17 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DLII: Fátima, a furtiva gazela

Excertos do Diário de um tuga. 20 de Agosto de 1969 (1)

Os dias em Sare Ganà [ no subsector de Geba, a noroeste de Bafatá] ainda vão sendo suportáveis, à aparte o calor, as moscas e o estado de sítio...

As noites, essas, é que são longas e penosas. O que me custa mais é não poder ler. Os meus soldados fulas estão de serviço, reforçando o sistema de autodefesa (2).

Por causa de um possível ataque da guerrilha (3), é proibido fazer lume ou foguear na tabanca. Aqui come-se cedo e deita-se cedo. Ficam os vampiros dos mosquitos. Por sorte, não apreciam lá muito o meu sangue. Deve-lhes saber a uísque.

Resta-me a companhia silenciosa e furtiva da Fátima, uma das mulheres do comandante da milícia: logo ao segundo ou terceiro dia, introduziu-se-me, lesta como uma gazela na palhota onde durmo, junto ao espaldão do morteiro. Tapou-me a boca com a mão, esboçou um sorriso cúmplice, puxou o pano de chita até à cintura, virou-se delicadamente de costas e ofereceu-me o seu esguio corpo negro, ressumando húmidos odores da floresta!...

De pé, ligeiramente curvada para a frente, enigmática como uma máscara, lasciva como a serpente bíblica, submissa como uma fula!

Não é bonita, o rosto deve-lhe ter sido marcado pela varíola, quando mais nova... Mas é sensual e ainda jovem.

Mulher africana.
Pano tradicional de Cabo Verde.

© Luís Graça (2005)


Tenho dificuldade em perceber a sua atitude e em advinhar-lhe a idade. Terá menos de trinta. Trocámos apenas olhares no primeiro dia, na linguagem mais universal dos seres humanos.... E, tal como tinha chegado, partia depois, furtivamente, pela calada da noite, sem dizer uma única palavra em português ou crioulo: a única, de resto, que até agora lhe ouvi, foi uma estranha corruptela do meu apelido.

O affaire (que palavra tão deslocada aqui no cú do mundo) foi celebrado com uma singela troca de roncos: dei-lhe a minha toalha de banho turca e fiquei-lhe com a sua pulseira de missangas vermelhas e brancas como recordação das estranhas noites de Sare Ganà.

Deveríamos ser, ali, em Sare Ganá, os dois seres mais deslocados e solitários do mundo... Nunca mais a vi, nem cheguei a saber a sua verdadeira estória.


Luís Graça (ex-furriel mil Henriques da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
_________

(1) Post já aqui reproduzido com outro título: 11 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXXXVIII: As estranhas noites de Sare Gana


(2) Vd. post o post de 30 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXI: Sare Ganá, a última tabanca de Joladu


"(...) 15 de Agosto de 1969:

"1. Sare Ganá. A última das tabancas do regulado de Joladu, no sub-sector de Geba. Estive aqui destacado duas semanas, em reforço ao sistema de autodefesa. O que não é irónico, porque a população é fula.

"Armadilhada entre as duas fiadas de arame farpado e guarnecida por um pelotão de milícia e grupos civis de autodefesa, Sare Ganá é uma espécie de aldeia estratégica. Aqui termina a nossa soberania territorial, a norte do Rio Geba e começa a zona de intervenção do Com-Chefe que inclui, entre outras, as regiões de Mansomine, Caresse e Óio.

"É aqui que vive o régulo, uma solitária figura de aristocrata fula. Todos os seus súbditos, mandingas, balantas e manjacos, que viviam em Joladu, foram no mato (leia-se: aderiram à guerrilha ou fugiram das NT). Hoje o seu regulado está circunscrito ao perímetro de Sare Gana e a mais duas ou três tabancas (Sare Banda, Sinchã Satu...).

"Quase todos os dias ouvíamos os Fiats bombardearem Sinchã Jobel (...)".


(3) Vd. post de A. Marques Lopes, de 28 de Maio de 1969 > Guiné 69/71 - XXIX: Um ataque a Sare Ganá (1968)

Guiné 63/74 - DLII: Fátima, a furtiva gazela

Excertos do Diário de um tuga. 20 de Agosto de 1969 (1)

Os dias em Sare Ganà [ no subsector de Geba, a noroeste de Bafatá] ainda vão sendo suportáveis, à aparte o calor, as moscas e o estado de sítio...

As noites, essas, é que são longas e penosas. O que me custa mais é não poder ler. Os meus soldados fulas estão de serviço, reforçando o sistema de autodefesa (2).

Por causa de um possível ataque da guerrilha (3), é proibido fazer lume ou foguear na tabanca. Aqui come-se cedo e deita-se cedo. Ficam os vampiros dos mosquitos. Por sorte, não apreciam lá muito o meu sangue. Deve-lhes saber a uísque.

Resta-me a companhia silenciosa e furtiva da Fátima, uma das mulheres do comandante da milícia: logo ao segundo ou terceiro dia, introduziu-se-me, lesta como uma gazela na palhota onde durmo, junto ao espaldão do morteiro. Tapou-me a boca com a mão, esboçou um sorriso cúmplice, puxou o pano de chita até à cintura, virou-se delicadamente de costas e ofereceu-me o seu esguio corpo negro, ressumando húmidos odores da floresta!...

De pé, ligeiramente curvada para a frente, enigmática como uma máscara, lasciva como a serpente bíblica, submissa como uma fula!

Não é bonita, o rosto deve-lhe ter sido marcado pela varíola, quando mais nova... Mas é sensual e ainda jovem.

Mulher africana.
Pano tradicional de Cabo Verde.

© Luís Graça (2005)


Tenho dificuldade em perceber a sua atitude e em advinhar-lhe a idade. Terá menos de trinta. Trocámos apenas olhares no primeiro dia, na linguagem mais universal dos seres humanos.... E, tal como tinha chegado, partia depois, furtivamente, pela calada da noite, sem dizer uma única palavra em português ou crioulo: a única, de resto, que até agora lhe ouvi, foi uma estranha corruptela do meu apelido.

O affaire (que palavra tão deslocada aqui no cú do mundo) foi celebrado com uma singela troca de roncos: dei-lhe a minha toalha de banho turca e fiquei-lhe com a sua pulseira de missangas vermelhas e brancas como recordação das estranhas noites de Sare Ganà.

Deveríamos ser, ali, em Sare Ganá, os dois seres mais deslocados e solitários do mundo... Nunca mais a vi, nem cheguei a saber a sua verdadeira estória.


Luís Graça (ex-furriel mil Henriques da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
_________

(1) Post já aqui reproduzido com outro título: 11 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXXXVIII: As estranhas noites de Sare Gana


(2) Vd. post o post de 30 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXI: Sare Ganá, a última tabanca de Joladu


"(...) 15 de Agosto de 1969:

"1. Sare Ganá. A última das tabancas do regulado de Joladu, no sub-sector de Geba. Estive aqui destacado duas semanas, em reforço ao sistema de autodefesa. O que não é irónico, porque a população é fula.

"Armadilhada entre as duas fiadas de arame farpado e guarnecida por um pelotão de milícia e grupos civis de autodefesa, Sare Ganá é uma espécie de aldeia estratégica. Aqui termina a nossa soberania territorial, a norte do Rio Geba e começa a zona de intervenção do Com-Chefe que inclui, entre outras, as regiões de Mansomine, Caresse e Óio.

"É aqui que vive o régulo, uma solitária figura de aristocrata fula. Todos os seus súbditos, mandingas, balantas e manjacos, que viviam em Joladu, foram no mato (leia-se: aderiram à guerrilha ou fugiram das NT). Hoje o seu regulado está circunscrito ao perímetro de Sare Gana e a mais duas ou três tabancas (Sare Banda, Sinchã Satu...).

"Quase todos os dias ouvíamos os Fiats bombardearem Sinchã Jobel (...)".


(3) Vd. post de A. Marques Lopes, de 28 de Maio de 1969 > Guiné 69/71 - XXIX: Um ataque a Sare Ganá (1968)

Guiné 63/74 - DLI: Um hino ao amor (Leopoldo Amado)

Texto do Leopoldo Amado:

Caro Tunes e restantes amigos da Tertúlia:

Mais uma vez o João Tunes demonstrou a sua brilhante pena, mas mais do que isso, a sua brilhante concepção da vida e do mundo. Para além deste texto se nos apresentar como um hino ao amor, à sexualidade e a guerra, independentemente do lado barricada em que nos situarmos, é também demonstrativo de que não há fatalidades (se assim o podemos chamar), tamanha que seja, perante o qual o Homem (homens e mulheres) não se queda perante as suas fraquezas e virtualidades.

É (e foi) assim nos hiatos que antecedem as crises. É (e foi) assim nas épocas de crise, em todas as crises; foi assim na guerra colonial e/ou guerra de libertação; sê-lo-á certamente num terramoto ou tsuname qualquer, enquanto não chegarem os demorados socorros e enquanto os sobreviventes ainda tiverem animus e libido suficientes para darem vazão à sua qualidade de humanos, com as fraquezas e virtualidades inerentes.

A isto, chame-se-lhe o que se quiser: amor, sexo, colonização sexual, depravação, degenerescência ou cafrealização, contanto que a natureza ontológica dos homens, de todas as cores e latitudes, tal como na realidade da vida, se sobreponha a esses eufemismos demodées que, paradoxalmente, teimam a enfeudar-se a éticas dormentes, a falsos moralismos e hipocrisias encapotadas.

João Tunes está uma vez mais de parabéns, pois disso também se faz a História e a memória colectiva.

Leopoldo Amado

Guiné 63/74 - DLI: Um hino ao amor (Leopoldo Amado)

Texto do Leopoldo Amado:

Caro Tunes e restantes amigos da Tertúlia:

Mais uma vez o João Tunes demonstrou a sua brilhante pena, mas mais do que isso, a sua brilhante concepção da vida e do mundo. Para além deste texto se nos apresentar como um hino ao amor, à sexualidade e a guerra, independentemente do lado barricada em que nos situarmos, é também demonstrativo de que não há fatalidades (se assim o podemos chamar), tamanha que seja, perante o qual o Homem (homens e mulheres) não se queda perante as suas fraquezas e virtualidades.

É (e foi) assim nos hiatos que antecedem as crises. É (e foi) assim nas épocas de crise, em todas as crises; foi assim na guerra colonial e/ou guerra de libertação; sê-lo-á certamente num terramoto ou tsuname qualquer, enquanto não chegarem os demorados socorros e enquanto os sobreviventes ainda tiverem animus e libido suficientes para darem vazão à sua qualidade de humanos, com as fraquezas e virtualidades inerentes.

A isto, chame-se-lhe o que se quiser: amor, sexo, colonização sexual, depravação, degenerescência ou cafrealização, contanto que a natureza ontológica dos homens, de todas as cores e latitudes, tal como na realidade da vida, se sobreponha a esses eufemismos demodées que, paradoxalmente, teimam a enfeudar-se a éticas dormentes, a falsos moralismos e hipocrisias encapotadas.

