11 maio 2004

Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1)

1. No final dos anos sessenta, no norte de Moçambique, na região do Niassa, os soldados portuguesas entoavam fados e canções que relatavam as alegrias e as tristezas do seu quotidiano de guerra. O registo era, umas vezes, de bravata e paródia, e outras vezes mais triste e intimista... Era uma forma de exorcizar a angústia das emboscadas e das minas, de lidar com o stresse, de manter viva a ligação com a sua terra natal, de reforçar o seu espírito de corpo como combatentes e até de certo modo humanizar uma guerra que não parecia ter uma solução militar à vista. Nas letras dessas músicas podia-se inclusive descortinar sinais de contestação e até de resistência, sinais esses que minavam o moral das tropas e a vontade de combater.

O mesmo se passava, de resto, noutras frentes de guerra, como a Guiné, como eu posso testemunhar pela minha própria experiência pessoal: as longas noites da Guiné eram passadas, muitas vezes, entre muitos copos de uísque, cerveja, intermináveis jogos de lerpa e longas sessões de fados, baladas e outras canções (com o Manuel Freire à cabeça, seguido do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, dos Beatles, do Bob Dylan, do Donovan e de tantos outros...): "Eles não sabem nem sonham/ Que o sonho comanda a vida...", era uma das nossas preferidas, sendo cantada e acompanhada à viola com um misto de saudades da nossa terra e de rebeldia contra o aparelho político-militar.

Vários poetas e versejadores, de maior ou menor talento, pertencentes aos três ramos das forças armadas, contribuiram anonimamente para aquilo a que depois se veio a chamar o Cancioneiro do Niassa. As letras eram acompanhadas por melodias em voga na época, incluindo tangos e fados, tradicionais ou não, ainda hoje facilmente reconhecíveis (por ex., A Casa da Marquinhas, de Alfredo Marceneiro, ou a Júlia Florista, da Amália). O seu interesse não é literário mas sim documental, socioantropológico.

2. Aqui fica uma selecção de algumas das Canções do Niassa, com parabéns ao J.M.A. Santos pelo seu notável trabalho de recolha, preservação e divulgação desta documentação tão efémera mas tão importante para a sociologia histórica da guerra colonial, incluindo o estudo das representações sociais do turra, o invisível e obíquo inimigo que combatíamos em Moçambique, Angola e Guiné. No total a recolha de J.M. A. Santos ultrapassa as 40 canções, disponíveis no seu site:

Página de J. M. A. Santos > Guerra Colonial Portuguesa > Canções do Niassa (O Jorge Santos fez parte da 4ª Companhia de Fuzileiros e esteve no Niassa entre 1968 e 1970).

3. Há uma edição discográfica das Canções do Niassa, que resultaram da colaboração do actor João Maria Pinto (que no início da década de 1970 fez, com um grupo de amigos, as primeiras gravações do Cancioneiro do Niassa, vendendo depois as 'cassetes piratas' aos soldados recém chegados) e ao produtor Laurent Filipe: Canções proibidas: O Cancioneiro do Niassa. Lisboa: EMI - Valentim de Carvalho, Música, Lda. 1999. CD. 7243 5 20797 2 8.

Foram seleccionadas e gravadas 13 canções, cantadas pelo João Maria Pinto e seus convidados (entre outros, Carlos do Carmo, Rui Veloso, Paulo Carvalho, Janita Salomé, João Afonso): 1. Ventos de Guerra - João Maria Pinto/Rui Veloso; 2. Taberna do Diabo - João Maria Pinto/Gouveia Ferreira; 3. Fado do Checa - Paulo de Carvalho; 4. O Turra das Minas - João Maria Pinto/Rui Veloso; 5. Erva Lá Na Picada - João Maria Pinto/Janita Salomé; 6. Luta p'la Vida - João Maria Pinto; 7. Neutel d'Abreu - João Maria Pinto/Mariana Abrunheiro; 8. Bocas Bocas - Lura, João Maria Pinto/Mingo Rangel; 9. Fado do Miliciano - Janita Salomé; 10. O Fado do desertor - Carlos do Carmo; 11. O fado do Antoninho - Teresa Tapadas; 12. Hino de Vila Cabral - Carlos Macedo/João Maria Pinto; 13. O Hino do Lunho - João Maria Pinto e outros (João Afonso, Ana Picoito, Tetvocal...).

Destas 13 canções, apenas se conhecem os autores de duas: Gouveia Ferreira (Taberna do Diabo) e Carlos Macedo (Hino de Vila Cabral).


4. Antologia de canções do Niassa:

Ei-los que Partem

I
Ei-los que partem, olhos molhados,
Coração triste, mochila às costas,
Adeus aos seus entes amados.
Ei-los que partem, olhos molhados.

II
Virão um dia, ricos ou não,
Contando histórias da sua guerra
Onde a dor se fez em pão.
Virão um dia, ricos ou não.

III
Ei-los que partem, olhos cansados,
Já estão no fim da comissão,
Alguns doentes e aleijados.
Ei-los que partem, pobres soldados,
Ei-los que partem, pobres soldados,
Ei-los que partem, pobres soldados.

Comentário de L.G.: É uma adaptação de uma conhecida balada de Manuel Freire.


Fado do Turra

I
Se de mim nada consegues,
Não sei porque me persegues
Constantemente no mato!
Sabes bem que sou ladino,
Que tenho um andar muito fino,
E me escapo como um rato!

II
Lá porque és branco e pedante,
Pretendes ser arrogante,
Por capricho e altivez!
Eu que tenho sido pobre,
Mas que tenho a alma nobre
Talvez te lixe de vez!

III
Como ando sempre alerta,
Tua arma não me acerta,
Nem me deixa atrapalhado!
E assim, num breve instante,
Por mais que andes vigilante,
Tu serás sempre emboscado!

IV
Por isso toma cuidado!
E não me venhas com o teu fado
Dizer que branco é melhor.
Eu já muito codilhado,
Estou sempre desconfiado,
E irás desta p'ra pior.

Comentário de J.M.A. Santos: "Outro fado de humor, em que o autor põe o turra a falar". Comentário: Julgo reconhecer nesta letra o belíssimo fado do Alfredo Marceneiro, Não venhas tarde.


Poema do Militante

Mãe,
Eu tenho uma espingarda de ferro!
O teu filho,
Aquele a quem um dia viste acorrentarem
E choraste,
Como se as correntes prendessem e ferissem
As tuas mãos e os teus pés,
O teu filho já é livre, Mãe!

O teu filho tem uma espingarda de ferro,
A minha espingarda
Vai quebrar todas as correntes,
Vai abrir todas as prisões,
Vai matar todos os tiranos,
Vai restituir a terra ao nosso povo,
Mãe, é belo lutar pela liberdade!

Há uma mensagem de justiça em cada bala que disparo,
Há sonhos antigos que acordam como pássaros.
Nas horas de combate, na frente de batalha,
A tua imagem próxima desce sobre mim.
É por ti também que eu luto, Mãe!,
Para que não haja lágrimas nos teus olhos.

Comentário de J.M. A. Santos: "Poema encontrado numa base da Frelimo na zona do Lunho".


O Turra das Minas

I
O turra das minas,
Pequeno e traquinas,
Lá vai na picada
E a malta escondida,
Na mata batida
Monta a emboscada.
O turra passou,
A malta esperou,
Já toda estafada,
E a Berliet
Sempre foi estoirada.

II
Ó turra das minas,
A tua vida agora
É pôr as marmitas
Pela estrada fora.
Oh turra das minas,
Tua arma soa
Por léguas e léguas,
Aqui no Niassa,
Onde a Guerra entoa [ecoa].

III
Há mortos e feridos
E os mais comidos
Somos sempre nós,
Vamos pelos ares,
Gritando por todos,
Até pelos avós.
Ó turra bairrista,
Mas pouco fadista,
Já é tradição
Ser paraquedista
Sem tirar o curso,
Ai isso é que não.

Refrão
Oh turra das minas,
A tua vida agora...

Comentário de J.M. A. Santos: Fado de humor em que, como o nome indica, é o turra ou terrorista que põe as marmitas , as minas, nas picadas, os sejam, os caminhos através do mato.

Comentário de L.G.: Música de Joaquim Pimenal, fado "A Júlia Florista", uma das muitas criações de Amália. A Berliet era uma das viaturas mais usadas no transporte de tropas: de origem francesa, eram montadas no Tramagal.


Emboscada

I
Em tempos tive a mania
Que não havia emboscada,
Até que num lindo dia
Toda a minha companhia
Pelos turras foi avisada.

II
A história que vou contar,
Contou-ma certo velhinho
Quando eu vim para o Ultramar,
Disse-me ele a sussurrar:
Checa, toma juizinho.

III
E lá no mato cansado,
De aspecto frio e sério,
Há sempre um soldado
Prestes a ser emboscado
E a ir p'ró cemitério.

IV
P'ró Niassa veio alguém
Com uma ideia aperrada:
Ouve turra, escuta bem,
Que nós não queremos ninguém
Emboscado na picada.

V
Perante a admiração de todos
Acabou-se a emboscada,
Foi o Batalhão dos Rangers
Que deu porrada a rodos,
Temos a guerra acabada.

Comentário de L.G.: Facilmente se conclui que esta canção foi adaptada do célebre fado do Embuçado, letra e música de João Ferreira Rosa; uma das estrofes mais conhecidas diz assim: A história que eu vou contar / Contou-me certa velhinha/Certa vez que eu fui cantar /Ao salão de um Titular/ Lá para o Paço da Rainha.


Ventos da guerra

De quantos sacrifícios, senhores que em mim mandam,
É feita a vida dum soldado,
De quantas noites perdidas no mato
É feita a vida dum guerreiro.

São ventos de guerra,
Não penses, amigo,
Que a hora que passa é de perigo.

Bis

De quantos tiros, senhores que me ordenam,
É feita a vida dum soldado,
De quantas minas, senhores que em mim mandam
É feita a vida dum guerreiro.

Quem limpa, senhores, as manchas de sangue
Que os jovens deixam na picada,
Quem limpa, senhores, lágrimas choradas
Por noivas e mães adoradas.

São ventos de guerra... etc.

De quantas saudades, senhores que em mim mandam,
É feita a vida dum soldado,
E quantas loucuras, senhores que me ordenam,
Contém a vida dum guerreiro.

De quantos desgostos, senhores que em mim mandam,
É feita a vida dum soldado
E quanto vinho senhores que me ordenam
Se deve beber p'ra esquecer.

São ventos de guerra... etc.

E quantas vezes, senhores que em mim mandam,
Se deve expor a vida ao perigo
E quantos gritos se devem soltar
Para se acreditar que está vivo.

Quantas idéias tombadas na luta,
Quantas esperanças perdidas,
Quanto sangue deve um jovem verter
Antes que o chamem de homem.

São ventos de guerra...etc.

Comentário de L.G.: Corrigi a pontuação, como de resto fiz nas outras letras. Julgo que o autor desta letra se inspirou no conhecido poema de Fernando Pessoa, Mar Português, do livro Mensagem: "Ó mar salgado, quanto do sal/são lágrimas de Portugal"...

Comentário de João Maria Pinto (1999): "Fase final do Cancioneiro do Niassa que recolhi entre 69/71 em Moçambique. Muita influenciada pelas baladas de Bob Dylan, fazendo o paralelo com a Guerra do Vietname"...No CD, a música é de Laurent Filipe.


A erva lá na picada

I
A erva lá na picada
Pisam-na os guerrilheiros,
O coração do soldado
Pisam-no os coronéis
E ajudam os machambeiros. (Bis)

II
Que culpa tem o soldado
De ter raiva à sua sorte
Se chega um filho da puta
Que o mete numa farda
E o manda para a morte. (Bis)

III
E o senhor brigadeiro
Vive muito consolado
Até comprou uma balança
Para pesar o dinheiro
Que rouba ao pobre soldado. (Bis)

IV
Quando será, Deus do céu,
Que um dia haverá verba,
Que um dia haverá verba,
Para a malta comer pão
E os chicos erva erva /merda merda. (Bis)

Merda merda!
Merda merda!
Merda merda!

Comentário de J.M. A. Santos: "Música da guerra civil espanhola, cujo tema foi tratado por um grupo de alferes milicianos, e em que se aborda os negócios escuros da guerra e da exploração do soldado, sempre o mais injustiçado. Feita em Nampula em 1970".

Comentário de L.G.: Pelo meu lado, reconheço antes nesta letra a canção do Adriano Correia de Oliveira, o Senhor Morgado: no entanto, esta balada é do álbum Gente de Aqui e de Agora, editado em 1971, em data portanto posterior à indicada por J.M.A. Santos; mas é possível que o Adriano já a cantasse antes em festas de estudantes ou reuniões de amigos.

Comentário de João Maria Pinto (1999): Canção feita em Nampula em 70. Inspira-se numa conhecida canção da guerra civil espanhola: "La hierba de los caminos / la pisan los caminantes / y la mujer de lo obrero / la pisan quatro tonantes / de essos que tienen dinero" (...).


Checas

I
Ó checa, amigo checa,
Cacimbado ando eu,
Já estou farto disto tudo,
Aqui em Nova Viseu.

II
Já estou farto de picar,
De fazer operações,
De rios atravessar
Com água até aos calções.

III
Já estou farto de buracos,
Feitos pelas marmitas,
Já estou farto de ir ao ar
E sem ver os terroristas.

IV
Ó checa, amigo checa,
Na picada, faz favor,
Tu serás paraquedista
Ou piloto aviador.

V
Comes feijão ao almoço,
Comes feijão ao jantar
E quando não é feijão
É punga para variar.

