, pela primeira vez na sua vida, fazia uma greve no seu centro de saúde. Ela não tinha nada que se justificar perante mim, simples utente da sua grossa lista, mas eu achei bonito o seu gesto. Ao sair do seu gabinete, pensei cá com os meus botões quão privilegiado era eu por ter esta mulher como minha médica de família!

08 março 2004

Blogantologia(s) - IX: Welcome, hooligans all over the world!

Aí vai o endereço de um dicionário de calão inglês-português, de A a Z... Aproxima-se o Euro2004, o grande acontecimento das nossas vidas (cinzentas) de portugas...



Acontece que estamos todos convocados para esse desígnio nacional, seguindo li nos jornais. E eu próprio pus um autocolante no meu carro para que não restassem dúvidas sobre a minha portugalidade e o meu arreigado amor à selecção de todos nós.



Confesso que estou muito excitado com a perspectiva da chegada, às nossas pachorrentas cidades, de largas dezenas de milhares de hooligans ingleses (e outros), falando uma língua estranha... Para não falar já dos nossos hooligans domésticos (que agora passaram a chamar-se avelinos, em homenagem a um conhecida figura pública que faz parte do Portugal pitoresco do arrebimba-o-malho).



Mais confesso que não sou muito entendido nessas coisas da bola, mas estou com curiosidade em saber quais os nomes feios que se irão chamar aos árbitros do Euro 2004, os palavrões com que irão ser mimoseados os cavalos da GNR e por aí fora...



Daí que eu já ande a estudar o minidicionário do calão inglês-português, disponibilizado pela Sofia Machado (da Universidade do Minho, segundo creio). O Governo mandou-nos ser acolhedores, hospitaleiros e bem educados. E eu, como cidadão exemplar e bom portuga, já estou a fazer a minha parte. Vocês façam a vossa. E não se esqueçam, quando a festa começar, de gritar em uníssono a frase que celebrizou o Marx e o Engels, em 1847: Hooligans de todo o mundo, uni-vos!... Hooligans ? Ou eram proletários ? Ou lumpen-proletários ? Bem, cito de cor, perdoem-me a falta de rigor.



PS - Outras fontes na Net: Há um relatório interessante, embora já datado de 1996, sobre o hooliganismo e a violência no futebol, com informação inclusive sobre Portugal. Os autores estão ligados ao SIRC - Social Issues Research Centre, um grupo de Oxford de que fazem parte alguns conhecidos (e polémicos) etólogos, antropólogos e sociobiólogos como Desmond Morris, Lionel Tiger ou Robin Fox...



Football Violence and Hooliganism in Europe

Marsh, P., Fox, K., Carnibella, G., McCann, J. and Marsh, J. (1996) Football Violence in Europe. The Amsterdam Group.

Blogantologia(s) - IX: Welcome, hooligans all over the world!

Aí vai o endereço de um dicionário de calão inglês-português, de A a Z... Aproxima-se o Euro2004, o grande acontecimento das nossas vidas (cinzentas) de portugas...

Acontece que estamos todos convocados para esse desígnio nacional, seguindo li nos jornais. E eu próprio pus um autocolante no meu carro para que não restassem dúvidas sobre a minha portugalidade e o meu arreigado amor à selecção de todos nós.

Confesso que estou muito excitado com a perspectiva da chegada, às nossas pachorrentas cidades, de largas dezenas de milhares de hooligans ingleses (e outros), falando uma língua estranha... Para não falar já dos nossos hooligans domésticos (que agora passaram a chamar-se avelinos, em homenagem a um conhecida figura pública que faz parte do Portugal pitoresco do arrebimba-o-malho).

Mais confesso que não sou muito entendido nessas coisas da bola, mas estou com curiosidade em saber quais os nomes feios que se irão chamar aos árbitros do Euro 2004, os palavrões com que irão ser mimoseados os cavalos da GNR e por aí fora...

Daí que eu já ande a estudar o minidicionário do calão inglês-português, disponibilizado pela Sofia Machado (da Universidade do Minho, segundo creio). O Governo mandou-nos ser acolhedores, hospitaleiros e bem educados. E eu, como cidadão exemplar e bom portuga, já estou a fazer a minha parte. Vocês façam a vossa. E não se esqueçam, quando a festa começar, de gritar em uníssono a frase que celebrizou o Marx e o Engels, em 1847: Hooligans de todo o mundo, uni-vos!... Hooligans ? Ou eram proletários ? Ou lumpen-proletários ? Bem, cito de cor, perdoem-me a falta de rigor.

PS - Outras fontes na Net: Há um relatório interessante, embora já datado de 1996, sobre o hooliganismo e a violência no futebol, com informação inclusive sobre Portugal. Os autores estão ligados ao SIRC - Social Issues Research Centre, um grupo de Oxford de que fazem parte alguns conhecidos (e polémicos) etólogos, antropólogos e sociobiólogos como Desmond Morris, Lionel Tiger ou Robin Fox...

Football Violence and Hooliganism in Europe
Marsh, P., Fox, K., Carnibella, G., McCann, J. and Marsh, J. (1996) Football Violence in Europe. The Amsterdam Group.

03 março 2004

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - III: Quando o médico atesta sob palavra de honra

Esta história acaba de me ser contada por um amigo meu, conhecido médico de família (não vou identificá-lo por razões óbvias de ética e sigilo profissional).



Ele que me perdoe mas eu não resisto a divulgá-la na blogosfera. É uma história exemplar que eu acho que pode e deve figurar numa futura antologia sobre o Portugal sacro-profano, o Portugal profundo, os portugas, a medicina, o sistema de saúde e tudo o que gira à volta disto. Aqui vai ela sem tirar nem pôr:



"Esta manhã quando pelas 8.30 cheguei à Extensão de Saúde, já tinha um jovem mancebo à minha espera, a tiritar de frio (geralmente sou eu que abro a porta e habitualmente chego antes dos utentes). Pensando tratar-se de um caso urgente, mandei-o logo entrar. Diz-me ele: 'Fui inscrever-me para a GNR e como o meu BI tem uma altura que é inferior à exigida para entrar nesta instituição, mandaram-me vir ter com o Sr. Doutor para passar um atestado com a minha altura actual'...



Comentário sábio e bem humorado do médico, no e-mail que me mandou:



"Hipótese 1: neste País só os médicos sabem medir a altura dos indivíduos; hipótese 2: neste País só confiam na palavra de honra dos médicos"...

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - III: Quando o médico atesta sob palavra de honra

Esta história acaba de me ser contada por um amigo meu, conhecido médico de família (não vou identificá-lo por razões óbvias de ética e sigilo profissional).

Ele que me perdoe mas eu não resisto a divulgá-la na blogosfera. É uma história exemplar que eu acho que pode e deve figurar numa futura antologia sobre o Portugal sacro-profano, o Portugal profundo, os portugas, a medicina, o sistema de saúde e tudo o que gira à volta disto. Aqui vai ela sem tirar nem pôr:

"Esta manhã quando pelas 8.30 cheguei à Extensão de Saúde, já tinha um jovem mancebo à minha espera, a tiritar de frio (geralmente sou eu que abro a porta e habitualmente chego antes dos utentes). Pensando tratar-se de um caso urgente, mandei-o logo entrar. Diz-me ele: 'Fui inscrever-me para a GNR e como o meu BI tem uma altura que é inferior à exigida para entrar nesta instituição, mandaram-me vir ter com o Sr. Doutor para passar um atestado com a minha altura actual'...

Comentário sábio e bem humorado do médico, no e-mail que me mandou:

"Hipótese 1: neste País só os médicos sabem medir a altura dos indivíduos; hipótese 2: neste País só confiam na palavra de honra dos médicos"...

01 março 2004

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - II: Os médicos para a machamba, já!

1. À hora do almoço fico sem ideias. E sobretudo com inveja dos almoços de trabalho dos executivos das nossas empresas. Um sandocha e um sumo de fruta são o suficiente para um golden collar (colarinho dourado) que não precisa de gastar muitas calorias ao longo do dia. Contrariamente ao pobre do blue collar (colarinho azul).



Isto diz o meu nutricionista, que é também o meu personal coach em matéria de wellness. Ele trouxe a ideia da América, é uma coisa que está na moda e que vende bem: veja-se o negócio do wellness por esse país fora. Health clubs e fitness centres, é o que está a dar. E ainda bem para as fornadas de jovens que saem licenciados em ciências do desporto e artes correlativas.



