02 março 2006

Guiné 63/74 - DXCVII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (1)

Guiné > Estrada Bambadinca-Bafatá > 1969 > Coluna da CCAÇ 12, a caminho de Bafatá, vendo-se ao fundo uma AM (autometralhadora) Daimler, do Pel AM Daimler 2046, instalado em Bambadinca, e que era comandado nesse tempo pelo Alf Mil Cav J. Vacas de Carvalho, nosso tertuliano de Montemor-O-Novo. A estrada Bambadinca-Bafatá era uma das poucas, na Guiné, que estava alcatroada. Para nós, era uma verdadeira autoestrada, originando acidentes (e alguns graves) por excesso de velocidade. Entre Junho de 1969 e Março de 1971, não me recordo de qualquer actividade da guerrilha neste troço: mina, emboscada, flagelação à distância... Ainda no nosso tempo, deu-se início à construção da nova estrada (alcatroada) Xime-Bambadinca. Este troço entre o Xime e Bafatá era de grande importância estratégica para os transportes terrestres na Zona Leste (Bafatá e Gabu) (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).



Texto do Manuel Mata (ex-1º cabo apontador CCM 47, integrado no Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640, aquartelado em Bafatá nos anos 1969/71, organizador dos convívios anuais da referida unidade)(1).


HISTÓRIA DO ESQUADRÃO DE RECONHECIMETO FOX 2640, GUINÉ-BAFATÁ 1969/71 - Parte I

Caro Luis Graça:

Obrigado pela oportunidade que dás aos ex-combatentes. É de louvar, pois nos fazes reviver um pouco da nossa juventude e dos tempos passados por África.

O camarada A. Marques Lopes, ao referir-se, num dos textos que tem no Blogue-fora-nada, ao Esquadrão de Reconhecimento 2640, de Bafatá, convidou alguém do referido Esquadrão a participar, e uma vez que o amigo Luís Graça me autoriza a entrar na caserna dos tertulianos, aqui estou eu para dar o meu contributo e creiam que é com o maior prazer que o faço... Mas se me for permitido, fá-lo-ei desde a formação do Esqadrão à instalação em Bafatá, puxando dos meus apontamento e fotos e rebuscando o baú das minhas memórias, bem como fazendo apelo às memórias de outros camaradas.

Campo Militar de Santa Margarida > Regimento de Cavalaria 4 > 1969 > Carro de Combate M47. © Manuel Mata (2006)

No ano de 1969, mês de Agosto, com a apresentação no Regimento de Cavalaria 8, em Castelo Branco, foram mobilizados, para o T.O. da Guiné, os 142 militares que vieram a formar o Esq Rec Fox 2640, mais o Pelotão Rec Fox 2175, este independente e composto por 38 militares.

Terminado o período de organização do Q.O. da unidade, veio a I.A.O. [Instrução de Aperfeiçoamento Operacional] durante o mês de Setembro de 1969. Aí começou a guerra: o exército não tinha viaturas AM Fox, disponíveis para instrução na Metrópole, as poucas AM Daimler tinham feito Pum!!!, na última instrução de especialidade de 1969.

Ficámos então esclarecidos da razão que levou à nossa mobilização, os 16 apontadores de Carros de Combate M47, coisa que ainda não tinha acontecido até então, em todo o período de guerra. Como não podia haver especialidade de apontador AM Fox e AM Daimler, socorreram-se dos apontadores CCM47, do RC 4, de Santa Margarida, grupo de especialidade terminada em Maio de 1969.

Depois da mobilização para o CTIG, da falta de aperfeiçoamento dos condutores, dos apontadores, nas viaturas que o Esq Rec Fox 2350 a render na Guiné tinha, juntou-se-lhe a pescada amarela de mau sabor, com as batatas a saber mal, a água com pouco vinho, os castigos de mais uma semana no campo (24 horas por dia), a massa para o almoço que no campo chegava chocalhada nas viaturas e era... pasta!

Lá vinha uma revolta, no próximo dia de pescada amarela, lá se fazia à pressa um arroz com chouriço. Voltava-se à pescada, voltávamos a fazer levantamento de rancho e, como castigo, mais uma semana de campo. Resultado: camas da caserna, almofadas, etc., destruídas.

Numa dessas noites de maior tensão, aparece o Furriel Amadeu Fernandes que estava de Sargento Dia, a tentar acalmar a rapaziada... Choveu tanta almofada, botas e outros objectos que prometeu:
- Lá é que vamos ver quem brinca!.- Foi um amigão, este furriel!...

O Comandante do R. C. 8, já saturado com a nossa rebeldia por não aceitarmos ser assim tratados, duas vezes fez formar o Esq 2640 na parada, dando ali uma grande lavagem de orelhas, foi para todos simples música, tendo inclusive apelidado a rapaziada de Diabos!... Não satisfeito, interpelou-nos (e vou citar de cor):
- Se algum dos militares aqui presentes for homem para se bater comigo, que dê um passo em frente! - Claro, a bravata do comandante ficou por ali...

Pior que tudo isto da guerra que nos impunham, foi mesmo termos perdido um companheiro devido a um acidente, numa das saídas a Penamacor, para fazer fogo real. Por caricato que pareça, um burro aparece na estrada causando o acidente onde ficaram feridos dois praças sem gravidade e faleceu o Aspirante Mil Fernando M. Lopes. Quero deixar aqui bem sublinhado que este amigo está sempre presente no coração dos elementos do Esq Rec Fox 2640.


Lisboa > O N/M Uíge, que transportou o Esq Rec Fox 2649, mais o Pel Rec Fox 2175 até Bissau, em 15 de Novembro de 1969. Mas nem todos compareceram: um oficial desertou... © Manuel Mata (2006)


Finalmente, na manhã de dia 15 de Novembro de 1969, embarcámos em Lisboa no N/M Uíge... Foi o meu primeiro dia de forte dor, de desilusão, de grande desmotivação se é que alguma vez houve motivação...Faltou ao embarque o Alferes Mil Elpídio Codinha dos Santos. Este tinha vindo de véspera para Lisboa, para reconhecer o navio e fazer a marcação de quase todo o Esqadrão em camarotes. De facto, poucos de nós foram no porão, pelo que todos ficámos muito agradecidos e sensibilizados pela moralização de muitos contra uma guerra que não era nossa...

Algum tempo depois foi confirmado, para nossa alegria (e minha, em particular), que ele estava em França: tinha desertado (coragem que eu não tive, não por falta de o Santos não nos ter incentivado!)...

Em 21 de Novembro de 1969, regista-se o desembarque em Bissau dos 141 militares do Esq Rec Fox 2640, que seguem depois para a C.C.S., em Santa Luzia. Alguns dias a seguir, partimos para Bafatá, na nossa primeira viagem pela Guiné. Vimos pela primeira vez uma AM Fox em Bambadinca, que veio a fazer Pum!!! não muito tempo depois (2).


Guiné > Zona Leste > Baftá> 1970 > O autor junto à Fonte Pública, Bafatá, 1918.

© Manuel Mata (2006)


Chegada a Bafatá, após um curto período de adaptação e feita a rendição do Esq Rec Fox 2350, aí está a rapaziada pronta para actuar em qualquer ponto da zona leste, visto constituirmos reserva móvel do agrupamento leste.

Caro Luís Graça, um abraço extensivo a todos os tertulianos.E venham mais ex-combatentes.

Manuel Mata

Crato - Portalegre

____________

(1) vd. post de 26 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXC: Convívio anual do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71)

(2) Recordo-me perfeitamente desta peça de museu que lá ficou a um canto, em Bambadinca (LG)

01 março 2006

Guiné 63/74 - DXCVI: A viagem do Xico e da Zélia em 1998

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Ingoré > 1998 > Este foto já correu mundo... ou, pelo menos, já deu a volta à nossa caserna...De facto, foi enviada em primeira mão para a nossa tertúlia…A legenda é do Albano (Costa): “Esta foto vale pela imagem, e os brancos em África converteram-se? Não é que ficaram a ver a Zélia a puxar o burro, mulher de armas!"... O Albano fez questão me mandar esta e outras fotos da viagem do Xico e da Zélia, em 1998, com o seguine recado: "... para ilustrares o que entenderes, com a devida autorização da Zélia" (sic).

© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


1. Mensagem da Zélia Neno, nossa nova tertuliana, portuense, mulher do Xico Allen:

Luís:

Por falta de oportunidade ainda não agradeci a atenção com que fui recebida no blogue. Fiquei não só sensibilizada mas também contente pelos elogios e, como na verdade, sou uma "mulher do norte" (nascida e criada, assim como o Xico, nas casas que existem imediatamente a seguir à Ponte da Arrábida para quem vem de sul para norte, bem pertinho onde o nosso famoso rio Douro se encontra com o mar), vou tentar não ser um estorvo para a escrita de todos os tertulianos, porque além de ser crescidinha, também sei pelo Xico, das necessidades sexuais que todos os meninos/homens ditos normais, mandados para aquela guerra, tiveram de enfrentar, alguns já casados e com filhos, que ali tinham de se desenrascar conforme podiam nem que tivessem de partir catota na Rua da Palma nº 5 .

Por tal não se inibam, por favor, de falar dum tema que hoje mais do que nunca já não deve ser tabu para ninguém e todos os momentos e factos por ali vividos é que compõem a vossa própria História de Vida.

Obviamente que eu, Zélia, aquilo de que possa vir a escrever nada tem a ver com relatos daquela guerra, alguns minuciosamente aqui contados, mas porque ela existiu é que eu já lá fui várias vezes e logo que possível, pois é o meu sonho desde 1992 poder passar lá uns meses como voluntária em qualquer Missão no interior do país, e como por lá tenho vivido e compreendido tantas coisas, até então desconhecidas, só delas posso falar.

