02 março 2006

Guiné 63/74 - DCI: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' do Paulo Salgado) (12): reviver o passado em Olossato

Guiné-Bissau > Maqué > 2006 > " O mais belo poilão que conheço da Guiné" (Paulo Salgado) .
© Paulo & Conceição Salgado (2006)




Texto do Paulo Salgado:


O regresso de um homem bom!

Quero falar-vos do Moura Marques – camarada de luta, companheiro de labutas, amigo de confidências. Nos idos meses de 1970-1972. Foi no Olossato que se forjou uma solidariedade grande, mas já em Santa Margarida se notava ali a bondade e valentia do Moura Marques, para quem não havia heroísmos nem cobardias, para quem mais valia a verdade do que o servilismo. Se foi louvado, só o poderia ser pela coragem, pelo exemplo, pela calma que dele transparecia, que dele irradiava.

Ontem, dia 26 de Fevereiro de 2006, 35 anos depois de a CCAV 2721 embarcar para Lisboa, fomos ao Olossato: ele, a Maria da Conceição e eu no Prado. Devagar, para bebermos em conjunto as emoções, e rememorar momentos vividos com os outros camaradas.

Saída em direcção a Bula e dali para Bissorã: o largo, as fotos ao que resta de Os Bigodes, as casas coloniais envelhecidas pelo tempo inclemente, a picada, que outrora era picada por causa das minas, e, não sei por que razão, agora estava linda, avermelhada, e, ao lado, as pequenas bolanhas do alto do Maqué, onde está o mais belo poilão que conheço da Guiné, o que resta do aquartelamento da pontão do Maqué, não mais do que algumas paredes onde ainda se descobre uma fresta espreitando para a mata lá atrás (ai quantas sentinelas feitas pelos infernais, pelos vampiros). As fotos da praxe. O marejar de lágrimas do MM.

- Vês, ali, Salgado, tantas horas de trabalho na construção do heliporto, quantas horas perdidas na solidão da mata, quanto de nós ali está ! – dizia ele, emocionado… E a Maria da Conceição tirando as fotos das mais bonitas que já vimos…
Na ligeira subida para o Olossato, alguém grita correndo:
- Bolea, patim bolea!
Parámos. Uma mulher vinha correndo:
- Um mindjer prenhadu sta ali na caminhu!

E nós os três preparados para o que desse e viesse que as dores e contracções (percebiam-se) eram repetidas e já nos imaginávamos a fazer de parteiros na beira da estrada…Felizmente a mulher aguentou. E lá foi levada com mil cuidados ao centro de saúde. E nós, como sorrimos de satisfação e de alívio.

Guiné-Bissau > Cumeré > 2006 > Uma viagem de regresso ao passado... © Paulo & Conceição Salgado (2006)


O reencontro com os amigos. Um deles anda se recordava do cabo Moura. E o Moura Marques mais uma vez emocionado:
– Bolas, um homem sofre, com este exorcismo (palavras do MM).

Uma oferta aos amigos. Uma visita à campa muçulmana do Suleiman Seidi. Uma oração em silêncio, um silêncio de saudade, uma saudade enorme – o Suleiman era um irmão. Eu que o diga. O Moura Marques chorou, de pé, honrando a memória de soldado milícia português – um homem chora quando tem que chorar, bolas.
- Olha, ali era o PC, e ali o local dos morteiros; acolá o bar…
-E ali, bem visível a caserna, agora escola de marabu...

O sol já caía a pino. E os amigos, de volta: mantenhas, e o desejo manifesto do grão-de-bico (homem agora com quatro filhos…menino era naquele tempo):
- Cabo Moura leva-me para Lisboa.
Guiné-Bissau >Olossato > 2006 > O grão-de-bico, ontem criança, hoje homem grande, pai de filhos, reencontra o Moura Marques e o Paulo Salgado... © Paulo & Conceição Salgado (2006)


Que carinho e que ternura e que vontade de ter outra vida o desejo destes homens, dos que estiveram connosco dos que combateram do outro lado.
- Salgado, isto é demais!

Lá fomos em direcção ao rio Olossato, sempre bonito e frondosas as margens, lodoso, embora. Mais fotos e sempre as crianças, as belas crianças. Umas bolachas que a Conceição distribuiu fizeram-nas sorrir. Sorrir ainda mais, se é possível.

Guiné-Bissau > Rio Olossato > O Paulo Salgado e o Moura Marques, 35 anos depois...
© Paulo & Conceição Salgado (2006)


Depois a picada para Farim com passagem por Cansambo (só possível agora visitar, pois naquele tempo estava arrasada) e K3; a travessia de canoa a remos para a outra banda: Farim. Tarde quente de calor do sol e de calor humano. Uma cerveja meio quente junto da Fatu Turé e Mustika Turé, encarregadas do bar da festa carnavalística (assim lhe chamou o comandante da canoa! – um neologismo (?!) para o nosso vocabulário.
- Boa tarde! A bos portuguisis? Pai di nôs.
O que responder a tal fé antiga? Sem palavras.
De novo a cambança. No meio do rio, gritou o comandante da canoa vizinha, a motor, sorrindo:
- Li, tene manga di lagartus…


Guiné-Bissau > Rio Farim > 2006 > Cambana do rio..."A bos portuguisis? Pai di nôs".© Paulo & Conceição Salgado (2006)


A corrida para Mansabá, umas fotos do jovem ferreiro e da forja… Depois, Mansoa. Um hospitalzinho novo, da cooperação francesa, e as ruínas do quartel com soldados sentados à sombra dos mangueiros…!

E a seguir, Uaque. O último olhar para uma viagem longa, mas emocionantemente bela, reconfortante. Estava (quase) feita a catarse… O Moura Marques:
- Meu Camaradão, meu amigo.

PS - No dia anterior, estivéramos em Nhacra e no Cumeré… exactamente no dia em que pela última vez o MM almoçara com o seu amigo Fernando (periquito) que viria a morrer em emboscada dois dias depois…

Guiné 63/74 - DCI: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' do Paulo Salgado) (12): reviver o passado em Olossato

Guiné-Bissau > Maqué > 2006 > " O mais belo poilão que conheço da Guiné" (Paulo Salgado) .
© Paulo & Conceição Salgado (2006)




Texto do Paulo Salgado:


O regresso de um homem bom!

Quero falar-vos do Moura Marques – camarada de luta, companheiro de labutas, amigo de confidências. Nos idos meses de 1970-1972. Foi no Olossato que se forjou uma solidariedade grande, mas já em Santa Margarida se notava ali a bondade e valentia do Moura Marques, para quem não havia heroísmos nem cobardias, para quem mais valia a verdade do que o servilismo. Se foi louvado, só o poderia ser pela coragem, pelo exemplo, pela calma que dele transparecia, que dele irradiava.

Ontem, dia 26 de Fevereiro de 2006, 35 anos depois de a CCAV 2721 embarcar para Lisboa, fomos ao Olossato: ele, a Maria da Conceição e eu no Prado. Devagar, para bebermos em conjunto as emoções, e rememorar momentos vividos com os outros camaradas.

Saída em direcção a Bula e dali para Bissorã: o largo, as fotos ao que resta de Os Bigodes, as casas coloniais envelhecidas pelo tempo inclemente, a picada, que outrora era picada por causa das minas, e, não sei por que razão, agora estava linda, avermelhada, e, ao lado, as pequenas bolanhas do alto do Maqué, onde está o mais belo poilão que conheço da Guiné, o que resta do aquartelamento da pontão do Maqué, não mais do que algumas paredes onde ainda se descobre uma fresta espreitando para a mata lá atrás (ai quantas sentinelas feitas pelos infernais, pelos vampiros). As fotos da praxe. O marejar de lágrimas do MM.

- Vês, ali, Salgado, tantas horas de trabalho na construção do heliporto, quantas horas perdidas na solidão da mata, quanto de nós ali está ! – dizia ele, emocionado… E a Maria da Conceição tirando as fotos das mais bonitas que já vimos…
Na ligeira subida para o Olossato, alguém grita correndo:
- Bolea, patim bolea!
Parámos. Uma mulher vinha correndo:
- Um mindjer prenhadu sta ali na caminhu!

E nós os três preparados para o que desse e viesse que as dores e contracções (percebiam-se) eram repetidas e já nos imaginávamos a fazer de parteiros na beira da estrada…Felizmente a mulher aguentou. E lá foi levada com mil cuidados ao centro de saúde. E nós, como sorrimos de satisfação e de alívio.

