28 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCXVII: Para uma tertúlia eticamente correcta

1. Texto do João Tunes:

Camarigos,

Mais que justa esta mensagem-homenagem ao Jorge Neto. Aliás, já o disse, foi o blogue do Jorge Neto a quem devo ter repudiado a estúpida e impulsiva jura que fizera em 1971 de não voltar a meter os pés na Guiné. Lá quero voltar, e se o fizer grande parte da culpa será dele.

No entanto, o Luís que permita uma correcção ao texto editado no "nosso" blogue - o Jorge não é cooperante (digo-o porque ele em tempos teve o cuidado de fazer essa corecção). Ganha a vida em Guiné-Bissau por sua conta e risco. Isto é, não está lá alapado há anos com ordenado garantido e depositado pelo Santo Estado. O que lhe dá autonomia para se exprimir sobre o que vê e sente sem as amarras de respeito patronal e conveniências políticamente correctas. Tornando-se, a meu ver, num caso mais que interessante de um jovem que, por prisão ao sortilégio das terras africanas, ali vai ficando e não conseguindo arredar pé.

Confirmo que sugeri que se analisasse a hipótese de darmos um salto à Guiné e que, para isso, se solicitasse os apoios orientadores do Jorge e do Paulo. Mantenho a sugestão apresentada à Mesa para discussão e deliberação. Mas fica um aviso desde já - o Jorge que não se lembre de sugerir que a malta "velhinha" se meta numa traquitana rodoviária e vá por aí abaixo aos trambolhões por Algarve, Marrocos, Mauritânia, e tal mais Senegal, até chegar a Bissau.Ou seja, fazer o que ele costuma fazer nas suas idas e vindas da Guiné (usar um automóvel para ir e vir da Guiné, acampando pelo caminho, é coisa da idade dele, já não para a nossa). Nem com médica, enfermeira e massagista assistentes, nem mesmo que se desencantasse uma antiga enfermeira-paraquedista e camariga para nos acompanhar e ir consertando colunas e metendo almofadinhas por baixo dos veteranos rabos de militares retirados.

Termino o correio de hoje com um pedido-sugestão: Li na legenda de uma fotografia publicada no blogue esta indicação "soldado Pucha (era turra e foi capturado e ficou no nosso exército)". O termo "turra" (uma abreviatura de "terrorista") era de facto usada e incentivado o seu uso durante a guerra no sentido de estimular o ódio pelo IN.

Hoje, com o devido respeito a opiniões diferentes, não me parece que faça qualquer sentido continuar a utilizá-la (este e qualquer termo depreciativo, como não permitiríamos o inverso, ou seja, que um guinéu ofendesse com generalizações Portugal e os soldados portugueses). E é uma contradição, pelo menos em termos de cortesia devida, usar expressões destas e dizer-se que se continua a amar aquela terra, se lhe deseja um bom futuro, gostava de lá se voltar, tratando assim os que lutaram e arriscaram a vida pela independência da sua terra. Finalizando, fica, se me é permitido, o apelo à contenção no uso de termos de conotação desrespeitosa ou ofensiva. Obrigado.
Abraços.
João Tunes

2. Resposta do Luís Graça:

João (e restantes tertulianios:

Fica feita a correcção... Aumenta assim, ainda mais, o meu respeito pelo Jorge Neto. Quanto ao reparo em relação ao uso de termos racistas, xenófobos mas... também do calão castrense, lisboeta ou nortenho (de carvalho para cima!), o João tem toda a razão: (i) os tertulianos devem ser eticamente irrepreensíveis e não apenas "politicamente correctos"; (ii) temos de ter mais tento na língua (eu às vezes, esqueço-me que o blogue é um espaço público)...

Grupo de soldados do PEL CAÇ NAT 54 (Missirá, 1969/70). O segundo a contar da esquerda para a direita é o soldado Pucha (ex-guerrilheiro do PAIGC, capturado e integrado nas NT) © Mário Armas de Sousa (2005)


Vou retirar, de imediato, os termos que podem ser (ou são) insultuosos ou, no mínimo, deselegantes, usados recentemente no nosso blogue e nas nossas páginas... Com esta história, vamos criando o nosso próprio livro de estilo... Mais uma vez, aprecio a frontalidade e a franqueza do João. Espero que sejam, uma e outra, replicadas por todos vós... Quatro olhos e duas cabeças vêem sempre mais e melhor do que dois olhos e uma cabeça...

Vou proceder às correcções: estou certo que o Mário Armas de Sousa (foi ele que usou a expressão na legenda da foto do Pel Caç Nat 54) também concorda que o termo "turra" é hoje mesquinho, infeliz, racista, obsoleto... Podemos usá-lo em excertos literários, em documentos da época, etc. ... Ou até de uma maneira afectiva, tal como dizemos checa (em Moçambique) ou periquito (na Guiné), em relação aos militares mais novos que nos vinham substituir...

Por exemplo, há uma das canções do Niassa (1) , que se chama precisamente o "turra das minas" e outras o "fado do turra" (2). Transcrevo uma das letras:


O Turra das Minas

I

O turra das minas,
Pequeno e traquinas,
Lá vai na picada
E a malta escondida,
Na mata batida
Monta a emboscada.
O turra passou,
A malta esperou,
Já toda estafada,
E a Berliet
Sempre foi estoirada.

II

Ó turra das minas,
A tua vida agora
É pôr as marmitas
Pela estrada fora.
Oh turra das minas,
Tua arma soa
Por léguas e léguas,
Aqui no Niassa,
Onde a Guerra entoa [ecoa].

III

Há mortos e feridos
E os mais comidos
Somos sempre nós,
Vamos pelos ares,
Gritando por todos,
Até pelos avós.
Ó turra bairrista,
Mas pouco fadista,
Já é tradição
Ser paraquedista
Sem tirar o curso,
Ai isso é que não.

Refrão:

Oh turra das minas,
A tua vida agora... (2)


Neste contexto (que era o de guerra), não me parece totalmente ofensivo (nas guerras, incluindo nas guerras civis, o IN, o adversário, quem está do outro lado é sempre tratado em termos depreciativos: boche, rojo, comuna...) mas deve sempre pôr-se o termo em itálico ou entre aspas... Nesta canção do Niassa pode até dizer-se que o turra é (quase) um igual a nós, um combatente, temido e até certo ponto respeitado... Daí a própria existência da canção: não se faz uma canção de guerra a quem não é temido nem respeitado...

No meu tempo, o termo tuga era usado pelos próprios soldados africanos (os nossos nharros) quando me queriam criticar ou insultar, em crioulo ou em fula... Aliás, não sei qual deles é mais racista: tuga ou nharro... A única diferença é que o primeiro era usado pelos oprimidos e o segundo pelos opressores.

PS - Pergunto ao próprio (e aos tertulianso) se podemos incluir o Jorge Neto na nossa lista de endereços, passando desse modo a considerá-lo um novo tertuliano... Eu proponho o seu nome... Não sei se ele foi militar da tropa... Nem isso para o caso interessa... Para nós, ele é um amigo da Guiné, logo nosso, tal como o Zé Carlos Mussá Biai e o Leopoldo Amado, os dois paisanos do nosso grupo.

_________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 11 de Maio de 2004 > Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa

(2) Eu na altura não conhecia o Jorge Santos, mas a página dele foi muita valiosa para eu elaborar este texto:

Comentário de Jorge Santos: Fado de humor em que, como o nome indica, é o turra ou terrorista que põe as marmitas, as minas, nas picadas, os sejam, os caminhos através do mato.

Comentário de L.G.: Música de Joaquim Pimentel, fado "A Júlia Florista", uma das muitas criações de Amália. A Berliet era uma das viaturas mais usadas no transporte de tropas: de origem francesa, eram montadas no Tramagal.

Guiné 63/74 - CCXVII: Para uma tertúlia eticamente correcta

1. Texto do João Tunes:

Camarigos,

Mais que justa esta mensagem-homenagem ao Jorge Neto. Aliás, já o disse, foi o blogue do Jorge Neto a quem devo ter repudiado a estúpida e impulsiva jura que fizera em 1971 de não voltar a meter os pés na Guiné. Lá quero voltar, e se o fizer grande parte da culpa será dele.

No entanto, o Luís que permita uma correcção ao texto editado no "nosso" blogue - o Jorge não é cooperante (digo-o porque ele em tempos teve o cuidado de fazer essa corecção). Ganha a vida em Guiné-Bissau por sua conta e risco. Isto é, não está lá alapado há anos com ordenado garantido e depositado pelo Santo Estado. O que lhe dá autonomia para se exprimir sobre o que vê e sente sem as amarras de respeito patronal e conveniências políticamente correctas. Tornando-se, a meu ver, num caso mais que interessante de um jovem que, por prisão ao sortilégio das terras africanas, ali vai ficando e não conseguindo arredar pé.

Confirmo que sugeri que se analisasse a hipótese de darmos um salto à Guiné e que, para isso, se solicitasse os apoios orientadores do Jorge e do Paulo. Mantenho a sugestão apresentada à Mesa para discussão e deliberação. Mas fica um aviso desde já - o Jorge que não se lembre de sugerir que a malta "velhinha" se meta numa traquitana rodoviária e vá por aí abaixo aos trambolhões por Algarve, Marrocos, Mauritânia, e tal mais Senegal, até chegar a Bissau.Ou seja, fazer o que ele costuma fazer nas suas idas e vindas da Guiné (usar um automóvel para ir e vir da Guiné, acampando pelo caminho, é coisa da idade dele, já não para a nossa). Nem com médica, enfermeira e massagista assistentes, nem mesmo que se desencantasse uma antiga enfermeira-paraquedista e camariga para nos acompanhar e ir consertando colunas e metendo almofadinhas por baixo dos veteranos rabos de militares retirados.

Termino o correio de hoje com um pedido-sugestão: Li na legenda de uma fotografia publicada no blogue esta indicação "soldado Pucha (era turra e foi capturado e ficou no nosso exército)". O termo "turra" (uma abreviatura de "terrorista") era de facto usada e incentivado o seu uso durante a guerra no sentido de estimular o ódio pelo IN.

Hoje, com o devido respeito a opiniões diferentes, não me parece que faça qualquer sentido continuar a utilizá-la (este e qualquer termo depreciativo, como não permitiríamos o inverso, ou seja, que um guinéu ofendesse com generalizações Portugal e os soldados portugueses). E é uma contradição, pelo menos em termos de cortesia devida, usar expressões destas e dizer-se que se continua a amar aquela terra, se lhe deseja um bom futuro, gostava de lá se voltar, tratando assim os que lutaram e arriscaram a vida pela independência da sua terra. Finalizando, fica, se me é permitido, o apelo à contenção no uso de termos de conotação desrespeitosa ou ofensiva. Obrigado.
Abraços.
João Tunes

2. Resposta do Luís Graça:

João (e restantes tertulianios:

Fica feita a correcção... Aumenta assim, ainda mais, o meu respeito pelo Jorge Neto. Quanto ao reparo em relação ao uso de termos racistas, xenófobos mas... também do calão castrense, lisboeta ou nortenho (de carvalho para cima!), o João tem toda a razão: (i) os tertulianos devem ser eticamente irrepreensíveis e não apenas "politicamente correctos"; (ii) temos de ter mais tento na língua (eu às vezes, esqueço-me que o blogue é um espaço público)...

Grupo de soldados do PEL CAÇ NAT 54 (Missirá, 1969/70). O segundo a contar da esquerda para a direita é o soldado Pucha (ex-guerrilheiro do PAIGC, capturado e integrado nas NT) © Mário Armas de Sousa (2005)


Vou retirar, de imediato, os termos que podem ser (ou são) insultuosos ou, no mínimo, deselegantes, usados recentemente no nosso blogue e nas nossas páginas... Com esta história, vamos criando o nosso próprio livro de estilo... Mais uma vez, aprecio a frontalidade e a franqueza do João. Espero que sejam, uma e outra, replicadas por todos vós... Quatro olhos e duas cabeças vêem sempre mais e melhor do que dois olhos e uma cabeça...