Há dias o nosso amigo Albano enviou algumas fotos minhas/nossas mas todas elas falam pois todas têm na minha lembrança algo a contar, o momento e situação em que foi tirada, o sentimento que naquela ocasião eu sentia e muito mais. Por exemplo, aquela dos burros foi um dia muito especial para aquele grupo que connosco foi ter, como anteriormente contei, porque aquele ia ser o dia D, pois saíramos de Bissau para ir a Jumbembem, onde eles haviam estado e dali seguiríamos para o Saltinho.

Algumas das peripécias desse dia já as contei, por email, ao "nosso fotógrafo de serviço" [o Albano Costa], e aqui e uma vez mais agradeço a sua disponibilidade em as enviar.

Quanto ao Xico, ele ainda nada escreveu para o blogue porque anda ocupadíssimo com os preparativos da próxima viagem [, em Abril de 2006], pois para além de o jeep, comprado propositadamente para este fim, requerer uma preparação especial e rigorosa (para não ficar pelo caminho), tem todos os bastidores que uma Expedição de Solidariedade requer, desde a angariação de materiais, especialmente escolar e médico, a alguns pequenos patrocínios, pois este tipo de viagem tem muitos gastos e não sendo isto um rally, o nome dessas empresas ao ir mencionado no veículo fica a ser conhecido do Porto a Bissau.

Talvez, senão antes, o Xico após esta nova jornada, muito mais vai ter que contar, assim como o tertuliano coronel Marques Lopes que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, já que factos importantes e previstos se irão passar por terras da Guiné.

Parabéns a todos e continuem. Luís, obrigada e até um qualquer dia.

2. Nova mensagem da Zélia:

Luís

Ao ver agora a imediata resposta que deste ao meu email e como dizes ir lançar as fotos no blogue, vou tentar documentá-las minimamente, pois quem as vir não sabe nem onde nem as circunstâncias de cada momento. A foto dos burros vai como Anexo, pois há dias mandei ao Albano e evito escrever a mesma coisa. Que me lembre, além dessa ele enviou outras [que passo a comentar a seguir].

(...) Aproveito para enviar um beijinho para tua esposa que sendo uma "mulher do norte" é minha conterrânea e tem que ser "especial", porque ter maridos como os nossos que não passam um dia sem falar de ou com alguém da Guiné, mesmo eu gostando tanto dela, às vezes torna-se complicado (...). Zélia



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Contuboel > 1998 > "Luís, esta é, julgo eu, da tua zona, Contuboel... Esta foto é tirada no centro da picada que vai para Bafatá... Esta picada é um autêntica autoestrada, dá para circular a 120 km, mas à vontade" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá> Bambadinca > 1998 >"Eu rodeada pelo capim quando observava uma queimada, na estrada entre Mansoa e Bambadinca" (Zélia). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu >S. Vicente > 1998 > Travessia do rio Cacheu (1) © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu >S. Vicente > 1998 > Travessia do rio Cacheu (2)© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1998 > A famosa Fonte de Empada... " O calor era tanto que o melhor naquele momento foi despejar várias bacias de água pela cabeça abaixo somente para refrescar e tirar a maioria do pó apanhado ao atravessar as muitas picadas para ali chegar. Fomos ali pois era àquela fonte que o Xico ia fazer o carregamento de água e assim nos deparamos com as mulheres a lavar a roupa após o que tomavam banho. Na foto eu estava nas escada a filmar enquanto meu marido tirava fotos" (Zélia)... "A Zélia é mesmo assim e lá foi tomar o seu banho" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006).


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada, Canchuma> 1998 > "Fazendo a cama...Foi em Canchuma, onde como hóspedes especiais, dormimos na única cama de madeira existente por aquelas bandas. A cama nem era má, os lençóis eram meus pois mulher prevenida vale por duas, e se não fosse a brincadeira dos cabritinhos a correr toda a noite ao redor da casa que era construída sobre uma plataforma ou coisa do género, até teria sido uma noite repousante devido ao cansaço" (Zélia)... "No hotel de Empada o seu director (chefe de tabanca) ofereceu-lhes a sua suíte, só na Guiné" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006).


Região de Quínara > Empara, Canchuma> 1998 > "Eu em camisa de dormir, quando acordei após a dita noite, saindo da Casa de Banho, que era algo de inédito até então. No interior daquele cercado, montado com algumas placas de chapa, pedaços de madeira, ramos de palmeira e a porta era um pano que movíamos para entrar e sair, o chão era em cimento com um leve declive para a água correr para a terra ao tomar banho a qual nos ia sendo entregue pelas gentis mulheres daquela família, que a retiravam de um poço e a iam passando dentro das meias cabaceiras, utensílio com várias utilidades por terras de África. No centro daquele espaço, no chão, existia uma abertura circular com cerca de 20 centímetros, tapado com um pedaço de lousa amovível e cuja função era a de sanita. Giro, não? Isto é África, não é especial da Guiné pelo que sei, assim como sei que nem toda a gente acharia graça a meter-se nestas andanças, mas estas experiências fascinam-me e fazem-me sentir muito feliz e só convivendo com culturas, hábitos e costumes de gentes tão iguais e tão diferentes, é que vamos evoluindo um pouco na nossa curta existência - é isto que penso" (Zélia) ... "A Zélia admirando o espaço à sua volta" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1998 > "Eu e Xico numa tabanca entre Empada e Binhar, rodeados pelo velho Mamadú e família, homem este por quem o Xico sentia muita admiração e respeito, graças ao qual ele não passou muitas vezes fome pois ele sempre o safava , como dizemos, pela porta do cavalo. A nossa primeira visita ao Mamadú foi em 1994, o que quase o endoideceu de alegria quando viu o Xico pois reconheceu-o de imediato e a mim era como se sempre me conhecera. Foi tamanha a sua euforia, e sabendo nós que na Guiné a riqueza dos homens vê-se pelas cabeças de gado que possuem e que somente matam para consumo próprio em ocasiões muito especiais, que ele queria insistentemente que nós trouxéssemos um cabrito para comer no hotel em Bissau, o que era impossível. Voltamos lá em 1998 e esta foto foi a última que tirámos com aquele homem grande, pois faleceu algum tempo depois. Os seus gritos e risadas de alegria ainda hoje se mantêm gravados na minha memória auditiva" (Zélia)... "A alegria estampada no rosto de toda a gente, assim como no Xico e Zélia" (Albano Costa).
© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné 63/74 - DXCVI: A viagem do Xico e da Zélia em 1998

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Ingoré > 1998 > Este foto já correu mundo... ou, pelo menos, já deu a volta à nossa caserna...De facto, foi enviada em primeira mão para a nossa tertúlia…A legenda é do Albano (Costa): “Esta foto vale pela imagem, e os brancos em África converteram-se? Não é que ficaram a ver a Zélia a puxar o burro, mulher de armas!"... O Albano fez questão me mandar esta e outras fotos da viagem do Xico e da Zélia, em 1998, com o seguine recado: "... para ilustrares o que entenderes, com a devida autorização da Zélia" (sic).

© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


1. Mensagem da Zélia Neno, nossa nova tertuliana, portuense, mulher do Xico Allen:

Luís:

Por falta de oportunidade ainda não agradeci a atenção com que fui recebida no blogue. Fiquei não só sensibilizada mas também contente pelos elogios e, como na verdade, sou uma "mulher do norte" (nascida e criada, assim como o Xico, nas casas que existem imediatamente a seguir à Ponte da Arrábida para quem vem de sul para norte, bem pertinho onde o nosso famoso rio Douro se encontra com o mar), vou tentar não ser um estorvo para a escrita de todos os tertulianos, porque além de ser crescidinha, também sei pelo Xico, das necessidades sexuais que todos os meninos/homens ditos normais, mandados para aquela guerra, tiveram de enfrentar, alguns já casados e com filhos, que ali tinham de se desenrascar conforme podiam nem que tivessem de partir catota na Rua da Palma nº 5 .

Por tal não se inibam, por favor, de falar dum tema que hoje mais do que nunca já não deve ser tabu para ninguém e todos os momentos e factos por ali vividos é que compõem a vossa própria História de Vida.

Obviamente que eu, Zélia, aquilo de que possa vir a escrever nada tem a ver com relatos daquela guerra, alguns minuciosamente aqui contados, mas porque ela existiu é que eu já lá fui várias vezes e logo que possível, pois é o meu sonho desde 1992 poder passar lá uns meses como voluntária em qualquer Missão no interior do país, e como por lá tenho vivido e compreendido tantas coisas, até então desconhecidas, só delas posso falar.

Há dias o nosso amigo Albano enviou algumas fotos minhas/nossas mas todas elas falam pois todas têm na minha lembrança algo a contar, o momento e situação em que foi tirada, o sentimento que naquela ocasião eu sentia e muito mais. Por exemplo, aquela dos burros foi um dia muito especial para aquele grupo que connosco foi ter, como anteriormente contei, porque aquele ia ser o dia D, pois saíramos de Bissau para ir a Jumbembem, onde eles haviam estado e dali seguiríamos para o Saltinho.

Algumas das peripécias desse dia já as contei, por email, ao "nosso fotógrafo de serviço" [o Albano Costa], e aqui e uma vez mais agradeço a sua disponibilidade em as enviar.

Quanto ao Xico, ele ainda nada escreveu para o blogue porque anda ocupadíssimo com os preparativos da próxima viagem [, em Abril de 2006], pois para além de o jeep, comprado propositadamente para este fim, requerer uma preparação especial e rigorosa (para não ficar pelo caminho), tem todos os bastidores que uma Expedição de Solidariedade requer, desde a angariação de materiais, especialmente escolar e médico, a alguns pequenos patrocínios, pois este tipo de viagem tem muitos gastos e não sendo isto um rally, o nome dessas empresas ao ir mencionado no veículo fica a ser conhecido do Porto a Bissau.

Talvez, senão antes, o Xico após esta nova jornada, muito mais vai ter que contar, assim como o tertuliano coronel Marques Lopes que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, já que factos importantes e previstos se irão passar por terras da Guiné.

Parabéns a todos e continuem. Luís, obrigada e até um qualquer dia.

