23 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCCVII: Convívios do pessoal do BCAÇ 2852 e da CCAÇ 12: Resende (1999)

Fotos que o Humberto Reis me mandou em 17 de Agosto de 2005, e que só agora chegam ao conhecimento da tertúlia. Aqui vão, com legenda. Os créditos fotográficos são do fotógrafo de serviço...

Faço votos para que estes camaradas, aqui identificados, apareçam aqui um dia destes a bater à porta da nossa tertúlia... Por minha parte, recordo com saudade, o pessoal da minha companhia, a CCAÇ 12: o Valente (ferido em combate), o Ramos, o Encarnação, o Galvão (ferido ao meu lado num operação na região do Xime, de que haveremos de falar um dia destes), o Patronilho, para além, obviamente, do Vacas de Carvalho, das Daimlers (que foi meu vizinho aqui, em Alfragide) e do pessoal do BCAÇ 2852, incluindo o nosso major Cunha Ribeiro, o eléctrico, o tal que um dia me disse, a mim e aos meus nharros:
- Se esta merda fosse uma fábrica minha, eu despedia-vos a todos, cambada de malandros!... (Andávamos a abrir valas, no perímetro do quartel, sob o sol escaldante da Guiné... E a pior coisa que podiam fazer a uma fula era dar-lhe uma enxada, uma pá e/ou uma picareta... Idiossincrasias dos fulas, que me diziam: - Trabalhar é bom para a mulher e para o tuga... Em contrapartida, era preciso andar à porrada com eles, debaixo de fogo, para eles se calaram por uns segundos!).

Claro que hoje recordo este (e outros episódios do nosso convívio quotidiano em Bambadinca) com um sorriso nos lábios... Porque recordar é viver. Falhei este almoço em Resende, em 1999, na casa de campo do Pinto dos Santos, de quem afinal também sou vizinho (vd. A Nossa Quinta de Candoz). Luís Graça

© Humberto Reis (2005).



Luís: Aqui vai uma foto de um almoço em Resende, na quinta do Pinto dos Santos, ex-furriel miliciano de Operações e Informações da CCS do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/72), realizado em 29 de Maio de 1999.

Identificam-se sentados na zona da relva e da esquerda para a direita :

(i) eu (e a Teresa); o ex-1º cabo Valente (o nosso barbeiro, da CCAÇ 12), residente no Porto; o ex-alferes miliciano Vacas de Carvalho, do Pelotão Daimler, residente em Lisboa;

(ii) no 1º degrau da escada reconhece-se o anfitrião, residente no Porto-Miramar e em Resende;

(iii) no 2º degrau, de barbas, o ex-soldado radiotelegrafista da CCAÇ 12, Ramos, residente na Quinta do Anjo, em Palmela;

(iv) no 3º degrau, o ex-1º cabo Galvão, da CCAÇ 12, residente na Covilhã; a seguir o ex-major de operações do BCAÇ 2852, o Cunha Ribeiro (mais conhecido por "o eléctrico" ou "o tiques") , residente no Porto;

(v) e no último degrau, ainda sentado, o ex-1º cabo Encarnação da CCAÇ 12 e residente em Massamá; o que está de pé, com a mão no corrimão da escada, é o ex-soldado condutor auto da CCAÇ 12 Patronilho, residente em Azeitão; dos restantes não me lembro dos nomes.


© Humberto Reis (2005).

Eis a segunda foto do almoço de Resende, com uma vista espectacular do Douro, tirada do quarto onde fiquei instalado lá no Turismo Rural (ou de Habitação?), do Pinto dos Santos.

Reconhecem-se da esquerda para a direita: (i) o Vacas de Carvalho; (ii) o Pinto dos Santos a conversar com o Cunha Ribeiro, que está de costas; (iii) o ex-furriel miliciano Lopes, dos Reabastecimentos, do BCAÇ 2852, residente em Linda A Velha; (iv) o ex-fur mil sapador do BCAÇ 2852 Bernardo, residente em Leiria; (v) e, de polo amarelo, o ex-1º cabo enfermeiro da CCAÇ 12 Sousa, residente na Trofa.

Guiné 63/74 - CCCVII: Convívios do pessoal do BCAÇ 2852 e da CCAÇ 12: Resende (1999)

Fotos que o Humberto Reis me mandou em 17 de Agosto de 2005, e que só agora chegam ao conhecimento da tertúlia. Aqui vão, com legenda. Os créditos fotográficos são do fotógrafo de serviço...

Faço votos para que estes camaradas, aqui identificados, apareçam aqui um dia destes a bater à porta da nossa tertúlia... Por minha parte, recordo com saudade, o pessoal da minha companhia, a CCAÇ 12: o Valente (ferido em combate), o Ramos, o Encarnação, o Galvão (ferido ao meu lado num operação na região do Xime, de que haveremos de falar um dia destes), o Patronilho, para além, obviamente, do Vacas de Carvalho, das Daimlers (que foi meu vizinho aqui, em Alfragide) e do pessoal do BCAÇ 2852, incluindo o nosso major Cunha Ribeiro, o eléctrico, o tal que um dia me disse, a mim e aos meus nharros:
- Se esta merda fosse uma fábrica minha, eu despedia-vos a todos, cambada de malandros!... (Andávamos a abrir valas, no perímetro do quartel, sob o sol escaldante da Guiné... E a pior coisa que podiam fazer a uma fula era dar-lhe uma enxada, uma pá e/ou uma picareta... Idiossincrasias dos fulas, que me diziam: - Trabalhar é bom para a mulher e para o tuga... Em contrapartida, era preciso andar à porrada com eles, debaixo de fogo, para eles se calaram por uns segundos!).

Claro que hoje recordo este (e outros episódios do nosso convívio quotidiano em Bambadinca) com um sorriso nos lábios... Porque recordar é viver. Falhei este almoço em Resende, em 1999, na casa de campo do Pinto dos Santos, de quem afinal também sou vizinho (vd. A Nossa Quinta de Candoz). Luís Graça

© Humberto Reis (2005).



Luís: Aqui vai uma foto de um almoço em Resende, na quinta do Pinto dos Santos, ex-furriel miliciano de Operações e Informações da CCS do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/72), realizado em 29 de Maio de 1999.

Identificam-se sentados na zona da relva e da esquerda para a direita :

(i) eu (e a Teresa); o ex-1º cabo Valente (o nosso barbeiro, da CCAÇ 12), residente no Porto; o ex-alferes miliciano Vacas de Carvalho, do Pelotão Daimler, residente em Lisboa;

(ii) no 1º degrau da escada reconhece-se o anfitrião, residente no Porto-Miramar e em Resende;

(iii) no 2º degrau, de barbas, o ex-soldado radiotelegrafista da CCAÇ 12, Ramos, residente na Quinta do Anjo, em Palmela;

(iv) no 3º degrau, o ex-1º cabo Galvão, da CCAÇ 12, residente na Covilhã; a seguir o ex-major de operações do BCAÇ 2852, o Cunha Ribeiro (mais conhecido por "o eléctrico" ou "o tiques") , residente no Porto;

(v) e no último degrau, ainda sentado, o ex-1º cabo Encarnação da CCAÇ 12 e residente em Massamá; o que está de pé, com a mão no corrimão da escada, é o ex-soldado condutor auto da CCAÇ 12 Patronilho, residente em Azeitão; dos restantes não me lembro dos nomes.


© Humberto Reis (2005).

Eis a segunda foto do almoço de Resende, com uma vista espectacular do Douro, tirada do quarto onde fiquei instalado lá no Turismo Rural (ou de Habitação?), do Pinto dos Santos.

Reconhecem-se da esquerda para a direita: (i) o Vacas de Carvalho; (ii) o Pinto dos Santos a conversar com o Cunha Ribeiro, que está de costas; (iii) o ex-furriel miliciano Lopes, dos Reabastecimentos, do BCAÇ 2852, residente em Linda A Velha; (iv) o ex-fur mil sapador do BCAÇ 2852 Bernardo, residente em Leiria; (v) e, de polo amarelo, o ex-1º cabo enfermeiro da CCAÇ 12 Sousa, residente na Trofa.

Guiné 63/74 - CCCVI: Antologia (26): A geração do stresse pós-traumático de guerra

Post nº 306 (CCCVI)


© A. Marques Lopes (2005)



Dois jovens portugueses, "passando férias" em Banjara, algures na Zona Leste da Guiné, por volta de 1967 (enquanto os seus colegas americanos se batiam pela liberdade e morriam no Vietname, como tordos...).

Na altura estes tugas estavam alegremente a capinar o terreno e deitar abaixo árvores para montarem a tenda... Como se vê, naquela época ainda não havia qualquer sensibilidade ecológivca...

[ Banjara, destacamento da CART 1690, sediada em Geba, e de que o nosso A. Marques Lopes foi alferes miliciano atirador... Banjara ficava na estrada Bissau-Mansabá-Bafatá. Mais a norte, ou melhor, a nordeste, ficava Cantacunda, o sítio da Guiné onde o PAIGC, de um só vez, apanhou 11 militares portugueses, à mão, e matou outro...] (1)

__________________


Por sugestão do nosso amigo e camarada Jorge Santos (ex-fuzileiro, autor da página sobre A Guerra Colonial e membro da nossa tertúlia), aqui fica um belíssimo, comovente e frontal testemunho de um oficial médico da Marinha - como presumo que seja o autor destas histórias da botica, escritas na Revista da Armada, sob o pseudónimo Doc - que um dia encontrou, na urgência de um hospital, um ex-combatente da Guiné, das tropas especiais, com visíveis problemas de stresse pós-traumático de guerra, e que o soube ouvir, apoiar e encaminhar, mesmo sendo ainda um jovem interno do internato complementar da sua especialdade (não diz qual...).

Curiosamente, reparo agora que nunca falámos aqui, nesta tertúlia, desse problema que se chama stresse pós-traumático de guerra (2). L.G.
__________________


Histórias da botica (14): o combatente. Revista da Armada. 348, (Dezembro de 2001).
(Com a devida vénia e os nossos agradecimentos à esta excelente publicação da nossa Marinha e ao autor do texto. Subtítulos da minha responsabiliddae. L.G. ).


Há não muito tempo, numa Urgência de um grande hospital da capital alguém gritava:

- Olhe que eu já matei por Portugal!! – era um homem de meia idade, desgrenhado e de barba por fazer. Aproximei-me dos gritos. No caminho um enfermeiro saía irritado afirmando: mais um doido. É o terceiro hoje!

De perto o homem, apesar da agitação, tinha um ar digno. Era alto, com um ar sólido de quem é capaz de mover montanhas, a barba, já grisalha, assentava sob uma tez morena, de homem do campo. Olhava directamente nos olhos da sua interlocutora: uma médica, por quem eu não tinha muito apreço – no geral, conflituosa e pouco estimada por todos os outros naquela equipa de urgência. Era até conhecida, entre os mais novos, pela peçonhenta, uma vez que da sua pele emanava um brilho pouco natural, certamente graças aos muitos cremes de beleza, com que besuntava a face.

Tratava-se de uma discussão por papéis, em que a peçonhenta argumentava de maneira agressiva, afirmando que a “ficha” do paciente não existia. Este defendia-se dizendo que não sabia nada de “fichas”, esperava haviam já 3 horas e queria ser atendido. Então, com a humildade própria de um simples interno, avancei e disse, a tão ilustre clínica, que ia atender o senhor. Que se acalmasse, que outros doentes com “fichas” no devido lugar esperavam por ela.