Guiné-Bissau > Cumeré > 2006 > Uma viagem de regresso ao passado... © Paulo & Conceição Salgado (2006)


O reencontro com os amigos. Um deles anda se recordava do cabo Moura. E o Moura Marques mais uma vez emocionado:
– Bolas, um homem sofre, com este exorcismo (palavras do MM).

Uma oferta aos amigos. Uma visita à campa muçulmana do Suleiman Seidi. Uma oração em silêncio, um silêncio de saudade, uma saudade enorme – o Suleiman era um irmão. Eu que o diga. O Moura Marques chorou, de pé, honrando a memória de soldado milícia português – um homem chora quando tem que chorar, bolas.
- Olha, ali era o PC, e ali o local dos morteiros; acolá o bar…
-E ali, bem visível a caserna, agora escola de marabu...

O sol já caía a pino. E os amigos, de volta: mantenhas, e o desejo manifesto do grão-de-bico (homem agora com quatro filhos…menino era naquele tempo):
- Cabo Moura leva-me para Lisboa.
Guiné-Bissau >Olossato > 2006 > O grão-de-bico, ontem criança, hoje homem grande, pai de filhos, reencontra o Moura Marques e o Paulo Salgado... © Paulo & Conceição Salgado (2006)


Que carinho e que ternura e que vontade de ter outra vida o desejo destes homens, dos que estiveram connosco dos que combateram do outro lado.
- Salgado, isto é demais!

Lá fomos em direcção ao rio Olossato, sempre bonito e frondosas as margens, lodoso, embora. Mais fotos e sempre as crianças, as belas crianças. Umas bolachas que a Conceição distribuiu fizeram-nas sorrir. Sorrir ainda mais, se é possível.

Guiné-Bissau > Rio Olossato > O Paulo Salgado e o Moura Marques, 35 anos depois...
© Paulo & Conceição Salgado (2006)


Depois a picada para Farim com passagem por Cansambo (só possível agora visitar, pois naquele tempo estava arrasada) e K3; a travessia de canoa a remos para a outra banda: Farim. Tarde quente de calor do sol e de calor humano. Uma cerveja meio quente junto da Fatu Turé e Mustika Turé, encarregadas do bar da festa carnavalística (assim lhe chamou o comandante da canoa! – um neologismo (?!) para o nosso vocabulário.
- Boa tarde! A bos portuguisis? Pai di nôs.
O que responder a tal fé antiga? Sem palavras.
De novo a cambança. No meio do rio, gritou o comandante da canoa vizinha, a motor, sorrindo:
- Li, tene manga di lagartus…


Guiné-Bissau > Rio Farim > 2006 > Cambana do rio..."A bos portuguisis? Pai di nôs".© Paulo & Conceição Salgado (2006)


A corrida para Mansabá, umas fotos do jovem ferreiro e da forja… Depois, Mansoa. Um hospitalzinho novo, da cooperação francesa, e as ruínas do quartel com soldados sentados à sombra dos mangueiros…!

E a seguir, Uaque. O último olhar para uma viagem longa, mas emocionantemente bela, reconfortante. Estava (quase) feita a catarse… O Moura Marques:
- Meu Camaradão, meu amigo.

PS - No dia anterior, estivéramos em Nhacra e no Cumeré… exactamente no dia em que pela última vez o MM almoçara com o seu amigo Fernando (periquito) que viria a morrer em emboscada dois dias depois…

Guiné 63/74 - DC: Poema em memória do Conceição (Zé Teixeira)

Post nº 600 (DC)Guiné > Algures no sul (Quebo, Mampatá, Buba ou Empada) > 1968 ou 1969 > O Zé Teixeira nas noites de escrita e solidão... © José Teixeira (2006)


1. Mensagem do José Teixeira:

Fui ao meu baú de memórias buscar mais este poema Em memória do Conceição (1) que escrevi em 1996, vinte e cinco anos depois do regresso. Não pela sua qualidade, mas sobretudo para realçar que cá dentro ficam recalcadas estas memórias que o tempo não cura.

Vinte e cinco anos depois tive de escrever, dolorosamente, um poema e rever em sofrimento esso momento terrível em que pulava e gritava em plenos pulmões, de contente à porta da enfermaria:
- Não há mortos nem feridos. Filhos da puta, deixei-nos em paz ! - quando o Pedro muito calmamente me chamou e disse:
- Teixeira, estás enganado, leva este para a enfermaria, está morto !

Um abraço
José Teixeira
(ex-1º cabo enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


A Carta que escrevi

A carta que escrevi
Não escrevi.
Ao seu destino chegou.
Atrasada.
No avião seguia, quando morri,
Levou-me o sopro de uma granada.
Dizia eu que estava bem. Era verdade.
A guerra estava parada.
À vista o fim da Missão,
Servir a Pátria amada.
Cantava.
Cantava de alegria,
Afastava a solidão,
O medo, a angústia, o desejo de voltar.
E veio a granada para me matar.
A notícia voou rápida,
Para ferir.
Levou à minha amada
A dor de me ver partir,
Sem me despedir.
A carta.
Juro que a escrevi,
Mas não escrevi
Porque morri.
Sei que a leste
Com que fé, amor !
Esperança danada,
Que fez esquecer a dor,
Da mensagem levada
Pelo Crocodilo lacrimado
Com o resto da minha granada ,
medalhado.
Eu estava.
Mas não estou.
Quando cantava
A morte me levou
E a minha carta
Para ti, Amor
Viajava, levando a esperança
Que acabou.


Abril/96

____________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

"O Conceição era uma camarada de Lisboa, que tanto quanto eu sabia, não tinha pais e vivia com a avó. Era um moço muito alegre e passava o dia a cantar.

"Já perto do fim da comissão, em Empada (está na parte do diário que não enviei para o blogue), estava na retrete ... e a cantar. Não ouviu as saídas de morteiro que nos foram enviadas do cimo da pista e controladas via rádio por alguém lá dentro ou junto ao arame farpado. Uma das primeiras rebentou no telhado da retrete e projetou-o para trás, esmagando parte da nuca contra a parede.

"Eu, logo após o ataque, dei uma volta pelo quartel. Fiquei assustado, pois cairam várias lá dentro e gritava de contente. Não havia aparentemente feridos e muito menos mortos. Nesse momento, o Furriel Pedro (actualmente muito doente, com um derrame celebral) grita-me:
- Teixeira vem aqui ! - Fiquei horrorizado com o que vi. Mais uma vez chorei de raiva" (...)".

Guiné 63/74 - DC: Poema em memória do Conceição (Zé Teixeira)

Post nº 600 (DC)Guiné > Algures no sul (Quebo, Mampatá, Buba ou Empada) > 1968 ou 1969 > O Zé Teixeira nas noites de escrita e solidão... © José Teixeira (2006)


1. Mensagem do José Teixeira:

Fui ao meu baú de memórias buscar mais este poema Em memória do Conceição (1) que escrevi em 1996, vinte e cinco anos depois do regresso. Não pela sua qualidade, mas sobretudo para realçar que cá dentro ficam recalcadas estas memórias que o tempo não cura.

Vinte e cinco anos depois tive de escrever, dolorosamente, um poema e rever em sofrimento esso momento terrível em que pulava e gritava em plenos pulmões, de contente à porta da enfermaria:
- Não há mortos nem feridos. Filhos da puta, deixei-nos em paz ! - quando o Pedro muito calmamente me chamou e disse:
- Teixeira, estás enganado, leva este para a enfermaria, está morto !

Um abraço
José Teixeira
(ex-1º cabo enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


A Carta que escrevi

A carta que escrevi
Não escrevi.
Ao seu destino chegou.
Atrasada.
No avião seguia, quando morri,
Levou-me o sopro de uma granada.
Dizia eu que estava bem. Era verdade.
A guerra estava parada.
À vista o fim da Missão,
Servir a Pátria amada.
Cantava.
Cantava de alegria,
Afastava a solidão,
O medo, a angústia, o desejo de voltar.
E veio a granada para me matar.
A notícia voou rápida,
Para ferir.
Levou à minha amada
A dor de me ver partir,
Sem me despedir.
A carta.
Juro que a escrevi,
Mas não escrevi
Porque morri.
Sei que a leste
Com que fé, amor !
Esperança danada,
Que fez esquecer a dor,
Da mensagem levada
Pelo Crocodilo lacrimado
Com o resto da minha granada ,
medalhado.
Eu estava.
Mas não estou.
Quando cantava
A morte me levou
E a minha carta
Para ti, Amor
Viajava, levando a esperança
Que acabou.