VI
Uma sopa de mosquitos,
E de formas esquisitas,
Dia sim, dia não,
Lá virão os ciclistas.

VII
Ó checa, amigo checa,
Isto aqui é muito chato,
Aturar a chicalhada
Que nunca saem para o mato.

VIII
Esta guerra é dos soldados
E também dos furriéis,
O resto dos graduados
Faz a guerra dos papéis.

IX
Assim é Nova Viseu
E isto ainda aumenta,
Isto é uma charanga
Na trinta e quatro setenta.

Comentário de L.G.: Referência à Companhia 3470, aquartelada em Nova Viseu, na região do Niassa. Desconheço a proveniência do termo checa, o qual designa, se bem entendo, o soldado que acaba de chegar da Metrópole, sem experiência de combate, em suma, o maçarico, o periquito, como nós dizíamos na Guiné em 1969/71: Checa é pior que turra, é o título de uma obra de ficção, publicada em 1996 por Manuel Maria, que esteve em Moçambique entre 1972 e 1974. O romance, edição de autor (Porto, 1996), tem como subtítulo: Caricaturas da guerra colonial.


Quanto ao termo punga, não sei se está está correcto, no contecto em que é usado: segundo o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, o termo seria de origem suaíli e designaria "uma espécie de samba cantado, marcado por tambor, com versos improvisados e que é dançado em roda"...Mas não me parece que seja nesse sentido que o termo é aqui empregue: Comes feijão ao almoço,/Comes feijão ao jantar / E quando não é feijão / É punga para variar.. Quanto ao termo picar, significava detectar minas utilizando para o efeito um pau tendo na extremidade um ferro aguçado ou um prego com que se picava o chão, a picada, os trilhos suspeitos de esconderem marmitas ou minas anticarro ou antipessoal). Por sua vez, o termo chicalhada era uma forma de se referir, em termos depreciativos, os oficiais e sargentos do quadro das Forças Armadas, o pessoal da carreira militar, os quais eram em geral muito mais velhos do que os soldados do contingente geral, os furriéis milicianos e os alferes milicianos. Meter o chico era um termo depreciativo, designando uma acção desprezível de um furriel ou alferes miliciano que, no final da comissão, optava pela continuação na vida militar: veja-se por exemplo o Fado do Miliciano que o J.M.AS Santos diz ser a versão do Exército do Fado da Marinha).


Fado do Checa


Bem vindo, Checa,
P'ra esta guerra
Que cá te espera;
Não estejas triste,
Que a guerra é linda,
Só fazes cera,
Vais ter saudades
De mulheres brancas;
Ai que tormentos,
Aqui há pretas
Mas tem cuidado
Com seus lamentos

Refrão

Checa danado,
Pela tropa mui lixado,
Não chores, ó desgraçado,
Não vale a pena chorar;
Checa bem vindo,
Chegaste a horas,
Eu já vou indo
E afinal, mal encavado,
Que vieste cá fazer ?
Checa danado,
Vieste p'ra me render;
Vais lerpar muito
Mas com o aumento
Vais ficar rico,
Dá-o às pretas
Pois assim fazes
A tua psico.
Mas tem cuidado,
Checa danado,
Sê pouco anjinho,
Manda-os lixar
E faz a tua guerra sozinho.

Refrão
Checa danado...

Fonte: Letra transcrita do CD, "Canções Proibidas", 1999; música de Raul Ferrão, fado "A Rosa Enjeitada".

Comentário de João Maria Pinto (1999): O checa era "o esperado substituto", "o homem que nos rendia e que assegurava o regresso a casa. Era preciso tratá-lo bem e dar-lhe bons conselhos. Feito na Primavera Marcelista, cheia de falinhas mansas".


Fadinho Serrano

Muito boa noite,senhoras e senhores,
Os homens do Lunho são bons lutadores,
São bons lutadores,são bons guerrilheiros,
Fazem horas extras sem ganhar dinheiro.

Sem ganhar dinheiro, nada se ficam,
Nos dias de folga vão p'rá pá e pica.

Fazemos machambas e nasce o que é bom
No rancho comemos sopa de feijão,
Sopa de feijão, grelos com cristas.
Para variar comemos ciclistas,
Comemos ciclistas com molho e salada,
Fome não passamos, mas fartura nada.

Roupa que não falta
A verdade é uma
Até colchões temos
E de lusospuma.

Para não estragar,
Fazemos um esforço
Ou mandam para o mato
Ou pôr de reforço.

Pôr-nos de reforço,
Já sabem quem são,
Colchões para durar
Outra comissão.

Comentário de J.M. A. Santos: "Machambas [eram as] hortas".

Comentário de L.G.: Letra adaptada do conhecidíssimo fado cantado pela Amália, Fadinho Serrano (Hernâni Correia/Arlindo de Carvalho). Expressões como "ir para o mato" e "pôr de reforço" são tipicamente militares: querem dizer "sair do aquartelamento em missão" e "reforçar a segurança ao aquartelamento", respectivamente. O termo "machambeiros" era aplicado, depreciativamente, aos colonos brancos.


Fado a Metangula

Tens belas ruas, tens avenidas,
Tens tantas coisas que nos são queridas,
Tens aeroporto, tens aviões
Tens bom cinema, tens diversões.

Recentemente já rádio há,
Nem há paisagem como a de cá,
Tens pôr-do-sol visto de graça,
És a mais linda deste Niassa.

Ó Metangula,
És afinal
Grande "cidade" de Portugal,
Tens tantas coisas,
Boas e belas,
Que nós ficamos
Loucos com elas.

Ó Metangula,
Tu tens razão,
Já só te falta
Televisão.
Vais dentro em pouco
Ser das primeiras,
Mas só não tens é
Mulheres solteiras.

Comentário de J.M.A. Santos: "O autor deste fado, com optimismo, vê Metangula por um prisma muito favorável, levado pelo progresso e olhado com muito exagero! Mas no entanto, como se deduz do estribilho, ainda há muita coisa que falta!!!";

Comentário de L.G.: Em Metangula, nas margens do Lago Niassa, havia uma importante base naval, criada pela nossa Marinha de Guerra; não admira por isso que algumas das canções do Niassa sejam atribuídas ao pessoal deste ramo das forças armadas: ver por exemplo a letra do Fado do Buldozer, cuja letra não transcrevo aqui por razões de economia de espaço, e que também foi recolhida por J.M.A. Santos.


Fado das comparações

Que estranha forma de vida!
Que estranha comparação!
Vive-se em Lourenço Marques, (Bis)
Cá arrisca-se o coirão!

Vida boa, vida airada!
Boites, é só festança!
Lá não se fala em matança, (Bis)
Nem turras; há só borgadas.

Niassa, pura olvidança!
Guerra, como és ignorada!
Conversa que é evitada, (Bis)
P'los que vivem n'abastança!

Falar na nossa desdita
Fica mal e aborrece!
E como lembrar irrita, (Bis)
Toda a gente a desconhece!

Ao passar pela cidade,
Com tanta tranquilidade,
Deu-me [pr'a] comparar
Meninas com mini-saias!
Mandai-as p'ras nossas praias
P'ra manobra de atacar!

Hippies com carros GT's,
Mandai-os para as Berliets,
Tirai-lhes as modas finas,
Melenudos efeminados
Eram bem utilizados
P'ra fazer rebentar minas!

Bem como essas tais meninas
Que, apesar de enfezadinhas,
Mas com ar da sua graça
Serviriam muito a jeito
Para aliviar a dor do peito,
Cá da malta do Niassa.

Mas não, só por pirraça,
Hão-de lá continuar!
E nós temos de lerpar,
Invertem-se as posições!
E trocam-se as situações!
Continuamos a aguentar!

Nós, sem sermos desejados,
Ficamos cá apanhados
Aos urros, num desvario!
Eles, os daqui naturais,
Gastando dinheiro aos pais
Vão p'ra p... que os pariu!

Acabe-se com a tradição!
Entre-se em mobilização!
Utilize-se a manada!
Dentro de poucas semanas,
Como quem come bananas,
Estará a Guerra acabada.


Comentário de J.M. A. Santos: "Este é um fado que compara algumas coisas que se passavam. Não é um fado para ofender, e era cantado em ambientes muito particulares e com público esclarecido! De resto, como todo o cancioneiro, sobressai sempre o aspecto humorístico com que todos os
temas são abordados".

Comentário de L.G.: Canção que tudo indica foi inspirado no fado Estranha forma de vida (Letra e música: Afredo Duarte e Amália Rodrigues).

Reconheço nesta canção sarcástica sobre a privilegiada condição dos colonos moçambicanos e dos seus flhos e filhas uma das maiores contradições daquela guerra onde dificilmente se podia convencer um soldado da metrópole que estava a defender o chão sagrado da Pátria...

Noutro registo, era o mesmo tipo de crítica que nós fazíamos na Guiné - nós, os operacionais, a carne para canhão - aos privilegiados da guerra do ar condicionado, instalados no relativo conforto e na precária segurança de Bissau... Recorde-se que na Guiné não havia colonos brancos, a única empresa que se podia chamar colonialista era a Casa Gouveia, ligada à CUF - Companhia União Fabril, mas que ficou praticamente inactiva com o início da guerra).

A palavra lerpar era utilizada pelas nossas tropas, da Guiné a Moçambique, com o mesmo sentido de perda: morrer, ser ferido, perder qualquer coisa, apanhar um castigo, ser escalado, etc.


Fado do Antoninho

I
Foi no domingo passado que eu passei
À casa onde vivia o Antoninho,
Mas está tudo tão mudado
Que não vi em nenhum lado
Os tais agentes da Pide, bonitinhos.

II
Do rés-do-chão ao telhado
Não vi nada,nada, nada, nada, que fizesse
Recordar a tal vidinha;
Já não há vidros pregados, reforçados,
Guardados com tabuinhas.

III
Entrei onde era a casa, agora está
À secretária um sujeito, uma delícia,
Não vi bombas nem espingardas
Nem revólveres nem espadas
Nem espreitadelas furtivas da polícia.

IV
O tempo cravou a garra
Na alma daquela casa
Onde às vezes parecia não ter gente
E onde em noites de segredo, a meter medo,
Lá surgia o Presidente.

V
As janelas tão medonhas que ficavam
Com cortinas a tapar a velharia,
Ganharam de novo a graça
Pois são hoje umas vidraças,
Já livres de toda a porcaria.

VI
E lá p'ra dentro quem passa,
Hoje é para ir ao Marcelo
Entregar ao Presidente um pedidinho
Pois chega a esta desgraça toda a graça
Com a doença do velhinho.

VII
P'ra terem feito da casa o que fizeram
Melhor fora que a mandassem p'rás alminhas,
Pois na casa de Saúde
Provas de amor amiúde
É idéia que não cabe cá nas minhas.

VIII
Recordações do pavor,
D'avareza e do terror,
Vamos procurar esquecer nas cervejinhas
Pois dar de beber à dor é o melhor
Já dizia a Mariquinhas.

Comentário de J.M.A. Santos: "Versos feitos provavelmente por civis que parodiavam a 'Primavera Marcelista', 'evolução na continuidade', 'doença de Salazar' ".

Comentário L.G.: de origem militar ou civil, esta paródia do fado da Casa da Mariquinhas é uma delícia. Recorde-se que a letra original é de Silva Tavares e a música é do grande e imortal Alfredo Duarte, o Marceneiro. É bom também lembrar que a política política, a PIDE (DGS, com Marcelo Caetano), teve um papel muito activo e tenebroso na guerra colonial. Eram os pides que faziam o trabalho mais sujo que a tropa não queria ou não gostava de fazer como a tortura e o interrogatório de prisioneiros da FELIMO, do MPLA e do PAIGC. O Antoninho é o diminuitivo de António de Oliveira Salazar.


Taberna do Diabo

I
Um dia fui dar com Deus
Na taberna do diabo,
Entre cristãos e ateus
Fizeram de mim soldado.

II
E eu sem querer fui embarcado, (Bis)
Levei armas e um galão
Pr'ó outro lado do mar,
Quis levar o coração
Não mo deixaram levar.

E eu sem querer ia matar. (Bis)

III
Deram-me uma Cruz de Guerra
Quando matei meu irmão,
E a gente da minha terra
Promoveu-me a capitão.

E eu sem querer fiquei papão. (Bis)

IV
Todos me chamam herói,
Ninguém me chama Manel,
Quem quer uma Cruz de Guerra
Que eu já não vou pr'ó quartel.

Que eu já não vou pr'ó quartel. (Bis)

Comentário de João Maria Pinto: "Feita em Braga no ano de 66 por Gouveia Ferreira", foi lavada para Moçamboque em Dezembro de 1969, tornando-se "obrigatória nas tertúlias e nos gravadores de dezenas de militares". Esta canção "reflecte os medos de uma geraão face à Guerra Colonial" (....). Muitos desertaram, muitos não e foram sem mais voltar 'a acender no meu o seu cigarro' ".

Comentário de L.G.: Segundo o CD "Canções Proibidas" (EMI, 1999), a letra e a música são de Manuel António Gouveia Ferreira.


Fado a um autor desconhecido

I
Desconhecido autor porreiro,
A ti devemos tod'o nosso Cancioneiro.
Em fado lento, em fado antigo,
O teu talento foi o nosso melhor amigo.

II
Cantaste o fado, cantaste a raça
Disseste em verso da beleza do Niassa,
Disseste até sem uma falha
A vida triste que cá viv'esta maralha.

III
Tempo esquecido
Que ao passar
Só a saudade por castigo faz ficar.
Desconhecido,
Vais-nos deixar,
Ó Metangula, tens razão para chorar.