Vou proceder às correcções: estou certo que o Mário Armas de Sousa (foi ele que usou a expressão na legenda da foto do Pel Caç Nat 54) também concorda que o termo "turra" é hoje mesquinho, infeliz, racista, obsoleto... Podemos usá-lo em excertos literários, em documentos da época, etc. ... Ou até de uma maneira afectiva, tal como dizemos checa (em Moçambique) ou periquito (na Guiné), em relação aos militares mais novos que nos vinham substituir...

Por exemplo, há uma das canções do Niassa (1) , que se chama precisamente o "turra das minas" e outras o "fado do turra" (2). Transcrevo uma das letras:


O Turra das Minas

I

O turra das minas,
Pequeno e traquinas,
Lá vai na picada
E a malta escondida,
Na mata batida
Monta a emboscada.
O turra passou,
A malta esperou,
Já toda estafada,
E a Berliet
Sempre foi estoirada.

II

Ó turra das minas,
A tua vida agora
É pôr as marmitas
Pela estrada fora.
Oh turra das minas,
Tua arma soa
Por léguas e léguas,
Aqui no Niassa,
Onde a Guerra entoa [ecoa].

III

Há mortos e feridos
E os mais comidos
Somos sempre nós,
Vamos pelos ares,
Gritando por todos,
Até pelos avós.
Ó turra bairrista,
Mas pouco fadista,
Já é tradição
Ser paraquedista
Sem tirar o curso,
Ai isso é que não.

Refrão:

Oh turra das minas,
A tua vida agora... (2)


Neste contexto (que era o de guerra), não me parece totalmente ofensivo (nas guerras, incluindo nas guerras civis, o IN, o adversário, quem está do outro lado é sempre tratado em termos depreciativos: boche, rojo, comuna...) mas deve sempre pôr-se o termo em itálico ou entre aspas... Nesta canção do Niassa pode até dizer-se que o turra é (quase) um igual a nós, um combatente, temido e até certo ponto respeitado... Daí a própria existência da canção: não se faz uma canção de guerra a quem não é temido nem respeitado...

No meu tempo, o termo tuga era usado pelos próprios soldados africanos (os nossos nharros) quando me queriam criticar ou insultar, em crioulo ou em fula... Aliás, não sei qual deles é mais racista: tuga ou nharro... A única diferença é que o primeiro era usado pelos oprimidos e o segundo pelos opressores.

PS - Pergunto ao próprio (e aos tertulianso) se podemos incluir o Jorge Neto na nossa lista de endereços, passando desse modo a considerá-lo um novo tertuliano... Eu proponho o seu nome... Não sei se ele foi militar da tropa... Nem isso para o caso interessa... Para nós, ele é um amigo da Guiné, logo nosso, tal como o Zé Carlos Mussá Biai e o Leopoldo Amado, os dois paisanos do nosso grupo.

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 11 de Maio de 2004 > Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa

(2) Eu na altura não conhecia o Jorge Santos, mas a página dele foi muita valiosa para eu elaborar este texto:

Comentário de Jorge Santos: Fado de humor em que, como o nome indica, é o turra ou terrorista que põe as marmitas, as minas, nas picadas, os sejam, os caminhos através do mato.

Comentário de L.G.: Música de Joaquim Pimentel, fado "A Júlia Florista", uma das muitas criações de Amália. A Berliet era uma das viaturas mais usadas no transporte de tropas: de origem francesa, eram montadas no Tramagal.

Guiné 63/74 - CCXVI: Good moooooooorning, Guinea-Bissau!


Blogue Africanidades
© Jorge Neto (2005)

Texto de Luís Graça:

Meu caro tuga, Jorge Neto:

Não tenho o prazer de te conhecer pessoalmente, mas o teu blogue fala por ti. Para já os meus parabéns pelas tuas Africanidades. Tu mantens a ponte (tensa e frágil) com estes gajos que por enquanto estão, trabalham, vivem, comem e dormem, neste lado do bem-bom do mundo, com vistas largas para o resto do universo... Alguns dormem mal, porque ainda são capazes de pensar nos dois mil milhões de homens, mulheres e crianças que (sobre)vivem nos subterrâneos do planeta, com menos de dois dólares de rendimento por dia...

Ontem reencaminhei para os meus colegas da saúde pública, umas chapas, daquelas de encher o olho do turista globalizado, sobre o nosso planeta, a nossa casa, lindíssima. Eu fico sempre de pé atrás com estas coisas, sobretudo pelo branqueamento que é feito, escondendo o sujo e o feio que é o outro lado da nossa casa. Daí ter escrito, em nota de pé de página, a acompanhar o reencaminhamento do ficheiro com as ditas imagens:

- Não sei se a nossa casa, o nosso planeta azul, é lindíssimo ou apenas lindo… De dentro, é difícil ser imparcial e objectivo. Há partes da casa que são deslumbrantes. Outras são vulgares … e muitas delas transfomaram-se em salas dos horrores, sem esquecer o sótão dos pesadelos… Dito isto, desfrutem destas paisagens da nossa casa. Há poetas e fotógrafos que cuidam do nosso bem-estar. Alguns deles são peritos em dar um toque especial às coisas. It’s magic!... Cada vez precisamos mais de magia… até para construir uma nova cultura da saúde pública. Eu sei que estas coisas roubam tempo (o vosso, o meu) e espaço (dos nossos já obsoletos PC) mas isto também ajuda, espero, a limpar a vista, parafraseando um melómano, meu conhecido, que tem o saudável hábito de ir ouvir ao vivo, todos os anos, a orquestra filarmónica de Berlim… “para limpar o ouvido” (sic).

Nas tuas Africanidades não fazes batota: a tua Guiné não é só o postal ilustrado dos rápidos do Saltinho ou do paraíso perdido dos Bijagós... Também és capaz de nos tirar o sono!

Escrevo-te também pela simples razão de que o teu nome apareceu num blogue que eu animo, o Blogue-Fora-Nada, pensado originalmente para eu cultivar as minhas blogarias de luxo e matar o vício da escrita e da comunicação... E que acabou por transformar-se num jornal de caserna de uns tantos pobres diabos, como eu e outros camaradas (literalmente camaradas, no sentido etimológico do termo), que ainda não conseguiram exorcizar os fantasmas da guerra (colonial) da Guiné (ou da guerra do ultramar, para manter o pluralismo ideológico e semântico)...

Convenhamos que o caso é de psiquiatria, mas como eu costumo dizer fica mais barato blogar do que ir à consulta do stresse pós-traumático de guerra do meu amigo Afonso de Albuquerque, no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos. Em resumo, puseram-te ao barulho e vão-te mandar um emissário, de seu nome Paulo Salgado, que por acaso foi meu aluno, por uns dias, de um curso de especialização em administração hospitalar nos já idos anos de 1982, quando eu ainda era um simples prelector convidado da Escola Nacional de Saúde Pública...

Sem te conhecer (e conhecendo os teus escritos e as tuas fotos só de relance), escrevi sobre ti uma pequena nota d pé de página: "[Jorge Neto:] O autor do blogue Africanidades, cooperante em Bissau. Possível contacto em Bissau, de acordo com uma sugestão do João Tunes, para uma possível viagem de retorno àquelas terras, para matar saudades e não só... Este blogue é obrigatório para quem quiser conhecer a realidade da África de hoje, e em particular a Guiné-Bissau. Excelente documentação fotográfica. Um tuga que conhece e ama a África. Podem contactá-lo, ao Jorge Neto, por e-mail. Façam uma primeira visita ao seu blogue".

Sei que não tens nada para vender, no sentido material e mercantil do termo, pelo que não entendas este paleio como publicidade comercial (e muito menos enganosa), feita por interposta pessoa. Trocando amabilidades, ficas convidado a visitar o nosso Blogue-Fora-Nada e, inclusive, a escrever para ele.

É que infelizmente, para nós e para os nossos amigos da Guiné-Bissau, a guerra não acabou em 1974... Ainda não acabou. Nós temos contas a ajustar com aquela guerra. E para os guineenses, há outras batalhas a travar e outra guerra, ainda mais importante, para ganhar. Uma guerra que tem de ser ganha por todos, eles e nós. E sobretudo por estes djubis, estas crianças, que tu nos mostras na foto que eu tomei a liberdade de aqui reproduzir, com a devida vénia.

Boa saúde, bom trabalho, Jorge!

Guiné 63/74 - CCXVI: Good moooooooorning, Guinea-Bissau!


Blogue Africanidades
© Jorge Neto (2005)

Texto de Luís Graça:

Meu caro tuga, Jorge Neto:

Não tenho o prazer de te conhecer pessoalmente, mas o teu blogue fala por ti. Para já os meus parabéns pelas tuas Africanidades. Tu mantens a ponte (tensa e frágil) com estes gajos que por enquanto estão, trabalham, vivem, comem e dormem, neste lado do bem-bom do mundo, com vistas largas para o resto do universo... Alguns dormem mal, porque ainda são capazes de pensar nos dois mil milhões de homens, mulheres e crianças que (sobre)vivem nos subterrâneos do planeta, com menos de dois dólares de rendimento por dia...

Ontem reencaminhei para os meus colegas da saúde pública, umas chapas, daquelas de encher o olho do turista globalizado, sobre o nosso planeta, a nossa casa, lindíssima. Eu fico sempre de pé atrás com estas coisas, sobretudo pelo branqueamento que é feito, escondendo o sujo e o feio que é o outro lado da nossa casa. Daí ter escrito, em nota de pé de página, a acompanhar o reencaminhamento do ficheiro com as ditas imagens:

- Não sei se a nossa casa, o nosso planeta azul, é lindíssimo ou apenas lindo… De dentro, é difícil ser imparcial e objectivo. Há partes da casa que são deslumbrantes. Outras são vulgares … e muitas delas transfomaram-se em salas dos horrores, sem esquecer o sótão dos pesadelos… Dito isto, desfrutem destas paisagens da nossa casa. Há poetas e fotógrafos que cuidam do nosso bem-estar. Alguns deles são peritos em dar um toque especial às coisas. It’s magic!... Cada vez precisamos mais de magia… até para construir uma nova cultura da saúde pública. Eu sei que estas coisas roubam tempo (o vosso, o meu) e espaço (dos nossos já obsoletos PC) mas isto também ajuda, espero, a limpar a vista, parafraseando um melómano, meu conhecido, que tem o saudável hábito de ir ouvir ao vivo, todos os anos, a orquestra filarmónica de Berlim… “para limpar o ouvido” (sic).

Nas tuas Africanidades não fazes batota: a tua Guiné não é só o postal ilustrado dos rápidos do Saltinho ou do paraíso perdido dos Bijagós... Também és capaz de nos tirar o sono!

Escrevo-te também pela simples razão de que o teu nome apareceu num blogue que eu animo, o Blogue-Fora-Nada, pensado originalmente para eu cultivar as minhas blogarias de luxo e matar o vício da escrita e da comunicação... E que acabou por transformar-se num jornal de caserna de uns tantos pobres diabos, como eu e outros camaradas (literalmente camaradas, no sentido etimológico do termo), que ainda não conseguiram exorcizar os fantasmas da guerra (colonial) da Guiné (ou da guerra do ultramar, para manter o pluralismo ideológico e semântico)...

Convenhamos que o caso é de psiquiatria, mas como eu costumo dizer fica mais barato blogar do que ir à consulta do stresse pós-traumático de guerra do meu amigo Afonso de Albuquerque, no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos. Em resumo, puseram-te ao barulho e vão-te mandar um emissário, de seu nome Paulo Salgado, que por acaso foi meu aluno, por uns dias, de um curso de especialização em administração hospitalar nos já idos anos de 1982, quando eu ainda era um simples prelector convidado da Escola Nacional de Saúde Pública...