Abril/96

____________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

"O Conceição era uma camarada de Lisboa, que tanto quanto eu sabia, não tinha pais e vivia com a avó. Era um moço muito alegre e passava o dia a cantar.

"Já perto do fim da comissão, em Empada (está na parte do diário que não enviei para o blogue), estava na retrete ... e a cantar. Não ouviu as saídas de morteiro que nos foram enviadas do cimo da pista e controladas via rádio por alguém lá dentro ou junto ao arame farpado. Uma das primeiras rebentou no telhado da retrete e projetou-o para trás, esmagando parte da nuca contra a parede.

"Eu, logo após o ataque, dei uma volta pelo quartel. Fiquei assustado, pois cairam várias lá dentro e gritava de contente. Não havia aparentemente feridos e muito menos mortos. Nesse momento, o Furriel Pedro (actualmente muito doente, com um derrame celebral) grita-me:
- Teixeira vem aqui ! - Fiquei horrorizado com o que vi. Mais uma vez chorei de raiva" (...)".

Gúiné 63/74 - DXCIX: (Contra)posições (Carlos Marques dos Santos)

Guiné > Zona Leste > Estrada Xime- Bambadinca > 1969 > O Cap Brito, da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)

Estrada Xime-Bambadinca > 1968 > Uma coluna da CART 2339... © Carlos Marques dos Santos (2006):



1. Ao ler recente texto, no blogue, com a imagem do Capitão da CCAÇ12 na estrada Xime Bambadinca, veio-me à memória uma outra foto, minha, no mesmo sítio, que faz contraposição... Vejam os contratastes: a Guiné da época sêca, e a Guiné da época das chuvas.


Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Ingoré > 1998 > A Zélia... e o burro.

© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné > Zona Letse > Sector L1 > Subsector de Mansambo > 1968 > Ponte do Rio Carantabá (entre Mansambo e Candamã) © Carlos Marques dos Santos (2006):


2. Mais uma contraposição: (i) A Zélia a tentar, em 1998, lá para os lados do Ingoré, no Cacheu, demover o burro para poderem passar uma ponte (?); (ii) a minha foto com um dos nossos burrinhos passando a ponte do Rio Carantabá.

Em trinta anos, de 1968 para 1998, muita água correu nos rios da Guiné, mas as pontes não mudaram muito... iguais em qualidade e segurança....

Um Abraço
CMS

Gúiné 63/74 - DXCIX: (Contra)posições (Carlos Marques dos Santos)

Guiné > Zona Leste > Estrada Xime- Bambadinca > 1969 > O Cap Brito, da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)

Estrada Xime-Bambadinca > 1968 > Uma coluna da CART 2339... © Carlos Marques dos Santos (2006):



1. Ao ler recente texto, no blogue, com a imagem do Capitão da CCAÇ12 na estrada Xime Bambadinca, veio-me à memória uma outra foto, minha, no mesmo sítio, que faz contraposição... Vejam os contratastes: a Guiné da época sêca, e a Guiné da época das chuvas.


Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Ingoré > 1998 > A Zélia... e o burro.

© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné > Zona Letse > Sector L1 > Subsector de Mansambo > 1968 > Ponte do Rio Carantabá (entre Mansambo e Candamã) © Carlos Marques dos Santos (2006):


2. Mais uma contraposição: (i) A Zélia a tentar, em 1998, lá para os lados do Ingoré, no Cacheu, demover o burro para poderem passar uma ponte (?); (ii) a minha foto com um dos nossos burrinhos passando a ponte do Rio Carantabá.

Em trinta anos, de 1968 para 1998, muita água correu nos rios da Guiné, mas as pontes não mudaram muito... iguais em qualidade e segurança....

Um Abraço
CMS

Guiné 63/64 - DXCVIII: Os meninos do Geba: uma desabafo, melancólico (Albano Costa)

Guiné- Bissau > Saltinho > 2000 > Lavadeiras do Rio Corubal © Albano Costa (2006)


Texto do Albano Costa:

Meu caro amigo Luís Graça

Só neste momento me foi possível ver as fotos (1): as legendas estão perfeitas e o resto também... Realmente neste mundo em que estamos a viver, às vezes eu penso como aqueles meninos são tão felizes!... Eles não vão à escola, é verdade, o que é pena... Mas naquela situação eu pergunto: para quê?... E logo penso que pena eu tenho de estes meninos não terem uma escola...

É tudo muito complicado, até no nosso Portugal: tantos meninos que um dia se transformam em jovens adultos, a esforçarem-se tanto a fazer os seus cursos e um dia quando imaginavam que iriam realizar o seu sonho, vai tudo por água abaixo, que se vêem sem futuro para o seu curso... E aí eu penso, ao menos os meninos na Guiné neste sentido não têm este trauma de terem andado na escola e de quase nada servir-lhes isso..

Isto é só um desabafo, melancólico, porque a escola é muito importante, mas é também importante fazer uma «estrada» para os futuros homens de amanhã terem por onde caminhar...
(...) Eu vou arranjar mais umas fotos para te enviar e para fazeres delas o que vem entenderes na ilustração do teu «nosso» blogue, que está a tomar proporções enormes, e ainda bem.

Um abraço, Albano

_________

(1) Vd. pots de 27 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCII: Album fotográfico do Albano Costa (1): O Geba

Guiné 63/64 - DXCVIII: Os meninos do Geba: uma desabafo, melancólico (Albano Costa)

Guiné- Bissau > Saltinho > 2000 > Lavadeiras do Rio Corubal © Albano Costa (2006)


Texto do Albano Costa:

Meu caro amigo Luís Graça

Só neste momento me foi possível ver as fotos (1): as legendas estão perfeitas e o resto também... Realmente neste mundo em que estamos a viver, às vezes eu penso como aqueles meninos são tão felizes!... Eles não vão à escola, é verdade, o que é pena... Mas naquela situação eu pergunto: para quê?... E logo penso que pena eu tenho de estes meninos não terem uma escola...

É tudo muito complicado, até no nosso Portugal: tantos meninos que um dia se transformam em jovens adultos, a esforçarem-se tanto a fazer os seus cursos e um dia quando imaginavam que iriam realizar o seu sonho, vai tudo por água abaixo, que se vêem sem futuro para o seu curso... E aí eu penso, ao menos os meninos na Guiné neste sentido não têm este trauma de terem andado na escola e de quase nada servir-lhes isso..

Isto é só um desabafo, melancólico, porque a escola é muito importante, mas é também importante fazer uma «estrada» para os futuros homens de amanhã terem por onde caminhar...
(...) Eu vou arranjar mais umas fotos para te enviar e para fazeres delas o que vem entenderes na ilustração do teu «nosso» blogue, que está a tomar proporções enormes, e ainda bem.

Um abraço, Albano

_________

(1) Vd. pots de 27 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCII: Album fotográfico do Albano Costa (1): O Geba

Guiné 63/74 - DXCVII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (1)

Guiné > Estrada Bambadinca-Bafatá > 1969 > Coluna da CCAÇ 12, a caminho de Bafatá, vendo-se ao fundo uma AM (autometralhadora) Daimler, do Pel AM Daimler 2046, instalado em Bambadinca, e que era comandado nesse tempo pelo Alf Mil Cav J. Vacas de Carvalho, nosso tertuliano de Montemor-O-Novo. A estrada Bambadinca-Bafatá era uma das poucas, na Guiné, que estava alcatroada. Para nós, era uma verdadeira autoestrada, originando acidentes (e alguns graves) por excesso de velocidade. Entre Junho de 1969 e Março de 1971, não me recordo de qualquer actividade da guerrilha neste troço: mina, emboscada, flagelação à distância... Ainda no nosso tempo, deu-se início à construção da nova estrada (alcatroada) Xime-Bambadinca. Este troço entre o Xime e Bafatá era de grande importância estratégica para os transportes terrestres na Zona Leste (Bafatá e Gabu) (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).



Texto do Manuel Mata (ex-1º cabo apontador CCM 47, integrado no Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640, aquartelado em Bafatá nos anos 1969/71, organizador dos convívios anuais da referida unidade)(1).


