20 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DLXVII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (15): um dia negro para a 15ª Companhia de Comandos (Setembro de 1969)

Guiné > Aldeia Formosa > 1969 > Viatura destruída por mina anticarro. Resultado: dois mortos.

© José Teixeira (2006)



XV Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


Buba, 1 de Setembro de 1969

Empada continua a ser a preferida do IN para brincar às guerrinhas. Ontem, pelas 4.30 h da madrugada, sofreu novo ataque. Foi chamada a aviação que não chegou a intervir.


Empada, 9 de Setembro de 1969

Desde ontem que estou por estas bandas, após dois meses em Buba sem novidade de maior.

O ataque do dia 31 não foi tão perigoso como constou em Buba. Atacaram de Morteiro 60, LGFog e bazooka sem causarem prejuízo. Não caiu nenhuma dentro do quartel.

Na estrada de Fulacunda, mais 8 Comandos e 3 soldados ficaram sem vida. Houve ainda sete feridos graves, entre os quais o meu amigo Zé João, enfermeiro comando. Uma mina anti-carro de grande potência atirou com a viatura cheia de militares, que estiveram comigo em Buba (15ª Companhia de Comandos) contra um tronco de árvore que se debruçava sobre a estrada, matando uma série deles instantaneamente. No buraco feito pela bomba pode-se esconder uma viatura, tal era a sua potência...

A Companhia de Comandos tinha vinda a fazer uma série de operações no Sector e dirigia-se para o Cais no Rio Grande, perto de S.João, para se retirar para Bissau.

Tem tido muito azar esta Companhia de Comandos. O Zé João sempre que sai com a Companhia fazem ronco, mas no regresso tem tido sempre problemas graves. Ainda há pouco tempo, quando estavam em Buba comigo, sairam para uma operação em Saredivane, fizeram um ronco de 15 mortos, apanharam 21 armas, apenas com dois feridos ligeiros, mas no regresso cairam num campo de minas e uma bailarina matou um Furriel e um soldado ficou sem uma perna...

Nesse dia o Zé João foi buscar o morto e ferido ao campo de minas tendo recebido o prémio Governador, que não chegou a gozar devido a este brutal acidente que o afastou da guerra definitivamente.

Guiné 63/74 - DLXVII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (15): um dia negro para a 15ª Companhia de Comandos (Setembro de 1969)

Guiné > Aldeia Formosa > 1969 > Viatura destruída por mina anticarro. Resultado: dois mortos.

© José Teixeira (2006)



XV Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


Buba, 1 de Setembro de 1969

Empada continua a ser a preferida do IN para brincar às guerrinhas. Ontem, pelas 4.30 h da madrugada, sofreu novo ataque. Foi chamada a aviação que não chegou a intervir.


Empada, 9 de Setembro de 1969

Desde ontem que estou por estas bandas, após dois meses em Buba sem novidade de maior.

O ataque do dia 31 não foi tão perigoso como constou em Buba. Atacaram de Morteiro 60, LGFog e bazooka sem causarem prejuízo. Não caiu nenhuma dentro do quartel.

Na estrada de Fulacunda, mais 8 Comandos e 3 soldados ficaram sem vida. Houve ainda sete feridos graves, entre os quais o meu amigo Zé João, enfermeiro comando. Uma mina anti-carro de grande potência atirou com a viatura cheia de militares, que estiveram comigo em Buba (15ª Companhia de Comandos) contra um tronco de árvore que se debruçava sobre a estrada, matando uma série deles instantaneamente. No buraco feito pela bomba pode-se esconder uma viatura, tal era a sua potência...

A Companhia de Comandos tinha vinda a fazer uma série de operações no Sector e dirigia-se para o Cais no Rio Grande, perto de S.João, para se retirar para Bissau.

Tem tido muito azar esta Companhia de Comandos. O Zé João sempre que sai com a Companhia fazem ronco, mas no regresso tem tido sempre problemas graves. Ainda há pouco tempo, quando estavam em Buba comigo, sairam para uma operação em Saredivane, fizeram um ronco de 15 mortos, apanharam 21 armas, apenas com dois feridos ligeiros, mas no regresso cairam num campo de minas e uma bailarina matou um Furriel e um soldado ficou sem uma perna...

