14 setembro 2005

Guiné 63/74 - CLXXXIX: Levar a "carta a Garcia" ou a redescoberta da Guiné



© Manuel Ferreira (2005) Guiné > Zona Leste > Aquartelamento de Mansambo > Refeitório (2) (1973)


Foto gentilmente cedida por Manuel G. Ferreira, ex-soldado condutor auto, da CART 3494 (1972/74), aquartelada no Xime (1972/73) e depois em Mansambo (1973/74), pertencente ao BART 3873 (1972/1974), com sede em Bambadinca.

Amigos & camaradas de tertúlia:

Eles não me levam a mal se eu vos der conhecimento dos e-mails (e dos mimos) que trocaram nestes últimos dias... em privado.

Eles... são o Humberto Reis e o Marques Lopes. Se eles se zangarem comigo, pior para mim... Isto não serve, obviamente, de incentivo para o resto dos membros da tertúlia usarem e abusarem da magnanimidade do nosso camarada Humberto Reis. De qualquer modo, foi uma das coisas (bonitas) que a escola da guerra, lá na Guiné, nos ensinou: a sermos magnânimos e solidários... Simplificando: a isto chama-se simplesmente camaradagem!

7 de Setembro de 2005:

1. Amigo e Camarada Marques Lopes:

Aqui vai o painel com a divisão da Guiné nas 72 partes cujas cartas a 1/50.000 adquiri. Em Dez de 94 já me custaram 450$00 cada uma, conforme factura do (...) Centro de Documentação e Informação do Instituto de Investigação Científica e Tropical (...).

Humberto Reis

2. Amigo e camarada Humberto Reis

Mais uma vez os meus agradecimentos. Não vou comprar as 72 folhas, mas vou ver se consigo aquelas que te referi, a 16, a 17 e a 28. A tua informação é extremamente útil (...).

Marques Lopes

9 de Setembro de 2005:

3. Amigo Marques Lopes:

Necessito que me indiques um endereço para onde te possa enviar uma encomenda postal. Tomei a liberdade de tirar fotocópias, infelizmente a preto e branco, mas já dá para matares saudades e passares uns serões a ver por onde andaste, das cartas a 1/50.000 que gostavas de ter. Anexo também a tal "Declaração" da embaixada, que tive de obter para poder comprar as cartas (...).

Humberto Reis

4. Caro amigo Humberto Reis:

És sensacional! Claro que estou interessado nas fotocópias que tiraste e desta vez deixo-te os meus, desta vez, mais que muitos agradecimentos. Para o que estou a escrever são importantísimas, pois que me vão fazer lembrar ao pormenor todos os caminhos e locais e, por eles, também as situações, certamente. Quando enviares manda-me um papelinho com a indicação das despesas feitas com fotocópias (o transporte vejo pelos selos) bem como o teu NIB para eu te pagar.

A minha morada é (...).

Marques Lopes

12 de Setembro de 20045:

5. Amigo António:

As despesas das fotocópias são: uma rodada aqui, na messe, aos que estiverem aqui mais perto ( como de costume os que estiverem em operações no mato lerpam na bebida) quando vieres cá ao burgo com algum tempo disponível.

As despesas de correio são: duas rodadas em vez de uma.

Por último permito-me MANDAR-TE DAR UMA VOLTA (para não dizer pior) SOBRE A QUESTÃO DO PAGAMENTO. Só o prazer que já estou a sentir com a tua alegria em teres estas cartas já pagou tudo.

Vão seguir hoje mesmo pelo correio.

Um abraço e diverte-te a recordar o que de bom passámos naquela terra (não venham dizer que foi tudo mau).

Humberto Reis

13 de Setembro de 2005:

6. Amigo Humberto Reis

Cá recebi as cartas que me enviaste. Um dia que for aí abaixo vou-te pagar a atenção e amabilidade, e trabalho, que tiveste. Estão prometidas as duas rodadas!

É fenomenal como estes mapas nos avivam a memória... Há tempos escrevi um texto do blogue e falei na bolanha de Canhamina. Propondo mistérios e eventuais utilizações de nomes fictícios, o Luís Graça perguntou se esse nome alguma vez terá existido...

De facto não existe, mas porque eu o confundi com o nome verdadeiro. E o nome está na carta que me enviaste de Bambadinca, que apanha grande parte da quadrícula da companhia de Geba. Lá está CANHAGINA, a seguir a Sare Madina (que eu também não vira em mais mapa nenhum), no caminho que eu segui para Sinchã Jobel (1) (também bem colocada na carta) nos idos tempos da Op Jigajoga (2).

Vão-me ser grandemente úteis estas cartas.

O meu obrigado e um abraço.

Marques Lopes


14 de Setembro de 2005:


7. Amigo e Camarada António Marques Lopes:

É uma grande alegria para mim sentir o quão bom foi teres olhado para esses bocados de papel e reviveres 35 anos atrás. Se calhar vieram-te as lágrimas aos olhos por recordares coisas boas, que também as houve.

Não há problema nenhum por isso. Costumamos dizer que só os burros (de 2 patas) é que não choram. Quando em Bambadinca, 25 após ter saído de lá, fui reconhecido por uma lavadeira (e isso está documentado num vídeo que um camarada nosso, que foi comigo, fez) também chorei de alegria. Aquela terra foi o nosso habitat natural durante quase 2 anos, e a maioria daquela gente até tem saudades nossas. É por essas e outras coisas semelhantes, que andamos aqui a contactar uns com os outros. Eu chamo a isto "Saudades".

Temos de nos manter vivos e o Luís Graça vai mantendo este endiabrado blogue.

Um abraço,Humberto,

Notas de L.G.:


(1) Vd. post,de A. Marques Lopes, de 30 Maio 2005 >
Guiné 69/71 - XXXVI: Na bolanha dá para pensar...

(2) Vd. post, de A. Marques Poes, de 30 de Maio de 2005 >
Guiné 69/71 - XXXV: Uma estória de Sinchã Jobel ou a noite em que o Alferes Lopes dormiu na bolanha (1967)

13 setembro 2005

Guiné 63/74 - CLXXXVIII: A galeria dos meus heróis (1): o Campanhã


© Manuel Ferreira (2005) Guiné > Zona Leste > Aquartelamento de Mansambo > Refeitório (1)(1973)






Foto gentilmente cedida por Manuel G. Ferreira, ex-soldado condutor auto, da CART 3494 (1972/74), aquartelada no Xime (1972/73) e depois em Mansambo (1973/74), pertencente ao BART 3873 (1972/1974), com sede em Bambadinca.





- E no fim quem levou a taça foi o capitão!... Quer-se dizer, mais uns galões, mais graveto ao fim do mês…
- Mas, ó Campanhã, era a vida dele, a carreira dele! – atalhou o ex-alferes Pimentel, transmontano, que nada tinha perdido do seu espírito de subserviência em relação a todas as hierarquias deste mundo.
- E depois nós éramos milicianos, estávamo-nos nas tintas para as divisas e os galões! – atalhei eu, tentando sem jeito deitar água na fervura.
- E, nós, soldados do contingente geral! – ripostou o Campanhã.
- Estávamos todos metidos no mesmo barco, essa é que essa! - opinou o Pimentel.
- Mas mesmo assim havia diferenças, carago! No meio daquela merda toda – desculpem lá a expressão! – vocês até eram uns fidalgos: tinham patacão, graveto; tinham messe, bar, bebidas estrangeiras; iam matar a malvada a Bafatá; comiam umas garinas, brancas ou verdianas de vez em quando, em Bissau; vinham de férias, na TAP, à Metrópole…

E lá continuou o reguila do Campanhã a vociferar contra os privilegiados dos tugas que na guerra tinham messe, com direito a comer de garfo e faca e toalha branca na mesa:
- Alguns de vocês, alferes e furriéis (não vale a pena citar nomes) até nem queriam outra vida se não fosse terem de andar com a puta da canhota no mato!... Mais: alguns milicianos que eu conheci, em Bambadinca, nunca tinham ganho um tostão na puta da vida, a não ser a mesada do velho…
- Calma aí e pára o baile, ó Campanhã! Estás a ser injusto, ao fazer generalizações abusivas ! - interrompeu, de chofre, o Pimentel.
- Muitos de nós, furriéis e alferes, já trabalhávamos... - comentei eu, ajudando a cortar o fio à meada do discurso torrencial do Campanhã, a quem os primeiros goles da cerveja da Trindade começava a abrir as goelas da desinibição.
- Cá o Zé Soldado como eu já era chefe de família e há muito que fossava no duro, antes de ir parar com os quatros costados à Guiné. É bom que não se esqueçam isto, carago!... Quanto ao resto, reconheço que éramos todos tugas e iguais, que elas no mato não traziam código postal!

O Campanhã, o nosso soldado Campanhã!... Era com emoção, com alguma emoção, mal disfarçada, que eu voltava a abraçar, ali no Trindade, no Bairro Alto, em Lisboa, dez depois, em 1981, o soldado Campanhã, com o seu inimitável sotaque tripeiro e a franqueza que era timbre da boa gente do Norte.

Tínhamo-nos tornado amigos (ou, talvez melhor, confidentes e cúmplices um do outro, camaradas, no sentido etimológico do termo, já que na tropa não havia amigos, mas apenas gente que partilhava o mesmo chão, a mesma caserna, o mesmo bivaque, o mesmo abrigo, a mesma tenda, o mesmo beliche, a mesma cama, o mesmo buraco) nessa longa noite em que viajáramos juntos, de comboio, do Campo Militar de Santa Margarida (1) até ao cais de embarque, em Lisboa.

Entre dois tragos de bagaço de vinho verde, rasca, o Campanhã fora-me contando a sua vida, os seus sonhos, os seus projectos, a mim, seu confidente de circunstância, vizinho de lugar e companheiro de infortúnio, lucidamente deprimido, à medida que o comboio da CP, requisitado pela tropa, galgava as terras banhadas pelo Tejo, pela calada da noite.

Para lá do Douro, ficava uma infância pobre, uma adolescência truculenta, uma filha de mãe solteira, um futuro incerto de operário do têxtil. Filho de pequenos rendeiros pobres, de Entre Douro e Minho, cedo pegara na trouxa para apanhar o comboio da Linha do Douro e assentar arraiais numa ilha na freguesia de Campanhã, razão de ser da alcunha que lhe deram na tropa.
- Em busca de melhores dias, já que em casa o caldo, a broa e o verde mal chegavam para dez bocas.
- Fome... mesmo, a sério ? - insinuei eu, timidamente.
- Não, meu furriel, você não sabe o que é isso: uma sardinha para três em dia de festa; um bocado de toucinho quando se matava o porco lá pelo Natal; um caldo de água quente, pencas e pão de milho esfarelado para aconchegar o estômago; batatas com batatas, quando as havia… Mas um homem habitua-se a tudo... Fome, fome, não. Digamos que passei necessidades...

E no Porto, na sua Campanhã, ainda popular e operária, faria entretanto a sua "universidade da vida": marçano, barbeiro, trolha, futebolista, empregado de café, chulo de puta fina – “azeiteiro, como se diz na minha terra”… até descobrir o duro caminho que o levaria aos portões da fábrica.

- Cães grandes ? Aprendi a tirar-lhes o chapéu e a cuspir-lhes na sombra desde o dia em que, descalço, mas já com pêlo na venta, acompanhava o velho pai na visita anual à Casa do Fidalgo, pelo São Miguel, para acertar a renda: dois terços do vinho, metade do milho, a melhor fruta para a senhora, a viúva de um juiz salazarista que tinha mais quintas na zona do que dedos na mão…

Falava do seu velho pai, com ternura contida e com o respeito comovido que lhe mereciam os mortos de que a História não fala. Tinha falecido em Fevereiro de 1969, nas vésperas da ordem da sua mobilização para a Guiné.