2. Nova mensagem da Zélia:

Luís

Ao ver agora a imediata resposta que deste ao meu email e como dizes ir lançar as fotos no blogue, vou tentar documentá-las minimamente, pois quem as vir não sabe nem onde nem as circunstâncias de cada momento. A foto dos burros vai como Anexo, pois há dias mandei ao Albano e evito escrever a mesma coisa. Que me lembre, além dessa ele enviou outras [que passo a comentar a seguir].

(...) Aproveito para enviar um beijinho para tua esposa que sendo uma "mulher do norte" é minha conterrânea e tem que ser "especial", porque ter maridos como os nossos que não passam um dia sem falar de ou com alguém da Guiné, mesmo eu gostando tanto dela, às vezes torna-se complicado (...). Zélia



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Contuboel > 1998 > "Luís, esta é, julgo eu, da tua zona, Contuboel... Esta foto é tirada no centro da picada que vai para Bafatá... Esta picada é um autêntica autoestrada, dá para circular a 120 km, mas à vontade" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá> Bambadinca > 1998 >"Eu rodeada pelo capim quando observava uma queimada, na estrada entre Mansoa e Bambadinca" (Zélia). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu >S. Vicente > 1998 > Travessia do rio Cacheu (1) © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu >S. Vicente > 1998 > Travessia do rio Cacheu (2)© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1998 > A famosa Fonte de Empada... " O calor era tanto que o melhor naquele momento foi despejar várias bacias de água pela cabeça abaixo somente para refrescar e tirar a maioria do pó apanhado ao atravessar as muitas picadas para ali chegar. Fomos ali pois era àquela fonte que o Xico ia fazer o carregamento de água e assim nos deparamos com as mulheres a lavar a roupa após o que tomavam banho. Na foto eu estava nas escada a filmar enquanto meu marido tirava fotos" (Zélia)... "A Zélia é mesmo assim e lá foi tomar o seu banho" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006).


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada, Canchuma> 1998 > "Fazendo a cama...Foi em Canchuma, onde como hóspedes especiais, dormimos na única cama de madeira existente por aquelas bandas. A cama nem era má, os lençóis eram meus pois mulher prevenida vale por duas, e se não fosse a brincadeira dos cabritinhos a correr toda a noite ao redor da casa que era construída sobre uma plataforma ou coisa do género, até teria sido uma noite repousante devido ao cansaço" (Zélia)... "No hotel de Empada o seu director (chefe de tabanca) ofereceu-lhes a sua suíte, só na Guiné" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006).


Região de Quínara > Empara, Canchuma> 1998 > "Eu em camisa de dormir, quando acordei após a dita noite, saindo da Casa de Banho, que era algo de inédito até então. No interior daquele cercado, montado com algumas placas de chapa, pedaços de madeira, ramos de palmeira e a porta era um pano que movíamos para entrar e sair, o chão era em cimento com um leve declive para a água correr para a terra ao tomar banho a qual nos ia sendo entregue pelas gentis mulheres daquela família, que a retiravam de um poço e a iam passando dentro das meias cabaceiras, utensílio com várias utilidades por terras de África. No centro daquele espaço, no chão, existia uma abertura circular com cerca de 20 centímetros, tapado com um pedaço de lousa amovível e cuja função era a de sanita. Giro, não? Isto é África, não é especial da Guiné pelo que sei, assim como sei que nem toda a gente acharia graça a meter-se nestas andanças, mas estas experiências fascinam-me e fazem-me sentir muito feliz e só convivendo com culturas, hábitos e costumes de gentes tão iguais e tão diferentes, é que vamos evoluindo um pouco na nossa curta existência - é isto que penso" (Zélia) ... "A Zélia admirando o espaço à sua volta" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1998 > "Eu e Xico numa tabanca entre Empada e Binhar, rodeados pelo velho Mamadú e família, homem este por quem o Xico sentia muita admiração e respeito, graças ao qual ele não passou muitas vezes fome pois ele sempre o safava , como dizemos, pela porta do cavalo. A nossa primeira visita ao Mamadú foi em 1994, o que quase o endoideceu de alegria quando viu o Xico pois reconheceu-o de imediato e a mim era como se sempre me conhecera. Foi tamanha a sua euforia, e sabendo nós que na Guiné a riqueza dos homens vê-se pelas cabeças de gado que possuem e que somente matam para consumo próprio em ocasiões muito especiais, que ele queria insistentemente que nós trouxéssemos um cabrito para comer no hotel em Bissau, o que era impossível. Voltamos lá em 1998 e esta foto foi a última que tirámos com aquele homem grande, pois faleceu algum tempo depois. Os seus gritos e risadas de alegria ainda hoje se mantêm gravados na minha memória auditiva" (Zélia)... "A alegria estampada no rosto de toda a gente, assim como no Xico e Zélia" (Albano Costa).
© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné 63/74 - DXCV: A história do Cancioneiro de Canjadude (José Martins)

Guiné > Canjadude > O gato preto José Martins (em 1968 ou 1969)

© José Martins (2006)


Texto do José Martins (ex-furriel miliciano de transmissões da CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70), com a seguinte nota: " Aqui vai mais um modesto contributo acerca do Cancioneiro de Canjadude. Em breve espero pôr NO AR a versão áudio. Um abraço".


No blogue, com a data de 28 de Fevereiro de 2006, encontram-se composições que foram elaboradas a partir de músicas em voga nos finais da década de sessenta do pretérito século XX, e que tiveram como nome genérico o título acima.

Das seis apresentadas, não sei se existem mais e que ainda estão para ser divulgadas, todas elas têm uma estória subjacente, a saber:

HINO DOS GATOS PRETOS

A CCAÇ 5, com sede, comando e um grupo de combate em NOVA LAMEGO, tinha à sua responsabilidade os destacamentos de CANJADUDE, CHECHE e CABUCA

Em Agosto de 1968 o comando foi transferido para Canjadude, tendo sido reforçado pela CART 2338.

Em 6 de Fevereiro de 1969 com a retirada das tropas de Madina do Boé, o seu grupo de combate instalado no Cheche, veio para Canjadude, onde se lhe reuniu o grupo de combate estacionado em Cabuca e rendido por uma companhia metropolitana.

A CART 2338 retirou-se para Nova Lamego em Março de 1969.

Ficaram, assim, os Gatos Pretos com o destacamento mais avançado desde “o Gabú (Nova Lamego) ao Boé…”.

Esta foi a base que serviu de mote ao HINO, acrescentando que na versão original o refrão começa DESDE QUE ESTAMOS TODOS JUNTOS …

BINÓCULOS DE GUERRA

Canção muito em voga na metrópole a que bastou um pouco de imaginação para se transformar e que a rádio da Guiné também passava com frequência

Esta é contemporânea do HINO.

Guiné > Gabu (Nova Lamego) > Canjadude > 1973 > CCAÇ 5 (Gatos Pretos) >

Interior do Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude (o furriel miliciano Carvalho é o 2º a contar da direita... No mural, na pintura na parede, pode ler-se: [gato] preto agarra à mão grrr.... Percebe-se que estamos no Rio Corubal com o campo fortificado de Cheche do lado de cá (margem direita) e... a mítica Madina do Boé, do lado de lá (margem esquerda)... Em 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, o PAIGC proclama a independência da nova República da Guiné-Bissau.

© João Carvalho (2005)


HINO DA VELHICE

Nasceu duma frase muito usada pelo Furriel Miliciano Carvalho, que sistematicamente gritava

EU NÃO ESTOU MALUCO!
TIREM-ME DAQUI1

Da frase ao HINO DA VELHICE, foi apenas escrever a letra adaptada ao Puppet on the string.

BALADA DE CANJADUDE

Nasceu depois de realizada a Operação LUTA realizada em 16 e 17 de Maio de 1969. Esta operação, em que participei, tinha por missão detectar e neutralizar as forças IN que se encontravam a norte do Rio Corubal, onde seria largada uma vaga de paraquedistas heli-transportados.

A guarnição do destacamento ficou a cargo de uma companhia de periquitos, dado que a CCAÇ 5 se devia apresentar com a máxima força.

Trocadas as voltas, o quartel foi atacado, os piras baptizados, e o resultado estava à vista quando regressamos.

O tuga sabe transformar e dar a volta por cima e ainda não esqueceu que, muito atrás no tempo, as notícias também corriam mundo em forma de canção e/ou poema.

FADO DA EMBOSCADA

Este fado, com música do Embouçado, faz referência à Operação LACOSTE, que foi uma patrulha de combate ocorrida em 27 e 28 de Junho de 1969, que tendo partido de Canjadude passou por Sare Andebe, Ponto Cota 70, BURMELEU, Samba Gano e regresso a Canjadude.

Houve contacto com o IN no final do dia 27, quando a patrulha se preparava montar a emboscada, foi detectado, na zona de Burmeleu, um grupo que nos atacou e ao qual foi iniciada a perseguição. No terreno ficaram armas e munições. Após o recontro retiramos para o Ponto Cota 70, que nos garantia protecção nocturna.

Durante a noite assistimos à passagem de guerrilheiros, que no dia seguinte, ao voltar a passar pela zona de BURMELEU, tínhamos “festa rija” á nossa espera.

GATO PIRA

Esta canção não fazia parte das minhas lembranças, até que a vi publicada no numero 7 do jornal GATO PRETO, editado em Abril de 1972, e que faz parte de uma colecção de 16 (?) números, que se encontram depositados na biblioteca do Estado Maior do Exército.

OUTROS SÍMBOLOS

A CCAÇ 5 tinha outros símbolos criados em 1968/69, [no meu tempo]:

- O Guião, que inicialmente não tinha a inscrição GATOS PRETOS;

- O ex-libris que, igual ao guião, era usado sobre o bolso esquerdo da camisa ou
dólmen;

- Guiões triangulares, de cores várias, para cada um grupo de combate e para o comando e serviços;

- O lenço preto, tipo cachecol, usado por debaixo do colarinho da camisa

- Cinzeiro, quase plano, de cor vermelha com um gato preto

Guiné 63/74 - DXCV: A história do Cancioneiro de Canjadude (José Martins)

Guiné > Canjadude > O gato preto José Martins (em 1968 ou 1969)

© José Martins (2006)


Texto do José Martins (ex-furriel miliciano de transmissões da CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70), com a seguinte nota: " Aqui vai mais um modesto contributo acerca do Cancioneiro de Canjadude. Em breve espero pôr NO AR a versão áudio. Um abraço".


