30 janeiro 2006

Guiné 63/74 - CDLXXXV: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' do Paulo Salgado) (10): ontem e hoje em Uaque


Guiné-Bissau > Uaque > 2006 > Pôr do sol.

© Paulo Salgado (2006)

Camaradas e Amigos:

O fim de tarde vai crescendo, o sol aproxima-se do ocaso, os ramos das árvores vão-se desenhando contra luz crepuscular, esbatida nos telhados de capim de Uaque, nas pequenas moranças que constituem a tabanca, as aves de maior porte piam escondidas no cimo dos poilões que circundam a tabanca.

O troço de picada – aquela terra avermelhada é sempre a mesma nas picadas da Guiné! – serpenteia desde o pequeno hotel rural onde nos instalámos no fim de semana (temos mordomias muito simpáticas que nos tornam reizinhos: acabamos por escolher as refeições a gosto, pasme-se!... ele são peitos de rolo em espetada, ele é a feijoada de javali, ele é o leitãozinho tostado, ele á a barracuda sumarenta - esta o Comandante traz de Buba) até à estrada alcatroada que vem de Bissau, passa por Safim, Nhacra, Dugal, Uaque, e prossegue por aí fora, para leste, norte e sul – esta estrada tem o condão de ir para todo o lado, vede bem: Mansoa, Mansabá, Bissorã, Olossato, Farim; e Bafatá, Gabú (nova Lamego, antigamente), e para baixo: Bambadinca, Xitole, Saltinho, Catió, com bifurcações para Fulacunda…que sei eu?! (Já sei: não falei em muitas tabancas que o Albano, o Humberto, o Marques, o Luís e tantos que tanto gostariam que eu referisse!)

Guiné-Bissau > 2006 > Bolanha com arroz

© Paulo Salgado (2006)








Guiné-Bissau > Olossato > 2006 > A boleia, ontem como hoje...

© Paulo Salgado (2006)

No Olossato (70-71), as redondezas eu conheci bem, acreditai: lá estão, agora revigoradas, pois no tempo da guerra tudo fora abandonado ao seu derredor: Cansonco, Missirá, Fajonquito, Iracunda, Ionfarim, Maqué. Essas eu as vi queimadas, arrasadas, isoladas – quando passávamos em patrulhamentos, era só restos de paliçadas, terras e hortas incultas... e as viagens eram de boleia nas viaturas.

Guiné-Bissau > Olossato > 2006 > A tabanca de Olossato...

© Paulo Salgado (2006)


Hoje, Camaradas, mais ou menos intensamente, vivem lá pessoas, há cultivo, há cajus, bananas, feijão, mandioca, batata doce, e arroz nalgumas bolanhas.




Guiné-Bissau > Olossato > 2006 > Os menininos de Olossato...

© Paulo Salgado (2006)


Hoje, ao fim de tarde, no troço desta picada faz-se tarde e todos sabem que a noite está aí, negra: o rapazio, ao som dos últimos assobios em toscos mas belos instrumentos de lama fabricados, empurra as vacas para o redil junto das tabancas, as mulheres recolhem as crianças e as galinhas, o Pansau acaba de entaipar as entradas da casa que planificou e construiu (tenho o filme de meses de trabalho) para evitar a devassa enquanto não tiver o telhado feito de cibes, e o capim respectivo, uma mulher puxa o último balde do fundo do poço para prevenir uma noite longa, o Martinho já passou por mim há uns minutos com meia dúzia de peixes que apanhou na armadilha de um riacho que enche na maré cheia, uma mulher nova com os filhos às costas troca um chau comigo e logo dois meninos: chau

Guiné-Bissau > Uaque > 2006 > Balantas em actividade piscatória...

© Paulo Salgado (2006)






Já cai o crepúsculo e eu caminho devagar saboreando o resto do dia quase noite, tranquilo nas pequenas actividades, sereno no silêncio entrecortado pelos piares das aves nocturnas.

Guiné-Bissau > Uaque > 2006 > Uma mulher na labuta do campo ...

© Paulo Salgado (2006)


Caminho devagar, a memória empurrando-me para trinta e tantos anos atrás, para aquele tempo em que não se podia sair e ver a vida tranquila – o arame farpado era a fronteira, nítida, sempre presente! Que sorte a minha: estar ali, andando lentamente, saboreando o passado e vendendo-o a mim próprio por uma migalha: toma, tens aí o que gostarias de ver no teu Olossato, anos atrás: uma vida simples, em que os homens pudessem trabalhar a bolanha em paz, em que as mulheres catassem o feijão e os meninos fossem livres nos seus sorrisos e brincadeira campos afora!!!

Guiné-Bissau > Uaque > 2006 > A cadonga...

© Paulo Salgado (2006)

Olha: aqui, até podes verificar que as coisas não estão bem, mas os meninos correm pelos campos, as candongas e jeeps e camiões fogem pelas estradas, os balantas fazem os seus roncos nocturnos e caminham plenos de pujança (Foto: balantas), os homens constroem as casas junto das casas dos seus familiares.

Olha: aqui, até pode haver analfabetismo, saúde precaríssima, mas há outras coisas – aquelas coisas que a liberdade dá e que o arame farpado tirava.

Olha e vê bem: caminhas por esta picada batida, de terra vermelha. Tranquilo. E um dos guardas (o outro faz a última reza a Alá) do pequeno hotel de caça saúda-te com um sorriso amplo, os dentes branqueando:
- Foste passear, Sr. Paulo?! - Eu aceno-lhe debaixo da quase escuridão:
- Boa noite, amigo!

Entro no campo do parque, sereno e reconfortado; este reencontro com o passado e a certeza que um dia será melhor para os meus amigos guineenses faz-me bem. Sei que os homens podem fazer mais e muito mais. Mas nunca se fará nada em tempo de guerra ou de guerras.

A picada avermelhada, agora enegrecida pela noite, ficou para trás.

