08 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCLXXIX: Crianças de Farim ou como o mundo é pequeno (2)

1. Comentário do Afonso M. F. Sousa, que foi furriel miliciano de transmissões na CART 2412, e que esteve na região do Cacheu (Bigene, Binta, Guidage e Barro) entre Agosto de 1968 e Maio de 1970:


Quase incrível! Fotografar alguém que apareceu espontaneamente à frente da máquina, em 1998, em Farim...

Hoje, sete anos depois, alguém que nasceu naquela terra da Guiné, pede a ex-militares portugueses que lhe falem da sua Farim.

E o que acontece ? Responde-lhe o António Marques Lopes (coronel na reserva) e envia-lhe duas fotografias de Farim.

Resultado: numa delas está um rapaz, de nome Alen, que é, nem mais nem menos, o afilhado deste senhor que queria saber coisas da sua terra.

Simplesmente maravilhoso! Uma prova do que é esta extraordinária comunicação electrónica que aproxima povos e mundos.

Coisas dos tempos !...

(Desculpem esta recapitulação que apenas teve o objectivo de dar a conhecer este episódio a outros amigos).

Fiquem todos bem.

Afonso Sousa
____

Nota: Passei por Farim, em finais de 1968, depois de termos assentado arraiais em Binta e antes de partirmos para Guidage. Mas apenas estivemos lá numa visita rápida. Éramos periquitos na altura. Então pensei naquela Farim que já tínhamos ouvido falar na escola primária, mas fiquei um tanto desiludido!
____

2. Texto do A. Marques Lopes > Ainda o O Anízio...

Olhem o que ele me escreveu hoje:

"Olá, querido amigo Marques!!

"O meu numero de Celular é (...). Podes ligar a qualquer momento que puder. O nome do meu afilhado é Alen, é isso mesmo você não esqueceu. E a menina da camisa é a irmã mais velha dele,ela se chama Fernanda(mais conhecida como Nanda); a outra é a Bebé,também irmã dele.

"Você acertou em cheio mesmo, sobre a minha idade [eu tinha-lhe perguntado se ele não estaria em Farim, em 1998, com 15 anos]. Na altura eu tinha 15 anos mesmo, pois foi no período da guerra civil, e naquele preciso momento eu estava também na cidade de Farim, estudei lá a 9ª classe. Depois da guerra, fui terminar o ensino complementar em Bissau.

"Falando verdade, eu não consigo me sentir bem em nenhum lugar como em Farim. Adoro aquela cidade... Espero, e tenho a certeza que Deus vai me ajudar a concretizar os meus sonhos [já me tinha dito que pensava voltar para ajudar a sua terra]. E estou sentindo isso cada dia que passa, embora enfrentando monte de dificuldades.

"Bom,vou estar aguardando a sua telefonema.

"Um forte abraço do seu grandíssimo amigo, Anízio"

3. Comentário de L.G.:

Agora aqui está uma história bonita e que acaba em bem. Pelo menos, para já. Todos nós, que pertencemos a esta tertúlia de amigos e camaradas, tendo por único ponto em comum a Guiné e o que ela representa (ou representou) para nós, sentimos uma pontinha de orgulho e de satisfação por também podermos contribuir para aproximar os guineenses da diáspora da sua terra, das suas gentes.

Não somos um mero clube de saudosistas ou de ex-combatentes ainda a contas com a liquidação dos fantasmas da guerra e do império colonial português.... Não, somos seres solidários e atentos às dificuldades, aos problemas e aos dramas dos nossos amigos da Guiné. Não é fácil (sobre)viver na Guiné, um dos países mais pobres do mundo. Mas também não é fácil a um guineense (sobre)viver fora da sua terra. Podemos ajudar este jovem, o Anízio, de muitas maneiras. Uma das mais efectivas é manter viva a sua relação umbilical com a sua terra e as suas gentes. Este blogue pode ajudá-lo. Seria bom que ele integrasse a nossa tertúlia. A decisão é dele e dos restantes tertulianos...

Guiné 63/74 - CCLXXIX: Crianças de Farim ou como o mundo é pequeno (2)

1. Comentário do Afonso M. F. Sousa, que foi furriel miliciano de transmissões na CART 2412, e que esteve na região do Cacheu (Bigene, Binta, Guidage e Barro) entre Agosto de 1968 e Maio de 1970:


Quase incrível! Fotografar alguém que apareceu espontaneamente à frente da máquina, em 1998, em Farim...

Hoje, sete anos depois, alguém que nasceu naquela terra da Guiné, pede a ex-militares portugueses que lhe falem da sua Farim.

E o que acontece ? Responde-lhe o António Marques Lopes (coronel na reserva) e envia-lhe duas fotografias de Farim.

Resultado: numa delas está um rapaz, de nome Alen, que é, nem mais nem menos, o afilhado deste senhor que queria saber coisas da sua terra.

Simplesmente maravilhoso! Uma prova do que é esta extraordinária comunicação electrónica que aproxima povos e mundos.

Coisas dos tempos !...

(Desculpem esta recapitulação que apenas teve o objectivo de dar a conhecer este episódio a outros amigos).

Fiquem todos bem.

Afonso Sousa
____

Nota: Passei por Farim, em finais de 1968, depois de termos assentado arraiais em Binta e antes de partirmos para Guidage. Mas apenas estivemos lá numa visita rápida. Éramos periquitos na altura. Então pensei naquela Farim que já tínhamos ouvido falar na escola primária, mas fiquei um tanto desiludido!
____

2. Texto do A. Marques Lopes > Ainda o O Anízio...

Olhem o que ele me escreveu hoje:

"Olá, querido amigo Marques!!

"O meu numero de Celular é (...). Podes ligar a qualquer momento que puder. O nome do meu afilhado é Alen, é isso mesmo você não esqueceu. E a menina da camisa é a irmã mais velha dele,ela se chama Fernanda(mais conhecida como Nanda); a outra é a Bebé,também irmã dele.

"Você acertou em cheio mesmo, sobre a minha idade [eu tinha-lhe perguntado se ele não estaria em Farim, em 1998, com 15 anos]. Na altura eu tinha 15 anos mesmo, pois foi no período da guerra civil, e naquele preciso momento eu estava também na cidade de Farim, estudei lá a 9ª classe. Depois da guerra, fui terminar o ensino complementar em Bissau.

"Falando verdade, eu não consigo me sentir bem em nenhum lugar como em Farim. Adoro aquela cidade... Espero, e tenho a certeza que Deus vai me ajudar a concretizar os meus sonhos [já me tinha dito que pensava voltar para ajudar a sua terra]. E estou sentindo isso cada dia que passa, embora enfrentando monte de dificuldades.

"Bom,vou estar aguardando a sua telefonema.

"Um forte abraço do seu grandíssimo amigo, Anízio"

3. Comentário de L.G.:

Agora aqui está uma história bonita e que acaba em bem. Pelo menos, para já. Todos nós, que pertencemos a esta tertúlia de amigos e camaradas, tendo por único ponto em comum a Guiné e o que ela representa (ou representou) para nós, sentimos uma pontinha de orgulho e de satisfação por também podermos contribuir para aproximar os guineenses da diáspora da sua terra, das suas gentes.

Não somos um mero clube de saudosistas ou de ex-combatentes ainda a contas com a liquidação dos fantasmas da guerra e do império colonial português.... Não, somos seres solidários e atentos às dificuldades, aos problemas e aos dramas dos nossos amigos da Guiné. Não é fácil (sobre)viver na Guiné, um dos países mais pobres do mundo. Mas também não é fácil a um guineense (sobre)viver fora da sua terra. Podemos ajudar este jovem, o Anízio, de muitas maneiras. Uma das mais efectivas é manter viva a sua relação umbilical com a sua terra e as suas gentes. Este blogue pode ajudá-lo. Seria bom que ele integrasse a nossa tertúlia. A decisão é dele e dos restantes tertulianos...

07 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCLXXVIII: Crianças de Farim ou como o mundo é pequeno (1)

Texto do A. Marques Lopes, ex-Alf Mil da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 1968), hoje Coronel, DAF, na reforma:





Caros camaradas tertulianos:

Talvez o mundo seja pequeno, de facto. Mas eu também acho que os nossos horizontes são largos, e tal se devem manter.

Contactei, via e-mail, o Anizio Indami [estudante, 22 anos, natural de Farim, a frequentar a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo, Brasil], dizendo-lhe que os nossos tertulianos estavam prontos para lhe falar de Farim, os que dela soubessem alguma coisa. No meu caso, disse-lhe que nunca tinha passado por lá, a não ser em 1998.


A propósito, mandei-lhe duas fotografias com crianças de Farim, tiradas na altura. Respondeu-me hoje, encantado e comovido por ver que aquela criança que está em primeiro plano, de calções com listas vermelhas, é o seu afilhado Alen, que não vê há anos!

Valeu a pena.

Abraços

A. Marques Lopes

Fotos: Crianças de Farim (1998)

© A. Marques Lopes (2005)

Guiné 63/74 - CCLXXVIII: Crianças de Farim ou como o mundo é pequeno (1)

Texto do A. Marques Lopes, ex-Alf Mil da CART 1690 (Geba, 1967) e da CCAÇ 3 (Barro, 1968), hoje Coronel, DAF, na reforma:





Caros camaradas tertulianos:

Talvez o mundo seja pequeno, de facto. Mas eu também acho que os nossos horizontes são largos, e tal se devem manter.

Contactei, via e-mail, o Anizio Indami [estudante, 22 anos, natural de Farim, a frequentar a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo, Brasil], dizendo-lhe que os nossos tertulianos estavam prontos para lhe falar de Farim, os que dela soubessem alguma coisa. No meu caso, disse-lhe que nunca tinha passado por lá, a não ser em 1998.


A propósito, mandei-lhe duas fotografias com crianças de Farim, tiradas na altura. Respondeu-me hoje, encantado e comovido por ver que aquela criança que está em primeiro plano, de calções com listas vermelhas, é o seu afilhado Alen, que não vê há anos!

Valeu a pena.

Abraços

A. Marques Lopes

Fotos: Crianças de Farim (1998)

© A. Marques Lopes (2005)

Guiné 63/4 - CCLXXVII: Antologia (23): Homenagem aos nossos marinheiros e às suas Lanchas de Desembarque

A Marinha Portuguesa procedeu à monumentalização da LDM 119, construída em 1973 no Arsenal do Alfeite e abatida em 1997, em homenagem às guarnições das Lanchas de Desembarque que serviram em África (10961/74).

O monumento foi erigido, em 2005, na Base Naval de Lisboa, à entrada da Base de Fuzileiros.

Fonte: © Revista da Armada (2005)


O Jorge Santos, sempre atento ao que se escreve sobre a guerra no ultramar, fez-me chegar um excerto do último número da Revista da Armada (nº 391, Novembro de 2005, p. 15), com uma reportagem em que se relata a homenagem, feita pela Marinha Portuguesa, em 16 de Setembro último, a todos os Marinheiros que em África (1961 - 1974) serviram nas Lanchas de Desembarque, tendo-se implantado para tal uma LDM na vizinhança da unidade operacional dos Fuzileiros, "tropa especial que conheceu como ninguém o esforço e o valor das tripulações das LDM".

