27 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCXV: O 'adeus e até ao meu regresso' do Paulo Salgado

1. Camarigos (... tenho pena de ainda não poder dizer camarigos & camarigas, por enquanto ainda não apareceu nenhuma enfermeira-paraquedista, mas eu vou tentar arranjar uma):

O barco está de saída... Despeçam-se do Paulo Salgado, que vai partir dia 30 como cooperante para a Guiné-Bissau.... Metam-lhe uma cunha que é para aquela terra, que nos é muito querida, dar um salto... para o futuro! L.G.

Bissau > Cais do Pidjiguiti
© Paulo Salgado (2005)

2. Mensagem do Humberto Reis:

Camarigo Paulo: Leva-me contigo!... Já não vou àquela terra desde 1996 (há mais de 9 anos). São mais que pobres, paupérrimos, mas continuamos a gostar daquilo, da terra e das gentes. Já sei que o voo é às 09,10 de 6ª feira.

Um grande abraço e FELICIDADES no desempenho da tua HUMANITÁRIA MISSÃO. Pelo que percebi já não é a 1ª vez que voltas à NOSSA Guiné. Não te posso ser de grande utilidade mas conheço um comerciante português, cuja família é de origem libanesa (é filho da D. Rosa de Bafatá ex-ten.cor paraquedista) e que passa a maior parte do tempo lá em Bissau no negócio da castanha de cajú. Ele mora aqui perto de Lisboa, em Linda A Velha, encontrando-se cá neste momento mas em breve vai voltar a Bissau.

Se precisares de alguma coisa que ele possa levar é só dizeres-me que eu tenho confiança com ele para lhe pedir. É ele normalmente que me leva as canetas, borrachas, lápis, etc. com que eu costumo abastecer a escola de Bambadinca.
Dá notícias, não te desligues desta malta.

Humberto

3. O Marques Lopes também vem desejar "boa estadia" ao Paulo:

Amigo Paulo :

Os meus desejos de uma boa viagem e óptima estadia e bom trabalho naquela terra das saudades. Não sei quando, mas pode ser que eu um dia apareça por lá.

Se tiveres oportunidade dá um abraço meu a este meu amigo que está em Bissau há anos (e que muito me apoiou quando lá estive em 1998): Manuel Pires Nabais - Av. 3 de Agosto - Cx. Postal 611 - telefone 201661.

É um homem bem conhecedor de Bissau, conhecedor daquela gente (sabe bem de todos os mandantes...). Era (não sei se ainda é) Administrador Delegado da GUIPORT (a empresa gestora do porto de Bissau) e de uma empresa de camionagem sedeada na cidade. É primo de um ex-alferes, o António Moreira, que esteve comigo em Geba.



© Paulo Salgado (2005)

O Alf. Mil. Salgado, da CCAV 2712, no Olossato, prestando ajuda como voluntário ao Fur. Enf. Carvalho.

Ele já tinha vocação, na época, para a administração de serviços de saúde. E particular motivação e sensibiliddae para as questões da cooperação e da solidariedade (LG).



Ele, o Manuel Pires Nabais, que te apresente outro amigo meu, o Luciano. Um bom amigo, embora com feitio próprio, ex-comando que se sedeou em Bissau há anos, depois de ter passado como mercenário na zona dos diamantes de Angola. É dos poucos que sempre lá se aguentou durante todas as convulsões na Guiné-Bissau. Conhece o Cupilon como eu conheço a minha casa.

Um e outro estão por dentro de tudo, conhecem todos os meandros, de baixo acima.
Um abraço

A. Marques Lopes

4. Comentário final do Paulo:

(i) O Luís é assim: põe-nos a todos loucos! É a camaradagem, a solidariedade, o companheirismo. Agradeço a todos e prometo-vos que cumprirei com lealdade as funções que vou desempenhar...! Por isso, o que for mandando, o Luís Graça fará o favor de remeter a TODOS!

(ii) Luís e Todos!

Vou prás terras quentes durante um ano - com intervalos. Em 1970 não dava só tiros! Ajudei o furriel Enfermeiro Carvalho no registo dos doentes. Agora a minha missão (e de mais quatro parceiros, 35 anos depois) é muito semelhante a esta...

O branco loiro que está nesta foto é um "louco" de um holandês!!! Como ele trabalha!

(iii) Amigo e camarada Humberto

Como é bom ler esta mensagem! Fica descansado: irei cumprir o que me pedes - sempre são meses a cumprir nesta missão, agora de paz.


(iv) Grande Marques, camarada,

Farei o que me mandas, com muito orgulho em pertencer a esta tertúlia - mais uma vez vem ao de cima a camaradagem. É belo ter camaradas e amigos assim.

Vou mandar para o Luís (o nosso "mensageiro") as mensagens e fotos e textos que for fazendo - sempre é um ano! - embora venha cá três ou quatro vezes. Uma espécie de comissão: já conto dezenas de vezes a idas a Bissau! Conheço de Norte a Sul quase tudo, embora me falhem algumas tabancas de que os camaradas falam...

(v) João Camaradão [João Tunes],

Estás "desculpado".

Já recebi mails de camaradas a desejarem boa estadia - e a ti também agradeço com muita amizade.

Vou tentar dar o litro na missão de paz que envolve quatro parceiros - qual nave de loucos - e também tentar dar um contributo forte ao teu blogue e ao "nosso" blogue.

Comigo podes contar com o contacto que farei em Bissau com o Jorge Neto (*). Ele tem que me contactar no [Hospital] Simão Mendes - lá junto da Administração...

Em Bissau, programarei uma estadia de uma semana e mandarei notícias breves. Acho que já dei provas: vós não me conheceis (eu vivo em Gaia, mas sou transmontano - de MONCORVO), mas o que prometo ... tento não falhar.

Como já disse, embarco a 30 e, apesar de muito trabalho que me espera, agora tenho esta "emboscada" com a equipa de segurança de retaguarda - que sois vós.


Mantenhas do
Paulo Salgado

____________

Nota de L.G.

(*) O autor do blogue Africanidades, cooperante em Bissau. Possível contacto em Bissau, de acordo com uma sugestão do João Tunes, para uma possível viagem de retorno àquelas terras, para matar saudades e não só...

Este blogue é obrigatório para quem quiser conhecer a realidade da África de hoje, e em particular a Guiné-Bissau. Excelente documentação fotográfica. Um tuga que conhece e ama a África. Podem contactá-lo, ao Jorge Neto, por e-mail. Façam uma primeira visita ao seu blogue.

Guiné 63/74 - CCXIV: Dos Unimog 404 e 411 ao Alf Mil Correia, do Pel Cac Nat 54



© Manuel Ferreira (2005)


Guiné > Região Leste > Xime > 1972: O Manuel Ferreira, soldado condutor auto, dos "Fantasmas do Xime" (CART 3494), ali aquartelados (1972/73).

A viatura é um famoso "burrinho" (Unimog 404).



Texto do Humberto Reis (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71):


1. No álbum de fotografias referentes ao Xime aparece o Manuel Ferreira, condutor auto, empoleirado no capô de um Unimog 404, chamado "burrinho".

"Se bem me lembro", o 404 era o Unimog grande a gasolina e o Unimog pequeno, era o 411, movido a gasóleo, e chamado "burrinho do mato". Esta alcunha derivava do facto de ter uma suspensão mais dura que o 404 e naquelas auto estradas (IP's, IC', etc.) saltar tanto que parecia dar coices como um burro.

Como terminam os pareceres dos advogados, "é esta a nossa opinião se outra melhor não houver".

2. Também já está esclarecido que o Mário Armas de Sousa era do Pel Caç Nat 54 e não de uma companhia de Porto Gole.

Não me lembro dele mas recordo perfeitamente o [Alf. Mil.] Correia, magro e seco como um pau. Estou a olhar para ele há 35 anos, não me lembro do dia mas até era possível saber, em que regressámos de uma operação na zona do Xime, julgo que foi aquela em que tivemos os 5 mortos na mesma emboscada, e o Correia encostado ao arame farpado, quase com as lágrimas nos olhos, à nossa espera (1).

O 54 deve ter ficado a reforçar o aquartelamento do Xime (foi a sorte deles nesse dia) enquanto alguns dos pelotões desta companhia foram com a nossa CCAÇ 12 nessa operação.

Memórias já passadas que nos ajudam a viver os dias de hoje.
Um abraço
Humberto

___________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 25 de Abril de 2004 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970). Nome de código da Operação: Op Abencerragem Candente (25-26 de Novembro de 1970). Envolveu cerca de 250 homens: (i) a CCAÇ 12 (sedeada em Bambadinca, ao serviço do BART 2917), a 3 Gr Comb; (ii) a CART 2715 (aquartelada no Xime), também a 3 Gr Comb; e a (iii) a CART 2714 (aquartelada em Mansambo), a 2 Gr Comb. O Pel Caç Nat 54 deve ter ficado em reforço ao Xime. Baixas das NT: 6 mortos e 7 feridos.

Guiné 63/74 - CCXIV: Dos Unimog 404 e 411 ao Alf Mil Correia, do Pel Cac Nat 54



© Manuel Ferreira (2005)


Guiné > Região Leste > Xime > 1972: O Manuel Ferreira, soldado condutor auto, dos "Fantasmas do Xime" (CART 3494), ali aquartelados (1972/73).

A viatura é um famoso "burrinho" (Unimog 404).



Texto do Humberto Reis (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71):


1. No álbum de fotografias referentes ao Xime aparece o Manuel Ferreira, condutor auto, empoleirado no capô de um Unimog 404, chamado "burrinho".

"Se bem me lembro", o 404 era o Unimog grande a gasolina e o Unimog pequeno, era o 411, movido a gasóleo, e chamado "burrinho do mato". Esta alcunha derivava do facto de ter uma suspensão mais dura que o 404 e naquelas auto estradas (IP's, IC', etc.) saltar tanto que parecia dar coices como um burro.

Como terminam os pareceres dos advogados, "é esta a nossa opinião se outra melhor não houver".

2. Também já está esclarecido que o Mário Armas de Sousa era do Pel Caç Nat 54 e não de uma companhia de Porto Gole.

Não me lembro dele mas recordo perfeitamente o [Alf. Mil.] Correia, magro e seco como um pau. Estou a olhar para ele há 35 anos, não me lembro do dia mas até era possível saber, em que regressámos de uma operação na zona do Xime, julgo que foi aquela em que tivemos os 5 mortos na mesma emboscada, e o Correia encostado ao arame farpado, quase com as lágrimas nos olhos, à nossa espera (1).

O 54 deve ter ficado a reforçar o aquartelamento do Xime (foi a sorte deles nesse dia) enquanto alguns dos pelotões desta companhia foram com a nossa CCAÇ 12 nessa operação.

Memórias já passadas que nos ajudam a viver os dias de hoje.
Um abraço
Humberto

___________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 25 de Abril de 2004 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970). Nome de código da Operação: Op Abencerragem Candente (25-26 de Novembro de 1970). Envolveu cerca de 250 homens: (i) a CCAÇ 12 (sedeada em Bambadinca, ao serviço do BART 2917), a 3 Gr Comb; (ii) a CART 2715 (aquartelada no Xime), também a 3 Gr Comb; e a (iii) a CART 2714 (aquartelada em Mansambo), a 2 Gr Comb. O Pel Caç Nat 54 deve ter ficado em reforço ao Xime. Baixas das NT: 6 mortos e 7 feridos.

26 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCXIII: O açoreano Mário Armas de Sousa (Pel Caç Nat 54: Missirá, 1969/70)

© Humberto Reis (2005)

Malta da CCAÇ 12 (à direita), pousando junto a uma parede bidões com areia (que serviam de protecção em caso de ataque) juntamente com comaradas do Xime, à esquerda (1970).


1. Bom, camarigos(=camaradas & amigos de tertúlia), ainda não chegámos à Madeira, mas já estamos nos Açores... Graças a esta jigajoga da Internet...

Pois é, lá nas Ilha das Flores, nas Lajes das Flores, há um camarada que andou connosco no Sector L1, Zona Leste, nos idos tempos de 1968/70 e que se reconheceu num das fotos publicadas na página do Xime. Apresento-vos o novo tertuliano, o ex-Furriel Miliciano Mário Armas de Sousa, do Pel Caç Nat 54 (Missirá, 1969/70).