Paulo Salgado

Uaque, 23 de Janeiro de 2006

Guiné 63/74 - CDLXXXV: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' do Paulo Salgado) (10): ontem e hoje em Uaque


Guiné-Bissau > Uaque > 2006 > Pôr do sol.

© Paulo Salgado (2006)

Camaradas e Amigos:

O fim de tarde vai crescendo, o sol aproxima-se do ocaso, os ramos das árvores vão-se desenhando contra luz crepuscular, esbatida nos telhados de capim de Uaque, nas pequenas moranças que constituem a tabanca, as aves de maior porte piam escondidas no cimo dos poilões que circundam a tabanca.

O troço de picada – aquela terra avermelhada é sempre a mesma nas picadas da Guiné! – serpenteia desde o pequeno hotel rural onde nos instalámos no fim de semana (temos mordomias muito simpáticas que nos tornam reizinhos: acabamos por escolher as refeições a gosto, pasme-se!... ele são peitos de rolo em espetada, ele é a feijoada de javali, ele é o leitãozinho tostado, ele á a barracuda sumarenta - esta o Comandante traz de Buba) até à estrada alcatroada que vem de Bissau, passa por Safim, Nhacra, Dugal, Uaque, e prossegue por aí fora, para leste, norte e sul – esta estrada tem o condão de ir para todo o lado, vede bem: Mansoa, Mansabá, Bissorã, Olossato, Farim; e Bafatá, Gabú (nova Lamego, antigamente), e para baixo: Bambadinca, Xitole, Saltinho, Catió, com bifurcações para Fulacunda…que sei eu?! (Já sei: não falei em muitas tabancas que o Albano, o Humberto, o Marques, o Luís e tantos que tanto gostariam que eu referisse!)

Guiné-Bissau > 2006 > Bolanha com arroz

© Paulo Salgado (2006)








Guiné-Bissau > Olossato > 2006 > A boleia, ontem como hoje...

© Paulo Salgado (2006)

No Olossato (70-71), as redondezas eu conheci bem, acreditai: lá estão, agora revigoradas, pois no tempo da guerra tudo fora abandonado ao seu derredor: Cansonco, Missirá, Fajonquito, Iracunda, Ionfarim, Maqué. Essas eu as vi queimadas, arrasadas, isoladas – quando passávamos em patrulhamentos, era só restos de paliçadas, terras e hortas incultas... e as viagens eram de boleia nas viaturas.

Guiné-Bissau > Olossato > 2006 > A tabanca de Olossato...

© Paulo Salgado (2006)


Hoje, Camaradas, mais ou menos intensamente, vivem lá pessoas, há cultivo, há cajus, bananas, feijão, mandioca, batata doce, e arroz nalgumas bolanhas.




Guiné-Bissau > Olossato > 2006 > Os menininos de Olossato...

© Paulo Salgado (2006)


Hoje, ao fim de tarde, no troço desta picada faz-se tarde e todos sabem que a noite está aí, negra: o rapazio, ao som dos últimos assobios em toscos mas belos instrumentos de lama fabricados, empurra as vacas para o redil junto das tabancas, as mulheres recolhem as crianças e as galinhas, o Pansau acaba de entaipar as entradas da casa que planificou e construiu (tenho o filme de meses de trabalho) para evitar a devassa enquanto não tiver o telhado feito de cibes, e o capim respectivo, uma mulher puxa o último balde do fundo do poço para prevenir uma noite longa, o Martinho já passou por mim há uns minutos com meia dúzia de peixes que apanhou na armadilha de um riacho que enche na maré cheia, uma mulher nova com os filhos às costas troca um chau comigo e logo dois meninos: chau

Guiné-Bissau > Uaque > 2006 > Balantas em actividade piscatória...

© Paulo Salgado (2006)






Já cai o crepúsculo e eu caminho devagar saboreando o resto do dia quase noite, tranquilo nas pequenas actividades, sereno no silêncio entrecortado pelos piares das aves nocturnas.

Guiné-Bissau > Uaque > 2006 > Uma mulher na labuta do campo ...

© Paulo Salgado (2006)


Caminho devagar, a memória empurrando-me para trinta e tantos anos atrás, para aquele tempo em que não se podia sair e ver a vida tranquila – o arame farpado era a fronteira, nítida, sempre presente! Que sorte a minha: estar ali, andando lentamente, saboreando o passado e vendendo-o a mim próprio por uma migalha: toma, tens aí o que gostarias de ver no teu Olossato, anos atrás: uma vida simples, em que os homens pudessem trabalhar a bolanha em paz, em que as mulheres catassem o feijão e os meninos fossem livres nos seus sorrisos e brincadeira campos afora!!!

Guiné-Bissau > Uaque > 2006 > A cadonga...

© Paulo Salgado (2006)

Olha: aqui, até podes verificar que as coisas não estão bem, mas os meninos correm pelos campos, as candongas e jeeps e camiões fogem pelas estradas, os balantas fazem os seus roncos nocturnos e caminham plenos de pujança (Foto: balantas), os homens constroem as casas junto das casas dos seus familiares.

Olha: aqui, até pode haver analfabetismo, saúde precaríssima, mas há outras coisas – aquelas coisas que a liberdade dá e que o arame farpado tirava.

Olha e vê bem: caminhas por esta picada batida, de terra vermelha. Tranquilo. E um dos guardas (o outro faz a última reza a Alá) do pequeno hotel de caça saúda-te com um sorriso amplo, os dentes branqueando:
- Foste passear, Sr. Paulo?! - Eu aceno-lhe debaixo da quase escuridão:
- Boa noite, amigo!

Entro no campo do parque, sereno e reconfortado; este reencontro com o passado e a certeza que um dia será melhor para os meus amigos guineenses faz-me bem. Sei que os homens podem fazer mais e muito mais. Mas nunca se fará nada em tempo de guerra ou de guerras.

A picada avermelhada, agora enegrecida pela noite, ficou para trás.