IV
Virão mais checas, virá mais malta,
Tal como nós hão-de sentir a tua falta.
Serás cantado, tenho a certeza,
A tua ausência lembraremos com tristeza.

V
Já lá vai longe, foi há um ano
Que nos deixaste, grande amigo Adriano.
Vamos voltar, vamos-te ver,
P'ra nosso fado todos juntos reviver.


Comentário de J.M. A. Santos: "Esta composição é dedicada ao Autor Desconhecido a cujo entusiasmo, veia poética e garra fadista se deve a concretização do sentimento que em nós existia e só ele soube cantar. Como testemunho do muito apreço e gratidão da maralha".


Hino do Lunho


No céu cinzento sob o astro mudo,
Batendo os hélices na terra esquentada,
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas à chegada,
Só mandam, só mandam vir,
Só mandam vir e não fazem nada.

Bis

A toda a parte vai um helicóptero
Poisam nos tandas, poisa nas picadas,
Leva no bojo os cabeças de ouro
Que de guerrilha não percebem nada.

São os reizinhos do Niassa todo,
Senhores por escolha, mandadores sem punho,
Aceitam cunhas e dizem que não,
Fazem as rondas sob o céu do Lunho.

Estou farto deles,
Estou farto deles,
Só mandam vir
E não fazem nada.

Bis

Quantas Mercedes, senhor Capitão,
Até agora foram fornicadas,
Eu bem lhe disse que pusesse os homens
Estourando minas, fazendo emboscadas.

No chão do medo tombam os vencidos,
Ouvem-se os gritos na noite abafada,
Jazem nos fossos vítimas de um credo
E não se esgota o sangue da manada.

Fazendo estradas sobre um chão de greda,
Fazem-se aterros, pontes e pontões,
Ouvem-se os tiros lá na emboscada,
Aqui no Lunho é que há leões.

Estou farto deles,
Estou farto deles,
Só mandam vir
E não fazem nada.

Bis

Tremem paredes de qualquer quartel,
São militares, anda tudo à bulha,
Ri-te, capitão, ri-te coronel,
Com esta moda da minipatrulha.

Encher o peito de metal brilhante
É essa a sua grande aspiração,
Por isso deixa os turras sossegados
Dentro da linha de contenção.

Deixem crescê-los,
Organizá-los,
Depois eu vou
Deitar-lhes a mão.

Bis

Estranha forma de tratar o cancro
Que se propaga p’la nossa nação,
Ele será leigo ou talvez ceifeiro,
Mas nunca médico cirugião.

Por uma ponte sem terminação,
O nosso sangue foi derramado,
Mas, aleluia, não será lembrado
Pelos cabeças d’ar condicionado.

Estou farto deles,
Estou farto deles,
Só mandam vir
E não fazem nada.

Bis

Se alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas à chegada,
Só mandam, só mandam vir,
Só mandam vir e não fazem nada.

Bis

Estou farto deles,
Estou farto deles,
Só mandam vir
E não fazem nada.

Bis

Comentário de João Maria Pinto (1999): "Primeira obra forte do cancioneiro do Niassa, feita por um Alferes Miliciano sobre 'os vampiros' do Zeca Afonso. O Lunho foi um dos locais mais duros da guerra no norte de Moçambique. Homenagem sentida ao grande lutador que foi José Afonso e que apoiou a ADFA [Associação dos Deficientes das Forças Armadas, que também apoiou a a edição deste CD].

Comentário de L. G.: Alguns termos do calão da guerra colonial têm de ser descodificados, tais como picada (estrada de terra batida), cabeça de ouro (alta patente militar), fornicar (destruir, dar cabo de), tandas (clareiras na mata, junto às picadas ou estradas), psico (acção piscossocial levada a cabo pelas forças armadas junto das populações locais, sob o controlo das nossas tropas ou sob a influência da guerrilha), minipatrulha (patrulha com um pequeno grupo de homens), mercedes (viaturas militares de transporte de carga), metal brilhante (condecorações), cabeças d'ar condicionado (o mesmo que cabeças de oiro ou, mais genericamente, pessoal de gabinete, pessoal das companhias de serviços).

07 maio 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - VIII: António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência

1. Tive há dois dias o privilégio de conhecer pessoalmente o Prof. António Coutinho e de ouvir uma conferência sua sobre investigação biomédica e administração de saúde. Local e data: Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 5 de Maio de 2004.

António Coutinho é director do Instituto Gulbenkian de Ciência e é um dos poucos cientistas portugueses que, à partida, pode dar-se ao luxo de dizer, no seu invejável currículo, que já ultrapassou, há muito, os famigerados 100 artigos publicados em revistas internacionais referenciadas nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI), em Filadélfia, nos EUA. Como se sabe, esta é a bitola (dita, bibliométrica) para que um investigador português no estrangeiro possa candidatar-se a uma bolsa de dois anos e regressar a Portugal.

Pelas contas do jornal Público, de 22 de Abril de 2004, só o imunologista António Coutinho, de 57 anos, e o neurologista António Damásio, de 60, teriam lugar no Olimpo da ciência portuguesa. São já sobejamente conhecidas as críticas da comunidade científica portuguesa a esta medida, ridícula para uns e demagógica para outros.

Em contrapartida, a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, diz que está "convencida de que há cerca de 100 cientistas em Portugal com mais de 100 artigos", em entrevista ao Público, de 22 de Abril de 2004.

Segundo notícia do Público, também de 22 de Abril de 2004, Pedro Magalhães, professor de ciências políticas do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL), começou por pesquisar alguns nomes nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI Web of Knowledge), uma referência a nível mundial no que respeita à informação sobre a literatura científica. Verificou-se que "vários investigadores, incluindo premiados com o Nobel da Economia, não seriam contemplados com os critérios portugueses".

2. Retive algumas ideias-chaves da intervenção de António Coutinho sobre o papel da ciência numa sociedade moderna, que não sendo originais não deixam de ser muito actuais e relevantes para o debate sobre o nosso sistema de gestão da investigação científica: (i) não há democracia sem ciência; (ii) a ciência é a base em que deve assentar o desenvolvimento económico e social; (iii) é a fonte (essencial) da racionalidade; mas também é (iv) a escola da tolerância, a garantia do pluralismo teórico-ideológico, a matriz em que se produz e reproduz a cultura da pós-modernidade...

3. Achei interessante (ou saudavelmente provocatória ?) a ideia de que só se faz ciência enquanto se é jovem, que há uma idade (entre os 25 e os 45 anos) para se ser investigador... A revolução que o Prof. António Coutinho operou no Instituto Gulbenkian de Ciência (e da qual, de resto, sei pouco) vai nesse sentido: "Não quero que os jovens investigadores façam carreira no Instituto, dou-lhes apenas as condições para arrancarem com os seus projectos, criarem equipas, tornarem-se líderes e prepararem-se para outros voos, cá dentro ou no estrangeiro" (cito de cor). Não é esse, de resto, o entendimento do Prof. António Coutinho para quem nem sequer ainda chegámos à Biologia dos Sistemas...

4. Achei estimulante (e muito próprio de um fundamentalista, no sentido literal, biológico e francês do termo) aquela outra ideia de que a medicina ainda é uma tecnologia de base empírica, não científica, baseada na evidência, malgré les progrès de la biomedicine... É caso para se dizer que o novo paradigma biomédico, não sendo organicista, não deixa de ser menos redutor e imperialista ? Ou que durante às próximas décadas tudo vai ser explicado pelo determinismo genético ?

No futuro, daqui a cinco a dez anos, “a terapêutica vai ser mais biológica do que farmacológica” (sic) e o “velho patologista” pode arrumar o seu microscópio e desaparecer de cena... Estamos a falar de um número potencial de 30 a 40 mil doenças genéticas, tantos quanto os genes do genoma humano até agora descobertos... Mas o que é que isso representa em relação ao total das doenças humanas ? Qual o seu peso em termos de saúde pública ? “Menos de 1%” (sic)...

A verdade seja dita: "a doença pode ter uma base genética, mas não é só genética, é epigenética , logo multifactorial" (cito de cor)... Todas as doenças têm uma base genética, da depressão à simples gripe...Em maior ou menor grau... “Mesmo as doenças infecciosas... e até as intoxicações!” (sic)... Tão elementar , quanto isso, meu caro Watson, James Watson, um dos pais do DNA, com Francis Crick, em 1953 (co-laureados com o Prémio Nobel da Medicina em 1962).

5. Ninguém hoje se atreveria a negar ou a pôr em causa a revolução (silenciosa, primeiro; triunfante, depois) da genética nestes últimos 50 anos... As suas implicações para a saúde pública, para a protecção e a promoção da saúde para a investigação em saúde, para a formação dos profissionais de saúde ou para a prática da medicina também não são difíceis de advinhar: vamos passar, muito rapidamente, do diagnóstico e tratamento para a predição/prevenção: (i) mudança (mais fácil) de “estilo de vida”; (ii) mudança (mais difícil) no ambiente onde a gente nasce, respira, cresce, vive, trabalha , dorme, consome, descansa, adoece, envelhece e morre; (iii) terapia profiláctica...

Fica em aberto a (difícil, terrível) questão da equidade: a “medical genomics” chegou, viu e venceu, mas não é para todos... Os testes genéticos são “cost-effective”, mas quem, fora do mundo ocidental (mais Japão + outros tigres asiáticos...), terá acesso a esta nova tecnologia ? Pelo menos, para já ?

6. Falou-se também, entre outras coisas, da porno-science, da clonagem e da pretensão dos guardiões do templo que querem legislar em matéria de bioética... Mas que sei eu de biologia molecular ou de biologia evolutiva para discutir com os teólogos e os filósofos ? Retive também uma informação do Prof. António Coutinho: (i) "seriam precisas dois milhões de mulheres, voluntárias, para clonar um Hitler"; (ii) "clonagem já fazemos desde que inventámos a agricultura"... Curiosamente não falámos, por falta de tempo, da biodiversidade nem da agricultura transgénica...

7. Retemperarei o meu entusiasmo sobre o admirável mundo novo da Biologia Molecular e da Engenharia Genética com as eruditas e elegantes observações que o Prof. João Lobo Antunes fez, há uns anos atrás, numa oração de sapiência que já é hoje de antologia:

"Mas esta nova Biologia, a Biologia Molecular, que dá alma a que Lewis Thomas chamou a mais nova das ciências, a Medicina, brotou também do encontro da Física e da Química, que lhe cederam os conceitos e os instrumentos de investigação, a cromatografia, os radioisótopos, a microscopia electrónica, a cristalografia, provavelmente pela sedução que o último mistério da ciência, o segredo da vida, sempre exerce. Niels Bohr, por exemplo, dizia que a Biologia era fonte inesgotável de novas leis da Física à espera de serem descobertas. E vieram o ADN, a dupla hélice, a decifração do código genético, a transferência dos genes, em suma, a integração dos mundos das ciências básica e clínica, criando dois imperativos fundamentais para a educação dos jovens médicos. O primeiro é a necessidade de incorporar novos conceitos e nova linguagem; o outro é igualmente importante embora talvez menos evidente. É a que a Biologia Molecular, na sua acção unificadora, cria necessariamente, como disse François Jacob, "um modo diferente de olhar as coisas, que leva à descoberta de novas relações entre os fenómenos e portanto à mudança da ordem existente". Se deixarmos por isso que o ensino médico se isole deste novo saber, poderemos formar artesãos ou técnicos, mas não os médicos de que a Nação precisa".

8. Tinham-me dito, alguns dos meus amigos médicos, que o Prof. António Coutinho, beirão também ele como outro António, o Ribeiro Sanches (n. Penamacor, 1699-m. Paris, 1783), era arrogante, como qualquer bom portuga estrangeirado. Mentira, achei-o encantador, aberto, culto, humilde, um verdadeiro homem de ciência e seguramente um homem com um perfil de grande líder e gestor... Claro, crítico, e com um fino sentido de humor... E tem motivos para orgulho quando fala do seu Instituto Gulbenkian de Ciência, o qual já fabricou uma centena de doutorados em biomedicina, e que agora precisa, como pão para a boca, é de bio-informáticos... "Se for preciso, acaba-se a fileira dos doutoramentos em biomedicina e abre-se a da bio-informática" (cito de cor)...

O seu orgulho parece-me inteiramente justo quando se sabe que, com um orçamento de 8 milhões de euros, menos de 1% do orçamento da investigação científica em Portugal, O IGC produz um terço da investigação na área da saúde... E não é um terço qualquer, é um terço de excelência! Espero não me enganar, nem estar a fazer mal as contas: não sei exactamente qual é o orçamento da ciência em Portugal mas não ultrapassa os 0.75% do PIB, ou seja, deverá ser qualquer coisa como mil milhões de euros (200 milhões de contos em moeda antiga).

Por tudo isto, António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência merecem as minhas palmas. As nossas palmas. (...Embora seguramente não precisem delas!)


Post scriptum:

(i) É bom recordar que "fabricar doutorados não é igual a criar cientistas, cuja vocação tem de ser primeiro despertada, depois alimentada, multiplicada e, o que também não é comum entre nós, devidamente apreciada" (J. Lobo Antunes dixit).

(ii) No dia seguinte à publicação este post, deparei com uma excelente reportagem do Público (edição de 7 de Maio de 2004), assinada pela Clara Barata e pela Joana Gorjão Henriques, sobre o "ninho de formação de líderes cieníficos" que é hoje o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), sob a liderança do Prof. António Coutinho. Juro que só tive conhecimento deste texto, no sábado de manhã, dia 8. Trata-se, por isso, de uma feliz coincidência.

