02 dezembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXXVIII: No corredor da morte (CCAV 8350, Guileje e Gadamael, 1972/73)


Guileje, no tempo da CCAV 8350, 1972/73.

Foto amavelmente cedida pelo ex-furriel miliciano de operações especiais Casimiro Carvalho.

© Magalhães Ribeiro (2005)


1. Texto do Magalhães Ribeiro (ex-Furriel Miliciano de Operações Especiais, CCS do Batalhão 4612/74 - Mansoa/Guiné).


Boa tarde amigo Luís Graça,

A resposta quanto ao título Cancioneiro de Mansoa e tu seres meu padrinho literário é, como diziam os militares, num só termo: Afirmativo! (1)

Penso que o blogue é um óptimo ponto de encontro do pessoal, que viveu na Guiné, com um sempre renovado interesse, já que todos os dias, ou quase, lhe acrescentas novas narrações, quer de factos quer de estórias.

Eu, pelo menos, todos os dia vou ver as novidades. Costumo dizer nestas coisas, apenas uma curta frase: Fiquei cliente!

Desde muito novo que sou um curioso de tudo quanto se relacione com a História de Portugal e, esta paixão agudizou-se, mais profundamente, no capítulo que concerne à Guerra da Guiné, porque é indiscutível e inequívoco que todos nós, os ex-combatentes, fomos os seus protagonistas no terreno.

Assim, tenho reunido no meu tudo o que consigo apanhar para o meu museu pessoal, quer documentos quer peças.

Tenho aqui algumas fotos (1973/74) do povo, das suas actividades, de Bissau, do quartel de Mansoa e de Guileje.

Guileje > O furriel miliciano de operações especiais Casimiro Carvalho.

Foto amavelmente cedida pelo próprio.

De 18 a 22 de Maio de 1973, o aquartelamento de Guileje foi cercado pelas forças do PAIGC (Op Amilcar Cabral), obrigando as NT (CCAV 8350, 1972/73), a abandoná-lo, juntamente com cerca de 600 civis (2) .


© Magalhães Ribeiro (2005)


A este email, anexo o texto de que já te havia falado. Está concluído, e é uma pequena estória do Casimiro Carvalho [ex-furriel miliciano de operações especiais da Companhia Independente de Cavalaria 8350], que esteve naquele que ficou conhecido pelo corredor da morte, entre Guilege e Gadamael [, entre Outubro de 1972 e Junho de 1973].

Com um abraço amigo do M.R.


Guileje > Monumento de homenagem aos mortos da CCAÇ 3325 > Pormenor da lápie:

"Vencer sem perigo é triunfar sem glória.

"Homenagem da CCAÇ 3325 aos seus mortos e feridos e aos portugueses de todasa« as cores, raças e credos que tombaram em defesa da Pátria"

© Magalhães Ribeiro (2005)


2. Na minha simples análise pessoal, entre os meus conhecimentos sobre a Guerra do Ultramar, creio que entre todos os verdadeiros infernos de chumbo e metralha, o mais terrível de todos, era aquele pedaço de terra entre Guileje e Gadamael.

Também entre as mais castigadas unidades, ficou célebre a Companhia Independente de Cavalaria 8350/72, que ali prestou serviço entre Outubro de 1972 e Julho de 1973, e
que viu morrerem em combate nove dos seus homens, entre algumas dezenas de feridos.

Foi seu Comandante o Capitão Abel dos Santos Quelhas Quintas, que escreveu numa carta dirigida ao Senhor Chefe do Estado Maior do Exército, sobre o Furriel Miliciano de Operações Especiais, José Casimiro Pereira Carvalho, que não resisti a enviar-vos e que diz o seguinte:

"Exmo Senhor Chefe do Estado Maior do Exército:

"Por, quando Comandante da Companhia Independente da Cavalaria 8350, em serviço na Guiné entre 1972 e 1973, sedeada em Guileje, ter sido ferido em Gadamael, nunca me foi possível propor uma homenagem pública ao Furriel de Operações Especiais CASIMIRO CARVALHO.

"Com o relato que vou fazer a Vª Exª e, porque este furriel continuou ligado a uma força militar, ou seja, a Brigada de Trânsito da Guarda Nacional Republicana, onde é considerado um bom militar com vários louvores por coragem, tenacidade, destreza e um elogiável espírito de missão, adquiridos na sua formação militar, espero, depois de Vª Exª mandar averiguar os factos referidos, pois, em minha opinião, merecerá que uma homenagem pública lhe seja prestada.

"Quando fui ferido, foi este homem que me ajudou a deslocar para junto do Rio Cacine, pois eu mal me podia movimentar, deslocando-se em seguida debaixo de intenso fogo de morteiros e outra armas que, neste momento, não sei especificar, para conseguir um depósito de gasolina de forma a poder fazer movimentar a embarcação em que me evacuou para Cacine, como também outros militares que nesse momento já se encontravam junto ao pequeno cais.


Guileje > O furriel miliciano de operações especiais Casimiro Carvalho. Foto amavelmente cedida pelo próprio.

© Magalhães Ribeiro (2005)


"Nas reuniões anuais da nossa Companhia muitos falam dos actos de bravura deste furriel, desde, debaixo de fogo, conduzindo uma Berliet se deslocar aos paióis para municiar não só as bocas de fogo de artilharia, como para os morteiros, fazer ainda parte duma patrulha onde morreram vários militares ficando ele e outro a aguentar a situação, até serem socorridos, e ter sido ferido, evacuado para Cacine, o que não invalidou que passados poucos dias se tenha oferecido para voltar para junto dos camaradas no verdadeiro inferno em Gadamael.

"Esperando a maior atenção de Vª Exª para este assunto e agradecendo desde já toda a atenção que lhe possa dispensar.

"Abel dos Santos Quelhas Quintas,

"Capitão Miliciano de Artilharia na Reforma Extraordinária
Nº Mec. 36467460, Deficiente das Forças Armadas".




Guiné- Bissau > Antigo aquartelamento de Guileje (2005).

Na foto, vêm-se dois membros da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento, junto aos restos do brazão da Companhia de Cavalaria que defendia Guileje: a CCAV 8350, (19)72/74, Piratas de Guileje (as inscrições ainda são perfeitamente legíveis)...

© AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guileje (2005)



PS - O referido militar [J. Casimiro Carvalho] soube mais tarde que a proposta de Louvor correu várias Repartições até ser arquivada, tendo sido ordenado que se desse conhecimento do seu teor ao mesmo.

Autoria do texto e créditos fotográficos:

© Magalhães Ribeiro (2005)

____

Notas de L.G.

(1) Eu tinha-lhe enviado a seguinte nota:

Grande ranger: obrigado, e parabéns pelos teus escritos. De facto, és um homem com talento literário. Vê o blogue: hoje, dia 1 de Dezembro de 2005, comecei a publicar o teu... Cancioneiro de Mansoa. Concordas com o título ? Baptizei os teus cadernos com este título, por analogia com o Cancioneiro do Niassa. Se aceitares, sou o teu ... padrinho [literário]. Um abraço. Luís.

(2) Há quem defende (por exemplo, o General Almeida Bruno) que o quartel de Guileje, tal como o de Gadamael, nunca chegou a ser abandonado pelas NT e ocupado pelo PAIGC. Teria sido de imediato reocupado pelas NT, após a polémica saída da CCAV 8350. Vd. o livro de José Freire Antunes, A Guerra de África (1961-1974), editado pelo Círculo de Leitores, 2 volumes (1995).

No seu depoimento sobre a sua acção na Guiné, diz Almeida Bruno: "Nós só abandonámos Madina Boé e Beli, não abandonámos os quartéis portugueses. Houve, no Sul, uma debandada de um quartel que depois foi reassumido com a colocação lá do capitão Manuel Monje, graduado em major. Foi em Gadamael. Guilege, por exemplo, nunca foi abandonado e o PAIGC nunca entrou no Guileje" (in: Antunes, J. F. - A guerra de África: 1961-1974. Volume II. s/l: Círculo de Leitores. 1965. 722).

Seria bom o Magalhães Ribeiro pdedir ao seu camarada e amigo Casimiro Caravalho para esclarecer este ponto (polémico): Guileje foi ou não abandonado pela CCAV 8350 em 22 de Maio de 1973, juntamente com a respectiva população ? (3)

No meu tempo (1969/71) Guileje e Gadamael, no sul, já eram nomes míticos, a par de Madina do Boé, entretanto evacuada uns dias antes de eu chegar ao território... Havia canções sobre Guileje e Gadamael. A nossa memória colectiva também passa por aqui, por estes lugares onde todos morremos um pouco, tugas e turras. Um dia os historiadores poderão finalmente ter acesso aos arquivos militares da guerra colonial, mas até lá muitos dos que por lá passaram já terão morrido...

É sempre boa altura para exorcizarmos os fantasmas da guerra colonial, disse eu uma vez ao jornalista Afonso Praça, que tinha sido alferes miliciano em Angola e que já morreu e a quem se deve a primeira grande recolha, no início dos anos 80, no extinto semanário O Jornal, de testemunhos e documentos sobre estes anos trágicos da nossa história contemporânea...

(3) Vd. post de 2 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCI: Antologia (6): A batalha de Guileje e Gadamael

Neste post reproduziu-se a reportagem do jornalista Serafim Lobato "Estamos Cercados por Todos Os Lados". Público. Domingo, 28 de Dezembro de 2003.

Comentário do nosso leitor Abreu dos Santos:

Comments: 8/03/2007 5:32 PM

Magalhães Ribeiro
ex-Furriel Miliciano de Operações Especiais
CCS do Batalhão 4612/74 - Mansoa/Guiné


Relativamente à 2ª parte de um e-mail remetido para Luís Graça, e por este publicado em 02Dez05, na página
http://blogueforanada.blogspot.com/2005/12/guin-6374-cccxxviii-no-corredor-da.html
pode ler-se:

– «Na minha simples análise pessoal, entre os meus conhecimentos sobre a Guerra do Ultramar, creio que entre todos os verdadeiros infernos de chumbo e metralha, o mais terrível de todos, era aquele pedaço de terra entre Guileje e Gadamael. Também entre as mais castigadas unidades, ficou célebre a Companhia Independente de Cavalaria 8350/72, que ali prestou serviço entre Outubro de 1972 e Julho de 1973, e que viu morrerem em combate nove dos seus homens, entre algumas dezenas de feridos.»

Duas breves notas:

1. Aquela CCav 8350 não prestou serviço, em Guileje, entre Outubro de 1972 e Julho de 1973: de facto, embarcou no AB1 em 25Out72, mas só ficou colocada em Guileje em 21Nov72 e dali saiu na manhã de 22Mai73.

2. Até final da comissão (desembarque em Lisboa em 27Ago74), a CCav 8350 sofreu efectivamente as seguintes 9 baixas mortais:

1 em 05Mar73 -
- Victor Paulo Vasconcelos Lourenço (nat Torre de Moncorvo; mobilizado pelo RC3), Alf ml Cav, falecido "por acidente"; (na actual base-de-dados on-line da Liga dos Combatentes, está registado "combate")

1 em 18Mai73 -
- José Francisco Dias Rabaço (nat freg Galveias, conc. Ponte de Sôr; mobilizado pelo RC3), 1Cb Cav, ferido grave durante emboscada IN lançada cerca das 07:00 a ±2km nne da tabanca do Guileje, no habitual itinerário para reabastecimento de água, vindo a falecer cerca das 11:00 por ausência de helievacuação.

