28 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXVIII: Brá, SPM 0418 (1): as minhas memórias de Cuntima (Virgínio Briote)

Post nº 318 (CCCXVIII)

Amigos & camaradas:

Temos notícias do VB, o nosso camarada dos comandos velhinhos de 1965/66... Ele diz-nos que "o Fora-Nada-Nada está imparável!"... e junta "algumas páginas das minhas memórias em Cuntima". Sempre com aquela discrição, serenidade e sabedoria dos homens que sabem tirar lições da sua experiência de vida...


O Virgínio Briote, em Biarritz (2002)

© Virgínio Briote (2005)


É um privilégio termos, na nossa tertúlia, gente como ele que tem talento literário, que sabe comunicar ideias, emoções, sentimentos, contar pequenas estórias, recriar ambientes onde nos reconhecemos, à distância de trinta e tal anos... Não só só ele, como o João Tunes (que é um conhecido blogador, com garra, crítico e mordaz), como o A. Marques Lopes (que belíssima peça a da bolanha de Sinchã Jobel!), o João Varanda, o David Guimarães, o Humberto Reis, o Vitor Junqueira ou o Afonso Sousa, só para citar alguns ex-camaradas de armas que trocaram a G-3 pela caneta ou pelo teclado do computador, ou que são os mais assíduos comunicadores da nossa tertúlia... Mas é do VB que hoje quero falar para dizer que ele é uma revelação: todas as vezes que vai ao baú (expedido de Brá , SPM 0418), saca de lá uma peça que é de antologia!



É destes presentes de Natal que a nossa tertúlia precisa. Esta prosa dá gozo publicar e ler... Grande Virgínio Briote! Que o teu exemplo inspire outros camaradas, menos afoitos às coisas das letras...

Há tempos nós publicámos aqui [vd post de 19 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLIV: Ansumane, caçador de crocodilhos (conto tradicional)] um belíssimo texto do VB, e ele respondeu-nos, com reconhecimento e humildade:

"Fiquei sensibilizado com a publicação do conto do Ansumane. Pareceu-me até que está muito melhor do que aquele que escrevi há anos. De resto, a minha prática de escrita em quase 40 anos de actividade profissional resumiu-se invariavelmente a relatórios comerciais, problemas, oportunidades, fraquezas, forças. Relatórios para multinacionais, sabes do que estou a falar, nada de margem para poesias"...

Eu sei (ou suspeito) que há para aí muito mais gente com jeito para a escrita... O que se passa é que alguns de nós somos mais envergonhados... Aproxima-se o Natal de 2005: a melhor prenda que a gente pode oferecer-se uns aos outros sãos as nossas estórias, mais curtas ou compridas, com mais pica ou menos pica, mais tristes ou mais alegres, mais poéticas ou mais divertidas, com mais ficção ou mais história... Vale tudo!... Deixem soltar o verbo!... E fico/ficamos à espera dessas prendas!

Luís Graça


1. EM CUNTIMA

A festa não era para ele, aquela gente toda na pista de aterragem festejava a chegada da avioneta. Não demorou muito tempo a perceber aquele ar de agitação e da romaria em volta do piloto e da meia dúzia de caixas com uísque, cerveja e tabaco espalhados pelo chão. E os sacos do correio, todos à volta, a pressa de um daqueles militares, a fúria em tirar para fora dos sacos maços e maços de cartas, algumas pelo chão, outros a apanhá-las. Carlos Correia, Manuel Silva, ó Tomé, as mãos estendidas, pronto, meu sargento!

Gil Duarte? Olhe, seja bem-vindo a Cuntima! Um gajo de mão estendida, de calções e camisa de caqui, com um esboço de pêra e bigode, o comandante da companhia, capitão Galo. Estes são os seus camaradas, o alferes Adair, mais conhecido aqui por Didi, o alferes Ribeiro, aquele ali é o doutor Francisco Lourenço, um açoriano da Terceira. Adair, hoje já tem que fazer, trate de lhe mostrar o local onde vai ficar, os aposentos do hotel, a cidade, a casa de banho, mostre-lhe tudo!

Cuntima era uma rua, uma recta de 200 ou 300 metros, a estrada de terra a atravessá-la, entre a saída para Jumbembem e Farim e a entrada da fronteira com o Senegal. Casas de um lado e doutro, pintadas com a cor de muitos sóis em cima, casitas de adobe atrás, da população nativa.

No lado nascente, em frente ao antigo celeiro, que agora servia de camarata do pelotão do Gil, ficava a casa do comando, um quarto para o capitão, outro para a estação de rádio e uma saleta que servia de posto de socorros e de capela quando havia capelão, e uma arrumação com beliches, onde estacionavam três ou quatro soldados. Duas casas depois, a messe, em tempos mais calmos moradia de alguém importante na terra. Era aqui que se encontravam para as refeições os alferes da companhia, o capitão Galo, o médico e o 1º sargento. À entrada, à frente do bar, o Magrinho servia cerveja, uísque, leite condensado, água, por esta ordem conforme a existência, e a seguir, o que havia no frigorífico.

No primeiro jantar em Cuntima, ficou logo a conhecer a história deles e do batalhão. Do capitão não, que se retirou cedo.

O Adair era mais brasileiro que português, criança ainda fora com os pais para o Rio de Janeiro. Questões relacionadas com heranças forçaram-no a vir a Portugal, a Vila da Feira. Não havia forma de fugir, tinha que ser! E pronto, foi assim, acabou-se-me a Gávea, Copacabana, Ipanema, o Leblon, o Leme!

Ó Didi, estás em Cuntima, uma beleza de terra também, enfim, não tem praias, mas tem bolanhas, palmeiras, bajudas, calor, que queres mais, o Ribeiro, um tipo pequeno, olhos vivos, muito negros, com ar de indiano, à gargalhada.

Dali para a frente, as conversas entre eles eram sempre as mesmas, só umas pequenas variações, um acrescento aqui ou ali. Sempre à volta do mesmo, os meses que faltavam para o regresso. Fosse qual fosse o princípio, terminava sempre na Rocha Conde de Óbidos e no encontro com a namorada, mulher, filhos, os pais, os amigos, a rua, o quiosque…

Guiné Portuguesa? Deixa-me rir! Nem penses, esta é uma guerra perdida! Não tenhas ilusões, amigo, isto não é nosso, nunca foi, o Didi ansioso por passar a ideia. Quando vires a tralha a cair-te em cima, nessa altura sim, vais começar a pensar no buraco em que te meteram. E toma nota, os gajos em Lisboa continuam na vida deles, a engordarem com este negócio, a mercadoria somos nós! Daqui a uns tempos falamos, quando estiveres mais habituado a estes calores…

O Coronel insistia em ordens de saída para o mato, patrulhamentos, emboscadas, vigilância das picadas, capinagem, o diabo a sete. Saíam, é certo, mas via-se-lhes na cara a má vontade, as pernas contrariadas, a arrastarem-se em coluna por um, muito chegados uns aos outros, como se assim ficassem mais protegidos. Os alferes e os furriéis já não tinham ânimo nem vontade para imporem as regras de segurança. Já tinham passado por muito. O Como, pá, o Como! Os dois feridos que tivemos mal desembarcámos! E aquela história, lembras-te Ribeiro, e mais um episódio a sair aos bochechos. Ao fim de uns dias, o Gil era um veterano de guerra, esteve no Como aqueles dias todos, os turras a chateá-lo a toda a hora.

Ao jantar, à luz do petromax (1), a presença do capitão Galo impunha um pouco de ordem nas conversas à mesa. Era o único ali que tinha acesso aos relatórios da situação militar em toda a província. Com um ar confidencial, punha-os vagamente em dia com o que se passava nos outros pontos da Guiné, Oio, Morés, Tite, Cantanhez, Buba, Guilege, Gadamael, Cacine, Cameconde…Ataques, minas, baixas.

Numa daquelas noites, ao levantarem-se da mesa, Gil viu o capitão fazer-lhe um sinal. Venha daí, vamos dar uma volta até ao posto de rádio. Uma noite linda, não? Um espanto, estas noites de África!

Porta fechada, viu o capitão estender um mapa junto à luz do petromax. As referências bem assinaladas com marcadores grossos a tinta vermelha. A fronteira, Cuntima aqui, Jumbembem, Farim a seguir, aqui em baixo, está a ver? Emboscada aqui, entre Faquina Fula e Faquina Mandinga, o dedo apontado para um ponto do mapa. Sim, sim, esta madrugada, neste trilho entre as 6 e as 6 e 30. Preste atenção, levante-a ao meio-dia, nem mais um minuto. Fale com o Furriel Poças, ele trata da logística. Boa noite.

A caminho do celeiro, Faquina Fula e Faquina Mandinga misturavam-se na cabeça com os restos da cerveja que bebera em Bissau. Pôs o Poças ao corrente da missão e pediu-lhe que fosse ele a comandar. Era a sua 1ª saída para o mato, até aí tinham sido só treinos em Santa Margarida e Mafra. Deixe estar, meu alferes, vai correr tudo bem, fique descansado.

Na cama, nada de leituras que a lanterna estava sem pilhas. Num rádio, muito baixo, Bécaud cantava Et maintenant, música árabe de outro, ressonava-se por ali fora. Faquina Fula, Faquina Mandinga, a cabeça sempre a rodar, até adormecer.

Quando se pôs a pé, a cabeça voltou a rodar, ao ritmo daqueles dias. Na rua, noite ainda escura, cheirava a café quente, tomava-se o pequeno-almoço, pão fresco com chouriço, marmelada.

Puseram-se a andar, ainda não eram cinco. Armas pousadas nos ombros, mãos a segurarem os canos, coronhas para trás, como quem leva um cajado. Parecia uma romaria a S. Bento da Porta Aberta, um restolho enorme, tanto barulho com os pés. Não se pode andar com menos barulho, Poças, o pessoal não pode fazer levantar os pés em vez de os arrastar? Os olhos pequeninos do furriel para ele, quê? Como? É, poder podem…

Tomava pela primeira vez contacto com a mata, as árvores, os ruídos, ansioso por dar atenção a tudo. Espevitou ainda mais com a floresta a acordar. São macacos-cães a ladrar, quando estivermos perto deles deixam de se ouvir. Falta pouco, é para aqueles lados, o caminho é depois daquela bolanha, ali em frente.

Aí para as 7, estavam deitados, G3 em posição, escondidos na mata, abrigados em arbustos dispersos pelo capim, à espera que os turras passassem.

Horas a passarem e turras nem vê-los, o silêncio cortado de vez em quando por um ou outro ronco de alguém a ressonar, o sol bem alto a queimar e moscas grandes, peludas, a pousarem neles, sem se ouvirem.

O Poças aproximou-se, apontou para o relógio, quase meio-dia. Podemos levantar a emboscada, já não aparecem, vamos? Curvado no trilho, percorreu-o com os olhos de uma ponta a outra. Viam-se sinais de sandálias de plástico e de rodas de bicicletas. Tinham passado aqui, não havia muito tempo, disse um milícia nativo.

Este é um caminho que utilizam para introduzirem armas, comida, sei lá que mais! Só que passam aqui a outras horas, claro. E se continuasse aqui até eles passarem? Agora não, que as ordens são outras.


2. PESSOAL AOS SEUS LUGARES


Dentro do celeiro, pelo meio dos beliches, orquestra a sono solto, madrugada ainda a meio. Portão semiaberto, o céu a brilhar de pontinhos. Noites como aqui, com tanta luz, parece dia! A casa do capitão Galo em frente, aí a uns 20 metros, os alfas rómios da casa do rádio a ouvirem-se, aroma a café a vir de lá. Uma novela no quarto de banho do capitão, Capricho ou parecida! Na volta, outra vez o céu, bocados de estrelas a caírem.

As matas em frente, escuras, misteriosas, quando se lembrarão eles de vir até cá? Se soubessem como era fácil, todos a dormir agora, nem precisavam de atacar de longe, bastava chegarem-se, sorrateiros, escondidos pelo matagal, espiar o movimento das sentinelas, evitar os petromaxes, colados ao chão, devagar a caminho do celeiro, a curta distância, 10 metros chegava. Dedos no gatilho, com vontade, entrar, uma chacina nos tugas (2). Se não tivessem medo também. Mas algum dia vão perdê-lo.