Eu sei que ele, o meu personal coach, às escondidas, também é capaz de cometer os seus pecados veniais ou até capitais, como qualquer bom portuga e cristão: arroz de tamboril, cozido à portuguesa, leitão da bairrada, anho assado no forno, carne à alentejana, feijoada transmontana, bacalhau com todos, bife à Trindade e por aí fora. Mas, enfim, faz o que prega o Frei Tomás mas não faças o que ele faz.



Adiante. Para se ter uma carreira (já não há carreiras!), para se ter uma vida (que ironia!), com saúde, com qualidade, mas também repleta de vitórias, êxitos, sucessos, golos e sobretudo muito dinheiro, não precisas de comer muito. Pelo contrário: tens de ser um asceta, um calvinista dos bons...



Um país que come muito não vai longe. E sobretudo se comer acima das suas necessidades e possibilidades. Esta é, pelo menos, a minha teoria e a do meu personal coach (que inveja!, diz a minha vizinha do lado, não por comer pouco, mas por ser uma tia e não ter um personal coach).



2. Passemos a outro tipo de confissões: hoje gostaria de bater palmas aos portugas que o merec(ess)em. E creio que há tantos. Somos uma terra de talentos por descobrir, por revelar. Aliás, é o que nos resta, depois dos impérios achados e perdidos. E é o que nos vale, o que sempre nos valeu, a nossa fábrica de talentos em potência.



Não sei o que me deu, com esta de querer bater palmas a alguém melhor do que eu, mas é capaz de ser a aproximação da primavera. Ou é o espírito de caridade cristã de que tanto se fala quando pela enésima vez se debate em vão o problema da descriminalização do aborto (de que Deus nos livre!). Ou então é o princípio da doença bipolar que ataca o portuga, cuja história de vida pode ser resumida a dois momentos: os de euforia e os de depressão.



Pessoalmente, não acredito nessas estatísticas que nos põem em último lugar, em tudo ou quase tudo, e agora também em matéria de criativos por metro quadrado (poetas, músicos, inventores, artistas, cientistas, etc.). Reajo mal, patrioticamente mal (quem diria!), a esta mania masoquista que deu agora aos portugas, transformados em coleccionadores de estatísticas que os põem sempre na mó de baixo!...



Foram os jornalistas que descobriram o filão: os portugas pagam para ver, ouvir e ler notícias destas, pagam para serem exibidos em público como coitadinhos!



- Que estranho povo, o vosso!, dizem-me os nossos camaradas da Europa setentrional. E na volta traz-me lá o último disco de fado da Mísia... (Mentira: não saio deste rectângulo da península ibérica desde o triunfo do euro sobre o escudo! Veio o euro e foi-se o meu poder de compra, a mobilidade sócio-espacial, a liberdade de circulação pelas auto-estradas da eurolândia...).



Felizmente que a criatividade também é como a economia: há uma, subterrânea, informal, paralela, clandestina... Descubro-a todos os dias na capacidade inventativa dos portugas, no seu sentido secular de desenrascanço, de sobrevivência, de viver à tona de água... Arte de marinheiro, de maçarico, de mouro levado à força para todo o serviço nas naus do mundo a haver...



E depois é mais fácil reparar nela (a dita criatividade) quando os portugas oferecem os seus talentos à estranja ou brilham na estranja: veja-se o caso do mal amado António Lobo Antunes, do mal tratado Zé Saramago, para não falar já da real sereníssima Sophia (de Mello Breyner Andresen), do futuro Prémio Nobel da Medicina António Damásio, do citadíssimo António Coutinho, do grande Figo, da fabulosa Paula Rego, do fantástico Eduardo Serra, da belíssima Mariza, da mozartiana Maria João Pires e de tantos outros, uns mais conhecidos, outros menos, cá dentro.



O nosso cientista mais famoso ou pelo menos mais citado (450 referências nas melhores revistas de genética, imunologia, biologia e outras ciências duras), por exemplo: não sei onde li, talvez no Expresso, o jornal do nosso regime demoliberal. Ele teve uma ideia original para reformar o ensino médico em Portugal: (i) mandar os estudantes de medicina limpar o cu aos doentes, substituindo durante um ano os enfermeiros que delegam estas tarefas menos nobres da prestação de cuidados nos chamados auxiliares de acção médica que, por sua vez, delegam nos familiares dos doentes, na hora das visitas que até vai passar a ser de 24 horas por dia, tal como nos hospitais de Luanda; e, paralelamente, (ii) pôr os professores de medicina a dar aulas de ciências sociais e humanas, de modo a aumentar a taxa de turnover, a mobilidade dos genes e, portanto, melhorar a pool genética da Universidade Portuguesa.



Ele, o nosso cientista mais citado em todo o mundo, está particulamente preocupado com a elevada taxa de consanguinidade (95%) da massa cinzenta que ensina (e alguma, pouca, que investiga) nas universidades dos portugas: os profs são todos filhos, legítimos ou bastardos, uns dos outros! Ora aqui está um ponto (sério) para uma discussão (a sério): a endogamia da universidade e do seu clero, a par dos métodos pedagógicos usados nas faculdades de medicina.



Shortly, precisamos de um verdadeiro método para ensinar medicina aos mancebos: aí estamos de acordo, que a memorização dos manuais de anatomia, fisiologia, bioquímica e genética não chega para fazer um bom médico, um bom clínico. Dir-me-ão que o homem é um biólogo, um fundamentalista, um médico não clínico, e que esta não passa de uma nova versão de um velho conflito de paradigmas. Seja como for, é uma voz autorizada e muito respeitável de um estrangeirado. Tal como Luís Verney ou Sanches Ribeiro no Século das Luzes...



Quanto aos aspirantes a médicos (e os demais estudantes das outras profissões científicas e técnicas, desde os engenheiros aos magistrados) eu também acho que lhes fazia bem pelo menos um dia por ano na machamba. Como em Moçambique no tempo do grande líder Samora Machel. Por uma razão simples: para que as elites portuguesas de amanhã não tenham, como no passado, desprezo pelo trabalho manual. E saibem o que é um campuna (uma espécie em vias de extinção).



3. Confesso que eu hoje queria bater palmas aos portugas. Mas estou sem ideias. Pode ser que amanhã tenha mais algumas (ideias) sobre isso: (i) a razão de não ter hoje ideias nenhumas; ou (ii) o facto de não me ocorrer um portuga a quem bater palmas para além do nosso cientista mais citado em todo o mundo. Falando sério: ele, o António Coutinho, o director do Instituto Gulbenkian de Ciência, é o único a quem me ocorre, hoje, a esta hora, bater palmas. Os portugas deveriam ter orgulho num cientista como ele. Em contapartida, muito poucos, o conhecem.



Foi pena o grande director de fotografia que é o Eduadrdo Serra, não ter ganho o Óscar da Academia. Fiquei decepcionado. Diziam-me que estava quase no papo. Aqueles américas são uns etnocêntricos! Se calhar falhou a nossa empresa de lobbying ou o nosso agente em Hollywood. Ou a máquina de guerra do Ministério dos Negócios Extrangeiros que se devia ocupar mais dos portugas da diáspora e da promoção da portugalidade (ó blogador, até pareces o ministro da defesa Paulo Portas a falar às tropas!).



De qualquer modo, foi importante descobrir-se mais um portuga que é bom no que faz. A nível mundial, repare-se. Refiro-me ao director de fotografia do filme europeu A rapariga com brinco de pérola. Um filme, aliás, que eu, blogador, recomendo aos consumidores do blogue-fora-nada. Por ser europeu. Pela fotografia. Pela época, que eu adoro: a idade de ouro da burguesia mercantil e financeira holandesa (meados do Séc. XVII). E, claro, do Vermeer. A rapariga do brinco de pérola vale bem a Gioconda e o nosso Museu das Janelas Verdes (que enormidade!)...