2 em 01Jun73 -
- João Pires Hipólito (nat freg.Tinalhas, conc Castelo Branco), e Mário Coelho da Silva (nat Oliveira de Azeméis), ambos Sld Cav (mobilizados pelo RC3), atingidos por estilhaços cerca das 10:00 no aquartelamento de Gadamael-Porto, quando de flagelação IN com armas pesadas.

5 em 04Jun73 -
- Artur José de Sousa Branco (nat freg São Sebastião da Pedreira, conc Lisboa; mobilizado pela EPA para recompletamento da CCav 8350 - óbito do alferes Lourenço em 05Mar73), Alf ml Art chegado a Gadamael no dia anterior; Joaquim Travessa Martins Faustino (nat freg Amiais de Baixo, conc Santarém; mobilizado pelo RC3); António Mendonça Carvalho Serafim (nat Cartaxo), Fernando Alberto Reis Anselmo (nat freg Socorro/Lisboa) e José Inácio Neves (nat Venda das Raparigas, freg Benedita, conc Alcobaça), todos Sld Cav (mobilizados pelo RC3), mortos quando em regresso de patrulha e a menos de 1km do aquartelamento, durante emboscada IN lançada perto do arame-farpado de Gadamael-Porto.

No que respeita ao BCac 4612/72, mobilizado pelo RI16 e colocado em Mansoa em Set72, tem registadas as seguintes 6 baixas mortais:

3 em 14Set73 -
- Fernando Manuel Correia Rodrigues (nat Sobrado, freg Mire de Tibães, conc Braga), José de Almeida (nat freg Ucanha, conc Tarouca), e Miguel de Sousa Vieira (nat do Arrepiado, freg Carregueira, conc Chamusca), todos Soldados da 1ª/BCac 4612 (aquartelada em Porto Gole, ±24km se Mansoa), mortos em combate.

1 em 01Nov73 -
- António Emídio Ribeiro da Silva (nat da Póvoa do Cadaval, freg Lamas, conc Cadaval), Soldado da CCS/BCac4612 aquartelada em Mansoa, falecido por acidente.

1 em 11Mai74 -
- José Fernando Felisberto Pinheiro (nat freg Santo Condestável/Lisboa), Fur ml da 3ª/BCac4612 (de novo aquartelada em Mansoa)¹, morto em combate.
¹ (nota: esta subUn tinha estado em Jul-Out73 deslocada do COP04-Mansoa (COT9) para o S3-Catió, onde reforçou no sudoeste fronteiriço a desfalcada e desmoralizada guarnição do COP5-Gadamael).

1 em 18Out74 - Oldegário Alberto da Cruz Libório (nat freg Sé/Faro), Soldado da 3ª/BCac4612; falecido por acidente em «18 de Outubro de 1974», cf se mantém registado na actual base-de-dados on-line² da Liga dos Combatentes.
² (nota: sendo certo que às 01:00 de 14Out74 – momento em que na BA12-Bissalanca o brigadeiro graduado Carlos Fabião embarcou de regresso (definitivo) a Lisboa –, já não existiam naquele território quaisquer efectivos do Exército Português, esta data «18Out74» será efectivamente a do óbito? Em caso afirmativo, ter-se-á o mesmo verificado no HMP-Estrela e assim, seguindo critério idêntico ao adoptado para todos os outros inúmeros casos (militares evacuados dos 3 TO's para Lisboa e aqui posteriormente falecidos), deverá a sua referência ser apartada da listagem geral dos mortos em campanha (ou, de outro modo, todos os outros não-mencionados haveriam de ser, também, incluídos). Em caso negativo, a data está truncada e merece rectificação.

Nesta oportunidade, exorta-se o ex-Fur ml 'Rgr' Magalhães Ribeiro a que esclareça os visitantes deste blog, sobre o que houver por conveniente sobre estes assuntos... e outros que mereçam a sua atenção.

Queiram aceitar cordiais cumprimentos,
de
João Carlos Abreu dos Santos
(civil ex-miliciano)

01 dezembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXXVII: Cancioneiro de Mansoa (2): Guiné, do Cumeré a Brá

Guiné-Bissau > Mansoa > Quartel do exército >

1 de Outubro de 2005.


Foto de © Paulo Salgado (2005)


GUINÉ - DO CUMERÉ A BRÁ

Autor: Ranger Magalhães Ribeiro - Furriel Miliciano da CCS do Batalhão 4612/74 - Mansoa/Guiné.



Os perigos eram muitos mas… lá os íamos dobrando…
O maior inimigo era o tempo... interminável...
Cada dia parecia-nos um longo ano bissexto…
Mas o pior, eram as saudades, algo inenarrável .



O avião aterra lentamente,
Lá fora vejo... uma tabanca?
Não!... aquilo ali, era Bissau!
O aeroporto de Bissalanca.

Desci os degraus e olhei em volta,
Terra estranha de tom encarnado,
Paisagem monótona e agreste,
Céu cinzento, todo enevoado.

O ar quente e muito húmido,
Estava sereno e agradável,
Era Julho de setenta e quatro,
O ambiente turvo... insondável.

Embarcamos rumo ao Cumeré
Numa coluna de viaturas,
E... pelo caminho... tudo igual!
Diferentes, só as criaturas…

Pretos e pretas com o peito ao léu,
Trouxas à cabeça e filhos em redor;
Aqui, e além, malta fardada
Ao longe, o rufar de um tambor.

Encravado na ruidosa Berliet,
Observei curioso aquela terra
E imaginei os sacrifícios
Daqueles onze anos de guerra.

Os múltiplos cursos de água…
A vegetação densa e rasteira…
E... a bolanha... negra e insalubre!
Qual deles a maior ratoeira?

Futa-Fulas, Balantas, Mandingas…
Como diferenciar o inimigo?
Papéis, Futas, Manjacos, Bijagós…
Serão os Fulas, o maior perigo?

Guiné-Bissau > Mansoa > Camponês (balanta) a caminho da bolanha.

26 de Novembro de 2005.


Foto de © Paulo Salgado
e Jorge Leal(2005)








Mas se confusas eram as etnias,
Maior era a divisão com as religiões
E, assim, uns milhares de negros
Pareciam-me demasiados milhões.

Animistas, Muçulmanos e Cristãos
Dos quais alguns eram senegaleses…
Pelo meio… muitos cabo-verdianos…
Além de sírios e libaneses!

Os abutres a esboaçar por cima…
Os mosquitos na pele a picar, e…
Os répteis por ali à nossa volta.
Não aliviavam o mal-estar

As temíveis doenças tropicais,
O paludismo tão debilitante,
As disenterias e as hepatites,
Qual delas a mais fulminante?

Enfim, surge um aglomerado
De pavilhões pré-fabricados,
Cumeré, dizia uma placa,
Havia mato por todos os lados.

Após alojado e alimentado,
Acerquei-me da cerca de arame
E pelo que vi, constatei arrepiado:
“Isto aqui era o nosso Vietname”.

Dei umas voltas pelas tabancas
Naqueles dias de aclimatação,
Os velhinhos gozavam e diziam;
- Viv’à liberdade de circulação!

E, continuavam com as bocas:
- Ó periquitos, que por aí andais...
Aí fora, há umas semanas atrás...
O turra comia-vos, tal com’estais!

Aqueles velhinhos enrugados,
Tez enegrecida e voz de bagaço,
De idade, vinte e poucos anos
Pareciam talhados de puro aço.

Um dia, novo destino: Mansoa!
Er’a hora de rendermos o Batalhão
Depois... entregar tudo ao PAIGC!
Foi a nossa derradeira missão!

Sacos às costas, novo local: Brá!
Pr’ó Batalhão de Engenharia,
Lá se passaram mais uns dias, e…
O regresso, breve acontecia

Já a bordo do Uíge medito;
"África atrai de modo anormal…
Aventura?... Novos horizontes?…
Julguei que, saudades, só de Portugal!»

O povo, os seus costumes, a terra?…
A mística atracção africana?
Tanto se fala dela, ninguém a vê!
Descrevê-la? Talvez p’ra semana!

Caramba! Mas se era assim tão mau!
Para quê, falar tanto... naquela Guiné?
Porquê saudades?... Voltarei ali um dia?!
Doença... tara... ou que raio isto é?!


Guiné-Bissau > Bissau > Um país em construção...

Metade da população da Guiné-Bissau está na capital e... no estrangeiro, na diáspora... Novembro de 2005.

Foto de © Paulo Salgado
e Jorge Leal (2005)

Guiné 63/74 - CCCXXVII: Cancioneiro de Mansoa (2): Guiné, do Cumeré a Brá

Guiné-Bissau > Mansoa > Quartel do exército >

1 de Outubro de 2005.


Foto de © Paulo Salgado (2005)


GUINÉ - DO CUMERÉ A BRÁ

Autor: Ranger Magalhães Ribeiro - Furriel Miliciano da CCS do Batalhão 4612/74 - Mansoa/Guiné.



Os perigos eram muitos mas… lá os íamos dobrando…
O maior inimigo era o tempo... interminável...
Cada dia parecia-nos um longo ano bissexto…
Mas o pior, eram as saudades, algo inenarrável .



O avião aterra lentamente,
Lá fora vejo... uma tabanca?
Não!... aquilo ali, era Bissau!
O aeroporto de Bissalanca.

Desci os degraus e olhei em volta,
Terra estranha de tom encarnado,
Paisagem monótona e agreste,
Céu cinzento, todo enevoado.

O ar quente e muito húmido,
Estava sereno e agradável,
Era Julho de setenta e quatro,
O ambiente turvo... insondável.

Embarcamos rumo ao Cumeré
Numa coluna de viaturas,
E... pelo caminho... tudo igual!
Diferentes, só as criaturas…

Pretos e pretas com o peito ao léu,
Trouxas à cabeça e filhos em redor;
Aqui, e além, malta fardada
Ao longe, o rufar de um tambor.

Encravado na ruidosa Berliet,
Observei curioso aquela terra
E imaginei os sacrifícios
Daqueles onze anos de guerra.

Os múltiplos cursos de água…
A vegetação densa e rasteira…
E... a bolanha... negra e insalubre!
Qual deles a maior ratoeira?

Futa-Fulas, Balantas, Mandingas…
Como diferenciar o inimigo?
Papéis, Futas, Manjacos, Bijagós…
Serão os Fulas, o maior perigo?

Guiné-Bissau > Mansoa > Camponês (balanta) a caminho da bolanha.

26 de Novembro de 2005.


Foto de © Paulo Salgado
e Jorge Leal(2005)








Mas se confusas eram as etnias,
Maior era a divisão com as religiões
E, assim, uns milhares de negros
Pareciam-me demasiados milhões.

Animistas, Muçulmanos e Cristãos
Dos quais alguns eram senegaleses…
Pelo meio… muitos cabo-verdianos…
Além de sírios e libaneses!

Os abutres a esboaçar por cima…
Os mosquitos na pele a picar, e…
Os répteis por ali à nossa volta.
Não aliviavam o mal-estar

As temíveis doenças tropicais,
O paludismo tão debilitante,
As disenterias e as hepatites,
Qual delas a mais fulminante?

Enfim, surge um aglomerado
De pavilhões pré-fabricados,
Cumeré, dizia uma placa,
Havia mato por todos os lados.

Após alojado e alimentado,
Acerquei-me da cerca de arame
E pelo que vi, constatei arrepiado:
“Isto aqui era o nosso Vietname”.