- As alegrias passam, meu furriel. Só as desgraças e as injustiças nunca se perdoam e nem se esquecem. As tainadas, as bezanas, tudo isso a gente caga e mija... Veja o meu falecido pai. Trabalhou uma vida inteira como uma besta de carga para morrer pobre como Job, sem um cantinho a que chamasse seu, como qualquer cabaneiro. Sem saber uma letra. Sem nunca ter ido sequer à Foz a ver o mar… Conheceu muitos fidalgos, como ele chamava aos senhorios ou patrões… Sempre o conheci de chapéu na mão, agradecendo a suas senhorias o grandessíssimo favor de continuar na terra por mais um ano, depois do São Miguel… Viveu uma vida emprestada, viveu por favor... É isso que me revolta, carago. E é por isso que me chamam reguila… Mas eu digo-lhe: há coisas que um homem nunca esquece por muitos tombos que dê na puta da vida, por muitas bezanas que apanhe ou por muitas sacanices que faça… E eu já fiz muita merda, nesta meia dúzia de anos em que me tornei homem.

Curiosamente, verificava ali no Trindade, dez anos depois de "tudo ter acabado em bem", como dizia o safado do Pimentel, que nenhum de nós se desculpava por feito aquela guerra e muito menos de a ter perdido. Para alguns de nós, por ventura para a maior parte de nós, tugas, agora despidos, desfardados, paisanos, passados à peluda, nus de corpo e alma como no dia em que fomos à inspecção, alcunhados de ex-combatentes do ultramar, últimos guerreiros do império colonial português, mal amados - "mas vivinhos da costa como o carapau, graças a Deus!" (era a voz efeminada do Peniche, o básico, que sempre acabara por ir parar à vida artística da noite) - , tinha sido afinal a primeira e a última grande aventura das nossas vidas cinzentas, um rito de passagem, uma iniciação (entre dolorosa e divertida) à vida adulta. Uma espécie de acidente de percurso. Um pesadelo climatizado. Uma trovoada fantasmagórica numa bela noite de verão tropical. Um abcesso. Um furúnculo. Uma dor de dentes...
- Um parto, meu furriel, um parto! - arrematava o Peniche, no meio da galhofa geral.

Talvez, eu, ingénuo, esperasse ouvir a confissão pública de alguém que, agora, à distância dos acontecimentos e na atmosfera distendida do Trindade, quisesse tomar partido e se levantasse para fazer um discurso puro e duro sobre a traição dos capitães de Abril, do Spínola, do Caetano e de todos os gajos que andaram a gozar connosco. Ou então sobre o trágico equívoco que fora a guerra colonial, ceifando vidas, gastando cabedais, hipotecando o futuro. Mas não, nenhum dos presentes levantara a caneca para gritar Viva ou Morra !...

É que todos fazíamos o jogo da cumplicidade, jogo cujas regras tacitamente ninguém estava disposto a violar. Porque o momento era único, era mágico, e todos sabíamos que nunca mais voltaria a repetir-se, apesar das trocas de cartões e de fotos da família e das promessas de, para o ano, irmos comer uma valente feijoada à transmontana e provar a famosa posta mirandesa, para lá do Marão "onde mandam os que lá estão" (assegurava o Pimentel, "agora autarca do poder local democrático").

- Nunca lá pus os butes, e bibo no Porto, carago! - ironizou o Campanhã que continuava, a miúde, a trocar os vês pelos bês, sentindo que ainda lhe achavam alguma graça, os gajos do sul.

No fundo, sabíamos que, na vida, há momentos irrepetíveis, pelo que nem os fantasmas, dolorosos, do passado, nem as paixões, ainda mornas, do presente, nem muito menos as inquietações, imperceptíveis, do futuro deveriam perturbar este insólito e fugaz encontro de meia dúzia de ex-combatentes da Guiné, mesmo quando, já no fim do jantar e depois de uma nova rodada de uísques (de uma Old Parr de 1970 que o vago-mestre trouxera de lembrança, "from Sctoland to the Portuguese Armed Forces"), alguém tivera o mau gosto (ou o azar) de evocar os mortos da companhia...
- Agora é que foderam tudo! – arrematou o Campanhã.

Nunca conheci nenhuma alma tão sensível como a dele. Ou melhor: nenhum actor, com lágrima tão fácil como a dele...

Fonte: (Pre)texto: “Na Guiné, longe do Vietname” (inédito). © Luís Graça (1981-2005)(2)


________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 24 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXX: A cerimónia de despedida no Campo Militar de Santa Margarida

(2) Nenhum destes heróis foi condecorado, muito menos o Campanhã (que antes de ir parar à Guiné levou uma porrada, sendo despromovido do posto de cabo atirador de infantaria). Felizmente que nenhum deles foi condecorado no 10 de Junho, a título póstumo. Também nenhum destes heróis existiu. Nem poderiam existir: afinal, perdemos a guerra. Em todo o caso, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Guiné 63/74 - CLXXXVIII: A galeria dos meus heróis (1): o Campanhã


© Manuel Ferreira (2005) Guiné > Zona Leste > Aquartelamento de Mansambo > Refeitório (1)(1973)






Foto gentilmente cedida por Manuel G. Ferreira, ex-soldado condutor auto, da CART 3494 (1972/74), aquartelada no Xime (1972/73) e depois em Mansambo (1973/74), pertencente ao BART 3873 (1972/1974), com sede em Bambadinca.





- E no fim quem levou a taça foi o capitão!... Quer-se dizer, mais uns galões, mais graveto ao fim do mês…
- Mas, ó Campanhã, era a vida dele, a carreira dele! – atalhou o ex-alferes Pimentel, transmontano, que nada tinha perdido do seu espírito de subserviência em relação a todas as hierarquias deste mundo.
- E depois nós éramos milicianos, estávamo-nos nas tintas para as divisas e os galões! – atalhei eu, tentando sem jeito deitar água na fervura.
- E, nós, soldados do contingente geral! – ripostou o Campanhã.
- Estávamos todos metidos no mesmo barco, essa é que essa! - opinou o Pimentel.
- Mas mesmo assim havia diferenças, carago! No meio daquela merda toda – desculpem lá a expressão! – vocês até eram uns fidalgos: tinham patacão, graveto; tinham messe, bar, bebidas estrangeiras; iam matar a malvada a Bafatá; comiam umas garinas, brancas ou verdianas de vez em quando, em Bissau; vinham de férias, na TAP, à Metrópole…

E lá continuou o reguila do Campanhã a vociferar contra os privilegiados dos tugas que na guerra tinham messe, com direito a comer de garfo e faca e toalha branca na mesa:
- Alguns de vocês, alferes e furriéis (não vale a pena citar nomes) até nem queriam outra vida se não fosse terem de andar com a puta da canhota no mato!... Mais: alguns milicianos que eu conheci, em Bambadinca, nunca tinham ganho um tostão na puta da vida, a não ser a mesada do velho…
- Calma aí e pára o baile, ó Campanhã! Estás a ser injusto, ao fazer generalizações abusivas ! - interrompeu, de chofre, o Pimentel.
- Muitos de nós, furriéis e alferes, já trabalhávamos... - comentei eu, ajudando a cortar o fio à meada do discurso torrencial do Campanhã, a quem os primeiros goles da cerveja da Trindade começava a abrir as goelas da desinibição.
- Cá o Zé Soldado como eu já era chefe de família e há muito que fossava no duro, antes de ir parar com os quatros costados à Guiné. É bom que não se esqueçam isto, carago!... Quanto ao resto, reconheço que éramos todos tugas e iguais, que elas no mato não traziam código postal!

O Campanhã, o nosso soldado Campanhã!... Era com emoção, com alguma emoção, mal disfarçada, que eu voltava a abraçar, ali no Trindade, no Bairro Alto, em Lisboa, dez depois, em 1981, o soldado Campanhã, com o seu inimitável sotaque tripeiro e a franqueza que era timbre da boa gente do Norte.

Tínhamo-nos tornado amigos (ou, talvez melhor, confidentes e cúmplices um do outro, camaradas, no sentido etimológico do termo, já que na tropa não havia amigos, mas apenas gente que partilhava o mesmo chão, a mesma caserna, o mesmo bivaque, o mesmo abrigo, a mesma tenda, o mesmo beliche, a mesma cama, o mesmo buraco) nessa longa noite em que viajáramos juntos, de comboio, do Campo Militar de Santa Margarida (1) até ao cais de embarque, em Lisboa.

Entre dois tragos de bagaço de vinho verde, rasca, o Campanhã fora-me contando a sua vida, os seus sonhos, os seus projectos, a mim, seu confidente de circunstância, vizinho de lugar e companheiro de infortúnio, lucidamente deprimido, à medida que o comboio da CP, requisitado pela tropa, galgava as terras banhadas pelo Tejo, pela calada da noite.

Para lá do Douro, ficava uma infância pobre, uma adolescência truculenta, uma filha de mãe solteira, um futuro incerto de operário do têxtil. Filho de pequenos rendeiros pobres, de Entre Douro e Minho, cedo pegara na trouxa para apanhar o comboio da Linha do Douro e assentar arraiais numa ilha na freguesia de Campanhã, razão de ser da alcunha que lhe deram na tropa.
- Em busca de melhores dias, já que em casa o caldo, a broa e o verde mal chegavam para dez bocas.
- Fome... mesmo, a sério ? - insinuei eu, timidamente.
- Não, meu furriel, você não sabe o que é isso: uma sardinha para três em dia de festa; um bocado de toucinho quando se matava o porco lá pelo Natal; um caldo de água quente, pencas e pão de milho esfarelado para aconchegar o estômago; batatas com batatas, quando as havia… Mas um homem habitua-se a tudo... Fome, fome, não. Digamos que passei necessidades...

E no Porto, na sua Campanhã, ainda popular e operária, faria entretanto a sua "universidade da vida": marçano, barbeiro, trolha, futebolista, empregado de café, chulo de puta fina – “azeiteiro, como se diz na minha terra”… até descobrir o duro caminho que o levaria aos portões da fábrica.

- Cães grandes ? Aprendi a tirar-lhes o chapéu e a cuspir-lhes na sombra desde o dia em que, descalço, mas já com pêlo na venta, acompanhava o velho pai na visita anual à Casa do Fidalgo, pelo São Miguel, para acertar a renda: dois terços do vinho, metade do milho, a melhor fruta para a senhora, a viúva de um juiz salazarista que tinha mais quintas na zona do que dedos na mão…

Falava do seu velho pai, com ternura contida e com o respeito comovido que lhe mereciam os mortos de que a História não fala. Tinha falecido em Fevereiro de 1969, nas vésperas da ordem da sua mobilização para a Guiné.

- As alegrias passam, meu furriel. Só as desgraças e as injustiças nunca se perdoam e nem se esquecem. As tainadas, as bezanas, tudo isso a gente caga e mija... Veja o meu falecido pai. Trabalhou uma vida inteira como uma besta de carga para morrer pobre como Job, sem um cantinho a que chamasse seu, como qualquer cabaneiro. Sem saber uma letra. Sem nunca ter ido sequer à Foz a ver o mar… Conheceu muitos fidalgos, como ele chamava aos senhorios ou patrões… Sempre o conheci de chapéu na mão, agradecendo a suas senhorias o grandessíssimo favor de continuar na terra por mais um ano, depois do São Miguel… Viveu uma vida emprestada, viveu por favor... É isso que me revolta, carago. E é por isso que me chamam reguila… Mas eu digo-lhe: há coisas que um homem nunca esquece por muitos tombos que dê na puta da vida, por muitas bezanas que apanhe ou por muitas sacanices que faça… E eu já fiz muita merda, nesta meia dúzia de anos em que me tornei homem.

Curiosamente, verificava ali no Trindade, dez anos depois de "tudo ter acabado em bem", como dizia o safado do Pimentel, que nenhum de nós se desculpava por feito aquela guerra e muito menos de a ter perdido. Para alguns de nós, por ventura para a maior parte de nós, tugas, agora despidos, desfardados, paisanos, passados à peluda, nus de corpo e alma como no dia em que fomos à inspecção, alcunhados de ex-combatentes do ultramar, últimos guerreiros do império colonial português, mal amados - "mas vivinhos da costa como o carapau, graças a Deus!" (era a voz efeminada do Peniche, o básico, que sempre acabara por ir parar à vida artística da noite) - , tinha sido afinal a primeira e a última grande aventura das nossas vidas cinzentas, um rito de passagem, uma iniciação (entre dolorosa e divertida) à vida adulta. Uma espécie de acidente de percurso. Um pesadelo climatizado. Uma trovoada fantasmagórica numa bela noite de verão tropical. Um abcesso. Um furúnculo. Uma dor de dentes...
- Um parto, meu furriel, um parto! - arrematava o Peniche, no meio da galhofa geral.