Sem te conhecer (e conhecendo os teus escritos e as tuas fotos só de relance), escrevi sobre ti uma pequena nota d pé de página: "[Jorge Neto:] O autor do blogue Africanidades, cooperante em Bissau. Possível contacto em Bissau, de acordo com uma sugestão do João Tunes, para uma possível viagem de retorno àquelas terras, para matar saudades e não só... Este blogue é obrigatório para quem quiser conhecer a realidade da África de hoje, e em particular a Guiné-Bissau. Excelente documentação fotográfica. Um tuga que conhece e ama a África. Podem contactá-lo, ao Jorge Neto, por e-mail. Façam uma primeira visita ao seu blogue".

Sei que não tens nada para vender, no sentido material e mercantil do termo, pelo que não entendas este paleio como publicidade comercial (e muito menos enganosa), feita por interposta pessoa. Trocando amabilidades, ficas convidado a visitar o nosso Blogue-Fora-Nada e, inclusive, a escrever para ele.

É que infelizmente, para nós e para os nossos amigos da Guiné-Bissau, a guerra não acabou em 1974... Ainda não acabou. Nós temos contas a ajustar com aquela guerra. E para os guineenses, há outras batalhas a travar e outra guerra, ainda mais importante, para ganhar. Uma guerra que tem de ser ganha por todos, eles e nós. E sobretudo por estes djubis, estas crianças, que tu nos mostras na foto que eu tomei a liberdade de aqui reproduzir, com a devida vénia.

Boa saúde, bom trabalho, Jorge!

27 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCXV: O 'adeus e até ao meu regresso' do Paulo Salgado

1. Camarigos (... tenho pena de ainda não poder dizer camarigos & camarigas, por enquanto ainda não apareceu nenhuma enfermeira-paraquedista, mas eu vou tentar arranjar uma):

O barco está de saída... Despeçam-se do Paulo Salgado, que vai partir dia 30 como cooperante para a Guiné-Bissau.... Metam-lhe uma cunha que é para aquela terra, que nos é muito querida, dar um salto... para o futuro! L.G.

Bissau > Cais do Pidjiguiti
© Paulo Salgado (2005)

2. Mensagem do Humberto Reis:

Camarigo Paulo: Leva-me contigo!... Já não vou àquela terra desde 1996 (há mais de 9 anos). São mais que pobres, paupérrimos, mas continuamos a gostar daquilo, da terra e das gentes. Já sei que o voo é às 09,10 de 6ª feira.

Um grande abraço e FELICIDADES no desempenho da tua HUMANITÁRIA MISSÃO. Pelo que percebi já não é a 1ª vez que voltas à NOSSA Guiné. Não te posso ser de grande utilidade mas conheço um comerciante português, cuja família é de origem libanesa (é filho da D. Rosa de Bafatá ex-ten.cor paraquedista) e que passa a maior parte do tempo lá em Bissau no negócio da castanha de cajú. Ele mora aqui perto de Lisboa, em Linda A Velha, encontrando-se cá neste momento mas em breve vai voltar a Bissau.

Se precisares de alguma coisa que ele possa levar é só dizeres-me que eu tenho confiança com ele para lhe pedir. É ele normalmente que me leva as canetas, borrachas, lápis, etc. com que eu costumo abastecer a escola de Bambadinca.
Dá notícias, não te desligues desta malta.

Humberto

3. O Marques Lopes também vem desejar "boa estadia" ao Paulo:

Amigo Paulo :

Os meus desejos de uma boa viagem e óptima estadia e bom trabalho naquela terra das saudades. Não sei quando, mas pode ser que eu um dia apareça por lá.

Se tiveres oportunidade dá um abraço meu a este meu amigo que está em Bissau há anos (e que muito me apoiou quando lá estive em 1998): Manuel Pires Nabais - Av. 3 de Agosto - Cx. Postal 611 - telefone 201661.

É um homem bem conhecedor de Bissau, conhecedor daquela gente (sabe bem de todos os mandantes...). Era (não sei se ainda é) Administrador Delegado da GUIPORT (a empresa gestora do porto de Bissau) e de uma empresa de camionagem sedeada na cidade. É primo de um ex-alferes, o António Moreira, que esteve comigo em Geba.



© Paulo Salgado (2005)

O Alf. Mil. Salgado, da CCAV 2712, no Olossato, prestando ajuda como voluntário ao Fur. Enf. Carvalho.

Ele já tinha vocação, na época, para a administração de serviços de saúde. E particular motivação e sensibiliddae para as questões da cooperação e da solidariedade (LG).



Ele, o Manuel Pires Nabais, que te apresente outro amigo meu, o Luciano. Um bom amigo, embora com feitio próprio, ex-comando que se sedeou em Bissau há anos, depois de ter passado como mercenário na zona dos diamantes de Angola. É dos poucos que sempre lá se aguentou durante todas as convulsões na Guiné-Bissau. Conhece o Cupilon como eu conheço a minha casa.

Um e outro estão por dentro de tudo, conhecem todos os meandros, de baixo acima.
Um abraço

A. Marques Lopes

4. Comentário final do Paulo:

(i) O Luís é assim: põe-nos a todos loucos! É a camaradagem, a solidariedade, o companheirismo. Agradeço a todos e prometo-vos que cumprirei com lealdade as funções que vou desempenhar...! Por isso, o que for mandando, o Luís Graça fará o favor de remeter a TODOS!

(ii) Luís e Todos!

Vou prás terras quentes durante um ano - com intervalos. Em 1970 não dava só tiros! Ajudei o furriel Enfermeiro Carvalho no registo dos doentes. Agora a minha missão (e de mais quatro parceiros, 35 anos depois) é muito semelhante a esta...

O branco loiro que está nesta foto é um "louco" de um holandês!!! Como ele trabalha!

(iii) Amigo e camarada Humberto

Como é bom ler esta mensagem! Fica descansado: irei cumprir o que me pedes - sempre são meses a cumprir nesta missão, agora de paz.


(iv) Grande Marques, camarada,

Farei o que me mandas, com muito orgulho em pertencer a esta tertúlia - mais uma vez vem ao de cima a camaradagem. É belo ter camaradas e amigos assim.

Vou mandar para o Luís (o nosso "mensageiro") as mensagens e fotos e textos que for fazendo - sempre é um ano! - embora venha cá três ou quatro vezes. Uma espécie de comissão: já conto dezenas de vezes a idas a Bissau! Conheço de Norte a Sul quase tudo, embora me falhem algumas tabancas de que os camaradas falam...

(v) João Camaradão [João Tunes],

Estás "desculpado".

Já recebi mails de camaradas a desejarem boa estadia - e a ti também agradeço com muita amizade.

Vou tentar dar o litro na missão de paz que envolve quatro parceiros - qual nave de loucos - e também tentar dar um contributo forte ao teu blogue e ao "nosso" blogue.

Comigo podes contar com o contacto que farei em Bissau com o Jorge Neto (*). Ele tem que me contactar no [Hospital] Simão Mendes - lá junto da Administração...

Em Bissau, programarei uma estadia de uma semana e mandarei notícias breves. Acho que já dei provas: vós não me conheceis (eu vivo em Gaia, mas sou transmontano - de MONCORVO), mas o que prometo ... tento não falhar.

Como já disse, embarco a 30 e, apesar de muito trabalho que me espera, agora tenho esta "emboscada" com a equipa de segurança de retaguarda - que sois vós.


Mantenhas do
Paulo Salgado

____________

Nota de L.G.

(*) O autor do blogue Africanidades, cooperante em Bissau. Possível contacto em Bissau, de acordo com uma sugestão do João Tunes, para uma possível viagem de retorno àquelas terras, para matar saudades e não só...

Este blogue é obrigatório para quem quiser conhecer a realidade da África de hoje, e em particular a Guiné-Bissau. Excelente documentação fotográfica. Um tuga que conhece e ama a África. Podem contactá-lo, ao Jorge Neto, por e-mail. Façam uma primeira visita ao seu blogue.

Guiné 63/74 - CCXV: O 'adeus e até ao meu regresso' do Paulo Salgado

1. Camarigos (... tenho pena de ainda não poder dizer camarigos & camarigas, por enquanto ainda não apareceu nenhuma enfermeira-paraquedista, mas eu vou tentar arranjar uma):

O barco está de saída... Despeçam-se do Paulo Salgado, que vai partir dia 30 como cooperante para a Guiné-Bissau.... Metam-lhe uma cunha que é para aquela terra, que nos é muito querida, dar um salto... para o futuro! L.G.

Bissau > Cais do Pidjiguiti
© Paulo Salgado (2005)

2. Mensagem do Humberto Reis:

Camarigo Paulo: Leva-me contigo!... Já não vou àquela terra desde 1996 (há mais de 9 anos). São mais que pobres, paupérrimos, mas continuamos a gostar daquilo, da terra e das gentes. Já sei que o voo é às 09,10 de 6ª feira.

Um grande abraço e FELICIDADES no desempenho da tua HUMANITÁRIA MISSÃO. Pelo que percebi já não é a 1ª vez que voltas à NOSSA Guiné. Não te posso ser de grande utilidade mas conheço um comerciante português, cuja família é de origem libanesa (é filho da D. Rosa de Bafatá ex-ten.cor paraquedista) e que passa a maior parte do tempo lá em Bissau no negócio da castanha de cajú. Ele mora aqui perto de Lisboa, em Linda A Velha, encontrando-se cá neste momento mas em breve vai voltar a Bissau.

Se precisares de alguma coisa que ele possa levar é só dizeres-me que eu tenho confiança com ele para lhe pedir. É ele normalmente que me leva as canetas, borrachas, lápis, etc. com que eu costumo abastecer a escola de Bambadinca.
Dá notícias, não te desligues desta malta.

Humberto

3. O Marques Lopes também vem desejar "boa estadia" ao Paulo:

Amigo Paulo :

Os meus desejos de uma boa viagem e óptima estadia e bom trabalho naquela terra das saudades. Não sei quando, mas pode ser que eu um dia apareça por lá.

Se tiveres oportunidade dá um abraço meu a este meu amigo que está em Bissau há anos (e que muito me apoiou quando lá estive em 1998): Manuel Pires Nabais - Av. 3 de Agosto - Cx. Postal 611 - telefone 201661.

É um homem bem conhecedor de Bissau, conhecedor daquela gente (sabe bem de todos os mandantes...). Era (não sei se ainda é) Administrador Delegado da GUIPORT (a empresa gestora do porto de Bissau) e de uma empresa de camionagem sedeada na cidade. É primo de um ex-alferes, o António Moreira, que esteve comigo em Geba.



© Paulo Salgado (2005)

O Alf. Mil. Salgado, da CCAV 2712, no Olossato, prestando ajuda como voluntário ao Fur. Enf. Carvalho.

Ele já tinha vocação, na época, para a administração de serviços de saúde. E particular motivação e sensibiliddae para as questões da cooperação e da solidariedade (LG).



Ele, o Manuel Pires Nabais, que te apresente outro amigo meu, o Luciano. Um bom amigo, embora com feitio próprio, ex-comando que se sedeou em Bissau há anos, depois de ter passado como mercenário na zona dos diamantes de Angola. É dos poucos que sempre lá se aguentou durante todas as convulsões na Guiné-Bissau. Conhece o Cupilon como eu conheço a minha casa.

Um e outro estão por dentro de tudo, conhecem todos os meandros, de baixo acima.
Um abraço

A. Marques Lopes

4. Comentário final do Paulo:

(i) O Luís é assim: põe-nos a todos loucos! É a camaradagem, a solidariedade, o companheirismo. Agradeço a todos e prometo-vos que cumprirei com lealdade as funções que vou desempenhar...! Por isso, o que for mandando, o Luís Graça fará o favor de remeter a TODOS!

(ii) Luís e Todos!

Vou prás terras quentes durante um ano - com intervalos. Em 1970 não dava só tiros! Ajudei o furriel Enfermeiro Carvalho no registo dos doentes. Agora a minha missão (e de mais quatro parceiros, 35 anos depois) é muito semelhante a esta...