Desse número da excelente Revista da Armadada publicamos, com a devida vénia, dois excertos, da autoria do comandante de fragata, na reserva, Abel Melo e Sousa. É, também da parte da nossa tertúlia, uma pequena homenagem aos valentes marinheiros que conhecemos na Guiné.


1. As Lanchas de Desembarque Pequenas e Médias

O arranque das primeiras unidades de fuzileiros, na sequência do eclodir da guerra em África em 1961, veio criar a necessidade da construção de lanchas de desembarque. Depois de adquiridas algumas embarcações em segunda mão, foram adquiridos os planos de construção das lanchas utilizadas no último conflito mundial, e desenvolvidos os projectos de execução em estaleiros nacionais.

Foram construídos então três modelos de lanchas: pequenas (LDP), médias (LDM) e grandes (LDG), estas últimas fora do contexto deste artigo. As classes pequenas abrangeram as classes LDP 100, LDP 200 e LDP 300. Nas lanchas médias foram criadas as classes LDM 100, LDM 200, LDM 300 e LDM 400. No total foram, entre 1961 e 1976, construídas 26 LDP e 65 LDM, o que para a altura se podia considerar um esforço verdadeiramente excepcional.

A sua distribuição pelo Ultramar foi a seguinte: Guiné - 51, Angola - 15 e Moçambique - 7, ficando algumas na Metrópole para treino dos fuzileiros. As LDM dispunham de uma peça Oerlinkon Mk II de 20 mm e duas metralhadoras MG 42, a sua velocidade máxima era na ordem dos 9 nós e podiam transportar uma força de 80 homens.

O esforço de guerra para estas lanchas, nos três teatros ultramarinos, atingiu a sua maior expressão na Guiné, não só pelo maior volume de patrulhas e acções, mas também porque registaram as únicas baixas em combate. Dada a especificidade daquela ex-província – recortada por inúmeros rios – as lanchas eram primordiais na ligação entre os diversos pontos do território, essenciais no patrulhamento e fiscalização das vias fluviais, e insubstituíveis em desembarques operacionais de unidades militares. Uma das mais nobres missões destes pequenos grandes navios consistia ainda no apoio logístico às unidades militares estacionadas fora de Bissau, que não teriam sobrevivido sem as suas visitas regulares, muitas vezes integradas em comboios civis de reabastecimento.

LDM 302, um caso raro

Na Guiné destaque ainda para a LDM 302, que registou oito ataques graves durante a sua vida. Os dois primeiros verificaram-se em 1964, sem consequências, ocorrendo nova flagelação em 1965, da qual resultaram 30 impactes no costado, não se registando baixas no seu pessoal, para o que muito contribuiu a resposta imediata e eficiente da sua guarnição. Nesse ano foi atacada de novo por mais duas vezes, sendo na última feridos 10 militares de uma unidade do Exército embarcada na lancha.

No dia 16 de Dezembro de 1967 foi atacada e afundada no rio Cacheu, incidente que ocasionou a morte do seu patrão, MAR M Domingos Lopes Medeiros, e do GRT A Manuel Santos Carvalho. Foram ambos condecorados a título póstumo na cerimónia do 10 de Junho de 1968, com a medalha de Cruz de Guerra de 3ª classe.

Trazida à superfície, a LDM 302 foi reparada em Bissau, e posta de novo a navegar. Logo no primeiro cruzeiro, seis meses depois e no mesmo local onde tinha sido anteriormente atacada - Porto Coco, no rio Cacheu - foi de novo atingida com violência, o que teve como consequência a morte do GRT A António Manuel, e ferimentos noutra praça.

De novo reparada, a lancha já não voltou mais ao Cacheu, passando a actuar no rio Grande de Buba, onde mais uma vez sofreu em Fevereiro de 1969 novo ataque, que causaram três feridos. Seria abatida em 30 de Novembro de 1972.

Abel Melo e Sousa
CFR RES

2. Cabo M Pereira, um patrão exemplar

Ainda hoje recordo o Cabo M Pereira, que me apareceu na Base de Patrulhas de Ganturé na Guiné, com a sua LDM 113. Tinha pouco mais de quatro meses de permanência naquela ex-Província, e vinha fazer o primeiro cruzeiro no rio Cacheu. Como Imediato do Destacamento de Fuzileiros Especiais Nº 1 (DFE1), fiz-lhe um «briefing» da zona, tendo efectuado com ele algumas patrulhas no rio para o inteirar das zonas mais perigosas. Dias depois lá fez o seu cruzeiro Cacheu acima, mas no regresso, em 7 de Agosto de 1973 já perto de Ganturé. é atacado numa clareira por fogo IN. Em poucos minutos chegámos à LDM 113, onde fomos encontrar o patrão e outra praça gravemente feridos. Socorridos que foram os sinistrados, de imediato foram conduzidos para o local onde os esperavam a evacuação aérea. O CAB M Pereira haveria de se despedir desta vida nos meus braços, enquanto que seis dias depois o MAR CM Silva veio igualmente a falecer em Bissau.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xime> 1969:

A LDG (Lancha de Desembarque Grande) 105 pronta a descarregar mais um contingente de tropas no cais do Xime, a caminho da Zona leste.

Ou, como diz o fotógrafo de serviço, "LDG a abicar no cais do Xime em Novembro de 1969 com mais uma carga de carne para canhão"

© Humberto Reis (2005)



É de elementar justiça transcrever o louvor dado em 21 de Setembro de 1973, pelo então Comandante da Esquadrilha de Lanchas da Guiné, 1º Tenente António Maria Catarino da Silva: «Após cerca de cinco meses em serviço na Província da Guiné faleceu em combate o patrão da LDM 113, Cabo M nº 2404 - Jorge António Pereira.

Navegava a LDM 113 num dos rios do norte da Província, quando ao atravessar uma clareira foi emboscada por forte grupo IN armado de RPG`s e armas automáticas.

O patrão da lancha Cabo M Nº 1404 Jorge António Pereira que ia ao leme deu ordem de fogo tendo a guarnição reagido de forma notável. A certa altura um RPG disparado pelo Inimigo atravessou a chapa blindada da cabine, e os estilhaços feriram o patrão mortalmente e o telegrafista com gravidade.

Cônscio da importância que o governo da lancha representava no desenrolar do combate, a última preocupação que o patrão já quase sem vida mostrou, foi entregar o governo ao Marinheiro Telegrafista que a seu lado se encontrava ferido.

Por em todas as missões que lhe foram incumbidas e particularmente na que acaba de ser relatada, ter mostrado coragem, decisão, grande espírito de sacrifício e elevada noção do dever militar, é de toda a justiça, ao abrigo do Artº 120 do RDM, louvar a Título Póstumo o Cabo M nº 2404 - Jorge António Pereira pelas excepcionais qualidades demonstradas».

A.M.S.

Guiné 63/4 - CCLXXVII: Antologia (23): Homenagem aos nossos marinheiros e às suas Lanchas de Desembarque

A Marinha Portuguesa procedeu à monumentalização da LDM 119, construída em 1973 no Arsenal do Alfeite e abatida em 1997, em homenagem às guarnições das Lanchas de Desembarque que serviram em África (10961/74).

O monumento foi erigido, em 2005, na Base Naval de Lisboa, à entrada da Base de Fuzileiros.

Fonte: © Revista da Armada (2005)


O Jorge Santos, sempre atento ao que se escreve sobre a guerra no ultramar, fez-me chegar um excerto do último número da Revista da Armada (nº 391, Novembro de 2005, p. 15), com uma reportagem em que se relata a homenagem, feita pela Marinha Portuguesa, em 16 de Setembro último, a todos os Marinheiros que em África (1961 - 1974) serviram nas Lanchas de Desembarque, tendo-se implantado para tal uma LDM na vizinhança da unidade operacional dos Fuzileiros, "tropa especial que conheceu como ninguém o esforço e o valor das tripulações das LDM".

Desse número da excelente Revista da Armadada publicamos, com a devida vénia, dois excertos, da autoria do comandante de fragata, na reserva, Abel Melo e Sousa. É, também da parte da nossa tertúlia, uma pequena homenagem aos valentes marinheiros que conhecemos na Guiné.


1. As Lanchas de Desembarque Pequenas e Médias

O arranque das primeiras unidades de fuzileiros, na sequência do eclodir da guerra em África em 1961, veio criar a necessidade da construção de lanchas de desembarque. Depois de adquiridas algumas embarcações em segunda mão, foram adquiridos os planos de construção das lanchas utilizadas no último conflito mundial, e desenvolvidos os projectos de execução em estaleiros nacionais.

Foram construídos então três modelos de lanchas: pequenas (LDP), médias (LDM) e grandes (LDG), estas últimas fora do contexto deste artigo. As classes pequenas abrangeram as classes LDP 100, LDP 200 e LDP 300. Nas lanchas médias foram criadas as classes LDM 100, LDM 200, LDM 300 e LDM 400. No total foram, entre 1961 e 1976, construídas 26 LDP e 65 LDM, o que para a altura se podia considerar um esforço verdadeiramente excepcional.

A sua distribuição pelo Ultramar foi a seguinte: Guiné - 51, Angola - 15 e Moçambique - 7, ficando algumas na Metrópole para treino dos fuzileiros. As LDM dispunham de uma peça Oerlinkon Mk II de 20 mm e duas metralhadoras MG 42, a sua velocidade máxima era na ordem dos 9 nós e podiam transportar uma força de 80 homens.

O esforço de guerra para estas lanchas, nos três teatros ultramarinos, atingiu a sua maior expressão na Guiné, não só pelo maior volume de patrulhas e acções, mas também porque registaram as únicas baixas em combate. Dada a especificidade daquela ex-província – recortada por inúmeros rios – as lanchas eram primordiais na ligação entre os diversos pontos do território, essenciais no patrulhamento e fiscalização das vias fluviais, e insubstituíveis em desembarques operacionais de unidades militares. Uma das mais nobres missões destes pequenos grandes navios consistia ainda no apoio logístico às unidades militares estacionadas fora de Bissau, que não teriam sobrevivido sem as suas visitas regulares, muitas vezes integradas em comboios civis de reabastecimento.

LDM 302, um caso raro

Na Guiné destaque ainda para a LDM 302, que registou oito ataques graves durante a sua vida. Os dois primeiros verificaram-se em 1964, sem consequências, ocorrendo nova flagelação em 1965, da qual resultaram 30 impactes no costado, não se registando baixas no seu pessoal, para o que muito contribuiu a resposta imediata e eficiente da sua guarnição. Nesse ano foi atacada de novo por mais duas vezes, sendo na última feridos 10 militares de uma unidade do Exército embarcada na lancha.