No blogue, com a data de 28 de Fevereiro de 2006, encontram-se composições que foram elaboradas a partir de músicas em voga nos finais da década de sessenta do pretérito século XX, e que tiveram como nome genérico o título acima.

Das seis apresentadas, não sei se existem mais e que ainda estão para ser divulgadas, todas elas têm uma estória subjacente, a saber:

HINO DOS GATOS PRETOS

A CCAÇ 5, com sede, comando e um grupo de combate em NOVA LAMEGO, tinha à sua responsabilidade os destacamentos de CANJADUDE, CHECHE e CABUCA

Em Agosto de 1968 o comando foi transferido para Canjadude, tendo sido reforçado pela CART 2338.

Em 6 de Fevereiro de 1969 com a retirada das tropas de Madina do Boé, o seu grupo de combate instalado no Cheche, veio para Canjadude, onde se lhe reuniu o grupo de combate estacionado em Cabuca e rendido por uma companhia metropolitana.

A CART 2338 retirou-se para Nova Lamego em Março de 1969.

Ficaram, assim, os Gatos Pretos com o destacamento mais avançado desde “o Gabú (Nova Lamego) ao Boé…”.

Esta foi a base que serviu de mote ao HINO, acrescentando que na versão original o refrão começa DESDE QUE ESTAMOS TODOS JUNTOS …

BINÓCULOS DE GUERRA

Canção muito em voga na metrópole a que bastou um pouco de imaginação para se transformar e que a rádio da Guiné também passava com frequência

Esta é contemporânea do HINO.

Guiné > Gabu (Nova Lamego) > Canjadude > 1973 > CCAÇ 5 (Gatos Pretos) >

Interior do Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude (o furriel miliciano Carvalho é o 2º a contar da direita... No mural, na pintura na parede, pode ler-se: [gato] preto agarra à mão grrr.... Percebe-se que estamos no Rio Corubal com o campo fortificado de Cheche do lado de cá (margem direita) e... a mítica Madina do Boé, do lado de lá (margem esquerda)... Em 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, o PAIGC proclama a independência da nova República da Guiné-Bissau.

© João Carvalho (2005)


HINO DA VELHICE

Nasceu duma frase muito usada pelo Furriel Miliciano Carvalho, que sistematicamente gritava

EU NÃO ESTOU MALUCO!
TIREM-ME DAQUI1

Da frase ao HINO DA VELHICE, foi apenas escrever a letra adaptada ao Puppet on the string.

BALADA DE CANJADUDE

Nasceu depois de realizada a Operação LUTA realizada em 16 e 17 de Maio de 1969. Esta operação, em que participei, tinha por missão detectar e neutralizar as forças IN que se encontravam a norte do Rio Corubal, onde seria largada uma vaga de paraquedistas heli-transportados.

A guarnição do destacamento ficou a cargo de uma companhia de periquitos, dado que a CCAÇ 5 se devia apresentar com a máxima força.

Trocadas as voltas, o quartel foi atacado, os piras baptizados, e o resultado estava à vista quando regressamos.

O tuga sabe transformar e dar a volta por cima e ainda não esqueceu que, muito atrás no tempo, as notícias também corriam mundo em forma de canção e/ou poema.

FADO DA EMBOSCADA

Este fado, com música do Embouçado, faz referência à Operação LACOSTE, que foi uma patrulha de combate ocorrida em 27 e 28 de Junho de 1969, que tendo partido de Canjadude passou por Sare Andebe, Ponto Cota 70, BURMELEU, Samba Gano e regresso a Canjadude.

Houve contacto com o IN no final do dia 27, quando a patrulha se preparava montar a emboscada, foi detectado, na zona de Burmeleu, um grupo que nos atacou e ao qual foi iniciada a perseguição. No terreno ficaram armas e munições. Após o recontro retiramos para o Ponto Cota 70, que nos garantia protecção nocturna.

Durante a noite assistimos à passagem de guerrilheiros, que no dia seguinte, ao voltar a passar pela zona de BURMELEU, tínhamos “festa rija” á nossa espera.

GATO PIRA

Esta canção não fazia parte das minhas lembranças, até que a vi publicada no numero 7 do jornal GATO PRETO, editado em Abril de 1972, e que faz parte de uma colecção de 16 (?) números, que se encontram depositados na biblioteca do Estado Maior do Exército.

OUTROS SÍMBOLOS

A CCAÇ 5 tinha outros símbolos criados em 1968/69, [no meu tempo]:

- O Guião, que inicialmente não tinha a inscrição GATOS PRETOS;

- O ex-libris que, igual ao guião, era usado sobre o bolso esquerdo da camisa ou
dólmen;

- Guiões triangulares, de cores várias, para cada um grupo de combate e para o comando e serviços;

- O lenço preto, tipo cachecol, usado por debaixo do colarinho da camisa

- Cinzeiro, quase plano, de cor vermelha com um gato preto

28 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DXCIV: Nhabijões: quando um balanta a menos era um turra a menos

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Nhabijões > 1970 > Luta balanta, presenciada por militares destacados para protecção do reordenamento (à esquerda, o furriel miliciano Henriques, da CCAÇ 12, de calções, tronco nu e óculos escuros, o autor destas linhas)

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).

___________________________

Excertos do Diário de um Tuga (L.G.):



Nhabijões, 20 de Dezembro de 1969


Nhabijões: um conjunto de tabancas, ao longo do Rio Geba, habitadas por balantas (uma delas por mandingas), sob duplo controlo (a expressão é das NT) e agora em fase de reordenamento (outro eufemismo: para mim, trata-se de puro etnocídio sociocultural, o que se está aqui a fazer, obrigando os pobres dos balantas e mandingas de Nhabijões a transferir-se da beira rio para uma zona de planalto, sobranceira ao Geba, e a viver em casas desenhadas e construídas por europeus)...

Há sempre um rosto (humano) por detrás da máscara mais impassível. Desespero, porém, de encontrá-lo nestes velhos e velhas, de sexo aliás indefinido, que carregam com todo o peso do tempo, e em que os próprios olhos perderam o seu brilho (humano).

Olhos de múmias que já não nos olham nem nos espiam. Fixam-nos, muito simplesmente. Se porventura existisse a eternidade, deveria ser este o olhar dos condenados (eternos). Já não são testemunhas de nada (mesmo mudas) porque a sua consciência individual se petrificou no tempo.

Nada têm de patético estes seres que já não são humanos. A única coisa que me inspiram é talvez um sentimento de abjecção. E, no entanto, eu deveria sentir uma profunda revolta pelas estruturas que criam esta inumanidade.

Os balantas foram, segundo o testemunho insuspeito dos meus soldados (fulas), as maiores vítimas da repressão colonial nesta década. Seis anos depois (é difícil confiar na memória dos africanos que não usam calendário, mas isto ter-se-á passado em 1963, depois do início oficial da guerra), Samba Silate (1) (cuja população terá sido parcialmente massacrada pela tropa ou pela polícia administrativa de Bambadinca, não posso precisar) e Poidon (2) (regada a napalm pela força aérea) ainda despertam aqui trágicas recordações: evocam o tempo em que todo o balanta era suspeito aos olhos das autoridades militares e administrativas, presumivelmente coadjuvadas pela PIDE (Tenho dificuldade em explicar aos meus soldados, que não falavam português quando os conheci em Contuboel, o que é isso, o que é essa sinistra polícia…).

Há uns anos atrás, nos anos do terror, ser encontrado fora da sua tabanca ou do seu perímetro, de catana na mão ou faca de mato à cintura - que é ronco ou adorno para um balanta que se preze - , eis um belo pretexto para um balanta ser preso, levado para o posto administrativo de Bambadinca, sumarianente interrogado e às vezes, hélàs!, mais sumariamente ainda liquidado.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Ponta Brandão > 1970 > Dois velhos balantas.

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).

A justificação era simples, segundo os meus nharros: "um balanta a menos, era um turra era menos" (sic)… Admito que haja aqui alguma dose de fanfarronice e de exagero, por parte dos fulas, históricos inimigos e vizinhos dos balantas… Mas não há fumo sem fogo: estas histórias parecem-me ter consistência…

Donde esta hostilidade passiva que julgo poder ler nos olhos e nas atitudes da população de Nhabijões que alimenta a guerrilha, em homens e mantimentos, provavelmente mais por razões de parentesco do que por simpatia para com o PAIGC: ao avistarem-me, fardado, na sua tabanca – a mim, tuga, representante da tropa ocupante - os mais velhos baixam a cabeça ou viram-me as costas como se sentissem acabrunhados com a minha presença… Quem se sente mal, sou eu, que venho invadir-lhes a sua privacidade e perturbar os seus irãs

Devia ser esta, aliás, a atitude com que caminhavam para a morte: sem medo mas também sem revolta, com uma estranha dignidade ancestral, a pá e a pica em cada uma das mãos. Sim, por que o método era tão requintado como o dos nazis, a crer na descrição que me fazem alguns dos meus informadores, os mais velhos, como o Abibo, por exemplo – o Abibo, o bom gigante do Abibo, que sofre de epilepsia e tem elefantíase no escroto…

Ou até senão mais: a própria vítima abria a estreita vala onde devia caber o seu próprio corpo, três palmos abaixo da superfície, e onde ficava deitado… à espera que o carrasco da polícia administrativa (sempre os africanos para as tarefas sujas…) se dignasse dar-lhe o passaporte para a eternidade: um tiro de pistola, uma lata de gasolina, um fósforo…

Ter-se-á passado assim ? Um frémito de horror passa-me pela espinha acima. Recuso-me a aceitar que isto se tenha passado debaixo da bandeira verde-rubra da minha pátria, com a cumplicidade ou até o envolvimento (activo ou passivo) das tropas portuguesas ou dos representantes das autoridades portuguesas… Faço, ao menos, votos para que estes crimes sejam apenas imputados à odiosa PIDE… Enfim, nunca o saberei… Ou melhor, poderei perguntar-lhes onde era o sítio... O Adibo e outros falam-me do antigo cemitério de Bambadinca, um sinistro local de outrora onde hoje as alfaces crescem, viçosas…

Mas os tempos são outros, dizem-me com uma certa nostalgia os veteranos da guerra do norte de Angola - ah!, esses tempos em que os cavaleiros do terror branco faziam verdadeiros safaris nos muceques de Luanda, e em que se abatia a tiro em plena rua o cão negro (sic) que dirigisse um simples olhar insolente a uma mulher branca, como ouvi a alguns sargentos racistas, com uísque a mais no bucho, nos poucos dias que passei em Bissau, à nossa chegada ).