De novo na cama, a vontade de dormir a ir-se, as recordações a virem. O comboio da linha de Sintra, a chegada à Amadora nas horas de ponta, às centenas a saírem, todos com pressa, a desaparecerem nas ruas, depois nas casas, as luzes a acenderem-se, o vento a dar, as praias de Carcavelos, de Oeiras, a areia do Guincho pelo ar, por aí acima até ao Porto, à estação de S. Bento, o passeio das Cardosas, a Avenida dos Aliados, os Clérigos, o 6 (3) a subir para os Leões, o Hospital de S. António, a Aníbal Cunha, a Carvalhosa, o ardina a apregoar olhó Popular Diário, a subida da Oliveira Monteiro até ao Carvalhido, as ruas, os quiosques. A circunvalação, a via Norte, Mindelo, Modivas, sempre a subir até Vila do Conde, terra linda, a Póvoa do Varzim, os banhistas com os sacos ás costas, toalhas coloridas debaixo dos braços, a estrada para Viana, Aver-o-Mar, o cheiro da casa dos frangos, tão bons não havia, a Apúlia por fim. O sossego dos fins das tardes dos Setembros da praia dos sargaceiros, as marés-cheias por volta das 7, ondas enormes, certinhas como um compasso, os mergulhos com o André, o Eurico, o Beleza. O regresso a casa, bicicleta nos caminhos pelo meio das latadas das uvas americanas, a secar ao vento, a chegada a casa, o Sol a pôr-se, a mãe à espera, a estas horas só, o irmão pequeno em férias, a cozinha com os fumos da sopa.

Nem o mar se vê daqui, os jornais da metrópole, de há duas semanas, a rodarem entre todos, a Bola, o Eusébio, o Coluna, o José Augusto, o Pedroto, o Vicente, irmão do Matateu… O Costa Pereira a defender fora da área de cabeça, em mergulho, no estádio do Braga, nunca vira uma defesa daquelas! Os títulos a vermelho do Jornal de Notícias, o Comércio do Porto com o título a gótico.

Como é que ela vai reagir à minha carta? Que ideia a dele, pedir-lhe que o considerasse agora mais que um amigo, estivera com ela mais de duas horas da última vez, não lhe dissera nada, nem um sinal lhe dera! Tão longe, tanto tempo à frente, tão nova ainda, tanta vontade de ir aos bailaricos das festas da queima, em casa das amigas, nas festas familiares. Que absurdo! Que ousadia também! O amor a dar-lhe tão súbito, tão fulminante, talvez por estar longe, ou quem sabe, só uma correspondência que sempre lhe daria jeito, uma madrinha de guerra talvez, com notícias diferentes da metrópole.

Uma rajada comprida vinda de muito longe entrou-lhe pelos ouvidos dentro. Olhos mais que arregalados, o salto de gato da cama. Queria gritar outra coisa, saiu-lhe pessoal aos seus lugares, lembrou-se logo do cobrador das camionetas do Marinho (4) em Braga, nada que se parecesse com um grito de guerra. Se calhar, por isso ninguém saiu, só ele. Em voo pelo buraco aberto na parede das traseiras, a pancada na cabeça, um estrondo enorme, estrelas a brilhar mais que as do céu. Finalmente cá fora, a mão na cabeça, o sangue a escorrer, pronto, fui atingido, logo à primeira!

Um silêncio, ninguém cá fora para o socorrer, só a sentinela a chegar-se. Pareceu-me ver umas luzes suspeitas ali da mata, mandei para lá uma rajada! Alarme falso, afinal deviam ser pirilampos! Tem sangue na cabeça, deixe ver, o meu alferes deve ter batido com a cabeça na parede, ainda não está calhado com o buraco, é o que é.

Manhã cedo, nativos da zona e outros vindos do Senegal em bicha para a consulta, o médico, açoriano da Terceira, a atendê-los, cheio de paciência para um, ora abre a boca, diz aaah, outra vez, aaah, o enfermeiro mão no frasco enorme, comprimidos, drageias, cápsulas, todas as cores da paleta, dá-lhe duas dessas, outra dessa cor, amanhã se não estiveres melhor vai ao feiticeiro. O que foi isso na testa, Gil?


3. A ESTRADA PARA FARIM


Viaturas prontas, sacos de areia nos lugares da frente para o condutor e acompanhante se houvesse voluntário. Os militares, oito a dez, mais os nativos com paus, sacos aos ombros, galinhas, porcos, bidões vazios, tudo a monte nas caixas das Mercedes e GMC (4). A coluna tinha-se posto em marcha de Cuntima para Farim, com uma paragem em Jumbembem para cumprimentos e uma cerveja fresca. Cerca de 30 e tal quilómetros em pouco mais de 3 horas, com impedimentos menores.

À entrada de Farim, o furriel Poças descrevera os procedimentos habituais. Largar o pessoal nativo logo à entrada, arrancar para o centro da povoação, toda ela um grande quartel, casas civis rodeadas de instalações militares com arame farpado à volta, e depois como manda a cavalaria, dispor as viaturas em linha, militares dentro delas em sentido, bolsos apertados, apear-se, dirigir-se para o posto de comando, peito para fora, barriga para dentro.

Dá licença, meu Coronel, apresenta-se o alferes Gil Duarte com a coluna de reabastecimentos para Cuntima. Mande seguir aos seus destinos, encarregue o sargento mais antigo, o nosso alferes fica aqui, vai almoçar connosco. E como vão as coisas por Cuntima? Quando foi a última vez que saíram para o mato? Para onde? O que aconteceu? A que horas? Quanto tempo lá estiveram? Quando foi a última vez que o capitão saiu com vocês? Quando? Com quem? Nem dava tempo a engolir!

Apresentou-se aos alferes, capitães e majores, todos com cara de pouco amigos, 17 ou 18 meses de comissão nas trombas, deu as voltas todas, durante a tarde inteirou-se dos carregamentos, teria que ficar a noite, os combustíveis vindos de Bissau estavam ainda a ser descarregados e conferidos. Uma volta pela povoação, pouca coisa para ver, uma lata de anchovas e uma cerveja numa esplanada.

Fica no quarto do Ramiro Medalha, lá tem sempre vaga, dissera-lhe o capitão Risco. No meio do silêncio que já se sentia àquela hora, um chinfrim enorme, do quarto que lhe indicara o capitão. Dormir lá?

O Ramiro? Excesso, em tudo! Intelecto vigoroso, ironia cortante, discurso como um autoclismo, muita cerveja, todas as noites até cair para o lado, ele e quem tivesse o azar ou a sorte de estar nas proximidades. E suor, como se acabasse de sair do chuveiro. Tudo nota vinte, uma força da natureza, exclamavam os que com ele privavam.

Nascera com sorte, de boas famílias como então se dizia, latifúndio registado nos Alentejos, espigara rodeado de mimos, criadas para todas as dependências da casa e descontado o exagero, para muitos serviços também, excepto a Anica que o vira nascer e lhe dera a mama. Mal dera pela passagem pelo liceu, anos e cadeiras a jacto. Registada na caderneta escolar ficou a suspensão decretada pelo reitor, apesar do respeito reverencial pela família, sanção imposta pelo pai que, nessas coisas primava pelo exemplo. No decorrer de um campeonato que metia fita métrica, a jovem professora de inglês apanhou-o a medir o instrumento, numa cadeira lá para trás de uma turma com 31 rapazes. Corada até nos cabelos loiros, o Russo a contar, não sabia bem o que era aquilo que estava em cima da fita. Decidira suspender a aula e chamar o reitor, uma medida demasiado drástica no entender de muitos alunos e de alguns professores. E a aula de inglês daquele dia acabou mesmo ali. Parece ter sido este o facto mais marcante da passagem, aliás brilhante em termos de aproveitamento escolar, do Ramiro pelo liceu. O pai, advogado, da situação ainda a somar, despachou-o com uma criada, para uma casa que tinham em Lisboa, ali para os lados do Príncipe Real, naqueles anos ainda um sítio muito calmo. Nas recomendações iniciais que o pai lhe fizera, a importância em assistir às aulas dos profs dos direitos todos, sem esquecer claro, a brilhante cabeça do Professor M. Catano, uma inteligência de agora e do futuro, que ele, Ramiro, deveria ter em conta se quisesse encarreirar.

As aulas, como era de prever, passaram depressa, mal deu por elas, as necessárias para medir o pulso dos profs, pedidos de esclarecimento contínuos, tudo entendido até à próxima aula, daí a uns meses. Em cinco anos a licenciatura na mão que era o que o pai queria. A tropa, à espreita, mal acabou o curso, vestiu-lhe um fato zuarte (6), que ele, como outros, nunca vira nem em sonhos e despachou-o para a escola mais perto de casa, no caso a Escola Prática de Cavalaria em Santarém, onde o Ramiro deu abundantes provas de como montar a sério.

No cais da Rocha Conde de Óbidos estavam todos, a mãe, as avós de preto, as criadas que couberam nos dois carros, todas com lenços nas mãos, as lágrimas a escorrerem, e o pai claro, comovido, uma oportunidade única na tua vida, a defesa da Pátria, os valores da civilização, disseram os que assistiram.

Acordou na Guiné sem se lembrar bem de todos os episódios da viagem, salvo uma conversa que fora obrigado a ter no barco, com o Coronel, conversa que não lhe correra lá muito bem. O Coronel, militar encarniçado, homem direito e competente, discursara-lhe na cara os valores da Pátria, do Exército, da Cavalaria, até a família nomeara!

Há três dias em Bissau, novo episódio, desta vez com a participação da Polícia Militar. O Coronel declarou-se incompetente para aquele caso particular, desistiu. Delegou na figura do major Amor, um major pequenino, magrinho, bigode fino, exemplar na bota alta, com falta de peso para todo o serviço militar quanto mais para meter nos eixos o alferes Ramiro! Que estivesse descansado o Coronel, o assunto ficaria bem entregue…

O Ramiro continuou o seu percurso, sempre ao lado do batalhão, cervejas até cair para o lado, ele e os compinchas, às vezes com as cadeiras, as mesas, as garrafas vazias, empregados, patrões, polícia militar, o que estivesse na frente. Assim, um oportunista daqueles que aparecem sempre nomeou-o Ramiro das medalhas, outro mais abrangente, Medalha com letra grande para abarcar todas. Dali em diante passou a apresentar-se Ramiro Medalha.

Os quatro alferes que partilhavam o enorme salão que lhes servia de quarto estavam a começar mais uma noitada, eram para aí 9 da noite, os dois frigoríficos a abarrotarem de líquidos, garrafas já vazias pelo chão, lençóis desalinhados, sumaúma a cair de pára-quedas, camisas desabotoadas até baixo, o Medalha só com umas cuecas, mas até ao joelho.

Sou o Gil de Cuntima, posso?

Mal tinha acabado de adormecer, acordou, a cama molhada, bêbado de cheiro a cerveja, o Medalha com sabão na cara, ó maçarico dum raio, a coluna está lá fora à tua espera! A coluna estava diferente, as viaturas atestadas de farinha, vinho do Cartaxo em garrafões, leite condensado e outros líquidos, cunhetes com munições, marmelada em caixotes, latões com chouriço e outros enchidos, novos pretos com outros sacos, outras galinhas, porcos diferentes, uma ninhada acabada de ser parida. Ainda não tinha percebido bem este movimento dos nativos, vêm uns para cá, vão outros para lá, mas adiante para o posto de comando, outra vez viaturas em linha, procedimentos idênticos aos da chegada.

Iam a andar bem, mais devagar, claro, até que atingiram a curva da morte, uma história que se contava em todos os lados ter-se-ia passado ali. De um momento para o outro sentiu-se empurrado para a berma da picada, uma fuzilaria tão grande que nem nos exercícios de tiro da Carregueira. Deu por ele deitado, a G3 em posição, com o dedo no gatilho. Olhou em frente, a bolanha (7) a perder de vista, saltou para o lado errado! Deixa lá ver, deve ser do outro lado, a fuzilaria em bom ritmo, pensou duas vezes, mais uma, aí foi, agachado, quase colado ao chão como lhe ensinaram nas matas de Mafra, um ziguezague até à outra margem da estrada, outra vez a G3 em posição, olhou em frente, tudo capinado, um tronco aqui, outro além, montículos de baga-baga (8) a nascer. Então, onde estão os turras?

Alguns soldados de pé, gargalhadas nervosas, o Furriel Poças, não é nada, alto ao fogo, não é nada, parem essa merda, porra!

O Quadradão na caixa da viatura da frente, atento a todos os movimentos, terá visto uma vara de javalis a atravessar a picada. Mas que grande reabastecimento, deve ter pensado, o dedo fácil no gatilho, as balas a bater nas rodas das viaturas lá de trás e a resposta concludente, como ainda se ouvia.

Quase tudo normalizado, rodas para substituir e o soldado Canário não ouvia nem via nada, nem queria, só a G3, as mãos no carregador encravado, a aflição na cara, não sai, encravou-se!