João Tunes está uma vez mais de parabéns, pois disso também se faz a História e a memória colectiva.

Leopoldo Amado

Guiné 63/74 - DL: Ganhámos na tusa pequena, perdemos na tusa maior (João Tunes)


Texto do João Tunes

Caros tertulianos e estimados camaradas,

Concordo. Claro que não deve haver tabus. Isso não, um bom tabu vale menos que um mau cartoon, dizendo assim e a aproveitar a oportunidade em que o Maomé não nos estará a ouvir, entretido que ele deve estar com os preparativos da tomada de posse pelo Hamas do governo da Palestina. E se não deve haver tabus para narrar o nosso erotismo guerreiro, também ele, tabu, não é chamado para quando cada qual deve dar a sua opinião, seja ela igual, diferente ou mais que sim ou que não. E eu uso pouco a abstenção e menos ainda o voto em branco.

Todas as nossas históricas eróticas são giras (o que fodemos, malta!, só se perderam as punhetas com a imaginação a vaguear na metrópole pu nas putas clarinhas de Bissau!) e devem ser contadas. Um gajo, para mais jovem, não fornica com uma G3, menos ainda com uma basuka e nem pensar com um obus 14, pois claro, para mais era proibido enrabar o comandante mesmo que ele merecesse e um gajo quando quente pede coisa quente, não vai enfiar o pirilau num sorvete de baunilha e morango que, para mais, no mato não havia, e chocolate quente, isso era um fartote.

Acho pois muito bem e que se dê o máximo de fogo à peça (*). Mas, se me permitem, tenho para mim que todo o nosso historial folclórico-erótico, se bem deitado cá para fora, devendo-o ser, também demonstra uma coisa - foi mas foi o tanas termos estado lá a defender Portugal do Minho a Timor. A nossa braguilha, ou a memória da nossa braguilha (e da braguilha de cada um, só o próprio e o padre a quem nos confessamos sabem bem), faz esse mito em cacos. Só não fodemos o que não se pôs a jeito. Ou a psico não permitia. E, sejamos francos, fodemos na Guiné como não fodíamos em Lisboa, no Porto, no Minho, em Trás-os-Montes ou no Alentejo. Olhávamos uma bajuda da Guiné com o mesmo sentido de rapina de posse sexual que para a filha da nossa vizinha metropolitana do rés-do-chão ou para a nossa própria namorada? Ora! E até julgo, honra nos seja feita, que fodemos bajudas e ex-bajudas, fodendo bem, mas com mais decência que o limite da indecência que nos era permitida como exército ocupante e ao serviço de um colonialismo serôdio.

É que o Eros não nos deve matar a inteligência a lidar com o Ethos. Acho que devemos isso, pelo menos, para com as actuais bajudas de uma Guiné livre e independente. Para mais, elas, as bajudas, muitas foram as comidas mas, ao cabo e ao resto, lixaram-nos bem, comeram-nos depois por junto em Guileje e no resto, sendo certo que após tantas batalhas ganhas entre as mamas e as pernas delas, mais outras mais com fogacho de metralha, acabámos por perder a guerra (a outra, a maior, a colonial). Ou seja, tanta pila tesa tivemos e não tivemos pilas para os Strellas quando eles começaram a assobiar no céu da Guiné, transformando-o em área libertada.

Resumindo: ganhámos na tusa pequena, perdemos na tusa maior.

--------------------------

(*) - Em 7 de Abril de 2004, escrevi e publiquei assim (1):



"Voltei a atravessar a parada, agora em sentido contrário e rumo à messe de oficias, para cumprir as ordens superiores. Tinha que jogar king e, a essa hora, o Tenente Coronel já devia estar impaciente pela demora do parceiro à força. Já era noite e as únicas luzes eram os holofotes de vigia e as luzes nas casamatas e nas messes de oficiais e de sargentos."

"No percurso, os pensamentos divagavam algures, misturando Lisboa, a casa, a família, os amigos, a puta da Guiné e o baile perdido. Depois, os pensamentos focalizaram-se nas lindas e personalizadas bajudas manjacas. Paciência, amanhã, é outro dia, disse, cá para mim. Até que, como oficial, não podia abusar e, muito menos, atingir o finalmente. Nem queria, pois tinha vindo para a Guiné casado de fresco. Mas que era muito bom sentir o roçar dos mamilos rijos das bajudas atravessar a camisa e aquecer o peito, calor que depois subia para a cara e descia para a virilha, isso era um facto. Ou uma evidência. Muito melhor que emborcar uma garrafa de uísque ou jogar um king com o cagarolas do Romeira. E quanto não valia, depois do baile, ficar com a memória mais apetecida para enfiar na cama, adormecer e esperar o sonho, o sonho desejado, em que as lembranças eróticas dos mamilos das bajudas cediam espaço à lembrança dos mamilos da mulher. Só isso e não era pouco. Não dava para mais. Mas, não faltava muito para gozar férias de um mês em Lisboa. Porque o descabaçamento das bajudas era obra para furriéis que as recolhiam já maduras dos braços dos oficiais. Depois, as ex-bajudas descabaçadas passavam a mulheres grandes e a ganhar dinheiro na lavagem de roupa para as tropas. E era então, só então, que chegava a hora do festim para cabos e soldados. Percebia-se a cadeia de funções no jogo do sexo porque eram muito raros os furriéis, os cabos e os soldados que tinham dinheiro para passarem férias no continente. E quase todos os oficiais faziam duas vezes férias durante a comissão, porque o podiam fazer e, assim, podiam aliviar atrasos acumulados de relações sexuais junto das mulheres, amigas disponíveis, companheiras de ocasião ou prostitutas brancas. Como em tudo na tropa, também, no tocante a sexo (melhor dizendo, à expressão da supremacia sexual da potência colonial), a cadeia de posse, os ritos hierárquicos e as condições sociais, tinham os seus preceitos e equilíbrios."

---------------------------------


As melhores saudações camaradas de cumprimentos a todos os estimados tertulianos. E não esqueçam de ter um óptimo fim-de-semana.


João Tunes
______

Nota de L.G.:

(1) João Tunes > Bota Acima > 7 de Abril de 2004 > Jogo de Cartas > Texto delicioso, de antologia, onde o alferes miliciano de transmisssões Tunes relata ou evoca : (i) as noites, chatas p'ra burro, em que era obrigado a jogar king com o seu comandante, o tenente-coronel Romeira; (ii) as bravatas sexuais dos tugas; e (iii) a porrada que apanhou por recusar bater num cabo de transmissões sob o seu comando, porrada essa que o levou do Pelundo até ao Catió.

Guiné 63/74 - DL: Ganhámos na tusa pequena, perdemos na tusa maior (João Tunes)


Texto do João Tunes

Caros tertulianos e estimados camaradas,

Concordo. Claro que não deve haver tabus. Isso não, um bom tabu vale menos que um mau cartoon, dizendo assim e a aproveitar a oportunidade em que o Maomé não nos estará a ouvir, entretido que ele deve estar com os preparativos da tomada de posse pelo Hamas do governo da Palestina. E se não deve haver tabus para narrar o nosso erotismo guerreiro, também ele, tabu, não é chamado para quando cada qual deve dar a sua opinião, seja ela igual, diferente ou mais que sim ou que não. E eu uso pouco a abstenção e menos ainda o voto em branco.

Todas as nossas históricas eróticas são giras (o que fodemos, malta!, só se perderam as punhetas com a imaginação a vaguear na metrópole pu nas putas clarinhas de Bissau!) e devem ser contadas. Um gajo, para mais jovem, não fornica com uma G3, menos ainda com uma basuka e nem pensar com um obus 14, pois claro, para mais era proibido enrabar o comandante mesmo que ele merecesse e um gajo quando quente pede coisa quente, não vai enfiar o pirilau num sorvete de baunilha e morango que, para mais, no mato não havia, e chocolate quente, isso era um fartote.

Acho pois muito bem e que se dê o máximo de fogo à peça (*). Mas, se me permitem, tenho para mim que todo o nosso historial folclórico-erótico, se bem deitado cá para fora, devendo-o ser, também demonstra uma coisa - foi mas foi o tanas termos estado lá a defender Portugal do Minho a Timor. A nossa braguilha, ou a memória da nossa braguilha (e da braguilha de cada um, só o próprio e o padre a quem nos confessamos sabem bem), faz esse mito em cacos. Só não fodemos o que não se pôs a jeito. Ou a psico não permitia. E, sejamos francos, fodemos na Guiné como não fodíamos em Lisboa, no Porto, no Minho, em Trás-os-Montes ou no Alentejo. Olhávamos uma bajuda da Guiné com o mesmo sentido de rapina de posse sexual que para a filha da nossa vizinha metropolitana do rés-do-chão ou para a nossa própria namorada? Ora! E até julgo, honra nos seja feita, que fodemos bajudas e ex-bajudas, fodendo bem, mas com mais decência que o limite da indecência que nos era permitida como exército ocupante e ao serviço de um colonialismo serôdio.

É que o Eros não nos deve matar a inteligência a lidar com o Ethos. Acho que devemos isso, pelo menos, para com as actuais bajudas de uma Guiné livre e independente. Para mais, elas, as bajudas, muitas foram as comidas mas, ao cabo e ao resto, lixaram-nos bem, comeram-nos depois por junto em Guileje e no resto, sendo certo que após tantas batalhas ganhas entre as mamas e as pernas delas, mais outras mais com fogacho de metralha, acabámos por perder a guerra (a outra, a maior, a colonial). Ou seja, tanta pila tesa tivemos e não tivemos pilas para os Strellas quando eles começaram a assobiar no céu da Guiné, transformando-o em área libertada.

Resumindo: ganhámos na tusa pequena, perdemos na tusa maior.

--------------------------

(*) - Em 7 de Abril de 2004, escrevi e publiquei assim (1):



"Voltei a atravessar a parada, agora em sentido contrário e rumo à messe de oficias, para cumprir as ordens superiores. Tinha que jogar king e, a essa hora, o Tenente Coronel já devia estar impaciente pela demora do parceiro à força. Já era noite e as únicas luzes eram os holofotes de vigia e as luzes nas casamatas e nas messes de oficiais e de sargentos."

