14 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DXXXIV: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (8): Gazela com chouriço à moda do Celestino

Guiné > Guileje > CART 1613 > 1968> Aspectos da construção de uma abrigo-caserna...

© José Neto (2005)

VIII parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado) (1).

© José Neto (2005)


O ano de 1968 entrou com uma novidade.

O esforço sobre o corredor de Guilege diminuiu de intensidade e a actividade operacional concentrou-se mais para a zona da fronteira, com a prioridade de manter seguro o itinerário Gadamael Porto – Guilege.

Estavam para chegar as CAÇ 2316 e 2317 que iam acantonar, em condições precárias, no Mejo e em Guilege com vista a qualquer acção em grande que estava no segredo dos Deuses de Bissau.

As colunas de reabastecimento passaram a ser mais frequentes e despejaram toneladas de mantimentos numa zona contígua ao perímetro fortificado que foi desminado e aplanado para o efeito.

Numa destas colunas, o Alferes Michael, que teimava em postar-se bem alto na torre da sua Fox, até já tinha sofrido ferimentos ligeiros, foi atingido com alguma gravidade pelo fogo duma emboscada.

Veio o helicóptero para a evacuação e foi a muito custo que a 2º sargento enfermeira paraquedista convenceu o Alferes a deitar-se na maca para ir para o hospital. Era um bravo este alferes. Uma semana depois, ainda cheio de pensos, voltou para junto dos seus homens.

Ao mesmo tempo apareceram-nos uns civis e uma secção de Engenharia, comandada por um sargento, com material para abrir um furo hertziano na área do quartel para obtenção da preciosa água potável.

Estes tiveram o azar de apanhar um festival corriqueiro logo à chegada e, após uma semana de perfuração ao ralenti, um olho na máquina e outro na mata, diagnosticaram a impossibilidade de apanhar um qualquer lençol subterrâneo de água que passasse por ali, desmontaram a traquineta e puseram-se a andar para o sossego de Bissau.

Guiné > Guileje > CART 1613 > 1968> Construção de um abrigo para a população civil...

© José Neto (2005)


Entretanto chegaram as duas companhias, pertencentes ao BCAÇ 2835 e tivemos notícias de que a 5ª Companhia de Comandos (comandada pelo Capitão de Artilharia Comando Gonçalves) tinha sido afecta ao nosso Batalhão e estava pronta a actuar na área de Aldeia Formosa, o que adensava as expectativas do que ia suceder nos próximos tempos.
A chegada dum pelotão de Artilharia de 8,8 cm com quatro bocas de fogo, instaladas com a direcção nor-nordeste, acabou com as dúvidas de que ia haver “porrada de criar bicho”.

E no dia D, fins de Fevereiro, desencadeou-se a Operação Bola de Fogo.

A finalidade desta mega-operação era implantar um aquartelamento em Gandembel, perto da ponte do rio Balana, a ser reconstruída e guarnecida com um destacamento de segurança, sensivelmente a meio caminho entre Guilege e Chamarra.

Aquele local era praticamente o grande portão de entrada do Corredor de Guilege e assim pretendia-se, se não acabar, pelo menos dificultar a penetração do IN no interior sul do território.

A primeira fase consistia em limpar e tornar transitável a picada, havia anos abandonada, que ia do cruzamento de Guilege a Gandembel, ou seja, a continuação do itinerário Cacine – Gadamael – Gandembel e daí para norte até Aldeia Formosa. Esta primeira fase da operação estava a ser comandada, a partir de Guilege, pelo Celestino (1).

Foi então que ele me ameaçou pela quinta (e última) vez com uma porrada. Para descomprimir vale a pena contar a cena:

O pessoal combatente tinha saído quase todo e, contando com a besta, estávamos vinte e três militares europeus no quartel. A segurança era feita pelo Pel Caç Nat 51 e Milícias.

Durante a noite anterior tinha sido accionada uma das nossas armadilhas e de manhã deparamos com uma gazela morta no local.

Claro que o Álvaro, cabo cozinheiro, se preparou para ser dia de rancho melhorado. Não era todos os dias que nos aparecia a gostosa e suculenta carne fresquinha de gazela.

Como era da praxe, foi anunciar ao Celestino a composição da refeição, neste caso o almoço. Este, fazendo jus à sua fama de bom garfo, disse ao Álvaro para juntar uma lata de chouriço (dois quilos) para refinar a especialidade gastronómica.

Um tanto encavacado o cozinheiro observou que o animal tinha dado vinte e dois quilos de carne limpa o que, para vinte e três comensais, chegava e sobrava.
-Faça o que eu lhe mando! - berrou o Celestino.

De cabeça baixa, o Álvaro retirou-se congeminando o processo de o quarteleiro dos géneros, o soldado Melo, lhe fornecer a lata de chouriço.

O Melo não foi na cantiga. Ele conhecia bem as regras adoptadas para a recuperação dos prejuízos que já descrevi, e chutou a bola para mim.

Tomei a decisão de não se meter chouriço no tacho, mas levar, para os oficiais, um prato com um desses enchidos cortado às rodelas e preparei-me para o temporal que se adivinhava.


Guiné > Guileje > CART 1613 > 1969> O nosso primeiro posando com uma graciosa bajuda da tabanca

© José Neto (2005)

Quando o Celestino enfiou o guardanapo no colarinho e inspeccionou o manjar, ordenou que o cozinheiro viesse à sua real presença.O Álvaro passou pelo sítio onde eu estava a almoçar e disse-me que o comandante, se calhasse, o ia mandar prender.
-Sossegue. Eu vou consigo.

Antes que o trombone começasse a tocar eu adiantei-me e disse que toda a responsabilidade era minha. O cabo tinha cumprido uma ordem legítima, salientei.
-Legítima?!!! Então você contraria uma determinação do seu comandante e acha que a sua ordem é legítima?
-É sim, meu comandante. A administração desta companhia é da responsabilidade do nosso Capitão Corvacho e minha. E, como é do conhecimento de V. Exª., nós estamos a arcar com muitos prejuízos na alimentação e não nos podemos dar ao luxo de desprezar uma migalha que seja.

O homem emborcava garfadas e ia rosnando os impropérios do costume.A certa altura, virou-se para o Dr. Oliveira Martins e disse-lhe:
-Oh doutor, já viu a tropa que eu estou a comandar? Um reles segundo sargento manda mais que um tenente-coronel!!!

O médico, que também não morria de amores pela besta, abriu a sua resposta contemporizadora com a expressão:
-Bem, meu comandante, eu julgo...
-Você julga? Julga o quê? Você é médico, ou juiz? - interrompeu o Celestino.

Bom. Julga ou cura. Cura ou julga, o fulcro da questão desviou-me para os dois verbos e o médico, que não era pêra doce, aproveitou para lhas cantar, como se costuma dizer, forte e feio.

A porrada ficou pendente, mas o pêndulo às vezes tem caprichos do diabo, como se verá mais adiante.
__________

(1) Vd post de 8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(6): dos Lordes e das bestas:

"Celestino era o nome com que depreciativamente tratávamos o Ten-Cor. Celestino da Cunha Rodrigues, comandante do BART 1896, sediado em Buba, personagem muito sombria da minha memória pois ameaçou-me com cinco punições, nunca concretizadas. Algumas vezes o trato por besta nesta narrativa, com alguma propriedade".

Guiné 63/74 - DXXXIV: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (8): Gazela com chouriço à moda do Celestino

Guiné > Guileje > CART 1613 > 1968> Aspectos da construção de uma abrigo-caserna...

© José Neto (2005)

VIII parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado) (1).

© José Neto (2005)


O ano de 1968 entrou com uma novidade.

O esforço sobre o corredor de Guilege diminuiu de intensidade e a actividade operacional concentrou-se mais para a zona da fronteira, com a prioridade de manter seguro o itinerário Gadamael Porto – Guilege.

Estavam para chegar as CAÇ 2316 e 2317 que iam acantonar, em condições precárias, no Mejo e em Guilege com vista a qualquer acção em grande que estava no segredo dos Deuses de Bissau.

As colunas de reabastecimento passaram a ser mais frequentes e despejaram toneladas de mantimentos numa zona contígua ao perímetro fortificado que foi desminado e aplanado para o efeito.

Numa destas colunas, o Alferes Michael, que teimava em postar-se bem alto na torre da sua Fox, até já tinha sofrido ferimentos ligeiros, foi atingido com alguma gravidade pelo fogo duma emboscada.

Veio o helicóptero para a evacuação e foi a muito custo que a 2º sargento enfermeira paraquedista convenceu o Alferes a deitar-se na maca para ir para o hospital. Era um bravo este alferes. Uma semana depois, ainda cheio de pensos, voltou para junto dos seus homens.

Ao mesmo tempo apareceram-nos uns civis e uma secção de Engenharia, comandada por um sargento, com material para abrir um furo hertziano na área do quartel para obtenção da preciosa água potável.

Estes tiveram o azar de apanhar um festival corriqueiro logo à chegada e, após uma semana de perfuração ao ralenti, um olho na máquina e outro na mata, diagnosticaram a impossibilidade de apanhar um qualquer lençol subterrâneo de água que passasse por ali, desmontaram a traquineta e puseram-se a andar para o sossego de Bissau.

Guiné > Guileje > CART 1613 > 1968> Construção de um abrigo para a população civil...

© José Neto (2005)


Entretanto chegaram as duas companhias, pertencentes ao BCAÇ 2835 e tivemos notícias de que a 5ª Companhia de Comandos (comandada pelo Capitão de Artilharia Comando Gonçalves) tinha sido afecta ao nosso Batalhão e estava pronta a actuar na área de Aldeia Formosa, o que adensava as expectativas do que ia suceder nos próximos tempos.
A chegada dum pelotão de Artilharia de 8,8 cm com quatro bocas de fogo, instaladas com a direcção nor-nordeste, acabou com as dúvidas de que ia haver “porrada de criar bicho”.

E no dia D, fins de Fevereiro, desencadeou-se a Operação Bola de Fogo.

A finalidade desta mega-operação era implantar um aquartelamento em Gandembel, perto da ponte do rio Balana, a ser reconstruída e guarnecida com um destacamento de segurança, sensivelmente a meio caminho entre Guilege e Chamarra.

Aquele local era praticamente o grande portão de entrada do Corredor de Guilege e assim pretendia-se, se não acabar, pelo menos dificultar a penetração do IN no interior sul do território.

A primeira fase consistia em limpar e tornar transitável a picada, havia anos abandonada, que ia do cruzamento de Guilege a Gandembel, ou seja, a continuação do itinerário Cacine – Gadamael – Gandembel e daí para norte até Aldeia Formosa. Esta primeira fase da operação estava a ser comandada, a partir de Guilege, pelo Celestino (1).

Foi então que ele me ameaçou pela quinta (e última) vez com uma porrada. Para descomprimir vale a pena contar a cena:

O pessoal combatente tinha saído quase todo e, contando com a besta, estávamos vinte e três militares europeus no quartel. A segurança era feita pelo Pel Caç Nat 51 e Milícias.

Durante a noite anterior tinha sido accionada uma das nossas armadilhas e de manhã deparamos com uma gazela morta no local.

Claro que o Álvaro, cabo cozinheiro, se preparou para ser dia de rancho melhorado. Não era todos os dias que nos aparecia a gostosa e suculenta carne fresquinha de gazela.

