06 dezembro 2005

Guné 63/74 - CCCXLII: Antologia (31): Socioantropologia dos povos da Guiné (1971)

Guiné > Xime > 1972: O Sousa de Castro no seu posto de trabalho, operando o Rádio AN-GRC 9.

"O AN-GRC 9 foi o rádio com que trabalhei durante toda a comissão na Guiné em grafia... Não é para me gabar, mas eu achava-me um craque nesta matéria, trabalhar em código morse era comigo, ou não tivesse na minha caderneta a menção de TE (telegrafista especial)" (1)


© Sousa de Castro (2005)



Texto seleccionado sobre o "aspecto humano" da Guiné e enviado pelo Sousa de Castro (ex-1º cabo de transmissões, CART 3494 / BART 3873, Xime e Mansambo, Sector L1, Zona Leste, 1972/74).

Deixem-me dizer-vos que eu tenho um especial carinho pelo Castro: é o sócio-fundador desta tertúlia (2)... Sinto que às vezes não lhe dou a devida atenção! Castro, desculpa lá qualquer coisinha! L.G.

Alguns dados curiosos retirados da monografia da Guiné editados em 1971 pelo Estado-Maior do Exército com o título MISSÃO NA GUINÉ . Composto e impresso nas Oficinas Gráficas da SPEME. Sousa de Castro


O Rádio AN-GRC-9. Foto gentilmente disponibilizada pelo nosso camarada Afonso M. F. Sousa, que vive actualmente em Maceda, Ovar, ex-Furriel Miliciano de Transmissões da CART 2412; esteve na região do Cacheu (Bigene, Binta, Guidage e Barro), entre Agosto de 1968 e Maio de 1970.















ASPECTO HUMANO

População

A população da Guiné era, segundo o censo de 1960, de 544.184 habitantes o que representava um aumento de 33.407 habitantes em relação ao censo de 1950. É característica na Província a diversidade étnica dos seus habitantes (3).

Não falando já dos não autóctones – brancos, mestiços, cabo-verdianos e libaneses, na sua grande maioria – num total aproximado de 15.000, a população autóctone (nativa) guineense apresenta uma grande variedade de tipos, correspondentes a diferentes grupos étnicos (tribos), entre as quais as principais são:


- Balantas (quantitativo referido a 1962 – 150 000).

Habitam entre os rios Geba e Cacheu, com uma ramificação importante na região de Catió-Bedanda, no Sul da Província.

Dotados de boa condição física, são trabalhadores, valentes, enérgicos, com grande força de vontade e viva inteligência.

Bons agricultores, vão buscar à terra, principalmente às regiões alagadas («bolanhas»), os meios de subsistência de que necessitam. Alimentam-se de arroz, azeite de palma, milho e mandioca; apreciam muito a carne, o peixe e os mariscos.

O gado bovino que possuem destinam-no às cerimónias de sacrifício dos ritos que acompanham os funerais («choros»).


Guiné > Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Militares, de origem balanta, pertecentes à CCAÇ 3.

© A. Marques Lopes (2005)


Condenam o celibato. Extremamente supersticiosos, acreditam na transfiguração da alma, atribuindo à feitiçaria todas as suas desgraças.

Praticam o roubo, em especial de gado, com a consciência de um acto não criminoso, mas sim revelador da perícia própria da tribo. São animistas.

- Fulas (Fulas-Forros e Fulas-Pretos) (120 000).

Povoam o Nordeste da Guiné, a região do Gabu, Bafatá e Forreá.

Os primeiros fulas a entrar na Província foram os fulas-forros, que subjugaram e escravizaram grande número de mandingas, a quem designaram por fulas-pretos.
De um modo geral, são hospitaleiros, considerando mesmo a hospitalidade como um dever sagrado.

Apesar da influência que o islamismo tem entre eles, praticam também o animismo.
Dedicam-se ao cultivo do arroz, sem grande entusiasmo, milho e amendoim e à pesca, à linha ou por envenenamento das águas.

Do gado que criam, considerando como um sinal de prestígio apenas aproveitam o leite para sua alimentação.

- Futa-Fulas (10 000).

Povoam grande parte da região do Boé.

Nos futa-fulas, originários do Futa Djalon, donde lhes veio o nome, não existe unidade de tipo, apresentando as mais diversas características, e, normalmente, a face marcada pr dupla incisão vertical que faz lembrar o n.º 11.

Consideram-se, em tudo, superiores aos restantes fulas.

De elevada estatura, argutos e inteligentes, dedicam-se à agricultura, à criação de gado e ao comércio ambulante. Alimentam-se de arroz, de «fundo» (tipo de cereal semelhante à alpista) e de toda a variedade de frutos. Comem carne, com excepção da do porco, e não bebem vinho por a sua religião (o islamismo) o não permitir.

São polígamos, embora predominem os casamentos com uma só mulher. São islamizados.

- Manjacos (65 000).

Habitam a região compreendida entre o rio Cacheu e a ria de Mansoa e as ilhas de Jeta e de Pecixe.

Um balanta (Kumba Alà) e um papel (Nino Vieira, recentemente regressado do exílio e logo a seguir eleito Presidente da República).

Foto: Blogue Africanidades, do nosso amigo © Jorge Neto (2005)


São curiosos, astutos, dedicados, hospitaleiros, com perfeita compreensão dos princípios morais e de justiça, preocupando-se em adquirir hábitos civilizados.
Têm certa tendência para o comércio e aptidão para as tarefas marítimas.

Dedicam-se ao cultivo do arroz, exploração de palmares, pesca e extracção do sal.

São animistas.

- Mandingas (60 000).

Habitam na região de Farim, Óio, Bafatá e Gabú.

São sóbrios, inteligentes, observadores, aguerridos, alegres e comunicativos.

Com preceitos morais que os colocam acima das outras tribos, admitem o regime de castas (nobres, ferreiros – com uma importância muito especial -, ourives, sapateiros, etc.). As profissões passam obrigatoriamente de pais para filhos e os casamentos só se realizam entre membros de famílias de nobres, ferreiros, ourives, sapateiros, etc.

Dedicam-se à cultura do milho, mas comercialmente o produto mais importante é a mancarra.

O islamismo não fez desaparecer entre eles as práticas animistas.

- Papéis (40 000).

Povoam a ilha de Bissau.

São aguerridos, enérgicos, decididos, desconfiados e nadas expansivos. Tal como os manjacos, têm certa aptidão para as práticas marítimas. Alimentam-se de arroz, mandioca, batata-doce, milho, «fundo» e peixe seco.

Dedicam-se à agricultura (arroz mancarra, em especial) e ao trabalho de carregador nos centros urbanos. São animistas.

- Beafadas (13 500).

Habitam a região de Quinara. Embora robustos, são indolentes por natureza. Progressivamente islamizados, mantêm-se, ainda, agarrados às práticas animistas.

- Brames (Mancanhas) 12 500.

Vivem nos regulados do Có e Bula, na ilha de Bissau, na ilha de Bolama e na região continental fronteira a esta ultima ilha.

Têm grandes afinidades com os mandingas e fulas, de quem descendem por cruzamento.
São inteligentes e assimilam com facilidade os usos e costumes dos europeus.

Consideram como delitos de somenos importância, quando não mesmo louváveis, o falso testemunho, as ofensas corporais, o estupro, a violação e o adultério. Veneram o «Irã».

Dedicam-se, sobretudo, à cultura do milho e da mancarra.

- Bijagós (12 500).

Povoam o arquipélago de Bijagós. São tímidos, belicosos e desconfiados. Vivendo constantemente no mar, são excelentes marinheiros.

Em questões de namoro e de casamento, a escolha é feita pela mulher, que os bijagós têm na conta de um ser superior.

São hábeis artistas na escultura da madeira e dedicam-se à pesca e à extracção do sal.

- Felupes (6000).

Habitam na região de Varela e Susana.

São fortes e ágeis, praticantes entusiastas do exercício físico. Bons atiradores de azagaia e flechas, cujas pontas envenenam, dedicam-se à caça. São animistas.

Consideram falta muito grave a união da mulher felupe com um nativo de tribo diferente (4).

- Baiotes (5500).

Habitam ao norte do rio Cacheu, no extremo ocidental da Província. Têm grandes afinidades com os felupes, pois constituem com eles o grupo étnico dos diolas. A diferençá-los apenas existe um dialecto diferente e a sua distribuição geográfica.

São animistas.

- Nalus (5500).

Habitam as regiões do Tombali e de Cacine.

São pouco robustos e de estatura média. Muito individualistas, recusam-se a manter relações com as tribos vizinhas. Têm um conceito perfeito da justiça. Encontram-se em grande parte islamizados.

- Sossos (2000).

Constituem um ramo dos mandingas. São islamizados e têm grandes afinidades com as populações fronteiriças.


Todos os grupos étnicos da Guiné praticam a poligamia, embora existam em maior percentagem lares monógamos. O maior número de lares monógamos encontra-se nos Felupes, Cassangas e Futa-Fulas, que atingem uma percentagem superior a 70%. As menores percentagens de lares monógamos encontram-se entre os Beafadas e os Mandingas.

A poligamia praticada incide na bigamia. São insignificantes as percentagens de lares com mais de 4 esposas.

Entre as tribos guineenses existem para cima de 20 línguas e dialectos diferentes.
Introduzido pelos primeiros colonos e aceite facilmente pelos nativos, fala-se também o crioulo, que não é mais que uma mistura de palavras portuguesas (algumas muito antigas) e palavras das línguas e dialectos locais.

O crioulo permite aos nativos entenderem-se entre si.

O povoamento da Guiné é muito irregular, verificando-se serem regiões do litoral e as regiões vizinhas de Farim e Bafatá (os dois principais centros de comunicação da Província) as mais habitadas, e as do Boé e do sueste do Óio as menos habitadas.
________

Notas de L.G.

(1) Vd post de 2 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCIV: Um alfa bravo para os nossos Op TRMS (1)

(2) Vd. post de 20 de Abril de 2005 > Guiné 69/71 - V: Convívio de antigos camaradas de armas de Bambadinca. Eis um excerto do que então escrevi:

"Sei que o BART 2917 [Bambadinca, 1970/72] e as respectivas companhias de quadrícula[Xime, Mansambo e Xitole] foram rendidas em Janeiro de 1972. Ainda ontem recebi um e-mail de um camarada dessa época (que obviamente não conheci, já que regressei a casa em Março de 1971). Trata-se do Xime [e depois em Mansambo]. O meu Batalhão estava em Bambadinca, BART 3873 (CCS), com a CART 3494 no Xime, a CART 3493 em Mansambo e a CART 3492 no Xitole.

"No meu tempo o Xime continuava muito complicado. Como descreve no seu blogue, nas estórias de um tuga, continuamos com esta terra na cabeça, nunca mais nos sai e eu continuo buscando algo sobre aquele tempo passado relacionado com a guerra. Tenho reenviado a sua estória para colegas que estiveram na Guiné e é uma forma de dizermos que estamos vivos. Bem haja. Cumprimentos, Sousa de Castro".

"O Sousa de Castro e todos os periquitos que estiveram em Bambadinca, Xime, Mansambo ou Xitole, entre Janeiro de 1972 e Abril de 1974, serão bem vindos à nossa [CCAÇ 12 e BCAÇ 2852] festa, no dia 11 de Junho, em Faro, na Ria Formosa. Eles terão muito para nos contar: afinal, andámos todos pelos sítios, picadas, rios e bolanhas do Sector L1 da Zona Leste, desde 1968 a 1974... E quer queiramos quer não, aquela terra marcou-nos a todos, a ferro e fogo, no corpo e na alma"...