© Virgínio Briote (2005)
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(1) Candeeiro a petróleo
(2) Designação pejorativa das NT
(3) Eléctrico
(4) Empresa de Viação Auto-Motora
(5) Camiões militares da General Motors, da 2ª Guerra Guerra
(6) Fato-macaco, grosso, esverdeado, que era distribuído aos cadetes
(7) Ou bolenha: extensões de água, aproveitadas para cultivo de arroz
(8) Formigueiros erguidos em altura (da formiga Baga-Baga)

Guiné 63/74 - CCCXVIII: Brá, SPM 0418 (1): as minhas memórias de Cuntima (Virgínio Briote)

Post nº 318 (CCCXVIII)

Amigos & camaradas:

Temos notícias do VB, o nosso camarada dos comandos velhinhos de 1965/66... Ele diz-nos que "o Fora-Nada-Nada está imparável!"... e junta "algumas páginas das minhas memórias em Cuntima". Sempre com aquela discrição, serenidade e sabedoria dos homens que sabem tirar lições da sua experiência de vida...


O Virgínio Briote, em Biarritz (2002)

© Virgínio Briote (2005)


É um privilégio termos, na nossa tertúlia, gente como ele que tem talento literário, que sabe comunicar ideias, emoções, sentimentos, contar pequenas estórias, recriar ambientes onde nos reconhecemos, à distância de trinta e tal anos... Não só só ele, como o João Tunes (que é um conhecido blogador, com garra, crítico e mordaz), como o A. Marques Lopes (que belíssima peça a da bolanha de Sinchã Jobel!), o João Varanda, o David Guimarães, o Humberto Reis, o Vitor Junqueira ou o Afonso Sousa, só para citar alguns ex-camaradas de armas que trocaram a G-3 pela caneta ou pelo teclado do computador, ou que são os mais assíduos comunicadores da nossa tertúlia... Mas é do VB que hoje quero falar para dizer que ele é uma revelação: todas as vezes que vai ao baú (expedido de Brá , SPM 0418), saca de lá uma peça que é de antologia!



É destes presentes de Natal que a nossa tertúlia precisa. Esta prosa dá gozo publicar e ler... Grande Virgínio Briote! Que o teu exemplo inspire outros camaradas, menos afoitos às coisas das letras...

Há tempos nós publicámos aqui [vd post de 19 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLIV: Ansumane, caçador de crocodilhos (conto tradicional)] um belíssimo texto do VB, e ele respondeu-nos, com reconhecimento e humildade:

"Fiquei sensibilizado com a publicação do conto do Ansumane. Pareceu-me até que está muito melhor do que aquele que escrevi há anos. De resto, a minha prática de escrita em quase 40 anos de actividade profissional resumiu-se invariavelmente a relatórios comerciais, problemas, oportunidades, fraquezas, forças. Relatórios para multinacionais, sabes do que estou a falar, nada de margem para poesias"...

Eu sei (ou suspeito) que há para aí muito mais gente com jeito para a escrita... O que se passa é que alguns de nós somos mais envergonhados... Aproxima-se o Natal de 2005: a melhor prenda que a gente pode oferecer-se uns aos outros sãos as nossas estórias, mais curtas ou compridas, com mais pica ou menos pica, mais tristes ou mais alegres, mais poéticas ou mais divertidas, com mais ficção ou mais história... Vale tudo!... Deixem soltar o verbo!... E fico/ficamos à espera dessas prendas!

Luís Graça


1. EM CUNTIMA

A festa não era para ele, aquela gente toda na pista de aterragem festejava a chegada da avioneta. Não demorou muito tempo a perceber aquele ar de agitação e da romaria em volta do piloto e da meia dúzia de caixas com uísque, cerveja e tabaco espalhados pelo chão. E os sacos do correio, todos à volta, a pressa de um daqueles militares, a fúria em tirar para fora dos sacos maços e maços de cartas, algumas pelo chão, outros a apanhá-las. Carlos Correia, Manuel Silva, ó Tomé, as mãos estendidas, pronto, meu sargento!

Gil Duarte? Olhe, seja bem-vindo a Cuntima! Um gajo de mão estendida, de calções e camisa de caqui, com um esboço de pêra e bigode, o comandante da companhia, capitão Galo. Estes são os seus camaradas, o alferes Adair, mais conhecido aqui por Didi, o alferes Ribeiro, aquele ali é o doutor Francisco Lourenço, um açoriano da Terceira. Adair, hoje já tem que fazer, trate de lhe mostrar o local onde vai ficar, os aposentos do hotel, a cidade, a casa de banho, mostre-lhe tudo!

Cuntima era uma rua, uma recta de 200 ou 300 metros, a estrada de terra a atravessá-la, entre a saída para Jumbembem e Farim e a entrada da fronteira com o Senegal. Casas de um lado e doutro, pintadas com a cor de muitos sóis em cima, casitas de adobe atrás, da população nativa.

No lado nascente, em frente ao antigo celeiro, que agora servia de camarata do pelotão do Gil, ficava a casa do comando, um quarto para o capitão, outro para a estação de rádio e uma saleta que servia de posto de socorros e de capela quando havia capelão, e uma arrumação com beliches, onde estacionavam três ou quatro soldados. Duas casas depois, a messe, em tempos mais calmos moradia de alguém importante na terra. Era aqui que se encontravam para as refeições os alferes da companhia, o capitão Galo, o médico e o 1º sargento. À entrada, à frente do bar, o Magrinho servia cerveja, uísque, leite condensado, água, por esta ordem conforme a existência, e a seguir, o que havia no frigorífico.

No primeiro jantar em Cuntima, ficou logo a conhecer a história deles e do batalhão. Do capitão não, que se retirou cedo.

O Adair era mais brasileiro que português, criança ainda fora com os pais para o Rio de Janeiro. Questões relacionadas com heranças forçaram-no a vir a Portugal, a Vila da Feira. Não havia forma de fugir, tinha que ser! E pronto, foi assim, acabou-se-me a Gávea, Copacabana, Ipanema, o Leblon, o Leme!

Ó Didi, estás em Cuntima, uma beleza de terra também, enfim, não tem praias, mas tem bolanhas, palmeiras, bajudas, calor, que queres mais, o Ribeiro, um tipo pequeno, olhos vivos, muito negros, com ar de indiano, à gargalhada.

Dali para a frente, as conversas entre eles eram sempre as mesmas, só umas pequenas variações, um acrescento aqui ou ali. Sempre à volta do mesmo, os meses que faltavam para o regresso. Fosse qual fosse o princípio, terminava sempre na Rocha Conde de Óbidos e no encontro com a namorada, mulher, filhos, os pais, os amigos, a rua, o quiosque…

Guiné Portuguesa? Deixa-me rir! Nem penses, esta é uma guerra perdida! Não tenhas ilusões, amigo, isto não é nosso, nunca foi, o Didi ansioso por passar a ideia. Quando vires a tralha a cair-te em cima, nessa altura sim, vais começar a pensar no buraco em que te meteram. E toma nota, os gajos em Lisboa continuam na vida deles, a engordarem com este negócio, a mercadoria somos nós! Daqui a uns tempos falamos, quando estiveres mais habituado a estes calores…

O Coronel insistia em ordens de saída para o mato, patrulhamentos, emboscadas, vigilância das picadas, capinagem, o diabo a sete. Saíam, é certo, mas via-se-lhes na cara a má vontade, as pernas contrariadas, a arrastarem-se em coluna por um, muito chegados uns aos outros, como se assim ficassem mais protegidos. Os alferes e os furriéis já não tinham ânimo nem vontade para imporem as regras de segurança. Já tinham passado por muito. O Como, pá, o Como! Os dois feridos que tivemos mal desembarcámos! E aquela história, lembras-te Ribeiro, e mais um episódio a sair aos bochechos. Ao fim de uns dias, o Gil era um veterano de guerra, esteve no Como aqueles dias todos, os turras a chateá-lo a toda a hora.

Ao jantar, à luz do petromax (1), a presença do capitão Galo impunha um pouco de ordem nas conversas à mesa. Era o único ali que tinha acesso aos relatórios da situação militar em toda a província. Com um ar confidencial, punha-os vagamente em dia com o que se passava nos outros pontos da Guiné, Oio, Morés, Tite, Cantanhez, Buba, Guilege, Gadamael, Cacine, Cameconde…Ataques, minas, baixas.

Numa daquelas noites, ao levantarem-se da mesa, Gil viu o capitão fazer-lhe um sinal. Venha daí, vamos dar uma volta até ao posto de rádio. Uma noite linda, não? Um espanto, estas noites de África!

Porta fechada, viu o capitão estender um mapa junto à luz do petromax. As referências bem assinaladas com marcadores grossos a tinta vermelha. A fronteira, Cuntima aqui, Jumbembem, Farim a seguir, aqui em baixo, está a ver? Emboscada aqui, entre Faquina Fula e Faquina Mandinga, o dedo apontado para um ponto do mapa. Sim, sim, esta madrugada, neste trilho entre as 6 e as 6 e 30. Preste atenção, levante-a ao meio-dia, nem mais um minuto. Fale com o Furriel Poças, ele trata da logística. Boa noite.

A caminho do celeiro, Faquina Fula e Faquina Mandinga misturavam-se na cabeça com os restos da cerveja que bebera em Bissau. Pôs o Poças ao corrente da missão e pediu-lhe que fosse ele a comandar. Era a sua 1ª saída para o mato, até aí tinham sido só treinos em Santa Margarida e Mafra. Deixe estar, meu alferes, vai correr tudo bem, fique descansado.

Na cama, nada de leituras que a lanterna estava sem pilhas. Num rádio, muito baixo, Bécaud cantava Et maintenant, música árabe de outro, ressonava-se por ali fora. Faquina Fula, Faquina Mandinga, a cabeça sempre a rodar, até adormecer.

Quando se pôs a pé, a cabeça voltou a rodar, ao ritmo daqueles dias. Na rua, noite ainda escura, cheirava a café quente, tomava-se o pequeno-almoço, pão fresco com chouriço, marmelada.

Puseram-se a andar, ainda não eram cinco. Armas pousadas nos ombros, mãos a segurarem os canos, coronhas para trás, como quem leva um cajado. Parecia uma romaria a S. Bento da Porta Aberta, um restolho enorme, tanto barulho com os pés. Não se pode andar com menos barulho, Poças, o pessoal não pode fazer levantar os pés em vez de os arrastar? Os olhos pequeninos do furriel para ele, quê? Como? É, poder podem…

Tomava pela primeira vez contacto com a mata, as árvores, os ruídos, ansioso por dar atenção a tudo. Espevitou ainda mais com a floresta a acordar. São macacos-cães a ladrar, quando estivermos perto deles deixam de se ouvir. Falta pouco, é para aqueles lados, o caminho é depois daquela bolanha, ali em frente.

Aí para as 7, estavam deitados, G3 em posição, escondidos na mata, abrigados em arbustos dispersos pelo capim, à espera que os turras passassem.

Horas a passarem e turras nem vê-los, o silêncio cortado de vez em quando por um ou outro ronco de alguém a ressonar, o sol bem alto a queimar e moscas grandes, peludas, a pousarem neles, sem se ouvirem.

O Poças aproximou-se, apontou para o relógio, quase meio-dia. Podemos levantar a emboscada, já não aparecem, vamos? Curvado no trilho, percorreu-o com os olhos de uma ponta a outra. Viam-se sinais de sandálias de plástico e de rodas de bicicletas. Tinham passado aqui, não havia muito tempo, disse um milícia nativo.

Este é um caminho que utilizam para introduzirem armas, comida, sei lá que mais! Só que passam aqui a outras horas, claro. E se continuasse aqui até eles passarem? Agora não, que as ordens são outras.


2. PESSOAL AOS SEUS LUGARES


Dentro do celeiro, pelo meio dos beliches, orquestra a sono solto, madrugada ainda a meio. Portão semiaberto, o céu a brilhar de pontinhos. Noites como aqui, com tanta luz, parece dia! A casa do capitão Galo em frente, aí a uns 20 metros, os alfas rómios da casa do rádio a ouvirem-se, aroma a café a vir de lá. Uma novela no quarto de banho do capitão, Capricho ou parecida! Na volta, outra vez o céu, bocados de estrelas a caírem.