Como era da praxe, foi anunciar ao Celestino a composição da refeição, neste caso o almoço. Este, fazendo jus à sua fama de bom garfo, disse ao Álvaro para juntar uma lata de chouriço (dois quilos) para refinar a especialidade gastronómica.

Um tanto encavacado o cozinheiro observou que o animal tinha dado vinte e dois quilos de carne limpa o que, para vinte e três comensais, chegava e sobrava.
-Faça o que eu lhe mando! - berrou o Celestino.

De cabeça baixa, o Álvaro retirou-se congeminando o processo de o quarteleiro dos géneros, o soldado Melo, lhe fornecer a lata de chouriço.

O Melo não foi na cantiga. Ele conhecia bem as regras adoptadas para a recuperação dos prejuízos que já descrevi, e chutou a bola para mim.

Tomei a decisão de não se meter chouriço no tacho, mas levar, para os oficiais, um prato com um desses enchidos cortado às rodelas e preparei-me para o temporal que se adivinhava.


Guiné > Guileje > CART 1613 > 1969> O nosso primeiro posando com uma graciosa bajuda da tabanca

© José Neto (2005)

Quando o Celestino enfiou o guardanapo no colarinho e inspeccionou o manjar, ordenou que o cozinheiro viesse à sua real presença.O Álvaro passou pelo sítio onde eu estava a almoçar e disse-me que o comandante, se calhasse, o ia mandar prender.
-Sossegue. Eu vou consigo.

Antes que o trombone começasse a tocar eu adiantei-me e disse que toda a responsabilidade era minha. O cabo tinha cumprido uma ordem legítima, salientei.
-Legítima?!!! Então você contraria uma determinação do seu comandante e acha que a sua ordem é legítima?
-É sim, meu comandante. A administração desta companhia é da responsabilidade do nosso Capitão Corvacho e minha. E, como é do conhecimento de V. Exª., nós estamos a arcar com muitos prejuízos na alimentação e não nos podemos dar ao luxo de desprezar uma migalha que seja.

O homem emborcava garfadas e ia rosnando os impropérios do costume.A certa altura, virou-se para o Dr. Oliveira Martins e disse-lhe:
-Oh doutor, já viu a tropa que eu estou a comandar? Um reles segundo sargento manda mais que um tenente-coronel!!!

O médico, que também não morria de amores pela besta, abriu a sua resposta contemporizadora com a expressão:
-Bem, meu comandante, eu julgo...
-Você julga? Julga o quê? Você é médico, ou juiz? - interrompeu o Celestino.

Bom. Julga ou cura. Cura ou julga, o fulcro da questão desviou-me para os dois verbos e o médico, que não era pêra doce, aproveitou para lhas cantar, como se costuma dizer, forte e feio.

A porrada ficou pendente, mas o pêndulo às vezes tem caprichos do diabo, como se verá mais adiante.
__________

(1) Vd post de 8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(6): dos Lordes e das bestas:

"Celestino era o nome com que depreciativamente tratávamos o Ten-Cor. Celestino da Cunha Rodrigues, comandante do BART 1896, sediado em Buba, personagem muito sombria da minha memória pois ameaçou-me com cinco punições, nunca concretizadas. Algumas vezes o trato por besta nesta narrativa, com alguma propriedade".

Guiné 63/74 - DXXXIII: Portugal, tabanca grande (Humberto Reis e Paulo Raposo)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca)> 1969 ou 70 > Vista aérea da tabanca de Samba Juli > Em Fevereiro de 1969, aquando o desastre do Cheche, a CCAÇ 2405 estava sediada em Galomaro, com um pelotão em Samba Juli, outro em Dulombi e um terceiro em Samba Cumbera. Samba Juli fazia parte de um conjunto de tabancas fulas, em autodefesa no regulado do Corubal, ao longo da estrada Bambadinca-Xitole, onde se incluía Dembataco e , Moricanhe (a oeste da estrada), Samba Culi, Sinchã Mamajã, Sare Adé, Afiá, Candamã, entre outras (a leste)... Tudo nomes que ainda ressoam estranhamente nas nossas cabeças: em muitas delas contávamos as estrelas à noite e esperávamos o alvorecer não sem alguma ansiedade... Nós e os nossos nharros da CCAÇ 12. (LG)

Diapositivo digitalizado. Arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)



Guiné > Guileje > 1967 > CART 1613 > A tabanca de Guileje... Legenda para quê ? A vida segue dentro de momentos...

© José Neto (2006)




1. Texto do Humberto Reis:

Paulo Raposo

Se calhar também andámos nas mesmas andanças, no mesmo tempo, ali para os lados do sector de Galomaro. A minha CCAÇ 12 andou por lá em Madina Xaquili (depois teve lá um pelotão, por acaso o meu 2º, estacionado uma semana e teve também um, o 1º, estacionado em Dulombi) em Agosto/Setembro de 1969 quando se formou o COP 7, se não estou em erro.

Mais tarde, Dulombi teve direito a uma companhia, 26??, comandada pelo meu amigo Cap Carlos Maurício Gomes de quem perdi o rasto a partir do momento em que ele deixou de estar no Batalhão de Transportes (em 1975 ou 1976), ali no Campo Grande, onde hoje é a Universidade Lusófona.

Reparei agora que o teu endereço é o da Herdade da Ameira em Montemor. Será que o nome da Herdade da Lobeira e o da Herdade de Cima não te dizem nada? Ficam entre o Lavre e o Ciborro (a Lobeira mais perto do Lavre e a de Cima mais perto do Ciborro). Na Herdade da Lobeira já se fizeram 2 almoçaradas do pessoal que andou por Bambadinca nos anos de 68 a 70 (como foi o meu caso da CCAÇ 12, que comecei na colónia de férias de Contuboel durante quase dois meses e acabei como companhia de intervenção nos sectores L5 e L1).

As herdades atrás referidas não são minhas, com muita pena como é óbvio, mas da família Vacas de Carvalho que teve um dos seus membros, o maluco do ex-alferes miliciano das Daimlers lá em Bambadinca. Daí a razão das almoçaradas. Este Vacas de Carvalho, um dos 13 irmãos ainda vivos, residiu aqui a 100 metros de minha casa [em Alfragide] e agora mora ali para os lados da Ajuda [Lisboa].

Ainda acabamos por descobrir que isto de Portugal é uma Aldeia Grande.

Um abraço

Humberto Reis

2. Resposta do Paulo Raposo:

Meu caro Humberto

Corpo de Bó?

Pois andámos pelos mesmos sítios, na mesma altura.

O Cop 7 era comandado pelo meu bom amigo Major Pardal dos Páras.

A minha companhia foi abrir Dulombi em fins de 1969. Manga de porrada e de mina.

Conheço quase todos os Vacas de Carvalho, embora dou-me mais de perto com o Paulo.

Na Herdade vim fazer um Hotel, por isso agora passo cá a maior parte do tempo.

Fica à saída de Montemor para Évora.

O cripto continua avariado portanto este rádio vai às claras.

Se passares por estes lados bate à porta, mas é conveniente picar a estrada.

Um abraço muito amigo do ex-combatente, que, se me deixassem ficar mais tempo na Guiné tinha acabado com a guerra, assim ainda deixei alguma coisa para ti.

Guiné 63/74 - DXXXIII: Portugal, tabanca grande (Humberto Reis e Paulo Raposo)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca)> 1969 ou 70 > Vista aérea da tabanca de Samba Juli > Em Fevereiro de 1969, aquando o desastre do Cheche, a CCAÇ 2405 estava sediada em Galomaro, com um pelotão em Samba Juli, outro em Dulombi e um terceiro em Samba Cumbera. Samba Juli fazia parte de um conjunto de tabancas fulas, em autodefesa no regulado do Corubal, ao longo da estrada Bambadinca-Xitole, onde se incluía Dembataco e , Moricanhe (a oeste da estrada), Samba Culi, Sinchã Mamajã, Sare Adé, Afiá, Candamã, entre outras (a leste)... Tudo nomes que ainda ressoam estranhamente nas nossas cabeças: em muitas delas contávamos as estrelas à noite e esperávamos o alvorecer não sem alguma ansiedade... Nós e os nossos nharros da CCAÇ 12. (LG)

Diapositivo digitalizado. Arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)



Guiné > Guileje > 1967 > CART 1613 > A tabanca de Guileje... Legenda para quê ? A vida segue dentro de momentos...

© José Neto (2006)




1. Texto do Humberto Reis:

Paulo Raposo

Se calhar também andámos nas mesmas andanças, no mesmo tempo, ali para os lados do sector de Galomaro. A minha CCAÇ 12 andou por lá em Madina Xaquili (depois teve lá um pelotão, por acaso o meu 2º, estacionado uma semana e teve também um, o 1º, estacionado em Dulombi) em Agosto/Setembro de 1969 quando se formou o COP 7, se não estou em erro.

Mais tarde, Dulombi teve direito a uma companhia, 26??, comandada pelo meu amigo Cap Carlos Maurício Gomes de quem perdi o rasto a partir do momento em que ele deixou de estar no Batalhão de Transportes (em 1975 ou 1976), ali no Campo Grande, onde hoje é a Universidade Lusófona.

Reparei agora que o teu endereço é o da Herdade da Ameira em Montemor. Será que o nome da Herdade da Lobeira e o da Herdade de Cima não te dizem nada? Ficam entre o Lavre e o Ciborro (a Lobeira mais perto do Lavre e a de Cima mais perto do Ciborro). Na Herdade da Lobeira já se fizeram 2 almoçaradas do pessoal que andou por Bambadinca nos anos de 68 a 70 (como foi o meu caso da CCAÇ 12, que comecei na colónia de férias de Contuboel durante quase dois meses e acabei como companhia de intervenção nos sectores L5 e L1).

As herdades atrás referidas não são minhas, com muita pena como é óbvio, mas da família Vacas de Carvalho que teve um dos seus membros, o maluco do ex-alferes miliciano das Daimlers lá em Bambadinca. Daí a razão das almoçaradas. Este Vacas de Carvalho, um dos 13 irmãos ainda vivos, residiu aqui a 100 metros de minha casa [em Alfragide] e agora mora ali para os lados da Ajuda [Lisboa].

Ainda acabamos por descobrir que isto de Portugal é uma Aldeia Grande.

Um abraço

Humberto Reis

2. Resposta do Paulo Raposo:

Meu caro Humberto

Corpo de Bó?

Pois andámos pelos mesmos sítios, na mesma altura.

O Cop 7 era comandado pelo meu bom amigo Major Pardal dos Páras.

A minha companhia foi abrir Dulombi em fins de 1969. Manga de porrada e de mina.

Conheço quase todos os Vacas de Carvalho, embora dou-me mais de perto com o Paulo.

Na Herdade vim fazer um Hotel, por isso agora passo cá a maior parte do tempo.

Fica à saída de Montemor para Évora.

O cripto continua avariado portanto este rádio vai às claras.

Se passares por estes lados bate à porta, mas é conveniente picar a estrada.

Um abraço muito amigo do ex-combatente, que, se me deixassem ficar mais tempo na Guiné tinha acabado com a guerra, assim ainda deixei alguma coisa para ti.

