blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
24 janeiro 2006
Guiné 63/74 - CDLXXVI: Um mês a feijão frade... e desenfiado (Mondajane, Dulombi, Galomaro, 1969)
Dei conta, nas minhas notas pessoais de que entre 27 de Agosto e 27 de Setembro de 1969, estive com o meu pelotão em reforço de do sector de Galomaro/Dulombi, mais própriamente em Mondajane, sem no entanto haver qualquer nota na História da Companhia.
Talvez na História do BCAÇ 2852 haja referência a esse tempo esquecido, mas vivido por nós, 3.º Grupo de Combate da CART 2339 (1).
A 27 de Agosto foi recebida a notícia de que iríamos para Galomaro.
A 28 saímos e chegámos cerca do meio dia com indicação de que irímos para Mondajane [a seguir a Dulombi], o que não aconteceu nesse dia mas sim no dia seguinte.
No cruzamento para Dulombi rebenta uma mina na GMC que segue à minha frente (nós íamos apeados, fazendo a segurança à coluna que integrava uma nova Companhia em treino operacional e que era de madeiraenses) a cerca de 15/20 metros, destruindo a sua frente. Resultado: um morto (desintegrado) e um ferido (condutor) que faleceu ainda nesse dia.
Impossibilitados de prosseguir fomos para Dulombi com os reabastecimentos. Aí fomos informados que deveríamos seguir a pé para Mondajane, que atingimos e onde nos instalámos.
Aí, e enquanto aguardávamos uma coluna com as nossas coisas, sem resultado, aparece-nos um pelotão vindo de Dulombi, carregando parte das nossas coisas, a pé e à cabeça, informando ser necessário termos que ir a Dulombi carregar, a pé e à cabeça, o que aconteceu no dia seguinte.
Dia 1 de Setembro de 1969, fui a Dulombi com 17 carregadores e 2 secções de milícias mais 10 homens do meu pelotão, a pé e por trilhos, buscar coisas que eram absolutamente necessárias, numa zona desconhecida e densamente arborizada, o que aconteceria de 2 em 2 dias.
A população recusa-se a ajudar (a zona era perigosa) e só com a intervenção pela força (ameaçámos queimar a tabanca), isso é conseguido. Note-se que nestas circunstâncias - falta de géneros e outros bens - repartimos com as populações.
A 5 de Setembro, um nativo mata um portentoso javali e houve carne fresca confeccionada.
A 7, chega um grupo de carregadores de Galomaro, carregando ainda parte das nossas coisas que estavam em Dulombi. Nesse dia o pelotão que aí estava foi rendido.
A 9, nova caminhada para Dulombi para carregar géneros.
Entretanto a 13 um nosso soldado é evacuado por doença e a 15, à tarde, recebemos a visita dos capitães das Companhias 2405 [Galomaro] e 2446 [ ou 2406, Saltinho?].
Dia 19 novamente ida a Dulombi para reabastecimento. A pé e pela densa mata.
Dia 23, notícia de que iríamos ser rendidos no dia seguinte. Nada.
Dia 24, rendidos finalmente e saída para Bambadinca [pela estrada Bafatá-Banbadinca], com chegada a Mansambo a 27 de Setembro de 1969. Sem incidentes.
Em suma, um mês a feijão frade, sem banho e sem mudar de roupa.
Carlos Marques dos Santos
______
(1) Nota do CMS:
O alferes do Grupo de Combate da Companhia de Galomaro que nos apoiou é meu primo. Ainda bem. Para não variar, a 29, rebentamentos cerca das 07.00h e uma nossa coluna emboscada no sítio do costume. Um morto e um ferido das NT. Ainda faltavam cerca de 2 meses e meio para o regresso à Metrópole.
(2) Nota de LG:
Infelizmente a História do BCAÇ 2852 é omisso sobre este destacamento do Carlos Marques dos Santos e do seu Grupod e Combate. Oficial ou oficiosamente, o CMS andou um mês desenfiado, sem conhecimento das autoridades máximas do Sector L1 (Bambadina). De acordo com o registo que fica para a História, em Setembro de 1969, a CART 2339 limitava-se a ter um pelotão em Candamã (2 secções)e em Afiá (uma secção). Mas em Agosto, tinha apenas um pelotão em reforço ao COP-7 (Galomaro)...
A História da CCAÇ 12 confirma a existência, em Agosto, de tropas de Mansambo em Candamã e Afiá: vd post de 30 de Julho de 2005 > Guiné 63/74 - CXXX: A CAÇ 12 em operação conjunta com a CART 2339 e os paraquedistas (Agosto de 1969) ... Em resumo, havia muito mais vida, na Guiné do nosso tempo, do que nas secretarias das nossas companhias...
Posteriormente à inserção deste post de hoje, o Marques dos Santos enviou-me a seguinte mensagem: "Grato pela publicação desta nota. Isto demonstra as incongruências das 'várias histórias oficiais escritas'. Não será caso único.
Que os nossos companheiros de tertúlia descubram pequenos pormenores vividos, mas não descritos. Ainda hoje, no meu dia a dia, dou extrema importância a um bem ao alcance de uma torneira – a água".
23 janeiro 2006
Guiné 63/74 - CDLXXV: Estórias cabralianas (5): Numa mão a espingarda, na outra...

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Vista aérea da tabanca de Bambadinca, tirada no sentido sul-norte. Em primeiro plano, a saída (norte) do aquartelamento, ligando à estrada (alcatroada) Bambadinca-Bafatá. Ao fundo, o Rio Geba Estreito. Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
Texto do Jorge Cabral:
Caro Companheiro,
Estamos quase a almoçar juntos para pôr a conversa em dia. Envio outra estória e um poema. Temo que não sejam publicáveis, mas tu é que mandas, farás como entenderes melhor.
Um Grande Abraço de Até Sempre,
Jorge
Numa mão a espingarda, na outra…
Penso que, já em 1971, apareceu no Batalhão [de Bambadinca], um Alferes de secretariado, corrido de Bissau, por via de uns dinheiros. Chegou acompanhado de uma dama, sobre a qual corriam os mais variados boatos. Dizia-se, calculem, que ela tinha sido uma prenda de aniversário ao Alferes, enviada pelo pai, milionário do Porto.
Nunca a vi, até porque, estando em vigor a cínica moral fascista, à rapariga, não sendo esposa legítima, foi logo vedada a frequência da messe [de oficiais], e até do próprio quartel, tendo sido relegada para a Tabanca, na qual ocupava uma apresentável morança, de larga vidraça sempre aberta, mesmo em frente a um dos postos de sentinela.
Tal posto transformou-se no preferido de toda a soldadesca que, quando em serviço, observava, acompanhando in solo , a actividade sexual do casal, cujas práticas inusitadas passaram a inspirar os eróticos sonhos, mesmo dos mais púdicos.
E tudo continuaria assim, com o óbvio benefício das repetidas descargas de tensão acumulada, não fosse em duas noites seguidas um soldado, quando de sentinela no referido posto, ter disparado, alertando toda a tropa para eminente ataque.
Que havia sucedido? Substituíra o militar a velha divisa camoniana “numa mão a espada, na outra a pena” por outra, mais prosaica, mas que ocupava também ambas as mãos, e quando acabava a função com a direita, não é que com a esquerda accionava o gatilho da G-3...
Jorge Cabral
Em Bissau
Estou bêbado estou sensato estou feliz
Vem dos sovacos um cheiro de Africana
Nas furnas da cerveja desfalece o Sargento
Apalpa o Alferes a puta berdiana
E o cabo vomita mãozinhas de vitela
Será que naufragou esta Caravela?
Que Pátria ainda mora aqui?
Bissau, Janeiro 70
Jorge Cabral
(ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71)
Guiné 63/74 - CDLXXV: Estórias cabralianas (5): Numa mão a espingarda, na outra...

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Vista aérea da tabanca de Bambadinca, tirada no sentido sul-norte. Em primeiro plano, a saída (norte) do aquartelamento, ligando à estrada (alcatroada) Bambadinca-Bafatá. Ao fundo, o Rio Geba Estreito. Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
Texto do Jorge Cabral:
Caro Companheiro,
Estamos quase a almoçar juntos para pôr a conversa em dia. Envio outra estória e um poema. Temo que não sejam publicáveis, mas tu é que mandas, farás como entenderes melhor.
Um Grande Abraço de Até Sempre,
Jorge
Numa mão a espingarda, na outra…
Penso que, já em 1971, apareceu no Batalhão [de Bambadinca], um Alferes de secretariado, corrido de Bissau, por via de uns dinheiros. Chegou acompanhado de uma dama, sobre a qual corriam os mais variados boatos. Dizia-se, calculem, que ela tinha sido uma prenda de aniversário ao Alferes, enviada pelo pai, milionário do Porto.
Nunca a vi, até porque, estando em vigor a cínica moral fascista, à rapariga, não sendo esposa legítima, foi logo vedada a frequência da messe [de oficiais], e até do próprio quartel, tendo sido relegada para a Tabanca, na qual ocupava uma apresentável morança, de larga vidraça sempre aberta, mesmo em frente a um dos postos de sentinela.
Tal posto transformou-se no preferido de toda a soldadesca que, quando em serviço, observava, acompanhando in solo , a actividade sexual do casal, cujas práticas inusitadas passaram a inspirar os eróticos sonhos, mesmo dos mais púdicos.
E tudo continuaria assim, com o óbvio benefício das repetidas descargas de tensão acumulada, não fosse em duas noites seguidas um soldado, quando de sentinela no referido posto, ter disparado, alertando toda a tropa para eminente ataque.
Que havia sucedido? Substituíra o militar a velha divisa camoniana “numa mão a espada, na outra a pena” por outra, mais prosaica, mas que ocupava também ambas as mãos, e quando acabava a função com a direita, não é que com a esquerda accionava o gatilho da G-3...
Jorge Cabral
Em Bissau
Estou bêbado estou sensato estou feliz
Vem dos sovacos um cheiro de Africana
Nas furnas da cerveja desfalece o Sargento
Apalpa o Alferes a puta berdiana
E o cabo vomita mãozinhas de vitela
Será que naufragou esta Caravela?