Talvez, eu, ingénuo, esperasse ouvir a confissão pública de alguém que, agora, à distância dos acontecimentos e na atmosfera distendida do Trindade, quisesse tomar partido e se levantasse para fazer um discurso puro e duro sobre a traição dos capitães de Abril, do Spínola, do Caetano e de todos os gajos que andaram a gozar connosco. Ou então sobre o trágico equívoco que fora a guerra colonial, ceifando vidas, gastando cabedais, hipotecando o futuro. Mas não, nenhum dos presentes levantara a caneca para gritar Viva ou Morra !...

É que todos fazíamos o jogo da cumplicidade, jogo cujas regras tacitamente ninguém estava disposto a violar. Porque o momento era único, era mágico, e todos sabíamos que nunca mais voltaria a repetir-se, apesar das trocas de cartões e de fotos da família e das promessas de, para o ano, irmos comer uma valente feijoada à transmontana e provar a famosa posta mirandesa, para lá do Marão "onde mandam os que lá estão" (assegurava o Pimentel, "agora autarca do poder local democrático").

- Nunca lá pus os butes, e bibo no Porto, carago! - ironizou o Campanhã que continuava, a miúde, a trocar os vês pelos bês, sentindo que ainda lhe achavam alguma graça, os gajos do sul.

No fundo, sabíamos que, na vida, há momentos irrepetíveis, pelo que nem os fantasmas, dolorosos, do passado, nem as paixões, ainda mornas, do presente, nem muito menos as inquietações, imperceptíveis, do futuro deveriam perturbar este insólito e fugaz encontro de meia dúzia de ex-combatentes da Guiné, mesmo quando, já no fim do jantar e depois de uma nova rodada de uísques (de uma Old Parr de 1970 que o vago-mestre trouxera de lembrança, "from Sctoland to the Portuguese Armed Forces"), alguém tivera o mau gosto (ou o azar) de evocar os mortos da companhia...
- Agora é que foderam tudo! – arrematou o Campanhã.

Nunca conheci nenhuma alma tão sensível como a dele. Ou melhor: nenhum actor, com lágrima tão fácil como a dele...

Fonte: (Pre)texto: “Na Guiné, longe do Vietname” (inédito). © Luís Graça (1981-2005)(2)


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Notas de L.G.

(1) Vd. post de 24 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXX: A cerimónia de despedida no Campo Militar de Santa Margarida

(2) Nenhum destes heróis foi condecorado, muito menos o Campanhã (que antes de ir parar à Guiné levou uma porrada, sendo despromovido do posto de cabo atirador de infantaria). Felizmente que nenhum deles foi condecorado no 10 de Junho, a título póstumo. Também nenhum destes heróis existiu. Nem poderiam existir: afinal, perdemos a guerra. Em todo o caso, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Guiné 63/74 - XCLXXXVII: Luís Moreira, Alf. Mil. Sapador, CCS/ BART 2917


© Luís Moreira (2005)



1. Mensagem enviada pelo Luís Moreira ao David Guimarães, com data de 11 de Setembro de 2005:

Caro camarada ex-combatente:

Pela mão do Belmiro Vaqueiro, que conheço há muitos anos mas que só há pouco tempo soube que também ele esteve na Guiné nos mesmos locais que percorremos, tive acesso ao site do Luís Graça e a felicidade de rever fotos de locais que muito me dizem e de alguns camaradas do meu Batalhão, no qual te incluis assim como o Padre Poim, o Quaresma, o Cap. Espinha de Almeida, o Alf. Soares e outros a quem a memória já não me ajuda a recordar.

Estive em Bambadinca na CCS [do BART 2917] e sou o ex-alferes sapador Luís Moreira que fui ao ar com uma mina anti-carro no reordenamento dos Nhabijões (espero não estar a errar no nome).

Na sequência desse acidente passei aos serviços auxiliares e fui colocado no Batalhão de Engenharia, em Bissau, até ao fim da minha comissão que terminou já depois de vocês terem regressado e que fez com que eu hoje faça parte do grupo dos DFA [Deficientes das Forças Armadas].

Infelizmente não me recordo do nome da maioria dos camaradas com quem convivi, talvez devido ao traumatismo craneano que sofri na sequência do acidente. No entanto gostaria de recordar e contactar com o maior número de camaradas para tentar reconstituir esse período de quase um ano que passei em Bambadinca.

Tenho algumas fotos que vou retirar da "arca" onde têm estado depositadas todos estes anos, e que depois enviarei. Ainda recordo o nome dos alferes Machado e Guerreiro, da CCS, e tenho bem presente a figura do alferes mecânico, mas já não lhe recordo o nome. Outra figura ímpar que recordo com saudade é a do alferes Vacas de Carvalho, das Daimler, e da sua viola que nos animava os serões.

Fico a aguardar notícias e possíveis contactos.

Um abraço, Luís Moreira.


2. Mensagem do David Guimarães, com data de ontem:


Olá, Luís Moreira. Se pelo nome já não me lembrava de ti, já o facto de seres o Alferes Sapador da CCS do BART 2917 da CCC me diz muito mais. Efectivamente o tempo passa e os nomes também. Hoje resta-nos a imagem que tínhamos na altura : eramos uns miúdios, todos muito novinhos....

Eu estive na CART 2716 do Xitole, comandada pelo Cap Mil Espinha de Almeida... Os Alferes eram o Soares, o Correia, o Sampaio e o Coutinho que foi substituir o Ferreirinha (que se tinha ferido na instrução ainda na Pesada 2, isso te lembrarás possivelmente). Se do Coutinho não tiveres a imagem, é natural que tenhas a do Ferreirinha que foi desmobilizado do nosso Batalhão (mais tarde parece que foi num BART para Moçambique)...

Guiné > Zona Leste > Xitole > CART 2716 >1970: Da esquerda para a direita: O Cap Mil Espinha de Almeida, o Fur Mil Guimarães e o Alf Mil Soares.

© David J. Guimarães (2005).

Os Furriéis desta CART 2716 eram o Rei, o Augusto, o Quaresma, o Leones, o Santos, o Martins, o Ribeiro, o Ferreira e eu, o Guimarães, todos natiradores. Depois havia ainda o Meirinho, o enfermeiro; o Cabete, o mecânico; o Marques, Vago-Mestre e o Henriques, de armas pesadas. Estes eram os quadros da CART 2716...

No nossa página sobre o Xitole podes ver a minha figura de então - eu também era daqueles que tinha numa mão a espingarda e noutra mão a Viola... Avivarás a memória... Creio que um dia foste tu que me levaste ao [Major] Anjos de Carvalho para me apresentar: estavas de oficial de dia.

Já da malta da CCS, de Bambadinca, o tempo me fez esquecer os nomes. Mas, como Alferes Sapador, deves lembrar-te do Furriel Rebelo, também sapador, do Vinagre, o mecânico... O Machado é daqui de Riba D'Ave. Digo daqui, do Norte e perto relativamente de onde vivo (eu moro em Espinho). Guerreiro, só hoje mo lembraste... Do Vacas de Carvalho, sim, com a sua viola, e que o Machado também acompanhava...

Claro que a CCS enquadrava o Comando: Tenente Coronel Magalhães Filipe , que foi substituído pelo Tenente Coronel Polidoro Monteiro (cuja figura já aqui evoquei, neste blogue); Major Anjos de Carvalho, 2º Comandante; Major Barros e Bastos, major de operações; e o Cap Passos Marques, comandante de Companhia. Depois vocês todos...

No Xime [CART 2715], e de nome, lembro-me do [Furriel] Cunha (morto em combate) [vd. post de 25 de Abril de 2005 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970) ], do Furriel Carias, do Baptista ... Outros nomes já não me ocorrem. Lembro-me do Alferes Torres, esse de Mansambo. Enfim, a memória esvai-se porque já lá passa muito tempo...
Quero contudo apresentar-te ao ex-Furriel Henriques, da CCAÇ 12, e que tem um blogue importante onde estamos a colocar a nossa guerra toda. Creio que ele esteve envolvido nesse acidente de que tu saíste muito maltratado...

Mando este mail com conhecimento a ele e vamos continuar a nossa guerra, reconstituindo as nossas memórias, o que só nos fará bem...

Um abraço, Guimarães (ex-Furr Mil da CART 2717, a companhia do Capitão Espinha de Almeida).

Luís Graça: mando-te aí um alferes que conheceste pela certa - um abraço, David Guimarães.

3. O meu comentário:

Amigos & camaradas de tertúlia:

Façam o favor de se acomodar e arranjar espaço, na nossa camarata, para mais um camarada da Guiné. Ele chegou aqui por mão do Belmiro Vaqueiro e do David Guimarães. Era alferes sapador da CCS do BART 2917 (1970/72), sedeado em Bambadinca.

E, espantosamente, é o mesmo que foi vítima do rebentamento da mina a/c, accionada às 11.25h, do dia 13 de Janeiro de 1971, pela viatura Unimog 411, conduzido pelo nosso (da CCAÇ 12) soldado Soares que ia buscar, a Bambadinca, a 2ª refeição, para o pessoal destacado no reordenamento de Nhabijões…

O Soares teve morte imediata, tendo ficado gravemente feridos um oficial (o Luís Moreira) e um soldado da CCS/BART 2917, mais o nosso (desta tertúlia) Jaquim Fernandes, furriel miliciano da CCAÇ 12...

Eu, pessoalmente, nunca mais esqueci essa data fatídica de 13 de Janeiro de 1971... Porque logo a seguir fui eu, mais o Furriel Mil. Marques e o nosso grupo de combate, em socorro das vítimas, que fomos cair noutra mina anticarro, no mesmo sítio, à entrada do reordenamento de Nahbijões...

É claro que a malta da CCAÇ 12 se lembra dele, Luís Moreira: estou a referir-me ao Tony Levezinho, ao Joaquim Fernandes e ao Humberto Reis, além do blogador, que fazem parte desta tertúlia…

Por sua vez, o Luís Moreira lembra-se de amigos comuns, que conviviam com a malta da CCAÇ 12 (a velhice de Bambadinca, partir de meados de 1970, com a rendição do BCAÇ 2852 pelo BART 2917), tais como o Alferes Machado (de Riba D’Ave) ou o Alferes Vacas de Carvalho... Lembra-se do Furriel Cunha, do Xime, que morreu na operação em que participámos (Op Abencerragem Candente, em 26 de Novembro de 1970)...

Em suma, o Luís Moreira está em casa e é bem vindo. Entra, camarada. Temos muito que conversar.

Luís Graça (ex-furriel miliciano Henrqiues, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).


PS – Luís Moreira: Aqui vai o endereço de e-mail do Joaquim Fernandes que ia contigo no Unimog e que hoje mora no Barreiro (haveremos de voltar a esta trágica estória de Nhabijões). Se assim o entenderes, manda-nos uma foito tua, antiga e actual, que é para gente te pôr na fotogaleria.

Guiné 63/74 - XCLXXXVII: Luís Moreira, Alf. Mil. Sapador, CCS/ BART 2917


© Luís Moreira (2005)



1. Mensagem enviada pelo Luís Moreira ao David Guimarães, com data de 11 de Setembro de 2005:

Caro camarada ex-combatente:

Pela mão do Belmiro Vaqueiro, que conheço há muitos anos mas que só há pouco tempo soube que também ele esteve na Guiné nos mesmos locais que percorremos, tive acesso ao site do Luís Graça e a felicidade de rever fotos de locais que muito me dizem e de alguns camaradas do meu Batalhão, no qual te incluis assim como o Padre Poim, o Quaresma, o Cap. Espinha de Almeida, o Alf. Soares e outros a quem a memória já não me ajuda a recordar.