Guiné 63/74 - DXXXII: A verdade sobre o desastre de Cheche (José Martins)

Caro Rui Felício:

Acabo de ler o testemunho colocado no blogue (1).

O texto que escrevi e enviei na altura em que passava o 37º aniversário do fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969 (2), pretendia ser uma singela e sentida homenagem àqueles que, no cumprimento duma missão que lhes foi confiada, acabaram perdendo a vida e ficando, para sempre, nas águas do Corubal. Por isso lembrei o nome de cada um daqueles eternos camaradas.

Espero que o texto não tenha vindo reabrir cicatrizes ou, o que seria pior, abrir novas e mais profundas feridas.

A história tem que ser contada pelos seus protagonistas. Hoje eu aprendi história.

Um forte abraço do camarada

José Martins
(ex-furriel miliciano de transmissões, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)

___________

Notas de L.G.

(1)Post de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

(2) Vd post de 3 de Fevereir de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCV: Madina do Boé: 37º aniversário do desastre de Cheche (José Martins)

Guiné 63/74 - DXXXII: A verdade sobre o desastre de Cheche (José Martins)

Caro Rui Felício:

Acabo de ler o testemunho colocado no blogue (1).

O texto que escrevi e enviei na altura em que passava o 37º aniversário do fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969 (2), pretendia ser uma singela e sentida homenagem àqueles que, no cumprimento duma missão que lhes foi confiada, acabaram perdendo a vida e ficando, para sempre, nas águas do Corubal. Por isso lembrei o nome de cada um daqueles eternos camaradas.

Espero que o texto não tenha vindo reabrir cicatrizes ou, o que seria pior, abrir novas e mais profundas feridas.

A história tem que ser contada pelos seus protagonistas. Hoje eu aprendi história.

Um forte abraço do camarada

José Martins
(ex-furriel miliciano de transmissões, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)

___________

Notas de L.G.

(1)Post de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

(2) Vd post de 3 de Fevereir de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCV: Madina do Boé: 37º aniversário do desastre de Cheche (José Martins)

13 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DXXXI: A verdade sobre o desastre de Cheche (Zé Teixeira)



Guiné > Guileje > CART 1613 > 1967 > O pôr do sol na tabanca de Guileje... O pôr do sol em Áfirca... Um momento de paz e de espiritualidade.

© José Neto (2006)


Luís:

Custa muito, passados estes tantos anos sobre o acidente de Cheche, vir-se a descobrir que a verdade era outra.

Morreu nesse desastre um irmão de um camarada da minha Companhia, que logo que me apercebi, escrevi em nome dele uma carta ao Comandante-Chefe e o meu camarada regressou a Lisboa. Estavam ambos na Guiné.

Como deves calcular também vivi este acidente de perto, até porque estava envolvido um irmão do meu camarada. Passados estes anos, as lágrimas de raiva voltaram. Ao menos gritemos a verdade, para que todo o mundo saiba quem tínhamos a mandar nesta guerra.

Um abraço
Zé Teixeira

Guiné 63/74 - DXXXI: A verdade sobre o desastre de Cheche (Zé Teixeira)



Guiné > Guileje > CART 1613 > 1967 > O pôr do sol na tabanca de Guileje... O pôr do sol em Áfirca... Um momento de paz e de espiritualidade.

© José Neto (2006)


Luís:

Custa muito, passados estes tantos anos sobre o acidente de Cheche, vir-se a descobrir que a verdade era outra.

Morreu nesse desastre um irmão de um camarada da minha Companhia, que logo que me apercebi, escrevi em nome dele uma carta ao Comandante-Chefe e o meu camarada regressou a Lisboa. Estavam ambos na Guiné.

Como deves calcular também vivi este acidente de perto, até porque estava envolvido um irmão do meu camarada. Passados estes anos, as lágrimas de raiva voltaram. Ao menos gritemos a verdade, para que todo o mundo saiba quem tínhamos a mandar nesta guerra.

Um abraço
Zé Teixeira

Guiné 63/74 - DXXX: A verdade sobre o desastre de Cheche (David Guimarães)

Tem que haver sempre um burro - o 2º CMDT... Continuo a ler este documento - isto marcou muito a Guiné - e a certa altura lá estava eu... Mas digo: está sempre um segundo CMDT... Mania de serem mais espertos que outros... Na Operação do insucesso do Xime (já mais que falada no blogue), aí estava o 2º CMDT a fazer asneira e quem pagou as favas foi o 1º que estava de férias, o tenente-coronel Magalhães Filipe...

Bem, não há dúvidas era de uma coisa: varria-se quem não se queria lá e ficavam quem o general queria... Refiro-me ao Spínola... Aconteceu no BART 2917. Se calhar esse segundo CMDT desse desastre da jangada nem foi punido... A guerra era mesmo mal [conduzida] e injusta com quem lutava do mesmo lado...

Mas continuem, quem sabe se este documento, agora divulgado, não vai poder cointribuir para descobrir os verdadeiros culpados. Nem sei se interessa, o que sei que é que se matou gente por incompetência, isso sei e é o que sinto ...

Sei dos que têm medalhas e não as merecem e sei daqueles que não as tiveram e deveriam ter... Mas também para quê uma medalha a titulo póstumo?

Ai, que hoje nem consigo falar bem: senti-me combatente... Sim, novamente um combatente e hoje em paz... Os mortos não falam, pois que que sejam os vivos a dizer as verdades, estamos agora a a sabê-las e ainda bem....

A história de Madina tem sido muito romanceada e depois entra-se logo na fase dos mortos para, como bons portugueses, ficarmos a lamentar e só... Afinal houve causa maior, pelos visto...

Atento à história e isto, sim, também é a guerra...

David Guimarães

Guiné 63/74 - DXXX: A verdade sobre o desastre de Cheche (David Guimarães)

Tem que haver sempre um burro - o 2º CMDT... Continuo a ler este documento - isto marcou muito a Guiné - e a certa altura lá estava eu... Mas digo: está sempre um segundo CMDT... Mania de serem mais espertos que outros... Na Operação do insucesso do Xime (já mais que falada no blogue), aí estava o 2º CMDT a fazer asneira e quem pagou as favas foi o 1º que estava de férias, o tenente-coronel Magalhães Filipe...

Bem, não há dúvidas era de uma coisa: varria-se quem não se queria lá e ficavam quem o general queria... Refiro-me ao Spínola... Aconteceu no BART 2917. Se calhar esse segundo CMDT desse desastre da jangada nem foi punido... A guerra era mesmo mal [conduzida] e injusta com quem lutava do mesmo lado...

Mas continuem, quem sabe se este documento, agora divulgado, não vai poder cointribuir para descobrir os verdadeiros culpados. Nem sei se interessa, o que sei que é que se matou gente por incompetência, isso sei e é o que sinto ...

Sei dos que têm medalhas e não as merecem e sei daqueles que não as tiveram e deveriam ter... Mas também para quê uma medalha a titulo póstumo?

Ai, que hoje nem consigo falar bem: senti-me combatente... Sim, novamente um combatente e hoje em paz... Os mortos não falam, pois que que sejam os vivos a dizer as verdades, estamos agora a a sabê-las e ainda bem....

A história de Madina tem sido muito romanceada e depois entra-se logo na fase dos mortos para, como bons portugueses, ficarmos a lamentar e só... Afinal houve causa maior, pelos visto...

Atento à história e isto, sim, também é a guerra...

David Guimarães

Guiné 63/74 - DXXIX: A verdade sobre o desastre de Cheche (Paulo Raposo)

Olá Luis

Obrigado pela rádio. O cripto anda apanhado do clima, anda mesmo de todo, no entanto aqui vai:

Alf Raposo da CCAÇ 2405, também assisti ao desastre do Corubal, tinha passado com o meu grupo de combate na travessia anterior. Estavamos de regresso da grande operação de Madina do Boé. O meu muito amigo Alf Felício estava na jangada acidentada. O testemunho dele é verdadeiro.

Às quintas não esquecer o quinino.

Um abraço quebra costelas para o pessoal todo.


Paulo Lage Raposo
Herdade da Ameira
Apt. 13
7050 Montemor O Novo
Portugal
Tel +351 266 898 248
Fax +351 266 896 398

Guiné 63/74 - DXXIX: A verdade sobre o desastre de Cheche (Paulo Raposo)

Olá Luis

Obrigado pela rádio. O cripto anda apanhado do clima, anda mesmo de todo, no entanto aqui vai:

Alf Raposo da CCAÇ 2405, também assisti ao desastre do Corubal, tinha passado com o meu grupo de combate na travessia anterior. Estavamos de regresso da grande operação de Madina do Boé. O meu muito amigo Alf Felício estava na jangada acidentada. O testemunho dele é verdadeiro.

Às quintas não esquecer o quinino.

Um abraço quebra costelas para o pessoal todo.


Paulo Lage Raposo
Herdade da Ameira
Apt. 13
7050 Montemor O Novo
Portugal
Tel +351 266 898 248
Fax +351 266 896 398

Guiné 63/74 - DXXVIII: A verdade sobre o desastre de Cheche: a culpa não pode morrer solteira

Guiné-Bissau > Madina do Boé > 24 de Setembro de 1973 > O PAIG proclama unilateralmente a independência. Fonte: PAIGC (?). Foto tentilmente cedida por Jorge Santos (reproduzida de: Guerra Colonial: Chaimite o Último Ciclo do Império. Lisboa: Museu República e Resistência. 1999).


O nosso blogue orgulha-se de acabar de publicar o depoimento do Rui Felício (1), que foi alferes miliciano da CCAÇ 2405, e que perdeu 11 dos homens do seu grupo de combate no dia 6 de Fevereiro de 1969.

Ele foi vítima e ao mesmo tempo testemunha dos acontecimentos. Passados 37 anos, ainda há factos, controversos (e graves), por esclarecer: um deles é a ordem do 2º Comandante da Operação Mabecos Bravios (um major de que o Rui não se lembra o nome) e que terá obrigado o oficial que comandava a travessia do rio em jangada (Alf Diniz), a embarcar não dois mas quatro pelotões, infringindo assim as normas de segurança (a lotação da jangada era de 60 pessoas)…

Os tipos da SIC passaram há anos um filme sobre o desastre de Cheche mas, ao que parece, desvalorizaram a versão dos nossos camaradas da CCAÇ 2405…

Será que alguém quis (e continua a querer) branquear a história e alijar a carga da responsabilidade ? Os camaradas da CCAÇ 2405 – e todos nós, os mortos e os vivos! – temos o direito à verdade, por muito que nos doa…

Este blogue não é nenhum tribunal, mas nenhum de nós quer que a culpa morra solteira, como é habitual neste país… Podemos e devemos fazer um juízo moral sobre a (in)competência dos nossos comandantes militares… Temos esse direito, ganhámos esse direito…

Eu, pessoalmente, gostaria de saber:

(i) quem era o dito major;

(ii) a que companhia pertencia o Alf Dinis (CCAÇ 1790 ?);

(iii) se a ordem do major ficou registada por escrito;

(iv) se o Alf Diniz ainda está vivo e mantém essa versão…

A verdade é que alguém deu ordens (!) para meter 120 homens armados até aos dentes numa jangada cuja lotação era só para metade…

Saúdo o Rui Felíico, com respeito, admiração e solidariedade!