"No percurso, os pensamentos divagavam algures, misturando Lisboa, a casa, a família, os amigos, a puta da Guiné e o baile perdido. Depois, os pensamentos focalizaram-se nas lindas e personalizadas bajudas manjacas. Paciência, amanhã, é outro dia, disse, cá para mim. Até que, como oficial, não podia abusar e, muito menos, atingir o finalmente. Nem queria, pois tinha vindo para a Guiné casado de fresco. Mas que era muito bom sentir o roçar dos mamilos rijos das bajudas atravessar a camisa e aquecer o peito, calor que depois subia para a cara e descia para a virilha, isso era um facto. Ou uma evidência. Muito melhor que emborcar uma garrafa de uísque ou jogar um king com o cagarolas do Romeira. E quanto não valia, depois do baile, ficar com a memória mais apetecida para enfiar na cama, adormecer e esperar o sonho, o sonho desejado, em que as lembranças eróticas dos mamilos das bajudas cediam espaço à lembrança dos mamilos da mulher. Só isso e não era pouco. Não dava para mais. Mas, não faltava muito para gozar férias de um mês em Lisboa. Porque o descabaçamento das bajudas era obra para furriéis que as recolhiam já maduras dos braços dos oficiais. Depois, as ex-bajudas descabaçadas passavam a mulheres grandes e a ganhar dinheiro na lavagem de roupa para as tropas. E era então, só então, que chegava a hora do festim para cabos e soldados. Percebia-se a cadeia de funções no jogo do sexo porque eram muito raros os furriéis, os cabos e os soldados que tinham dinheiro para passarem férias no continente. E quase todos os oficiais faziam duas vezes férias durante a comissão, porque o podiam fazer e, assim, podiam aliviar atrasos acumulados de relações sexuais junto das mulheres, amigas disponíveis, companheiras de ocasião ou prostitutas brancas. Como em tudo na tropa, também, no tocante a sexo (melhor dizendo, à expressão da supremacia sexual da potência colonial), a cadeia de posse, os ritos hierárquicos e as condições sociais, tinham os seus preceitos e equilíbrios."

---------------------------------


As melhores saudações camaradas de cumprimentos a todos os estimados tertulianos. E não esqueçam de ter um óptimo fim-de-semana.


João Tunes
______

Nota de L.G.:

(1) João Tunes > Bota Acima > 7 de Abril de 2004 > Jogo de Cartas > Texto delicioso, de antologia, onde o alferes miliciano de transmisssões Tunes relata ou evoca : (i) as noites, chatas p'ra burro, em que era obrigado a jogar king com o seu comandante, o tenente-coronel Romeira; (ii) as bravatas sexuais dos tugas; e (iii) a porrada que apanhou por recusar bater num cabo de transmissões sob o seu comando, porrada essa que o levou do Pelundo até ao Catió.

Guiné 63/74 - DXLXIX: os periquitos e a prostituta de Bolama (Leopoldo Amado)

Guiné > Bolama > 1972 > CART 3494 (Xime e Mansambo, 1972/74). Bolama era, em muitos casos, o primeiro poiso dos periquitos. Era aqui que se fazia o treino operacional das companhias, antes de partirem para as zonas quentes. Bolama, tal como Bafatá e Bissau, era uma boa zona para as trabalhadoras do sexo, como diria o nosso Jorge Cabral. Na foto, o Manuel Ferrera, soldado condutor auto da CART 3494, a mesma companhia a que pertenciam os nossos tertulianos António J. Serradas Pereira (Alf mil art), Carvalhido da Ponte (Fur mil enfermeiro) e Sousa de Castro (1º cabo trms) (LG)


© Manuel Ferreira (2005)


Texto de Leopoldo Amado, historiador guineense, doutorando em história contemporânea pela Universidade de Lisboa com uma tese sobre guerra colonial ' versus' guerra de libertação (o caso da Guiné, 1963/74), e membro da nossa tertúlia:

Camaradas e amigos,

É longa já a lista de obras de literatura colonial publicados, assim como estudos que recaíram sobre as mesmas. Esse tipo de literatura que aos poucos está a conquistar o seu espaço em Portugal, está repleta de narrativas que explanam o amor, o sexo, a homossexualidade, o romance, a masturbação, as relações ocasionais ou fortuitas, etc.

É, digamos assim, uma dimensão humana que resultou do natural encontro civilizacional de homens e mulheres de culturas e quadrantes diferentes, é certo, mas que descobriram no relacionamento entre ambos e no amor (ou no sexo) a dimensão universal dessa humanidade que, afinal, constitui o denominador comum entre homens e mulheres de qualquer latitude.

Tive a oportunidade de ler imensas e grandiosas obras de literatura colonial e, no âmbito da minha tese [de doutoramento], dediquei um pequeno mas expressivo capítulo à literatura colonial que directa ou indirectamente se reporta à Guiné. Não vos conto quão lindo foi para mim a constatação de que o amor ou o amor, para (não) falar em sexualidade, figura nessas magistrais obras como o elo vital do próprio ciclo da guerra, aliás, razão pela qual a sua evocação afigura-se-nos, nalguns casos, despida de preconceitos, de falsas honrarias e/ou de pruridos que, amiúde, estas questões suscitam, o que não significa que repudiemos, convenhamo-nos, o direito à privacidade ou ao segredo que assiste individualmente, a cada um, e colectivamente, em caso de necessidade ética por todos tido como essencial.

Estas e outras questões afins, justamente porque apresentam-se-nos como mais uma dimensão da guerra, em nada me escandalizaria se, ao nível da Tertúlia, os visse abordados, literária ou cruamente, com ou sem pseudónimos, conforme a opção por parte daqueles que, por livre iniciativa, resolverem partilhar a sua experiência ou a de outros que, por qualquer via, tiveram conhecimento.

Nesse sentido, escreverei a seu tempo a estória de Carnaval em Grogue, uma prostituta nativa que, em Bolama, improvisava uma cama com papelões que estendia ao chão, colocando do lado oposto dos mesmos os periquitos em fila indiana que, um após outro, pelo menos anulavam distâncias físicas com sonantes gemidos mórbidos, tudo isto na presença dos ainda não aviados, cuja ansiedade,aliás, era todo visível nos olhos esbugalhados que ostententavam.

Contarei ainda – suponho mesmo que em parte já o estou a fazer – de como a brincadeira acabou mal e também a forma como os miúdos de Bolama, ainda catraios, se deleitavam com idas organizadas à piscina municipal, a fim de silenciosamente escolherem o melhor ângulo de visão que lhes permitisse espreitar e assistir da melhor forma ao festim...

Leopoldo Amado

Guiné 63/74 - DXLXIX: os periquitos e a prostituta de Bolama (Leopoldo Amado)

Guiné > Bolama > 1972 > CART 3494 (Xime e Mansambo, 1972/74). Bolama era, em muitos casos, o primeiro poiso dos periquitos. Era aqui que se fazia o treino operacional das companhias, antes de partirem para as zonas quentes. Bolama, tal como Bafatá e Bissau, era uma boa zona para as trabalhadoras do sexo, como diria o nosso Jorge Cabral. Na foto, o Manuel Ferrera, soldado condutor auto da CART 3494, a mesma companhia a que pertenciam os nossos tertulianos António J. Serradas Pereira (Alf mil art), Carvalhido da Ponte (Fur mil enfermeiro) e Sousa de Castro (1º cabo trms) (LG)


© Manuel Ferreira (2005)


Texto de Leopoldo Amado, historiador guineense, doutorando em história contemporânea pela Universidade de Lisboa com uma tese sobre guerra colonial ' versus' guerra de libertação (o caso da Guiné, 1963/74), e membro da nossa tertúlia:

Camaradas e amigos,

É longa já a lista de obras de literatura colonial publicados, assim como estudos que recaíram sobre as mesmas. Esse tipo de literatura que aos poucos está a conquistar o seu espaço em Portugal, está repleta de narrativas que explanam o amor, o sexo, a homossexualidade, o romance, a masturbação, as relações ocasionais ou fortuitas, etc.

É, digamos assim, uma dimensão humana que resultou do natural encontro civilizacional de homens e mulheres de culturas e quadrantes diferentes, é certo, mas que descobriram no relacionamento entre ambos e no amor (ou no sexo) a dimensão universal dessa humanidade que, afinal, constitui o denominador comum entre homens e mulheres de qualquer latitude.

Tive a oportunidade de ler imensas e grandiosas obras de literatura colonial e, no âmbito da minha tese [de doutoramento], dediquei um pequeno mas expressivo capítulo à literatura colonial que directa ou indirectamente se reporta à Guiné. Não vos conto quão lindo foi para mim a constatação de que o amor ou o amor, para (não) falar em sexualidade, figura nessas magistrais obras como o elo vital do próprio ciclo da guerra, aliás, razão pela qual a sua evocação afigura-se-nos, nalguns casos, despida de preconceitos, de falsas honrarias e/ou de pruridos que, amiúde, estas questões suscitam, o que não significa que repudiemos, convenhamo-nos, o direito à privacidade ou ao segredo que assiste individualmente, a cada um, e colectivamente, em caso de necessidade ética por todos tido como essencial.

Estas e outras questões afins, justamente porque apresentam-se-nos como mais uma dimensão da guerra, em nada me escandalizaria se, ao nível da Tertúlia, os visse abordados, literária ou cruamente, com ou sem pseudónimos, conforme a opção por parte daqueles que, por livre iniciativa, resolverem partilhar a sua experiência ou a de outros que, por qualquer via, tiveram conhecimento.

Nesse sentido, escreverei a seu tempo a estória de Carnaval em Grogue, uma prostituta nativa que, em Bolama, improvisava uma cama com papelões que estendia ao chão, colocando do lado oposto dos mesmos os periquitos em fila indiana que, um após outro, pelo menos anulavam distâncias físicas com sonantes gemidos mórbidos, tudo isto na presença dos ainda não aviados, cuja ansiedade,aliás, era todo visível nos olhos esbugalhados que ostententavam.

Contarei ainda – suponho mesmo que em parte já o estou a fazer – de como a brincadeira acabou mal e também a forma como os miúdos de Bolama, ainda catraios, se deleitavam com idas organizadas à piscina municipal, a fim de silenciosamente escolherem o melhor ângulo de visão que lhes permitisse espreitar e assistir da melhor forma ao festim...

Leopoldo Amado

Guiné 63/74 - DXLVIII: Nem santos nem pecadores (David Guimarães)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > CART 24 Guiné > Zona Leste > Xitole > 1970: "Eu e a Helena" (DG).

O Xitole era, tal como Bambadinca, sede posto administrativo, pertencendo ambos ao concelho de Bafatá (zona leste), segunda cidade da província. A povoação que vivia no Xitole era, no entanto, menos numerosa do que a de Bambadinca, sede do BART 2917 (1970/72). Ir a Bafatá mudar o óleo (expressão castrense para ir às putas...) era um luxo para o pessoal do Xitole e de Mansambo... Tinham que se contentar com as conquistas amorosas locais... (LG)

© David J. Guimarães (2005)



Texto do David Guimarães (ex-furriel miliciano da CART 2716, Xitole, 1970/1972)

Até que enfim!... Acho que sim - não poderá haver tabus e ainda bem que o Zé Neto, o Zé Teixeira, o Jorge Cabral e o Luís são, afinal, os responsáveis por quebrarem o tabu... Falaram de algo que também é guerra... Foi e marcou a nossa guerra: a lavadeira, o cabaço, etc, etc... Ai, ai, ai, que começo a falar demais, ou talvez não...

Creio que nunca houve grandes abusos nesse sentido, nunca foi preciso apontar a G3 a nenhuma bajuda, já uns pesos, enfim ... Que mal fazia, se era dinheiro de guerra!...