O branco loiro que está nesta foto é um "louco" de um holandês!!! Como ele trabalha!

(iii) Amigo e camarada Humberto

Como é bom ler esta mensagem! Fica descansado: irei cumprir o que me pedes - sempre são meses a cumprir nesta missão, agora de paz.


(iv) Grande Marques, camarada,

Farei o que me mandas, com muito orgulho em pertencer a esta tertúlia - mais uma vez vem ao de cima a camaradagem. É belo ter camaradas e amigos assim.

Vou mandar para o Luís (o nosso "mensageiro") as mensagens e fotos e textos que for fazendo - sempre é um ano! - embora venha cá três ou quatro vezes. Uma espécie de comissão: já conto dezenas de vezes a idas a Bissau! Conheço de Norte a Sul quase tudo, embora me falhem algumas tabancas de que os camaradas falam...

(v) João Camaradão [João Tunes],

Estás "desculpado".

Já recebi mails de camaradas a desejarem boa estadia - e a ti também agradeço com muita amizade.

Vou tentar dar o litro na missão de paz que envolve quatro parceiros - qual nave de loucos - e também tentar dar um contributo forte ao teu blogue e ao "nosso" blogue.

Comigo podes contar com o contacto que farei em Bissau com o Jorge Neto (*). Ele tem que me contactar no [Hospital] Simão Mendes - lá junto da Administração...

Em Bissau, programarei uma estadia de uma semana e mandarei notícias breves. Acho que já dei provas: vós não me conheceis (eu vivo em Gaia, mas sou transmontano - de MONCORVO), mas o que prometo ... tento não falhar.

Como já disse, embarco a 30 e, apesar de muito trabalho que me espera, agora tenho esta "emboscada" com a equipa de segurança de retaguarda - que sois vós.


Mantenhas do
Paulo Salgado

____________

Nota de L.G.

(*) O autor do blogue Africanidades, cooperante em Bissau. Possível contacto em Bissau, de acordo com uma sugestão do João Tunes, para uma possível viagem de retorno àquelas terras, para matar saudades e não só...

Este blogue é obrigatório para quem quiser conhecer a realidade da África de hoje, e em particular a Guiné-Bissau. Excelente documentação fotográfica. Um tuga que conhece e ama a África. Podem contactá-lo, ao Jorge Neto, por e-mail. Façam uma primeira visita ao seu blogue.

Guiné 63/74 - CCXIV: Dos Unimog 404 e 411 ao Alf Mil Correia, do Pel Cac Nat 54



© Manuel Ferreira (2005)


Guiné > Região Leste > Xime > 1972: O Manuel Ferreira, soldado condutor auto, dos "Fantasmas do Xime" (CART 3494), ali aquartelados (1972/73).

A viatura é um famoso "burrinho" (Unimog 404).



Texto do Humberto Reis (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71):


1. No álbum de fotografias referentes ao Xime aparece o Manuel Ferreira, condutor auto, empoleirado no capô de um Unimog 404, chamado "burrinho".

"Se bem me lembro", o 404 era o Unimog grande a gasolina e o Unimog pequeno, era o 411, movido a gasóleo, e chamado "burrinho do mato". Esta alcunha derivava do facto de ter uma suspensão mais dura que o 404 e naquelas auto estradas (IP's, IC', etc.) saltar tanto que parecia dar coices como um burro.

Como terminam os pareceres dos advogados, "é esta a nossa opinião se outra melhor não houver".

2. Também já está esclarecido que o Mário Armas de Sousa era do Pel Caç Nat 54 e não de uma companhia de Porto Gole.

Não me lembro dele mas recordo perfeitamente o [Alf. Mil.] Correia, magro e seco como um pau. Estou a olhar para ele há 35 anos, não me lembro do dia mas até era possível saber, em que regressámos de uma operação na zona do Xime, julgo que foi aquela em que tivemos os 5 mortos na mesma emboscada, e o Correia encostado ao arame farpado, quase com as lágrimas nos olhos, à nossa espera (1).

O 54 deve ter ficado a reforçar o aquartelamento do Xime (foi a sorte deles nesse dia) enquanto alguns dos pelotões desta companhia foram com a nossa CCAÇ 12 nessa operação.

Memórias já passadas que nos ajudam a viver os dias de hoje.
Um abraço
Humberto

___________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 25 de Abril de 2004 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970). Nome de código da Operação: Op Abencerragem Candente (25-26 de Novembro de 1970). Envolveu cerca de 250 homens: (i) a CCAÇ 12 (sedeada em Bambadinca, ao serviço do BART 2917), a 3 Gr Comb; (ii) a CART 2715 (aquartelada no Xime), também a 3 Gr Comb; e a (iii) a CART 2714 (aquartelada em Mansambo), a 2 Gr Comb. O Pel Caç Nat 54 deve ter ficado em reforço ao Xime. Baixas das NT: 6 mortos e 7 feridos.

Guiné 63/74 - CCXIV: Dos Unimog 404 e 411 ao Alf Mil Correia, do Pel Cac Nat 54



© Manuel Ferreira (2005)


Guiné > Região Leste > Xime > 1972: O Manuel Ferreira, soldado condutor auto, dos "Fantasmas do Xime" (CART 3494), ali aquartelados (1972/73).

A viatura é um famoso "burrinho" (Unimog 404).



Texto do Humberto Reis (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71):


1. No álbum de fotografias referentes ao Xime aparece o Manuel Ferreira, condutor auto, empoleirado no capô de um Unimog 404, chamado "burrinho".

"Se bem me lembro", o 404 era o Unimog grande a gasolina e o Unimog pequeno, era o 411, movido a gasóleo, e chamado "burrinho do mato". Esta alcunha derivava do facto de ter uma suspensão mais dura que o 404 e naquelas auto estradas (IP's, IC', etc.) saltar tanto que parecia dar coices como um burro.

Como terminam os pareceres dos advogados, "é esta a nossa opinião se outra melhor não houver".

2. Também já está esclarecido que o Mário Armas de Sousa era do Pel Caç Nat 54 e não de uma companhia de Porto Gole.

Não me lembro dele mas recordo perfeitamente o [Alf. Mil.] Correia, magro e seco como um pau. Estou a olhar para ele há 35 anos, não me lembro do dia mas até era possível saber, em que regressámos de uma operação na zona do Xime, julgo que foi aquela em que tivemos os 5 mortos na mesma emboscada, e o Correia encostado ao arame farpado, quase com as lágrimas nos olhos, à nossa espera (1).

O 54 deve ter ficado a reforçar o aquartelamento do Xime (foi a sorte deles nesse dia) enquanto alguns dos pelotões desta companhia foram com a nossa CCAÇ 12 nessa operação.

Memórias já passadas que nos ajudam a viver os dias de hoje.
Um abraço
Humberto

___________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 25 de Abril de 2004 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970). Nome de código da Operação: Op Abencerragem Candente (25-26 de Novembro de 1970). Envolveu cerca de 250 homens: (i) a CCAÇ 12 (sedeada em Bambadinca, ao serviço do BART 2917), a 3 Gr Comb; (ii) a CART 2715 (aquartelada no Xime), também a 3 Gr Comb; e a (iii) a CART 2714 (aquartelada em Mansambo), a 2 Gr Comb. O Pel Caç Nat 54 deve ter ficado em reforço ao Xime. Baixas das NT: 6 mortos e 7 feridos.

26 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCXIII: O açoreano Mário Armas de Sousa (Pel Caç Nat 54: Missirá, 1969/70)

© Humberto Reis (2005)

Malta da CCAÇ 12 (à direita), pousando junto a uma parede bidões com areia (que serviam de protecção em caso de ataque) juntamente com comaradas do Xime, à esquerda (1970).


1. Bom, camarigos(=camaradas & amigos de tertúlia), ainda não chegámos à Madeira, mas já estamos nos Açores... Graças a esta jigajoga da Internet...

Pois é, lá nas Ilha das Flores, nas Lajes das Flores, há um camarada que andou connosco no Sector L1, Zona Leste, nos idos tempos de 1968/70 e que se reconheceu num das fotos publicadas na página do Xime. Apresento-vos o novo tertuliano, o ex-Furriel Miliciano Mário Armas de Sousa, do Pel Caç Nat 54 (Missirá, 1969/70).

Caro colega:

Sou ex-furriel miliciano e estive na Guiné de 1968 a 1970, em Porto Gole, Enxalé, Xime e Missirá. Também estou na fotografia da vossa página, tirada no quartel do Xime, junto dos bidões.

Tenho alguma informação e fotografias do meu grupo de combate para acrescentar à vossa página se possível; é favor confirmar o seu endereço electrónico.

© Mário Armas de Sousa (2005)

Guiné-Bissau > Região Leste > Bambadinca > Missirá : Pelotão de Caçadores Nativos nº 54, em 1970.

1ª fila da direita para esquerda: do pessoal metropolitano, o primeiro sou eu, furriel miliciano Mário Armas de Sousa; o terceiro é o 1º cabo Capitão.

2ª fila da direita para a esquerda: o primeiro é o soldado Amarante; o segundo é o soldado Bulo; o quinto é o furriel miliciano Inácio; o sexto é o 1º cabo Tomé; o nono é o soldado Samba.

3ª fila da direita para a esquerda: do pessoal metropolitano, o primeiro é o furriel miliciano Sousa Pereira; o quinto é o alferes miliciano Correia (comandante de pelotão); o sétimo é o 1º cabo Monteiro; o oitavo, africano, é o soldado Pucha (era turra e foi capturado e ficou no nosso exército)

Cumprimentos, Mário Armas de Sousa, Açores (O Mário utilizou o e-mail dos Serviços de Ambiente das Flores e Corvo, onde presumivelmente trabalha)


2. Eis a minha resposta (com correcçõe posteriores):

Meu caro Mário:

Fico muito contente (e o resto dos camaradas também) por este feliz reencontro, ao fim de tantos anos. Andámos juntos, no mesmo sector, e na mesma altura (mais tarde conhecido como o Sector L1, Zona Leste, com sede em Bambadinca e que incluía entre outros aquartelamentos e destacamentos, além da sede, o Xime, o Enxalé, Mansambo, o Xitole, Missirá...

No meu tempo, Portogole (b) creio que já pertencia a Mansoa (e não a Bambadinca). Esta povoação ficava na estrada Bafáta-Mansoa-Bissau (interdita no meu tempo).

Podes contactar-me através de qualquer um dos dois e-mails (...). Tens também os endereços de e-mail dos nossos restantes amigos e camaradas de tertúlia, na respectiva página.

Se tiveres fotografias, procura mandá-las digitalizadas, em formato.jpg. Vou dar esta boa notícia aos nossos tertulianos e passar a incluir-te na nossa lista de endereços, se for esse o teu desejo.

Se quiseres, manda também uma foto actual (não é obrigatório). (...) Um grande abraço. Luís Graça (ex- Fur. Mil. Henriques, da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

3. Volta a publicar-se, desta vez neste blogue, a fotografia onde o Mário Armas Sousa se reconheceu. Eu não consigo identificá-lo. Pode ser que outros o consigam, com a preciosa ajuda do Humberto Reis cuja memória (de elefante) já é lendária... Sigo os seus apontamentos:

"Começando da esquerda para a direita e de cima para baixo temos: o de boina já não me lembro quem era, o 2º julgo que era o fur. mil. vagomestre, os 3º, 4º e 5º também não me lembro, o 6º é o Sousa, ex-fur. mil. da CCAÇ 12 e o último sou eu (ainda com algum cabelo e sem barriga). [O 5º julgo ser o Sousa, o Mário Armas de Sousa, do Pel Caça Nat 54; ou não será ? L.G.].