Nesse dia o Zé João foi buscar o morto e ferido ao campo de minas tendo recebido o prémio Governador, que não chegou a gozar devido a este brutal acidente que o afastou da guerra definitivamente.

19 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - LDXVI: Memórias do antigamente (Mário Dias) (2): Uma serenata ao Governador

Guiné > Bissau > Praça do Império > Monumento ao “Ao Esforço da Raça” > O Mário Dias sentado do "local do crime", o local da improvisada serenata a Sua Excelência...

© Mário Dias (2006)

Continuação das memórias do Mário Dias relativamente à sua experiência na Guiné, como civil, na década de 1950. O Mário foi depois sargento comando durante a guerra (Brá, 1963/66) (1)

A Serenata

Nos idos dos anos 50, Bissau, cidade pacata e ordeira, onde muito se trabalhava e muito nos divertíamos, era palco de cenas impensáveis de acontecerem noutro qualquer lugar. O progresso demorava a chegar. Não havia uma só rua alcatroada, uma só gota de alcatrão que fosse. A ponte-cais, que serviria para atracação dos barcos, estava ainda em construção. Os navios que quinzenalmente chegavam (nesse dia era dia de S. Vapor, como dizíamos) fundeavam ao largo, frente ao ilhéu do Rei e os passageiros e carga eram transportados para o Pijiguiti em pequenas embarcações a motor e até a remos. E o cais do Pijiguiti dessa época ainda não tinha ainda a actual cabeça que forma o “T”. Era um simples paredão. Electricidade? Luxo só possível das seis da tarde à meia-noite.

Apesar disso, sentíamo-nos lá como no paraíso. Diariamente nos juntávamos para os nossos passeios pela cidade e arredores, de bicicleta ou a pé, bebíamos umas cervejas nas esplanadas, especialmente na pastelaria Império, na praça do mesmo nome (o proprietário era o senhor Estácio, tio do nosso amigo António Estácio que já interveio no blogue) no Hotel Portugal, mais conhecido por hotel do Espada (nome do proprietário) ou ainda na esplanada existente ao fundo da avenida principal na placa central que então existia. A configuração desta avenida era bem diferente daquela que os nossos amigos desta tertúlia conheceram mais tarde. A seu tempo falarei sobre isso.

Um dos nossos pontos de encontro favoritos era na marginal, junto às ruínas de uma ponte de atracação de barcos da qual só existiam alguns pilares no meio do rio, já meio enterrados no lodo, e o encontro de onde a ponte partia. Disseram-me ter sido um navio alemão que se pôs em movimento desatracando sem que os cabos estivessem completamente soltos, que levou pedaços dessa ponte atrás de si arruinando-a. Foi antes de eu ter chegado à Guiné que assim se viu privada de uma infraestrutura indispensável. O local a que me estou a referir é onde hoje fica um pequeno largo em formato de meia-laranja existente na marginal de Bissau. Se consultarem o mapa disponível no blogue facilmente o encontrarão.
Guiné-Bissau > Bissau, capital do país. Planta da cidade, pós-independência. (Vd. mapa ampliado na página sobre sobre Bafatá e BissauA. Marques Lopes (2005)



Uma noite de sábado, depois do jantar, reunimo-nos nesse local como era nosso hábito, e, por não se trabalhar no dia seguinte, prolongámos um pouco mais a paródia. Anedotas, aventuras que cada um ia narrando, até que às tantas, alguns (entre os quais eu) puxaram das gaitas-de-beiços e vá de tocar com todas as nossas ganas. A noite estava convidativa, o calor não era muito e o luar ajudava. As pessoas que passavam iam parando para nos ouvir e aplaudir. Alguém sugeriu que podíamos ir pela avenida acima até à praça do Império. De acordo. Lá fomos nós sempre a tocar, a cantar e a rir. O mundo era nosso.

Chegados à praça do Império, já a meia-noite estava próxima, instalámo-nos naquele arremedo de degraus existentes no monumento “Ao Esforço da Raça” que ainda lá se encontra embora com outra designação e dedicatória.