Caro colega:

Sou ex-furriel miliciano e estive na Guiné de 1968 a 1970, em Porto Gole, Enxalé, Xime e Missirá. Também estou na fotografia da vossa página, tirada no quartel do Xime, junto dos bidões.

Tenho alguma informação e fotografias do meu grupo de combate para acrescentar à vossa página se possível; é favor confirmar o seu endereço electrónico.

© Mário Armas de Sousa (2005)

Guiné-Bissau > Região Leste > Bambadinca > Missirá : Pelotão de Caçadores Nativos nº 54, em 1970.

1ª fila da direita para esquerda: do pessoal metropolitano, o primeiro sou eu, furriel miliciano Mário Armas de Sousa; o terceiro é o 1º cabo Capitão.

2ª fila da direita para a esquerda: o primeiro é o soldado Amarante; o segundo é o soldado Bulo; o quinto é o furriel miliciano Inácio; o sexto é o 1º cabo Tomé; o nono é o soldado Samba.

3ª fila da direita para a esquerda: do pessoal metropolitano, o primeiro é o furriel miliciano Sousa Pereira; o quinto é o alferes miliciano Correia (comandante de pelotão); o sétimo é o 1º cabo Monteiro; o oitavo, africano, é o soldado Pucha (era turra e foi capturado e ficou no nosso exército)

Cumprimentos, Mário Armas de Sousa, Açores (O Mário utilizou o e-mail dos Serviços de Ambiente das Flores e Corvo, onde presumivelmente trabalha)


2. Eis a minha resposta (com correcçõe posteriores):

Meu caro Mário:

Fico muito contente (e o resto dos camaradas também) por este feliz reencontro, ao fim de tantos anos. Andámos juntos, no mesmo sector, e na mesma altura (mais tarde conhecido como o Sector L1, Zona Leste, com sede em Bambadinca e que incluía entre outros aquartelamentos e destacamentos, além da sede, o Xime, o Enxalé, Mansambo, o Xitole, Missirá...

No meu tempo, Portogole (b) creio que já pertencia a Mansoa (e não a Bambadinca). Esta povoação ficava na estrada Bafáta-Mansoa-Bissau (interdita no meu tempo).

Podes contactar-me através de qualquer um dos dois e-mails (...). Tens também os endereços de e-mail dos nossos restantes amigos e camaradas de tertúlia, na respectiva página.

Se tiveres fotografias, procura mandá-las digitalizadas, em formato.jpg. Vou dar esta boa notícia aos nossos tertulianos e passar a incluir-te na nossa lista de endereços, se for esse o teu desejo.

Se quiseres, manda também uma foto actual (não é obrigatório). (...) Um grande abraço. Luís Graça (ex- Fur. Mil. Henriques, da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

3. Volta a publicar-se, desta vez neste blogue, a fotografia onde o Mário Armas Sousa se reconheceu. Eu não consigo identificá-lo. Pode ser que outros o consigam, com a preciosa ajuda do Humberto Reis cuja memória (de elefante) já é lendária... Sigo os seus apontamentos:

"Começando da esquerda para a direita e de cima para baixo temos: o de boina já não me lembro quem era, o 2º julgo que era o fur. mil. vagomestre, os 3º, 4º e 5º também não me lembro, o 6º é o Sousa, ex-fur. mil. da CCAÇ 12 e o último sou eu (ainda com algum cabelo e sem barriga). [O 5º julgo ser o Sousa, o Mário Armas de Sousa, do Pel Caça Nat 54; ou não será ? L.G.].

"Na 1ª fila não me lembro quem é o 1º; o 2º, meio careca, era o fur. mil. dos obuses (da BAC de Bissau); os 3º e 4º também não me recordo; o 5º julgo que era o fur. mil. mecânico e o 6º é o Fernandes, ex-fur. mil. da CCAÇ 12 e actual Engenheiro Civil na antiga CUF (já nesse tempo o Fernandes tinha jeito para as obras, pois foi ele que acompanhou todo o Reordenamento dos Nhabijões (a), por isso, quando cá chegou foi acabar o curso, o que muitos fizeram pois tinham-nos deixado a meio e até aldrabado nas habilitações literárias para ver se se baldavam de ir bater com os costados no Ultramar".

Em suma, o Mário Armas Sousa é decerto um deles, mas eu não sei qual... Tenho dúvidas é (i) quanto ao mês e ano em que foi tirada a foto e (ii) quanto à companhia a que pertenciam os camaradas que não eram da CCAÇ 12. Se a foto tiver sido tirada antes de Julho de 1970, o pessoal do Xime deveria pertencer à CART 2520 (1969/1971); em meados de 1970, eles foram rendidos pela CART 2715 (1970/72).

O Mário Armas de Sousa, que além do Xime esteve em Portogole, Enxalé e Missirá, era do PEL CAÇ NAT 54 (c) que, em Novembro d1969, foi render o PEL CAÇ NAT 52 (transferido para Bmabadinca, e que era comandado pelo Alf. Mil Beja Santos).

Com o PEL CAÇ NAT 52 (e julgo que também com o 54) fizémos (a CCAÇ 12 + CCAÇ 2636 + 1 Esq. Morteiros do Pel Mort 2106) talvez a mais dramática, temerária e penosa operação de que eu me lembre: Op Tigre Vadio (Março de 1970), na pensínsula de Madina/Belel, a norte do Rio Geba, no regulado do Cuor, na extremidade sul do famoso corredor do Morès...

Haveremos de falar dessa operação: tenho aqui extractos do relatório e notas do meu diário... A tal operação em que alguns de nós tiveram que beber o próprio mijo para sobreviverem e não morrererem desidratados...

A propósito: alguém tem o contacto do Beja Santos, que era Alf Mil, comandante do Pel Caç Nat 52 ? Já nos encontrámos uma vez, num almoço de confraternização do BCAÇ 2852 (1968/70).

O Alf Mil Cabral, o António Cabral, do Pel Caç Nat 63 (que estava em Fá, a Fá Mandinga onde foi formada e treinada a 1º Companhia de Comandos Africanos e onde Amílcar Cabral trabalhou como engenheiro agrónomo, nos anos 50) é advogado e é também professor no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Ando há anos para me encontrar com ele. O Humberto é capaz de ter o contacto dos dois.

Mantenhas. Luís

____________

Notas de L.G.

(a) Vd post de 21 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCII: O reordenamento de Nhabijões (1969/70)

(b) A grafia correcta será Porto Gole.

(c) Havia vários. Por exemplo, em Maio de 1970, já no final da comissão do BCAÇ 2852 (1968/70), havia três PEL CAÇ NAT no sector: 52 (Bambadinca), 54 (Missirá) e 63 (Fá). Estas unidades não se confundiam com os Pelotões de Milícias: nesta altura, havia já duas Companhias de Milícias... As mílicias tinham uma função de auto-defesa e eram constituídas apenas por elementos da população guineense (neste caso, predominante ou exclusivamente fulas).

Guiné 63/74 - CCXIII: O açoreano Mário Armas de Sousa (Pel Caç Nat 54: Missirá, 1969/70)

© Humberto Reis (2005)

Malta da CCAÇ 12 (à direita), pousando junto a uma parede bidões com areia (que serviam de protecção em caso de ataque) juntamente com comaradas do Xime, à esquerda (1970).


1. Bom, camarigos(=camaradas & amigos de tertúlia), ainda não chegámos à Madeira, mas já estamos nos Açores... Graças a esta jigajoga da Internet...

Pois é, lá nas Ilha das Flores, nas Lajes das Flores, há um camarada que andou connosco no Sector L1, Zona Leste, nos idos tempos de 1968/70 e que se reconheceu num das fotos publicadas na página do Xime. Apresento-vos o novo tertuliano, o ex-Furriel Miliciano Mário Armas de Sousa, do Pel Caç Nat 54 (Missirá, 1969/70).

Caro colega:

Sou ex-furriel miliciano e estive na Guiné de 1968 a 1970, em Porto Gole, Enxalé, Xime e Missirá. Também estou na fotografia da vossa página, tirada no quartel do Xime, junto dos bidões.

Tenho alguma informação e fotografias do meu grupo de combate para acrescentar à vossa página se possível; é favor confirmar o seu endereço electrónico.

© Mário Armas de Sousa (2005)

Guiné-Bissau > Região Leste > Bambadinca > Missirá : Pelotão de Caçadores Nativos nº 54, em 1970.

1ª fila da direita para esquerda: do pessoal metropolitano, o primeiro sou eu, furriel miliciano Mário Armas de Sousa; o terceiro é o 1º cabo Capitão.

2ª fila da direita para a esquerda: o primeiro é o soldado Amarante; o segundo é o soldado Bulo; o quinto é o furriel miliciano Inácio; o sexto é o 1º cabo Tomé; o nono é o soldado Samba.

3ª fila da direita para a esquerda: do pessoal metropolitano, o primeiro é o furriel miliciano Sousa Pereira; o quinto é o alferes miliciano Correia (comandante de pelotão); o sétimo é o 1º cabo Monteiro; o oitavo, africano, é o soldado Pucha (era turra e foi capturado e ficou no nosso exército)

Cumprimentos, Mário Armas de Sousa, Açores (O Mário utilizou o e-mail dos Serviços de Ambiente das Flores e Corvo, onde presumivelmente trabalha)


2. Eis a minha resposta (com correcçõe posteriores):

Meu caro Mário:

Fico muito contente (e o resto dos camaradas também) por este feliz reencontro, ao fim de tantos anos. Andámos juntos, no mesmo sector, e na mesma altura (mais tarde conhecido como o Sector L1, Zona Leste, com sede em Bambadinca e que incluía entre outros aquartelamentos e destacamentos, além da sede, o Xime, o Enxalé, Mansambo, o Xitole, Missirá...

No meu tempo, Portogole (b) creio que já pertencia a Mansoa (e não a Bambadinca). Esta povoação ficava na estrada Bafáta-Mansoa-Bissau (interdita no meu tempo).

Podes contactar-me através de qualquer um dos dois e-mails (...). Tens também os endereços de e-mail dos nossos restantes amigos e camaradas de tertúlia, na respectiva página.

Se tiveres fotografias, procura mandá-las digitalizadas, em formato.jpg. Vou dar esta boa notícia aos nossos tertulianos e passar a incluir-te na nossa lista de endereços, se for esse o teu desejo.

Se quiseres, manda também uma foto actual (não é obrigatório). (...) Um grande abraço. Luís Graça (ex- Fur. Mil. Henriques, da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

3. Volta a publicar-se, desta vez neste blogue, a fotografia onde o Mário Armas Sousa se reconheceu. Eu não consigo identificá-lo. Pode ser que outros o consigam, com a preciosa ajuda do Humberto Reis cuja memória (de elefante) já é lendária... Sigo os seus apontamentos:

"Começando da esquerda para a direita e de cima para baixo temos: o de boina já não me lembro quem era, o 2º julgo que era o fur. mil. vagomestre, os 3º, 4º e 5º também não me lembro, o 6º é o Sousa, ex-fur. mil. da CCAÇ 12 e o último sou eu (ainda com algum cabelo e sem barriga). [O 5º julgo ser o Sousa, o Mário Armas de Sousa, do Pel Caça Nat 54; ou não será ? L.G.].

"Na 1ª fila não me lembro quem é o 1º; o 2º, meio careca, era o fur. mil. dos obuses (da BAC de Bissau); os 3º e 4º também não me recordo; o 5º julgo que era o fur. mil. mecânico e o 6º é o Fernandes, ex-fur. mil. da CCAÇ 12 e actual Engenheiro Civil na antiga CUF (já nesse tempo o Fernandes tinha jeito para as obras, pois foi ele que acompanhou todo o Reordenamento dos Nhabijões (a), por isso, quando cá chegou foi acabar o curso, o que muitos fizeram pois tinham-nos deixado a meio e até aldrabado nas habilitações literárias para ver se se baldavam de ir bater com os costados no Ultramar".