Paulo Salgado

Uaque, 23 de Janeiro de 2006

Guiné 63/74 - CDLXXXIV: Recordando o Saltinho

Guiné > Saltinho > 1969> As férias do pessoal da CART 1613, enquanto aguardava, em Colibuia e Cumbijã, a indicação do seu teatro de operações... No foto vemos o acrobático e já famoso salto salto do sargento Neto...

© José Neto (2005)

Texto de Conceição Salgado, comentando a foto do Zé Neto:

Hoje são outras guerras: pelo desenvolvimento, pela melhoria da saúde...

Ja tomei banho no Satinho, com a outra bloguista, Paula Salgado (agora em Londres), mas sem dar aqueles saltos. Saltos mais tranquilos, agora.

No lugar da tropa, de antanho, está lá um clube de caça, onde se come bem e onde se repousa o olhar sobre a bacia do rio...e se vêem os jovens a tomar banho e as raparigas a lavar a roupa, etc.
Um abraço da Conceição Salgado

Guiné-Bissau > Saltinho > 2004 > A Paula Salgada, nossa querida tertuliana, filha do Paulo e da Conceição Salgado.

© Conceição Salgado (2006)


Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > Uma antiga messe de oficiais do nosso tempo deu origem à actual Pousada do Saltinho, também conhecida por Clube de Turismo, Caça e Pesca. Foto nocturna.

© José Teixeira (2005)

Guiné 63/74 - CDLXXXIV: Recordando o Saltinho

Guiné > Saltinho > 1969> As férias do pessoal da CART 1613, enquanto aguardava, em Colibuia e Cumbijã, a indicação do seu teatro de operações... No foto vemos o acrobático e já famoso salto salto do sargento Neto...

© José Neto (2005)

Texto de Conceição Salgado, comentando a foto do Zé Neto:

Hoje são outras guerras: pelo desenvolvimento, pela melhoria da saúde...

Ja tomei banho no Satinho, com a outra bloguista, Paula Salgado (agora em Londres), mas sem dar aqueles saltos. Saltos mais tranquilos, agora.

No lugar da tropa, de antanho, está lá um clube de caça, onde se come bem e onde se repousa o olhar sobre a bacia do rio...e se vêem os jovens a tomar banho e as raparigas a lavar a roupa, etc.
Um abraço da Conceição Salgado

Guiné-Bissau > Saltinho > 2004 > A Paula Salgada, nossa querida tertuliana, filha do Paulo e da Conceição Salgado.

© Conceição Salgado (2006)


Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > Uma antiga messe de oficiais do nosso tempo deu origem à actual Pousada do Saltinho, também conhecida por Clube de Turismo, Caça e Pesca. Foto nocturna.

© José Teixeira (2005)

Guiné 63/74 - CDLXXXIII: A Guiné para os bloguistas - II Parte (Conceição Salgado)

Guiné-Bissau > Bissau > 2006 > Um mercado de rua: a falta de condições sanitárias na capital (com cercda de 400 mil habitantes) é altamente preocupante... Por outro lado, há dezenas de milhares de pessoas sem qualquer ocupação ou fonte de rendimento.

Fonte: © Conceição Salgado (2006)



Segunda e última parte do pequeno estudo da Dra. Conceição Salgado, economista, cooperante em Bissau na área da saúde, e membro da nossa tertúlia:


Caracterização Socio-Económica da República da Guiné-Bissau(continuação)

O sistema económico-social guineense assenta ainda numa Administração Pública deficientemente organizada e numa Administração Financeira do Estado quase inexistente (quase limitada à cobrança de impostos aduaneiros).

Em relação à Administração Pública, os seus traços definidores apresentam o seguinte quadro:

(i) o elevado número de ministérios, secretarias de estado, comissões, etc.;

(ii) a personalização do poder;

(iii) a discrepância entre a lei e a execução;

(iv) qualificações insuficientes dos funcionários públicos, mesmo ao mais alto nível;

(v) a falta de disciplina financeira;

(vi) a desarticulação e falta de coordenação dos projectos quer de nível social quer de nível económico (Dias, J. R., 1996).

Coexiste na Guiné-Bissau uma dúplice autoridade administrativa: (i) a tradicional, sedeada na tabanca, à frente da qual se encontra o régulo, (ii) e a moderna, que representa o Estado, através do Comité de Estado – donde decorre um conflito de hierarquia sobretudo na área da implementação de taxas e impostos.

Do ponto de vista social, apesar da inexistência de estatísticas fiáveis, são conhecidas bolsas significativas de mal nutrição, mesmo de desnutrição, principalmente na capital. Há dezenas de milhares de pessoas que não trabalham e que vivem à custa dos magros proventos auferidos por algum familiar – a distribuição dos rendimentos diminutos tem que repartir-se por muitos.

As habitações e os quintais, sobretudo na capital, encontram-se degradados, especialmente no que toca às condições higiénicas de dormida, de preparação dos alimentos, de recolha de água potável e de dejecção.



Guiné-Bissau > Bissau > 2000 > Aspecto geral do Hospital Nacioanl Simão Mendes

Fonte: © Albano Costa (2006)

Calcula-se que residem em cada habitação, na capital, em média doze pessoas (algumas situações revelam quinze e muito mais) o que comporta riscos acrescidos: degradação da sanidade do convívio familiar, dificuldades na provisão de alimentos e riscos de saúde.

Quanto ao sistema de saúde, a Guiné-Bissau apresenta um elevado estado de degradação, sofrendo de falta infra-estruturas, inexistência de manutenção curativa e preventiva dos equipamentos (tanto nos hospitais regionais e no próprio hospital de referência nacional - o Hospital Simão Mendes quanto nos centros de saúde), impreparação insuficiente de recursos humanos, recursos financeiros insuficientes, disponibilidade muito irregular de medicamentos e bens de consumo para utilização quotidiana, equipamentos de apoio clínico muito degradados ou inexistentes.