No dia 16 de Dezembro de 1967 foi atacada e afundada no rio Cacheu, incidente que ocasionou a morte do seu patrão, MAR M Domingos Lopes Medeiros, e do GRT A Manuel Santos Carvalho. Foram ambos condecorados a título póstumo na cerimónia do 10 de Junho de 1968, com a medalha de Cruz de Guerra de 3ª classe.

Trazida à superfície, a LDM 302 foi reparada em Bissau, e posta de novo a navegar. Logo no primeiro cruzeiro, seis meses depois e no mesmo local onde tinha sido anteriormente atacada - Porto Coco, no rio Cacheu - foi de novo atingida com violência, o que teve como consequência a morte do GRT A António Manuel, e ferimentos noutra praça.

De novo reparada, a lancha já não voltou mais ao Cacheu, passando a actuar no rio Grande de Buba, onde mais uma vez sofreu em Fevereiro de 1969 novo ataque, que causaram três feridos. Seria abatida em 30 de Novembro de 1972.

Abel Melo e Sousa
CFR RES

2. Cabo M Pereira, um patrão exemplar

Ainda hoje recordo o Cabo M Pereira, que me apareceu na Base de Patrulhas de Ganturé na Guiné, com a sua LDM 113. Tinha pouco mais de quatro meses de permanência naquela ex-Província, e vinha fazer o primeiro cruzeiro no rio Cacheu. Como Imediato do Destacamento de Fuzileiros Especiais Nº 1 (DFE1), fiz-lhe um «briefing» da zona, tendo efectuado com ele algumas patrulhas no rio para o inteirar das zonas mais perigosas. Dias depois lá fez o seu cruzeiro Cacheu acima, mas no regresso, em 7 de Agosto de 1973 já perto de Ganturé. é atacado numa clareira por fogo IN. Em poucos minutos chegámos à LDM 113, onde fomos encontrar o patrão e outra praça gravemente feridos. Socorridos que foram os sinistrados, de imediato foram conduzidos para o local onde os esperavam a evacuação aérea. O CAB M Pereira haveria de se despedir desta vida nos meus braços, enquanto que seis dias depois o MAR CM Silva veio igualmente a falecer em Bissau.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xime> 1969:

A LDG (Lancha de Desembarque Grande) 105 pronta a descarregar mais um contingente de tropas no cais do Xime, a caminho da Zona leste.

Ou, como diz o fotógrafo de serviço, "LDG a abicar no cais do Xime em Novembro de 1969 com mais uma carga de carne para canhão"

© Humberto Reis (2005)



É de elementar justiça transcrever o louvor dado em 21 de Setembro de 1973, pelo então Comandante da Esquadrilha de Lanchas da Guiné, 1º Tenente António Maria Catarino da Silva: «Após cerca de cinco meses em serviço na Província da Guiné faleceu em combate o patrão da LDM 113, Cabo M nº 2404 - Jorge António Pereira.

Navegava a LDM 113 num dos rios do norte da Província, quando ao atravessar uma clareira foi emboscada por forte grupo IN armado de RPG`s e armas automáticas.

O patrão da lancha Cabo M Nº 1404 Jorge António Pereira que ia ao leme deu ordem de fogo tendo a guarnição reagido de forma notável. A certa altura um RPG disparado pelo Inimigo atravessou a chapa blindada da cabine, e os estilhaços feriram o patrão mortalmente e o telegrafista com gravidade.

Cônscio da importância que o governo da lancha representava no desenrolar do combate, a última preocupação que o patrão já quase sem vida mostrou, foi entregar o governo ao Marinheiro Telegrafista que a seu lado se encontrava ferido.

Por em todas as missões que lhe foram incumbidas e particularmente na que acaba de ser relatada, ter mostrado coragem, decisão, grande espírito de sacrifício e elevada noção do dever militar, é de toda a justiça, ao abrigo do Artº 120 do RDM, louvar a Título Póstumo o Cabo M nº 2404 - Jorge António Pereira pelas excepcionais qualidades demonstradas».

A.M.S.

06 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCLXXVI: Projecto Guileje (4): planta do quartel

Guiné-Bissau > Guileje (2005) >

Antigo aquartelamento das NT: restos de uma das várias viaturas abandonadas pelo BCAV 8350 (1972/73), quando as NT são obrigadas a retirar para Gadamael, depois de um terrível cerco de 5 dias (de 18 a 22 de Maio de 1973), efectuado pelas forças do PAIGC.


Fonte: © AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guileje (2005)


O ataque a Guileje tinha sido começado a ser preparado pelo próprio Amílcar Cabral, que incumbiu dessa missão o comandante Osvaldo Lopes da Silva, em meados de 1972. Era sua convicção de que "se este quartel cai, tudo à volta também cai".

Depois do cobarde assassinato, em Janeiro de 1973, do líder do PAIGC, são retomados os planos para atacar e tomar Guileje. Trinta anos depois, é o antigo comandante do PAIGC, o caboverdiano Osvaldo Lopes da Silva, quem diz estas palavras que calam fundo no coração de qualquer combatente: "estabelecidas as pontes emocionais entre aqueles que, em lados opostos da barricada, viveram com todo o seu ser momentos de sangue, de sofrimento e de destruição, e que hoje se dão as mãos, na construção de um mundo feito de compeensão, amizade e respeito mútuo, a história comum pode ser escrita, com objectividade, como legado às gerações vindouros" (in AD - Acção para o Desenvolvimeno > Projecto Guileje)


1. Mensagem do Carlos Schwarz:

Caro Luis Graça

Mais uma vez muito obrigado pelo envio do draft da planta do quartel, uma autêntica preciosidade, que nos vem ajudar a localizar as diferentes instalações então existentes.

Como lhe disse, agora que a época das chuvas está a chegar ao fim, vamos começar a trabalhar no duro no início do projecto [Guileje]. O ano 2006 será decisivo. Se tudo correr bem, no final do próximo ano, poderemos começar a receber todos os que queiram visitar Guileje e lá pernoitar, mesmo se ainda em condições que não serão as melhores.

Irei sempre dando-vos conhecimento do evoluir do projecto.

abraços
Carlos Schwarz

2. Resposta ao Carlos:

Caro Carlos:

Vamos ver se arranjamos alguém da engenharia militar para dar uma ajuda... Também é possível sondar a nossa Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais, onde há muitos arquitectos que, em princípio, sabem destas coisas...

Para já vou lançar amanhã uma página sobre Guileje, recorrendo a algumas das vossas fotos, de modo a publicitar também o vosso projecto... Com a devida vénia, claro... A AD-Acção para o Desenvolvimento é sempre citada como fonte. Aliás, gostaria de ter depois o teu feedback em relação às legendas (que são da minha responsabilidade).

Ainda não temos ninguém, na nossa tertúlia, que tenha estado em Maio de 1973, em Guileje, aquando do seu cerco e abandono. O João Tunes conheceu Guileje, mas foi em 1970/71.

Carlos, fico à espera de notícias tuas. Contacta entretanto os nossos amigos, em Bissau: Jorge Neto (jornalista, autor do blog Africanidades) e Paulo Salgado (administrador hospitalar, cooperante, e meu antigo aluno).

Um grande abraço.

Luís Graça

Guiné 63/74 - CCLXXVI: Projecto Guileje (4): planta do quartel

Guiné-Bissau > Guileje (2005) >

Antigo aquartelamento das NT: restos de uma das várias viaturas abandonadas pelo BCAV 8350 (1972/73), quando as NT são obrigadas a retirar para Gadamael, depois de um terrível cerco de 5 dias (de 18 a 22 de Maio de 1973), efectuado pelas forças do PAIGC.


Fonte: © AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guileje (2005)


O ataque a Guileje tinha sido começado a ser preparado pelo próprio Amílcar Cabral, que incumbiu dessa missão o comandante Osvaldo Lopes da Silva, em meados de 1972. Era sua convicção de que "se este quartel cai, tudo à volta também cai".

Depois do cobarde assassinato, em Janeiro de 1973, do líder do PAIGC, são retomados os planos para atacar e tomar Guileje. Trinta anos depois, é o antigo comandante do PAIGC, o caboverdiano Osvaldo Lopes da Silva, quem diz estas palavras que calam fundo no coração de qualquer combatente: "estabelecidas as pontes emocionais entre aqueles que, em lados opostos da barricada, viveram com todo o seu ser momentos de sangue, de sofrimento e de destruição, e que hoje se dão as mãos, na construção de um mundo feito de compeensão, amizade e respeito mútuo, a história comum pode ser escrita, com objectividade, como legado às gerações vindouros" (in AD - Acção para o Desenvolvimeno > Projecto Guileje)


1. Mensagem do Carlos Schwarz:

Caro Luis Graça

Mais uma vez muito obrigado pelo envio do draft da planta do quartel, uma autêntica preciosidade, que nos vem ajudar a localizar as diferentes instalações então existentes.

Como lhe disse, agora que a época das chuvas está a chegar ao fim, vamos começar a trabalhar no duro no início do projecto [Guileje]. O ano 2006 será decisivo. Se tudo correr bem, no final do próximo ano, poderemos começar a receber todos os que queiram visitar Guileje e lá pernoitar, mesmo se ainda em condições que não serão as melhores.

Irei sempre dando-vos conhecimento do evoluir do projecto.

abraços
Carlos Schwarz

2. Resposta ao Carlos:

Caro Carlos:

Vamos ver se arranjamos alguém da engenharia militar para dar uma ajuda... Também é possível sondar a nossa Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais, onde há muitos arquitectos que, em princípio, sabem destas coisas...

Para já vou lançar amanhã uma página sobre Guileje, recorrendo a algumas das vossas fotos, de modo a publicitar também o vosso projecto... Com a devida vénia, claro... A AD-Acção para o Desenvolvimento é sempre citada como fonte. Aliás, gostaria de ter depois o teu feedback em relação às legendas (que são da minha responsabilidade).

Ainda não temos ninguém, na nossa tertúlia, que tenha estado em Maio de 1973, em Guileje, aquando do seu cerco e abandono. O João Tunes conheceu Guileje, mas foi em 1970/71.

Carlos, fico à espera de notícias tuas. Contacta entretanto os nossos amigos, em Bissau: Jorge Neto (jornalista, autor do blog Africanidades) e Paulo Salgado (administrador hospitalar, cooperante, e meu antigo aluno).

Um grande abraço.

Luís Graça

Guiné 63/74 - CCLXXV: Em bom português (1): Guileje e não Guiledje

Consulta ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa:

1. Pergunta:

Povoação no Sul da Guiné-Bissau, na região de Tombali, junto à fronteira com a Guiné-Conacri, Guileje foi um importante aquartelamento das tropas portuguesas durante a guerra colonial.

Construído em 1964, foi sitiado e tomado pelo PAIGC em 22 de Maio de 1973. No tempo do colonialismo, escrevia-se Guileje (vd. a carta da Guiné, dos Serviços Cartográficos do Exército, 1961).

Os guineenses e os cooperantes portugueses na Guiné-Bissau têm hoje tendência para escrever Guiledje ou até Guiledge. Vd. por exemplo, a página pessoal de Fernando Casimiro (Didinho) ou a página de uma organização não-governamental como a AD - Acção para o Desenvolvimento, que tem em curso justamente o Projecto Guiledje .