Dei umas voltas pelas tabancas
Naqueles dias de aclimatação,
Os velhinhos gozavam e diziam;
- Viv’à liberdade de circulação!

E, continuavam com as bocas:
- Ó periquitos, que por aí andais...
Aí fora, há umas semanas atrás...
O turra comia-vos, tal com’estais!

Aqueles velhinhos enrugados,
Tez enegrecida e voz de bagaço,
De idade, vinte e poucos anos
Pareciam talhados de puro aço.

Um dia, novo destino: Mansoa!
Er’a hora de rendermos o Batalhão
Depois... entregar tudo ao PAIGC!
Foi a nossa derradeira missão!

Sacos às costas, novo local: Brá!
Pr’ó Batalhão de Engenharia,
Lá se passaram mais uns dias, e…
O regresso, breve acontecia

Já a bordo do Uíge medito;
"África atrai de modo anormal…
Aventura?... Novos horizontes?…
Julguei que, saudades, só de Portugal!»

O povo, os seus costumes, a terra?…
A mística atracção africana?
Tanto se fala dela, ninguém a vê!
Descrevê-la? Talvez p’ra semana!

Caramba! Mas se era assim tão mau!
Para quê, falar tanto... naquela Guiné?
Porquê saudades?... Voltarei ali um dia?!
Doença... tara... ou que raio isto é?!


Guiné-Bissau > Bissau > Um país em construção...

Metade da população da Guiné-Bissau está na capital e... no estrangeiro, na diáspora... Novembro de 2005.

Foto de © Paulo Salgado
e Jorge Leal (2005)

Guiné 63/74 - CCCXXVII: O Código de Conduta do Combatente da Guerra do Ultramar

Cartaz dos Serviços de Propaganda do Estado Maior do Exército.

© Jorge Santos (2005).


Reproduz-se a seguir o "código de conduta" do militar português em África. Documento enviado pelo Jorge Santos (ex-fuzileiro, da 4ª Companhia de Fuzileiros, Niassa, Moçambique, 1968/70; membro da nossa tertúlia e autor da página na NET A Guerra Colonial):

Cópia do documento SPEME-Mod.1157 (Serviços de Propaganda do Estado-Maior do Exército - Modelo 1157). Este impresso era distribuído aos nossos camaradas, mobilizados para o Ultramar.

Pelos dados que tenho, sobre publicações editadas por esses serviços, creio que o SPEME funcionou entre 1964 e 1969. Portanto o Código de Conduta é desse período.

A distribuição do mesmo, e segundo deixa entender o próprio Código, seria feita quando as unidades estavam formadas e prestes a embarcarem.

Não tenho cópia do original pois o texto foi-me cedido. No entanto, e visto ser uma publicação do Exército, creio que ou o Arquivo Geral do Exército ou a Biblioteca do Exército o devem ter, pois, quanto mais não seja, constitui um património.

Será possível, pelo menos entre os combatentes mais velhinhos, existir algum exemplar? É possível.

Um abraço a todos os tertulianos.
Jorge Santos


O CÓDIGO DE CONDUTA


Ao partires para o Ultramar, ciente da importância da missão que vais desempenhar, deves-te sentir orgulhoso e confiante porque não ignoras a razão que nos assiste na luta que somos obrigados a sustentar contra o terrorismo. Bem sabes que quem luta com razão e pelo direito é sempre mais forte. Lembra-te:

«A FORÇA DA NOSSA RAZÃO É A RAZÃO DA NOSSA FORÇA»

Agora, que vais partir, e depois, quando já estiveres no Ultramar, deves ler e repetir mentalmente o seguinte:

- Sou um militar Português que cumpre a sua missão de defender a Pátria, se necessário à custa da própria vida;

- Confio nos meus chefes e, por isso, serei disciplinado e cumprirei fielmente as suas ordens, na certeza de que a disciplina constitui a força principal dos exércitos. Se for graduado, darei em todas as circunstâncias, o exemplo de que todos os meus subordinados necessitam e esperam de mim;

- Procurarei ser bom camarada, esforçando-me por colocar sempre o interesse geral acima dos meus interesses pessoais;

- Não esquecerei que esta guerra é uma luta pela conquista da adesão das populações. Por isso, ajudá-las-ei e farei o que puder para conseguir e merecer o apoio delas;

- Estarei sempre disposto a colaborar com as autoridades civis na obra de desenvolvimento em que todos estamos empenhados;

- Não referirei, na minha correspondência particular, qualquer operação, assunto de natureza militar;

- Nunca, e em nenhuma circunstância, divulgarei informações de interesse militar, especialmente quando se tratar de operações de combate;

- Não permitirei que o inimigo me aprisione;

- Lutarei sempre para não cair nas suas mãos;

- Não permitirei que qualquer documento ou material de que eu seja portador lhe caia nas mãos mesmo que tenha de os destruir;

- Nunca esquecerei que sou um soldado Português. Saberei ser sempre merecedor da confiança que em mim depositam, saberei sempre que o meu comportamento é importante para o êxito do exército e que o meu esforço é indispensável para a continuação de Portugal;

- Lutarei pelo futuro e glória da minha pátria, da minha família e de todos os portugueses;

- Com a ajuda de Deus, na hora do regresso quero gritar orgulhosamente: MISSÃO CUMPRIDA!

(SPEME – Mod. 1157)

Guiné 63/74 - CCCXXVII: O Código de Conduta do Combatente da Guerra do Ultramar

Cartaz dos Serviços de Propaganda do Estado Maior do Exército.

© Jorge Santos (2005).


Reproduz-se a seguir o "código de conduta" do militar português em África. Documento enviado pelo Jorge Santos (ex-fuzileiro, da 4ª Companhia de Fuzileiros, Niassa, Moçambique, 1968/70; membro da nossa tertúlia e autor da página na NET A Guerra Colonial):

Cópia do documento SPEME-Mod.1157 (Serviços de Propaganda do Estado-Maior do Exército - Modelo 1157). Este impresso era distribuído aos nossos camaradas, mobilizados para o Ultramar.

Pelos dados que tenho, sobre publicações editadas por esses serviços, creio que o SPEME funcionou entre 1964 e 1969. Portanto o Código de Conduta é desse período.

A distribuição do mesmo, e segundo deixa entender o próprio Código, seria feita quando as unidades estavam formadas e prestes a embarcarem.

Não tenho cópia do original pois o texto foi-me cedido. No entanto, e visto ser uma publicação do Exército, creio que ou o Arquivo Geral do Exército ou a Biblioteca do Exército o devem ter, pois, quanto mais não seja, constitui um património.

Será possível, pelo menos entre os combatentes mais velhinhos, existir algum exemplar? É possível.

Um abraço a todos os tertulianos.
Jorge Santos


O CÓDIGO DE CONDUTA


Ao partires para o Ultramar, ciente da importância da missão que vais desempenhar, deves-te sentir orgulhoso e confiante porque não ignoras a razão que nos assiste na luta que somos obrigados a sustentar contra o terrorismo. Bem sabes que quem luta com razão e pelo direito é sempre mais forte. Lembra-te:

«A FORÇA DA NOSSA RAZÃO É A RAZÃO DA NOSSA FORÇA»

Agora, que vais partir, e depois, quando já estiveres no Ultramar, deves ler e repetir mentalmente o seguinte:

- Sou um militar Português que cumpre a sua missão de defender a Pátria, se necessário à custa da própria vida;

- Confio nos meus chefes e, por isso, serei disciplinado e cumprirei fielmente as suas ordens, na certeza de que a disciplina constitui a força principal dos exércitos. Se for graduado, darei em todas as circunstâncias, o exemplo de que todos os meus subordinados necessitam e esperam de mim;

- Procurarei ser bom camarada, esforçando-me por colocar sempre o interesse geral acima dos meus interesses pessoais;

- Não esquecerei que esta guerra é uma luta pela conquista da adesão das populações. Por isso, ajudá-las-ei e farei o que puder para conseguir e merecer o apoio delas;

- Estarei sempre disposto a colaborar com as autoridades civis na obra de desenvolvimento em que todos estamos empenhados;

- Não referirei, na minha correspondência particular, qualquer operação, assunto de natureza militar;

- Nunca, e em nenhuma circunstância, divulgarei informações de interesse militar, especialmente quando se tratar de operações de combate;

- Não permitirei que o inimigo me aprisione;

- Lutarei sempre para não cair nas suas mãos;

- Não permitirei que qualquer documento ou material de que eu seja portador lhe caia nas mãos mesmo que tenha de os destruir;

- Nunca esquecerei que sou um soldado Português. Saberei ser sempre merecedor da confiança que em mim depositam, saberei sempre que o meu comportamento é importante para o êxito do exército e que o meu esforço é indispensável para a continuação de Portugal;

- Lutarei pelo futuro e glória da minha pátria, da minha família e de todos os portugueses;

- Com a ajuda de Deus, na hora do regresso quero gritar orgulhosamente: MISSÃO CUMPRIDA!

(SPEME – Mod. 1157)

Guiné 63/74 - CCCXXVI: Cancioneiro de Mansoa (1): o esplendor de Portugal



Post nº 326 (CCCXXVI)


Capa dos cadernos do ex-ranger Magalhães Ribeiro. Pode ler-se: (1): Em Lamego... ser ranger; (ii) Em Tomar... participar no 25 de Abril; (iii) Em Mansoa, Guiné... arriar a última Bandeira.

© Magalhães Ribeiro (2005)


1. Texto do Magalhães Ribeiro (ex-furriel miliciano de Operações Especiais, da CCS do BCAÇ 4612), o tal que em 9 de Setembro de 1974 arriou a última bandeira portuguesa, no quartel de Mansoa (1), na presença de altos representantes do PAIGC que, por sua vez, hastearam a bandeira da nova República da Guiné-Bissau... Ele vive e trabalha actualmente no Porto.


Boa noite, amigo Luís Graça:

Estava para aqui a teclar e a enviar uns mails ao pessoal, e lembrei-me de te enviar uma parte do resultado de um dos meus hobbies, quando disponho de algum tempo e muita disposição para isso... que é rabiscar o papel.

São coisas que me vão ocorrendo e que só costumo dar a ler aos amigos. Se achares interessante colocar algum dos textos no blogue, para os nossos amigos lerem... dispõe!
Fico a aguardar que me digas qualquer coisa.

Continuo a falar com o Furriel Miliciano Ranger Casimiro de Carvalho, que esteve no coorredor da morte - Guileje e Gadamael -, para ultimar o texto e juntar alguma das excelentes fotos que ele possui daquele inferno e me deu autorização para, caso achares interesante, inserires posteriormente no blogue.

Um abraço amigo do M.R. de Mansoa.


2. O que o Ribeiro me mandou foi um carderno, de 47 páginas, onde ele conta, em verso, as peripécias da sua atribulada vida militar. Vou chamar a estes cadernos o Cancioneiro de Mansoa, por analogia com o Cancioneiro do Niassa. Está imbuído da ideologia ou (da mística) ranger, não é uma obra colectiva, é escrito por um dos últimos guerreiros do Império e, para mais, ao longo dos anos que se sucederam ao 25 de Abril de 1974 em que o autor também participou... O Cancioneiro do Niassa tem outra origem, outro contexto, outro tom... De qualquer modo, o Magalhães Ribeiro e os seus camaradas de operações especiais não me levarão a mal se eu chamar Cancioneiro de Mansoa ao conjunto destes versos, ditados pela nostalgia do império perdido e pela afirmação do valor e do patriotismo do soldado português. Aqui fica a introdução aos cadernos (uma nota explicativa da sua origem e razão de ser):

"O meu velho gosto pela escrita sempre me impulsionou para, ao longo do tempo, alinhavar algumas palavras em bocados de papel, que ia guardando com as minhas outras relíquias, sem qualquer pretensiosismo, por ali, nas gavetas.