Um ex-operacional das tropas especiais


Fui movido pela curiosidade, antevendo a história que tal homem produziria. Queria saber afinal quem ele matou e porquê? Conversámos, então, num corredor movimentado, onde todos passavam demasiado apressados para nos ouvir.

Queixava-se de insónias, há já uma semana que não conciliava o sono...

Tinha combatido nas tropas especiais da guerra de África, na Guiné. Já fora casado mas a mulher deixara-o. Os seus dois filhos viviam com a mulher, que lhes dizia que o pai não prestava. Desde o final da guerra, tinha tido vários empregos, mas não os conservara. Vivia de biscates e morava numa caravana, velha, num parque de campismo dos subúrbios.

- Mas agora não dorme exactamente porquê? – perguntei eu, tentando ser objectivo.

Não dormia porque era como se tudo fosse real. Ainda sentia os cheiros de África, a humidade no tarrafo, o capim na face, o camuflado colado ao corpo, o peso, frio, da metralhadora nas mãos... Mas o pior, o pior, era a sensação de medo...

A emboscada e o sangue do António, que ainda sentia nas mãos, o amigo que segurara nas mãos, até ao último estertor. Era véspera de Natal, tinham ido tomar banho a um riacho próximo, quando foram atacados...O António era o primeiro da fila – percebe, doutor – os turras apontaram a quem vinha à frente...

Tudo lhe voltava, num ciclo infindável de medo, agressividade e sofrimento...

Achava que não tinha tido do país, por quem arriscou a vida, qualquer reconhecimento. Afinal, quando voltou não lhe tinham reservado o trabalho, para o qual "era preciso ter o serviço militar cumprido", outro, um revolucionário exilado em Paris na época colonial, tinha ocupado o lugar...

Casou, mas divorciou-se, pouco tempo depois. Não conseguia explicar à mulher a ansiedade da espera, os gritos da refrega, nem o sangue do amigo morto, que lhe salpicara a cara. Se tinha pesadelos? Não, tinha poucos pesadelos, porque dormia pouco...Eram mesmo os dias que o enervavam...


Na Guiné, longe do Vietname...


Tudo isto, achava ele, não interessava a ninguém no país actual, E não compreendia nada...não compreendia um país em que as ruas se enchem de dejectos de cães e senhoras com nome de cão, como Lalá e Bibi, artificiais e secas, preenchem os serões de televisão. Não percebia, ainda, porquê pouco se falava do António, nem de todos os que partiram por servirem, a custo da própria vida, uma causa que lhes havia sido imposta...Não compreendia, finalmente, porquê, no nosso país se obliterava como se de um segundo se tratasse, uma guerra que marcou gerações...Pelo menos no Vietname há filmes, as pessoas revêm o seu sofrimento, parece haver reconhecimento – dizia com dor no olhar.

Lembrei-me, recentemente, deste Combatente. Nestas férias de Verão vi que na parada de um antigo quartel, onde existe uma placa com os nomes dos mortos em acção, nos vários conflitos em que o regimento participara, tinham construído um lago de aspecto nada condizente com o lugar, nem com o respeito merecido por aqueles que já partiram e cuja memória dignifica o lugar.

Pareceu-me um sacrilégio. Seria como construir um lago de patos sobre os monges sepultados, num qualquer átrio de igreja...Pareceu-me ainda pior, porque esse quartel, agora transformado em parque turístico, é gerido por militares...

Na verdade, acredito, que poucos países revelaram, pelo menos na época actual, tanto desrespeito pelos seus veteranos de guerra. E estou certo, que o Combatente tem razão. No nosso país, nem mesmo aos políticos – a grande maioria [tem]apresentado, de forma implícita ou explícita, pouca simpatia pelos militares - interessam os sofrimentos de um grupo de homens tristes, marcados pelo dor e pela desgraça.

Eu nunca combati. Nunca estive na Guiné. Não posso compreender, na sua totalidade, o sofrimento deste homem, nem de outros como ele...Impressionou-me a história de um homem destroçado, ainda a combater pela vida, tantos anos após o fim da guerra. Pareceu-me um preço patriótico demasiado elevado, num país em que cada vez mais os valores da nação se vergam ao dinheiro, ao voto fácil, à falsidade e à negociata barata.

Sei, que quando penso no Combatente, e na história da sua vida, tenho pena, muita pena de toda uma geração apanhada numa guerra – agora considerada politicamente incorrecta – que os continua a fazer sofrer com tanta intensidade. Tenho pena, também, de pertencer a um país que não distingue entre o poder e os homens simples, quase sempre joguetes inocentes...

E talvez eu seja indigno sequer de falar deste assunto, já que para mim "os turras" e a guerra de África, são apenas vozes e notícias, dispersas, de infância. Fica aqui, pelo menos aqui, este pequeno contributo para que tal injustiça seja reconhecida.

O Combatente, sei de fonte segura, frequenta há pouco tempo uma consulta de psicopterapia, com outros da sua geração que também perderam a juventude na guerra. Nunca recuperará a família, o emprego, mas talvez recupere o respeito dos filhos – um objectivo meritório.

Tem que deixar morrer os sons da batalha dentro de si e aceitar que há outro dia. Tem que perdoar. Só assim poderá fechar, acredito sinceramente, o abismo profundo que lhe dilacera a vida.

Fala-se agora mais nestes assuntos, do que na época em que ouvi o Combatente, no silêncio daquele corredor barulhento... Também houve um filme ou outro, sobre esta forma tão dolorosa de sofrer...Talvez as coisas melhorem finalmente.

Eu desejo, do fundo da alma - para ele e para todos como ele - que atinjam a benção do esquecimento e tenham a força para criar um novo princípio...Do pouco que tenho, ofereço aquilo que mais me custou a conquistar e mais prezo na vida: ofereço-lhes o meu respeito...

Bem hajam pelo sacrifício!!

Doc

______

Nota de L.G.

(1) Vd. post de A. Marques Lopes, de 18 de Maio de 2005 > de Guiné 63/74 - XXI: "O ataque e assalto do IN ao destacamento de Cantacunda (1968)

(2) O stresse, como figura, jurídica é recente na legislação portuguesa: a primeira referência conhecida é a que consta na Lei nº 46/99, de 16 de Junho de 1999, respeitante ao “apoio às vítimas de stresse pós-traumático de guerra”.

O conceito de “deficiente das Forças Armadas” passava, então, a ser alargado ao cidadão português, militar ou ex-militar, que fosse “portador de perturbação psicológica crónica resultante da exposição a factores traumáticos de stresse durante a vida militar”, quer no teatro de guerra, quer no desempenho de missões humanitárias e de paz ou de acções de cooperação técnico-militar no estrangeiro.

Ao Estado competia criar uma "rede nacional de apoio" às vítimas de stresse pós-traumático de guerra, no âmbito do Serviço Nacional de Saúde e do Sistema de Saúde Militar, em articulação com as organizações não governamentais (ONG).

A essa rede incumbe "a informação, identificação e encaminhamento dos casos e a necessária prestação de serviços de apoio médico, psicológico e social". Essa rede foi entretanto criada, pelo D.L. nº 50/2000, de 7 de Abril. Por sua vez, a Portaria nº 647/2001, de 28 de Junho, veio estabelecer os termos do respectivo financiamento.

Luís Graça

Guiné 63/74 - CCCVI: Antologia (26): A geração do stresse pós-traumático de guerra

Post nº 306 (CCCVI)


© A. Marques Lopes (2005)



Dois jovens portugueses, "passando férias" em Banjara, algures na Zona Leste da Guiné, por volta de 1967 (enquanto os seus colegas americanos se batiam pela liberdade e morriam no Vietname, como tordos...).

Na altura estes tugas estavam alegremente a capinar o terreno e deitar abaixo árvores para montarem a tenda... Como se vê, naquela época ainda não havia qualquer sensibilidade ecológivca...

[ Banjara, destacamento da CART 1690, sediada em Geba, e de que o nosso A. Marques Lopes foi alferes miliciano atirador... Banjara ficava na estrada Bissau-Mansabá-Bafatá. Mais a norte, ou melhor, a nordeste, ficava Cantacunda, o sítio da Guiné onde o PAIGC, de um só vez, apanhou 11 militares portugueses, à mão, e matou outro...] (1)

__________________


Por sugestão do nosso amigo e camarada Jorge Santos (ex-fuzileiro, autor da página sobre A Guerra Colonial e membro da nossa tertúlia), aqui fica um belíssimo, comovente e frontal testemunho de um oficial médico da Marinha - como presumo que seja o autor destas histórias da botica, escritas na Revista da Armada, sob o pseudónimo Doc - que um dia encontrou, na urgência de um hospital, um ex-combatente da Guiné, das tropas especiais, com visíveis problemas de stresse pós-traumático de guerra, e que o soube ouvir, apoiar e encaminhar, mesmo sendo ainda um jovem interno do internato complementar da sua especialdade (não diz qual...).

Curiosamente, reparo agora que nunca falámos aqui, nesta tertúlia, desse problema que se chama stresse pós-traumático de guerra (2). L.G.
__________________


Histórias da botica (14): o combatente. Revista da Armada. 348, (Dezembro de 2001).
(Com a devida vénia e os nossos agradecimentos à esta excelente publicação da nossa Marinha e ao autor do texto. Subtítulos da minha responsabiliddae. L.G. ).


Há não muito tempo, numa Urgência de um grande hospital da capital alguém gritava:

- Olhe que eu já matei por Portugal!! – era um homem de meia idade, desgrenhado e de barba por fazer. Aproximei-me dos gritos. No caminho um enfermeiro saía irritado afirmando: mais um doido. É o terceiro hoje!

De perto o homem, apesar da agitação, tinha um ar digno. Era alto, com um ar sólido de quem é capaz de mover montanhas, a barba, já grisalha, assentava sob uma tez morena, de homem do campo. Olhava directamente nos olhos da sua interlocutora: uma médica, por quem eu não tinha muito apreço – no geral, conflituosa e pouco estimada por todos os outros naquela equipa de urgência. Era até conhecida, entre os mais novos, pela peçonhenta, uma vez que da sua pele emanava um brilho pouco natural, certamente graças aos muitos cremes de beleza, com que besuntava a face.

Tratava-se de uma discussão por papéis, em que a peçonhenta argumentava de maneira agressiva, afirmando que a “ficha” do paciente não existia. Este defendia-se dizendo que não sabia nada de “fichas”, esperava haviam já 3 horas e queria ser atendido. Então, com a humildade própria de um simples interno, avancei e disse, a tão ilustre clínica, que ia atender o senhor. Que se acalmasse, que outros doentes com “fichas” no devido lugar esperavam por ela.


Um ex-operacional das tropas especiais


Fui movido pela curiosidade, antevendo a história que tal homem produziria. Queria saber afinal quem ele matou e porquê? Conversámos, então, num corredor movimentado, onde todos passavam demasiado apressados para nos ouvir.

Queixava-se de insónias, há já uma semana que não conciliava o sono...

Tinha combatido nas tropas especiais da guerra de África, na Guiné. Já fora casado mas a mulher deixara-o. Os seus dois filhos viviam com a mulher, que lhes dizia que o pai não prestava. Desde o final da guerra, tinha tido vários empregos, mas não os conservara. Vivia de biscates e morava numa caravana, velha, num parque de campismo dos subúrbios.