Pergunto ao Ciberdúvidas: qual é a grafia correcta?

Luís Graça, Portugal

2. Resposta:

Como diz - e atestam os registos mais credíveis que cita (1) - , sempre se escreveu Guileje. Portanto, a grafia Guileje, sem o d, é a única corre(c)ta, dado que em português normal não existe grupo consonântico dj, nem tch, o modo correspondente.

Por isso, é incorre(c)to igualmente escrever "Tchecoslováquia", em vez de Checoslováquia, apesar de em checo a palavra começou por tal som, grafado C (um c com acento circunflexo invertido). Mas o som tch foi o do ch em português até ao princípio do século XIX, e ainda hoje se ouve no Norte do Portugal.

Resumindo, é mesmo assim que se deve continuar a grafar o nome desse aquartelamento das tropas portuguesas durante a guerra colonial, na Guiné-Bissau: Guileje. A corruptela do "dje" (e a do "g") pressupõe um mau domínio da ortografia da nossa língua, com outros conhecidos infelizes exemplos - como é essoutra (má) tendência (no caso, em Angola) de se ter passado a escrever com as letras Ku nomes e topónimos que em português sempre se escreveram, e escrevem, com Qu.
________

(1) Também era assim que se grafava no título do excelente documentário "De Guileje a Gadamael - o corredor da morte", da autoria do jornalista José Manuel Saraiva e do realizador Manuel Tomás, exibido no canal de televisão português SIC, em 1998.

Ciberdúvidas

11/10/2005

Guiné 63/74 - CCLXXV: Em bom português (1): Guileje e não Guiledje

Consulta ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa:

1. Pergunta:

Povoação no Sul da Guiné-Bissau, na região de Tombali, junto à fronteira com a Guiné-Conacri, Guileje foi um importante aquartelamento das tropas portuguesas durante a guerra colonial.

Construído em 1964, foi sitiado e tomado pelo PAIGC em 22 de Maio de 1973. No tempo do colonialismo, escrevia-se Guileje (vd. a carta da Guiné, dos Serviços Cartográficos do Exército, 1961).

Os guineenses e os cooperantes portugueses na Guiné-Bissau têm hoje tendência para escrever Guiledje ou até Guiledge. Vd. por exemplo, a página pessoal de Fernando Casimiro (Didinho) ou a página de uma organização não-governamental como a AD - Acção para o Desenvolvimento, que tem em curso justamente o Projecto Guiledje .

Pergunto ao Ciberdúvidas: qual é a grafia correcta?

Luís Graça, Portugal

2. Resposta:

Como diz - e atestam os registos mais credíveis que cita (1) - , sempre se escreveu Guileje. Portanto, a grafia Guileje, sem o d, é a única corre(c)ta, dado que em português normal não existe grupo consonântico dj, nem tch, o modo correspondente.

Por isso, é incorre(c)to igualmente escrever "Tchecoslováquia", em vez de Checoslováquia, apesar de em checo a palavra começou por tal som, grafado C (um c com acento circunflexo invertido). Mas o som tch foi o do ch em português até ao princípio do século XIX, e ainda hoje se ouve no Norte do Portugal.

Resumindo, é mesmo assim que se deve continuar a grafar o nome desse aquartelamento das tropas portuguesas durante a guerra colonial, na Guiné-Bissau: Guileje. A corruptela do "dje" (e a do "g") pressupõe um mau domínio da ortografia da nossa língua, com outros conhecidos infelizes exemplos - como é essoutra (má) tendência (no caso, em Angola) de se ter passado a escrever com as letras Ku nomes e topónimos que em português sempre se escreveram, e escrevem, com Qu.
________

(1) Também era assim que se grafava no título do excelente documentário "De Guileje a Gadamael - o corredor da morte", da autoria do jornalista José Manuel Saraiva e do realizador Manuel Tomás, exibido no canal de televisão português SIC, em 1998.

Ciberdúvidas

11/10/2005

Guiné 63/74 - CCLXXIV: Projecto Guileje (3): planta do aquartelamento (1966)



Planta do quartel de Guileje em 1966. Reconstituição de Nuno Rubim, coronel na reserva (e na época comandante da CCmds, de que o nosso camarada Briote era alferes miliciano).


© Nuno Rubim (2005)



1. Texto de L.G.:

Já hoje dei boas notícias, à nossa tertúlia, sobre o projecto Guileje, da ONG guineense AD-Acção para o Desenvolvimento, fundada e dirigida pelo Carlos Schwarz.

Como sabem, ele fez-nos um pedido de apoio com vista à reconstrução do quartel de Guileje, inserido num projecto mais vasto de ecoturismo (abrangendo a mata do Cantanhez) (vd post de 3 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLVII: Projecto Guileje (2): arquitecto paisagista, precisa-se! ).

Até agora os nossos tertulianos, à excepção do João Tunes, ainda não se pronunciaram sobre a ideia. Provavelmente estão à espera de mais detalhes sobre o projecto. De qualquer modo, o Carlos Shwarz passou também a ser membro da nossa tertúlia e a receber a nossa correspondência.

O nosso camarada Briote, um das "aquisições" mais recentes da nossa tertúlia (e, em contrapartida, um dos nossos camaradas de Guiné, mais velhos), e que é um tipo bem relacionado, tratou logo de pedir ajuda ao seu antigo capitão dos comandos, Nuno Rubim, hoje coronel na reserva, o qual por sua vez teve a gentileza de lhe/nos mandar um draft da planta do quartel, desenhado por ele em 1998.

Pessoas como o Briote, o Rubim e o Tunes, conheceram Guileje, em diferentes épocas (o Briote e o Rubim, em 1966; o Tunes, em 1970/71). Eles poderão dar ideias e pistas ao Carlos Schwarz... O pedido de um arquitecto, de preferência paisagista, continua de pé. Se calhar, a porta certa estará na Engenharia Militar, como sugere o Rubim (que fica ao cuidado do Briote, uma vez que ainda não é da nossa tertúlia). Um abraço para todos. Luís Graça



2. Texto do Virgínio Virgínio Briote:

Caro Luís,

Entrei em contacto com o meu antigo Comandante da CCmds, actualmente Coronel na Reserva Nuno Rubim, por causa do assunto acima referido [projecto Guileje]. Tens aqui a resposta que me enviou.

Um abraço,
vb

"Caro Briote:

"Interessante esse projecto. Há alguma razão específica para a sua implementação, para além de se referir à zona onde morreram mais homens por metro quadrado do que em qualquer outro sítio,em qualquer das três colónias, no período de 1961-1974 ?

"Junto lhe envio um desenho baseado num antigo esboço que tive. Representa Guileje em 1966, quando lá estive, mas sei que posteriormente sofreu transformações. Se algum projecto ou desenho existiu, teria de forçosamente ter sido elaborado no BEng [Batalhão de Engenharia], que ficava perto da "nossa casa" [Brá], lembra-se ?

Fotografias aéreas. Onde param elas ...? Permanece grande interrogação, até hoje, sobre onde pára grande parte da documentação referente às operações durante a guerra colonial... No AHM [Arquivo Histórico-Militar], onde tenho trabalhado, não está !

Um abraço

Nuno Rubim"

Guiné 63/74 - CCLXXIV: Projecto Guileje (3): planta do aquartelamento (1966)



Planta do quartel de Guileje em 1966. Reconstituição de Nuno Rubim, coronel na reserva (e na época comandante da CCmds, de que o nosso camarada Briote era alferes miliciano).


© Nuno Rubim (2005)



1. Texto de L.G.:

Já hoje dei boas notícias, à nossa tertúlia, sobre o projecto Guileje, da ONG guineense AD-Acção para o Desenvolvimento, fundada e dirigida pelo Carlos Schwarz.

Como sabem, ele fez-nos um pedido de apoio com vista à reconstrução do quartel de Guileje, inserido num projecto mais vasto de ecoturismo (abrangendo a mata do Cantanhez) (vd post de 3 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLVII: Projecto Guileje (2): arquitecto paisagista, precisa-se! ).

Até agora os nossos tertulianos, à excepção do João Tunes, ainda não se pronunciaram sobre a ideia. Provavelmente estão à espera de mais detalhes sobre o projecto. De qualquer modo, o Carlos Shwarz passou também a ser membro da nossa tertúlia e a receber a nossa correspondência.

O nosso camarada Briote, um das "aquisições" mais recentes da nossa tertúlia (e, em contrapartida, um dos nossos camaradas de Guiné, mais velhos), e que é um tipo bem relacionado, tratou logo de pedir ajuda ao seu antigo capitão dos comandos, Nuno Rubim, hoje coronel na reserva, o qual por sua vez teve a gentileza de lhe/nos mandar um draft da planta do quartel, desenhado por ele em 1998.

Pessoas como o Briote, o Rubim e o Tunes, conheceram Guileje, em diferentes épocas (o Briote e o Rubim, em 1966; o Tunes, em 1970/71). Eles poderão dar ideias e pistas ao Carlos Schwarz... O pedido de um arquitecto, de preferência paisagista, continua de pé. Se calhar, a porta certa estará na Engenharia Militar, como sugere o Rubim (que fica ao cuidado do Briote, uma vez que ainda não é da nossa tertúlia). Um abraço para todos. Luís Graça



2. Texto do Virgínio Virgínio Briote:

Caro Luís,

Entrei em contacto com o meu antigo Comandante da CCmds, actualmente Coronel na Reserva Nuno Rubim, por causa do assunto acima referido [projecto Guileje]. Tens aqui a resposta que me enviou.

Um abraço,
vb

"Caro Briote:

"Interessante esse projecto. Há alguma razão específica para a sua implementação, para além de se referir à zona onde morreram mais homens por metro quadrado do que em qualquer outro sítio,em qualquer das três colónias, no período de 1961-1974 ?

"Junto lhe envio um desenho baseado num antigo esboço que tive. Representa Guileje em 1966, quando lá estive, mas sei que posteriormente sofreu transformações. Se algum projecto ou desenho existiu, teria de forçosamente ter sido elaborado no BEng [Batalhão de Engenharia], que ficava perto da "nossa casa" [Brá], lembra-se ?

Fotografias aéreas. Onde param elas ...? Permanece grande interrogação, até hoje, sobre onde pára grande parte da documentação referente às operações durante a guerra colonial... No AHM [Arquivo Histórico-Militar], onde tenho trabalhado, não está !

Um abraço

Nuno Rubim"

05 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCLXXIII: Andanças do Humberto Reis na região de Farim (1996)

Material inédito que o meu camarada e amigo Humberto Reis (ex- Furriel Miliciano da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71) me mandou, em tempos, e que relata a sua ida à Guiné-Bissau, em Março de 1996, e mais concretamente as suas peripécias na região do Cacheu.

Insere-se agora esse material no blogue, em homenagem também ao nosso amigo Anízio Lona Indami, jovem guineense, de 22 anos, natural de Farim, a estudar em S.Paulo, Brasil (*)

(Notas e fotos: © Humberto Reis, 2005; notas também de LG).