HISTÓRIA DO ESQUADRÃO DE RECONHECIMETO FOX 2640, GUINÉ-BAFATÁ 1969/71 - Parte I

Caro Luis Graça:

Obrigado pela oportunidade que dás aos ex-combatentes. É de louvar, pois nos fazes reviver um pouco da nossa juventude e dos tempos passados por África.

O camarada A. Marques Lopes, ao referir-se, num dos textos que tem no Blogue-fora-nada, ao Esquadrão de Reconhecimento 2640, de Bafatá, convidou alguém do referido Esquadrão a participar, e uma vez que o amigo Luís Graça me autoriza a entrar na caserna dos tertulianos, aqui estou eu para dar o meu contributo e creiam que é com o maior prazer que o faço... Mas se me for permitido, fá-lo-ei desde a formação do Esqadrão à instalação em Bafatá, puxando dos meus apontamento e fotos e rebuscando o baú das minhas memórias, bem como fazendo apelo às memórias de outros camaradas.

Campo Militar de Santa Margarida > Regimento de Cavalaria 4 > 1969 > Carro de Combate M47. © Manuel Mata (2006)

No ano de 1969, mês de Agosto, com a apresentação no Regimento de Cavalaria 8, em Castelo Branco, foram mobilizados, para o T.O. da Guiné, os 142 militares que vieram a formar o Esq Rec Fox 2640, mais o Pelotão Rec Fox 2175, este independente e composto por 38 militares.

Terminado o período de organização do Q.O. da unidade, veio a I.A.O. [Instrução de Aperfeiçoamento Operacional] durante o mês de Setembro de 1969. Aí começou a guerra: o exército não tinha viaturas AM Fox, disponíveis para instrução na Metrópole, as poucas AM Daimler tinham feito Pum!!!, na última instrução de especialidade de 1969.

Ficámos então esclarecidos da razão que levou à nossa mobilização, os 16 apontadores de Carros de Combate M47, coisa que ainda não tinha acontecido até então, em todo o período de guerra. Como não podia haver especialidade de apontador AM Fox e AM Daimler, socorreram-se dos apontadores CCM47, do RC 4, de Santa Margarida, grupo de especialidade terminada em Maio de 1969.

Depois da mobilização para o CTIG, da falta de aperfeiçoamento dos condutores, dos apontadores, nas viaturas que o Esq Rec Fox 2350 a render na Guiné tinha, juntou-se-lhe a pescada amarela de mau sabor, com as batatas a saber mal, a água com pouco vinho, os castigos de mais uma semana no campo (24 horas por dia), a massa para o almoço que no campo chegava chocalhada nas viaturas e era... pasta!

Lá vinha uma revolta, no próximo dia de pescada amarela, lá se fazia à pressa um arroz com chouriço. Voltava-se à pescada, voltávamos a fazer levantamento de rancho e, como castigo, mais uma semana de campo. Resultado: camas da caserna, almofadas, etc., destruídas.

Numa dessas noites de maior tensão, aparece o Furriel Amadeu Fernandes que estava de Sargento Dia, a tentar acalmar a rapaziada... Choveu tanta almofada, botas e outros objectos que prometeu:
- Lá é que vamos ver quem brinca!.- Foi um amigão, este furriel!...

O Comandante do R. C. 8, já saturado com a nossa rebeldia por não aceitarmos ser assim tratados, duas vezes fez formar o Esq 2640 na parada, dando ali uma grande lavagem de orelhas, foi para todos simples música, tendo inclusive apelidado a rapaziada de Diabos!... Não satisfeito, interpelou-nos (e vou citar de cor):
- Se algum dos militares aqui presentes for homem para se bater comigo, que dê um passo em frente! - Claro, a bravata do comandante ficou por ali...

Pior que tudo isto da guerra que nos impunham, foi mesmo termos perdido um companheiro devido a um acidente, numa das saídas a Penamacor, para fazer fogo real. Por caricato que pareça, um burro aparece na estrada causando o acidente onde ficaram feridos dois praças sem gravidade e faleceu o Aspirante Mil Fernando M. Lopes. Quero deixar aqui bem sublinhado que este amigo está sempre presente no coração dos elementos do Esq Rec Fox 2640.


Lisboa > O N/M Uíge, que transportou o Esq Rec Fox 2649, mais o Pel Rec Fox 2175 até Bissau, em 15 de Novembro de 1969. Mas nem todos compareceram: um oficial desertou... © Manuel Mata (2006)


Finalmente, na manhã de dia 15 de Novembro de 1969, embarcámos em Lisboa no N/M Uíge... Foi o meu primeiro dia de forte dor, de desilusão, de grande desmotivação se é que alguma vez houve motivação...Faltou ao embarque o Alferes Mil Elpídio Codinha dos Santos. Este tinha vindo de véspera para Lisboa, para reconhecer o navio e fazer a marcação de quase todo o Esqadrão em camarotes. De facto, poucos de nós foram no porão, pelo que todos ficámos muito agradecidos e sensibilizados pela moralização de muitos contra uma guerra que não era nossa...

Algum tempo depois foi confirmado, para nossa alegria (e minha, em particular), que ele estava em França: tinha desertado (coragem que eu não tive, não por falta de o Santos não nos ter incentivado!)...

Em 21 de Novembro de 1969, regista-se o desembarque em Bissau dos 141 militares do Esq Rec Fox 2640, que seguem depois para a C.C.S., em Santa Luzia. Alguns dias a seguir, partimos para Bafatá, na nossa primeira viagem pela Guiné. Vimos pela primeira vez uma AM Fox em Bambadinca, que veio a fazer Pum!!! não muito tempo depois (2).


Guiné > Zona Leste > Baftá> 1970 > O autor junto à Fonte Pública, Bafatá, 1918.

© Manuel Mata (2006)


Chegada a Bafatá, após um curto período de adaptação e feita a rendição do Esq Rec Fox 2350, aí está a rapaziada pronta para actuar em qualquer ponto da zona leste, visto constituirmos reserva móvel do agrupamento leste.

Caro Luís Graça, um abraço extensivo a todos os tertulianos.E venham mais ex-combatentes.

Manuel Mata

Crato - Portalegre

____________

(1) vd. post de 26 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXC: Convívio anual do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71)

(2) Recordo-me perfeitamente desta peça de museu que lá ficou a um canto, em Bambadinca (LG)

Guiné 63/74 - DXCVII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (1)

Guiné > Estrada Bambadinca-Bafatá > 1969 > Coluna da CCAÇ 12, a caminho de Bafatá, vendo-se ao fundo uma AM (autometralhadora) Daimler, do Pel AM Daimler 2046, instalado em Bambadinca, e que era comandado nesse tempo pelo Alf Mil Cav J. Vacas de Carvalho, nosso tertuliano de Montemor-O-Novo. A estrada Bambadinca-Bafatá era uma das poucas, na Guiné, que estava alcatroada. Para nós, era uma verdadeira autoestrada, originando acidentes (e alguns graves) por excesso de velocidade. Entre Junho de 1969 e Março de 1971, não me recordo de qualquer actividade da guerrilha neste troço: mina, emboscada, flagelação à distância... Ainda no nosso tempo, deu-se início à construção da nova estrada (alcatroada) Xime-Bambadinca. Este troço entre o Xime e Bafatá era de grande importância estratégica para os transportes terrestres na Zona Leste (Bafatá e Gabu) (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).



Texto do Manuel Mata (ex-1º cabo apontador CCM 47, integrado no Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640, aquartelado em Bafatá nos anos 1969/71, organizador dos convívios anuais da referida unidade)(1).


HISTÓRIA DO ESQUADRÃO DE RECONHECIMETO FOX 2640, GUINÉ-BAFATÁ 1969/71 - Parte I

Caro Luis Graça:

Obrigado pela oportunidade que dás aos ex-combatentes. É de louvar, pois nos fazes reviver um pouco da nossa juventude e dos tempos passados por África.

O camarada A. Marques Lopes, ao referir-se, num dos textos que tem no Blogue-fora-nada, ao Esquadrão de Reconhecimento 2640, de Bafatá, convidou alguém do referido Esquadrão a participar, e uma vez que o amigo Luís Graça me autoriza a entrar na caserna dos tertulianos, aqui estou eu para dar o meu contributo e creiam que é com o maior prazer que o faço... Mas se me for permitido, fá-lo-ei desde a formação do Esqadrão à instalação em Bafatá, puxando dos meus apontamento e fotos e rebuscando o baú das minhas memórias, bem como fazendo apelo às memórias de outros camaradas.