4. Mas a hora, agora, meus senhores, é dos gestores e dos empresários. São eles que estão sob as luzes da ribalta. São eles as primas donas. São eles de quem se espera a salvação da mãe-mátria. Nunca como agora se ouviu tanto dizer quanto é preciso empresarializar, gerir como uma empresa, gerir tout court: tudo, o país, os portugas, os hospitais, as escolas, a universidade, as empresas públicas, as câmaras municipais, o canil camarário, a junta de freguesia, a recolha do lixo, os sem-abrigo, as prisões, quiçá até as forças armadas, os submarinos, o ministério público e os tribunais. Os clubes de futebol foram os primeiros a dar o exemplo. E não é por acaso que, à falta de melhor, a bola é agora o motor da nossa economia.



A gestão está definitivamente na moda. Meus senhores, passou a época dos revolucionários, dos baladeiros, dos reformadores, dos políticos, dos juristas, dos engenheiros e até dos economistas. Agora o que é preciso é saber criar riqueza. E para isso estão cá os gestores.



A frase que eu tenho mais ouvido, no ano do festivaleiro Euro 2004, é lapidar a este respeito: "é tudo uma questão de organização!"... Cem anos depois, imaginem!, da santíssima trindade Weber, Taylor & Fayol que está na origem do scientific management... Só nunca percebi como é que os portugas descobriram o caminho marítimo para a Índia, chegaram ao Brasil e aportaram ao Japão...

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - II: Os médicos para a machamba, já!

1. À hora do almoço fico sem ideias. E sobretudo com inveja dos almoços de trabalho dos executivos das nossas empresas. Um sandocha e um sumo de fruta são o suficiente para um golden collar (colarinho dourado) que não precisa de gastar muitas calorias ao longo do dia. Contrariamente ao pobre do blue collar (colarinho azul).

Isto diz o meu nutricionista, que é também o meu personal coach em matéria de wellness. Ele trouxe a ideia da América, é uma coisa que está na moda e que vende bem: veja-se o negócio do wellness por esse país fora. Health clubs e fitness centres, é o que está a dar. E ainda bem para as fornadas de jovens que saem licenciados em ciências do desporto e artes correlativas.

Eu sei que ele, o meu personal coach, às escondidas, também é capaz de cometer os seus pecados veniais ou até capitais, como qualquer bom portuga e cristão: arroz de tamboril, cozido à portuguesa, leitão da bairrada, anho assado no forno, carne à alentejana, feijoada transmontana, bacalhau com todos, bife à Trindade e por aí fora. Mas, enfim, faz o que prega o Frei Tomás mas não faças o que ele faz.

Adiante. Para se ter uma carreira (já não há carreiras!), para se ter uma vida (que ironia!), com saúde, com qualidade, mas também repleta de vitórias, êxitos, sucessos, golos e sobretudo muito dinheiro, não precisas de comer muito. Pelo contrário: tens de ser um asceta, um calvinista dos bons...

Um país que come muito não vai longe. E sobretudo se comer acima das suas necessidades e possibilidades. Esta é, pelo menos, a minha teoria e a do meu personal coach (que inveja!, diz a minha vizinha do lado, não por comer pouco, mas por ser uma tia e não ter um personal coach).

2. Passemos a outro tipo de confissões: hoje gostaria de bater palmas aos portugas que o merec(ess)em. E creio que há tantos. Somos uma terra de talentos por descobrir, por revelar. Aliás, é o que nos resta, depois dos impérios achados e perdidos. E é o que nos vale, o que sempre nos valeu, a nossa fábrica de talentos em potência.

Não sei o que me deu, com esta de querer bater palmas a alguém melhor do que eu, mas é capaz de ser a aproximação da primavera. Ou é o espírito de caridade cristã de que tanto se fala quando pela enésima vez se debate em vão o problema da descriminalização do aborto (de que Deus nos livre!). Ou então é o princípio da doença bipolar que ataca o portuga, cuja história de vida pode ser resumida a dois momentos: os de euforia e os de depressão.

Pessoalmente, não acredito nessas estatísticas que nos põem em último lugar, em tudo ou quase tudo, e agora também em matéria de criativos por metro quadrado (poetas, músicos, inventores, artistas, cientistas, etc.). Reajo mal, patrioticamente mal (quem diria!), a esta mania masoquista que deu agora aos portugas, transformados em coleccionadores de estatísticas que os põem sempre na mó de baixo!...

Foram os jornalistas que descobriram o filão: os portugas pagam para ver, ouvir e ler notícias destas, pagam para serem exibidos em público como coitadinhos!

- Que estranho povo, o vosso!, dizem-me os nossos camaradas da Europa setentrional. E na volta traz-me lá o último disco de fado da Mísia... (Mentira: não saio deste rectângulo da península ibérica desde o triunfo do euro sobre o escudo! Veio o euro e foi-se o meu poder de compra, a mobilidade sócio-espacial, a liberdade de circulação pelas auto-estradas da eurolândia...).

Felizmente que a criatividade também é como a economia: há uma, subterrânea, informal, paralela, clandestina... Descubro-a todos os dias na capacidade inventativa dos portugas, no seu sentido secular de desenrascanço, de sobrevivência, de viver à tona de água... Arte de marinheiro, de maçarico, de mouro levado à força para todo o serviço nas naus do mundo a haver...

E depois é mais fácil reparar nela (a dita criatividade) quando os portugas oferecem os seus talentos à estranja ou brilham na estranja: veja-se o caso do mal amado António Lobo Antunes, do mal tratado Zé Saramago, para não falar já da real sereníssima Sophia (de Mello Breyner Andresen), do futuro Prémio Nobel da Medicina António Damásio, do citadíssimo António Coutinho, do grande Figo, da fabulosa Paula Rego, do fantástico Eduardo Serra, da belíssima Mariza, da mozartiana Maria João Pires e de tantos outros, uns mais conhecidos, outros menos, cá dentro.

O nosso cientista mais famoso ou pelo menos mais citado (450 referências nas melhores revistas de genética, imunologia, biologia e outras ciências duras), por exemplo: não sei onde li, talvez no Expresso, o jornal do nosso regime demoliberal. Ele teve uma ideia original para reformar o ensino médico em Portugal: (i) mandar os estudantes de medicina limpar o cu aos doentes, substituindo durante um ano os enfermeiros que delegam estas tarefas menos nobres da prestação de cuidados nos chamados auxiliares de acção médica que, por sua vez, delegam nos familiares dos doentes, na hora das visitas que até vai passar a ser de 24 horas por dia, tal como nos hospitais de Luanda; e, paralelamente, (ii) pôr os professores de medicina a dar aulas de ciências sociais e humanas, de modo a aumentar a taxa de turnover, a mobilidade dos genes e, portanto, melhorar a pool genética da Universidade Portuguesa.

Ele, o nosso cientista mais citado em todo o mundo, está particulamente preocupado com a elevada taxa de consanguinidade (95%) da massa cinzenta que ensina (e alguma, pouca, que investiga) nas universidades dos portugas: os profs são todos filhos, legítimos ou bastardos, uns dos outros! Ora aqui está um ponto (sério) para uma discussão (a sério): a endogamia da universidade e do seu clero, a par dos métodos pedagógicos usados nas faculdades de medicina.

Shortly, precisamos de um verdadeiro método para ensinar medicina aos mancebos: aí estamos de acordo, que a memorização dos manuais de anatomia, fisiologia, bioquímica e genética não chega para fazer um bom médico, um bom clínico. Dir-me-ão que o homem é um biólogo, um fundamentalista, um médico não clínico, e que esta não passa de uma nova versão de um velho conflito de paradigmas. Seja como for, é uma voz autorizada e muito respeitável de um estrangeirado. Tal como Luís Verney ou Sanches Ribeiro no Século das Luzes...

Quanto aos aspirantes a médicos (e os demais estudantes das outras profissões científicas e técnicas, desde os engenheiros aos magistrados) eu também acho que lhes fazia bem pelo menos um dia por ano na machamba. Como em Moçambique no tempo do grande líder Samora Machel. Por uma razão simples: para que as elites portuguesas de amanhã não tenham, como no passado, desprezo pelo trabalho manual. E saibem o que é um campuna (uma espécie em vias de extinção).

3. Confesso que eu hoje queria bater palmas aos portugas. Mas estou sem ideias. Pode ser que amanhã tenha mais algumas (ideias) sobre isso: (i) a razão de não ter hoje ideias nenhumas; ou (ii) o facto de não me ocorrer um portuga a quem bater palmas para além do nosso cientista mais citado em todo o mundo. Falando sério: ele, o António Coutinho, o director do Instituto Gulbenkian de Ciência, é o único a quem me ocorre, hoje, a esta hora, bater palmas. Os portugas deveriam ter orgulho num cientista como ele. Em contapartida, muito poucos, o conhecem.