1. O capot aberto do carro que nos destinaram tem um significado. Quando passámos o célebre K3, na estrada Mansoa- Farim e chegámos à beira do rio Cacheu, já lá estavam 2 carros à espera da lancha para atravessar.

Acontece que a lancha, como habitualmente, estava do lado de Farim e não trabalhava pois o motor de arranque não funcionava e aquilo não é como nos carros que pegam de empurrão.

Ao fim de uns 10 ou 15 minutos de espera infrutífera tive uma ideia daquelas do "estás na Guiné, desenrasca-te". Estava uma canoa a fazer a cambança só de pessoas, como é lógico, e então eu disse-lhe para dar o seguinte recado ao marinheiro da lancha:

- Nós emprestamos a bateria do carro para colocar o motor a trabalhar com a condição de, a nós, não nos cobrar a travessia nem para lá nem no regresso logo à tarde.

No regresso da canoa lá vinha o recado do marinheiro a aceitar a nossa brilhante ideia, pois assim já podia começar a facturar aos outros carros e também às pessoas que transportasse.

Foi assim que desmontámos a bateria do carro entregámos ao homem da canoa que a levou para Farim e passados 5 minutos ouvimos, com bastante alegria, o roncar do motor da lancha do lado de lá do rio Cacheu. Até parece anedota, mas não: foi a maneira de conseguirmos ir até Binta onde o meu amigo Pedro Neves, apesar de já ter voltado à Guiné 3 vezes, nunca mais lá tinha ido.


2. O meu amigo Pedro Neves, que foi comigo à Guiné-Bissau, observa o que resta do seu ex-aquartelamento de Binta, a sudeste de Farim, na margem norte do Rio Cacheu, onde tinha estado como furriel miliciano em 1972/73 .

A Guiné-Bissau está hoje subdivida em 8 regiões e um sector autónomo (Bissau). Uma dessas regiões é o Oio, cuja capital é Farim. Esta região, que confina, a oeste com a região do Cacheu (capital: Cacheu), a norte com o Senegal, a leste com o Gabu (capital: Gabu, antiga Nova Lamego) e a sul com a região de Bafatá (capital: Bafatá). tem cerca de 200 mil habitantes e uma superfície de 5400 quilómetros quadrados (LG).


3. Cais de Binta, na margem norte do Rio Cacheu

O estuário do Rio Cacheu é uma das áreas sensíveis para a protecção e conservação de aves na Guiné-Bissau (Parque Natural dos Tarrafes do Cacheu).

O Rio Cacheu foi palco de duros combates durante a guerra colonial: por exemplo, no dia 16 de Dezembro de 1967 foi atacada e afundada no rio Cacheu a famosa LDM (Lancha de Desembarque Média) 302. Nesse ataque do PAIGC, morreu o Patrão da Lancha e um Grumete Artilheiro (Foram ambos condecorados a título póstumo na cerimónia do 10 de Junho de 1968, com a medalha de Cruz de Guerra de 3ª classe). A LDM 302 era uma das das cinquenta lanchas de desembraque (pequenas, médias e grandes) que existiam na Guiné e que foram fundamentais no apoio logístico às NT.

Trazida à superfície, a LDM 302 foi reparada em Bissau, e posta de novo a navegar. No seu primeiro cruzeiro, seis meses depois do ataque de Dezembro de 1967, e precisamente no mesmo local (Porto Coco, no rio Cacheu), foi de novo atingida com violência e com baixas (morte de um Grumete Artilheiro e ferimentos noutra praça). Ao todo, a LDM 302 foi atacada oito vezes, acabando por ser abatida ao efectivo em 1972 (LG).


4. Do lado sul do rio Cacheu à espera da lancha para atravessar para Farim que se vê do lado de lá. 24 de Março de 1996.

Farim viu nascer Vasco Cabral, em 23 de Agosto de 1926. Foi um dos fundadores e dirigentes do futuro PAIGC.

Vasco Cabral , que não tinha qualquer laçod e parentesco com Amílcar Cabral, morreu recentemente em Bissau, em 24 de Agosto de 2005. Era uma fgura de grande nível intelectual, resistente anti-fascista e firgura de proa da luta de libertação.

Vasco Cabral era doutorado em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa . Menos conhecida, entre nós, é a sua faceta de poeta. Os seus poemas de prisão, escritos a partir de 1953, fazem de Vasco Cabral o primeiro poeta em língua portuguesa de Guiné-Bissau ( A luta é a minha primavera, 1981). Originalmente publicados em edições clandestinas e depois pela guerrilha. (LG).


5. A casa comercial J. Miranda, em Farim, onde parámos para beber uma cervejinha qu2 até estava bem geladinha

(*) Vd. post de 5 de Novembro de 2005 >

Guiné 63/74 - CCLXX: Anízio, 22 anos, estudante, procura notícias do antigamente sobre a sua terra, Farim

Guiné 63/74 - CCLXXIII: Andanças do Humberto Reis na região de Farim (1996)

Material inédito que o meu camarada e amigo Humberto Reis (ex- Furriel Miliciano da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71) me mandou, em tempos, e que relata a sua ida à Guiné-Bissau, em Março de 1996, e mais concretamente as suas peripécias na região do Cacheu.

Insere-se agora esse material no blogue, em homenagem também ao nosso amigo Anízio Lona Indami, jovem guineense, de 22 anos, natural de Farim, a estudar em S.Paulo, Brasil (*)

(Notas e fotos: © Humberto Reis, 2005; notas também de LG).


1. O capot aberto do carro que nos destinaram tem um significado. Quando passámos o célebre K3, na estrada Mansoa- Farim e chegámos à beira do rio Cacheu, já lá estavam 2 carros à espera da lancha para atravessar.

Acontece que a lancha, como habitualmente, estava do lado de Farim e não trabalhava pois o motor de arranque não funcionava e aquilo não é como nos carros que pegam de empurrão.

Ao fim de uns 10 ou 15 minutos de espera infrutífera tive uma ideia daquelas do "estás na Guiné, desenrasca-te". Estava uma canoa a fazer a cambança só de pessoas, como é lógico, e então eu disse-lhe para dar o seguinte recado ao marinheiro da lancha:

- Nós emprestamos a bateria do carro para colocar o motor a trabalhar com a condição de, a nós, não nos cobrar a travessia nem para lá nem no regresso logo à tarde.

No regresso da canoa lá vinha o recado do marinheiro a aceitar a nossa brilhante ideia, pois assim já podia começar a facturar aos outros carros e também às pessoas que transportasse.

Foi assim que desmontámos a bateria do carro entregámos ao homem da canoa que a levou para Farim e passados 5 minutos ouvimos, com bastante alegria, o roncar do motor da lancha do lado de lá do rio Cacheu. Até parece anedota, mas não: foi a maneira de conseguirmos ir até Binta onde o meu amigo Pedro Neves, apesar de já ter voltado à Guiné 3 vezes, nunca mais lá tinha ido.


2. O meu amigo Pedro Neves, que foi comigo à Guiné-Bissau, observa o que resta do seu ex-aquartelamento de Binta, a sudeste de Farim, na margem norte do Rio Cacheu, onde tinha estado como furriel miliciano em 1972/73 .

A Guiné-Bissau está hoje subdivida em 8 regiões e um sector autónomo (Bissau). Uma dessas regiões é o Oio, cuja capital é Farim. Esta região, que confina, a oeste com a região do Cacheu (capital: Cacheu), a norte com o Senegal, a leste com o Gabu (capital: Gabu, antiga Nova Lamego) e a sul com a região de Bafatá (capital: Bafatá). tem cerca de 200 mil habitantes e uma superfície de 5400 quilómetros quadrados (LG).


3. Cais de Binta, na margem norte do Rio Cacheu

O estuário do Rio Cacheu é uma das áreas sensíveis para a protecção e conservação de aves na Guiné-Bissau (Parque Natural dos Tarrafes do Cacheu).

O Rio Cacheu foi palco de duros combates durante a guerra colonial: por exemplo, no dia 16 de Dezembro de 1967 foi atacada e afundada no rio Cacheu a famosa LDM (Lancha de Desembarque Média) 302. Nesse ataque do PAIGC, morreu o Patrão da Lancha e um Grumete Artilheiro (Foram ambos condecorados a título póstumo na cerimónia do 10 de Junho de 1968, com a medalha de Cruz de Guerra de 3ª classe). A LDM 302 era uma das das cinquenta lanchas de desembraque (pequenas, médias e grandes) que existiam na Guiné e que foram fundamentais no apoio logístico às NT.

Trazida à superfície, a LDM 302 foi reparada em Bissau, e posta de novo a navegar. No seu primeiro cruzeiro, seis meses depois do ataque de Dezembro de 1967, e precisamente no mesmo local (Porto Coco, no rio Cacheu), foi de novo atingida com violência e com baixas (morte de um Grumete Artilheiro e ferimentos noutra praça). Ao todo, a LDM 302 foi atacada oito vezes, acabando por ser abatida ao efectivo em 1972 (LG).


4. Do lado sul do rio Cacheu à espera da lancha para atravessar para Farim que se vê do lado de lá. 24 de Março de 1996.

Farim viu nascer Vasco Cabral, em 23 de Agosto de 1926. Foi um dos fundadores e dirigentes do futuro PAIGC.

Vasco Cabral , que não tinha qualquer laçod e parentesco com Amílcar Cabral, morreu recentemente em Bissau, em 24 de Agosto de 2005. Era uma fgura de grande nível intelectual, resistente anti-fascista e firgura de proa da luta de libertação.

Vasco Cabral era doutorado em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa . Menos conhecida, entre nós, é a sua faceta de poeta. Os seus poemas de prisão, escritos a partir de 1953, fazem de Vasco Cabral o primeiro poeta em língua portuguesa de Guiné-Bissau ( A luta é a minha primavera, 1981). Originalmente publicados em edições clandestinas e depois pela guerrilha. (LG).


5. A casa comercial J. Miranda, em Farim, onde parámos para beber uma cervejinha qu2 até estava bem geladinha

(*) Vd. post de 5 de Novembro de 2005 >

Guiné 63/74 - CCLXX: Anízio, 22 anos, estudante, procura notícias do antigamente sobre a sua terra, Farim

Guiné 63/74 - CCLXXII: Notícías de Farim, para o nosso amigo Anízio, em S. Paulo

Brasão da vila de Farim.

© Jorge Santos (2005)

Fonte: International Civic Heraldry > Coats of arms of Guinea-Bissau > Farim



Texto do Virgínio Briote, que foi Alferes Miliciano da CCAV 489 (Cuntima, Janeiro a Maio de 1965), pertencente ao BCAV 490(sedeado em Farim, em 1965):


Caro Anízio,

Que é que lhe posso dizer de Farim?