"Na 1ª fila não me lembro quem é o 1º; o 2º, meio careca, era o fur. mil. dos obuses (da BAC de Bissau); os 3º e 4º também não me recordo; o 5º julgo que era o fur. mil. mecânico e o 6º é o Fernandes, ex-fur. mil. da CCAÇ 12 e actual Engenheiro Civil na antiga CUF (já nesse tempo o Fernandes tinha jeito para as obras, pois foi ele que acompanhou todo o Reordenamento dos Nhabijões (a), por isso, quando cá chegou foi acabar o curso, o que muitos fizeram pois tinham-nos deixado a meio e até aldrabado nas habilitações literárias para ver se se baldavam de ir bater com os costados no Ultramar".

Em suma, o Mário Armas Sousa é decerto um deles, mas eu não sei qual... Tenho dúvidas é (i) quanto ao mês e ano em que foi tirada a foto e (ii) quanto à companhia a que pertenciam os camaradas que não eram da CCAÇ 12. Se a foto tiver sido tirada antes de Julho de 1970, o pessoal do Xime deveria pertencer à CART 2520 (1969/1971); em meados de 1970, eles foram rendidos pela CART 2715 (1970/72).

O Mário Armas de Sousa, que além do Xime esteve em Portogole, Enxalé e Missirá, era do PEL CAÇ NAT 54 (c) que, em Novembro d1969, foi render o PEL CAÇ NAT 52 (transferido para Bmabadinca, e que era comandado pelo Alf. Mil Beja Santos).

Com o PEL CAÇ NAT 52 (e julgo que também com o 54) fizémos (a CCAÇ 12 + CCAÇ 2636 + 1 Esq. Morteiros do Pel Mort 2106) talvez a mais dramática, temerária e penosa operação de que eu me lembre: Op Tigre Vadio (Março de 1970), na pensínsula de Madina/Belel, a norte do Rio Geba, no regulado do Cuor, na extremidade sul do famoso corredor do Morès...

Haveremos de falar dessa operação: tenho aqui extractos do relatório e notas do meu diário... A tal operação em que alguns de nós tiveram que beber o próprio mijo para sobreviverem e não morrererem desidratados...

A propósito: alguém tem o contacto do Beja Santos, que era Alf Mil, comandante do Pel Caç Nat 52 ? Já nos encontrámos uma vez, num almoço de confraternização do BCAÇ 2852 (1968/70).

O Alf Mil Cabral, o António Cabral, do Pel Caç Nat 63 (que estava em Fá, a Fá Mandinga onde foi formada e treinada a 1º Companhia de Comandos Africanos e onde Amílcar Cabral trabalhou como engenheiro agrónomo, nos anos 50) é advogado e é também professor no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Ando há anos para me encontrar com ele. O Humberto é capaz de ter o contacto dos dois.

Mantenhas. Luís

____________

Notas de L.G.

(a) Vd post de 21 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCII: O reordenamento de Nhabijões (1969/70)

(b) A grafia correcta será Porto Gole.

(c) Havia vários. Por exemplo, em Maio de 1970, já no final da comissão do BCAÇ 2852 (1968/70), havia três PEL CAÇ NAT no sector: 52 (Bambadinca), 54 (Missirá) e 63 (Fá). Estas unidades não se confundiam com os Pelotões de Milícias: nesta altura, havia já duas Companhias de Milícias... As mílicias tinham uma função de auto-defesa e eram constituídas apenas por elementos da população guineense (neste caso, predominante ou exclusivamente fulas).

Guiné 63/74 - CCXIII: O açoreano Mário Armas de Sousa (Pel Caç Nat 54: Missirá, 1969/70)

© Humberto Reis (2005)

Malta da CCAÇ 12 (à direita), pousando junto a uma parede bidões com areia (que serviam de protecção em caso de ataque) juntamente com comaradas do Xime, à esquerda (1970).


1. Bom, camarigos(=camaradas & amigos de tertúlia), ainda não chegámos à Madeira, mas já estamos nos Açores... Graças a esta jigajoga da Internet...

Pois é, lá nas Ilha das Flores, nas Lajes das Flores, há um camarada que andou connosco no Sector L1, Zona Leste, nos idos tempos de 1968/70 e que se reconheceu num das fotos publicadas na página do Xime. Apresento-vos o novo tertuliano, o ex-Furriel Miliciano Mário Armas de Sousa, do Pel Caç Nat 54 (Missirá, 1969/70).

Caro colega:

Sou ex-furriel miliciano e estive na Guiné de 1968 a 1970, em Porto Gole, Enxalé, Xime e Missirá. Também estou na fotografia da vossa página, tirada no quartel do Xime, junto dos bidões.

Tenho alguma informação e fotografias do meu grupo de combate para acrescentar à vossa página se possível; é favor confirmar o seu endereço electrónico.

© Mário Armas de Sousa (2005)

Guiné-Bissau > Região Leste > Bambadinca > Missirá : Pelotão de Caçadores Nativos nº 54, em 1970.

1ª fila da direita para esquerda: do pessoal metropolitano, o primeiro sou eu, furriel miliciano Mário Armas de Sousa; o terceiro é o 1º cabo Capitão.

2ª fila da direita para a esquerda: o primeiro é o soldado Amarante; o segundo é o soldado Bulo; o quinto é o furriel miliciano Inácio; o sexto é o 1º cabo Tomé; o nono é o soldado Samba.

3ª fila da direita para a esquerda: do pessoal metropolitano, o primeiro é o furriel miliciano Sousa Pereira; o quinto é o alferes miliciano Correia (comandante de pelotão); o sétimo é o 1º cabo Monteiro; o oitavo, africano, é o soldado Pucha (era turra e foi capturado e ficou no nosso exército)

Cumprimentos, Mário Armas de Sousa, Açores (O Mário utilizou o e-mail dos Serviços de Ambiente das Flores e Corvo, onde presumivelmente trabalha)


2. Eis a minha resposta (com correcçõe posteriores):

Meu caro Mário:

Fico muito contente (e o resto dos camaradas também) por este feliz reencontro, ao fim de tantos anos. Andámos juntos, no mesmo sector, e na mesma altura (mais tarde conhecido como o Sector L1, Zona Leste, com sede em Bambadinca e que incluía entre outros aquartelamentos e destacamentos, além da sede, o Xime, o Enxalé, Mansambo, o Xitole, Missirá...

No meu tempo, Portogole (b) creio que já pertencia a Mansoa (e não a Bambadinca). Esta povoação ficava na estrada Bafáta-Mansoa-Bissau (interdita no meu tempo).

Podes contactar-me através de qualquer um dos dois e-mails (...). Tens também os endereços de e-mail dos nossos restantes amigos e camaradas de tertúlia, na respectiva página.

Se tiveres fotografias, procura mandá-las digitalizadas, em formato.jpg. Vou dar esta boa notícia aos nossos tertulianos e passar a incluir-te na nossa lista de endereços, se for esse o teu desejo.

Se quiseres, manda também uma foto actual (não é obrigatório). (...) Um grande abraço. Luís Graça (ex- Fur. Mil. Henriques, da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

3. Volta a publicar-se, desta vez neste blogue, a fotografia onde o Mário Armas Sousa se reconheceu. Eu não consigo identificá-lo. Pode ser que outros o consigam, com a preciosa ajuda do Humberto Reis cuja memória (de elefante) já é lendária... Sigo os seus apontamentos:

"Começando da esquerda para a direita e de cima para baixo temos: o de boina já não me lembro quem era, o 2º julgo que era o fur. mil. vagomestre, os 3º, 4º e 5º também não me lembro, o 6º é o Sousa, ex-fur. mil. da CCAÇ 12 e o último sou eu (ainda com algum cabelo e sem barriga). [O 5º julgo ser o Sousa, o Mário Armas de Sousa, do Pel Caça Nat 54; ou não será ? L.G.].

"Na 1ª fila não me lembro quem é o 1º; o 2º, meio careca, era o fur. mil. dos obuses (da BAC de Bissau); os 3º e 4º também não me recordo; o 5º julgo que era o fur. mil. mecânico e o 6º é o Fernandes, ex-fur. mil. da CCAÇ 12 e actual Engenheiro Civil na antiga CUF (já nesse tempo o Fernandes tinha jeito para as obras, pois foi ele que acompanhou todo o Reordenamento dos Nhabijões (a), por isso, quando cá chegou foi acabar o curso, o que muitos fizeram pois tinham-nos deixado a meio e até aldrabado nas habilitações literárias para ver se se baldavam de ir bater com os costados no Ultramar".

Em suma, o Mário Armas Sousa é decerto um deles, mas eu não sei qual... Tenho dúvidas é (i) quanto ao mês e ano em que foi tirada a foto e (ii) quanto à companhia a que pertenciam os camaradas que não eram da CCAÇ 12. Se a foto tiver sido tirada antes de Julho de 1970, o pessoal do Xime deveria pertencer à CART 2520 (1969/1971); em meados de 1970, eles foram rendidos pela CART 2715 (1970/72).

O Mário Armas de Sousa, que além do Xime esteve em Portogole, Enxalé e Missirá, era do PEL CAÇ NAT 54 (c) que, em Novembro d1969, foi render o PEL CAÇ NAT 52 (transferido para Bmabadinca, e que era comandado pelo Alf. Mil Beja Santos).

Com o PEL CAÇ NAT 52 (e julgo que também com o 54) fizémos (a CCAÇ 12 + CCAÇ 2636 + 1 Esq. Morteiros do Pel Mort 2106) talvez a mais dramática, temerária e penosa operação de que eu me lembre: Op Tigre Vadio (Março de 1970), na pensínsula de Madina/Belel, a norte do Rio Geba, no regulado do Cuor, na extremidade sul do famoso corredor do Morès...

Haveremos de falar dessa operação: tenho aqui extractos do relatório e notas do meu diário... A tal operação em que alguns de nós tiveram que beber o próprio mijo para sobreviverem e não morrererem desidratados...

A propósito: alguém tem o contacto do Beja Santos, que era Alf Mil, comandante do Pel Caç Nat 52 ? Já nos encontrámos uma vez, num almoço de confraternização do BCAÇ 2852 (1968/70).

O Alf Mil Cabral, o António Cabral, do Pel Caç Nat 63 (que estava em Fá, a Fá Mandinga onde foi formada e treinada a 1º Companhia de Comandos Africanos e onde Amílcar Cabral trabalhou como engenheiro agrónomo, nos anos 50) é advogado e é também professor no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Ando há anos para me encontrar com ele. O Humberto é capaz de ter o contacto dos dois.

Mantenhas. Luís

____________

Notas de L.G.

(a) Vd post de 21 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCII: O reordenamento de Nhabijões (1969/70)

(b) A grafia correcta será Porto Gole.

(c) Havia vários. Por exemplo, em Maio de 1970, já no final da comissão do BCAÇ 2852 (1968/70), havia três PEL CAÇ NAT no sector: 52 (Bambadinca), 54 (Missirá) e 63 (Fá). Estas unidades não se confundiam com os Pelotões de Milícias: nesta altura, havia já duas Companhias de Milícias... As mílicias tinham uma função de auto-defesa e eram constituídas apenas por elementos da população guineense (neste caso, predominante ou exclusivamente fulas).

25 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCXII: Antologia (21): Choro manjaco, lá no Canchungo

Selecção de Luís Graça:

1. Etnopoema sobre um choro em Canchungo

CHORO

por Jan Muá


"A mim vai na tchoro"
Lá no Canchungo
Eh Batassa
Eh parente
Tam-tam
Eh bombolom...

Eh barro branco da bolanha
Eh máscara cinza

Eh Batassa
Eh irmão
A bó muita mantenha
Eh tripa de vaca
Eh dança
Eh inselência
Eh morto
Eh silêncio
Eh Barsi
Eh irã da morte
Eh vida
Eh vós verdadeiros
Que estais ainda chorando
A parentela
Eh Batassa
Tam-tam...
Am...am...

Jan Muá
Canchungo 1964

______


Glossário (elaborado pelo autor do poema):

Choro - Conjunto de rituais celebrados por ocasião do falecimento de uma pessoa na etnia dos povos animistas na Guiné-Bissau.