Foi pena o grande director de fotografia que é o Eduadrdo Serra, não ter ganho o Óscar da Academia. Fiquei decepcionado. Diziam-me que estava quase no papo. Aqueles américas são uns etnocêntricos! Se calhar falhou a nossa empresa de lobbying ou o nosso agente em Hollywood. Ou a máquina de guerra do Ministério dos Negócios Extrangeiros que se devia ocupar mais dos portugas da diáspora e da promoção da portugalidade (ó blogador, até pareces o ministro da defesa Paulo Portas a falar às tropas!).

De qualquer modo, foi importante descobrir-se mais um portuga que é bom no que faz. A nível mundial, repare-se. Refiro-me ao director de fotografia do filme europeu A rapariga com brinco de pérola. Um filme, aliás, que eu, blogador, recomendo aos consumidores do blogue-fora-nada. Por ser europeu. Pela fotografia. Pela época, que eu adoro: a idade de ouro da burguesia mercantil e financeira holandesa (meados do Séc. XVII). E, claro, do Vermeer. A rapariga do brinco de pérola vale bem a Gioconda e o nosso Museu das Janelas Verdes (que enormidade!)...

4. Mas a hora, agora, meus senhores, é dos gestores e dos empresários. São eles que estão sob as luzes da ribalta. São eles as primas donas. São eles de quem se espera a salvação da mãe-mátria. Nunca como agora se ouviu tanto dizer quanto é preciso empresarializar, gerir como uma empresa, gerir tout court: tudo, o país, os portugas, os hospitais, as escolas, a universidade, as empresas públicas, as câmaras municipais, o canil camarário, a junta de freguesia, a recolha do lixo, os sem-abrigo, as prisões, quiçá até as forças armadas, os submarinos, o ministério público e os tribunais. Os clubes de futebol foram os primeiros a dar o exemplo. E não é por acaso que, à falta de melhor, a bola é agora o motor da nossa economia.

A gestão está definitivamente na moda. Meus senhores, passou a época dos revolucionários, dos baladeiros, dos reformadores, dos políticos, dos juristas, dos engenheiros e até dos economistas. Agora o que é preciso é saber criar riqueza. E para isso estão cá os gestores.

A frase que eu tenho mais ouvido, no ano do festivaleiro Euro 2004, é lapidar a este respeito: "é tudo uma questão de organização!"... Cem anos depois, imaginem!, da santíssima trindade Weber, Taylor & Fayol que está na origem do scientific management... Só nunca percebi como é que os portugas descobriram o caminho marítimo para a Índia, chegaram ao Brasil e aportaram ao Japão...

26 fevereiro 2004

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - I : Carta a Sua Excelência, o Ministro da Saúde

Cópia do original.



Para memória futura.

Para os vindouros.

Para os historiadores.

Para os que vierem depois de eu fechar a porta.

Para os guardiões da Torre do Tombo.

Para quem de direito. Para os pagantes. Para os não-pagantes. Para os actores. Para os espectadores.

Para os marginais-secantes.

Para o mercado e a bolsa de Lisboa e a casa forte do Banco de Portugal.

Para o Portugal S.A. Para o Portugal Sociedade Anal.

Para os loucos e os menos loucos.

Para os poetas que têm um pouco de gestores.

Para os gestores que têm um pouco de médicos.

Para os médicos que têm um pouco de loucos.

Para os economistas que gostariam de governar o mundo.

Para os políticos que gostariam de mandar nos economistas, nos gestores, nos médicos e nos doentes.

Para aqueles dos políticos que falam em nome do povo.

E para aqueles que gostariam de mandar no povo.

Para os da lista de espera que desesperam de esperar.

Para os que vão morrer esta noite nos Hospitais S.A.

Para os que foram hoje ao serviço de atendimento permanente do meu centro de saúde e deram com a porta na cara.

Para os doentes agudos. Para os doentes crónicos.

Para os hipocondríacos. Para os doentes da saúde.

Para as vítimas da guerra, dos terramotos, da fome, da peste e do bispo da nossa terra, de que Deus nos livre!

Para os simples, os utentes, os pacientes, os clientes, os beneficiários, as crianças.

Para os meus (con)cidadãos, os remediados e os ricos.

Para os pobres, os tristes, os descrentes, os desempregados, os velhos, os sós, os esquecidos e os desconsolados que frequentem o meu centro de saúde.

Para os apátridas. Para os que perderam a identidade.

Para aqueles de quem um dia se disse que eram os bem-aventurados porque deles seriam o reino dos céus, amen.

Para o meu fornecedor da revista cais no semáforo da esquina da rua da alegria com a avenida da liberdade.

Para a minha-médica-de-família-que-é-a-melhor-médica-do-mundo. Para o médico de família do gabinete ao lado que se enganou no curso que queria tirar.

Para o boticário do meu bairro. Para o meu barbeiro-sangrador. Para mim. Para ti, meu amor.

Para o meu psicanalista. Para o meu psicoterapeuta.

Para o meu médico do trabalho.

Para o meu técnico de higiene e segurança no trabalho.

Para o ergonista que está a desenhar o meu sistema técnico e organizacional de trabalho.

Para os habitantes da minha casa inteligente do futuro.

Para a minha cartomante preferida.

Para os mais distraídos. Para os votantes.

Para as debutantes. Para os amantes.

Para o meu patrão.

Para os meus dinossauros de estimação.

Para os médicos da noite. Para os médicos na noite.

Para a minha querida Médis.

Para o meu rico seguro contra todos os riscos.

Para a coisa (pública) e a sua gestão.

Para os contínuos, porteiros e seguranças do Estado.

Para os cobradores de impostos.

Para os pagadores de promessas.

Para os gestores e administradores dos serviços de saúde.

Para os que passam as noites e os dias a pensar na reforma do serviço nacional de saúde.

Para os reformadores do sistema. Para todos os reformadores.

Para a nossa saúde. Para os vírus que hão-de vir.

Para os codificadores de grupos de dignósticos homogéneos de doença.

Para os marcadores biológicos do Homo Sapiens Sapiens.

Para os arquitectos do genoma humano.

Para o meu antepassado troglodita que era recolector-caçador e que quando almoçava nunca sabia onde e o quê iria jantar.

Para os futuros ministros da saúde. Para os ministros do futuro. Para que Deus ilumine os nossos governantes e os pescadores que andam perdidos no mar alto.

Para conhecimento do Zé Portuga. Para o Zé Manel. Para o Zé, simplesmente.



PS - E para que o Blogador nunca perca de vista o essencial

_________________________



Lisboa, 19 de Fevereiro de 2004



Senhor Ministro da Saúde



Excelência,



Os Médicos de Família Carlos Arroz, João Rodrigues, José Luís Gomes e Luís Pisco, reuniram em 9 de Fevereiro de 2004, no Ministério da Saúde, a pedido de V. Exª, para análise da aplicação do DL 60/2003, de 1 de Abril, e modelos alternativos para a gestão dos Centros de Saúde, conforme previsto na Lei de Bases da Saúde. Nessa reunião ficou clara a nossa postura responsável de diálogo, transparência e objectividade nas propostas apresentadas, tendo sido consensualmente aceite o início dum trabalho conjunto conducente à concretização de novos modelos para a gestão dos Centros de Saúde baseados num contrato-programa nacional.



Surpreendentemente, três dias após a nossa reunião, tomamos conhecimento de que V. Exª teria comunicado, aos respectivos directores, a decisão de entregar a gestão dos Centros de Saúde de Vila Real (1 e 2), Santa Marta de Penaguião, Mesão Frio e Régua ao Centro Hospitalar de Vila Real / Peso da Régua, S.A.



Simultaneamente, recebemos a informação de que igual decisão estaria tomada relativamente aos Centros de Saúde englobados na área de influência do Centro Hospitalar da Cova da Beira, S.A.



Estupefactos e incrédulos perante um cenário que, a ser verdade, contraria as mais elementares regras da ética, da transparência e da boa fé nas relações interpessoais e institucionais, e que, obrigatoriamente, devem estar presentes ao nível dum órgão da governação, vimos solicitar junto de V. Exª os devidos e urgentes esclarecimentos formais sobre esta matéria.