Que Pátria ainda mora aqui?
Bissau, Janeiro 70
Jorge Cabral
(ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71)
Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)
Guiné > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e o Rio Corubal (Cheche) ... Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)
Guiné > Canjadude > 1974 > O PAIGC toma posse do antigo aquartelamento da CCAÇ 5 e hasteia a bandeira da nova República da Guiné-Bissau. Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)
Guiné > Canjadude > 1974 > O furriel miliciano enfermeiro Carvalho, da CCAÇ 5, com um guerrilheiro do PAIGC, equipado a rigor e empunhando um kalash... © João Carvalho (2006)
Guiné > Canjadude > 1974 > Posto de controlo do PAIGC, vendo-se um grupo de guerrilheiros aramados de kalash e de RPG-7. Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)1. No final do ano passado (26 de Dezembro último) fui contactado por um antigo camarada da Guiné que esteve em Canjadude (actual região do Gabu), de 1973 a 1974, na CCAÇ 5 . Convidou-me a ir ver uma foto de Canjadude na Wikipédia, a enciclopédia livre da Net, de que ele é colaborador, com um entrada sobre a Guerra do Ultramar.
2. Acabei , mais tarde (10 de Janeiro de 2006), por apresentá-lo a outro camarada, mais velho, que também esteve em Canjadude, na mesma companhia, a CCAÇ 5, mas uns anos antes (em 1968/69).
Tratava-se do José Martins, ex- furriel miliciano de transmissões, membro da nossa tertúlia, um estudioso da guerra da Guiné de quem já publicámos o relato dramático do desastre de Cheche, na sequência da retirada de Madina do Boé (1)...
Profissionalmente, o Martins é técnico de contabiliddae, trabalhando numa multinacional. Tinha-me telefonado, uns dias antes, do MARL (Mercado Abastecedor da Rgeião de Lisboa), em Loures, e tinha-se mostrado interessado em aderir à nossa tertúlia
3. Mandei a seguir a seguinte mensagem ao João Carvalho:
Vi as tuas fotos na Wikipédia e fiquei cheio de inveja... Tu és o que se pode dizer o homem certo no lugar certo.. Tu estavas lá no momento exacto (em 1974, em Canjadude) ... O sexto sentido do fotojornalista ? ... Autorizas que a gente publique algumas das tuas fotos dessa época ? Ou melhor: não queres ser tu apresentá-las, com uma legenda mais detalhada, no nosso blogue (que pode e deve também ser teu, no caso de entenderes fazer parte da nossa tertúlia)?
A propósito, já temos gente para formar um bigrupo (50/60)... Fico a aguardar uma resposta. É claro que na nossa caserna cabe sempre mais um camarada... Um abraço do Luís Graça
4. Resposta do João Caravalho, com data de 11 de Janeiro de 2006:
Olá, Luis:
Espero que não haja problema de te tratar desta forma mais que informal. Em Canjadude, fui furriel enfermeiro e neste momento sou farmacêutico.

2006 > O João Carvalho, ex-furriel miliciano enfermeiro da CCAÇ 5 (1973/74) e hoje farmacêutico
© João Carvalho (2006)
Em relação às fotos na Wikipedia, parece-me que pela legislação existente são consideradas de domínio público, ou seja, podem ser copiadas e mostradas por quem quiser e onde quiser. Portanto sintam-se à vontade para colocar no blogue as que quiserem.
Claro que quem tiver fotos que mereçam ser colocadas na Wikipedia também podem fazê-lo à vontade. Se houver alguma dificuldade ou alguma dúvida é só dizer, que eu ajudo no que me for possível.
Tenho sempre pouco tempo disponível (trabalho, trabalho...) e por isso é que ainda não entrei no blogue, mas podem contar comigo brevemente.
Este fim de semana estive a digitalizar mais 50 slides da Guiné e ainda me falta digitalizar mais algumas coisas. Tenciono colocar na Wikipedia ainda mais algumas fotos, quando conseguir arranjar tempo para isso.
(...) Permitem-me que retire informação do blogue, para a Wikipedia como por exemplo os efectivos do PAIGC ?
Até muito breve
Um abraço
João Carvalho
5. Nova mensagem do João Carvalho, aderindo à nossa tertúlia:
Como solicitado, segue em anexo uma fotografia minha tirada em 1974 na Guiné, acompanhado por um elemento do PAIGC. Será que esta foto serve como foto antiga ? Foto mais recente tenho que ir à procura. Envio logo que possível.
(...) Já acrescentei uma ligação externa (link) na Wikipedia para a página Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné (1963-1974) (em português).
(1) Vd post de José Martins, de 24 de Outubro de 2005 > Guiné 63/64 - CCLVII: A contabilidade dos mortos na operação de retirada de Madina do Boé
Vd. também post de 2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé
(2) A Wikipedia é um projecto de enciclopédia livre, a maior enciclopédia que está à disposição, sem encargos nem senhas de acesso, na Internet. Começada em 2001, a Wikipedia tem já, na sua versão inglesa, quase um milhão de artigos que são actualizados regularmente. Qualquer indivíduo pode editar esta enciclopédia, mandando artigos e documentos... É o caso do nosso camarada João Carvalho.
Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)
Guiné > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e o Rio Corubal (Cheche) ... Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)
Guiné > Canjadude > 1974 > O PAIGC toma posse do antigo aquartelamento da CCAÇ 5 e hasteia a bandeira da nova República da Guiné-Bissau. Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)
Guiné > Canjadude > 1974 > O furriel miliciano enfermeiro Carvalho, da CCAÇ 5, com um guerrilheiro do PAIGC, equipado a rigor e empunhando um kalash... © João Carvalho (2006)
Guiné > Canjadude > 1974 > Posto de controlo do PAIGC, vendo-se um grupo de guerrilheiros aramados de kalash e de RPG-7. Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)1. No final do ano passado (26 de Dezembro último) fui contactado por um antigo camarada da Guiné que esteve em Canjadude (actual região do Gabu), de 1973 a 1974, na CCAÇ 5 . Convidou-me a ir ver uma foto de Canjadude na Wikipédia, a enciclopédia livre da Net, de que ele é colaborador, com um entrada sobre a Guerra do Ultramar.
2. Acabei , mais tarde (10 de Janeiro de 2006), por apresentá-lo a outro camarada, mais velho, que também esteve em Canjadude, na mesma companhia, a CCAÇ 5, mas uns anos antes (em 1968/69).
Tratava-se do José Martins, ex- furriel miliciano de transmissões, membro da nossa tertúlia, um estudioso da guerra da Guiné de quem já publicámos o relato dramático do desastre de Cheche, na sequência da retirada de Madina do Boé (1)...
Profissionalmente, o Martins é técnico de contabiliddae, trabalhando numa multinacional. Tinha-me telefonado, uns dias antes, do MARL (Mercado Abastecedor da Rgeião de Lisboa), em Loures, e tinha-se mostrado interessado em aderir à nossa tertúlia
3. Mandei a seguir a seguinte mensagem ao João Carvalho:
Vi as tuas fotos na Wikipédia e fiquei cheio de inveja... Tu és o que se pode dizer o homem certo no lugar certo.. Tu estavas lá no momento exacto (em 1974, em Canjadude) ... O sexto sentido do fotojornalista ? ... Autorizas que a gente publique algumas das tuas fotos dessa época ? Ou melhor: não queres ser tu apresentá-las, com uma legenda mais detalhada, no nosso blogue (que pode e deve também ser teu, no caso de entenderes fazer parte da nossa tertúlia)?
A propósito, já temos gente para formar um bigrupo (50/60)... Fico a aguardar uma resposta. É claro que na nossa caserna cabe sempre mais um camarada... Um abraço do Luís Graça
4. Resposta do João Caravalho, com data de 11 de Janeiro de 2006:
Olá, Luis:
Espero que não haja problema de te tratar desta forma mais que informal. Em Canjadude, fui furriel enfermeiro e neste momento sou farmacêutico.

2006 > O João Carvalho, ex-furriel miliciano enfermeiro da CCAÇ 5 (1973/74) e hoje farmacêutico
© João Carvalho (2006)
Em relação às fotos na Wikipedia, parece-me que pela legislação existente são consideradas de domínio público, ou seja, podem ser copiadas e mostradas por quem quiser e onde quiser. Portanto sintam-se à vontade para colocar no blogue as que quiserem.
Claro que quem tiver fotos que mereçam ser colocadas na Wikipedia também podem fazê-lo à vontade. Se houver alguma dificuldade ou alguma dúvida é só dizer, que eu ajudo no que me for possível.
Tenho sempre pouco tempo disponível (trabalho, trabalho...) e por isso é que ainda não entrei no blogue, mas podem contar comigo brevemente.
Este fim de semana estive a digitalizar mais 50 slides da Guiné e ainda me falta digitalizar mais algumas coisas. Tenciono colocar na Wikipedia ainda mais algumas fotos, quando conseguir arranjar tempo para isso.
(...) Permitem-me que retire informação do blogue, para a Wikipedia como por exemplo os efectivos do PAIGC ?
Até muito breve
Um abraço
João Carvalho
5. Nova mensagem do João Carvalho, aderindo à nossa tertúlia:
Como solicitado, segue em anexo uma fotografia minha tirada em 1974 na Guiné, acompanhado por um elemento do PAIGC. Será que esta foto serve como foto antiga ? Foto mais recente tenho que ir à procura. Envio logo que possível.
(...) Já acrescentei uma ligação externa (link) na Wikipedia para a página Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné (1963-1974) (em português).
(1) Vd post de José Martins, de 24 de Outubro de 2005 > Guiné 63/64 - CCLVII: A contabilidade dos mortos na operação de retirada de Madina do Boé
Vd. também post de 2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé
(2) A Wikipedia é um projecto de enciclopédia livre, a maior enciclopédia que está à disposição, sem encargos nem senhas de acesso, na Internet. Começada em 2001, a Wikipedia tem já, na sua versão inglesa, quase um milhão de artigos que são actualizados regularmente. Qualquer indivíduo pode editar esta enciclopédia, mandando artigos e documentos... É o caso do nosso camarada João Carvalho.