Campo Militar de Santa Margarida > Regimento de Cavalaria 4 > 1969 > Carro de Combate M47. © Manuel Mata (2006)

No ano de 1969, mês de Agosto, com a apresentação no Regimento de Cavalaria 8, em Castelo Branco, foram mobilizados, para o T.O. da Guiné, os 142 militares que vieram a formar o Esq Rec Fox 2640, mais o Pelotão Rec Fox 2175, este independente e composto por 38 militares.

Terminado o período de organização do Q.O. da unidade, veio a I.A.O. [Instrução de Aperfeiçoamento Operacional] durante o mês de Setembro de 1969. Aí começou a guerra: o exército não tinha viaturas AM Fox, disponíveis para instrução na Metrópole, as poucas AM Daimler tinham feito Pum!!!, na última instrução de especialidade de 1969.

Ficámos então esclarecidos da razão que levou à nossa mobilização, os 16 apontadores de Carros de Combate M47, coisa que ainda não tinha acontecido até então, em todo o período de guerra. Como não podia haver especialidade de apontador AM Fox e AM Daimler, socorreram-se dos apontadores CCM47, do RC 4, de Santa Margarida, grupo de especialidade terminada em Maio de 1969.

Depois da mobilização para o CTIG, da falta de aperfeiçoamento dos condutores, dos apontadores, nas viaturas que o Esq Rec Fox 2350 a render na Guiné tinha, juntou-se-lhe a pescada amarela de mau sabor, com as batatas a saber mal, a água com pouco vinho, os castigos de mais uma semana no campo (24 horas por dia), a massa para o almoço que no campo chegava chocalhada nas viaturas e era... pasta!

Lá vinha uma revolta, no próximo dia de pescada amarela, lá se fazia à pressa um arroz com chouriço. Voltava-se à pescada, voltávamos a fazer levantamento de rancho e, como castigo, mais uma semana de campo. Resultado: camas da caserna, almofadas, etc., destruídas.

Numa dessas noites de maior tensão, aparece o Furriel Amadeu Fernandes que estava de Sargento Dia, a tentar acalmar a rapaziada... Choveu tanta almofada, botas e outros objectos que prometeu:
- Lá é que vamos ver quem brinca!.- Foi um amigão, este furriel!...

O Comandante do R. C. 8, já saturado com a nossa rebeldia por não aceitarmos ser assim tratados, duas vezes fez formar o Esq 2640 na parada, dando ali uma grande lavagem de orelhas, foi para todos simples música, tendo inclusive apelidado a rapaziada de Diabos!... Não satisfeito, interpelou-nos (e vou citar de cor):
- Se algum dos militares aqui presentes for homem para se bater comigo, que dê um passo em frente! - Claro, a bravata do comandante ficou por ali...

Pior que tudo isto da guerra que nos impunham, foi mesmo termos perdido um companheiro devido a um acidente, numa das saídas a Penamacor, para fazer fogo real. Por caricato que pareça, um burro aparece na estrada causando o acidente onde ficaram feridos dois praças sem gravidade e faleceu o Aspirante Mil Fernando M. Lopes. Quero deixar aqui bem sublinhado que este amigo está sempre presente no coração dos elementos do Esq Rec Fox 2640.


Lisboa > O N/M Uíge, que transportou o Esq Rec Fox 2649, mais o Pel Rec Fox 2175 até Bissau, em 15 de Novembro de 1969. Mas nem todos compareceram: um oficial desertou... © Manuel Mata (2006)


Finalmente, na manhã de dia 15 de Novembro de 1969, embarcámos em Lisboa no N/M Uíge... Foi o meu primeiro dia de forte dor, de desilusão, de grande desmotivação se é que alguma vez houve motivação...Faltou ao embarque o Alferes Mil Elpídio Codinha dos Santos. Este tinha vindo de véspera para Lisboa, para reconhecer o navio e fazer a marcação de quase todo o Esqadrão em camarotes. De facto, poucos de nós foram no porão, pelo que todos ficámos muito agradecidos e sensibilizados pela moralização de muitos contra uma guerra que não era nossa...

Algum tempo depois foi confirmado, para nossa alegria (e minha, em particular), que ele estava em França: tinha desertado (coragem que eu não tive, não por falta de o Santos não nos ter incentivado!)...

Em 21 de Novembro de 1969, regista-se o desembarque em Bissau dos 141 militares do Esq Rec Fox 2640, que seguem depois para a C.C.S., em Santa Luzia. Alguns dias a seguir, partimos para Bafatá, na nossa primeira viagem pela Guiné. Vimos pela primeira vez uma AM Fox em Bambadinca, que veio a fazer Pum!!! não muito tempo depois (2).


Guiné > Zona Leste > Baftá> 1970 > O autor junto à Fonte Pública, Bafatá, 1918.

© Manuel Mata (2006)


Chegada a Bafatá, após um curto período de adaptação e feita a rendição do Esq Rec Fox 2350, aí está a rapaziada pronta para actuar em qualquer ponto da zona leste, visto constituirmos reserva móvel do agrupamento leste.

Caro Luís Graça, um abraço extensivo a todos os tertulianos.E venham mais ex-combatentes.

Manuel Mata

Crato - Portalegre

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(1) vd. post de 26 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXC: Convívio anual do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71)

(2) Recordo-me perfeitamente desta peça de museu que lá ficou a um canto, em Bambadinca (LG)

01 março 2006

Guiné 63/74 - DXCVI: A viagem do Xico e da Zélia em 1998

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Ingoré > 1998 > Este foto já correu mundo... ou, pelo menos, já deu a volta à nossa caserna...De facto, foi enviada em primeira mão para a nossa tertúlia…A legenda é do Albano (Costa): “Esta foto vale pela imagem, e os brancos em África converteram-se? Não é que ficaram a ver a Zélia a puxar o burro, mulher de armas!"... O Albano fez questão me mandar esta e outras fotos da viagem do Xico e da Zélia, em 1998, com o seguine recado: "... para ilustrares o que entenderes, com a devida autorização da Zélia" (sic).

© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


1. Mensagem da Zélia Neno, nossa nova tertuliana, portuense, mulher do Xico Allen:

Luís:

Por falta de oportunidade ainda não agradeci a atenção com que fui recebida no blogue. Fiquei não só sensibilizada mas também contente pelos elogios e, como na verdade, sou uma "mulher do norte" (nascida e criada, assim como o Xico, nas casas que existem imediatamente a seguir à Ponte da Arrábida para quem vem de sul para norte, bem pertinho onde o nosso famoso rio Douro se encontra com o mar), vou tentar não ser um estorvo para a escrita de todos os tertulianos, porque além de ser crescidinha, também sei pelo Xico, das necessidades sexuais que todos os meninos/homens ditos normais, mandados para aquela guerra, tiveram de enfrentar, alguns já casados e com filhos, que ali tinham de se desenrascar conforme podiam nem que tivessem de partir catota na Rua da Palma nº 5 .

Por tal não se inibam, por favor, de falar dum tema que hoje mais do que nunca já não deve ser tabu para ninguém e todos os momentos e factos por ali vividos é que compõem a vossa própria História de Vida.

Obviamente que eu, Zélia, aquilo de que possa vir a escrever nada tem a ver com relatos daquela guerra, alguns minuciosamente aqui contados, mas porque ela existiu é que eu já lá fui várias vezes e logo que possível, pois é o meu sonho desde 1992 poder passar lá uns meses como voluntária em qualquer Missão no interior do país, e como por lá tenho vivido e compreendido tantas coisas, até então desconhecidas, só delas posso falar.

Há dias o nosso amigo Albano enviou algumas fotos minhas/nossas mas todas elas falam pois todas têm na minha lembrança algo a contar, o momento e situação em que foi tirada, o sentimento que naquela ocasião eu sentia e muito mais. Por exemplo, aquela dos burros foi um dia muito especial para aquele grupo que connosco foi ter, como anteriormente contei, porque aquele ia ser o dia D, pois saíramos de Bissau para ir a Jumbembem, onde eles haviam estado e dali seguiríamos para o Saltinho.