- Mas agora não dorme exactamente porquê? – perguntei eu, tentando ser objectivo.

Não dormia porque era como se tudo fosse real. Ainda sentia os cheiros de África, a humidade no tarrafo, o capim na face, o camuflado colado ao corpo, o peso, frio, da metralhadora nas mãos... Mas o pior, o pior, era a sensação de medo...

A emboscada e o sangue do António, que ainda sentia nas mãos, o amigo que segurara nas mãos, até ao último estertor. Era véspera de Natal, tinham ido tomar banho a um riacho próximo, quando foram atacados...O António era o primeiro da fila – percebe, doutor – os turras apontaram a quem vinha à frente...

Tudo lhe voltava, num ciclo infindável de medo, agressividade e sofrimento...

Achava que não tinha tido do país, por quem arriscou a vida, qualquer reconhecimento. Afinal, quando voltou não lhe tinham reservado o trabalho, para o qual "era preciso ter o serviço militar cumprido", outro, um revolucionário exilado em Paris na época colonial, tinha ocupado o lugar...

Casou, mas divorciou-se, pouco tempo depois. Não conseguia explicar à mulher a ansiedade da espera, os gritos da refrega, nem o sangue do amigo morto, que lhe salpicara a cara. Se tinha pesadelos? Não, tinha poucos pesadelos, porque dormia pouco...Eram mesmo os dias que o enervavam...


Na Guiné, longe do Vietname...


Tudo isto, achava ele, não interessava a ninguém no país actual, E não compreendia nada...não compreendia um país em que as ruas se enchem de dejectos de cães e senhoras com nome de cão, como Lalá e Bibi, artificiais e secas, preenchem os serões de televisão. Não percebia, ainda, porquê pouco se falava do António, nem de todos os que partiram por servirem, a custo da própria vida, uma causa que lhes havia sido imposta...Não compreendia, finalmente, porquê, no nosso país se obliterava como se de um segundo se tratasse, uma guerra que marcou gerações...Pelo menos no Vietname há filmes, as pessoas revêm o seu sofrimento, parece haver reconhecimento – dizia com dor no olhar.

Lembrei-me, recentemente, deste Combatente. Nestas férias de Verão vi que na parada de um antigo quartel, onde existe uma placa com os nomes dos mortos em acção, nos vários conflitos em que o regimento participara, tinham construído um lago de aspecto nada condizente com o lugar, nem com o respeito merecido por aqueles que já partiram e cuja memória dignifica o lugar.

Pareceu-me um sacrilégio. Seria como construir um lago de patos sobre os monges sepultados, num qualquer átrio de igreja...Pareceu-me ainda pior, porque esse quartel, agora transformado em parque turístico, é gerido por militares...

Na verdade, acredito, que poucos países revelaram, pelo menos na época actual, tanto desrespeito pelos seus veteranos de guerra. E estou certo, que o Combatente tem razão. No nosso país, nem mesmo aos políticos – a grande maioria [tem]apresentado, de forma implícita ou explícita, pouca simpatia pelos militares - interessam os sofrimentos de um grupo de homens tristes, marcados pelo dor e pela desgraça.

Eu nunca combati. Nunca estive na Guiné. Não posso compreender, na sua totalidade, o sofrimento deste homem, nem de outros como ele...Impressionou-me a história de um homem destroçado, ainda a combater pela vida, tantos anos após o fim da guerra. Pareceu-me um preço patriótico demasiado elevado, num país em que cada vez mais os valores da nação se vergam ao dinheiro, ao voto fácil, à falsidade e à negociata barata.

Sei, que quando penso no Combatente, e na história da sua vida, tenho pena, muita pena de toda uma geração apanhada numa guerra – agora considerada politicamente incorrecta – que os continua a fazer sofrer com tanta intensidade. Tenho pena, também, de pertencer a um país que não distingue entre o poder e os homens simples, quase sempre joguetes inocentes...

E talvez eu seja indigno sequer de falar deste assunto, já que para mim "os turras" e a guerra de África, são apenas vozes e notícias, dispersas, de infância. Fica aqui, pelo menos aqui, este pequeno contributo para que tal injustiça seja reconhecida.

O Combatente, sei de fonte segura, frequenta há pouco tempo uma consulta de psicopterapia, com outros da sua geração que também perderam a juventude na guerra. Nunca recuperará a família, o emprego, mas talvez recupere o respeito dos filhos – um objectivo meritório.

Tem que deixar morrer os sons da batalha dentro de si e aceitar que há outro dia. Tem que perdoar. Só assim poderá fechar, acredito sinceramente, o abismo profundo que lhe dilacera a vida.

Fala-se agora mais nestes assuntos, do que na época em que ouvi o Combatente, no silêncio daquele corredor barulhento... Também houve um filme ou outro, sobre esta forma tão dolorosa de sofrer...Talvez as coisas melhorem finalmente.

Eu desejo, do fundo da alma - para ele e para todos como ele - que atinjam a benção do esquecimento e tenham a força para criar um novo princípio...Do pouco que tenho, ofereço aquilo que mais me custou a conquistar e mais prezo na vida: ofereço-lhes o meu respeito...

Bem hajam pelo sacrifício!!

Doc

______

Nota de L.G.

(1) Vd. post de A. Marques Lopes, de 18 de Maio de 2005 > de Guiné 63/74 - XXI: "O ataque e assalto do IN ao destacamento de Cantacunda (1968)

(2) O stresse, como figura, jurídica é recente na legislação portuguesa: a primeira referência conhecida é a que consta na Lei nº 46/99, de 16 de Junho de 1999, respeitante ao “apoio às vítimas de stresse pós-traumático de guerra”.

O conceito de “deficiente das Forças Armadas” passava, então, a ser alargado ao cidadão português, militar ou ex-militar, que fosse “portador de perturbação psicológica crónica resultante da exposição a factores traumáticos de stresse durante a vida militar”, quer no teatro de guerra, quer no desempenho de missões humanitárias e de paz ou de acções de cooperação técnico-militar no estrangeiro.

Ao Estado competia criar uma "rede nacional de apoio" às vítimas de stresse pós-traumático de guerra, no âmbito do Serviço Nacional de Saúde e do Sistema de Saúde Militar, em articulação com as organizações não governamentais (ONG).

A essa rede incumbe "a informação, identificação e encaminhamento dos casos e a necessária prestação de serviços de apoio médico, psicológico e social". Essa rede foi entretanto criada, pelo D.L. nº 50/2000, de 7 de Abril. Por sua vez, a Portaria nº 647/2001, de 28 de Junho, veio estabelecer os termos do respectivo financiamento.

Luís Graça

22 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCCV: O 'malandro do Ribeiro' que arriou a nossa bandeira em Mansoa

O ranger Eduardo Magalhães Ribeiro em Dezembro de 1973, em farda nº 1. Os rangers têm uma associação, a AOE - Associação de Operações Especiais. Entre os camaradas daquela época, o Ribeiro também era conhecido pelo seu nome de guerra, o Cavalo Branco.

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)




Comentário, fora de horas, às tantas da madrugada, do nosso amigo e camarada A. Marques Lopes (coronel DFA, na reforma, que esteve na Guiné como alferes miliciano, em Geba e em Barro, respectivamente em 1967 e 1968), a propósito do post anterior: Guiné 63/74 - CCCIV: 'Eu estava lá, na entrega simbólica do território' (Mansoa, 9 de Setembro de 1974):



...Mas este malandro do Eduardo Magalhães Ribeiro até é primo da minha mulher. Já estava admirado por ele ainda não ter aparecido aqui... É um ranger. Conta mais, Eduardo!

Entretanto, conto eu aos camaradas que estive várias horas, esta noite, em grande conversa com o Albano Costa e o Allen. E vamos tornar a encontrar-nos na próxima sexta-feira para continuar.

O paisano Eduardo Magalhães Ribeiro, hoje, no Porto.

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)



Fiquem também a saber que ficou mais ou menos projectada uma visita à Guiné-Bissau em 2006 (entre Janeiro e Maio, porque para época das chuvas já chegou...).

A. Marques Lopes

Guiné 63/74 - CCCV: O 'malandro do Ribeiro' que arriou a nossa bandeira em Mansoa

O ranger Eduardo Magalhães Ribeiro em Dezembro de 1973, em farda nº 1. Os rangers têm uma associação, a AOE - Associação de Operações Especiais. Entre os camaradas daquela época, o Ribeiro também era conhecido pelo seu nome de guerra, o Cavalo Branco.

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)




Comentário, fora de horas, às tantas da madrugada, do nosso amigo e camarada A. Marques Lopes (coronel DFA, na reforma, que esteve na Guiné como alferes miliciano, em Geba e em Barro, respectivamente em 1967 e 1968), a propósito do post anterior: Guiné 63/74 - CCCIV: 'Eu estava lá, na entrega simbólica do território' (Mansoa, 9 de Setembro de 1974):



...Mas este malandro do Eduardo Magalhães Ribeiro até é primo da minha mulher. Já estava admirado por ele ainda não ter aparecido aqui... É um ranger. Conta mais, Eduardo!

Entretanto, conto eu aos camaradas que estive várias horas, esta noite, em grande conversa com o Albano Costa e o Allen. E vamos tornar a encontrar-nos na próxima sexta-feira para continuar.

O paisano Eduardo Magalhães Ribeiro, hoje, no Porto.

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)



Fiquem também a saber que ficou mais ou menos projectada uma visita à Guiné-Bissau em 2006 (entre Janeiro e Maio, porque para época das chuvas já chegou...).

A. Marques Lopes

21 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCCIV: Eu estava lá, na entrega simbólica do território (Mansoa, 9 de Setembro de 1974)

Post nº 304 (CCCIV)

Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 >

O Furriel de Operações Especiais Ribeiro, da CCS do BCAÇ 4612, recolhe a bandeira verde-rubra, na presença de representantes do PAIGC (incluindo a viúva de Amílcar Cabral) e de autoridades militares do CTIG.

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)


1. Fui hoje contactado, por telefone, por um ex-furriel miliciano, ranger, Eduardo Magalhães Ribeiro (que trabalha no Porto, na EDP) e que esteve na CCS do último batalhão da Guiné, em Mansoa (BCAÇ 4612)...

Ele considera-se o mais periquito dos periquitos da Guiné: foi para a Guiné já depois do 25 de Abril em "missão liquidatária"...

Na realidade, tratava-se de fazer a entrega (simbólica) do território aos novos senhores da Guiné e, ao mesmo tempo, assegurar a retirada, ordeira, digna e segura, das últimas tropas portuguesas. Mansoa, em pleno coração do território, serviu perfeitamente para esse duplo propósito...

Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 >

Um português, Ribeiro, a fazer história...

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)



Presumo que tenha sido uma experiência não menos dolorosa para muitos jovens portugueses, numa época não isenta de riscos, tensões e contradições... Pessoalmente confesso que não gostaria de lá ter estado, fardado, no pós-25 de Abril de 1974... Fez-se história nesse dia já longínquo de 9 de Setembro de 1974...

O Eduardo diz que ficou famoso pela sua foto a arriar a bandeira verde-rubra , em Mansoa, na presença da Maria Turra (sic), como era conhecida entre os tugas - com o sentido de humor, que é típico da caserna, mas com respeito e até carinho - a viúva do Amílcar Cabral, que assistiu com outros destacados dirigentes do PAIGC a este momento histórico...

