20 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DLXIX: Uma bebedeira colectiva (Mansambo, Novembro de 1968) (CMS)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Cart 2339 > Novembro de 1968> As longas noites quentes de Mansambo...

© Carlos Marques dos Santos (2006):


"Esquecer, ao menos por uma noite...
Se há uma via de libertação
É através do álcool
Que climatiza os pesadelos
Dos homens que nasceram meninos,
Que não nasceram soldados.
Entre duas bebedeiras e um duche
Ganha-se tempo,
Enquanto os obuses batem os trilhos
Das matas do Xime
E o quarteleiro abre os caixotes de munições
Para a operação
Do dia seguinte..."


Extractos de Esquecer a Guiné... por uma noite
Luís Graça (1971-2005 )


Texto do Carlos Marques dos Santos (ex-furriel mil, CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69):

Luís:

Volto a entrar no blogue mais uma vez enviando uma fotorreportagem de momentos vividos na CART2339 em Mansambo. Por motivos técnicos enviarei uma a uma.

Era Novembro de 1968 e a Companhia voltava a estar reunida, agora num novo aquartelamento, por nós executado de raiz no meio do nada.

O aquartelamento era um charco, as condições de vida eram péssimas e o moral baixo, quer pelo peso do trabalho físico executado, quer pelas sucessivas e difíceis operações em que a companhia esteve envolvida.

Além disso já dois comandantes tinham abandonado a companhia, por vários motivos.
O pessoal andava à deriva.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Cart 2339 > Novembro de 1968> Uma longa noite, nos abrigos de Mansambo, com muita água de Lisboa ...

© Carlos Marques dos Santos (2006)



Dias antes, a 11 (dia de S. Martinho), no decorrer da Op Hálito (1), uma coluna ao Xitole tinha sido emboscada, com rebentamento de mina comandada e vários feridos.

A cambança do rio (Pulom) (2) tinha sido efectuada em 4 barcos de borracha e uma jangada, tornando extremamente difícil a sua concretização. Só com a acção de bombardeiros T6 foi conseguido o nosso retorno a Mansambo.

Tudo isto - é necessário imaginar o contexto - nos levou a libertar o extremo stresse. Só podia ser com uma garrafa de whisky (ou melhor, muitas).

Era assim a vida dos combatentes. Não teremos sido os únicos.

Um Abraço. CMS

_________

Notas de L.G.

(1) Vd post de 22 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXI: Quando até os picadores tinham medo (Mansambo, 1968)

" (...) A Op Hálito (11 de Novembro de 1968) foi outra das operações dramáticas que aconteceram no Sector L1, no tempo do Carlos Marques dos Santos (...). Foi a última coluna logística de Bambadinca para o Xitole, entre Novembro de 1968 e Agosto de 1969. A partir daí a estrada, no troço Mansambo-Xitole, ficou interdita.

"As NT sofreram duas emboscadas, tendo que recorrer a apoio aéreo para poder prosseguir. Os picadores foram obrigados, sob a força das armas, a continuar a picar o itinerário: Cerca das 16.00h foi feita uma distribuição de munições e obrigaram-se coercivamente os picadores a continuarem a picagem...

"Destas duas emboscadas resultaram 1 morto, 1 desaparecido e 12 feridos, além de danos materiais em viaturas e armas" (...).

(2) Afluente do Rio Corubal: vd. mapa do Xime.

Guiné 63/74 - DLXIX: Uma bebedeira colectiva (Mansambo, Novembro de 1968) (CMS)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Cart 2339 > Novembro de 1968> As longas noites quentes de Mansambo...

© Carlos Marques dos Santos (2006):


"Esquecer, ao menos por uma noite...
Se há uma via de libertação
É através do álcool
Que climatiza os pesadelos
Dos homens que nasceram meninos,
Que não nasceram soldados.
Entre duas bebedeiras e um duche
Ganha-se tempo,
Enquanto os obuses batem os trilhos
Das matas do Xime
E o quarteleiro abre os caixotes de munições
Para a operação
Do dia seguinte..."


Extractos de Esquecer a Guiné... por uma noite
Luís Graça (1971-2005 )


Texto do Carlos Marques dos Santos (ex-furriel mil, CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69):

Luís:

Volto a entrar no blogue mais uma vez enviando uma fotorreportagem de momentos vividos na CART2339 em Mansambo. Por motivos técnicos enviarei uma a uma.

Era Novembro de 1968 e a Companhia voltava a estar reunida, agora num novo aquartelamento, por nós executado de raiz no meio do nada.

O aquartelamento era um charco, as condições de vida eram péssimas e o moral baixo, quer pelo peso do trabalho físico executado, quer pelas sucessivas e difíceis operações em que a companhia esteve envolvida.

Além disso já dois comandantes tinham abandonado a companhia, por vários motivos.
O pessoal andava à deriva.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Cart 2339 > Novembro de 1968> Uma longa noite, nos abrigos de Mansambo, com muita água de Lisboa ...

© Carlos Marques dos Santos (2006)



Dias antes, a 11 (dia de S. Martinho), no decorrer da Op Hálito (1), uma coluna ao Xitole tinha sido emboscada, com rebentamento de mina comandada e vários feridos.

A cambança do rio (Pulom) (2) tinha sido efectuada em 4 barcos de borracha e uma jangada, tornando extremamente difícil a sua concretização. Só com a acção de bombardeiros T6 foi conseguido o nosso retorno a Mansambo.

Tudo isto - é necessário imaginar o contexto - nos levou a libertar o extremo stresse. Só podia ser com uma garrafa de whisky (ou melhor, muitas).

Era assim a vida dos combatentes. Não teremos sido os únicos.

Um Abraço. CMS

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Notas de L.G.

(1) Vd post de 22 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXI: Quando até os picadores tinham medo (Mansambo, 1968)

" (...) A Op Hálito (11 de Novembro de 1968) foi outra das operações dramáticas que aconteceram no Sector L1, no tempo do Carlos Marques dos Santos (...). Foi a última coluna logística de Bambadinca para o Xitole, entre Novembro de 1968 e Agosto de 1969. A partir daí a estrada, no troço Mansambo-Xitole, ficou interdita.

"As NT sofreram duas emboscadas, tendo que recorrer a apoio aéreo para poder prosseguir. Os picadores foram obrigados, sob a força das armas, a continuar a picar o itinerário: Cerca das 16.00h foi feita uma distribuição de munições e obrigaram-se coercivamente os picadores a continuarem a picagem...

"Destas duas emboscadas resultaram 1 morto, 1 desaparecido e 12 feridos, além de danos materiais em viaturas e armas" (...).

(2) Afluente do Rio Corubal: vd. mapa do Xime.

Guiné 63/74 - DLXVIII: Notícias da CART 3493 (Mansambo, 1972) e da CCAÇ 12 (Bambadinca e Xime, 1973/74) (António Duarte)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Xime-Bambadinca > O 1º Capitão da CCAÇ 12 (1969/71), o Capitão Brito (hoje, coronel na reforma).

Arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)


Caro Luís Graça,

Acabei de ler a inserção do meu e-mail, bem como o comentário do Sousa de Castro, no blogue.

De facto estive na CCAÇ 12 desde Janeiro de 1973, primeiro em Bambadinca e a partir de Abril no Xime, após as rotações das companhias, geradas pela transferência para Cobumba da Cart 3493 (minha unidade inicial). Regressei à metrópole em Janeiro de 1974.

Numa breve resenha e procurando arrumar os dados por ordem cronológica, diria que a vida em Mansambo, de Janeiro até Dezembro de 1972, foi com baixa actividade de guerra, no entanto com situações graves e desgastantes.

Accionámos três minas, que custaram três feridos com amputação de membros inferiores. A primeira em Jonbocari (mina antipessoal), com um ferido (1º cabo Ribeiro do 3º Pelotão). Salvo erro em 9 de Maio.

No dia seguinte foi accionada uma mina anti carro por um burrinho, que custou a perna a um furriel do 2º pelotão (Ferreira) e mais 2 feridos com alguma gravidade. Este incidente aconteceu aquando do regresso ao quartel da segurança à operação de capinagem, na estrada de Mansambo a Candamã/Afiá (Candamã era à época uma tabanca em auto defesa, com um pelotão de milícias e uma secção da unidade de Mansambo).

Em Agosto mais uma mina antipessoal accionada em Sanguê Demba (não sei se estará bem escrito), em que ficou ferido um cabo (Silva 2º Pel).

Entretanto no mês de Agosto houve um ataque ao quartel sem incidentes.

Quanto ao ano de 1973 na CCAÇ 12 a acção foi mais animada. Instalados em Bambadinca, naquilo que se classificava de hotel, fazia-se operações sobretudo na zona do Xime. Assim em 3 de Fevereiro tive a primeira emboscada na Ponta Varela em que participaram três grupos de combate da CCAÇ 12 em conjunto com 2 pelotões da Cart 3494 (à época aquartelada no Xime). As NT não registaram feridos mas segundo se apurou em informações recolhidas no Enxalé, o PAIGC teria tido baixas.

A 25 do mesmo mês houve uma outra emboscada numa operação na zona de Ponta Varela/Poidom e Ponta do Inglês/Ponta João da Silva, também com forças semelhantes à anterior, em que registámos 7 feridos, felizmente ligeiros. Foi praticamente toda a minha secção (Bazuca do 3º grupo de combate), que foi tocada. Por infelicidade um RPG 7 rebentou ainda no ar (com era normal), apanhando o pessoal abrigado. Não participei nesta acção, pois estava em Bissau para vir gozar as minhas segundas férias na Metrópole.

Até final do do ano houve mais 3 emboscadas, tendo sido a mais grave na Ponta Coli (segurança à estrada Xime-Bambadinca) e n ataques ao quartel, felizmente com má pontaria, na maioria das vezes.

Salvo erro em 1 de Dezembro de 1973 a tabanca do Xime foi atingida e registaram-se-se várias mortes entre a população. Talvez o José Carlos (que já tem participado no blogue e que era criança à época e vivia no Xime) se lembre.

Agora falando aos velhinhos e fundadores da CCAÇ 12, quero dar-lhes nota que o espírito da Companhia era excelente. Registo a boa convivência dos graduados, de origem portuguesa, com todos os militares, que eram na sua maioria muçulmanos.

No meu pelotão (3º), tinha dois cabos que eram uns senhores na arte da guerra. Eram o Malan Turrè (?) e o Sajá (?). Os dois foram graduados furriéis e integraram a CCAÇ 21 do Ten Jamanca, já perto do final do ano de 73. Segundo me foi dito, não tive oportunidade de confirmar, as coisas teriam sido muito feias para eles, no período pós-independência.

Aproveito para perguntar à velhice da CCAÇ 12 se ainda se recordam de alguns dos soldados e cabos da 12. Aqui vão alguns nomes:

Recordo-me do Arfan Jau (Bazuca do 3º ), Braima Sané (HK 21 do 4º), Mamadu Candé, Iero Jau (3º), Malan Embaló, Mamadu Seidi, João Gerá, Bubacar Colubali, Amadu Baldé, Alfa Sané, Suleiman (Cabo do 4º com excesso de peso),etc.

O comandante da CCAÇ 12 no início de 1972 era o Cap Bordalo, homem de grande carisma, seriedade e bravura. Era um líder. Penso que será ou viverá na região de Lamego.