Como se compreenderá não podemos esperar nem admitir de V. Exª outra resposta que não seja o imediato e inequívoco desmentido público deste tipo de decisões e linha de conduta.



Se tal não se verificar, os subscritores deste comunicado, não pondo em causa os deveres institucionais e de respeito para com o Governo e o Ministério da Saúde, consideram estar irremediavelmente comprometida a confiança no titular da respectiva pasta, pelo que nenhum trabalho ou negociação poderá desenvolver-se enquanto num dos lados prevalecer uma sistemática cultura de ocultação de factos e propósitos.



Com os nossos melhores cumprimentos



Carlos Arroz

João Rodrigues

José Luís Gomes

Luís Pisco

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - I : Carta a Sua Excelência, o Ministro da Saúde

Cópia do original.

Para memória futura.
Para os vindouros.
Para os historiadores.
Para os que vierem depois de eu fechar a porta.
Para os guardiões da Torre do Tombo.
Para quem de direito. Para os pagantes. Para os não-pagantes. Para os actores. Para os espectadores.
Para os marginais-secantes.
Para o mercado e a bolsa de Lisboa e a casa forte do Banco de Portugal.
Para o Portugal S.A. Para o Portugal Sociedade Anal.
Para os loucos e os menos loucos.
Para os poetas que têm um pouco de gestores.
Para os gestores que têm um pouco de médicos.
Para os médicos que têm um pouco de loucos.
Para os economistas que gostariam de governar o mundo.
Para os políticos que gostariam de mandar nos economistas, nos gestores, nos médicos e nos doentes.
Para aqueles dos políticos que falam em nome do povo.
E para aqueles que gostariam de mandar no povo.
Para os da lista de espera que desesperam de esperar.
Para os que vão morrer esta noite nos Hospitais S.A.
Para os que foram hoje ao serviço de atendimento permanente do meu centro de saúde e deram com a porta na cara.
Para os doentes agudos. Para os doentes crónicos.
Para os hipocondríacos. Para os doentes da saúde.
Para as vítimas da guerra, dos terramotos, da fome, da peste e do bispo da nossa terra, de que Deus nos livre!
Para os simples, os utentes, os pacientes, os clientes, os beneficiários, as crianças.
Para os meus (con)cidadãos, os remediados e os ricos.
Para os pobres, os tristes, os descrentes, os desempregados, os velhos, os sós, os esquecidos e os desconsolados que frequentem o meu centro de saúde.
Para os apátridas. Para os que perderam a identidade.
Para aqueles de quem um dia se disse que eram os bem-aventurados porque deles seriam o reino dos céus, amen.
Para o meu fornecedor da revista cais no semáforo da esquina da rua da alegria com a avenida da liberdade.
Para a minha-médica-de-família-que-é-a-melhor-médica-do-mundo. Para o médico de família do gabinete ao lado que se enganou no curso que queria tirar.
Para o boticário do meu bairro. Para o meu barbeiro-sangrador. Para mim. Para ti, meu amor.
Para o meu psicanalista. Para o meu psicoterapeuta.
Para o meu médico do trabalho.
Para o meu técnico de higiene e segurança no trabalho.
Para o ergonista que está a desenhar o meu sistema técnico e organizacional de trabalho.
Para os habitantes da minha casa inteligente do futuro.
Para a minha cartomante preferida.
Para os mais distraídos. Para os votantes.
Para as debutantes. Para os amantes.
Para o meu patrão.
Para os meus dinossauros de estimação.
Para os médicos da noite. Para os médicos na noite.
Para a minha querida Médis.
Para o meu rico seguro contra todos os riscos.
Para a coisa (pública) e a sua gestão.
Para os contínuos, porteiros e seguranças do Estado.
Para os cobradores de impostos.
Para os pagadores de promessas.
Para os gestores e administradores dos serviços de saúde.
Para os que passam as noites e os dias a pensar na reforma do serviço nacional de saúde.
Para os reformadores do sistema. Para todos os reformadores.
Para a nossa saúde. Para os vírus que hão-de vir.
Para os codificadores de grupos de dignósticos homogéneos de doença.
Para os marcadores biológicos do Homo Sapiens Sapiens.
Para os arquitectos do genoma humano.
Para o meu antepassado troglodita que era recolector-caçador e que quando almoçava nunca sabia onde e o quê iria jantar.
Para os futuros ministros da saúde. Para os ministros do futuro. Para que Deus ilumine os nossos governantes e os pescadores que andam perdidos no mar alto.
Para conhecimento do Zé Portuga. Para o Zé Manel. Para o Zé, simplesmente.

PS - E para que o Blogador nunca perca de vista o essencial
_________________________

Lisboa, 19 de Fevereiro de 2004

Senhor Ministro da Saúde

Excelência,

Os Médicos de Família Carlos Arroz, João Rodrigues, José Luís Gomes e Luís Pisco, reuniram em 9 de Fevereiro de 2004, no Ministério da Saúde, a pedido de V. Exª, para análise da aplicação do DL 60/2003, de 1 de Abril, e modelos alternativos para a gestão dos Centros de Saúde, conforme previsto na Lei de Bases da Saúde. Nessa reunião ficou clara a nossa postura responsável de diálogo, transparência e objectividade nas propostas apresentadas, tendo sido consensualmente aceite o início dum trabalho conjunto conducente à concretização de novos modelos para a gestão dos Centros de Saúde baseados num contrato-programa nacional.

Surpreendentemente, três dias após a nossa reunião, tomamos conhecimento de que V. Exª teria comunicado, aos respectivos directores, a decisão de entregar a gestão dos Centros de Saúde de Vila Real (1 e 2), Santa Marta de Penaguião, Mesão Frio e Régua ao Centro Hospitalar de Vila Real / Peso da Régua, S.A.

Simultaneamente, recebemos a informação de que igual decisão estaria tomada relativamente aos Centros de Saúde englobados na área de influência do Centro Hospitalar da Cova da Beira, S.A.

Estupefactos e incrédulos perante um cenário que, a ser verdade, contraria as mais elementares regras da ética, da transparência e da boa fé nas relações interpessoais e institucionais, e que, obrigatoriamente, devem estar presentes ao nível dum órgão da governação, vimos solicitar junto de V. Exª os devidos e urgentes esclarecimentos formais sobre esta matéria.

Como se compreenderá não podemos esperar nem admitir de V. Exª outra resposta que não seja o imediato e inequívoco desmentido público deste tipo de decisões e linha de conduta.

Se tal não se verificar, os subscritores deste comunicado, não pondo em causa os deveres institucionais e de respeito para com o Governo e o Ministério da Saúde, consideram estar irremediavelmente comprometida a confiança no titular da respectiva pasta, pelo que nenhum trabalho ou negociação poderá desenvolver-se enquanto num dos lados prevalecer uma sistemática cultura de ocultação de factos e propósitos.

Com os nossos melhores cumprimentos

Carlos Arroz
João Rodrigues
José Luís Gomes
Luís Pisco

25 fevereiro 2004

Blogantologia(s) - VIII: Medicina, Psiquiatria, Escrita & Outras Paixões (do Mia Couto)

"Medicina eu fiz até o segundo ano; estudei três anos, repeti o segundo ano e repetiria infinitamente o segundo ano. Eu tenho tantas profissões porque não quero ter nenhuma. É uma estratégia de não ser coisa nenhuma. Porque a partir do momento que eu me entendo a mim mesmo como sendo biólogo ou sendo escritor ou sendo jornalista ou sendo outra coisa qualquer, eu acho que fecho algumas janelas para o mundo e passo a ter uma relação que depois se encaminha sempre por aí, e eu não quero. Acho que é um empobrecimento.



" (...) eu tinha uma grande paixão. Era escrever. Desde menino que eu tenho essa ideia que uma parte da minha alma só se revela na escrita. Então, eu tinha uma certa idéia de que poderia ser psiquiatra. Esse era o meu desejo.



"Ia para a medicina para ser psiquiatra, mas depois apercebi-me de que a imagem que eu tinha de psiquiatria era muito romantizada. E aquilo que eu depois fui visitar era um mundo horrível, um mundo de prisão, e houve um grande desencantamento com isso. Segundo, eu era já membro da Frelimo, já era militante da causa da independência e isso para mim era muito mais empolgante.