A interligação entre os cuidados primários e hospitalares é feita de forma incoerente e a política de descentralização de esforços e recursos, proclamada pelos governantes, não tem sido executada.

Além disso, a Administração da Saúde (normas, procedimentos, aquisições, financiamento, realização de despesas, investimento, etc.) é muito centralizada e apresenta um cariz burocrático e autoritário, o que limita as iniciativas e criatividade locais.

Guiné-Bissau > Bissau > 2006 > Hospital Nacional Simão Mendes > Aspecto da maternidade. (Foto tirada com a devida autorização da administração)

Fonte: © Conceição Salgado (2006)

Quanto aos recursos humanos, verificou-se mesmo uma fuga de quadros provocada pelo evento militar de 1998, não obstante o esforço meritório de alguns que regressaram ao seu país. A nível da saúde, por exemplo, a situação foi agravada em consequência do decréscimo de Recursos Humanos de 1997 para 2000 (Abril):

© Conceição Salgado (2006)


Para melhor ilustrar a situação económico-social da Guiné-Bissau, podemos recorrer ao Indicador de Desenvolvimento Humano (6):

© Conceição Salgado (2006)



Fonte: Rapport Mondial sur le Développement Humain 2003

© Conceição Salgado (2006)

Os indicadores de desenvolvimento humano (definidos pelo Rapport Mondial Sur le Développement Humain 2003), revelam-nos um país com extrema pobreza.

Este quadro relativo ao nível de desenvolvimento é completado pelos seguintes indicadores de saúde:

a) Infant mortality rate [ Taxa de mortalidade infantil] – 139/1000 (WHO African Region – 91; WHO European Region – 21)

b) Probability of dying under age 5 [ Risco de morrer antes dos 5 anos de idade] – 203/1000 (WHO African Region – 163; WHO European Region – 26)

c) Probability of dying between age 5 and 59 [ Risco de morrer entre os 5 e os 59 anos de idade] – 318 (WHO African Region – 316; WHO European Region – 156)

d) Maternal mortality ratio [ Taxa de mortalidade materna] – 910/100.000 (WHO African Region – 940/100.000; WHO European Region – 59); from World Bank Report of July, Bissao: 1200/100.000 in Hospital of Bissao.

e) Health expenditure per capita [ Despesas com a saúde per capita] – 54 USD. World ranking [ Ranking a nível mundial] - 156 em 190 países)

f) Health expenditure (% of GDP) [ Despesas com a saúde em % do PIB ] – 1.1 (WHO African Region – 1.7; WHO European – 5.2

g) Distribution of health in the population – index of equality of child survival [Distribuição de saúde na população - índice de igualdade de sobrevivência nas crianças – 0,510 (Ranking mundial: 177 em 190 países)

h) Children immunized against measles (1997) [ Crianças vacinadas contra o sarampo, 1997] – 51%.

______

Notas da autora:

(6) IDH: é um instrumento de medida simples, que sintetiza três dimensões do conceito de desenvolvimento humano: (i) a capacidade de viver longo tempo e com saúde, (ii) o acesso à educação e (iii) aceder a um nível de vida decente. Combina a esperança de vida, a taxa de escolarização e o rendimento.

(7) Número de alunos inscritos num ciclo de ensino expresso em percentagem da população de indivíduos oficialmente em idade de frequentar esse ciclo.

(8) Paridade de Poder de Compra.

(9) Mede o nível esperado para o país em termos de esperança de vida.

(10) Mede o nível esperado para o país em termos de alfabetização dos adultos e de ensino (taxa bruta de escolaridade combinada no primário, secundário e superior).

(11) É calculado com base no PIB por habitante corrigido (em PPA).

(12) Estatística calculada pela subtracção da taxa de probabilidade de um dado grupo de indivíduos sobreviver até à idade que representa o índice 100.

Guiné 63/74 - CDLXXXIII: A Guiné para os bloguistas - II Parte (Conceição Salgado)

Guiné-Bissau > Bissau > 2006 > Um mercado de rua: a falta de condições sanitárias na capital (com cercda de 400 mil habitantes) é altamente preocupante... Por outro lado, há dezenas de milhares de pessoas sem qualquer ocupação ou fonte de rendimento.

Fonte: © Conceição Salgado (2006)



Segunda e última parte do pequeno estudo da Dra. Conceição Salgado, economista, cooperante em Bissau na área da saúde, e membro da nossa tertúlia:


Caracterização Socio-Económica da República da Guiné-Bissau(continuação)

O sistema económico-social guineense assenta ainda numa Administração Pública deficientemente organizada e numa Administração Financeira do Estado quase inexistente (quase limitada à cobrança de impostos aduaneiros).

Em relação à Administração Pública, os seus traços definidores apresentam o seguinte quadro:

(i) o elevado número de ministérios, secretarias de estado, comissões, etc.;

(ii) a personalização do poder;

(iii) a discrepância entre a lei e a execução;

(iv) qualificações insuficientes dos funcionários públicos, mesmo ao mais alto nível;

(v) a falta de disciplina financeira;

(vi) a desarticulação e falta de coordenação dos projectos quer de nível social quer de nível económico (Dias, J. R., 1996).

Coexiste na Guiné-Bissau uma dúplice autoridade administrativa: (i) a tradicional, sedeada na tabanca, à frente da qual se encontra o régulo, (ii) e a moderna, que representa o Estado, através do Comité de Estado – donde decorre um conflito de hierarquia sobretudo na área da implementação de taxas e impostos.

Do ponto de vista social, apesar da inexistência de estatísticas fiáveis, são conhecidas bolsas significativas de mal nutrição, mesmo de desnutrição, principalmente na capital. Há dezenas de milhares de pessoas que não trabalham e que vivem à custa dos magros proventos auferidos por algum familiar – a distribuição dos rendimentos diminutos tem que repartir-se por muitos.

As habitações e os quintais, sobretudo na capital, encontram-se degradados, especialmente no que toca às condições higiénicas de dormida, de preparação dos alimentos, de recolha de água potável e de dejecção.