As matas em frente, escuras, misteriosas, quando se lembrarão eles de vir até cá? Se soubessem como era fácil, todos a dormir agora, nem precisavam de atacar de longe, bastava chegarem-se, sorrateiros, escondidos pelo matagal, espiar o movimento das sentinelas, evitar os petromaxes, colados ao chão, devagar a caminho do celeiro, a curta distância, 10 metros chegava. Dedos no gatilho, com vontade, entrar, uma chacina nos tugas (2). Se não tivessem medo também. Mas algum dia vão perdê-lo.

De novo na cama, a vontade de dormir a ir-se, as recordações a virem. O comboio da linha de Sintra, a chegada à Amadora nas horas de ponta, às centenas a saírem, todos com pressa, a desaparecerem nas ruas, depois nas casas, as luzes a acenderem-se, o vento a dar, as praias de Carcavelos, de Oeiras, a areia do Guincho pelo ar, por aí acima até ao Porto, à estação de S. Bento, o passeio das Cardosas, a Avenida dos Aliados, os Clérigos, o 6 (3) a subir para os Leões, o Hospital de S. António, a Aníbal Cunha, a Carvalhosa, o ardina a apregoar olhó Popular Diário, a subida da Oliveira Monteiro até ao Carvalhido, as ruas, os quiosques. A circunvalação, a via Norte, Mindelo, Modivas, sempre a subir até Vila do Conde, terra linda, a Póvoa do Varzim, os banhistas com os sacos ás costas, toalhas coloridas debaixo dos braços, a estrada para Viana, Aver-o-Mar, o cheiro da casa dos frangos, tão bons não havia, a Apúlia por fim. O sossego dos fins das tardes dos Setembros da praia dos sargaceiros, as marés-cheias por volta das 7, ondas enormes, certinhas como um compasso, os mergulhos com o André, o Eurico, o Beleza. O regresso a casa, bicicleta nos caminhos pelo meio das latadas das uvas americanas, a secar ao vento, a chegada a casa, o Sol a pôr-se, a mãe à espera, a estas horas só, o irmão pequeno em férias, a cozinha com os fumos da sopa.

Nem o mar se vê daqui, os jornais da metrópole, de há duas semanas, a rodarem entre todos, a Bola, o Eusébio, o Coluna, o José Augusto, o Pedroto, o Vicente, irmão do Matateu… O Costa Pereira a defender fora da área de cabeça, em mergulho, no estádio do Braga, nunca vira uma defesa daquelas! Os títulos a vermelho do Jornal de Notícias, o Comércio do Porto com o título a gótico.

Como é que ela vai reagir à minha carta? Que ideia a dele, pedir-lhe que o considerasse agora mais que um amigo, estivera com ela mais de duas horas da última vez, não lhe dissera nada, nem um sinal lhe dera! Tão longe, tanto tempo à frente, tão nova ainda, tanta vontade de ir aos bailaricos das festas da queima, em casa das amigas, nas festas familiares. Que absurdo! Que ousadia também! O amor a dar-lhe tão súbito, tão fulminante, talvez por estar longe, ou quem sabe, só uma correspondência que sempre lhe daria jeito, uma madrinha de guerra talvez, com notícias diferentes da metrópole.

Uma rajada comprida vinda de muito longe entrou-lhe pelos ouvidos dentro. Olhos mais que arregalados, o salto de gato da cama. Queria gritar outra coisa, saiu-lhe pessoal aos seus lugares, lembrou-se logo do cobrador das camionetas do Marinho (4) em Braga, nada que se parecesse com um grito de guerra. Se calhar, por isso ninguém saiu, só ele. Em voo pelo buraco aberto na parede das traseiras, a pancada na cabeça, um estrondo enorme, estrelas a brilhar mais que as do céu. Finalmente cá fora, a mão na cabeça, o sangue a escorrer, pronto, fui atingido, logo à primeira!

Um silêncio, ninguém cá fora para o socorrer, só a sentinela a chegar-se. Pareceu-me ver umas luzes suspeitas ali da mata, mandei para lá uma rajada! Alarme falso, afinal deviam ser pirilampos! Tem sangue na cabeça, deixe ver, o meu alferes deve ter batido com a cabeça na parede, ainda não está calhado com o buraco, é o que é.

Manhã cedo, nativos da zona e outros vindos do Senegal em bicha para a consulta, o médico, açoriano da Terceira, a atendê-los, cheio de paciência para um, ora abre a boca, diz aaah, outra vez, aaah, o enfermeiro mão no frasco enorme, comprimidos, drageias, cápsulas, todas as cores da paleta, dá-lhe duas dessas, outra dessa cor, amanhã se não estiveres melhor vai ao feiticeiro. O que foi isso na testa, Gil?


3. A ESTRADA PARA FARIM


Viaturas prontas, sacos de areia nos lugares da frente para o condutor e acompanhante se houvesse voluntário. Os militares, oito a dez, mais os nativos com paus, sacos aos ombros, galinhas, porcos, bidões vazios, tudo a monte nas caixas das Mercedes e GMC (4). A coluna tinha-se posto em marcha de Cuntima para Farim, com uma paragem em Jumbembem para cumprimentos e uma cerveja fresca. Cerca de 30 e tal quilómetros em pouco mais de 3 horas, com impedimentos menores.

À entrada de Farim, o furriel Poças descrevera os procedimentos habituais. Largar o pessoal nativo logo à entrada, arrancar para o centro da povoação, toda ela um grande quartel, casas civis rodeadas de instalações militares com arame farpado à volta, e depois como manda a cavalaria, dispor as viaturas em linha, militares dentro delas em sentido, bolsos apertados, apear-se, dirigir-se para o posto de comando, peito para fora, barriga para dentro.

Dá licença, meu Coronel, apresenta-se o alferes Gil Duarte com a coluna de reabastecimentos para Cuntima. Mande seguir aos seus destinos, encarregue o sargento mais antigo, o nosso alferes fica aqui, vai almoçar connosco. E como vão as coisas por Cuntima? Quando foi a última vez que saíram para o mato? Para onde? O que aconteceu? A que horas? Quanto tempo lá estiveram? Quando foi a última vez que o capitão saiu com vocês? Quando? Com quem? Nem dava tempo a engolir!

Apresentou-se aos alferes, capitães e majores, todos com cara de pouco amigos, 17 ou 18 meses de comissão nas trombas, deu as voltas todas, durante a tarde inteirou-se dos carregamentos, teria que ficar a noite, os combustíveis vindos de Bissau estavam ainda a ser descarregados e conferidos. Uma volta pela povoação, pouca coisa para ver, uma lata de anchovas e uma cerveja numa esplanada.

Fica no quarto do Ramiro Medalha, lá tem sempre vaga, dissera-lhe o capitão Risco. No meio do silêncio que já se sentia àquela hora, um chinfrim enorme, do quarto que lhe indicara o capitão. Dormir lá?

O Ramiro? Excesso, em tudo! Intelecto vigoroso, ironia cortante, discurso como um autoclismo, muita cerveja, todas as noites até cair para o lado, ele e quem tivesse o azar ou a sorte de estar nas proximidades. E suor, como se acabasse de sair do chuveiro. Tudo nota vinte, uma força da natureza, exclamavam os que com ele privavam.

Nascera com sorte, de boas famílias como então se dizia, latifúndio registado nos Alentejos, espigara rodeado de mimos, criadas para todas as dependências da casa e descontado o exagero, para muitos serviços também, excepto a Anica que o vira nascer e lhe dera a mama. Mal dera pela passagem pelo liceu, anos e cadeiras a jacto. Registada na caderneta escolar ficou a suspensão decretada pelo reitor, apesar do respeito reverencial pela família, sanção imposta pelo pai que, nessas coisas primava pelo exemplo. No decorrer de um campeonato que metia fita métrica, a jovem professora de inglês apanhou-o a medir o instrumento, numa cadeira lá para trás de uma turma com 31 rapazes. Corada até nos cabelos loiros, o Russo a contar, não sabia bem o que era aquilo que estava em cima da fita. Decidira suspender a aula e chamar o reitor, uma medida demasiado drástica no entender de muitos alunos e de alguns professores. E a aula de inglês daquele dia acabou mesmo ali. Parece ter sido este o facto mais marcante da passagem, aliás brilhante em termos de aproveitamento escolar, do Ramiro pelo liceu. O pai, advogado, da situação ainda a somar, despachou-o com uma criada, para uma casa que tinham em Lisboa, ali para os lados do Príncipe Real, naqueles anos ainda um sítio muito calmo. Nas recomendações iniciais que o pai lhe fizera, a importância em assistir às aulas dos profs dos direitos todos, sem esquecer claro, a brilhante cabeça do Professor M. Catano, uma inteligência de agora e do futuro, que ele, Ramiro, deveria ter em conta se quisesse encarreirar.

As aulas, como era de prever, passaram depressa, mal deu por elas, as necessárias para medir o pulso dos profs, pedidos de esclarecimento contínuos, tudo entendido até à próxima aula, daí a uns meses. Em cinco anos a licenciatura na mão que era o que o pai queria. A tropa, à espreita, mal acabou o curso, vestiu-lhe um fato zuarte (6), que ele, como outros, nunca vira nem em sonhos e despachou-o para a escola mais perto de casa, no caso a Escola Prática de Cavalaria em Santarém, onde o Ramiro deu abundantes provas de como montar a sério.

No cais da Rocha Conde de Óbidos estavam todos, a mãe, as avós de preto, as criadas que couberam nos dois carros, todas com lenços nas mãos, as lágrimas a escorrerem, e o pai claro, comovido, uma oportunidade única na tua vida, a defesa da Pátria, os valores da civilização, disseram os que assistiram.

Acordou na Guiné sem se lembrar bem de todos os episódios da viagem, salvo uma conversa que fora obrigado a ter no barco, com o Coronel, conversa que não lhe correra lá muito bem. O Coronel, militar encarniçado, homem direito e competente, discursara-lhe na cara os valores da Pátria, do Exército, da Cavalaria, até a família nomeara!

Há três dias em Bissau, novo episódio, desta vez com a participação da Polícia Militar. O Coronel declarou-se incompetente para aquele caso particular, desistiu. Delegou na figura do major Amor, um major pequenino, magrinho, bigode fino, exemplar na bota alta, com falta de peso para todo o serviço militar quanto mais para meter nos eixos o alferes Ramiro! Que estivesse descansado o Coronel, o assunto ficaria bem entregue…

O Ramiro continuou o seu percurso, sempre ao lado do batalhão, cervejas até cair para o lado, ele e os compinchas, às vezes com as cadeiras, as mesas, as garrafas vazias, empregados, patrões, polícia militar, o que estivesse na frente. Assim, um oportunista daqueles que aparecem sempre nomeou-o Ramiro das medalhas, outro mais abrangente, Medalha com letra grande para abarcar todas. Dali em diante passou a apresentar-se Ramiro Medalha.

Os quatro alferes que partilhavam o enorme salão que lhes servia de quarto estavam a começar mais uma noitada, eram para aí 9 da noite, os dois frigoríficos a abarrotarem de líquidos, garrafas já vazias pelo chão, lençóis desalinhados, sumaúma a cair de pára-quedas, camisas desabotoadas até baixo, o Medalha só com umas cuecas, mas até ao joelho.

Sou o Gil de Cuntima, posso?

Mal tinha acabado de adormecer, acordou, a cama molhada, bêbado de cheiro a cerveja, o Medalha com sabão na cara, ó maçarico dum raio, a coluna está lá fora à tua espera! A coluna estava diferente, as viaturas atestadas de farinha, vinho do Cartaxo em garrafões, leite condensado e outros líquidos, cunhetes com munições, marmelada em caixotes, latões com chouriço e outros enchidos, novos pretos com outros sacos, outras galinhas, porcos diferentes, uma ninhada acabada de ser parida. Ainda não tinha percebido bem este movimento dos nativos, vêm uns para cá, vão outros para lá, mas adiante para o posto de comando, outra vez viaturas em linha, procedimentos idênticos aos da chegada.

Iam a andar bem, mais devagar, claro, até que atingiram a curva da morte, uma história que se contava em todos os lados ter-se-ia passado ali. De um momento para o outro sentiu-se empurrado para a berma da picada, uma fuzilaria tão grande que nem nos exercícios de tiro da Carregueira. Deu por ele deitado, a G3 em posição, com o dedo no gatilho. Olhou em frente, a bolanha (7) a perder de vista, saltou para o lado errado! Deixa lá ver, deve ser do outro lado, a fuzilaria em bom ritmo, pensou duas vezes, mais uma, aí foi, agachado, quase colado ao chão como lhe ensinaram nas matas de Mafra, um ziguezague até à outra margem da estrada, outra vez a G3 em posição, olhou em frente, tudo capinado, um tronco aqui, outro além, montículos de baga-baga (8) a nascer. Então, onde estão os turras?