Estive em Bambadinca na CCS [do BART 2917] e sou o ex-alferes sapador Luís Moreira que fui ao ar com uma mina anti-carro no reordenamento dos Nhabijões (espero não estar a errar no nome).

Na sequência desse acidente passei aos serviços auxiliares e fui colocado no Batalhão de Engenharia, em Bissau, até ao fim da minha comissão que terminou já depois de vocês terem regressado e que fez com que eu hoje faça parte do grupo dos DFA [Deficientes das Forças Armadas].

Infelizmente não me recordo do nome da maioria dos camaradas com quem convivi, talvez devido ao traumatismo craneano que sofri na sequência do acidente. No entanto gostaria de recordar e contactar com o maior número de camaradas para tentar reconstituir esse período de quase um ano que passei em Bambadinca.

Tenho algumas fotos que vou retirar da "arca" onde têm estado depositadas todos estes anos, e que depois enviarei. Ainda recordo o nome dos alferes Machado e Guerreiro, da CCS, e tenho bem presente a figura do alferes mecânico, mas já não lhe recordo o nome. Outra figura ímpar que recordo com saudade é a do alferes Vacas de Carvalho, das Daimler, e da sua viola que nos animava os serões.

Fico a aguardar notícias e possíveis contactos.

Um abraço, Luís Moreira.


2. Mensagem do David Guimarães, com data de ontem:


Olá, Luís Moreira. Se pelo nome já não me lembrava de ti, já o facto de seres o Alferes Sapador da CCS do BART 2917 da CCC me diz muito mais. Efectivamente o tempo passa e os nomes também. Hoje resta-nos a imagem que tínhamos na altura : eramos uns miúdios, todos muito novinhos....

Eu estive na CART 2716 do Xitole, comandada pelo Cap Mil Espinha de Almeida... Os Alferes eram o Soares, o Correia, o Sampaio e o Coutinho que foi substituir o Ferreirinha (que se tinha ferido na instrução ainda na Pesada 2, isso te lembrarás possivelmente). Se do Coutinho não tiveres a imagem, é natural que tenhas a do Ferreirinha que foi desmobilizado do nosso Batalhão (mais tarde parece que foi num BART para Moçambique)...

Guiné > Zona Leste > Xitole > CART 2716 >1970: Da esquerda para a direita: O Cap Mil Espinha de Almeida, o Fur Mil Guimarães e o Alf Mil Soares.

© David J. Guimarães (2005).

Os Furriéis desta CART 2716 eram o Rei, o Augusto, o Quaresma, o Leones, o Santos, o Martins, o Ribeiro, o Ferreira e eu, o Guimarães, todos natiradores. Depois havia ainda o Meirinho, o enfermeiro; o Cabete, o mecânico; o Marques, Vago-Mestre e o Henriques, de armas pesadas. Estes eram os quadros da CART 2716...

No nossa página sobre o Xitole podes ver a minha figura de então - eu também era daqueles que tinha numa mão a espingarda e noutra mão a Viola... Avivarás a memória... Creio que um dia foste tu que me levaste ao [Major] Anjos de Carvalho para me apresentar: estavas de oficial de dia.

Já da malta da CCS, de Bambadinca, o tempo me fez esquecer os nomes. Mas, como Alferes Sapador, deves lembrar-te do Furriel Rebelo, também sapador, do Vinagre, o mecânico... O Machado é daqui de Riba D'Ave. Digo daqui, do Norte e perto relativamente de onde vivo (eu moro em Espinho). Guerreiro, só hoje mo lembraste... Do Vacas de Carvalho, sim, com a sua viola, e que o Machado também acompanhava...

Claro que a CCS enquadrava o Comando: Tenente Coronel Magalhães Filipe , que foi substituído pelo Tenente Coronel Polidoro Monteiro (cuja figura já aqui evoquei, neste blogue); Major Anjos de Carvalho, 2º Comandante; Major Barros e Bastos, major de operações; e o Cap Passos Marques, comandante de Companhia. Depois vocês todos...

No Xime [CART 2715], e de nome, lembro-me do [Furriel] Cunha (morto em combate) [vd. post de 25 de Abril de 2005 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970) ], do Furriel Carias, do Baptista ... Outros nomes já não me ocorrem. Lembro-me do Alferes Torres, esse de Mansambo. Enfim, a memória esvai-se porque já lá passa muito tempo...
Quero contudo apresentar-te ao ex-Furriel Henriques, da CCAÇ 12, e que tem um blogue importante onde estamos a colocar a nossa guerra toda. Creio que ele esteve envolvido nesse acidente de que tu saíste muito maltratado...

Mando este mail com conhecimento a ele e vamos continuar a nossa guerra, reconstituindo as nossas memórias, o que só nos fará bem...

Um abraço, Guimarães (ex-Furr Mil da CART 2717, a companhia do Capitão Espinha de Almeida).

Luís Graça: mando-te aí um alferes que conheceste pela certa - um abraço, David Guimarães.

3. O meu comentário:

Amigos & camaradas de tertúlia:

Façam o favor de se acomodar e arranjar espaço, na nossa camarata, para mais um camarada da Guiné. Ele chegou aqui por mão do Belmiro Vaqueiro e do David Guimarães. Era alferes sapador da CCS do BART 2917 (1970/72), sedeado em Bambadinca.

E, espantosamente, é o mesmo que foi vítima do rebentamento da mina a/c, accionada às 11.25h, do dia 13 de Janeiro de 1971, pela viatura Unimog 411, conduzido pelo nosso (da CCAÇ 12) soldado Soares que ia buscar, a Bambadinca, a 2ª refeição, para o pessoal destacado no reordenamento de Nhabijões…

O Soares teve morte imediata, tendo ficado gravemente feridos um oficial (o Luís Moreira) e um soldado da CCS/BART 2917, mais o nosso (desta tertúlia) Jaquim Fernandes, furriel miliciano da CCAÇ 12...

Eu, pessoalmente, nunca mais esqueci essa data fatídica de 13 de Janeiro de 1971... Porque logo a seguir fui eu, mais o Furriel Mil. Marques e o nosso grupo de combate, em socorro das vítimas, que fomos cair noutra mina anticarro, no mesmo sítio, à entrada do reordenamento de Nahbijões...

É claro que a malta da CCAÇ 12 se lembra dele, Luís Moreira: estou a referir-me ao Tony Levezinho, ao Joaquim Fernandes e ao Humberto Reis, além do blogador, que fazem parte desta tertúlia…

Por sua vez, o Luís Moreira lembra-se de amigos comuns, que conviviam com a malta da CCAÇ 12 (a velhice de Bambadinca, partir de meados de 1970, com a rendição do BCAÇ 2852 pelo BART 2917), tais como o Alferes Machado (de Riba D’Ave) ou o Alferes Vacas de Carvalho... Lembra-se do Furriel Cunha, do Xime, que morreu na operação em que participámos (Op Abencerragem Candente, em 26 de Novembro de 1970)...

Em suma, o Luís Moreira está em casa e é bem vindo. Entra, camarada. Temos muito que conversar.

Luís Graça (ex-furriel miliciano Henrqiues, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).


PS – Luís Moreira: Aqui vai o endereço de e-mail do Joaquim Fernandes que ia contigo no Unimog e que hoje mora no Barreiro (haveremos de voltar a esta trágica estória de Nhabijões). Se assim o entenderes, manda-nos uma foito tua, antiga e actual, que é para gente te pôr na fotogaleria.

12 setembro 2005

Guiné 63/74 - CLXXXVI: No "reino do Nino": Catió, Cacine, Gadamael, Guileje (1970)


Brazão actual de Catió, vila da Guiné-Bissau
Fonte: International Civic Heraldry (por sugetsão do nosso tertuliano Jorge Santos)



Texto de João Tunes (que, em 1970, era alferes miliciano de transmissões na CCS do Batalhão sedeado em Catió):

O Afonso Sousa, a quem agradeço a saudação de amizade (com o exagero do tamanho da efusão de um abraço camarada) pergunta-me sobre a localização de Ganjola (onde terá estado o José António, soldado da Lourinhã e justamente evocado) e enumera uma data de nomes de tabancas da zona Sul.

Ora, em 1970, quando estive em Catió (e esse Batalhão comandava todas as unidades no Sul até à fronteira da Guiné-Conacry) todos os pontos assinalados (que evoco por mera ressonância de memória) estavam no mapa das NT assinalados como pontos a bombardear (por aviação e artilharia) ou para sofrerem golpes de mão de forças especiais.

Porque tudo isso estava sob absoluto controlo militar e populacional do "Reino do Nino" (Frente Sul do PAIGC, comandada por Nino Vieira). As nossas únicas posições, e com dispositivos meramente defensivos e de apoio a operações especiais, já só eram: Catió (comando do Batalhão), Cacine, Gadamael e Guileje.

Por natureza das minhas funções militares eu, pelo menos uma vez por mês, tinha de dar a volta a todos os Quartéis do Sul e o único meio de comunicação entre qualquer combinação de dois quartéis era apenas por via aérea. Ou seja, os quartéis enumerados eram ilhas NT (únicas) no meio de território libertado pelo PAIGC. E todas as unidades resistiam numa postura defensiva e de sobrevivência (todos os quartéis eram sistematicamente flagelados pela artilharia do PAIGC) e a capacidade operacional (mais evidente em Gadamael em que se dispunha de uma unidade de blindados ligeiros que permitiam um certo raio de acção) era garantir a sobrevivência da presença militar e as populações sob controle, funcionando ainda como ponto de apoio e retaguarda de operações de golpes de mão e emboscada a realizar por paras, fuzas e comandos.

Os dramas em 1973 de Guileje e Gadamael foram como que a prova do "algodão" (não enganaram - faltando o apoio aéreo, toda a zona passou a ser de defesa e sobrevivência impossíveis, sobrando a opção racional da debandada ou a irracional do martírio). Assim, o quartel (destacamento) a que se refere o José António na sua carta ao "Alvorada" de 1965 (Ganjolá, confirmando-se que era cerca de Catió) (1), a que se seguiu a sua morte, terá sido depois ocupado pelo PAIGC (desculpem lá, NT ainda consigo usar mas essa do IN é que não me passa pelo estreito) e portanto constava já no meu tempo (1970) não de território com bandeira portuguesa hasteada mas sim do "Reino do Nino".

Abraços do João Tunes

___________

Nota de L.G.:

(1) O nosso post de 8 de Setembro de 2005 (Guiné 63/74 - CLXXXI: Antologia (18): Um domingo no mato, em Ganjolá ) foi gentilmente reproduzido no sítio do João Tunes - Água Lisa (3) -, em post de 9 de Setembro de 2005, com o seguinte comentário que ajuda a contextualizar e a compreender o conteúdo da carta, escrita pelo soldado Nogueira, destacado (e provavelmente morto) em Ganjolá (1965):

"Esta carta tem quarenta anos. Foi uma das últimas enviadas pelo Soldado nº 2955/63 antes de se encontrar com a morte na terra da Guiné-Bissau. Foi publicada no quinzenário regionalista Alvorada da Lourinhã. Reveladora da forma muito própria como os soldados do exército colonial português, de uma forma geral, sentiam a atmosfera da guerra e procuravam conservar o optimismo e a auto-estima. Embora se notem os cuidados sublimados na sua redacção por ser uma carta dirigida a um jornal da época, portanto sabendo que existiam os crivos da polícia e da censura, e referindo-se a um teatro de guerra que só se agravou dramaticamente mais tarde, a candura épica do povo fardado está ali entranhada e que é um dos muitos factores que ajudam a explicar como foi possível que, no fascismo-colonialismo português e durante treze anos, centenas de milhares de cidadãos portugueses aceitassem lutar e morrer, procurando matar e sobreviver, para prolongar o pesadelo da quimera de uma demência imperial.

"Texto e imagem obtidos no blogue do Luís Graça".