Guiné-Bissau > Bissau > 2000 > Aspecto geral do Hospital Nacioanl Simão Mendes

Fonte: © Albano Costa (2006)

Calcula-se que residem em cada habitação, na capital, em média doze pessoas (algumas situações revelam quinze e muito mais) o que comporta riscos acrescidos: degradação da sanidade do convívio familiar, dificuldades na provisão de alimentos e riscos de saúde.

Quanto ao sistema de saúde, a Guiné-Bissau apresenta um elevado estado de degradação, sofrendo de falta infra-estruturas, inexistência de manutenção curativa e preventiva dos equipamentos (tanto nos hospitais regionais e no próprio hospital de referência nacional - o Hospital Simão Mendes quanto nos centros de saúde), impreparação insuficiente de recursos humanos, recursos financeiros insuficientes, disponibilidade muito irregular de medicamentos e bens de consumo para utilização quotidiana, equipamentos de apoio clínico muito degradados ou inexistentes.

A interligação entre os cuidados primários e hospitalares é feita de forma incoerente e a política de descentralização de esforços e recursos, proclamada pelos governantes, não tem sido executada.

Além disso, a Administração da Saúde (normas, procedimentos, aquisições, financiamento, realização de despesas, investimento, etc.) é muito centralizada e apresenta um cariz burocrático e autoritário, o que limita as iniciativas e criatividade locais.

Guiné-Bissau > Bissau > 2006 > Hospital Nacional Simão Mendes > Aspecto da maternidade. (Foto tirada com a devida autorização da administração)

Fonte: © Conceição Salgado (2006)

Quanto aos recursos humanos, verificou-se mesmo uma fuga de quadros provocada pelo evento militar de 1998, não obstante o esforço meritório de alguns que regressaram ao seu país. A nível da saúde, por exemplo, a situação foi agravada em consequência do decréscimo de Recursos Humanos de 1997 para 2000 (Abril):

© Conceição Salgado (2006)


Para melhor ilustrar a situação económico-social da Guiné-Bissau, podemos recorrer ao Indicador de Desenvolvimento Humano (6):

© Conceição Salgado (2006)



Fonte: Rapport Mondial sur le Développement Humain 2003

© Conceição Salgado (2006)

Os indicadores de desenvolvimento humano (definidos pelo Rapport Mondial Sur le Développement Humain 2003), revelam-nos um país com extrema pobreza.

Este quadro relativo ao nível de desenvolvimento é completado pelos seguintes indicadores de saúde:

a) Infant mortality rate [ Taxa de mortalidade infantil] – 139/1000 (WHO African Region – 91; WHO European Region – 21)

b) Probability of dying under age 5 [ Risco de morrer antes dos 5 anos de idade] – 203/1000 (WHO African Region – 163; WHO European Region – 26)

c) Probability of dying between age 5 and 59 [ Risco de morrer entre os 5 e os 59 anos de idade] – 318 (WHO African Region – 316; WHO European Region – 156)

d) Maternal mortality ratio [ Taxa de mortalidade materna] – 910/100.000 (WHO African Region – 940/100.000; WHO European Region – 59); from World Bank Report of July, Bissao: 1200/100.000 in Hospital of Bissao.

e) Health expenditure per capita [ Despesas com a saúde per capita] – 54 USD. World ranking [ Ranking a nível mundial] - 156 em 190 países)

f) Health expenditure (% of GDP) [ Despesas com a saúde em % do PIB ] – 1.1 (WHO African Region – 1.7; WHO European – 5.2

g) Distribution of health in the population – index of equality of child survival [Distribuição de saúde na população - índice de igualdade de sobrevivência nas crianças – 0,510 (Ranking mundial: 177 em 190 países)

h) Children immunized against measles (1997) [ Crianças vacinadas contra o sarampo, 1997] – 51%.

______

Notas da autora:

(6) IDH: é um instrumento de medida simples, que sintetiza três dimensões do conceito de desenvolvimento humano: (i) a capacidade de viver longo tempo e com saúde, (ii) o acesso à educação e (iii) aceder a um nível de vida decente. Combina a esperança de vida, a taxa de escolarização e o rendimento.

(7) Número de alunos inscritos num ciclo de ensino expresso em percentagem da população de indivíduos oficialmente em idade de frequentar esse ciclo.

(8) Paridade de Poder de Compra.

(9) Mede o nível esperado para o país em termos de esperança de vida.

(10) Mede o nível esperado para o país em termos de alfabetização dos adultos e de ensino (taxa bruta de escolaridade combinada no primário, secundário e superior).

(11) É calculado com base no PIB por habitante corrigido (em PPA).

(12) Estatística calculada pela subtracção da taxa de probabilidade de um dado grupo de indivíduos sobreviver até à idade que representa o índice 100.

29 janeiro 2006

Guiné 63/74 - CDLXXXII: As formigas pretas e, ainda, o rali Porto-Bissau

Texto do A. Marques Lopes:

A propósito das formigas que atacam as zonas púbicas, como o Guimarães contou, elas chamavam-se, pelo menos na zona de Geba, formiga correcção, com um corpo de cerca de 1cm e umas mandíbulas quase do mesmo tamanho.

Um dia, o meu grupo teve de atravessar um riacho que tinha um troco de palmeira por cima. Quando os primeiros já avançavam por cima do tronco, vi que começaram aos saltos e a coçar desesperadamente os ... , a zona púbica. Lá estava um carreiro delas.
- Formiga correcção! - disse-me o guia.
- Saltem para a água! - disse eu. E lá atravessámos a nado. Disseram-me que eram formigas que atacavam directamente os... a zona púbica. Mas ninguém me conseguiu explicar o que é que elas queriam corrigir...