Luís Graça

(ex-fur mil, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

________

(1) Vd. post de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

Guiné 63/74 - DXXVIII: A verdade sobre o desastre de Cheche: a culpa não pode morrer solteira

Guiné-Bissau > Madina do Boé > 24 de Setembro de 1973 > O PAIG proclama unilateralmente a independência. Fonte: PAIGC (?). Foto tentilmente cedida por Jorge Santos (reproduzida de: Guerra Colonial: Chaimite o Último Ciclo do Império. Lisboa: Museu República e Resistência. 1999).


O nosso blogue orgulha-se de acabar de publicar o depoimento do Rui Felício (1), que foi alferes miliciano da CCAÇ 2405, e que perdeu 11 dos homens do seu grupo de combate no dia 6 de Fevereiro de 1969.

Ele foi vítima e ao mesmo tempo testemunha dos acontecimentos. Passados 37 anos, ainda há factos, controversos (e graves), por esclarecer: um deles é a ordem do 2º Comandante da Operação Mabecos Bravios (um major de que o Rui não se lembra o nome) e que terá obrigado o oficial que comandava a travessia do rio em jangada (Alf Diniz), a embarcar não dois mas quatro pelotões, infringindo assim as normas de segurança (a lotação da jangada era de 60 pessoas)…

Os tipos da SIC passaram há anos um filme sobre o desastre de Cheche mas, ao que parece, desvalorizaram a versão dos nossos camaradas da CCAÇ 2405…

Será que alguém quis (e continua a querer) branquear a história e alijar a carga da responsabilidade ? Os camaradas da CCAÇ 2405 – e todos nós, os mortos e os vivos! – temos o direito à verdade, por muito que nos doa…

Este blogue não é nenhum tribunal, mas nenhum de nós quer que a culpa morra solteira, como é habitual neste país… Podemos e devemos fazer um juízo moral sobre a (in)competência dos nossos comandantes militares… Temos esse direito, ganhámos esse direito…

Eu, pessoalmente, gostaria de saber:

(i) quem era o dito major;

(ii) a que companhia pertencia o Alf Dinis (CCAÇ 1790 ?);

(iii) se a ordem do major ficou registada por escrito;

(iv) se o Alf Diniz ainda está vivo e mantém essa versão…

A verdade é que alguém deu ordens (!) para meter 120 homens armados até aos dentes numa jangada cuja lotação era só para metade…

Saúdo o Rui Felíico, com respeito, admiração e solidariedade!

Luís Graça

(ex-fur mil, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

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(1) Vd. post de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

Guiné 63/74 - DXXVII: O mapa de Padada (Humberto Reis)

O Humberto Reis ainda é piro que os nossos dirigentes dos clubes da bola: promete o céu e a terra... Agora diz que quer cartografar a Guiné toda, de ponta a ponta... Leiam a mensagem (quie foi, de resto, já transmitida a toda tertúlia):

Como diz o Luís, ainda não temos o mapa de Padada. Não pode ser tudo no mesmo dia, dado que os mapas são muito pesados e ele não consegue tratar disto tudo, do blogue e ainda fazer alguma coisa pela vida dele. Além de aturar todos estes tertulianos, ainda tem que dar umas aulas (já agora).

Ele ainda lá tem mapas que eu já lhe levei digitalizados, para inserir mas não houve tempo. Com calma vamos lá chegar. Prometo já aqui que o próximo a ser digitalizado será o de Padada. Devagar, devagarinho e de pantufas para não fazer muito barulho, nem levantar ondas, havemos de conseguir ter TODOS os mapas da Guiné Bissau a 1/50000.

Até para mim, pessoalmente, tem interesse pois foi aí em Madina Xaquili, zona de Padada, que me estreei a saber o que era baixar as orelhas enquanto elas passavam a assobiar por cima. Já a mesma sorte não teve o pessoal de uma companhia de madeirenses [2446] que tinha acabado de chegar à tabanca.

Como não havia abrigos para todos (população civil, 3 pelotões da minha companhia e eles) foi decidido que os madeirenses, nós já lá estávamos instalados, tinham de sair do perímetro da tabanca e emboscar cá fora pois desconfiávamos que íamos ser prendados.

A minha companhia tinha estado emboscada 3 dias no trilho que vinha de Padada à espera deles, que nunca apareceram. Quando viemos embora, eles seguiram-nos e nessa noite embrulhámos. O azar dos madeirenses é que foram apanhados no descampado entre o arame farpado da tabanca e o princípio da mata, não tiveram tempo de se internar no meio do matagal.

Isto vem no historial da CCAÇ 12, só que eu não o tenho aqui e estou a escrever de cor como o galo (1).

________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 29 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXXVIII: O baptismo de fogo da CCAÇ 12, em farda nº 3, em Madina Xaquili (Julho de 1969) :

(...)

"Ainda não haviam sido distribuídos os camuflados às praças africanas quando a CCAÇ 12 fez a sua primeira saída para o mato. A 21, três Gr Comb (2º, 3º e 4º) seguiam em farda nº 3 para Madina Xaquili a fim de reforçar temporariamente o sub- sector de Galomaro,[a sul de Bafatá].

"(...) Seria, aliás, em Madina Xaquili que a CCAÇ 12 teria o seu baptismo de fogo. Os três Gr Comb haviam regressado, em 24, à tarde, dum patrulhamento ofensivo na região de Padada, tendo ficado dois dias emboscados no mato (Op Elmo Torneado), quando Madina Xaquili foi atacada ao anoitecer por um grupo IN que muito provavelmente veio no seu encalce.

"0 ataque deu-se no momento em que dois Gr Comb da CCAÇ 2446 que vinha render a CCAÇ 12, saíram da tabanca a fim de se emboscarem. [Esta companhia madeirense teve dois mortos e vários feridos]. 0 IN utilizou mort 60, lança-rockets e armas ligeiras, tendo danificado uma viatura e causado vários feridos às NT. O primeiro ferido da CCAÇ 12 foi o soldado Sori Jau, do 3º GR Comb, evacuado no dia seguinte para o HM [Hospital Militar] 241 [Bissau]" (...).

Guiné 63/74 - DXXVII: O mapa de Padada (Humberto Reis)

O Humberto Reis ainda é piro que os nossos dirigentes dos clubes da bola: promete o céu e a terra... Agora diz que quer cartografar a Guiné toda, de ponta a ponta... Leiam a mensagem (quie foi, de resto, já transmitida a toda tertúlia):

Como diz o Luís, ainda não temos o mapa de Padada. Não pode ser tudo no mesmo dia, dado que os mapas são muito pesados e ele não consegue tratar disto tudo, do blogue e ainda fazer alguma coisa pela vida dele. Além de aturar todos estes tertulianos, ainda tem que dar umas aulas (já agora).

Ele ainda lá tem mapas que eu já lhe levei digitalizados, para inserir mas não houve tempo. Com calma vamos lá chegar. Prometo já aqui que o próximo a ser digitalizado será o de Padada. Devagar, devagarinho e de pantufas para não fazer muito barulho, nem levantar ondas, havemos de conseguir ter TODOS os mapas da Guiné Bissau a 1/50000.

Até para mim, pessoalmente, tem interesse pois foi aí em Madina Xaquili, zona de Padada, que me estreei a saber o que era baixar as orelhas enquanto elas passavam a assobiar por cima. Já a mesma sorte não teve o pessoal de uma companhia de madeirenses [2446] que tinha acabado de chegar à tabanca.

Como não havia abrigos para todos (população civil, 3 pelotões da minha companhia e eles) foi decidido que os madeirenses, nós já lá estávamos instalados, tinham de sair do perímetro da tabanca e emboscar cá fora pois desconfiávamos que íamos ser prendados.

A minha companhia tinha estado emboscada 3 dias no trilho que vinha de Padada à espera deles, que nunca apareceram. Quando viemos embora, eles seguiram-nos e nessa noite embrulhámos. O azar dos madeirenses é que foram apanhados no descampado entre o arame farpado da tabanca e o princípio da mata, não tiveram tempo de se internar no meio do matagal.

Isto vem no historial da CCAÇ 12, só que eu não o tenho aqui e estou a escrever de cor como o galo (1).

________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 29 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXXVIII: O baptismo de fogo da CCAÇ 12, em farda nº 3, em Madina Xaquili (Julho de 1969) :

(...)

"Ainda não haviam sido distribuídos os camuflados às praças africanas quando a CCAÇ 12 fez a sua primeira saída para o mato. A 21, três Gr Comb (2º, 3º e 4º) seguiam em farda nº 3 para Madina Xaquili a fim de reforçar temporariamente o sub- sector de Galomaro,[a sul de Bafatá].

"(...) Seria, aliás, em Madina Xaquili que a CCAÇ 12 teria o seu baptismo de fogo. Os três Gr Comb haviam regressado, em 24, à tarde, dum patrulhamento ofensivo na região de Padada, tendo ficado dois dias emboscados no mato (Op Elmo Torneado), quando Madina Xaquili foi atacada ao anoitecer por um grupo IN que muito provavelmente veio no seu encalce.

"0 ataque deu-se no momento em que dois Gr Comb da CCAÇ 2446 que vinha render a CCAÇ 12, saíram da tabanca a fim de se emboscarem. [Esta companhia madeirense teve dois mortos e vários feridos]. 0 IN utilizou mort 60, lança-rockets e armas ligeiras, tendo danificado uma viatura e causado vários feridos às NT. O primeiro ferido da CCAÇ 12 foi o soldado Sori Jau, do 3º GR Comb, evacuado no dia seguinte para o HM [Hospital Militar] 241 [Bissau]" (...).

12 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

Texto do Rui Felício (ex-alf mil da CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70):


1. Comentário a propósito do post escrito pelo camarada José Martins sobre o desastre na travessia do Rio Corubal em 6 de Fevereiro de 1969 (1)

Preâmbulo


Acabei de ler um texto escrito pelo camarada José Martins onde relata a sua experiência na zona de Madina do Boé.

Embora tenha reconhecido que não assistiu directamente ao que se passou no célebre e lamentável desastre do Cheche, ocorrido no fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969, o José Martins conheceu bem o local e a região e desenvolveu a sua descrição socorrendo-se de relatos e documentos alusivos ao sucedido.

E nota-se pelo seu relato que sofreu muito, e que ainda hoje sente as marcas do desastre, passados 37 anos sobre a sua ocorrência.

Ninguém, bem formado e sensível, poderia nunca, de resto, ficar indiferente a semelhante tragédia, ainda que, como o narrador José Martins, não tenha dela sido testemunha ocular.

Imagine-se então a ferida profunda que aquele desastre deixou a quem, como eu e muitos outros, foi não só testemunha ocular mas também, e principalmente, interveniente e vítima do colapso da artesanal jangada que servia de transporte aos militares e equipamentos que participaram na complexa, perigosa e cansativa operação de resgate da Companhia de Caçadores que se evacuou do célebre aquartelamento de Madina do Boé.

Desastre onde pereceram, segundo as estatísticas oficiais, 47 militares, onze dos quais, do pelotão que eu comandava… Permito-me destacar dois deles pelas relações especiais de amizade e de confiança que neles depositava, sem esquecer obviamente a dor causada pela morte de todos os outros:

(i) um, o furriel Gregório Rebelo, açoriano de sotaque cerrado e quase ininteligível que assumia as funções, embora não protocolares, de meu substituto em todas as circunstâncias, no comando do pelotão, e que mantinha a orgânica disciplinar e operacional da pequena unidade militar.