Em suma, o Mário Armas Sousa é decerto um deles, mas eu não sei qual... Tenho dúvidas é (i) quanto ao mês e ano em que foi tirada a foto e (ii) quanto à companhia a que pertenciam os camaradas que não eram da CCAÇ 12. Se a foto tiver sido tirada antes de Julho de 1970, o pessoal do Xime deveria pertencer à CART 2520 (1969/1971); em meados de 1970, eles foram rendidos pela CART 2715 (1970/72).

O Mário Armas de Sousa, que além do Xime esteve em Portogole, Enxalé e Missirá, era do PEL CAÇ NAT 54 (c) que, em Novembro d1969, foi render o PEL CAÇ NAT 52 (transferido para Bmabadinca, e que era comandado pelo Alf. Mil Beja Santos).

Com o PEL CAÇ NAT 52 (e julgo que também com o 54) fizémos (a CCAÇ 12 + CCAÇ 2636 + 1 Esq. Morteiros do Pel Mort 2106) talvez a mais dramática, temerária e penosa operação de que eu me lembre: Op Tigre Vadio (Março de 1970), na pensínsula de Madina/Belel, a norte do Rio Geba, no regulado do Cuor, na extremidade sul do famoso corredor do Morès...

Haveremos de falar dessa operação: tenho aqui extractos do relatório e notas do meu diário... A tal operação em que alguns de nós tiveram que beber o próprio mijo para sobreviverem e não morrererem desidratados...

A propósito: alguém tem o contacto do Beja Santos, que era Alf Mil, comandante do Pel Caç Nat 52 ? Já nos encontrámos uma vez, num almoço de confraternização do BCAÇ 2852 (1968/70).

O Alf Mil Cabral, o António Cabral, do Pel Caç Nat 63 (que estava em Fá, a Fá Mandinga onde foi formada e treinada a 1º Companhia de Comandos Africanos e onde Amílcar Cabral trabalhou como engenheiro agrónomo, nos anos 50) é advogado e é também professor no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Ando há anos para me encontrar com ele. O Humberto é capaz de ter o contacto dos dois.

Mantenhas. Luís

____________

Notas de L.G.

(a) Vd post de 21 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCII: O reordenamento de Nhabijões (1969/70)

(b) A grafia correcta será Porto Gole.

(c) Havia vários. Por exemplo, em Maio de 1970, já no final da comissão do BCAÇ 2852 (1968/70), havia três PEL CAÇ NAT no sector: 52 (Bambadinca), 54 (Missirá) e 63 (Fá). Estas unidades não se confundiam com os Pelotões de Milícias: nesta altura, havia já duas Companhias de Milícias... As mílicias tinham uma função de auto-defesa e eram constituídas apenas por elementos da população guineense (neste caso, predominante ou exclusivamente fulas).

25 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCXII: Antologia (21): Choro manjaco, lá no Canchungo

Selecção de Luís Graça:

1. Etnopoema sobre um choro em Canchungo

CHORO

por Jan Muá


"A mim vai na tchoro"
Lá no Canchungo
Eh Batassa
Eh parente
Tam-tam
Eh bombolom...

Eh barro branco da bolanha
Eh máscara cinza

Eh Batassa
Eh irmão
A bó muita mantenha
Eh tripa de vaca
Eh dança
Eh inselência
Eh morto
Eh silêncio
Eh Barsi
Eh irã da morte
Eh vida
Eh vós verdadeiros
Que estais ainda chorando
A parentela
Eh Batassa
Tam-tam...
Am...am...

Jan Muá
Canchungo 1964

______


Glossário (elaborado pelo autor do poema):

Choro - Conjunto de rituais celebrados por ocasião do falecimento de uma pessoa na etnia dos povos animistas na Guiné-Bissau.

Batassa - Uma das famílias principais entre os manjacos, do grupo brame.

Bombolom - Intrumento musical, espécie de tamborim tirado do côncavo do tronco de uma árvore. (É também um instrumento tradicional de comunicação entre aldeias no chão manjaco e no chão balanta. É também o nome da mais célebre - e incómoda, para o poder político - rádio de Bissau, a Rádio Bombolom. L.G.)

Inselência - Era uma parte dos rituais do choro em que se lembravam os nomes dos falecidos da família, quase uma ladainha.

Barsi - Deus entre os Brames.

Bolanha - Várzea para arroz, arrozal.

Irã - Demiurgo ou intermediário entre a divindade superior e os humanos entre os povos animistas da Guiné.

Mantenha - Saudação, em crioulo.

Canchungo - Cidade da região dos manjacos, conhecida entre os portugueses pelo nome de Teixeira Pinto.


Fonte: Usina das Letras


2. Sobre o autor:

Jan Muá é um pseudónimo de João Ferreira, poeta, escritor, ensaísta, crítico literário e jornalista, nascido em Portugal e naturalizado brasileiro em 1977.

João Ferreira é ainda professor universitário e investihgador literário. Co-autor e coordenador da tradução do Dicionário de Política de Norberto Bobbio.

Publicou os seguintes livros: (i) Uaná. São Paulo: Global Editora, 1987; (ii) A Questão do Pré-Modernismo na Literatura Portuguesa. Brasília: Núcleo de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília, 1996;

Com o pseudónoimo de Jan Juá editou A Alma das Coisas (s/l: Editora Papel Virtual, 2004).

Fonte: João Ferreira - Jan Muá

Guiné 63/74 - CCXII: Antologia (21): Choro manjaco, lá no Canchungo

Selecção de Luís Graça:

1. Etnopoema sobre um choro em Canchungo

CHORO

por Jan Muá


"A mim vai na tchoro"
Lá no Canchungo
Eh Batassa
Eh parente
Tam-tam
Eh bombolom...

Eh barro branco da bolanha
Eh máscara cinza

Eh Batassa
Eh irmão
A bó muita mantenha
Eh tripa de vaca
Eh dança
Eh inselência
Eh morto
Eh silêncio
Eh Barsi
Eh irã da morte
Eh vida
Eh vós verdadeiros
Que estais ainda chorando
A parentela
Eh Batassa
Tam-tam...
Am...am...

Jan Muá
Canchungo 1964

______


Glossário (elaborado pelo autor do poema):

Choro - Conjunto de rituais celebrados por ocasião do falecimento de uma pessoa na etnia dos povos animistas na Guiné-Bissau.

Batassa - Uma das famílias principais entre os manjacos, do grupo brame.

Bombolom - Intrumento musical, espécie de tamborim tirado do côncavo do tronco de uma árvore. (É também um instrumento tradicional de comunicação entre aldeias no chão manjaco e no chão balanta. É também o nome da mais célebre - e incómoda, para o poder político - rádio de Bissau, a Rádio Bombolom. L.G.)

Inselência - Era uma parte dos rituais do choro em que se lembravam os nomes dos falecidos da família, quase uma ladainha.

Barsi - Deus entre os Brames.

Bolanha - Várzea para arroz, arrozal.

Irã - Demiurgo ou intermediário entre a divindade superior e os humanos entre os povos animistas da Guiné.

Mantenha - Saudação, em crioulo.

Canchungo - Cidade da região dos manjacos, conhecida entre os portugueses pelo nome de Teixeira Pinto.


Fonte: Usina das Letras


2. Sobre o autor:

Jan Muá é um pseudónimo de João Ferreira, poeta, escritor, ensaísta, crítico literário e jornalista, nascido em Portugal e naturalizado brasileiro em 1977.

João Ferreira é ainda professor universitário e investihgador literário. Co-autor e coordenador da tradução do Dicionário de Política de Norberto Bobbio.

Publicou os seguintes livros: (i) Uaná. São Paulo: Global Editora, 1987; (ii) A Questão do Pré-Modernismo na Literatura Portuguesa. Brasília: Núcleo de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília, 1996;

Com o pseudónoimo de Jan Juá editou A Alma das Coisas (s/l: Editora Papel Virtual, 2004).

Fonte: João Ferreira - Jan Muá

Guiné 63/74 - CCXI: Coisas sobre Canchungo (antiga Teixeira Pinto)

Texto de Afonso M.F. Sousa:

1. Coisas sobre Teixeira Pinto...atrás do objectivo de descobrir algo que nos possa levar à data em que foi atribuido aquele nome à antiga vila do Canchungo, nome que foi reposto com a independência da Guiné-Bissau.

Para já parece estar difícil. Talvez seja melhor interrogar directamente o municipio !...

2. Leio no sítio do Departamento de Estado Norte-Americano > Departamento de Assuntos Africanos > Guiné-Bissau (Agotso de 2005, em inglês):

Antes da 1ª Guerra Mundial, as forças portuguesas sob o comando do major Teixeira Pinto, com algum auxílio da população muçulmana, dominou tribos animistas e estabeleceram eventualmente as fronteiras do território. O interior do Guiné Portuguesa ficou sob controlo após mais de 30 anos de luta; a subjugação final das ilhas de Bijagós não ocorreu senão até 1936. A capital administrativa foi transferida de Bolama para Bissau em 1941, e em 1952, pela emenda constitucional, a colónia da Guiné Portuguesa transformou-se numa província ultramarina de Portugal.

3. De acordo com a Enciclopédia Britância, fico a sabe que Canchungo é actualmente o maior centro guineense de produção de óleo de palma e grande produtor de arroz e de óleo de coconote. Canchungo : "formerly Teixeira Pinto, town, Cacheu region, northwestern Guinea-Bissau, West Africa. The town lies between the Rio Cacheu and the Rio Mansôa in an area of coastal lowlands and is a major producer of oil-palm vegetable oil for export. It is also a market centre for rice and coconuts grown nearby. The town is connected by road to Bissau, the national capital. Pop. (1979) mun., 36,766.)".

4. Leio, no sítio Bolanha - Associação Guineense de Quadros e Estudantes,a notícia de que a Fábrica Sicaju é "um exemplo sucesso de investimento português no país", indo abrir em breve, nos primeiros meses do próximo ano, "uma nova unidade na região de Canchungo, interior norte da Guiné-Bissau". Passo a transcrever, a seguir, a notícia na íntegra (que é da Lusa, 15 de Julho de 2005).

________

Bissau, 15 Jul (Lusa) - A Sicaju, fábrica de transformação da castanha de caju do grupo português MCI Caju, é uma das poucas unidades fabris da Guiné-Bissau, emprega 200 jovens guineenses e é considerada um exemplo de sucesso de investimento português no país.

Hoje de manhã, e já em plena actividade laboral, a Sicaju recebeu a visita do presidente guineense, Henrique Rosa, que após uma visita guiada às instalações da fábrica, construídas de raiz, disse à agência Lusa que estava "encantado" com aquilo que viu.

"Se nós conseguíssemos ter, pelo menos, mais uma dezena de iniciativas como esta poderíamos resolver muitos dos graves problemas sociais que afectam a Guiné-Bissau e, consequentemente, melhorar o preço do caju ao produtor", frisou Henrique Rosa.

O caju, exportado em bruto, essencialmente para a Índia, é, a par da pesca, um dos principais produtos que fazem entrar divisas no Tesouro Público guineense, chegando a gerar receitas na ordem dos 55 milhões de dólares (45,8 milhões de euros).

Laborando a partir de Julho de 2004, a Sicaju tem capacidade para transformar cerca de 16 toneladas de castanha bruta em amêndoa de "primeira qualidade", tendo o mercado holandês como destino principal.

António Mota, gerente e representante da MCI Caju, que detém 60 por cento da fábrica, explicou à agência Lusa que ainda não tem pronta a "encomenda", mas assegurou já ter garantido "comprador" para toda a produção até Maio de 2006.

Levantando um pouco a ponta do véu, António Mota adiantou à Lusa que a sua empresa está "satisfeita" pelo retorno do investimento que fez, uma vez que, com "pouco dinheiro", 1,2 milhões de dólares (cerca de um milhão de euros), tem garantida "uma boa margem de lucro".

Daí o apelo aos empresários portugueses que queiram iniciar ou estejam com dúvidas sobre desenvolver um negocio na Guiné-Bissau.

"Invistam no sector do caju. Há muitas potencialidades nesse sector. O investimento até nem é grande e permite um retorno rápido do capital. Permite ainda uma actividade sustentável e durante todo o ano e enquadrada no próprio país", explicou o gerente da Sicaju.