Sobre o rali Porto-Bissau: a jornalista Joana Andringa, quando soube dele, ficou entusiasmadíssima. Está, juntamente com o Flora Gomes, cineasta guineense, a preparar um filme-documentário sobre a guerra na Guiné. Disse-me, depois, que já falou com o Flora e com o produtor e que irá com a sua equipa connosco, por terra, e que irão aos locais onde formos para colher elementos para o seu filme. No meu caso, quer que o comandante Gazela vá comigo a Sinchã Jobel, Cantacunda, Banjara e Samba Culo. Vamos ser actores.

Abraços
A. Marques Lopes

Guiné 63/74 - CDLXXXII: As formigas pretas e, ainda, o rali Porto-Bissau

Texto do A. Marques Lopes:

A propósito das formigas que atacam as zonas púbicas, como o Guimarães contou, elas chamavam-se, pelo menos na zona de Geba, formiga correcção, com um corpo de cerca de 1cm e umas mandíbulas quase do mesmo tamanho.

Um dia, o meu grupo teve de atravessar um riacho que tinha um troco de palmeira por cima. Quando os primeiros já avançavam por cima do tronco, vi que começaram aos saltos e a coçar desesperadamente os ... , a zona púbica. Lá estava um carreiro delas.
- Formiga correcção! - disse-me o guia.
- Saltem para a água! - disse eu. E lá atravessámos a nado. Disseram-me que eram formigas que atacavam directamente os... a zona púbica. Mas ninguém me conseguiu explicar o que é que elas queriam corrigir...

Sobre o rali Porto-Bissau: a jornalista Joana Andringa, quando soube dele, ficou entusiasmadíssima. Está, juntamente com o Flora Gomes, cineasta guineense, a preparar um filme-documentário sobre a guerra na Guiné. Disse-me, depois, que já falou com o Flora e com o produtor e que irá com a sua equipa connosco, por terra, e que irão aos locais onde formos para colher elementos para o seu filme. No meu caso, quer que o comandante Gazela vá comigo a Sinchã Jobel, Cantacunda, Banjara e Samba Culo. Vamos ser actores.

Abraços
A. Marques Lopes

28 janeiro 2006

Guiné 63/74 - CDLXXXI: A Guiné para os bloguistas - I Parte (Conceição Salgado)




Guiné > Zona Leste > Bambadinca > Rio Undunduma > 1970 >

Uma produção pecuária dependente da prática da transumância... Ontem como hoje.Mas actualmente enfenta crescentes problemas devido às divergências ao conflito entre entre as leis fundiárias tradicionais e os constrangimentos da poder político de Estado.

Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)



Caracterização Socio-Económica da República da Guiné-Bissau

Texto da Dr. Conceição Salgado, economista e cooperante, membro da nossa tertúlia

A sociedade guineense é constituída por cerca de 1,2 milhões de pessoas (1999) distribuída por cerca de trinta etnias diferentes, as quais têm sabido manter uma louvável relação especial de coabitação, que, de acordo com a lição de Amílcar Cabral, e os princípios que nortearam a luta armada, souberam desenvolver, “aglutinando homens e ideias cimentadas na e pela prática, pois nunca um movimento de libertação em África conseguiu unir tantas etnias numa mesma luta, eliminando, [então] clivagens regionais ou tribais” (Lopes, C., 1982), ainda que continuem a existir os designados “chãos” (1).

A população urbana constitui 24,5 % (PNUD, 2001).



Guiné-Bissau: Um dos países mais pobres do mundo, com um rendimento nacional bruto por habitante de 160 dólares (em 2001)

Fonte: © Conceição Salgado (2006)

Bissau, a capital, tem hoje uma população estimada em cerca de 400.000 habitantes, grande parte proveniente do interior (um fenómeno que não resultou do evento militar de 1998), o que provoca situações de alto risco em termos de fome, de saúde, de habitação e de empregabilidade, de educação, de estrutura social, mesmo da destruição da diversidade étnica e cultural.

A República da Guiné-Bissau é um dos países mais pobres do mundo, de acordo com os relatórios da ONU. A organização económica da República da Guiné-Bissau apresenta as seguintes características gerais:

Guiné-Bissau: Um país cada vez mais pobre... O Produto Interno Bruto (PIB) passou de 256 milhões de dólares em 1991 para menos 199 milhões, em 2001

© Conceição Salgado (2006)


(i) economia de subsistência, repousando, essencialmente na agricultura e na pesca, essencialmente comunitária, pois os meios de produção (a terra e os instrumentos de trabalho) são propriedade comum da comunidade de base (a família), representando cerca de 60% do PIB;
(ii) formações pré-capitalistas;

(iii) separação de classes entre os camponeses, pequenos comerciantes e classe dirigente;

(iv) existência de relações mercantis internas em esferas limitadas;

(v) inexistência de comércio com o exterior, aspecto que nos reconduz ao colonialismo, o qual fez concentrar na minoria dirigente as transacções comerciais com o exterior (reduzindo-se a venda, quase exclusivamente, de caju e óleo de palma – monoculturas).


Guiné-Bissau: A degradação das terras de cultivo...

© Conceição Salgado (2006)


Crê-se que existe uma diminuição de cerca de 30% de terras incultas em relação aos meados da década de oitenta (principalmente as bolanhas) (2).

Na Guiné-Bissau coexistem, hoje, formas de produção tributárias (assentes na terra e distribuição comunitária); mercantis a nível interno ou pouco significativo com países vizinhos - actividade realizada pelos djilas (3) - e um reduzido comércio externo de carácter monopolista.


Na realidade, as grandes tarefas económicas ligadas à agricultura (lavoura da terra, colheita, transportes, trabalhos hidráulicos, etc.) são realizadas pelo trabalho comunitário que permanece fiel a valores ancestrais.

A economia de subsistência prima sobre a economia de mercado, mas existem traços mercantis a despontaram, ao longo das décadas de independência; algumas estruturas débeis, de cariz capitalista, ligadas ao frágil sector de exportação / importação, dominadas por uma diminuta minoria local e por vagos interesses exteriores.