(ii) o outro, o soldado Octávio Barreira, transmontano de gema, homem rude, de uma só palavra, de têmpera sã, de antes quebrar que torcer, mas capaz de morrer para salvar a vida do seu amigo, e a quem eu atribuira as funções, também não protocolares, de meu guarda-costas.

Quem passou pela guerra colonial sabe que a escolha do guarda-costas recaía invariavelmente no soldado em que o alferes depositava maior confiança e amizade.

Aliás, como também é sabido, a designação de guarda-costas não tem a mínima conotação com a ideia que na vida civil se faz de alguém com este titulo ou funções.

O guarda-costas era, acima de tudo, o soldado às ordens, o confidente, o amigo…. E muito menos, ou quase nada, o protector da integridade fisica do alferes, ao contrário do que se possa pensar.

A perda destes treze homens, que recordo com saudade e dor, sempre que a memória da Guiné me vem à lambrança, e que ajudei a formar para a guerra, em Abrantes e Santa Margarida, após oito meses de convivência próxima nas diversas tabancas onde o pelotão esteve destacado, foi um choque tremendo, inolvidável, cuja lembrança ainda hoje me faz arrepiar a alma e assomar as lágrimas.


Sobre o desastre do Corubal

Feito o preâmbulo, entro de imediato no motivo que me levou a servir-me do espaço disponibilizado pelo camarada Luis Graça a quem, sem o conhecer pessoalmente, desde já transmito o meu aplauso pela feliz e dinâmica iniciativa da criação deste blogue.

É que é importante que seja a nossa geração, aquela que interveio, por obrigação ou por convicção ou por ambas as coisas, na guerra da Guiné, que tem que dar testemunho o mais exacto possível daquilo que por lá se passou.

Se assim não fôr, corremos o risco de a história ser deturpada, porque feita com base em documentos ou relatos nem sempre seguros, nem sempre fiéis…

É por isso que, correndo o risco de desencadear alguma polémica, que não pretendo, achei que devia esclarecer alguns pontos do relato feito pelo José Martins a que atrás aludi.

Deduz-se daquele relato, publicado no blogue, que o desastre teria acontecido essencialmente devido a três factores:

(i) Os militares descomprimiram e tentaram encher os cantis com água do rio, o que terá provocado, depreende-se, o desiquilíbrio da estabilidade da jangada;

(ii) Teria sido ouvido um som abafado, semelhante a uma morteirada, que teria provocado agitação entre os militares e, em consequência, desiquilibrado a jangada;

(iii) Que, após o acidente, a água do Rio Corubal terá tomado um tom avermelhado, querendo com isso dizer-se que os crocodilos que habitavam as águas do rio, teriam consumado a morte dos militares que cairam à água.

A versão dos acontecimentos, veiculada pelo José Martins, assenta, como já se disse, em relatos e documentos sobre os factos, dado que este camarada, como ele próprio confirma, não assistiu ao que se passou. Mas, não obstante a presumível credibilidade das fontes a que recorreu, posso garantir que não foi exactamente assim que as coisas se passaram.

E digo isto com a mais profunda convicção e a mais inabalável certeza de alguém que estava na jangada, caiu à água, nadou durante uns cinco minutos e a ela retornou após a mesma se ter de novo equilibrado.

São factos que não se apagarão jamais da minha memória, por mais anos que viva, e apesar de não estar de posse de documentos que os comprovem...


2. O fime da SIC sobre o desasrtre do Rio Corubal

O mais curioso é que no filme, da autoria de José Saraiva, realizado por Manuel Tomás, que foi visto há uns anos atrás, por muitos milhares de portugueses através da sua transmissão pela SIC e pela distribuição de um vídeo feita na mesma altura pelo Diário de Notícias, são apresentadas aquelas mesmas razões como causas imediatas do desastre.

Já nessa altura contestei as conclusões do filme, e fi-lo por escrito e em reunião pessoal com o Director de Informação da SIC, Dr. Alcides Vieira, estando presente o realizador Manuel Tomás, que dirigiu a realização do filme.

Refiro que a carta entregue na SIC foi subscrita não só por mim mas por dezenas de ex-militares da CCAÇ 2405, que, por coincidência nessa mesma altura, no almoço de confraternização anual, a leram e assinaram.

A contestação dos factos descritos no filme foi feita nessa reunião na SIC, com a prévia concordância do Comandante da Operação, Brigadeiro Hélio Felgas, e estando presentes, além de mim próprio, o Capitão Miliciano José Miguel Novais Jerónimo e o Alferes Miliciano Paulo Enes Lage Raposo.

E ela foi por nós solicitada à SIC em virtude do impacto que a exibição do filme teve nos ex-militares que a ele assistiram e que tinham estado presentes na jangada naquele dia do desastre.
Com efeito, no próprio dia da exibição do filme comecei a receber telefonemas de antigos camaradas, um tanto decepcionados e alguns até revoltados, pela inexactidão dos pormenores que ali eram descritos.

Todos nós três, presentes na dita reunião, participámos na operação de evacuação de Madina do Boé, e todos estavamos presentes no local do acidente no Cheche naquele dia 6 de Fevereiro de 1969.

O Capitão Jerónimo, comandante da CCAÇ 2405, e eu próprio, estávamos na jangada no momento do acidente, onde se encontrava também o Alferes Miliciano Jorge Rijo, oficial da CCAÇ 2405, com o seu pelotão.

O Alferes Miliciano Paulo Raposo, também oficial da CCAÇ 2405, já tinha feito a travessia do rio na viagem anterior, e encontrava-se na margem norte do Corubal com o seu pelotão, observando a tragédia.

Na referida reunião da SIC, o realizador Manuel Tomás argumentou que o filme fora realizado com fundamento em entrevistas e em documentos oficiais militares a que tinha tido acesso, pelo que considerava o filme suficientemente documentado.

E disse que esses documentos atestavam as razões acima referidas, isto é, que a jangada se virou porque, no essencial, teria havido disparos de morteiro que, supostamente vindos do IN, teriam criado o pânico nos militares, os quais, ao agitarem-se, teriam provocado o desiquilíbrio da jangada.

Perante a irredutível posição da SIC em manter a versão veiculada pelo filme, nada mais nos restou do que desistirmos do pedido que lhe fizémos para que fosse proporcionado esclarecimento público sobre as conclusões desse filme.

Foi dito, nessa reunião, ao Dr. Alcides Vieira e ao Sr. Manuel Tomás que, por muito credíveis que pudessem parecer os documentos militares em que fundamentaram a versão filmada, nenhum deles jamais desmentiria ou apagaria da minha memória e dos meus camaradas o que realmente se passou.

Mais importante que os documentos preparados no silêncio dos gabinetes militares, sabe-se lá com que inconfessados motivos, era a indesmentível memória daqueles que tinham sido protagonistas e vítimas do desastre.

É com o mesmo espírito de esclarecimento da verdade dos factos que volto hoje ao assunto, desta vez no ambiente mais acolhedor de um blogue criado e gerido por alguém como o Luis Graça que, tendo estado na Guiné, sabe melhor que ninguém que não queremos honrarias, distinções ou protagonismo público.

Queremos tão só que a história seja o mais verdadeira e exacta possivel... Esse é o legado que queremos deixar aos vindouros, para que jamais seja ignorado o sacrificio de uma geração inteira, retirada à sua despreocupada juventude para fazer uma guerra em longínquas terras, em nome dos seus deveres e obrigações para com a sua Pátria.


3. A verdade do que sucedeu


Mas então, o que se passou realmente naquela manhã de 6 de Fevereiro [de 1969]?

A CCAÇ 2405, comandada pelo Cap Mil Inf Novais Jerónimo, integrava a coluna militar que tinha partido na manhã do dia anterior de Madina do Boé, rumo ao Cheche, e tinha como missão escoltar a Companhia de Caçadores [1790] evacuada daquele aquartelamento e que era comandada pelo Cap Inf Aparício (que, após o 25 de Abril, veio a assumir a função de Comandante Geral da PSP de Lisboa).

Ao fim desse dia a coluna chegou às imediações do rio Corubal, junto ao local de cambança para o Cheche. E durante toda a noite a jangada fez contínuas viagens transportando pessoal de apoio e, sobretudo, equipamentos militares e de transporte.

Ao amanhecer, as viagens de transporte entre as duas margens continuaram consecutivamente, até que chegou o momento em que na margem sul do rio Corubal já só restavam quatro grupos de combate, todos eles comandados pelos respectivos alferes, bem como os capitães Aparício e Novais Jerónimo. Além destes, encontrava-se o 2º Comandante da Operação[Mabecos Bravios], um major cujo nome já não recordo.

Segundo a rotina estabelecida e as instruções recebidas pelo responsável pela condução da travessia (Alf Mil Diniz), esperávamos na margem do rio que este responsável mandasse entrar metade do pessoal ainda ali estacionado, ou seja, dois dos quatro pelotões acima referidos.

É que a jangada, segundo bem explicou o alferes Diniz, tinha uma lotação de segurança de um máximo de 60 homens (2 pelotões). E o alferes Diniz assim fez, à semelhança do que tinha já feito dezenas de vezes ao longo da noite, zelando para que a carga da jangada não excedesse os limites de segurança estabelecidos.

Mandou entrar o meu pelotão e o do Alferes Rijo, ficando na margem para a viagem seguinte, os dois pelotões da Companhia do Capitão Aparício. Subitamente porém, assisti a uma conversa entre o 2º Comandante da Operação e o Alferes Diniz, em que este foi intimado pelo referido 2º Comandante a mandar embarcar os dois pelotões restantes, dado que não se podia atrasar mais a operação.

Apesar dos argumentos do Alf Diniz, tentando que em vez dos 4 pelotões embarcassem apenas dois, prevaleceu a autoridade da patente militar mais alta e assim acabaram por embarcar os 4 pelotões, para a derradeira viagem da jangada...

E foi de facto a sua derradeira e trágica viagem... Ainda não estavam percorridos 10 metros e já a jangada submergia e, de seguida, se virava projectando para a água quantos nela seguiam... E não me recordo de ter ouvido qualquer disparo de morteiro, antes do desastre... E não me lembro de ter detectado antes qualquer sinal de pânico entre os soldados... Aliás, a sua experiência operacional no teatro de guerra era já apreciável e não entrariam em pânico por um simples disparo de morteiro que estou seguro que não existiu.

Houve alguns disparos de morteiro, é verdade, mas após o desastre e feitos pelas NT, no intuito de prevenir qualquer aproveitamento do IN que eventualmente estivesse emboscado nas imediações.

Exceptuando os militares que infelizmente pereceram afogados no Corubal, passados poucos minutos, todos restantes retornavam à jangada que, pouco depois, se reequilibrou e retomou a sua viagem para a margem norte do rio. E eu fui um deles... Depois de me ter libertado da espingarda, das cartucheiras, das botas e das granadas, cujo peso me puxava inexoravelmente para o fundo...

Em nenhum momento descortinei qualquer tipo de pânico quando regressei à jangada e, talvez nervosos ainda do desastre, todos sorriamos e aceitávamos o banho forçado como uma dádiva divina depois de vários dias de sede e calor.