Também é importante todos dizermos que, nesse capítulo, não fomos nem santos nem pecadores. Eramos humanos, soldados que passávamos uma vida metido entre matos, entre perigos e guerras esforçados... E pela noite dentro, a escapadela da ordem, na tabanca. Ai que maravilha!... Foram muitos e belos romances... E aqueles que podiam ir a Bafatá, eram uns sortudos... Eu só no fim da comissão é que soube o que era Bafatá!...

Lembro-me de um romance de um camarada que comprou a liberdade de uma mulher. Os nativos pensaram que ele se tinha casado com ela... Bem, porreiro para ele! Não é segredo, foi verdade, e a testemunha foi o chefe de posto, isso mesmo, aquele que a mulher - linda ali, no Xitole!!! - morria de amores por um camarada nosso, já falecido...

E não vamos contar a do tenente que, às 4 horas da manhã, estava sentado no colo de um soldado.... Tudo boquiaberto? Aconteceu no Saltinho, sim ... Fora aquele camarada - ai Senhor do Céu ! - que um dia, estava eu a dormir no palácio das confusões, e ele por cima de mim:
- Guimarães! - dizia o B..., camarada do Xime - porra, estás bem?
- Deixem-me dormir! - pedia eu... Porra...
- Pois é, estás porreiro!!! Pois é e pois é... E eu dormi mesmo....

De manhã fui perguntar se estava tudo com os copos durante a noite, que nem me deixavam dormir... Então disseram-me:
- Ó seu c...., então não sabes que o fulano tem uma amante que é um cabo !?
Respondi eu:
- F...-se, que perigo em que eu estava... Porra!!! Já viram a mina mesmo ali, mesmo por cima de mim!... - Estavamos num beliche... Quem me perguntar, prometo que não digo o nome do camarada furriel - nem me lembro do nome... Sei apenas que foi meu carmarada de recruta nas Caldas da Rainha... Um dia a CCAÇ 12 acompanhou uma coluna ao Saltinho... Houve no caminho um acidente onde morreu um soldado africano, condutor, e um furriel ficou ferido... Bem lá ficou o camarada em convalescença no Xitole:
- Ai que vocês são tão simpáticos....
- Bem, bem...

E o Cardoso (outro furriel que estava lá desde 1966) ... Esse pedia-me para eu fazer guarda mais pela noite... Vinha-me acordar, para eu seguir para a tabanca: vinha sempre de casa da Mariana, com as calças na mão, descomposto... E ria, ria... Lá ia eu, sempre furioso:
- Seu porco! - e ia ter com a Mariana e ela, coitada, queixava-se:
- Guimarás (pronúncia dela), Cardoso manga de tolo, mas Mariana gostar dele....

Isto também era guerra - ou, se quiserem, os intervalos de guerra, que eram poucos... O suficiente, afinal, para se apanhar uma borracheira ou ir, com lindos penteados, passear à tabanda, para bajuda ver ou para quem aparecesse, pelos vistos....

Um abraço, David

Guiné 63/74 - DXLVIII: Nem santos nem pecadores (David Guimarães)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xitole > CART 24 Guiné > Zona Leste > Xitole > 1970: "Eu e a Helena" (DG).

O Xitole era, tal como Bambadinca, sede posto administrativo, pertencendo ambos ao concelho de Bafatá (zona leste), segunda cidade da província. A povoação que vivia no Xitole era, no entanto, menos numerosa do que a de Bambadinca, sede do BART 2917 (1970/72). Ir a Bafatá mudar o óleo (expressão castrense para ir às putas...) era um luxo para o pessoal do Xitole e de Mansambo... Tinham que se contentar com as conquistas amorosas locais... (LG)

© David J. Guimarães (2005)



Texto do David Guimarães (ex-furriel miliciano da CART 2716, Xitole, 1970/1972)

Até que enfim!... Acho que sim - não poderá haver tabus e ainda bem que o Zé Neto, o Zé Teixeira, o Jorge Cabral e o Luís são, afinal, os responsáveis por quebrarem o tabu... Falaram de algo que também é guerra... Foi e marcou a nossa guerra: a lavadeira, o cabaço, etc, etc... Ai, ai, ai, que começo a falar demais, ou talvez não...

Creio que nunca houve grandes abusos nesse sentido, nunca foi preciso apontar a G3 a nenhuma bajuda, já uns pesos, enfim ... Que mal fazia, se era dinheiro de guerra!...

Também é importante todos dizermos que, nesse capítulo, não fomos nem santos nem pecadores. Eramos humanos, soldados que passávamos uma vida metido entre matos, entre perigos e guerras esforçados... E pela noite dentro, a escapadela da ordem, na tabanca. Ai que maravilha!... Foram muitos e belos romances... E aqueles que podiam ir a Bafatá, eram uns sortudos... Eu só no fim da comissão é que soube o que era Bafatá!...

Lembro-me de um romance de um camarada que comprou a liberdade de uma mulher. Os nativos pensaram que ele se tinha casado com ela... Bem, porreiro para ele! Não é segredo, foi verdade, e a testemunha foi o chefe de posto, isso mesmo, aquele que a mulher - linda ali, no Xitole!!! - morria de amores por um camarada nosso, já falecido...

E não vamos contar a do tenente que, às 4 horas da manhã, estava sentado no colo de um soldado.... Tudo boquiaberto? Aconteceu no Saltinho, sim ... Fora aquele camarada - ai Senhor do Céu ! - que um dia, estava eu a dormir no palácio das confusões, e ele por cima de mim:
- Guimarães! - dizia o B..., camarada do Xime - porra, estás bem?
- Deixem-me dormir! - pedia eu... Porra...
- Pois é, estás porreiro!!! Pois é e pois é... E eu dormi mesmo....

De manhã fui perguntar se estava tudo com os copos durante a noite, que nem me deixavam dormir... Então disseram-me:
- Ó seu c...., então não sabes que o fulano tem uma amante que é um cabo !?
Respondi eu:
- F...-se, que perigo em que eu estava... Porra!!! Já viram a mina mesmo ali, mesmo por cima de mim!... - Estavamos num beliche... Quem me perguntar, prometo que não digo o nome do camarada furriel - nem me lembro do nome... Sei apenas que foi meu carmarada de recruta nas Caldas da Rainha... Um dia a CCAÇ 12 acompanhou uma coluna ao Saltinho... Houve no caminho um acidente onde morreu um soldado africano, condutor, e um furriel ficou ferido... Bem lá ficou o camarada em convalescença no Xitole:
- Ai que vocês são tão simpáticos....
- Bem, bem...

E o Cardoso (outro furriel que estava lá desde 1966) ... Esse pedia-me para eu fazer guarda mais pela noite... Vinha-me acordar, para eu seguir para a tabanca: vinha sempre de casa da Mariana, com as calças na mão, descomposto... E ria, ria... Lá ia eu, sempre furioso:
- Seu porco! - e ia ter com a Mariana e ela, coitada, queixava-se:
- Guimarás (pronúncia dela), Cardoso manga de tolo, mas Mariana gostar dele....

Isto também era guerra - ou, se quiserem, os intervalos de guerra, que eram poucos... O suficiente, afinal, para se apanhar uma borracheira ou ir, com lindos penteados, passear à tabanda, para bajuda ver ou para quem aparecesse, pelos vistos....

Um abraço, David

Guiné 63/74 - DXLVII: Frutos Proibidos (Zé Teixeira)

Guiné-Bissau > Saltinho > A sobrinha do Mudé Embaló (1)
© José Teixeira (2005)


Com a minha preocupação em rever a Binta da Chamarra, gerei algum movimento nas mulheres de Sinchã Sambel. Ninguém me soube dizer o que era feita dela, mas apareceu o filha da outra a bater-se ao lugar, na ambição de vir a conhecer o pai e sacar algum.

No dia em que deixei o Saltinho, sei que a Awá de Mampatá, irmã da outra, a Binta Bobo, ia lá visitar-me. Só que eu saí de madrugada, mas fiquei com pena. Do pouco que conversei com a Dadá, mulher do Régulo, os filhos de brancos foram bem aceites e estão integrados nas comunidades locais.

Eu conheci mal a história da Binta da Chamarra. Quando fui colocado lá, já ela tinha engravidado e ido para Quebo. O Catarino (enfermeiro que esteve lá antes de mim) é que sabe bem da sua história e foi a pedido dele que a tentei reencontrar.

Em Empada havia uma mulher da raça papel que tinha um filho de branco e estava perfeitamente integrada na sua comunidade.

Em 1975, já em Bissau, o guinéu que nos tratou do embarque, era filho de branco e mostrou muito interesse em localizar o pai que, segundo ele, devia morar aqui em Leça do Balio. Parece que chegou a corresponder-se com uma irmã do pai, mas perdeu a ligação. Este jovem tinha um bom emprego e apenas gostava de conhecer o pai. Ainda tentei localizar o rastro, mas nos registos desta terra não existia ninguém com o nome que ele me deu.

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > O Zé Teixeira com um antigo milícia e a sua filha.

© José Teixeira (2005)


Creio que este também é um tema com muito interesse para o Blogue. Recordo apenas o que aconteceu em Mampatá. O Alferes, comandante do Destacamento, logo no primeiro dia que lá estacionamos, reuniu o pelotão e teve uma conversinha:
- Amigos, todos somos homens e aqui há muitas mulheres. Estamos aqui para voltarmos para a Metrópole e só o conseguiremos se não arranjarmos sarilhos... Eu não quero sarilhos de saias. Cada um que se desenrrasque como puder e souber. Porém se houver algum problema, eu serei duro, porque não aceito que um de nós possa pôr a vida de todos em perigo, por atitudes menos sensatas.

Foi mais ou menos isto o que o Alferes Costa Belo disse à sua gente. A relação durante seis meses foi excelente e, como já passou no blogue, eu até tive um milícia que me ofereceu a mulher para me pagar, pelo facto de ter enviado o pai para Bissau e assim lhe ter dado mais uns anos de vida.

Houve situações difíceis de ultrapassar. É que o raio das bajudas eram lindas como o sol, com um corpinho! Ai . . . está-me a crescer água na boca.

Um abraço
Zé Teixeira

__________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXIII: Estórias do Zé Teixeira (1): Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

"Passados largos anos, após o regresso da guerra, recebi um telefonema do Dr. Azevedo Franco, meu querido amigo, médico, que fez grande parte da sua comissão em Buba. Tinha-lhe aparecido no Hospital o Mudé Embaló e não tinha soluções de futuro para o puto.

"O Mudé tinha-se iniciado, como ajudante de fermero, com onze/doze anos, na Chamarra, com o meu colega de Companhia, Jorge Catarino que lá se encontrava integrado no seu pelotão (...)".

Guiné 63/74 - DXLVII: Frutos Proibidos (Zé Teixeira)

Guiné-Bissau > Saltinho > A sobrinha do Mudé Embaló (1)
© José Teixeira (2005)


Com a minha preocupação em rever a Binta da Chamarra, gerei algum movimento nas mulheres de Sinchã Sambel. Ninguém me soube dizer o que era feita dela, mas apareceu o filha da outra a bater-se ao lugar, na ambição de vir a conhecer o pai e sacar algum.