Para acabar por hoje, quero dar nota que eu serei vosso neto, pois rendi os que vos renderam. De acordo ?

Da próxima vez falarei de outros temas.

Um abraço fraterno para todos,
António Duarte


Sousa de Castro,

Fica descansado. Contactarei o Luciano de Jesus (estava no Enxalé).

Guiné 63/74 - DLXVIII: Notícias da CART 3493 (Mansambo, 1972) e da CCAÇ 12 (Bambadinca e Xime, 1973/74) (António Duarte)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada Xime-Bambadinca > O 1º Capitão da CCAÇ 12 (1969/71), o Capitão Brito (hoje, coronel na reforma).

Arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)


Caro Luís Graça,

Acabei de ler a inserção do meu e-mail, bem como o comentário do Sousa de Castro, no blogue.

De facto estive na CCAÇ 12 desde Janeiro de 1973, primeiro em Bambadinca e a partir de Abril no Xime, após as rotações das companhias, geradas pela transferência para Cobumba da Cart 3493 (minha unidade inicial). Regressei à metrópole em Janeiro de 1974.

Numa breve resenha e procurando arrumar os dados por ordem cronológica, diria que a vida em Mansambo, de Janeiro até Dezembro de 1972, foi com baixa actividade de guerra, no entanto com situações graves e desgastantes.

Accionámos três minas, que custaram três feridos com amputação de membros inferiores. A primeira em Jonbocari (mina antipessoal), com um ferido (1º cabo Ribeiro do 3º Pelotão). Salvo erro em 9 de Maio.

No dia seguinte foi accionada uma mina anti carro por um burrinho, que custou a perna a um furriel do 2º pelotão (Ferreira) e mais 2 feridos com alguma gravidade. Este incidente aconteceu aquando do regresso ao quartel da segurança à operação de capinagem, na estrada de Mansambo a Candamã/Afiá (Candamã era à época uma tabanca em auto defesa, com um pelotão de milícias e uma secção da unidade de Mansambo).

Em Agosto mais uma mina antipessoal accionada em Sanguê Demba (não sei se estará bem escrito), em que ficou ferido um cabo (Silva 2º Pel).

Entretanto no mês de Agosto houve um ataque ao quartel sem incidentes.

Quanto ao ano de 1973 na CCAÇ 12 a acção foi mais animada. Instalados em Bambadinca, naquilo que se classificava de hotel, fazia-se operações sobretudo na zona do Xime. Assim em 3 de Fevereiro tive a primeira emboscada na Ponta Varela em que participaram três grupos de combate da CCAÇ 12 em conjunto com 2 pelotões da Cart 3494 (à época aquartelada no Xime). As NT não registaram feridos mas segundo se apurou em informações recolhidas no Enxalé, o PAIGC teria tido baixas.

A 25 do mesmo mês houve uma outra emboscada numa operação na zona de Ponta Varela/Poidom e Ponta do Inglês/Ponta João da Silva, também com forças semelhantes à anterior, em que registámos 7 feridos, felizmente ligeiros. Foi praticamente toda a minha secção (Bazuca do 3º grupo de combate), que foi tocada. Por infelicidade um RPG 7 rebentou ainda no ar (com era normal), apanhando o pessoal abrigado. Não participei nesta acção, pois estava em Bissau para vir gozar as minhas segundas férias na Metrópole.

Até final do do ano houve mais 3 emboscadas, tendo sido a mais grave na Ponta Coli (segurança à estrada Xime-Bambadinca) e n ataques ao quartel, felizmente com má pontaria, na maioria das vezes.

Salvo erro em 1 de Dezembro de 1973 a tabanca do Xime foi atingida e registaram-se-se várias mortes entre a população. Talvez o José Carlos (que já tem participado no blogue e que era criança à época e vivia no Xime) se lembre.

Agora falando aos velhinhos e fundadores da CCAÇ 12, quero dar-lhes nota que o espírito da Companhia era excelente. Registo a boa convivência dos graduados, de origem portuguesa, com todos os militares, que eram na sua maioria muçulmanos.

No meu pelotão (3º), tinha dois cabos que eram uns senhores na arte da guerra. Eram o Malan Turrè (?) e o Sajá (?). Os dois foram graduados furriéis e integraram a CCAÇ 21 do Ten Jamanca, já perto do final do ano de 73. Segundo me foi dito, não tive oportunidade de confirmar, as coisas teriam sido muito feias para eles, no período pós-independência.

Aproveito para perguntar à velhice da CCAÇ 12 se ainda se recordam de alguns dos soldados e cabos da 12. Aqui vão alguns nomes:

Recordo-me do Arfan Jau (Bazuca do 3º ), Braima Sané (HK 21 do 4º), Mamadu Candé, Iero Jau (3º), Malan Embaló, Mamadu Seidi, João Gerá, Bubacar Colubali, Amadu Baldé, Alfa Sané, Suleiman (Cabo do 4º com excesso de peso),etc.

O comandante da CCAÇ 12 no início de 1972 era o Cap Bordalo, homem de grande carisma, seriedade e bravura. Era um líder. Penso que será ou viverá na região de Lamego.

Para acabar por hoje, quero dar nota que eu serei vosso neto, pois rendi os que vos renderam. De acordo ?

Da próxima vez falarei de outros temas.

Um abraço fraterno para todos,
António Duarte


Sousa de Castro,

Fica descansado. Contactarei o Luciano de Jesus (estava no Enxalé).

Guiné 63/74 - DLXVII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (15): um dia negro para a 15ª Companhia de Comandos (Setembro de 1969)

Guiné > Aldeia Formosa > 1969 > Viatura destruída por mina anticarro. Resultado: dois mortos.

© José Teixeira (2006)



XV Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


Buba, 1 de Setembro de 1969

Empada continua a ser a preferida do IN para brincar às guerrinhas. Ontem, pelas 4.30 h da madrugada, sofreu novo ataque. Foi chamada a aviação que não chegou a intervir.


Empada, 9 de Setembro de 1969

Desde ontem que estou por estas bandas, após dois meses em Buba sem novidade de maior.

O ataque do dia 31 não foi tão perigoso como constou em Buba. Atacaram de Morteiro 60, LGFog e bazooka sem causarem prejuízo. Não caiu nenhuma dentro do quartel.

Na estrada de Fulacunda, mais 8 Comandos e 3 soldados ficaram sem vida. Houve ainda sete feridos graves, entre os quais o meu amigo Zé João, enfermeiro comando. Uma mina anti-carro de grande potência atirou com a viatura cheia de militares, que estiveram comigo em Buba (15ª Companhia de Comandos) contra um tronco de árvore que se debruçava sobre a estrada, matando uma série deles instantaneamente. No buraco feito pela bomba pode-se esconder uma viatura, tal era a sua potência...

A Companhia de Comandos tinha vinda a fazer uma série de operações no Sector e dirigia-se para o Cais no Rio Grande, perto de S.João, para se retirar para Bissau.

Tem tido muito azar esta Companhia de Comandos. O Zé João sempre que sai com a Companhia fazem ronco, mas no regresso tem tido sempre problemas graves. Ainda há pouco tempo, quando estavam em Buba comigo, sairam para uma operação em Saredivane, fizeram um ronco de 15 mortos, apanharam 21 armas, apenas com dois feridos ligeiros, mas no regresso cairam num campo de minas e uma bailarina matou um Furriel e um soldado ficou sem uma perna...

Nesse dia o Zé João foi buscar o morto e ferido ao campo de minas tendo recebido o prémio Governador, que não chegou a gozar devido a este brutal acidente que o afastou da guerra definitivamente.

Guiné 63/74 - DLXVII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (15): um dia negro para a 15ª Companhia de Comandos (Setembro de 1969)

Guiné > Aldeia Formosa > 1969 > Viatura destruída por mina anticarro. Resultado: dois mortos.

© José Teixeira (2006)



XV Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


Buba, 1 de Setembro de 1969

Empada continua a ser a preferida do IN para brincar às guerrinhas. Ontem, pelas 4.30 h da madrugada, sofreu novo ataque. Foi chamada a aviação que não chegou a intervir.


Empada, 9 de Setembro de 1969

Desde ontem que estou por estas bandas, após dois meses em Buba sem novidade de maior.

O ataque do dia 31 não foi tão perigoso como constou em Buba. Atacaram de Morteiro 60, LGFog e bazooka sem causarem prejuízo. Não caiu nenhuma dentro do quartel.

Na estrada de Fulacunda, mais 8 Comandos e 3 soldados ficaram sem vida. Houve ainda sete feridos graves, entre os quais o meu amigo Zé João, enfermeiro comando. Uma mina anti-carro de grande potência atirou com a viatura cheia de militares, que estiveram comigo em Buba (15ª Companhia de Comandos) contra um tronco de árvore que se debruçava sobre a estrada, matando uma série deles instantaneamente. No buraco feito pela bomba pode-se esconder uma viatura, tal era a sua potência...

A Companhia de Comandos tinha vinda a fazer uma série de operações no Sector e dirigia-se para o Cais no Rio Grande, perto de S.João, para se retirar para Bissau.

Tem tido muito azar esta Companhia de Comandos. O Zé João sempre que sai com a Companhia fazem ronco, mas no regresso tem tido sempre problemas graves. Ainda há pouco tempo, quando estavam em Buba comigo, sairam para uma operação em Saredivane, fizeram um ronco de 15 mortos, apanharam 21 armas, apenas com dois feridos ligeiros, mas no regresso cairam num campo de minas e uma bailarina matou um Furriel e um soldado ficou sem uma perna...

Nesse dia o Zé João foi buscar o morto e ferido ao campo de minas tendo recebido o prémio Governador, que não chegou a gozar devido a este brutal acidente que o afastou da guerra definitivamente.

19 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - LDXVI: Memórias do antigamente (Mário Dias) (2): Uma serenata ao Governador

Guiné > Bissau > Praça do Império > Monumento ao “Ao Esforço da Raça” > O Mário Dias sentado do "local do crime", o local da improvisada serenata a Sua Excelência...

© Mário Dias (2006)

Continuação das memórias do Mário Dias relativamente à sua experiência na Guiné, como civil, na década de 1950. O Mário foi depois sargento comando durante a guerra (Brá, 1963/66) (1)

A Serenata

Nos idos dos anos 50, Bissau, cidade pacata e ordeira, onde muito se trabalhava e muito nos divertíamos, era palco de cenas impensáveis de acontecerem noutro qualquer lugar. O progresso demorava a chegar. Não havia uma só rua alcatroada, uma só gota de alcatrão que fosse. A ponte-cais, que serviria para atracação dos barcos, estava ainda em construção. Os navios que quinzenalmente chegavam (nesse dia era dia de S. Vapor, como dizíamos) fundeavam ao largo, frente ao ilhéu do Rei e os passageiros e carga eram transportados para o Pijiguiti em pequenas embarcações a motor e até a remos. E o cais do Pijiguiti dessa época ainda não tinha ainda a actual cabeça que forma o “T”. Era um simples paredão. Electricidade? Luxo só possível das seis da tarde à meia-noite.

Apesar disso, sentíamo-nos lá como no paraíso. Diariamente nos juntávamos para os nossos passeios pela cidade e arredores, de bicicleta ou a pé, bebíamos umas cervejas nas esplanadas, especialmente na pastelaria Império, na praça do mesmo nome (o proprietário era o senhor Estácio, tio do nosso amigo António Estácio que já interveio no blogue) no Hotel Portugal, mais conhecido por hotel do Espada (nome do proprietário) ou ainda na esplanada existente ao fundo da avenida principal na placa central que então existia. A configuração desta avenida era bem diferente daquela que os nossos amigos desta tertúlia conheceram mais tarde. A seu tempo falarei sobre isso.