Ninguém se apercebeu de nenhum camarada em aflição ou pedindo socorro. Ninguém sequer sonhou que a tragédia tivesse atingido as proporções que tomou. Só na margem norte do rio, quando mandei formar o meu pelotão e o vi reduzido a quase metade é que tive consciência da desgraça que tinha acontecido.

E foi então que, algo descontrolado, me dirigi à margem do rio que engolira os meus soldados na esperança de ainda ver alguém... Mas a tragédia estava consumada de forma silenciosa, definitiva e rápida.

Em resumo e concluindo:

(i) O desastre do Cheche ficou a dever-se, em minha opinião, ao excesso de peso entrado na jangada.

(ii) E ela é corroborada por todos aqueles que, como eu, viajavam na jangada e que em conversas a seguir ao desastre manifestaram a mesma opinião.

(iii) Note-se que a mesma jangada tinha já feito dezenas de travessias sob as ordens directas do Alf Diniz sem nunca se ter detectado qualquer problema.

(iv) Esse problema surgiu de forma trágica na última travessia, ou seja, naquela em que o responsável Alf Diniz não pôde efectivamente proceder segundo o que estava estabelecido, deixando entrar na jangada o dobro da sua capacidade, por ordem do 2º Comandante da Operação a que, pela natureza da hierarquia militar, não poderia opor-se.

(v) Mas fê-lo, e disso dei testemunho no âmbito do inquérito que se seguiu, advertindo previamente o seu superior hierárquico para o facto de estar a infringir as determinações que tinha sobre a forma de fazer a travessia do rio e da lotação definida para a embarcação.

(vi) E estou convencido que a rapidez do desaparecimento das vítimas nas águas calmas, escuras e profundas do Corubal, se ficou a dever ao facto de todos transportarem consigo pesado equipamento de guerra que lhes tolheu os movimentos e os conduziu para o fundo do rio, de forma tão rápida, com a agravante de que a maior parte deles não sabia nadar.

(vii) Finalmente, não posso deixar de fazer referência ao que o José Martins diz ter ouvido de "alguém que esteve no centro do acontecimento" de que as águas tomaram um tom avermelhado.

(viii) Sei da existência de crocodilos naquele troço do rio Corubal.

(ix) Sei que alguns dos corpos de soldados encontrados dias mais tarde, apresentavam sinais de terem sido dilacerados por crocodilos.

(x) Mas sei também que as águas, naquele dia, e após o acidente, apenas apresentavam o tom natural verde escuro de um rio calmo e profundo e tenho dúvidas que os crocodilos tivessem estado presentes naqueles momentos, com o ruído de helicópteros sobrevoando as águas a baixa altitude, na tentativa de encontrar e socorrer algum soldado em dificuldades.

(xi) Não devemos dramatizar mais o que só por si já foi suficientemente dramático (2)...


4. Breves dados sobre a CCAÇ 2405

Composição da CCAÇ 2405


A CCAÇ 2405, à data dos acontecimentos, tinha a sua sede em Galomaro (3).

Comandante: Cap. Mil. José Miguel Novais Jerónimo

1º Grupo de Combate – Alf Mil Jorge Lopes Maia Rijo
2º Grupo de Combate – Alf Mil Vitor Fernando Franco David
3º Grupo de Combate – Alf Mil Rui Manuel da Silva Felício
4º Grupo de Combate – Alf Mil Paulo Enes Lage Raposo


O 2º Grupo de Combate, comandado pelo Alf Mil Vitor David, não integrou a Companhia na operação de evacuação de Madina do Boé, ficando na sede da Companhia em Galomaro, onde porém a acompanhou através dos meios rádio.

As baixas resultantes do desastre do Cheche, foram sofridas pelos 1º e 3º Grupos de Combate, que viajavam na jangada na altura do acidente.

Rui Felício
(Ex-alf mil inf CCAÇ 2405

_________

Notas de L.G.

(1) Vd. post do José Martins > 6 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - D: Madina do Boé, 37 anos depois

(2) Vd os posts anteriores sobre este tópico:

17 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIX: Antologia (7): Os bravos de Madina do Boé (CCAÇ 1790)
"Apresentação do livro de Gustavo Pimenta, sairómeM - Guerra Colonial (Palimage Editores, 1999), no Porto, Cooperativa Árvore, em 10 de Dezembro de 1999. Autor do texto: José Manuel Saraiva, jornalista do Expresso" (...)

2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre do Cheche, na retirada de Madina ...

"Este documento, que me chegou às mãos através do Humberto Reis, relata aa dramática operação em que participou a CCAÇ 2405, sedeada em Galomaro, e pertencente ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), operação essa que tinha em vista operação essa que tinha em vista retirar as NT da posição insustentável de Madina do Boé, cercada pelo PAIGC"...


8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXX: A retirada de Madina do Boé (José Martins)

"O mês de Fevereiro de 1969 tivera inicio há poucos dias quando passou, no aquartelamento de Canjadude, uma coluna cuja missão era retirar a Companhia de Caçadores nº 1790 do seu destacamento de Madina do Boé. Paralelamente a guarnição do posto do Cheche, pertencente à Companhia de Caçadores nº 5, também retiraria e juntar-se-ia à nossa companhia em Canjadude" (...)

8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXI: Comentário de Afonso Sousa ao texto sobre a retirada de Madina do Boé

"Emociona este seu testemunho. Eu só faço uma pequena ideia do sofrimento de todos vocês, naquele momento trágico, nas horas e nos dias seguintes - em terras de solidão, em paragens dos confins da Guiné" (...).

(3) Em Fevereiro de 1969, a CCAÇ 2405 era a unidade de quadrícula de Galomaro, pertencendo ao Sector L1, e estando afecta por isso ao comando do BCAÇ 2852, sediado em Bambadinca.

Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

Texto do Rui Felício (ex-alf mil da CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70):


1. Comentário a propósito do post escrito pelo camarada José Martins sobre o desastre na travessia do Rio Corubal em 6 de Fevereiro de 1969 (1)

Preâmbulo


Acabei de ler um texto escrito pelo camarada José Martins onde relata a sua experiência na zona de Madina do Boé.

Embora tenha reconhecido que não assistiu directamente ao que se passou no célebre e lamentável desastre do Cheche, ocorrido no fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969, o José Martins conheceu bem o local e a região e desenvolveu a sua descrição socorrendo-se de relatos e documentos alusivos ao sucedido.

E nota-se pelo seu relato que sofreu muito, e que ainda hoje sente as marcas do desastre, passados 37 anos sobre a sua ocorrência.

Ninguém, bem formado e sensível, poderia nunca, de resto, ficar indiferente a semelhante tragédia, ainda que, como o narrador José Martins, não tenha dela sido testemunha ocular.

Imagine-se então a ferida profunda que aquele desastre deixou a quem, como eu e muitos outros, foi não só testemunha ocular mas também, e principalmente, interveniente e vítima do colapso da artesanal jangada que servia de transporte aos militares e equipamentos que participaram na complexa, perigosa e cansativa operação de resgate da Companhia de Caçadores que se evacuou do célebre aquartelamento de Madina do Boé.

Desastre onde pereceram, segundo as estatísticas oficiais, 47 militares, onze dos quais, do pelotão que eu comandava… Permito-me destacar dois deles pelas relações especiais de amizade e de confiança que neles depositava, sem esquecer obviamente a dor causada pela morte de todos os outros:

(i) um, o furriel Gregório Rebelo, açoriano de sotaque cerrado e quase ininteligível que assumia as funções, embora não protocolares, de meu substituto em todas as circunstâncias, no comando do pelotão, e que mantinha a orgânica disciplinar e operacional da pequena unidade militar.

(ii) o outro, o soldado Octávio Barreira, transmontano de gema, homem rude, de uma só palavra, de têmpera sã, de antes quebrar que torcer, mas capaz de morrer para salvar a vida do seu amigo, e a quem eu atribuira as funções, também não protocolares, de meu guarda-costas.

Quem passou pela guerra colonial sabe que a escolha do guarda-costas recaía invariavelmente no soldado em que o alferes depositava maior confiança e amizade.

Aliás, como também é sabido, a designação de guarda-costas não tem a mínima conotação com a ideia que na vida civil se faz de alguém com este titulo ou funções.

O guarda-costas era, acima de tudo, o soldado às ordens, o confidente, o amigo…. E muito menos, ou quase nada, o protector da integridade fisica do alferes, ao contrário do que se possa pensar.

A perda destes treze homens, que recordo com saudade e dor, sempre que a memória da Guiné me vem à lambrança, e que ajudei a formar para a guerra, em Abrantes e Santa Margarida, após oito meses de convivência próxima nas diversas tabancas onde o pelotão esteve destacado, foi um choque tremendo, inolvidável, cuja lembrança ainda hoje me faz arrepiar a alma e assomar as lágrimas.


Sobre o desastre do Corubal

Feito o preâmbulo, entro de imediato no motivo que me levou a servir-me do espaço disponibilizado pelo camarada Luis Graça a quem, sem o conhecer pessoalmente, desde já transmito o meu aplauso pela feliz e dinâmica iniciativa da criação deste blogue.

É que é importante que seja a nossa geração, aquela que interveio, por obrigação ou por convicção ou por ambas as coisas, na guerra da Guiné, que tem que dar testemunho o mais exacto possível daquilo que por lá se passou.

Se assim não fôr, corremos o risco de a história ser deturpada, porque feita com base em documentos ou relatos nem sempre seguros, nem sempre fiéis…

É por isso que, correndo o risco de desencadear alguma polémica, que não pretendo, achei que devia esclarecer alguns pontos do relato feito pelo José Martins a que atrás aludi.

Deduz-se daquele relato, publicado no blogue, que o desastre teria acontecido essencialmente devido a três factores:

(i) Os militares descomprimiram e tentaram encher os cantis com água do rio, o que terá provocado, depreende-se, o desiquilíbrio da estabilidade da jangada;

(ii) Teria sido ouvido um som abafado, semelhante a uma morteirada, que teria provocado agitação entre os militares e, em consequência, desiquilibrado a jangada;

(iii) Que, após o acidente, a água do Rio Corubal terá tomado um tom avermelhado, querendo com isso dizer-se que os crocodilos que habitavam as águas do rio, teriam consumado a morte dos militares que cairam à água.

A versão dos acontecimentos, veiculada pelo José Martins, assenta, como já se disse, em relatos e documentos sobre os factos, dado que este camarada, como ele próprio confirma, não assistiu ao que se passou. Mas, não obstante a presumível credibilidade das fontes a que recorreu, posso garantir que não foi exactamente assim que as coisas se passaram.

E digo isto com a mais profunda convicção e a mais inabalável certeza de alguém que estava na jangada, caiu à água, nadou durante uns cinco minutos e a ela retornou após a mesma se ter de novo equilibrado.

São factos que não se apagarão jamais da minha memória, por mais anos que viva, e apesar de não estar de posse de documentos que os comprovem...


2. O fime da SIC sobre o desasrtre do Rio Corubal

O mais curioso é que no filme, da autoria de José Saraiva, realizado por Manuel Tomás, que foi visto há uns anos atrás, por muitos milhares de portugueses através da sua transmissão pela SIC e pela distribuição de um vídeo feita na mesma altura pelo Diário de Notícias, são apresentadas aquelas mesmas razões como causas imediatas do desastre.