Guiné 63/74 - CLXXXVI: No "reino do Nino": Catió, Cacine, Gadamael, Guileje (1970)


Brazão actual de Catió, vila da Guiné-Bissau
Fonte: International Civic Heraldry (por sugetsão do nosso tertuliano Jorge Santos)



Texto de João Tunes (que, em 1970, era alferes miliciano de transmissões na CCS do Batalhão sedeado em Catió):

O Afonso Sousa, a quem agradeço a saudação de amizade (com o exagero do tamanho da efusão de um abraço camarada) pergunta-me sobre a localização de Ganjola (onde terá estado o José António, soldado da Lourinhã e justamente evocado) e enumera uma data de nomes de tabancas da zona Sul.

Ora, em 1970, quando estive em Catió (e esse Batalhão comandava todas as unidades no Sul até à fronteira da Guiné-Conacry) todos os pontos assinalados (que evoco por mera ressonância de memória) estavam no mapa das NT assinalados como pontos a bombardear (por aviação e artilharia) ou para sofrerem golpes de mão de forças especiais.

Porque tudo isso estava sob absoluto controlo militar e populacional do "Reino do Nino" (Frente Sul do PAIGC, comandada por Nino Vieira). As nossas únicas posições, e com dispositivos meramente defensivos e de apoio a operações especiais, já só eram: Catió (comando do Batalhão), Cacine, Gadamael e Guileje.

Por natureza das minhas funções militares eu, pelo menos uma vez por mês, tinha de dar a volta a todos os Quartéis do Sul e o único meio de comunicação entre qualquer combinação de dois quartéis era apenas por via aérea. Ou seja, os quartéis enumerados eram ilhas NT (únicas) no meio de território libertado pelo PAIGC. E todas as unidades resistiam numa postura defensiva e de sobrevivência (todos os quartéis eram sistematicamente flagelados pela artilharia do PAIGC) e a capacidade operacional (mais evidente em Gadamael em que se dispunha de uma unidade de blindados ligeiros que permitiam um certo raio de acção) era garantir a sobrevivência da presença militar e as populações sob controle, funcionando ainda como ponto de apoio e retaguarda de operações de golpes de mão e emboscada a realizar por paras, fuzas e comandos.

Os dramas em 1973 de Guileje e Gadamael foram como que a prova do "algodão" (não enganaram - faltando o apoio aéreo, toda a zona passou a ser de defesa e sobrevivência impossíveis, sobrando a opção racional da debandada ou a irracional do martírio). Assim, o quartel (destacamento) a que se refere o José António na sua carta ao "Alvorada" de 1965 (Ganjolá, confirmando-se que era cerca de Catió) (1), a que se seguiu a sua morte, terá sido depois ocupado pelo PAIGC (desculpem lá, NT ainda consigo usar mas essa do IN é que não me passa pelo estreito) e portanto constava já no meu tempo (1970) não de território com bandeira portuguesa hasteada mas sim do "Reino do Nino".

Abraços do João Tunes

___________

Nota de L.G.:

(1) O nosso post de 8 de Setembro de 2005 (Guiné 63/74 - CLXXXI: Antologia (18): Um domingo no mato, em Ganjolá ) foi gentilmente reproduzido no sítio do João Tunes - Água Lisa (3) -, em post de 9 de Setembro de 2005, com o seguinte comentário que ajuda a contextualizar e a compreender o conteúdo da carta, escrita pelo soldado Nogueira, destacado (e provavelmente morto) em Ganjolá (1965):

"Esta carta tem quarenta anos. Foi uma das últimas enviadas pelo Soldado nº 2955/63 antes de se encontrar com a morte na terra da Guiné-Bissau. Foi publicada no quinzenário regionalista Alvorada da Lourinhã. Reveladora da forma muito própria como os soldados do exército colonial português, de uma forma geral, sentiam a atmosfera da guerra e procuravam conservar o optimismo e a auto-estima. Embora se notem os cuidados sublimados na sua redacção por ser uma carta dirigida a um jornal da época, portanto sabendo que existiam os crivos da polícia e da censura, e referindo-se a um teatro de guerra que só se agravou dramaticamente mais tarde, a candura épica do povo fardado está ali entranhada e que é um dos muitos factores que ajudam a explicar como foi possível que, no fascismo-colonialismo português e durante treze anos, centenas de milhares de cidadãos portugueses aceitassem lutar e morrer, procurando matar e sobreviver, para prolongar o pesadelo da quimera de uma demência imperial.

"Texto e imagem obtidos no blogue do Luís Graça".

Guiné 63/74 - CLXXXV: Alpoím Galvão e Amílcar Cabral

Texto do A. Marques Lopes:

Caros amigos:

Estou completamente de acordo que o principal é contarmos as nossas experiências pessoais. Isso é um contributo importante e fundamental para conhecermos a totalidade do que foi a nossa experiência colectiva durante a guerra colonial, nomeadamente na Guiné. A visão que cada um de nós teve foi a do real e do concreto, experimentada no terreno. Na altura, foi aquilo que vivemos, foi aquilo que vimos, foi os sentimentos que experimetámos com o que nos tocou directamente.

Para alguns certamente, mas para a generalidade não houve tempo para reflectir, era o imediato que exigia acção, não reflexão sobre as razões da acção. Daí que eu pense que, decorridos tantos anos, a reflexão já feita, a que tivemos tempo e condições para fazer, nos possa dar já uma outra visão, não subordinada ao ter que disparar para não morrer, ao ter que matar para poder viver.

É pois natural que, perante certas opiniões e experiências, possamos já dar outras opiniões fundamentadas no nosso sentimento íntimo, construído na realidade vivida, naquilo que soubemos e viemos a saber depois. O esclarecimento depende desta troca de opiniões.

Permitam-me, então, que faça algumas considerações sobtre a entrevista de Alpoim Calvão de que só agora tomei conhecimento e que está, em minha opinião e usando a bela expressão do novo membro da nossa tertúlia (de acordo com a entrada dele!), pintada e filtrada de um só côr.

Não sei onde é que Alpoim Calvão foi buscar o "Congresso do PAIGC de 1969, em Conakry". É que, são dados históricos, o PAIGC realizou dois congressos antes da independência da Guiné: o primeiro realizou-se, de 13 a 17 de Fevereiro de 1964, em Cassacá, a cerca de 3km a SW de Catió, durante a chamada Batalha de Como, liderada por Nino Vieira; o segundo realiza-se a 18 de Julho de 1973 em Madina do Boé, seis meses depois do assassinato de Amilcar Cabral e dois meses antes da declaração unilateral da independência. Como pode ele ter documentos de um congresso que não existiu?... Estranho, pelo menos e com boa vontade.

Sobre quem o mandou matar, já o próprio Amilcar Cabral tinha adivinhado quem seria, num documento que distribuíu aos quadros do PAIGC em Março de 1972 (in "Guiné-Bissau - Nação Africana Forjada na Luta", de Amilcar Cabral, editado por Maria Natália Teixeira Lopes, em Lisboa, 1974, pp 123-125):

"O objectivo principal do inimigo é destruir o nosso Partido, porque em África e em todo o mundo o seu prestígio e o prestígio dos seus principais dirigentes estão no auge.

"Ele está convencido de que a prisão ou a morte do principal dirigente significaria o fim do Partido e da nossa luta.

"Por isso mesmo, o objectivo real dos portugueses na sua tentativa de invasão da República da Guiné (Conakry), em 22 de Novembro de 1970, era o assassinato do secretário geral do Partido e a destruição da base na retaguarda da revolução constituída pelo regime de Sékou Touré.

"Numa palavra, destruir o Partido agindo no seu interior.

"O plano inimigo far-se-á em três fases:

"Primeira fase:

"Actualmente, muitos compatriotas abandonam Bissau e outros centros urbanos para se juntarem às nossas fileiras. Nesta ocasião, o general Spínola espera poder introduzir agentes (antigos ou novos membros do Partido) nas nossas fileiras.

"A sua tarefa: estudar as fraquezas do nosso Partido e tentar provocações apoiando-se no racismo, no tribalismo, opondo os muçulmanos aos não-muçulmanos, etc.

"Segunda fase:

"1. Criar uma rede clandestina (penetrando, por exemplo, no Partido e nas forças armadas);

"2. Criar uma direcção paralela, se possível com um ou dois agentes e alguns dirigentes actuais do Partido (de entre os descontentes);

"3. Desacreditar o secretário geral, para preparar a sua eliminação no quadro do Partido ou, se a necessidade o impuser, pela sua liquidação física;

"4. Preparar a nova direcção clandestina para fazer dela o verdadeiro organismo dirigente do P. A. I. G. C.;

"5. Paralelamente, lançar uma grande ofensiva para aterrorizar as populações dos territórios libertados.

"Terceira fase:

"a. No caso de falhar a segunda fase, tentar um golpe contra a direcção do Partido, fazendo assassinar o seu secretário geral;

"b. Formar uma nova direcção baseada no racismo e opondo guineenses e caboverdianos, utilizando o tribalismo e a religião (muçulmanos contra não-muçulmanos).

"c. Impedir a luta no interior do país, liquidar os que permanecem fiéis à linha do Partido;

"d. Entrar em contacto com o governo português. Falsa negociação, autonomia interna, criação de um govemo-fantoche na Guiné-Bissau que seria designada Estado da Guiné e faria parte da comunidade portuguesa;

"e. Postos importantes estão prometidos pelo general Spínola a todos os que executaram o plano.

"Conclusão — Devemos reforçar a nossa vigilância para desmascarar e eliminar os agentes do inimigo, para defender o Partido e encorajar a luta armada Assim poderemos frustrar todos os planos criminosos dos colonialistas portugueses.

"O inimigo tentou corromper os nossos homens, mas a esmagadora maioria dos responsáveis contactados não aceitou vender-se, comportaram-se como dignos militantes do nosso Partido e contribuíram mesmo para castigar severamente os portugueses que tentavam comprá-los, como foi o caso dos quatro oficiais, próximos colaboradores de Spínola, liquidados no norte do país.» [os negritos são meus, M.L.]

Alpoim Calvão sabe muito bem que, na luta "anti-subversiva" ou "contra-revolucionária", há um objectivo importante que pode ser decisivo na evolução dessa luta: a eliminação ou aniquilamento da cabeça pensante da subversão e da revolução, do elemento congregador das vontades nesse objectivo.

Para não ir mais longe, em Portugal prenderam os comunistas e outros subversivos, tentando evitar o inevitável: o progresso da história e do sentimento de liberdade dos povos. Desde muito, pelo menos desde 1967, a organização policial portuguesa PIDE/DGS procurava matar Cabral. Alguns guerrilheiros prisioneiros foram manobrados para colaborarem com a polícia política. Ficou provado em relação a alguns dos intervenientes no atentado. Tudo leva a crer que, em medida ainda desconhecida, a PIDE não foi alheia a toda a trama. Já o conseguira com Edward Mondlane.

Na obra atrás citada vem também a intervenção feita por Amilcar Cabral perante a IV Comissão da Assembleia Geral das Nações Unidas (XXVII Sessão) em Outubro de 1972:

«Sr. Presidente, submetemos à apreciação da O. N. U., por intermédio desta Comissão, as seguintes propostas, baseadas na realidade concreta da vida do nosso povo e em tudo o que dissemos:

"1. Diligências junto do governo português a fim de que sejam imediatamente abertas negociações entre os representantes desse governo e o nosso Partido. Propomos que essas negociações tenham como base de trabalho a pesquisa das vias e dos meios mais adequados e mais eficazes para o acesso imediato do nosso povo à independência. No caso de o governo de Portugal responder favoravelmente a tal diligência, poderíamos encarar, ao mesmo tempo, como tomar em consideração os interesses de Portugal no nosso país.

"2. Aceitação dos delegados do nosso Partido, com a capacidade de membros associados ou de observadores, em todos os organismos especializados da O. N. U., como únicos e legítimos representantes do nosso povo, como acontece já em relação à Comissão Económica para a África (C. E. A.)