"Entretanto, li num dos jornais da Associação das Operações Especiais - da qual sou um dos orgulhosos sócios -, um apelo à colaboração de todos os Rangers, na sua composição, através do envio de artigos, contos, estórias, histórias, etc.

"Pensei então, modestamente, que os meus escritos talvez pudessem ter algum interesse para o efeito e, caso assim fosse julgado, cooperaria com muito gosto.

"Pelo que peguei nos velhos papéis e fui-os passando para outros papéis mais limpos, sem preocupações de qualquer requinte poético ou intelectual, propositadamente, através de linguagem popular e directa, de modo a ler-se e perceber-se o que realmente penso e sinto sobre as coisas e loisas de que eu gosto, sem outras interpretações ou distorções.

"Neste caderno reuni aquilo que diz respeito ao meu serviço militar que, por ter sido muito diversificado, dinâmico e histórico, constituiu para mim uma fonte inesgotável de aprendizagem, experiência, orgulho e inspiração.

"Como não podia deixar de ser, dedico especial atenção aos seus momentos mais altos: (i) o Curso de Operações Especiais, em Lamego; (ii) a participação no 25 de Abril; (iii) a comissão na Guiné; e, por fim, (iv) o arriar da última Bandeira Nacional em Mansôa.

"A todos os bons amigos que tiverem paciência para lerem este caderno o meu abraço e o meu obrigado".

3. É a propósito desse episódio (histórico) que foi o arriar da nossa última em território da Guiné (1), que se transcreve uma das reflexões poéticas do Ranger Ribeiro. A seu tempo iremos transcrevendo e comentando outras partes interessantes destes curiosos cadernos, que passam a ser baptizados, por mim, como Cancioneiro de Mansoa. O Magalhães Ribeiro pediu-me a minha opoinião, aqui a tem...


Mansoa, a última Bandeira


Com o emblema de Ranger no peito
O destino seguinte foi Évora
Foi um período de descanso, depois,
Daquela especialidade dura.

Corria o ano de setenta e quatro,
O primeiro dia de Fevereiro,
Quando saíram as mobilizações

P’rá Guiné, um Batalhão inteiro.

Depois dos serviços ali prestados
E, pr’ó Vietname mobilizado,
Tarecos às costas mais uma vez
E fui conhecer Tomar, encantado.

O encargo, ali, era severo
Na 1ª Companhia d’Instrução,
Trinta soldados especializar
Daquele famigerado Batalhão.

Mas, eis que passados uns dias,
O 25 de Abril estalou,
Começou a pedir-se o fim da guerra
E nunca mais ninguém se calou.

É anunciado o fim da guerra
E, logicamente, fomos pensando
Que p’rá Guiné já não iríamos
E o tempo lá se foi passando.

As orientações superiores
Porém, mantinham-se inalteradas:
“Instrução contínua e inflexível…
Disciplina e moral elevadas”.

Passados dois meses sobre a revolução
Continuávamos mobilizados
E seguimos p’ra S.ta Margarida
Formar Batalhão e ser vacinados.

Até que a hora do embarque chegou,
O último Batalhão p’rá Guiné…
Tomava assento num avião…
Bissau e, horas depois, Cumeré!

Mais uns dias se passaram, pacatos,
E nova viagem… para Mansôa,
Pequena vila em terra Balanta
Onde sem a guerra... a vida era boa.

Assim, no dia 9 de Setembro,
Foi determinado superiormente
Entregar
este quartel aos turras,
Oficial e cerimoniosamente.


- Você, entrega a cantina de manhã!...
Diz o Comandante com resolução.
- E de tarde, vai arriar a bandeira...
Avance firme e sem hesitação!

De manhã entreguei o estipulado
A um PAIGC com ar simplório
A arrecadação de géneros...
A cantina e o refeitório.

À tarde começaram a surgir pretos,
Às centenas, de todos os cantos,
A pé ou em camiões, amontoados;
Nunca pensei qu’eles fossem tantos.

A certo momento, todo a rigor,
Surgiu em marcha cadenciada
Um grupo de combate dos turras
E, mais atrás, uns pioneiros... em parada.


Guine > Mansoa > 9 de Setembro de 1974: Arriando a última bandeira portuguesa...


















Muitos fotógrafos, jornalistas, e…
Convidados das Comunidades!
Após as apresentações da praxe
Deu-se início às formalidades.

Frente à nossa tropa ali formada,
Ondulava ao vento a Bandeira,
Parecia acenar um longo adeus
Àquela inóspita torreira.

Ao avançar para o velho mastro,
Pensava nas contradições do acto
Cada passo era um certificado,
Que o fim da guerra... era um facto.

Por a sua vida já não arriscarem
Os periquitos rejubilavam,
Enquanto tristes e conformados
Os ex-combatentes choravam.

Guiné-BIssau > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 > Hasteando a bandeira da República da Guiné-Bissau...


















Toca o clarim… o Hino Nacional…
A nossa Bandeira foi retirada
E, para regozijo dos PAIGC
A deles, Guiné-Bissau, foi içada.

Nas fotos e entrevistas finais,
Entre tudo aquilo que foi dito,
Duas perguntas retive na memória
E penso dever ficar aqui escrito:

- Que pensa da política salazarista?...
- E sobre os qu’aqui perderam a vida?
- Os erros políticos pagam-se caros!...
- Pelos mortos, veneração sentida!

(...) A bandeira ondulava ao vento firme e formosa,
O mastro desceu, aprumada, em atitude imperial.
À multidão, ali em Mansôa, parecia afirmar:
- Aqui, esteve presente… o esplendor de Portugal!

Autoria e créditos fotográficos:
© Magalhães Ribeiro (2005)


NÃO ERA UMA BANDEIRA QUALQUER


A Bandeira ondulava ao vento... firme e formosa,
Naquele alto e velho mastro do quartel... como voa,
O esplendor de Portugal garantia... assaz vaidosa.
Quanta veneração em sua honra... e quanta loa,
Tais façanhas heróicas dali presenciou... orgulhosa!
Bradai - às armas - lusitanos... se o inimigo soa,
Qu’Ela é o símbolo magno de união... gloriosa,
S’ameaça à Pátria algum inimigo... apregoa!
Qu’a garra deste povo... tem engenho e arte talentosa,
P’ra levar de vencida... que seja a besta em pessoa!
Qu’ali num naco d’África cumpriu de forma honrosa,
Dando mostras de valor indómito qu’inda hoje ecoa!
Até q’um dia no país se levantou tropa revoltosa,
Reformando a política do Ultramar... em Lisboa,
E qu’emanou então para Bissau determinação rigorosa;
Que em Portugal, a liberdade é bombarda qu’atroa,
E independência às colónias concedeu airosa,
Em assinatura... cuja data ainda hoje ressoa;
Nove de setembro de setenta e quatro... luminosa.
Também, nesse dia, a Bandeira foi arriada em Mansôa,
Pondo termo a séculos de História maravilhosa,
Pela derradeira vez... em cerimónia digna da “Coroa”,
Perante multidão exultante... e soldados da Nação briosa.
E, assim, a Guiné... sua sorte... embarcou em nova canoa!


Ranger Magalhães Ribeiro - Furriel Mil.º da CCS do Batalhão 4612/74 - Mansoa/Guiné


Nota: A última Bandeira Nacional, arriada na ex-Guiné portuguesa, com cerimónia oficial e honras militares, ocorreu em Mansoa, em 9 de Setembro de 1974. A Bandeira encontra-se actualmente exposta no Museu do Centro de Instrução de Operações Especiais, na cidade de Lamego, desde Julho de 1997.




_____________

(1) Vd. post de 21 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCIV: Eu estava lá, na entrega simbólica do território (Mansoa, 9 de Setembro de 1974)


(2) vd post de L.G. de 11 de Maio de 2005 > Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1)

Vd. também a página do nosso camarada, o ex-fuzileiro Jorge Santos, que esteve no Niassa (1968/70), e que foi o primeiro a publicar, na Net, uma antologia das canções do Niassa, recolhidas por ele e proibidas de serem cantadas em público até ao 25 de Abril de 1974 (A Guerra Colonial > Canções do Niassa)

E#m 11 de Maio de 2005 deixei expressa a minha homenagem J.M.A. Santos (hoje, membro da nossa tertúlia) "pelo seu notável trabalho de recolha, preservação e divulgação desta documentação tão efémera mas tão importante para a sociologia histórica da guerra colonial, incluindo o estudo das representações sociais do turra, o invisível e obíquo inimigo que combatíamos em Moçambique, Angola e Guiné". No total a recolha de J.M. A. Santos ultrapassa as 40 canções, disponíveis no seu site.

Guiné 63/74 - CCCXXVI: Cancioneiro de Mansoa (1): o esplendor de Portugal



Post nº 326 (CCCXXVI)


Capa dos cadernos do ex-ranger Magalhães Ribeiro. Pode ler-se: (1): Em Lamego... ser ranger; (ii) Em Tomar... participar no 25 de Abril; (iii) Em Mansoa, Guiné... arriar a última Bandeira.

© Magalhães Ribeiro (2005)


1. Texto do Magalhães Ribeiro (ex-furriel miliciano de Operações Especiais, da CCS do BCAÇ 4612), o tal que em 9 de Setembro de 1974 arriou a última bandeira portuguesa, no quartel de Mansoa (1), na presença de altos representantes do PAIGC que, por sua vez, hastearam a bandeira da nova República da Guiné-Bissau... Ele vive e trabalha actualmente no Porto.


Boa noite, amigo Luís Graça:

Estava para aqui a teclar e a enviar uns mails ao pessoal, e lembrei-me de te enviar uma parte do resultado de um dos meus hobbies, quando disponho de algum tempo e muita disposição para isso... que é rabiscar o papel.

São coisas que me vão ocorrendo e que só costumo dar a ler aos amigos. Se achares interessante colocar algum dos textos no blogue, para os nossos amigos lerem... dispõe!
Fico a aguardar que me digas qualquer coisa.

Continuo a falar com o Furriel Miliciano Ranger Casimiro de Carvalho, que esteve no coorredor da morte - Guileje e Gadamael -, para ultimar o texto e juntar alguma das excelentes fotos que ele possui daquele inferno e me deu autorização para, caso achares interesante, inserires posteriormente no blogue.

Um abraço amigo do M.R. de Mansoa.


2. O que o Ribeiro me mandou foi um carderno, de 47 páginas, onde ele conta, em verso, as peripécias da sua atribulada vida militar. Vou chamar a estes cadernos o Cancioneiro de Mansoa, por analogia com o Cancioneiro do Niassa. Está imbuído da ideologia ou (da mística) ranger, não é uma obra colectiva, é escrito por um dos últimos guerreiros do Império e, para mais, ao longo dos anos que se sucederam ao 25 de Abril de 1974 em que o autor também participou... O Cancioneiro do Niassa tem outra origem, outro contexto, outro tom... De qualquer modo, o Magalhães Ribeiro e os seus camaradas de operações especiais não me levarão a mal se eu chamar Cancioneiro de Mansoa ao conjunto destes versos, ditados pela nostalgia do império perdido e pela afirmação do valor e do patriotismo do soldado português. Aqui fica a introdução aos cadernos (uma nota explicativa da sua origem e razão de ser):

"O meu velho gosto pela escrita sempre me impulsionou para, ao longo do tempo, alinhavar algumas palavras em bocados de papel, que ia guardando com as minhas outras relíquias, sem qualquer pretensiosismo, por ali, nas gavetas.