Guiné 63/74 - CDLXXIII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(4): os azares dos sargentos
Guiné > Guileje > 1967 > Pessoal da CART 1613 em confraternização com a população local. No período, de um ano, em que estiveram em Guilege houve duas baixas mortais entre os civis: (i) uma criança, atingida pelos estilhaços duma granada; e (ii) um adulto, por sinal irmão do régulo, muito provavelmente abatido pelas NT.© José Neto (2005)
IV parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado) (1).
O abrigo subterrâneo que nós, os sargentos, mais utilizávamos situava-se a meia dúzia de passos do coberto da messe, dado que parecia que os turras esperavam que acabássemos de jantar para abrir fogo [vd. planta do quartel de Guileje, 1966].
O acesso ao amplo salão enterrado era feito através dum pequeno poço para onde saltavam os que não tinham posto de combate definido e dali para o dito salão. A abertura era estreita e, se havia muita afluência, tornava-se necessário esperar vez para entrar, o que não deixava de provocar alguma confusão. Foi numa dessas confusões que levei com um furriel em cima do meu pé esquerdo. Andei mais de um mês com a perna engessada.
Doutra vez, nós ouvimos a orquestra a fazer o seu barulho para os lados do Mejo [a noroeste de Guileje] e as nossas transmissões entraram em acção a fazer as perguntas habituais à companhia de lá. Ao mesmo tempo eles faziam o mesmo para nós.
No reconhecimento veio a verificar-se que o ataque foi para despachar e chefe ouvir, porque os impactos eram bem visíveis num descampado a meio caminho entre as duas localidades. Não havia possibilidades de engano porque os quartéis estavam toda a noite iluminados.
Um dos ataques deu-se quando já lá se encontrava a CCAÇ 2317 que, em princípio, nos ia substituir. Nós, como é natural, transmitimos aos novatos a experiência acumulada de como safar o pêlo quando havia festivais. Só que o manual não previa a situação caricata que se passou.
Desencadeou-se a saraivada de morteiros e quando já todos estávamos recolhidos no abrigo ouvimos alguém gritar:
-Acudam-me!!! Salvem-me!!!.
Um furriel que estava mais perto da entrada do abrigo conseguiu entabular conversa com o aflito e disse-nos que era o 1º sargento da companhia nova [CCAÇ 2317]que foi apanhado na retrete quando o ataque começou e que não conseguia sair de lá.
Convém esclarecer que a latrina era daquelas em que o utilizador se põe de cócoras e defeca a poucos centímetros dos calcanhares. Para o sossegar dissemos-lhe que o cubículo estava protegido por um tecto de cibos e paredes fortes e que portanto não tivesse receio.
O homem lá se aquietou, mas no nosso espírito subsistia a dúvida de qual seria o motivo que o impedia de dar uma pequena corrida e saltar para junto de nós. Quando a coisa acabou e as luzes se reacenderam fomos encontrar o 1º Sargento Martins preso por um pé no sifão da latrina.
Ao primeiro estrondo ergueu-se e, com a atrapalhação, escorregou no serviço que estava a fazer e calçou a cagadeira. Não pudemos conter as gargalhadas, pois o senhor continuava a tentar tirar o pé e não conseguia.
Com calma, acabou por ser fácil. Bastou flectir a perna, ajoelhar-se e o calcanhar escorregou no bem lubrificado tubo do sifão.
Um dos efeitos mais aborrecidos das flagelações, a partir da altura em que eles tinham a pontaria mais afinada, era a destruição do forno da padaria. Ficávamos a pão duro, ou sem ele, uns três ou quatro dias até que se reconstruísse. Nunca foi atingido directamente, mas qualquer granada que rebentasse nas redondezas provocava o efeito de sopro suficiente para mandar com a frágil abóbada abaixo.
Durante uma das reconstruções eu estava por ali a dar os meus palpites quando o Soldado Fernandes se aproximou e me disse:
-Estes gajos não percebem nada disto.
-Então percebe você?
-Eu já da primeira vez disse que punha isso em pé e só se lhe acertassem em cima é que desabava, mas eles é que acham que são os mestres -, respondeu o Fernandes, cujos registos indicavam a profissão de estucador.
-Ora bem, então você vai dizer o que entende que se deve fazer -, ripostei.
-Assim não. O meu sargento manda-os sair daqui, eu escolho um servente e enquanto eu estiver a trabalhar, esses (os pedreiros) não põem aqui o cu. Já tentei ensiná-los, mas correram comigo. Agora também não quero que eles aprendam a técnica, está bem?
-Vamos a isso. - Concordei.
Isto foi por volta das oito da manhã e à hora do almoço estava o forno erguido. O Fernandes pediu para que lhe levassem lá a refeição, pois queria guardar a obra dos olhares dos espiões, dado que só da parte da tarde é que rebocava com barro o exterior da cúpula.
Antes do jantar a lenha já ardia dentro do novo forno e nunca mais desabou… Segredos do ofício.
Para concluir a descrição desta faceta da luta, as flagelações, resta-me acrescentar que durante o ano que estivemos em Guilege tivemos duas baixas mortais: uma criança, atingida pelos estilhaços duma granada; e um adulto, irmão do Régulo que, possivelmente, foi atingido pelo nosso fogo.
Na investigação que foi feita, em que tomou parte o próprio irmão, conclui-se que ele, a vítima, devia estar no espigueiro, fora do perímetro fortificado, quando estalou o ataque e, ao querer saltar o talude, foi baleado por um dos elementos da Autometralhadora Fox que guarnecia aquele flanco.
Entre o pessoal militar e militarizado (os milícias) fui eu o mais castigado pelas flagelações, pois, como já referi, andei uns tempos com a perna engessada.
(Continua)
_______
Nota de L.G.
(1) Vd posts anteriores do Zé Neto, respeitantes às suas Memórias de Guileje:
21 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (3): Dauda, o Viegas
13 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXLVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (2): Ordem de marcha
10 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (1): Prelúdio(s)
Guiné 63/74 - CDLXXIII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(4): os azares dos sargentos
Guiné > Guileje > 1967 > Pessoal da CART 1613 em confraternização com a população local. No período, de um ano, em que estiveram em Guilege houve duas baixas mortais entre os civis: (i) uma criança, atingida pelos estilhaços duma granada; e (ii) um adulto, por sinal irmão do régulo, muito provavelmente abatido pelas NT.© José Neto (2005)
IV parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado) (1).
O abrigo subterrâneo que nós, os sargentos, mais utilizávamos situava-se a meia dúzia de passos do coberto da messe, dado que parecia que os turras esperavam que acabássemos de jantar para abrir fogo [vd. planta do quartel de Guileje, 1966].
O acesso ao amplo salão enterrado era feito através dum pequeno poço para onde saltavam os que não tinham posto de combate definido e dali para o dito salão. A abertura era estreita e, se havia muita afluência, tornava-se necessário esperar vez para entrar, o que não deixava de provocar alguma confusão. Foi numa dessas confusões que levei com um furriel em cima do meu pé esquerdo. Andei mais de um mês com a perna engessada.
Doutra vez, nós ouvimos a orquestra a fazer o seu barulho para os lados do Mejo [a noroeste de Guileje] e as nossas transmissões entraram em acção a fazer as perguntas habituais à companhia de lá. Ao mesmo tempo eles faziam o mesmo para nós.
No reconhecimento veio a verificar-se que o ataque foi para despachar e chefe ouvir, porque os impactos eram bem visíveis num descampado a meio caminho entre as duas localidades. Não havia possibilidades de engano porque os quartéis estavam toda a noite iluminados.
Um dos ataques deu-se quando já lá se encontrava a CCAÇ 2317 que, em princípio, nos ia substituir. Nós, como é natural, transmitimos aos novatos a experiência acumulada de como safar o pêlo quando havia festivais. Só que o manual não previa a situação caricata que se passou.
Desencadeou-se a saraivada de morteiros e quando já todos estávamos recolhidos no abrigo ouvimos alguém gritar:
-Acudam-me!!! Salvem-me!!!.
Um furriel que estava mais perto da entrada do abrigo conseguiu entabular conversa com o aflito e disse-nos que era o 1º sargento da companhia nova [CCAÇ 2317]que foi apanhado na retrete quando o ataque começou e que não conseguia sair de lá.
Convém esclarecer que a latrina era daquelas em que o utilizador se põe de cócoras e defeca a poucos centímetros dos calcanhares. Para o sossegar dissemos-lhe que o cubículo estava protegido por um tecto de cibos e paredes fortes e que portanto não tivesse receio.
O homem lá se aquietou, mas no nosso espírito subsistia a dúvida de qual seria o motivo que o impedia de dar uma pequena corrida e saltar para junto de nós. Quando a coisa acabou e as luzes se reacenderam fomos encontrar o 1º Sargento Martins preso por um pé no sifão da latrina.
Ao primeiro estrondo ergueu-se e, com a atrapalhação, escorregou no serviço que estava a fazer e calçou a cagadeira. Não pudemos conter as gargalhadas, pois o senhor continuava a tentar tirar o pé e não conseguia.
Com calma, acabou por ser fácil. Bastou flectir a perna, ajoelhar-se e o calcanhar escorregou no bem lubrificado tubo do sifão.
Um dos efeitos mais aborrecidos das flagelações, a partir da altura em que eles tinham a pontaria mais afinada, era a destruição do forno da padaria. Ficávamos a pão duro, ou sem ele, uns três ou quatro dias até que se reconstruísse. Nunca foi atingido directamente, mas qualquer granada que rebentasse nas redondezas provocava o efeito de sopro suficiente para mandar com a frágil abóbada abaixo.
Durante uma das reconstruções eu estava por ali a dar os meus palpites quando o Soldado Fernandes se aproximou e me disse:
-Estes gajos não percebem nada disto.
-Então percebe você?
-Eu já da primeira vez disse que punha isso em pé e só se lhe acertassem em cima é que desabava, mas eles é que acham que são os mestres -, respondeu o Fernandes, cujos registos indicavam a profissão de estucador.
-Ora bem, então você vai dizer o que entende que se deve fazer -, ripostei.