"3. Desenvolvimento de um auxílio concreto desses organismos especializados, especialmente da U.N.E.S.C.O., da U.N.I.C.E.F., da O.M.S. e da F.A.O., ao nosso povo, no quadro da reconstrução nacional do nosso país.

"4. Apoio da O. N. U., moral e político, a todas as iniciativas que o nosso povo e o nosso Partido decidam empreender para acelerar o fim da guerra colonial portuguesa e a independência da nossa nação africana, para que essa possa em breve ocupar o lugar que lhe é devido por direito no seio da Comunidade Internacional.

"Na perspectiva de estas propostas serem seriamente consideradas, lançamos um veemente apelo a todos os Estados membros da O. N. U., em particular aos aliados de Portugal, aos países da América Latina, e muito especialmente ao Brasil, para que compreendam a nossa posição e dêem o seu apoio às aspirações legítimas do nosso povo africano à liberdade, à independência e ao progresso a que tem direito.»[osnegritos são meus, M.L.]

Em 27 de Outubro de 1971, numa entrevista concedida à revista Anticolonislismo, disse Amilcar Cabral:

«Como sabe, nós temos uma longa caminhada juntamente com o povo de Portugal. Não foi decidido por nós, não foi decidido pelo povo português, foi decidido pelas circunstâncias históricas do tempo da Europa das descobertas e pela classe dirigente portuguesa de antanho, como se diz em português antigo; mas é verdade, é isso! Há essa realidade concreta! Eu estou aqui falando português como qualquer outro português, e infelizmente melhor que centenas de milhares de portugueses que o Estado português tem deixado na ignorância e na miséria.

"Nós marchamos juntos e, além disso, no nosso povo, seja em Cabo Verde, seja na Guiné, existe toda uma ligação de sangue, não só de história mas também de sangue, e fundamentalmente de cultura, com o povo de Portugal. Quando falei há bocado sobre a nossa cultura não tive necessidade de lembrar que essa nossa cultura também está influenciada pela cultura portuguesa e nós estamos prontos a aceitar todo o aspecto positivo da cultura dos outros. Nós, em princípio, o nosso problema não é de nos desligarmos do povo português. Se porventura em Portugal houvesse um regime que estivesse disposto a construir não só o futuro e o bem estar do povo de Portugal mas também o nosso, mas em pé de absoluta igualdade, quer dizer que o Presidente da República pudesse ser tanto de Cabo Verde, da Guiné, como de Portugal, etc., que todas as funções estatais, administrativas, etc., fossem igualmente possíveis para toda a gente, nós não veríamos nenhuma necessidade de estar a fazer a luta pela independência, porque já seríamos independentes num quadro humano muito mais largo e talvezmuito mais eficaz do ponto de vista da história. Mas infelizmente, como sabem, a coisa não é essa: o colonialismo português explorou o nosso povo da maneira mais bárbara e criminosa e quando reclamamos o direito de ser gente, nós mesmos, de sermos homens, parte da humanidade, e de termos a nossa própria personalidade, a resposta é a repressão com a guerra colonial.

"Mas nós nunca confundimos colonialismo português com povo de Portugal e temos feito tudo, na medida das nossas possibilidades, para preservar, apesar dos crimes cometidos pelos colonialistas portugueses, as possibilidades duma cooperação, de amizade, de solidariedade e de colaboração eficaz com o povo de Portugal, numa base de independência, de igualdade de direitos e de reciprocidade de vantagens, seja para o progresso da nossa terra, seja para o progresso do povo português.

"O povo português está submetido há cerca já quase de meio século a um regime que, pelas suas características, não pode deixar de ser chamado fascista.

"A nossa luta é contra o colonialismo português. Nós somos povos africanos, ou um povo africano, lutando contra o colonialismo português, contra a dominação colonial portuguesa, mas não deixamos de ver a ligação que existe entre a luta antifascista e a luta anticolonialista. Nós estamos absolutamente convencidos de que se em Portugal se instalasse amanhã um governo que não fosse fascista, mas fosse democrático, progressista, reconhecedor do direito dos povos à autodeterminação e à independência, a nossa luta não teria razão de ser. Aí está a ligação íntima que pode existir entre a nossa luta e a luta antifascista em Portugal; mas também, vice-versa, estamos absolutamente convencidos de que na medida em que os povos das colónias portuguesas avance com a sua luta e se libertem totalmente da dominação colonial portuguesa estarão contribuindo duma maneira muito eficaz para a liquidação do regime fascista em Portugal. E cremos mesmo que até hoje, embora nenhum dos países esteja completamente independente, o que já fizemos nas nossas terras tem contribuído, e claro que também a ajuda dos próprios fascistas-colonialistas portugueses, a mostrar ao povo português claramente que o caminho da luta é o único caminho que poderá libertá-lo da dominação e da opressão a que está sujeito. Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português; estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo."


E o que dizia o Governo por essas alturas? Já não vou buscar o Salazar, pois o seu pensamento era demasiado claro e evidente em matéria de Ultramar. Quando começaram a soprar os chamados "ventos da História", isto é, quando o Terceiro Mundo começou a tornar-se independente, as colónias passaram a chamar-se "províncias ultramarinas", porque a palavra colónias começou a ter uma carga muito pejorativa. Os grandes impérios abriram mão dos seus domínios políticos, mas não económicos, e deram a independência aos países que até aí dominavam. Mas Salazer continuou a mesma política, continuando na contramão da História, porque julgou que podia vencer pela força, que era a única coisa que não tínhamos. Veio Marcelo e criou os "Estados Ultramarinos", mas seguindo a mesma política. Vamos ao marcelismo ver como é que a sua "abertura" e a revisão constitucional de 1971 encarava os criados "Estados" do Ultramar.


Marcelo Caetano ao jornal L'Aurore, em 7 de Abril de 1971:

«Os terroristas pretendem que ocupam dois terços do nosso território ginéu... (...)Na verdade o tipo de guerra que temos de enfrentar corresponde a uma série de pequenas infiltrações, efectuadas no nosso território por comandos vindos do estrangeiro, armados e treinados pelo estrangeiro. É uma guerra subversiva que nos fazem e nós sabemos como responder... Na Guiné, repito, eles atacam as populações, incendeiam as aldeias e, depois, retiram-se. É a isto, é a estas breves operações, limitadas no espaço e no tempo, que se chama a ocupação de dois terços do território da Guiné."

E, mais à frente, quando lhe perguntaram sobre o alargamento da autonomia às províncias de África:

"Trata-se de desenvolver a autonomia financeira das províncias e, por outro lado, de aumentar os seus poderes legislativos. É assim uma reforma interna que de modo algum atenta contra o conjunto formado pelo Ultramar e pela Metrópole, conjunto que continuará rigorosamnte indivisível."


Marcelo Caetano, numa entrevista à BBC em 12 de Julho de 1973, quando lhe perguntaram se pensava dar a independência aos territórios ultramarinos:

«São perguntas que não podem ser feitas a uma pessoa que não é um autocrata. Eu não tenho a possibilidade de, por mim, dar ou não dar. A independência é uma solução que só os povos podem resolver [curioso!]. Não pode ser dada por um político.»


Marcelo Caetano, citado pelo jornal O Século, de 18 de Março de 1974, disse ao semanário Le Point que «nunca negociará com os adversários de Portugal, aqueles que, pagos por potências estrangeiras, sustentam uma luta de guerrilhas, inútil e cruel».

Rui Patrício ao Jornal do Brasil, de 16 de Março de 1974: «A autonomia dos Estados e das províncias ultramarinas é já extremamente ampla e, na prática, superior à de muitps Estados membros de certas federações... aquela autonomia abrange a faculdade de legislar, através de órgãos próprios sobre todas as matérias de interesse local e de aprovar orçamentos e planos de desenvolvimento próprios de cada território. É isto que corresponde às aspirações dos portugueses de África assim como aos seus desejos de manter a unidade nacional...»

Não me parece, pois, que Amilcar Cabral quizesse a guerra pela guerra, mas quereria, sim, uma solução que o governo de Lisboa não queria. Mas nem esta Salazar queria. Efectivamente, nunca houve vontade de se sentarem à mesa com os movimentos de libertação e discutir uma solução. Tudo tinha de caminhar, pois, no sentido do fim da guerra com a vitória dos contestatários, mais tarde ou mais cedo, de acordo com o curso da História. Nem Salazar nem Caetano tiveram esta percepção que evitaria os milhares de mortos? Acho que tiveram, mas, por interesse político, fingiram que não viram. Foi a forma de se manterem no poder. E era uma guerra votada ao fracasso. A única maneira de termos evitado a derrota seria termos feito um pacto com as populações e com os movimentos de libertação. Mas é claríssimo que nunca houve vontade do regime em dar esse passo.

Racista o Amilcar Cabral, casado com a branca Maria Helena de Athayde Vilhena Rodrigues, sua colega no Instituto de Agronomia com quem viria a ter duas filhas? Não me parece, nem é essa a opinião dos que o conheceram no Instituto de Agronomia, à Ajuda. Por dizer que "dar um tiro num portuga numa emboscada é um acto político de primeira grandeza"? Que andámos nós a fazer senão dar tiros nos turras, alguns a ganhar medalhas e louvores por isso mesmo? Por racismo? Eu dei muitos tiros em emboscadas e nunca foi por racismo. Foi para cumprir a missão que me tinham, mal ou bem, dado e para sobreviver. A acção política deles vingou e a minha não. Eles estariam mais certos da sua razão do que eu (é verdade, sempre tive dúvidas).

É para rir que um militar de carreira possa dizer uma coisa destas. Qual é o papel de quem anda em guerra, de um lado ou do outro, não é disparar e matar o outro? E não tem nada de racismo, evidentemente. Os meus jagudis fizeram emboscadas contra os da sua côr sem racismo nenhum. Foi um acto político, sem consciência política, tenho a certeza. Se Cabral de facto disse isso no tal congresso que não existiu (...) foi para transmitir consciência política aos guerrilheiros do PAIGC, tal como nos quizeram transmitir consciência política para que matássemos os turras quando nos falaram do "património nacional" e da "defesa da civilização ocidental"... Essa do Alpoim Calvão é muito primária. A que chamará ele às imagens que envio (1) ? Precalços de uma "sociedade multirracial" que viu a superioridade dos brancos ameaçada pelos nharros ou contingências de uma guerra sem razão?

Todos os homens têm o direito de defenderem livremente os seus pontos de vista, mas devem fazê-lo de forma honesta e correcta, sem albergar ódios no coração, sem desvirtuar e falsear os fundamentos reais das questões. Não me parece que Alpoim Calvão tenha feito isso nesta entrevista.


A. Marques Lopes


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(1) Imagens que, por enquanto, só circulam dentro da tertúlia. L.G.

Guiné 63/74 - CLXXXV: Alpoím Galvão e Amílcar Cabral

Texto do A. Marques Lopes:

Caros amigos:

Estou completamente de acordo que o principal é contarmos as nossas experiências pessoais. Isso é um contributo importante e fundamental para conhecermos a totalidade do que foi a nossa experiência colectiva durante a guerra colonial, nomeadamente na Guiné. A visão que cada um de nós teve foi a do real e do concreto, experimentada no terreno. Na altura, foi aquilo que vivemos, foi aquilo que vimos, foi os sentimentos que experimetámos com o que nos tocou directamente.

Para alguns certamente, mas para a generalidade não houve tempo para reflectir, era o imediato que exigia acção, não reflexão sobre as razões da acção. Daí que eu pense que, decorridos tantos anos, a reflexão já feita, a que tivemos tempo e condições para fazer, nos possa dar já uma outra visão, não subordinada ao ter que disparar para não morrer, ao ter que matar para poder viver.

É pois natural que, perante certas opiniões e experiências, possamos já dar outras opiniões fundamentadas no nosso sentimento íntimo, construído na realidade vivida, naquilo que soubemos e viemos a saber depois. O esclarecimento depende desta troca de opiniões.

Permitam-me, então, que faça algumas considerações sobtre a entrevista de Alpoim Calvão de que só agora tomei conhecimento e que está, em minha opinião e usando a bela expressão do novo membro da nossa tertúlia (de acordo com a entrada dele!), pintada e filtrada de um só côr.