Faço um pequeno parêntese para contar um dito jocoso que então corria sobre esse monumento, dito esse da autoria de um tio meu que uns anos antes da minha ida tinha sido escrivão no tribunal de Bissau. No monumento em causa encontra-se um busto de mulher, e que farto busto, empunhando nos braços erguidos uma coroa de louros. Qual o significado? Aquilo queria dizer que a Guiné deu e continuava a dar de mamar a muita gente. Voltemos à nossa história.

Encarrapitados no monumento, virados para o palácio do governador que ainda estava em construção, embora quase pronto, (Já agora: o palácio inicialmente não era assim pois tinha terraço em vez de telhado mas, não sei qual o motivo, um engenheiro acabou por alterar a planta) prosseguimos a serenata.

O governador (Raimundo Serrão)(2) residia numa grande vivenda existente ao lado direito não muito longe, portanto, do nosso improvisado palco. Toca, canta, canta e toca, viva a alegria, vimos que de nós se aproximava um polícia, um segurança, como eram mais conhecidos. Chegado disse mais ou menos isto:
- O senhor governador manda dizer para não fazerem tanto barulho porque já é tarde e quer dormir.- Perdemos o pio e pedimos desculpas. Mas, como ainda era cedo, meia-noite de sábado para malta nova é dia, por lá ficámos embora sossegados. Foi então que alguém se lembrou, era quase uma hora:
-Eh pá, o governador já deve estar a dormir; vamos lá tocar e cantar mais um pouco. -Dito e feito, embora com menos decibéis que anteriormente. Estávamos nisto quando vimos um vulto, de roupão, saindo do quintal da vivenda com toda a calma vir em nossa direcção. A serenata continuou até que reparamos no vulto que já estava próximo. Era o governador. Ficámos gelados, paralisados. Vai-nos mandar prender, pensava eu. Qual quê?
- Boa noite, rapazes! - cumprimentou. Levantámo-nos, aterrorizados e respeitosos e retorquimos:
- Boa noite, senhor governador.
- Como não me deixam dormir, venho para aqui, sempre ouço melhor. Vá lá continuem a tocar.

E tocámos com todo o esmero de que éramos capazes. Uma música, outra e mais outra todos ufanos pois de cada vez o governador aplaudia. Até que após a execução do quarto número, que, ainda me lembro, foi a valsa do imperador, ele nos disse:
- Bom, rapazes, gostei muito de vos ouvir, mas já é tarde. Vão-se deitar porque a cacimba faz mal.

E foi assim que fizemos uma serenata ao Governador da Guiné.

_________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXII: Memórias do antigamente (Mário Dias) (1): Um cabaço de leite


(2) Raimundo António Rodrigues Serrão foi Governador da Guiné entre 1951 e 1953

Guiné 63/74 - LDXVI: Memórias do antigamente (Mário Dias) (2): Uma serenata ao Governador

Guiné > Bissau > Praça do Império > Monumento ao “Ao Esforço da Raça” > O Mário Dias sentado do "local do crime", o local da improvisada serenata a Sua Excelência...

© Mário Dias (2006)

Continuação das memórias do Mário Dias relativamente à sua experiência na Guiné, como civil, na década de 1950. O Mário foi depois sargento comando durante a guerra (Brá, 1963/66) (1)

A Serenata

Nos idos dos anos 50, Bissau, cidade pacata e ordeira, onde muito se trabalhava e muito nos divertíamos, era palco de cenas impensáveis de acontecerem noutro qualquer lugar. O progresso demorava a chegar. Não havia uma só rua alcatroada, uma só gota de alcatrão que fosse. A ponte-cais, que serviria para atracação dos barcos, estava ainda em construção. Os navios que quinzenalmente chegavam (nesse dia era dia de S. Vapor, como dizíamos) fundeavam ao largo, frente ao ilhéu do Rei e os passageiros e carga eram transportados para o Pijiguiti em pequenas embarcações a motor e até a remos. E o cais do Pijiguiti dessa época ainda não tinha ainda a actual cabeça que forma o “T”. Era um simples paredão. Electricidade? Luxo só possível das seis da tarde à meia-noite.