(3) Vd. Guinée-Bissau.net > le site officiel des amoureux de la Guinée-Bissau e, em especial, a página dedicada aos seus grupos étnicos (em francês) .

(4) Sobre os felupes e os balantas, ver a opinião (qaulificada) do nosso camarada Carlos Fortunato, na sua página sobre a CCAÇ 13 - Os Leões Negros (ele não esconde a sua admiração tanto por uns como por outros, mas noutra ocasião, por e-mail, referiu-me que em provas físicas, na luta corpo-a-corpo, nunca viu um balanta ganhar a um felupe):

"Adversários temíveis, os felupes possuem elevada estatura e grande robustez física. São referidos como praticantes do canibalismo no passado, são coleccionadores de cabeças dos seus inimigos que entregam ao feiticeiro e usam com extraordinária perícia arcos com setas envenenadas.

"Embora se assegure que o canibalismo pertence ao passado, não era essa a opinião das restantes etnias, as quais referem igualmente que estes fazem os seus funerais à meia noite, pendurando caveiras nas copas das árvores, e dançando debaixo delas. O felupe é conhecido como pouco hospitaleiro para com as restantes etnias, pelo que existe da parte destas um misto de animosidade e desconhecimento.

"Os felupes são igualmente grandes lutadores, fazendo da luta a sua paixão. Este desporto tão vulgarizado nesta etnia, prende-o, empolga-o, constituindo o mais desejado espectáculo.

"Este grupo de felupes é famoso pela sua combatividade, a qual não conhece fronteiras, fazendo incursões frequentes no Senegal. As notícias que chegaram depois da independência é que foram todos mortos pelo PAIGC.

"Os balantas são a principal etnia da Guiné, sendo igualmente grandes soldados, trazem consigo uma grande experiência e o conhecimento do terreno, muitos deles foram milícias durante muitos anos, outros foram carregadores, outros ainda lutaram ou lutavam no PAIGC. Possuem contudo um sentimento de lealdade e solidariedade que faz com que assumam uma posição e a mantenham, a palavra traição nunca fez parte do seu vocabulário.

"Os balantas são trabalhadores rurais, que usam enxadas em forma de de remo, são conhecidos pela sua habilidade como ladrões, actividade que faz parte da sua cultura.

"Roubar não é um crime para o balanta, mas uma prova de destreza, que todo o adulto que se preza deve fazer pelo menus uma vez na vida, e se for uma vaca é sem dúvida uma grande proeza.

"O que mais surpreende nestas pessoas, é algumas das suas capacidades, pois possuem sentidos muito desenvolvidos, tais como o cheiro, a visão e o ouvido.

"Penso que foi graças às qualidades e conhecimentos dos balantas que foi possível, conseguirmos fazer o que fizemos, com tão poucas baixas. O inimigo aqui nunca foi menosprezado.

"As capacidades dos balantas permitem-lhes fazer coisas difíceis de acreditar. Um dos casos ocorreu já em Bissorã, quando numa das operações ao Queré, um soldado acordou 2 horas depois da companhia já ter saído para o mato e conseguiu segui-la e encontrá-la, numa noite escura, tendo esta passado por mato cerrado, água, etc".

Guné 63/74 - CCCXLII: Antologia (31): Socioantropologia dos povos da Guiné (1971)

Guiné > Xime > 1972: O Sousa de Castro no seu posto de trabalho, operando o Rádio AN-GRC 9.

"O AN-GRC 9 foi o rádio com que trabalhei durante toda a comissão na Guiné em grafia... Não é para me gabar, mas eu achava-me um craque nesta matéria, trabalhar em código morse era comigo, ou não tivesse na minha caderneta a menção de TE (telegrafista especial)" (1)


© Sousa de Castro (2005)



Texto seleccionado sobre o "aspecto humano" da Guiné e enviado pelo Sousa de Castro (ex-1º cabo de transmissões, CART 3494 / BART 3873, Xime e Mansambo, Sector L1, Zona Leste, 1972/74).

Deixem-me dizer-vos que eu tenho um especial carinho pelo Castro: é o sócio-fundador desta tertúlia (2)... Sinto que às vezes não lhe dou a devida atenção! Castro, desculpa lá qualquer coisinha! L.G.

Alguns dados curiosos retirados da monografia da Guiné editados em 1971 pelo Estado-Maior do Exército com o título MISSÃO NA GUINÉ . Composto e impresso nas Oficinas Gráficas da SPEME. Sousa de Castro


O Rádio AN-GRC-9. Foto gentilmente disponibilizada pelo nosso camarada Afonso M. F. Sousa, que vive actualmente em Maceda, Ovar, ex-Furriel Miliciano de Transmissões da CART 2412; esteve na região do Cacheu (Bigene, Binta, Guidage e Barro), entre Agosto de 1968 e Maio de 1970.















ASPECTO HUMANO

População

A população da Guiné era, segundo o censo de 1960, de 544.184 habitantes o que representava um aumento de 33.407 habitantes em relação ao censo de 1950. É característica na Província a diversidade étnica dos seus habitantes (3).

Não falando já dos não autóctones – brancos, mestiços, cabo-verdianos e libaneses, na sua grande maioria – num total aproximado de 15.000, a população autóctone (nativa) guineense apresenta uma grande variedade de tipos, correspondentes a diferentes grupos étnicos (tribos), entre as quais as principais são:


- Balantas (quantitativo referido a 1962 – 150 000).

Habitam entre os rios Geba e Cacheu, com uma ramificação importante na região de Catió-Bedanda, no Sul da Província.

Dotados de boa condição física, são trabalhadores, valentes, enérgicos, com grande força de vontade e viva inteligência.

Bons agricultores, vão buscar à terra, principalmente às regiões alagadas («bolanhas»), os meios de subsistência de que necessitam. Alimentam-se de arroz, azeite de palma, milho e mandioca; apreciam muito a carne, o peixe e os mariscos.

O gado bovino que possuem destinam-no às cerimónias de sacrifício dos ritos que acompanham os funerais («choros»).


Guiné > Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Militares, de origem balanta, pertecentes à CCAÇ 3.

© A. Marques Lopes (2005)


Condenam o celibato. Extremamente supersticiosos, acreditam na transfiguração da alma, atribuindo à feitiçaria todas as suas desgraças.

Praticam o roubo, em especial de gado, com a consciência de um acto não criminoso, mas sim revelador da perícia própria da tribo. São animistas.

- Fulas (Fulas-Forros e Fulas-Pretos) (120 000).

Povoam o Nordeste da Guiné, a região do Gabu, Bafatá e Forreá.

Os primeiros fulas a entrar na Província foram os fulas-forros, que subjugaram e escravizaram grande número de mandingas, a quem designaram por fulas-pretos.
De um modo geral, são hospitaleiros, considerando mesmo a hospitalidade como um dever sagrado.

Apesar da influência que o islamismo tem entre eles, praticam também o animismo.
Dedicam-se ao cultivo do arroz, sem grande entusiasmo, milho e amendoim e à pesca, à linha ou por envenenamento das águas.

Do gado que criam, considerando como um sinal de prestígio apenas aproveitam o leite para sua alimentação.

- Futa-Fulas (10 000).

Povoam grande parte da região do Boé.

Nos futa-fulas, originários do Futa Djalon, donde lhes veio o nome, não existe unidade de tipo, apresentando as mais diversas características, e, normalmente, a face marcada pr dupla incisão vertical que faz lembrar o n.º 11.

Consideram-se, em tudo, superiores aos restantes fulas.

De elevada estatura, argutos e inteligentes, dedicam-se à agricultura, à criação de gado e ao comércio ambulante. Alimentam-se de arroz, de «fundo» (tipo de cereal semelhante à alpista) e de toda a variedade de frutos. Comem carne, com excepção da do porco, e não bebem vinho por a sua religião (o islamismo) o não permitir.

São polígamos, embora predominem os casamentos com uma só mulher. São islamizados.

- Manjacos (65 000).

Habitam a região compreendida entre o rio Cacheu e a ria de Mansoa e as ilhas de Jeta e de Pecixe.

Um balanta (Kumba Alà) e um papel (Nino Vieira, recentemente regressado do exílio e logo a seguir eleito Presidente da República).

Foto: Blogue Africanidades, do nosso amigo © Jorge Neto (2005)


São curiosos, astutos, dedicados, hospitaleiros, com perfeita compreensão dos princípios morais e de justiça, preocupando-se em adquirir hábitos civilizados.
Têm certa tendência para o comércio e aptidão para as tarefas marítimas.

Dedicam-se ao cultivo do arroz, exploração de palmares, pesca e extracção do sal.

São animistas.

- Mandingas (60 000).

Habitam na região de Farim, Óio, Bafatá e Gabú.

São sóbrios, inteligentes, observadores, aguerridos, alegres e comunicativos.

Com preceitos morais que os colocam acima das outras tribos, admitem o regime de castas (nobres, ferreiros – com uma importância muito especial -, ourives, sapateiros, etc.). As profissões passam obrigatoriamente de pais para filhos e os casamentos só se realizam entre membros de famílias de nobres, ferreiros, ourives, sapateiros, etc.

Dedicam-se à cultura do milho, mas comercialmente o produto mais importante é a mancarra.

O islamismo não fez desaparecer entre eles as práticas animistas.

- Papéis (40 000).

Povoam a ilha de Bissau.

São aguerridos, enérgicos, decididos, desconfiados e nadas expansivos. Tal como os manjacos, têm certa aptidão para as práticas marítimas. Alimentam-se de arroz, mandioca, batata-doce, milho, «fundo» e peixe seco.

Dedicam-se à agricultura (arroz mancarra, em especial) e ao trabalho de carregador nos centros urbanos. São animistas.

- Beafadas (13 500).

Habitam a região de Quinara. Embora robustos, são indolentes por natureza. Progressivamente islamizados, mantêm-se, ainda, agarrados às práticas animistas.

- Brames (Mancanhas) 12 500.

Vivem nos regulados do Có e Bula, na ilha de Bissau, na ilha de Bolama e na região continental fronteira a esta ultima ilha.

Têm grandes afinidades com os mandingas e fulas, de quem descendem por cruzamento.
São inteligentes e assimilam com facilidade os usos e costumes dos europeus.

Consideram como delitos de somenos importância, quando não mesmo louváveis, o falso testemunho, as ofensas corporais, o estupro, a violação e o adultério. Veneram o «Irã».

Dedicam-se, sobretudo, à cultura do milho e da mancarra.

- Bijagós (12 500).

Povoam o arquipélago de Bijagós. São tímidos, belicosos e desconfiados. Vivendo constantemente no mar, são excelentes marinheiros.

Em questões de namoro e de casamento, a escolha é feita pela mulher, que os bijagós têm na conta de um ser superior.

São hábeis artistas na escultura da madeira e dedicam-se à pesca e à extracção do sal.

- Felupes (6000).

Habitam na região de Varela e Susana.

São fortes e ágeis, praticantes entusiastas do exercício físico. Bons atiradores de azagaia e flechas, cujas pontas envenenam, dedicam-se à caça. São animistas.

Consideram falta muito grave a união da mulher felupe com um nativo de tribo diferente (4).

- Baiotes (5500).

Habitam ao norte do rio Cacheu, no extremo ocidental da Província. Têm grandes afinidades com os felupes, pois constituem com eles o grupo étnico dos diolas. A diferençá-los apenas existe um dialecto diferente e a sua distribuição geográfica.

São animistas.

- Nalus (5500).

Habitam as regiões do Tombali e de Cacine.