António Mota adiantou ainda que o sector do caju é a "primeira actividade de negócio" na Guiné-Bissau, pelo que a sua empresa conta alargar horizontes.

Brevemente, o grupo conta receber novos equipamentos de Portugal, o que vai permitir, explicou, que a empresa aumente para 300 o número de funcionários, tendo também garantido a castanha bruta para a produção até Fevereiro de 2006.

Se tudo correr como previsto, a Sicaju vai abrir uma nova unidade na região de Canchungo, interior norte da Guiné-Bissau, nos primeiros meses do próximo ano, afirmou António Mota.

Explicou ainda que a amêndoa produzida pela Sicaju não chega ao mercado português por "manifesta falta de capacidade de resposta" às encomendas que recebe, mas também porque, seguindo as leis da globalização, o mercado holandês "oferece melhores condições de preço".

Ainda a justificar as "vantagens" de um negócio no sector de transformação do caju na Guiné-Bissau, António Mota destacou a "facilidade" na obtenção da matéria-prima e a "disponibilidade" da mão- de-obra local.

"Aqui, nesta unidade de Bissau, temos, neste momento, 200 trabalhadores, todos guineenses. Sou o único estrangeiro aqui. Isso diz tudo das potencialidades deste sector", frisou.

António Mota contou ainda que o salário mínimo praticado na fábrica ronda os 45 mil francos CFA (68,70 euros), sem contar com o almoço e o transporte que a empresa oferece gratuitamente aos trabalhadores.

Questionado pela Lusa, em plena actividade de corte da castanha bruta, o jovem Uié Gomes disse que o trabalho na Sicaju é a "melhor coisa" que já lhe aconteceu.

A razão é, afinal, bem simples: "Tenho um salário mensal e deixei para trás o tédio de ficar em casa sem fazer nada".

O mesmo sucede com a maioria dos 200 trabalhadores, quase todos jovens como Uié Gomes.


5. Filhos ilustres de Canchungo / Teixeira Pinto:

Já referi aqui, noutro post, o nome de Carlos Lopes, um prestigiado sociólogo guineense e quadro superior da ONU, nascido no Canchungo em 1960.

Mas também é do Canchungo o poeta António Baticã Ferreira (Nascido em 1939,
é licenciado em Medicina pela Universidade de Lausana, Suíça. Colaborou em diversas publicações como poeta).

Um dos mais conhecidos e prestigiados jornalistas da Guiné-Bissau, Carlos Batic Ferreira, também era do Canchungo, onde de resto morreu, em 2002, aos 45 anos. jornalismo da Guiné-Bissau.

Aristides Gomes, 1º vice-presidente do PAIGC, também é do Canchungo. Professor primário, ingressou nas fileiras do PAIGC em 18 de Dezembro de 1973, em Cobiana, na Região de Cacheu.

Os nossos amigos e cmaradas de tertúlia ficam ainda a saber que a Câmara Municipal do Porto tem um protocolod e cooperação com o Canchungo, podendo originar uma futura geminação.

É tudo, por agora. Falamos das terras guineenses do passado mas também será giro constatar o que são no presente.

Guiné 63/74 - CCXI: Coisas sobre Canchungo (antiga Teixeira Pinto)

Texto de Afonso M.F. Sousa:

1. Coisas sobre Teixeira Pinto...atrás do objectivo de descobrir algo que nos possa levar à data em que foi atribuido aquele nome à antiga vila do Canchungo, nome que foi reposto com a independência da Guiné-Bissau.

Para já parece estar difícil. Talvez seja melhor interrogar directamente o municipio !...

2. Leio no sítio do Departamento de Estado Norte-Americano > Departamento de Assuntos Africanos > Guiné-Bissau (Agotso de 2005, em inglês):

Antes da 1ª Guerra Mundial, as forças portuguesas sob o comando do major Teixeira Pinto, com algum auxílio da população muçulmana, dominou tribos animistas e estabeleceram eventualmente as fronteiras do território. O interior do Guiné Portuguesa ficou sob controlo após mais de 30 anos de luta; a subjugação final das ilhas de Bijagós não ocorreu senão até 1936. A capital administrativa foi transferida de Bolama para Bissau em 1941, e em 1952, pela emenda constitucional, a colónia da Guiné Portuguesa transformou-se numa província ultramarina de Portugal.

3. De acordo com a Enciclopédia Britância, fico a sabe que Canchungo é actualmente o maior centro guineense de produção de óleo de palma e grande produtor de arroz e de óleo de coconote. Canchungo : "formerly Teixeira Pinto, town, Cacheu region, northwestern Guinea-Bissau, West Africa. The town lies between the Rio Cacheu and the Rio Mansôa in an area of coastal lowlands and is a major producer of oil-palm vegetable oil for export. It is also a market centre for rice and coconuts grown nearby. The town is connected by road to Bissau, the national capital. Pop. (1979) mun., 36,766.)".

4. Leio, no sítio Bolanha - Associação Guineense de Quadros e Estudantes,a notícia de que a Fábrica Sicaju é "um exemplo sucesso de investimento português no país", indo abrir em breve, nos primeiros meses do próximo ano, "uma nova unidade na região de Canchungo, interior norte da Guiné-Bissau". Passo a transcrever, a seguir, a notícia na íntegra (que é da Lusa, 15 de Julho de 2005).

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Bissau, 15 Jul (Lusa) - A Sicaju, fábrica de transformação da castanha de caju do grupo português MCI Caju, é uma das poucas unidades fabris da Guiné-Bissau, emprega 200 jovens guineenses e é considerada um exemplo de sucesso de investimento português no país.

Hoje de manhã, e já em plena actividade laboral, a Sicaju recebeu a visita do presidente guineense, Henrique Rosa, que após uma visita guiada às instalações da fábrica, construídas de raiz, disse à agência Lusa que estava "encantado" com aquilo que viu.

"Se nós conseguíssemos ter, pelo menos, mais uma dezena de iniciativas como esta poderíamos resolver muitos dos graves problemas sociais que afectam a Guiné-Bissau e, consequentemente, melhorar o preço do caju ao produtor", frisou Henrique Rosa.

O caju, exportado em bruto, essencialmente para a Índia, é, a par da pesca, um dos principais produtos que fazem entrar divisas no Tesouro Público guineense, chegando a gerar receitas na ordem dos 55 milhões de dólares (45,8 milhões de euros).

Laborando a partir de Julho de 2004, a Sicaju tem capacidade para transformar cerca de 16 toneladas de castanha bruta em amêndoa de "primeira qualidade", tendo o mercado holandês como destino principal.

António Mota, gerente e representante da MCI Caju, que detém 60 por cento da fábrica, explicou à agência Lusa que ainda não tem pronta a "encomenda", mas assegurou já ter garantido "comprador" para toda a produção até Maio de 2006.

Levantando um pouco a ponta do véu, António Mota adiantou à Lusa que a sua empresa está "satisfeita" pelo retorno do investimento que fez, uma vez que, com "pouco dinheiro", 1,2 milhões de dólares (cerca de um milhão de euros), tem garantida "uma boa margem de lucro".

Daí o apelo aos empresários portugueses que queiram iniciar ou estejam com dúvidas sobre desenvolver um negocio na Guiné-Bissau.

"Invistam no sector do caju. Há muitas potencialidades nesse sector. O investimento até nem é grande e permite um retorno rápido do capital. Permite ainda uma actividade sustentável e durante todo o ano e enquadrada no próprio país", explicou o gerente da Sicaju.

António Mota adiantou ainda que o sector do caju é a "primeira actividade de negócio" na Guiné-Bissau, pelo que a sua empresa conta alargar horizontes.

Brevemente, o grupo conta receber novos equipamentos de Portugal, o que vai permitir, explicou, que a empresa aumente para 300 o número de funcionários, tendo também garantido a castanha bruta para a produção até Fevereiro de 2006.

Se tudo correr como previsto, a Sicaju vai abrir uma nova unidade na região de Canchungo, interior norte da Guiné-Bissau, nos primeiros meses do próximo ano, afirmou António Mota.

Explicou ainda que a amêndoa produzida pela Sicaju não chega ao mercado português por "manifesta falta de capacidade de resposta" às encomendas que recebe, mas também porque, seguindo as leis da globalização, o mercado holandês "oferece melhores condições de preço".

Ainda a justificar as "vantagens" de um negócio no sector de transformação do caju na Guiné-Bissau, António Mota destacou a "facilidade" na obtenção da matéria-prima e a "disponibilidade" da mão- de-obra local.

"Aqui, nesta unidade de Bissau, temos, neste momento, 200 trabalhadores, todos guineenses. Sou o único estrangeiro aqui. Isso diz tudo das potencialidades deste sector", frisou.

António Mota contou ainda que o salário mínimo praticado na fábrica ronda os 45 mil francos CFA (68,70 euros), sem contar com o almoço e o transporte que a empresa oferece gratuitamente aos trabalhadores.

Questionado pela Lusa, em plena actividade de corte da castanha bruta, o jovem Uié Gomes disse que o trabalho na Sicaju é a "melhor coisa" que já lhe aconteceu.

A razão é, afinal, bem simples: "Tenho um salário mensal e deixei para trás o tédio de ficar em casa sem fazer nada".

O mesmo sucede com a maioria dos 200 trabalhadores, quase todos jovens como Uié Gomes.


5. Filhos ilustres de Canchungo / Teixeira Pinto:

Já referi aqui, noutro post, o nome de Carlos Lopes, um prestigiado sociólogo guineense e quadro superior da ONU, nascido no Canchungo em 1960.

Mas também é do Canchungo o poeta António Baticã Ferreira (Nascido em 1939,
é licenciado em Medicina pela Universidade de Lausana, Suíça. Colaborou em diversas publicações como poeta).

Um dos mais conhecidos e prestigiados jornalistas da Guiné-Bissau, Carlos Batic Ferreira, também era do Canchungo, onde de resto morreu, em 2002, aos 45 anos. jornalismo da Guiné-Bissau.

Aristides Gomes, 1º vice-presidente do PAIGC, também é do Canchungo. Professor primário, ingressou nas fileiras do PAIGC em 18 de Dezembro de 1973, em Cobiana, na Região de Cacheu.

Os nossos amigos e cmaradas de tertúlia ficam ainda a saber que a Câmara Municipal do Porto tem um protocolod e cooperação com o Canchungo, podendo originar uma futura geminação.

É tudo, por agora. Falamos das terras guineenses do passado mas também será giro constatar o que são no presente.

24 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCX: Oficial do Estado Maior do 'Caco'... por duas horas

António Spínola (Estremoz, 1910- Lisboa, 1996), presidente da República (de 15 de Maio de a 30 de Setembro de 1974).

Retrato a óleo pelo pintor Jacinto Luís. Presidência da Repúblcsa Portuguesa.



Texto do João Tunes:

Por onde andei, o Spínola só era tratado por "caco" (por causa do vidrinho que ele segurava no olho e que estávamos sempre à espera quando é que se escaqueirava no meio do chão mas o sacana tinha artes de ginástica facial e nunca nos deu esse gozo). (...) Embora mesnos usado, também ouvi chamar-lhe o "gajo do pingalim" mas isso foi em Bissau que era malta mais finaça e quando estive no Estado Maior General (EMG).

Ui, reparo agora que na minha apresentação curricular não vos disse que fui Oficial do Estado Maior General do Comando Territorial Militar da Guiné. Fui, sim senhor. Por duas horas, mas fui.

Esta conta-se depressa. Quando levei a porrada no Pelundo (1) mandaram-me seguir para Bissau à espera de destino de colocação. Por lá estive uns dias a coçar o cú e os tomates pela Messe e Caserna de Oficiais em Santa Luzia mais tomar banho na bruta piscina para a oficialada.

Um dia de manhã, recebo ordem para me apresentar no EMG, na Repartição de Operações, onde tinha sido colocado. Apresentei-me a pensar para comigo "estes gajos tiveram pena, viram que meteram a pata na poça com a porrada que me deram e agora querem compensar a coisa dando-me vida de elite aqui ao pé do General, ora, ainda bem, isto afinal está-se a compôr e há males que vêm por bem" e outras filosofices de basófia (até já me estava a ver com mordomias e coisas que tais).