Já nessa altura contestei as conclusões do filme, e fi-lo por escrito e em reunião pessoal com o Director de Informação da SIC, Dr. Alcides Vieira, estando presente o realizador Manuel Tomás, que dirigiu a realização do filme.

Refiro que a carta entregue na SIC foi subscrita não só por mim mas por dezenas de ex-militares da CCAÇ 2405, que, por coincidência nessa mesma altura, no almoço de confraternização anual, a leram e assinaram.

A contestação dos factos descritos no filme foi feita nessa reunião na SIC, com a prévia concordância do Comandante da Operação, Brigadeiro Hélio Felgas, e estando presentes, além de mim próprio, o Capitão Miliciano José Miguel Novais Jerónimo e o Alferes Miliciano Paulo Enes Lage Raposo.

E ela foi por nós solicitada à SIC em virtude do impacto que a exibição do filme teve nos ex-militares que a ele assistiram e que tinham estado presentes na jangada naquele dia do desastre.
Com efeito, no próprio dia da exibição do filme comecei a receber telefonemas de antigos camaradas, um tanto decepcionados e alguns até revoltados, pela inexactidão dos pormenores que ali eram descritos.

Todos nós três, presentes na dita reunião, participámos na operação de evacuação de Madina do Boé, e todos estavamos presentes no local do acidente no Cheche naquele dia 6 de Fevereiro de 1969.

O Capitão Jerónimo, comandante da CCAÇ 2405, e eu próprio, estávamos na jangada no momento do acidente, onde se encontrava também o Alferes Miliciano Jorge Rijo, oficial da CCAÇ 2405, com o seu pelotão.

O Alferes Miliciano Paulo Raposo, também oficial da CCAÇ 2405, já tinha feito a travessia do rio na viagem anterior, e encontrava-se na margem norte do Corubal com o seu pelotão, observando a tragédia.

Na referida reunião da SIC, o realizador Manuel Tomás argumentou que o filme fora realizado com fundamento em entrevistas e em documentos oficiais militares a que tinha tido acesso, pelo que considerava o filme suficientemente documentado.

E disse que esses documentos atestavam as razões acima referidas, isto é, que a jangada se virou porque, no essencial, teria havido disparos de morteiro que, supostamente vindos do IN, teriam criado o pânico nos militares, os quais, ao agitarem-se, teriam provocado o desiquilíbrio da jangada.

Perante a irredutível posição da SIC em manter a versão veiculada pelo filme, nada mais nos restou do que desistirmos do pedido que lhe fizémos para que fosse proporcionado esclarecimento público sobre as conclusões desse filme.

Foi dito, nessa reunião, ao Dr. Alcides Vieira e ao Sr. Manuel Tomás que, por muito credíveis que pudessem parecer os documentos militares em que fundamentaram a versão filmada, nenhum deles jamais desmentiria ou apagaria da minha memória e dos meus camaradas o que realmente se passou.

Mais importante que os documentos preparados no silêncio dos gabinetes militares, sabe-se lá com que inconfessados motivos, era a indesmentível memória daqueles que tinham sido protagonistas e vítimas do desastre.

É com o mesmo espírito de esclarecimento da verdade dos factos que volto hoje ao assunto, desta vez no ambiente mais acolhedor de um blogue criado e gerido por alguém como o Luis Graça que, tendo estado na Guiné, sabe melhor que ninguém que não queremos honrarias, distinções ou protagonismo público.

Queremos tão só que a história seja o mais verdadeira e exacta possivel... Esse é o legado que queremos deixar aos vindouros, para que jamais seja ignorado o sacrificio de uma geração inteira, retirada à sua despreocupada juventude para fazer uma guerra em longínquas terras, em nome dos seus deveres e obrigações para com a sua Pátria.


3. A verdade do que sucedeu


Mas então, o que se passou realmente naquela manhã de 6 de Fevereiro [de 1969]?

A CCAÇ 2405, comandada pelo Cap Mil Inf Novais Jerónimo, integrava a coluna militar que tinha partido na manhã do dia anterior de Madina do Boé, rumo ao Cheche, e tinha como missão escoltar a Companhia de Caçadores [1790] evacuada daquele aquartelamento e que era comandada pelo Cap Inf Aparício (que, após o 25 de Abril, veio a assumir a função de Comandante Geral da PSP de Lisboa).

Ao fim desse dia a coluna chegou às imediações do rio Corubal, junto ao local de cambança para o Cheche. E durante toda a noite a jangada fez contínuas viagens transportando pessoal de apoio e, sobretudo, equipamentos militares e de transporte.

Ao amanhecer, as viagens de transporte entre as duas margens continuaram consecutivamente, até que chegou o momento em que na margem sul do rio Corubal já só restavam quatro grupos de combate, todos eles comandados pelos respectivos alferes, bem como os capitães Aparício e Novais Jerónimo. Além destes, encontrava-se o 2º Comandante da Operação[Mabecos Bravios], um major cujo nome já não recordo.

Segundo a rotina estabelecida e as instruções recebidas pelo responsável pela condução da travessia (Alf Mil Diniz), esperávamos na margem do rio que este responsável mandasse entrar metade do pessoal ainda ali estacionado, ou seja, dois dos quatro pelotões acima referidos.

É que a jangada, segundo bem explicou o alferes Diniz, tinha uma lotação de segurança de um máximo de 60 homens (2 pelotões). E o alferes Diniz assim fez, à semelhança do que tinha já feito dezenas de vezes ao longo da noite, zelando para que a carga da jangada não excedesse os limites de segurança estabelecidos.

Mandou entrar o meu pelotão e o do Alferes Rijo, ficando na margem para a viagem seguinte, os dois pelotões da Companhia do Capitão Aparício. Subitamente porém, assisti a uma conversa entre o 2º Comandante da Operação e o Alferes Diniz, em que este foi intimado pelo referido 2º Comandante a mandar embarcar os dois pelotões restantes, dado que não se podia atrasar mais a operação.

Apesar dos argumentos do Alf Diniz, tentando que em vez dos 4 pelotões embarcassem apenas dois, prevaleceu a autoridade da patente militar mais alta e assim acabaram por embarcar os 4 pelotões, para a derradeira viagem da jangada...

E foi de facto a sua derradeira e trágica viagem... Ainda não estavam percorridos 10 metros e já a jangada submergia e, de seguida, se virava projectando para a água quantos nela seguiam... E não me recordo de ter ouvido qualquer disparo de morteiro, antes do desastre... E não me lembro de ter detectado antes qualquer sinal de pânico entre os soldados... Aliás, a sua experiência operacional no teatro de guerra era já apreciável e não entrariam em pânico por um simples disparo de morteiro que estou seguro que não existiu.

Houve alguns disparos de morteiro, é verdade, mas após o desastre e feitos pelas NT, no intuito de prevenir qualquer aproveitamento do IN que eventualmente estivesse emboscado nas imediações.

Exceptuando os militares que infelizmente pereceram afogados no Corubal, passados poucos minutos, todos restantes retornavam à jangada que, pouco depois, se reequilibrou e retomou a sua viagem para a margem norte do rio. E eu fui um deles... Depois de me ter libertado da espingarda, das cartucheiras, das botas e das granadas, cujo peso me puxava inexoravelmente para o fundo...

Em nenhum momento descortinei qualquer tipo de pânico quando regressei à jangada e, talvez nervosos ainda do desastre, todos sorriamos e aceitávamos o banho forçado como uma dádiva divina depois de vários dias de sede e calor.

Ninguém se apercebeu de nenhum camarada em aflição ou pedindo socorro. Ninguém sequer sonhou que a tragédia tivesse atingido as proporções que tomou. Só na margem norte do rio, quando mandei formar o meu pelotão e o vi reduzido a quase metade é que tive consciência da desgraça que tinha acontecido.

E foi então que, algo descontrolado, me dirigi à margem do rio que engolira os meus soldados na esperança de ainda ver alguém... Mas a tragédia estava consumada de forma silenciosa, definitiva e rápida.

Em resumo e concluindo:

(i) O desastre do Cheche ficou a dever-se, em minha opinião, ao excesso de peso entrado na jangada.

(ii) E ela é corroborada por todos aqueles que, como eu, viajavam na jangada e que em conversas a seguir ao desastre manifestaram a mesma opinião.

(iii) Note-se que a mesma jangada tinha já feito dezenas de travessias sob as ordens directas do Alf Diniz sem nunca se ter detectado qualquer problema.

(iv) Esse problema surgiu de forma trágica na última travessia, ou seja, naquela em que o responsável Alf Diniz não pôde efectivamente proceder segundo o que estava estabelecido, deixando entrar na jangada o dobro da sua capacidade, por ordem do 2º Comandante da Operação a que, pela natureza da hierarquia militar, não poderia opor-se.

(v) Mas fê-lo, e disso dei testemunho no âmbito do inquérito que se seguiu, advertindo previamente o seu superior hierárquico para o facto de estar a infringir as determinações que tinha sobre a forma de fazer a travessia do rio e da lotação definida para a embarcação.

(vi) E estou convencido que a rapidez do desaparecimento das vítimas nas águas calmas, escuras e profundas do Corubal, se ficou a dever ao facto de todos transportarem consigo pesado equipamento de guerra que lhes tolheu os movimentos e os conduziu para o fundo do rio, de forma tão rápida, com a agravante de que a maior parte deles não sabia nadar.

(vii) Finalmente, não posso deixar de fazer referência ao que o José Martins diz ter ouvido de "alguém que esteve no centro do acontecimento" de que as águas tomaram um tom avermelhado.

(viii) Sei da existência de crocodilos naquele troço do rio Corubal.

(ix) Sei que alguns dos corpos de soldados encontrados dias mais tarde, apresentavam sinais de terem sido dilacerados por crocodilos.

(x) Mas sei também que as águas, naquele dia, e após o acidente, apenas apresentavam o tom natural verde escuro de um rio calmo e profundo e tenho dúvidas que os crocodilos tivessem estado presentes naqueles momentos, com o ruído de helicópteros sobrevoando as águas a baixa altitude, na tentativa de encontrar e socorrer algum soldado em dificuldades.

(xi) Não devemos dramatizar mais o que só por si já foi suficientemente dramático (2)...


4. Breves dados sobre a CCAÇ 2405

Composição da CCAÇ 2405


A CCAÇ 2405, à data dos acontecimentos, tinha a sua sede em Galomaro (3).

Comandante: Cap. Mil. José Miguel Novais Jerónimo

1º Grupo de Combate – Alf Mil Jorge Lopes Maia Rijo
2º Grupo de Combate – Alf Mil Vitor Fernando Franco David
3º Grupo de Combate – Alf Mil Rui Manuel da Silva Felício
4º Grupo de Combate – Alf Mil Paulo Enes Lage Raposo


O 2º Grupo de Combate, comandado pelo Alf Mil Vitor David, não integrou a Companhia na operação de evacuação de Madina do Boé, ficando na sede da Companhia em Galomaro, onde porém a acompanhou através dos meios rádio.

As baixas resultantes do desastre do Cheche, foram sofridas pelos 1º e 3º Grupos de Combate, que viajavam na jangada na altura do acidente.