No dia em que deixei o Saltinho, sei que a Awá de Mampatá, irmã da outra, a Binta Bobo, ia lá visitar-me. Só que eu saí de madrugada, mas fiquei com pena. Do pouco que conversei com a Dadá, mulher do Régulo, os filhos de brancos foram bem aceites e estão integrados nas comunidades locais.

Eu conheci mal a história da Binta da Chamarra. Quando fui colocado lá, já ela tinha engravidado e ido para Quebo. O Catarino (enfermeiro que esteve lá antes de mim) é que sabe bem da sua história e foi a pedido dele que a tentei reencontrar.

Em Empada havia uma mulher da raça papel que tinha um filho de branco e estava perfeitamente integrada na sua comunidade.

Em 1975, já em Bissau, o guinéu que nos tratou do embarque, era filho de branco e mostrou muito interesse em localizar o pai que, segundo ele, devia morar aqui em Leça do Balio. Parece que chegou a corresponder-se com uma irmã do pai, mas perdeu a ligação. Este jovem tinha um bom emprego e apenas gostava de conhecer o pai. Ainda tentei localizar o rastro, mas nos registos desta terra não existia ninguém com o nome que ele me deu.

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > O Zé Teixeira com um antigo milícia e a sua filha.

© José Teixeira (2005)


Creio que este também é um tema com muito interesse para o Blogue. Recordo apenas o que aconteceu em Mampatá. O Alferes, comandante do Destacamento, logo no primeiro dia que lá estacionamos, reuniu o pelotão e teve uma conversinha:
- Amigos, todos somos homens e aqui há muitas mulheres. Estamos aqui para voltarmos para a Metrópole e só o conseguiremos se não arranjarmos sarilhos... Eu não quero sarilhos de saias. Cada um que se desenrrasque como puder e souber. Porém se houver algum problema, eu serei duro, porque não aceito que um de nós possa pôr a vida de todos em perigo, por atitudes menos sensatas.

Foi mais ou menos isto o que o Alferes Costa Belo disse à sua gente. A relação durante seis meses foi excelente e, como já passou no blogue, eu até tive um milícia que me ofereceu a mulher para me pagar, pelo facto de ter enviado o pai para Bissau e assim lhe ter dado mais uns anos de vida.

Houve situações difíceis de ultrapassar. É que o raio das bajudas eram lindas como o sol, com um corpinho! Ai . . . está-me a crescer água na boca.

Um abraço
Zé Teixeira

__________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXIII: Estórias do Zé Teixeira (1): Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

"Passados largos anos, após o regresso da guerra, recebi um telefonema do Dr. Azevedo Franco, meu querido amigo, médico, que fez grande parte da sua comissão em Buba. Tinha-lhe aparecido no Hospital o Mudé Embaló e não tinha soluções de futuro para o puto.

"O Mudé tinha-se iniciado, como ajudante de fermero, com onze/doze anos, na Chamarra, com o meu colega de Companhia, Jorge Catarino que lá se encontrava integrado no seu pelotão (...)".

Guiné 63/74 -DXLVI: Estórias cabralianas (5): o Amoroso Bando das Quatro em Missirá

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Reguladodo Cuor > Missirá > 1969 > Aqui esteve destacado, com o seu Pel Caç Nat 63, o Alf Mil Art Cabral, em 1970/71 /(1)

Arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)


O Amoroso Bando das Quatro (2)

Jorge Cabral (ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71; hoje, advogado e professor universitário):

Nos Destacamentos em que vivi, todos eram bem recebidos, à boa maneira da gente da Guiné, cuja cativante hospitalidade foi muitas vezes confundida com subserviência ou portuguesismo.

Djilas, batoteiros profissionais, artesãos, doentes, feiticeiros, alcoviteiros, parentes dos soldados, visitavam o aquartelamento e às vezes ali permaneciam, fazendo negócios, combinando casamentos, tratando-se ou tratando, ou simplesmente descansando. Desconfio mesmo que alguns guerrilheiros terão passado férias em Missirá…

Uma regra porém, tinham todos de cumprir à chegada. Deviam apresentar-se ao Comandante, dizer quem eram e o motivo da visita. Claro que muitos mentiam, o que era irrelevante, pois o que interessava era o significado simbólico da apresentação, como expliquei muitas vezes aos que não concordavam com esta política de porta aberta.

Estávamos pois, habituados às mais estranhas personagens, mas ficámos agradavelmente surpreendidos, quando num dia de Dezembro, ao pôr-do-sol, entraram no quartel quatro trabalhadoras sexuais. Eram jeitosas fulas do Gabu que, respeitadoras da hierarquia, comigo combinaram os preços e as condições dos serviços, encarregando-me da cobrança.

Encontrando-se o Furriel Branquinho com paludismo e o cabo Morais com dor de dentes, restavam apenas sete brancos, capazes de usufruir de tão inesperada benesse. Efectuados os pagamentos, começou a actividade, que eu previa satisfatória, mas que a curto prazo foi interrompida por alta gritaria.

Primeiro, irrompeu uma, dizendo ter sido enganada, pois cabo e furriel a queriam usar, com um só pagamento. Acontecera que o cabo substituíra o furriel na função, pensando que a mulher não repararia, esquecendo-se que o Furriel tinha um braço engessado, pormenor que logo a alertou. Furiosa, acolheu-se na minha cama, juntando-se à que lá se encontrava.

Ainda nem um quarto de hora passara, logo à porta do abrigo aparece outra, queixando-se do Cabo Rocha. Dizia ela que não era como as raparigas de Lisboa, que até no sovaco… Também esta se meteu na minha cama.

De seguida, surgiu a terceira afiançando que o Básico-Cozinheiro era suma bajuda, pois sangrava, sangrava. Claro, mais uma na minha cama.

Eis-me assim feito sultão, aconchegado entre as quatro, tranquilo e em Paz. Rei e súbdito, protector e protegido, entre seios e ventres, negros e suaves, nunca dormi tão bem.
De manhã partiram.

Quem as teria mandado, passou a perguntar todos os dias o Básico-Cozinheiro, sarado já o freio e louco de desejo.

Garanti-lhe ter sido uma oferta do Movimento Nacional Feminino. Convencido, sei que lhes escreveu, implorando uma repetição. Nunca lhe responderam. E o certo é que elas não voltaram…

© Jorge Cabral (2006)

_____________


(1) Amigos e camaradas: Deixem-me hoje ser tendencioso: Quero confessar aqui, em público, que sou fã das estórias cabralianas, o que não significa menor apreço pela produção literária dos demais tertulianos... L.G.

Jorge: Da tua janela vê-se outra Guiné, outra guerra, outro mundo, os homens e as mulheres em carne e osso… O teu sentido de humor é único… Sou fã das tuas short stories… Cuida-me bem dessa mina literária… Eu sei que é uma técnica difícil… Quanto à tua carta (que eu pressupus aberta…), ela merece o meu aplauso e a minha total concordância (3)… Amigalhão, um abraço. Luís Graça

Sobre a pessoa do Jorge Cabral, vd. post de 17 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXXII: Vocês não tenham medo, não fujam, sou o Cabral (Fá, 1969/71)

(2) Vd. posts anteriores:

21 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXCIII: Bendito Cabral, entre as mandingas de Fá e as balantas de Bissaque

5 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXI: Cabral só havia um, o de Missirá e mais nenhum...


"A mulher do Major e o castigo do Cabral


"Quando de Missirá me deslocava a Bambadinca, seguia sempre a mesma rotina. Primeiro visitava o Bar do Soldado, até porque aí tinha que liquidar as despesas alcoólicas efectuadas pelo meu Soldado Ocamari Nanque, que se encontrava preso (...)


Guiné 63/74 - CDXXII: Estórias cabralianas (2): rally turra ?

"Numa tarde de tédio convenci o motorista da viatura existente em Missirá, um humilde Unimog, a dar um passeio. Pretendia visitar o Enxalé, seguindo pela estrada de Mato Cão, pela qual não passava qualquer veículo há muito tempo.

"Progredimos alguns quilómetros, e perto de S. Belchior, ouvimos tiros, pelo que retrocedemos, perdendo no regresso um jericã (...)"


6 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXIX: Estórias cabralinas (3): o básico apaixonado

"O Pel Caç Nat 63 esteve quase sempre em Destacamentos. Comigo em Fá e Missirá. Antes no Saltinho, e depois no Mato Cão.

"Para os Destacamentos eram mandados os "especialistas" que a CCS [do Batalhão sediado em Bambadinca] não queria. Assim, tive maqueiros que não podiam ver sangue, motoristas epilépticos e até um apontador de morteiros cego de um olho. Tudo boa rapaziada, aliás! (...)"

18 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLVIII: Estórias cabralianas (4): o Jagudi de Barcelos

"Dos quatro Comandantes de Bambadinca que conheci, apenas o Polidoro Monteiro me mereceu consideração. Dos outros nem vou dizer o nome, e de dois a imagem que guardo é patética (...)".

(3) Vd post de 15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVI: Carta (aberta) ao Luís (Jorge Cabral)

"O Jorge era, para mim, o mais paisano dos militares que eu conheci na Guiné: alferes miliciano, foi o comandante do Pel Caç Nat 63 (...).

"Em Fá [e depois em Missirá] não se limitava a ser um heterodoxo representante do exército colonial, actor e crítico ao mesmo tempo. Era também homem grande, pai, patrão, chefe de tabanca, conselheiro, amigo do PAIGC, poeta, antropólogo, feiticeiro, cherno, médico, sexólogo, advogado e não sei que mais. Um verdadeiro Lawrence da Guiné. Alguns dos seus amigos e companheiros de Bambadinca (aonde ele ia com frequência matar a sede) chegaram a recear que ele ficasse completamente cafrealizado!" (...)

Guiné 63/74 -DXLVI: Estórias cabralianas (5): o Amoroso Bando das Quatro em Missirá

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Reguladodo Cuor > Missirá > 1969 > Aqui esteve destacado, com o seu Pel Caç Nat 63, o Alf Mil Art Cabral, em 1970/71 /(1)

Arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)


O Amoroso Bando das Quatro (2)

Jorge Cabral (ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71; hoje, advogado e professor universitário):

Nos Destacamentos em que vivi, todos eram bem recebidos, à boa maneira da gente da Guiné, cuja cativante hospitalidade foi muitas vezes confundida com subserviência ou portuguesismo.

Djilas, batoteiros profissionais, artesãos, doentes, feiticeiros, alcoviteiros, parentes dos soldados, visitavam o aquartelamento e às vezes ali permaneciam, fazendo negócios, combinando casamentos, tratando-se ou tratando, ou simplesmente descansando. Desconfio mesmo que alguns guerrilheiros terão passado férias em Missirá…

Uma regra porém, tinham todos de cumprir à chegada. Deviam apresentar-se ao Comandante, dizer quem eram e o motivo da visita. Claro que muitos mentiam, o que era irrelevante, pois o que interessava era o significado simbólico da apresentação, como expliquei muitas vezes aos que não concordavam com esta política de porta aberta.