Algumas das peripécias desse dia já as contei, por email, ao "nosso fotógrafo de serviço" [o Albano Costa], e aqui e uma vez mais agradeço a sua disponibilidade em as enviar.

Quanto ao Xico, ele ainda nada escreveu para o blogue porque anda ocupadíssimo com os preparativos da próxima viagem [, em Abril de 2006], pois para além de o jeep, comprado propositadamente para este fim, requerer uma preparação especial e rigorosa (para não ficar pelo caminho), tem todos os bastidores que uma Expedição de Solidariedade requer, desde a angariação de materiais, especialmente escolar e médico, a alguns pequenos patrocínios, pois este tipo de viagem tem muitos gastos e não sendo isto um rally, o nome dessas empresas ao ir mencionado no veículo fica a ser conhecido do Porto a Bissau.

Talvez, senão antes, o Xico após esta nova jornada, muito mais vai ter que contar, assim como o tertuliano coronel Marques Lopes que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, já que factos importantes e previstos se irão passar por terras da Guiné.

Parabéns a todos e continuem. Luís, obrigada e até um qualquer dia.

2. Nova mensagem da Zélia:

Luís

Ao ver agora a imediata resposta que deste ao meu email e como dizes ir lançar as fotos no blogue, vou tentar documentá-las minimamente, pois quem as vir não sabe nem onde nem as circunstâncias de cada momento. A foto dos burros vai como Anexo, pois há dias mandei ao Albano e evito escrever a mesma coisa. Que me lembre, além dessa ele enviou outras [que passo a comentar a seguir].

(...) Aproveito para enviar um beijinho para tua esposa que sendo uma "mulher do norte" é minha conterrânea e tem que ser "especial", porque ter maridos como os nossos que não passam um dia sem falar de ou com alguém da Guiné, mesmo eu gostando tanto dela, às vezes torna-se complicado (...). Zélia



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Contuboel > 1998 > "Luís, esta é, julgo eu, da tua zona, Contuboel... Esta foto é tirada no centro da picada que vai para Bafatá... Esta picada é um autêntica autoestrada, dá para circular a 120 km, mas à vontade" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá> Bambadinca > 1998 >"Eu rodeada pelo capim quando observava uma queimada, na estrada entre Mansoa e Bambadinca" (Zélia). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu >S. Vicente > 1998 > Travessia do rio Cacheu (1) © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu >S. Vicente > 1998 > Travessia do rio Cacheu (2)© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1998 > A famosa Fonte de Empada... " O calor era tanto que o melhor naquele momento foi despejar várias bacias de água pela cabeça abaixo somente para refrescar e tirar a maioria do pó apanhado ao atravessar as muitas picadas para ali chegar. Fomos ali pois era àquela fonte que o Xico ia fazer o carregamento de água e assim nos deparamos com as mulheres a lavar a roupa após o que tomavam banho. Na foto eu estava nas escada a filmar enquanto meu marido tirava fotos" (Zélia)... "A Zélia é mesmo assim e lá foi tomar o seu banho" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006).


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada, Canchuma> 1998 > "Fazendo a cama...Foi em Canchuma, onde como hóspedes especiais, dormimos na única cama de madeira existente por aquelas bandas. A cama nem era má, os lençóis eram meus pois mulher prevenida vale por duas, e se não fosse a brincadeira dos cabritinhos a correr toda a noite ao redor da casa que era construída sobre uma plataforma ou coisa do género, até teria sido uma noite repousante devido ao cansaço" (Zélia)... "No hotel de Empada o seu director (chefe de tabanca) ofereceu-lhes a sua suíte, só na Guiné" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006).


Região de Quínara > Empara, Canchuma> 1998 > "Eu em camisa de dormir, quando acordei após a dita noite, saindo da Casa de Banho, que era algo de inédito até então. No interior daquele cercado, montado com algumas placas de chapa, pedaços de madeira, ramos de palmeira e a porta era um pano que movíamos para entrar e sair, o chão era em cimento com um leve declive para a água correr para a terra ao tomar banho a qual nos ia sendo entregue pelas gentis mulheres daquela família, que a retiravam de um poço e a iam passando dentro das meias cabaceiras, utensílio com várias utilidades por terras de África. No centro daquele espaço, no chão, existia uma abertura circular com cerca de 20 centímetros, tapado com um pedaço de lousa amovível e cuja função era a de sanita. Giro, não? Isto é África, não é especial da Guiné pelo que sei, assim como sei que nem toda a gente acharia graça a meter-se nestas andanças, mas estas experiências fascinam-me e fazem-me sentir muito feliz e só convivendo com culturas, hábitos e costumes de gentes tão iguais e tão diferentes, é que vamos evoluindo um pouco na nossa curta existência - é isto que penso" (Zélia) ... "A Zélia admirando o espaço à sua volta" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1998 > "Eu e Xico numa tabanca entre Empada e Binhar, rodeados pelo velho Mamadú e família, homem este por quem o Xico sentia muita admiração e respeito, graças ao qual ele não passou muitas vezes fome pois ele sempre o safava , como dizemos, pela porta do cavalo. A nossa primeira visita ao Mamadú foi em 1994, o que quase o endoideceu de alegria quando viu o Xico pois reconheceu-o de imediato e a mim era como se sempre me conhecera. Foi tamanha a sua euforia, e sabendo nós que na Guiné a riqueza dos homens vê-se pelas cabeças de gado que possuem e que somente matam para consumo próprio em ocasiões muito especiais, que ele queria insistentemente que nós trouxéssemos um cabrito para comer no hotel em Bissau, o que era impossível. Voltamos lá em 1998 e esta foto foi a última que tirámos com aquele homem grande, pois faleceu algum tempo depois. Os seus gritos e risadas de alegria ainda hoje se mantêm gravados na minha memória auditiva" (Zélia)... "A alegria estampada no rosto de toda a gente, assim como no Xico e Zélia" (Albano Costa).
© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné 63/74 - DXCVI: A viagem do Xico e da Zélia em 1998

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Ingoré > 1998 > Este foto já correu mundo... ou, pelo menos, já deu a volta à nossa caserna...De facto, foi enviada em primeira mão para a nossa tertúlia…A legenda é do Albano (Costa): “Esta foto vale pela imagem, e os brancos em África converteram-se? Não é que ficaram a ver a Zélia a puxar o burro, mulher de armas!"... O Albano fez questão me mandar esta e outras fotos da viagem do Xico e da Zélia, em 1998, com o seguine recado: "... para ilustrares o que entenderes, com a devida autorização da Zélia" (sic).

© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


1. Mensagem da Zélia Neno, nossa nova tertuliana, portuense, mulher do Xico Allen:

Luís:

Por falta de oportunidade ainda não agradeci a atenção com que fui recebida no blogue. Fiquei não só sensibilizada mas também contente pelos elogios e, como na verdade, sou uma "mulher do norte" (nascida e criada, assim como o Xico, nas casas que existem imediatamente a seguir à Ponte da Arrábida para quem vem de sul para norte, bem pertinho onde o nosso famoso rio Douro se encontra com o mar), vou tentar não ser um estorvo para a escrita de todos os tertulianos, porque além de ser crescidinha, também sei pelo Xico, das necessidades sexuais que todos os meninos/homens ditos normais, mandados para aquela guerra, tiveram de enfrentar, alguns já casados e com filhos, que ali tinham de se desenrascar conforme podiam nem que tivessem de partir catota na Rua da Palma nº 5 .

Por tal não se inibam, por favor, de falar dum tema que hoje mais do que nunca já não deve ser tabu para ninguém e todos os momentos e factos por ali vividos é que compõem a vossa própria História de Vida.

Obviamente que eu, Zélia, aquilo de que possa vir a escrever nada tem a ver com relatos daquela guerra, alguns minuciosamente aqui contados, mas porque ela existiu é que eu já lá fui várias vezes e logo que possível, pois é o meu sonho desde 1992 poder passar lá uns meses como voluntária em qualquer Missão no interior do país, e como por lá tenho vivido e compreendido tantas coisas, até então desconhecidas, só delas posso falar.

Há dias o nosso amigo Albano enviou algumas fotos minhas/nossas mas todas elas falam pois todas têm na minha lembrança algo a contar, o momento e situação em que foi tirada, o sentimento que naquela ocasião eu sentia e muito mais. Por exemplo, aquela dos burros foi um dia muito especial para aquele grupo que connosco foi ter, como anteriormente contei, porque aquele ia ser o dia D, pois saíramos de Bissau para ir a Jumbembem, onde eles haviam estado e dali seguiríamos para o Saltinho.