Alguns soldados de pé, gargalhadas nervosas, o Furriel Poças, não é nada, alto ao fogo, não é nada, parem essa merda, porra!

O Quadradão na caixa da viatura da frente, atento a todos os movimentos, terá visto uma vara de javalis a atravessar a picada. Mas que grande reabastecimento, deve ter pensado, o dedo fácil no gatilho, as balas a bater nas rodas das viaturas lá de trás e a resposta concludente, como ainda se ouvia.

Quase tudo normalizado, rodas para substituir e o soldado Canário não ouvia nem via nada, nem queria, só a G3, as mãos no carregador encravado, a aflição na cara, não sai, encravou-se!

© Virgínio Briote (2005)
________

(1) Candeeiro a petróleo
(2) Designação pejorativa das NT
(3) Eléctrico
(4) Empresa de Viação Auto-Motora
(5) Camiões militares da General Motors, da 2ª Guerra Guerra
(6) Fato-macaco, grosso, esverdeado, que era distribuído aos cadetes
(7) Ou bolenha: extensões de água, aproveitadas para cultivo de arroz
(8) Formigueiros erguidos em altura (da formiga Baga-Baga)

Guiné 63/74 - CCCXVII: Guidage, a CCAÇ 4150 e a CAV 3420 (Salgueiro Maia)

O Albano e restantes camaradas com antigos comandantes e guerrilheiros do PAIG em Quebo (Aldeia Formosa), em Novembro de 2000.

© Albano Costa (2005):


Texto do Albano Costa:

Amigo Luís Graça

Nem sempre pode ser como nós desejamos, mas eu estou sempre informado, quero agradecer a minha entrada neste magnífico blogue, e vou tentar divulgá-lo o mais possível pelos colegas.

Mas há uma pequena correcção a fazer, a minha companhia [CCAÇ 4150] não se chegou a encontrar com a CCAV 3420, do Salgueiro Maia, foi pedido à CCAV 3420 para ir a Guidage (já no fim da comissão - eu julgo que não ficou registado nos anais militares esta passagem da CCAV 3420, e já agora se alguém souber que me informe), para reforçar as tropas lá existentes que se encontravam bastante cansadas, e depois é que foi para lá a nossa CCAÇ 4150. Estivemos lá até ao fim, mas eu vou enviar um artigo publicado no Público Magazine, de 5d e Novembro de 1955, que acho interessante, muita gente desconhece, e é bom lembrar.

Também quero informar que foi um prazer ter estado com o A. Marques Lopes. Tivemos uma amena conversa mais um colega que quero trazer para a tertúlia que se chama Allen. Iremos encontrar-nos mais vezes e quem sabe trazer mais colegas, também eles apaixonados pela Guiné.

Quanto ao trazer para a tertúlia elementos do PAIGC, isso era muito bom. Eu quando estive na Guiné há cinco anos - tenho registo do CD que emprestei ao A. Marques Lopes e muitos de vocês já o viram, para ele se deliciar a ver aquelas belas imagens -, tivemos lá contactos com elementos do PAIGC, mas confesso que na altura só queria era ver a Guiné.

Mesmo assim, deu para sentir que eles gostavam muito de trocar opiniões connosco. Lembro-me de um elemento que na altura da guerra era da zona sul e que disse que era o responsável do PAIGC, e um colega nossa logo diz «este era quem nos mandava atacar quando estavamos no Xime». Eu lembro-me foi um momento bonito, e depois também me lembro do discurso de um comandante de Buba (ao que sei, infelizmente já falecido), ainda novo, e dizia: "povo português, povo guineense, somos irmãos, mesmo sangue, diferentes só na cor, voltem sempre que serão bem recebidos"... Por isso o que é preciso encontrarmo-nos uns aos outros, que logo mais vêm outros a seguir. Tenho a certeza que vai ser muito enrequecedor para todos. Vamos a isso, e vou tentar contactar alguém que possa informar sobre elementos do PAIGC na Guiné.

Um Abraço

Albano Costa

Guiné 63/74 - CCCXVII: Guidage, a CCAÇ 4150 e a CAV 3420 (Salgueiro Maia)

O Albano e restantes camaradas com antigos comandantes e guerrilheiros do PAIG em Quebo (Aldeia Formosa), em Novembro de 2000.

© Albano Costa (2005):


Texto do Albano Costa:

Amigo Luís Graça

Nem sempre pode ser como nós desejamos, mas eu estou sempre informado, quero agradecer a minha entrada neste magnífico blogue, e vou tentar divulgá-lo o mais possível pelos colegas.

Mas há uma pequena correcção a fazer, a minha companhia [CCAÇ 4150] não se chegou a encontrar com a CCAV 3420, do Salgueiro Maia, foi pedido à CCAV 3420 para ir a Guidage (já no fim da comissão - eu julgo que não ficou registado nos anais militares esta passagem da CCAV 3420, e já agora se alguém souber que me informe), para reforçar as tropas lá existentes que se encontravam bastante cansadas, e depois é que foi para lá a nossa CCAÇ 4150. Estivemos lá até ao fim, mas eu vou enviar um artigo publicado no Público Magazine, de 5d e Novembro de 1955, que acho interessante, muita gente desconhece, e é bom lembrar.

Também quero informar que foi um prazer ter estado com o A. Marques Lopes. Tivemos uma amena conversa mais um colega que quero trazer para a tertúlia que se chama Allen. Iremos encontrar-nos mais vezes e quem sabe trazer mais colegas, também eles apaixonados pela Guiné.

Quanto ao trazer para a tertúlia elementos do PAIGC, isso era muito bom. Eu quando estive na Guiné há cinco anos - tenho registo do CD que emprestei ao A. Marques Lopes e muitos de vocês já o viram, para ele se deliciar a ver aquelas belas imagens -, tivemos lá contactos com elementos do PAIGC, mas confesso que na altura só queria era ver a Guiné.

Mesmo assim, deu para sentir que eles gostavam muito de trocar opiniões connosco. Lembro-me de um elemento que na altura da guerra era da zona sul e que disse que era o responsável do PAIGC, e um colega nossa logo diz «este era quem nos mandava atacar quando estavamos no Xime». Eu lembro-me foi um momento bonito, e depois também me lembro do discurso de um comandante de Buba (ao que sei, infelizmente já falecido), ainda novo, e dizia: "povo português, povo guineense, somos irmãos, mesmo sangue, diferentes só na cor, voltem sempre que serão bem recebidos"... Por isso o que é preciso encontrarmo-nos uns aos outros, que logo mais vêm outros a seguir. Tenho a certeza que vai ser muito enrequecedor para todos. Vamos a isso, e vou tentar contactar alguém que possa informar sobre elementos do PAIGC na Guiné.

Um Abraço

Albano Costa

27 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXVI: BCAÇ 2884 (Pelundo, 1969/71), o primeiro batalhão do João Tunes

Alferes milicianos da CCS do BCAÇ 2884, com sede no Pelundo, em alegre e descontraído convívio, no dia 1 de Janeiro de 1970.

João Tunes, ex-alferes de transmissões, é o segundo da esquerda, de costas e de quico na cabeça, abraçando um camarada (talvez o médico ou o capelão) ...

A camaradagem e a cumplicidade entre milicianos foram fundamentais para a sua sobrevivência (física e mental) no teatro de operações da Guiné. Davam-lhes força para enfrentar oficiais fascistas e incompetentes como aquele que puniu o nosso camarada e amigo com um dia de prisão, agravada para três, por ordem do Com-Chefe.

© João Tunes (2005):



Texto do João Tunes:

Camarada João Varanda,

Parabéns pelo excelente texto sobre os "quatro oficiais" assassinados no Pelundo (1). Julgo até que adianta bastante nos dados históricos sobre a guerra na Guiné. Embora não concorde integralmente com o modo decisivo como dás como adquirido que, com o eventual sucesso no chão manjaco, a guerra podia estar ganha. Julgo que a norte, poderia haver uma mudança importante na correlação de forças, mas parece-me voluntarista demais dizer-se que o PAIGC, com a entrega de um bigrupo, ia cair como um baralho de cartas. E no sul e leste? Sobretudo no "reino do Nino" como se ia dar a volta? Evidentemente que a zona de penetração a partir do Senegal era a mais fácil de conter, pois Sengor sempre jogou com um pau de dois bicos. Mas por onde o PAIGC penetrava a partir da Guiné-Conacry, a música era e seria sempre bem diferente. Enfim, nestas coisas, impossível é haver unanimidade. Mas, repito, o teu texto é um documento valiosíssimo. Parabéns.

Obrigado por finalmente teres avivado a minha memória, lembrando-me o número do meu Batalhão do Pelundo. É isso, BCAÇ 2884, sob comando desse Tenente-Coronel de pacotilha Romão Loureiro (antes da Guiné, o tipo havia feito a maior parte da sua carreira "militar" na União Nacional, tendo chegado a Presidente da Câmara de Viseu... e foi fazer aquela comissão para poder ascender a Coronel, mas [...] sabia tanto de guerra como eu sei da cultura de alcagoitas)(2).

Abraços.

João Tunes

______


Notas de L.G.

(1) Vd. post de João Varanda, de 26 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXIII: A morte de três majores e de um alferes no chão manjaco


(2) Sobre este militar de opereta, vd. o retrato (de antologia!) que lhe faz o João Tunes no seu blogue Bota Acima > Abril 7, 2004 > Jogo de Cartas. É uma peça (fundamental) para se compreender a prepotência, a incompetência e a arrogância de alguns (não sei se muitos) oficiais superiores que conhecemos no teatro de operações da Guiné (eu conheci!) e que muito terão contribuído para precipitar o fim da guerra... De facto, o mérito não foi só do PAIGC!

Guiné 63/74 - CCCXVI: BCAÇ 2884 (Pelundo, 1969/71), o primeiro batalhão do João Tunes

Alferes milicianos da CCS do BCAÇ 2884, com sede no Pelundo, em alegre e descontraído convívio, no dia 1 de Janeiro de 1970.

João Tunes, ex-alferes de transmissões, é o segundo da esquerda, de costas e de quico na cabeça, abraçando um camarada (talvez o médico ou o capelão) ...

A camaradagem e a cumplicidade entre milicianos foram fundamentais para a sua sobrevivência (física e mental) no teatro de operações da Guiné. Davam-lhes força para enfrentar oficiais fascistas e incompetentes como aquele que puniu o nosso camarada e amigo com um dia de prisão, agravada para três, por ordem do Com-Chefe.

© João Tunes (2005):



Texto do João Tunes:

Camarada João Varanda,

Parabéns pelo excelente texto sobre os "quatro oficiais" assassinados no Pelundo (1). Julgo até que adianta bastante nos dados históricos sobre a guerra na Guiné. Embora não concorde integralmente com o modo decisivo como dás como adquirido que, com o eventual sucesso no chão manjaco, a guerra podia estar ganha. Julgo que a norte, poderia haver uma mudança importante na correlação de forças, mas parece-me voluntarista demais dizer-se que o PAIGC, com a entrega de um bigrupo, ia cair como um baralho de cartas. E no sul e leste? Sobretudo no "reino do Nino" como se ia dar a volta? Evidentemente que a zona de penetração a partir do Senegal era a mais fácil de conter, pois Sengor sempre jogou com um pau de dois bicos. Mas por onde o PAIGC penetrava a partir da Guiné-Conacry, a música era e seria sempre bem diferente. Enfim, nestas coisas, impossível é haver unanimidade. Mas, repito, o teu texto é um documento valiosíssimo. Parabéns.

Obrigado por finalmente teres avivado a minha memória, lembrando-me o número do meu Batalhão do Pelundo. É isso, BCAÇ 2884, sob comando desse Tenente-Coronel de pacotilha Romão Loureiro (antes da Guiné, o tipo havia feito a maior parte da sua carreira "militar" na União Nacional, tendo chegado a Presidente da Câmara de Viseu... e foi fazer aquela comissão para poder ascender a Coronel, mas [...] sabia tanto de guerra como eu sei da cultura de alcagoitas)(2).

Abraços.

João Tunes

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Notas de L.G.

(1) Vd. post de João Varanda, de 26 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXIII: A morte de três majores e de um alferes no chão manjaco


(2) Sobre este militar de opereta, vd. o retrato (de antologia!) que lhe faz o João Tunes no seu blogue Bota Acima > Abril 7, 2004 > Jogo de Cartas. É uma peça (fundamental) para se compreender a prepotência, a incompetência e a arrogância de alguns (não sei se muitos) oficiais superiores que conhecemos no teatro de operações da Guiné (eu conheci!) e que muito terão contribuído para precipitar o fim da guerra... De facto, o mérito não foi só do PAIGC!