Mia Couto (2002). In: Mia Couto e o exercício da humildade por Marilene Felinto (Folha de S. Paulo, 21 de Julho de 2002).



Comentário:



1. O que é um homem ? O que vale um homem ? Provavelmente nada fora do seu grupo de pertença, de referência e de identidade... O que é um homem sem pátria, sem língua, sem memória, sem circunstância ? Ou até sem bandeira ?



2. Curiosa esta paixão & repulsa dos escritores pela psiquiatria... A descida aos infernos da condição humana. Mia Couto quis ser médico psiquiatra, António Lobo Antunes exerce(u) a psiquiatria... Dois grandes escritores da língua portuguesa de quem eu particularmente gosto. Têm ambos, em comum, a paixão da escrita e a exploração dos labirintos da alma.

Blogantologia(s) - VIII: Medicina, Psiquiatria, Escrita & Outras Paixões (do Mia Couto)

"Medicina eu fiz até o segundo ano; estudei três anos, repeti o segundo ano e repetiria infinitamente o segundo ano. Eu tenho tantas profissões porque não quero ter nenhuma. É uma estratégia de não ser coisa nenhuma. Porque a partir do momento que eu me entendo a mim mesmo como sendo biólogo ou sendo escritor ou sendo jornalista ou sendo outra coisa qualquer, eu acho que fecho algumas janelas para o mundo e passo a ter uma relação que depois se encaminha sempre por aí, e eu não quero. Acho que é um empobrecimento.

" (...) eu tinha uma grande paixão. Era escrever. Desde menino que eu tenho essa ideia que uma parte da minha alma só se revela na escrita. Então, eu tinha uma certa idéia de que poderia ser psiquiatra. Esse era o meu desejo.

"Ia para a medicina para ser psiquiatra, mas depois apercebi-me de que a imagem que eu tinha de psiquiatria era muito romantizada. E aquilo que eu depois fui visitar era um mundo horrível, um mundo de prisão, e houve um grande desencantamento com isso. Segundo, eu era já membro da Frelimo, já era militante da causa da independência e isso para mim era muito mais empolgante.

Mia Couto (2002). In: Mia Couto e o exercício da humildade por Marilene Felinto (Folha de S. Paulo, 21 de Julho de 2002).

Comentário:

1. O que é um homem ? O que vale um homem ? Provavelmente nada fora do seu grupo de pertença, de referência e de identidade... O que é um homem sem pátria, sem língua, sem memória, sem circunstância ? Ou até sem bandeira ?

2. Curiosa esta paixão & repulsa dos escritores pela psiquiatria... A descida aos infernos da condição humana. Mia Couto quis ser médico psiquiatra, António Lobo Antunes exerce(u) a psiquiatria... Dois grandes escritores da língua portuguesa de quem eu particularmente gosto. Têm ambos, em comum, a paixão da escrita e a exploração dos labirintos da alma.

22 fevereiro 2004

Estórias com mural ao fundo - XXIII: Quem mente vai para o Inferno

1. Uma conhecida gestora de sucesso, Directora de Recursos Humanos de uma grande empresa ex-portuguesa, morreu de enfarte do miocárdio. Em plena for da idade (o que não é estranho, já que elas querem em tudo competir com os machos).



2. No outro mundo, dá de caras com São Pedro, ele próprio, em carne e osso. O Gestor do Paraíso!



- Sejas bem-vinda ao Paraíso, diz o São Pedro. Mas deixa-me desde já prevenir-te de uma coisa: não sei muito bem o que fazer contigo. Estive a ver o teu currículo e tens qualificações a mais: um bacharelato, uma licenciatura, um MBA, um doutoramento, um pós-doutoramento... Sabes, minha filha, os negócios celestiais são coisa fácil de gerir: nós somos o Estado, não há mercado, não há inovação, não há horizontes temporais, temos todo o tempo do mundo... E depois nós pagamos mal, não temos fringe benefits, não há comparticipação nos lucros nem no capital (profit-sharing e share ownership, como vocês dizem lá na terra)...

- Não há problema, patrãozinho, deixe-me só dar uma espreitadela para ver o clima organizacional, respondeu a doutora. Sabe como as mulheres são curiosas!

- Espera, tenho outra sugestão a fazer-te: vais passar um dia no Inferno e outro no Paraíso; e depois escolhes onde ficar para o resto da eternidade.



3. Chegada ao Inferno, a gestora viu abrir-se de par em par as portas de acesso a um luxuriante campo de golfe. Mais adiante, havia um esplêndido clube de vela. E logo a seguir outro, ainda mais luxuoso, de caça. E, lá longe, uma magnífica estação de esqui... Havia tudo do bom e do melhor: hotéis, jardins, condomínios fechados, lojas de perfumes, carros e homens bonitos, passagens de modelos, bailes de gala, chás de caridade, e por aí fora.



Depressa ela encontrou os gestores executivos com quem tinha trabalhado na terra, mais os seus gurus, os seus mestres e os seus professores... Todos aparentavam estar em grande forma, transparecendo saúde, felicidade, riqueza e glamour. As emoções do dia culminaram num dos melhores restaurantes do inferno, a que não faltaram o melhor champanhe francês, o melhor Porto Vintage e o melhor humor da corporação do management.



Contrariamente aos preconceitos que ela tinha sobre ele, o dono da casa mostrou-se um anfitrião de cinco estrelas, elegante, charmoso, educado, afável e até divertido, exprimindo-se num razoável inglês. A nossa executiva estava a sentir-se nas suas sete quintas quando recebeu ordens, pelo secretário particular do Diabo, para se preparar para partir para o céu.



4. Aqui o ambiente era outro: literalmente celestial ("Chato p'ra burro", pensou ela para com os seus botões). Nas 24 horas do programa, a mulher andou num monotóno carrossel, de nuvem para nuvem, ouvindo os anjinhos a tocar harpa e cantar melodias infantis... Até lhe fez lembrar o ambiente do seu departmento, nos últimos tempos das suas funções como gestora, quando teve que aplicar um programa de emagrecimento radical à sua empresa que depois viria a ser vendida aos espanhóis...



- Então, minha filha, qual é a tua impressão ?, perguntou o São Pedro no final da visita.

- Senhor São Pedro, não há dúvida que o Paraíso é maravilhoso, é a melhor empresa que eu já conheci: sem conflitos, sem problemas com o pessoal, os clientes, os bancos ou os fornecedores, sem um ai, sem um ui... Tudo rola sobre esferas de algodão! Mas, para lhe falar verdade (que foi coisa que eu nunca consegui fazer lá na terra), senti-me bem melhor no Inferno, com os meus antigos patrões e colegas de trabalho... Sabe, sinto falta de toda aquela intensa vida social que faz as delícias da gestão de recursos humanos...



5. O São Pedro, cavalheiresco mas já velho e cansado, acompanhou-a na descida até ao Inferno... Quando as portas do elevador se abriram, ela deparou-se com um lugar frio, inóspito, desolador, lunar... Viu todos os seus antigos amigos com os fatos dos melhores costureiros reduzidos a trapos, trabalhando como escravos, acorrentados e assediados por mil e um diabos e diabretes. Teve um arrepio: aquilo fez-lhe lembrar a sua primeira experiência profissional como agente de organização e métodos numa fábrica de metalomecânica da Amadora nos já idos anos de 1960!



O Diabo pegou na mulher por um braço e arrastou-a com brutalidade, enquanto o São Pedro voltava para o seu posto de trabalho, cabisbaixo...

- Não entendo, gritou ela. Ontem eu estava aqui e havia imensos espaços verdes, um campo de golfe, um restaurante francês... Comemos lagosta, bebemos champanhe, contámos anedotas, divertimo-nos. Prometeram-me um lugar em grande na eternidade!



O diabo olhou para ela e soltou uma gargalhada:

- Pois é, minha filha, nós utilizamos as mesmas técnicas de selecção e recrutamento de pessoal... Ontem a nossa empresa estava a seduzir-te e a contratar-te... Hoje já fazes parte da equipa do Inferno.



Moral da história:



(i) As políticas de gestão de recursos humanos e os seus gestores vão parar ao Inferno porque mentem...