Para um país distraído, com tendência para a descrença, o pessimismo, o fatalismo e a depressão, é imprescindível e salutar ler mais esta história de sucesso no país de Abril. Não se pense, todavia, que o ICG é um oásis num deserto, e cheia de estrangeirados. Helena Soares, por exemplo, 41 anos, prestigiada investigadora, responsável pelo grupo de Stress e Dinâmica do Citoesqueleto, nunca quis sair de Portugal por razões pessoais, e diz à jornalista que "já não há uma diferença tão grande em relação ao exterior" embora o "meio científico ainda [seja] pequeno".

Parabéns também ao Público por esta notável série de reportagens ("30 anos do 25 de Abril: histórias de um país de sucesso").

Portugas que merecem as nossas palmas - VIII: António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência

1. Tive há dois dias o privilégio de conhecer pessoalmente o Prof. António Coutinho e de ouvir uma conferência sua sobre investigação biomédica e administração de saúde. Local e data: Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 5 de Maio de 2004.

António Coutinho é director do Instituto Gulbenkian de Ciência e é um dos poucos cientistas portugueses que, à partida, pode dar-se ao luxo de dizer, no seu invejável currículo, que já ultrapassou, há muito, os famigerados 100 artigos publicados em revistas internacionais referenciadas nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI), em Filadélfia, nos EUA. Como se sabe, esta é a bitola (dita, bibliométrica) para que um investigador português no estrangeiro possa candidatar-se a uma bolsa de dois anos e regressar a Portugal.

Pelas contas do jornal Público, de 22 de Abril de 2004, só o imunologista António Coutinho, de 57 anos, e o neurologista António Damásio, de 60, teriam lugar no Olimpo da ciência portuguesa. São já sobejamente conhecidas as críticas da comunidade científica portuguesa a esta medida, ridícula para uns e demagógica para outros.

Em contrapartida, a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, diz que está "convencida de que há cerca de 100 cientistas em Portugal com mais de 100 artigos", em entrevista ao Público, de 22 de Abril de 2004.

Segundo notícia do Público, também de 22 de Abril de 2004, Pedro Magalhães, professor de ciências políticas do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL), começou por pesquisar alguns nomes nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI Web of Knowledge), uma referência a nível mundial no que respeita à informação sobre a literatura científica. Verificou-se que "vários investigadores, incluindo premiados com o Nobel da Economia, não seriam contemplados com os critérios portugueses".

2. Retive algumas ideias-chaves da intervenção de António Coutinho sobre o papel da ciência numa sociedade moderna, que não sendo originais não deixam de ser muito actuais e relevantes para o debate sobre o nosso sistema de gestão da investigação científica: (i) não há democracia sem ciência; (ii) a ciência é a base em que deve assentar o desenvolvimento económico e social; (iii) é a fonte (essencial) da racionalidade; mas também é (iv) a escola da tolerância, a garantia do pluralismo teórico-ideológico, a matriz em que se produz e reproduz a cultura da pós-modernidade...

3. Achei interessante (ou saudavelmente provocatória ?) a ideia de que só se faz ciência enquanto se é jovem, que há uma idade (entre os 25 e os 45 anos) para se ser investigador... A revolução que o Prof. António Coutinho operou no Instituto Gulbenkian de Ciência (e da qual, de resto, sei pouco) vai nesse sentido: "Não quero que os jovens investigadores façam carreira no Instituto, dou-lhes apenas as condições para arrancarem com os seus projectos, criarem equipas, tornarem-se líderes e prepararem-se para outros voos, cá dentro ou no estrangeiro" (cito de cor). Não é esse, de resto, o entendimento do Prof. António Coutinho para quem nem sequer ainda chegámos à Biologia dos Sistemas...

4. Achei estimulante (e muito próprio de um fundamentalista, no sentido literal, biológico e francês do termo) aquela outra ideia de que a medicina ainda é uma tecnologia de base empírica, não científica, baseada na evidência, malgré les progrès de la biomedicine... É caso para se dizer que o novo paradigma biomédico, não sendo organicista, não deixa de ser menos redutor e imperialista ? Ou que durante às próximas décadas tudo vai ser explicado pelo determinismo genético ?

No futuro, daqui a cinco a dez anos, “a terapêutica vai ser mais biológica do que farmacológica” (sic) e o “velho patologista” pode arrumar o seu microscópio e desaparecer de cena... Estamos a falar de um número potencial de 30 a 40 mil doenças genéticas, tantos quanto os genes do genoma humano até agora descobertos... Mas o que é que isso representa em relação ao total das doenças humanas ? Qual o seu peso em termos de saúde pública ? “Menos de 1%” (sic)...

A verdade seja dita: "a doença pode ter uma base genética, mas não é só genética, é epigenética , logo multifactorial" (cito de cor)... Todas as doenças têm uma base genética, da depressão à simples gripe...Em maior ou menor grau... “Mesmo as doenças infecciosas... e até as intoxicações!” (sic)... Tão elementar , quanto isso, meu caro Watson, James Watson, um dos pais do DNA, com Francis Crick, em 1953 (co-laureados com o Prémio Nobel da Medicina em 1962).

5. Ninguém hoje se atreveria a negar ou a pôr em causa a revolução (silenciosa, primeiro; triunfante, depois) da genética nestes últimos 50 anos... As suas implicações para a saúde pública, para a protecção e a promoção da saúde para a investigação em saúde, para a formação dos profissionais de saúde ou para a prática da medicina também não são difíceis de advinhar: vamos passar, muito rapidamente, do diagnóstico e tratamento para a predição/prevenção: (i) mudança (mais fácil) de “estilo de vida”; (ii) mudança (mais difícil) no ambiente onde a gente nasce, respira, cresce, vive, trabalha , dorme, consome, descansa, adoece, envelhece e morre; (iii) terapia profiláctica...

Fica em aberto a (difícil, terrível) questão da equidade: a “medical genomics” chegou, viu e venceu, mas não é para todos... Os testes genéticos são “cost-effective”, mas quem, fora do mundo ocidental (mais Japão + outros tigres asiáticos...), terá acesso a esta nova tecnologia ? Pelo menos, para já ?

6. Falou-se também, entre outras coisas, da porno-science, da clonagem e da pretensão dos guardiões do templo que querem legislar em matéria de bioética... Mas que sei eu de biologia molecular ou de biologia evolutiva para discutir com os teólogos e os filósofos ? Retive também uma informação do Prof. António Coutinho: (i) "seriam precisas dois milhões de mulheres, voluntárias, para clonar um Hitler"; (ii) "clonagem já fazemos desde que inventámos a agricultura"... Curiosamente não falámos, por falta de tempo, da biodiversidade nem da agricultura transgénica...

7. Retemperarei o meu entusiasmo sobre o admirável mundo novo da Biologia Molecular e da Engenharia Genética com as eruditas e elegantes observações que o Prof. João Lobo Antunes fez, há uns anos atrás, numa oração de sapiência que já é hoje de antologia:

"Mas esta nova Biologia, a Biologia Molecular, que dá alma a que Lewis Thomas chamou a mais nova das ciências, a Medicina, brotou também do encontro da Física e da Química, que lhe cederam os conceitos e os instrumentos de investigação, a cromatografia, os radioisótopos, a microscopia electrónica, a cristalografia, provavelmente pela sedução que o último mistério da ciência, o segredo da vida, sempre exerce. Niels Bohr, por exemplo, dizia que a Biologia era fonte inesgotável de novas leis da Física à espera de serem descobertas. E vieram o ADN, a dupla hélice, a decifração do código genético, a transferência dos genes, em suma, a integração dos mundos das ciências básica e clínica, criando dois imperativos fundamentais para a educação dos jovens médicos. O primeiro é a necessidade de incorporar novos conceitos e nova linguagem; o outro é igualmente importante embora talvez menos evidente. É a que a Biologia Molecular, na sua acção unificadora, cria necessariamente, como disse François Jacob, "um modo diferente de olhar as coisas, que leva à descoberta de novas relações entre os fenómenos e portanto à mudança da ordem existente". Se deixarmos por isso que o ensino médico se isole deste novo saber, poderemos formar artesãos ou técnicos, mas não os médicos de que a Nação precisa".

8. Tinham-me dito, alguns dos meus amigos médicos, que o Prof. António Coutinho, beirão também ele como outro António, o Ribeiro Sanches (n. Penamacor, 1699-m. Paris, 1783), era arrogante, como qualquer bom portuga estrangeirado. Mentira, achei-o encantador, aberto, culto, humilde, um verdadeiro homem de ciência e seguramente um homem com um perfil de grande líder e gestor... Claro, crítico, e com um fino sentido de humor... E tem motivos para orgulho quando fala do seu Instituto Gulbenkian de Ciência, o qual já fabricou uma centena de doutorados em biomedicina, e que agora precisa, como pão para a boca, é de bio-informáticos... "Se for preciso, acaba-se a fileira dos doutoramentos em biomedicina e abre-se a da bio-informática" (cito de cor)...

O seu orgulho parece-me inteiramente justo quando se sabe que, com um orçamento de 8 milhões de euros, menos de 1% do orçamento da investigação científica em Portugal, O IGC produz um terço da investigação na área da saúde... E não é um terço qualquer, é um terço de excelência! Espero não me enganar, nem estar a fazer mal as contas: não sei exactamente qual é o orçamento da ciência em Portugal mas não ultrapassa os 0.75% do PIB, ou seja, deverá ser qualquer coisa como mil milhões de euros (200 milhões de contos em moeda antiga).

Por tudo isto, António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência merecem as minhas palmas. As nossas palmas. (...Embora seguramente não precisem delas!)


Post scriptum:

(i) É bom recordar que "fabricar doutorados não é igual a criar cientistas, cuja vocação tem de ser primeiro despertada, depois alimentada, multiplicada e, o que também não é comum entre nós, devidamente apreciada" (J. Lobo Antunes dixit).

(ii) No dia seguinte à publicação este post, deparei com uma excelente reportagem do Público (edição de 7 de Maio de 2004), assinada pela Clara Barata e pela Joana Gorjão Henriques, sobre o "ninho de formação de líderes cieníficos" que é hoje o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), sob a liderança do Prof. António Coutinho. Juro que só tive conhecimento deste texto, no sábado de manhã, dia 8. Trata-se, por isso, de uma feliz coincidência.

Para um país distraído, com tendência para a descrença, o pessimismo, o fatalismo e a depressão, é imprescindível e salutar ler mais esta história de sucesso no país de Abril. Não se pense, todavia, que o ICG é um oásis num deserto, e cheia de estrangeirados. Helena Soares, por exemplo, 41 anos, prestigiada investigadora, responsável pelo grupo de Stress e Dinâmica do Citoesqueleto, nunca quis sair de Portugal por razões pessoais, e diz à jornalista que "já não há uma diferença tão grande em relação ao exterior" embora o "meio científico ainda [seja] pequeno".

Parabéns também ao Público por esta notável série de reportagens ("30 anos do 25 de Abril: histórias de um país de sucesso").

06 maio 2004

Blogantologia(s) - X: O poemombro

Um ombro amigo



Às vezes a gente pensa

que o mundo vai desabar.

Às vezes a gente julga

que o céu vai cair

em cima das nossas cabeças.



Às vezes a gente deixa de ver.

E de sentir. E até de pensar.

Às vezes a gente vê que não há luz.

Que estamos num túnel.

Que não há luz ao fundo do túnel.

Que há alguém que te diz:

É o fim! Acabou-se!

É bom que esqueças,

Parte para outra!



Às vezes a gente tem dúvidas.

E pergunta se vale a pena.

Se valeu a pena.

Às vezes a gente até duvida

do amor e da amizade

dos que nos amam e gostam de nós.

Às vezes a coisa parece que está feia.

Às vezes parece que tudo é feio.

Que a coisa está preta e feia.

A vida, o país, o mundo à nossa volta.

Os outros. O marido ou a mulher. Os filhos

Os amigos, os colegas de trabalho.



Às vezes dá-te uma enorme vontade de chorar.

E de parar no caminho.

E de chorar numa pedra do caminho.

Às vezes a gente quer desistir de caminhar.

A gente sente que lhe faltam as forças.

E que já que foi longe de mais.

Que não nascemos para caminhantes.

Que já fizemos a nossa parte.

Que já cumprimos o nosso papel.

Que as pernas estão cansadas.

As pernas. O corpo. A alma.

Que andamos a caminhar há muito tempo.

Que já demos a volta ao mundo

não sei quantas vezes.



Às vezes a gente apercebe-se

Que tem uma enorme vontade de chorar.

Mas que não tem lágrimas para o fazer.

Não tem sequer forças para o fazer.



E é então que nos dá uma raiva danada.

Telúrica. Fulminante. Brutal.

Uma raiva de vulcão.

E descobrimos o terrível vulcão que há em nós.

E a gente, de repente,

dá de novo à chave de ignição.

E retoma o caminho.



Querid@ amig@:

Eu sei que não podemos competir com os vulcões.

Que só explodem de mil em mil anos.

Ou de cem mil em cem mil, tanto faz.

E que são uma força bruta da natureza.

Brutal. Fulminante. Telúrica.

Mas temos o direito de explodir.

De dizer o que nos vai na alma.

Temos o direito ao nosso vulcão.

Tu tens direito ao teu vulcão.

Tens direito mesmo ao teu vulcãozinho.

O direito de mostrar o que te dói

no corpo e na alma.

De chorar. De chorar de raiva.



A única diferença, além da escala de tempo,

é que os vulcões não têm uma ombro amigo.