Apesar disso, sentíamo-nos lá como no paraíso. Diariamente nos juntávamos para os nossos passeios pela cidade e arredores, de bicicleta ou a pé, bebíamos umas cervejas nas esplanadas, especialmente na pastelaria Império, na praça do mesmo nome (o proprietário era o senhor Estácio, tio do nosso amigo António Estácio que já interveio no blogue) no Hotel Portugal, mais conhecido por hotel do Espada (nome do proprietário) ou ainda na esplanada existente ao fundo da avenida principal na placa central que então existia. A configuração desta avenida era bem diferente daquela que os nossos amigos desta tertúlia conheceram mais tarde. A seu tempo falarei sobre isso.

Um dos nossos pontos de encontro favoritos era na marginal, junto às ruínas de uma ponte de atracação de barcos da qual só existiam alguns pilares no meio do rio, já meio enterrados no lodo, e o encontro de onde a ponte partia. Disseram-me ter sido um navio alemão que se pôs em movimento desatracando sem que os cabos estivessem completamente soltos, que levou pedaços dessa ponte atrás de si arruinando-a. Foi antes de eu ter chegado à Guiné que assim se viu privada de uma infraestrutura indispensável. O local a que me estou a referir é onde hoje fica um pequeno largo em formato de meia-laranja existente na marginal de Bissau. Se consultarem o mapa disponível no blogue facilmente o encontrarão.
Guiné-Bissau > Bissau, capital do país. Planta da cidade, pós-independência. (Vd. mapa ampliado na página sobre sobre Bafatá e BissauA. Marques Lopes (2005)



Uma noite de sábado, depois do jantar, reunimo-nos nesse local como era nosso hábito, e, por não se trabalhar no dia seguinte, prolongámos um pouco mais a paródia. Anedotas, aventuras que cada um ia narrando, até que às tantas, alguns (entre os quais eu) puxaram das gaitas-de-beiços e vá de tocar com todas as nossas ganas. A noite estava convidativa, o calor não era muito e o luar ajudava. As pessoas que passavam iam parando para nos ouvir e aplaudir. Alguém sugeriu que podíamos ir pela avenida acima até à praça do Império. De acordo. Lá fomos nós sempre a tocar, a cantar e a rir. O mundo era nosso.

Chegados à praça do Império, já a meia-noite estava próxima, instalámo-nos naquele arremedo de degraus existentes no monumento “Ao Esforço da Raça” que ainda lá se encontra embora com outra designação e dedicatória.

Faço um pequeno parêntese para contar um dito jocoso que então corria sobre esse monumento, dito esse da autoria de um tio meu que uns anos antes da minha ida tinha sido escrivão no tribunal de Bissau. No monumento em causa encontra-se um busto de mulher, e que farto busto, empunhando nos braços erguidos uma coroa de louros. Qual o significado? Aquilo queria dizer que a Guiné deu e continuava a dar de mamar a muita gente. Voltemos à nossa história.

Encarrapitados no monumento, virados para o palácio do governador que ainda estava em construção, embora quase pronto, (Já agora: o palácio inicialmente não era assim pois tinha terraço em vez de telhado mas, não sei qual o motivo, um engenheiro acabou por alterar a planta) prosseguimos a serenata.

O governador (Raimundo Serrão)(2) residia numa grande vivenda existente ao lado direito não muito longe, portanto, do nosso improvisado palco. Toca, canta, canta e toca, viva a alegria, vimos que de nós se aproximava um polícia, um segurança, como eram mais conhecidos. Chegado disse mais ou menos isto:
- O senhor governador manda dizer para não fazerem tanto barulho porque já é tarde e quer dormir.- Perdemos o pio e pedimos desculpas. Mas, como ainda era cedo, meia-noite de sábado para malta nova é dia, por lá ficámos embora sossegados. Foi então que alguém se lembrou, era quase uma hora:
-Eh pá, o governador já deve estar a dormir; vamos lá tocar e cantar mais um pouco. -Dito e feito, embora com menos decibéis que anteriormente. Estávamos nisto quando vimos um vulto, de roupão, saindo do quintal da vivenda com toda a calma vir em nossa direcção. A serenata continuou até que reparamos no vulto que já estava próximo. Era o governador. Ficámos gelados, paralisados. Vai-nos mandar prender, pensava eu. Qual quê?
- Boa noite, rapazes! - cumprimentou. Levantámo-nos, aterrorizados e respeitosos e retorquimos:
- Boa noite, senhor governador.
- Como não me deixam dormir, venho para aqui, sempre ouço melhor. Vá lá continuem a tocar.