Um dos nossos pontos de encontro favoritos era na marginal, junto às ruínas de uma ponte de atracação de barcos da qual só existiam alguns pilares no meio do rio, já meio enterrados no lodo, e o encontro de onde a ponte partia. Disseram-me ter sido um navio alemão que se pôs em movimento desatracando sem que os cabos estivessem completamente soltos, que levou pedaços dessa ponte atrás de si arruinando-a. Foi antes de eu ter chegado à Guiné que assim se viu privada de uma infraestrutura indispensável. O local a que me estou a referir é onde hoje fica um pequeno largo em formato de meia-laranja existente na marginal de Bissau. Se consultarem o mapa disponível no blogue facilmente o encontrarão.
Guiné-Bissau > Bissau, capital do país. Planta da cidade, pós-independência. (Vd. mapa ampliado na página sobre sobre Bafatá e BissauA. Marques Lopes (2005)



Uma noite de sábado, depois do jantar, reunimo-nos nesse local como era nosso hábito, e, por não se trabalhar no dia seguinte, prolongámos um pouco mais a paródia. Anedotas, aventuras que cada um ia narrando, até que às tantas, alguns (entre os quais eu) puxaram das gaitas-de-beiços e vá de tocar com todas as nossas ganas. A noite estava convidativa, o calor não era muito e o luar ajudava. As pessoas que passavam iam parando para nos ouvir e aplaudir. Alguém sugeriu que podíamos ir pela avenida acima até à praça do Império. De acordo. Lá fomos nós sempre a tocar, a cantar e a rir. O mundo era nosso.

Chegados à praça do Império, já a meia-noite estava próxima, instalámo-nos naquele arremedo de degraus existentes no monumento “Ao Esforço da Raça” que ainda lá se encontra embora com outra designação e dedicatória.

Faço um pequeno parêntese para contar um dito jocoso que então corria sobre esse monumento, dito esse da autoria de um tio meu que uns anos antes da minha ida tinha sido escrivão no tribunal de Bissau. No monumento em causa encontra-se um busto de mulher, e que farto busto, empunhando nos braços erguidos uma coroa de louros. Qual o significado? Aquilo queria dizer que a Guiné deu e continuava a dar de mamar a muita gente. Voltemos à nossa história.

Encarrapitados no monumento, virados para o palácio do governador que ainda estava em construção, embora quase pronto, (Já agora: o palácio inicialmente não era assim pois tinha terraço em vez de telhado mas, não sei qual o motivo, um engenheiro acabou por alterar a planta) prosseguimos a serenata.

O governador (Raimundo Serrão)(2) residia numa grande vivenda existente ao lado direito não muito longe, portanto, do nosso improvisado palco. Toca, canta, canta e toca, viva a alegria, vimos que de nós se aproximava um polícia, um segurança, como eram mais conhecidos. Chegado disse mais ou menos isto:
- O senhor governador manda dizer para não fazerem tanto barulho porque já é tarde e quer dormir.- Perdemos o pio e pedimos desculpas. Mas, como ainda era cedo, meia-noite de sábado para malta nova é dia, por lá ficámos embora sossegados. Foi então que alguém se lembrou, era quase uma hora:
-Eh pá, o governador já deve estar a dormir; vamos lá tocar e cantar mais um pouco. -Dito e feito, embora com menos decibéis que anteriormente. Estávamos nisto quando vimos um vulto, de roupão, saindo do quintal da vivenda com toda a calma vir em nossa direcção. A serenata continuou até que reparamos no vulto que já estava próximo. Era o governador. Ficámos gelados, paralisados. Vai-nos mandar prender, pensava eu. Qual quê?
- Boa noite, rapazes! - cumprimentou. Levantámo-nos, aterrorizados e respeitosos e retorquimos:
- Boa noite, senhor governador.
- Como não me deixam dormir, venho para aqui, sempre ouço melhor. Vá lá continuem a tocar.

E tocámos com todo o esmero de que éramos capazes. Uma música, outra e mais outra todos ufanos pois de cada vez o governador aplaudia. Até que após a execução do quarto número, que, ainda me lembro, foi a valsa do imperador, ele nos disse:
- Bom, rapazes, gostei muito de vos ouvir, mas já é tarde. Vão-se deitar porque a cacimba faz mal.

E foi assim que fizemos uma serenata ao Governador da Guiné.

_________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXII: Memórias do antigamente (Mário Dias) (1): Um cabaço de leite


(2) Raimundo António Rodrigues Serrão foi Governador da Guiné entre 1951 e 1953

Guiné 63/74 - LDXVI: Memórias do antigamente (Mário Dias) (2): Uma serenata ao Governador

Guiné > Bissau > Praça do Império > Monumento ao “Ao Esforço da Raça” > O Mário Dias sentado do "local do crime", o local da improvisada serenata a Sua Excelência...

© Mário Dias (2006)

Continuação das memórias do Mário Dias relativamente à sua experiência na Guiné, como civil, na década de 1950. O Mário foi depois sargento comando durante a guerra (Brá, 1963/66) (1)

A Serenata

Nos idos dos anos 50, Bissau, cidade pacata e ordeira, onde muito se trabalhava e muito nos divertíamos, era palco de cenas impensáveis de acontecerem noutro qualquer lugar. O progresso demorava a chegar. Não havia uma só rua alcatroada, uma só gota de alcatrão que fosse. A ponte-cais, que serviria para atracação dos barcos, estava ainda em construção. Os navios que quinzenalmente chegavam (nesse dia era dia de S. Vapor, como dizíamos) fundeavam ao largo, frente ao ilhéu do Rei e os passageiros e carga eram transportados para o Pijiguiti em pequenas embarcações a motor e até a remos. E o cais do Pijiguiti dessa época ainda não tinha ainda a actual cabeça que forma o “T”. Era um simples paredão. Electricidade? Luxo só possível das seis da tarde à meia-noite.

Apesar disso, sentíamo-nos lá como no paraíso. Diariamente nos juntávamos para os nossos passeios pela cidade e arredores, de bicicleta ou a pé, bebíamos umas cervejas nas esplanadas, especialmente na pastelaria Império, na praça do mesmo nome (o proprietário era o senhor Estácio, tio do nosso amigo António Estácio que já interveio no blogue) no Hotel Portugal, mais conhecido por hotel do Espada (nome do proprietário) ou ainda na esplanada existente ao fundo da avenida principal na placa central que então existia. A configuração desta avenida era bem diferente daquela que os nossos amigos desta tertúlia conheceram mais tarde. A seu tempo falarei sobre isso.

Um dos nossos pontos de encontro favoritos era na marginal, junto às ruínas de uma ponte de atracação de barcos da qual só existiam alguns pilares no meio do rio, já meio enterrados no lodo, e o encontro de onde a ponte partia. Disseram-me ter sido um navio alemão que se pôs em movimento desatracando sem que os cabos estivessem completamente soltos, que levou pedaços dessa ponte atrás de si arruinando-a. Foi antes de eu ter chegado à Guiné que assim se viu privada de uma infraestrutura indispensável. O local a que me estou a referir é onde hoje fica um pequeno largo em formato de meia-laranja existente na marginal de Bissau. Se consultarem o mapa disponível no blogue facilmente o encontrarão.
Guiné-Bissau > Bissau, capital do país. Planta da cidade, pós-independência. (Vd. mapa ampliado na página sobre sobre Bafatá e BissauA. Marques Lopes (2005)



Uma noite de sábado, depois do jantar, reunimo-nos nesse local como era nosso hábito, e, por não se trabalhar no dia seguinte, prolongámos um pouco mais a paródia. Anedotas, aventuras que cada um ia narrando, até que às tantas, alguns (entre os quais eu) puxaram das gaitas-de-beiços e vá de tocar com todas as nossas ganas. A noite estava convidativa, o calor não era muito e o luar ajudava. As pessoas que passavam iam parando para nos ouvir e aplaudir. Alguém sugeriu que podíamos ir pela avenida acima até à praça do Império. De acordo. Lá fomos nós sempre a tocar, a cantar e a rir. O mundo era nosso.

Chegados à praça do Império, já a meia-noite estava próxima, instalámo-nos naquele arremedo de degraus existentes no monumento “Ao Esforço da Raça” que ainda lá se encontra embora com outra designação e dedicatória.

Faço um pequeno parêntese para contar um dito jocoso que então corria sobre esse monumento, dito esse da autoria de um tio meu que uns anos antes da minha ida tinha sido escrivão no tribunal de Bissau. No monumento em causa encontra-se um busto de mulher, e que farto busto, empunhando nos braços erguidos uma coroa de louros. Qual o significado? Aquilo queria dizer que a Guiné deu e continuava a dar de mamar a muita gente. Voltemos à nossa história.

Encarrapitados no monumento, virados para o palácio do governador que ainda estava em construção, embora quase pronto, (Já agora: o palácio inicialmente não era assim pois tinha terraço em vez de telhado mas, não sei qual o motivo, um engenheiro acabou por alterar a planta) prosseguimos a serenata.

O governador (Raimundo Serrão)(2) residia numa grande vivenda existente ao lado direito não muito longe, portanto, do nosso improvisado palco. Toca, canta, canta e toca, viva a alegria, vimos que de nós se aproximava um polícia, um segurança, como eram mais conhecidos. Chegado disse mais ou menos isto:
- O senhor governador manda dizer para não fazerem tanto barulho porque já é tarde e quer dormir.- Perdemos o pio e pedimos desculpas. Mas, como ainda era cedo, meia-noite de sábado para malta nova é dia, por lá ficámos embora sossegados. Foi então que alguém se lembrou, era quase uma hora:
-Eh pá, o governador já deve estar a dormir; vamos lá tocar e cantar mais um pouco. -Dito e feito, embora com menos decibéis que anteriormente. Estávamos nisto quando vimos um vulto, de roupão, saindo do quintal da vivenda com toda a calma vir em nossa direcção. A serenata continuou até que reparamos no vulto que já estava próximo. Era o governador. Ficámos gelados, paralisados. Vai-nos mandar prender, pensava eu. Qual quê?
- Boa noite, rapazes! - cumprimentou. Levantámo-nos, aterrorizados e respeitosos e retorquimos:
- Boa noite, senhor governador.
- Como não me deixam dormir, venho para aqui, sempre ouço melhor. Vá lá continuem a tocar.

E tocámos com todo o esmero de que éramos capazes. Uma música, outra e mais outra todos ufanos pois de cada vez o governador aplaudia. Até que após a execução do quarto número, que, ainda me lembro, foi a valsa do imperador, ele nos disse:
- Bom, rapazes, gostei muito de vos ouvir, mas já é tarde. Vão-se deitar porque a cacimba faz mal.

E foi assim que fizemos uma serenata ao Governador da Guiné.