Enquanto ansiava por receber as prometidas fotos e estórias do Eduardo, este nosso novo tertuliano acabou por fazer uma primeira remessa, agora mesmo...


2. Texto do Eduardo Magalhães Ribeiro:

Boa noite, amigo ex-combatente da Guiné, Luis Graça.

Tal como combinámos, anexo um pequeno texto e algumas fotos, das 38 que possuo aqui em casa, que vou repartir por 3 ou 4 emails, dada a sua grande ocupação de espaço.

Eu estive na Guiné, em Mansôa, em 1974, na CCS do BCAÇ 4612/74 (o último batalhão que partiu para a Guiné e também o último que de lá saiu), e participei, ali, na entrega do aquartelamento ao PAIGC e na simbólica entrega do território, que incluiu uma muito concorrida cerimónia do último arriar de bandeira nacional, com cerimónia oficial, na Guiné, e o hastear da primeira bandeira da Guiné-Bissau.

Se achares com interesse junta ao blogue.

MANSÔA, 9 de Setembro de 1974

Com a revolução de 25 de Abril de 1974, foi dada como terminada aquela que foi designada como Guerra do Ultramar, que Portugal travava em África, nas três conhecidas frentes: Angola, Guiné e Moçambique.

Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 >

Um privilégio que poucos tiveram e que provavelmente poucos quereriam ter... É de imaginar o tipo de sentimentos, contraditórios, que terá assaltado, naquele momento, este digno representante do povo português que foi o nosso camarada Ribeiro...

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)


Em 9 de Setembro de 1974, com a independência da Guiné-Bissau, foi entregue o território ao PAIGC numa cerimónia oficial que decorreu no quartel de Mansôa.

Estiveram presentes nessa cerimónia: a CCS do BCAÇ 4612/74, comandada pelo Major Ramos de Campos; o CMDT do mesmo batalhão, Coronel António C. Varino; um grupo de combate, um grupo de pioneiros, Maria Cabral (viúva de Amilcar Cabral) e o comissário político Manuel Ndinga, do PAIGC; e, pelo CEME do CTIG, o Ten. Cor. Fonseca Cabrinha.



Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 >

Um dia de sonhos e de esperanças para os guineenses... E de alguma nostalgia para os últimos soldados do império colonial português...

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)

A bandeira foi arriada por mim, à data Furriel Miliciano de Operações Especiais, Eduardo José Magalhães Ribeiro.

À cerimónia compareceram ainda uns largos milhares de nativos locais, de diversas etnias: papéis, balantas, fulas, futa-fulas, mandingas, manjacos, etc., e umas dezenas de jornalistas de todo o mundo.


Um guerrilheiro do PAIGC hasteia a bandeira da nova República da Guiné-Bissau.

Os inimigos de ontem dão-se as mãos e prometem cooperar, no futuro, numa base igualitária, falando a mesma língua. Sob a bandeira do PAIGC os vários povos da Guiné lutaram pela indepência mas é através da língua portuguesa (oficial) que se entendem...

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)


Desta cerimónia possuo em minha casa 38 fotografias, mas existe um filme deste acontecimento histórico inserido na série televisiva: Século XX Português, da SIC Notícias – no Episódio sobre a “Descolonização”, acompanhado de uma curta entrevista, que ali dei, sobre os factos então vividos.

Guiné 63/74 - CCCIV: Eu estava lá, na entrega simbólica do território (Mansoa, 9 de Setembro de 1974)

Post nº 304 (CCCIV)

Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 >

O Furriel de Operações Especiais Ribeiro, da CCS do BCAÇ 4612, recolhe a bandeira verde-rubra, na presença de representantes do PAIGC (incluindo a viúva de Amílcar Cabral) e de autoridades militares do CTIG.

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)


1. Fui hoje contactado, por telefone, por um ex-furriel miliciano, ranger, Eduardo Magalhães Ribeiro (que trabalha no Porto, na EDP) e que esteve na CCS do último batalhão da Guiné, em Mansoa (BCAÇ 4612)...

Ele considera-se o mais periquito dos periquitos da Guiné: foi para a Guiné já depois do 25 de Abril em "missão liquidatária"...

Na realidade, tratava-se de fazer a entrega (simbólica) do território aos novos senhores da Guiné e, ao mesmo tempo, assegurar a retirada, ordeira, digna e segura, das últimas tropas portuguesas. Mansoa, em pleno coração do território, serviu perfeitamente para esse duplo propósito...

Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 >

Um português, Ribeiro, a fazer história...

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)



Presumo que tenha sido uma experiência não menos dolorosa para muitos jovens portugueses, numa época não isenta de riscos, tensões e contradições... Pessoalmente confesso que não gostaria de lá ter estado, fardado, no pós-25 de Abril de 1974... Fez-se história nesse dia já longínquo de 9 de Setembro de 1974...

O Eduardo diz que ficou famoso pela sua foto a arriar a bandeira verde-rubra , em Mansoa, na presença da Maria Turra (sic), como era conhecida entre os tugas - com o sentido de humor, que é típico da caserna, mas com respeito e até carinho - a viúva do Amílcar Cabral, que assistiu com outros destacados dirigentes do PAIGC a este momento histórico...

Enquanto ansiava por receber as prometidas fotos e estórias do Eduardo, este nosso novo tertuliano acabou por fazer uma primeira remessa, agora mesmo...


2. Texto do Eduardo Magalhães Ribeiro:

Boa noite, amigo ex-combatente da Guiné, Luis Graça.

Tal como combinámos, anexo um pequeno texto e algumas fotos, das 38 que possuo aqui em casa, que vou repartir por 3 ou 4 emails, dada a sua grande ocupação de espaço.

Eu estive na Guiné, em Mansôa, em 1974, na CCS do BCAÇ 4612/74 (o último batalhão que partiu para a Guiné e também o último que de lá saiu), e participei, ali, na entrega do aquartelamento ao PAIGC e na simbólica entrega do território, que incluiu uma muito concorrida cerimónia do último arriar de bandeira nacional, com cerimónia oficial, na Guiné, e o hastear da primeira bandeira da Guiné-Bissau.

Se achares com interesse junta ao blogue.

MANSÔA, 9 de Setembro de 1974

Com a revolução de 25 de Abril de 1974, foi dada como terminada aquela que foi designada como Guerra do Ultramar, que Portugal travava em África, nas três conhecidas frentes: Angola, Guiné e Moçambique.

Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 >

Um privilégio que poucos tiveram e que provavelmente poucos quereriam ter... É de imaginar o tipo de sentimentos, contraditórios, que terá assaltado, naquele momento, este digno representante do povo português que foi o nosso camarada Ribeiro...

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)


Em 9 de Setembro de 1974, com a independência da Guiné-Bissau, foi entregue o território ao PAIGC numa cerimónia oficial que decorreu no quartel de Mansôa.

Estiveram presentes nessa cerimónia: a CCS do BCAÇ 4612/74, comandada pelo Major Ramos de Campos; o CMDT do mesmo batalhão, Coronel António C. Varino; um grupo de combate, um grupo de pioneiros, Maria Cabral (viúva de Amilcar Cabral) e o comissário político Manuel Ndinga, do PAIGC; e, pelo CEME do CTIG, o Ten. Cor. Fonseca Cabrinha.



Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 >

Um dia de sonhos e de esperanças para os guineenses... E de alguma nostalgia para os últimos soldados do império colonial português...

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)

A bandeira foi arriada por mim, à data Furriel Miliciano de Operações Especiais, Eduardo José Magalhães Ribeiro.

À cerimónia compareceram ainda uns largos milhares de nativos locais, de diversas etnias: papéis, balantas, fulas, futa-fulas, mandingas, manjacos, etc., e umas dezenas de jornalistas de todo o mundo.


Um guerrilheiro do PAIGC hasteia a bandeira da nova República da Guiné-Bissau.

Os inimigos de ontem dão-se as mãos e prometem cooperar, no futuro, numa base igualitária, falando a mesma língua. Sob a bandeira do PAIGC os vários povos da Guiné lutaram pela indepência mas é através da língua portuguesa (oficial) que se entendem...

© Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)


Desta cerimónia possuo em minha casa 38 fotografias, mas existe um filme deste acontecimento histórico inserido na série televisiva: Século XX Português, da SIC Notícias – no Episódio sobre a “Descolonização”, acompanhado de uma curta entrevista, que ali dei, sobre os factos então vividos.

Guiné 63/74 - CCCIII: A CCAÇ 4150: Guidaje, o 'cú do mundo'

Texto do Albano Costa (ex- 1º cabo da CCAÇ 4150, 1973/74):


Vou descrever uma história sobre a passagem da CCAÇ 4150 pela Guiné.

Quando chegámos em Setembro de 1973, fomos logo colocados no Cumeré, aí permanecemos à volta de um mês. Até aí tudo normal mas quando começámos a ouvir rebentamentos ao longe, sempre ao fim do dia, começámos a ficar apreensivos. Os mais velhos lá nos iam dizendo:
- São colegas nossos que estão a sofrer um ataque para os lados de X...

Nós, com os nossos 20 anos, estávamos a ser instruídos psicologicamente para a guerra, ainda não imaginávamos o que aquilo era, mas já nos íamos apercebendo do que é que nos esperava.

Quando chegou a ordem de abalada para o mato (naquela altura o calão era assim, como sabem, e ainda hoje para quem lá vai em gozo de férias salta logo a palavra: vamos para o mato), fui informado que íamos para Bigene e Guidage, íamos ficar sobre as ordens do COP 3.

Despedi-me de uns colegas da minha terra (Matosinhos)(1). Disse-lhes para onde ia para onde ia e logo um deles me disse:
- Eh, pá, para onde tu vais, essa zona é muito má, em Maio foi muito massacrada.

Lgo me apeteceu foi fugir, mas não havia alternativa e lá fui eu para o mato no dia seguinte, em coluna passando por Safim e João Landim. Parámos em Bula, aí lembro-me do nosso capitão dizer:
- A partir de agora, é mesmo a sério!.

Eu na altura só pensei:
- Será que volto à metrópole ? - E lá fomos em coluna, mas agora a sério, já com as panhards, na frente, aí sim comecei a sentir a guerra. Para jovens com 20 anos era muito doloroso, é que não éramos informados para o que íamos, as coisas surgiam a qualquer momento... Lá seguimos até S. Vicente, entrámos numa LDG [Lancha de Desembarque Grande] e seguimos pelo rio Cacheu, em direcção a Ganturé, aonde chegados ao fim do dia, só com a racção de combate. Aí deparámos que tínhamos um barracão, sem camas para dormir e, como se não bastasse, não tínhamos refeitório. Para almoçar e jantar só íamos buscar as refeições e vínhamos para o barracão comer. Aí a companhia ficou muito desmoralizada...

Em Bigene estivemos um mês a fazer segurança às colunas que se faziam entre Bigene e Barro, eram as únicas por que a picada de Bigene a Binta estava fechada e só se faziam de barco pelo Cacheu. Lembro-me de fazermos uma operação de grande envergadura que meteu força aérea e naval e a CCAV 3568, levou 24 horas seguidas, na zona de Samoge, Sindina e Tabajan. Foi só o esforço humano, não encontrámos nada a não ser focos da presença do inimigo.