Para chorar.

Para encostar a cabeça e chorar.

No dia dos teus anos, como hoje,

Ou em qualquer outro dia da semana.

Em qualquer outro dia do ano.

Sempre que te apetecer.

Sempre que te der raiva de chorar.



Se @s amig@s têm algum préstimo

É justamente para saber ouvir.

Ouvir, escutar, entender

Mais do que falar, analisar ou compreender.

Para estar contigo.

Simplesmente para estar ao pé de ti.

Ou para te segredar ao ouvido

Qualquer coisa que te faça sorrir.

Ao ouvido, baixinho.

E sobretudo para te oferecer

o ombro amigo.

Pode até ter pouco préstimo

Mas sempre é mais macio e quente

Do que a pedra do caminho.



L.G.



Lisboa, 29 de Abril de 2004



PS - Um (pre)texto que serviu de prenda de aniversário para uma amiga, a Matilde, que fazia anos neste dia e que estava a precisar de um ombro amigo. Do nosso ombro amigo. LG/AC



Blogantologia(s) - X: O poemombro

Um ombro amigo

Às vezes a gente pensa
que o mundo vai desabar.
Às vezes a gente julga
que o céu vai cair
em cima das nossas cabeças.

Às vezes a gente deixa de ver.
E de sentir. E até de pensar.
Às vezes a gente vê que não há luz.
Que estamos num túnel.
Que não há luz ao fundo do túnel.
Que há alguém que te diz:
É o fim! Acabou-se!
É bom que esqueças,
Parte para outra!

Às vezes a gente tem dúvidas.
E pergunta se vale a pena.
Se valeu a pena.
Às vezes a gente até duvida
do amor e da amizade
dos que nos amam e gostam de nós.
Às vezes a coisa parece que está feia.
Às vezes parece que tudo é feio.
Que a coisa está preta e feia.
A vida, o país, o mundo à nossa volta.
Os outros. O marido ou a mulher. Os filhos
Os amigos, os colegas de trabalho.

Às vezes dá-te uma enorme vontade de chorar.
E de parar no caminho.
E de chorar numa pedra do caminho.
Às vezes a gente quer desistir de caminhar.
A gente sente que lhe faltam as forças.
E que já que foi longe de mais.
Que não nascemos para caminhantes.
Que já fizemos a nossa parte.
Que já cumprimos o nosso papel.
Que as pernas estão cansadas.
As pernas. O corpo. A alma.
Que andamos a caminhar há muito tempo.
Que já demos a volta ao mundo
não sei quantas vezes.

Às vezes a gente apercebe-se
Que tem uma enorme vontade de chorar.
Mas que não tem lágrimas para o fazer.
Não tem sequer forças para o fazer.

E é então que nos dá uma raiva danada.
Telúrica. Fulminante. Brutal.
Uma raiva de vulcão.
E descobrimos o terrível vulcão que há em nós.
E a gente, de repente,
dá de novo à chave de ignição.
E retoma o caminho.

Querid@ amig@:
Eu sei que não podemos competir com os vulcões.
Que só explodem de mil em mil anos.
Ou de cem mil em cem mil, tanto faz.
E que são uma força bruta da natureza.
Brutal. Fulminante. Telúrica.
Mas temos o direito de explodir.
De dizer o que nos vai na alma.
Temos o direito ao nosso vulcão.
Tu tens direito ao teu vulcão.
Tens direito mesmo ao teu vulcãozinho.
O direito de mostrar o que te dói
no corpo e na alma.
De chorar. De chorar de raiva.

A única diferença, além da escala de tempo,
é que os vulcões não têm uma ombro amigo.
Para chorar.
Para encostar a cabeça e chorar.
No dia dos teus anos, como hoje,
Ou em qualquer outro dia da semana.
Em qualquer outro dia do ano.
Sempre que te apetecer.
Sempre que te der raiva de chorar.

Se @s amig@s têm algum préstimo
É justamente para saber ouvir.
Ouvir, escutar, entender
Mais do que falar, analisar ou compreender.
Para estar contigo.
Simplesmente para estar ao pé de ti.
Ou para te segredar ao ouvido
Qualquer coisa que te faça sorrir.
Ao ouvido, baixinho.
E sobretudo para te oferecer
o ombro amigo.
Pode até ter pouco préstimo
Mas sempre é mais macio e quente
Do que a pedra do caminho.

L.G.

Lisboa, 29 de Abril de 2004

PS - Um (pre)texto que serviu de prenda de aniversário para uma amiga, a Matilde, que fazia anos neste dia e que estava a precisar de um ombro amigo. Do nosso ombro amigo. LG/AC

28 abril 2004

Guiné 69/71 - III: Excertos do diário de um tuga (2)

Mapa da actual República da Guiné-Bissau



Fonte: © STN - SuperTravelNet.com (2004)

1. Os termos IN (abreviatura de inimigo) e NT (nossas tropas) são aqui usadas, de acordo com os usos e costumes castrenses da época em referência (Julho de 1969 a Fevereiro de 1971). Muito em particular, o termo IN não tem qualquer conotação negativa. É apenas um termo técnico usado, por comodidade minha, para designar as forças (a guerrilha do PAIGC, hoje partido político da Guiné-Bissau) que combatiam pela independência do território (bem como das Ilhas de Cabo verde), contra as tropas portuguesas (as NT).

2. Em 1969/71, o triângulo Bambadinca-Xime-Xitole correspondia, grosso modo, ao Sector L1 da Zona Leste da Guiné (que estava dividida, por sua vez, em cinco sectores, abrangendo o chão fula, ou seja, a região tradicionalmente habitada pela população de etnia fula e futa-fula).

Coincidindo basicamente com a charneira Rio Geba / Rio Corubal, este sector era de vital importância para as comunicações fluviais e terrestres da Zona Leste. O Rio Geba era navegável até ao Xime (LDG - Lanchas de Desembarque Grandes, da Marinha Portuguesa) e Bafatá (embarcações mais pequenas, em geral civis). Depois do Xime o Rio Geba estreitava e serpenteava ao longo do território, tornando-se a segurança fluvial mais difícil, em particular na temível zona do Mato Cão.

Na época, as ligações (e sobretudo o transporte de homens e material) entre Bissau e a Zona Leste (Xime, Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego/Gabu, Pitche) eram feitas ou por via aérea ou por barco (até ao Xime) e depois, por terra, em colunas militares e com um forte dispositivo de segurança.

Entretanto, o único percurso relativamente seguro, no Sector L1, era a estrada (asfaltada) de Bambadinca-Bafatá. O Rio Corubal, por seu turno, estava interdito à navegação, sendo controlado pela guerrilha do PAIGC, em toda área compreendida pelo Sector L1 (desde o seu estuário até ao Saltinho). O Rio Corubal, com cerca de 400 km. de extensão, nasce no maciço do Futa Djalon, na Guiné-Conakry, e vai desaguar no estuário do Rio Geba.

No triângulo Bambadinca-Xime-Xitole, as NT só chegavam à margem esquerda do Rio Corubal quando iam reabastecer o Saltinho, o famoso Saltinho, de grande importância estratégica, já que a sua ponte de quatro arcos, construída em 1955, era o único sítio que permitia a ligação, por terra, da capital, Bissau, com o sul.

Era, além disso, um sítio pitoresco devido aos rápidos do rio que lhe deram o nome. Só por ocasião de grandes operações, como a Operação Lança Afiada, que decorreu em Março de 1969 e que mobilizou mais de 1300 homens, é que as NT podiam chegar à margem esquerda do Rio. O estratégico aquartelamento da Ponta do Inglês, na região do Xime, tinha sido, entretanto, abandonado pelas NT, ainda antes da chegada de Spínola à Guiné.

3. Em rigor, havia ainda mais duas áreas que faziam parte do Sector L1, uma a norte do Rio Geba e outra a leste da estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole. A actividade da guerrilha era mais intensa e regular no triângulo Bambadina-Xime-Xitole e na área a norte do Geba, até ao limite sul da mítica zona do Oio-Morés, de matas densas, cercadas de bolanhas, e que eram um dos grandes "santuários do IN" (usando um termo do jargão miliar, omnipressente nos relatórios de operações).

4. Em Jullho de 1969, o dispositivo das NT no Sector L1 era o seguinte:

(i) Comando e Companhia de Comando e Serviços do BCAÇ. 2852 (Bamdabinca) (a partir de Julho de 1970, BART 2917);

(ii) Forças de intervenção (Bambadinca): CCAÇ. 12; Pelotão de Caçadores Nativos 53 (a partir de Junho de 1970, Pel.Caç. Nat. 52);

(iii) Subunidades em quadrícula: CCAÇ 2520 (Xime), 2339 (Mansambo) e 2413 (Xitole), substituídas em Junho de 1970 pelas CART 2715, 2714 e 2716, respectivamente.

Se considerarmos ainda o Pelotão de Cavalaria Daimler (Bambadinca), os Pel. Caç. Nat. 52 (Missirá) e 53 (Fá Mandinga), além das forças militarizadas (pelotões de milícias aquarteladas em Taibatá, Dembataco e Finete, excluindo a população fula armada nas tabancas em autodefesa), a nossa força poderia ser estimada em cerca de 1250 homens em armas, o que nos dava uma vantagem , em relação à guerrilha do PAIGC, de talvez cinco para um (vd. GRAÇA, L. - Documento: Guiné 69/711: subsídios para a história da africanização da guerrra (conclusão). O Jornal. 18 de Junho de 1981).

Haveria ainda que considerar a existência de tropas especiais, aquarteladas em Fá Mandinga, embora às ordens do Comandante-Chefe. De facto, Fá Mandinga ficou conhecida sobretudo por ter sido o berço e a sede da 1ª Companhia de Comandos Africanos, a partir de inícios do ano de 1970 (vd. GRAÇA, L. - Documento: memória da guerra colonial: a tropa macaca e a elite da tropa. O Jornal.14 de Abril de 1981).

A CCAÇ. 12 era uma unidade de intervenção às ordens do comandante do Sector L1. E no período em causa (meados de 1969 e 1º trimestre de 1971), foi de facto a principal força de intervenção.

5. Nesse período, todas as posições da NT foram atacadas mais do que uma vez (com excepção de Bambadinca, Fá Mandinga, Ponte do Rio Undunduma e algumas tabancas em autodefesa nas proximidades de Bambadinca). As mais atacadas foram Xime, Mansambo, Missirá, Enxalé e todos os destacamentos de mílicias. Com muita frequência e a diferentes horas do dia e da noite. Embora menos vezes, também eram atacados os aquartelamentos de Xitole a Ponta dos Fulas. Os ataques podiam durar até duas horas e envolver efectivos do IN entre 30 e 200 elementos, fortemente armados.

6. As nossas operações em território controlado pelo IN eram geralmente efectuadas a nível de batalhão, mobilizando entre 150 e 300 homens, e contando com cobertura aérea. As colunas de reabastecimento (a Mansambo, Xitole e Saltinho) também mobilizavam importantes recursos, em homens e material. Eram particularmente penosas no tempo das chuvas.

7. No período de Julho de 1969 a Fevereiro de 1971, no Sector L1 as baixas do IN foram as seguintes:

(i) Guerrilheiros capturados: 3; população: 13;
(ii) Mortos confirmados no terreno: 13;
(iii) Mortos e/ou feridos graves estimados ou "confirmados posteriormente": 23.

Do lado das NT (nossas tropas, pertencentes ao Sector L1, sem considerar a população, nem as milícias, nem a 1ª Companhia de Comandos Africanos, nem outras tropas especiais como os paraquedistas), as baixas foram as seguintes:

(i) Mortos: 14 (2 da CCAÇ. 12);
(ii) Feridos graves (evacuados para Bissau ou Lisboa): 40 (dos quais 17 da CCAÇ. 12)
(iii) Feridos não evacuados: 9 da CAÇ. 12 (o número de feridos, ligeiros ou menos graves, das unidades em quadrícula é desconhecido). Fonte: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971.

8. Ainda sobre a Zona Leste, convirá dizer que Spínola, o "pai dos guinéus", soube conquistar o coração dos fulas por várias vias: por um lado, reprimindo certos abusos do poder colonial (PIDE/DGS, chefes de posto, exército); por outro, mantendo excelentes relações pessoais com os "homens grandes", os chefes tribais, os régulos, os dignatários religiosos (como o famoso Cherno Rachid, de Aldeia Formos); e, por fim, promovendo o turismo religioso (por exemplo, as peregrinações a Meca).

Os fulas, tal como os mandingas, eram islamizados, contrariamente aos balantas e outros povos do litoral, que apoiavam o PAIGC. De qualquer modo, os fulas estavam condenados ao colaboracionismo por razões que tinham a ver com a história colonial, já que as autoridades portuguesas haviam feito deles, contra os restantes povos da Guiné, os auxiliares do aparelho político-administrativo (régulos, sipaios...) e militar (milícias, soldados regulares...) (Graça, L.: Documento: memória da guerra colonial: Guiné 1969/71: subsídios para a história da africanização da guerra (2). O Jornal. 29 de Maio de 1981).


O obus de Bambadinca...

Vestígios da guerra colonial: uma peça de artilharia (obus de 140 mm) abandonada pelos tugas. Guiné-Bissau, Bambadinca, Abril de 1997.