-Assim não. O meu sargento manda-os sair daqui, eu escolho um servente e enquanto eu estiver a trabalhar, esses (os pedreiros) não põem aqui o cu. Já tentei ensiná-los, mas correram comigo. Agora também não quero que eles aprendam a técnica, está bem?
-Vamos a isso. - Concordei.
Isto foi por volta das oito da manhã e à hora do almoço estava o forno erguido. O Fernandes pediu para que lhe levassem lá a refeição, pois queria guardar a obra dos olhares dos espiões, dado que só da parte da tarde é que rebocava com barro o exterior da cúpula.
Antes do jantar a lenha já ardia dentro do novo forno e nunca mais desabou… Segredos do ofício.
Para concluir a descrição desta faceta da luta, as flagelações, resta-me acrescentar que durante o ano que estivemos em Guilege tivemos duas baixas mortais: uma criança, atingida pelos estilhaços duma granada; e um adulto, irmão do Régulo que, possivelmente, foi atingido pelo nosso fogo.
Na investigação que foi feita, em que tomou parte o próprio irmão, conclui-se que ele, a vítima, devia estar no espigueiro, fora do perímetro fortificado, quando estalou o ataque e, ao querer saltar o talude, foi baleado por um dos elementos da Autometralhadora Fox que guarnecia aquele flanco.
Entre o pessoal militar e militarizado (os milícias) fui eu o mais castigado pelas flagelações, pois, como já referi, andei uns tempos com a perna engessada.
(Continua)
_______
Nota de L.G.
(1) Vd posts anteriores do Zé Neto, respeitantes às suas Memórias de Guileje:
21 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (3): Dauda, o Viegas
13 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXLVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (2): Ordem de marcha
10 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (1): Prelúdio(s)
22 janeiro 2006
Guiné 63/74 - CDLXXII: Panghiau, iá´me pétchau ? (Mário Dias / Zé Neto)
Guiné > Guileje > O sargento José Neto (CART 1613, 1967/68) © José Neto (2006)
Luis:
Cheguei há pouco de Leiria, onde recolhi as fotos digitalizadas a partir dos
meus slides. Já tenho uma cópia do CD para te enviar pelo correio, como
prometi. E lá encontrei a "carranca do Zé Neto" quando estava em Guileje que
agora te envio para o ficheiro.
Permite que mande um aparte para o Mário Dias:
Meu valente, gostei de saber que partilhas comigo a "grata" memória de Macau. Tenho muitas crónicas sobre a minha vivência lá (1951/61), publicadas na página 3 (a minha página) do Boletim da Casa de Macau, de que sou sócio.
Misturaste o crioulo (em Macau é muito semelhante e chama-se patuá) com o cantonense e os nossos companheiros do blogue não entenderam o teu convite. Para conhecimento geral informo que iá'me petchau ? é um convite para "beber uma cerveja" e panguiau é uma aproximação fonética do termo cantonense que designa "amigo", maneira como tratávamos e éramos tratados pelos chineses. Mas isso são outras histórias.
Um abraço. Outro para ti, Luis e até breve.
Zé Neto
Guiné 63/74 - CDLXXII: Panghiau, iá´me pétchau ? (Mário Dias / Zé Neto)
Guiné > Guileje > O sargento José Neto (CART 1613, 1967/68) © José Neto (2006)
Luis:
Cheguei há pouco de Leiria, onde recolhi as fotos digitalizadas a partir dos
meus slides. Já tenho uma cópia do CD para te enviar pelo correio, como
prometi. E lá encontrei a "carranca do Zé Neto" quando estava em Guileje que
agora te envio para o ficheiro.
Permite que mande um aparte para o Mário Dias:
Meu valente, gostei de saber que partilhas comigo a "grata" memória de Macau. Tenho muitas crónicas sobre a minha vivência lá (1951/61), publicadas na página 3 (a minha página) do Boletim da Casa de Macau, de que sou sócio.
Misturaste o crioulo (em Macau é muito semelhante e chama-se patuá) com o cantonense e os nossos companheiros do blogue não entenderam o teu convite. Para conhecimento geral informo que iá'me petchau ? é um convite para "beber uma cerveja" e panguiau é uma aproximação fonética do termo cantonense que designa "amigo", maneira como tratávamos e éramos tratados pelos chineses. Mas isso são outras histórias.
Um abraço. Outro para ti, Luis e até breve.
Zé Neto
Guiné 63/74 - CDLXXI: Quando até os picadores tinham medo (Mansambo, 1968)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 >Espectacular vista aérea do aquartelamento, tirada no sentido leste-oeste. Do lado esquerdo, para oeste, era a pista de aviação e o cruzamento das estradas para Nhabijões (a oeste), o Xime (a sudoeste) e Mansambo e Xitole (a sudeste).
De acordo com a fotografia, em frente, pode ver-se o conjunto de edifícios em U: constituía o complexo do comando do batalhão e as instalações de oficiais e sargentos.
Do lado direito, ao fundo, a menos de um quilómetro corria o Rio Geba, o chamado Geba Estreito, entre o Xime e Bafatá. O aquartelamento de Bamdainca situava-se numa pequena elevação de terreno, sobranceira a uma extensa bolanha (a leste). São visíveis as valas de protecção, abertas ao longo do perímetro do aquartelamento.
Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)© Humberto Reis (2006)
Texto de L.G.:
A Op Hálito (11 de Novembro de 1968) foi outra das operações dramáticas que aconteceram no Sector L1, no tempo do Carlos Marques dos Santos, ex-furriel miliciano da CART 2339 (Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69).
Foi a última coluna logística de Bambadinca para o Xitole, entre Novembro de 1968 e Agosto de 1969. A partir daí a estrada, no troço Mansambo-Xitole, ficou interdita. As NT sofreram duas emboscadas, tendo que recorrer a apoio aéreo para poder prosseguir. Os picadores foram obrigados, sob a força das armas, a continuar a picar o itinerário: "Cerca das 16.00h foi feita uma distribuição de munições e obrigaram-se coercivamente os picadores a continuarem a picagem"... Destas duas emboscadas resultaram 1 morto, 1 desaparecido e 12 feridos, além de danos materiais em viaturas e armas.
Eis um extracto da História do BCAÇ 2852 (Guiné, 1968/70), Cap II, páginas 8-12.
Op Hálito:
Iniciada em 11 de Novembro de 1968, às 5.00h, com a duração de 2 dias, para coluna de reabastecimento Bambadinca-Xitole. Tomaram parte na Operação as seguintes forças:
Cmd – Cmdt BCAÇ 2852 (Tenente-coronel Pimentel Bastos)
Dest A – CART 2339 [Mansambo], a 3 Gr Comb; CART 1746 [Xime], a 2 Gr Comb:
Dest B – CART 2413 [Xitole], a 2 Gr Comb; Pel Caç Nat 53 [Bambadinca]; 1 Gr Comb Ref Cmd Agr 1980; Esq Pel AM Daimler 2046 [Bambadinca]; 1 Esq Pel Mort 1192 [Bambadinca]; 1 Secção de Milícia do Pel Mil nº 103 [Moricanhe].
Destacamento A
A coluna 1 do Dest A chegou a Mansambo às 18.00h do dia 10 de Novembro de 1968. A coluna 3 do Dest A saiu de Mansambo às 5.00h do dia 11 em direcção ao objectivo, picando a estrada e fazendo marcha apeada todo o pessoal.
Às 7.30h um dos grupos de combate da CART 2339 ficou emboscado no trilho dos turras (XIME 7B5).
Às 8.00h iniciou a desobstrução do itinerário retirando as abatizes situadas aproximadamente a 3Kms da Ponte dos Fulas.
Às 9.00h a coluna atingiu o objectivo montando a segurança para a cambança, ficando a aguardar a chegada da coluna 2.
Foi explorado um trilho, com vestígios da passagem frequentes e recorrentes (?) que atravessa a estrada e se situa na orla da mata que fica perto da Ponte dos Fulas.
Às 9.15h todo o dispositivo de segurança e preparativos para a cambança [do Rio Pulom] estavam montados.
A coluna nº 2 saiu de Bambadinca às 4.30h. Depois de picar a estrada até Mansambo, seguiu para o objectivo onde chegou às 9.30h.
Destacamento B
Entretanto comunicou da margem oposta [do Rio Pulom] que deviam aguardar até serem rebentadas algumas minas encontradas nos seus acessos.
A cambanca foi iniciada às 10.30h, tendo sido utilizados 4 barcos de borracha e uma jangada, estando a cambança terminada às 13.30h. Os rádios CHP-1 e THC - 736 deixaram de funcionar.
Às 14.00h a coluna iniciou a retirada, tendo a cerca de 2 Kms da Ponte dos Fulas (XIME 7C-2) sido emboscada do lado Oeste por grupo IN estimado em 40/50 elementos. Esta emboscada foi iniciada pelo accionamemto de uma mina A/C comandada e simultaneamente pelo lançamento de granadas de Mort e LGFog, tendo dois destes últimos atingido duas viaturas GMC, uma das quais ficando imobilizada.
A emboscada foi feita no princípio do regresso da coluna tendo a ela ficado sujeitos o Pel Caç Nat 53 e 2 Gr Comb da CART 2339, durante cerca da 30 minutos, tendo as NT reagido pelo fogo e manobra.
Tratados os feridos, apagado um foco de incêndio manifestado numa das viaturas atingidas, atrelada a que ficara imobilizada, [foi depois] procurado na ausência do PCV contacto com qualquer um dos postos fixos de Bambadinca, Mansambo e Xitole, [tendo-se] conseguido a ligação com este último, por onde foi feito o pedido de apoio de fogo da aviação de Bambadinca – Agrupamento.
Iniciada a marcha com todo o pessoal apeado, pouco tempo depois nova emboscada IN do mesmo lado da estrada e com os mesmos efectivos e armamento (Mort 60, Met Lig e Armas Aut).
Quando decorria a segunda emboscada, apareceram no local dois bombardeiros T-6 que acompanharam a progressão da coluna até ao pontão do Rio Jagarajá (XIME 7A7), foi estabelecido contacto com o PCV.
Cerca das 16.00h foi feita uma distribuição de munições e obrigaram-se coercivamente (sic) os picadores a continuarem a picagem. Prosseguiu-se a marcha recolhendo o Gr de Comb, que estava emboscada no trilho dos turras.