Tudo isto já era a doer e, para piorar a situação, a companhia foi dividida e dois grupos, incluindo o meu, fomos mudados para Guidage (é fazer de conta que foram dois irmãos que se separaram dos outros dois, e isso dói muito). E aí ainda foi pior porque o isolamento era muito grande. Quando ía na coluna comecei a deparar com coisas nunca vistas na picada. Que me desculpem os colegas de Bigene e Barro mas aquela era muito complicada, comecei a ver viaturas nossas todas desfeitas e fiquei ainda mais apreensivo. Os mais antigas diziam que tinha sido uma coluna que tinha sofrido uma emboscada e o inimigo tinha destruído aquelas viaturas, ainda eram bastantes...

O primeiro morto da Companhia


Em certas partes da picada entre Binta e Guidage era muito complicado aí pensei:
- Como vai ser possível aguentar a comissão aqui ?

Passando por Genicó, Cufeu e Ujeque, lá chegámos ao «cú do mundo» que era Guidage, mas para fazer mais ou menos 40 km, demorou o dia inteiro, não foi fácil, mas tinha de ser, fomos bem recebidos pelos colegas, nos dias seguintes começámos logo com saídas para o mato e aí começámos a ouvir estórias de coisas que se tinham passado em Maio [de 1973], que nos deixavam aterrorizados.

Só fazíamos colunas de 15 em quinze dias e nunca havia dia marcado, éramos informados sempre à noite que ia haver coluna no dia seguinte para evitar possível informação ao inimigo. Foram momentos muito difíceis.

A nossa missão era controlar o inimigo, principalmente, o corredor de Sambuiá. O PAIGC tinha a sua base mais importante em Gumbamory, no Senegal, onde se encontrava um corpo do seu exército, reforçada com vários bi-grupos de artilharia pesada, a cerca de 3 quilómetros da fronteira das NT entre Guidage e Bigene, sendo daqui que partiam as suas colunas de reabasticimento para o interior através do corredor de Sambuiá cujo itinerário provável era o seguinte: Cumbamory, Samoje, Talicó, Sambuiá e Malibolom, até ao rio Cacheu.

Tivemos uma emboscada no mato e dois ataques ao quartel: o primeiro foi no dia 8 de Dezembro 1973, fez duas baixas de colegas guineenses da CCAÇ 19; uns dias depois a CCAÇ 4150 teve um morto e dois feridos num acidente (todos vocês que lêem esta crónica, sabem bem o trauma que ficava nas nossas mentes).

O regresso, vinte e seis anos depois


Passado 26 anos regressei à Guiné para rever os sítios por onde passei, e aí sim pude saborear e conhecer a Guiné, foi simplesmente deslumbrante, acreditem que eu tive sempre um certo receio em lá voltar.

Ao longo de dezenas de anos eu convivia com esse pensamento que era quase impossível lá chegar, primeiro porque era longe, segundo porque era muito perigoso, mas um dia uma estrela iluminou-me, e atravessou-se, no meu caminho, um colega nosso, de nome Francisco «Chico» Allen, e então começámos a falar da Guiné ao qual ele me disse que já lá tinha ido algumas vezes, eu quase duvidava do que ele me contava, mas eu sempre com o meu pensamento ainda do tempo de tropa, contrapunha:
- Não, a minha zona era Guidage; além de muito perigosa era difícil lá chegar! - E ele dizia:
- Esqueça a Guiné do tempo de tropa, agora é muito diferente.- Mas eu é que fiquei sempre na dúvida, então ele um dia apresentou-me a esposa, e a D. Zélia, uma senhora muito simpática, me disse:
- Não tenha receio, vá que vai gostar! - E eu lá ganhei coragem e falei com a minha mulher, e ela me disse:
- Se queres ir, vai! - E fui, mas levei o meu filho mais velho, e então aí sim, adorei, quando cheguei a Guidage tudo parecia mentira, parecia um sonho mas tornou-se realidade, e agora estou aqui para ajudar a abrir uma janela para quem puder e quiser ir à Guiné à zona aonde esteve, deve ir, mas que se prepare que leva aquela vacina, que fica rendido, aquela terra é mágica e depois só queremos lá voltar, aquele povo é muito bom, e nós portugueses somos mesmo irmãos (2).

Luís Graça: vou mandar fotos, antigas e actuais, para meteres no blogue sobre Guidage, mas eu tenho fotos de muitos destacamentos que posso enviar. Acho que quem lá vai, ao blogue e às outras páginas, gosta de ver fotos do «seu» ex-quartel. Se for interessante eu posso enviar mas agradeço que me informes como fazer, porque são muitas fotos e eu nisto da Net ainda sou infantil.

Um abraço, Albano
__________

(1) Tentei telefonar ao A. Marques Lopes, meu conterrâneo de Matosinhos, mas o número de telemóvel que me deram, não está atribuído, por isso no consigo falar com ele.

(2) Há pouco tempo encontrei um colega, estive com ele em Guidage, só que ele esteve no período de Abril, Maio e Junho de 73, e fiquei impressionado quando falei que tinha estado em Guidage e ele me disse: "Não quero falar disso"... Ainda hoje ele não consegue esquecer o grande amigo que morreu nos seus braços.. Fiquei bastante impressionado.

Guiné 63/74 - CCCIII: A CCAÇ 4150: Guidaje, o 'cú do mundo'

Texto do Albano Costa (ex- 1º cabo da CCAÇ 4150, 1973/74):


Vou descrever uma história sobre a passagem da CCAÇ 4150 pela Guiné.

Quando chegámos em Setembro de 1973, fomos logo colocados no Cumeré, aí permanecemos à volta de um mês. Até aí tudo normal mas quando começámos a ouvir rebentamentos ao longe, sempre ao fim do dia, começámos a ficar apreensivos. Os mais velhos lá nos iam dizendo:
- São colegas nossos que estão a sofrer um ataque para os lados de X...

Nós, com os nossos 20 anos, estávamos a ser instruídos psicologicamente para a guerra, ainda não imaginávamos o que aquilo era, mas já nos íamos apercebendo do que é que nos esperava.

Quando chegou a ordem de abalada para o mato (naquela altura o calão era assim, como sabem, e ainda hoje para quem lá vai em gozo de férias salta logo a palavra: vamos para o mato), fui informado que íamos para Bigene e Guidage, íamos ficar sobre as ordens do COP 3.

Despedi-me de uns colegas da minha terra (Matosinhos)(1). Disse-lhes para onde ia para onde ia e logo um deles me disse:
- Eh, pá, para onde tu vais, essa zona é muito má, em Maio foi muito massacrada.

Lgo me apeteceu foi fugir, mas não havia alternativa e lá fui eu para o mato no dia seguinte, em coluna passando por Safim e João Landim. Parámos em Bula, aí lembro-me do nosso capitão dizer:
- A partir de agora, é mesmo a sério!.

Eu na altura só pensei:
- Será que volto à metrópole ? - E lá fomos em coluna, mas agora a sério, já com as panhards, na frente, aí sim comecei a sentir a guerra. Para jovens com 20 anos era muito doloroso, é que não éramos informados para o que íamos, as coisas surgiam a qualquer momento... Lá seguimos até S. Vicente, entrámos numa LDG [Lancha de Desembarque Grande] e seguimos pelo rio Cacheu, em direcção a Ganturé, aonde chegados ao fim do dia, só com a racção de combate. Aí deparámos que tínhamos um barracão, sem camas para dormir e, como se não bastasse, não tínhamos refeitório. Para almoçar e jantar só íamos buscar as refeições e vínhamos para o barracão comer. Aí a companhia ficou muito desmoralizada...

Em Bigene estivemos um mês a fazer segurança às colunas que se faziam entre Bigene e Barro, eram as únicas por que a picada de Bigene a Binta estava fechada e só se faziam de barco pelo Cacheu. Lembro-me de fazermos uma operação de grande envergadura que meteu força aérea e naval e a CCAV 3568, levou 24 horas seguidas, na zona de Samoge, Sindina e Tabajan. Foi só o esforço humano, não encontrámos nada a não ser focos da presença do inimigo.

Tudo isto já era a doer e, para piorar a situação, a companhia foi dividida e dois grupos, incluindo o meu, fomos mudados para Guidage (é fazer de conta que foram dois irmãos que se separaram dos outros dois, e isso dói muito). E aí ainda foi pior porque o isolamento era muito grande. Quando ía na coluna comecei a deparar com coisas nunca vistas na picada. Que me desculpem os colegas de Bigene e Barro mas aquela era muito complicada, comecei a ver viaturas nossas todas desfeitas e fiquei ainda mais apreensivo. Os mais antigas diziam que tinha sido uma coluna que tinha sofrido uma emboscada e o inimigo tinha destruído aquelas viaturas, ainda eram bastantes...

O primeiro morto da Companhia


Em certas partes da picada entre Binta e Guidage era muito complicado aí pensei:
- Como vai ser possível aguentar a comissão aqui ?

Passando por Genicó, Cufeu e Ujeque, lá chegámos ao «cú do mundo» que era Guidage, mas para fazer mais ou menos 40 km, demorou o dia inteiro, não foi fácil, mas tinha de ser, fomos bem recebidos pelos colegas, nos dias seguintes começámos logo com saídas para o mato e aí começámos a ouvir estórias de coisas que se tinham passado em Maio [de 1973], que nos deixavam aterrorizados.

Só fazíamos colunas de 15 em quinze dias e nunca havia dia marcado, éramos informados sempre à noite que ia haver coluna no dia seguinte para evitar possível informação ao inimigo. Foram momentos muito difíceis.

A nossa missão era controlar o inimigo, principalmente, o corredor de Sambuiá. O PAIGC tinha a sua base mais importante em Gumbamory, no Senegal, onde se encontrava um corpo do seu exército, reforçada com vários bi-grupos de artilharia pesada, a cerca de 3 quilómetros da fronteira das NT entre Guidage e Bigene, sendo daqui que partiam as suas colunas de reabasticimento para o interior através do corredor de Sambuiá cujo itinerário provável era o seguinte: Cumbamory, Samoje, Talicó, Sambuiá e Malibolom, até ao rio Cacheu.

Tivemos uma emboscada no mato e dois ataques ao quartel: o primeiro foi no dia 8 de Dezembro 1973, fez duas baixas de colegas guineenses da CCAÇ 19; uns dias depois a CCAÇ 4150 teve um morto e dois feridos num acidente (todos vocês que lêem esta crónica, sabem bem o trauma que ficava nas nossas mentes).

O regresso, vinte e seis anos depois


Passado 26 anos regressei à Guiné para rever os sítios por onde passei, e aí sim pude saborear e conhecer a Guiné, foi simplesmente deslumbrante, acreditem que eu tive sempre um certo receio em lá voltar.