(ii) Não há mais políticas de gestão de recursos humanos. Previsíveis e consistentes.



(iii) Não há mais recursos humanos...

Estórias com mural ao fundo - XXIII: Quem mente vai para o Inferno

1. Uma conhecida gestora de sucesso, Directora de Recursos Humanos de uma grande empresa ex-portuguesa, morreu de enfarte do miocárdio. Em plena for da idade (o que não é estranho, já que elas querem em tudo competir com os machos).

2. No outro mundo, dá de caras com São Pedro, ele próprio, em carne e osso. O Gestor do Paraíso!

- Sejas bem-vinda ao Paraíso, diz o São Pedro. Mas deixa-me desde já prevenir-te de uma coisa: não sei muito bem o que fazer contigo. Estive a ver o teu currículo e tens qualificações a mais: um bacharelato, uma licenciatura, um MBA, um doutoramento, um pós-doutoramento... Sabes, minha filha, os negócios celestiais são coisa fácil de gerir: nós somos o Estado, não há mercado, não há inovação, não há horizontes temporais, temos todo o tempo do mundo... E depois nós pagamos mal, não temos fringe benefits, não há comparticipação nos lucros nem no capital (profit-sharing e share ownership, como vocês dizem lá na terra)...
- Não há problema, patrãozinho, deixe-me só dar uma espreitadela para ver o clima organizacional, respondeu a doutora. Sabe como as mulheres são curiosas!
- Espera, tenho outra sugestão a fazer-te: vais passar um dia no Inferno e outro no Paraíso; e depois escolhes onde ficar para o resto da eternidade.

3. Chegada ao Inferno, a gestora viu abrir-se de par em par as portas de acesso a um luxuriante campo de golfe. Mais adiante, havia um esplêndido clube de vela. E logo a seguir outro, ainda mais luxuoso, de caça. E, lá longe, uma magnífica estação de esqui... Havia tudo do bom e do melhor: hotéis, jardins, condomínios fechados, lojas de perfumes, carros e homens bonitos, passagens de modelos, bailes de gala, chás de caridade, e por aí fora.

Depressa ela encontrou os gestores executivos com quem tinha trabalhado na terra, mais os seus gurus, os seus mestres e os seus professores... Todos aparentavam estar em grande forma, transparecendo saúde, felicidade, riqueza e glamour. As emoções do dia culminaram num dos melhores restaurantes do inferno, a que não faltaram o melhor champanhe francês, o melhor Porto Vintage e o melhor humor da corporação do management.

Contrariamente aos preconceitos que ela tinha sobre ele, o dono da casa mostrou-se um anfitrião de cinco estrelas, elegante, charmoso, educado, afável e até divertido, exprimindo-se num razoável inglês. A nossa executiva estava a sentir-se nas suas sete quintas quando recebeu ordens, pelo secretário particular do Diabo, para se preparar para partir para o céu.

4. Aqui o ambiente era outro: literalmente celestial ("Chato p'ra burro", pensou ela para com os seus botões). Nas 24 horas do programa, a mulher andou num monotóno carrossel, de nuvem para nuvem, ouvindo os anjinhos a tocar harpa e cantar melodias infantis... Até lhe fez lembrar o ambiente do seu departmento, nos últimos tempos das suas funções como gestora, quando teve que aplicar um programa de emagrecimento radical à sua empresa que depois viria a ser vendida aos espanhóis...

- Então, minha filha, qual é a tua impressão ?, perguntou o São Pedro no final da visita.
- Senhor São Pedro, não há dúvida que o Paraíso é maravilhoso, é a melhor empresa que eu já conheci: sem conflitos, sem problemas com o pessoal, os clientes, os bancos ou os fornecedores, sem um ai, sem um ui... Tudo rola sobre esferas de algodão! Mas, para lhe falar verdade (que foi coisa que eu nunca consegui fazer lá na terra), senti-me bem melhor no Inferno, com os meus antigos patrões e colegas de trabalho... Sabe, sinto falta de toda aquela intensa vida social que faz as delícias da gestão de recursos humanos...

5. O São Pedro, cavalheiresco mas já velho e cansado, acompanhou-a na descida até ao Inferno... Quando as portas do elevador se abriram, ela deparou-se com um lugar frio, inóspito, desolador, lunar... Viu todos os seus antigos amigos com os fatos dos melhores costureiros reduzidos a trapos, trabalhando como escravos, acorrentados e assediados por mil e um diabos e diabretes. Teve um arrepio: aquilo fez-lhe lembrar a sua primeira experiência profissional como agente de organização e métodos numa fábrica de metalomecânica da Amadora nos já idos anos de 1960!

O Diabo pegou na mulher por um braço e arrastou-a com brutalidade, enquanto o São Pedro voltava para o seu posto de trabalho, cabisbaixo...
- Não entendo, gritou ela. Ontem eu estava aqui e havia imensos espaços verdes, um campo de golfe, um restaurante francês... Comemos lagosta, bebemos champanhe, contámos anedotas, divertimo-nos. Prometeram-me um lugar em grande na eternidade!

O diabo olhou para ela e soltou uma gargalhada:
- Pois é, minha filha, nós utilizamos as mesmas técnicas de selecção e recrutamento de pessoal... Ontem a nossa empresa estava a seduzir-te e a contratar-te... Hoje já fazes parte da equipa do Inferno.

Moral da história:

(i) As políticas de gestão de recursos humanos e os seus gestores vão parar ao Inferno porque mentem...

(ii) Não há mais políticas de gestão de recursos humanos. Previsíveis e consistentes.

(iii) Não há mais recursos humanos...

Humor com humor se paga - XXIII: Um Carnaval Português

1. A frase mais carnavalesca do Rei do Carnaval Português deste ano da graça de 2004: “Se em 2003 até o Saddam saiu do buraco, não há razões para não acreditar que, em 2004, o Zé Portuga não consiga o mesmo”...



2. Ao chegar a casa, o marido vê com os seus próprios olhos o Diabo a violar a sua esposa. Horrorizado, a sua reacção imediata foi desatar a berrar a frase mágica que aprendera, em pequeno, nas aulas de catequese:

- Vade retro, Satanás!



Comenta o diabo entre dentes, enquanto muda de posição:

- Boa ideia, ó meu. Vê-se logo que já leste o Kamasutra!



3. No âmbito do novo programa de educação sexual em vigor nas escolas do ensino básico, pergunta a senhora professora ao menino Carlinhos:

- Quando um dos cônjuges morre o outro fica...?

- O outro fica viúvo, senhora professora.

- Muito bem, menino Carlinhos. E quando se trata de um casal de gays ?

- Nesse caso, o outro fica bicha solitária.



4. Só há dois motivos para se bater numa mulher, diz o machista para a feminista, a propósito do Dia Europeu contra a Vítima:

- Por tudo e por nada.



5. Pergunta a feminista para o machista:

-O que é que têm em comum o clitóris da mulher, o aniversário da sogra e o buraco da sanita da casa de banho ?

- Não faço ideia, diz o machista.



Resposta pronta e irónica da feminista:

- São três coisas em que o homem nunca acerta.



6. Piadas à volta do Viagra:



6.1. O Viagra para mulheres novas chama-se... Viagreta; para mulheres velhas... Viagruta; e para padres... Viassacra.



6.2. O Viagra tem existe em gotas... Para aqueles que comem.. com os olhos.



6.3. O Salazar está registado no Guiness como o homem que durante mais tempo tomou Viagra... e o que mais tempo conseguiu manter a dita...dura.



7. Um alentejano vai a um concurso da TVI e o apresentador pergunta-lhe:

- Diga lá, ó amigo, como é que se chamam os habitantes de Cuba do Alentejo?



Após um longo e embaraçoso silêncio, quase a esgotar o tempo de resposta, o alentejano respondeu, a gaguejar:

- Porra, todos, todos nã sei de cor...



PS - Esta semana o M. Madeira foi o principal ciberfornecedor da nossa loja do humor... Um ciberabraço para ele.

Humor com humor se paga - XXIII: Um Carnaval Português

1. A frase mais carnavalesca do Rei do Carnaval Português deste ano da graça de 2004: “Se em 2003 até o Saddam saiu do buraco, não há razões para não acreditar que, em 2004, o Zé Portuga não consiga o mesmo”...