Não sei onde é que Alpoim Calvão foi buscar o "Congresso do PAIGC de 1969, em Conakry". É que, são dados históricos, o PAIGC realizou dois congressos antes da independência da Guiné: o primeiro realizou-se, de 13 a 17 de Fevereiro de 1964, em Cassacá, a cerca de 3km a SW de Catió, durante a chamada Batalha de Como, liderada por Nino Vieira; o segundo realiza-se a 18 de Julho de 1973 em Madina do Boé, seis meses depois do assassinato de Amilcar Cabral e dois meses antes da declaração unilateral da independência. Como pode ele ter documentos de um congresso que não existiu?... Estranho, pelo menos e com boa vontade.

Sobre quem o mandou matar, já o próprio Amilcar Cabral tinha adivinhado quem seria, num documento que distribuíu aos quadros do PAIGC em Março de 1972 (in "Guiné-Bissau - Nação Africana Forjada na Luta", de Amilcar Cabral, editado por Maria Natália Teixeira Lopes, em Lisboa, 1974, pp 123-125):

"O objectivo principal do inimigo é destruir o nosso Partido, porque em África e em todo o mundo o seu prestígio e o prestígio dos seus principais dirigentes estão no auge.

"Ele está convencido de que a prisão ou a morte do principal dirigente significaria o fim do Partido e da nossa luta.

"Por isso mesmo, o objectivo real dos portugueses na sua tentativa de invasão da República da Guiné (Conakry), em 22 de Novembro de 1970, era o assassinato do secretário geral do Partido e a destruição da base na retaguarda da revolução constituída pelo regime de Sékou Touré.

"Numa palavra, destruir o Partido agindo no seu interior.

"O plano inimigo far-se-á em três fases:

"Primeira fase:

"Actualmente, muitos compatriotas abandonam Bissau e outros centros urbanos para se juntarem às nossas fileiras. Nesta ocasião, o general Spínola espera poder introduzir agentes (antigos ou novos membros do Partido) nas nossas fileiras.

"A sua tarefa: estudar as fraquezas do nosso Partido e tentar provocações apoiando-se no racismo, no tribalismo, opondo os muçulmanos aos não-muçulmanos, etc.

"Segunda fase:

"1. Criar uma rede clandestina (penetrando, por exemplo, no Partido e nas forças armadas);

"2. Criar uma direcção paralela, se possível com um ou dois agentes e alguns dirigentes actuais do Partido (de entre os descontentes);

"3. Desacreditar o secretário geral, para preparar a sua eliminação no quadro do Partido ou, se a necessidade o impuser, pela sua liquidação física;

"4. Preparar a nova direcção clandestina para fazer dela o verdadeiro organismo dirigente do P. A. I. G. C.;

"5. Paralelamente, lançar uma grande ofensiva para aterrorizar as populações dos territórios libertados.

"Terceira fase:

"a. No caso de falhar a segunda fase, tentar um golpe contra a direcção do Partido, fazendo assassinar o seu secretário geral;

"b. Formar uma nova direcção baseada no racismo e opondo guineenses e caboverdianos, utilizando o tribalismo e a religião (muçulmanos contra não-muçulmanos).

"c. Impedir a luta no interior do país, liquidar os que permanecem fiéis à linha do Partido;

"d. Entrar em contacto com o governo português. Falsa negociação, autonomia interna, criação de um govemo-fantoche na Guiné-Bissau que seria designada Estado da Guiné e faria parte da comunidade portuguesa;

"e. Postos importantes estão prometidos pelo general Spínola a todos os que executaram o plano.

"Conclusão — Devemos reforçar a nossa vigilância para desmascarar e eliminar os agentes do inimigo, para defender o Partido e encorajar a luta armada Assim poderemos frustrar todos os planos criminosos dos colonialistas portugueses.

"O inimigo tentou corromper os nossos homens, mas a esmagadora maioria dos responsáveis contactados não aceitou vender-se, comportaram-se como dignos militantes do nosso Partido e contribuíram mesmo para castigar severamente os portugueses que tentavam comprá-los, como foi o caso dos quatro oficiais, próximos colaboradores de Spínola, liquidados no norte do país.» [os negritos são meus, M.L.]

Alpoim Calvão sabe muito bem que, na luta "anti-subversiva" ou "contra-revolucionária", há um objectivo importante que pode ser decisivo na evolução dessa luta: a eliminação ou aniquilamento da cabeça pensante da subversão e da revolução, do elemento congregador das vontades nesse objectivo.

Para não ir mais longe, em Portugal prenderam os comunistas e outros subversivos, tentando evitar o inevitável: o progresso da história e do sentimento de liberdade dos povos. Desde muito, pelo menos desde 1967, a organização policial portuguesa PIDE/DGS procurava matar Cabral. Alguns guerrilheiros prisioneiros foram manobrados para colaborarem com a polícia política. Ficou provado em relação a alguns dos intervenientes no atentado. Tudo leva a crer que, em medida ainda desconhecida, a PIDE não foi alheia a toda a trama. Já o conseguira com Edward Mondlane.

Na obra atrás citada vem também a intervenção feita por Amilcar Cabral perante a IV Comissão da Assembleia Geral das Nações Unidas (XXVII Sessão) em Outubro de 1972:

«Sr. Presidente, submetemos à apreciação da O. N. U., por intermédio desta Comissão, as seguintes propostas, baseadas na realidade concreta da vida do nosso povo e em tudo o que dissemos:

"1. Diligências junto do governo português a fim de que sejam imediatamente abertas negociações entre os representantes desse governo e o nosso Partido. Propomos que essas negociações tenham como base de trabalho a pesquisa das vias e dos meios mais adequados e mais eficazes para o acesso imediato do nosso povo à independência. No caso de o governo de Portugal responder favoravelmente a tal diligência, poderíamos encarar, ao mesmo tempo, como tomar em consideração os interesses de Portugal no nosso país.

"2. Aceitação dos delegados do nosso Partido, com a capacidade de membros associados ou de observadores, em todos os organismos especializados da O. N. U., como únicos e legítimos representantes do nosso povo, como acontece já em relação à Comissão Económica para a África (C. E. A.)

"3. Desenvolvimento de um auxílio concreto desses organismos especializados, especialmente da U.N.E.S.C.O., da U.N.I.C.E.F., da O.M.S. e da F.A.O., ao nosso povo, no quadro da reconstrução nacional do nosso país.

"4. Apoio da O. N. U., moral e político, a todas as iniciativas que o nosso povo e o nosso Partido decidam empreender para acelerar o fim da guerra colonial portuguesa e a independência da nossa nação africana, para que essa possa em breve ocupar o lugar que lhe é devido por direito no seio da Comunidade Internacional.

"Na perspectiva de estas propostas serem seriamente consideradas, lançamos um veemente apelo a todos os Estados membros da O. N. U., em particular aos aliados de Portugal, aos países da América Latina, e muito especialmente ao Brasil, para que compreendam a nossa posição e dêem o seu apoio às aspirações legítimas do nosso povo africano à liberdade, à independência e ao progresso a que tem direito.»[osnegritos são meus, M.L.]

Em 27 de Outubro de 1971, numa entrevista concedida à revista Anticolonislismo, disse Amilcar Cabral:

«Como sabe, nós temos uma longa caminhada juntamente com o povo de Portugal. Não foi decidido por nós, não foi decidido pelo povo português, foi decidido pelas circunstâncias históricas do tempo da Europa das descobertas e pela classe dirigente portuguesa de antanho, como se diz em português antigo; mas é verdade, é isso! Há essa realidade concreta! Eu estou aqui falando português como qualquer outro português, e infelizmente melhor que centenas de milhares de portugueses que o Estado português tem deixado na ignorância e na miséria.

"Nós marchamos juntos e, além disso, no nosso povo, seja em Cabo Verde, seja na Guiné, existe toda uma ligação de sangue, não só de história mas também de sangue, e fundamentalmente de cultura, com o povo de Portugal. Quando falei há bocado sobre a nossa cultura não tive necessidade de lembrar que essa nossa cultura também está influenciada pela cultura portuguesa e nós estamos prontos a aceitar todo o aspecto positivo da cultura dos outros. Nós, em princípio, o nosso problema não é de nos desligarmos do povo português. Se porventura em Portugal houvesse um regime que estivesse disposto a construir não só o futuro e o bem estar do povo de Portugal mas também o nosso, mas em pé de absoluta igualdade, quer dizer que o Presidente da República pudesse ser tanto de Cabo Verde, da Guiné, como de Portugal, etc., que todas as funções estatais, administrativas, etc., fossem igualmente possíveis para toda a gente, nós não veríamos nenhuma necessidade de estar a fazer a luta pela independência, porque já seríamos independentes num quadro humano muito mais largo e talvezmuito mais eficaz do ponto de vista da história. Mas infelizmente, como sabem, a coisa não é essa: o colonialismo português explorou o nosso povo da maneira mais bárbara e criminosa e quando reclamamos o direito de ser gente, nós mesmos, de sermos homens, parte da humanidade, e de termos a nossa própria personalidade, a resposta é a repressão com a guerra colonial.

"Mas nós nunca confundimos colonialismo português com povo de Portugal e temos feito tudo, na medida das nossas possibilidades, para preservar, apesar dos crimes cometidos pelos colonialistas portugueses, as possibilidades duma cooperação, de amizade, de solidariedade e de colaboração eficaz com o povo de Portugal, numa base de independência, de igualdade de direitos e de reciprocidade de vantagens, seja para o progresso da nossa terra, seja para o progresso do povo português.

"O povo português está submetido há cerca já quase de meio século a um regime que, pelas suas características, não pode deixar de ser chamado fascista.

"A nossa luta é contra o colonialismo português. Nós somos povos africanos, ou um povo africano, lutando contra o colonialismo português, contra a dominação colonial portuguesa, mas não deixamos de ver a ligação que existe entre a luta antifascista e a luta anticolonialista. Nós estamos absolutamente convencidos de que se em Portugal se instalasse amanhã um governo que não fosse fascista, mas fosse democrático, progressista, reconhecedor do direito dos povos à autodeterminação e à independência, a nossa luta não teria razão de ser. Aí está a ligação íntima que pode existir entre a nossa luta e a luta antifascista em Portugal; mas também, vice-versa, estamos absolutamente convencidos de que na medida em que os povos das colónias portuguesas avance com a sua luta e se libertem totalmente da dominação colonial portuguesa estarão contribuindo duma maneira muito eficaz para a liquidação do regime fascista em Portugal. E cremos mesmo que até hoje, embora nenhum dos países esteja completamente independente, o que já fizemos nas nossas terras tem contribuído, e claro que também a ajuda dos próprios fascistas-colonialistas portugueses, a mostrar ao povo português claramente que o caminho da luta é o único caminho que poderá libertá-lo da dominação e da opressão a que está sujeito. Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português; estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo."


E o que dizia o Governo por essas alturas? Já não vou buscar o Salazar, pois o seu pensamento era demasiado claro e evidente em matéria de Ultramar. Quando começaram a soprar os chamados "ventos da História", isto é, quando o Terceiro Mundo começou a tornar-se independente, as colónias passaram a chamar-se "províncias ultramarinas", porque a palavra colónias começou a ter uma carga muito pejorativa. Os grandes impérios abriram mão dos seus domínios políticos, mas não económicos, e deram a independência aos países que até aí dominavam. Mas Salazer continuou a mesma política, continuando na contramão da História, porque julgou que podia vencer pela força, que era a única coisa que não tínhamos. Veio Marcelo e criou os "Estados Ultramarinos", mas seguindo a mesma política. Vamos ao marcelismo ver como é que a sua "abertura" e a revisão constitucional de 1971 encarava os criados "Estados" do Ultramar.