Ao longo de dezenas de anos eu convivia com esse pensamento que era quase impossível lá chegar, primeiro porque era longe, segundo porque era muito perigoso, mas um dia uma estrela iluminou-me, e atravessou-se, no meu caminho, um colega nosso, de nome Francisco «Chico» Allen, e então começámos a falar da Guiné ao qual ele me disse que já lá tinha ido algumas vezes, eu quase duvidava do que ele me contava, mas eu sempre com o meu pensamento ainda do tempo de tropa, contrapunha:
- Não, a minha zona era Guidage; além de muito perigosa era difícil lá chegar! - E ele dizia:
- Esqueça a Guiné do tempo de tropa, agora é muito diferente.- Mas eu é que fiquei sempre na dúvida, então ele um dia apresentou-me a esposa, e a D. Zélia, uma senhora muito simpática, me disse:
- Não tenha receio, vá que vai gostar! - E eu lá ganhei coragem e falei com a minha mulher, e ela me disse:
- Se queres ir, vai! - E fui, mas levei o meu filho mais velho, e então aí sim, adorei, quando cheguei a Guidage tudo parecia mentira, parecia um sonho mas tornou-se realidade, e agora estou aqui para ajudar a abrir uma janela para quem puder e quiser ir à Guiné à zona aonde esteve, deve ir, mas que se prepare que leva aquela vacina, que fica rendido, aquela terra é mágica e depois só queremos lá voltar, aquele povo é muito bom, e nós portugueses somos mesmo irmãos (2).

Luís Graça: vou mandar fotos, antigas e actuais, para meteres no blogue sobre Guidage, mas eu tenho fotos de muitos destacamentos que posso enviar. Acho que quem lá vai, ao blogue e às outras páginas, gosta de ver fotos do «seu» ex-quartel. Se for interessante eu posso enviar mas agradeço que me informes como fazer, porque são muitas fotos e eu nisto da Net ainda sou infantil.

Um abraço, Albano
__________

(1) Tentei telefonar ao A. Marques Lopes, meu conterrâneo de Matosinhos, mas o número de telemóvel que me deram, não está atribuído, por isso no consigo falar com ele.

(2) Há pouco tempo encontrei um colega, estive com ele em Guidage, só que ele esteve no período de Abril, Maio e Junho de 73, e fiquei impressionado quando falei que tinha estado em Guidage e ele me disse: "Não quero falar disso"... Ainda hoje ele não consegue esquecer o grande amigo que morreu nos seus braços.. Fiquei bastante impressionado.

Guiné 63/74 - CCCII: Guidaje: Albano Costa (CCAÇ 4150, 1973/74)

"Periquito vai no mato..." (O 1º Cabo Costa, em 1973 ou 74)


© Albano Costa (2005)


1. Telefonou-me há dias o Albano Costa, de Guifões, Matosinhos. Ele pertencia à CCAÇ 4150 (Guidaje e Binta, 1973/74). Esteve também com a CCAÇ 19, em Guidaje, e ainda conheceu a malta do Capitão Salgueiro Maia (CCAV 3420, Bula, 1971/73).

O Albano, juntamente com o filho (finalista de um curso de comunicação social), e mais um grupo de camaradas, ex-combatentes, fez um verdadeiro safari turístico-sentimental, durante 15 dias, de 11 a 26 de Novembro de 2000, percorrendo a Guiné-Bissau, de lés a lés, em dois jipes. Dessa aventura há um registo, em vídeo, com cerca de 6 horas, e que eu já tive o privilégio de visionar. Chegou-me uma cópia, em 4 DVD, por mão do Sousa de Castro.

Hoje o Albano cumpre-me o prometido, que foi o de enviar duas fotos suas (uma antiga e outra recente) e de se apresentar ao resto da tertúlia.

2. Texto do Albano Costa:

Luís, vou enviar as minhas fotos da tropa e actual Desculpa eu ainda não fazer nenhum texto, (mas vou sempre ao blogue). Estou a preparar o texto sobre a minha ida para a guerra, ainda não tive possibilidade porque os motivos profissionais [ele tem uma loja de artigos fotográficos em Guifões] nem sempre me deixam muito tempo, mas estou com bastante atenção e com prazer em ir ao blogue. Também estou a preparar umas fotos de várias zonas da Guiné. Vou fazer diligências para que colegas que tenham estado no Norte [da Guiné] também possam entrar para a nossa tertúlia.

O Luís diz e muito bem que nós fomos metidos no buraco e de lá saímos sem conhecer mais nada a não se aquela picada que faziamos nas colunas e o regresso a Bissau para vir para a metrópole. É bom que aparecem colegas como o Mário Dias (eu julgo que é da CCAÇ 2636, mas eu vou saber), para fazer certas correcções, bem hajam.


O nosso camarada Costa, hoje (Guifões, Matosinhos) © Albano Costa (2005)

Eu tive o prazer de poder ir 15 dias à Guiné, como já sabes, e conhecer localidades que só conhecia de nome quando me encontrava com colegas que diziam aonde tinham estado, e eu agora passei por muitas delas: Mansoa, Jugudul, Bambadinca, Xime, Mansambo, Xitole, Saltinho, Aldeia Formosa, a famosa ponte Balana, Buba, Guilege, Gadamael Porto, Chogué, Empada, Catió Canjabari, Jumbembem, Farim e muitas, muitas mais) [vd. mapa geral da Guiné, 1961].

Pude conhecer essas terras num ambiente de puro safari, e conviver com aquele maravilhoso povo. Numa próxima vez quero ver se mando algumas fotos de Guidage assim como de Bijene e Binta [na região do Cacheu] que foi o triângulo que fiz no tempo de tropa.

Tenho mapas militares de Bigene e Binta, falta-me o de Guidage. Mas eu sei quem o tem, só espero que ele ainda saiba dele. Estou a catalogar as fotos que eu depois quero saber como as posso enviar para os camaradas recordarem e, quem sabe, lá irem um dia...

Eu ainda sou infantil nisto, talvez vá precisar da tua ajuda. Agradeço confirmação desta mensagem. Um até sempre.

Albano Costa

Guiné 63/74 - CCCII: Guidaje: Albano Costa (CCAÇ 4150, 1973/74)

"Periquito vai no mato..." (O 1º Cabo Costa, em 1973 ou 74)


© Albano Costa (2005)


1. Telefonou-me há dias o Albano Costa, de Guifões, Matosinhos. Ele pertencia à CCAÇ 4150 (Guidaje e Binta, 1973/74). Esteve também com a CCAÇ 19, em Guidaje, e ainda conheceu a malta do Capitão Salgueiro Maia (CCAV 3420, Bula, 1971/73).

O Albano, juntamente com o filho (finalista de um curso de comunicação social), e mais um grupo de camaradas, ex-combatentes, fez um verdadeiro safari turístico-sentimental, durante 15 dias, de 11 a 26 de Novembro de 2000, percorrendo a Guiné-Bissau, de lés a lés, em dois jipes. Dessa aventura há um registo, em vídeo, com cerca de 6 horas, e que eu já tive o privilégio de visionar. Chegou-me uma cópia, em 4 DVD, por mão do Sousa de Castro.

Hoje o Albano cumpre-me o prometido, que foi o de enviar duas fotos suas (uma antiga e outra recente) e de se apresentar ao resto da tertúlia.

2. Texto do Albano Costa:

Luís, vou enviar as minhas fotos da tropa e actual Desculpa eu ainda não fazer nenhum texto, (mas vou sempre ao blogue). Estou a preparar o texto sobre a minha ida para a guerra, ainda não tive possibilidade porque os motivos profissionais [ele tem uma loja de artigos fotográficos em Guifões] nem sempre me deixam muito tempo, mas estou com bastante atenção e com prazer em ir ao blogue. Também estou a preparar umas fotos de várias zonas da Guiné. Vou fazer diligências para que colegas que tenham estado no Norte [da Guiné] também possam entrar para a nossa tertúlia.

O Luís diz e muito bem que nós fomos metidos no buraco e de lá saímos sem conhecer mais nada a não se aquela picada que faziamos nas colunas e o regresso a Bissau para vir para a metrópole. É bom que aparecem colegas como o Mário Dias (eu julgo que é da CCAÇ 2636, mas eu vou saber), para fazer certas correcções, bem hajam.


O nosso camarada Costa, hoje (Guifões, Matosinhos) © Albano Costa (2005)

Eu tive o prazer de poder ir 15 dias à Guiné, como já sabes, e conhecer localidades que só conhecia de nome quando me encontrava com colegas que diziam aonde tinham estado, e eu agora passei por muitas delas: Mansoa, Jugudul, Bambadinca, Xime, Mansambo, Xitole, Saltinho, Aldeia Formosa, a famosa ponte Balana, Buba, Guilege, Gadamael Porto, Chogué, Empada, Catió Canjabari, Jumbembem, Farim e muitas, muitas mais) [vd. mapa geral da Guiné, 1961].

Pude conhecer essas terras num ambiente de puro safari, e conviver com aquele maravilhoso povo. Numa próxima vez quero ver se mando algumas fotos de Guidage assim como de Bijene e Binta [na região do Cacheu] que foi o triângulo que fiz no tempo de tropa.

Tenho mapas militares de Bigene e Binta, falta-me o de Guidage. Mas eu sei quem o tem, só espero que ele ainda saiba dele. Estou a catalogar as fotos que eu depois quero saber como as posso enviar para os camaradas recordarem e, quem sabe, lá irem um dia...

Eu ainda sou infantil nisto, talvez vá precisar da tua ajuda. Agradeço confirmação desta mensagem. Um até sempre.

Albano Costa

Guiné 63/74 - CCCI: Morreu um soldado português no Afeganistão...

Vários tertulianos - para já, o A. Marques Lopes, o Afonso Sousa e o João Tunes - manifestaram-se a propósito da notícia da morte de um dos nossos soldados, no Afeganistão (1). Aqui ficam os seus comentários. O texto e o contexto justificam a sua inserção no nosso blogue.

1. Texto do A. Marques Lopes (de 18 de Novembro de 2005, que circulou por e-mail, pela tertúlia)

Morreu um soldado português no Afeganistão (foi um sargento) e dois ficaram feridos (um em estado grave, já sabemos o que isso quer dizer...). Foi com uma mina. Onde é que já ouvimos... e vimos isto, nós os veteranos de guerra?...

Primeira questão:

- No Iraque não morreu nenhum GNR, mas no Afeganistão morreu já um soldado portugês; missões diferentes? cuidados diferentes? Uma coisa é certa: a condição do militar é poder ser morto no desempenho da sua missão. Mas há quem continue a não perceber (ou não querer perceber) esta particularidade, merecedora de mais respeito e atenção, e contrapartidas adequadas.

Segunda questão:

- Todos nós estivemos nesta condição na Guiné, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente; estivemos para defender o que os governantes da altura chamaram os interesses de Portugal, também voluntária ou involuntariamente, também conscientes ou sem nenhuma consciência disso. Teve que ser, que remédio, já passou, e vamos falando disso. A maior parte lamenta-se, e bem, porque não lhes estão a reconhecer essa condição(imposta, na altura).

Terceira questão:

- Os interesses eram claros para nós (embora contestados) em Angola, Guiné e Moçambique. Mas quais são os interesses em jogo no Afeganistão (país charneira naquela região da Ásia, estrada dos pipe-lines que ligam às repúblicas asiáticas da ex-URSS, e produtoras de petróleo) ou no Iraque (fonte quase inesgotável de petróleo)? Neste aspecto, não é claro que sejam interesses de Portugal, e há outros com todo o interesse.

Quarta questão:

- Estamos em alianças com estes e temos que cumprir as nossas obrigações de aliados. Morremos a cumpri-las. E eles? A nossa frota pesqueira, a nossa agricultura e a nossa indústria são destruídas para podermos comprar os seus produtoa nos hiper e supermercados de Portugal; o nosso desemprego sobe exponencialmente, porque os nossos aliados deslocam a s empresas para onde há mão-de-obra mais barata (mas o nosso governo está a trabalhar para corrigir esse problema, é verdade...)...
Vou dar de beber à dor, adeus.