São pouco robustos e de estatura média. Muito individualistas, recusam-se a manter relações com as tribos vizinhas. Têm um conceito perfeito da justiça. Encontram-se em grande parte islamizados.

- Sossos (2000).

Constituem um ramo dos mandingas. São islamizados e têm grandes afinidades com as populações fronteiriças.


Todos os grupos étnicos da Guiné praticam a poligamia, embora existam em maior percentagem lares monógamos. O maior número de lares monógamos encontra-se nos Felupes, Cassangas e Futa-Fulas, que atingem uma percentagem superior a 70%. As menores percentagens de lares monógamos encontram-se entre os Beafadas e os Mandingas.

A poligamia praticada incide na bigamia. São insignificantes as percentagens de lares com mais de 4 esposas.

Entre as tribos guineenses existem para cima de 20 línguas e dialectos diferentes.
Introduzido pelos primeiros colonos e aceite facilmente pelos nativos, fala-se também o crioulo, que não é mais que uma mistura de palavras portuguesas (algumas muito antigas) e palavras das línguas e dialectos locais.

O crioulo permite aos nativos entenderem-se entre si.

O povoamento da Guiné é muito irregular, verificando-se serem regiões do litoral e as regiões vizinhas de Farim e Bafatá (os dois principais centros de comunicação da Província) as mais habitadas, e as do Boé e do sueste do Óio as menos habitadas.
________

Notas de L.G.

(1) Vd post de 2 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCIV: Um alfa bravo para os nossos Op TRMS (1)

(2) Vd. post de 20 de Abril de 2005 > Guiné 69/71 - V: Convívio de antigos camaradas de armas de Bambadinca. Eis um excerto do que então escrevi:

"Sei que o BART 2917 [Bambadinca, 1970/72] e as respectivas companhias de quadrícula[Xime, Mansambo e Xitole] foram rendidas em Janeiro de 1972. Ainda ontem recebi um e-mail de um camarada dessa época (que obviamente não conheci, já que regressei a casa em Março de 1971). Trata-se do Xime [e depois em Mansambo]. O meu Batalhão estava em Bambadinca, BART 3873 (CCS), com a CART 3494 no Xime, a CART 3493 em Mansambo e a CART 3492 no Xitole.

"No meu tempo o Xime continuava muito complicado. Como descreve no seu blogue, nas estórias de um tuga, continuamos com esta terra na cabeça, nunca mais nos sai e eu continuo buscando algo sobre aquele tempo passado relacionado com a guerra. Tenho reenviado a sua estória para colegas que estiveram na Guiné e é uma forma de dizermos que estamos vivos. Bem haja. Cumprimentos, Sousa de Castro".

"O Sousa de Castro e todos os periquitos que estiveram em Bambadinca, Xime, Mansambo ou Xitole, entre Janeiro de 1972 e Abril de 1974, serão bem vindos à nossa [CCAÇ 12 e BCAÇ 2852] festa, no dia 11 de Junho, em Faro, na Ria Formosa. Eles terão muito para nos contar: afinal, andámos todos pelos sítios, picadas, rios e bolanhas do Sector L1 da Zona Leste, desde 1968 a 1974... E quer queiramos quer não, aquela terra marcou-nos a todos, a ferro e fogo, no corpo e na alma"...

(3) Vd. Guinée-Bissau.net > le site officiel des amoureux de la Guinée-Bissau e, em especial, a página dedicada aos seus grupos étnicos (em francês) .

(4) Sobre os felupes e os balantas, ver a opinião (qaulificada) do nosso camarada Carlos Fortunato, na sua página sobre a CCAÇ 13 - Os Leões Negros (ele não esconde a sua admiração tanto por uns como por outros, mas noutra ocasião, por e-mail, referiu-me que em provas físicas, na luta corpo-a-corpo, nunca viu um balanta ganhar a um felupe):

"Adversários temíveis, os felupes possuem elevada estatura e grande robustez física. São referidos como praticantes do canibalismo no passado, são coleccionadores de cabeças dos seus inimigos que entregam ao feiticeiro e usam com extraordinária perícia arcos com setas envenenadas.

"Embora se assegure que o canibalismo pertence ao passado, não era essa a opinião das restantes etnias, as quais referem igualmente que estes fazem os seus funerais à meia noite, pendurando caveiras nas copas das árvores, e dançando debaixo delas. O felupe é conhecido como pouco hospitaleiro para com as restantes etnias, pelo que existe da parte destas um misto de animosidade e desconhecimento.

"Os felupes são igualmente grandes lutadores, fazendo da luta a sua paixão. Este desporto tão vulgarizado nesta etnia, prende-o, empolga-o, constituindo o mais desejado espectáculo.

"Este grupo de felupes é famoso pela sua combatividade, a qual não conhece fronteiras, fazendo incursões frequentes no Senegal. As notícias que chegaram depois da independência é que foram todos mortos pelo PAIGC.

"Os balantas são a principal etnia da Guiné, sendo igualmente grandes soldados, trazem consigo uma grande experiência e o conhecimento do terreno, muitos deles foram milícias durante muitos anos, outros foram carregadores, outros ainda lutaram ou lutavam no PAIGC. Possuem contudo um sentimento de lealdade e solidariedade que faz com que assumam uma posição e a mantenham, a palavra traição nunca fez parte do seu vocabulário.

"Os balantas são trabalhadores rurais, que usam enxadas em forma de de remo, são conhecidos pela sua habilidade como ladrões, actividade que faz parte da sua cultura.

"Roubar não é um crime para o balanta, mas uma prova de destreza, que todo o adulto que se preza deve fazer pelo menus uma vez na vida, e se for uma vaca é sem dúvida uma grande proeza.

"O que mais surpreende nestas pessoas, é algumas das suas capacidades, pois possuem sentidos muito desenvolvidos, tais como o cheiro, a visão e o ouvido.

"Penso que foi graças às qualidades e conhecimentos dos balantas que foi possível, conseguirmos fazer o que fizemos, com tão poucas baixas. O inimigo aqui nunca foi menosprezado.

"As capacidades dos balantas permitem-lhes fazer coisas difíceis de acreditar. Um dos casos ocorreu já em Bissorã, quando numa das operações ao Queré, um soldado acordou 2 horas depois da companhia já ter saído para o mato e conseguiu segui-la e encontrá-la, numa noite escura, tendo esta passado por mato cerrado, água, etc".

Guiné 63/74 - CCCXLI: O 'puto' Parreira, do grupo de comandos Apaches (1965/66)

1. Texto do João Parreira:

Luís Graça: Foi com agrado que li a tua mensagem e nela vi que fui bem recebido tal como era de esperar. O Briote já me tinha falado da tua simpatia e do blogue. Parabéns, é uma obra extraordinária. Não me canso de passar tempos infinitos a olhar para o monitor e a devorar todas as estórias, contos e tudo o mais que tens publicado. É fascinante.

De facto em Brá conheci bem o V.Briote e o M.Dias, pois muitas vezes partilhámos os bons e os maus momentos. Logo que tenha oportunidade vou enviar umas fotos. Pelo interesse que possa ter para a rapaziada o "Uva" vai preparar e enviar-te mais detalhes sobre o célebre baile da Associação que o VB tão bem soube descrever. Um abraço. JP [João Parreira]

2. Caro Luis e restantes camaradas:

Temos connosco o Parreira.Foi furriel-miliciano comando na Guiné e ambos pertencemos ao grupo de comandos "Apaches" que saiu do 2º curso de comandos realizado na Guiné.
Entre nós era conhecido por "puto Parreira" pela sua aparência um pouco imberbe que, aliás, ainda hoje conserva.

O seu testemunho está correcto e a sua vinda a este blogue será certamente uma excelente contribuição.

Parreira: ficamos à espera da narração da operação em que perdeu a vida o furriel Morais, morto com um pequeno estilhaço de RPG que lhe atravessou a coluna vertebral.
Um abraço.

Mário Dias

____________

(1) Vd. post do Virgínio Briote, de 13 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXVII: O 'baile dos comandos' na Associação Comercial

Guiné 63/74 - CCCXLI: O 'puto' Parreira, do grupo de comandos Apaches (1965/66)

1. Texto do João Parreira:

Luís Graça: Foi com agrado que li a tua mensagem e nela vi que fui bem recebido tal como era de esperar. O Briote já me tinha falado da tua simpatia e do blogue. Parabéns, é uma obra extraordinária. Não me canso de passar tempos infinitos a olhar para o monitor e a devorar todas as estórias, contos e tudo o mais que tens publicado. É fascinante.

De facto em Brá conheci bem o V.Briote e o M.Dias, pois muitas vezes partilhámos os bons e os maus momentos. Logo que tenha oportunidade vou enviar umas fotos. Pelo interesse que possa ter para a rapaziada o "Uva" vai preparar e enviar-te mais detalhes sobre o célebre baile da Associação que o VB tão bem soube descrever. Um abraço. JP [João Parreira]

2. Caro Luis e restantes camaradas:

Temos connosco o Parreira.Foi furriel-miliciano comando na Guiné e ambos pertencemos ao grupo de comandos "Apaches" que saiu do 2º curso de comandos realizado na Guiné.
Entre nós era conhecido por "puto Parreira" pela sua aparência um pouco imberbe que, aliás, ainda hoje conserva.

O seu testemunho está correcto e a sua vinda a este blogue será certamente uma excelente contribuição.

Parreira: ficamos à espera da narração da operação em que perdeu a vida o furriel Morais, morto com um pequeno estilhaço de RPG que lhe atravessou a coluna vertebral.
Um abraço.

Mário Dias

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(1) Vd. post do Virgínio Briote, de 13 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXVII: O 'baile dos comandos' na Associação Comercial

Guiné 63/74 - CCCXL: O melhor que Portugal nos deixou foi a língua (Pepito)

1. Texto do Carlos Schwarz (Pepito):

Prometi que voltaria ao assunto de “Guiledje ou Guileje?”, e aqui estou a dar a minha opinião, não como linguista que não sou, mas como simples utilizador da língua portuguesa.

Gosto por igual, e muito, do português quando o leio nas penas do Eça de Queiroz (Portugal), Pepetela (Angola), Jorge Amado (Brasil), Mia Couto (Moçambique) e Abdulai Silá (Guiné-Bissau). E sei que não é só um português. São vários, com um tronco comum é certo, mas mesmo assim variado na forma de escrever e falar.

Amilcar Cabral dizia que a melhor coisa que Portugal nos deixou foi a língua.

Para o bem e para o mal o português deixou de pertencer só a Portugal. É também a língua de outros povos, que dela se apropriaram e a utilizam diariamente.

Só que o processo de apropriação de algo que não é inicialmente nosso, implica a incorporação daquilo que é nosso. Senão, não há apropriação e continua a ser eternamente estrangeiro.

Quando falamos e escrevemos em português, não estamos a fazer nenhum favor a Portugal. Estamos a utilizar algo que também agora é nosso.

Quem não aprecia os fabulosos vocábulos inventados pelo Mia Couto ou a irreverência do Pepetela que começa um dos seus livros com a palavra “Portanto” (forma literariamente criticada alguns anos antes por um seu professor da Faculdade de Letras de Lisboa)?

Para mim, a lusofonia não é uma questão de se falar “bom português”, mas é um processo de exigências e concessões recíprocas na procura de caminhos solidários e cúmplices de aproximação e de desenvolvimento.

A dinâmica de incorporação de novos vocábulos é imparável. No nosso caso, na Guiné-Bissau, o grupo consonântico “dj” é utilizado por dá cá aquela palha. Dizer que se vai a Jufunco ou a Djufunco é o mesmo que ir a duas localidades diferentes.