A coluna chegou a Mansambo cerca das 19.00h, tendo às 19.30h seguido para Bambadinca com todos os feridos.
Por falta de ligação meios-rádio não foi utilizado no patrulhamento da estrada o Pelotão do Comando do Agrupamento, o que motivou um esforço maior para as forças apeadas (1).
____________
Nota de L.G.:
(1) As NT sofreram 1 morto (soldado milícia do Pel Mil nº 103, Mamadu Silá, morto em combate; 1 desaparecido em combate (Sold Mil do Pel Mil nº 103, Togane Embaló; 12 feridos, sendo 5 da CART 2339, 4 do Pel CAÇ Nat 53, 2 da CCS do BCAÇ 2852 e 1 do Pel Mil nº 103).
Guiné 63/74 - CDLXXI: Quando até os picadores tinham medo (Mansambo, 1968)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 >Espectacular vista aérea do aquartelamento, tirada no sentido leste-oeste. Do lado esquerdo, para oeste, era a pista de aviação e o cruzamento das estradas para Nhabijões (a oeste), o Xime (a sudoeste) e Mansambo e Xitole (a sudeste).
De acordo com a fotografia, em frente, pode ver-se o conjunto de edifícios em U: constituía o complexo do comando do batalhão e as instalações de oficiais e sargentos.
Do lado direito, ao fundo, a menos de um quilómetro corria o Rio Geba, o chamado Geba Estreito, entre o Xime e Bafatá. O aquartelamento de Bamdainca situava-se numa pequena elevação de terreno, sobranceira a uma extensa bolanha (a leste). São visíveis as valas de protecção, abertas ao longo do perímetro do aquartelamento.
Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)© Humberto Reis (2006)
Texto de L.G.:
A Op Hálito (11 de Novembro de 1968) foi outra das operações dramáticas que aconteceram no Sector L1, no tempo do Carlos Marques dos Santos, ex-furriel miliciano da CART 2339 (Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69).
Foi a última coluna logística de Bambadinca para o Xitole, entre Novembro de 1968 e Agosto de 1969. A partir daí a estrada, no troço Mansambo-Xitole, ficou interdita. As NT sofreram duas emboscadas, tendo que recorrer a apoio aéreo para poder prosseguir. Os picadores foram obrigados, sob a força das armas, a continuar a picar o itinerário: "Cerca das 16.00h foi feita uma distribuição de munições e obrigaram-se coercivamente os picadores a continuarem a picagem"... Destas duas emboscadas resultaram 1 morto, 1 desaparecido e 12 feridos, além de danos materiais em viaturas e armas.
Eis um extracto da História do BCAÇ 2852 (Guiné, 1968/70), Cap II, páginas 8-12.
Op Hálito:
Iniciada em 11 de Novembro de 1968, às 5.00h, com a duração de 2 dias, para coluna de reabastecimento Bambadinca-Xitole. Tomaram parte na Operação as seguintes forças:
Cmd – Cmdt BCAÇ 2852 (Tenente-coronel Pimentel Bastos)
Dest A – CART 2339 [Mansambo], a 3 Gr Comb; CART 1746 [Xime], a 2 Gr Comb:
Dest B – CART 2413 [Xitole], a 2 Gr Comb; Pel Caç Nat 53 [Bambadinca]; 1 Gr Comb Ref Cmd Agr 1980; Esq Pel AM Daimler 2046 [Bambadinca]; 1 Esq Pel Mort 1192 [Bambadinca]; 1 Secção de Milícia do Pel Mil nº 103 [Moricanhe].
Destacamento A
A coluna 1 do Dest A chegou a Mansambo às 18.00h do dia 10 de Novembro de 1968. A coluna 3 do Dest A saiu de Mansambo às 5.00h do dia 11 em direcção ao objectivo, picando a estrada e fazendo marcha apeada todo o pessoal.
Às 7.30h um dos grupos de combate da CART 2339 ficou emboscado no trilho dos turras (XIME 7B5).
Às 8.00h iniciou a desobstrução do itinerário retirando as abatizes situadas aproximadamente a 3Kms da Ponte dos Fulas.
Às 9.00h a coluna atingiu o objectivo montando a segurança para a cambança, ficando a aguardar a chegada da coluna 2.
Foi explorado um trilho, com vestígios da passagem frequentes e recorrentes (?) que atravessa a estrada e se situa na orla da mata que fica perto da Ponte dos Fulas.
Às 9.15h todo o dispositivo de segurança e preparativos para a cambança [do Rio Pulom] estavam montados.
A coluna nº 2 saiu de Bambadinca às 4.30h. Depois de picar a estrada até Mansambo, seguiu para o objectivo onde chegou às 9.30h.
Destacamento B
Entretanto comunicou da margem oposta [do Rio Pulom] que deviam aguardar até serem rebentadas algumas minas encontradas nos seus acessos.
A cambanca foi iniciada às 10.30h, tendo sido utilizados 4 barcos de borracha e uma jangada, estando a cambança terminada às 13.30h. Os rádios CHP-1 e THC - 736 deixaram de funcionar.
Às 14.00h a coluna iniciou a retirada, tendo a cerca de 2 Kms da Ponte dos Fulas (XIME 7C-2) sido emboscada do lado Oeste por grupo IN estimado em 40/50 elementos. Esta emboscada foi iniciada pelo accionamemto de uma mina A/C comandada e simultaneamente pelo lançamento de granadas de Mort e LGFog, tendo dois destes últimos atingido duas viaturas GMC, uma das quais ficando imobilizada.
A emboscada foi feita no princípio do regresso da coluna tendo a ela ficado sujeitos o Pel Caç Nat 53 e 2 Gr Comb da CART 2339, durante cerca da 30 minutos, tendo as NT reagido pelo fogo e manobra.
Tratados os feridos, apagado um foco de incêndio manifestado numa das viaturas atingidas, atrelada a que ficara imobilizada, [foi depois] procurado na ausência do PCV contacto com qualquer um dos postos fixos de Bambadinca, Mansambo e Xitole, [tendo-se] conseguido a ligação com este último, por onde foi feito o pedido de apoio de fogo da aviação de Bambadinca – Agrupamento.
Iniciada a marcha com todo o pessoal apeado, pouco tempo depois nova emboscada IN do mesmo lado da estrada e com os mesmos efectivos e armamento (Mort 60, Met Lig e Armas Aut).
Quando decorria a segunda emboscada, apareceram no local dois bombardeiros T-6 que acompanharam a progressão da coluna até ao pontão do Rio Jagarajá (XIME 7A7), foi estabelecido contacto com o PCV.
Cerca das 16.00h foi feita uma distribuição de munições e obrigaram-se coercivamente (sic) os picadores a continuarem a picagem. Prosseguiu-se a marcha recolhendo o Gr de Comb, que estava emboscada no trilho dos turras.
A coluna chegou a Mansambo cerca das 19.00h, tendo às 19.30h seguido para Bambadinca com todos os feridos.
Por falta de ligação meios-rádio não foi utilizado no patrulhamento da estrada o Pelotão do Comando do Agrupamento, o que motivou um esforço maior para as forças apeadas (1).
____________
Nota de L.G.:
(1) As NT sofreram 1 morto (soldado milícia do Pel Mil nº 103, Mamadu Silá, morto em combate; 1 desaparecido em combate (Sold Mil do Pel Mil nº 103, Togane Embaló; 12 feridos, sendo 5 da CART 2339, 4 do Pel CAÇ Nat 53, 2 da CCS do BCAÇ 2852 e 1 do Pel Mil nº 103).
Guiné 63/74 - CDLXX: Mais de 7 mil nativos em trabalhos de desmatação (Mansambo, 1969)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Mansambo > 1970 > Espectacular vista aérea do aquartelamento. Ao fundo a estrada Bambadinca-Xitole. Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
Na sequência do texto do Carlos Marques dos Santos, publicado anteriormente, fui consultar a história do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/69). Aí pode ler-se:
(i) a Op Cabeça Rapada I, iniciada em 26 de Março de 1969, com a duração de dois dias, destinou-se a "montar segurança aos trabalhos de desmatação numa área de 200 metros para cada lado do troço do itinerário Bambadinca-Mansambo, compreendido entre Samba Juli e Mansambo. Tomaram parte na desmatação mais de 7 mil nativos" (sic) (Cap. II, pag. 72).
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Mansambo-Xitole > 1970 > Coluna logística de Bambadinca ao Xitole, com a participação da CCAÇ 12. Alguns meses depois da grande desmatação das orlas da estrada, feitas por ocasião das Op Cabeça Rapada, o matagal continuava medonho, engolino a picada... Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
Comentário meu: é um número impressionante de trabalhadores que, presumo, deveriam ser de etnia fula, naturais dos regulados de Badora (e eventualmente do Corubal). Desconheço se foram recrutados voluntariamente e devidamente pagos... A tradição da administração colonial, antes de Spínola, era a do trabalho forçado, puro e duro...
Recorde-se que, segundo a História do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/69), "a população de um modo geral é-nos favorável [no sector L1], sendo de destacar o regulado de Badora que tem como Chefe/Régulo um homem de valor e considerado pela população como um Deus (sic). Esse homem é o Tenente Mamadu, já conhecido no meio militar pelos seus feitos valorosos e dignos de exemplo. Da outra população [balantas, beafadas e mandingas...] fortes dúvidas se tem especialmente as dos Nhabijões, Xime e Mero" (Cap. II, pag. 1).
Conheci o tenente de 2ª classe, régulo e chefe máximo das milícias de Badora, Mamadu, de quem se dizia ter cinquenta mulheres, uma em cada tabanca, e uma numerosa prole. Alguns dos seus filhos, dizia-se, eram meus/nossos soldados, da CCAÇ 12. Pessoalmente, nunca simpatisei com a personagem, que era um exemplo típico - segundo o meu ponto de vista da época - do colaboraccionismo dos velhos senhores feudais, fulas, com a potência colonial, vencedora, e que eu vi passar muitas vezes, em Bambadinca e nas tabancas em autodefesa de Badora, fardado, de camuflado, ou com a sua impecável túnica branca de homem grande, na motorizada japonesa de 50 centímetros cúbicos provavelmente oferecida pelo Govenador-Geral e Com-Chefe.