Batassa - Uma das famílias principais entre os manjacos, do grupo brame.

Bombolom - Intrumento musical, espécie de tamborim tirado do côncavo do tronco de uma árvore. (É também um instrumento tradicional de comunicação entre aldeias no chão manjaco e no chão balanta. É também o nome da mais célebre - e incómoda, para o poder político - rádio de Bissau, a Rádio Bombolom. L.G.)

Inselência - Era uma parte dos rituais do choro em que se lembravam os nomes dos falecidos da família, quase uma ladainha.

Barsi - Deus entre os Brames.

Bolanha - Várzea para arroz, arrozal.

Irã - Demiurgo ou intermediário entre a divindade superior e os humanos entre os povos animistas da Guiné.

Mantenha - Saudação, em crioulo.

Canchungo - Cidade da região dos manjacos, conhecida entre os portugueses pelo nome de Teixeira Pinto.


Fonte: Usina das Letras


2. Sobre o autor:

Jan Muá é um pseudónimo de João Ferreira, poeta, escritor, ensaísta, crítico literário e jornalista, nascido em Portugal e naturalizado brasileiro em 1977.

João Ferreira é ainda professor universitário e investihgador literário. Co-autor e coordenador da tradução do Dicionário de Política de Norberto Bobbio.

Publicou os seguintes livros: (i) Uaná. São Paulo: Global Editora, 1987; (ii) A Questão do Pré-Modernismo na Literatura Portuguesa. Brasília: Núcleo de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília, 1996;

Com o pseudónoimo de Jan Juá editou A Alma das Coisas (s/l: Editora Papel Virtual, 2004).

Fonte: João Ferreira - Jan Muá

Guiné 63/74 - CCXII: Antologia (21): Choro manjaco, lá no Canchungo

Selecção de Luís Graça:

1. Etnopoema sobre um choro em Canchungo

CHORO

por Jan Muá


"A mim vai na tchoro"
Lá no Canchungo
Eh Batassa
Eh parente
Tam-tam
Eh bombolom...

Eh barro branco da bolanha
Eh máscara cinza

Eh Batassa
Eh irmão
A bó muita mantenha
Eh tripa de vaca
Eh dança
Eh inselência
Eh morto
Eh silêncio
Eh Barsi
Eh irã da morte
Eh vida
Eh vós verdadeiros
Que estais ainda chorando
A parentela
Eh Batassa
Tam-tam...
Am...am...

Jan Muá
Canchungo 1964

______


Glossário (elaborado pelo autor do poema):

Choro - Conjunto de rituais celebrados por ocasião do falecimento de uma pessoa na etnia dos povos animistas na Guiné-Bissau.

Batassa - Uma das famílias principais entre os manjacos, do grupo brame.

Bombolom - Intrumento musical, espécie de tamborim tirado do côncavo do tronco de uma árvore. (É também um instrumento tradicional de comunicação entre aldeias no chão manjaco e no chão balanta. É também o nome da mais célebre - e incómoda, para o poder político - rádio de Bissau, a Rádio Bombolom. L.G.)

Inselência - Era uma parte dos rituais do choro em que se lembravam os nomes dos falecidos da família, quase uma ladainha.

Barsi - Deus entre os Brames.

Bolanha - Várzea para arroz, arrozal.

Irã - Demiurgo ou intermediário entre a divindade superior e os humanos entre os povos animistas da Guiné.

Mantenha - Saudação, em crioulo.

Canchungo - Cidade da região dos manjacos, conhecida entre os portugueses pelo nome de Teixeira Pinto.


Fonte: Usina das Letras


2. Sobre o autor:

Jan Muá é um pseudónimo de João Ferreira, poeta, escritor, ensaísta, crítico literário e jornalista, nascido em Portugal e naturalizado brasileiro em 1977.

João Ferreira é ainda professor universitário e investihgador literário. Co-autor e coordenador da tradução do Dicionário de Política de Norberto Bobbio.

Publicou os seguintes livros: (i) Uaná. São Paulo: Global Editora, 1987; (ii) A Questão do Pré-Modernismo na Literatura Portuguesa. Brasília: Núcleo de Estudos Portugueses da Universidade de Brasília, 1996;

Com o pseudónoimo de Jan Juá editou A Alma das Coisas (s/l: Editora Papel Virtual, 2004).

Fonte: João Ferreira - Jan Muá

Guiné 63/74 - CCXI: Coisas sobre Canchungo (antiga Teixeira Pinto)

Texto de Afonso M.F. Sousa:

1. Coisas sobre Teixeira Pinto...atrás do objectivo de descobrir algo que nos possa levar à data em que foi atribuido aquele nome à antiga vila do Canchungo, nome que foi reposto com a independência da Guiné-Bissau.

Para já parece estar difícil. Talvez seja melhor interrogar directamente o municipio !...

2. Leio no sítio do Departamento de Estado Norte-Americano > Departamento de Assuntos Africanos > Guiné-Bissau (Agotso de 2005, em inglês):

Antes da 1ª Guerra Mundial, as forças portuguesas sob o comando do major Teixeira Pinto, com algum auxílio da população muçulmana, dominou tribos animistas e estabeleceram eventualmente as fronteiras do território. O interior do Guiné Portuguesa ficou sob controlo após mais de 30 anos de luta; a subjugação final das ilhas de Bijagós não ocorreu senão até 1936. A capital administrativa foi transferida de Bolama para Bissau em 1941, e em 1952, pela emenda constitucional, a colónia da Guiné Portuguesa transformou-se numa província ultramarina de Portugal.

3. De acordo com a Enciclopédia Britância, fico a sabe que Canchungo é actualmente o maior centro guineense de produção de óleo de palma e grande produtor de arroz e de óleo de coconote. Canchungo : "formerly Teixeira Pinto, town, Cacheu region, northwestern Guinea-Bissau, West Africa. The town lies between the Rio Cacheu and the Rio Mansôa in an area of coastal lowlands and is a major producer of oil-palm vegetable oil for export. It is also a market centre for rice and coconuts grown nearby. The town is connected by road to Bissau, the national capital. Pop. (1979) mun., 36,766.)".

4. Leio, no sítio Bolanha - Associação Guineense de Quadros e Estudantes,a notícia de que a Fábrica Sicaju é "um exemplo sucesso de investimento português no país", indo abrir em breve, nos primeiros meses do próximo ano, "uma nova unidade na região de Canchungo, interior norte da Guiné-Bissau". Passo a transcrever, a seguir, a notícia na íntegra (que é da Lusa, 15 de Julho de 2005).

________

Bissau, 15 Jul (Lusa) - A Sicaju, fábrica de transformação da castanha de caju do grupo português MCI Caju, é uma das poucas unidades fabris da Guiné-Bissau, emprega 200 jovens guineenses e é considerada um exemplo de sucesso de investimento português no país.

Hoje de manhã, e já em plena actividade laboral, a Sicaju recebeu a visita do presidente guineense, Henrique Rosa, que após uma visita guiada às instalações da fábrica, construídas de raiz, disse à agência Lusa que estava "encantado" com aquilo que viu.

"Se nós conseguíssemos ter, pelo menos, mais uma dezena de iniciativas como esta poderíamos resolver muitos dos graves problemas sociais que afectam a Guiné-Bissau e, consequentemente, melhorar o preço do caju ao produtor", frisou Henrique Rosa.

O caju, exportado em bruto, essencialmente para a Índia, é, a par da pesca, um dos principais produtos que fazem entrar divisas no Tesouro Público guineense, chegando a gerar receitas na ordem dos 55 milhões de dólares (45,8 milhões de euros).

Laborando a partir de Julho de 2004, a Sicaju tem capacidade para transformar cerca de 16 toneladas de castanha bruta em amêndoa de "primeira qualidade", tendo o mercado holandês como destino principal.

António Mota, gerente e representante da MCI Caju, que detém 60 por cento da fábrica, explicou à agência Lusa que ainda não tem pronta a "encomenda", mas assegurou já ter garantido "comprador" para toda a produção até Maio de 2006.

Levantando um pouco a ponta do véu, António Mota adiantou à Lusa que a sua empresa está "satisfeita" pelo retorno do investimento que fez, uma vez que, com "pouco dinheiro", 1,2 milhões de dólares (cerca de um milhão de euros), tem garantida "uma boa margem de lucro".

Daí o apelo aos empresários portugueses que queiram iniciar ou estejam com dúvidas sobre desenvolver um negocio na Guiné-Bissau.

"Invistam no sector do caju. Há muitas potencialidades nesse sector. O investimento até nem é grande e permite um retorno rápido do capital. Permite ainda uma actividade sustentável e durante todo o ano e enquadrada no próprio país", explicou o gerente da Sicaju.

António Mota adiantou ainda que o sector do caju é a "primeira actividade de negócio" na Guiné-Bissau, pelo que a sua empresa conta alargar horizontes.

Brevemente, o grupo conta receber novos equipamentos de Portugal, o que vai permitir, explicou, que a empresa aumente para 300 o número de funcionários, tendo também garantido a castanha bruta para a produção até Fevereiro de 2006.

Se tudo correr como previsto, a Sicaju vai abrir uma nova unidade na região de Canchungo, interior norte da Guiné-Bissau, nos primeiros meses do próximo ano, afirmou António Mota.

Explicou ainda que a amêndoa produzida pela Sicaju não chega ao mercado português por "manifesta falta de capacidade de resposta" às encomendas que recebe, mas também porque, seguindo as leis da globalização, o mercado holandês "oferece melhores condições de preço".

Ainda a justificar as "vantagens" de um negócio no sector de transformação do caju na Guiné-Bissau, António Mota destacou a "facilidade" na obtenção da matéria-prima e a "disponibilidade" da mão- de-obra local.

"Aqui, nesta unidade de Bissau, temos, neste momento, 200 trabalhadores, todos guineenses. Sou o único estrangeiro aqui. Isso diz tudo das potencialidades deste sector", frisou.

António Mota contou ainda que o salário mínimo praticado na fábrica ronda os 45 mil francos CFA (68,70 euros), sem contar com o almoço e o transporte que a empresa oferece gratuitamente aos trabalhadores.

Questionado pela Lusa, em plena actividade de corte da castanha bruta, o jovem Uié Gomes disse que o trabalho na Sicaju é a "melhor coisa" que já lhe aconteceu.

A razão é, afinal, bem simples: "Tenho um salário mensal e deixei para trás o tédio de ficar em casa sem fazer nada".

O mesmo sucede com a maioria dos 200 trabalhadores, quase todos jovens como Uié Gomes.


5. Filhos ilustres de Canchungo / Teixeira Pinto:

Já referi aqui, noutro post, o nome de Carlos Lopes, um prestigiado sociólogo guineense e quadro superior da ONU, nascido no Canchungo em 1960.

Mas também é do Canchungo o poeta António Baticã Ferreira (Nascido em 1939,
é licenciado em Medicina pela Universidade de Lausana, Suíça. Colaborou em diversas publicações como poeta).

Um dos mais conhecidos e prestigiados jornalistas da Guiné-Bissau, Carlos Batic Ferreira, também era do Canchungo, onde de resto morreu, em 2002, aos 45 anos. jornalismo da Guiné-Bissau.

Aristides Gomes, 1º vice-presidente do PAIGC, também é do Canchungo. Professor primário, ingressou nas fileiras do PAIGC em 18 de Dezembro de 1973, em Cobiana, na Região de Cacheu.

Os nossos amigos e cmaradas de tertúlia ficam ainda a saber que a Câmara Municipal do Porto tem um protocolod e cooperação com o Canchungo, podendo originar uma futura geminação.

É tudo, por agora. Falamos das terras guineenses do passado mas também será giro constatar o que são no presente.