26 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXV: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (4): A acção psicossocial


Texto do João Varanda (ex-furriel miliciano da CCAÇ 2636, Có 1969/71).


© João Varanda (2005)



A CCAÇ 2636 vivia Có nas suas 24 horas (1). A moral da companhia era sempre muito elevada, os sucessos já tinham surgido de forma muito significativa, a autoconfiança era enorme e tudo apontava para a continuação da boa estrela que nos estava a acompanhar. A nossa entrega era total, assim fomos compreendendo que muito havia a fazer encaixando-nos no sistema para que tudo se tornasse mais fácil. Para a Companhia era certo que em tempo de guerra teríamos de ser pau para toda a obra, tínhamos muito trabalho pela frente, por isso era extremamente necessário pôr mãos a toda aquela obra.

Colocada a tropa no terreno, as nossas acções na área foram sempre muito objectivas. O inimigo não se furtava a um contacto decisivo, naquele sector eram as nossas forças que comandavam e, como o inimigo não se colocava a descoberto, era por isso importante trabalhar na vertente social da campanha.

Vou respigar de memória alguns episódios para enaltecer o valor da campanha de apoio social, moral e médico que demos, à margem dos combates, às populações e aos nossos próprios homens.

Como Có era uma pequena e exígua tabanca, a dureza do conflito sobrepunha-se à sua riqueza e importância territorial, sustentando-se mesmo assim uma economia de mercado que permitia, sem dificuldade, assegurar a sobrevivência de uma população de poucas exigências. Seguindo a orientação de Spínola, conseguimos construir uma pequena urbe, abrindo caminhos, desenvolvendo a economia, melhorando o nível de vida das gentes locais.

Sobre a vertente social da campanha deixamos umas breves notas do conjunto de actividades encetadas a vários níveis de actuação:

1 – A tenda de campanha a CCAÇ 2636 possuía posto de socorros permanente para efeitos operacionais, constituindo uma mais valia não só para as tropas que ali viviam em ambiente de combate intenso, como também para as populações africanas, que usufruíam dos seus serviços assistenciais.

A equipa, tulelada pelo Furriel Miliciano do Serviço de Saúde António Silva Pratas e três Cabos enfermeiros, compenetrados da sua missão e sempre animados do melhor espírito de colaboração, desempenharam sempre tais funções com muito mérito e dedicação.

Era gratificante presenciar esse quadro diário. Muito cedo pela manhã, a população acampava junto ao Posto de Socorros em filas permanentes de mulheres, homens e crianças com a orientação do chefe de tabanca ou a um seu delegado que, por vezes, servia ao mesmo tempo de intérprete quando tal se justificasse. A maioria da população necessitava de acompanhamento clínico, devido a doenças endógenas de foro tropical, com base no paludismo. A prescrição era na maior parte das vezes com base em comprimidos ou injecção, para os africanos a aceitação da injecção era melhor, sem pruridos de qualquer natureza, coxas e rabos eram mostrados à espera de penetração da agulha. Toda a medicação era fornecida gratuitamente pelas Forças Armadas.

Ainda na vertente da saúde, diariamente se visitavam várias tabancas em busca de casos e de situações mais complexas ou mais raras que necessitavam de observação, diagnóstico ou tratamento. Casos que existiam, esconsos, envergonhados, escondidos na sombra de alguma miséria profunda. Nestes e em todos os outros que se impusesse, era providenciada imediata evacuação para Bissau, por via terreste, com escolta, ou por via aérea, conforme a urgência e a gravidade da situação encontrada.

Sobre os cuidados de saúde ministrados às populações, algumas outras reflexões compete aqui traçar. A primeira, para revelar a grande competência e, fundamentalmente, a extrema dedicação de todos os que connosco trabalharam, com parcos meios à sua disposição, com pessoal desprovido de formação, com largas de dezenas de consultas e tratamentos diários, com situações clínicas invulgares em muitos casos para abordarem. Eles foram, no seu ofício, heróis assumidos desta guerra particular.

A segunda nota é para descrever, em poucas palavras, situações vividas no terreno para provar a nossa ligação sentimental e efectiva aquela gente, tão profunda que nunca poderíamos regatear qualquer tipo de colaboração, partindo quase sempre essa iniciativa da nossa parte. Mais do que o imperativo da missão, era a solidariedade verdadeira que nos movia. Dos muitos exemplos, escolho o daquela bajuda que iria ser mãe pela primeira vez.

Cerca das 3 horas da manhã, o chefe da tabanca contacta com o quartel transmitindo a necessidade de apoio médico à dita bajuda que, com o passar das horas, não dava sossego nem tranquilidade na tabanca. De imediato um camarada de serviço de segurança ao quartel foi ao abrigo subterrâneo à procura do primeiro que estivesse à mão para dar apoio e resolver a situação. Escusado será dizer a azáfama do pessoal dos serviços de saúde perante aquele caso que nunca se nos tinha deparado.

Após uma mini-reunião prestou-se-lhe os primeiros socorros e tomou-se a medida adequada, que era evacuação para Bissau para o Hospital Civil. Assim, e de imediato, a bajuda foi colocada no primeiro veículo à mão (por acaso o jipe cedido pelo Capitão Medina e Matos) e lá foi na companhia de um enfermeiro, um homem de transmissões e um atirador de metralhadora.

Estrada fora, lá foram os nossos camaradas, com as luzes do veículo nos máximos, num acto de desprezo pelo adversário, a todo o gás, direitos a João Landim, com o homem das transmissões a contactar com os fuzas para nos proporcionarem àquela hora a disponibilidade da jangada para fazermos a travessia rumo a Bissau. Cerca das 5 horas da manhã, esta malta dava entrada com a bajuda no hospital e, enquanto no guichet de atendimento entregávamos a papelada para tratamento de dados, ela seria mãe de um rapagão a quem foi dado o nome Mamadú Baldé.

2 – As gentes africanas de Có e subúrbios eram inconfundíveis: de grande estatura e carisma, eram irmãos de sangue e de luta pela mesma causa. Enaltecer os seus predicados seria esgotar toda uma panóplia de adjectivos. Por muito que o tentasse nesta singela crónica, não teria palavras para o fazer.

Naturalmente simpáticos, empenhados, compreensivos e sensíveis a todos os nossos argumentos, entre eles e nós havia uma empatia total, uma identificação absoluta em torno de todo o tipo de problemas desde os operacionais até aos da vivência da tabanca. Tudo se processava entre nós num perfeito sincronismo e entendimento, franco, despido de preconceitos.
Era muito fácil conviver com esta gente. Isto para dizer que, após todas as prestações de consultas de primeiros socorros, a tenda da enfermaria mais parecia um aviário de frangos e galinhas ofertados pelos pacientes, permitindo-nos depois fazer fabulosos pitéus nos momentos mais condicionados pela fome e pelo cansaço. Recusar a oferta de galinha ao africano era ofensa impensável.

3 – No percurso operacional tivemos um comportamento modelar, na área do bem-estar e do apoio social tudo também fizemos para colmatar muitos problemas locais, quer das NT, quer da população em geral. Para o bem-estar do pessoal, ao fim de pouco tempo, construímos um novo conjunto de cozinha, refeitório e cantina/bar para as praças.

Construímos ainda um espaçoso e seguro paiol subterrâneo para as centenas de granadas que jaziam praticamente a céu aberto, um sistema de filtragem de águas para beber e para banhos, uma oficina auto com fossa para lavagem e lubrificação de viaturas, com água corrente, para os nossos Unimog - para os grandes Furriel Marques e Teodoro Simões ( Nanza) nos proporcionarem transporte seguro -, um heliporto para evacuação de feridos e doentes para a capital Bissau, um sugestivo e elegante monumento alusivo à nossa passagem pela aquela terra, evocando os nossos mortos brancos e africanos. O qual, mais de trinta anos depois, ainda se mantém incólume e erecto conforme me relatou o Capitão do PAIGC Eduardo Sanhá que veio, após o final de guerra colonial, cursar Direito na Universidade de Coimbra.

Capinámos os principais troços das estradas envolventes ao destacamento de Có, reparámos aquelas mais necessitadas, construímos ou melhorámos pontes e pontões. Em relação à população africana, dadas as condicionantes da guerra envolvente que limitavam, por razões de segurança, as áreas agrícolas aproveitáveis, disponibilizávamos meios pessoais e viaturas para os enquadrar nas suas safras diárias, permitindo assim uma actividade agrícola e pecuária razoavelmente normal e produtiva.

Para salvaguarda do bem-estar e equilíbrio emocional do pessoal, junto ao improvisado estaleiro de apoio da brigada de engenharia, para a feitura da estrada Có – Pelundo construímos um campo para a prática do futebol, fenómeno universal e abrangente, que servia às mil maravilhas para descomprimir, sendo a sua utilização diária. Largas e longas tardes dedicámos ao jogo da bola.

Ampliamos a tabanca de Có com habitações construídas com uma espécie de argamassa feita de barro e capim seco com cobertura a colmo de palmeira ou chapa de zinco, made in U.S.A., à porta das quais se plantaram duas bananeiras, sinal vivo de África.

Todos estes tipos de apoio às populações autóctones - que em guerra clássica de guerrilha como era aquela é absolutamente fundamental e constante em todos os manuais que tratam o assunto -, eram feitos por nós não só com esse intuito. A nossa ligação sentimental a essa gente era tão profunda, que nunca poderíamos regatear qualquer tipo de colaboração, partindo quase sempre essa iniciativa da nossa parte. Mais do que os imperativos da missão, era a solidariedade que nos movia.

(Continua)

____

(1) vd posts anteriores do João Varanda:

15 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXCI: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (1): De Santa Margarida ao Cupilom...


16 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXCIII: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (2): "Periquito vai no mato, que a velhice vai p'ra Bissau"...

Guiné 63/74 - CCCXV: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (4): A acção psicossocial


Texto do João Varanda (ex-furriel miliciano da CCAÇ 2636, Có 1969/71).


© João Varanda (2005)



A CCAÇ 2636 vivia Có nas suas 24 horas (1). A moral da companhia era sempre muito elevada, os sucessos já tinham surgido de forma muito significativa, a autoconfiança era enorme e tudo apontava para a continuação da boa estrela que nos estava a acompanhar. A nossa entrega era total, assim fomos compreendendo que muito havia a fazer encaixando-nos no sistema para que tudo se tornasse mais fácil. Para a Companhia era certo que em tempo de guerra teríamos de ser pau para toda a obra, tínhamos muito trabalho pela frente, por isso era extremamente necessário pôr mãos a toda aquela obra.

Colocada a tropa no terreno, as nossas acções na área foram sempre muito objectivas. O inimigo não se furtava a um contacto decisivo, naquele sector eram as nossas forças que comandavam e, como o inimigo não se colocava a descoberto, era por isso importante trabalhar na vertente social da campanha.

Vou respigar de memória alguns episódios para enaltecer o valor da campanha de apoio social, moral e médico que demos, à margem dos combates, às populações e aos nossos próprios homens.

Como Có era uma pequena e exígua tabanca, a dureza do conflito sobrepunha-se à sua riqueza e importância territorial, sustentando-se mesmo assim uma economia de mercado que permitia, sem dificuldade, assegurar a sobrevivência de uma população de poucas exigências. Seguindo a orientação de Spínola, conseguimos construir uma pequena urbe, abrindo caminhos, desenvolvendo a economia, melhorando o nível de vida das gentes locais.

Sobre a vertente social da campanha deixamos umas breves notas do conjunto de actividades encetadas a vários níveis de actuação:

1 – A tenda de campanha a CCAÇ 2636 possuía posto de socorros permanente para efeitos operacionais, constituindo uma mais valia não só para as tropas que ali viviam em ambiente de combate intenso, como também para as populações africanas, que usufruíam dos seus serviços assistenciais.

A equipa, tulelada pelo Furriel Miliciano do Serviço de Saúde António Silva Pratas e três Cabos enfermeiros, compenetrados da sua missão e sempre animados do melhor espírito de colaboração, desempenharam sempre tais funções com muito mérito e dedicação.

Era gratificante presenciar esse quadro diário. Muito cedo pela manhã, a população acampava junto ao Posto de Socorros em filas permanentes de mulheres, homens e crianças com a orientação do chefe de tabanca ou a um seu delegado que, por vezes, servia ao mesmo tempo de intérprete quando tal se justificasse. A maioria da população necessitava de acompanhamento clínico, devido a doenças endógenas de foro tropical, com base no paludismo. A prescrição era na maior parte das vezes com base em comprimidos ou injecção, para os africanos a aceitação da injecção era melhor, sem pruridos de qualquer natureza, coxas e rabos eram mostrados à espera de penetração da agulha. Toda a medicação era fornecida gratuitamente pelas Forças Armadas.