_________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXII: Memórias do antigamente (Mário Dias) (1): Um cabaço de leite


(2) Raimundo António Rodrigues Serrão foi Governador da Guiné entre 1951 e 1953

Guiné 63/74 - DLXV: Do Larinho ao Olossato ( Blogue de Paulo Salgado)

Guiné-Bissau > 2006 > Rio Olossato © Paulo Salgado (2006)


Mensagem do Paulo Salgado:

Meu Caríssimo Luís,


1. Durante esta tarde de sábado - no intervalo de algum trabalho - a minha mulher e a Maria Paula (as duas tertulianas) ajudaram-me (ou foram elas?!) a construir o modestíssimo blogue Do Larinho ao Olossato.

Espero ter contributos de amigos, como tu, para arrancar com este espaço. Não vai ser fácil, é certo.

Entretanto, a nossa bloguista, Maria Paula, fez as provas de doutoramento e saiu distinta em Oxford. É bonito ver os filhos crescer - esta não era, nem é, uma geração rasca. Parabens a ela.

Um abraço de Amizade.

Paulo Salgado


2. Comentário do L.G.

Do Larinho ao Olossato > Blogue de Paulo Salgado


Parabéns!... A lusoblogosfera está mais rica! Só preciso que me expliques uma coisa: o Olossato, sei onde fica (embora nunca lá tenha ido); o Larinho, não faço ideia, a menos que seja o diminuitivo do Lar, Doce Lar, do teu Dulcíssimo Lar... É isso ?

Eu meu nome e em nome dos restantes tertulianos (refiro-me à nossa tertúlia, Luís Graça & Camaradas da Guiné...), desejo-te boa saúde e boa navegação em mais esta... aventura.

Prometo vir cá mais vezes blogar contigo, convosco, que a família, para ti, não se deixa em casa nem se confunde com a mobília.

Porque blogar é preciso, sobretudo quando se trata da saúde, da educação, da cooperação com África, e em especial com a nossa querida Guiné. Cooperação que, como tu muito bem dizes, se escreve com muitos "Ós", que se constroi com muitos nós (e vós), que se escreve com todas as letras dos nossos alfabetos...

Aproveito para mandar um xicoração às tuas mulheres e felicitar a Paula pelo seu brilhante doutoramento em Biologia, em Oxford. Paulo e Conceição: vocês bem podem orgulhar-se dessa menina (que eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente).

Um abraço, camarada e amigo.
Luís

Guiné 63/74 - DLXV: Do Larinho ao Olossato ( Blogue de Paulo Salgado)

Guiné-Bissau > 2006 > Rio Olossato © Paulo Salgado (2006)


Mensagem do Paulo Salgado:

Meu Caríssimo Luís,


1. Durante esta tarde de sábado - no intervalo de algum trabalho - a minha mulher e a Maria Paula (as duas tertulianas) ajudaram-me (ou foram elas?!) a construir o modestíssimo blogue Do Larinho ao Olossato.

Espero ter contributos de amigos, como tu, para arrancar com este espaço. Não vai ser fácil, é certo.

Entretanto, a nossa bloguista, Maria Paula, fez as provas de doutoramento e saiu distinta em Oxford. É bonito ver os filhos crescer - esta não era, nem é, uma geração rasca. Parabens a ela.

Um abraço de Amizade.

Paulo Salgado


2. Comentário do L.G.

Do Larinho ao Olossato > Blogue de Paulo Salgado


Parabéns!... A lusoblogosfera está mais rica! Só preciso que me expliques uma coisa: o Olossato, sei onde fica (embora nunca lá tenha ido); o Larinho, não faço ideia, a menos que seja o diminuitivo do Lar, Doce Lar, do teu Dulcíssimo Lar... É isso ?

Eu meu nome e em nome dos restantes tertulianos (refiro-me à nossa tertúlia, Luís Graça & Camaradas da Guiné...), desejo-te boa saúde e boa navegação em mais esta... aventura.

Prometo vir cá mais vezes blogar contigo, convosco, que a família, para ti, não se deixa em casa nem se confunde com a mobília.

Porque blogar é preciso, sobretudo quando se trata da saúde, da educação, da cooperação com África, e em especial com a nossa querida Guiné. Cooperação que, como tu muito bem dizes, se escreve com muitos "Ós", que se constroi com muitos nós (e vós), que se escreve com todas as letras dos nossos alfabetos...

Aproveito para mandar um xicoração às tuas mulheres e felicitar a Paula pelo seu brilhante doutoramento em Biologia, em Oxford. Paulo e Conceição: vocês bem podem orgulhar-se dessa menina (que eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente).

Um abraço, camarada e amigo.
Luís

Guiné 63/74 - DLXIV: Zélia, um caso de amor e paixão (III)

Texto da Zélia Neno, publicado no JN - Jornal de Notícias, em 19 Agosto de 1992



GUINÉ - TãO LONGE E TãO PERTO!

AFRICA! Quem nunca ouviu falar deste Continente, cheio de mistérios, outrora desbravado pelos nossos colonizadores e onde os portugueses enraizaram quinhentos anos da sua História?

Pois milhares de nós passaram por lá. Uns voluntariamente, procurando melhores condições de vida, pois África tinha muito para oferecer; outros, jovens que aos vinte anos, quando começavam a despertar para a vida, foram para lá empurrados, sem terem tempo sequer para compreender porque lhes haviam colocado uma arma na mão.

É com um destes jovens que me casei há dezassete anos, depois de haver cumprido o serviço militar na Guiné. Daí para cá tenho ouvido as suas narrativas pormenorizadas dos bons e maus momentos vividos no interior daquele mato, onde tudo lhes era adverso, pois para além da companhia dos colegas, só tinham a arma como "fiel companheira" e a solidão própria daquela situação.

Apesar disto, penso eu, a maior parte deles aprendeu o verdadeiro valor das palavras Amizade e Solidariedade, pois o viver em conjunto todos aqueles momentos, alguns bem difíceis de suportar, tentando sobreviver conforme podiam, auxiliando-se mutuamente, fez com que adquirissem valores morais que ainda hoje prevalecem no seu dia-a-dia, sendo frequente ouvi-los recordar com uma certa nostalgia esses anos vividos no seio da guerra, quando em cada dia existia a incerteza do dia seguinte.~

Apesar de tudo isto, os que sobreviveram, ainda aproveitaram algo de bom como o conhecerem um pouco terras africanas, pessoas de outras raças onde abundam várias etnias, cada uma com seu dialecto e seus ancestrais costumes, bem característicos do continente africano, onde tudo é tão diferente, até o ar que se respira.

E foi com este saudosismo de meu marido, a minha curiosidade, pois quis ser como S.Tomé -“ver para crer”, que nasceu o sonho de umas férias na Guiné. Mas Férias destas não são muito fáceis de se realizarem para pessoas que, como nós, vivem de ordenados médios, criando dois filhos adolescentes com todos os gastos inerentes à sua educação, pagando empréstimo pela compra da casa e com as despesas normais de qualquer família. Mas como “o sonho comanda a vida” e com muita vontade, sacrificando muitas saídas nos fins-de-semana durante vários meses, o sonho tornou-se realidade no passado mês de Abril. Juntamente com outro casal amigo, (eles, homens, companheiros de guerra) então partimos rumo àquele país, onde outrora se via desfraldada a Bandeira das Quinas.

Sempre tive espírito de aventura, mas não minto se disser que tinha um certo receio pelo que poderíamos ir encontrar, pois era a primeira vez que ia a um pais africano e obviamente conviver com pessoas diferentes e com outro estilo de vida, além da duvida como iríamos ser recebidos, já que eles eram ex-combatentes.

Tudo isto se dissipou logo no primeiro momento de contacto com aquela terra pois desde a saída do avião as novas sensações que experimentei foram tantas que este espaço é pequeno para as enunciar.

Depois de uma volta por Bissau, que já não era aquela mesma cidade que eles conheceram entre 1972 e 74, pois agora é uma capital pobre, suja, com o piso das ruas muito degradado aguardando conserto sabe-se lá para quando, mas onde não vi pedintes nem crianças subalimentadas como as que sabemos existir noutros países africanos, já que a televisão isso nos mostra nos noticiários, coincidentemente quando a maioria das famílias está a jantar, partimos de barco para uma das muitas ilhas do Arquipélago de Bijagós, daquelas ditas de paradisíacas. E aí, sim, pensei estar no Paraíso, se é que ele existe. Lá conhecemos quatro casais portugueses, dois dos quais em lua-de-mel, e que haviam escolhido aquele local para passar uns dias de férias, inesquecíveis para todos nós.

Desfrutamos de um mar estupendo com águas quentes e calmas banhando um extenso areal onde a sombra das palmeiras se projectava de dia, e à noite era iluminado por um luar que antes eu nunca tinha visto. Este cenário real tinha como musica de fundo o chilrear da passarada exótica abundante naquelas zonas e que nos transmite uma sensação de paz e tranquilidade só possível de encontrar em locais como aquele.
Mas, além desta aguarela africana, o que de mais forte me impressionou foi o espírito aberto e generoso dos guineenses, com a sua espontânea vontade de serem gentis para connosco e dizendo-se honrados por já terem sido portugueses.

Quantos de nós sabem ou ainda se lembram do nome dos rios, seus afluentes, onde nascem e desaguam que atravessam Portugal e que aprendemos na escola primária? Pois alguns desses “homens grandes” (assim chamam aos mais velhos) com quem passei horas a conversar, conhecem mais sobre o nosso país do que muitos cá da terra. Isto porquê? Porque o sentimento que têm por um povo ao qual chamam de irmão não deixa que o cordão umbilical que nos uniu enquanto mesma nação ainda não esteja cortado, passados que estão quase vinte anos desde a sua independência.

Tudo isto se torna mais notável para mim, ao pensar que estas gentes sofreram e consequentemente ainda sofrem, no corpo e na alma os malefícios de uma guerra evitável para ambas as partes, mas para eles o inimigo era Portugal, na realidade era quem o governava, mas para eles era os que por lá andavam de arma na mão.
Mesmo no interior da ilha, pude ver como vivem as populações indígenas no seu habitat natural, praticamente sem contacto com o exterior, comendo do que a terra produz e o mar lhes dá. Ali mesmo e uma vez mais, vi a alegria daqueles homens e mulheres por estarem a falar connosco, não no seu dialecto mas em português, língua que lhes é muito querida por todo um passado recente.

Depois deste dias, pouco para quem queria conhecer muito mais daquele pequeno país, regressei ao meu que muito amo, mas trouxe muita saudade daquela terra e da sua gente, além de uma enorme vontade de poder lá voltar.

Agora já consigo entender todos aqueles que um dia por lá passaram e trouxeram um pedaço no coração, pois a Guiné embora esteja longe está bem mais perto do que parece.

Zélia Neno

Guiné 63/74 - DLXIV: Zélia, um caso de amor e paixão (III)

Texto da Zélia Neno, publicado no JN - Jornal de Notícias, em 19 Agosto de 1992



GUINÉ - TãO LONGE E TãO PERTO!

AFRICA! Quem nunca ouviu falar deste Continente, cheio de mistérios, outrora desbravado pelos nossos colonizadores e onde os portugueses enraizaram quinhentos anos da sua História?

Pois milhares de nós passaram por lá. Uns voluntariamente, procurando melhores condições de vida, pois África tinha muito para oferecer; outros, jovens que aos vinte anos, quando começavam a despertar para a vida, foram para lá empurrados, sem terem tempo sequer para compreender porque lhes haviam colocado uma arma na mão.