Recuperação psicológica e promoção sócio-económica das populações – a chamada acção psicossocial: eis agora a palavra de ordem, sob o consulado de Herr Spínola… É isso: agora faz-se psico (psícola, como dizem os nossos soldados): o major aperta, com visível repugnância, as mãos das múmias; o médico observa, enfastiado, uns tantos casos constantes do catálogo das doenças tropicais; um outro miliciano distribui cigarros Marlboro; e o cabo da CCS anda a ver se come a bajuda de mama firme

Admitem-se abertamente, na linguagem fetichista dos spinolistas, os erros do passado da nossa administração que não terá tido na devida conta as susceptibilidades, as idiossincracias e até os direitos das populações guineenses, mas omite-se, talvez por uma questão de má-consciência, os crimes praticados pelas NT, no passado recente e no passdo mais remoto, pelos nossos métodos particulares de pacificação

Sim, quem é – dos militares do quadro e dos milicianos de hoje – que sabe dessa história das guerras da pacificação da Guiné, do Teixeira Pinto, do Adbul Injai (3), etc. ? …

E no entanto, hoje, as NT sabem que podem ser responsabilizadas, disciplinar e criminalmente (por ironia, à face das leis de um país que assinou as convenções de Genebra, mas que considera os nacionalistas africanos como simples terroristas, bandidos, bandoleiros, turras…) por eventuais actos de violência física cometidos contra prisioneiros e população civil… O etnocídio dos reordenamentos, esse, não tem enquadramento jurídico...

Não se trata obviamente, em meu entender, de uma tentativa de redenção do colonialismo (que, de resto, não existiria, desde 1951, ano em que as nossas colónias passaram a chamar-se províncias ultramarinas…) mas de uma táctica defensiva, como o denunciou o secretário-geral do PAIGC, referindo-se a estas novas directivas do comando-chefe e governador-geral da Guiné, António de Spínola, que visam dissociar o binómio guerrilha-população…

Mas, fazendo deslocar a guerra do TO (teatro de operações) para a ACAP (repartição de acção psicológica), Herr Spínola admite implicitamente que a vitória já não pode ser ganha pelas armas… O que não deixa de ser irónico: retratando-se das suas anteriores posições militaristas, constata afinal o impasse a que tem nos conduzido o militaristismo e acaba por justificar, involuntariamente, a propaganda do IN.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Parada do aquartelamento e centro do posto administrativo. O Humberto Reis posando frente aos memoriais dos vários batalhões e companhias que por ali passaram. Atrás, o edifício da escola local onde leccionava e vivia uma professora branca, portuguesa, a única que wu conheci na em toda a região...

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).



Simplesmente não será através da via de desenvolvimento colonialista ou neocolonista (isto é, da nossa via) que iremos conseguir a paz. É que os nacionalistas da Guiné e Cabo Verde lutam, antes de mais, pelo poder político, pela independência da sua terra, condição sine qua non dum futuro desenvolvimento, integral e autónomo, destes dois territórios, intimamente ligados pela história… Eis por que Herr Spínola nunca poderá “falar a linguagem do IN em matéria de reivindicações” (sic), por muito maquiavélico que ele seja…

Está-se agora proceder ao reagrupamento e reordenamento das tabancas de Nhabijões, ditas sob duplo controlo. Mas esse plano (longinquamente inspirado nos campos de concentração nazis e, mais proximamente, nas aldeias estratégicas que os americanos conceberam para o Vietname) obedece mais a razões psicológicas e sociais (aculturação ou assimilação através da construção de raiz de casas de adobe e rachas de cibe, com cobertura de zinco, portas e janelas à portuguesa, e arruamentos feitos a régua e esquadro) e estratégicas (controlo populacional, demarcação de zonas livres a partilharia e a força aérea, corte do cordão umbilical com a guerrilha) do que a um deliberado plano de promoção social dos guineenses, se bem que esteja prevista uma certa cobertura escolar e sanitária das populações reordenadas…. Com o recurso a pessoal de educação e de saúde, recrutados entre os próprios militares!!!... Contam-se pelos dedos da mão os civis, brancos, missionários, comerciantes, professores, médicos ou enfermeiros, que existem nesta região, de Bambadinca, parte integrante do concelho de Bafatá… Eu apenas conheço três: dois comerciantes e uma professora …

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Nhabijões > 1971 > O estado em que ficou o burrinho, depois de accionar uma mina anticarro à saída do reordenamento, em 21 de Janeiro de 1971 (4).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71). © Humberto Reis (2006).

A acção psicossocial que vejo anunciada e praticada é essencialmente fetichista. Isto é: exorcisa os fantasmas da nossa má consciência civilizacional, cristã e ocidental… Estou a ser mauzinho ? Depois dos navios negreiros, do chicote esclavagista, das concentrações de artilharia e dos bombardeamentos de napalm, ainda há luvas de veludo, as de Herr Spínola, para apertar as mãos das múmias ou distribuir sorros, cigarros e pastilhas…

Não, decididamente perdemos inclusive o direito à autocrítica, ao revelarmos pela última vez o nosso pobre rosto de espantalhos da história. O processo do colonialismo está feito. Salazar sempre o recusou. O seu sucessor deve sabê-lo mas recusa-se a admiti-lo. Mas para Spínola trata-se ainda (e sobretudo) de ganhar tempo. Talvez para negociar uma paz honrosa… Irá a tempo ?

Luis Graça

(ex-furriel miliciano Henriques, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71, também conhecido por Camarada Sov)

_____

(1) Samba Silate: A sudoeste de Nhabijões, junto ao Rio Geba. Vd. mapa de Bambadinca.

(2) Poidon > Na confluência dos Rios Corubal e Geba: vd. mapa do Xime

(3) Vd. post de 15 de Fevereirod e 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVI: Carta (aberta) ao Luís (Jorge Cabral)

" (...) Percebi que uma Guiné idílica e pacífica, de negros portuguesismos, nunca existira… Todo o território ao longo dos séculos foi palco de imensas guerras, sangrentas repressões e alguns desastres das nossas tropas. Perante o meu espanto, indicaram-me, em Fá, o local onde no tempo dos avós, dos avós deles, havia sido aprisionado o Governador, que teve de pagar resgate aos beafadas (1). E em Missirá levaram-me a conhecer o campo onde as forças portuguesas e seus ajudantes estiveram longo tempo entrincheirados, preparando a conquista de Madina/Belel, na luta contra o grande guerreiro Unfali Soncó, no princípio do século XX (2).

"Foram também os velhos que me falaram de Abdul Injai, régulo do Cuor e do Oio, companheiro de Teixeira Pinto, herói tão amado quanto odiado, caído em desgraça no fim da vida, e degredado para Cabo Verde (...)".

Vd. ainda o seguinte sítio na Net:

Wilson Trajano Filho > Pequenos mas honrados: um jeito português de ser na Metrópole e nas Colónias > Brasília: Universidade de Brasília. 2003


(4) Vd. post de 23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)

" (...) O dia 13 [de Janeiro de 1971] seria uma data fatídica para as NT, e em especial para a CCAÇ 12 cujos quadros metropolitanos estavam prestes a terminar a sua comissão de serviço em terras da Guiné. Eis o filme dos acontecimentos: (...)"

Guiné 63/74 - DXCIV: Nhabijões: quando um balanta a menos era um turra a menos

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Nhabijões > 1970 > Luta balanta, presenciada por militares destacados para protecção do reordenamento (à esquerda, o furriel miliciano Henriques, da CCAÇ 12, de calções, tronco nu e óculos escuros, o autor destas linhas)

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).

___________________________

Excertos do Diário de um Tuga (L.G.):



Nhabijões, 20 de Dezembro de 1969


Nhabijões: um conjunto de tabancas, ao longo do Rio Geba, habitadas por balantas (uma delas por mandingas), sob duplo controlo (a expressão é das NT) e agora em fase de reordenamento (outro eufemismo: para mim, trata-se de puro etnocídio sociocultural, o que se está aqui a fazer, obrigando os pobres dos balantas e mandingas de Nhabijões a transferir-se da beira rio para uma zona de planalto, sobranceira ao Geba, e a viver em casas desenhadas e construídas por europeus)...

Há sempre um rosto (humano) por detrás da máscara mais impassível. Desespero, porém, de encontrá-lo nestes velhos e velhas, de sexo aliás indefinido, que carregam com todo o peso do tempo, e em que os próprios olhos perderam o seu brilho (humano).

Olhos de múmias que já não nos olham nem nos espiam. Fixam-nos, muito simplesmente. Se porventura existisse a eternidade, deveria ser este o olhar dos condenados (eternos). Já não são testemunhas de nada (mesmo mudas) porque a sua consciência individual se petrificou no tempo.

Nada têm de patético estes seres que já não são humanos. A única coisa que me inspiram é talvez um sentimento de abjecção. E, no entanto, eu deveria sentir uma profunda revolta pelas estruturas que criam esta inumanidade.