Ainda na vertente da saúde, diariamente se visitavam várias tabancas em busca de casos e de situações mais complexas ou mais raras que necessitavam de observação, diagnóstico ou tratamento. Casos que existiam, esconsos, envergonhados, escondidos na sombra de alguma miséria profunda. Nestes e em todos os outros que se impusesse, era providenciada imediata evacuação para Bissau, por via terreste, com escolta, ou por via aérea, conforme a urgência e a gravidade da situação encontrada.

Sobre os cuidados de saúde ministrados às populações, algumas outras reflexões compete aqui traçar. A primeira, para revelar a grande competência e, fundamentalmente, a extrema dedicação de todos os que connosco trabalharam, com parcos meios à sua disposição, com pessoal desprovido de formação, com largas de dezenas de consultas e tratamentos diários, com situações clínicas invulgares em muitos casos para abordarem. Eles foram, no seu ofício, heróis assumidos desta guerra particular.

A segunda nota é para descrever, em poucas palavras, situações vividas no terreno para provar a nossa ligação sentimental e efectiva aquela gente, tão profunda que nunca poderíamos regatear qualquer tipo de colaboração, partindo quase sempre essa iniciativa da nossa parte. Mais do que o imperativo da missão, era a solidariedade verdadeira que nos movia. Dos muitos exemplos, escolho o daquela bajuda que iria ser mãe pela primeira vez.

Cerca das 3 horas da manhã, o chefe da tabanca contacta com o quartel transmitindo a necessidade de apoio médico à dita bajuda que, com o passar das horas, não dava sossego nem tranquilidade na tabanca. De imediato um camarada de serviço de segurança ao quartel foi ao abrigo subterrâneo à procura do primeiro que estivesse à mão para dar apoio e resolver a situação. Escusado será dizer a azáfama do pessoal dos serviços de saúde perante aquele caso que nunca se nos tinha deparado.

Após uma mini-reunião prestou-se-lhe os primeiros socorros e tomou-se a medida adequada, que era evacuação para Bissau para o Hospital Civil. Assim, e de imediato, a bajuda foi colocada no primeiro veículo à mão (por acaso o jipe cedido pelo Capitão Medina e Matos) e lá foi na companhia de um enfermeiro, um homem de transmissões e um atirador de metralhadora.

Estrada fora, lá foram os nossos camaradas, com as luzes do veículo nos máximos, num acto de desprezo pelo adversário, a todo o gás, direitos a João Landim, com o homem das transmissões a contactar com os fuzas para nos proporcionarem àquela hora a disponibilidade da jangada para fazermos a travessia rumo a Bissau. Cerca das 5 horas da manhã, esta malta dava entrada com a bajuda no hospital e, enquanto no guichet de atendimento entregávamos a papelada para tratamento de dados, ela seria mãe de um rapagão a quem foi dado o nome Mamadú Baldé.

2 – As gentes africanas de Có e subúrbios eram inconfundíveis: de grande estatura e carisma, eram irmãos de sangue e de luta pela mesma causa. Enaltecer os seus predicados seria esgotar toda uma panóplia de adjectivos. Por muito que o tentasse nesta singela crónica, não teria palavras para o fazer.

Naturalmente simpáticos, empenhados, compreensivos e sensíveis a todos os nossos argumentos, entre eles e nós havia uma empatia total, uma identificação absoluta em torno de todo o tipo de problemas desde os operacionais até aos da vivência da tabanca. Tudo se processava entre nós num perfeito sincronismo e entendimento, franco, despido de preconceitos.
Era muito fácil conviver com esta gente. Isto para dizer que, após todas as prestações de consultas de primeiros socorros, a tenda da enfermaria mais parecia um aviário de frangos e galinhas ofertados pelos pacientes, permitindo-nos depois fazer fabulosos pitéus nos momentos mais condicionados pela fome e pelo cansaço. Recusar a oferta de galinha ao africano era ofensa impensável.

3 – No percurso operacional tivemos um comportamento modelar, na área do bem-estar e do apoio social tudo também fizemos para colmatar muitos problemas locais, quer das NT, quer da população em geral. Para o bem-estar do pessoal, ao fim de pouco tempo, construímos um novo conjunto de cozinha, refeitório e cantina/bar para as praças.

Construímos ainda um espaçoso e seguro paiol subterrâneo para as centenas de granadas que jaziam praticamente a céu aberto, um sistema de filtragem de águas para beber e para banhos, uma oficina auto com fossa para lavagem e lubrificação de viaturas, com água corrente, para os nossos Unimog - para os grandes Furriel Marques e Teodoro Simões ( Nanza) nos proporcionarem transporte seguro -, um heliporto para evacuação de feridos e doentes para a capital Bissau, um sugestivo e elegante monumento alusivo à nossa passagem pela aquela terra, evocando os nossos mortos brancos e africanos. O qual, mais de trinta anos depois, ainda se mantém incólume e erecto conforme me relatou o Capitão do PAIGC Eduardo Sanhá que veio, após o final de guerra colonial, cursar Direito na Universidade de Coimbra.

Capinámos os principais troços das estradas envolventes ao destacamento de Có, reparámos aquelas mais necessitadas, construímos ou melhorámos pontes e pontões. Em relação à população africana, dadas as condicionantes da guerra envolvente que limitavam, por razões de segurança, as áreas agrícolas aproveitáveis, disponibilizávamos meios pessoais e viaturas para os enquadrar nas suas safras diárias, permitindo assim uma actividade agrícola e pecuária razoavelmente normal e produtiva.

Para salvaguarda do bem-estar e equilíbrio emocional do pessoal, junto ao improvisado estaleiro de apoio da brigada de engenharia, para a feitura da estrada Có – Pelundo construímos um campo para a prática do futebol, fenómeno universal e abrangente, que servia às mil maravilhas para descomprimir, sendo a sua utilização diária. Largas e longas tardes dedicámos ao jogo da bola.

Ampliamos a tabanca de Có com habitações construídas com uma espécie de argamassa feita de barro e capim seco com cobertura a colmo de palmeira ou chapa de zinco, made in U.S.A., à porta das quais se plantaram duas bananeiras, sinal vivo de África.

Todos estes tipos de apoio às populações autóctones - que em guerra clássica de guerrilha como era aquela é absolutamente fundamental e constante em todos os manuais que tratam o assunto -, eram feitos por nós não só com esse intuito. A nossa ligação sentimental a essa gente era tão profunda, que nunca poderíamos regatear qualquer tipo de colaboração, partindo quase sempre essa iniciativa da nossa parte. Mais do que os imperativos da missão, era a solidariedade que nos movia.

(Continua)

____

(1) vd posts anteriores do João Varanda:

15 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXCI: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (1): De Santa Margarida ao Cupilom...


16 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXCIII: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (2): "Periquito vai no mato, que a velhice vai p'ra Bissau"...

Guiné 63/74 - CCCXIV: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (3): O espírito de grupo

Guiné > Região do Cacheu > Có > 1969: As lavadeiras da tropa, na bolanha de Có.


© João Varanda (2005)



Texto do João Varanda (ex-furriel miliciano da CCAÇ 2636).




História da CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) > 3ª parte.



Na Guiné, exceptuando o arquipélago de Bijagós (sem interesse militar), o terreno define duas zonas militarmente diferenciadas:

(i) O litoral – da costa até uma linha definida de norte para sul por Cuntima, Jumbembem, Porto Gole, Xime, Xitole eAldeia Formosa;

(ii) O interior – para leste da linha anterior até às fronteiras com o Senegal e a Guiné – Conacri.

Contudo, durante a guerra quer os comandos militares portugueses, quer o PAIGC dividiram o território em três zonas, separando o litoral em Norte e Sul do rio Geba.

A divisão da Guiné em zonas de operações obedeceu à compartimentação do terreno, mas teve em consideração as importantes clivagens étnicas e religiosas dos grupos humanos da Guiné e os apoios que os países vizinhos deram à luta militar.

Foram assim estabelecidas três zonas de Operações:

(i) Zona Norte: São Domingos (fronteira), Farim, Teixeira Pinto (Canchungo), Óio / Moirés, Bissau.

(ii) Zona Sul: Fulacunda (Quinara), Cubisseco, Catió / Cantanhez, Quitafine, fronteira.

(iii) Zona Leste: Bafatá, Gabu (Nova Lamego), Madina, fronteira norte (Pirada), fronteira leste (Buruntuma).

Assim, e perante este quadro, verifica-se o que foi a imensa saga do combate na Guiné – hoje historicamente reconhecida como “o Vietname Português” – no contexto da complexidade, diversidade e riqueza étnicas de uma comunidade como aquela.

Có – e conforme vimos pelo teatro das operações antes da nossa chegada para tampão de zona - foi terra fustigada; no terreno, travava-se então lutas que pareciam eternas, mas a moral da CCAÇ 2636 era muito elevada, já que com os nossos comandos, na pessoa do jovem Capitão Miliciano Manuel Medina Mato e do 2º. Sargento Cruz, em pleno mato, às portas do combate do dia a dia, sentimos sempre o prodígio do apoio dos escalões superiores, traduzido em todas as valências, com oportunidade e eficácia.

Tivemos o privilégio de servir na Guiné na CCAÇ 2636, no período de 28 de Outubro de 1969 a 6 de Setembro de 1971. Foi uma unidade de que guardamos as melhores recordações, a de ter cumprido as suas difíceis e diversificadas missões, com eficiência, dignidade, correcta postura no ambiente político-militar da época. Esse saetimento era partilhado por todos os seus efectivos, continentais, insulares (Açores) ou do recrutamento local.

Foi uma companhia bem comandada por um jovem capitão de infantaria no início da sua carreira, que revelou possuir uma generosidade e dedicação exemplares e uma capacidade de compreensão do conflito, não apenas na sua vertente militar, mas sobretudo nos seus aspectos político-sociais, humanos e psicológicos, aqueles que sem dúvida constituíam a componente nuclear da Guerra da Guiné e condicionaram os desenvolvimentos da situação, os sucessos e os insucessos da luta armada até ao desfecho que se conhece.

Os factos mais salientes revelam-se com a recordação e narrativa de pequenas histórias nas quais os traços militares não relegam para segundo plano os aspectos humanos, as emoções, as alegrias e tristezas, as frustações e os receios que todos os que serviram o País nas Guerras de África bem conhecem e compreendem em toda a profundidade e a quem a leitura destas crónicas reconfortará, lembrará bons e maus momentos e ajudará a uma melhor compreensão dos acontecimentos de que foram protagonistas.

Sublinho, para elogiar, a importância que para nós foi a acção de todo o colectivo militar e o recrutamento local (Milícias ) que formaram o todo da CCAÇ 2636. Alguns deram a sua vida para a paz no Chão Manjaco , chão esse que sentimos e defendemos com inegualável coragem e em plena liberdade de consciência. Sem constrangimentos, obsessões, cedências, estivemos sempre por inteiro com muito ânimo e vontade, mesmo que, a cada dia que passava, a guerra fosse ganhando contornos cada vez mais sérios e cenários que se estendiam cada vez mais no tempo e no espaço.

Com o passar do tempo as hipóteses de tudo ser transitório, passageiro, fácil de gerir, eram cada vez mais distantes e o conflito encaminhava-se para uma situação duradoira, de difícil solução, tanto a nível interno como a nível externo. Não cabe agora e aqui tecer comentários sobre os seus antecedentes, causas e razões que a motivaram, nem tão pouco comentar a sua legitimidade, sob qualquer das suas vertentes mais críticas. Hoje o assunto, por muito debatido e assumido, está fora de discussão.

Confrontados com estas duras realidades, houve que enfrentar os acontecimentos, preparar a guerra, fazer a guerra, com todas as suas incidências. E essa guerra era e foi uma guerra de verdade. Para que a história , a nossa, não o esqueça, deixo uma segunda e não menos relevante palavra de apreço e justificação para os homens da CCAÇ 2636. Não só por eles ou para eles.
Mas porque eles simbolizaram de forma admirável todo o espírito de sacrifício, dedicação e entrega a que toda uma Nação em armas se votou em torno desta guerra. Foram eles que permitiram colher todo este manancial de experiência viva e rica, protagonizando momentos de indescritível beleza, sofrimento, angústia e coragem física e moral, que só um ambiente desta natureza pode exprimir e permitir. Sem reivindicações, subterfúgios, queixumes. Ao nível de verdadeiros heróis, anónimos, simples descomplexados, humildes, mas muito verdadeiros e humanos. Do melhor que temos.