É com um destes jovens que me casei há dezassete anos, depois de haver cumprido o serviço militar na Guiné. Daí para cá tenho ouvido as suas narrativas pormenorizadas dos bons e maus momentos vividos no interior daquele mato, onde tudo lhes era adverso, pois para além da companhia dos colegas, só tinham a arma como "fiel companheira" e a solidão própria daquela situação.

Apesar disto, penso eu, a maior parte deles aprendeu o verdadeiro valor das palavras Amizade e Solidariedade, pois o viver em conjunto todos aqueles momentos, alguns bem difíceis de suportar, tentando sobreviver conforme podiam, auxiliando-se mutuamente, fez com que adquirissem valores morais que ainda hoje prevalecem no seu dia-a-dia, sendo frequente ouvi-los recordar com uma certa nostalgia esses anos vividos no seio da guerra, quando em cada dia existia a incerteza do dia seguinte.~

Apesar de tudo isto, os que sobreviveram, ainda aproveitaram algo de bom como o conhecerem um pouco terras africanas, pessoas de outras raças onde abundam várias etnias, cada uma com seu dialecto e seus ancestrais costumes, bem característicos do continente africano, onde tudo é tão diferente, até o ar que se respira.

E foi com este saudosismo de meu marido, a minha curiosidade, pois quis ser como S.Tomé -“ver para crer”, que nasceu o sonho de umas férias na Guiné. Mas Férias destas não são muito fáceis de se realizarem para pessoas que, como nós, vivem de ordenados médios, criando dois filhos adolescentes com todos os gastos inerentes à sua educação, pagando empréstimo pela compra da casa e com as despesas normais de qualquer família. Mas como “o sonho comanda a vida” e com muita vontade, sacrificando muitas saídas nos fins-de-semana durante vários meses, o sonho tornou-se realidade no passado mês de Abril. Juntamente com outro casal amigo, (eles, homens, companheiros de guerra) então partimos rumo àquele país, onde outrora se via desfraldada a Bandeira das Quinas.

Sempre tive espírito de aventura, mas não minto se disser que tinha um certo receio pelo que poderíamos ir encontrar, pois era a primeira vez que ia a um pais africano e obviamente conviver com pessoas diferentes e com outro estilo de vida, além da duvida como iríamos ser recebidos, já que eles eram ex-combatentes.

Tudo isto se dissipou logo no primeiro momento de contacto com aquela terra pois desde a saída do avião as novas sensações que experimentei foram tantas que este espaço é pequeno para as enunciar.

Depois de uma volta por Bissau, que já não era aquela mesma cidade que eles conheceram entre 1972 e 74, pois agora é uma capital pobre, suja, com o piso das ruas muito degradado aguardando conserto sabe-se lá para quando, mas onde não vi pedintes nem crianças subalimentadas como as que sabemos existir noutros países africanos, já que a televisão isso nos mostra nos noticiários, coincidentemente quando a maioria das famílias está a jantar, partimos de barco para uma das muitas ilhas do Arquipélago de Bijagós, daquelas ditas de paradisíacas. E aí, sim, pensei estar no Paraíso, se é que ele existe. Lá conhecemos quatro casais portugueses, dois dos quais em lua-de-mel, e que haviam escolhido aquele local para passar uns dias de férias, inesquecíveis para todos nós.

Desfrutamos de um mar estupendo com águas quentes e calmas banhando um extenso areal onde a sombra das palmeiras se projectava de dia, e à noite era iluminado por um luar que antes eu nunca tinha visto. Este cenário real tinha como musica de fundo o chilrear da passarada exótica abundante naquelas zonas e que nos transmite uma sensação de paz e tranquilidade só possível de encontrar em locais como aquele.
Mas, além desta aguarela africana, o que de mais forte me impressionou foi o espírito aberto e generoso dos guineenses, com a sua espontânea vontade de serem gentis para connosco e dizendo-se honrados por já terem sido portugueses.

Quantos de nós sabem ou ainda se lembram do nome dos rios, seus afluentes, onde nascem e desaguam que atravessam Portugal e que aprendemos na escola primária? Pois alguns desses “homens grandes” (assim chamam aos mais velhos) com quem passei horas a conversar, conhecem mais sobre o nosso país do que muitos cá da terra. Isto porquê? Porque o sentimento que têm por um povo ao qual chamam de irmão não deixa que o cordão umbilical que nos uniu enquanto mesma nação ainda não esteja cortado, passados que estão quase vinte anos desde a sua independência.

Tudo isto se torna mais notável para mim, ao pensar que estas gentes sofreram e consequentemente ainda sofrem, no corpo e na alma os malefícios de uma guerra evitável para ambas as partes, mas para eles o inimigo era Portugal, na realidade era quem o governava, mas para eles era os que por lá andavam de arma na mão.
Mesmo no interior da ilha, pude ver como vivem as populações indígenas no seu habitat natural, praticamente sem contacto com o exterior, comendo do que a terra produz e o mar lhes dá. Ali mesmo e uma vez mais, vi a alegria daqueles homens e mulheres por estarem a falar connosco, não no seu dialecto mas em português, língua que lhes é muito querida por todo um passado recente.

Depois deste dias, pouco para quem queria conhecer muito mais daquele pequeno país, regressei ao meu que muito amo, mas trouxe muita saudade daquela terra e da sua gente, além de uma enorme vontade de poder lá voltar.

Agora já consigo entender todos aqueles que um dia por lá passaram e trouxeram um pedaço no coração, pois a Guiné embora esteja longe está bem mais perto do que parece.

Zélia Neno

Guiné 63/74 - DLXIII: Zélia, um caso de amor e de paixão (II)

Guiné-Bissau > > 2005 > O Xico Allen em convívio com antigos combatentes do PAIGC .

© José Teixeira (2005)

Texto da Zélia Cardoso, mulher do Xico Allen, e nossa mais recente tertuliana.

Gaia, 15 de Janeiro de 2006

Como é normal em circunstâncias destas, começo por me apresentar: meu nome é Zélia Neno, tenho 52 anos, 2 filhos (1 casal de 28 e 27 anos), casada há 30 com o Xico Allen, ex-combatente (Empada, 1972/74) e que alguns dos tertulianos, de quem costumamos ambos ler os seus relatos no blogue, já bem conhecem (1).

Após casada, comecei a ter que conviver com os seus pesadelos que me conseguiam acordar e a ver quanto se assustava com o rebentar de um simples foguete no ar. Então comecei a pedir que me fosse contando aquela passada mas recente vivência que ainda o atormentava, pois receava que tal se mantivesse ao longo dos anos, o que me assustava, como é obvio.

Dizem que o tempo cura as feridas mas casos há em que é necessário abri-las, fazendo-as sangrar até, para limpar com um anti-séptico e então esperar que curem completamente.

E assim, durante anos, algumas vezes já deitados e antes do sono chegar, comecei a ouvir os seus relatos, revivendo os 27 meses vividos num cenário de guerra, sofrendo com toda aquela adversidade, onde para ele e todos os outros o estar vivo no dia seguinte era incerteza constanste.

Falar disto aos jovens de hoje pouco lhes diz pois foram crescendo vendo a guerra dos filmes, onde quase todos os enredos são ficcionados e quando aparece o END, viram costas e entram noutra.

À época, o Xico e eu, além de vizinhos, unia-nos uma amizade fraternal, mas quer por ele como por todos os nossos amigos distribuídos pelas várias colónias, eu também sofri e chorei, quer no momento da partida, quer pela saudade que a ausência provoca, quer com o que podiam contar nos aerogramas que me enviavam, alguns dos quais ainda guardo religiosamente.

Quase todos puderam vir passar as tão merecidas férias, mas já se notava que alguns tinham sido "apanhados pelo clima", e passado esse curto período tudo se repetia, com um "Adeus até ao meu regresso"...

Voltando ao tema das horas passadas ouvindo o Xico relembrar alguns dos momentos maus,outros menos maus, alguns divertidos e até caricatos, especialmente enquanto "periquito", a alegria que sentia ao rever um companheiro, pelo que quase logo tomou a iniciativa de os ir juntando anualmente num almoço de confraternização, nos quais eu também participava, despertando em mim cada vez mais curiosidade por aquele pedaço de terra, que lá a 4.000 Kms, se estava a tornar saudoso e nostálgico e que para mim era virtual.

Marrocos, a caminho da Guiné-Bissau > 2005 >Uma paragem técnica para revisão das viaturas. De pé, o Xico Allen (à esquerda) e o Camilo (à direita).

© José Teixeira (2005)


Decidimos então começar uma poupança para poder realizar um sonho que então já ambos alimentávamos, pois com 2 filhos adolescentes, pagar as prestações da casa, e os gastos inevitáveis na manutenção duma família, tivemos que sacrificar saídas nos fins-de-semana, férias fora do país e outras coisas, pois nunca devemos de abandonar os nossos sonhos sem nada fazermos para os tentar realizar, mesmo que alguns nunca se concretizem: - Não é o sonho que comanda a Vida ?

Em Abril de 1992, com outro casal amigo, ele fora companheiro do Xico em Empada, o Artur Ribeiro, depois de tratados todos os requisitos exigidos, desde vacinas a vistos de autorização no passaporte, lá partimos embora com alguns receios pois para nós, mulheres, era a primeira visita a um país africano, para os dois ex-combatentes era a dúvida como nos iriam receber uma vez que lá tinham combatido como inimigos.

Aterrámos era 1 da manhã, no mesmo velho e degradado aeroporto donde eles haviam partido, de regresso a casa, em Junho de 1974, na altura sem qualquer vontade de lá voltar, mas como "o coração tem razões que a própria Razão desconhece", ali estavam e mal as portas do avião se abriram, os receios se dissiparam.

Apesar da hora tardia encontrámos pessoas afáveis, educadas e gentis, instalando-nos no melhor e mais recente hotel de Bissau, o Sheraton Hotel, hoje Hotel Hotti, com atendimento e condições óptimas, condizentes com o nome que tinha.

No dia seguinte e como era óbvio, fomos dar uma volta pela cidade e falando com uns e com outros todos faziam questão de dizer que eram nossos irmãos, pois acabara a guerra mas as condições de vida e o próprio país caira na decadência bem visível aos nossos olhos, pois Bissau tornara-se numa cidade feia, com as ruas degradadas, mal cheirosas, onde o lixo se amontoava servindo de alimento aos abutres, o que nunca havia visto e infelizmente revi quando em 92, também na minha primeira visita ao Brasil, e no interior da Baía por onde andei 2 meses, me confrontava diariamente com estas degradantes situações.

Deixando Bissau, rumamos a um verdadeiro paraíso que são as Ilhas Bijagós, com praias de areia branca sobre as quais se debruçam palmeiras e coqueiros, banhadas por águas quentes e serenas das quais é extraído muito e variado peixe e cujo marulhar só se mistura com o chilrear da passarada exótica que ali existe, formando assim um cenário paradísíaco convidativo ao descanso do corpo e da mente.

Ali, assim como pelo interior da Guiné, onde verdadeiramente a guerra se desenrolou já não se via lixo mas sim os nativos semi-nus, vivendo nas tabancas, onde não existe luz nem água canalizada e cuja base de alimentação é fundamentalmente o arroz e frutos, como os deliciosos mangos e a fruta do cajueiro, cujo sumo é uma delicia, para além das suas propriedades benéficas para a saúde e que depois de fermentado se torna em vinho.