"Entretanto, li num dos jornais da Associação das Operações Especiais - da qual sou um dos orgulhosos sócios -, um apelo à colaboração de todos os Rangers, na sua composição, através do envio de artigos, contos, estórias, histórias, etc.

"Pensei então, modestamente, que os meus escritos talvez pudessem ter algum interesse para o efeito e, caso assim fosse julgado, cooperaria com muito gosto.

"Pelo que peguei nos velhos papéis e fui-os passando para outros papéis mais limpos, sem preocupações de qualquer requinte poético ou intelectual, propositadamente, através de linguagem popular e directa, de modo a ler-se e perceber-se o que realmente penso e sinto sobre as coisas e loisas de que eu gosto, sem outras interpretações ou distorções.

"Neste caderno reuni aquilo que diz respeito ao meu serviço militar que, por ter sido muito diversificado, dinâmico e histórico, constituiu para mim uma fonte inesgotável de aprendizagem, experiência, orgulho e inspiração.

"Como não podia deixar de ser, dedico especial atenção aos seus momentos mais altos: (i) o Curso de Operações Especiais, em Lamego; (ii) a participação no 25 de Abril; (iii) a comissão na Guiné; e, por fim, (iv) o arriar da última Bandeira Nacional em Mansôa.

"A todos os bons amigos que tiverem paciência para lerem este caderno o meu abraço e o meu obrigado".

3. É a propósito desse episódio (histórico) que foi o arriar da nossa última em território da Guiné (1), que se transcreve uma das reflexões poéticas do Ranger Ribeiro. A seu tempo iremos transcrevendo e comentando outras partes interessantes destes curiosos cadernos, que passam a ser baptizados, por mim, como Cancioneiro de Mansoa. O Magalhães Ribeiro pediu-me a minha opoinião, aqui a tem...


Mansoa, a última Bandeira


Com o emblema de Ranger no peito
O destino seguinte foi Évora
Foi um período de descanso, depois,
Daquela especialidade dura.

Corria o ano de setenta e quatro,
O primeiro dia de Fevereiro,
Quando saíram as mobilizações

P’rá Guiné, um Batalhão inteiro.

Depois dos serviços ali prestados
E, pr’ó Vietname mobilizado,
Tarecos às costas mais uma vez
E fui conhecer Tomar, encantado.

O encargo, ali, era severo
Na 1ª Companhia d’Instrução,
Trinta soldados especializar
Daquele famigerado Batalhão.

Mas, eis que passados uns dias,
O 25 de Abril estalou,
Começou a pedir-se o fim da guerra
E nunca mais ninguém se calou.

É anunciado o fim da guerra
E, logicamente, fomos pensando
Que p’rá Guiné já não iríamos
E o tempo lá se foi passando.

As orientações superiores
Porém, mantinham-se inalteradas:
“Instrução contínua e inflexível…
Disciplina e moral elevadas”.

Passados dois meses sobre a revolução
Continuávamos mobilizados
E seguimos p’ra S.ta Margarida
Formar Batalhão e ser vacinados.

Até que a hora do embarque chegou,
O último Batalhão p’rá Guiné…
Tomava assento num avião…
Bissau e, horas depois, Cumeré!

Mais uns dias se passaram, pacatos,
E nova viagem… para Mansôa,
Pequena vila em terra Balanta
Onde sem a guerra... a vida era boa.

Assim, no dia 9 de Setembro,
Foi determinado superiormente
Entregar
este quartel aos turras,
Oficial e cerimoniosamente.


- Você, entrega a cantina de manhã!...
Diz o Comandante com resolução.
- E de tarde, vai arriar a bandeira...
Avance firme e sem hesitação!

De manhã entreguei o estipulado
A um PAIGC com ar simplório
A arrecadação de géneros...
A cantina e o refeitório.

À tarde começaram a surgir pretos,
Às centenas, de todos os cantos,
A pé ou em camiões, amontoados;
Nunca pensei qu’eles fossem tantos.

A certo momento, todo a rigor,
Surgiu em marcha cadenciada
Um grupo de combate dos turras
E, mais atrás, uns pioneiros... em parada.


Guine > Mansoa > 9 de Setembro de 1974: Arriando a última bandeira portuguesa...


















Muitos fotógrafos, jornalistas, e…
Convidados das Comunidades!
Após as apresentações da praxe
Deu-se início às formalidades.

Frente à nossa tropa ali formada,
Ondulava ao vento a Bandeira,
Parecia acenar um longo adeus
Àquela inóspita torreira.

Ao avançar para o velho mastro,
Pensava nas contradições do acto
Cada passo era um certificado,
Que o fim da guerra... era um facto.

Por a sua vida já não arriscarem
Os periquitos rejubilavam,
Enquanto tristes e conformados
Os ex-combatentes choravam.

Guiné-BIssau > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 > Hasteando a bandeira da República da Guiné-Bissau...


















Toca o clarim… o Hino Nacional…
A nossa Bandeira foi retirada
E, para regozijo dos PAIGC
A deles, Guiné-Bissau, foi içada.

Nas fotos e entrevistas finais,
Entre tudo aquilo que foi dito,
Duas perguntas retive na memória
E penso dever ficar aqui escrito:

- Que pensa da política salazarista?...
- E sobre os qu’aqui perderam a vida?
- Os erros políticos pagam-se caros!...
- Pelos mortos, veneração sentida!

(...) A bandeira ondulava ao vento firme e formosa,
O mastro desceu, aprumada, em atitude imperial.
À multidão, ali em Mansôa, parecia afirmar:
- Aqui, esteve presente… o esplendor de Portugal!

Autoria e créditos fotográficos:
© Magalhães Ribeiro (2005)


NÃO ERA UMA BANDEIRA QUALQUER


A Bandeira ondulava ao vento... firme e formosa,
Naquele alto e velho mastro do quartel... como voa,
O esplendor de Portugal garantia... assaz vaidosa.
Quanta veneração em sua honra... e quanta loa,
Tais façanhas heróicas dali presenciou... orgulhosa!
Bradai - às armas - lusitanos... se o inimigo soa,
Qu’Ela é o símbolo magno de união... gloriosa,
S’ameaça à Pátria algum inimigo... apregoa!
Qu’a garra deste povo... tem engenho e arte talentosa,
P’ra levar de vencida... que seja a besta em pessoa!
Qu’ali num naco d’África cumpriu de forma honrosa,
Dando mostras de valor indómito qu’inda hoje ecoa!
Até q’um dia no país se levantou tropa revoltosa,
Reformando a política do Ultramar... em Lisboa,
E qu’emanou então para Bissau determinação rigorosa;
Que em Portugal, a liberdade é bombarda qu’atroa,
E independência às colónias concedeu airosa,
Em assinatura... cuja data ainda hoje ressoa;
Nove de setembro de setenta e quatro... luminosa.
Também, nesse dia, a Bandeira foi arriada em Mansôa,
Pondo termo a séculos de História maravilhosa,
Pela derradeira vez... em cerimónia digna da “Coroa”,
Perante multidão exultante... e soldados da Nação briosa.
E, assim, a Guiné... sua sorte... embarcou em nova canoa!


Ranger Magalhães Ribeiro - Furriel Mil.º da CCS do Batalhão 4612/74 - Mansoa/Guiné


Nota: A última Bandeira Nacional, arriada na ex-Guiné portuguesa, com cerimónia oficial e honras militares, ocorreu em Mansoa, em 9 de Setembro de 1974. A Bandeira encontra-se actualmente exposta no Museu do Centro de Instrução de Operações Especiais, na cidade de Lamego, desde Julho de 1997.




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(1) Vd. post de 21 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCIV: Eu estava lá, na entrega simbólica do território (Mansoa, 9 de Setembro de 1974)


(2) vd post de L.G. de 11 de Maio de 2005 > Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1)

Vd. também a página do nosso camarada, o ex-fuzileiro Jorge Santos, que esteve no Niassa (1968/70), e que foi o primeiro a publicar, na Net, uma antologia das canções do Niassa, recolhidas por ele e proibidas de serem cantadas em público até ao 25 de Abril de 1974 (A Guerra Colonial > Canções do Niassa)

E#m 11 de Maio de 2005 deixei expressa a minha homenagem J.M.A. Santos (hoje, membro da nossa tertúlia) "pelo seu notável trabalho de recolha, preservação e divulgação desta documentação tão efémera mas tão importante para a sociologia histórica da guerra colonial, incluindo o estudo das representações sociais do turra, o invisível e obíquo inimigo que combatíamos em Moçambique, Angola e Guiné". No total a recolha de J.M. A. Santos ultrapassa as 40 canções, disponíveis no seu site.

30 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXXV: CCART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68)

Guiné-Bissau > Porto Gole > Marco comemorativo do V Centenário da Descoberta da Guiné (1446-1946) > Porto Gole, na margem direita do Rio, na estrada Bissau - Nhacra - Mansoa - Porto Gole - Bafatá (interdita no meu tempo, 1969/71. L.G.) L.G.


© Jorge Neto (2005)

Autor do blogue Africanidades ("Vivências, imagens, e relatos sobre o grande continente - África vista pelos olhos de um branco" que... que, felizmente para ele, não conheceu a guerra colonial)


Publicámos há tempos (1) excertos do diário de Abel Rei (n. 1945), ex-combatente da Guiné (1967/68), natural da Maceira, Leiria, e actualmente residente em Embra, Marinha Grande, inserido num portal da Marinha Grande, dirigido por Carlos Barros: Marinha Grande > Palavras & Imagens > Personalidades Marinhenses > Biografias > A > Abel de Jesus Carreira Rei.

Aqui fica, mais uma vez, o endereço: Entre o Paraíso e o Inferno: de Fá a Bissá. Memórias da Guiné - 1967/1968).

Este nosso camarada (1º cabo, ao que depreendo da leitura) fez o mesmo percurso que eu e os meus camaradas da CCAÇ 12: mobilizado para a Guiné (não nos diz em que companhia ou batalhão), partiu em 1 de Fevereiro de 1967 no N/M Uíge, desembarcou em Bissau, sob um calor sufocante, apanhou uma LGD, ouviu os primeiros tiros (dos fuzileiros) e, caso curioso, não desembarcou no Xime, mas em Bambadinca…

Daí a companhia dele seguiu para para Fá [Mandinga], o seu primeiro aquartelamento na Guiné. Em 21 de Fevereiro de 1967, o nosso homem é destacado para o Xime, região onde recebe o baptismo de fogo... De 19 a 21 de Março de 1967 participa numa operação dramática ao Buruntoni, junto ao Rio Buruntoni, afluente do Rio Corubal (Op Guindaste)(vd. carta do Xime).