Rui Felício
(Ex-alf mil inf CCAÇ 2405

_________

Notas de L.G.

(1) Vd. post do José Martins > 6 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - D: Madina do Boé, 37 anos depois

(2) Vd os posts anteriores sobre este tópico:

17 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIX: Antologia (7): Os bravos de Madina do Boé (CCAÇ 1790)
"Apresentação do livro de Gustavo Pimenta, sairómeM - Guerra Colonial (Palimage Editores, 1999), no Porto, Cooperativa Árvore, em 10 de Dezembro de 1999. Autor do texto: José Manuel Saraiva, jornalista do Expresso" (...)

2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre do Cheche, na retirada de Madina ...

"Este documento, que me chegou às mãos através do Humberto Reis, relata aa dramática operação em que participou a CCAÇ 2405, sedeada em Galomaro, e pertencente ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), operação essa que tinha em vista operação essa que tinha em vista retirar as NT da posição insustentável de Madina do Boé, cercada pelo PAIGC"...


8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXX: A retirada de Madina do Boé (José Martins)

"O mês de Fevereiro de 1969 tivera inicio há poucos dias quando passou, no aquartelamento de Canjadude, uma coluna cuja missão era retirar a Companhia de Caçadores nº 1790 do seu destacamento de Madina do Boé. Paralelamente a guarnição do posto do Cheche, pertencente à Companhia de Caçadores nº 5, também retiraria e juntar-se-ia à nossa companhia em Canjadude" (...)

8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXI: Comentário de Afonso Sousa ao texto sobre a retirada de Madina do Boé

"Emociona este seu testemunho. Eu só faço uma pequena ideia do sofrimento de todos vocês, naquele momento trágico, nas horas e nos dias seguintes - em terras de solidão, em paragens dos confins da Guiné" (...).

(3) Em Fevereiro de 1969, a CCAÇ 2405 era a unidade de quadrícula de Galomaro, pertencendo ao Sector L1, e estando afecta por isso ao comando do BCAÇ 2852, sediado em Bambadinca.

Guiné 63/74 - DXXV: Paulo Raposo e Rui Felício, dois novos camaradas (CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)

Recebi notícias de mais dois camaradas da CCAÇ 2405 (Galomaro, 1968/70):

(i) em primeiro lugar, do Paulo Raposo, que nos diz ter sido alferes de infantaria do BCAÇ 2852, CCAÇ 2405 (Guiné Ago 1968 a Maio de 1970). Paulo Laje Raposo, de seu nome completo, acrescenta: "fiz no ano passado os meus primeiros 60 anos. Estivemos em Mansoa em intervenção (fomos ao Morés), Galomaro e Dulombi (fomos evacuar Madina do Boé e percorrer o Fiofioli). Manga de porrada". Não perdeu a sua jovialidade, mandando-nos uma animação com um chimpazé a perguntar: "Corpo di bó?"... Deduzo destas palavras de boas-vindas que o Paulo queira entrar para a nossa tertúlia. Julgo que ele já saiba as regras: duas fotos (uma do tempo da guerra e outra mais actual), acompanhada de uma pequena apresentação ou de um pequena estória da vida militar... Naturalmente que o Paulo é bem vindo!

(ii) Temos depois outra mensagem de outro camarada da CCAÇ 2405, já aqui apresentado anteriormente, o Rui Felício, juntamente com o Victor David. Foi-me enviada ontem à noite:

"Caro Luis Graça,

"Passei o dia de hoje em Coimbra almoçando com o Vitor David a quem me ligam laços profundos de amizade e camaradagem.

"Falámos do blogue cuja utilidade é inquestionável e que tanto mais se valorizará quanto os contributos para o esclarecimento das coisas que se passaram na Guiné se multipliquem.

"Foi um dia agradabilíssimo na companhia, à beira do Mondego, da mulher e da filha do Vitor David, ambas simpatiquíssimas, e do meu próprio filho que me acompanhou de Lisboa até Coimbra onde estuda.

"O Vitor David incentivou-me a enviar-te o texto que escrevi e que lhe dei a ler sobre o desastre do Corubal, pedindo-te que decidas sobre se o mesmo deve ou não ser divulgado no teu blogue.

"Espero vir a conhecer-te pessoalmente em breve... Pelos elogios do Vitor David a teu respeito, fiquei ansioso por esse momento se proporcionar.

"Um abraço

Rui Felício (ex- Alf Mil Inf CCAÇ 2405)

Rui: O teu post merece prioridade elevada. Vou publicá-lo logo a seguir. LG

Guiné 63/74 - DXXV: Paulo Raposo e Rui Felício, dois novos camaradas (CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)

Recebi notícias de mais dois camaradas da CCAÇ 2405 (Galomaro, 1968/70):

(i) em primeiro lugar, do Paulo Raposo, que nos diz ter sido alferes de infantaria do BCAÇ 2852, CCAÇ 2405 (Guiné Ago 1968 a Maio de 1970). Paulo Laje Raposo, de seu nome completo, acrescenta: "fiz no ano passado os meus primeiros 60 anos. Estivemos em Mansoa em intervenção (fomos ao Morés), Galomaro e Dulombi (fomos evacuar Madina do Boé e percorrer o Fiofioli). Manga de porrada". Não perdeu a sua jovialidade, mandando-nos uma animação com um chimpazé a perguntar: "Corpo di bó?"... Deduzo destas palavras de boas-vindas que o Paulo queira entrar para a nossa tertúlia. Julgo que ele já saiba as regras: duas fotos (uma do tempo da guerra e outra mais actual), acompanhada de uma pequena apresentação ou de um pequena estória da vida militar... Naturalmente que o Paulo é bem vindo!

(ii) Temos depois outra mensagem de outro camarada da CCAÇ 2405, já aqui apresentado anteriormente, o Rui Felício, juntamente com o Victor David. Foi-me enviada ontem à noite:

"Caro Luis Graça,

"Passei o dia de hoje em Coimbra almoçando com o Vitor David a quem me ligam laços profundos de amizade e camaradagem.

"Falámos do blogue cuja utilidade é inquestionável e que tanto mais se valorizará quanto os contributos para o esclarecimento das coisas que se passaram na Guiné se multipliquem.

"Foi um dia agradabilíssimo na companhia, à beira do Mondego, da mulher e da filha do Vitor David, ambas simpatiquíssimas, e do meu próprio filho que me acompanhou de Lisboa até Coimbra onde estuda.

"O Vitor David incentivou-me a enviar-te o texto que escrevi e que lhe dei a ler sobre o desastre do Corubal, pedindo-te que decidas sobre se o mesmo deve ou não ser divulgado no teu blogue.

"Espero vir a conhecer-te pessoalmente em breve... Pelos elogios do Vitor David a teu respeito, fiquei ansioso por esse momento se proporcionar.

"Um abraço

Rui Felício (ex- Alf Mil Inf CCAÇ 2405)

Rui: O teu post merece prioridade elevada. Vou publicá-lo logo a seguir. LG

11 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > As antigas retretes do aquartelamento da CCAÇ 2381 ( Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70). Aqui morreu o Conceição.

© José Teixeira (2006)



O Conceição

O Conceição era uma camarada de Lisboa, que tanto quanto eu sabia, não tinha pais e vivia com a avó. Era um moço muito alegre e passava o dia a cantar.

Já perto do fim da comissão, em Empada (está na parte do diário que não enviei para o blogue), estava na retrete ... e a cantar. Não ouviu as saídas de morteiro que nos foram enviadas do cimo da pista e controladas via rádio por alguém lá dentro ou junto ao arame farpado. Uma das primeiras rebentou no telhado da retrete e projetou-o para trás, esmagando parte da nuca contra a parede.

Eu, logo após o ataque, dei uma volta pelo quartel. Fiquei assustado, pois cairam várias lá dentro e gritava de contente. Não havia aparentemente feridos e muito menos mortos. Nesse momento, o Furriel Pedro (actualmente muito doente, com um derrame celebral) grita-me:
- Teixeira vem aqui ! - Fiquei horrorizado com o que vi. Mais uma vez chorei de raiva.
Mas a cena não ficou por aqui.

Trouxemos o cadáver para a enfermaria e logo se juntou um grupo de camaradas disposto a fazer uma noite de velada. Alguns rezavam o terço, outros choravam, outros falavam de tudo e de nada.

Como tivemos dois feridos da população, dos quais uma mulher com vários estilhaços nas espadaúdas ancas, até população civil ali estava.

Alta madrugada, eles voltaram de novo e toda a gente fugiu para o buraco abrigo que tinhamos aberto ao lado da enfermaria. A mulher ferida, essa ficou por não poder andar, mas algum tempo depois lá apareceu, rastejando.

Findo este segundo ataque voltamos para o velório... Com a precicipação da fuga para o abrigo, alguém tinha arrastado um dos bancos onde estava a maca com o cadáver do Conceição, ficando este com o corpo todo inclinado.
- Desgraçado, mesmo depois de morto não tens descanso ! - comentou alguém.

As lágrimas de dor e de revolta correram por várias faces dos camaradas presentes. Foi uma noite para esquecer e agora voltar a relembrar.

© José Teixeira (2006)

Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > As antigas retretes do aquartelamento da CCAÇ 2381 ( Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70). Aqui morreu o Conceição.

© José Teixeira (2006)



O Conceição

O Conceição era uma camarada de Lisboa, que tanto quanto eu sabia, não tinha pais e vivia com a avó. Era um moço muito alegre e passava o dia a cantar.

Já perto do fim da comissão, em Empada (está na parte do diário que não enviei para o blogue), estava na retrete ... e a cantar. Não ouviu as saídas de morteiro que nos foram enviadas do cimo da pista e controladas via rádio por alguém lá dentro ou junto ao arame farpado. Uma das primeiras rebentou no telhado da retrete e projetou-o para trás, esmagando parte da nuca contra a parede.

Eu, logo após o ataque, dei uma volta pelo quartel. Fiquei assustado, pois cairam várias lá dentro e gritava de contente. Não havia aparentemente feridos e muito menos mortos. Nesse momento, o Furriel Pedro (actualmente muito doente, com um derrame celebral) grita-me:
- Teixeira vem aqui ! - Fiquei horrorizado com o que vi. Mais uma vez chorei de raiva.
Mas a cena não ficou por aqui.

Trouxemos o cadáver para a enfermaria e logo se juntou um grupo de camaradas disposto a fazer uma noite de velada. Alguns rezavam o terço, outros choravam, outros falavam de tudo e de nada.

Como tivemos dois feridos da população, dos quais uma mulher com vários estilhaços nas espadaúdas ancas, até população civil ali estava.

Alta madrugada, eles voltaram de novo e toda a gente fugiu para o buraco abrigo que tinhamos aberto ao lado da enfermaria. A mulher ferida, essa ficou por não poder andar, mas algum tempo depois lá apareceu, rastejando.

Findo este segundo ataque voltamos para o velório... Com a precicipação da fuga para o abrigo, alguém tinha arrastado um dos bancos onde estava a maca com o cadáver do Conceição, ficando este com o corpo todo inclinado.
- Desgraçado, mesmo depois de morto não tens descanso ! - comentou alguém.

As lágrimas de dor e de revolta correram por várias faces dos camaradas presentes. Foi uma noite para esquecer e agora voltar a relembrar.

© José Teixeira (2006)