A realidade incontornável é esta. O bico de obra, não é nosso. É dos especialistas que têm de regulamentar uma língua que, por ser viva, vai ter que aceitar o desafio de pertencer a um numero cada vez maior de pessoas.

Abraços

pepito

2. Pus de novo esta questão ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. A resposta veio lacónica:

"A nossa resposta está dada e, julgamos, suficientemente fundamentada.

"Quem tem de argumentar por que razão passou a escrever 'Guiledje', quando sempre se escreveu 'Guileje' é o seu amigo... JMC".
>

Guiné 63/74 - CCCXL: O melhor que Portugal nos deixou foi a língua (Pepito)

1. Texto do Carlos Schwarz (Pepito):

Prometi que voltaria ao assunto de “Guiledje ou Guileje?”, e aqui estou a dar a minha opinião, não como linguista que não sou, mas como simples utilizador da língua portuguesa.

Gosto por igual, e muito, do português quando o leio nas penas do Eça de Queiroz (Portugal), Pepetela (Angola), Jorge Amado (Brasil), Mia Couto (Moçambique) e Abdulai Silá (Guiné-Bissau). E sei que não é só um português. São vários, com um tronco comum é certo, mas mesmo assim variado na forma de escrever e falar.

Amilcar Cabral dizia que a melhor coisa que Portugal nos deixou foi a língua.

Para o bem e para o mal o português deixou de pertencer só a Portugal. É também a língua de outros povos, que dela se apropriaram e a utilizam diariamente.

Só que o processo de apropriação de algo que não é inicialmente nosso, implica a incorporação daquilo que é nosso. Senão, não há apropriação e continua a ser eternamente estrangeiro.

Quando falamos e escrevemos em português, não estamos a fazer nenhum favor a Portugal. Estamos a utilizar algo que também agora é nosso.

Quem não aprecia os fabulosos vocábulos inventados pelo Mia Couto ou a irreverência do Pepetela que começa um dos seus livros com a palavra “Portanto” (forma literariamente criticada alguns anos antes por um seu professor da Faculdade de Letras de Lisboa)?

Para mim, a lusofonia não é uma questão de se falar “bom português”, mas é um processo de exigências e concessões recíprocas na procura de caminhos solidários e cúmplices de aproximação e de desenvolvimento.

A dinâmica de incorporação de novos vocábulos é imparável. No nosso caso, na Guiné-Bissau, o grupo consonântico “dj” é utilizado por dá cá aquela palha. Dizer que se vai a Jufunco ou a Djufunco é o mesmo que ir a duas localidades diferentes.

A realidade incontornável é esta. O bico de obra, não é nosso. É dos especialistas que têm de regulamentar uma língua que, por ser viva, vai ter que aceitar o desafio de pertencer a um numero cada vez maior de pessoas.

Abraços

pepito

2. Pus de novo esta questão ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. A resposta veio lacónica:

"A nossa resposta está dada e, julgamos, suficientemente fundamentada.

"Quem tem de argumentar por que razão passou a escrever 'Guiledje', quando sempre se escreveu 'Guileje' é o seu amigo... JMC".
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05 dezembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXXXIX: José Neto, outro senhor de Guileje (CART 1613, 1967/68)

Foto aérea de Guileje (1967).

© José Neto (2005)/ AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guiledje (2005)




1. O mundo é realmente pequeno, meus amigos e camaradas. Leiam estas palavras:


"Sou actualmente Capitão Reformado, vivo em Queluz de Baixo, Oeiras, e fui, com o posto de 2º sargento, o primeiro sargento da CART 1613 que guarneceu Guiledje nos anos de 1967/68.

"Por interposta pessoa conheci o Engenheiro Carlos Silva, impulsionador da reconstrução do nosso "quartel" , a quem mostrei o meu album fotográfico e um extrato das minhas "Memórias para os meus netos". Parece que gostou e, no próximo dia 9 de Dezembro, vou encontrar-me com o Dr. Filipe Santos na ESEL [Escola Superior de Educação de Leiria], em Leiria , por sinal a minha terra natal, para tratarmos da digitalização de cerca de 150 slides que fiz, só daquela povoação.

"Também estive, antes, em Cabinda e, depois em Calunda (Leste, mais ao leste de Angola), mas Guiledje, talvez por ser o lugar onde "levei mais porrada", ficou-me no coração.

"Mas não foi só no meu, porque no passado dia 3 de Junho, em Braga, ainda reunimos setenta e tal elementos da Companhia [, a CART 1613,] e a "velhada" continua a nutrir um carinho muito especial por aquele cantinho de África.

"Bom. Mas o que me traz aqui é repor um pormenor. A foto aérea de Guiledje é minha... e, se quiser, do 1º sargento piloto do Dornier da FAP (cujo nome esqueci) a quem pedi para me colocar num ângulo favorável para o efeito.

"Por agora, resta-me felicitá-lo pelo excelente blogue e confessar que nestas coisas de informática ainda vou na pré-primária.

"Aceite um abraço do
José Afonso da Silva Neto


2. Resposta minha (L.G.):

Camarada Zé Neto:


Obrigado pelo contacto e pelos parabéns ao blogue que é obra colectiva (temos um tertúlia que já chega a 50 membros e que alimenta o blogue).

© José Neto (2005) / AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guiledje (2005)


Vou, logo que puder, corrigir o erro (ou omissão) em relação à autoria da foto aérea de Guileje. A foto foi-nos cedida gentilmente pelo Carlos Schwarz (Pepito), da AD, que também é membro da nossa tertúlia. Temos vindo a publicitar o seu Projecto Guileje.

Vou inserir o teu texto no blogue, se não te importares. Tu serás bem vindo a esta tertúlia: se quiseres manda-me uma foto tua, digitalizada, de ontem e de hoje, para pormos no fotogaleria. Na tertúlia, tratamo-nos por tu.

Também vou, com alguma frequência, à tua terra, Leiria, onde tenho amigos, e nomeadamente da Gândara dos Olivais. Um grande abraço.

PS 1 - O nosso amigo Pepito (Carlos Schwarz) acaba de me confirmar que "a foto em causa foi-me efectivamente cedida pelo José Neto".

PS 2 - Ponham lá nos vossos cadernos de memórias da Guiné as duas companhias que estiveram aquarteladas em Guileje e que passam a estar representadas na nossa tertúlia:

CART 1613 (1967/68) (ex-2º sargento, hoje capitão na reforma);
CCAV 8350 (1972/73) (ex-furriel miliciano de operações especiais Casimiro Carvalho).

Temos também conhecimento da CCAÇ 3325 (1) e da CCAÇ 2617 (1970/71), a companhia do português Abílio Alberto Pimentel da Assunção, que é um dos dois militares fotogrados junto ao obus 140 (vd. Luís Graça & Camaradas > Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné (13) > Guileje).

Mas ainda antes do Zé Neto, passou por Guileje o Capitão de Artilharia e comando Nuno Rubim, autor de uma planta do quartel, de 1966, já por nós publicada.
________________

(1) Vd. post de 2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVIII: No corredor da morte (CCAV 8350, Guileje e Gadamael, 1972/73) . Não sabemos em que ano(s) lá esteve, em Guileje.

Guiné 63/74 - CCCXXXIX: José Neto, outro senhor de Guileje (CART 1613, 1967/68)

Foto aérea de Guileje (1967).

© José Neto (2005)/ AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guiledje (2005)




1. O mundo é realmente pequeno, meus amigos e camaradas. Leiam estas palavras:


"Sou actualmente Capitão Reformado, vivo em Queluz de Baixo, Oeiras, e fui, com o posto de 2º sargento, o primeiro sargento da CART 1613 que guarneceu Guiledje nos anos de 1967/68.

"Por interposta pessoa conheci o Engenheiro Carlos Silva, impulsionador da reconstrução do nosso "quartel" , a quem mostrei o meu album fotográfico e um extrato das minhas "Memórias para os meus netos". Parece que gostou e, no próximo dia 9 de Dezembro, vou encontrar-me com o Dr. Filipe Santos na ESEL [Escola Superior de Educação de Leiria], em Leiria , por sinal a minha terra natal, para tratarmos da digitalização de cerca de 150 slides que fiz, só daquela povoação.

"Também estive, antes, em Cabinda e, depois em Calunda (Leste, mais ao leste de Angola), mas Guiledje, talvez por ser o lugar onde "levei mais porrada", ficou-me no coração.

"Mas não foi só no meu, porque no passado dia 3 de Junho, em Braga, ainda reunimos setenta e tal elementos da Companhia [, a CART 1613,] e a "velhada" continua a nutrir um carinho muito especial por aquele cantinho de África.

"Bom. Mas o que me traz aqui é repor um pormenor. A foto aérea de Guiledje é minha... e, se quiser, do 1º sargento piloto do Dornier da FAP (cujo nome esqueci) a quem pedi para me colocar num ângulo favorável para o efeito.

"Por agora, resta-me felicitá-lo pelo excelente blogue e confessar que nestas coisas de informática ainda vou na pré-primária.

"Aceite um abraço do
José Afonso da Silva Neto


2. Resposta minha (L.G.):

Camarada Zé Neto:


Obrigado pelo contacto e pelos parabéns ao blogue que é obra colectiva (temos um tertúlia que já chega a 50 membros e que alimenta o blogue).

© José Neto (2005) / AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guiledje (2005)


Vou, logo que puder, corrigir o erro (ou omissão) em relação à autoria da foto aérea de Guileje. A foto foi-nos cedida gentilmente pelo Carlos Schwarz (Pepito), da AD, que também é membro da nossa tertúlia. Temos vindo a publicitar o seu Projecto Guileje.

Vou inserir o teu texto no blogue, se não te importares. Tu serás bem vindo a esta tertúlia: se quiseres manda-me uma foto tua, digitalizada, de ontem e de hoje, para pormos no fotogaleria. Na tertúlia, tratamo-nos por tu.

Também vou, com alguma frequência, à tua terra, Leiria, onde tenho amigos, e nomeadamente da Gândara dos Olivais. Um grande abraço.

PS 1 - O nosso amigo Pepito (Carlos Schwarz) acaba de me confirmar que "a foto em causa foi-me efectivamente cedida pelo José Neto".

PS 2 - Ponham lá nos vossos cadernos de memórias da Guiné as duas companhias que estiveram aquarteladas em Guileje e que passam a estar representadas na nossa tertúlia:

CART 1613 (1967/68) (ex-2º sargento, hoje capitão na reforma);
CCAV 8350 (1972/73) (ex-furriel miliciano de operações especiais Casimiro Carvalho).

Temos também conhecimento da CCAÇ 3325 (1) e da CCAÇ 2617 (1970/71), a companhia do português Abílio Alberto Pimentel da Assunção, que é um dos dois militares fotogrados junto ao obus 140 (vd. Luís Graça & Camaradas > Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné (13) > Guileje).

Mas ainda antes do Zé Neto, passou por Guileje o Capitão de Artilharia e comando Nuno Rubim, autor de uma planta do quartel, de 1966, já por nós publicada.
________________

(1) Vd. post de 2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVIII: No corredor da morte (CCAV 8350, Guileje e Gadamael, 1972/73) . Não sabemos em que ano(s) lá esteve, em Guileje.

Guiné 63/74 - CCCXXXVIII: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' de Paulo Salgado) (7): Suleiman Seidi

Camaradas e Amigos!

Desculpai-me todos! Ainda não comecei o segundo capítulo das estórias que desejo narrar - o primeiro diria respeito à chegada de quatro cooperantes na área da Saúde, e estadia de um ano, pelo menos(já deviamos ter juízo na cabeça para andar nestas andanças, pois já passámos ou estamos a passar os 60!).