Formámos sempre e em todas as circunstâncias um conjunto sincronizado, harmónico, sinergético, de uma vontade única e de um só querer. O Capitão Manuel Medina Matos, o 2ºs. Sargentos António Cruz e José Rosa Coelho, os Alferes José Américo Martins Ferreira, Luís Mendes, João Manuel Magalhães, e o Baltazar Silva Dias Santos, os Furriéis António Agostinho Ramos, David Rosário Monteiro, Leonel Santos Sousa Morais, Alcides Carolino Trindade, Fernando António Oliveira , José Adalberto Esteves Teles Paiva, José Silva Rodrigues Alves, Francisco Joaquim Pais, Francisco José Salema, Manuel Costa Alves, António Silva Pratas, Manuel Marques, António Armando Teixeira, Diogo José Moura Proença e, eu próprio, João Varanda eram o exemplo que estimulava e convidava os nossos soldados à entrega, ao empenho e à vontade de ir mais longe, permitindo-se avançarmos, mais seguros e confiantes.

Era este o espírito de entrega, de verdadeira missão, que se estendia muito mais para além do soldado combatente. Todos os restantes, que não tinham sido escalados para esta tarefa sublime sentiam, tinham tanto como os outros o direito e a obrigação de tudo fazerem e conseguirem, na retaguarda competente, para apoiarem o sacrifício, solidarizando-se com os operacionais, trabalhando com eles e para eles, sofrendo por vezes as mesmas angústias, os mesmos temores.

Em redor de toda esta vivência, é justo sublinhar, e de forma acentuada, o labor desenvolvido por todos os que nos acompanharam nas incidências do mato, do combate. Eles não só nos acrescentaram experiência e saber às nossas arremetidas, mas constituíram também verdadeiros exemplos de abnegação e heroísmo.

Ainda no terreno concreto da luta umas breves palavras para enaltecer todos os que acreditaram na “Guiné Melhor” ao nosso lado: às Milícias que acreditam nos Portugueses, o comportamento das populações e autoridades que connosco partilharam as agruras da comissão, populações nativas e brancas porque estiveram sempre ao nosso lado, por razões eventualmente diversas, talvez, mas com o mesmo acolhimento e apoio.

Todos tinham também uma crença inabalável nos nossos feitos, nos destinos da guerra em curso, na conquista do bem – estar para todos. Sempre e em todas as circunstâncias manifestavam o seu júbilo pelas conquistas realizadas, o seu pesar pelos inêxitos, repartindo com todos nós momentos de grande satisfação e admiração. Construíram em nosso redor um ambiente de elevada estima, reconfortante e estimulante, permitindo-nos fazer esquecer as ansiedades próprias no contexto em que ali nos encontrávamos. Foram a nossa família afastada, neles encontrámos força e ânimo para prosseguir, teimar, lutar e mantermo-nos fieis ao compromisso histórico então travado.

As autoridades locais, com quem tivemos o ensejo de contactar e conviver, foram também exemplares na compreensão da sua e da nossa missão, contribuindo de modo muito significativo para um natural e necessário ambiente de bom entendimento. Sem constrangimentos de qualquer espécie, com ligações funcionais excelentes, o seu contributo para o êxito dos nossos propósitos foi decisivo.

Por isso, toda esta gente, nos seus sectores de actuação e de representação, não poderia deixar de ser citada com muito orgulho e estima da CCAÇ 2636.

Guiné 63/74 - CCCXIV: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (3): O espírito de grupo

Guiné > Região do Cacheu > Có > 1969: As lavadeiras da tropa, na bolanha de Có.


© João Varanda (2005)



Texto do João Varanda (ex-furriel miliciano da CCAÇ 2636).




História da CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) > 3ª parte.



Na Guiné, exceptuando o arquipélago de Bijagós (sem interesse militar), o terreno define duas zonas militarmente diferenciadas:

(i) O litoral – da costa até uma linha definida de norte para sul por Cuntima, Jumbembem, Porto Gole, Xime, Xitole eAldeia Formosa;

(ii) O interior – para leste da linha anterior até às fronteiras com o Senegal e a Guiné – Conacri.

Contudo, durante a guerra quer os comandos militares portugueses, quer o PAIGC dividiram o território em três zonas, separando o litoral em Norte e Sul do rio Geba.

A divisão da Guiné em zonas de operações obedeceu à compartimentação do terreno, mas teve em consideração as importantes clivagens étnicas e religiosas dos grupos humanos da Guiné e os apoios que os países vizinhos deram à luta militar.

Foram assim estabelecidas três zonas de Operações:

(i) Zona Norte: São Domingos (fronteira), Farim, Teixeira Pinto (Canchungo), Óio / Moirés, Bissau.

(ii) Zona Sul: Fulacunda (Quinara), Cubisseco, Catió / Cantanhez, Quitafine, fronteira.

(iii) Zona Leste: Bafatá, Gabu (Nova Lamego), Madina, fronteira norte (Pirada), fronteira leste (Buruntuma).

Assim, e perante este quadro, verifica-se o que foi a imensa saga do combate na Guiné – hoje historicamente reconhecida como “o Vietname Português” – no contexto da complexidade, diversidade e riqueza étnicas de uma comunidade como aquela.

Có – e conforme vimos pelo teatro das operações antes da nossa chegada para tampão de zona - foi terra fustigada; no terreno, travava-se então lutas que pareciam eternas, mas a moral da CCAÇ 2636 era muito elevada, já que com os nossos comandos, na pessoa do jovem Capitão Miliciano Manuel Medina Mato e do 2º. Sargento Cruz, em pleno mato, às portas do combate do dia a dia, sentimos sempre o prodígio do apoio dos escalões superiores, traduzido em todas as valências, com oportunidade e eficácia.

Tivemos o privilégio de servir na Guiné na CCAÇ 2636, no período de 28 de Outubro de 1969 a 6 de Setembro de 1971. Foi uma unidade de que guardamos as melhores recordações, a de ter cumprido as suas difíceis e diversificadas missões, com eficiência, dignidade, correcta postura no ambiente político-militar da época. Esse saetimento era partilhado por todos os seus efectivos, continentais, insulares (Açores) ou do recrutamento local.

Foi uma companhia bem comandada por um jovem capitão de infantaria no início da sua carreira, que revelou possuir uma generosidade e dedicação exemplares e uma capacidade de compreensão do conflito, não apenas na sua vertente militar, mas sobretudo nos seus aspectos político-sociais, humanos e psicológicos, aqueles que sem dúvida constituíam a componente nuclear da Guerra da Guiné e condicionaram os desenvolvimentos da situação, os sucessos e os insucessos da luta armada até ao desfecho que se conhece.

Os factos mais salientes revelam-se com a recordação e narrativa de pequenas histórias nas quais os traços militares não relegam para segundo plano os aspectos humanos, as emoções, as alegrias e tristezas, as frustações e os receios que todos os que serviram o País nas Guerras de África bem conhecem e compreendem em toda a profundidade e a quem a leitura destas crónicas reconfortará, lembrará bons e maus momentos e ajudará a uma melhor compreensão dos acontecimentos de que foram protagonistas.

Sublinho, para elogiar, a importância que para nós foi a acção de todo o colectivo militar e o recrutamento local (Milícias ) que formaram o todo da CCAÇ 2636. Alguns deram a sua vida para a paz no Chão Manjaco , chão esse que sentimos e defendemos com inegualável coragem e em plena liberdade de consciência. Sem constrangimentos, obsessões, cedências, estivemos sempre por inteiro com muito ânimo e vontade, mesmo que, a cada dia que passava, a guerra fosse ganhando contornos cada vez mais sérios e cenários que se estendiam cada vez mais no tempo e no espaço.

Com o passar do tempo as hipóteses de tudo ser transitório, passageiro, fácil de gerir, eram cada vez mais distantes e o conflito encaminhava-se para uma situação duradoira, de difícil solução, tanto a nível interno como a nível externo. Não cabe agora e aqui tecer comentários sobre os seus antecedentes, causas e razões que a motivaram, nem tão pouco comentar a sua legitimidade, sob qualquer das suas vertentes mais críticas. Hoje o assunto, por muito debatido e assumido, está fora de discussão.

Confrontados com estas duras realidades, houve que enfrentar os acontecimentos, preparar a guerra, fazer a guerra, com todas as suas incidências. E essa guerra era e foi uma guerra de verdade. Para que a história , a nossa, não o esqueça, deixo uma segunda e não menos relevante palavra de apreço e justificação para os homens da CCAÇ 2636. Não só por eles ou para eles.
Mas porque eles simbolizaram de forma admirável todo o espírito de sacrifício, dedicação e entrega a que toda uma Nação em armas se votou em torno desta guerra. Foram eles que permitiram colher todo este manancial de experiência viva e rica, protagonizando momentos de indescritível beleza, sofrimento, angústia e coragem física e moral, que só um ambiente desta natureza pode exprimir e permitir. Sem reivindicações, subterfúgios, queixumes. Ao nível de verdadeiros heróis, anónimos, simples descomplexados, humildes, mas muito verdadeiros e humanos. Do melhor que temos.

Formámos sempre e em todas as circunstâncias um conjunto sincronizado, harmónico, sinergético, de uma vontade única e de um só querer. O Capitão Manuel Medina Matos, o 2ºs. Sargentos António Cruz e José Rosa Coelho, os Alferes José Américo Martins Ferreira, Luís Mendes, João Manuel Magalhães, e o Baltazar Silva Dias Santos, os Furriéis António Agostinho Ramos, David Rosário Monteiro, Leonel Santos Sousa Morais, Alcides Carolino Trindade, Fernando António Oliveira , José Adalberto Esteves Teles Paiva, José Silva Rodrigues Alves, Francisco Joaquim Pais, Francisco José Salema, Manuel Costa Alves, António Silva Pratas, Manuel Marques, António Armando Teixeira, Diogo José Moura Proença e, eu próprio, João Varanda eram o exemplo que estimulava e convidava os nossos soldados à entrega, ao empenho e à vontade de ir mais longe, permitindo-se avançarmos, mais seguros e confiantes.

Era este o espírito de entrega, de verdadeira missão, que se estendia muito mais para além do soldado combatente. Todos os restantes, que não tinham sido escalados para esta tarefa sublime sentiam, tinham tanto como os outros o direito e a obrigação de tudo fazerem e conseguirem, na retaguarda competente, para apoiarem o sacrifício, solidarizando-se com os operacionais, trabalhando com eles e para eles, sofrendo por vezes as mesmas angústias, os mesmos temores.

Em redor de toda esta vivência, é justo sublinhar, e de forma acentuada, o labor desenvolvido por todos os que nos acompanharam nas incidências do mato, do combate. Eles não só nos acrescentaram experiência e saber às nossas arremetidas, mas constituíram também verdadeiros exemplos de abnegação e heroísmo.

Ainda no terreno concreto da luta umas breves palavras para enaltecer todos os que acreditaram na “Guiné Melhor” ao nosso lado: às Milícias que acreditam nos Portugueses, o comportamento das populações e autoridades que connosco partilharam as agruras da comissão, populações nativas e brancas porque estiveram sempre ao nosso lado, por razões eventualmente diversas, talvez, mas com o mesmo acolhimento e apoio.

Todos tinham também uma crença inabalável nos nossos feitos, nos destinos da guerra em curso, na conquista do bem – estar para todos. Sempre e em todas as circunstâncias manifestavam o seu júbilo pelas conquistas realizadas, o seu pesar pelos inêxitos, repartindo com todos nós momentos de grande satisfação e admiração. Construíram em nosso redor um ambiente de elevada estima, reconfortante e estimulante, permitindo-nos fazer esquecer as ansiedades próprias no contexto em que ali nos encontrávamos. Foram a nossa família afastada, neles encontrámos força e ânimo para prosseguir, teimar, lutar e mantermo-nos fieis ao compromisso histórico então travado.

As autoridades locais, com quem tivemos o ensejo de contactar e conviver, foram também exemplares na compreensão da sua e da nossa missão, contribuindo de modo muito significativo para um natural e necessário ambiente de bom entendimento. Sem constrangimentos de qualquer espécie, com ligações funcionais excelentes, o seu contributo para o êxito dos nossos propósitos foi decisivo.

Por isso, toda esta gente, nos seus sectores de actuação e de representação, não poderia deixar de ser citada com muito orgulho e estima da CCAÇ 2636.