Os balantas foram, segundo o testemunho insuspeito dos meus soldados (fulas), as maiores vítimas da repressão colonial nesta década. Seis anos depois (é difícil confiar na memória dos africanos que não usam calendário, mas isto ter-se-á passado em 1963, depois do início oficial da guerra), Samba Silate (1) (cuja população terá sido parcialmente massacrada pela tropa ou pela polícia administrativa de Bambadinca, não posso precisar) e Poidon (2) (regada a napalm pela força aérea) ainda despertam aqui trágicas recordações: evocam o tempo em que todo o balanta era suspeito aos olhos das autoridades militares e administrativas, presumivelmente coadjuvadas pela PIDE (Tenho dificuldade em explicar aos meus soldados, que não falavam português quando os conheci em Contuboel, o que é isso, o que é essa sinistra polícia…).

Há uns anos atrás, nos anos do terror, ser encontrado fora da sua tabanca ou do seu perímetro, de catana na mão ou faca de mato à cintura - que é ronco ou adorno para um balanta que se preze - , eis um belo pretexto para um balanta ser preso, levado para o posto administrativo de Bambadinca, sumarianente interrogado e às vezes, hélàs!, mais sumariamente ainda liquidado.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Ponta Brandão > 1970 > Dois velhos balantas.

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).

A justificação era simples, segundo os meus nharros: "um balanta a menos, era um turra era menos" (sic)… Admito que haja aqui alguma dose de fanfarronice e de exagero, por parte dos fulas, históricos inimigos e vizinhos dos balantas… Mas não há fumo sem fogo: estas histórias parecem-me ter consistência…

Donde esta hostilidade passiva que julgo poder ler nos olhos e nas atitudes da população de Nhabijões que alimenta a guerrilha, em homens e mantimentos, provavelmente mais por razões de parentesco do que por simpatia para com o PAIGC: ao avistarem-me, fardado, na sua tabanca – a mim, tuga, representante da tropa ocupante - os mais velhos baixam a cabeça ou viram-me as costas como se sentissem acabrunhados com a minha presença… Quem se sente mal, sou eu, que venho invadir-lhes a sua privacidade e perturbar os seus irãs

Devia ser esta, aliás, a atitude com que caminhavam para a morte: sem medo mas também sem revolta, com uma estranha dignidade ancestral, a pá e a pica em cada uma das mãos. Sim, por que o método era tão requintado como o dos nazis, a crer na descrição que me fazem alguns dos meus informadores, os mais velhos, como o Abibo, por exemplo – o Abibo, o bom gigante do Abibo, que sofre de epilepsia e tem elefantíase no escroto…

Ou até senão mais: a própria vítima abria a estreita vala onde devia caber o seu próprio corpo, três palmos abaixo da superfície, e onde ficava deitado… à espera que o carrasco da polícia administrativa (sempre os africanos para as tarefas sujas…) se dignasse dar-lhe o passaporte para a eternidade: um tiro de pistola, uma lata de gasolina, um fósforo…

Ter-se-á passado assim ? Um frémito de horror passa-me pela espinha acima. Recuso-me a aceitar que isto se tenha passado debaixo da bandeira verde-rubra da minha pátria, com a cumplicidade ou até o envolvimento (activo ou passivo) das tropas portuguesas ou dos representantes das autoridades portuguesas… Faço, ao menos, votos para que estes crimes sejam apenas imputados à odiosa PIDE… Enfim, nunca o saberei… Ou melhor, poderei perguntar-lhes onde era o sítio... O Adibo e outros falam-me do antigo cemitério de Bambadinca, um sinistro local de outrora onde hoje as alfaces crescem, viçosas…

Mas os tempos são outros, dizem-me com uma certa nostalgia os veteranos da guerra do norte de Angola - ah!, esses tempos em que os cavaleiros do terror branco faziam verdadeiros safaris nos muceques de Luanda, e em que se abatia a tiro em plena rua o cão negro (sic) que dirigisse um simples olhar insolente a uma mulher branca, como ouvi a alguns sargentos racistas, com uísque a mais no bucho, nos poucos dias que passei em Bissau, à nossa chegada ).

Recuperação psicológica e promoção sócio-económica das populações – a chamada acção psicossocial: eis agora a palavra de ordem, sob o consulado de Herr Spínola… É isso: agora faz-se psico (psícola, como dizem os nossos soldados): o major aperta, com visível repugnância, as mãos das múmias; o médico observa, enfastiado, uns tantos casos constantes do catálogo das doenças tropicais; um outro miliciano distribui cigarros Marlboro; e o cabo da CCS anda a ver se come a bajuda de mama firme

Admitem-se abertamente, na linguagem fetichista dos spinolistas, os erros do passado da nossa administração que não terá tido na devida conta as susceptibilidades, as idiossincracias e até os direitos das populações guineenses, mas omite-se, talvez por uma questão de má-consciência, os crimes praticados pelas NT, no passado recente e no passdo mais remoto, pelos nossos métodos particulares de pacificação

Sim, quem é – dos militares do quadro e dos milicianos de hoje – que sabe dessa história das guerras da pacificação da Guiné, do Teixeira Pinto, do Adbul Injai (3), etc. ? …

E no entanto, hoje, as NT sabem que podem ser responsabilizadas, disciplinar e criminalmente (por ironia, à face das leis de um país que assinou as convenções de Genebra, mas que considera os nacionalistas africanos como simples terroristas, bandidos, bandoleiros, turras…) por eventuais actos de violência física cometidos contra prisioneiros e população civil… O etnocídio dos reordenamentos, esse, não tem enquadramento jurídico...

Não se trata obviamente, em meu entender, de uma tentativa de redenção do colonialismo (que, de resto, não existiria, desde 1951, ano em que as nossas colónias passaram a chamar-se províncias ultramarinas…) mas de uma táctica defensiva, como o denunciou o secretário-geral do PAIGC, referindo-se a estas novas directivas do comando-chefe e governador-geral da Guiné, António de Spínola, que visam dissociar o binómio guerrilha-população…

Mas, fazendo deslocar a guerra do TO (teatro de operações) para a ACAP (repartição de acção psicológica), Herr Spínola admite implicitamente que a vitória já não pode ser ganha pelas armas… O que não deixa de ser irónico: retratando-se das suas anteriores posições militaristas, constata afinal o impasse a que tem nos conduzido o militaristismo e acaba por justificar, involuntariamente, a propaganda do IN.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Parada do aquartelamento e centro do posto administrativo. O Humberto Reis posando frente aos memoriais dos vários batalhões e companhias que por ali passaram. Atrás, o edifício da escola local onde leccionava e vivia uma professora branca, portuguesa, a única que wu conheci na em toda a região...

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).



Simplesmente não será através da via de desenvolvimento colonialista ou neocolonista (isto é, da nossa via) que iremos conseguir a paz. É que os nacionalistas da Guiné e Cabo Verde lutam, antes de mais, pelo poder político, pela independência da sua terra, condição sine qua non dum futuro desenvolvimento, integral e autónomo, destes dois territórios, intimamente ligados pela história… Eis por que Herr Spínola nunca poderá “falar a linguagem do IN em matéria de reivindicações” (sic), por muito maquiavélico que ele seja…

Está-se agora proceder ao reagrupamento e reordenamento das tabancas de Nhabijões, ditas sob duplo controlo. Mas esse plano (longinquamente inspirado nos campos de concentração nazis e, mais proximamente, nas aldeias estratégicas que os americanos conceberam para o Vietname) obedece mais a razões psicológicas e sociais (aculturação ou assimilação através da construção de raiz de casas de adobe e rachas de cibe, com cobertura de zinco, portas e janelas à portuguesa, e arruamentos feitos a régua e esquadro) e estratégicas (controlo populacional, demarcação de zonas livres a partilharia e a força aérea, corte do cordão umbilical com a guerrilha) do que a um deliberado plano de promoção social dos guineenses, se bem que esteja prevista uma certa cobertura escolar e sanitária das populações reordenadas…. Com o recurso a pessoal de educação e de saúde, recrutados entre os próprios militares!!!... Contam-se pelos dedos da mão os civis, brancos, missionários, comerciantes, professores, médicos ou enfermeiros, que existem nesta região, de Bambadinca, parte integrante do concelho de Bafatá… Eu apenas conheço três: dois comerciantes e uma professora …

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Nhabijões > 1971 > O estado em que ficou o burrinho, depois de accionar uma mina anticarro à saída do reordenamento, em 21 de Janeiro de 1971 (4).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71). © Humberto Reis (2006).

A acção psicossocial que vejo anunciada e praticada é essencialmente fetichista. Isto é: exorcisa os fantasmas da nossa má consciência civilizacional, cristã e ocidental… Estou a ser mauzinho ? Depois dos navios negreiros, do chicote esclavagista, das concentrações de artilharia e dos bombardeamentos de napalm, ainda há luvas de veludo, as de Herr Spínola, para apertar as mãos das múmias ou distribuir sorros, cigarros e pastilhas…

Não, decididamente perdemos inclusive o direito à autocrítica, ao revelarmos pela última vez o nosso pobre rosto de espantalhos da história. O processo do colonialismo está feito. Salazar sempre o recusou. O seu sucessor deve sabê-lo mas recusa-se a admiti-lo. Mas para Spínola trata-se ainda (e sobretudo) de ganhar tempo. Talvez para negociar uma paz honrosa… Irá a tempo ?

Luis Graça

(ex-furriel miliciano Henriques, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71, também conhecido por Camarada Sov)

_____

(1) Samba Silate: A sudoeste de Nhabijões, junto ao Rio Geba. Vd. mapa de Bambadinca.