A. Marques Lopes


2. Comentário do Afonso M. Ferreira Sousa (também com a data de 18 de Novembro; circulou apenas por alguns e-mails de nós):

Tudo claro como a água, mais não pode ser !

Mas os contestatários de outrora (e bem)...foram, muitos deles, os governantes ou timoneiros neste caminhar de 31 anos !...

Afinal como é ?!

A mesma detracção que tentaram (*) lançar-nos, continua infelizmente a gerar, para o futuro, companheiros no "demérito injusto e vergonhoso".

(*)...e fico só com esta: TENTARAM (salvo mais avalizada opinião)

Um abraço
Afonso Sousa


3. Texto do João Tunes (de 21 de Novembro de 2005; não circulou, por e-mail, pela tertúlia)(2):
Leio isto e percebo isto:

"Estive na guerra, vi morrer amigos meus e quando morre um soldado ou um militar português, seja onde for, evidentemente que isso deixa de luto todo o país e nos deixa de luto a todos nós" (Manuel Alegre, sobre a morte em combate do Sargento Comando João Paulo Roma, no Afeganistão).

Eu que também estive na guerra, contra a guerra, fazendo a guerra, a mando de um ditador parado no tempo, sob o comando de um actor feio como a noite mas maníaco de poses prussianas e disfarçado de general com um vidro redondo empoleirado teatralmente num olho, vergado sob o peso dos colonos - mais que os dali, da Guiné, os de Moçambique e de Angola (as jóias da coroa) - que cada um de nós trazia às cavalitas para afastarem com chicote e para longe, um chicote afiado pelos pides, a pretalhada na sua terra, eu entendo-o bem.

Naquelas circunstâncias, ali parados para matar e morrer, sair vivo da merda, dos cus de judas, um camarada é camarada, é muito mais que patrício ou mesmo irmão, até que o mais amigo, o melhor amigo.

Um camarada de armas na guerra é alguém que perdemos, ou podemos perder, nos braços, na força da juventude, sabendo que foi a pura sorte que evitou o inverso - sermos, nós, tripas ao léu, a dizermos-lhe "estou fodido, eu sei que estou fodido, foderam-me, estou mais que fodido, foda-se, diz por mim à Luísa que, agora que estou fodido, estou a pensar nela, só penso nela!". Um camarada de armas, na guerra, é um pedaço de nós, alguém que morre no nosso lugar ou a quem nos pode calhar morrermos no lugar dele.

Este sentido, que a paneleiragem pacifista-folclórica não entende, não pode entender, perdura perante um qualquer nosso morto em combate, ontem, hoje e amanhã. Ficamos sempre com a sensação que ele lerpou no nosso lugar. Eu não sei quantos entenderam as palavras de Manuel Alegre. Porque se entendessem, se calhar não entendem e preferirão - talvez - o "amigo da Unita" ou o "cara de pau", o candidato que apoio - o Presidente de Palavra e das Palavras - ganhava logo à primeira volta. Limpinho, porque um gajo teso e de alma límpida, que mantém, assim, esta camaradagem do tempo de guerra é o homem de sentimentos e sensibilidade que merece ser saudado em Belém, batendo-lhe a pala para o gozar e nos gozarmos. Em cumplicidade de camarada. Numa camaradagem que vai além da política, é, apenas e sobretudo, coisa de alma. Sei que pouquíssimo decido, eu só tenho um voto, como manda a democracia e assim está bem. Mas o meu voto será especial - é de um camarada.

João Tunes
________________


Notas de L.G.

(1) Segundo o Diário de Notícias, de 19 de Novembro de 2005, "a guerra contra o terrorismo fez ontem, nos arredores de Cabul, a primeira vítima mortal entre os militares portugueses". O sargento João Paulo Roma Pereira, de 33 aqnos, natural de Alhos Verdos, foi "o décimo soldado luso a morrer desde que, em finais de 1995, Portugal começou a participar em missões internacionais de paz". Facto não menos significativo, "é também o primeiro militar comando a falecer desde o fim da Guerra Colonial". Houve ainda três feridos. A viatura blindada em que os quatro militares seguiam, numa patrulha de rotina, nos arredores de Cabul, accionou um "engenho explosivo".

(2) Está publicado no blogue do autor > Água Lisa (4) > 21 de Novembro de 2005 > Camarada Presidente

Guiné 63/74 - CCCI: Morreu um soldado português no Afeganistão...

Vários tertulianos - para já, o A. Marques Lopes, o Afonso Sousa e o João Tunes - manifestaram-se a propósito da notícia da morte de um dos nossos soldados, no Afeganistão (1). Aqui ficam os seus comentários. O texto e o contexto justificam a sua inserção no nosso blogue.

1. Texto do A. Marques Lopes (de 18 de Novembro de 2005, que circulou por e-mail, pela tertúlia)

Morreu um soldado português no Afeganistão (foi um sargento) e dois ficaram feridos (um em estado grave, já sabemos o que isso quer dizer...). Foi com uma mina. Onde é que já ouvimos... e vimos isto, nós os veteranos de guerra?...

Primeira questão:

- No Iraque não morreu nenhum GNR, mas no Afeganistão morreu já um soldado portugês; missões diferentes? cuidados diferentes? Uma coisa é certa: a condição do militar é poder ser morto no desempenho da sua missão. Mas há quem continue a não perceber (ou não querer perceber) esta particularidade, merecedora de mais respeito e atenção, e contrapartidas adequadas.

Segunda questão:

- Todos nós estivemos nesta condição na Guiné, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente; estivemos para defender o que os governantes da altura chamaram os interesses de Portugal, também voluntária ou involuntariamente, também conscientes ou sem nenhuma consciência disso. Teve que ser, que remédio, já passou, e vamos falando disso. A maior parte lamenta-se, e bem, porque não lhes estão a reconhecer essa condição(imposta, na altura).

Terceira questão:

- Os interesses eram claros para nós (embora contestados) em Angola, Guiné e Moçambique. Mas quais são os interesses em jogo no Afeganistão (país charneira naquela região da Ásia, estrada dos pipe-lines que ligam às repúblicas asiáticas da ex-URSS, e produtoras de petróleo) ou no Iraque (fonte quase inesgotável de petróleo)? Neste aspecto, não é claro que sejam interesses de Portugal, e há outros com todo o interesse.

Quarta questão:

- Estamos em alianças com estes e temos que cumprir as nossas obrigações de aliados. Morremos a cumpri-las. E eles? A nossa frota pesqueira, a nossa agricultura e a nossa indústria são destruídas para podermos comprar os seus produtoa nos hiper e supermercados de Portugal; o nosso desemprego sobe exponencialmente, porque os nossos aliados deslocam a s empresas para onde há mão-de-obra mais barata (mas o nosso governo está a trabalhar para corrigir esse problema, é verdade...)...
Vou dar de beber à dor, adeus.

A. Marques Lopes


2. Comentário do Afonso M. Ferreira Sousa (também com a data de 18 de Novembro; circulou apenas por alguns e-mails de nós):

Tudo claro como a água, mais não pode ser !

Mas os contestatários de outrora (e bem)...foram, muitos deles, os governantes ou timoneiros neste caminhar de 31 anos !...

Afinal como é ?!

A mesma detracção que tentaram (*) lançar-nos, continua infelizmente a gerar, para o futuro, companheiros no "demérito injusto e vergonhoso".

(*)...e fico só com esta: TENTARAM (salvo mais avalizada opinião)

Um abraço
Afonso Sousa


3. Texto do João Tunes (de 21 de Novembro de 2005; não circulou, por e-mail, pela tertúlia)(2):
Leio isto e percebo isto:

"Estive na guerra, vi morrer amigos meus e quando morre um soldado ou um militar português, seja onde for, evidentemente que isso deixa de luto todo o país e nos deixa de luto a todos nós" (Manuel Alegre, sobre a morte em combate do Sargento Comando João Paulo Roma, no Afeganistão).

Eu que também estive na guerra, contra a guerra, fazendo a guerra, a mando de um ditador parado no tempo, sob o comando de um actor feio como a noite mas maníaco de poses prussianas e disfarçado de general com um vidro redondo empoleirado teatralmente num olho, vergado sob o peso dos colonos - mais que os dali, da Guiné, os de Moçambique e de Angola (as jóias da coroa) - que cada um de nós trazia às cavalitas para afastarem com chicote e para longe, um chicote afiado pelos pides, a pretalhada na sua terra, eu entendo-o bem.

Naquelas circunstâncias, ali parados para matar e morrer, sair vivo da merda, dos cus de judas, um camarada é camarada, é muito mais que patrício ou mesmo irmão, até que o mais amigo, o melhor amigo.

Um camarada de armas na guerra é alguém que perdemos, ou podemos perder, nos braços, na força da juventude, sabendo que foi a pura sorte que evitou o inverso - sermos, nós, tripas ao léu, a dizermos-lhe "estou fodido, eu sei que estou fodido, foderam-me, estou mais que fodido, foda-se, diz por mim à Luísa que, agora que estou fodido, estou a pensar nela, só penso nela!". Um camarada de armas, na guerra, é um pedaço de nós, alguém que morre no nosso lugar ou a quem nos pode calhar morrermos no lugar dele.

Este sentido, que a paneleiragem pacifista-folclórica não entende, não pode entender, perdura perante um qualquer nosso morto em combate, ontem, hoje e amanhã. Ficamos sempre com a sensação que ele lerpou no nosso lugar. Eu não sei quantos entenderam as palavras de Manuel Alegre. Porque se entendessem, se calhar não entendem e preferirão - talvez - o "amigo da Unita" ou o "cara de pau", o candidato que apoio - o Presidente de Palavra e das Palavras - ganhava logo à primeira volta. Limpinho, porque um gajo teso e de alma límpida, que mantém, assim, esta camaradagem do tempo de guerra é o homem de sentimentos e sensibilidade que merece ser saudado em Belém, batendo-lhe a pala para o gozar e nos gozarmos. Em cumplicidade de camarada. Numa camaradagem que vai além da política, é, apenas e sobretudo, coisa de alma. Sei que pouquíssimo decido, eu só tenho um voto, como manda a democracia e assim está bem. Mas o meu voto será especial - é de um camarada.

João Tunes
________________


Notas de L.G.

(1) Segundo o Diário de Notícias, de 19 de Novembro de 2005, "a guerra contra o terrorismo fez ontem, nos arredores de Cabul, a primeira vítima mortal entre os militares portugueses". O sargento João Paulo Roma Pereira, de 33 aqnos, natural de Alhos Verdos, foi "o décimo soldado luso a morrer desde que, em finais de 1995, Portugal começou a participar em missões internacionais de paz". Facto não menos significativo, "é também o primeiro militar comando a falecer desde o fim da Guerra Colonial". Houve ainda três feridos. A viatura blindada em que os quatro militares seguiam, numa patrulha de rotina, nos arredores de Cabul, accionou um "engenho explosivo".

(2) Está publicado no blogue do autor > Água Lisa (4) > 21 de Novembro de 2005 > Camarada Presidente

20 novembro 2005

Guiné 63/74 - CCC: Viana-Cacheu: aquele abraço!