Em Abril de 1967 a companhia dele está espelhada por Porto Gole, Enxalé e Bissá (a leste e a oeste, respectivamente, de Porto Gole). Em 15 de Abril de 1967, ele está em Porto Gole (sede de posto administrativo, antes da guerra) e escreve o seguinte:

"Dia trágico, este, para quantos se encontravam no inferno de Bissá... Em Porto Gole, estando de serviço à meia-noite, ouvi fortes rebentamentos, e enormes clarões, lá para as bandas de Bissá. Contudo não pude averiguar ao certo o local, onde durante mais de uma hora [houve] constante tiroteio (...). Procurámos entrar em contacto pela via rádio, mas eles não deram sinal, pelo que deduzimos ser alguma operação apoiada com os obuses Mansoa, como muitas vezes estamos habituados (...).

"De manhã, e como estava previsto, saíram os homens, que na véspera tinham chegado, mais alguns deste destacamento, cuja missão era levar para Bissá um abastecimento de alimentos e munições (...).

"Partiram às seis e às sete chegaram cá civis para nos informarem de que Bissá tinha sido atacado e havia feridos a necessitarem de ser evacuados de helicóptero, pois o rádio deles estava avariado desde o princípio e não podia dar comunicação para nós, e o nosso, naquele momento para cúmulo do azar, também não obteve ligação com o Comando em Enxalé, tendo de ir pessoal em duas viaturas até lá levar a mensagem, demorando portanto, o socorro.

"Por volta do meio-dia e picos, chegou o primeiro helicóptero, e para espanto nosso, com mortos e não feridos, como supúnhamos! Depois mais três aterragens: foram sete mortos no total, todos africanos.

O Rio Geba, junto a Porto Gole. Do outro lado, a margem esquerda. Mais à frente, para leste, o Rio Corubal vai desaguar no Rio Geba. © Jorge Neto (2005)


"Houve mais cinco feridos, sendo quatro nativos do Pelotão da Polícia Administrativa, e um branco da nossa companhia, que foi evacuado para Bissau.

"Mas aconteceu o que não esperávamos, e eu confesso: apesar de estar cá há pouco tempo, vieram-me as lágrimas aos olhos. Houve choro de todos, com gritos e desmaios das mulheres que, como que adivinhando o que aconteceu, entraram de rompante dentro do destacamento, numa altura em que procedíamos à pesagem de peixe fresco chegado do rio... Tinha morrido um capitão de 2ª linha, mais seis homens nativos, todos pertencentes à Polícia Administrativa e todos eles com as famílias cá na Tabanca em Porto Gole. Morria o homem, em quem se tinham fortes esperanças, para acabar com a guerrilha inimiga na zona, o capitão Abna Na Onça, por ser corajoso e respeitado por negros e brancos. Um homem que desde o início da guerra vinha enfrentando, com máxima inteligência, aqueles que o fizeram sofrer, matando-lhe toda a família".

Em 21 de Dezembro de 1967, o comando da companhia passa do Enxalé para Porto Gole. Em Fevereiro de 1968 vamos encontra o Abel Rei de férias em Bissau, alojado na nossa conhecida Pensão Chantre. A companhia, entrento, timnha sofirdo uam série de baixas...

Em 2 de Junho de 1968, o nosso camarada escreve o seguinte no seu diário:

"Hoje esteve cá, Sua Ex.ª o Sr. Brigadeiro Spínola, Governador e Comandante - Chefe das Forças Armadas; que se encontra nestas terras, há pouco mais de uma semana. Permaneceu algumas horas em reunião confidencial, com os nossos comandos (...)".

Três dias antes a companhia de Porto Gole tinha participado, juntamente com uma outra, de Mansoa (a Companhia 2335), numa "fatídica patrulha" na mata de Seé. Cercadas pelo IN, as NT tiveram tiveram várias baixas (incluindo o capitão da Companhia 2335). E um dos homens de Mansoa foi aprisionado, tendo sido levado para Conacri.


O nosso camarada Abel Rei (que eu gostaria de convidar para pertencer à nossa tertúlia). De férias, em Bissau. Fevereiro de 1968.

© Carlos Barros (1997-2005).

Com a devida vénia e os agradecimentos da nossa tertulia. Fonte: Marinha Grande > Palavras & Imagens > Personalidades Marinhenses > Biografias > A > Abel de Jesus Carreira Rei > 14/02/1968: Férias em Bissau .


Finalmente, em 20 de Novembro de 1968, o Abel Rei está de regresso a casa e escreve a bordo do N/M Uíge as últimas linhas do seu diário, prestando uma bonita e singela homenagem aos seus camaradas, vivos e mortos:

"Nada paga tão imensa alegria, a de podermos regressar ao lar, e esquecermos tantas e tantas horas que passámos sem dormir, atentos ao inimigo, e depois de o termos aguentado, acarinharmos os nossos camaradas feridos ou chorarmos os [nossos] mortos.

"A estes últimos, os heróis desconhecidos desta guerra, aqueles que mais ninguém recordará, a não ser os pais, irmãos, esposas e filhos, a estes, a minha modesta homenagem que se resume a desejar-lhes Eterno Descanso. Irmãos de meses difíceis desta tropa, a minha lembrança por vocês, perdurará em mim eternamente, pois eu podia ter sido um de vós!"...

É um diário que vale a pena ler, com mais detalhe e atenção...


2. Mas agora pergunto eu: que companhia seria esta que estva na época em Porto Gole, Enxalé e Bissá ? O nosso amigo Jorge Neto acaba de nos mandar fotos de Porto Gole (que inserimos neste post), incluindo as de um monumento erigida pela CART 1661, que ali esteve nessa época (1967/68). Só pode ser a unidade do nosso cabo Abel Rei...

Guiné-Bissau > Porto Gole (2005) > Monumento erigido pela CART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68).

Dizeres, gravados na base do moumento, empdra: "Para ti, soldado, o testemunho do teu esforço".

Esta companhia era seguramente a do 1º cabo Abel Rei. Seria bom que as autoridades guineenses e a população em geral protegessem estes monumentos singelos que fazem parte de uma memória comum. Vou pedir ao Jorge Neto que sensibilize os seus leitores da Guiné-Bissau para o valor histórico, cultural e até turístico que têm estes testemunhos da passagem dos tugas por estas terras...


© Jorge Neto (2005)




Brazão da CART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68). Dizeres, inscritos na chapa em bronze: Coragem, Esperança.

© Jorge Neto (2005)

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(1) Vd. post de 1 de Maio 2005 > Guiné 69/71 - X: Memórias de Fá, Xime, Enxalé, Porto Gole, Bissá, Mansoa

Guiné 63/74 - CCCXXV: CCART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68)

Guiné-Bissau > Porto Gole > Marco comemorativo do V Centenário da Descoberta da Guiné (1446-1946) > Porto Gole, na margem direita do Rio, na estrada Bissau - Nhacra - Mansoa - Porto Gole - Bafatá (interdita no meu tempo, 1969/71. L.G.) L.G.


© Jorge Neto (2005)

Autor do blogue Africanidades ("Vivências, imagens, e relatos sobre o grande continente - África vista pelos olhos de um branco" que... que, felizmente para ele, não conheceu a guerra colonial)


Publicámos há tempos (1) excertos do diário de Abel Rei (n. 1945), ex-combatente da Guiné (1967/68), natural da Maceira, Leiria, e actualmente residente em Embra, Marinha Grande, inserido num portal da Marinha Grande, dirigido por Carlos Barros: Marinha Grande > Palavras & Imagens > Personalidades Marinhenses > Biografias > A > Abel de Jesus Carreira Rei.

Aqui fica, mais uma vez, o endereço: Entre o Paraíso e o Inferno: de Fá a Bissá. Memórias da Guiné - 1967/1968).

Este nosso camarada (1º cabo, ao que depreendo da leitura) fez o mesmo percurso que eu e os meus camaradas da CCAÇ 12: mobilizado para a Guiné (não nos diz em que companhia ou batalhão), partiu em 1 de Fevereiro de 1967 no N/M Uíge, desembarcou em Bissau, sob um calor sufocante, apanhou uma LGD, ouviu os primeiros tiros (dos fuzileiros) e, caso curioso, não desembarcou no Xime, mas em Bambadinca…

Daí a companhia dele seguiu para para Fá [Mandinga], o seu primeiro aquartelamento na Guiné. Em 21 de Fevereiro de 1967, o nosso homem é destacado para o Xime, região onde recebe o baptismo de fogo... De 19 a 21 de Março de 1967 participa numa operação dramática ao Buruntoni, junto ao Rio Buruntoni, afluente do Rio Corubal (Op Guindaste)(vd. carta do Xime).

Em Abril de 1967 a companhia dele está espelhada por Porto Gole, Enxalé e Bissá (a leste e a oeste, respectivamente, de Porto Gole). Em 15 de Abril de 1967, ele está em Porto Gole (sede de posto administrativo, antes da guerra) e escreve o seguinte:

"Dia trágico, este, para quantos se encontravam no inferno de Bissá... Em Porto Gole, estando de serviço à meia-noite, ouvi fortes rebentamentos, e enormes clarões, lá para as bandas de Bissá. Contudo não pude averiguar ao certo o local, onde durante mais de uma hora [houve] constante tiroteio (...). Procurámos entrar em contacto pela via rádio, mas eles não deram sinal, pelo que deduzimos ser alguma operação apoiada com os obuses Mansoa, como muitas vezes estamos habituados (...).

"De manhã, e como estava previsto, saíram os homens, que na véspera tinham chegado, mais alguns deste destacamento, cuja missão era levar para Bissá um abastecimento de alimentos e munições (...).

"Partiram às seis e às sete chegaram cá civis para nos informarem de que Bissá tinha sido atacado e havia feridos a necessitarem de ser evacuados de helicóptero, pois o rádio deles estava avariado desde o princípio e não podia dar comunicação para nós, e o nosso, naquele momento para cúmulo do azar, também não obteve ligação com o Comando em Enxalé, tendo de ir pessoal em duas viaturas até lá levar a mensagem, demorando portanto, o socorro.

"Por volta do meio-dia e picos, chegou o primeiro helicóptero, e para espanto nosso, com mortos e não feridos, como supúnhamos! Depois mais três aterragens: foram sete mortos no total, todos africanos.

O Rio Geba, junto a Porto Gole. Do outro lado, a margem esquerda. Mais à frente, para leste, o Rio Corubal vai desaguar no Rio Geba. © Jorge Neto (2005)


"Houve mais cinco feridos, sendo quatro nativos do Pelotão da Polícia Administrativa, e um branco da nossa companhia, que foi evacuado para Bissau.

"Mas aconteceu o que não esperávamos, e eu confesso: apesar de estar cá há pouco tempo, vieram-me as lágrimas aos olhos. Houve choro de todos, com gritos e desmaios das mulheres que, como que adivinhando o que aconteceu, entraram de rompante dentro do destacamento, numa altura em que procedíamos à pesagem de peixe fresco chegado do rio... Tinha morrido um capitão de 2ª linha, mais seis homens nativos, todos pertencentes à Polícia Administrativa e todos eles com as famílias cá na Tabanca em Porto Gole. Morria o homem, em quem se tinham fortes esperanças, para acabar com a guerrilha inimiga na zona, o capitão Abna Na Onça, por ser corajoso e respeitado por negros e brancos. Um homem que desde o início da guerra vinha enfrentando, com máxima inteligência, aqueles que o fizeram sofrer, matando-lhe toda a família".

Em 21 de Dezembro de 1967, o comando da companhia passa do Enxalé para Porto Gole. Em Fevereiro de 1968 vamos encontra o Abel Rei de férias em Bissau, alojado na nossa conhecida Pensão Chantre. A companhia, entrento, timnha sofirdo uam série de baixas...