Apresentei-me e disseram-me para ler umas coisas para me identificar com o serviço, aquilo eram só mapas, mais mensagens e informações confidenciais e secretas sobre o IN, dicas dos pides, combinações em voz baixa, coisa e tal, mais uma data de majores e capitães cagões (por serem da elite do Spínola) e não me esqueço que encontrei lá pessoal que depois foi célebre como o Eanes, o Otelo, o Monge, o Lemos Pires e outros mais, e eu ali na nata das NT.

Ainda não tinha a manhã acabado aparece um dos majores, todo esbaforido (julgo que foi o Lemos Pires que esteve em Timor na descolonização), a dizer que tinha havido engano e que aquele lugar era para outro alferes (pelo nome, filho de boas famílias) e que eu tinha era que arrumar o saco e seguir de Dornier no outro dia pela fresquinha para Catió (2) que ali é que era o sítio certo para oficiais corrécios e punidos.

E desandei dali para fora com as minhas duas horas de serviço de Oficial de Estado Maior com Catió, Cacine, Guileje e Gadamael à minha espera. Lixaram-me o resto da comissão mas não me limpam o currículo. Pois foi aí que eles falavam do "pingalim" quando se referiam ao General (deviam achar que "caco" não era próprio do lugar).

_______

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 15 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CXC: João Tunes, o novo tertuliano.

Vd. também post de 11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLIX: Antologia (15): Lembranças do chão manjaco (Do Pelundo ao Canchungo)

(2) Vd. post de 12 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CLXXXVI: No "reino do Nino": Catió, Cacine, Gadamael, Guileje (1970)

Guiné 63/74 - CCX: Oficial do Estado Maior do 'Caco'... por duas horas

António Spínola (Estremoz, 1910- Lisboa, 1996), presidente da República (de 15 de Maio de a 30 de Setembro de 1974).

Retrato a óleo pelo pintor Jacinto Luís. Presidência da Repúblcsa Portuguesa.



Texto do João Tunes:

Por onde andei, o Spínola só era tratado por "caco" (por causa do vidrinho que ele segurava no olho e que estávamos sempre à espera quando é que se escaqueirava no meio do chão mas o sacana tinha artes de ginástica facial e nunca nos deu esse gozo). (...) Embora mesnos usado, também ouvi chamar-lhe o "gajo do pingalim" mas isso foi em Bissau que era malta mais finaça e quando estive no Estado Maior General (EMG).

Ui, reparo agora que na minha apresentação curricular não vos disse que fui Oficial do Estado Maior General do Comando Territorial Militar da Guiné. Fui, sim senhor. Por duas horas, mas fui.

Esta conta-se depressa. Quando levei a porrada no Pelundo (1) mandaram-me seguir para Bissau à espera de destino de colocação. Por lá estive uns dias a coçar o cú e os tomates pela Messe e Caserna de Oficiais em Santa Luzia mais tomar banho na bruta piscina para a oficialada.

Um dia de manhã, recebo ordem para me apresentar no EMG, na Repartição de Operações, onde tinha sido colocado. Apresentei-me a pensar para comigo "estes gajos tiveram pena, viram que meteram a pata na poça com a porrada que me deram e agora querem compensar a coisa dando-me vida de elite aqui ao pé do General, ora, ainda bem, isto afinal está-se a compôr e há males que vêm por bem" e outras filosofices de basófia (até já me estava a ver com mordomias e coisas que tais).

Apresentei-me e disseram-me para ler umas coisas para me identificar com o serviço, aquilo eram só mapas, mais mensagens e informações confidenciais e secretas sobre o IN, dicas dos pides, combinações em voz baixa, coisa e tal, mais uma data de majores e capitães cagões (por serem da elite do Spínola) e não me esqueço que encontrei lá pessoal que depois foi célebre como o Eanes, o Otelo, o Monge, o Lemos Pires e outros mais, e eu ali na nata das NT.

Ainda não tinha a manhã acabado aparece um dos majores, todo esbaforido (julgo que foi o Lemos Pires que esteve em Timor na descolonização), a dizer que tinha havido engano e que aquele lugar era para outro alferes (pelo nome, filho de boas famílias) e que eu tinha era que arrumar o saco e seguir de Dornier no outro dia pela fresquinha para Catió (2) que ali é que era o sítio certo para oficiais corrécios e punidos.

E desandei dali para fora com as minhas duas horas de serviço de Oficial de Estado Maior com Catió, Cacine, Guileje e Gadamael à minha espera. Lixaram-me o resto da comissão mas não me limpam o currículo. Pois foi aí que eles falavam do "pingalim" quando se referiam ao General (deviam achar que "caco" não era próprio do lugar).

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Notas de L.G.

(1) Vd. post de 15 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CXC: João Tunes, o novo tertuliano.

Vd. também post de 11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLIX: Antologia (15): Lembranças do chão manjaco (Do Pelundo ao Canchungo)

(2) Vd. post de 12 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CLXXXVI: No "reino do Nino": Catió, Cacine, Gadamael, Guileje (1970)

Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática

Luís Moreira, Alf. Mili. Sapador, no Batalhão de Engenharia, em Bissau, já recuperado do acidente com a mina A/C, em Nhabijões (Bambadinca), a 13 de Janeiro de 1971

© Luís Moreira (2005)




Texto do Luís Moreira:

Depois de ler a prosa do João Tunes, dei-me conta de que, também eu, me não apresentei convenientemente aos camarigas que não me conheceram.

Nasci numa vila para os lados de Viseu, mais proprimente em Torredeita, que até vem em alguns mapas e tem uma Escola Superior de Agricultura (Politécnica), muito falada nos telejornais do Verão por o pessoal acampar à sua volta para garantir uma das poucas vagas que são postas à disposição.

Em 1969, com 25 anos e o curso de engenharia interrompido, entrei em Mafra para o curso de oficiais para canhão, onde terminei a especialidade em minas e armadilhas (éramos 16 no pelotão), curso que não terminámos sem que 15 de nós fossemos contemplados com 19 dias de detenção e 45 de dispensas cortadas por, segundo reza a ordem de serviço [texto incompleto] (Como percebem tive de ocultar os nomes dos restantes 15 ex-camaradas por motivos óbvios).

E a punição não foi mais severa porque com 20 dias iríamos todos parar ao contingente geral e não teriam oficiais sapadores para enviarem para os teatros de guerra. Se o pudessem fazer estavam-se a borrifar para a oportunidade de reorientarmos o nosso comportamento.

Já como aspirante miliciano fui para Bragança instruir soldados que iriam para a as ex-colónias. Terminada a instrução fiz uma passagem por Tancos onde, pretensamente, deveria aprender mais alguma coisa sobre minas e armadilhas mas fiquei convencido de que, com o que aprendemos em Mafra, sabíamos mais que os oficiais e sargentos nossos instrutores em Tancos.

Finalmente fui para Viana do Castelo onde me encontrei com todos os ex-camaradas de infortúnio e formámos o BART 2917.

Em princípios de Maio de 1970 embarcámos naquela que foi a última viagem do velho Carvalho Araújo e desembarcámos em Bissau a 17 do mesmo mês. Ainda me recordo da expressão do Capitão que foi o meu comandante de Companhia e de que não me recordo do nome (ajude-me quem souber - seria o Passos Marques ou esse foi o do Batalhão de Engemharia ?) quando viu um pequeno furo à proa do navio, cerca de um metro acima da linha de àgua, por onde saía um fio de óleo e que o deixou preocupado desconfiando que não chegaria ao destino. Mas chegou e nós também naquela que até foi uma viagem calma.

O resto foi igual ao que já todos sabem. Desembarque, alojamento no Quartel de Adidos em Brá, saída uns dias depois e embarque na LDG que nos levou ao Xime e daí para os outros destinos em coluna.

Em 13 de janeiro do ano seguinte, 1971, foi o acidente com a mina anticarro de que já se falou e se voltará a falar, precedida, na altura do Natal, por uma visita do "homem do caco" ao reordenamento dos Nhabijões, onde esperou 20 minutos pelo alferes sapador, eu, que tinha ido à lenha com umas bajudas, mas que foi encoberto pelo David Guimarães e restantes ex-camaradas que lhe disseram que tinha ido buscar bidões de água para oas obras que estávamos a fazer. A peta pegou pois quando fui almoçar a Bambadinca ninguém me perguntou por onde andei.

Luís Moreira, aos 59 anos, professor de matemática (hoje tem 61 e está à beira da reforma).

© Luís Moreira (2005)


Após o acidente e consequente evacuação para o Hospital de Bissau, fui logo no dia seguinte visitado pelo dito Senhor Comandante que me desejou as rápidas melhoras. Devia estar a fazer falta no reordenamento que, diziam, era a menina dos olhos dele. Mas os médicos trocaram-lhe as voltas pois passaram-me aos serviços auxiliares e depois de uma breve passagem por Bambadinca vim fazer mais 15 ou 16 meses de serviço até 7 de Junho de 1972, mas no Batalhão de Engenharia, com direito a ar condicionado e tudo na messe e no bar de oficiais.

Regressei, terminei a minha licenciatura em Matemática (resolvi mudar de
curso) e passei a ser mais um dos tão criticados professores do ensino secundário que todos acusam de nada fazer a não ser martirizar as ciancinhas. Gostava de ver esses críticos a dar aulas a algumas das turmas que me passaram pelas mãos. Iam parar mais depressa à psiquiatria do que os Bravos que sofreram morteiradas todos os dias na Guiné. Mas esta é outra história. Felizmente vou pedir a reforma para o mês que vem embora, por decisão desta ministra, tenha de aguentar a dar aulas todo o ano lectivo.

Como já vi as fotos de alguns camarigas no antes e no depois, junto também as minhas, uma aos 26 anos já no ar condicionado do BENG 447, e outra mais recente, teria os meus 59 anos (hoje estou com 61).

Mantenhas.

Luís Moreira

Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática

Luís Moreira, Alf. Mili. Sapador, no Batalhão de Engenharia, em Bissau, já recuperado do acidente com a mina A/C, em Nhabijões (Bambadinca), a 13 de Janeiro de 1971

© Luís Moreira (2005)




Texto do Luís Moreira:

Depois de ler a prosa do João Tunes, dei-me conta de que, também eu, me não apresentei convenientemente aos camarigas que não me conheceram.

Nasci numa vila para os lados de Viseu, mais proprimente em Torredeita, que até vem em alguns mapas e tem uma Escola Superior de Agricultura (Politécnica), muito falada nos telejornais do Verão por o pessoal acampar à sua volta para garantir uma das poucas vagas que são postas à disposição.

Em 1969, com 25 anos e o curso de engenharia interrompido, entrei em Mafra para o curso de oficiais para canhão, onde terminei a especialidade em minas e armadilhas (éramos 16 no pelotão), curso que não terminámos sem que 15 de nós fossemos contemplados com 19 dias de detenção e 45 de dispensas cortadas por, segundo reza a ordem de serviço [texto incompleto] (Como percebem tive de ocultar os nomes dos restantes 15 ex-camaradas por motivos óbvios).

E a punição não foi mais severa porque com 20 dias iríamos todos parar ao contingente geral e não teriam oficiais sapadores para enviarem para os teatros de guerra. Se o pudessem fazer estavam-se a borrifar para a oportunidade de reorientarmos o nosso comportamento.

Já como aspirante miliciano fui para Bragança instruir soldados que iriam para a as ex-colónias. Terminada a instrução fiz uma passagem por Tancos onde, pretensamente, deveria aprender mais alguma coisa sobre minas e armadilhas mas fiquei convencido de que, com o que aprendemos em Mafra, sabíamos mais que os oficiais e sargentos nossos instrutores em Tancos.

Finalmente fui para Viana do Castelo onde me encontrei com todos os ex-camaradas de infortúnio e formámos o BART 2917.