Estávamos pois, habituados às mais estranhas personagens, mas ficámos agradavelmente surpreendidos, quando num dia de Dezembro, ao pôr-do-sol, entraram no quartel quatro trabalhadoras sexuais. Eram jeitosas fulas do Gabu que, respeitadoras da hierarquia, comigo combinaram os preços e as condições dos serviços, encarregando-me da cobrança.

Encontrando-se o Furriel Branquinho com paludismo e o cabo Morais com dor de dentes, restavam apenas sete brancos, capazes de usufruir de tão inesperada benesse. Efectuados os pagamentos, começou a actividade, que eu previa satisfatória, mas que a curto prazo foi interrompida por alta gritaria.

Primeiro, irrompeu uma, dizendo ter sido enganada, pois cabo e furriel a queriam usar, com um só pagamento. Acontecera que o cabo substituíra o furriel na função, pensando que a mulher não repararia, esquecendo-se que o Furriel tinha um braço engessado, pormenor que logo a alertou. Furiosa, acolheu-se na minha cama, juntando-se à que lá se encontrava.

Ainda nem um quarto de hora passara, logo à porta do abrigo aparece outra, queixando-se do Cabo Rocha. Dizia ela que não era como as raparigas de Lisboa, que até no sovaco… Também esta se meteu na minha cama.

De seguida, surgiu a terceira afiançando que o Básico-Cozinheiro era suma bajuda, pois sangrava, sangrava. Claro, mais uma na minha cama.

Eis-me assim feito sultão, aconchegado entre as quatro, tranquilo e em Paz. Rei e súbdito, protector e protegido, entre seios e ventres, negros e suaves, nunca dormi tão bem.
De manhã partiram.

Quem as teria mandado, passou a perguntar todos os dias o Básico-Cozinheiro, sarado já o freio e louco de desejo.

Garanti-lhe ter sido uma oferta do Movimento Nacional Feminino. Convencido, sei que lhes escreveu, implorando uma repetição. Nunca lhe responderam. E o certo é que elas não voltaram…

© Jorge Cabral (2006)

_____________


(1) Amigos e camaradas: Deixem-me hoje ser tendencioso: Quero confessar aqui, em público, que sou fã das estórias cabralianas, o que não significa menor apreço pela produção literária dos demais tertulianos... L.G.

Jorge: Da tua janela vê-se outra Guiné, outra guerra, outro mundo, os homens e as mulheres em carne e osso… O teu sentido de humor é único… Sou fã das tuas short stories… Cuida-me bem dessa mina literária… Eu sei que é uma técnica difícil… Quanto à tua carta (que eu pressupus aberta…), ela merece o meu aplauso e a minha total concordância (3)… Amigalhão, um abraço. Luís Graça

Sobre a pessoa do Jorge Cabral, vd. post de 17 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXXII: Vocês não tenham medo, não fujam, sou o Cabral (Fá, 1969/71)

(2) Vd. posts anteriores:

21 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXCIII: Bendito Cabral, entre as mandingas de Fá e as balantas de Bissaque

5 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXI: Cabral só havia um, o de Missirá e mais nenhum...


"A mulher do Major e o castigo do Cabral


"Quando de Missirá me deslocava a Bambadinca, seguia sempre a mesma rotina. Primeiro visitava o Bar do Soldado, até porque aí tinha que liquidar as despesas alcoólicas efectuadas pelo meu Soldado Ocamari Nanque, que se encontrava preso (...)


Guiné 63/74 - CDXXII: Estórias cabralianas (2): rally turra ?

"Numa tarde de tédio convenci o motorista da viatura existente em Missirá, um humilde Unimog, a dar um passeio. Pretendia visitar o Enxalé, seguindo pela estrada de Mato Cão, pela qual não passava qualquer veículo há muito tempo.

"Progredimos alguns quilómetros, e perto de S. Belchior, ouvimos tiros, pelo que retrocedemos, perdendo no regresso um jericã (...)"


6 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXIX: Estórias cabralinas (3): o básico apaixonado

"O Pel Caç Nat 63 esteve quase sempre em Destacamentos. Comigo em Fá e Missirá. Antes no Saltinho, e depois no Mato Cão.

"Para os Destacamentos eram mandados os "especialistas" que a CCS [do Batalhão sediado em Bambadinca] não queria. Assim, tive maqueiros que não podiam ver sangue, motoristas epilépticos e até um apontador de morteiros cego de um olho. Tudo boa rapaziada, aliás! (...)"

18 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLVIII: Estórias cabralianas (4): o Jagudi de Barcelos

"Dos quatro Comandantes de Bambadinca que conheci, apenas o Polidoro Monteiro me mereceu consideração. Dos outros nem vou dizer o nome, e de dois a imagem que guardo é patética (...)".

(3) Vd post de 15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVI: Carta (aberta) ao Luís (Jorge Cabral)

"O Jorge era, para mim, o mais paisano dos militares que eu conheci na Guiné: alferes miliciano, foi o comandante do Pel Caç Nat 63 (...).

"Em Fá [e depois em Missirá] não se limitava a ser um heterodoxo representante do exército colonial, actor e crítico ao mesmo tempo. Era também homem grande, pai, patrão, chefe de tabanca, conselheiro, amigo do PAIGC, poeta, antropólogo, feiticeiro, cherno, médico, sexólogo, advogado e não sei que mais. Um verdadeiro Lawrence da Guiné. Alguns dos seus amigos e companheiros de Bambadinca (aonde ele ia com frequência matar a sede) chegaram a recear que ele ficasse completamente cafrealizado!" (...)

16 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DXLV: O raio do puto era branco (Zé Teixeira)

Guiné > 2005 > A nudez (sempre perturbante) de uma bajuda banhando-se no rio...Houve ou não houve ligações perigosas, casos de paixão e de amor de tugas e de jovens guineenses, nomeadamente fora de Bissau ?

© José Teixeira (2005)



1. Perguntei ao Zé Teixeira: Já publiquei a estória nº 3... Diz-me o que querias dizer com o "raio do puto era branco"... Não encontro (ou perdi) a nota de pé de página. Um abraço.

Ventura da minha vida
Ver uma criança parida
No momento da chegada.
De mãe preta bem pintada,
Negro pai, para meu espanto,
O raio do puto era branco (1)


De pronto, o Zé satisfez a minha curiosidade::

Reafirmo a minha admiração quando peguei no Bébé e vi uma criança branca. Parece que tinha vindo da praia. Um branco escuro e muito coradinho. Ao perguntar porquê, tive como resposta um sorriso e depois a informação de que as crianças nascem brancas e rapidamente escurecem. Assim aconteceu, de facto.

Conhecia a mãe, mas o pai nunca o tinha visto e até hoje . . Parece que era djila [comerciante ambulante, entre os fulas e futa-fulas].

Conheci outro caso, a Binta de Chamarra, que teve um filho de um colega meu e foi repudiada e recambiada para Aldeia Formosa (Quebo).



Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > O que é que mudou entre 1968 e 2005, pergunta o Zé Teixeira ? Pouco, a não ser talvez o uso (maior) do sutiã que agora é ronco...

© José Teixeira (2005)



Quando lá estive, em 2005 procurei-a, sem conseguir encontrá-la. Apareceu-me um jovem de trinta anos a dizer-se filha da Binta e de um branco, só que o outro era mais velho. Vim a saber que este era filho de uma Binta Bobo, de Mampatá, que também conheci e parece que já faleceu.

Deixa-me dizer-te que o blogue continua a crescer em quantidade de bloguistas e sobretudo de história. Trabalho o teu que muito admiro. Perante o que tenho lido a minha estória é tão pequenina !

Um abraço
Zé Teixeira


Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > "Filho de branco quer conhecer o pai"

© José Teixeira (2005)



3. Comentário meu (L.G.):

Discordo totalmente da tua última frase: "Perante o que tenho lido a minha estória é tão pequenina!"...

Zé, não tens razão, estás a ver mal a questão: o nosso blogue não é um concurso literário, não é um mostruário de vaidades, não é o hit-parade com os dez mais qualquer coisa do mundo...

Cada estória é uma estória.... Única! Cada membro da nossa tertúlia merece (ou deve merecer) a mesma atenção, o mesmo carinho, o mesmo tempo de antena... Se assim não for, é porque eu não estou a gerir bem o blogue... A minha obrigação é garantir a igualdade de oportunidades em relação a cada um dos camaradas e amigos que me mandam textos para publicar... É claro que nem todos temos o mesmo talento para a escrita, a arte de contar estórias, descrever uma situação, caracterizar um tipo, retratar uma paisagem ou transmitir emoções...

Se eu estiver a proceder mal e a favorecer alguém em detrimento de outrem, por favor corrijam-me, apontem-me o dedo, chamem-me nomes feios... É claro que às vezes sigo o critério da actualidade ou da importância editorial, procurando manter um certo fio condutor em relação aos posts ou textos ou mensagens que vão sendo inseridas... Por exemplo, não publiquei o teu diário todo de seguida, fui rendendo o peixe, publicando a coisa por partes... Tem que haver variedade mas também consistência e um certa continuidade... É bom, por exemplo, tentar esclarecer o que se passou em Cheche, no dia 6 de Fevereiro de 1969, procurando divulgar o maior número de depoimentos, sem a veleidade de esgotarmos o assunto... Daqui a um mês pode aparecer um camarada que retoma a conversa, sempre inacabada, sobre as nossas aventuras e desventuras na Guiné...

O mesmo estou a fazer com o Zé Neto, o Mário Dias ou o Carlos Marques dos Santos, só para citar alguns tertulianos que ultimamente têm sido mais profícuos ou têm mandado mais coisas... Basicamente o critério é o da ordem de chegada, do interesse e da actualidade...

Se tenho sido injusto para com algum tertuliano, é com o Jorge Santos, o nosso fuzo do Niassa, de que tenho ainda muito material em stock... É verdade que ele não é guinéu, mas está atento a tudo o que se escreve e diz sobre a guerra colonial na Guiné...

Acrescento ainda mais o seguinte: nem sempre o que circula na tertúlia, por e-mail, é publicável no nosso blogue. Por sistema, tento evitado transcrever posts de outros blogues (com excepção dos blogues dos nossos amigos e camaradas, e sempre que for apropriado). Interessam-nos textos nossos, originais, e se possível inéditos... Os dos outros podem, de tempos a tempos, ser inseridos na rubrica a que eu chamei antologia...

Também, por sistema e por uma questão de princípio, não tenho publicado opinião política sobre a actualidade (portuguesa, guineense, ou outra), a menos que possa ter a ver, directamente, com o objecto constitutivo da nossa tertúlia...