Em 2 de Junho de 1968, o nosso camarada escreve o seguinte no seu diário:

"Hoje esteve cá, Sua Ex.ª o Sr. Brigadeiro Spínola, Governador e Comandante - Chefe das Forças Armadas; que se encontra nestas terras, há pouco mais de uma semana. Permaneceu algumas horas em reunião confidencial, com os nossos comandos (...)".

Três dias antes a companhia de Porto Gole tinha participado, juntamente com uma outra, de Mansoa (a Companhia 2335), numa "fatídica patrulha" na mata de Seé. Cercadas pelo IN, as NT tiveram tiveram várias baixas (incluindo o capitão da Companhia 2335). E um dos homens de Mansoa foi aprisionado, tendo sido levado para Conacri.


O nosso camarada Abel Rei (que eu gostaria de convidar para pertencer à nossa tertúlia). De férias, em Bissau. Fevereiro de 1968.

© Carlos Barros (1997-2005).

Com a devida vénia e os agradecimentos da nossa tertulia. Fonte: Marinha Grande > Palavras & Imagens > Personalidades Marinhenses > Biografias > A > Abel de Jesus Carreira Rei > 14/02/1968: Férias em Bissau .


Finalmente, em 20 de Novembro de 1968, o Abel Rei está de regresso a casa e escreve a bordo do N/M Uíge as últimas linhas do seu diário, prestando uma bonita e singela homenagem aos seus camaradas, vivos e mortos:

"Nada paga tão imensa alegria, a de podermos regressar ao lar, e esquecermos tantas e tantas horas que passámos sem dormir, atentos ao inimigo, e depois de o termos aguentado, acarinharmos os nossos camaradas feridos ou chorarmos os [nossos] mortos.

"A estes últimos, os heróis desconhecidos desta guerra, aqueles que mais ninguém recordará, a não ser os pais, irmãos, esposas e filhos, a estes, a minha modesta homenagem que se resume a desejar-lhes Eterno Descanso. Irmãos de meses difíceis desta tropa, a minha lembrança por vocês, perdurará em mim eternamente, pois eu podia ter sido um de vós!"...

É um diário que vale a pena ler, com mais detalhe e atenção...


2. Mas agora pergunto eu: que companhia seria esta que estva na época em Porto Gole, Enxalé e Bissá ? O nosso amigo Jorge Neto acaba de nos mandar fotos de Porto Gole (que inserimos neste post), incluindo as de um monumento erigida pela CART 1661, que ali esteve nessa época (1967/68). Só pode ser a unidade do nosso cabo Abel Rei...

Guiné-Bissau > Porto Gole (2005) > Monumento erigido pela CART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68).

Dizeres, gravados na base do moumento, empdra: "Para ti, soldado, o testemunho do teu esforço".

Esta companhia era seguramente a do 1º cabo Abel Rei. Seria bom que as autoridades guineenses e a população em geral protegessem estes monumentos singelos que fazem parte de uma memória comum. Vou pedir ao Jorge Neto que sensibilize os seus leitores da Guiné-Bissau para o valor histórico, cultural e até turístico que têm estes testemunhos da passagem dos tugas por estas terras...


© Jorge Neto (2005)




Brazão da CART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68). Dizeres, inscritos na chapa em bronze: Coragem, Esperança.

© Jorge Neto (2005)

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(1) Vd. post de 1 de Maio 2005 > Guiné 69/71 - X: Memórias de Fá, Xime, Enxalé, Porto Gole, Bissá, Mansoa

Guiné 63/74 - CCCXXIV: A escola de Bissássema (CCAÇ 3327, 1971/73)

Bissássema, Março de 1972 > Balantas em traje de festa.

© Rui Esteves (2005)


Texto de Rui Esteves, ex-furriel miliciano enfermeiro (CCAÇ 3327, Teixeira Pinto e Bissássema, 1971/73).





Educação de adultos – Escola em Bissássema


Em Novembro de 1971 fomos transferidos da região de Teixeira Pinto para a região de Tite, ficando a quase totalidade da CCAÇ 3327 instalada em Bissássema. Ficámos aqui até ao fim da nossa comissão de serviço.

A nossa viagem através da Guiné era digna de se ver: quase toda a gente tinha um animal de estimação. Havia cães, macacos e periquitos. A viagem foi feita em camiões e, quando era preciso, de barco (aqui, no barco, com tanta bicharada, parecia mesmo a Arca de Noé).

Instalados em Bissássema, começámos vida nova: em Teixeira Pinto, terra do povo manjaco, tínhamos servido de seguranças ao pessoal que abria a nova estrada; aqui, na terra dos balantas, íamos continuar a construção do novo aldeamento.

Passado poucos dias, chama-me o Capitão Alves (Rogério Rebocho Alves, Capitão Miliciano, comandante da CCaç. 3327, tão periquito quanto nós todos!) e comunica-me que vou ser professor dos soldados que pretendessem completar o Ensino Primário.

Havia de tudo: soldados que nem sabiam ler, outros que sabiam alguma coisa mas não tinham feito o exame da 4.ª classe.

Fiquei a dar aulas a este último grupo – os mais letrados – e todas as noites, depois do jantar, lá me reunia com o grupo de alunos e começava a aula.

Do que eu mais gostava era das então chamadas Redacções (hoje, parece-me que são chamadas de Composições).

Dei todos os temas habituais: o cão, o melhor amigo do homem; a vaca, essa nossa amiga que nos dá o leite e a carne; a árvore, a cuja sombra nos acolhemos e que ainda se desdobra em combustível e em pasta de papel, etc., etc.

Inevitavelmente, cheguei a uma altura em que já não sabia mais o que sugerir para tema.

Aí, socorri-me do dia-a-dia e tudo servia para pôr os meus alunos a escrever.

Um dia, pela manhã, descobrimos que o caminho entre Bissássema e Tite estava minado: o PAIGC tinha colocado algumas minas anti-carro no caminho e também anti-pessoal num local onde escreveram “VIVA O PAIGC”.

A mina anti-pessoal foi detonada da pior maneira: um guia ficou sem a perna.

Estava descoberto tema para essa noite: os meus alunos iam escrever sobre as minas.

Nunca me esquecerei da redacção do Cabral, o nosso cozinheiro, e o meu melhor aluno: escreveu ele, “Há minas boas e minas más. As minas boas são as que nós pomos aos turras. As minas más são as que eles põem a nós.”

Vila Nova de Gaia, 29 de Novembro de 2005.

Guiné 63/74 - CCCXXIV: A escola de Bissássema (CCAÇ 3327, 1971/73)

Bissássema, Março de 1972 > Balantas em traje de festa.

© Rui Esteves (2005)


Texto de Rui Esteves, ex-furriel miliciano enfermeiro (CCAÇ 3327, Teixeira Pinto e Bissássema, 1971/73).





Educação de adultos – Escola em Bissássema


Em Novembro de 1971 fomos transferidos da região de Teixeira Pinto para a região de Tite, ficando a quase totalidade da CCAÇ 3327 instalada em Bissássema. Ficámos aqui até ao fim da nossa comissão de serviço.

A nossa viagem através da Guiné era digna de se ver: quase toda a gente tinha um animal de estimação. Havia cães, macacos e periquitos. A viagem foi feita em camiões e, quando era preciso, de barco (aqui, no barco, com tanta bicharada, parecia mesmo a Arca de Noé).

Instalados em Bissássema, começámos vida nova: em Teixeira Pinto, terra do povo manjaco, tínhamos servido de seguranças ao pessoal que abria a nova estrada; aqui, na terra dos balantas, íamos continuar a construção do novo aldeamento.

Passado poucos dias, chama-me o Capitão Alves (Rogério Rebocho Alves, Capitão Miliciano, comandante da CCaç. 3327, tão periquito quanto nós todos!) e comunica-me que vou ser professor dos soldados que pretendessem completar o Ensino Primário.

Havia de tudo: soldados que nem sabiam ler, outros que sabiam alguma coisa mas não tinham feito o exame da 4.ª classe.

Fiquei a dar aulas a este último grupo – os mais letrados – e todas as noites, depois do jantar, lá me reunia com o grupo de alunos e começava a aula.

Do que eu mais gostava era das então chamadas Redacções (hoje, parece-me que são chamadas de Composições).

Dei todos os temas habituais: o cão, o melhor amigo do homem; a vaca, essa nossa amiga que nos dá o leite e a carne; a árvore, a cuja sombra nos acolhemos e que ainda se desdobra em combustível e em pasta de papel, etc., etc.

Inevitavelmente, cheguei a uma altura em que já não sabia mais o que sugerir para tema.

Aí, socorri-me do dia-a-dia e tudo servia para pôr os meus alunos a escrever.

Um dia, pela manhã, descobrimos que o caminho entre Bissássema e Tite estava minado: o PAIGC tinha colocado algumas minas anti-carro no caminho e também anti-pessoal num local onde escreveram “VIVA O PAIGC”.

A mina anti-pessoal foi detonada da pior maneira: um guia ficou sem a perna.

Estava descoberto tema para essa noite: os meus alunos iam escrever sobre as minas.

Nunca me esquecerei da redacção do Cabral, o nosso cozinheiro, e o meu melhor aluno: escreveu ele, “Há minas boas e minas más. As minas boas são as que nós pomos aos turras. As minas más são as que eles põem a nós.”

Vila Nova de Gaia, 29 de Novembro de 2005.

Guiné 63/74 - CCCXXIII: Antologia (29): depoimento de Hélio Felgas (3): os ataques aos acampamentos do IN

Publicamos hoje a III parte do depoimento do brigadeiro Hélio Felgas. Selecção: minha e do Humberto Reis. Fonte: "Os últimos guerreiros do império" (Amadora: Erasmo 1995. 134-135)


Os ataques a campamentos do Inimigo (1)

Quando tínhamos notícia da existência de um acampamento de guerrilheiros, imediatamente se faziam os planos de assalto: chegar as proximidades do local antes do amanhecer; um pelotão a cercar pela direita; outro pela esquerda e o resto dos efectivos lançados em corrida pela picada da entrada.

Se o acampamento inimigo ficava longe do nosso aquartelamento, utilizávamos primeiro as viaturas dando uma volta enorme, para não alertarmos possíveis vigias. Depois, iniciava-se a marcha nocturna através de pântanos e bolanhas onde, inadvertidamente, um ou outro mergulhava. E como era difícil ajudá-los a emergir naquela escuridão, pesando cada homem mais de cem quilos, por causa do armamento e das munições!
A fila indiana prosseguia entre gritos estranhos de aves invisíveis (on seria o adversário a trocar sinais) e o colossal concerto das rãs subitamente interrompido pela nossa passagem.

A proximidade do acampamento era anunciada, em surdina, pelo guia. apesar de todos a sentirmos. O mato tornava-se mais denso fazendo desaparecer a picada e obrigando-nos, por vezes, a rastejar. De repente a corrida, o assalto, as granadas rebentando. Todos a dispararem e a procurarem entrar mais fundo naquele labirinto que chegava a atingir centenas de metros. Logo apareciam as primeiras barracas bem escondidas, as primeiras armas abandonadas. Todos tinham conseguido fugir, o que, apesar de normal, sempre causava alguma desilusão entre os nossos soldados.