Passei por lá há muitos anos, há mais de quarenta. Pus lá os pés pela primeira vez em finais de Janeiro de 1965. Estávamos no início da luta pela libertação da Guiné. O meu Batalhão, designado por Batalhão de Cavalaria 490, instalou a sede em Farim e dispersou as companhias militares por Jumbembem e Cuntima. Fui um dos destacados para Cuntima, na fronteira com o Senegal, a cerca de 30 e tal km de Farim e por lá me mantive cerca de 5 meses.

Visitava Farim, quando estava em trânsito, quando ia lá buscar abastecimentos para Cuntima. Era uma pequena povoação, uma cidade para os padrões locais daqueles tempos. Uma cidadezinha agradável, o rio Cacheu tranquilo a banhar-lhe as margens, população afável numa tabanca já com alguma dimensão.

A guerra tinha começado há pouco mais de 2 anos, circunscrevia-se ao Sul e tinha pequenos focos ainda um pouco incipientes no Oio (Morés) e em outras zonas dispersas pelo território. Muito perto de Farim, passavam corredores de infiltração (Sitató, por ex.), por onde entravam guerrilheiros e abastecimentos para o triângulo do Óio (Mansoa, Bissorã e Mansabá). Na altura, pelos arredores de Farim, os trilhos assinalavam quase todos os dias passagens recentes de guerrilheiros e de pequenas secções de reabastecimento.

Em meados de 1965, pode dizer-se que a tropa ocupava as povoações mais importantes e o PAIGC era dono e senhor dos trilhos e das matas. Na altura em que abandonei Cuntima, a tendência acentuava-se, com o PAIGC a firmar-se com denodo nas matas à volta de Farim.

Camjambari, uma povoação a sul de Farim, era um importante ponto de infiltração. Então, foi decidido ocupar Camjambari. Mas não foi nada fácil, a luta durou dias e dias, até que finalmente uma companhia militar do tal Batalhão conseguiu ocupar Canjambari. A posição ocupada nunca teve descanso, os guerrilheiros, da mata, visavam diariamente o aquartelamento com morteiros.
E um dia, a guerrilha decidiu dar um passo em frente, atacar dentro da povoação de Farim. Um batuque, muita gente em festa, alguns militares também, um guerrilheiro infiltrado na população meteu lá dentro uma "bomba". Num saco, misturaram granadas de todos os tipos, projécteis de balas, até uma bomba de avião que não tinha rebentado. E foi tudo pelos ares, população incluída que foi a mais atingida, aliás. Um pandemónio que teve as consequências que imagina em termos de repressão (1).

E pronto, dali para a frente a vida nunca mais foi a mesma, com a tendência sempre crescente da implantação do PAIGC e que só parou na independência.

Por aquela gente sinto carinho e respeito. Carinho porque, a minha vida estava no princípio, tinha acabado de fazer 21 anos, fui tratado sempre com humanidade e porque ajudaram ao meu crescimento. Respeito porque ganharam uma luta que era deles, de serem eles próprios, bem ou mal não temos nada com isso, a conduzirem os seus próprios destinos.

E pronto, caro Anízio, aqui lhe deixo o meu testemunho. Se na altura pressentisse que o Anízio, quarenta anos depois, me iria questionar sobre o Farim daqueles tempos, certamente teria sido mais previdente e guardaria informação mais precisa.

__________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post de V.B., de 3 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXVI: Barro, Bigene, porquê ?

Guiné 63/74 - CCLXXII: Notícías de Farim, para o nosso amigo Anízio, em S. Paulo

Brasão da vila de Farim.

© Jorge Santos (2005)

Fonte: International Civic Heraldry > Coats of arms of Guinea-Bissau > Farim



Texto do Virgínio Briote, que foi Alferes Miliciano da CCAV 489 (Cuntima, Janeiro a Maio de 1965), pertencente ao BCAV 490(sedeado em Farim, em 1965):


Caro Anízio,

Que é que lhe posso dizer de Farim?

Passei por lá há muitos anos, há mais de quarenta. Pus lá os pés pela primeira vez em finais de Janeiro de 1965. Estávamos no início da luta pela libertação da Guiné. O meu Batalhão, designado por Batalhão de Cavalaria 490, instalou a sede em Farim e dispersou as companhias militares por Jumbembem e Cuntima. Fui um dos destacados para Cuntima, na fronteira com o Senegal, a cerca de 30 e tal km de Farim e por lá me mantive cerca de 5 meses.

Visitava Farim, quando estava em trânsito, quando ia lá buscar abastecimentos para Cuntima. Era uma pequena povoação, uma cidade para os padrões locais daqueles tempos. Uma cidadezinha agradável, o rio Cacheu tranquilo a banhar-lhe as margens, população afável numa tabanca já com alguma dimensão.

A guerra tinha começado há pouco mais de 2 anos, circunscrevia-se ao Sul e tinha pequenos focos ainda um pouco incipientes no Oio (Morés) e em outras zonas dispersas pelo território. Muito perto de Farim, passavam corredores de infiltração (Sitató, por ex.), por onde entravam guerrilheiros e abastecimentos para o triângulo do Óio (Mansoa, Bissorã e Mansabá). Na altura, pelos arredores de Farim, os trilhos assinalavam quase todos os dias passagens recentes de guerrilheiros e de pequenas secções de reabastecimento.

Em meados de 1965, pode dizer-se que a tropa ocupava as povoações mais importantes e o PAIGC era dono e senhor dos trilhos e das matas. Na altura em que abandonei Cuntima, a tendência acentuava-se, com o PAIGC a firmar-se com denodo nas matas à volta de Farim.

Camjambari, uma povoação a sul de Farim, era um importante ponto de infiltração. Então, foi decidido ocupar Camjambari. Mas não foi nada fácil, a luta durou dias e dias, até que finalmente uma companhia militar do tal Batalhão conseguiu ocupar Canjambari. A posição ocupada nunca teve descanso, os guerrilheiros, da mata, visavam diariamente o aquartelamento com morteiros.
E um dia, a guerrilha decidiu dar um passo em frente, atacar dentro da povoação de Farim. Um batuque, muita gente em festa, alguns militares também, um guerrilheiro infiltrado na população meteu lá dentro uma "bomba". Num saco, misturaram granadas de todos os tipos, projécteis de balas, até uma bomba de avião que não tinha rebentado. E foi tudo pelos ares, população incluída que foi a mais atingida, aliás. Um pandemónio que teve as consequências que imagina em termos de repressão (1).

E pronto, dali para a frente a vida nunca mais foi a mesma, com a tendência sempre crescente da implantação do PAIGC e que só parou na independência.

Por aquela gente sinto carinho e respeito. Carinho porque, a minha vida estava no princípio, tinha acabado de fazer 21 anos, fui tratado sempre com humanidade e porque ajudaram ao meu crescimento. Respeito porque ganharam uma luta que era deles, de serem eles próprios, bem ou mal não temos nada com isso, a conduzirem os seus próprios destinos.

E pronto, caro Anízio, aqui lhe deixo o meu testemunho. Se na altura pressentisse que o Anízio, quarenta anos depois, me iria questionar sobre o Farim daqueles tempos, certamente teria sido mais previdente e guardaria informação mais precisa.

__________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post de V.B., de 3 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXVI: Barro, Bigene, porquê ?

Guiné 63/74 - CCLXXI: Crónicas de Bissau ou o 'bombolom' do Paulo Salgado (4)

"Meada? Meada é esta de se morrer desfeito em diarreias coléricas num alpendre qualquer sob o olhar de jovens médecins sans frontières ou de médicos do mundo ou de simples cooperantes que por ali andam tentando minimizar essas mortes sofridas até ao desfazer das entranhas"... Ou que Alá nos proteja neste dia final do Ramadã!

© Paulo Salgado (2005)

Camaradas e Amigos:

... Luís, sempre tu a (re)fazeres as coisas!... (Gostaria de começar outro capítulo, mas nem sei como fazer…)

1. Uma espécie de alquimia transbordante de poções mágicas que inebriam os tomadores de drogas.

Um mar de imaginações transformadas em caracteres bíticos que transmudam a forma ancestral da escrita como instrumento de manibus escribendi que os nossos pais e avós cuidadosa e aplicadamente tratavam nas belas cartas ou nas doces quadras ou sextetos esotéricos.

Uma torrente prenhe de conquistas espaciais e temporais, longínquas ou próximas, cinzentas ou coloridas, apaixonadas ou neutras: de rios vertendo-se nos mares, de montanhas erguendo-se aos céus, de planuras infindáveis, de árvores tradicionais (ou simplesmente árvores), de flores de mil cores, de animais, de aldeias, de monumentos, de homens pretos e brancos e amarelos num só amplexo, de crianças correndo!

Um sistema dotado de mil perplexidades e de contrastes e de sentimentos contraditórios, de amor e ódio, de riqueza e de penúria, de prazer e de sorrisos, e de doença e de morte!

Uma montra de figuras variadas, multímodas, díspares, históricas e a-históricas.

Eis um computador.

Feito de botões, de milhares de bytes (é isto?) em esquemas e sistemas, de ferramentas, de aplicativos, de software; mas construído: lá onde moram poemas simples, estórias simples, mensagens simples, fotos simples, amigos simples que quiseram ler essas coisas simples – lá onde tudo se registou, meus Caros; talvez tenha sido, essa pequena máquina, reformatada em vilipêndio violento, por mãos que anseiam uns míseros francos desta parte da África. Como em todo o lado, de resto.

É assim, meus caros – paga-se caro um ligeiro descuido!

És tu, meu caro Luís, tu, um fazedor crítico bondoso de poéticos blogues, tu, um receptor e retransmissor de ansiosas e ansiadas notícias, és tu que farás o favor de me enviar as partes de um capítulo inacabado (porque uma parte desse capítulo não chegou – a maldita Internet nesses malfadados dias também não funcionava…) para que seja retomado o fio de uma meada.

2. Meada? Meada é esta coisa que não se compreende nos homens que brincam com os outros homens.

Meada? Meada é esta de haver guerras em tantas partes do mundo, onde as crianças lançam sorrisos contra os canos das espingardas e onde as mulheres gritam por um pouco de pão para darem leite aos filhos e onde os velhos se escondem, quem sabe, por detrás da última cachimbada.

Meada? Meada é esta má sorte, este desnorte de seres que só querem uns míseros patacos para o arroz e peixe.

Meada? Meada é esta de se morrer desfeito em diarreias coléricas num alpendre qualquer sob o olhar de jovens médecins sans frontières ou de médicos do mundo ou de simples cooperantes que por ali andam tentando minimizar essas mortes sofridas até ao desfazer das entranhas.

3. Mas. Das entranhas mais profundas nasce a beleza de alma de jovens e velhos, de brancos e pretos, que, diariamente, sofrem o cheiro que vem das latrinas misturado com a creolina e a lixívia, e que, horas a fio, apoiam, lavam, desinfectam, buscam soluções em frascos de soros – num cansaço visível provocado por semanas desconsoladas.

Que os Deuses nos ajudem. Que Alá nos proteja neste dia final do Ramadã!

Mantenhas pa tudus

Paulo Salgado. aos 4 dias de Novembro de 2005.