Nem é hoje que vou começar... porque...

Sinto-me triste, muito triste. A morte do Suleiman Seidi, meu irmão, meu amigo, comandante de milícia, lá no Olossato (1), aconteceu. Foi um pedaço de mim que me fugiu.

Da última vez que o vi, em Abril, foi ao virar a esquina de um alpendre do Hospital Simão Mendes: vinha acompanhado de um dos filhos, muito abatido. Esteve internado. Fiz o que pude (terei feito?) mas melhorou muito e até tirámos uma foto (foi a última...).

Lá no caminho de Bissancage (quem conhece este trilho, quem se lembra dele, bem poucos certamente), empurrou-me para o chão quando vislumbrou, bem perto, o IN (seis elementos que dispararam tiros de rajada sobre a nossa fila de pirilau). Salvou-me a vida. De outra vez: na marcha pela mata, parou, porque roçou com um dos pés uma mina anti-pessoal em pleno mato. Poderia ser eu a pisá-la, pois vinha a seguir. Salvou-me.

Foram o seu carinho, a sua amizade, o seu zelo, e, agora, o seu contentamento brilhando nos olhos envelhecidos,por me rever, que me marcaram. Chorei porque perdi um irmão, acreditai.

Ainda ouço o martelar das suas palavras - já perdido de saúde e ainda pensando como antigamente:
- Alferes Salgado, leva-me para Portugal! - Como se eu fosse a sua tábua de salvação!

Que Alá te dê um bom descanso, meu Irmão!

Luís Graça, mais uma vez, desculpa. Põe lá esta mensagem, se achares bem.

Paulo Salgado

______

(1) O Olossato fica entre Bissorã e Farim, na região do Óio.

Guiné 63/74 - CCCXXXVIII: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' de Paulo Salgado) (7): Suleiman Seidi

Camaradas e Amigos!

Desculpai-me todos! Ainda não comecei o segundo capítulo das estórias que desejo narrar - o primeiro diria respeito à chegada de quatro cooperantes na área da Saúde, e estadia de um ano, pelo menos(já deviamos ter juízo na cabeça para andar nestas andanças, pois já passámos ou estamos a passar os 60!).

Nem é hoje que vou começar... porque...

Sinto-me triste, muito triste. A morte do Suleiman Seidi, meu irmão, meu amigo, comandante de milícia, lá no Olossato (1), aconteceu. Foi um pedaço de mim que me fugiu.

Da última vez que o vi, em Abril, foi ao virar a esquina de um alpendre do Hospital Simão Mendes: vinha acompanhado de um dos filhos, muito abatido. Esteve internado. Fiz o que pude (terei feito?) mas melhorou muito e até tirámos uma foto (foi a última...).

Lá no caminho de Bissancage (quem conhece este trilho, quem se lembra dele, bem poucos certamente), empurrou-me para o chão quando vislumbrou, bem perto, o IN (seis elementos que dispararam tiros de rajada sobre a nossa fila de pirilau). Salvou-me a vida. De outra vez: na marcha pela mata, parou, porque roçou com um dos pés uma mina anti-pessoal em pleno mato. Poderia ser eu a pisá-la, pois vinha a seguir. Salvou-me.

Foram o seu carinho, a sua amizade, o seu zelo, e, agora, o seu contentamento brilhando nos olhos envelhecidos,por me rever, que me marcaram. Chorei porque perdi um irmão, acreditai.

Ainda ouço o martelar das suas palavras - já perdido de saúde e ainda pensando como antigamente:
- Alferes Salgado, leva-me para Portugal! - Como se eu fosse a sua tábua de salvação!

Que Alá te dê um bom descanso, meu Irmão!

Luís Graça, mais uma vez, desculpa. Põe lá esta mensagem, se achares bem.

Paulo Salgado

______

(1) O Olossato fica entre Bissorã e Farim, na região do Óio.

Guine 63/74 - CCCXXXVII: Com imensas saudades daquela terra maravilhosa (Luis Rainha)

1. Recebi um e-mail de mais outro camarada dos velhso comandos de 1964/66: trata-se do Luis Manuel Nobreza D'Almeida Rainha, hoje com sessenta e quatro anos:

"Serve esta para vos dar a conhecer um ex-comando da Guiné e que foi comandante do Grupo de Comandos "CENTURIÕES". Fui camarada de Virginio Briote que já é vosso conhecido. Tenho imensas saudades daquela Terra maravilhosa onde passei bons e maus momentos, mas nos quais sobressaem os bons.

"A minha presença naquelas paragens foi um amealhar de recordações, e hoje tenho uma saudade enorme dos meus antigos Camaradas (...).


"A minha actual direcção vai aqui:

Luís Rainha
3ª Travessa da Rua Quinta do Grou, 4 - r/c Esq.
Casal da ROBALA
3080-398 FIGUEIRA DA FOZ

2. Comentário do Virgínio Briote:

O Luís Rainha foi o comandante dos "Centuriões", um grupo que deu que fazer ao Pansau Na Ina, um dos adjuntos do Nino. Um dia, ou uma madrugada não sei, entrou-lhe tão sorrateiro no acampamento que teve tempo de apanhar o boné que o Pansau tinha trazido de Pequim. E a pistola também, uma bela arma, nacarada, que, pelo que sei, muitos anos depois lhe veio a trazer problemas. Nem a cruz de guerra o salvou!
Um abraço, vb

Guine 63/74 - CCCXXXVII: Com imensas saudades daquela terra maravilhosa (Luis Rainha)

1. Recebi um e-mail de mais outro camarada dos velhso comandos de 1964/66: trata-se do Luis Manuel Nobreza D'Almeida Rainha, hoje com sessenta e quatro anos:

"Serve esta para vos dar a conhecer um ex-comando da Guiné e que foi comandante do Grupo de Comandos "CENTURIÕES". Fui camarada de Virginio Briote que já é vosso conhecido. Tenho imensas saudades daquela Terra maravilhosa onde passei bons e maus momentos, mas nos quais sobressaem os bons.

"A minha presença naquelas paragens foi um amealhar de recordações, e hoje tenho uma saudade enorme dos meus antigos Camaradas (...).


"A minha actual direcção vai aqui:

Luís Rainha
3ª Travessa da Rua Quinta do Grou, 4 - r/c Esq.
Casal da ROBALA
3080-398 FIGUEIRA DA FOZ

2. Comentário do Virgínio Briote:

O Luís Rainha foi o comandante dos "Centuriões", um grupo que deu que fazer ao Pansau Na Ina, um dos adjuntos do Nino. Um dia, ou uma madrugada não sei, entrou-lhe tão sorrateiro no acampamento que teve tempo de apanhar o boné que o Pansau tinha trazido de Pequim. E a pistola também, uma bela arma, nacarada, que, pelo que sei, muitos anos depois lhe veio a trazer problemas. Nem a cruz de guerra o salvou!
Um abraço, vb

04 dezembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXXXVI: A vingança da PIDE (Manuel Domingues)

Caro Luís Graça.

Obrigado pelas referências ao livro Uma campanha na Guiné, que, como é explicado na Introdução, destinava-se fundamentalmente a antigos combatentes que integraram o BCAÇ 1856 (1).

No entanto acabou por interessar outros segmentos, o que para um trabalho sem qualquer suporte de divulgação ou promoção é sempre motivador.

Confesso que fiquei surpreendido pelo trabalho e abrangência do vosso blogue e, por desafio do Cor. Marques Lopes, junto envio um primeiro texto, baseado numa vivência pesssoal, que adaptei do meu livro recém publicado de Estórias Etnográficas " O Pegureiro e o Lobo - Estórias de Castro Laboreiro".

A finalidade é apenas chamar a atenção para um sistema de controlo das vidas dos jovens de então, mesmo quando não eram "revolucionários " nem comunistas e se limitavam a cumprir as normas estabelecidos pelo regime (RDM). É uma amostra do conflito latente entre os militares,sobretudo os profissionais que temiam, mais do que respeitavam, a influência da PIDE, cujo controlo poderia influenciar as respectivas carreiras profissionais.

Não bastava ser bom militar. Era também necessário estar nas boas graças da PIDE.

A maior parte dos oficiais milicianos, que não aspiravaa ser funcionário público, podia encontrar refúgio na sua condição temporária de militar, mas à saída, a PIDE esperava por ele para acertar contas!

Com os melhores cumprimentos

Manuel Domingues (2)


A Vingança da PIDE



Como oficial de informações todas as manhãs, às 07h00, a primeira tarefa era analisar as actividades operacionais e de informações ocorridas nas últimas 24 horas no Batalhão e na Zona, e elaborar o relatório diário, SITREP, a enviar ao Comando em Bissau, como aliás todas a unidades estacionadas na Guiné. O Comando sintetizava os aspectos considerados mais importantes, e distribuía a todas as unidades, semanalmente, uma síntese dos factos através do PERINTREP.

O SITREP, relatório diário, assentava nas informações recolhidas pelas subunidades do Batalhão no terreno, e no sistema de informações instituído. Era prática, recomendada pelo Comando Chefe de Bissau, a partilha de informação com a subdelegação da PIDE existente em Nova Lamego [Gabu], funcionando na Administração do Concelho, e apenas com um Agente.

Através dos relatórios semanais do Comando Chefe constatei a existência de muitas referências e informações sobre a região Leste, onde o Batalhão actuava, como sendo originárias da PIDE, quando afinal eram de origem militar e que o referido Agente obtinha-as mediante o acesso ao centro nevrálgico do Comando do Batalhão, transmitindo-as como sendo resultantes do seu trabalho, influenciando a actividade do Batalhão, pois era com base em informações que o Comando sugeria ou determinava operações no terreno.

Perante tal abuso, e obtido o acordo do Comandante, transmiti ao Agente que dada a situação do território, sob comando militar, e o facto de ele pertencer a uma instituição civil, não poderia ter acesso directo à referida Sala, sem prejuízo de ser informado dos factos com interesse para a sua actividade. Perante a eminência de ver a sua fonte secar fez várias ameaças, mais ou menos veladas, mas de facto a situação mudou, e a contribuição do referido Agente ficou reduzida ao seu trabalho próprio, quase nulo, dada a realidade existente na região.

Já neste contexto, uma manhã deparei com uma mensagem de uma das companhias, estacionada em Buruntuma, informando ter capturado dois prisioneiros, identificados como estrangeiros, e que iria remeter nessa tarde para o Comando do Batalhão para interrogatório mais detalhado. Assim aconteceu. Ao princípio da tarde e com recurso a um militar nativo, fula, como intérprete, porque dominava bem o português e a língua dos prisioneiros, concluiu-se o interrogatório.

Ainda o Relatório não estava feito quando o agente da PIDE irrompeu pela Sala de Operações reclamando a entrega imediata dos prisioneiros por se tratar de mestrangeiros, cuja competência era exclusivamente dos seus serviços. Calmamente tentei explicar-lhe que, pelo facto de a Província estar sob domínio militar, competia a este, em primeiro lugar, averiguar do interesse dos capturados e só depois decidir o seu destino

No caso concreto já concluíra pela entrega à entidade civil porque não apresentavam grande interesse militar. No entanto e apesar de escassos 50 metros separarem as instalações do Quartel e da Administração Civil, os prisioneiros seriam entregues segundo as normas militares, ou seja com uma Guia de Entrega.

O Homem mandou-se ao ar dizendo nunca tal ter acontecido, passando a constituir um precedente grave de desconfiança num elemento da PIDE, ainda para mais da parte de um oficial miliciano. Nunca receberia os prisioneiros em tais condições e assim iria ter de justificar tal atitude perante o Comando de Bissau, que ele alertaria de imediato através do seu Subdirector.