Em princípios de Maio de 1970 embarcámos naquela que foi a última viagem do velho Carvalho Araújo e desembarcámos em Bissau a 17 do mesmo mês. Ainda me recordo da expressão do Capitão que foi o meu comandante de Companhia e de que não me recordo do nome (ajude-me quem souber - seria o Passos Marques ou esse foi o do Batalhão de Engemharia ?) quando viu um pequeno furo à proa do navio, cerca de um metro acima da linha de àgua, por onde saía um fio de óleo e que o deixou preocupado desconfiando que não chegaria ao destino. Mas chegou e nós também naquela que até foi uma viagem calma.

O resto foi igual ao que já todos sabem. Desembarque, alojamento no Quartel de Adidos em Brá, saída uns dias depois e embarque na LDG que nos levou ao Xime e daí para os outros destinos em coluna.

Em 13 de janeiro do ano seguinte, 1971, foi o acidente com a mina anticarro de que já se falou e se voltará a falar, precedida, na altura do Natal, por uma visita do "homem do caco" ao reordenamento dos Nhabijões, onde esperou 20 minutos pelo alferes sapador, eu, que tinha ido à lenha com umas bajudas, mas que foi encoberto pelo David Guimarães e restantes ex-camaradas que lhe disseram que tinha ido buscar bidões de água para oas obras que estávamos a fazer. A peta pegou pois quando fui almoçar a Bambadinca ninguém me perguntou por onde andei.

Luís Moreira, aos 59 anos, professor de matemática (hoje tem 61 e está à beira da reforma).

© Luís Moreira (2005)


Após o acidente e consequente evacuação para o Hospital de Bissau, fui logo no dia seguinte visitado pelo dito Senhor Comandante que me desejou as rápidas melhoras. Devia estar a fazer falta no reordenamento que, diziam, era a menina dos olhos dele. Mas os médicos trocaram-lhe as voltas pois passaram-me aos serviços auxiliares e depois de uma breve passagem por Bambadinca vim fazer mais 15 ou 16 meses de serviço até 7 de Junho de 1972, mas no Batalhão de Engenharia, com direito a ar condicionado e tudo na messe e no bar de oficiais.

Regressei, terminei a minha licenciatura em Matemática (resolvi mudar de
curso) e passei a ser mais um dos tão criticados professores do ensino secundário que todos acusam de nada fazer a não ser martirizar as ciancinhas. Gostava de ver esses críticos a dar aulas a algumas das turmas que me passaram pelas mãos. Iam parar mais depressa à psiquiatria do que os Bravos que sofreram morteiradas todos os dias na Guiné. Mas esta é outra história. Felizmente vou pedir a reforma para o mês que vem embora, por decisão desta ministra, tenha de aguentar a dar aulas todo o ano lectivo.

Como já vi as fotos de alguns camarigas no antes e no depois, junto também as minhas, uma aos 26 anos já no ar condicionado do BENG 447, e outra mais recente, teria os meus 59 anos (hoje estou com 61).

Mantenhas.

Luís Moreira

23 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCVIII: Antologia (20): A língua portuguesa e a sua dimensão africana

Por sugestão do tertuliano Afonso M.F. Sousa (que andou a fazer pesquisas sobre a Teixeira Pinto / Canchungo):

Texto de Carlos Lopes (1) > A dimensão africana


A relação entre um grafema e fonema é algo que me suscita as maiores curiosidades. Como qualquer intelectual globalizado, o meu cosmopolitismo manifesta-se pelo conhecimento de várias línguas. Já não é fácil saber qual é a mais apropriada para cada sujeito em discussão. Dependendo da vivência associada ao tópico pode ser o francês, espanhol, mas também o inglês ou rudimentarmente o italiano, o alemão e até o grego. Por ter sido exposto de uma maneira ou outra a este leque de criações europeias, sou obrigado a caracterizar-me como um europeizado.

Paradoxalmente é o português que me aproxima da minha dimensão africana, porque ele serve de alimento a uma outra língua -o kriol- que é a raiz da contemporaneidade guineense.

Do português interessam-me muitas coisas, a começar pela relação específica que existe em qualquer língua entre grafema e fonema. Em nenhuma outra língua, nem mesmo em kriol (devido à sua jovem normalização), me sinto tão à vontade. Aqui posso emprestar as palavras mais densas, os verbos mais aristocráticos, as sílabas mais estridentes, as expressões mais amargas, sem qualquer hesitação fonética. É um atributo que me aproxima da língua de tal forma que ela se torna minha, propriedade pessoal, privada, individualizada... capaz de projectar os sentimentos mais egoístas e introvertidos.

E, no entanto, eu sei... eu tenho plena consciência que ela também é propriedade de milhões de pessoas de Braga a Canchungo, de Londrina a Bakau, de Newark a Lobito, de S. Vicente à Beira, de Penang à Ilha do Príncipe, muito para além das capitais de quem se atribui a lusofonia. É essa riqueza, que atravessa firmemente todas estas civilizações da língua portuguesa, que me emociona e me permite reconhecer, aqui e ali, nos mais diferentes espaços e contextos, o sentimento de que não estou só... no mundo.

18/04/1997

Fonte: © 1998 Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
________________


(1) Sociólogo e escritor guineense, nascido em Teixeira Pinto/Canchungo, em 1960 . É um intectual africano de prestígio internacional. É actualmente um quadro superior das Nações Unidas.

Guiné 63/74 - CCVIII: Antologia (20): A língua portuguesa e a sua dimensão africana

Por sugestão do tertuliano Afonso M.F. Sousa (que andou a fazer pesquisas sobre a Teixeira Pinto / Canchungo):

Texto de Carlos Lopes (1) > A dimensão africana


A relação entre um grafema e fonema é algo que me suscita as maiores curiosidades. Como qualquer intelectual globalizado, o meu cosmopolitismo manifesta-se pelo conhecimento de várias línguas. Já não é fácil saber qual é a mais apropriada para cada sujeito em discussão. Dependendo da vivência associada ao tópico pode ser o francês, espanhol, mas também o inglês ou rudimentarmente o italiano, o alemão e até o grego. Por ter sido exposto de uma maneira ou outra a este leque de criações europeias, sou obrigado a caracterizar-me como um europeizado.

Paradoxalmente é o português que me aproxima da minha dimensão africana, porque ele serve de alimento a uma outra língua -o kriol- que é a raiz da contemporaneidade guineense.

Do português interessam-me muitas coisas, a começar pela relação específica que existe em qualquer língua entre grafema e fonema. Em nenhuma outra língua, nem mesmo em kriol (devido à sua jovem normalização), me sinto tão à vontade. Aqui posso emprestar as palavras mais densas, os verbos mais aristocráticos, as sílabas mais estridentes, as expressões mais amargas, sem qualquer hesitação fonética. É um atributo que me aproxima da língua de tal forma que ela se torna minha, propriedade pessoal, privada, individualizada... capaz de projectar os sentimentos mais egoístas e introvertidos.

E, no entanto, eu sei... eu tenho plena consciência que ela também é propriedade de milhões de pessoas de Braga a Canchungo, de Londrina a Bakau, de Newark a Lobito, de S. Vicente à Beira, de Penang à Ilha do Príncipe, muito para além das capitais de quem se atribui a lusofonia. É essa riqueza, que atravessa firmemente todas estas civilizações da língua portuguesa, que me emociona e me permite reconhecer, aqui e ali, nos mais diferentes espaços e contextos, o sentimento de que não estou só... no mundo.

18/04/1997

Fonte: © 1998 Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
________________


(1) Sociólogo e escritor guineense, nascido em Teixeira Pinto/Canchungo, em 1960 . É um intectual africano de prestígio internacional. É actualmente um quadro superior das Nações Unidas.

Guiné 63/74 - CCVII: Da tertúlia virtual ao encontro de carne e osso

Humberto (e demais tertulianos):

Fazes-me lembrar o nosso velho capitão (não se manda um cota para a guerra, já quase quarentão!), lá para os lados do Corubal, numa das muitas operações em que demos e levámos porrada de criar bicho... Ele, coitado, atrás de uma árvore e a dar ordens: "Companhia, avançar!... Companhia, recuar!"... Era (é) um homem afável e bom!

Tens razão: cá na nossa tertúlia, é assim, "para a frente é que é o caminho"...Felizmente, que já não temos de fugir dos tiros das costureinhas, das kalash, das roquetadas, canhoadas e morteiradas, nem muito menos das abelhas assassinas...

A ideia do João Tunes, secundada por ti, faz sentido. A nossa tertúlia é virtual: a maior parte de nós não se conhece, a não ser de fotografia (e só alguns)... Eu sei que no futuro cada vez mais gente vai ter colegas de trabalho ou clientes virtuais, ligados`em rede...


Mas nós queremos dar um abraço ao Lepoldo e sentir os seus ossos que sobreviveram às andanças por Catió e Bolama e sobretudo a essa coisa medomnha que é uam guerra (para mais quando se é criança)... Queremos dar-lhe aquele abraço que ele merece, quando ele, brilantemente, discutir a sua tese... A propósito ainda não sei onde é que ele está a fazer o seu mestrado (presumo, ou será doutoramento ?): é possível que seja no ISCSP (no polo universitário do Alto de Monsanto ou na Junqueira ?) ou então na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ao Campo Grande... A menos que esteja numa universidade privada, não sei...

De qualquer modo, vai ser aqui em Lisboa, terra conquistada aos mouros... Ora como tu dizes e bem uma boa parte dos nossos tertulianos são... morcões (que é o termo carimnhos que uso quando falo com os meus cunhados, sobrinhso e amigos do Portucale, o Portugal primitivo e original, que ia do Minho ao Douro...

Eu tenho estruturas logísticas no Norte (Quinta de Candoz, no Marco de Caneveses, já no limite do Marco com o de Baião, perto da barragem do Carrapatelo, no Douro), e água de Lisboa (... boa e com fartura), que neste caso é branca e verde...

O sítio é fácil de encontar: de Lisboa, é seguir a A1 e depois a A3 (Vila Real), cortar para o Marco e seguir a estrada da Régua... A malta do Porto e arredores está em casa... Os do Alto Minho (Viana do cstelo...) também, ficam perto... Mais longe estamos nós aqui: mas não chega,m a 400 quilómetros, o meu sítio. Já convidei o Guimarães e o Marques Lopes, que são so que estão mais perto de lá (cerca de 60 km)... Eu hoje devia estar lá nas vindimas...

Havemos de arranjar qualquer coisa. Para um primeiro encontro, mais formal e académico, não será difícil de arranjar uma sala, com todos os meios de audiovisuais necessários (incluindo o data-show) na minha Escola, que fica na Av Cruz, a seguir ao estádio do Sporting e pegada ao Instituto Ricardo Jorge.

O objectivo é ouvir a charla do Leopoldo, admitindo que ele está disposto a fazer uma sessão só para VIP como nós... A almoçarada tem que ser a seguir (há aqui bons restaurantes na zona, no Lumiar e em Carnide). Outro encontro, mais alargado, terá que ser no Norte... De qualquer modo, o pretexto é sempre celebrar a vida, a amizade, a camaradagem...

Vejam as blogarias de ontem e a minha/nossa despedida ao Paulo que vai para Bissau um ano, com meia companhia, armas e bagagem. Parte no dia 30 deste mês.

Mantenhas para o pessoal todo, os camarigos (feliz invenção do João, que assim enriquece a nossa querida língua portuguesa, e sobretudo deixa de fazer a distinção, subtilmente discriminatória, entre amigos e camaradas, como fazem os militantes do PC...)

Luís


PS - Humberto, és um sortudo que vai de férias, de 4 a 9 de Outubro, a Cabo Verde (e eu ainda não fui lá, revisitar os sítios por onde andou o meu velhote na II Guerra Mundial...). Até lá a gente ainda se fala. Mas espero que faças umas "chapas" aqui para o blogue: vais à Ilha de São Vicente ? Se sim, vou-te fazer uma encomenda de fotos, para matar saudades (a mim e ao meu velhote)...

Guiné 63/74 - CCVII: Da tertúlia virtual ao encontro de carne e osso

Humberto (e demais tertulianos):

Fazes-me lembrar o nosso velho capitão (não se manda um cota para a guerra, já quase quarentão!), lá para os lados do Corubal, numa das muitas operações em que demos e levámos porrada de criar bicho... Ele, coitado, atrás de uma árvore e a dar ordens: "Companhia, avançar!... Companhia, recuar!"... Era (é) um homem afável e bom!