Guiné-Bissau > > 2005 > O Xico Allen (à direita) em convívio com habitantes locais, o Kebá (antigo milícia, à esqterda) e o Braima (antigo ajudante de enfermagem, vestido de azul, ao meio).

© José Teixeira (2005)



Nunca esquecerei esta primeira ida à Guiné, e lamento que poucas famílias portuguesas por ali passem, pois ao dar-lhes um lápis, uma aspirina ou um rebuçado recebemos como agradecimento um grande sorriso franco e terno e vemos um brilho no seu olhar que só aquelas gentes nos podem proporcionar, transmitindo-nos uma energia que nos faz meditar e crescer espiritualmente, pois vivemos noutra parte do mesmo mundo, rodeados pelas novas tecnologias mas onde reina uma ambição sem limites, geradora de ódios, crueldades e muita pouca Paz.

Será isto um dos mistérios que faz nascer a paixão por África a quem a visita pela 1ª vez? Em mim a dita paixão virou quase doença e assim em 94 lá voltamos, já 3 casais e novas experiências vivemos. Desta vez conseguimos ir a Empada, onde os nossos 3 homens tinham perdido talvez o melhor tempo da sua juventude interrompida.

Encontraram entre a população alguns ex-milícias da nossa tropa e outros, ex-combatentes mas do lado inimigo e então ali frente a frente, entre abraços, risos e algumas lágrimas, reviveram factos passados, distanciados pelo tempo mas sem dor nem rancor. Pediram que voltássemos mais vezes, dissemos que o faríamos sempre que a vida tal nos proporcionasse e assim, 2 anos volvidos, em 96,lá estávamos novamente, acompanhados por mais um outro casal amigo, de Viana, e que também ele estivera em Empada.

Em Maio de 98, só os dois lá fomos e como costume, super carregados de roupas, brinquedos, medicamentos e alguns comestíveis, tudo para por lá distribuir. Xico sempre se zangava comigo na hora da partida pois parecia que eu desconhecia que de avião cada passageiro só pode levar 30 kgs de bagagem a não ser que pague o excesso. Mas eu, confiando sempre na minha boa estrela, deixava-o resmungar pois logo se veria, já que pagar é que não fazia parte dos nossos planos. Chegados ao balcão do chek-in e pesadas as malas, o peso total atingia quase 130 kgs. Que fazer?

Enquanto ele resmungava pois sentia-se envergonhado perante tal situação, eu fui conversando com o gentil assistente, dizendo o que levava e porque o fazia, pois ia ao encontro de tantas carências quando as podia amenizar um pouco com tudo que ali estava, levando assim um pouco de felicidade e muita alegria sobretudo às crianças que nunca tinham tido um brinquedo de verdade. A minha argumentação conseguiu que a sua sensibilidade ultrapassasse o cumprimento das regras impostas e, já que não havia risco de perigo, pois se uns levam peso a mais outros levam a menos, o facto é que conseguimos levar tudo sem pagar mais por isso.

Lá chegados, passamos uns 2 dias em Bissau e num jipe alugado viajámos para o interior, tendo como destino Empada, onde estivemos 2 dias. Aí sim, a experiência foi única até hoje, pois dormimos, comemos e tomamos alguns banhos na tabanca, onde luz só a da lua, das estrelas e da nossa lanterna pois desde a saída da tropa portuguesa não mais houve energia assim como outros bens essenciais, desde material escolar, medicamentos e alimentação. Os banhos, se assim se podem chamar, eram feitos despejando cabaceiras cheias de água retirada de um poço que gentilmente algumas mulheres nos iam entregando, fazendo-os passar por cima de um cercado e que funcionava como banheiro e não só...

Quis cozinhar um almoço pois havia levado 1 kg de esparguete, o que causou muita alegria entre os homens já que não comiam tal coisa desde 74 e para tal pedi que matassem 2 "pica no chão" mas de tão pequeninos que eram mais pareciam pintos e então comecei a minha aventura.

Sentada numa das pedras que rodeiam a fogueira comunitária, situada no centro duma palhota onde as mulheres grandes fazem a comida e sob um calor intenso que rondava os 40 graus, eu lá consegui distribuir e estufar aqueles pedacitos de frango em 2 grandes tachos, colocando num o esparguete e no outro arroz e ainda hoje não sei como saiu tudo gostoso e se houve algum milagre como o da multiplicação dos pães, já que somente aquele esparguete e igual quantidade de arroz conseguiu chegar para mais de 40 pessoas, na maioria homens e alguns até repetiram.

Nunca tinha vivido nada assim, mas senti-me imensamente feliz. Afinal a Felicidade não é mais do que o conjunto de momentos felizes que vivemos durante a nossa vida. No sábado regressámos a Bissau, onde outra grande aventura nos aguardava mas é demasiado longa assim como tantas outras para as inserir aqui, regresso esse devido a que no domingo à noite, com a chegada do avião,iria juntar-se a nós um grupo de 10 pessoas, 7 deles ex-combatentes, na sua 1ª romagem de saudade, que como todos os outros era a concretização de um sonho, sendo um deles o Sr. Casimiro, aqui do Porto, que se fez acompanhar pelo seu jovem genro, o Carlos, e outros seus amigos e companheiros de guerra, tendo então eu a oportunidade de conhecer o Sr.Armindo, de Moreira de Cónegos, o Sr. Camilo, do Algarve, o Sr. Pauleri, de Vizela, o Sr.Amílcar, aqui de Gaia, único que levou a esposa sendo assim eu beneficiada pois tive companheira para o resto da estadia e dos restantes lamentavelmente não me recordo dos nomes.

O que não esquecerei nunca, foi poder ver a alegria misturada com a emoção, quando chegámos a Jumbembem, local bem conhecido deles, pois mais não me pareciam do que crianças irrequietas em pleno Portugal dos Pequeninos, tentando ver todo o canto e recanto onde viveram outrora.

Esta foi até hoje, 2006, a minha ultima visita à Guiné. Porquê ? Porque um amigo convence outro e este mais outro e outro, e estas viagens passaram a ser anuais, 3 das quais foram por via terrestre em jipes referenciados como Missão Humanitária pois têm ido carregados de material escolar e medicamentos e penso que iria empecilhar o grupo, devido à ausência feminina. Não sei se isto acontece por falta de vontade dos maridos ou das esposas pensando que não vale a pena ir à Guiné já que existem tantos destinos para passar férias bem mais conhecidos ! ! !

Posso afirmar que para nós mulheres, que já lá estivemos, em momento algum nos arrependemos de o ter feito, bem antes pelo contrário, não só pelas experiências vividas no contacto com um povo cuja vida, costumes e ideais são tão diferentes dos nossos mas também porque a partir de então, ouvir nossos maridos falar daquele pedaço de chão com cerca de 36.000 klms quadrados, já visualizamos o cenário que para nós deixou de ser virtual.

Para os homens estas viagens, além de "romagem de saudade",servem para alguns deles exorcizarem algum fantasma da guerra que infelizmente tem destruido a saúde e a vida de muitos ex-combatentes e consequentemente de suas famílias, pois embora sem rosto visível tem nome-: Stress de guerra pós-traumático.

Não sendo perita neste assunto que em cada ano que passa faz mais vitimas, a minha opinião é que todos aqueles que podem e ainda têm saúde para isso, voltem a esses lugares, sejam em Angola, Moçambique ou Guiné.

Entretanto a próxima ida do Xico, via terrestre, está para breve com os preparativos já a decorrer mas com ele irão uns 5 ou 6 amigos, entre os quais o Sr.Armindo e o Hugo, filho do Sr.Albano, da Foto Guifões, que apesar de tão jovem já é a 2ª vez que lá vai e os restantes do grupo, Sr.Casimiro e C.A. seguirão de avião após uns dias, tentando chegar a Bissau em simultâneo, Até lá que Deus a todos acompanhe.

Perdoem esta minha intromissão e tão alongado texto, mas como meu marido diz, sou um perigo a falar ou escrever sobre a Guiné, pois não me canso de o fazer mas devo cansar quem me empresta os ouvidos, neste caso os olhos.

Zélia Neno

_____________


Notas de L.G.

(1) Vd posts de

16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXVI: O Xico de Empada, grande amigo dos guinéus (Albano Costa)


31 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDV: a tertúlia do Porto

Guiné 63/74 - DLXIII: Zélia, um caso de amor e de paixão (II)

Guiné-Bissau > > 2005 > O Xico Allen em convívio com antigos combatentes do PAIGC .

© José Teixeira (2005)

Texto da Zélia Cardoso, mulher do Xico Allen, e nossa mais recente tertuliana.

Gaia, 15 de Janeiro de 2006

Como é normal em circunstâncias destas, começo por me apresentar: meu nome é Zélia Neno, tenho 52 anos, 2 filhos (1 casal de 28 e 27 anos), casada há 30 com o Xico Allen, ex-combatente (Empada, 1972/74) e que alguns dos tertulianos, de quem costumamos ambos ler os seus relatos no blogue, já bem conhecem (1).

Após casada, comecei a ter que conviver com os seus pesadelos que me conseguiam acordar e a ver quanto se assustava com o rebentar de um simples foguete no ar. Então comecei a pedir que me fosse contando aquela passada mas recente vivência que ainda o atormentava, pois receava que tal se mantivesse ao longo dos anos, o que me assustava, como é obvio.

Dizem que o tempo cura as feridas mas casos há em que é necessário abri-las, fazendo-as sangrar até, para limpar com um anti-séptico e então esperar que curem completamente.

E assim, durante anos, algumas vezes já deitados e antes do sono chegar, comecei a ouvir os seus relatos, revivendo os 27 meses vividos num cenário de guerra, sofrendo com toda aquela adversidade, onde para ele e todos os outros o estar vivo no dia seguinte era incerteza constanste.

Falar disto aos jovens de hoje pouco lhes diz pois foram crescendo vendo a guerra dos filmes, onde quase todos os enredos são ficcionados e quando aparece o END, viram costas e entram noutra.

À época, o Xico e eu, além de vizinhos, unia-nos uma amizade fraternal, mas quer por ele como por todos os nossos amigos distribuídos pelas várias colónias, eu também sofri e chorei, quer no momento da partida, quer pela saudade que a ausência provoca, quer com o que podiam contar nos aerogramas que me enviavam, alguns dos quais ainda guardo religiosamente.

Quase todos puderam vir passar as tão merecidas férias, mas já se notava que alguns tinham sido "apanhados pelo clima", e passado esse curto período tudo se repetia, com um "Adeus até ao meu regresso"...

Voltando ao tema das horas passadas ouvindo o Xico relembrar alguns dos momentos maus,outros menos maus, alguns divertidos e até caricatos, especialmente enquanto "periquito", a alegria que sentia ao rever um companheiro, pelo que quase logo tomou a iniciativa de os ir juntando anualmente num almoço de confraternização, nos quais eu também participava, despertando em mim cada vez mais curiosidade por aquele pedaço de terra, que lá a 4.000 Kms, se estava a tornar saudoso e nostálgico e que para mim era virtual.

Marrocos, a caminho da Guiné-Bissau > 2005 >Uma paragem técnica para revisão das viaturas. De pé, o Xico Allen (à esquerda) e o Camilo (à direita).