O apontamento do escriba castrense da BCCAÇ 2852 é manifestamente exagerado: acho que o Tenente Mamadu era respeitado e sobretudo temido pelos seus súbditos, mas é manifestamente grosseiro, etnocênctrico e até ofensivo dizer que a população, islamizada, o "considerava como um Deus"...
(ii) a Op Cabeça Rapada II, com início a 9 de Abril, às 00.00h, destinou-se a grantir a segurança e apoio logístico dos trabalhos de desmatação "a cargo da Administração do Concelho de Bafatá" (sic), no itinerário Mansambo-Ponte dos Fulas. Dessa vez o número de nativos foi de 2150 (Cap II, pag. 76);
(iii) certamente por lapso não há referência, na História do BCAÇ 2852, à Op Cabeça Rapada III;
(iv) a Op Cabeça Rapada IV, a 3 de Maio de 1969, destinou-se a garantir a segurança dos trabalhos de desmatação do itinerário Bambadinca-Xime (Cap. II, pag. 81).
Guiné 63/74 - CDLXX: Mais de 7 mil nativos em trabalhos de desmatação (Mansambo, 1969)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Mansambo > 1970 > Espectacular vista aérea do aquartelamento. Ao fundo a estrada Bambadinca-Xitole. Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
Na sequência do texto do Carlos Marques dos Santos, publicado anteriormente, fui consultar a história do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/69). Aí pode ler-se:
(i) a Op Cabeça Rapada I, iniciada em 26 de Março de 1969, com a duração de dois dias, destinou-se a "montar segurança aos trabalhos de desmatação numa área de 200 metros para cada lado do troço do itinerário Bambadinca-Mansambo, compreendido entre Samba Juli e Mansambo. Tomaram parte na desmatação mais de 7 mil nativos" (sic) (Cap. II, pag. 72).
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Mansambo-Xitole > 1970 > Coluna logística de Bambadinca ao Xitole, com a participação da CCAÇ 12. Alguns meses depois da grande desmatação das orlas da estrada, feitas por ocasião das Op Cabeça Rapada, o matagal continuava medonho, engolino a picada... Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
Comentário meu: é um número impressionante de trabalhadores que, presumo, deveriam ser de etnia fula, naturais dos regulados de Badora (e eventualmente do Corubal). Desconheço se foram recrutados voluntariamente e devidamente pagos... A tradição da administração colonial, antes de Spínola, era a do trabalho forçado, puro e duro...
Recorde-se que, segundo a História do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/69), "a população de um modo geral é-nos favorável [no sector L1], sendo de destacar o regulado de Badora que tem como Chefe/Régulo um homem de valor e considerado pela população como um Deus (sic). Esse homem é o Tenente Mamadu, já conhecido no meio militar pelos seus feitos valorosos e dignos de exemplo. Da outra população [balantas, beafadas e mandingas...] fortes dúvidas se tem especialmente as dos Nhabijões, Xime e Mero" (Cap. II, pag. 1).
Conheci o tenente de 2ª classe, régulo e chefe máximo das milícias de Badora, Mamadu, de quem se dizia ter cinquenta mulheres, uma em cada tabanca, e uma numerosa prole. Alguns dos seus filhos, dizia-se, eram meus/nossos soldados, da CCAÇ 12. Pessoalmente, nunca simpatisei com a personagem, que era um exemplo típico - segundo o meu ponto de vista da época - do colaboraccionismo dos velhos senhores feudais, fulas, com a potência colonial, vencedora, e que eu vi passar muitas vezes, em Bambadinca e nas tabancas em autodefesa de Badora, fardado, de camuflado, ou com a sua impecável túnica branca de homem grande, na motorizada japonesa de 50 centímetros cúbicos provavelmente oferecida pelo Govenador-Geral e Com-Chefe.
O apontamento do escriba castrense da BCCAÇ 2852 é manifestamente exagerado: acho que o Tenente Mamadu era respeitado e sobretudo temido pelos seus súbditos, mas é manifestamente grosseiro, etnocênctrico e até ofensivo dizer que a população, islamizada, o "considerava como um Deus"...
(ii) a Op Cabeça Rapada II, com início a 9 de Abril, às 00.00h, destinou-se a grantir a segurança e apoio logístico dos trabalhos de desmatação "a cargo da Administração do Concelho de Bafatá" (sic), no itinerário Mansambo-Ponte dos Fulas. Dessa vez o número de nativos foi de 2150 (Cap II, pag. 76);
(iii) certamente por lapso não há referência, na História do BCAÇ 2852, à Op Cabeça Rapada III;
(iv) a Op Cabeça Rapada IV, a 3 de Maio de 1969, destinou-se a garantir a segurança dos trabalhos de desmatação do itinerário Bambadinca-Xime (Cap. II, pag. 81).
Guiné 63/74 - CDLXIX: Estrada Mansambo-Bambadinca (Op Cabeças Rapadas, 1969)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Bambadinca - Mansambo > A espingarda, a enxada, a pá, a picareta, a maceta... © Carlos Marques dos Santos (2006)Texto de Carlos Marques dos Santos (ex-furriel miliciano da CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69)
Cabeças Rapadas
Prenúncio da abertura definitiva da estrada Bambadinca/ Xitole, intransitável desde Novembro de 1968 a 4 de Agosto de 1969 (Op Belo Dia) (1)
Haverá concerteza alguns dos tertulianos que estiveram envolvidos nesta série de operações (?). Então relembrem:
Nós, CART 2339, especialmente na segundo Operação [Op Cabeça Rapada II], vibrámos com o movimento. Espantoso. Caldeirões de arroz (meio bidão de gasóleo, em fogueiras espalhadas pelo aquartelamento, movimento de viaturas e homens, um barulho ensurdecedor, homens deitados por tudo o que era sítio, em suma uma anarquia bem controlada).
Passemos à exposição dos factos:
Op Cabeça Rapada I
Em 25 de Março de 1969, uma semana depois da Op Lança Afiada (2), inicia-se a primeira Op Cabeça Rapada, com a duração de 2 dias, no itinerário Bambadinca/Mansambo.
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Mobilização de milhares de nativos para os trabalhos de desmatação das orlas da floresta na estrada Bambadinca-Xitole ... © Carlos Marques dos Santos (2006)Picagens, seguranças de flanco, etc. Trabalhos de nativos em desmatação das bermas da estrada. Estava dado o pontapé de saída, para maior segurança nas deslocações na estrada Bambadinca/ Xitole. Mas, do nosso ponto de vista, maior exposição à observação IN.
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Bambadinca - Mansambo > As catanas a funcionar... © Carlos Marques dos Santos (2006)
Só o meu cão, Xime de nome, porque o herdei da anterior Companhia aí aquartelada, era capaz de fazer a segurança completa. À nossa frente na picada, farejando, entrando e saindo da mata, flanqueando em zig-zag, detectando minas, dormindo quando eu estava de olhos abertos, de olhos, nariz e orelhas atentas quando eu dormia. Um verdadeiro guerrilheiro responsável das suas missões. Não me lembro se ficou em Mansambo, se o levei de volta ao Xime, quando regressei. Dias sem incidentes.
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Bambadinca - Mansambo > Aspecto do trabalho de desmatação... © Carlos Marques dos Santos (2006)
Em 5 de Abril inicia-se o aperfeiçoamento na desmatação do itinerário Bambadinca/ Mansambo, o mesmo acontecendo nos dias seguintes, 6, 7 e 8 de Abril, sempre das 6.00h às 17.00h (nota jocosa: em horário de expediente).
Op Cabeça Rapada II
Em 9 de Abril, às 5.40h, inicia-se com a duração de 3 dias a Op Cabeça Rapada II, no itinerário Mansambo/ Ponte dos Fulas.
Efectivos:
CART 2339 [Mansambo], a 3 Gr Comb;
CART 2856 [ a 2 Gr Comb] (3)
CCAÇ 2405 [Galomaro], a 3 Gr Comb;
CART 1746 [ Xime], a 2 Gr Comb;
CART 2413 [Xitole], a 2 Gr Comb;
CCAÇ 2406 [Saltinho], , a 2 Gr Comb;
3.º e 4.º Pel CCAÇ 2314 [Bambadinca];
Pel AM Daimler 2046 [Bambadinca];
Pel Erec 2350 [Bafatá] (4);
Pel Caç Nat 63 [na altura, sediado em Bambadinca, mais tarde - Julho de 1969 - transferido para Fá Mandinga, sendo a partir de então comandado pleo nosso tertulaino Jorge Cabral]:
8.º Pel BAC [Mansambo] (5);
Esq Mort. 10,7 [Xitole],
Pel Sap BCAÇ 2852 [Bmabadinca].
Foi efectuada a picagem e estacionamentos laterais, para segurança, no sentido Mansambo/Ponte Fulas, antes e durante os trabalhos.
Foram detectadas 2 minas A/P e uma A/C, mas sem incidentes. Estas minas [fazim parte de um vcampo de minas] que não foram concerteza detectadas na passagem e regresso da Operação que feriu o Mamadu Indjai e foi capturado o Malan Mané e que foi efectuada com os Paras (6).
O trabalhos envolveram 2150 trabalhadores nativos, que dormiram e comeram em Mansambo, tendo a segurança ficado montada de noite no itinerário.
Em 10 de Abril de 1969 retomam a actividade, pela manhã, tendo os trabalhadores sido recolhidos em Mansambo ao final do dia, regressando ao seus destinos.
Às 18.00h, desse dia, os vários destacamentos militares regressam a Mansambo e aguardam a sua vez de regressar aos quartéis, sem incidentes, com muitos vestígios.
Op Cabeça Rapada III
Em 30 de Abril, inicia-se a Op Cabeça Rapada III com duração de 3 dias no itinerário Mansambo/Galomaro, com 2100 trabalhadores nativos.
Há picagens e segurança no sentido Candamã/ Mansambo/ Candamã. Em 1 de Maio reiniciam-se os trabalhos.