Guiné-Bissau: A economia de substência prima pela economia de mercado...

© Conceição Salgado (2006)


As explorações agrícolas são de cariz familiar e concentradas junto das tabancas (4).


Guiné-Bissau: Predominância das explorações agrícolas de cariz familiar e comunitário

© Conceição Salgado (2006)


A agricultura é, ainda hoje, o sector mais importante na economia guineense, caracterizando-se por:

(i) uso intensivo da mão de obra;

(ii) escasso uso de meios tecnológicos;

(iii) diminuta utilização da tracção animal;

(iv) a rotação de culturas é prática comum, contribuindo para a degradação geral do meio ambiente;

(v) as principais culturas são: caju, arroz (até aos anos 60 a Guiné-Bissau exportava arroz), milho miúdo, sorgo, amendoim, mandioca e frutos tropicais.

Os recursos básicos são, por força do mercado, o caju (que ocupa cerca de 70% da população activa, sendo uma actividade sazonal), o amendoim, o óleo de palma, o coco, e as pescas, para além da exportação de madeiras.

Mas continua a ser mais fácil importar o arroz da China ou de outros países, uma vez que existem dois factores negativos que impedem a normal produção deste cereal:

(i) difíceis transportes internos para escoamento do arroz produzido na região sul do País;

(ii) interesses comerciais isolados.

© Conceição Salgado (2006) (5)

À fraca estrutura económica acresce uma baixa produtividade agrícola, um isolamento dos mercados internacionais, a fragilidade dos solos e a fraca produção alimentar não facilita a diversidade económica dos produtos primários para exportação. O comércio tradicional vem dando progressivamente lugar ao comércio por bruto, em especial do caju.

Nas zonas rurais, empobrecidas pelas migrações para a capital, as relações de tipo tributário são de longe as mais importantes; nas cidades, sobretudo Bissau, a macrocéfala capital, predomina o “modo de produção capitalista”.

As florestas, grande riqueza deste País, têm vindo a ser objecto de grandes intervenções negativas: intensos abates de árvores de alto porte e de grande valor natural e ecológico, e que, por um lado, servem para produzir carvão para consumo doméstico e, por outro, para exportação em favor de interesses comerciais, provocando a “savanização” da paisagem.

A produção pecuária depende basicamente da prática de transumância, «que enfrenta problemas crescentes devido às divergências entre as leis fundiárias tradicionais e as estatais» (Dias, J. R., 1996).

O subsolo não está especialmente analisado sob o ponto de vista das riquezas minerais, sendo conhecida a existência de bauxite e fosfatos, e ainda, ao que parece, de petróleo.


Guiné-Bissau > Bafatá > 2001 > O cajueiro vernelho © David J. Guimarães (2005) ... Ou a praga da cultura do caju... Segundo o José Carlos Mussà Biai (que é engenheiro florestal, mandinga do Xime, guineense e cidadão português, e membro da nossa tertúlia), as autoridades de Bissau têm estado nos últimos anos a incentivar a monocultura do caju. Os resultados podem vir a ser catastróficos para a população: em troca do caju, os agricultores recebem arroz, em quantidades que lhe dão para o ano todo. Desincentiva-se assim a cultura do arroz, que é importado e custa divisas. No ano em que houver um desastre na cultura do caju, vai haver fome... Além disso, "o cajueiro é como o eucalipto", destrói os solos... Em contrapartida, os povos do sul que cultivam o arroz não o conseguem escoar para Bissau por que não há uma rede viária e nem transportes em condições... Resultado: ficam os velhos e as crianças no interior, enquanto os mais novos vai engrossar o lumpen-proletariado de Bissau, hoje com um terço da população do país... (LG)

(Continua)
__________
Notas da autora:

(1) Chão: território predominantemente dominado por uma etnia, ao qual pode corresponder um Regulado
(2) Terras alagadiças de cultivo
(3) Djilas: pequenos comerciantes muçulmanos
(4) Tabanca – aldeia guineense
(5) Índice de produção > Ano base: 1989-91

Guiné 63/74 - CDLXXXI: A Guiné para os bloguistas - I Parte (Conceição Salgado)




Guiné > Zona Leste > Bambadinca > Rio Undunduma > 1970 >

Uma produção pecuária dependente da prática da transumância... Ontem como hoje.Mas actualmente enfenta crescentes problemas devido às divergências ao conflito entre entre as leis fundiárias tradicionais e os constrangimentos da poder político de Estado.

Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)



Caracterização Socio-Económica da República da Guiné-Bissau

Texto da Dr. Conceição Salgado, economista e cooperante, membro da nossa tertúlia

A sociedade guineense é constituída por cerca de 1,2 milhões de pessoas (1999) distribuída por cerca de trinta etnias diferentes, as quais têm sabido manter uma louvável relação especial de coabitação, que, de acordo com a lição de Amílcar Cabral, e os princípios que nortearam a luta armada, souberam desenvolver, “aglutinando homens e ideias cimentadas na e pela prática, pois nunca um movimento de libertação em África conseguiu unir tantas etnias numa mesma luta, eliminando, [então] clivagens regionais ou tribais” (Lopes, C., 1982), ainda que continuem a existir os designados “chãos” (1).

A população urbana constitui 24,5 % (PNUD, 2001).



Guiné-Bissau: Um dos países mais pobres do mundo, com um rendimento nacional bruto por habitante de 160 dólares (em 2001)

Fonte: © Conceição Salgado (2006)

Bissau, a capital, tem hoje uma população estimada em cerca de 400.000 habitantes, grande parte proveniente do interior (um fenómeno que não resultou do evento militar de 1998), o que provoca situações de alto risco em termos de fome, de saúde, de habitação e de empregabilidade, de educação, de estrutura social, mesmo da destruição da diversidade étnica e cultural.