(2) Poidon > Na confluência dos Rios Corubal e Geba: vd. mapa do Xime

(3) Vd. post de 15 de Fevereirod e 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVI: Carta (aberta) ao Luís (Jorge Cabral)

" (...) Percebi que uma Guiné idílica e pacífica, de negros portuguesismos, nunca existira… Todo o território ao longo dos séculos foi palco de imensas guerras, sangrentas repressões e alguns desastres das nossas tropas. Perante o meu espanto, indicaram-me, em Fá, o local onde no tempo dos avós, dos avós deles, havia sido aprisionado o Governador, que teve de pagar resgate aos beafadas (1). E em Missirá levaram-me a conhecer o campo onde as forças portuguesas e seus ajudantes estiveram longo tempo entrincheirados, preparando a conquista de Madina/Belel, na luta contra o grande guerreiro Unfali Soncó, no princípio do século XX (2).

"Foram também os velhos que me falaram de Abdul Injai, régulo do Cuor e do Oio, companheiro de Teixeira Pinto, herói tão amado quanto odiado, caído em desgraça no fim da vida, e degredado para Cabo Verde (...)".

Vd. ainda o seguinte sítio na Net:

Wilson Trajano Filho > Pequenos mas honrados: um jeito português de ser na Metrópole e nas Colónias > Brasília: Universidade de Brasília. 2003


(4) Vd. post de 23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)

" (...) O dia 13 [de Janeiro de 1971] seria uma data fatídica para as NT, e em especial para a CCAÇ 12 cujos quadros metropolitanos estavam prestes a terminar a sua comissão de serviço em terras da Guiné. Eis o filme dos acontecimentos: (...)"

Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Bandeira.

©João Carvalho (2006)

O João Carvalho, que foi furriel miliciano enfermeiro dos Gatos Pretos, diz-nos que começou a rebuscar o seu "baú de recordações". E nessas voltas ao passado, "enontrei uma pequena bandeira dos Gatos Pretos. Digitalizei só uma face"...

A par desta preciosidade, também foi desencantar letras de canções com que os Gatos Pretos exorcizavam os seus fantasmas, os seus medos, as suas angústias nas noites longas de Canjadude (1)...

Fica aqui uma amostra desse Cancioneiro que eu tomei a liberdade de chamar o Cancioneiro de Canjadude, por analogia com o da Niassa (Moçambique) (3), tal como já tinha feito com os cadernos do Eduardo Magalhães Ribeiro, ex-furriel miliciano de operações especiais, da CCS do BCAÇ 4612, que teve o seu momento de glória em Mansoa, em 9 de Setembro de 1974, ao arrear a última bandeira verde-rubra, e que eu rebaptizei com o título Cancioneiro de Mansoa (3) .

Também já aqui publicámos, no nosso blogue, a famosa letra do hino de Gandembel (4). No meu tempo (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71) era provavelmente a canção de caserna mais popular, passando de boca em boca. Guileje, Gadamael e Gandembel eram três nomes de aquartelamentos do sul que os periquitos, em Bissau ou na Zona Leste, pronunciavam com temor e respeito... Infelizmente já não me lembro da música...

O nosso camarada João Carvalho, ex-furriel miliciano enfermeiro da CCAÇ 5 (1973/74), hoje farmacêutico

©João Carvalho (2006)



Guiné> Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Balada de Canjadude. Música: DEsconhecida. A letra é uma paródia do conhecidíssimo poema do Augusto Gil (1873-1929), Balada da Neve (do livro Luar de Janeiro, 1909) (LG).

© João Carvalho (2006)

Voam forte, fortemente,
Provocando o alvoroço.
Metralha de outra gente
Que pretende certamente
Estragar-nos o almoço.

Será talvez um tornado,
Mas ainda há pouco tempo,
Nem as chapas do telhado,
Nem o desconjuntado,
Se moviam com o vento.

Fui ver...
As morteiradas caíam,
Do azul cinzento do céu,
Grandes, negras, explodiam,
Como elas se moviam,
Mas que barulho, Deus meu!

Olho através da seteira,
Está tudo acinzentado.
Elas caem, que poeira,
Levantam à nossa beira,
Felizmente mais ao lado.

Ficando olhando estes sinais,
Deixados pela tormenta.
E isto por entre os mais,
Buracos descomunais,
Dos impates do oitenta.

Inesperado, cortante,
Eis que ribomba o canhão
Que, apesar de estar distante,
Com a sua voz troante,
Vem espalhar a confusão.

Com potente vozear,
Estas armas falam forte,
O canhão a metralhar,
Propõe-se a enviar
Sua mensagem de morte.

Que quem já é terrorista,
Sofra tormentos, enfim.
Mas esta tropa, Senhor,
Porque lhes dai tanta dor,
Porque padecem assim ?

É uma infinita tristeza,
Constante perturbação,
No coração é inverno,
Cai chumbo na natureza,
Canjadude é um inferno.



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Hino da Velhice. Música de Puppet on the String, uma canção do Reino Unido, composta por Bill Martin/Phil Coulter que ganhou o Festival da Canção da Eurovisão de 1967, interpretada por Sandi Shaw. (LG).

© João carvalho (2006)

Refrão

Ai....
Tirem-me daqui,
Mandem-me p'ra Metrópole,
Que eu estou a ficar maluco, maluco, maluco,
Quero ir daqui embora!...

Já lá vem o meu periquito
A saltar na bolanha,
Quando for daqui para fora
Nunca mais ninguém me apanha.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

Refrão

Despedidas eu vou fazer
E a arma entregar.
Depois então vou receber
A guia p'ra marchar.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...


Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Bibóculos de guerra. Música: Vou partir, vou voltar, vou partir... (Conhecida música da época, mas já não me lembro quem era o intérprete) (LG)

© João Carvalho (2006)



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Gato Pira. Música: Negro Gato, do Roberto Carlos. ©João Carvalho (2006)

Minha triste história
Vou-lhes contar,
Por certo ao ouvi-la
Vão ter que tarrafiar!

Miau... Eu sou o gato pira (bis)

Manga de meses tenho
Para lutar,
Manga de chances tenho
Para escapar.
Mas se eu afinar,
Acabo num farrapo.

Miau... Eu sou o gato pira (bis)

Há dias, lá no mtao,
Pobre de mim,
Queriam as minhas penas
Para um ronco assim.
Apavorado eu pensei
Ai, que será de mim ?


Miau... Eu sou o gato pira (bis)



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Fado da Emboscada. Música: Fado do Embuçado (Autor: João Ferreira Rosa).


©João Carvalho (2006)

A história que eu vou contar,
Já há muito aconteceu,
Gatos pretos em acção,
Na grande operação,
Lacoste em Burmeleu.

A malt' ia pela mata,
Ainda não viar nada,
Mas por mal dos meus tormentos,
Com fortes rebentamentos,
Começou a emboscada.

Logo a malta reagiu,
No meio da confusão,
Atrás deles e a correr,
A gritar e a dizer
Gato preto agarra à mão.

Perante a admiração geral,
No meio da algazarra,
Enquanto os turras fugiam,
Os nossos os perseguiam,
A gritar Agarra, agarra!.

EW então já noitinha,
Quando a tropa instalou,
P'ra nosso contentamento,
Munições e armamento,
Foi o ronco que ficou.


____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)


(2) vd post de 11 de Maio de 20054 > Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1)

" (...) 1. No final dos anos sessenta, no norte de Moçambique, na região do Niassa, os soldados portuguesas entoavam fados e canções que relatavam as alegrias e as tristezas do seu quotidiano de guerra. O registo era, umas vezes, de bravata e paródia, e outras vezes mais triste e intimista... Era uma forma de exorcizar a angústia das emboscadas e das minas, de lidar com o stresse, de manter viva a ligação com a sua terra natal, de reforçar o seu espírito de corpo como combatentes e até de certo modo humanizar uma guerra que não parecia ter uma solução militar à vista. Nas letras dessas músicas podia-se inclusive descortinar sinais de contestação e até de resistência, sinais esses que minavam o moral das tropas e a vontade de combater.

"O mesmo se passava, de resto, noutras frentes de guerra, como a Guiné, como eu posso testemunhar pela minha própria experiência pessoal: as longas noites da Guiné eram passadas, muitas vezes, entre muitos copos de uísque, cerveja, intermináveis jogos de lerpa e longas sessões de fados, baladas e outras canções (com o Manuel Freire à cabeça, seguido do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, dos Beatles, do Bob Dylan, do Donovan e de tantos outros...): "Eles não sabem nem sonham/ Que o sonho comanda a vida...", era uma das nossas preferidas, sendo cantada e acompanhada à viola com um misto de saudades da nossa terra e de rebeldia contra o aparelho político-militar.

"Vários poetas e versejadores, de maior ou menor talento, pertencentes aos três ramos das forças armadas, contribuiram anonimamente para aquilo a que depois se veio a chamar o Cancioneiro do Niassa (5). As letras eram acompanhadas por melodias em voga na época, incluindo tangos e fados, tradicionais ou não, ainda hoje facilmente reconhecíveis (por ex., A Casa da Marquinhas, de Alfredo Marceneiro, ou a Júlia Florista, da Amália). O seu interesse não é literário mas sim documental, socioantropológico" (...).

(3) Vd post de 1 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVI: Cancioneiro de Mansoa (1): o esplendor de Portugal

" (...) O que o Ribeiro me mandou foi um carderno, de 47 páginas, onde ele conta, em verso, as peripécias da sua atribulada vida militar. Vou chamar a estes cadernos o Cancioneiro de Mansoa, por analogia com o Cancioneiro do Niassa. Está imbuído da ideologia ou (da mística) ranger, não é uma obra colectiva, é escrito por um dos últimos guerreiros do Império e, para mais, ao longo dos anos que se sucederam ao 25 de Abril de 1974 em que o autor também participou... O Cancioneiro do Niassa tem outra origem, outro contexto, outro tom... De qualquer modo, o Magalhães Ribeiro e os seus camaradas de operações especiais não me levarão a mal se eu chamar Cancioneiro de Mansoa ao conjunto destes versos, ditados pela nostalgia do império perdido e pela afirmação do valor e do patriotismo do soldado português" (...).