Tens razão: cá na nossa tertúlia, é assim, "para a frente é que é o caminho"...Felizmente, que já não temos de fugir dos tiros das costureinhas, das kalash, das roquetadas, canhoadas e morteiradas, nem muito menos das abelhas assassinas...

A ideia do João Tunes, secundada por ti, faz sentido. A nossa tertúlia é virtual: a maior parte de nós não se conhece, a não ser de fotografia (e só alguns)... Eu sei que no futuro cada vez mais gente vai ter colegas de trabalho ou clientes virtuais, ligados`em rede...


Mas nós queremos dar um abraço ao Lepoldo e sentir os seus ossos que sobreviveram às andanças por Catió e Bolama e sobretudo a essa coisa medomnha que é uam guerra (para mais quando se é criança)... Queremos dar-lhe aquele abraço que ele merece, quando ele, brilantemente, discutir a sua tese... A propósito ainda não sei onde é que ele está a fazer o seu mestrado (presumo, ou será doutoramento ?): é possível que seja no ISCSP (no polo universitário do Alto de Monsanto ou na Junqueira ?) ou então na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ao Campo Grande... A menos que esteja numa universidade privada, não sei...

De qualquer modo, vai ser aqui em Lisboa, terra conquistada aos mouros... Ora como tu dizes e bem uma boa parte dos nossos tertulianos são... morcões (que é o termo carimnhos que uso quando falo com os meus cunhados, sobrinhso e amigos do Portucale, o Portugal primitivo e original, que ia do Minho ao Douro...

Eu tenho estruturas logísticas no Norte (Quinta de Candoz, no Marco de Caneveses, já no limite do Marco com o de Baião, perto da barragem do Carrapatelo, no Douro), e água de Lisboa (... boa e com fartura), que neste caso é branca e verde...

O sítio é fácil de encontar: de Lisboa, é seguir a A1 e depois a A3 (Vila Real), cortar para o Marco e seguir a estrada da Régua... A malta do Porto e arredores está em casa... Os do Alto Minho (Viana do cstelo...) também, ficam perto... Mais longe estamos nós aqui: mas não chega,m a 400 quilómetros, o meu sítio. Já convidei o Guimarães e o Marques Lopes, que são so que estão mais perto de lá (cerca de 60 km)... Eu hoje devia estar lá nas vindimas...

Havemos de arranjar qualquer coisa. Para um primeiro encontro, mais formal e académico, não será difícil de arranjar uma sala, com todos os meios de audiovisuais necessários (incluindo o data-show) na minha Escola, que fica na Av Cruz, a seguir ao estádio do Sporting e pegada ao Instituto Ricardo Jorge.

O objectivo é ouvir a charla do Leopoldo, admitindo que ele está disposto a fazer uma sessão só para VIP como nós... A almoçarada tem que ser a seguir (há aqui bons restaurantes na zona, no Lumiar e em Carnide). Outro encontro, mais alargado, terá que ser no Norte... De qualquer modo, o pretexto é sempre celebrar a vida, a amizade, a camaradagem...

Vejam as blogarias de ontem e a minha/nossa despedida ao Paulo que vai para Bissau um ano, com meia companhia, armas e bagagem. Parte no dia 30 deste mês.

Mantenhas para o pessoal todo, os camarigos (feliz invenção do João, que assim enriquece a nossa querida língua portuguesa, e sobretudo deixa de fazer a distinção, subtilmente discriminatória, entre amigos e camaradas, como fazem os militantes do PC...)

Luís


PS - Humberto, és um sortudo que vai de férias, de 4 a 9 de Outubro, a Cabo Verde (e eu ainda não fui lá, revisitar os sítios por onde andou o meu velhote na II Guerra Mundial...). Até lá a gente ainda se fala. Mas espero que faças umas "chapas" aqui para o blogue: vais à Ilha de São Vicente ? Se sim, vou-te fazer uma encomenda de fotos, para matar saudades (a mim e ao meu velhote)...

Guiné 63/74 - CCVI: Guerra colonial 'versus' guerra de libertação nacional: um estudo de caso

Guiné-Bissau > Zona Leste > Bambadinca > 1997:

O antigo edifício dos correios... A sigla (CTT) está lá inscrita na parede com as mesmas letras de há 35 anos... O Leopoldo Amado não passou por aqui, quando djubi, mas esteve em Catió e Bolama... O pai era chefe dos correios.


"Daqui telefonei para Lisboa umas 3 ou 4 vezes. In ilo tempore, em que se pedia a chamada com dois dias de antecedência e com hora marcada!" (Humberto Reis)...

© Humberto Reis (2005) (com a colaboração do Braima Samá, professor primário em Bambadina e improvisado fotógrafo em 1997)



1. Post de JoãoTunes:

Amigo Leopoldo (para o caso, camarada está a mais...)

Folgo que a tese vá com toda a tusa. O resultado só poderá ser brilhante, não tenho dúvidas.

Uma sugestão: porque não uma sessão já a seguir para os tertulianos, estilo treino, em que o meu caro amigo apresentava as linhas de força da sua tese e se submetia a fogo cerrado de artilharia, helicanhão, emboscadas e golpes de mãos dos combatentes velhinhos?

Não seria um bom ensaio de defesa de tese? Estou certo que os tertulianos ex-combatentes apreciariam esse duelo com a memória e a sua arrumação. Por mim falando, teria o maior prazer e acicate. Dito melhor, manga de ronco.

Se a ideia tivesse pés para andar, julgo que o Luís não teria dificuldade em arranjar uma sala de cenário adequado a que se seguiria zarpar para uma petiscada numa messe qualquer - a "Trindade" por exemplo, junto ao Largo Camões - onde se pudesse confraternizar... O que interessava seria, sobretudo, conhecermo-nos - ou revermo-nos para os que andaram juntos - passando ou regressando da amizade virtual para a real.

Escuto.
Mantenha pa nhos tudu.
João Tunes

2. Resposta, de imediato, do Leopoldo Amado:

Caro amigo Tunes,

Teria todo prazer em coligir uma notas e partilhar as linhas de força da minha tese: "Guerra Colonial versus guerra de libertação nacional (1963-1974): o caso da Guiné-Bissau". Seria igualmente importante para mim (e para todos, creio) o feedback que certamente tal ocasionaria.

Porém, não sei se a cervejaria Trindade serve para o propósito: muita gente, muita cerveja e, provavelmente algum barulho. Pelo menos era assim há uns 15 anos. Há muito que lá não vou. Como quer que seja, é-me indiferente o local, conquanto possamos (re)encontrar-nos, uma vez que estivemos juntos no mesmo Teatro de Operações, embora cada um na sua latitude.

Mas não espero encontrar combatentes velhinhos. Espero, isso sim, encontrar jovens bem dispostos, com uma média de idades a rondar os 60 anos, isto é, homens que se rejuvenesceram física espiritualmente. Afinal, fostes "soldados uma vez, sempre soldados”, parafraseando o titulo da obra do pára-quedista Nuno Mira Vaz.

Aquela guerra foi igualmente minha. O meu pai era chefe dos Correios, pelo que calcorreámos a Guiné toda. Calhava-nos, por cúmulo de azar, os sítios mais quentes. Tenho muitas lembranças desta vossa/minha guerra, porque vivi-a na infância e na adolescência, mas vivi-a de algum modo: os 122 mm e afins do PAIGC também passaram muita vez por cima da minha casa, quer em Catió, quer em Bolama...

Escuto. Leopoldo Amado


3. Intervenção do Humberto Reis:

Leopoldo Amado, meu amigo tertuliano:

Tiro o meu chapéu à sua disponibilidade para uma primeira conversa, de muitas esperemos, com estes rapazes novos da casa das +/- 60 Primaveras.

Estou disponível para quando quiserem, excepto de 4 a 9 de Outubro próximo, em que vou estar em Cabo Verde. Não é em serviço mas sim uns dias de vacances. Acontece que o Paulo Salgado vai à Guiné no dia 30 mas não disse quando voltava. Esperemos que seja rápida a resposta dele, para se poder organizar este encontro.

Pelo que o João Tunes escreve, a ideia do encontro é numa sala que consigamos arranjar (ele sugere que talvez o Luís tenha mais facilidade em conseguir lá na universidade) e no pós-sabatina, então sim, irmos beber uma bejeca à Trindade, ou outro lado qualquer.

Não quero deixar de chamar a atenção da rapaziada, de que isto através destas modernices dos computadores é fácil e prático, mas as presenças físicas já começam a dar que pensar. Temos tertulianos de todo o país e, se isto fosse pensado para o norte do país, por exemplo, eu gostaria de me deslocar lá.

Como o Leopoldo está em Lisboa, julgo que seria de aguardar pelas reacções dos restantes compagnons de route que residem mais afastados cá do burgo. Não quero dizer com isto que este(s) encontro(s) tenha(m) de ter a comparência de todos os tertulianos, nada disso (era utópico pensar em tal). Apenas sugiro que auscultemos as opiniões dos outros.

"Avancemos para a frente" pois não temos tempo de "recuar para trás".

Um abraço a todos
Humberto Reis

Guiné 63/74 - CCVI: Guerra colonial 'versus' guerra de libertação nacional: um estudo de caso

Guiné-Bissau > Zona Leste > Bambadinca > 1997:

O antigo edifício dos correios... A sigla (CTT) está lá inscrita na parede com as mesmas letras de há 35 anos... O Leopoldo Amado não passou por aqui, quando djubi, mas esteve em Catió e Bolama... O pai era chefe dos correios.


"Daqui telefonei para Lisboa umas 3 ou 4 vezes. In ilo tempore, em que se pedia a chamada com dois dias de antecedência e com hora marcada!" (Humberto Reis)...

© Humberto Reis (2005) (com a colaboração do Braima Samá, professor primário em Bambadina e improvisado fotógrafo em 1997)



1. Post de JoãoTunes:

Amigo Leopoldo (para o caso, camarada está a mais...)

Folgo que a tese vá com toda a tusa. O resultado só poderá ser brilhante, não tenho dúvidas.

Uma sugestão: porque não uma sessão já a seguir para os tertulianos, estilo treino, em que o meu caro amigo apresentava as linhas de força da sua tese e se submetia a fogo cerrado de artilharia, helicanhão, emboscadas e golpes de mãos dos combatentes velhinhos?

Não seria um bom ensaio de defesa de tese? Estou certo que os tertulianos ex-combatentes apreciariam esse duelo com a memória e a sua arrumação. Por mim falando, teria o maior prazer e acicate. Dito melhor, manga de ronco.

Se a ideia tivesse pés para andar, julgo que o Luís não teria dificuldade em arranjar uma sala de cenário adequado a que se seguiria zarpar para uma petiscada numa messe qualquer - a "Trindade" por exemplo, junto ao Largo Camões - onde se pudesse confraternizar... O que interessava seria, sobretudo, conhecermo-nos - ou revermo-nos para os que andaram juntos - passando ou regressando da amizade virtual para a real.

Escuto.
Mantenha pa nhos tudu.
João Tunes

2. Resposta, de imediato, do Leopoldo Amado:

Caro amigo Tunes,

Teria todo prazer em coligir uma notas e partilhar as linhas de força da minha tese: "Guerra Colonial versus guerra de libertação nacional (1963-1974): o caso da Guiné-Bissau". Seria igualmente importante para mim (e para todos, creio) o feedback que certamente tal ocasionaria.

Porém, não sei se a cervejaria Trindade serve para o propósito: muita gente, muita cerveja e, provavelmente algum barulho. Pelo menos era assim há uns 15 anos. Há muito que lá não vou. Como quer que seja, é-me indiferente o local, conquanto possamos (re)encontrar-nos, uma vez que estivemos juntos no mesmo Teatro de Operações, embora cada um na sua latitude.