Em 2 de Maio, às 6.40h há uma emboscada IN no pontão do Rio Almani, iniciada com rebentamento de uma mina A/CC comandada. A emboscada, de cerca de 15 minutos, foi dirigida a uma secção da Milícia 145 (Moricanhe) que se dirigia a Mansambo e à frente de um Gr de Comb da CCAÇ 2405 que se dirigia para Bambadinca. As NT reagiram pelo fogo e foi batida a zona com Obus 10,5 e Mort 81 (a partir de Mansambo) causando 5 mortos e 3 feridos, confirmados, ao IN (7).
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Bambadinca - Mansambo > Montando a segurança às brigadas de trabalhadores... © Carlos Marques dos Santos (2006)
A Secção de Milícia teve 2 mortos e 3 feridos. Foi a primeira acção deste género na estrada Mansambo/ Bambadinca
No dia seguinte, a 3 de Maio, a CART 2339 estava envolvida em nova operação, a Op Espada Grande, iniciada às 00.00h e terminada - para a CART 2339 - às 8.00h do dia 4 (Galo Corubal e Satecuta) (8).
Não havia tempo para descansar. As acções de segurança e combate iriam prosseguir.
___________________
Notas de LG ou de CMS
(1) Vd. post de 20 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXII: O inferno das colunas logísticas na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho. Há um erro (factual) no primeiro parágrafo, que já não se pode corrigir, no roginal, mas que aqui fica:
"Desde Novembro de 1968 que o itinerário Mansambo-Xitole estava interdito. Nessa altura, uma coluna logística do BCAÇ 2852, no regresso a Bambadinca, sofrera duas emboscadas (uma das quais, a primeira, com mina comandada), a cerca de 2km da Ponte dos Fulas, na zona de acção da unidade de quadrícula aquartelada no Xitole [não era ainda CART 2413, mas sim a CART 2339]. A coluna prosseguiu com apoio aéreo.
"Nove meses depois, fez-se a abertura desse itinerário, mais exactamente a 4 de Agosto de 1969. Na Op Belo Dia, participou o 2º Gr Comb da CCAÇ 12 com forças da CART 2339 (Mansambo), formando o Destacamento A (...)" (LG).
(2) Vd posts de:
14 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIX: Op Lança Afiada (IV): O soldado Spínola na margem direita do Rio Corubal
9 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIII: Op Lança Afiada (1969): (iii) O 'tigre de papel' da mata do Fiofioli
9 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXI: Op Lança Afiada (1969) : (ii) Pior do que o IN, só a sede e as abelhas
15 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLIII:Op Lança Afiada (1969): (i) À procura do hospital dos cubanos na mata do Fiofioli
(3) Julgo que é lapso do CMS. Deve ser CCS do BCAÇ 2856, sediada em Bafatá, a companhia e o batalhão do nosso tertuliano Jorge Tavares: vd. post de 31 de dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDVIII: A doce nostalgia de Bafatá (BCAÇ 2856, 1968/70) (LG).
(4) Esquadraão de Reconhecimento de Cavalaria, sediado em Bafatá: vd. post de 28 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXIX: Um ataque a Sare Ganá (1968) (LG)
(5) Pelotão Artilharia BAC 1, de Mansambo, obus 10.5. Em nota de rodapé deixo ficar aqui a informação de que em Mansambo, em Dezembro de 1969, quando regressámos à Metrópole, existiam 2 obuses 10.5 (105 mm), pelo que a informação de que haveria obuses 14 ou 10.7 (que já li algures no blogue), me parece errada (CMS).
(6) Vd. posts de:
6 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXV: A Op Nada Consta vista pelo lado da CART 2339 (Mansambo)
30 de Julho de 2005 > Guiné 63/74 - CXXX: A CAÇ 12 em operação conjunta com a CART 2339 e os paraquedistas (Agosto de 1969)
(7) Na História do BCAÇ 2852, esta emboscada é referida como tendo acontecido a 2 de Abril de 1969, às 6.30h, e não a 2 de Maio. Não há referência a baixas tanto das NT como do IN (Cap. II, pág. 74) (LG).
(8) Na História do BCAÇ 2852, a Op Espada Grande realizou-se a 3 de Abrild e 1969, e não a 3 de Maio. Com a duração de 2 dias, o seu objectivo era completar as destruições fdos meios de vida na área, executados aquando a Op Lança Afiada, na região de Galo Corunal. A CART 2339, a 3 Gr Comb, formava o Destacamento A (Cap II, pag. 76).
Guiné 63/74 - CDLXIX: Estrada Mansambo-Bambadinca (Op Cabeças Rapadas, 1969)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Bambadinca - Mansambo > A espingarda, a enxada, a pá, a picareta, a maceta... © Carlos Marques dos Santos (2006)Texto de Carlos Marques dos Santos (ex-furriel miliciano da CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69)
Cabeças Rapadas
Prenúncio da abertura definitiva da estrada Bambadinca/ Xitole, intransitável desde Novembro de 1968 a 4 de Agosto de 1969 (Op Belo Dia) (1)
Haverá concerteza alguns dos tertulianos que estiveram envolvidos nesta série de operações (?). Então relembrem:
Nós, CART 2339, especialmente na segundo Operação [Op Cabeça Rapada II], vibrámos com o movimento. Espantoso. Caldeirões de arroz (meio bidão de gasóleo, em fogueiras espalhadas pelo aquartelamento, movimento de viaturas e homens, um barulho ensurdecedor, homens deitados por tudo o que era sítio, em suma uma anarquia bem controlada).
Passemos à exposição dos factos:
Op Cabeça Rapada I
Em 25 de Março de 1969, uma semana depois da Op Lança Afiada (2), inicia-se a primeira Op Cabeça Rapada, com a duração de 2 dias, no itinerário Bambadinca/Mansambo.
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Mobilização de milhares de nativos para os trabalhos de desmatação das orlas da floresta na estrada Bambadinca-Xitole ... © Carlos Marques dos Santos (2006)Picagens, seguranças de flanco, etc. Trabalhos de nativos em desmatação das bermas da estrada. Estava dado o pontapé de saída, para maior segurança nas deslocações na estrada Bambadinca/ Xitole. Mas, do nosso ponto de vista, maior exposição à observação IN.
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Bambadinca - Mansambo > As catanas a funcionar... © Carlos Marques dos Santos (2006)
Só o meu cão, Xime de nome, porque o herdei da anterior Companhia aí aquartelada, era capaz de fazer a segurança completa. À nossa frente na picada, farejando, entrando e saindo da mata, flanqueando em zig-zag, detectando minas, dormindo quando eu estava de olhos abertos, de olhos, nariz e orelhas atentas quando eu dormia. Um verdadeiro guerrilheiro responsável das suas missões. Não me lembro se ficou em Mansambo, se o levei de volta ao Xime, quando regressei. Dias sem incidentes.
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Bambadinca - Mansambo > Aspecto do trabalho de desmatação... © Carlos Marques dos Santos (2006)
Em 5 de Abril inicia-se o aperfeiçoamento na desmatação do itinerário Bambadinca/ Mansambo, o mesmo acontecendo nos dias seguintes, 6, 7 e 8 de Abril, sempre das 6.00h às 17.00h (nota jocosa: em horário de expediente).
Op Cabeça Rapada II
Em 9 de Abril, às 5.40h, inicia-se com a duração de 3 dias a Op Cabeça Rapada II, no itinerário Mansambo/ Ponte dos Fulas.
Efectivos:
CART 2339 [Mansambo], a 3 Gr Comb;
CART 2856 [ a 2 Gr Comb] (3)
CCAÇ 2405 [Galomaro], a 3 Gr Comb;
CART 1746 [ Xime], a 2 Gr Comb;
CART 2413 [Xitole], a 2 Gr Comb;
CCAÇ 2406 [Saltinho], , a 2 Gr Comb;
3.º e 4.º Pel CCAÇ 2314 [Bambadinca];
Pel AM Daimler 2046 [Bambadinca];
Pel Erec 2350 [Bafatá] (4);
Pel Caç Nat 63 [na altura, sediado em Bambadinca, mais tarde - Julho de 1969 - transferido para Fá Mandinga, sendo a partir de então comandado pleo nosso tertulaino Jorge Cabral]:
8.º Pel BAC [Mansambo] (5);
Esq Mort. 10,7 [Xitole],
Pel Sap BCAÇ 2852 [Bmabadinca].
Foi efectuada a picagem e estacionamentos laterais, para segurança, no sentido Mansambo/Ponte Fulas, antes e durante os trabalhos.
Foram detectadas 2 minas A/P e uma A/C, mas sem incidentes. Estas minas [fazim parte de um vcampo de minas] que não foram concerteza detectadas na passagem e regresso da Operação que feriu o Mamadu Indjai e foi capturado o Malan Mané e que foi efectuada com os Paras (6).
O trabalhos envolveram 2150 trabalhadores nativos, que dormiram e comeram em Mansambo, tendo a segurança ficado montada de noite no itinerário.
Em 10 de Abril de 1969 retomam a actividade, pela manhã, tendo os trabalhadores sido recolhidos em Mansambo ao final do dia, regressando ao seus destinos.
Às 18.00h, desse dia, os vários destacamentos militares regressam a Mansambo e aguardam a sua vez de regressar aos quartéis, sem incidentes, com muitos vestígios.
Op Cabeça Rapada III
Em 30 de Abril, inicia-se a Op Cabeça Rapada III com duração de 3 dias no itinerário Mansambo/Galomaro, com 2100 trabalhadores nativos.
Há picagens e segurança no sentido Candamã/ Mansambo/ Candamã. Em 1 de Maio reiniciam-se os trabalhos.
Em 2 de Maio, às 6.40h há uma emboscada IN no pontão do Rio Almani, iniciada com rebentamento de uma mina A/CC comandada. A emboscada, de cerca de 15 minutos, foi dirigida a uma secção da Milícia 145 (Moricanhe) que se dirigia a Mansambo e à frente de um Gr de Comb da CCAÇ 2405 que se dirigia para Bambadinca. As NT reagiram pelo fogo e foi batida a zona com Obus 10,5 e Mort 81 (a partir de Mansambo) causando 5 mortos e 3 feridos, confirmados, ao IN (7).