Post nº 300 (CCC)

Fortaleza de Cacheu, a primeira feitoria a ser construída pelos navegadores portugueses.

A verdadeira exploração da actual costa da Guiné-Bissau deverá ter começado a partir de 1444 (Fonte: Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, Vol. I. Direcção de Luís de Albuquerque. s/l: Círculo de Leitores. 1994. 478-481).





Foto: © AD - Acção para o Desenvolvimento (2005) (ONG guineense, fundada e dirigida pelo nosso amigo Carlos Schwarz, que foi engenheiro agrónomo em Contuboel e é também, actualmente, deputado no Parlamento por aquela região do leste).



Pelo e-mail do Sousa de Castro chegou, à nossa tertúlia, o convite para a participação na Semana da Guiné, a decorrer de 19 a 23 de Novembro, em Viana do Castelo, e que envolve amigos e camaradas nossos como o Carvalhido da Ponte e o Leopoldo Amado, membros desta tertúlia.

Amigo/a

Data: 07/11/05
Assunto: Semana da Guiné – 19/23 de Novembro de 2005

A ACGB [Associação de Cooperação com a Guiné-Bissau] (1) vai realizar as actividades previstas no seguinte programa, para

* visibilizar o seu aparecimento como Associação,
* tornar público o seu trabalho desenvolvido como Plataforma e os seus projectos como Associação,
* lembrar os 17 anos de geminação de Viana com Cacheu,
* divulgar a Guiné pela sua história, pela sua realidade, pela sua cultura.

Neste sentido gostaríamos de contar com a tua presença em todas as acções, muito especialmente nas dos dias 19 e 21.

Saudações cordiais

Pela ACGB
José Luís Carvalhido da Ponte

Programa

Viana-Cacheu: construir um abraço
Semana da Guiné no 17º aniversário da Geminação Viana/Cacheu
19 a 23 de Novembro

19 (21h30m/ SEDE) -

* Abertura da exposição "5 anos de cooperação";

* Assinatura de um Protocolo de utilização de sede, com a AJHLAM [Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Alto Minho] ;

* Lançamento das campanhas:

+ mil sócios/mil abraços
+ juntos por Cacheu 2005/2006 (angariação de material médico-medicamentoso e didáctico para Cacheu)

20 (13h/ESM) – Almoço de confraternização de todos quantos são/passaram da/pela Guiné

Local: Escola Secundária de Monserrate (dependente das inscrições)

Senhas de inscrição: Tabacaria CISO / Viana

21 (21h30m/SEDE) – Lembrando os 17 anos de geminação de Viana com Cacheu:

PAINEL:

* "Cacheu, cidade antiga" - Dr. Leopoldo Amado (Historiador e Secretário Executivo da GUINEÁSPORA)

* Os caminhos desta geminação (balanço) - Drª Flora Silva (Vice-Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo)

23 (21h15m/Verde Viana) – Cinema Guineense : Nha Fala

INFORMAÇÕES: 966057830 ou cdaponte@portugalmail.pt

________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 20 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLI: Cooperação, caridade ou negócio ? (2) e, em especial, a mensagem do Carvalhido da Ponte, que foi furriel miliciano enfermeiro na CART 3494, a mesma companhia ( do BART 3873, 1972/74), a que pertenciam outros dois membros da nossa tertúlia, Sousa de Castro e Manuel G. Ferreira. Eles estiveram no Xime (até ao 1º trimestre de 1973) e depois em Mansambo (até ao fim da guerra).

(2) Segundo o presidente da ACGB, José Carvalhido da Ponte, em declarações ao JN - Jornal de Notícias, de hoje, a propósito da Semana da Guiné, que está a decorrer em Viana, e do balanço de cinco anos de cooperação, "várias actividades foram desenvolvidas em prol da cidade de Cacheu, nomeadamente a recolha de cerca de 10 toneladas de roupa, livros, medicamentos e jogos didácticos".

Por outro lado, a foi feita a recuperação de um jardim-de-infância e da casa do capitão-mor, onde se instalou um centro de recursos que, entre Outubro de 2003 e Maio de 2005, teve uma afluência de 1900 utilizadores. Estas foram algumas intervenções também realizadas em Cacheu. "No entanto muito há ainda por fazer", salienta, José Carvalhido da Ponte.

Até 2009, a ACGB pretende: (i) restaurar o centro de saúde e o espaço inicialmente destinado a maternidade, através de campanhas de angariação de material médico-medicamentoso e de mobiliário; (ii) efectuar despistes oftalmológicos e oferta de óculos aos técnicos de saúde e aos professores do sector de Cacheu; (iii) recuperar diversas escolas; e (iv) apostar na formação de professores e no apoio aos estudantes guineenses em Viana.

Ainda segundo a mesma fonte noticiosa, o Jornal de Notícias, do Porto, a Associação de Cooperação com a Guiné Bissau (ACGB) surgiu em 27 de Maio de 2000, então com a designação de Plataforma de Cooperação com a Guiné-Bissau. Actualmente, a ACGB tem como membros, em Viana do Castelo, a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, os Amigos do Mar, a Associação dos Técnicos de Turismo, a Câmara Municipal, a Escola Secundária de Monserrate e a Escola Superior de Educação e, pelo lado guineense, o Conselho Nacional da Juventude.

Um grande abraço ao Carvalhido da Ponte por este trabalho extraordinário de cinco anos! Que é dele e de toda uma comunidade. A guerra (colonial) acabou, mas a paz, essa, continua a construir-se todos os dias... Nós, que fomos os primeiros europeus a conviver e a negociar com os povos da Guiné (dos mandingas aos felupes), temos a obrigação (histórica e moral) de continuar a manter a nossa especial relação com eles, embora hoje numa base fraterna e falando em português...

Guiné 63/74 - CCC: Viana-Cacheu: aquele abraço!

Post nº 300 (CCC)

Fortaleza de Cacheu, a primeira feitoria a ser construída pelos navegadores portugueses.

A verdadeira exploração da actual costa da Guiné-Bissau deverá ter começado a partir de 1444 (Fonte: Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, Vol. I. Direcção de Luís de Albuquerque. s/l: Círculo de Leitores. 1994. 478-481).





Foto: © AD - Acção para o Desenvolvimento (2005) (ONG guineense, fundada e dirigida pelo nosso amigo Carlos Schwarz, que foi engenheiro agrónomo em Contuboel e é também, actualmente, deputado no Parlamento por aquela região do leste).



Pelo e-mail do Sousa de Castro chegou, à nossa tertúlia, o convite para a participação na Semana da Guiné, a decorrer de 19 a 23 de Novembro, em Viana do Castelo, e que envolve amigos e camaradas nossos como o Carvalhido da Ponte e o Leopoldo Amado, membros desta tertúlia.

Amigo/a

Data: 07/11/05
Assunto: Semana da Guiné – 19/23 de Novembro de 2005

A ACGB [Associação de Cooperação com a Guiné-Bissau] (1) vai realizar as actividades previstas no seguinte programa, para

* visibilizar o seu aparecimento como Associação,
* tornar público o seu trabalho desenvolvido como Plataforma e os seus projectos como Associação,
* lembrar os 17 anos de geminação de Viana com Cacheu,
* divulgar a Guiné pela sua história, pela sua realidade, pela sua cultura.

Neste sentido gostaríamos de contar com a tua presença em todas as acções, muito especialmente nas dos dias 19 e 21.

Saudações cordiais

Pela ACGB
José Luís Carvalhido da Ponte

Programa

Viana-Cacheu: construir um abraço
Semana da Guiné no 17º aniversário da Geminação Viana/Cacheu
19 a 23 de Novembro

19 (21h30m/ SEDE) -

* Abertura da exposição "5 anos de cooperação";

* Assinatura de um Protocolo de utilização de sede, com a AJHLAM [Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Alto Minho] ;

* Lançamento das campanhas:

+ mil sócios/mil abraços
+ juntos por Cacheu 2005/2006 (angariação de material médico-medicamentoso e didáctico para Cacheu)

20 (13h/ESM) – Almoço de confraternização de todos quantos são/passaram da/pela Guiné

Local: Escola Secundária de Monserrate (dependente das inscrições)

Senhas de inscrição: Tabacaria CISO / Viana

21 (21h30m/SEDE) – Lembrando os 17 anos de geminação de Viana com Cacheu:

PAINEL:

* "Cacheu, cidade antiga" - Dr. Leopoldo Amado (Historiador e Secretário Executivo da GUINEÁSPORA)

* Os caminhos desta geminação (balanço) - Drª Flora Silva (Vice-Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo)

23 (21h15m/Verde Viana) – Cinema Guineense : Nha Fala

INFORMAÇÕES: 966057830 ou cdaponte@portugalmail.pt

________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 20 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLI: Cooperação, caridade ou negócio ? (2) e, em especial, a mensagem do Carvalhido da Ponte, que foi furriel miliciano enfermeiro na CART 3494, a mesma companhia ( do BART 3873, 1972/74), a que pertenciam outros dois membros da nossa tertúlia, Sousa de Castro e Manuel G. Ferreira. Eles estiveram no Xime (até ao 1º trimestre de 1973) e depois em Mansambo (até ao fim da guerra).

(2) Segundo o presidente da ACGB, José Carvalhido da Ponte, em declarações ao JN - Jornal de Notícias, de hoje, a propósito da Semana da Guiné, que está a decorrer em Viana, e do balanço de cinco anos de cooperação, "várias actividades foram desenvolvidas em prol da cidade de Cacheu, nomeadamente a recolha de cerca de 10 toneladas de roupa, livros, medicamentos e jogos didácticos".

Por outro lado, a foi feita a recuperação de um jardim-de-infância e da casa do capitão-mor, onde se instalou um centro de recursos que, entre Outubro de 2003 e Maio de 2005, teve uma afluência de 1900 utilizadores. Estas foram algumas intervenções também realizadas em Cacheu. "No entanto muito há ainda por fazer", salienta, José Carvalhido da Ponte.

Até 2009, a ACGB pretende: (i) restaurar o centro de saúde e o espaço inicialmente destinado a maternidade, através de campanhas de angariação de material médico-medicamentoso e de mobiliário; (ii) efectuar despistes oftalmológicos e oferta de óculos aos técnicos de saúde e aos professores do sector de Cacheu; (iii) recuperar diversas escolas; e (iv) apostar na formação de professores e no apoio aos estudantes guineenses em Viana.

Ainda segundo a mesma fonte noticiosa, o Jornal de Notícias, do Porto, a Associação de Cooperação com a Guiné Bissau (ACGB) surgiu em 27 de Maio de 2000, então com a designação de Plataforma de Cooperação com a Guiné-Bissau. Actualmente, a ACGB tem como membros, em Viana do Castelo, a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, os Amigos do Mar, a Associação dos Técnicos de Turismo, a Câmara Municipal, a Escola Secundária de Monserrate e a Escola Superior de Educação e, pelo lado guineense, o Conselho Nacional da Juventude.

Um grande abraço ao Carvalhido da Ponte por este trabalho extraordinário de cinco anos! Que é dele e de toda uma comunidade. A guerra (colonial) acabou, mas a paz, essa, continua a construir-se todos os dias... Nós, que fomos os primeiros europeus a conviver e a negociar com os povos da Guiné (dos mandingas aos felupes), temos a obrigação (histórica e moral) de continuar a manter a nossa especial relação com eles, embora hoje numa base fraterna e falando em português...