Algumas das peripécias desse dia já as contei, por email, ao "nosso fotógrafo de serviço" [o Albano Costa], e aqui e uma vez mais agradeço a sua disponibilidade em as enviar.

Quanto ao Xico, ele ainda nada escreveu para o blogue porque anda ocupadíssimo com os preparativos da próxima viagem [, em Abril de 2006], pois para além de o jeep, comprado propositadamente para este fim, requerer uma preparação especial e rigorosa (para não ficar pelo caminho), tem todos os bastidores que uma Expedição de Solidariedade requer, desde a angariação de materiais, especialmente escolar e médico, a alguns pequenos patrocínios, pois este tipo de viagem tem muitos gastos e não sendo isto um rally, o nome dessas empresas ao ir mencionado no veículo fica a ser conhecido do Porto a Bissau.

Talvez, senão antes, o Xico após esta nova jornada, muito mais vai ter que contar, assim como o tertuliano coronel Marques Lopes que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, já que factos importantes e previstos se irão passar por terras da Guiné.

Parabéns a todos e continuem. Luís, obrigada e até um qualquer dia.

2. Nova mensagem da Zélia:

Luís

Ao ver agora a imediata resposta que deste ao meu email e como dizes ir lançar as fotos no blogue, vou tentar documentá-las minimamente, pois quem as vir não sabe nem onde nem as circunstâncias de cada momento. A foto dos burros vai como Anexo, pois há dias mandei ao Albano e evito escrever a mesma coisa. Que me lembre, além dessa ele enviou outras [que passo a comentar a seguir].

(...) Aproveito para enviar um beijinho para tua esposa que sendo uma "mulher do norte" é minha conterrânea e tem que ser "especial", porque ter maridos como os nossos que não passam um dia sem falar de ou com alguém da Guiné, mesmo eu gostando tanto dela, às vezes torna-se complicado (...). Zélia



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Contuboel > 1998 > "Luís, esta é, julgo eu, da tua zona, Contuboel... Esta foto é tirada no centro da picada que vai para Bafatá... Esta picada é um autêntica autoestrada, dá para circular a 120 km, mas à vontade" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá> Bambadinca > 1998 >"Eu rodeada pelo capim quando observava uma queimada, na estrada entre Mansoa e Bambadinca" (Zélia). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu >S. Vicente > 1998 > Travessia do rio Cacheu (1) © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu >S. Vicente > 1998 > Travessia do rio Cacheu (2)© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1998 > A famosa Fonte de Empada... " O calor era tanto que o melhor naquele momento foi despejar várias bacias de água pela cabeça abaixo somente para refrescar e tirar a maioria do pó apanhado ao atravessar as muitas picadas para ali chegar. Fomos ali pois era àquela fonte que o Xico ia fazer o carregamento de água e assim nos deparamos com as mulheres a lavar a roupa após o que tomavam banho. Na foto eu estava nas escada a filmar enquanto meu marido tirava fotos" (Zélia)... "A Zélia é mesmo assim e lá foi tomar o seu banho" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006).


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada, Canchuma> 1998 > "Fazendo a cama...Foi em Canchuma, onde como hóspedes especiais, dormimos na única cama de madeira existente por aquelas bandas. A cama nem era má, os lençóis eram meus pois mulher prevenida vale por duas, e se não fosse a brincadeira dos cabritinhos a correr toda a noite ao redor da casa que era construída sobre uma plataforma ou coisa do género, até teria sido uma noite repousante devido ao cansaço" (Zélia)... "No hotel de Empada o seu director (chefe de tabanca) ofereceu-lhes a sua suíte, só na Guiné" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006).


Região de Quínara > Empara, Canchuma> 1998 > "Eu em camisa de dormir, quando acordei após a dita noite, saindo da Casa de Banho, que era algo de inédito até então. No interior daquele cercado, montado com algumas placas de chapa, pedaços de madeira, ramos de palmeira e a porta era um pano que movíamos para entrar e sair, o chão era em cimento com um leve declive para a água correr para a terra ao tomar banho a qual nos ia sendo entregue pelas gentis mulheres daquela família, que a retiravam de um poço e a iam passando dentro das meias cabaceiras, utensílio com várias utilidades por terras de África. No centro daquele espaço, no chão, existia uma abertura circular com cerca de 20 centímetros, tapado com um pedaço de lousa amovível e cuja função era a de sanita. Giro, não? Isto é África, não é especial da Guiné pelo que sei, assim como sei que nem toda a gente acharia graça a meter-se nestas andanças, mas estas experiências fascinam-me e fazem-me sentir muito feliz e só convivendo com culturas, hábitos e costumes de gentes tão iguais e tão diferentes, é que vamos evoluindo um pouco na nossa curta existência - é isto que penso" (Zélia) ... "A Zélia admirando o espaço à sua volta" (Albano Costa). © Francisco Allen & Zélia Neno (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1998 > "Eu e Xico numa tabanca entre Empada e Binhar, rodeados pelo velho Mamadú e família, homem este por quem o Xico sentia muita admiração e respeito, graças ao qual ele não passou muitas vezes fome pois ele sempre o safava , como dizemos, pela porta do cavalo. A nossa primeira visita ao Mamadú foi em 1994, o que quase o endoideceu de alegria quando viu o Xico pois reconheceu-o de imediato e a mim era como se sempre me conhecera. Foi tamanha a sua euforia, e sabendo nós que na Guiné a riqueza dos homens vê-se pelas cabeças de gado que possuem e que somente matam para consumo próprio em ocasiões muito especiais, que ele queria insistentemente que nós trouxéssemos um cabrito para comer no hotel em Bissau, o que era impossível. Voltamos lá em 1998 e esta foto foi a última que tirámos com aquele homem grande, pois faleceu algum tempo depois. Os seus gritos e risadas de alegria ainda hoje se mantêm gravados na minha memória auditiva" (Zélia)... "A alegria estampada no rosto de toda a gente, assim como no Xico e Zélia" (Albano Costa).
© Francisco Allen & Zélia Neno (2006)

Guiné 63/74 - DXCV: A história do Cancioneiro de Canjadude (José Martins)

Guiné > Canjadude > O gato preto José Martins (em 1968 ou 1969)

© José Martins (2006)


Texto do José Martins (ex-furriel miliciano de transmissões da CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70), com a seguinte nota: " Aqui vai mais um modesto contributo acerca do Cancioneiro de Canjadude. Em breve espero pôr NO AR a versão áudio. Um abraço".


No blogue, com a data de 28 de Fevereiro de 2006, encontram-se composições que foram elaboradas a partir de músicas em voga nos finais da década de sessenta do pretérito século XX, e que tiveram como nome genérico o título acima.

Das seis apresentadas, não sei se existem mais e que ainda estão para ser divulgadas, todas elas têm uma estória subjacente, a saber:

HINO DOS GATOS PRETOS

A CCAÇ 5, com sede, comando e um grupo de combate em NOVA LAMEGO, tinha à sua responsabilidade os destacamentos de CANJADUDE, CHECHE e CABUCA

Em Agosto de 1968 o comando foi transferido para Canjadude, tendo sido reforçado pela CART 2338.

Em 6 de Fevereiro de 1969 com a retirada das tropas de Madina do Boé, o seu grupo de combate instalado no Cheche, veio para Canjadude, onde se lhe reuniu o grupo de combate estacionado em Cabuca e rendido por uma companhia metropolitana.

A CART 2338 retirou-se para Nova Lamego em Março de 1969.

Ficaram, assim, os Gatos Pretos com o destacamento mais avançado desde “o Gabú (Nova Lamego) ao Boé…”.

Esta foi a base que serviu de mote ao HINO, acrescentando que na versão original o refrão começa DESDE QUE ESTAMOS TODOS JUNTOS …

BINÓCULOS DE GUERRA

Canção muito em voga na metrópole a que bastou um pouco de imaginação para se transformar e que a rádio da Guiné também passava com frequência

Esta é contemporânea do HINO.