Mas não espero encontrar combatentes velhinhos. Espero, isso sim, encontrar jovens bem dispostos, com uma média de idades a rondar os 60 anos, isto é, homens que se rejuvenesceram física espiritualmente. Afinal, fostes "soldados uma vez, sempre soldados”, parafraseando o titulo da obra do pára-quedista Nuno Mira Vaz.

Aquela guerra foi igualmente minha. O meu pai era chefe dos Correios, pelo que calcorreámos a Guiné toda. Calhava-nos, por cúmulo de azar, os sítios mais quentes. Tenho muitas lembranças desta vossa/minha guerra, porque vivi-a na infância e na adolescência, mas vivi-a de algum modo: os 122 mm e afins do PAIGC também passaram muita vez por cima da minha casa, quer em Catió, quer em Bolama...

Escuto. Leopoldo Amado


3. Intervenção do Humberto Reis:

Leopoldo Amado, meu amigo tertuliano:

Tiro o meu chapéu à sua disponibilidade para uma primeira conversa, de muitas esperemos, com estes rapazes novos da casa das +/- 60 Primaveras.

Estou disponível para quando quiserem, excepto de 4 a 9 de Outubro próximo, em que vou estar em Cabo Verde. Não é em serviço mas sim uns dias de vacances. Acontece que o Paulo Salgado vai à Guiné no dia 30 mas não disse quando voltava. Esperemos que seja rápida a resposta dele, para se poder organizar este encontro.

Pelo que o João Tunes escreve, a ideia do encontro é numa sala que consigamos arranjar (ele sugere que talvez o Luís tenha mais facilidade em conseguir lá na universidade) e no pós-sabatina, então sim, irmos beber uma bejeca à Trindade, ou outro lado qualquer.

Não quero deixar de chamar a atenção da rapaziada, de que isto através destas modernices dos computadores é fácil e prático, mas as presenças físicas já começam a dar que pensar. Temos tertulianos de todo o país e, se isto fosse pensado para o norte do país, por exemplo, eu gostaria de me deslocar lá.

Como o Leopoldo está em Lisboa, julgo que seria de aguardar pelas reacções dos restantes compagnons de route que residem mais afastados cá do burgo. Não quero dizer com isto que este(s) encontro(s) tenha(m) de ter a comparência de todos os tertulianos, nada disso (era utópico pensar em tal). Apenas sugiro que auscultemos as opiniões dos outros.

"Avancemos para a frente" pois não temos tempo de "recuar para trás".

Um abraço a todos
Humberto Reis

Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970: Da esquerda para a direita, os ex-furriéis milicianos Marques e Henriques da CCAÇ 12.

Os dois foram vítimas, juntamente com as suas secções (4º Grupo de Combate), da explosão de uma mina anti-carro na GMC em que seguiam (Estrada de Nhabijões-Bambadinca, 13 de Janeiro de 1971, a um m~es de acabarem a sua comissão de serviço).

O Marques foi gravemente ferido, tendo sido evacuado para a Metrópole. A sua reabilitação foi morosa e pensoa. É hoje mais um DFA (deficiente das forças armadasa).

© Luís Graça (2005)


História da CCAÇ 12 (1969/71)

(19) Janeiro de 1971: 1 morto de 6 feridos graves aos 20 meses


O dia 13 seria uma data fatídica para as NT, e em especial para a CCAÇ 12 cujos quadros metropolitanos estavam prestes a terminar a sua comissão de serviço em terras da Guiné. Eis o filme dos acontecimentos:

(i) Às 5.45h o 1º Gr Comb detectou, durante a batida à região de Ponta Coli, vestígios dum grupo IN de 20 elementos vindos em acção de reconhecimento aos trabalhos da TECNIL na estrada Bambadinca-Xime e locais de instalação das NT.

(ii) Às 11.25h, na estrada de Nhabijões-Bambadinca, uma viatura tipo Unimog 411, conduzida pelo Sold Soares (CCAÇ 12) que ia buscar [a Bambadinca] a 2ª refeição para o pessoal daquele destacamento, accionou uma mina A/C.

0 condutor teve morte instantânea. Ficaram gravemente feridos 1 Oficial (CCS / BART 2917)[Alf. Mil. Moreira] (a), 1 Sargento (Fur Mil Fernandes/CCAÇ 12) e 1 Praça (CCS / BART 2917).

(iii) Imediatamente alertadas as NT em Bambadinca, o Gr Comb de intervenção (4º, CCAÇ 12) recebeu a missão de seguir para o local a fim de fazer o reconhecimento da zona, enquanto outras forças acorriam a socorrer os sinistrados.

Ao chegar junto da viatura minada, o Cmdt do 4° Gr Comb [Alf. Mil. Rodrigues] (b) deixou duas praças a fazer a pesquisa, na estrada e imediações, de outros possíveis engenhos explosivos, no que foram apoiados por alguns elementos do destacamento, seguindo depois uma pista de peugadas recentes, detectadas nas proximidades, e que se dirigiam para a orla da mata.

Aqui, a 50 metros da estrada, atrás duma árvore incrustada num baga-baga, encontraram-se vestígios muito recentes. Seguindo os rastos através da mata, foi dar-se à antiga tabanca de Imbumbe [um dos cinco núcleos populacionais de Nhabijões (c), agora transferidos para o reordenamento], mas nas proximidades do reordenamento (Bolubate) aqueles passaram a confundir-se com os do pessoal que trabalha na bolanha.

(iv) Regressado ao local das viaturas, o Gr Comb pelas 13.30h recebeu ordens para recolher, tendo o pessoal tomado lugar no Unimog e na GMC em que tinha vindo. Esta última [onde vinham as secções, comandadas pelos Fur. Mil. Marques e Henriques] (d) , entretanto, ao fazer inversão de marcha, e tendo saído fora da estrada com o rodado trazeiro, accionaria uma outra mina A/C colocada na berma, a 10 metros da anterior, e que não havia sido detectada pelos picadores.

Em resultado de terem sido projectados, ficaram gravemente feridos o Fur Mil Marques e os Sold Quecuta, Sherifo, Tenen e Ussumane. Sofreram escoriações e traumatismos de menor grau o Alf. Mil. Rodrigues, o Sold TRMS Pereira e os Sold Cherno e Samba.

(v) No dia seguinte, às 5.45h, as forças de segurança à TECNIL (2º e 4º Gr Comb da CCAÇ 12) detectaram novos vestígios do mesmo grupo IN que seguiu na direcção de Lantar, vindo de Samba Silate, fazendo de passagem o reconhecimento das máquinas à entrada da bolanha do Xime. Uma inspecção cuidadosa não revelou estarem armadilhadas.

(vi) Às 18.30Oh, o IN flagelaria o Xime com mort 82 da direcção de Ponta Varela, à distância e sem consequências.

Durante o mês, a CCAÇ 12 continuou empenhada na segurança à TECNIL, tendo ainda levado a efeito duas colunas de reabastecimentos até ao Saltinho.

_____

Notas de L.G.

(a) O nosso tertulianoLuís Moreira

(b) Já falecido, depois do regresso a Portugal. O José António G. Rodrigues, ex-Al. Mil. Cav., era funcionário da Segurança Social, em Lisboa.

(c) O Fur. Mil. Henriques é o autor destas linhas.

(d) vd. post de 21 Setembro 2005 > Guiné 63/74 . CCII: O reordenamento de Nhabijões (1969/70) .

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Fonte: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971. Capítulo II. 44-45.


Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970: Da esquerda para a direita, os ex-furriéis milicianos Marques e Henriques da CCAÇ 12.

Os dois foram vítimas, juntamente com as suas secções (4º Grupo de Combate), da explosão de uma mina anti-carro na GMC em que seguiam (Estrada de Nhabijões-Bambadinca, 13 de Janeiro de 1971, a um m~es de acabarem a sua comissão de serviço).

O Marques foi gravemente ferido, tendo sido evacuado para a Metrópole. A sua reabilitação foi morosa e pensoa. É hoje mais um DFA (deficiente das forças armadasa).

© Luís Graça (2005)


História da CCAÇ 12 (1969/71)

(19) Janeiro de 1971: 1 morto de 6 feridos graves aos 20 meses


O dia 13 seria uma data fatídica para as NT, e em especial para a CCAÇ 12 cujos quadros metropolitanos estavam prestes a terminar a sua comissão de serviço em terras da Guiné. Eis o filme dos acontecimentos:

(i) Às 5.45h o 1º Gr Comb detectou, durante a batida à região de Ponta Coli, vestígios dum grupo IN de 20 elementos vindos em acção de reconhecimento aos trabalhos da TECNIL na estrada Bambadinca-Xime e locais de instalação das NT.

(ii) Às 11.25h, na estrada de Nhabijões-Bambadinca, uma viatura tipo Unimog 411, conduzida pelo Sold Soares (CCAÇ 12) que ia buscar [a Bambadinca] a 2ª refeição para o pessoal daquele destacamento, accionou uma mina A/C.

0 condutor teve morte instantânea. Ficaram gravemente feridos 1 Oficial (CCS / BART 2917)[Alf. Mil. Moreira] (a), 1 Sargento (Fur Mil Fernandes/CCAÇ 12) e 1 Praça (CCS / BART 2917).

(iii) Imediatamente alertadas as NT em Bambadinca, o Gr Comb de intervenção (4º, CCAÇ 12) recebeu a missão de seguir para o local a fim de fazer o reconhecimento da zona, enquanto outras forças acorriam a socorrer os sinistrados.

Ao chegar junto da viatura minada, o Cmdt do 4° Gr Comb [Alf. Mil. Rodrigues] (b) deixou duas praças a fazer a pesquisa, na estrada e imediações, de outros possíveis engenhos explosivos, no que foram apoiados por alguns elementos do destacamento, seguindo depois uma pista de peugadas recentes, detectadas nas proximidades, e que se dirigiam para a orla da mata.

Aqui, a 50 metros da estrada, atrás duma árvore incrustada num baga-baga, encontraram-se vestígios muito recentes. Seguindo os rastos através da mata, foi dar-se à antiga tabanca de Imbumbe [um dos cinco núcleos populacionais de Nhabijões (c), agora transferidos para o reordenamento], mas nas proximidades do reordenamento (Bolubate) aqueles passaram a confundir-se com os do pessoal que trabalha na bolanha.

(iv) Regressado ao local das viaturas, o Gr Comb pelas 13.30h recebeu ordens para recolher, tendo o pessoal tomado lugar no Unimog e na GMC em que tinha vindo. Esta última [onde vinham as secções, comandadas pelos Fur. Mil. Marques e Henriques] (d) , entretanto, ao fazer inversão de marcha, e tendo saído fora da estrada com o rodado trazeiro, accionaria uma outra mina A/C colocada na berma, a 10 metros da anterior, e que não havia sido detectada pelos picadores.

Em resultado de terem sido projectados, ficaram gravemente feridos o Fur Mil Marques e os Sold Quecuta, Sherifo, Tenen e Ussumane. Sofreram escoriações e traumatismos de menor grau o Alf. Mil. Rodrigues, o Sold TRMS Pereira e os Sold Cherno e Samba.

(v) No dia seguinte, às 5.45h, as forças de segurança à TECNIL (2º e 4º Gr Comb da CCAÇ 12) detectaram novos vestígios do mesmo grupo IN que seguiu na direcção de Lantar, vindo de Samba Silate, fazendo de passagem o reconhecimento das máquinas à entrada da bolanha do Xime. Uma inspecção cuidadosa não revelou estarem armadilhadas.

(vi) Às 18.30Oh, o IN flagelaria o Xime com mort 82 da direcção de Ponta Varela, à distância e sem consequências.

Durante o mês, a CCAÇ 12 continuou empenhada na segurança à TECNIL, tendo ainda levado a efeito duas colunas de reabastecimentos até ao Saltinho.

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Notas de L.G.

(a) O nosso tertulianoLuís Moreira

(b) Já falecido, depois do regresso a Portugal. O José António G. Rodrigues, ex-Al. Mil. Cav., era funcionário da Segurança Social, em Lisboa.

(c) O Fur. Mil. Henriques é o autor destas linhas.

(d) vd. post de 21 Setembro 2005 > Guiné 63/74 . CCII: O reordenamento de Nhabijões (1969/70) .

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Fonte: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971. Capítulo II. 44-45.