Guiné 63/74 - CCLXXI: Crónicas de Bissau ou o 'bombolom' do Paulo Salgado (4)

"Meada? Meada é esta de se morrer desfeito em diarreias coléricas num alpendre qualquer sob o olhar de jovens médecins sans frontières ou de médicos do mundo ou de simples cooperantes que por ali andam tentando minimizar essas mortes sofridas até ao desfazer das entranhas"... Ou que Alá nos proteja neste dia final do Ramadã!

© Paulo Salgado (2005)

Camaradas e Amigos:

... Luís, sempre tu a (re)fazeres as coisas!... (Gostaria de começar outro capítulo, mas nem sei como fazer…)

1. Uma espécie de alquimia transbordante de poções mágicas que inebriam os tomadores de drogas.

Um mar de imaginações transformadas em caracteres bíticos que transmudam a forma ancestral da escrita como instrumento de manibus escribendi que os nossos pais e avós cuidadosa e aplicadamente tratavam nas belas cartas ou nas doces quadras ou sextetos esotéricos.

Uma torrente prenhe de conquistas espaciais e temporais, longínquas ou próximas, cinzentas ou coloridas, apaixonadas ou neutras: de rios vertendo-se nos mares, de montanhas erguendo-se aos céus, de planuras infindáveis, de árvores tradicionais (ou simplesmente árvores), de flores de mil cores, de animais, de aldeias, de monumentos, de homens pretos e brancos e amarelos num só amplexo, de crianças correndo!

Um sistema dotado de mil perplexidades e de contrastes e de sentimentos contraditórios, de amor e ódio, de riqueza e de penúria, de prazer e de sorrisos, e de doença e de morte!

Uma montra de figuras variadas, multímodas, díspares, históricas e a-históricas.

Eis um computador.

Feito de botões, de milhares de bytes (é isto?) em esquemas e sistemas, de ferramentas, de aplicativos, de software; mas construído: lá onde moram poemas simples, estórias simples, mensagens simples, fotos simples, amigos simples que quiseram ler essas coisas simples – lá onde tudo se registou, meus Caros; talvez tenha sido, essa pequena máquina, reformatada em vilipêndio violento, por mãos que anseiam uns míseros francos desta parte da África. Como em todo o lado, de resto.

É assim, meus caros – paga-se caro um ligeiro descuido!

És tu, meu caro Luís, tu, um fazedor crítico bondoso de poéticos blogues, tu, um receptor e retransmissor de ansiosas e ansiadas notícias, és tu que farás o favor de me enviar as partes de um capítulo inacabado (porque uma parte desse capítulo não chegou – a maldita Internet nesses malfadados dias também não funcionava…) para que seja retomado o fio de uma meada.

2. Meada? Meada é esta coisa que não se compreende nos homens que brincam com os outros homens.

Meada? Meada é esta de haver guerras em tantas partes do mundo, onde as crianças lançam sorrisos contra os canos das espingardas e onde as mulheres gritam por um pouco de pão para darem leite aos filhos e onde os velhos se escondem, quem sabe, por detrás da última cachimbada.

Meada? Meada é esta má sorte, este desnorte de seres que só querem uns míseros patacos para o arroz e peixe.

Meada? Meada é esta de se morrer desfeito em diarreias coléricas num alpendre qualquer sob o olhar de jovens médecins sans frontières ou de médicos do mundo ou de simples cooperantes que por ali andam tentando minimizar essas mortes sofridas até ao desfazer das entranhas.

3. Mas. Das entranhas mais profundas nasce a beleza de alma de jovens e velhos, de brancos e pretos, que, diariamente, sofrem o cheiro que vem das latrinas misturado com a creolina e a lixívia, e que, horas a fio, apoiam, lavam, desinfectam, buscam soluções em frascos de soros – num cansaço visível provocado por semanas desconsoladas.

Que os Deuses nos ajudem. Que Alá nos proteja neste dia final do Ramadã!

Mantenhas pa tudus

Paulo Salgado. aos 4 dias de Novembro de 2005.

Guiné 63/74 - CCLXX: Anízio, 22 anos, estudante, procura notícias do antigamente sobre a sua terra, Farim

1. Finalmente, o nosso camarada A. Marques Lopes, ex-alf mil da CCAÇ 1690 (Geba) e da CCAÇ 3 (Barro), hoje coronel, DFA, na reserva, calça as suas tamanquinhas e desce até à nossa tertúlia!... Bons olhos o vejam e bons ouvidos o oiçam. A razão da visita é nobre. Aqui fica a mensagem e o apelo.

Caros camaradas:

Como o Anizio Indami só enviou este apelo para alguns, mas pedindo para chegar a outros, aqui vai ele. Vamos ajudar este guineense a saber as coisas da sua terra durante o período em que a conhecemos.
Abraços

A. Marques Lopes


2. Mensagem do Anizio Lona Indami:


Olá Pessoal!!

Eu sou Anizio Lona Indami,natural de Farim, Guiné-Bissau. Tenho 22 anos,no momento estou estudando no Brasil na Universidade de Sao Paulo(USP)- Faculdade de Economia Administração e Contabilidade(FEA).

Através de uma busca no google consegui acessar a sua/vossa página.E fiquei muito feliz por saber mais coisas da guerra colonial na Guiné-Bissau. Mas por outro lado fiquei um pouco triste por não achar artigos(dados) relacionado a minha cidade Natal(Farim).

Por isso,eu vim por esse meio solicitar a Vossa Excia. no sentido de me ajudar a encontrar todos os documentos históricos da Guerra relacionado a cidade de Farim(fotos,história,depoimento dos ex-combatentes,etc.). Pois,estou muitíssimo interresado a conhecer a história da minha cidade.

E agradeço desde já a sua compreensao, e podes encaminhar esse email para os demais combatentes que possivelmente trabalhavam na referida região(Óio).

Obrigado!!

Atenciosamente
Anizio

Guiné 63/74 - CCLXX: Anízio, 22 anos, estudante, procura notícias do antigamente sobre a sua terra, Farim

1. Finalmente, o nosso camarada A. Marques Lopes, ex-alf mil da CCAÇ 1690 (Geba) e da CCAÇ 3 (Barro), hoje coronel, DFA, na reserva, calça as suas tamanquinhas e desce até à nossa tertúlia!... Bons olhos o vejam e bons ouvidos o oiçam. A razão da visita é nobre. Aqui fica a mensagem e o apelo.

Caros camaradas:

Como o Anizio Indami só enviou este apelo para alguns, mas pedindo para chegar a outros, aqui vai ele. Vamos ajudar este guineense a saber as coisas da sua terra durante o período em que a conhecemos.
Abraços

A. Marques Lopes


2. Mensagem do Anizio Lona Indami:


Olá Pessoal!!

Eu sou Anizio Lona Indami,natural de Farim, Guiné-Bissau. Tenho 22 anos,no momento estou estudando no Brasil na Universidade de Sao Paulo(USP)- Faculdade de Economia Administração e Contabilidade(FEA).

Através de uma busca no google consegui acessar a sua/vossa página.E fiquei muito feliz por saber mais coisas da guerra colonial na Guiné-Bissau. Mas por outro lado fiquei um pouco triste por não achar artigos(dados) relacionado a minha cidade Natal(Farim).

Por isso,eu vim por esse meio solicitar a Vossa Excia. no sentido de me ajudar a encontrar todos os documentos históricos da Guerra relacionado a cidade de Farim(fotos,história,depoimento dos ex-combatentes,etc.). Pois,estou muitíssimo interresado a conhecer a história da minha cidade.

E agradeço desde já a sua compreensao, e podes encaminhar esse email para os demais combatentes que possivelmente trabalhavam na referida região(Óio).

Obrigado!!

Atenciosamente
Anizio

03 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCLXIX: Unidades com sítios da Net (1)

Três sugestões do Jorge Santos para quem gostar de surfar na Net (isto já tem mais de três meses, as nossas desculpas ao nosso tertuliano Jorge, ex-fuzileiro em Moçambique, autor da página A Guerra Colonial, e que desde o verão passado tem andado em viagem pela Eurolândia):


(i) COMPANHIA DE CAÇADORES 1496 (BCAÇ 1876)

Guiné > Pirada (1966/1967)



Página de Diamantino Pereira Monteiro (Alferes Miliciano), que pode ser consultada em:

http://guinecolonial.home.sapo.pt/

Destaque para as bem humoradas "pequenas histórias com homens... à margem da guerra colonial" (um conjunto de crónicas ou croniquetas sobre o dia dia das NT), incluindo um delicioso glossário. Fico a saber que em 1966 ao aerograma se chamava bate-estradas. No nosso tempo (1969/71), e na nossa região (Bambadinca), era conhecido como o corta-capim. Também há uma xecelente documentação fotográfica sobre a guerra e o pós-guerra... Parabéns ao Diamantino! L.G.


(ii) COMPANHIA DE CAVALARIA 3378

Guiné > Olossato (1971/1973)

Página de José Fernando Tomé (Furriel Miliciano),
que pode ser consultada em:

http://kimbas.no.sapo.pt/

E-mail:

oskimbas@netcabo.pt




(iii) 2ª COMPANHIA DO BATALHÃO DE CAÇADORES 4610

Guiné > Cafine/Cobumba/Dufal (1972/1974)


Página de Fernando Teixeira (Furriel Miliciano), que pode ser consultada em:

http://osterriveis.no.sapo.pt/

E-mail: osterriveis@sapo.pt

Guiné 63/74 - CCLXIX: Unidades com sítios da Net (1)

Três sugestões do Jorge Santos para quem gostar de surfar na Net (isto já tem mais de três meses, as nossas desculpas ao nosso tertuliano Jorge, ex-fuzileiro em Moçambique, autor da página A Guerra Colonial, e que desde o verão passado tem andado em viagem pela Eurolândia):


(i) COMPANHIA DE CAÇADORES 1496 (BCAÇ 1876)

Guiné > Pirada (1966/1967)



Página de Diamantino Pereira Monteiro (Alferes Miliciano), que pode ser consultada em:

http://guinecolonial.home.sapo.pt/

Destaque para as bem humoradas "pequenas histórias com homens... à margem da guerra colonial" (um conjunto de crónicas ou croniquetas sobre o dia dia das NT), incluindo um delicioso glossário. Fico a saber que em 1966 ao aerograma se chamava bate-estradas. No nosso tempo (1969/71), e na nossa região (Bambadinca), era conhecido como o corta-capim. Também há uma xecelente documentação fotográfica sobre a guerra e o pós-guerra... Parabéns ao Diamantino! L.G.


(ii) COMPANHIA DE CAVALARIA 3378

Guiné > Olossato (1971/1973)

Página de José Fernando Tomé (Furriel Miliciano),
que pode ser consultada em:

http://kimbas.no.sapo.pt/

E-mail:

oskimbas@netcabo.pt




(iii) 2ª COMPANHIA DO BATALHÃO DE CAÇADORES 4610

Guiné > Cafine/Cobumba/Dufal (1972/1974)


Página de Fernando Teixeira (Furriel Miliciano), que pode ser consultada em:

http://osterriveis.no.sapo.pt/

E-mail: osterriveis@sapo.pt

Guiné 63/74 - CCLXVIII: Não é um pequeno delinquente qualquer que silencia o 'bombolom' do Paulo Salgado

Amigos e camaradas:

Más notícias nos chegam de Bissau: (i) As que têm a ver com os jogos de poder, nada com que a gente, infelizmente, não contasse já; e (ii) as que têm a ver com os nossos amigos. Neste caso, e mais concretamente, o Paulo Salgado.