Mal o Agente abandonou as instalações encarreguei o Sargento de Informações de preencher as Guias de Entrega e levar os prisioneiros para o edifício da Administração, com ordens expressas de só os entregar se o Agente assinasse as respectivas guias. Caso contrário trazia-os de volta. Passados 15 minutos o referido Furriel voltou com a indicação de o Agente se manter intransigente e só aceitar os dois homens sem Guia.

Perante esta situação falei com o Comandante a quem expliquei a relutância em prescindir do formalismo, porque em tempos o referido Agente se gabara de ter feito desaparecer prisioneiros sem deixar rasto. Mais tarde poderíamos ser responsabilizados se eventualmente a PIDE os fizesse desaparecer.

O Comandante mandou chamar o Agente e tentou fazer-lhe compreender a situação e que o meu procedimento estava de acordo com as normas em vigor. O Agente hesitou mas como já tinha enviado um rádio para a Subdirectoria em Bissau, decidiu não voltar atrás na sua decisão.

Embora criando uma situação insólita, sugeri ao Comandante o envio dos prisioneiros por via aérea para Bissau à ordem do Comando Chefe, com a indicação dos motivos, ou seja, a recusa do agente da PIDE em assinar a respectiva Guia de Entrega, que mereceu a sua concordância.

Passadas duas semanas o Agente desapareceu, deixando o recado de que alguém iria pagar caro pela sua saída. Dois meses após o regresso da Guiné, em Julho de 1967, e já desmobilizado, requeri o passaporte no Governo Civil de Lisboa, a fim de regressar a Paris, para continuar a minha vida profissional.

Para grande surpresa foi-me recusado. Ao fim de varias diligências, consegui que me dissessem que o motivo tinha sido a informação negativa da PIDE!

Não queria acreditar! Quatro anos antes, já apurado para todo o serviço militar, tinham-me autorizado a ir estudar no estrangeiro e agora, depois de o ter cumprido, negavam-me esse direito. Era a tal vingança anunciada pelo Agente! Revoltado com a injustiça, um dia resolvi ir à sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, pedir explicações.

O Agente porteiro depois de me perguntar o que pretendia mirou-me de alto a baixo, foi a uma casota telefonar e mandou-me subir ao andar superior onde outro Agente me encafuou numa pequena sala interior, mandando-me esperar.

Ao fim de mais de trinta longos minutos apareceu um inspector perguntando-me qual a razão da vinda ali. Expliquei que pretendia saber a razão da informação negativa relativamente ao meu pedido de passaporte. O Inspector olhou-me com ar de sobranceria e perguntou-me:
— É a primeira vez que vem aqui?
— É sim.
— Então fique a saber: aqui só vem quem nós chamamos! E foi-se embora.

Meio aparvalhado, desci as escadas e o porteiro, com ar trocista, deu-me as boas tardes. Na rua ia pensando como eram grandes os tentáculos de uma organização, decidindo sobre o futuro das pessoas, mesmo quando se limitavam a cumprir as leis que o próprio sistema criara.

(Adaptado, pelo Autor, do seu livro O Pegureiro e o Lobo – Estórias de Castro Laboreiro - 2005)

________

(1) Vd. post de A. Marques Lopes, de 18 de Julho de 2005 > Guiné 63/74 - CXI: Bibliografia de uma guerra (5)


(2) O autor frequentou o Curso de Rangers e fez parte do BCAÇ 1856 (1965/67). Como Alferes Mil foi Comandante do Pelotão de Reconhecimento e Informação, tendo desempenhado as funções de oficial de Informações e, durante alguns meses, a de Oficial de Operações.

O BCAÇ 1856 esteve no Leste, Sector L3, com o Comando e CCS sediados em Nova Lamego [Gabu]; e as companhias operacionais em Madina do Boé (CCAÇ 1416, com um destacamento em Béli; , em Bajocunda (CCAÇ 1417, com um destacamento em Copá); e em Buruntuma (CCAÇ 1418, com um destacamento em Ponte Caiúm).

Guiné 63/74 - CCCXXXVI: A vingança da PIDE (Manuel Domingues)

Caro Luís Graça.

Obrigado pelas referências ao livro Uma campanha na Guiné, que, como é explicado na Introdução, destinava-se fundamentalmente a antigos combatentes que integraram o BCAÇ 1856 (1).

No entanto acabou por interessar outros segmentos, o que para um trabalho sem qualquer suporte de divulgação ou promoção é sempre motivador.

Confesso que fiquei surpreendido pelo trabalho e abrangência do vosso blogue e, por desafio do Cor. Marques Lopes, junto envio um primeiro texto, baseado numa vivência pesssoal, que adaptei do meu livro recém publicado de Estórias Etnográficas " O Pegureiro e o Lobo - Estórias de Castro Laboreiro".

A finalidade é apenas chamar a atenção para um sistema de controlo das vidas dos jovens de então, mesmo quando não eram "revolucionários " nem comunistas e se limitavam a cumprir as normas estabelecidos pelo regime (RDM). É uma amostra do conflito latente entre os militares,sobretudo os profissionais que temiam, mais do que respeitavam, a influência da PIDE, cujo controlo poderia influenciar as respectivas carreiras profissionais.

Não bastava ser bom militar. Era também necessário estar nas boas graças da PIDE.

A maior parte dos oficiais milicianos, que não aspiravaa ser funcionário público, podia encontrar refúgio na sua condição temporária de militar, mas à saída, a PIDE esperava por ele para acertar contas!

Com os melhores cumprimentos

Manuel Domingues (2)


A Vingança da PIDE



Como oficial de informações todas as manhãs, às 07h00, a primeira tarefa era analisar as actividades operacionais e de informações ocorridas nas últimas 24 horas no Batalhão e na Zona, e elaborar o relatório diário, SITREP, a enviar ao Comando em Bissau, como aliás todas a unidades estacionadas na Guiné. O Comando sintetizava os aspectos considerados mais importantes, e distribuía a todas as unidades, semanalmente, uma síntese dos factos através do PERINTREP.

O SITREP, relatório diário, assentava nas informações recolhidas pelas subunidades do Batalhão no terreno, e no sistema de informações instituído. Era prática, recomendada pelo Comando Chefe de Bissau, a partilha de informação com a subdelegação da PIDE existente em Nova Lamego [Gabu], funcionando na Administração do Concelho, e apenas com um Agente.

Através dos relatórios semanais do Comando Chefe constatei a existência de muitas referências e informações sobre a região Leste, onde o Batalhão actuava, como sendo originárias da PIDE, quando afinal eram de origem militar e que o referido Agente obtinha-as mediante o acesso ao centro nevrálgico do Comando do Batalhão, transmitindo-as como sendo resultantes do seu trabalho, influenciando a actividade do Batalhão, pois era com base em informações que o Comando sugeria ou determinava operações no terreno.

Perante tal abuso, e obtido o acordo do Comandante, transmiti ao Agente que dada a situação do território, sob comando militar, e o facto de ele pertencer a uma instituição civil, não poderia ter acesso directo à referida Sala, sem prejuízo de ser informado dos factos com interesse para a sua actividade. Perante a eminência de ver a sua fonte secar fez várias ameaças, mais ou menos veladas, mas de facto a situação mudou, e a contribuição do referido Agente ficou reduzida ao seu trabalho próprio, quase nulo, dada a realidade existente na região.

Já neste contexto, uma manhã deparei com uma mensagem de uma das companhias, estacionada em Buruntuma, informando ter capturado dois prisioneiros, identificados como estrangeiros, e que iria remeter nessa tarde para o Comando do Batalhão para interrogatório mais detalhado. Assim aconteceu. Ao princípio da tarde e com recurso a um militar nativo, fula, como intérprete, porque dominava bem o português e a língua dos prisioneiros, concluiu-se o interrogatório.

Ainda o Relatório não estava feito quando o agente da PIDE irrompeu pela Sala de Operações reclamando a entrega imediata dos prisioneiros por se tratar de mestrangeiros, cuja competência era exclusivamente dos seus serviços. Calmamente tentei explicar-lhe que, pelo facto de a Província estar sob domínio militar, competia a este, em primeiro lugar, averiguar do interesse dos capturados e só depois decidir o seu destino

No caso concreto já concluíra pela entrega à entidade civil porque não apresentavam grande interesse militar. No entanto e apesar de escassos 50 metros separarem as instalações do Quartel e da Administração Civil, os prisioneiros seriam entregues segundo as normas militares, ou seja com uma Guia de Entrega.

O Homem mandou-se ao ar dizendo nunca tal ter acontecido, passando a constituir um precedente grave de desconfiança num elemento da PIDE, ainda para mais da parte de um oficial miliciano. Nunca receberia os prisioneiros em tais condições e assim iria ter de justificar tal atitude perante o Comando de Bissau, que ele alertaria de imediato através do seu Subdirector.

Mal o Agente abandonou as instalações encarreguei o Sargento de Informações de preencher as Guias de Entrega e levar os prisioneiros para o edifício da Administração, com ordens expressas de só os entregar se o Agente assinasse as respectivas guias. Caso contrário trazia-os de volta. Passados 15 minutos o referido Furriel voltou com a indicação de o Agente se manter intransigente e só aceitar os dois homens sem Guia.

Perante esta situação falei com o Comandante a quem expliquei a relutância em prescindir do formalismo, porque em tempos o referido Agente se gabara de ter feito desaparecer prisioneiros sem deixar rasto. Mais tarde poderíamos ser responsabilizados se eventualmente a PIDE os fizesse desaparecer.

O Comandante mandou chamar o Agente e tentou fazer-lhe compreender a situação e que o meu procedimento estava de acordo com as normas em vigor. O Agente hesitou mas como já tinha enviado um rádio para a Subdirectoria em Bissau, decidiu não voltar atrás na sua decisão.

Embora criando uma situação insólita, sugeri ao Comandante o envio dos prisioneiros por via aérea para Bissau à ordem do Comando Chefe, com a indicação dos motivos, ou seja, a recusa do agente da PIDE em assinar a respectiva Guia de Entrega, que mereceu a sua concordância.

Passadas duas semanas o Agente desapareceu, deixando o recado de que alguém iria pagar caro pela sua saída. Dois meses após o regresso da Guiné, em Julho de 1967, e já desmobilizado, requeri o passaporte no Governo Civil de Lisboa, a fim de regressar a Paris, para continuar a minha vida profissional.

Para grande surpresa foi-me recusado. Ao fim de varias diligências, consegui que me dissessem que o motivo tinha sido a informação negativa da PIDE!

Não queria acreditar! Quatro anos antes, já apurado para todo o serviço militar, tinham-me autorizado a ir estudar no estrangeiro e agora, depois de o ter cumprido, negavam-me esse direito. Era a tal vingança anunciada pelo Agente! Revoltado com a injustiça, um dia resolvi ir à sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, pedir explicações.

O Agente porteiro depois de me perguntar o que pretendia mirou-me de alto a baixo, foi a uma casota telefonar e mandou-me subir ao andar superior onde outro Agente me encafuou numa pequena sala interior, mandando-me esperar.

Ao fim de mais de trinta longos minutos apareceu um inspector perguntando-me qual a razão da vinda ali. Expliquei que pretendia saber a razão da informação negativa relativamente ao meu pedido de passaporte. O Inspector olhou-me com ar de sobranceria e perguntou-me:
— É a primeira vez que vem aqui?
— É sim.
— Então fique a saber: aqui só vem quem nós chamamos! E foi-se embora.