© José Teixeira (2005)


Decidimos então começar uma poupança para poder realizar um sonho que então já ambos alimentávamos, pois com 2 filhos adolescentes, pagar as prestações da casa, e os gastos inevitáveis na manutenção duma família, tivemos que sacrificar saídas nos fins-de-semana, férias fora do país e outras coisas, pois nunca devemos de abandonar os nossos sonhos sem nada fazermos para os tentar realizar, mesmo que alguns nunca se concretizem: - Não é o sonho que comanda a Vida ?

Em Abril de 1992, com outro casal amigo, ele fora companheiro do Xico em Empada, o Artur Ribeiro, depois de tratados todos os requisitos exigidos, desde vacinas a vistos de autorização no passaporte, lá partimos embora com alguns receios pois para nós, mulheres, era a primeira visita a um país africano, para os dois ex-combatentes era a dúvida como nos iriam receber uma vez que lá tinham combatido como inimigos.

Aterrámos era 1 da manhã, no mesmo velho e degradado aeroporto donde eles haviam partido, de regresso a casa, em Junho de 1974, na altura sem qualquer vontade de lá voltar, mas como "o coração tem razões que a própria Razão desconhece", ali estavam e mal as portas do avião se abriram, os receios se dissiparam.

Apesar da hora tardia encontrámos pessoas afáveis, educadas e gentis, instalando-nos no melhor e mais recente hotel de Bissau, o Sheraton Hotel, hoje Hotel Hotti, com atendimento e condições óptimas, condizentes com o nome que tinha.

No dia seguinte e como era óbvio, fomos dar uma volta pela cidade e falando com uns e com outros todos faziam questão de dizer que eram nossos irmãos, pois acabara a guerra mas as condições de vida e o próprio país caira na decadência bem visível aos nossos olhos, pois Bissau tornara-se numa cidade feia, com as ruas degradadas, mal cheirosas, onde o lixo se amontoava servindo de alimento aos abutres, o que nunca havia visto e infelizmente revi quando em 92, também na minha primeira visita ao Brasil, e no interior da Baía por onde andei 2 meses, me confrontava diariamente com estas degradantes situações.

Deixando Bissau, rumamos a um verdadeiro paraíso que são as Ilhas Bijagós, com praias de areia branca sobre as quais se debruçam palmeiras e coqueiros, banhadas por águas quentes e serenas das quais é extraído muito e variado peixe e cujo marulhar só se mistura com o chilrear da passarada exótica que ali existe, formando assim um cenário paradísíaco convidativo ao descanso do corpo e da mente.

Ali, assim como pelo interior da Guiné, onde verdadeiramente a guerra se desenrolou já não se via lixo mas sim os nativos semi-nus, vivendo nas tabancas, onde não existe luz nem água canalizada e cuja base de alimentação é fundamentalmente o arroz e frutos, como os deliciosos mangos e a fruta do cajueiro, cujo sumo é uma delicia, para além das suas propriedades benéficas para a saúde e que depois de fermentado se torna em vinho.

Guiné-Bissau > > 2005 > O Xico Allen (à direita) em convívio com habitantes locais, o Kebá (antigo milícia, à esqterda) e o Braima (antigo ajudante de enfermagem, vestido de azul, ao meio).

© José Teixeira (2005)



Nunca esquecerei esta primeira ida à Guiné, e lamento que poucas famílias portuguesas por ali passem, pois ao dar-lhes um lápis, uma aspirina ou um rebuçado recebemos como agradecimento um grande sorriso franco e terno e vemos um brilho no seu olhar que só aquelas gentes nos podem proporcionar, transmitindo-nos uma energia que nos faz meditar e crescer espiritualmente, pois vivemos noutra parte do mesmo mundo, rodeados pelas novas tecnologias mas onde reina uma ambição sem limites, geradora de ódios, crueldades e muita pouca Paz.

Será isto um dos mistérios que faz nascer a paixão por África a quem a visita pela 1ª vez? Em mim a dita paixão virou quase doença e assim em 94 lá voltamos, já 3 casais e novas experiências vivemos. Desta vez conseguimos ir a Empada, onde os nossos 3 homens tinham perdido talvez o melhor tempo da sua juventude interrompida.

Encontraram entre a população alguns ex-milícias da nossa tropa e outros, ex-combatentes mas do lado inimigo e então ali frente a frente, entre abraços, risos e algumas lágrimas, reviveram factos passados, distanciados pelo tempo mas sem dor nem rancor. Pediram que voltássemos mais vezes, dissemos que o faríamos sempre que a vida tal nos proporcionasse e assim, 2 anos volvidos, em 96,lá estávamos novamente, acompanhados por mais um outro casal amigo, de Viana, e que também ele estivera em Empada.

Em Maio de 98, só os dois lá fomos e como costume, super carregados de roupas, brinquedos, medicamentos e alguns comestíveis, tudo para por lá distribuir. Xico sempre se zangava comigo na hora da partida pois parecia que eu desconhecia que de avião cada passageiro só pode levar 30 kgs de bagagem a não ser que pague o excesso. Mas eu, confiando sempre na minha boa estrela, deixava-o resmungar pois logo se veria, já que pagar é que não fazia parte dos nossos planos. Chegados ao balcão do chek-in e pesadas as malas, o peso total atingia quase 130 kgs. Que fazer?

Enquanto ele resmungava pois sentia-se envergonhado perante tal situação, eu fui conversando com o gentil assistente, dizendo o que levava e porque o fazia, pois ia ao encontro de tantas carências quando as podia amenizar um pouco com tudo que ali estava, levando assim um pouco de felicidade e muita alegria sobretudo às crianças que nunca tinham tido um brinquedo de verdade. A minha argumentação conseguiu que a sua sensibilidade ultrapassasse o cumprimento das regras impostas e, já que não havia risco de perigo, pois se uns levam peso a mais outros levam a menos, o facto é que conseguimos levar tudo sem pagar mais por isso.

Lá chegados, passamos uns 2 dias em Bissau e num jipe alugado viajámos para o interior, tendo como destino Empada, onde estivemos 2 dias. Aí sim, a experiência foi única até hoje, pois dormimos, comemos e tomamos alguns banhos na tabanca, onde luz só a da lua, das estrelas e da nossa lanterna pois desde a saída da tropa portuguesa não mais houve energia assim como outros bens essenciais, desde material escolar, medicamentos e alimentação. Os banhos, se assim se podem chamar, eram feitos despejando cabaceiras cheias de água retirada de um poço que gentilmente algumas mulheres nos iam entregando, fazendo-os passar por cima de um cercado e que funcionava como banheiro e não só...

Quis cozinhar um almoço pois havia levado 1 kg de esparguete, o que causou muita alegria entre os homens já que não comiam tal coisa desde 74 e para tal pedi que matassem 2 "pica no chão" mas de tão pequeninos que eram mais pareciam pintos e então comecei a minha aventura.

Sentada numa das pedras que rodeiam a fogueira comunitária, situada no centro duma palhota onde as mulheres grandes fazem a comida e sob um calor intenso que rondava os 40 graus, eu lá consegui distribuir e estufar aqueles pedacitos de frango em 2 grandes tachos, colocando num o esparguete e no outro arroz e ainda hoje não sei como saiu tudo gostoso e se houve algum milagre como o da multiplicação dos pães, já que somente aquele esparguete e igual quantidade de arroz conseguiu chegar para mais de 40 pessoas, na maioria homens e alguns até repetiram.

Nunca tinha vivido nada assim, mas senti-me imensamente feliz. Afinal a Felicidade não é mais do que o conjunto de momentos felizes que vivemos durante a nossa vida. No sábado regressámos a Bissau, onde outra grande aventura nos aguardava mas é demasiado longa assim como tantas outras para as inserir aqui, regresso esse devido a que no domingo à noite, com a chegada do avião,iria juntar-se a nós um grupo de 10 pessoas, 7 deles ex-combatentes, na sua 1ª romagem de saudade, que como todos os outros era a concretização de um sonho, sendo um deles o Sr. Casimiro, aqui do Porto, que se fez acompanhar pelo seu jovem genro, o Carlos, e outros seus amigos e companheiros de guerra, tendo então eu a oportunidade de conhecer o Sr.Armindo, de Moreira de Cónegos, o Sr. Camilo, do Algarve, o Sr. Pauleri, de Vizela, o Sr.Amílcar, aqui de Gaia, único que levou a esposa sendo assim eu beneficiada pois tive companheira para o resto da estadia e dos restantes lamentavelmente não me recordo dos nomes.

O que não esquecerei nunca, foi poder ver a alegria misturada com a emoção, quando chegámos a Jumbembem, local bem conhecido deles, pois mais não me pareciam do que crianças irrequietas em pleno Portugal dos Pequeninos, tentando ver todo o canto e recanto onde viveram outrora.

Esta foi até hoje, 2006, a minha ultima visita à Guiné. Porquê ? Porque um amigo convence outro e este mais outro e outro, e estas viagens passaram a ser anuais, 3 das quais foram por via terrestre em jipes referenciados como Missão Humanitária pois têm ido carregados de material escolar e medicamentos e penso que iria empecilhar o grupo, devido à ausência feminina. Não sei se isto acontece por falta de vontade dos maridos ou das esposas pensando que não vale a pena ir à Guiné já que existem tantos destinos para passar férias bem mais conhecidos ! ! !

Posso afirmar que para nós mulheres, que já lá estivemos, em momento algum nos arrependemos de o ter feito, bem antes pelo contrário, não só pelas experiências vividas no contacto com um povo cuja vida, costumes e ideais são tão diferentes dos nossos mas também porque a partir de então, ouvir nossos maridos falar daquele pedaço de chão com cerca de 36.000 klms quadrados, já visualizamos o cenário que para nós deixou de ser virtual.

Para os homens estas viagens, além de "romagem de saudade",servem para alguns deles exorcizarem algum fantasma da guerra que infelizmente tem destruido a saúde e a vida de muitos ex-combatentes e consequentemente de suas famílias, pois embora sem rosto visível tem nome-: Stress de guerra pós-traumático.

Não sendo perita neste assunto que em cada ano que passa faz mais vitimas, a minha opinião é que todos aqueles que podem e ainda têm saúde para isso, voltem a esses lugares, sejam em Angola, Moçambique ou Guiné.

Entretanto a próxima ida do Xico, via terrestre, está para breve com os preparativos já a decorrer mas com ele irão uns 5 ou 6 amigos, entre os quais o Sr.Armindo e o Hugo, filho do Sr.Albano, da Foto Guifões, que apesar de tão jovem já é a 2ª vez que lá vai e os restantes do grupo, Sr.Casimiro e C.A. seguirão de avião após uns dias, tentando chegar a Bissau em simultâneo, Até lá que Deus a todos acompanhe.

Perdoem esta minha intromissão e tão alongado texto, mas como meu marido diz, sou um perigo a falar ou escrever sobre a Guiné, pois não me canso de o fazer mas devo cansar quem me empresta os ouvidos, neste caso os olhos.

Zélia Neno

_____________


Notas de L.G.

(1) Vd posts de

16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXVI: O Xico de Empada, grande amigo dos guinéus (Albano Costa)


31 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDV: a tertúlia do Porto

Guiné 63/74 - DLXII: Zélia, um caso de amor e de paixão (I)

A Zélia, de quem eu já tinha ouvido falar, no último Natal, na nossa minitertúlia do Porto-Matosinhos-Gaia, é o que se pode chamar, com toda a justiça, uma mulher de armas, uma mulher do Norte, uma caso sério de amor e de paixão (pelo seu Allen mas também pela Guiné e o seu povo)... Foi, por mor (como se diz no Norte) da guerra e do stresse pós-traumático da guerra, que ele acompanhou o marido à Guiné, em 1992, e já lá voltou várias vezes...