Na Guiné não se podia deixar uma zona abandonada por muito tempo. 0 adversário considerava-a logo «zona libertada» do nosso domínio. Por isso, realizávamos operacões de longa duração, as temidas nomadizacões. em zonas que os guerrilheiros efectivamente controlavam.

Lembro-me de uma que comandei no Fifioli, região onde o rio Corubal desenha aquela enorme curva antes de se juntar ao Geba. Durante onze dias, sempre com temperaturas de 44 e 45 graus à sombra, palmilhamos dezenas de quilómetros, sob densas manchas florestais ou através daquelas descampadas bolanhas, umas vezes secas e duras, outras inundadas e lamacentas. A marcha prosseguia sempre em fila indiana, já com agua a escassear nos cantis. Era horrível a sede. Por fim, numa tabanca abandonada lá se descobriu alguma água, em condições duvidosas.

Ao longe, na linha do horizonte, avistavam-se vultos que pareciam seguir os nossos passes. E, nas zonas arborizadas, era evidente que alguém espreitava. Era uma sensação desagradável. Nem mesmo quando éramos emboscados, víamos quem nos atacava.

____

(1) Vd. posts anteriores, de 25 de Novembro de 2005

Guiné 63/74 - CCCVIII: Antologia (27): depoimento do brigadeiro Hélio Felgas (1): os aquartelamentos

Guiné 63/74 - CCCXII: Antologia (28): depoimento de Hélio Felgas (2): as emboscadas

Guiné 63/74 - CCCXXIII: Antologia (29): depoimento de Hélio Felgas (3): os ataques aos acampamentos do IN

Publicamos hoje a III parte do depoimento do brigadeiro Hélio Felgas. Selecção: minha e do Humberto Reis. Fonte: "Os últimos guerreiros do império" (Amadora: Erasmo 1995. 134-135)


Os ataques a campamentos do Inimigo (1)

Quando tínhamos notícia da existência de um acampamento de guerrilheiros, imediatamente se faziam os planos de assalto: chegar as proximidades do local antes do amanhecer; um pelotão a cercar pela direita; outro pela esquerda e o resto dos efectivos lançados em corrida pela picada da entrada.

Se o acampamento inimigo ficava longe do nosso aquartelamento, utilizávamos primeiro as viaturas dando uma volta enorme, para não alertarmos possíveis vigias. Depois, iniciava-se a marcha nocturna através de pântanos e bolanhas onde, inadvertidamente, um ou outro mergulhava. E como era difícil ajudá-los a emergir naquela escuridão, pesando cada homem mais de cem quilos, por causa do armamento e das munições!
A fila indiana prosseguia entre gritos estranhos de aves invisíveis (on seria o adversário a trocar sinais) e o colossal concerto das rãs subitamente interrompido pela nossa passagem.

A proximidade do acampamento era anunciada, em surdina, pelo guia. apesar de todos a sentirmos. O mato tornava-se mais denso fazendo desaparecer a picada e obrigando-nos, por vezes, a rastejar. De repente a corrida, o assalto, as granadas rebentando. Todos a dispararem e a procurarem entrar mais fundo naquele labirinto que chegava a atingir centenas de metros. Logo apareciam as primeiras barracas bem escondidas, as primeiras armas abandonadas. Todos tinham conseguido fugir, o que, apesar de normal, sempre causava alguma desilusão entre os nossos soldados.

Na Guiné não se podia deixar uma zona abandonada por muito tempo. 0 adversário considerava-a logo «zona libertada» do nosso domínio. Por isso, realizávamos operacões de longa duração, as temidas nomadizacões. em zonas que os guerrilheiros efectivamente controlavam.

Lembro-me de uma que comandei no Fifioli, região onde o rio Corubal desenha aquela enorme curva antes de se juntar ao Geba. Durante onze dias, sempre com temperaturas de 44 e 45 graus à sombra, palmilhamos dezenas de quilómetros, sob densas manchas florestais ou através daquelas descampadas bolanhas, umas vezes secas e duras, outras inundadas e lamacentas. A marcha prosseguia sempre em fila indiana, já com agua a escassear nos cantis. Era horrível a sede. Por fim, numa tabanca abandonada lá se descobriu alguma água, em condições duvidosas.

Ao longe, na linha do horizonte, avistavam-se vultos que pareciam seguir os nossos passes. E, nas zonas arborizadas, era evidente que alguém espreitava. Era uma sensação desagradável. Nem mesmo quando éramos emboscados, víamos quem nos atacava.

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(1) Vd. posts anteriores, de 25 de Novembro de 2005

Guiné 63/74 - CCCVIII: Antologia (27): depoimento do brigadeiro Hélio Felgas (1): os aquartelamentos

Guiné 63/74 - CCCXII: Antologia (28): depoimento de Hélio Felgas (2): as emboscadas

29 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXXII: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' do Paulo Salgado) (5): para onde ?

Post nº 322 (CCCXXII)
O Jorge Neto, a caminho da pátria, desta vez, de piroga... Espera-se que ainda chegue a tempo de comer o bacalhau com pencas do Natal de 2005.

© Jorge Neto (2005) :


1. Há dias perguntei ao Jorge Neto, autor do melhor blogue sobre a Guiné, o Africanidades:

"Tens sabido do Paulo Salgado ? Estou a estranhar o silêncio dele... Roubaram-lhe o portátil, deixou de dar notícias... Ele está no Hospital Simão Mendes. Vê se o topas. Não sei se o conheces pessoalmente. É um tipo fixe".

Respondeu-lhe o nosso corresponente em Bissau:

"Olá Luís, o Paulo Salgado mora mesmo ao meu lado, no Bairro da Cooperação, onde resido por inerência da minha esposa. Ele queixa-se que anda com muito trabalho e eu acredito, porque conheço o [Hospital]Simão Mendes e sei que de hospital tem muito pouco. Espero que eles o ajudem a endireitar.

"Aproveito para dar uma sugestão. O manancial de informação que vai sendo publicado no Blogue-fora-nada daqui a mais dá para fazer um livrinho (livrão!). Que tal começarmos a pensar na ideia? Leitores não hão-de faltar e as receitas das vendas podiam ser investidas num projecto (daqueles credíveis) que se encontre aqui pela Guiné. Vocês têm os textos e as fotos do antes. Eu ofereço-me para oferecer as do depois. Está lançada a ideia".

Comentário de L.G.: Vamos vender a ideia aos nossos amigos e camaradas de tertúlia. Vamos ver se há mercado para um livro destes. Mas, para já, o meu muito obrigado pela tua dispoonibilidade e generosidade. Tenho adorado as tuas fotos e os escritos. De vez em quando, vou lá roubar-te uma "chapa"...





2. Hoje fiquei mais tranquilo ao receber notícias do próprio Paulo Salgado (e do resto ou de parte da equipa: a Conceição, o Jorge Leal).

Ele mandou-me um poema e umas fotos recentes. Uma de cada vez, que o trágefo para aquelas bandas ainda não conhece as velocidades do nosso ADSL...

Que bom saber notícias dos nossos amigos que estão em Bissau!... Um grande abraço para todos eles, e o nosso muito obrigado pelas fotos que enriquecem o nosso album e que iremos divulgando no blogue.
Guiné-Bissau > Uaque > Novembro de 2005

© Paulo Salgado e Jorge Leal (2005)


3. Texto do Paulo Salgado


Camaradas e Amigos

O Bombolom [do Paulo Salgado] não se calou! Podeis ter a certeza. Reinicio com um poema simples, dedicado ao Povo da Guiné. Mas há tantos e belos e profundos poemas que foram e são escritos por Poetas, grandes Poetas desta Terra.


Para onde?


Para onde vai a picada batida,
avermelhada,
crestada?

Para onde vão as crianças
brincando
sorridentes?


Para onde vão as mulheres
caminhando,
desassossegando?

Para onde vão os homens
cavando,
desbravando?


Povo deste País
– qual o teu futuro?
Povo deste País
- por que ainda sorris?


Paulo Salgado
Bissau, 27 de Novembro de 2005


Guiné- Bissau > Uaque > A picada de terra vermelha...

© Paulo Salgado e Jorge Leal (2005 )

Guiné 63/74 - CCCXXII: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' do Paulo Salgado) (5): para onde ?

Post nº 322 (CCCXXII)
O Jorge Neto, a caminho da pátria, desta vez, de piroga... Espera-se que ainda chegue a tempo de comer o bacalhau com pencas do Natal de 2005.

© Jorge Neto (2005) :


1. Há dias perguntei ao Jorge Neto, autor do melhor blogue sobre a Guiné, o Africanidades:

"Tens sabido do Paulo Salgado ? Estou a estranhar o silêncio dele... Roubaram-lhe o portátil, deixou de dar notícias... Ele está no Hospital Simão Mendes. Vê se o topas. Não sei se o conheces pessoalmente. É um tipo fixe".

Respondeu-lhe o nosso corresponente em Bissau:

"Olá Luís, o Paulo Salgado mora mesmo ao meu lado, no Bairro da Cooperação, onde resido por inerência da minha esposa. Ele queixa-se que anda com muito trabalho e eu acredito, porque conheço o [Hospital]Simão Mendes e sei que de hospital tem muito pouco. Espero que eles o ajudem a endireitar.

"Aproveito para dar uma sugestão. O manancial de informação que vai sendo publicado no Blogue-fora-nada daqui a mais dá para fazer um livrinho (livrão!). Que tal começarmos a pensar na ideia? Leitores não hão-de faltar e as receitas das vendas podiam ser investidas num projecto (daqueles credíveis) que se encontre aqui pela Guiné. Vocês têm os textos e as fotos do antes. Eu ofereço-me para oferecer as do depois. Está lançada a ideia".

Comentário de L.G.: Vamos vender a ideia aos nossos amigos e camaradas de tertúlia. Vamos ver se há mercado para um livro destes. Mas, para já, o meu muito obrigado pela tua dispoonibilidade e generosidade. Tenho adorado as tuas fotos e os escritos. De vez em quando, vou lá roubar-te uma "chapa"...





2. Hoje fiquei mais tranquilo ao receber notícias do próprio Paulo Salgado (e do resto ou de parte da equipa: a Conceição, o Jorge Leal).

Ele mandou-me um poema e umas fotos recentes. Uma de cada vez, que o trágefo para aquelas bandas ainda não conhece as velocidades do nosso ADSL...

Que bom saber notícias dos nossos amigos que estão em Bissau!... Um grande abraço para todos eles, e o nosso muito obrigado pelas fotos que enriquecem o nosso album e que iremos divulgando no blogue.
Guiné-Bissau > Uaque > Novembro de 2005

© Paulo Salgado e Jorge Leal (2005)


3. Texto do Paulo Salgado


Camaradas e Amigos

O Bombolom [do Paulo Salgado] não se calou! Podeis ter a certeza. Reinicio com um poema simples, dedicado ao Povo da Guiné. Mas há tantos e belos e profundos poemas que foram e são escritos por Poetas, grandes Poetas desta Terra.


Para onde?


Para onde vai a picada batida,
avermelhada,
crestada?

Para onde vão as crianças
brincando
sorridentes?


Para onde vão as mulheres
caminhando,
desassossegando?

Para onde vão os homens
cavando,
desbravando?


Povo deste País
– qual o teu futuro?
Povo deste País
- por que ainda sorris?


Paulo Salgado
Bissau, 27 de Novembro de 2005


Guiné- Bissau > Uaque > A picada de terra vermelha...

© Paulo Salgado e Jorge Leal (2005 )