Por fim, deixa-me dizer-te, Zé, que tu levantaste aí uma questão, no mínimo delicada mas de grande interesse humano: os filhos da guerra, os frutos (proibidos) dos amores dos tugas e das fulas (as mulheres que estavam mais próximas de nós)... O que é feito deles ? Como vivem ? E as suas mães, como estão, como se sentem ?... Talvez por pudor, não temos falado disto, mas tu, com a tua especial relação com a população de Ingoré, Buba, Quebo,Mampatá e Empatá, tu, querido fermero, mauro, sábio, médico, curandeiro..., tu conseguiste pôr o dedo na ferida... Suavemente, profissionalmente...

Já agora explica-nos como e porquê a Binta, de Chamarra, foi repudiada e expulsa da sua tabanca, por ter dado à luz um filho de um tuga... Como é que os fulas (e outras etnias) lidavam habitualmente com estes casos que, se calhar, não foram tão raros quanto isso... Basta lembrar-nos que em mais de uma década de guerra na Guiné passaram por lá largas dezenas de milhares de homens, muitos dos quais tiveram relações sexuais, consentidas, com mulheres da população local...

Não estou a faltar de prostituição nem de violação, estou a falar de relações nalguns casos até maritais, mais ou menos estáveis e até toleradas, quer pelas autoridades militares quer pelas populações locais... Houve ou não houve casos de paixão e de amor de tugas e de jovens guineenses, nomeadamente fora de Bissau ?

Alguém mais quer falar sobre isto ? Contar estórias que conheça ? O Zé Neto já nos trouxe aqui a estória do Dauda, o Viegas (2), o presumível filho de um capitão de Cacine.


______________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVIII: Estórias do Zé Teixeira (3): a festa da vida

(2) Vd. post de 21 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (3): Dauda, o Viegas

Guiné > Guileje > CCART 1613 (1967/68)> "Dauda... Era a cara do pai... e a mascote da companhia... Este menino, na altura com onze, doze meses de idade, era filho da Sona, uma jovem de Cacine, comprada pelo alfaiate de Guileje para ser a sua terceira esposa. Tinha o nome de Dauda, mas era tratado por todos nós por Viegas, apelido do pai, capitão que comandara a companhia de Cacine"...

© José Neto (2005)

Guiné 63/74 - DXLV: O raio do puto era branco (Zé Teixeira)

Guiné > 2005 > A nudez (sempre perturbante) de uma bajuda banhando-se no rio...Houve ou não houve ligações perigosas, casos de paixão e de amor de tugas e de jovens guineenses, nomeadamente fora de Bissau ?

© José Teixeira (2005)



1. Perguntei ao Zé Teixeira: Já publiquei a estória nº 3... Diz-me o que querias dizer com o "raio do puto era branco"... Não encontro (ou perdi) a nota de pé de página. Um abraço.

Ventura da minha vida
Ver uma criança parida
No momento da chegada.
De mãe preta bem pintada,
Negro pai, para meu espanto,
O raio do puto era branco (1)


De pronto, o Zé satisfez a minha curiosidade::

Reafirmo a minha admiração quando peguei no Bébé e vi uma criança branca. Parece que tinha vindo da praia. Um branco escuro e muito coradinho. Ao perguntar porquê, tive como resposta um sorriso e depois a informação de que as crianças nascem brancas e rapidamente escurecem. Assim aconteceu, de facto.

Conhecia a mãe, mas o pai nunca o tinha visto e até hoje . . Parece que era djila [comerciante ambulante, entre os fulas e futa-fulas].

Conheci outro caso, a Binta de Chamarra, que teve um filho de um colega meu e foi repudiada e recambiada para Aldeia Formosa (Quebo).



Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > O que é que mudou entre 1968 e 2005, pergunta o Zé Teixeira ? Pouco, a não ser talvez o uso (maior) do sutiã que agora é ronco...

© José Teixeira (2005)



Quando lá estive, em 2005 procurei-a, sem conseguir encontrá-la. Apareceu-me um jovem de trinta anos a dizer-se filha da Binta e de um branco, só que o outro era mais velho. Vim a saber que este era filho de uma Binta Bobo, de Mampatá, que também conheci e parece que já faleceu.

Deixa-me dizer-te que o blogue continua a crescer em quantidade de bloguistas e sobretudo de história. Trabalho o teu que muito admiro. Perante o que tenho lido a minha estória é tão pequenina !

Um abraço
Zé Teixeira


Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > "Filho de branco quer conhecer o pai"

© José Teixeira (2005)



3. Comentário meu (L.G.):

Discordo totalmente da tua última frase: "Perante o que tenho lido a minha estória é tão pequenina!"...

Zé, não tens razão, estás a ver mal a questão: o nosso blogue não é um concurso literário, não é um mostruário de vaidades, não é o hit-parade com os dez mais qualquer coisa do mundo...

Cada estória é uma estória.... Única! Cada membro da nossa tertúlia merece (ou deve merecer) a mesma atenção, o mesmo carinho, o mesmo tempo de antena... Se assim não for, é porque eu não estou a gerir bem o blogue... A minha obrigação é garantir a igualdade de oportunidades em relação a cada um dos camaradas e amigos que me mandam textos para publicar... É claro que nem todos temos o mesmo talento para a escrita, a arte de contar estórias, descrever uma situação, caracterizar um tipo, retratar uma paisagem ou transmitir emoções...

Se eu estiver a proceder mal e a favorecer alguém em detrimento de outrem, por favor corrijam-me, apontem-me o dedo, chamem-me nomes feios... É claro que às vezes sigo o critério da actualidade ou da importância editorial, procurando manter um certo fio condutor em relação aos posts ou textos ou mensagens que vão sendo inseridas... Por exemplo, não publiquei o teu diário todo de seguida, fui rendendo o peixe, publicando a coisa por partes... Tem que haver variedade mas também consistência e um certa continuidade... É bom, por exemplo, tentar esclarecer o que se passou em Cheche, no dia 6 de Fevereiro de 1969, procurando divulgar o maior número de depoimentos, sem a veleidade de esgotarmos o assunto... Daqui a um mês pode aparecer um camarada que retoma a conversa, sempre inacabada, sobre as nossas aventuras e desventuras na Guiné...

O mesmo estou a fazer com o Zé Neto, o Mário Dias ou o Carlos Marques dos Santos, só para citar alguns tertulianos que ultimamente têm sido mais profícuos ou têm mandado mais coisas... Basicamente o critério é o da ordem de chegada, do interesse e da actualidade...

Se tenho sido injusto para com algum tertuliano, é com o Jorge Santos, o nosso fuzo do Niassa, de que tenho ainda muito material em stock... É verdade que ele não é guinéu, mas está atento a tudo o que se escreve e diz sobre a guerra colonial na Guiné...

Acrescento ainda mais o seguinte: nem sempre o que circula na tertúlia, por e-mail, é publicável no nosso blogue. Por sistema, tento evitado transcrever posts de outros blogues (com excepção dos blogues dos nossos amigos e camaradas, e sempre que for apropriado). Interessam-nos textos nossos, originais, e se possível inéditos... Os dos outros podem, de tempos a tempos, ser inseridos na rubrica a que eu chamei antologia...

Também, por sistema e por uma questão de princípio, não tenho publicado opinião política sobre a actualidade (portuguesa, guineense, ou outra), a menos que possa ter a ver, directamente, com o objecto constitutivo da nossa tertúlia...

Por fim, deixa-me dizer-te, Zé, que tu levantaste aí uma questão, no mínimo delicada mas de grande interesse humano: os filhos da guerra, os frutos (proibidos) dos amores dos tugas e das fulas (as mulheres que estavam mais próximas de nós)... O que é feito deles ? Como vivem ? E as suas mães, como estão, como se sentem ?... Talvez por pudor, não temos falado disto, mas tu, com a tua especial relação com a população de Ingoré, Buba, Quebo,Mampatá e Empatá, tu, querido fermero, mauro, sábio, médico, curandeiro..., tu conseguiste pôr o dedo na ferida... Suavemente, profissionalmente...

Já agora explica-nos como e porquê a Binta, de Chamarra, foi repudiada e expulsa da sua tabanca, por ter dado à luz um filho de um tuga... Como é que os fulas (e outras etnias) lidavam habitualmente com estes casos que, se calhar, não foram tão raros quanto isso... Basta lembrar-nos que em mais de uma década de guerra na Guiné passaram por lá largas dezenas de milhares de homens, muitos dos quais tiveram relações sexuais, consentidas, com mulheres da população local...

Não estou a faltar de prostituição nem de violação, estou a falar de relações nalguns casos até maritais, mais ou menos estáveis e até toleradas, quer pelas autoridades militares quer pelas populações locais... Houve ou não houve casos de paixão e de amor de tugas e de jovens guineenses, nomeadamente fora de Bissau ?

Alguém mais quer falar sobre isto ? Contar estórias que conheça ? O Zé Neto já nos trouxe aqui a estória do Dauda, o Viegas (2), o presumível filho de um capitão de Cacine.


______________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVIII: Estórias do Zé Teixeira (3): a festa da vida

(2) Vd. post de 21 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (3): Dauda, o Viegas

Guiné > Guileje > CCART 1613 (1967/68)> "Dauda... Era a cara do pai... e a mascote da companhia... Este menino, na altura com onze, doze meses de idade, era filho da Sona, uma jovem de Cacine, comprada pelo alfaiate de Guileje para ser a sua terceira esposa. Tinha o nome de Dauda, mas era tratado por todos nós por Viegas, apelido do pai, capitão que comandara a companhia de Cacine"...

© José Neto (2005)

Guiné 63/74 - DXLIV: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (9): a Operação Bola de Fogo

Post nº 544 (DXLIV)



Guiné > Guileje > CART 1613 > 1968> Bajudas da tabanca (1): a Maria, a lavadeira do nosso primeiro... Ainda recentemente mandou partir saudades ao seu amigo tuga, através do Pepito

© José Neto (2005)


XIX parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado).




A Operação Bola de Fogo

A abertura da picada estava a dar pelas barbas à nossa tropa.

Era impossível jogar com o elemento surpresa porque tornava-se necessário retirar abatizes, detectar e fazer explodir fornilhos (até uma viatura GMC em tempos abandonada pelas NT foi pelos ares porque se desconfiava que estava armadilhada) e, principalmente, derrubar árvores para substituir os troncos apodrecidos que, no leito dos regatos, serviam de ponte para a passagem de viaturas.

Os turras nem precisavam de atravessar a fronteira para morteirar os lenhadores. E nós não podíamos ripostar por respeito às convenções internacionais.

Guiné > Guileje > CART 1613 > 1968> Bajudas da tabanca (2)...

© José Neto (2005)


Ao fim de duas ou três semanas, com muitos ferimentos ligeiros, mas sem qualquer morto, o itinerário foi dado como praticável e ia seguir-se a segunda fase, que era a marcha da companhia para Gandembel.

Parecia-nos que, das duas, a CCAÇ 2316 era a que ia avançar, já que a CCAÇ 2317 tinha sido inicialmente designada para nos substituir em Guileje, mas afinal veio a ser a esta última, a do 1º Sargento Martins, comandada pelo Capitão Barroso de Moura, a quem coube o petisco.