2. Ao chegar a casa, o marido vê com os seus próprios olhos o Diabo a violar a sua esposa. Horrorizado, a sua reacção imediata foi desatar a berrar a frase mágica que aprendera, em pequeno, nas aulas de catequese:
- Vade retro, Satanás!

Comenta o diabo entre dentes, enquanto muda de posição:
- Boa ideia, ó meu. Vê-se logo que já leste o Kamasutra!

3. No âmbito do novo programa de educação sexual em vigor nas escolas do ensino básico, pergunta a senhora professora ao menino Carlinhos:
- Quando um dos cônjuges morre o outro fica...?
- O outro fica viúvo, senhora professora.
- Muito bem, menino Carlinhos. E quando se trata de um casal de gays ?
- Nesse caso, o outro fica bicha solitária.

4. Só há dois motivos para se bater numa mulher, diz o machista para a feminista, a propósito do Dia Europeu contra a Vítima:
- Por tudo e por nada.

5. Pergunta a feminista para o machista:
-O que é que têm em comum o clitóris da mulher, o aniversário da sogra e o buraco da sanita da casa de banho ?
- Não faço ideia, diz o machista.

Resposta pronta e irónica da feminista:
- São três coisas em que o homem nunca acerta.

6. Piadas à volta do Viagra:

6.1. O Viagra para mulheres novas chama-se... Viagreta; para mulheres velhas... Viagruta; e para padres... Viassacra.

6.2. O Viagra tem existe em gotas... Para aqueles que comem.. com os olhos.

6.3. O Salazar está registado no Guiness como o homem que durante mais tempo tomou Viagra... e o que mais tempo conseguiu manter a dita...dura.

7. Um alentejano vai a um concurso da TVI e o apresentador pergunta-lhe:
- Diga lá, ó amigo, como é que se chamam os habitantes de Cuba do Alentejo?

Após um longo e embaraçoso silêncio, quase a esgotar o tempo de resposta, o alentejano respondeu, a gaguejar:
- Porra, todos, todos nã sei de cor...

PS - Esta semana o M. Madeira foi o principal ciberfornecedor da nossa loja do humor... Um ciberabraço para ele.

21 fevereiro 2004

Portugal sacro-profano - XV: Economistas e gestores

A propósito do Compromisso (com) Portugal, o meu amigo JBN, que é economista e gestor, mandou-me por e-mail este comentário que merece ser divulgado na blogosfera:



"Já agora, com o grupo dos rapazes do Beato, Portugal não vai longe.



"Quando um gajo diz que o caminho é a liberdade de despedir e os portugueses falarem inglês e espanhol, dá para dizer que é burro, evidentemente. Deverá perceber bastante de transacções bancárias.



"Aliás um problema da economia é que os economistas não conhecem a economia real, o que os ingleses chamam o shopfloor da economia e os gestores que também sabem economia (em princípio menos do que os economistas) só raciocinam com base no shopfloor que conhecem.



"Uma coisa que me surpreende é como economistas reputados e creio mesmo que sérios, em 1975 defenderam as nacionalizações ao ritmo a que foram feitas e hoje são, aparentemente, ultra-liberais. Mudar não faz mal e até se justificaria porque está provado que o Estado, por maldade dos homens, não é bom gestor (embora também não seja sempre assim), mas mudar tanto dá mau aspecto".

Portugal sacro-profano - XV: Economistas e gestores

A propósito do Compromisso (com) Portugal, o meu amigo JBN, que é economista e gestor, mandou-me por e-mail este comentário que merece ser divulgado na blogosfera:

"Já agora, com o grupo dos rapazes do Beato, Portugal não vai longe.

"Quando um gajo diz que o caminho é a liberdade de despedir e os portugueses falarem inglês e espanhol, dá para dizer que é burro, evidentemente. Deverá perceber bastante de transacções bancárias.

"Aliás um problema da economia é que os economistas não conhecem a economia real, o que os ingleses chamam o shopfloor da economia e os gestores que também sabem economia (em princípio menos do que os economistas) só raciocinam com base no shopfloor que conhecem.

"Uma coisa que me surpreende é como economistas reputados e creio mesmo que sérios, em 1975 defenderam as nacionalizações ao ritmo a que foram feitas e hoje são, aparentemente, ultra-liberais. Mudar não faz mal e até se justificaria porque está provado que o Estado, por maldade dos homens, não é bom gestor (embora também não seja sempre assim), mas mudar tanto dá mau aspecto".

17 fevereiro 2004

Socio(b)logia - VIII: La organización, la llave del suceso

Recebi há dias, por e-mail, uma chapa com uma legenda bem humorada: um grupo de jovens sem-abrigo, ou simplesmente desempregados, ou simplesmente marginais, ou simplesmente músicos à procura de um lugar na orquestra dos bem-aventurados, tocam, bebem e pedem uns trocos numa calle de uma qualquer cidade espanhola... A seus pés quatro ou cinco caixas de sapatos com letreiros bem visíveis: "Para vino, "para comida, "para porro", "para cocaína"...



Mandei a imagem para o meu grupo de cibermig@s do humor-com-humor- se-paga e a seguinte nota (de despesa):



(i) Agora que a Espanha está na moda (vejam-se os grandes de Portugal a prestar vassalagem ao nosso Grande Irmão Ibérico e os nossos melhores gestores a alugarem a sua massa cinzenta aos empresários castelhanos, galegos, catalães, andaluzes e bascos), é também altura de tentar descobrir qual é a chave do seu (deles) sucesso...



(ii) Um povo que não trabalha (veja-se o número de sem-abrigo, mendigos, cegos, desempregados, marginais, dançarinos, funcionários autonómicos, toureiros, aficionados das touradas e da bola, mulheres, ninos, turistas, artistas, catoonistas, cartomantes, etc, que se concentram nas plazas mayores de Espanha) mas que é já um casestudy mundial na área do sucesso, da felicidade e da auto-estima colectiva...



(iii) Pois o segredo, car@s ciberamig@s, está na organização! Até os contestatários (ou simplesmente os que se posicionam fora) do sistema têm a sua contra-organização! Até para pedir esmola na rua, em Espanha, é preciso ter know-how, organização, competências em gestão... Veja-se o caso da ONCE: uma máquina de fazer dinheiro, uma história de sucesso com 65 anos!



(iv) Em boa verdade, cego é o Zé Portuga ou o cão que o guia!

Socio(b)logia - VIII: La organización, la llave del suceso

Recebi há dias, por e-mail, uma chapa com uma legenda bem humorada: um grupo de jovens sem-abrigo, ou simplesmente desempregados, ou simplesmente marginais, ou simplesmente músicos à procura de um lugar na orquestra dos bem-aventurados, tocam, bebem e pedem uns trocos numa calle de uma qualquer cidade espanhola... A seus pés quatro ou cinco caixas de sapatos com letreiros bem visíveis: "Para vino, "para comida, "para porro", "para cocaína"...

Mandei a imagem para o meu grupo de cibermig@s do humor-com-humor- se-paga e a seguinte nota (de despesa):

(i) Agora que a Espanha está na moda (vejam-se os grandes de Portugal a prestar vassalagem ao nosso Grande Irmão Ibérico e os nossos melhores gestores a alugarem a sua massa cinzenta aos empresários castelhanos, galegos, catalães, andaluzes e bascos), é também altura de tentar descobrir qual é a chave do seu (deles) sucesso...

(ii) Um povo que não trabalha (veja-se o número de sem-abrigo, mendigos, cegos, desempregados, marginais, dançarinos, funcionários autonómicos, toureiros, aficionados das touradas e da bola, mulheres, ninos, turistas, artistas, catoonistas, cartomantes, etc, que se concentram nas plazas mayores de Espanha) mas que é já um casestudy mundial na área do sucesso, da felicidade e da auto-estima colectiva...

(iii) Pois o segredo, car@s ciberamig@s, está na organização! Até os contestatários (ou simplesmente os que se posicionam fora) do sistema têm a sua contra-organização! Até para pedir esmola na rua, em Espanha, é preciso ter know-how, organização, competências em gestão... Veja-se o caso da ONCE: uma máquina de fazer dinheiro, uma história de sucesso com 65 anos!

(iv) Em boa verdade, cego é o Zé Portuga ou o cão que o guia!