Guiné > Gabu (Nova Lamego) > Canjadude > 1973 > CCAÇ 5 (Gatos Pretos) >

Interior do Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude (o furriel miliciano Carvalho é o 2º a contar da direita... No mural, na pintura na parede, pode ler-se: [gato] preto agarra à mão grrr.... Percebe-se que estamos no Rio Corubal com o campo fortificado de Cheche do lado de cá (margem direita) e... a mítica Madina do Boé, do lado de lá (margem esquerda)... Em 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, o PAIGC proclama a independência da nova República da Guiné-Bissau.

© João Carvalho (2005)


HINO DA VELHICE

Nasceu duma frase muito usada pelo Furriel Miliciano Carvalho, que sistematicamente gritava

EU NÃO ESTOU MALUCO!
TIREM-ME DAQUI1

Da frase ao HINO DA VELHICE, foi apenas escrever a letra adaptada ao Puppet on the string.

BALADA DE CANJADUDE

Nasceu depois de realizada a Operação LUTA realizada em 16 e 17 de Maio de 1969. Esta operação, em que participei, tinha por missão detectar e neutralizar as forças IN que se encontravam a norte do Rio Corubal, onde seria largada uma vaga de paraquedistas heli-transportados.

A guarnição do destacamento ficou a cargo de uma companhia de periquitos, dado que a CCAÇ 5 se devia apresentar com a máxima força.

Trocadas as voltas, o quartel foi atacado, os piras baptizados, e o resultado estava à vista quando regressamos.

O tuga sabe transformar e dar a volta por cima e ainda não esqueceu que, muito atrás no tempo, as notícias também corriam mundo em forma de canção e/ou poema.

FADO DA EMBOSCADA

Este fado, com música do Embouçado, faz referência à Operação LACOSTE, que foi uma patrulha de combate ocorrida em 27 e 28 de Junho de 1969, que tendo partido de Canjadude passou por Sare Andebe, Ponto Cota 70, BURMELEU, Samba Gano e regresso a Canjadude.

Houve contacto com o IN no final do dia 27, quando a patrulha se preparava montar a emboscada, foi detectado, na zona de Burmeleu, um grupo que nos atacou e ao qual foi iniciada a perseguição. No terreno ficaram armas e munições. Após o recontro retiramos para o Ponto Cota 70, que nos garantia protecção nocturna.

Durante a noite assistimos à passagem de guerrilheiros, que no dia seguinte, ao voltar a passar pela zona de BURMELEU, tínhamos “festa rija” á nossa espera.

GATO PIRA

Esta canção não fazia parte das minhas lembranças, até que a vi publicada no numero 7 do jornal GATO PRETO, editado em Abril de 1972, e que faz parte de uma colecção de 16 (?) números, que se encontram depositados na biblioteca do Estado Maior do Exército.

OUTROS SÍMBOLOS

A CCAÇ 5 tinha outros símbolos criados em 1968/69, [no meu tempo]:

- O Guião, que inicialmente não tinha a inscrição GATOS PRETOS;

- O ex-libris que, igual ao guião, era usado sobre o bolso esquerdo da camisa ou
dólmen;

- Guiões triangulares, de cores várias, para cada um grupo de combate e para o comando e serviços;

- O lenço preto, tipo cachecol, usado por debaixo do colarinho da camisa

- Cinzeiro, quase plano, de cor vermelha com um gato preto

Guiné 63/74 - DXCV: A história do Cancioneiro de Canjadude (José Martins)

Guiné > Canjadude > O gato preto José Martins (em 1968 ou 1969)

© José Martins (2006)


Texto do José Martins (ex-furriel miliciano de transmissões da CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70), com a seguinte nota: " Aqui vai mais um modesto contributo acerca do Cancioneiro de Canjadude. Em breve espero pôr NO AR a versão áudio. Um abraço".


No blogue, com a data de 28 de Fevereiro de 2006, encontram-se composições que foram elaboradas a partir de músicas em voga nos finais da década de sessenta do pretérito século XX, e que tiveram como nome genérico o título acima.

Das seis apresentadas, não sei se existem mais e que ainda estão para ser divulgadas, todas elas têm uma estória subjacente, a saber:

HINO DOS GATOS PRETOS

A CCAÇ 5, com sede, comando e um grupo de combate em NOVA LAMEGO, tinha à sua responsabilidade os destacamentos de CANJADUDE, CHECHE e CABUCA

Em Agosto de 1968 o comando foi transferido para Canjadude, tendo sido reforçado pela CART 2338.

Em 6 de Fevereiro de 1969 com a retirada das tropas de Madina do Boé, o seu grupo de combate instalado no Cheche, veio para Canjadude, onde se lhe reuniu o grupo de combate estacionado em Cabuca e rendido por uma companhia metropolitana.

A CART 2338 retirou-se para Nova Lamego em Março de 1969.

Ficaram, assim, os Gatos Pretos com o destacamento mais avançado desde “o Gabú (Nova Lamego) ao Boé…”.

Esta foi a base que serviu de mote ao HINO, acrescentando que na versão original o refrão começa DESDE QUE ESTAMOS TODOS JUNTOS …

BINÓCULOS DE GUERRA

Canção muito em voga na metrópole a que bastou um pouco de imaginação para se transformar e que a rádio da Guiné também passava com frequência

Esta é contemporânea do HINO.

Guiné > Gabu (Nova Lamego) > Canjadude > 1973 > CCAÇ 5 (Gatos Pretos) >

Interior do Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude (o furriel miliciano Carvalho é o 2º a contar da direita... No mural, na pintura na parede, pode ler-se: [gato] preto agarra à mão grrr.... Percebe-se que estamos no Rio Corubal com o campo fortificado de Cheche do lado de cá (margem direita) e... a mítica Madina do Boé, do lado de lá (margem esquerda)... Em 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, o PAIGC proclama a independência da nova República da Guiné-Bissau.

© João Carvalho (2005)


HINO DA VELHICE

Nasceu duma frase muito usada pelo Furriel Miliciano Carvalho, que sistematicamente gritava

EU NÃO ESTOU MALUCO!
TIREM-ME DAQUI1

Da frase ao HINO DA VELHICE, foi apenas escrever a letra adaptada ao Puppet on the string.

BALADA DE CANJADUDE

Nasceu depois de realizada a Operação LUTA realizada em 16 e 17 de Maio de 1969. Esta operação, em que participei, tinha por missão detectar e neutralizar as forças IN que se encontravam a norte do Rio Corubal, onde seria largada uma vaga de paraquedistas heli-transportados.

A guarnição do destacamento ficou a cargo de uma companhia de periquitos, dado que a CCAÇ 5 se devia apresentar com a máxima força.

Trocadas as voltas, o quartel foi atacado, os piras baptizados, e o resultado estava à vista quando regressamos.

O tuga sabe transformar e dar a volta por cima e ainda não esqueceu que, muito atrás no tempo, as notícias também corriam mundo em forma de canção e/ou poema.

FADO DA EMBOSCADA

Este fado, com música do Embouçado, faz referência à Operação LACOSTE, que foi uma patrulha de combate ocorrida em 27 e 28 de Junho de 1969, que tendo partido de Canjadude passou por Sare Andebe, Ponto Cota 70, BURMELEU, Samba Gano e regresso a Canjadude.

Houve contacto com o IN no final do dia 27, quando a patrulha se preparava montar a emboscada, foi detectado, na zona de Burmeleu, um grupo que nos atacou e ao qual foi iniciada a perseguição. No terreno ficaram armas e munições. Após o recontro retiramos para o Ponto Cota 70, que nos garantia protecção nocturna.

Durante a noite assistimos à passagem de guerrilheiros, que no dia seguinte, ao voltar a passar pela zona de BURMELEU, tínhamos “festa rija” á nossa espera.

GATO PIRA

Esta canção não fazia parte das minhas lembranças, até que a vi publicada no numero 7 do jornal GATO PRETO, editado em Abril de 1972, e que faz parte de uma colecção de 16 (?) números, que se encontram depositados na biblioteca do Estado Maior do Exército.

OUTROS SÍMBOLOS

A CCAÇ 5 tinha outros símbolos criados em 1968/69, [no meu tempo]:

- O Guião, que inicialmente não tinha a inscrição GATOS PRETOS;

- O ex-libris que, igual ao guião, era usado sobre o bolso esquerdo da camisa ou
dólmen;

- Guiões triangulares, de cores várias, para cada um grupo de combate e para o comando e serviços;

- O lenço preto, tipo cachecol, usado por debaixo do colarinho da camisa

- Cinzeiro, quase plano, de cor vermelha com um gato preto