Guiné 63/74 - CCXI: Coisas sobre Canchungo (antiga Teixeira Pinto)

Texto de Afonso M.F. Sousa:

1. Coisas sobre Teixeira Pinto...atrás do objectivo de descobrir algo que nos possa levar à data em que foi atribuido aquele nome à antiga vila do Canchungo, nome que foi reposto com a independência da Guiné-Bissau.

Para já parece estar difícil. Talvez seja melhor interrogar directamente o municipio !...

2. Leio no sítio do Departamento de Estado Norte-Americano > Departamento de Assuntos Africanos > Guiné-Bissau (Agotso de 2005, em inglês):

Antes da 1ª Guerra Mundial, as forças portuguesas sob o comando do major Teixeira Pinto, com algum auxílio da população muçulmana, dominou tribos animistas e estabeleceram eventualmente as fronteiras do território. O interior do Guiné Portuguesa ficou sob controlo após mais de 30 anos de luta; a subjugação final das ilhas de Bijagós não ocorreu senão até 1936. A capital administrativa foi transferida de Bolama para Bissau em 1941, e em 1952, pela emenda constitucional, a colónia da Guiné Portuguesa transformou-se numa província ultramarina de Portugal.

3. De acordo com a Enciclopédia Britância, fico a sabe que Canchungo é actualmente o maior centro guineense de produção de óleo de palma e grande produtor de arroz e de óleo de coconote. Canchungo : "formerly Teixeira Pinto, town, Cacheu region, northwestern Guinea-Bissau, West Africa. The town lies between the Rio Cacheu and the Rio Mansôa in an area of coastal lowlands and is a major producer of oil-palm vegetable oil for export. It is also a market centre for rice and coconuts grown nearby. The town is connected by road to Bissau, the national capital. Pop. (1979) mun., 36,766.)".

4. Leio, no sítio Bolanha - Associação Guineense de Quadros e Estudantes,a notícia de que a Fábrica Sicaju é "um exemplo sucesso de investimento português no país", indo abrir em breve, nos primeiros meses do próximo ano, "uma nova unidade na região de Canchungo, interior norte da Guiné-Bissau". Passo a transcrever, a seguir, a notícia na íntegra (que é da Lusa, 15 de Julho de 2005).

________

Bissau, 15 Jul (Lusa) - A Sicaju, fábrica de transformação da castanha de caju do grupo português MCI Caju, é uma das poucas unidades fabris da Guiné-Bissau, emprega 200 jovens guineenses e é considerada um exemplo de sucesso de investimento português no país.

Hoje de manhã, e já em plena actividade laboral, a Sicaju recebeu a visita do presidente guineense, Henrique Rosa, que após uma visita guiada às instalações da fábrica, construídas de raiz, disse à agência Lusa que estava "encantado" com aquilo que viu.

"Se nós conseguíssemos ter, pelo menos, mais uma dezena de iniciativas como esta poderíamos resolver muitos dos graves problemas sociais que afectam a Guiné-Bissau e, consequentemente, melhorar o preço do caju ao produtor", frisou Henrique Rosa.

O caju, exportado em bruto, essencialmente para a Índia, é, a par da pesca, um dos principais produtos que fazem entrar divisas no Tesouro Público guineense, chegando a gerar receitas na ordem dos 55 milhões de dólares (45,8 milhões de euros).

Laborando a partir de Julho de 2004, a Sicaju tem capacidade para transformar cerca de 16 toneladas de castanha bruta em amêndoa de "primeira qualidade", tendo o mercado holandês como destino principal.

António Mota, gerente e representante da MCI Caju, que detém 60 por cento da fábrica, explicou à agência Lusa que ainda não tem pronta a "encomenda", mas assegurou já ter garantido "comprador" para toda a produção até Maio de 2006.

Levantando um pouco a ponta do véu, António Mota adiantou à Lusa que a sua empresa está "satisfeita" pelo retorno do investimento que fez, uma vez que, com "pouco dinheiro", 1,2 milhões de dólares (cerca de um milhão de euros), tem garantida "uma boa margem de lucro".

Daí o apelo aos empresários portugueses que queiram iniciar ou estejam com dúvidas sobre desenvolver um negocio na Guiné-Bissau.

"Invistam no sector do caju. Há muitas potencialidades nesse sector. O investimento até nem é grande e permite um retorno rápido do capital. Permite ainda uma actividade sustentável e durante todo o ano e enquadrada no próprio país", explicou o gerente da Sicaju.

António Mota adiantou ainda que o sector do caju é a "primeira actividade de negócio" na Guiné-Bissau, pelo que a sua empresa conta alargar horizontes.

Brevemente, o grupo conta receber novos equipamentos de Portugal, o que vai permitir, explicou, que a empresa aumente para 300 o número de funcionários, tendo também garantido a castanha bruta para a produção até Fevereiro de 2006.

Se tudo correr como previsto, a Sicaju vai abrir uma nova unidade na região de Canchungo, interior norte da Guiné-Bissau, nos primeiros meses do próximo ano, afirmou António Mota.

Explicou ainda que a amêndoa produzida pela Sicaju não chega ao mercado português por "manifesta falta de capacidade de resposta" às encomendas que recebe, mas também porque, seguindo as leis da globalização, o mercado holandês "oferece melhores condições de preço".

Ainda a justificar as "vantagens" de um negócio no sector de transformação do caju na Guiné-Bissau, António Mota destacou a "facilidade" na obtenção da matéria-prima e a "disponibilidade" da mão- de-obra local.

"Aqui, nesta unidade de Bissau, temos, neste momento, 200 trabalhadores, todos guineenses. Sou o único estrangeiro aqui. Isso diz tudo das potencialidades deste sector", frisou.

António Mota contou ainda que o salário mínimo praticado na fábrica ronda os 45 mil francos CFA (68,70 euros), sem contar com o almoço e o transporte que a empresa oferece gratuitamente aos trabalhadores.

Questionado pela Lusa, em plena actividade de corte da castanha bruta, o jovem Uié Gomes disse que o trabalho na Sicaju é a "melhor coisa" que já lhe aconteceu.

A razão é, afinal, bem simples: "Tenho um salário mensal e deixei para trás o tédio de ficar em casa sem fazer nada".

O mesmo sucede com a maioria dos 200 trabalhadores, quase todos jovens como Uié Gomes.


5. Filhos ilustres de Canchungo / Teixeira Pinto:

Já referi aqui, noutro post, o nome de Carlos Lopes, um prestigiado sociólogo guineense e quadro superior da ONU, nascido no Canchungo em 1960.

Mas também é do Canchungo o poeta António Baticã Ferreira (Nascido em 1939,
é licenciado em Medicina pela Universidade de Lausana, Suíça. Colaborou em diversas publicações como poeta).

Um dos mais conhecidos e prestigiados jornalistas da Guiné-Bissau, Carlos Batic Ferreira, também era do Canchungo, onde de resto morreu, em 2002, aos 45 anos. jornalismo da Guiné-Bissau.

Aristides Gomes, 1º vice-presidente do PAIGC, também é do Canchungo. Professor primário, ingressou nas fileiras do PAIGC em 18 de Dezembro de 1973, em Cobiana, na Região de Cacheu.

Os nossos amigos e cmaradas de tertúlia ficam ainda a saber que a Câmara Municipal do Porto tem um protocolod e cooperação com o Canchungo, podendo originar uma futura geminação.

É tudo, por agora. Falamos das terras guineenses do passado mas também será giro constatar o que são no presente.

24 setembro 2005

Guiné 63/74 - CCX: Oficial do Estado Maior do 'Caco'... por duas horas

António Spínola (Estremoz, 1910- Lisboa, 1996), presidente da República (de 15 de Maio de a 30 de Setembro de 1974).

Retrato a óleo pelo pintor Jacinto Luís. Presidência da Repúblcsa Portuguesa.



Texto do João Tunes:

Por onde andei, o Spínola só era tratado por "caco" (por causa do vidrinho que ele segurava no olho e que estávamos sempre à espera quando é que se escaqueirava no meio do chão mas o sacana tinha artes de ginástica facial e nunca nos deu esse gozo). (...) Embora mesnos usado, também ouvi chamar-lhe o "gajo do pingalim" mas isso foi em Bissau que era malta mais finaça e quando estive no Estado Maior General (EMG).

Ui, reparo agora que na minha apresentação curricular não vos disse que fui Oficial do Estado Maior General do Comando Territorial Militar da Guiné. Fui, sim senhor. Por duas horas, mas fui.

Esta conta-se depressa. Quando levei a porrada no Pelundo (1) mandaram-me seguir para Bissau à espera de destino de colocação. Por lá estive uns dias a coçar o cú e os tomates pela Messe e Caserna de Oficiais em Santa Luzia mais tomar banho na bruta piscina para a oficialada.

Um dia de manhã, recebo ordem para me apresentar no EMG, na Repartição de Operações, onde tinha sido colocado. Apresentei-me a pensar para comigo "estes gajos tiveram pena, viram que meteram a pata na poça com a porrada que me deram e agora querem compensar a coisa dando-me vida de elite aqui ao pé do General, ora, ainda bem, isto afinal está-se a compôr e há males que vêm por bem" e outras filosofices de basófia (até já me estava a ver com mordomias e coisas que tais).

Apresentei-me e disseram-me para ler umas coisas para me identificar com o serviço, aquilo eram só mapas, mais mensagens e informações confidenciais e secretas sobre o IN, dicas dos pides, combinações em voz baixa, coisa e tal, mais uma data de majores e capitães cagões (por serem da elite do Spínola) e não me esqueço que encontrei lá pessoal que depois foi célebre como o Eanes, o Otelo, o Monge, o Lemos Pires e outros mais, e eu ali na nata das NT.

Ainda não tinha a manhã acabado aparece um dos majores, todo esbaforido (julgo que foi o Lemos Pires que esteve em Timor na descolonização), a dizer que tinha havido engano e que aquele lugar era para outro alferes (pelo nome, filho de boas famílias) e que eu tinha era que arrumar o saco e seguir de Dornier no outro dia pela fresquinha para Catió (2) que ali é que era o sítio certo para oficiais corrécios e punidos.

E desandei dali para fora com as minhas duas horas de serviço de Oficial de Estado Maior com Catió, Cacine, Guileje e Gadamael à minha espera. Lixaram-me o resto da comissão mas não me limpam o currículo. Pois foi aí que eles falavam do "pingalim" quando se referiam ao General (deviam achar que "caco" não era próprio do lugar).

_______

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 15 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CXC: João Tunes, o novo tertuliano.

Vd. também post de 11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLIX: Antologia (15): Lembranças do chão manjaco (Do Pelundo ao Canchungo)

(2) Vd. post de 12 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CLXXXVI: No "reino do Nino": Catió, Cacine, Gadamael, Guileje (1970)

Guiné 63/74 - CCX: Oficial do Estado Maior do 'Caco'... por duas horas

António Spínola (Estremoz, 1910- Lisboa, 1996), presidente da República (de 15 de Maio de a 30 de Setembro de 1974).

Retrato a óleo pelo pintor Jacinto Luís. Presidência da Repúblcsa Portuguesa.



Texto do João Tunes:

Por onde andei, o Spínola só era tratado por "caco" (por causa do vidrinho que ele segurava no olho e que estávamos sempre à espera quando é que se escaqueirava no meio do chão mas o sacana tinha artes de ginástica facial e nunca nos deu esse gozo). (...) Embora mesnos usado, também ouvi chamar-lhe o "gajo do pingalim" mas isso foi em Bissau que era malta mais finaça e quando estive no Estado Maior General (EMG).

Ui, reparo agora que na minha apresentação curricular não vos disse que fui Oficial do Estado Maior General do Comando Territorial Militar da Guiné. Fui, sim senhor. Por duas horas, mas fui.

Esta conta-se depressa. Quando levei a porrada no Pelundo (1) mandaram-me seguir para Bissau à espera de destino de colocação. Por lá estive uns dias a coçar o cú e os tomates pela Messe e Caserna de Oficiais em Santa Luzia mais tomar banho na bruta piscina para a oficialada.