Ao mesmo tempo, como manobra de pressão, iniciou-se do lado norte a abertura da picada Chamarra – Gandembel.

A valentia e pertinácia dos bravos de Gandembel devem ter impressionado o inimigo que fez deslocar para aquela zona um potencial de fogo considerável.

Pelo itinerário de Chamarra juntou-se à CAÇ 2317 a CART 1689 e, com acções pontuais dos Paraquedistas e dos Comandos e o apoio do fogo de artilharia e bombardeamentos dos Fiat da Força Aérea a posição consolidou-se, mau grado as flagelações contínuas de que era alvo.

Guiné > Guileje > 1968 > Bajudas da tabanca (3)... © José Neto (2005)

Mas o cerne da questão continuava. Como o IN precisava de manter o reabastecimento dos seus grupos que actuavam no interior do território, passou a utilizar trilhos um pouco a sul de Gandembel, perto de Paroldade, e esses trilhos cruzavam-se com as nossas colunas que também iam reabastecer o novo aquartelamento.

Nestas condições, cada reabastecimento nosso era uma autêntica operação de três, quatro dias, com fogachadas por todos os lados.

Na última das três operações desta natureza em que a minha companhia e outras unidades estiveram empenhadas, houve três mortos, sendo um nosso (o 1º Cabo José Augusto da Silva Leal), outro do Pel Caç Nat 51 (o Furriel Milº Sebastião Dionísio) e o terceiro do Pel Rec Fox 1165 (o Soldado Manuel Vieira).

Dois soldados nossos foram gravemente feridos e evacuados para Lisboa, o Júlio Rodrigues Calado e o José Alves Pereira e mais doze, de várias patentes, dos quais três do Pel Rec Fox 1165, feridos com menos gravidade e evacuados para Bissau.

O regresso ao quartel foi difícil e dramático.

O Capitão Corvacho teve de pedir fogo dos obuses de 8,8 cm dando as coordenadas dum lugar já bem do outro lado da fronteira, mas que sabia ser o ponto de onde o IN o estava a atacar com armas pesadas. O alferes comandante da força de artilharia hesitou e, ao pedir a rectificação dos elementos de tiro, fez saber que o fogo ia cair na zona da fronteira da Guiné-Conacri. Pelo rádio percebeu-se bem a irritação do Capitão que insistiu e perguntou ao alferes se desconhecia que ele era oficial de Artilharia.

Resta um pormenor que revela a grandeza dos homens quando confrontados com situações extremas. Aquando do regresso desta última operação os tempos calculados para o trajecto modificaram-se devido à forte concentração de fogo do IN, com as consequências que já descrevi, e o Capitão Corvacho tinha a certeza que, se permanecessem na mata depois do sol-posto, poucos sairiam dali com vida. As viaturas rodavam em marcha lenta porque havia que inspeccionar cada metro da picada. A certa altura veio um grito da frente da coluna:
-Mina!

O Capitão acorreu ao local e viu uma granada de morteiro intacta espetada entre dois troncos dum passadiço sobre um regato.

O tempo não chegava para efectuar todos os procedimentos e o mais rápido, destruir o engenho a tiro, estava fora de hipótese porque também se destruía a obra que dava passagem às viaturas. Chamou o Furriel Arclides Mateus, especialista de minas e armadilhas, e mandou afastar o pessoal.

Os dois deitaram-se, olharam em toda a volta do objecto e o Arclides disse ao Capitão:
-Tenho quase a certeza que a espoleta não esta armada. Estou a ver a cavilha. Saia daqui que eu vou puxá-la para cima e seja o que Deus quiser.

O Capitão Corvacho encarou o Arclides, recuou dois passos e disse:
-Vou ficar aqui atrás de si porque tenho de levar a companhia até ao quartel.

Quando o Arclides pousou o objecto no chão, inerte, um apertado abraço uniu aqueles dois corajosos combatentes.

Mais ou menos por esta altura chegou à Guiné o Brigadeiro António de Spínola, logo depois promovido a General, para substituir o General Schultz no Governo e Comando-Chefe da Província.

Notou-se perfeitamente uma alteração na cadeia de comando principalmente porque, como diziam os soldados, enquanto o primeiro nunca tinha saído do asfalto de Bissau, o segundo aparecia em todo lado sem se fazer anunciar.

Uma das suas primeiras visitas foi ao inferno de Gandembel onde quase obrigou à força o tenente piloto do helicóptero a descer. Foi-lhe fácil concluir que a posição era pouco sustentável e ordenou a retirada progressiva de modo a salvar a face das nossas tropas.

Constou, não posso garantir, mas acredito, que naquela aventura, as NT tiveram cinquenta e dois mortos e muitos feridos graves.


© José Neto (2005)

Guiné 63/74 - DXLIV: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (9): a Operação Bola de Fogo

Post nº 544 (DXLIV)



Guiné > Guileje > CART 1613 > 1968> Bajudas da tabanca (1): a Maria, a lavadeira do nosso primeiro... Ainda recentemente mandou partir saudades ao seu amigo tuga, através do Pepito

© José Neto (2005)


XIX parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado).




A Operação Bola de Fogo

A abertura da picada estava a dar pelas barbas à nossa tropa.

Era impossível jogar com o elemento surpresa porque tornava-se necessário retirar abatizes, detectar e fazer explodir fornilhos (até uma viatura GMC em tempos abandonada pelas NT foi pelos ares porque se desconfiava que estava armadilhada) e, principalmente, derrubar árvores para substituir os troncos apodrecidos que, no leito dos regatos, serviam de ponte para a passagem de viaturas.

Os turras nem precisavam de atravessar a fronteira para morteirar os lenhadores. E nós não podíamos ripostar por respeito às convenções internacionais.

Guiné > Guileje > CART 1613 > 1968> Bajudas da tabanca (2)...

© José Neto (2005)


Ao fim de duas ou três semanas, com muitos ferimentos ligeiros, mas sem qualquer morto, o itinerário foi dado como praticável e ia seguir-se a segunda fase, que era a marcha da companhia para Gandembel.

Parecia-nos que, das duas, a CCAÇ 2316 era a que ia avançar, já que a CCAÇ 2317 tinha sido inicialmente designada para nos substituir em Guileje, mas afinal veio a ser a esta última, a do 1º Sargento Martins, comandada pelo Capitão Barroso de Moura, a quem coube o petisco.

Ao mesmo tempo, como manobra de pressão, iniciou-se do lado norte a abertura da picada Chamarra – Gandembel.

A valentia e pertinácia dos bravos de Gandembel devem ter impressionado o inimigo que fez deslocar para aquela zona um potencial de fogo considerável.

Pelo itinerário de Chamarra juntou-se à CAÇ 2317 a CART 1689 e, com acções pontuais dos Paraquedistas e dos Comandos e o apoio do fogo de artilharia e bombardeamentos dos Fiat da Força Aérea a posição consolidou-se, mau grado as flagelações contínuas de que era alvo.

Guiné > Guileje > 1968 > Bajudas da tabanca (3)... © José Neto (2005)

Mas o cerne da questão continuava. Como o IN precisava de manter o reabastecimento dos seus grupos que actuavam no interior do território, passou a utilizar trilhos um pouco a sul de Gandembel, perto de Paroldade, e esses trilhos cruzavam-se com as nossas colunas que também iam reabastecer o novo aquartelamento.

Nestas condições, cada reabastecimento nosso era uma autêntica operação de três, quatro dias, com fogachadas por todos os lados.

Na última das três operações desta natureza em que a minha companhia e outras unidades estiveram empenhadas, houve três mortos, sendo um nosso (o 1º Cabo José Augusto da Silva Leal), outro do Pel Caç Nat 51 (o Furriel Milº Sebastião Dionísio) e o terceiro do Pel Rec Fox 1165 (o Soldado Manuel Vieira).

Dois soldados nossos foram gravemente feridos e evacuados para Lisboa, o Júlio Rodrigues Calado e o José Alves Pereira e mais doze, de várias patentes, dos quais três do Pel Rec Fox 1165, feridos com menos gravidade e evacuados para Bissau.

O regresso ao quartel foi difícil e dramático.

O Capitão Corvacho teve de pedir fogo dos obuses de 8,8 cm dando as coordenadas dum lugar já bem do outro lado da fronteira, mas que sabia ser o ponto de onde o IN o estava a atacar com armas pesadas. O alferes comandante da força de artilharia hesitou e, ao pedir a rectificação dos elementos de tiro, fez saber que o fogo ia cair na zona da fronteira da Guiné-Conacri. Pelo rádio percebeu-se bem a irritação do Capitão que insistiu e perguntou ao alferes se desconhecia que ele era oficial de Artilharia.

Resta um pormenor que revela a grandeza dos homens quando confrontados com situações extremas. Aquando do regresso desta última operação os tempos calculados para o trajecto modificaram-se devido à forte concentração de fogo do IN, com as consequências que já descrevi, e o Capitão Corvacho tinha a certeza que, se permanecessem na mata depois do sol-posto, poucos sairiam dali com vida. As viaturas rodavam em marcha lenta porque havia que inspeccionar cada metro da picada. A certa altura veio um grito da frente da coluna:
-Mina!

O Capitão acorreu ao local e viu uma granada de morteiro intacta espetada entre dois troncos dum passadiço sobre um regato.

O tempo não chegava para efectuar todos os procedimentos e o mais rápido, destruir o engenho a tiro, estava fora de hipótese porque também se destruía a obra que dava passagem às viaturas. Chamou o Furriel Arclides Mateus, especialista de minas e armadilhas, e mandou afastar o pessoal.

Os dois deitaram-se, olharam em toda a volta do objecto e o Arclides disse ao Capitão:
-Tenho quase a certeza que a espoleta não esta armada. Estou a ver a cavilha. Saia daqui que eu vou puxá-la para cima e seja o que Deus quiser.

O Capitão Corvacho encarou o Arclides, recuou dois passos e disse:
-Vou ficar aqui atrás de si porque tenho de levar a companhia até ao quartel.

Quando o Arclides pousou o objecto no chão, inerte, um apertado abraço uniu aqueles dois corajosos combatentes.

Mais ou menos por esta altura chegou à Guiné o Brigadeiro António de Spínola, logo depois promovido a General, para substituir o General Schultz no Governo e Comando-Chefe da Província.

Notou-se perfeitamente uma alteração na cadeia de comando principalmente porque, como diziam os soldados, enquanto o primeiro nunca tinha saído do asfalto de Bissau, o segundo aparecia em todo lado sem se fazer anunciar.

Uma das suas primeiras visitas foi ao inferno de Gandembel onde quase obrigou à força o tenente piloto do helicóptero a descer. Foi-lhe fácil concluir que a posição era pouco sustentável e ordenou a retirada progressiva de modo a salvar a face das nossas tropas.

Constou, não posso garantir, mas acredito, que naquela aventura, as NT tiveram cinquenta e dois mortos e muitos feridos graves.


© José Neto (2005)