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Bambadinca - Mansambo > Montando a segurança às brigadas de trabalhadores... © Carlos Marques dos Santos (2006)
A Secção de Milícia teve 2 mortos e 3 feridos. Foi a primeira acção deste género na estrada Mansambo/ Bambadinca
No dia seguinte, a 3 de Maio, a CART 2339 estava envolvida em nova operação, a Op Espada Grande, iniciada às 00.00h e terminada - para a CART 2339 - às 8.00h do dia 4 (Galo Corubal e Satecuta) (8).
Não havia tempo para descansar. As acções de segurança e combate iriam prosseguir.
___________________
Notas de LG ou de CMS
(1) Vd. post de 20 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXII: O inferno das colunas logísticas na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho. Há um erro (factual) no primeiro parágrafo, que já não se pode corrigir, no roginal, mas que aqui fica:
"Desde Novembro de 1968 que o itinerário Mansambo-Xitole estava interdito. Nessa altura, uma coluna logística do BCAÇ 2852, no regresso a Bambadinca, sofrera duas emboscadas (uma das quais, a primeira, com mina comandada), a cerca de 2km da Ponte dos Fulas, na zona de acção da unidade de quadrícula aquartelada no Xitole [não era ainda CART 2413, mas sim a CART 2339]. A coluna prosseguiu com apoio aéreo.
"Nove meses depois, fez-se a abertura desse itinerário, mais exactamente a 4 de Agosto de 1969. Na Op Belo Dia, participou o 2º Gr Comb da CCAÇ 12 com forças da CART 2339 (Mansambo), formando o Destacamento A (...)" (LG).
(2) Vd posts de:
14 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIX: Op Lança Afiada (IV): O soldado Spínola na margem direita do Rio Corubal
9 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIII: Op Lança Afiada (1969): (iii) O 'tigre de papel' da mata do Fiofioli
9 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXI: Op Lança Afiada (1969) : (ii) Pior do que o IN, só a sede e as abelhas
15 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLIII:Op Lança Afiada (1969): (i) À procura do hospital dos cubanos na mata do Fiofioli
(3) Julgo que é lapso do CMS. Deve ser CCS do BCAÇ 2856, sediada em Bafatá, a companhia e o batalhão do nosso tertuliano Jorge Tavares: vd. post de 31 de dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDVIII: A doce nostalgia de Bafatá (BCAÇ 2856, 1968/70) (LG).
(4) Esquadraão de Reconhecimento de Cavalaria, sediado em Bafatá: vd. post de 28 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXIX: Um ataque a Sare Ganá (1968) (LG)
(5) Pelotão Artilharia BAC 1, de Mansambo, obus 10.5. Em nota de rodapé deixo ficar aqui a informação de que em Mansambo, em Dezembro de 1969, quando regressámos à Metrópole, existiam 2 obuses 10.5 (105 mm), pelo que a informação de que haveria obuses 14 ou 10.7 (que já li algures no blogue), me parece errada (CMS).
(6) Vd. posts de:
6 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXV: A Op Nada Consta vista pelo lado da CART 2339 (Mansambo)
30 de Julho de 2005 > Guiné 63/74 - CXXX: A CAÇ 12 em operação conjunta com a CART 2339 e os paraquedistas (Agosto de 1969)
(7) Na História do BCAÇ 2852, esta emboscada é referida como tendo acontecido a 2 de Abril de 1969, às 6.30h, e não a 2 de Maio. Não há referência a baixas tanto das NT como do IN (Cap. II, pág. 74) (LG).
(8) Na História do BCAÇ 2852, a Op Espada Grande realizou-se a 3 de Abrild e 1969, e não a 3 de Maio. Com a duração de 2 dias, o seu objectivo era completar as destruições fdos meios de vida na área, executados aquando a Op Lança Afiada, na região de Galo Corunal. A CART 2339, a 3 Gr Comb, formava o Destacamento A (Cap II, pag. 76).
21 janeiro 2006
Guiné 63/74 - CDLXVIII: O crioulo de caserna (Mário Dias)

Guiné > S/d > Documento das NT, de contrapropaganda, em português e em crioulo de caserna, dirigido aos guerrilheiros do PAIGC e à população sob o seu controlo: "Bó presenta na otoridade: Tabanca está contente, tabanca tem bianda, tabanca tem doutor. No mato só mofineza,no mato só fome, no mato só muri"
© José Teixeira (2006)

Guiné > S/d > Documento das NT, de contrapropaganda, em crioulo de caserna, convidando os guerrilheiros do PAIGC à deserção: "Bó presenta na otoridade. Tropa i amigo. Tropa na trata bo dereto" [Apresenta-te às autoridades. A tropa é amiga. A tropa vai tratar-te bem].
© José Teixeira (2006)
Caro Luis
Acabo de ver no blogue a minha intervenção sobre o crioulo, ilustrada com a reprodução de um dos muitos panfletos de acção psicológica que a tropa ia disseminando pela Guiné (1).
A tradução para crioulo da mensagem que prendiam fazer chegar, atesta precisamente o que referi sobre o tal crioulo de caserna (2). Não sei quem terá sido o tradutor. Está uma desgraça, não só por muitos termos estarem mal traduzidos (por exemplo bibe significa beber) como não tem em conta a construção das frases que devem estar de acordo com a forma de pensar dos guineenses e não serem traduzidas à letra. Certamente que os guerrrilheiros se devem ter rido:
GUENTE DI MATO
BÓ BÁ PRESENTA NA TROPA
SÓ GUENTE BRUTO QUI NA BIBE NA MATO
GUENTE QUE TEM BOM CABEÇA Ê NA SINTA NA TABANCA
NA MATO SÓ FOMI, SÓ DOENÇA, SÓ MORTE
NA TABANCA TUDO ESTÁ CONTENTE,
Ê TEM BIANDA Ê TEM DOUTOR
NÔ PRESENTA NA OTORIDADE
Se me tivesse sido pedido para escrever em crioulo, não só as palavras como, sobretudo, a ideia que se pretendia transmitir, te-lo-ia feito assim:
GENTI DI MATO
BÓ PRESENTA NA TROPA
GENTI BRUTO QUI TA SINTA NA MATO
QUEM QUI GIRO* Ê TA SINTA NA TABANCA
NA MATO TEM FOMI, TEM DOENÇA, TEM MORTU
TABANCA MÁS SÁBI
TEM BIANDA Ê TEM DÓTOR
NÓ BAI PANTI NA OTORIDADE
(*) giro = inteligente
Antes de terminar, apenas uma mensagem para o José Neto: Panghiau, iá´me pétchau ?
Eu também estive em Macau de 1980 a 1984. Quatro maravilhosos anos.
A história do Domingos Ramos segue no início da semana.
Um abraço
Mário Dias
____________
Nota de L.G.:
(1) Vd. post de 20 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXIV: As dificuldades e os encantos do crioulo (Mário Dias)
(2) Vd. também post de A. Marque Lopes, de 14 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLI: Mininus di Nha Tera (poema de Nelson Medina, em kriol)
Guiné 63/74 - CDLXVIII: O crioulo de caserna (Mário Dias)

Guiné > S/d > Documento das NT, de contrapropaganda, em português e em crioulo de caserna, dirigido aos guerrilheiros do PAIGC e à população sob o seu controlo: "Bó presenta na otoridade: Tabanca está contente, tabanca tem bianda, tabanca tem doutor. No mato só mofineza,no mato só fome, no mato só muri"
© José Teixeira (2006)

Guiné > S/d > Documento das NT, de contrapropaganda, em crioulo de caserna, convidando os guerrilheiros do PAIGC à deserção: "Bó presenta na otoridade. Tropa i amigo. Tropa na trata bo dereto" [Apresenta-te às autoridades. A tropa é amiga. A tropa vai tratar-te bem].
© José Teixeira (2006)
Caro Luis
Acabo de ver no blogue a minha intervenção sobre o crioulo, ilustrada com a reprodução de um dos muitos panfletos de acção psicológica que a tropa ia disseminando pela Guiné (1).
A tradução para crioulo da mensagem que prendiam fazer chegar, atesta precisamente o que referi sobre o tal crioulo de caserna (2). Não sei quem terá sido o tradutor. Está uma desgraça, não só por muitos termos estarem mal traduzidos (por exemplo bibe significa beber) como não tem em conta a construção das frases que devem estar de acordo com a forma de pensar dos guineenses e não serem traduzidas à letra. Certamente que os guerrrilheiros se devem ter rido:
GUENTE DI MATO
BÓ BÁ PRESENTA NA TROPA
SÓ GUENTE BRUTO QUI NA BIBE NA MATO
GUENTE QUE TEM BOM CABEÇA Ê NA SINTA NA TABANCA
NA MATO SÓ FOMI, SÓ DOENÇA, SÓ MORTE
NA TABANCA TUDO ESTÁ CONTENTE,
Ê TEM BIANDA Ê TEM DOUTOR
NÔ PRESENTA NA OTORIDADE
Se me tivesse sido pedido para escrever em crioulo, não só as palavras como, sobretudo, a ideia que se pretendia transmitir, te-lo-ia feito assim:
GENTI DI MATO
BÓ PRESENTA NA TROPA
GENTI BRUTO QUI TA SINTA NA MATO
QUEM QUI GIRO* Ê TA SINTA NA TABANCA
NA MATO TEM FOMI, TEM DOENÇA, TEM MORTU
TABANCA MÁS SÁBI
TEM BIANDA Ê TEM DÓTOR
NÓ BAI PANTI NA OTORIDADE
(*) giro = inteligente
Antes de terminar, apenas uma mensagem para o José Neto: Panghiau, iá´me pétchau ?
Eu também estive em Macau de 1980 a 1984. Quatro maravilhosos anos.
A história do Domingos Ramos segue no início da semana.
Um abraço
Mário Dias
____________
Nota de L.G.:
(1) Vd. post de 20 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXIV: As dificuldades e os encantos do crioulo (Mário Dias)
(2) Vd. também post de A. Marque Lopes, de 14 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLI: Mininus di Nha Tera (poema de Nelson Medina, em kriol)