Meio aparvalhado, desci as escadas e o porteiro, com ar trocista, deu-me as boas tardes. Na rua ia pensando como eram grandes os tentáculos de uma organização, decidindo sobre o futuro das pessoas, mesmo quando se limitavam a cumprir as leis que o próprio sistema criara.

(Adaptado, pelo Autor, do seu livro O Pegureiro e o Lobo – Estórias de Castro Laboreiro - 2005)

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(1) Vd. post de A. Marques Lopes, de 18 de Julho de 2005 > Guiné 63/74 - CXI: Bibliografia de uma guerra (5)


(2) O autor frequentou o Curso de Rangers e fez parte do BCAÇ 1856 (1965/67). Como Alferes Mil foi Comandante do Pelotão de Reconhecimento e Informação, tendo desempenhado as funções de oficial de Informações e, durante alguns meses, a de Oficial de Operações.

O BCAÇ 1856 esteve no Leste, Sector L3, com o Comando e CCS sediados em Nova Lamego [Gabu]; e as companhias operacionais em Madina do Boé (CCAÇ 1416, com um destacamento em Béli; , em Bajocunda (CCAÇ 1417, com um destacamento em Copá); e em Buruntuma (CCAÇ 1418, com um destacamento em Ponte Caiúm).

Guiné 63/74 - CCCXXXV: Cabo Verde (1941/43) (4): Mindelo, terra de B.Leza e de Cesária Évora

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Legenda: "Jantar em San Vicente, nosse terre. Nativos em festa. Recordações da minha estada em C. Verde (Expedição). 1941-1943. Luís Henriques" . © Luís Graça (2005)



1. Em 11 de Novembro passado, recebi um e-mail de Mic Dax, tendo por assunto: Fotos de S.Vicente, Cabo Verde

Bom dia: Eu sou o Mic Dax, eu sou francès e não falo portuguès muito bem, falo só crioulo caboverdiano. Morando em Cabo Verde desde 5 anos, abri um site na Internet sobre Mindelo (Mindelo Infos ) e sobre o arquipelago em geral.

Encontrei vosso blog e as fotografias do vosso pai em São Vicente. Se o senhor permite-me, desejaria instalar-os no album de meu site.

Obrigado, até logo,
Mic Dax.

http://www.cesaria.info/

Cabo Verde > São Vicente > Legenda: O pôr do sol em São Vicente. O célebre Monte da Cara... E o lindo porto do mar que parece adormecido. Maio de 1963. São Vicente. Luís [Henriques] ".

© Luís Graça (2005)


2. Eis a minha resposta:

Enchanté, Mic Dax! Je parle français et je voudrais bien parler le créole du Cap-Vert… Salut, copain ! Tu peux utiliser les photos sur le Cap-Vert, que tu as trouvé dans mon blog (un blog colective sur la guerre coloniale en Guinée-Bissau, 1963/74).

Mon père a fait le service militaire dans l’île de Saint Vincent, pendant le période de 1941/43. Heuresement, il est encore vivant. Il aime beacoup les îles mas il n’est jamais retourné lá-bas. Il ya au moins trois textes sur mon père, avec des vieux photos de ce temps-là… Mais j’en irai publier plus…

Je ne connais pas ton île. J’y irais un autre jour, en vacances. Alors, tu me paies un verre de grogue (..).

________

(1) 12 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIV: Cabo Verde (1941/43) (1): os mortos e os esquecidos do império

(2)26 de Julho de 2005 > Guiné 63/74 - CXXVI: Cabo Verde (1941/1943) (2): esperando os invasores

(3) 22 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLIV: Cabo Verde (1941/43) (3): sodade di Son Vicente

Cabo Verde > São Vicente > Legenda: Hábito de São Vicente. Pisando o milho num almofariz para depois fazerem a cachupa. São Vicente. Maio de 1943 (?). Luís Henriques ".


© Luís Graça (2005)



3. Embora não conhecendo as ilhas (estive uma escassa hora ou duas no Sal, em paragem técnica do avião que me trouxe de férias, de Bissau a Lisboa, em 1970), prendem-me laços de afectividade a São Vicente e à cidade do Mindelo. Ou, no mínimo, memórias de infância.

De facto, o meu pai foi expedicionário na ilha, no auge da II Guerra Mundial (1941/43). Falava-me da ilha e da sua gente com ternura e saudade. Aliás, ainda me fala, porque felizmente está vivo.

Tenho aqui vindo a reproduzir algumas das fotos do seu tempo, que possam ter algum valor documental, apesar da fraca qualidade da imagem (a digitalização foi feita sobre cópias em formato reduzido e em muito mau estado).

Cabo Verde > São Vicente > Legenda: "Depois da parada, o desfile das viaturas. No dia 14 de Agosto de 1942 [, Dia da Infantaria Portuguesa]. Alguma das tantas autoambulâncias e outras viaturas. Mindelo. S. Vicente".

© Luís Graça (2005)

São Vicente é, além disso, a terra natal, entre muitos outros artistas, do (i) maior compositor de mornas de Cabo verde, de seu nome (artístico) B.Leza (injustamente esquecido, comemora-se este ano, a 3 de Dezembro, o seu 1º centenário de nascimento), além da (ii) grande Cesária Évora.

Amílcar Cabral, embora nascido em Bafatá (1924), de pais caboverdeanos, regressou à terra dos seus antepassados em 1932, e completou no Mindelo o Curso Liceal, em 1943. Era quatro anos mais novo do que o meu pai, que na época prestava serviço militar na ilha. A guerra de libertação da Guiné terá começado a germinar, enquanto ideia, no Liceu do Mindelo. Não sei, é uma mera hipótese a ser explorada pelos biógrafos de Amílcar Cabral e demais historiadores da guerra colonial.

Cabo Verde > São Vicente > Legenda: " As peças antiaéreas do Monte Sossego [monte sobranceiro a João Ribeiro, pelas indicações que o meu pai me dá; também havia artilharia contra-costa]. Fotografia oferecido pelo meu amigo Boaventura em 21/7(?)/43 em Mindelo. S. Vicente. Luís H. ". Segundo informação do meu pai, esta peça, depois de montada, só ao fim de seis meses é que poderia ser usada... Em Janeiro de 1942, a ilha foi sobrevoada por um avião não identificado (possivelmente alemão) e esta anti-aérea ainda não estava montada. Houve alarme geral... O pelotão dele (o 1º da 3ª Companhia do Batalhão de Infantaria nº 5) foi destacado, por uns dias, para o Calhau...

© Luís Graça (2005)



Foram anos muito difíceis para o povo caboverdiano e, em especial, para os mindelenses. Mas também não foram fáceis para os expedicionários portugueses cuja missão, na ilha de São Vicente, era defendê-la de um eventual ataque quer das potências do Eixo (em particular a Alemanha) quer dos Aliados (e em especial a Inglaterra).

Publico hoje mais umas fotos do velho álbum do meu pai.

Guiné 63/74 - CCCXXXV: Cabo Verde (1941/43) (4): Mindelo, terra de B.Leza e de Cesária Évora

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Legenda: "Jantar em San Vicente, nosse terre. Nativos em festa. Recordações da minha estada em C. Verde (Expedição). 1941-1943. Luís Henriques" . © Luís Graça (2005)



1. Em 11 de Novembro passado, recebi um e-mail de Mic Dax, tendo por assunto: Fotos de S.Vicente, Cabo Verde

Bom dia: Eu sou o Mic Dax, eu sou francès e não falo portuguès muito bem, falo só crioulo caboverdiano. Morando em Cabo Verde desde 5 anos, abri um site na Internet sobre Mindelo (Mindelo Infos ) e sobre o arquipelago em geral.

Encontrei vosso blog e as fotografias do vosso pai em São Vicente. Se o senhor permite-me, desejaria instalar-os no album de meu site.

Obrigado, até logo,
Mic Dax.

http://www.cesaria.info/

Cabo Verde > São Vicente > Legenda: O pôr do sol em São Vicente. O célebre Monte da Cara... E o lindo porto do mar que parece adormecido. Maio de 1963. São Vicente. Luís [Henriques] ".

© Luís Graça (2005)


2. Eis a minha resposta:

Enchanté, Mic Dax! Je parle français et je voudrais bien parler le créole du Cap-Vert… Salut, copain ! Tu peux utiliser les photos sur le Cap-Vert, que tu as trouvé dans mon blog (un blog colective sur la guerre coloniale en Guinée-Bissau, 1963/74).

Mon père a fait le service militaire dans l’île de Saint Vincent, pendant le période de 1941/43. Heuresement, il est encore vivant. Il aime beacoup les îles mas il n’est jamais retourné lá-bas. Il ya au moins trois textes sur mon père, avec des vieux photos de ce temps-là… Mais j’en irai publier plus…

Je ne connais pas ton île. J’y irais un autre jour, en vacances. Alors, tu me paies un verre de grogue (..).

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(1) 12 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIV: Cabo Verde (1941/43) (1): os mortos e os esquecidos do império

(2)26 de Julho de 2005 > Guiné 63/74 - CXXVI: Cabo Verde (1941/1943) (2): esperando os invasores

(3) 22 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLIV: Cabo Verde (1941/43) (3): sodade di Son Vicente

Cabo Verde > São Vicente > Legenda: Hábito de São Vicente. Pisando o milho num almofariz para depois fazerem a cachupa. São Vicente. Maio de 1943 (?). Luís Henriques ".


© Luís Graça (2005)



3. Embora não conhecendo as ilhas (estive uma escassa hora ou duas no Sal, em paragem técnica do avião que me trouxe de férias, de Bissau a Lisboa, em 1970), prendem-me laços de afectividade a São Vicente e à cidade do Mindelo. Ou, no mínimo, memórias de infância.

De facto, o meu pai foi expedicionário na ilha, no auge da II Guerra Mundial (1941/43). Falava-me da ilha e da sua gente com ternura e saudade. Aliás, ainda me fala, porque felizmente está vivo.

Tenho aqui vindo a reproduzir algumas das fotos do seu tempo, que possam ter algum valor documental, apesar da fraca qualidade da imagem (a digitalização foi feita sobre cópias em formato reduzido e em muito mau estado).

Cabo Verde > São Vicente > Legenda: "Depois da parada, o desfile das viaturas. No dia 14 de Agosto de 1942 [, Dia da Infantaria Portuguesa]. Alguma das tantas autoambulâncias e outras viaturas. Mindelo. S. Vicente".

© Luís Graça (2005)

São Vicente é, além disso, a terra natal, entre muitos outros artistas, do (i) maior compositor de mornas de Cabo verde, de seu nome (artístico) B.Leza (injustamente esquecido, comemora-se este ano, a 3 de Dezembro, o seu 1º centenário de nascimento), além da (ii) grande Cesária Évora.

Amílcar Cabral, embora nascido em Bafatá (1924), de pais caboverdeanos, regressou à terra dos seus antepassados em 1932, e completou no Mindelo o Curso Liceal, em 1943. Era quatro anos mais novo do que o meu pai, que na época prestava serviço militar na ilha. A guerra de libertação da Guiné terá começado a germinar, enquanto ideia, no Liceu do Mindelo. Não sei, é uma mera hipótese a ser explorada pelos biógrafos de Amílcar Cabral e demais historiadores da guerra colonial.