(4) Vd post de 30 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDII: O Hino de Gandembel

(5) Vd ainda:

(i) Página do nosso camarada Jorge Santos > A Guerra Colonial > Canções do Niassa


(ii) Página do José Rabaça Gaspar > Cancioneiro do Niassa

"(...) as CANÇÕES que fazem parte da Gravação da Rádio Metangula, da Marinha, em 1969, na voz de João Peneque (Como é evidente, pedimos desculpa das falhas na gravação, que foi recuperada a partir de uma cassete gravada em 1969, pelos bons serviços dos amigos Manuel Aleixo e Manuel Cruz, a quem deixamos os melhores agradecimentos) " (...)

Este camarada fez parte da CART 2326, Os Lobos de Maniamba (Moçambique, 1968/70).

Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Bandeira.

©João Carvalho (2006)

O João Carvalho, que foi furriel miliciano enfermeiro dos Gatos Pretos, diz-nos que começou a rebuscar o seu "baú de recordações". E nessas voltas ao passado, "enontrei uma pequena bandeira dos Gatos Pretos. Digitalizei só uma face"...

A par desta preciosidade, também foi desencantar letras de canções com que os Gatos Pretos exorcizavam os seus fantasmas, os seus medos, as suas angústias nas noites longas de Canjadude (1)...

Fica aqui uma amostra desse Cancioneiro que eu tomei a liberdade de chamar o Cancioneiro de Canjadude, por analogia com o da Niassa (Moçambique) (3), tal como já tinha feito com os cadernos do Eduardo Magalhães Ribeiro, ex-furriel miliciano de operações especiais, da CCS do BCAÇ 4612, que teve o seu momento de glória em Mansoa, em 9 de Setembro de 1974, ao arrear a última bandeira verde-rubra, e que eu rebaptizei com o título Cancioneiro de Mansoa (3) .

Também já aqui publicámos, no nosso blogue, a famosa letra do hino de Gandembel (4). No meu tempo (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71) era provavelmente a canção de caserna mais popular, passando de boca em boca. Guileje, Gadamael e Gandembel eram três nomes de aquartelamentos do sul que os periquitos, em Bissau ou na Zona Leste, pronunciavam com temor e respeito... Infelizmente já não me lembro da música...

O nosso camarada João Carvalho, ex-furriel miliciano enfermeiro da CCAÇ 5 (1973/74), hoje farmacêutico

©João Carvalho (2006)



Guiné> Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Balada de Canjadude. Música: DEsconhecida. A letra é uma paródia do conhecidíssimo poema do Augusto Gil (1873-1929), Balada da Neve (do livro Luar de Janeiro, 1909) (LG).

© João Carvalho (2006)

Voam forte, fortemente,
Provocando o alvoroço.
Metralha de outra gente
Que pretende certamente
Estragar-nos o almoço.

Será talvez um tornado,
Mas ainda há pouco tempo,
Nem as chapas do telhado,
Nem o desconjuntado,
Se moviam com o vento.

Fui ver...
As morteiradas caíam,
Do azul cinzento do céu,
Grandes, negras, explodiam,
Como elas se moviam,
Mas que barulho, Deus meu!

Olho através da seteira,
Está tudo acinzentado.
Elas caem, que poeira,
Levantam à nossa beira,
Felizmente mais ao lado.

Ficando olhando estes sinais,
Deixados pela tormenta.
E isto por entre os mais,
Buracos descomunais,
Dos impates do oitenta.

Inesperado, cortante,
Eis que ribomba o canhão
Que, apesar de estar distante,
Com a sua voz troante,
Vem espalhar a confusão.

Com potente vozear,
Estas armas falam forte,
O canhão a metralhar,
Propõe-se a enviar
Sua mensagem de morte.

Que quem já é terrorista,
Sofra tormentos, enfim.
Mas esta tropa, Senhor,
Porque lhes dai tanta dor,
Porque padecem assim ?

É uma infinita tristeza,
Constante perturbação,
No coração é inverno,
Cai chumbo na natureza,
Canjadude é um inferno.



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Hino da Velhice. Música de Puppet on the String, uma canção do Reino Unido, composta por Bill Martin/Phil Coulter que ganhou o Festival da Canção da Eurovisão de 1967, interpretada por Sandi Shaw. (LG).

© João carvalho (2006)

Refrão

Ai....
Tirem-me daqui,
Mandem-me p'ra Metrópole,
Que eu estou a ficar maluco, maluco, maluco,
Quero ir daqui embora!...

Já lá vem o meu periquito
A saltar na bolanha,
Quando for daqui para fora
Nunca mais ninguém me apanha.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

Refrão

Despedidas eu vou fazer
E a arma entregar.
Depois então vou receber
A guia p'ra marchar.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...


Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Bibóculos de guerra. Música: Vou partir, vou voltar, vou partir... (Conhecida música da época, mas já não me lembro quem era o intérprete) (LG)

© João Carvalho (2006)



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Gato Pira. Música: Negro Gato, do Roberto Carlos. ©João Carvalho (2006)

Minha triste história
Vou-lhes contar,
Por certo ao ouvi-la
Vão ter que tarrafiar!

Miau... Eu sou o gato pira (bis)

Manga de meses tenho
Para lutar,
Manga de chances tenho
Para escapar.
Mas se eu afinar,
Acabo num farrapo.

Miau... Eu sou o gato pira (bis)

Há dias, lá no mtao,
Pobre de mim,
Queriam as minhas penas
Para um ronco assim.
Apavorado eu pensei
Ai, que será de mim ?


Miau... Eu sou o gato pira (bis)



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Fado da Emboscada. Música: Fado do Embuçado (Autor: João Ferreira Rosa).


©João Carvalho (2006)

A história que eu vou contar,
Já há muito aconteceu,
Gatos pretos em acção,
Na grande operação,
Lacoste em Burmeleu.

A malt' ia pela mata,
Ainda não viar nada,
Mas por mal dos meus tormentos,
Com fortes rebentamentos,
Começou a emboscada.

Logo a malta reagiu,
No meio da confusão,
Atrás deles e a correr,
A gritar e a dizer
Gato preto agarra à mão.

Perante a admiração geral,
No meio da algazarra,
Enquanto os turras fugiam,
Os nossos os perseguiam,
A gritar Agarra, agarra!.

EW então já noitinha,
Quando a tropa instalou,
P'ra nosso contentamento,
Munições e armamento,
Foi o ronco que ficou.


____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)


(2) vd post de 11 de Maio de 20054 > Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1)

" (...) 1. No final dos anos sessenta, no norte de Moçambique, na região do Niassa, os soldados portuguesas entoavam fados e canções que relatavam as alegrias e as tristezas do seu quotidiano de guerra. O registo era, umas vezes, de bravata e paródia, e outras vezes mais triste e intimista... Era uma forma de exorcizar a angústia das emboscadas e das minas, de lidar com o stresse, de manter viva a ligação com a sua terra natal, de reforçar o seu espírito de corpo como combatentes e até de certo modo humanizar uma guerra que não parecia ter uma solução militar à vista. Nas letras dessas músicas podia-se inclusive descortinar sinais de contestação e até de resistência, sinais esses que minavam o moral das tropas e a vontade de combater.

"O mesmo se passava, de resto, noutras frentes de guerra, como a Guiné, como eu posso testemunhar pela minha própria experiência pessoal: as longas noites da Guiné eram passadas, muitas vezes, entre muitos copos de uísque, cerveja, intermináveis jogos de lerpa e longas sessões de fados, baladas e outras canções (com o Manuel Freire à cabeça, seguido do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, dos Beatles, do Bob Dylan, do Donovan e de tantos outros...): "Eles não sabem nem sonham/ Que o sonho comanda a vida...", era uma das nossas preferidas, sendo cantada e acompanhada à viola com um misto de saudades da nossa terra e de rebeldia contra o aparelho político-militar.

"Vários poetas e versejadores, de maior ou menor talento, pertencentes aos três ramos das forças armadas, contribuiram anonimamente para aquilo a que depois se veio a chamar o Cancioneiro do Niassa (5). As letras eram acompanhadas por melodias em voga na época, incluindo tangos e fados, tradicionais ou não, ainda hoje facilmente reconhecíveis (por ex., A Casa da Marquinhas, de Alfredo Marceneiro, ou a Júlia Florista, da Amália). O seu interesse não é literário mas sim documental, socioantropológico" (...).

(3) Vd post de 1 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVI: Cancioneiro de Mansoa (1): o esplendor de Portugal

" (...) O que o Ribeiro me mandou foi um carderno, de 47 páginas, onde ele conta, em verso, as peripécias da sua atribulada vida militar. Vou chamar a estes cadernos o Cancioneiro de Mansoa, por analogia com o Cancioneiro do Niassa. Está imbuído da ideologia ou (da mística) ranger, não é uma obra colectiva, é escrito por um dos últimos guerreiros do Império e, para mais, ao longo dos anos que se sucederam ao 25 de Abril de 1974 em que o autor também participou... O Cancioneiro do Niassa tem outra origem, outro contexto, outro tom... De qualquer modo, o Magalhães Ribeiro e os seus camaradas de operações especiais não me levarão a mal se eu chamar Cancioneiro de Mansoa ao conjunto destes versos, ditados pela nostalgia do império perdido e pela afirmação do valor e do patriotismo do soldado português" (...).

(4) Vd post de 30 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDII: O Hino de Gandembel

(5) Vd ainda:

(i) Página do nosso camarada Jorge Santos > A Guerra Colonial > Canções do Niassa


(ii) Página do José Rabaça Gaspar > Cancioneiro do Niassa

"(...) as CANÇÕES que fazem parte da Gravação da Rádio Metangula, da Marinha, em 1969, na voz de João Peneque (Como é evidente, pedimos desculpa das falhas na gravação, que foi recuperada a partir de uma cassete gravada em 1969, pelos bons serviços dos amigos Manuel Aleixo e Manuel Cruz, a quem deixamos os melhores agradecimentos) " (...)

Este camarada fez parte da CART 2326, Os Lobos de Maniamba (Moçambique, 1968/70).