© Frederico Amorim (1997) (Reprodução gentilmente autorizada pelo autor: vd. O Mundo do Fred)

Outros links de interesse:


Portal da Guiné-Bissau


CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa > Guiné-Bissau

Centro de Documentação 25 de Abril, Universidaded e Coimbra > Treze anos de guerra > Inbtervenientes > Guiné

Associação Nacional de Cruzeiros > Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa > Conakry, 22 de Novemrbo de 1970

Viriato > Campanhas Ultramarinas, 1961-1974 > Armamento

Companhia de Caçadores CCAÇ. 13 - Os Leões Negros

Guiné 66/67 > CCAÇ. 1496 > Crónicas Perdidas no Tempo > Página de Pereira Monteiro (Esta página estava alojada no Portal Terravista, que em 2004 deixou de prestar o serviço gratuita aos cibernautas)

Sapo > Sociedade > Grupos e Associações > Antigos Combatentes

Guiné 69/71 - III: Excertos do diário de um tuga (2)

Mapa da actual República da Guiné-Bissau



Fonte: © STN - SuperTravelNet.com (2004)

1. Os termos IN (abreviatura de inimigo) e NT (nossas tropas) são aqui usadas, de acordo com os usos e costumes castrenses da época em referência (Julho de 1969 a Fevereiro de 1971). Muito em particular, o termo IN não tem qualquer conotação negativa. É apenas um termo técnico usado, por comodidade minha, para designar as forças (a guerrilha do PAIGC, hoje partido político da Guiné-Bissau) que combatiam pela independência do território (bem como das Ilhas de Cabo verde), contra as tropas portuguesas (as NT).

2. Em 1969/71, o triângulo Bambadinca-Xime-Xitole correspondia, grosso modo, ao Sector L1 da Zona Leste da Guiné (que estava dividida, por sua vez, em cinco sectores, abrangendo o chão fula, ou seja, a região tradicionalmente habitada pela população de etnia fula e futa-fula).

Coincidindo basicamente com a charneira Rio Geba / Rio Corubal, este sector era de vital importância para as comunicações fluviais e terrestres da Zona Leste. O Rio Geba era navegável até ao Xime (LDG - Lanchas de Desembarque Grandes, da Marinha Portuguesa) e Bafatá (embarcações mais pequenas, em geral civis). Depois do Xime o Rio Geba estreitava e serpenteava ao longo do território, tornando-se a segurança fluvial mais difícil, em particular na temível zona do Mato Cão.

Na época, as ligações (e sobretudo o transporte de homens e material) entre Bissau e a Zona Leste (Xime, Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego/Gabu, Pitche) eram feitas ou por via aérea ou por barco (até ao Xime) e depois, por terra, em colunas militares e com um forte dispositivo de segurança.

Entretanto, o único percurso relativamente seguro, no Sector L1, era a estrada (asfaltada) de Bambadinca-Bafatá. O Rio Corubal, por seu turno, estava interdito à navegação, sendo controlado pela guerrilha do PAIGC, em toda área compreendida pelo Sector L1 (desde o seu estuário até ao Saltinho). O Rio Corubal, com cerca de 400 km. de extensão, nasce no maciço do Futa Djalon, na Guiné-Conakry, e vai desaguar no estuário do Rio Geba.

No triângulo Bambadinca-Xime-Xitole, as NT só chegavam à margem esquerda do Rio Corubal quando iam reabastecer o Saltinho, o famoso Saltinho, de grande importância estratégica, já que a sua ponte de quatro arcos, construída em 1955, era o único sítio que permitia a ligação, por terra, da capital, Bissau, com o sul.

Era, além disso, um sítio pitoresco devido aos rápidos do rio que lhe deram o nome. Só por ocasião de grandes operações, como a Operação Lança Afiada, que decorreu em Março de 1969 e que mobilizou mais de 1300 homens, é que as NT podiam chegar à margem esquerda do Rio. O estratégico aquartelamento da Ponta do Inglês, na região do Xime, tinha sido, entretanto, abandonado pelas NT, ainda antes da chegada de Spínola à Guiné.

3. Em rigor, havia ainda mais duas áreas que faziam parte do Sector L1, uma a norte do Rio Geba e outra a leste da estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole. A actividade da guerrilha era mais intensa e regular no triângulo Bambadina-Xime-Xitole e na área a norte do Geba, até ao limite sul da mítica zona do Oio-Morés, de matas densas, cercadas de bolanhas, e que eram um dos grandes "santuários do IN" (usando um termo do jargão miliar, omnipressente nos relatórios de operações).

4. Em Jullho de 1969, o dispositivo das NT no Sector L1 era o seguinte:

(i) Comando e Companhia de Comando e Serviços do BCAÇ. 2852 (Bamdabinca) (a partir de Julho de 1970, BART 2917);

(ii) Forças de intervenção (Bambadinca): CCAÇ. 12; Pelotão de Caçadores Nativos 53 (a partir de Junho de 1970, Pel.Caç. Nat. 52);

(iii) Subunidades em quadrícula: CCAÇ 2520 (Xime), 2339 (Mansambo) e 2413 (Xitole), substituídas em Junho de 1970 pelas CART 2715, 2714 e 2716, respectivamente.

Se considerarmos ainda o Pelotão de Cavalaria Daimler (Bambadinca), os Pel. Caç. Nat. 52 (Missirá) e 53 (Fá Mandinga), além das forças militarizadas (pelotões de milícias aquarteladas em Taibatá, Dembataco e Finete, excluindo a população fula armada nas tabancas em autodefesa), a nossa força poderia ser estimada em cerca de 1250 homens em armas, o que nos dava uma vantagem , em relação à guerrilha do PAIGC, de talvez cinco para um (vd. GRAÇA, L. - Documento: Guiné 69/711: subsídios para a história da africanização da guerrra (conclusão). O Jornal. 18 de Junho de 1981).

Haveria ainda que considerar a existência de tropas especiais, aquarteladas em Fá Mandinga, embora às ordens do Comandante-Chefe. De facto, Fá Mandinga ficou conhecida sobretudo por ter sido o berço e a sede da 1ª Companhia de Comandos Africanos, a partir de inícios do ano de 1970 (vd. GRAÇA, L. - Documento: memória da guerra colonial: a tropa macaca e a elite da tropa. O Jornal.14 de Abril de 1981).

A CCAÇ. 12 era uma unidade de intervenção às ordens do comandante do Sector L1. E no período em causa (meados de 1969 e 1º trimestre de 1971), foi de facto a principal força de intervenção.

5. Nesse período, todas as posições da NT foram atacadas mais do que uma vez (com excepção de Bambadinca, Fá Mandinga, Ponte do Rio Undunduma e algumas tabancas em autodefesa nas proximidades de Bambadinca). As mais atacadas foram Xime, Mansambo, Missirá, Enxalé e todos os destacamentos de mílicias. Com muita frequência e a diferentes horas do dia e da noite. Embora menos vezes, também eram atacados os aquartelamentos de Xitole a Ponta dos Fulas. Os ataques podiam durar até duas horas e envolver efectivos do IN entre 30 e 200 elementos, fortemente armados.

6. As nossas operações em território controlado pelo IN eram geralmente efectuadas a nível de batalhão, mobilizando entre 150 e 300 homens, e contando com cobertura aérea. As colunas de reabastecimento (a Mansambo, Xitole e Saltinho) também mobilizavam importantes recursos, em homens e material. Eram particularmente penosas no tempo das chuvas.

7. No período de Julho de 1969 a Fevereiro de 1971, no Sector L1 as baixas do IN foram as seguintes:

(i) Guerrilheiros capturados: 3; população: 13;
(ii) Mortos confirmados no terreno: 13;
(iii) Mortos e/ou feridos graves estimados ou "confirmados posteriormente": 23.

Do lado das NT (nossas tropas, pertencentes ao Sector L1, sem considerar a população, nem as milícias, nem a 1ª Companhia de Comandos Africanos, nem outras tropas especiais como os paraquedistas), as baixas foram as seguintes:

(i) Mortos: 14 (2 da CCAÇ. 12);
(ii) Feridos graves (evacuados para Bissau ou Lisboa): 40 (dos quais 17 da CCAÇ. 12)
(iii) Feridos não evacuados: 9 da CAÇ. 12 (o número de feridos, ligeiros ou menos graves, das unidades em quadrícula é desconhecido). Fonte: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971.

8. Ainda sobre a Zona Leste, convirá dizer que Spínola, o "pai dos guinéus", soube conquistar o coração dos fulas por várias vias: por um lado, reprimindo certos abusos do poder colonial (PIDE/DGS, chefes de posto, exército); por outro, mantendo excelentes relações pessoais com os "homens grandes", os chefes tribais, os régulos, os dignatários religiosos (como o famoso Cherno Rachid, de Aldeia Formos); e, por fim, promovendo o turismo religioso (por exemplo, as peregrinações a Meca).

Os fulas, tal como os mandingas, eram islamizados, contrariamente aos balantas e outros povos do litoral, que apoiavam o PAIGC. De qualquer modo, os fulas estavam condenados ao colaboracionismo por razões que tinham a ver com a história colonial, já que as autoridades portuguesas haviam feito deles, contra os restantes povos da Guiné, os auxiliares do aparelho político-administrativo (régulos, sipaios...) e militar (milícias, soldados regulares...) (Graça, L.: Documento: memória da guerra colonial: Guiné 1969/71: subsídios para a história da africanização da guerra (2). O Jornal. 29 de Maio de 1981).


O obus de Bambadinca...

Vestígios da guerra colonial: uma peça de artilharia (obus de 140 mm) abandonada pelos tugas. Guiné-Bissau, Bambadinca, Abril de 1997.



© Frederico Amorim (1997) (Reprodução gentilmente autorizada pelo autor: vd. O Mundo do Fred)

Outros links de interesse:


Portal da Guiné-Bissau


CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa > Guiné-Bissau

Centro de Documentação 25 de Abril, Universidaded e Coimbra > Treze anos de guerra > Inbtervenientes > Guiné

Associação Nacional de Cruzeiros > Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa > Conakry, 22 de Novemrbo de 1970

Viriato > Campanhas Ultramarinas, 1961-1974 > Armamento

Companhia de Caçadores CCAÇ. 13 - Os Leões Negros

Guiné 66/67 > CCAÇ. 1496 > Crónicas Perdidas no Tempo > Página de Pereira Monteiro (Esta página estava alojada no Portal Terravista, que em 2004 deixou de prestar o serviço gratuita aos cibernautas)

Sapo > Sociedade > Grupos e Associações > Antigos Combatentes

25 abril 2004

Guiné 69/71 - II: Excertos do diário de um tuga (1)

1. Trinta anos e tal anos depois. Para que não digam, os (por)tugas mais novos, que a Guiné nunca existiu. Que a guerra da Guiné nunca existiu. Ou que nunca ouviram falar da guerra colonial (em África). Uma guerra que marcou, se não um povo inteiro, pelo menos toda uma geração. A minha geração.

Desenterro estes escritos, guardados no sótão da casa e sobretudo no sótão da memória, em homenagem a todos os que derramaram o seu sangue na Guiné, entre meados de 1969 e o 1º trimestre de 1971. Ou que deram o melhor da sua vida, a sua juventude, a sua generosidade, os seus sonhos, as suas ilusões. Pela Pátria, dizia-se então. Ou por nada, o que é pior.

Há trinta e tal anos... Em homenagem aos que combateram, de um lado e de outro, nos três teatros de operações (Angola, Moçambique e Guiné). Em particular aos meus camaradas, portugueses e guineenses, da Companhia de Caçadores nº 12 (CCAÇ 12). Que se bateram com dignidade, bravura, galhardia e honra (mas também com ética!) na Zona Leste, Sector L1, da Guiné.

"Guiné... país de azenegues e de negros, ali morreram alguns dos primeiros navegadores, varados por azagaias envenenadas....": pode ainda ler-se algures, em Coimbra, no "Portugal dos Pequenitos", no Portugal ternurento e salazarento dos anos 40.

Há trinta e tal anos... Em homenagem também aos que fizeram o 25 de Abril de 1974. Foi no meu tempo, na Guiné, entre os milicianos, que o moral das tropas começou a deteriorar-se. Inexoravelmente. E a contaminar os oficiais e os sargentos do quadro, já poucos, velhos e cansados. Por exemplo, em 26 de Novembro de 1970, a escassos três meses da minha rendição individual e do meu regresso a casa, mandei impunemente à merda toda a hierarquia militar do aquartelamento de Bambadinca, do tenente-coronel aos majores e capitães, depois de termos sofrido um dos nossos piores reveses militares, a CCAÇ 12 e a CART 2714 [Companhia de Artilharia aquartelada no Xime] , no decurso da Operação Abencerragem Candente: seis mortos e nove feridos...

Tudo aconteceu por grave erro que na altura imputámos ao major, segundo comandante do BART 2917, um militarão de artilharia que não gozava da simpatia dos alferes e furriéis milicianos. Abreviando razões, o comandante da força, que integrava a fatídica Operação Abencerragem Candente [vd, o meu post de 25 de Abril de 2005], obrigara-nos a repetir o percurso de véspera (25 de Novembro de 1970), a caminho da Ponta do Inglês (Região do Xime, na confluência dos Rios Geba e Corubal)... Contra as mais elementares regras de segurança militar! É que na Guiné bichos e homens sabiam que nunca se pisava duas vezes o mesmo trilho e nunca se bebia duas vezes a água do mesmo rio...