Cabo Verde > São Vicente > Legenda: " As peças antiaéreas do Monte Sossego [monte sobranceiro a João Ribeiro, pelas indicações que o meu pai me dá; também havia artilharia contra-costa]. Fotografia oferecido pelo meu amigo Boaventura em 21/7(?)/43 em Mindelo. S. Vicente. Luís H. ". Segundo informação do meu pai, esta peça, depois de montada, só ao fim de seis meses é que poderia ser usada... Em Janeiro de 1942, a ilha foi sobrevoada por um avião não identificado (possivelmente alemão) e esta anti-aérea ainda não estava montada. Houve alarme geral... O pelotão dele (o 1º da 3ª Companhia do Batalhão de Infantaria nº 5) foi destacado, por uns dias, para o Calhau...

© Luís Graça (2005)



Foram anos muito difíceis para o povo caboverdiano e, em especial, para os mindelenses. Mas também não foram fáceis para os expedicionários portugueses cuja missão, na ilha de São Vicente, era defendê-la de um eventual ataque quer das potências do Eixo (em particular a Alemanha) quer dos Aliados (e em especial a Inglaterra).

Publico hoje mais umas fotos do velho álbum do meu pai.

03 dezembro 2005

Guiné 63/74 - CCCXXXIV: Antologia (30): A Província Portuguesa da Guiné (1961)



Por mão do nosso incansável Jorge Santos, autor da página sobre A Guerra Colonial, chega-nos um este texto sobre a geogrfia e a demografia da Guiné Portuguesa (Dados informativos, 1961).

Estes dados são mais do que um simples curiosidade, para os nossos amigos e camaradas de tertúlia. Têm também interesse histórico: basta compararmos a população de hoje da Guiné-Bissau (que mais do que duplicou) e termos em conta as dramáticas mudanças climáticas que estão afectar a África subsaariana. Por exemplo, quem conhece a Guiné-Bissau de hoje diz que já não chove como há quarenta anos atrás... Enfim, não sei se há dados históricos da metereologia da Guiné-Bissau para confirmar esta tendência.


Situação geográfica e superfície

A província da Guiné acha-se situada na costa ocidental do continente africano, entre o território do Senegal, que lhe serve de fronteira ao norte, e a República da Guiné, que a delimita a leste e a sul.

O seu litoral fica compreendido entre as latitudes 12º 20’ N (Cabo Roxo) e 10º 59’ N (Ponta Cagete).

Além da parte continental e das ilhas de Jeta, Caro, Pecixe, Bissau, Areias, Bolama, Carar, Como e Melo, que lhe ficam contíguas, compreende ainda a província o fronteiro arquipélago de Bijagós, formado por dezenas de ilhas e ilhéus, entre as quais sobressaem as de Caravela, Canhabaque, Formosa, Une, Cavalos e Poilão.

No seu conjunto ocupa a Guiné Portuguesa uma superfície total de 36.125 Km2.

Relevo e hidrografia

Se exceptuarmos algumas pequenas zonas do Leste da província, na região de Boé, onde os últimos contrafortes do maciço do Futa Djalon elevam o terreno até alturas que só raramente atingem os 300 metros, não se encontram na Guiné elevações dignas de menção.

A falta de relevo é especialmente assinalável numa larga faixa litoral, cuja planura, permitindo a invasão profunda, pelo mar, dos antigos cursos dos rios, dá origem às conhecidas «rias» que sulcam grande parte dessa zona da província.

Podem considerar-se na Guiné, no que respeita a cursos de água, duas zonas que a linha limite das marés divide: a zona litoral e a zona interior.Na primeira, os antigos cursos dos rios, ao serem invadidos pelo mar, dão origem às chamadas «rias», das quais as mais importantes, de norte para sul, são as de Sucujaque, Cacheu, Bissau, Grande ou de Buba e Cacine.

Na zona interior, que abrange as regiões situadas para além do limite das marés, assinala-se já a existência de cursos de água doce, com um regime de cheias relacionadas com as variações climatéricas, os quais, devido aos rápidos que cortam os seus percursos, são apenas navegáveis em pequenas extensões.

As principais bacias hidrográficas que se encontram nesta zona são as do rio Cacheu ou Farim, navegável em cerca de 100 Km do seu percurso por navios até 2000 toneladas, do Geba, que constitui a principal via de comunicação fluvial da Guiné, e a do Corubal, que tem a sua origem no Futa Djalon e vai desaguar no estuário do rio Geba, sendo navegável em cerca de 150 km.

Clima

Situada sensivelmente a meia distância entre o Equador e o trópico de Câncer, a Guiné tem o clima quente e húmido característico das regiões tropicais, em que apenas se assinalam duas estações: a quente ou das chuvas, que começa em meados de Maio e se estende até meados de Novembro, e a estação seca e fresca, que cobre o restante período do ano.

Na época das chuvas a humidade atmosférica é bastante elevada e a temperatura média, à sombra, oscila entre 26º e 28º C.

A pluviosidade é superior em média a 2000 mm, sendo os meses de Julho e Agosto os que registam maior número de dias de chuva.

As temperaturas médias da época seca não vão além de 24º C, sendo os meses mais frescos os de Dezembro e Janeiro.

No que respeita às temperaturas, consideram alguns autores a possibilidades de dividir o ano nos seguintes quatro períodos:

a) período fresco - no qual se verificam as maiores amplitudes térmicas, e que abrange os meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro.

b) 1º período quente – durante os meses de Março, Abril e Maio, em que as variações térmicas são ainda de certo vulto, especialmente nos meses de Março e Abril.

c) Período das chuvas – que se estende pelos meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro.

d) 2º período quente – abrangendo os meses de Outubro e Novembro.

Com as suas características acentuadamente tropicais, o clima da Guiné tem sido considerado como insalubre, devido às suas altas temperaturas, densa humidade, baixa pressão atmosférica e emanações das regiões alagadiças das zonas planas.

É exagerado, no entanto, generalizar a toda a província as más condições climatéricas, visto que em certas regiões, como no Boé, Bafatá e outras, se encontram grandes áreas em que a adaptação do europeu se faz com bastante facilidade e em que o clima não é mais pernicioso do que o de muitos outros lugares do território português.

População

A população total da província da Guiné, segundo o censo de 1950, era de 510.777 habitantes, distribuídos da seguinte maneira:
- 2.263 brancos
- 11 indianos
- 4568 mestiços
- 503.935 negros.

Por estimativa realizada em 31 de Dezembro de 1958 a população total da província era de 568.300 habitantes.

FONTE: Províncias Ultramarinas Portuguesas: dados informativos. Volume 1. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1961.

Guiné 63/74 - CCCXXXIV: Antologia (30): A Província Portuguesa da Guiné (1961)



Por mão do nosso incansável Jorge Santos, autor da página sobre A Guerra Colonial, chega-nos um este texto sobre a geogrfia e a demografia da Guiné Portuguesa (Dados informativos, 1961).

Estes dados são mais do que um simples curiosidade, para os nossos amigos e camaradas de tertúlia. Têm também interesse histórico: basta compararmos a população de hoje da Guiné-Bissau (que mais do que duplicou) e termos em conta as dramáticas mudanças climáticas que estão afectar a África subsaariana. Por exemplo, quem conhece a Guiné-Bissau de hoje diz que já não chove como há quarenta anos atrás... Enfim, não sei se há dados históricos da metereologia da Guiné-Bissau para confirmar esta tendência.


Situação geográfica e superfície

A província da Guiné acha-se situada na costa ocidental do continente africano, entre o território do Senegal, que lhe serve de fronteira ao norte, e a República da Guiné, que a delimita a leste e a sul.

O seu litoral fica compreendido entre as latitudes 12º 20’ N (Cabo Roxo) e 10º 59’ N (Ponta Cagete).

Além da parte continental e das ilhas de Jeta, Caro, Pecixe, Bissau, Areias, Bolama, Carar, Como e Melo, que lhe ficam contíguas, compreende ainda a província o fronteiro arquipélago de Bijagós, formado por dezenas de ilhas e ilhéus, entre as quais sobressaem as de Caravela, Canhabaque, Formosa, Une, Cavalos e Poilão.

No seu conjunto ocupa a Guiné Portuguesa uma superfície total de 36.125 Km2.

Relevo e hidrografia

Se exceptuarmos algumas pequenas zonas do Leste da província, na região de Boé, onde os últimos contrafortes do maciço do Futa Djalon elevam o terreno até alturas que só raramente atingem os 300 metros, não se encontram na Guiné elevações dignas de menção.

A falta de relevo é especialmente assinalável numa larga faixa litoral, cuja planura, permitindo a invasão profunda, pelo mar, dos antigos cursos dos rios, dá origem às conhecidas «rias» que sulcam grande parte dessa zona da província.

Podem considerar-se na Guiné, no que respeita a cursos de água, duas zonas que a linha limite das marés divide: a zona litoral e a zona interior.Na primeira, os antigos cursos dos rios, ao serem invadidos pelo mar, dão origem às chamadas «rias», das quais as mais importantes, de norte para sul, são as de Sucujaque, Cacheu, Bissau, Grande ou de Buba e Cacine.

Na zona interior, que abrange as regiões situadas para além do limite das marés, assinala-se já a existência de cursos de água doce, com um regime de cheias relacionadas com as variações climatéricas, os quais, devido aos rápidos que cortam os seus percursos, são apenas navegáveis em pequenas extensões.

As principais bacias hidrográficas que se encontram nesta zona são as do rio Cacheu ou Farim, navegável em cerca de 100 Km do seu percurso por navios até 2000 toneladas, do Geba, que constitui a principal via de comunicação fluvial da Guiné, e a do Corubal, que tem a sua origem no Futa Djalon e vai desaguar no estuário do rio Geba, sendo navegável em cerca de 150 km.

Clima

Situada sensivelmente a meia distância entre o Equador e o trópico de Câncer, a Guiné tem o clima quente e húmido característico das regiões tropicais, em que apenas se assinalam duas estações: a quente ou das chuvas, que começa em meados de Maio e se estende até meados de Novembro, e a estação seca e fresca, que cobre o restante período do ano.

Na época das chuvas a humidade atmosférica é bastante elevada e a temperatura média, à sombra, oscila entre 26º e 28º C.

A pluviosidade é superior em média a 2000 mm, sendo os meses de Julho e Agosto os que registam maior número de dias de chuva.

As temperaturas médias da época seca não vão além de 24º C, sendo os meses mais frescos os de Dezembro e Janeiro.

No que respeita às temperaturas, consideram alguns autores a possibilidades de dividir o ano nos seguintes quatro períodos:

a) período fresco - no qual se verificam as maiores amplitudes térmicas, e que abrange os meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro.

b) 1º período quente – durante os meses de Março, Abril e Maio, em que as variações térmicas são ainda de certo vulto, especialmente nos meses de Março e Abril.

c) Período das chuvas – que se estende pelos meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro.

d) 2º período quente – abrangendo os meses de Outubro e Novembro.

Com as suas características acentuadamente tropicais, o clima da Guiné tem sido considerado como insalubre, devido às suas altas temperaturas, densa humidade, baixa pressão atmosférica e emanações das regiões alagadiças das zonas planas.

É exagerado, no entanto, generalizar a toda a província as más condições climatéricas, visto que em certas regiões, como no Boé, Bafatá e outras, se encontram grandes áreas em que a adaptação do europeu se faz com bastante facilidade e em que o clima não é mais pernicioso do que o de muitos outros lugares do território português.

População

A população total da província da Guiné, segundo o censo de 1950, era de 510.777 habitantes, distribuídos da seguinte maneira:
- 2.263 brancos
- 11 indianos
- 4568 mestiços
- 503.935 negros.

Por estimativa realizada em 31 de Dezembro de 1958 a população total da província era de 568.300 habitantes.

FONTE: Províncias Ultramarinas Portuguesas: dados informativos. Volume 1. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1961.