Um dia de manhã, recebo ordem para me apresentar no EMG, na Repartição de Operações, onde tinha sido colocado. Apresentei-me a pensar para comigo "estes gajos tiveram pena, viram que meteram a pata na poça com a porrada que me deram e agora querem compensar a coisa dando-me vida de elite aqui ao pé do General, ora, ainda bem, isto afinal está-se a compôr e há males que vêm por bem" e outras filosofices de basófia (até já me estava a ver com mordomias e coisas que tais).

Apresentei-me e disseram-me para ler umas coisas para me identificar com o serviço, aquilo eram só mapas, mais mensagens e informações confidenciais e secretas sobre o IN, dicas dos pides, combinações em voz baixa, coisa e tal, mais uma data de majores e capitães cagões (por serem da elite do Spínola) e não me esqueço que encontrei lá pessoal que depois foi célebre como o Eanes, o Otelo, o Monge, o Lemos Pires e outros mais, e eu ali na nata das NT.

Ainda não tinha a manhã acabado aparece um dos majores, todo esbaforido (julgo que foi o Lemos Pires que esteve em Timor na descolonização), a dizer que tinha havido engano e que aquele lugar era para outro alferes (pelo nome, filho de boas famílias) e que eu tinha era que arrumar o saco e seguir de Dornier no outro dia pela fresquinha para Catió (2) que ali é que era o sítio certo para oficiais corrécios e punidos.

E desandei dali para fora com as minhas duas horas de serviço de Oficial de Estado Maior com Catió, Cacine, Guileje e Gadamael à minha espera. Lixaram-me o resto da comissão mas não me limpam o currículo. Pois foi aí que eles falavam do "pingalim" quando se referiam ao General (deviam achar que "caco" não era próprio do lugar).

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Notas de L.G.

(1) Vd. post de 15 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CXC: João Tunes, o novo tertuliano.

Vd. também post de 11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLIX: Antologia (15): Lembranças do chão manjaco (Do Pelundo ao Canchungo)

(2) Vd. post de 12 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CLXXXVI: No "reino do Nino": Catió, Cacine, Gadamael, Guileje (1970)

Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática

Luís Moreira, Alf. Mili. Sapador, no Batalhão de Engenharia, em Bissau, já recuperado do acidente com a mina A/C, em Nhabijões (Bambadinca), a 13 de Janeiro de 1971

© Luís Moreira (2005)




Texto do Luís Moreira:

Depois de ler a prosa do João Tunes, dei-me conta de que, também eu, me não apresentei convenientemente aos camarigas que não me conheceram.

Nasci numa vila para os lados de Viseu, mais proprimente em Torredeita, que até vem em alguns mapas e tem uma Escola Superior de Agricultura (Politécnica), muito falada nos telejornais do Verão por o pessoal acampar à sua volta para garantir uma das poucas vagas que são postas à disposição.

Em 1969, com 25 anos e o curso de engenharia interrompido, entrei em Mafra para o curso de oficiais para canhão, onde terminei a especialidade em minas e armadilhas (éramos 16 no pelotão), curso que não terminámos sem que 15 de nós fossemos contemplados com 19 dias de detenção e 45 de dispensas cortadas por, segundo reza a ordem de serviço [texto incompleto] (Como percebem tive de ocultar os nomes dos restantes 15 ex-camaradas por motivos óbvios).

E a punição não foi mais severa porque com 20 dias iríamos todos parar ao contingente geral e não teriam oficiais sapadores para enviarem para os teatros de guerra. Se o pudessem fazer estavam-se a borrifar para a oportunidade de reorientarmos o nosso comportamento.

Já como aspirante miliciano fui para Bragança instruir soldados que iriam para a as ex-colónias. Terminada a instrução fiz uma passagem por Tancos onde, pretensamente, deveria aprender mais alguma coisa sobre minas e armadilhas mas fiquei convencido de que, com o que aprendemos em Mafra, sabíamos mais que os oficiais e sargentos nossos instrutores em Tancos.

Finalmente fui para Viana do Castelo onde me encontrei com todos os ex-camaradas de infortúnio e formámos o BART 2917.

Em princípios de Maio de 1970 embarcámos naquela que foi a última viagem do velho Carvalho Araújo e desembarcámos em Bissau a 17 do mesmo mês. Ainda me recordo da expressão do Capitão que foi o meu comandante de Companhia e de que não me recordo do nome (ajude-me quem souber - seria o Passos Marques ou esse foi o do Batalhão de Engemharia ?) quando viu um pequeno furo à proa do navio, cerca de um metro acima da linha de àgua, por onde saía um fio de óleo e que o deixou preocupado desconfiando que não chegaria ao destino. Mas chegou e nós também naquela que até foi uma viagem calma.

O resto foi igual ao que já todos sabem. Desembarque, alojamento no Quartel de Adidos em Brá, saída uns dias depois e embarque na LDG que nos levou ao Xime e daí para os outros destinos em coluna.

Em 13 de janeiro do ano seguinte, 1971, foi o acidente com a mina anticarro de que já se falou e se voltará a falar, precedida, na altura do Natal, por uma visita do "homem do caco" ao reordenamento dos Nhabijões, onde esperou 20 minutos pelo alferes sapador, eu, que tinha ido à lenha com umas bajudas, mas que foi encoberto pelo David Guimarães e restantes ex-camaradas que lhe disseram que tinha ido buscar bidões de água para oas obras que estávamos a fazer. A peta pegou pois quando fui almoçar a Bambadinca ninguém me perguntou por onde andei.

Luís Moreira, aos 59 anos, professor de matemática (hoje tem 61 e está à beira da reforma).

© Luís Moreira (2005)


Após o acidente e consequente evacuação para o Hospital de Bissau, fui logo no dia seguinte visitado pelo dito Senhor Comandante que me desejou as rápidas melhoras. Devia estar a fazer falta no reordenamento que, diziam, era a menina dos olhos dele. Mas os médicos trocaram-lhe as voltas pois passaram-me aos serviços auxiliares e depois de uma breve passagem por Bambadinca vim fazer mais 15 ou 16 meses de serviço até 7 de Junho de 1972, mas no Batalhão de Engenharia, com direito a ar condicionado e tudo na messe e no bar de oficiais.

Regressei, terminei a minha licenciatura em Matemática (resolvi mudar de
curso) e passei a ser mais um dos tão criticados professores do ensino secundário que todos acusam de nada fazer a não ser martirizar as ciancinhas. Gostava de ver esses críticos a dar aulas a algumas das turmas que me passaram pelas mãos. Iam parar mais depressa à psiquiatria do que os Bravos que sofreram morteiradas todos os dias na Guiné. Mas esta é outra história. Felizmente vou pedir a reforma para o mês que vem embora, por decisão desta ministra, tenha de aguentar a dar aulas todo o ano lectivo.

Como já vi as fotos de alguns camarigas no antes e no depois, junto também as minhas, uma aos 26 anos já no ar condicionado do BENG 447, e outra mais recente, teria os meus 59 anos (hoje estou com 61).

Mantenhas.

Luís Moreira

Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática

Luís Moreira, Alf. Mili. Sapador, no Batalhão de Engenharia, em Bissau, já recuperado do acidente com a mina A/C, em Nhabijões (Bambadinca), a 13 de Janeiro de 1971

© Luís Moreira (2005)




Texto do Luís Moreira:

Depois de ler a prosa do João Tunes, dei-me conta de que, também eu, me não apresentei convenientemente aos camarigas que não me conheceram.

Nasci numa vila para os lados de Viseu, mais proprimente em Torredeita, que até vem em alguns mapas e tem uma Escola Superior de Agricultura (Politécnica), muito falada nos telejornais do Verão por o pessoal acampar à sua volta para garantir uma das poucas vagas que são postas à disposição.

Em 1969, com 25 anos e o curso de engenharia interrompido, entrei em Mafra para o curso de oficiais para canhão, onde terminei a especialidade em minas e armadilhas (éramos 16 no pelotão), curso que não terminámos sem que 15 de nós fossemos contemplados com 19 dias de detenção e 45 de dispensas cortadas por, segundo reza a ordem de serviço [texto incompleto] (Como percebem tive de ocultar os nomes dos restantes 15 ex-camaradas por motivos óbvios).

E a punição não foi mais severa porque com 20 dias iríamos todos parar ao contingente geral e não teriam oficiais sapadores para enviarem para os teatros de guerra. Se o pudessem fazer estavam-se a borrifar para a oportunidade de reorientarmos o nosso comportamento.

Já como aspirante miliciano fui para Bragança instruir soldados que iriam para a as ex-colónias. Terminada a instrução fiz uma passagem por Tancos onde, pretensamente, deveria aprender mais alguma coisa sobre minas e armadilhas mas fiquei convencido de que, com o que aprendemos em Mafra, sabíamos mais que os oficiais e sargentos nossos instrutores em Tancos.

Finalmente fui para Viana do Castelo onde me encontrei com todos os ex-camaradas de infortúnio e formámos o BART 2917.

Em princípios de Maio de 1970 embarcámos naquela que foi a última viagem do velho Carvalho Araújo e desembarcámos em Bissau a 17 do mesmo mês. Ainda me recordo da expressão do Capitão que foi o meu comandante de Companhia e de que não me recordo do nome (ajude-me quem souber - seria o Passos Marques ou esse foi o do Batalhão de Engemharia ?) quando viu um pequeno furo à proa do navio, cerca de um metro acima da linha de àgua, por onde saía um fio de óleo e que o deixou preocupado desconfiando que não chegaria ao destino. Mas chegou e nós também naquela que até foi uma viagem calma.

O resto foi igual ao que já todos sabem. Desembarque, alojamento no Quartel de Adidos em Brá, saída uns dias depois e embarque na LDG que nos levou ao Xime e daí para os outros destinos em coluna.

Em 13 de janeiro do ano seguinte, 1971, foi o acidente com a mina anticarro de que já se falou e se voltará a falar, precedida, na altura do Natal, por uma visita do "homem do caco" ao reordenamento dos Nhabijões, onde esperou 20 minutos pelo alferes sapador, eu, que tinha ido à lenha com umas bajudas, mas que foi encoberto pelo David Guimarães e restantes ex-camaradas que lhe disseram que tinha ido buscar bidões de água para oas obras que estávamos a fazer. A peta pegou pois quando fui almoçar a Bambadinca ninguém me perguntou por onde andei.

Luís Moreira, aos 59 anos, professor de matemática (hoje tem 61 e está à beira da reforma).

© Luís Moreira (2005)


Após o acidente e consequente evacuação para o Hospital de Bissau, fui logo no dia seguinte visitado pelo dito Senhor Comandante que me desejou as rápidas melhoras. Devia estar a fazer falta no reordenamento que, diziam, era a menina dos olhos dele. Mas os médicos trocaram-lhe as voltas pois passaram-me aos serviços auxiliares e depois de uma breve passagem por Bambadinca vim fazer mais 15 ou 16 meses de serviço até 7 de Junho de 1972, mas no Batalhão de Engenharia, com direito a ar condicionado e tudo na messe e no bar de oficiais.

Regressei, terminei a minha licenciatura em Matemática (resolvi mudar de
curso) e passei a ser mais um dos tão criticados professores do ensino secundário que todos acusam de nada fazer a não ser martirizar as ciancinhas. Gostava de ver esses críticos a dar aulas a algumas das turmas que me passaram pelas mãos. Iam parar mais depressa à psiquiatria do que os Bravos que sofreram morteiradas todos os dias na Guiné. Mas esta é outra história. Felizmente vou pedir a reforma para o mês que vem embora, por decisão desta ministra, tenha de aguentar a dar aulas todo o ano lectivo.

Como já vi as fotos de alguns camarigas no antes e no depois, junto também as minhas, uma aos 26 anos já no ar condicionado do BENG 447, e outra mais recente, teria os meus 59 anos (hoje estou com 61).

Mantenhas.

Luís Moreira