Ainda recordo, com nitidez, as palavras que dirigi, depois do regresso a Bambadinca, na parada, alto e em bom som, frente às instalações do comando do BART [Batalhão de Artilharia] 2917, utilizando a mesma linguagem de caserna com que me fizeram soldado à força "contra a minha própria guerra" (Manuel Alegre): "Assassinos, criminosos de guerra, limpo o cu às folhas do RDM [ Regulamento de Disciplina Militar]"... ~

Podiam ter-me mandado prender por insubordinação, por grave infracção ao RDM, por crime de lesa-pátria... Não o fizeram, não tiveram coragem de o fazer: pediram apenas ao médico (miliciano) que me desse um Valium 10; o meu capitão, por seu turno, achava que eu andava muito cansado... Diagnóstico: distúrbio emocional, muito frequente na época entre as NT (nossas tropas).

E no final da comissão fiz-lhes a história dos seus gloriosos feitos em combate. Deram-me um louvor, averbado na minha caderneta militar, pela qualidade e seriedade do meu trabalho ... jornalístico. Dei-lhes a volta e fiz a crónica da guerra, baseado em toda a informação classificada a que tive acesso, para além das minhas próprias memórias, já que também fui um operacional com intensa actividade (Devo acrescentar que me orgulho de nunca ter dado um tiro em combate, apesar de ter estado debaixo de fogo nas mais diversas situações).

O acesso aos arquivos da CCAÇ 12/CCAÇ 2590 contou, naturalmente, com a cumplicidade de um dos sargentos do quadro. Um alentejano, de origem proletária, que meteu o chico (leia-se: seguiu a vida da tropa), e que me alcunhou carinhosamente de soviético ou camarada Sov, ao que julgo saber por eu ser do contra (entre os meus camaradas, pelo menos era conhecida a minha contestação do regime político e da guerra colonial).

Dezenas de exemplares da história da CCAÇ 12, tirados a stencil, acabaram por ser distribuídos pelos tugas da companhia ( e em particular pelos meus camaradas milicianos), chegando assim à Metropóle, mau grado as instruções do capitão que, aflito e em vésperas de ser promovido a major, a mandara classificar como documento reservado. Onde quer estejas, meu caro Sargento P., vivo ou morto, eu ainda tenho uma dívida de gratidão para contigo! E do meu capitão, então com 37 anos, uma comissão na Índia e três em África, eu só posso dizer que era um bom homem e um bom portuga.

Esta é, de resto, a prova de que, mesmo em condições difíceis, era possível, nessa época, exercer o mais elementar direito à resistência (activa e passiva). Havia ainda outras, mais ou menos arriscadas, mais fáceis ou mais difíceis: desertar, desobedecer, sabotar os planos de operações, evitar o contacto com o IN (inimigo), falsificar os relatórios...

Os oficiais, sargentos e praças da antiga CCAÇ 2590, que em Contuboel (Sector L2) formaram a CCAÇ 12, e que estiveram juntos na Guiné desde Abril de 1969 a Março de 1971, reunem-se com regularidade para matar saudades e conviver. Juntamente com outros camaradas de outras unidades que na época actuaram no Sector L1 (Bambadinca) e estiveram aquartelados, fizeram operações ou passaram por sítios com nomes ainda hoje tão míticos e tão exóticos e ao mesmo tão familiares para nós como Belel, Madina, Missirá, Finete, Mato Cão, Enxalé, Foz do do Rio Malafo, Xime, Nhabijões, Amedalai, Ponte do Rio Undunduma, Ponta Varela, Poindon, Ponta do Inglês, Ponta Luís Dias, Baio Buruntoni, Rio Corubal, Mangai, Fiofioli, Mina, Galo Corubal, Satecuta, Seco Braima, Xitole, Saltinho, Ponte dos Fulas, Jagarajá, Mansambo, Candamã, Camará, Afiá, Taibatá, Dembataco, Sinchã Mamadjai, Sansancuta, Rio Geba, Fá, Bafatá...

Durante a sua primeira comissão, a CCAÇ 12 (designação por que passou a chamar-se a CCAÇ 2590 a partir de Janeiro de 1970, por ter sido considerada uma unidade de guarnição normal e parte integrante da "nova força africana" e da estratégia do general António Spínola no sentido da "guineização da guerra"), actuou no Sector L1 às ordens do Batalhão de Caçadores 2852 (até Maio de 1970) e, depois, do já citado Batalhão de Artilharia 2917 (até Fevereiro de 1971).

2. Este ano o convívio do pessoal que esteve na Guiné, no Sector L1, entre 1968 e 1971, incluindo as companhias do BCAÇ 2852, é na Quinta da Graça, em Riade, Resende, junto ao Rio Douro, no próximo dia 29 de Maio de 2004.

A Quinta da Graça é propriedade do camarada Pinto dos Santos (Contactos: Telemóvel: 91 472 1651; telefone: 254 875 290). O preço por pessoa é de 30 euros (o convívio inclui almoço com animação regional, além de missa por alma dos camaradas já falecidos). A confirmação deve ser feita até ao dia 15 de Maio próximo. Contactar o José Manuel Amaral Soares (Largo Vieira Caldas, 6-A dtº 1685-585 CANEÇAS. Telemóvel: 96 242 8053).

Tanto o Pinto dos Santos (ex-furriel miliciano de informações) como o Amaral Soares (ex-fur. mil. sapador de minas e armadilhas) pertenciam à Companhia de Comandos e Serviços do BCAÇ 2852. Eu vou tentar estar presente no nosso convívio
em Resende, no dia 29 de Maio próximo, embora tenha provas académicas a 15 de Junho... E espero lá encontrar camaradas da CCAÇ 12.

Luís Graça (ou ... ex-Fur. Mil. Henriques)
__________________

Bambadinca,13.2.1971 > Esquecer a Guiné... por uma noite

(Poema republicado em 16 de Junho de 2005)

Guiné 69/71 - II: Excertos do diário de um tuga (1) (Luís Graça)

1. Trinta anos e tal anos depois. Para que não digam, os (por)tugas mais novos, que a Guiné nunca existiu. Que a guerra da Guiné nunca existiu. Ou que nunca ouviram falar da guerra colonial (em África). Uma guerra que marcou, se não um povo inteiro, pelo menos toda uma geração. A minha geração.

Desenterro estes escritos, guardados no sótão da casa e sobretudo no sótão da memória, em homenagem a todos os que derramaram o seu sangue na Guiné, entre meados de 1969 e o 1º trimestre de 1971. Ou que deram o melhor da sua vida, a sua juventude, a sua generosidade, os seus sonhos, as suas ilusões. Pela Pátria, dizia-se então. Ou por nada, o que é pior.

Há trinta e tal anos... Em homenagem aos que combateram, de um lado e de outro, nos três teatros de operações (Angola, Moçambique e Guiné). Em particular aos meus camaradas, portugueses e guineenses, da Companhia de Caçadores nº 12 (CCAÇ 12). Que se bateram com dignidade, bravura, galhardia e honra (mas também com ética!) na Zona Leste, Sector L1, da Guiné.

"Guiné... país de azenegues e de negros, ali morreram alguns dos primeiros navegadores, varados por azagaias envenenadas....": pode ainda ler-se algures, em Coimbra, no "Portugal dos Pequenitos", no Portugal ternurento e salazarento dos anos 40.

Há trinta e tal anos... Em homenagem também aos que fizeram o 25 de Abril de 1974. Foi no meu tempo, na Guiné, entre os milicianos, que o moral das tropas começou a deteriorar-se. Inexoravelmente. E a contaminar os oficiais e os sargentos do quadro, já poucos, velhos e cansados. Por exemplo, em 26 de Novembro de 1970, a escassos três meses da minha rendição individual e do meu regresso a casa, mandei impunemente à merda toda a hierarquia militar do aquartelamento de Bambadinca, do tenente-coronel aos majores e capitães, depois de termos sofrido um dos nossos piores reveses militares, a CCAÇ 12 e a CART 2714 [Companhia de Artilharia aquartelada no Xime] , no decurso da Operação Abencerragem Candente: seis mortos e nove feridos...

Tudo aconteceu por grave erro que na altura imputámos ao major, segundo comandante do BART 2917, um militarão de artilharia que não gozava da simpatia dos alferes e furriéis milicianos. Abreviando razões, o comandante da força, que integrava a fatídica Operação Abencerragem Candente [vd, o meu post de 25 de Abril de 2005], obrigara-nos a repetir o percurso de véspera (25 de Novembro de 1970), a caminho da Ponta do Inglês (Região do Xime, na confluência dos Rios Geba e Corubal)... Contra as mais elementares regras de segurança militar! É que na Guiné bichos e homens sabiam que nunca se pisava duas vezes o mesmo trilho e nunca se bebia duas vezes a água do mesmo rio...

Ainda recordo, com nitidez, as palavras que dirigi, depois do regresso a Bambadinca, na parada, alto e em bom som, frente às instalações do comando do BART [Batalhão de Artilharia] 2917, utilizando a mesma linguagem de caserna com que me fizeram soldado à força "contra a minha própria guerra" (Manuel Alegre): "Assassinos, criminosos de guerra, limpo o cu às folhas do RDM [ Regulamento de Disciplina Militar]"... ~

Podiam ter-me mandado prender por insubordinação, por grave infracção ao RDM, por crime de lesa-pátria... Não o fizeram, não tiveram coragem de o fazer: pediram apenas ao médico (miliciano) que me desse um Valium 10; o meu capitão, por seu turno, achava que eu andava muito cansado... Diagnóstico: distúrbio emocional, muito frequente na época entre as NT (nossas tropas).

E no final da comissão fiz-lhes a história dos seus gloriosos feitos em combate. Deram-me um louvor, averbado na minha caderneta militar, pela qualidade e seriedade do meu trabalho ... jornalístico. Dei-lhes a volta e fiz a crónica da guerra, baseado em toda a informação classificada a que tive acesso, para além das minhas próprias memórias, já que também fui um operacional com intensa actividade (Devo acrescentar que me orgulho de nunca ter dado um tiro em combate, apesar de ter estado debaixo de fogo nas mais diversas situações).

O acesso aos arquivos da CCAÇ 12/CCAÇ 2590 contou, naturalmente, com a cumplicidade de um dos sargentos do quadro. Um alentejano, de origem proletária, que meteu o chico (leia-se: seguiu a vida da tropa), e que me alcunhou carinhosamente de soviético ou camarada Sov, ao que julgo saber por eu ser do contra (entre os meus camaradas, pelo menos era conhecida a minha contestação do regime político e da guerra colonial).

Dezenas de exemplares da história da CCAÇ 12, tirados a stencil, acabaram por ser distribuídos pelos tugas da companhia ( e em particular pelos meus camaradas milicianos), chegando assim à Metropóle, mau grado as instruções do capitão que, aflito e em vésperas de ser promovido a major, a mandara classificar como documento reservado. Onde quer estejas, meu caro Sargento P., vivo ou morto, eu ainda tenho uma dívida de gratidão para contigo! E do meu capitão, então com 37 anos, uma comissão na Índia e três em África, eu só posso dizer que era um bom homem e um bom portuga.

Esta é, de resto, a prova de que, mesmo em condições difíceis, era possível, nessa época, exercer o mais elementar direito à resistência (activa e passiva). Havia ainda outras, mais ou menos arriscadas, mais fáceis ou mais difíceis: desertar, desobedecer, sabotar os planos de operações, evitar o contacto com o IN (inimigo), falsificar os relatórios...

Os oficiais, sargentos e praças da antiga CCAÇ 2590, que em Contuboel (Sector L2) formaram a CCAÇ 12, e que estiveram juntos na Guiné desde Abril de 1969 a Março de 1971, reunem-se com regularidade para matar saudades e conviver. Juntamente com outros camaradas de outras unidades que na época actuaram no Sector L1 (Bambadinca) e estiveram aquartelados, fizeram operações ou passaram por sítios com nomes ainda hoje tão míticos e tão exóticos e ao mesmo tão familiares para nós como Belel, Madina, Missirá, Finete, Mato Cão, Enxalé, Foz do do Rio Malafo, Xime, Nhabijões, Amedalai, Ponte do Rio Udunduma, Ponta Varela, Poindon, Ponta do Inglês, Ponta Luís Dias, Baio Buruntoni, Rio Corubal, Mangai, Fiofioli, Mina, Galo Corubal, Satecuta, Seco Braima, Xitole, Saltinho, Ponte dos Fulas, Jagarajá, Mansambo, Candamã, Camará, Afiá, Taibatá, Dembataco, Sinchã Mamadjai, Sansancuta, Rio Geba, Fá, Bafatá...

Durante a sua primeira comissão, a CCAÇ 12 (designação por que passou a chamar-se a CCAÇ 2590 a partir de Janeiro de 1970, por ter sido considerada uma unidade de guarnição normal e parte integrante da "nova força africana" e da estratégia do general António Spínola no sentido da "guineização da guerra"), actuou no Sector L1 às ordens do Batalhão de Caçadores 2852 (até Maio de 1970) e, depois, do já citado Batalhão de Artilharia 2917 (até Fevereiro de 1971).

2. Este ano o convívio do pessoal que esteve na Guiné, no Sector L1, entre 1968 e 1971, incluindo as companhias do BCAÇ 2852, é na Quinta da Graça, em Riade, Resende, junto ao Rio Douro, no próximo dia 29 de Maio de 2004.

A Quinta da Graça é propriedade do camarada Pinto dos Santos (Contactos: Telemóvel: 91 472 1651; telefone: 254 875 290). O preço por pessoa é de 30 euros (o convívio inclui almoço com animação regional, além de missa por alma dos camaradas já falecidos). A confirmação deve ser feita até ao dia 15 de Maio próximo. Contactar o José Manuel Amaral Soares (Largo Vieira Caldas, 6-A dtº 1685-585 CANEÇAS. Telemóvel: 96 242 8053).