Marcelo Caetano ao jornal L'Aurore, em 7 de Abril de 1971:

«Os terroristas pretendem que ocupam dois terços do nosso território ginéu... (...)Na verdade o tipo de guerra que temos de enfrentar corresponde a uma série de pequenas infiltrações, efectuadas no nosso território por comandos vindos do estrangeiro, armados e treinados pelo estrangeiro. É uma guerra subversiva que nos fazem e nós sabemos como responder... Na Guiné, repito, eles atacam as populações, incendeiam as aldeias e, depois, retiram-se. É a isto, é a estas breves operações, limitadas no espaço e no tempo, que se chama a ocupação de dois terços do território da Guiné."

E, mais à frente, quando lhe perguntaram sobre o alargamento da autonomia às províncias de África:

"Trata-se de desenvolver a autonomia financeira das províncias e, por outro lado, de aumentar os seus poderes legislativos. É assim uma reforma interna que de modo algum atenta contra o conjunto formado pelo Ultramar e pela Metrópole, conjunto que continuará rigorosamnte indivisível."


Marcelo Caetano, numa entrevista à BBC em 12 de Julho de 1973, quando lhe perguntaram se pensava dar a independência aos territórios ultramarinos:

«São perguntas que não podem ser feitas a uma pessoa que não é um autocrata. Eu não tenho a possibilidade de, por mim, dar ou não dar. A independência é uma solução que só os povos podem resolver [curioso!]. Não pode ser dada por um político.»


Marcelo Caetano, citado pelo jornal O Século, de 18 de Março de 1974, disse ao semanário Le Point que «nunca negociará com os adversários de Portugal, aqueles que, pagos por potências estrangeiras, sustentam uma luta de guerrilhas, inútil e cruel».

Rui Patrício ao Jornal do Brasil, de 16 de Março de 1974: «A autonomia dos Estados e das províncias ultramarinas é já extremamente ampla e, na prática, superior à de muitps Estados membros de certas federações... aquela autonomia abrange a faculdade de legislar, através de órgãos próprios sobre todas as matérias de interesse local e de aprovar orçamentos e planos de desenvolvimento próprios de cada território. É isto que corresponde às aspirações dos portugueses de África assim como aos seus desejos de manter a unidade nacional...»

Não me parece, pois, que Amilcar Cabral quizesse a guerra pela guerra, mas quereria, sim, uma solução que o governo de Lisboa não queria. Mas nem esta Salazar queria. Efectivamente, nunca houve vontade de se sentarem à mesa com os movimentos de libertação e discutir uma solução. Tudo tinha de caminhar, pois, no sentido do fim da guerra com a vitória dos contestatários, mais tarde ou mais cedo, de acordo com o curso da História. Nem Salazar nem Caetano tiveram esta percepção que evitaria os milhares de mortos? Acho que tiveram, mas, por interesse político, fingiram que não viram. Foi a forma de se manterem no poder. E era uma guerra votada ao fracasso. A única maneira de termos evitado a derrota seria termos feito um pacto com as populações e com os movimentos de libertação. Mas é claríssimo que nunca houve vontade do regime em dar esse passo.

Racista o Amilcar Cabral, casado com a branca Maria Helena de Athayde Vilhena Rodrigues, sua colega no Instituto de Agronomia com quem viria a ter duas filhas? Não me parece, nem é essa a opinião dos que o conheceram no Instituto de Agronomia, à Ajuda. Por dizer que "dar um tiro num portuga numa emboscada é um acto político de primeira grandeza"? Que andámos nós a fazer senão dar tiros nos turras, alguns a ganhar medalhas e louvores por isso mesmo? Por racismo? Eu dei muitos tiros em emboscadas e nunca foi por racismo. Foi para cumprir a missão que me tinham, mal ou bem, dado e para sobreviver. A acção política deles vingou e a minha não. Eles estariam mais certos da sua razão do que eu (é verdade, sempre tive dúvidas).

É para rir que um militar de carreira possa dizer uma coisa destas. Qual é o papel de quem anda em guerra, de um lado ou do outro, não é disparar e matar o outro? E não tem nada de racismo, evidentemente. Os meus jagudis fizeram emboscadas contra os da sua côr sem racismo nenhum. Foi um acto político, sem consciência política, tenho a certeza. Se Cabral de facto disse isso no tal congresso que não existiu (...) foi para transmitir consciência política aos guerrilheiros do PAIGC, tal como nos quizeram transmitir consciência política para que matássemos os turras quando nos falaram do "património nacional" e da "defesa da civilização ocidental"... Essa do Alpoim Calvão é muito primária. A que chamará ele às imagens que envio (1) ? Precalços de uma "sociedade multirracial" que viu a superioridade dos brancos ameaçada pelos nharros ou contingências de uma guerra sem razão?

Todos os homens têm o direito de defenderem livremente os seus pontos de vista, mas devem fazê-lo de forma honesta e correcta, sem albergar ódios no coração, sem desvirtuar e falsear os fundamentos reais das questões. Não me parece que Alpoim Calvão tenha feito isso nesta entrevista.


A. Marques Lopes


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(1) Imagens que, por enquanto, só circulam dentro da tertúlia. L.G.

Guiné 63/74 - CLXXXIV: João Tunes: Do Pelundo e do Canchungo ao Catió...

1. Amigos & camaradas da Tertúlia dos ex-combatentes da Guiné:

Aqui vai, para vosso conhecimento, um pedido de adesão à nossa tertúlia. O João Tunes não precisa de apresentação. Ainda há pouco publicámos aqui um texto dele, com a evocação, emocionada, da memória dos três bravos majores e seus amigos (Osório, Pereira da Silva e Passos Ramos) que foram executados, pelo PAIGC, no chão manjanco (vd. post de 11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLIX: Antologia (15): Lembranças do chão manjaco: Do Pelundo ao Canchungo...

Permitam-me recordar o que deles escreveu João Tunes, no final do post: "No 25 de Abril de 1974, senti uma enorme frustação por não os abraçar nas ruas de Lisboa e, em vez disso, ter de ver o focinho patibular de Spínola na Televisão a presidir à Junta de Salvação. Resta-me a memória de Teixeira Pinto. Perdão, de Canchungo".

Não conheço pessoalmente o João Tunes. E ainda não respondi à sua mensagem, amável e solidária. É claro que a ele, como a qualquer outro antigo combatente da guerra da Guiné, cabe-lhe o pleno direito de se juntar a nós... Além disso, é um conhecido blogador, o que muito nos honra. De qualquer modo, gostava também de conhecer opinião dos restantes membros da tertúlia... Um abraço. Luís

2. Mensagem de João Tunes com data de 9 de Setembro de 2005:

Assunto: COM ÁGUA LISA


Caro camarada(*) Luís Graça,


Ando há tempos para lhe escrever mas a netcabo faz-me, volta e meia, negaças. O objecto principal é agradecer-lhe a sua simpática transcrição de um meu post sobre a morte dos "três majores" na guerra da Guiné. Depois, felicitá-lo pelo seu blogue e por alimentar e dinamizar a "Tertúlia" (a que gostaria de me vir a juntar).

Entretanto, tive o grato conhecimento de que o Luís tinha chegado à fala com o académico guineense Leopoldo Amado que tenho o prazer de conhecer pessoalmente e contar com a sua amizade. Por mera coincidência no fio da conversa, verificámos, eu e o Leopoldo, que tínhamos sido "vizinhos" em Catió no ano de 1970 - eu, armado em alferes (miliciano!) de transmissões da tropa colonial e ele um dos muitos miúdos guineenses que viviam na tabanca sob protecção das NT. É excelente pessoa e um homem cultíssimo, despreconceituado relativamente ao passado da guerra e alguém que pode ajudar na catarse histórica daquele encontro de povos com metralha, com benefícios para portugueses e guinéus mas sem que a memória tenha de ser pintada de qualquer cor e muito menos filtrada.

Informo que publiquei recentemente dois posts sobre a Guiné, um sobre Nino & Amílcar Cabral e outro sobre um romance recentemente editado e que resulta de uma experiência na guerra da Guiné. Claro que gostaria de ter, sobre estes posts, a sua opinião de entendido e erudito.

Uma continência. Mais um abraço do

João Tunes
http://agualisa3.blogs.sapo.pt

___________

(*) entenda-se o termo no seu significado castrense

3. Comentários do pessoal da tertúlia:

Afonso M.F. Sousa:

"O João Tunes andou lá para os lados de Catió ! Será que ele não terá pormenores da
tal Ganjola (Ou Dabenche) ? Localidades próximas: Gansona (Chungue), Cufar, Ganjola Nalu, Ganjola Porto.

"O João Tunes é uma aquisição imperdível ! Isto só prova que o blogue já está a despertar a atenção de alguns vultos".

Guiné 63/74 - CLXXXIV: João Tunes: Do Pelundo e do Canchungo ao Catió...

1. Amigos & camaradas da Tertúlia dos ex-combatentes da Guiné:

Aqui vai, para vosso conhecimento, um pedido de adesão à nossa tertúlia. O João Tunes não precisa de apresentação. Ainda há pouco publicámos aqui um texto dele, com a evocação, emocionada, da memória dos três bravos majores e seus amigos (Osório, Pereira da Silva e Passos Ramos) que foram executados, pelo PAIGC, no chão manjanco (vd. post de 11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLIX: Antologia (15): Lembranças do chão manjaco: Do Pelundo ao Canchungo...

Permitam-me recordar o que deles escreveu João Tunes, no final do post: "No 25 de Abril de 1974, senti uma enorme frustação por não os abraçar nas ruas de Lisboa e, em vez disso, ter de ver o focinho patibular de Spínola na Televisão a presidir à Junta de Salvação. Resta-me a memória de Teixeira Pinto. Perdão, de Canchungo".

Não conheço pessoalmente o João Tunes. E ainda não respondi à sua mensagem, amável e solidária. É claro que a ele, como a qualquer outro antigo combatente da guerra da Guiné, cabe-lhe o pleno direito de se juntar a nós... Além disso, é um conhecido blogador, o que muito nos honra. De qualquer modo, gostava também de conhecer opinião dos restantes membros da tertúlia... Um abraço. Luís

2. Mensagem de João Tunes com data de 9 de Setembro de 2005:

Assunto: COM ÁGUA LISA


Caro camarada(*) Luís Graça,


Ando há tempos para lhe escrever mas a netcabo faz-me, volta e meia, negaças. O objecto principal é agradecer-lhe a sua simpática transcrição de um meu post sobre a morte dos "três majores" na guerra da Guiné. Depois, felicitá-lo pelo seu blogue e por alimentar e dinamizar a "Tertúlia" (a que gostaria de me vir a juntar).

Entretanto, tive o grato conhecimento de que o Luís tinha chegado à fala com o académico guineense Leopoldo Amado que tenho o prazer de conhecer pessoalmente e contar com a sua amizade. Por mera coincidência no fio da conversa, verificámos, eu e o Leopoldo, que tínhamos sido "vizinhos" em Catió no ano de 1970 - eu, armado em alferes (miliciano!) de transmissões da tropa colonial e ele um dos muitos miúdos guineenses que viviam na tabanca sob protecção das NT. É excelente pessoa e um homem cultíssimo, despreconceituado relativamente ao passado da guerra e alguém que pode ajudar na catarse histórica daquele encontro de povos com metralha, com benefícios para portugueses e guinéus mas sem que a memória tenha de ser pintada de qualquer cor e muito menos filtrada.

Informo que publiquei recentemente dois posts sobre a Guiné, um sobre Nino & Amílcar Cabral e outro sobre um romance recentemente editado e que resulta de uma experiência na guerra da Guiné. Claro que gostaria de ter, sobre estes posts, a sua opinião de entendido e erudito.

Uma continência. Mais um abraço do

João Tunes
http://agualisa3.blogs.sapo.pt

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(*) entenda-se o termo no seu significado castrense

3. Comentários do pessoal da tertúlia:

Afonso M.F. Sousa:

"O João Tunes andou lá para os lados de Catió ! Será que ele não terá pormenores da
tal Ganjola (Ou Dabenche) ? Localidades próximas: Gansona (Chungue), Cufar, Ganjola Nalu, Ganjola Porto.

"O João Tunes é uma aquisição imperdível ! Isto só prova que o blogue já está a despertar a atenção de alguns vultos".