A verdade é que quiseram silenciar o 'bombolom' do Paulo. Eu, de facto, já a estava a estranhar o silêncio dele. E já tinha saudades do seu 'bombolom' de Bissau. Afinal de contas, ele esteve sem internet nestes últimos dias (o que parece ser tão trivial em Bissau como a cólera que escandalosamente continua os guineenses). E depois, para cúmulo do azar, roubaram-lhe o PC. Eu imagino a frustação e a raiva do Paulo. Hoje o PC já faz parte do nosso corpo. Somos biónicos. O PC é uma extensão dos nossos membros, superiores, das nossas mãos, dos nossos dedos, dos nossos sentidos (a visão, o ouvido) e, por fim, do nosso próprio cérebro.

Espero, ao mesmo, que o Paulo tenha cópias de segurança dos seus dados... Como homem experiente na cooperação, ele sabe que os assaltos a residências ou a viaturas e o roubo de equipamentos é uma coisa trivial em África, para falar apenas da chamada pequena criminalidade... Mas é sempre uma experiência stressante, mesmo quando temos os bens segurados... Não é tanto o valor material do PC (mesmo assim considerável) como sobretudo a perda (muitas vezes, irreparável) de ficheiros de dados, que representam muitos meses ou até anos de trabalho...

Não sei, Paulo, como manifestar-te a minha solidariedade... Mas o melhor que consigo neste momento é confiar na tua capacidade de 'dar a volta' a estas contrariedades: tu, mais a Conceição e o resto da equipagem... Estamos contigo, não desanimes, tens outros embates muito maiores pela frente... Por favor, não deixes que te calem o 'bombolom'! Aquele abraço, camarada!

Luís Graça

Guiné 63/74 - CCLXVIII: Não é um pequeno delinquente qualquer que silencia o 'bombolom' do Paulo Salgado

Amigos e camaradas:

Más notícias nos chegam de Bissau: (i) As que têm a ver com os jogos de poder, nada com que a gente, infelizmente, não contasse já; e (ii) as que têm a ver com os nossos amigos. Neste caso, e mais concretamente, o Paulo Salgado.

A verdade é que quiseram silenciar o 'bombolom' do Paulo. Eu, de facto, já a estava a estranhar o silêncio dele. E já tinha saudades do seu 'bombolom' de Bissau. Afinal de contas, ele esteve sem internet nestes últimos dias (o que parece ser tão trivial em Bissau como a cólera que escandalosamente continua os guineenses). E depois, para cúmulo do azar, roubaram-lhe o PC. Eu imagino a frustação e a raiva do Paulo. Hoje o PC já faz parte do nosso corpo. Somos biónicos. O PC é uma extensão dos nossos membros, superiores, das nossas mãos, dos nossos dedos, dos nossos sentidos (a visão, o ouvido) e, por fim, do nosso próprio cérebro.

Espero, ao mesmo, que o Paulo tenha cópias de segurança dos seus dados... Como homem experiente na cooperação, ele sabe que os assaltos a residências ou a viaturas e o roubo de equipamentos é uma coisa trivial em África, para falar apenas da chamada pequena criminalidade... Mas é sempre uma experiência stressante, mesmo quando temos os bens segurados... Não é tanto o valor material do PC (mesmo assim considerável) como sobretudo a perda (muitas vezes, irreparável) de ficheiros de dados, que representam muitos meses ou até anos de trabalho...

Não sei, Paulo, como manifestar-te a minha solidariedade... Mas o melhor que consigo neste momento é confiar na tua capacidade de 'dar a volta' a estas contrariedades: tu, mais a Conceição e o resto da equipagem... Estamos contigo, não desanimes, tens outros embates muito maiores pela frente... Por favor, não deixes que te calem o 'bombolom'! Aquele abraço, camarada!

Luís Graça

Guiné 63/74 - CCLVII: Projecto Guileje (2): arquitecto paisagista, precisa-se!

"Foto de um marco existente em Jemberem, sede da nossa ONG em Cantanhez, que foi reparado e que, em homenagem à ONG portuguesa Instituto Marquês Valle Flôr-IMVF (que intervém na zona e com quem vamos trabalhar no projecto Guiledje), se chama Praça IMVF". Este pequeno monumento evoca a passagem, por aquelas paragens, de umc companhia, presumivelmente de caçadores ou de artilharia, a 6521... No mural lê-se; "OS NÒMADAS, PIONEIROS DE JEMBEREM, Pelundo > 27 Out 72, Cadique > 21 Jan 73, Jemberem > 20 Abr 73.

© CSchwarz




1. Mensagem de Carlos Schwarz, fundador e director executivo da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento (Bissau). com data de 30 de Outubro último:


Caro Luís Graça

Só agora lhe respondo, uma vez que tivemos sérios problemas de acesso à internet no país.

Será com muito prazer que integrarei a vossa (já agora nossa) tertúlia.

O José Carlos Schwartz [músico, poeta e militante do PAIGG, morto precocemente, a seguir à independência] não é meu familiar. Ele nasceu exactamente uma semana depois de mim e fomos contemporâneos nos estudos: ele na escola técnica e eu no liceu.
Depois da independência fomos vizinhos e bons amigos. Tenho uma admiração enorme por ele.

Voltando à vaca fria, isto é Guiledje. O projecto vai mesmo para a frente, com os percalços e descontinuidades próprios da Guiné-Bissau, um dos quais o golpe palaciano ocorrido ontem (nada que não estivéssemos à espera).

Vim de lá ontem e logo que acabem as chuvas vamos começar os trabalhos de limpeza e desminagem.

Gostaria de aceitar a vossa sugestão de envolvimento no projecto e propor-vos, para já, que ela se materializasse na reconstituição do que era o quartel de Guiledje na época.

Procurei por várias formas aceder ao mapa do quartel aí em Portugal, tendo chegado à conclusão que provavelmente ele nunca terá existido. Nada que não possa ser ultrapassado, uma vez que com as duas fotografias tiradas de avião, um bom arquitecto não possa refazer o mapa e até uma maqueta.

É que nós gostaríamos de reconstruir o quartel à imagem daquilo que ele era, desde que isso não implicasse a destruição de belas árvores que entretanto se desenvolveram no interior.

Para isso, iremos fazer durante a época seca um levantamento topográfico com a sua localização, para que se possa casar com o mapa do antigo quartel.

Pensamos que os pavilhões da messe, etc possam ser adaptados para a formação de jovens no futuro CENAR (Centro de Aprendizagem Rural) e que a zona onde habitava a população possa ser aproveitada para: instalar habitações para novos habitantes da região e reservar uma zona para casas de passagem de visitantes interessados em fazer ecoturismo.

Ora é neste ponto que gostaríamos de ter o vosso apoio. Será que vocês poderão identificar um arquitecto, de preferência paisagista, que aceite fazer de forma solidária, a partir das fotografias aéreas, um mapa com todas as instalações, incluindo uma escala que nos possibilite saber as distâncias entre os edifícios, ruelas, etc?

Proponho igualmente que, quando for aí a Portugal no próximo ano, possamos fazer um encontro com as pessoas interessadas no projecto para incorporarmos as suas ideias.

Um abraço

CSchwarz

Guiné 63/74 - CCLVII: Projecto Guileje (2): arquitecto paisagista, precisa-se!

"Foto de um marco existente em Jemberem, sede da nossa ONG em Cantanhez, que foi reparado e que, em homenagem à ONG portuguesa Instituto Marquês Valle Flôr-IMVF (que intervém na zona e com quem vamos trabalhar no projecto Guiledje), se chama Praça IMVF". Este pequeno monumento evoca a passagem, por aquelas paragens, de umc companhia, presumivelmente de caçadores ou de artilharia, a 6521... No mural lê-se; "OS NÒMADAS, PIONEIROS DE JEMBEREM, Pelundo > 27 Out 72, Cadique > 21 Jan 73, Jemberem > 20 Abr 73.

© CSchwarz




1. Mensagem de Carlos Schwarz, fundador e director executivo da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento (Bissau). com data de 30 de Outubro último:


Caro Luís Graça

Só agora lhe respondo, uma vez que tivemos sérios problemas de acesso à internet no país.

Será com muito prazer que integrarei a vossa (já agora nossa) tertúlia.

O José Carlos Schwartz [músico, poeta e militante do PAIGG, morto precocemente, a seguir à independência] não é meu familiar. Ele nasceu exactamente uma semana depois de mim e fomos contemporâneos nos estudos: ele na escola técnica e eu no liceu.
Depois da independência fomos vizinhos e bons amigos. Tenho uma admiração enorme por ele.

Voltando à vaca fria, isto é Guiledje. O projecto vai mesmo para a frente, com os percalços e descontinuidades próprios da Guiné-Bissau, um dos quais o golpe palaciano ocorrido ontem (nada que não estivéssemos à espera).

Vim de lá ontem e logo que acabem as chuvas vamos começar os trabalhos de limpeza e desminagem.

Gostaria de aceitar a vossa sugestão de envolvimento no projecto e propor-vos, para já, que ela se materializasse na reconstituição do que era o quartel de Guiledje na época.

Procurei por várias formas aceder ao mapa do quartel aí em Portugal, tendo chegado à conclusão que provavelmente ele nunca terá existido. Nada que não possa ser ultrapassado, uma vez que com as duas fotografias tiradas de avião, um bom arquitecto não possa refazer o mapa e até uma maqueta.

É que nós gostaríamos de reconstruir o quartel à imagem daquilo que ele era, desde que isso não implicasse a destruição de belas árvores que entretanto se desenvolveram no interior.

Para isso, iremos fazer durante a época seca um levantamento topográfico com a sua localização, para que se possa casar com o mapa do antigo quartel.

Pensamos que os pavilhões da messe, etc possam ser adaptados para a formação de jovens no futuro CENAR (Centro de Aprendizagem Rural) e que a zona onde habitava a população possa ser aproveitada para: instalar habitações para novos habitantes da região e reservar uma zona para casas de passagem de visitantes interessados em fazer ecoturismo.

Ora é neste ponto que gostaríamos de ter o vosso apoio. Será que vocês poderão identificar um arquitecto, de preferência paisagista, que aceite fazer de forma solidária, a partir das fotografias aéreas, um mapa com todas as instalações, incluindo uma escala que nos possibilite saber as distâncias entre os edifícios, ruelas, etc?

Proponho igualmente que, quando for aí a Portugal no próximo ano, possamos fazer um encontro com as pessoas interessadas no projecto para incorporarmos as suas ideias.

Um abraço

CSchwarz