A República da Guiné-Bissau é um dos países mais pobres do mundo, de acordo com os relatórios da ONU. A organização económica da República da Guiné-Bissau apresenta as seguintes características gerais:

Guiné-Bissau: Um país cada vez mais pobre... O Produto Interno Bruto (PIB) passou de 256 milhões de dólares em 1991 para menos 199 milhões, em 2001

© Conceição Salgado (2006)


(i) economia de subsistência, repousando, essencialmente na agricultura e na pesca, essencialmente comunitária, pois os meios de produção (a terra e os instrumentos de trabalho) são propriedade comum da comunidade de base (a família), representando cerca de 60% do PIB;
(ii) formações pré-capitalistas;

(iii) separação de classes entre os camponeses, pequenos comerciantes e classe dirigente;

(iv) existência de relações mercantis internas em esferas limitadas;

(v) inexistência de comércio com o exterior, aspecto que nos reconduz ao colonialismo, o qual fez concentrar na minoria dirigente as transacções comerciais com o exterior (reduzindo-se a venda, quase exclusivamente, de caju e óleo de palma – monoculturas).


Guiné-Bissau: A degradação das terras de cultivo...

© Conceição Salgado (2006)


Crê-se que existe uma diminuição de cerca de 30% de terras incultas em relação aos meados da década de oitenta (principalmente as bolanhas) (2).

Na Guiné-Bissau coexistem, hoje, formas de produção tributárias (assentes na terra e distribuição comunitária); mercantis a nível interno ou pouco significativo com países vizinhos - actividade realizada pelos djilas (3) - e um reduzido comércio externo de carácter monopolista.


Na realidade, as grandes tarefas económicas ligadas à agricultura (lavoura da terra, colheita, transportes, trabalhos hidráulicos, etc.) são realizadas pelo trabalho comunitário que permanece fiel a valores ancestrais.

A economia de subsistência prima sobre a economia de mercado, mas existem traços mercantis a despontaram, ao longo das décadas de independência; algumas estruturas débeis, de cariz capitalista, ligadas ao frágil sector de exportação / importação, dominadas por uma diminuta minoria local e por vagos interesses exteriores.


Guiné-Bissau: A economia de substência prima pela economia de mercado...

© Conceição Salgado (2006)


As explorações agrícolas são de cariz familiar e concentradas junto das tabancas (4).


Guiné-Bissau: Predominância das explorações agrícolas de cariz familiar e comunitário

© Conceição Salgado (2006)


A agricultura é, ainda hoje, o sector mais importante na economia guineense, caracterizando-se por:

(i) uso intensivo da mão de obra;

(ii) escasso uso de meios tecnológicos;

(iii) diminuta utilização da tracção animal;

(iv) a rotação de culturas é prática comum, contribuindo para a degradação geral do meio ambiente;

(v) as principais culturas são: caju, arroz (até aos anos 60 a Guiné-Bissau exportava arroz), milho miúdo, sorgo, amendoim, mandioca e frutos tropicais.

Os recursos básicos são, por força do mercado, o caju (que ocupa cerca de 70% da população activa, sendo uma actividade sazonal), o amendoim, o óleo de palma, o coco, e as pescas, para além da exportação de madeiras.

Mas continua a ser mais fácil importar o arroz da China ou de outros países, uma vez que existem dois factores negativos que impedem a normal produção deste cereal:

(i) difíceis transportes internos para escoamento do arroz produzido na região sul do País;

(ii) interesses comerciais isolados.

© Conceição Salgado (2006) (5)

À fraca estrutura económica acresce uma baixa produtividade agrícola, um isolamento dos mercados internacionais, a fragilidade dos solos e a fraca produção alimentar não facilita a diversidade económica dos produtos primários para exportação. O comércio tradicional vem dando progressivamente lugar ao comércio por bruto, em especial do caju.

Nas zonas rurais, empobrecidas pelas migrações para a capital, as relações de tipo tributário são de longe as mais importantes; nas cidades, sobretudo Bissau, a macrocéfala capital, predomina o “modo de produção capitalista”.

As florestas, grande riqueza deste País, têm vindo a ser objecto de grandes intervenções negativas: intensos abates de árvores de alto porte e de grande valor natural e ecológico, e que, por um lado, servem para produzir carvão para consumo doméstico e, por outro, para exportação em favor de interesses comerciais, provocando a “savanização” da paisagem.

A produção pecuária depende basicamente da prática de transumância, «que enfrenta problemas crescentes devido às divergências entre as leis fundiárias tradicionais e as estatais» (Dias, J. R., 1996).

O subsolo não está especialmente analisado sob o ponto de vista das riquezas minerais, sendo conhecida a existência de bauxite e fosfatos, e ainda, ao que parece, de petróleo.


Guiné-Bissau > Bafatá > 2001 > O cajueiro vernelho © David J. Guimarães (2005) ... Ou a praga da cultura do caju... Segundo o José Carlos Mussà Biai (que é engenheiro florestal, mandinga do Xime, guineense e cidadão português, e membro da nossa tertúlia), as autoridades de Bissau têm estado nos últimos anos a incentivar a monocultura do caju. Os resultados podem vir a ser catastróficos para a população: em troca do caju, os agricultores recebem arroz, em quantidades que lhe dão para o ano todo. Desincentiva-se assim a cultura do arroz, que é importado e custa divisas. No ano em que houver um desastre na cultura do caju, vai haver fome... Além disso, "o cajueiro é como o eucalipto", destrói os solos... Em contrapartida, os povos do sul que cultivam o arroz não o conseguem escoar para Bissau por que não há uma rede viária e nem transportes em condições... Resultado: ficam os velhos e as crianças no interior, enquanto os mais novos vai engrossar o lumpen-proletariado de Bissau, hoje com um terço da população do país... (LG)

(Continua)
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Notas da autora:

(1) Chão: território predominantemente dominado por uma etnia, ao qual pode corresponder um Regulado
(2) Terras alagadiças de cultivo
(3) Djilas: pequenos comerciantes muçulmanos
(4) Tabanca – aldeia guineense
(5) Índice de produção > Ano base: 1989-91