Fico muito honrado por publicar esta carta e, por desde já, convidá-la sem mais demoras a figurar no quadro de honra da nossa tertúlia (a ela e ao Allen, pois claro!). A Zélia (trato-o como se a conhecesse há anos!...) mandou-me mais documentos que serão inseridos no blogue ainda este fim de semana.

Quanto às lendas fulas e mandingas (que eu adoro!), recolhidas por Manuel Dias Belchior, deve haver exemplares nas nossas bibliotecas públicas, a começar pela Biblioteca Nacional. Depois tratamos disso.

Zélia: Fiquei muito sensibilizado pela tua carta. A partir de agora, como nova tertuliana,e de acordo com as regras do nosso blogue e da nossa tertúlia, o tratamento é por tu, com o respeito que é devido a qualquer camarada, independentemente do género e da arma. Um xicoração para o Xico (Allen). Luís Graça

_________________

Porto, 2006-02-16

De: Zélia Maria Neno Cardoso

Luís Graça:

Achará estranho receber este email enviado por uma mulher do
Blogue-Fora-Nada, onde se encontram largas centenas de quilómetros de palavras
sobre a Guiné.

O senhor não me conhece, o mesmo não acontece comigo, pois não só através da escrita como por foto. Sou casada com o Xico Allen, que o senhor conhece mas ainda não é tertuliano, mas foi ele que há meses me alertou para a existência deste blogue e como sou uma verdadeira amante da Guiné e da sua História, passada, presente e futura, que lamentavelmente teima em não vir a ser bem mais favorável para aquele seu povo tão sofredor, estou quase viciada a diariamente ler o que vão contando no blogue.
Por influência do Sr.Albano [Costa] e até do Sr.[José] Teixeira, que conheço pessoalmente pois ambos já foram à Guiné com o meu marido, fui incentivada a escrever
contando algumas (pois são muitas) das minhas vivências naquela maravilhosa
terra que conheci em Março de 92, conforme conto no texto inicial e que enviei
para o senhor no passado dia 15 Janeiro [por erro no endereço de -mail, não deve ter chegado, pelo que se volta a enviar].

Não abordo factos da guerra que não vivi, embora seja esse o tema do blogue,
mas com ela está relacionado, pois por ela ter existido é que já
lá fui 4 vezes. A principal intenção foi dar um empurrãozinho a quem
ainda quer mas tem receio de lá ir e de algumas esposas de ex-combatentes
também o poderem fazer, pois nada há a recear.

Nós, dois casais, fomos quase pioneiros destas viagens, pois em Bissau já alguns ex-combatentes tinham ido, especialmente por razões de trabalho, mas bem lá no interior nunca mais por lá passara nenhum branco ex-combatente, muito menos acompanhados pelas
mulheres e em férias.

Desta 1ºviagem vou tentar enviar ao senhor um outro texto que escrevi na altura
e saiu publicado no Jornal de Notícias, em 19 Agosto de 1992, onde desde logo se pode verificar o sentimento que me deixou ligada à Guiné.

Para além de já ter lido alguns livros sobre os anos desta guerra sem sentido,
(teria para alguns!!!), pois meu marido tem uma substancial biblioteca sobre
este assunto, nesta ocasião estou a ler um pequeno livro, fotocopiado de um
original muito antigo e que me foi oferecido há alguns anos por um jovem
colega da Portugal Telecom, cujo pai então já falecido, cumprira o serviço
militar na Guiné quando a Guerra iniciou e de lá trouxera o tal exemplar cujo
titulo é: Grandeza Africana - Lendas da Guiné Portuguesa - fulas e mandingas, escrito por um tal Dr.Manuel Dias Belchior que viveu a sua carreira
administrativa no Ultramar entre 1932 e 1961, tendo sido investigador da Junta
de Investigações do Ultramar e foi nessa condição que na Guiné fez um levantamento de antigas lendas (Sec.XIII,XIV e XV), juntando as devidas anotações históricas e etnográficas. O prefácio sido escrito pelo seu amigo de então, Major Carlos Gomes Bessa, Comissário Adjunto para o Ultramar da Mocidade Portuguesa.

Como diz o autor,"...elas fazem parte do património histórico e intelectual dos mandingas e fulas da Guiné Portuguesa...". Hoje haverá algum fula ou mandinga que conheça este dito património? Será que algures ainda existe um exemplar deste livrinho?

Para mim ou pessoas como eu, que gostando das estórias que fazem a História de qualquer país lêem isto pelo prazer, tal não será muito importante, mas talvez alguns guineenses gostassem de as conhecer para descobrir a origem e como nasceu aquele pedaço de chão a que foi posto o nome de Guiné.

Se eu puder contribuir par tal, não me importo de as transcrever, só não sei
para onde e talvez aí o senhor me possa dar a sua opinião, que desde já agradeço.

Parabéns pelo blogue e a todos que nele contribuem com seus depoimentos dando a
possibilidade aos interessados no assunto de ficarem a saber mais e aos nossos
jovens que vivem ligados à Internet, por procura ou casualidade lá
passem, leiam para se convencerem que a guerra que alguns de seus pais sofreram
no corpo e na alma não é ficção.

Para finalizar e segundo julgo saber, o senhor ainda não foi à Guiné do pós-guerra. Porquê? Não esqueça que O POVO MAIS GENTIO É O DA GUINÈ !! Atenciosamente. Zélia

Guiné 63/74 - DLXII: Zélia, um caso de amor e de paixão (I)

A Zélia, de quem eu já tinha ouvido falar, no último Natal, na nossa minitertúlia do Porto-Matosinhos-Gaia, é o que se pode chamar, com toda a justiça, uma mulher de armas, uma mulher do Norte, uma caso sério de amor e de paixão (pelo seu Allen mas também pela Guiné e o seu povo)... Foi, por mor (como se diz no Norte) da guerra e do stresse pós-traumático da guerra, que ele acompanhou o marido à Guiné, em 1992, e já lá voltou várias vezes...

Fico muito honrado por publicar esta carta e, por desde já, convidá-la sem mais demoras a figurar no quadro de honra da nossa tertúlia (a ela e ao Allen, pois claro!). A Zélia (trato-o como se a conhecesse há anos!...) mandou-me mais documentos que serão inseridos no blogue ainda este fim de semana.

Quanto às lendas fulas e mandingas (que eu adoro!), recolhidas por Manuel Dias Belchior, deve haver exemplares nas nossas bibliotecas públicas, a começar pela Biblioteca Nacional. Depois tratamos disso.

Zélia: Fiquei muito sensibilizado pela tua carta. A partir de agora, como nova tertuliana,e de acordo com as regras do nosso blogue e da nossa tertúlia, o tratamento é por tu, com o respeito que é devido a qualquer camarada, independentemente do género e da arma. Um xicoração para o Xico (Allen). Luís Graça

_________________

Porto, 2006-02-16

De: Zélia Maria Neno Cardoso

Luís Graça:

Achará estranho receber este email enviado por uma mulher do
Blogue-Fora-Nada, onde se encontram largas centenas de quilómetros de palavras
sobre a Guiné.

O senhor não me conhece, o mesmo não acontece comigo, pois não só através da escrita como por foto. Sou casada com o Xico Allen, que o senhor conhece mas ainda não é tertuliano, mas foi ele que há meses me alertou para a existência deste blogue e como sou uma verdadeira amante da Guiné e da sua História, passada, presente e futura, que lamentavelmente teima em não vir a ser bem mais favorável para aquele seu povo tão sofredor, estou quase viciada a diariamente ler o que vão contando no blogue.
Por influência do Sr.Albano [Costa] e até do Sr.[José] Teixeira, que conheço pessoalmente pois ambos já foram à Guiné com o meu marido, fui incentivada a escrever
contando algumas (pois são muitas) das minhas vivências naquela maravilhosa
terra que conheci em Março de 92, conforme conto no texto inicial e que enviei
para o senhor no passado dia 15 Janeiro [por erro no endereço de -mail, não deve ter chegado, pelo que se volta a enviar].

Não abordo factos da guerra que não vivi, embora seja esse o tema do blogue,
mas com ela está relacionado, pois por ela ter existido é que já
lá fui 4 vezes. A principal intenção foi dar um empurrãozinho a quem
ainda quer mas tem receio de lá ir e de algumas esposas de ex-combatentes
também o poderem fazer, pois nada há a recear.

Nós, dois casais, fomos quase pioneiros destas viagens, pois em Bissau já alguns ex-combatentes tinham ido, especialmente por razões de trabalho, mas bem lá no interior nunca mais por lá passara nenhum branco ex-combatente, muito menos acompanhados pelas
mulheres e em férias.

Desta 1ºviagem vou tentar enviar ao senhor um outro texto que escrevi na altura
e saiu publicado no Jornal de Notícias, em 19 Agosto de 1992, onde desde logo se pode verificar o sentimento que me deixou ligada à Guiné.

Para além de já ter lido alguns livros sobre os anos desta guerra sem sentido,
(teria para alguns!!!), pois meu marido tem uma substancial biblioteca sobre
este assunto, nesta ocasião estou a ler um pequeno livro, fotocopiado de um
original muito antigo e que me foi oferecido há alguns anos por um jovem
colega da Portugal Telecom, cujo pai então já falecido, cumprira o serviço
militar na Guiné quando a Guerra iniciou e de lá trouxera o tal exemplar cujo
titulo é: Grandeza Africana - Lendas da Guiné Portuguesa - fulas e mandingas, escrito por um tal Dr.Manuel Dias Belchior que viveu a sua carreira
administrativa no Ultramar entre 1932 e 1961, tendo sido investigador da Junta
de Investigações do Ultramar e foi nessa condição que na Guiné fez um levantamento de antigas lendas (Sec.XIII,XIV e XV), juntando as devidas anotações históricas e etnográficas. O prefácio sido escrito pelo seu amigo de então, Major Carlos Gomes Bessa, Comissário Adjunto para o Ultramar da Mocidade Portuguesa.

Como diz o autor,"...elas fazem parte do património histórico e intelectual dos mandingas e fulas da Guiné Portuguesa...". Hoje haverá algum fula ou mandinga que conheça este dito património? Será que algures ainda existe um exemplar deste livrinho?

Para mim ou pessoas como eu, que gostando das estórias que fazem a História de qualquer país lêem isto pelo prazer, tal não será muito importante, mas talvez alguns guineenses gostassem de as conhecer para descobrir a origem e como nasceu aquele pedaço de chão a que foi posto o nome de Guiné.

Se eu puder contribuir par tal, não me importo de as transcrever, só não sei
para onde e talvez aí o senhor me possa dar a sua opinião, que desde já agradeço.

Parabéns pelo blogue e a todos que nele contribuem com seus depoimentos dando a
possibilidade aos interessados no assunto de ficarem a saber mais e aos nossos
jovens que vivem ligados à Internet, por procura ou casualidade lá
passem, leiam para se convencerem que a guerra que alguns de seus pais sofreram
no corpo e na alma não é ficção.

Para finalizar e segundo julgo saber, o senhor ainda não foi à Guiné do pós-guerra. Porquê? Não esqueça que O POVO MAIS GENTIO É O DA GUINÈ !! Atenciosamente. Zélia