Tanto o Pinto dos Santos (ex-furriel miliciano de informações) como o Amaral Soares (ex-fur. mil. sapador de minas e armadilhas) pertenciam à Companhia de Comandos e Serviços do BCAÇ 2852. Eu vou tentar estar presente no nosso convívio em Resende, no dia 29 de Maio próximo, embora tenha provas académicas a 15 de Junho... E espero lá encontrar camaradas da CCAÇ 12.

Luís Graça (ou ... ex-Fur Mil Henriques)
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Bambadinca,13.2.1971 > Esquecer a Guiné... por uma noite

(Poema republicado em 16 de Junho de 2005)

23 abril 2004

Guiné 69/71 – I: Saudosa(s) madrinha(s) de guerra

Trinta e cinco anos depois.
No 25 de Abril de 2004 presto a minha homenagem às mulheres portuguesas.
Que se vestiam de luto enquanto os maridos ou noivos andavam no ultramar.
Às que rastejavam no chão de Fátima, implorando à Virgem o regresso dos seus filhos, sãos e salvos.
Às que continuavam, silenciosas e inquietas, ao lado dos homens nos campos, nas fábricas e nos escritórios.
Às que ficavam em casa, rezando o terço à noite.
Às que aguardavam com angústia a hora matinal do correio.
Às que, poucas, subscreviam abaixo-assinados contra o regime e contra a guerra.
Às que, poucas, liam e divulgavam folhetos clandestinos ou sintonizavam altas horas da madrugada as vozes que vinham de longe e que falavam de resistência em tempo de solidão.
Às que, muitas, carinhosamente tiravam do fumeiro (e da barriga) as chouriças e os salpicões que iriam levar até junto dos seus filhos, no outro lado do mundo, um pouco do amor de mãe, das saudades da terra, dos sabores da comida e da alegria da festa.
E sobretudo às, muitas, e em geral adolescentes e jovens solteiras, que se correspondiam com os soldados mobilizados para a guerra colonial, na qualidade de madrinhas de guerra.

A maioria dos soldados correspondia-se, em média, com uma meia dúzia de madrinhas, para além dos seus familiares e amigos. Em treze anos de guerra, cerca de um milhão de soldados terá escrito mais de 500 milhões de cartas e aerogramas. E recebido outros tantos. Como este que aqui se reproduz.
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Guiné, 24 de Dezembro de 1969

Exma menina e saudosa madrinha:

Em primeiro de tudo, a sua saúde que eu por cá de momento fico bem, graças a Deus.

Estava um dia em que meditava e lamentava a triste sorte que Deus me deu até que toquei na necessidade de arranjar uma menina que fosse competente e digna de desempenhar tão honroso e delicado cargo de madrinha de guerra. Peço-lhe desculpa pelo atrevimento que tive em lhe dedicar estas simples letras. Mas valeu a pena e é com muita alegria que recebo o seu aero (1).

Vejo que também está triste por mor (2) da mobilização do seu mano mais novo para o Ultramar. Não sei como consolá-la, mas olhe: não desanime, tenha coragem e fé em Deus. Eu sei que custa muito, mas é o destino e, se é que ele existe, a ele ninguém foge. Nós, homens, temos esta difícil e nobre missão a cumprir.

Nós, militares, que suportamos o flagelo desta estadia aqui no Ultramar, não temos outro auxílio, quer material quer espiritual, que não seja o que nos dão os nossos amigos e entes queridos. E sobretudo as nossas saudosas madrinhas de guerra.

Sendo assim para nós o correio é a coisa mais sagrada que há no mundo. Porque nos traz notícias da nossa querida terra e nos faz esquecer, ainda que por pouco tempo, a situação de guerra em que vivemos e os dias que custam tanto a passar.

As notícias aqui são sempre tristes, nestas terras de Cristo, habitadas por povos conhecidos e desconhecidos. Não lhe posso adiantar pormenores, mas como deve imaginar uma pessoa anda triste e desanimanada sempre que há uma baixa de um camarada.

Lá na metrópole há gente que pensa que isto é bonito. Que a África é bonita. Eu digo-lhe que isto é bonito mas é para os bichos. São matas e bolanhas (3) que metem medo, cobertas de capim alto, e onde se escondem esses turras (4) que nos querem acabar com a vida. E mais triste ainda quando se aproxima o dia e a hora em que era pressuposto estarmos todos em família, juntos à mesa na noite da Consoada. Vai ser a primeira noite de Natal que aqui passo. Com a canhota (5) numa mão e uma garrafa de Vat 69 (6) na outra.

São duas horas da noite e vou botar este aero na caixa do correio. Daqui a um pouco saio em missão mais os meus camaradas. Reze por nós todos. Espero voltar são e salvo para poder ler, com alegria, as próximas notícias suas. Queira receber, Exma. Menina e saudosa madrinha, os meus mais respeitosos cumprimentos. Desejo-lhe um Santo e Feliz Natal.

O soldado-atirador da Companhia de Caçadores (...)

_________

Notas (L.G.):

(1) Aerograma. Também conhecido por corta-capim (o correio era, muitas vezes distribuído em cima de uma viatura, e o aerograma lançado por cima das cabeças dos soldados, à maneira de um boomerang). Os aerogramas foram uma criação do Movimento Nacional Feminino, dirigida pela célebre Cecília Supico Pinto desde 1961, e o seu transporte era assegurado pela TAP ("uma oferta da TAP aos soldados de Portugal"). Os aerogramas também foram usados na guerra da propaganda do regime, ostentando carimbos de correio com dizeres como "Povo unido, paz e progresso", "Povo português, povo africano", "Os inimigos da Pátria renunciarão" ou "Muitas raças, uma Nação, Portugal" (vd. Graça, L. - Memória da guerra colonial: querida madrinha. O Jornal. 15 de Maio de 1981).

(2) Por mor de =por causa de (expressão usada no norte).

(3) Terras alagadiças da Guiné onde tradicionalmente se cultivava o arroz (... e se pescava). Durante a guerra colonial, foram praticamente abandonadas como terras de cultivo, devido à deslocação de muitas das populações ribeirinhas e à escalada das operações militares. A Guiné, que chegou a exportar arroz, passou a importá-lo.

(4) Corruptela de terroristas. Termo depreciativo que era usado para referir os combatentes do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Os soldados portugueses eram, por sua vez, conhecidos como tugas (diminuitivo de Portugal, português ou portuga).

(5) Espingarda automática G-3, de calibre 7.62, de origem alemã, que passou a equipar as forças armadas portuguesas no Ultramar. Em 1961 o exército português ainda estava equipado com a velha Mauser (!).

(6) Marca de uísque escocês, muito popular na época entre os militares (Havia uma generosa distribuição de bebidas alcoólicas nas frentes de guerra, com destaque para o uísque, "from Scotland for the exclusive use of the Portuguese Armed Forces"). Na época o salário de um soldado-atirador (cerca de 1500 a 1800 escudos, parte dos quais depositado na metrópole) dava para comprar mais de uma garrafa de uísque (novo) no serviço de aprivisionamento militar (cerca de 40 pesos ou escudos por unidade). No entanto, a bebida mais popular entre os soldados era cerveja. Uma garrafa de cerveja de 0,6 litros chamava-se bazuca.

Guiné 69/71 – I: Saudosa(s) madrinha(s) de guerra

Trinta e cinco anos depois.
No 25 de Abril de 2004 presto a minha homenagem às mulheres portuguesas.
Que se vestiam de luto enquanto os maridos ou noivos andavam no ultramar.
Às que rastejavam no chão de Fátima, implorando à Virgem o regresso dos seus filhos, sãos e salvos.
Às que continuavam, silenciosas e inquietas, ao lado dos homens nos campos, nas fábricas e nos escritórios.
Às que ficavam em casa, rezando o terço à noite.
Às que aguardavam com angústia a hora matinal do correio.
Às que, poucas, subscreviam abaixo-assinados contra o regime e contra a guerra.
Às que, poucas, liam e divulgavam folhetos clandestinos ou sintonizavam altas horas da madrugada as vozes que vinham de longe e que falavam de resistência em tempo de solidão.
Às que, muitas, carinhosamente tiravam do fumeiro (e da barriga) as chouriças e os salpicões que iriam levar até junto dos seus filhos, no outro lado do mundo, um pouco do amor de mãe, das saudades da terra, dos sabores da comida e da alegria da festa.
E sobretudo às, muitas, e em geral adolescentes e jovens solteiras, que se correspondiam com os soldados mobilizados para a guerra colonial, na qualidade de madrinhas de guerra.

A maioria dos soldados correspondia-se, em média, com uma meia dúzia de madrinhas, para além dos seus familiares e amigos. Em treze anos de guerra, cerca de um milhão de soldados terá escrito mais de 500 milhões de cartas e aerogramas. E recebido outros tantos. Como este que aqui se reproduz.
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Guiné, 24 de Dezembro de 1969

Exma menina e saudosa madrinha:

Em primeiro de tudo, a sua saúde que eu por cá de momento fico bem, graças a Deus.

Estava um dia em que meditava e lamentava a triste sorte que Deus me deu até que toquei na necessidade de arranjar uma menina que fosse competente e digna de desempenhar tão honroso e delicado cargo de madrinha de guerra. Peço-lhe desculpa pelo atrevimento que tive em lhe dedicar estas simples letras. Mas valeu a pena e é com muita alegria que recebo o seu aero (1).

Vejo que também está triste por mor (2) da mobilização do seu mano mais novo para o Ultramar. Não sei como consolá-la, mas olhe: não desanime, tenha coragem e fé em Deus. Eu sei que custa muito, mas é o destino e, se é que ele existe, a ele ninguém foge. Nós, homens, temos esta difícil e nobre missão a cumprir.

Nós, militares, que suportamos o flagelo desta estadia aqui no Ultramar, não temos outro auxílio, quer material quer espiritual, que não seja o que nos dão os nossos amigos e entes queridos. E sobretudo as nossas saudosas madrinhas de guerra.

Sendo assim para nós o correio é a coisa mais sagrada que há no mundo. Porque nos traz notícias da nossa querida terra e nos faz esquecer, ainda que por pouco tempo, a situação de guerra em que vivemos e os dias que custam tanto a passar.

As notícias aqui são sempre tristes, nestas terras de Cristo, habitadas por povos conhecidos e desconhecidos. Não lhe posso adiantar pormenores, mas como deve imaginar uma pessoa anda triste e desanimanada sempre que há uma baixa de um camarada.

Lá na metrópole há gente que pensa que isto é bonito. Que a África é bonita. Eu digo-lhe que isto é bonito mas é para os bichos. São matas e bolanhas (3) que metem medo, cobertas de capim alto, e onde se escondem esses turras (4) que nos querem acabar com a vida. E mais triste ainda quando se aproxima o dia e a hora em que era pressuposto estarmos todos em família, juntos à mesa na noite da Consoada. Vai ser a primeira noite de Natal que aqui passo. Com a canhota (5) numa mão e uma garrafa de Vat 69 (6) na outra.

São duas horas da noite e vou botar este aero na caixa do correio. Daqui a um pouco saio em missão mais os meus camaradas. Reze por nós todos. Espero voltar são e salvo para poder ler, com alegria, as próximas notícias suas. Queira receber, Exma. Menina e saudosa madrinha, os meus mais respeitosos cumprimentos. Desejo-lhe um Santo e Feliz Natal.

O soldado-atirador da Companhia de Caçadores (...)

_________

Notas (L.G.):

(1) Aerograma. Também conhecido por corta-capim (o correio era, muitas vezes distribuído em cima de uma viatura, e o aerograma lançado por cima das cabeças dos soldados, à maneira de um boomerang). Os aerogramas foram uma criação do Movimento Nacional Feminino, dirigida pela célebre Cecília Supico Pinto desde 1961, e o seu transporte era assegurado pela TAP ("uma oferta da TAP aos soldados de Portugal"). Os aerogramas também foram usados na guerra da propaganda do regime, ostentando carimbos de correio com dizeres como "Povo unido, paz e progresso", "Povo português, povo africano", "Os inimigos da Pátria renunciarão" ou "Muitas raças, uma Nação, Portugal" (vd. Graça, L. - Memória da guerra colonial: querida madrinha. O Jornal. 15 de Maio de 1981).

(2) Por mor de =por causa de (expressão usada no norte).

(3) Terras alagadiças da Guiné onde tradicionalmente se cultivava o arroz (... e se pescava). Durante a guerra colonial, foram praticamente abandonadas como terras de cultivo, devido à deslocação de muitas das populações ribeirinhas e à escalada das operações militares. A Guiné, que chegou a exportar arroz, passou a importá-lo.

(4) Corruptela de terroristas. Termo depreciativo que era usado para referir os combatentes do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Os soldados portugueses eram, por sua vez, conhecidos como tugas (diminuitivo de Portugal, português ou portuga).

(5) Espingarda automática G-3, de calibre 7.62, de origem alemã, que passou a equipar as forças armadas portuguesas no Ultramar. Em 1961 o exército português ainda estava equipado com a velha Mauser (!).

(6) Marca de uísque escocês, muito popular na época entre os militares (Havia uma generosa distribuição de bebidas alcoólicas nas frentes de guerra, com destaque para o uísque, "from Scotland for the exclusive use of the Portuguese Armed Forces"). Na época o salário de um soldado-atirador (cerca de 1500 a 1800 escudos, parte dos quais depositado na metrópole) dava para comprar mais de uma garrafa de uísque (novo) no serviço de aprivisionamento militar (cerca de 40 pesos ou escudos por unidade). No entanto, a bebida mais popular entre os soldados era cerveja. Uma garrafa de cerveja de 0,6 litros chamava-se bazuca.