E tocámos com todo o esmero de que éramos capazes. Uma música, outra e mais outra todos ufanos pois de cada vez o governador aplaudia. Até que após a execução do quarto número, que, ainda me lembro, foi a valsa do imperador, ele nos disse:
- Bom, rapazes, gostei muito de vos ouvir, mas já é tarde. Vão-se deitar porque a cacimba faz mal.

E foi assim que fizemos uma serenata ao Governador da Guiné.

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Nota de L.G.

(1) Vd. post de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXII: Memórias do antigamente (Mário Dias) (1): Um cabaço de leite


(2) Raimundo António Rodrigues Serrão foi Governador da Guiné entre 1951 e 1953

Guiné 63/74 - DLXV: Do Larinho ao Olossato ( Blogue de Paulo Salgado)

Guiné-Bissau > 2006 > Rio Olossato © Paulo Salgado (2006)


Mensagem do Paulo Salgado:

Meu Caríssimo Luís,


1. Durante esta tarde de sábado - no intervalo de algum trabalho - a minha mulher e a Maria Paula (as duas tertulianas) ajudaram-me (ou foram elas?!) a construir o modestíssimo blogue Do Larinho ao Olossato.

Espero ter contributos de amigos, como tu, para arrancar com este espaço. Não vai ser fácil, é certo.

Entretanto, a nossa bloguista, Maria Paula, fez as provas de doutoramento e saiu distinta em Oxford. É bonito ver os filhos crescer - esta não era, nem é, uma geração rasca. Parabens a ela.

Um abraço de Amizade.

Paulo Salgado


2. Comentário do L.G.

Do Larinho ao Olossato > Blogue de Paulo Salgado


Parabéns!... A lusoblogosfera está mais rica! Só preciso que me expliques uma coisa: o Olossato, sei onde fica (embora nunca lá tenha ido); o Larinho, não faço ideia, a menos que seja o diminuitivo do Lar, Doce Lar, do teu Dulcíssimo Lar... É isso ?

Eu meu nome e em nome dos restantes tertulianos (refiro-me à nossa tertúlia, Luís Graça & Camaradas da Guiné...), desejo-te boa saúde e boa navegação em mais esta... aventura.

Prometo vir cá mais vezes blogar contigo, convosco, que a família, para ti, não se deixa em casa nem se confunde com a mobília.

Porque blogar é preciso, sobretudo quando se trata da saúde, da educação, da cooperação com África, e em especial com a nossa querida Guiné. Cooperação que, como tu muito bem dizes, se escreve com muitos "Ós", que se constroi com muitos nós (e vós), que se escreve com todas as letras dos nossos alfabetos...

Aproveito para mandar um xicoração às tuas mulheres e felicitar a Paula pelo seu brilhante doutoramento em Biologia, em Oxford. Paulo e Conceição: vocês bem podem orgulhar-se dessa menina (que eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente).

Um abraço, camarada e amigo.
Luís

Guiné 63/74 - DLXV: Do Larinho ao Olossato ( Blogue de Paulo Salgado)

Guiné-Bissau > 2006 > Rio Olossato © Paulo Salgado (2006)


Mensagem do Paulo Salgado:

Meu Caríssimo Luís,


1. Durante esta tarde de sábado - no intervalo de algum trabalho - a minha mulher e a Maria Paula (as duas tertulianas) ajudaram-me (ou foram elas?!) a construir o modestíssimo blogue Do Larinho ao Olossato.

Espero ter contributos de amigos, como tu, para arrancar com este espaço. Não vai ser fácil, é certo.

Entretanto, a nossa bloguista, Maria Paula, fez as provas de doutoramento e saiu distinta em Oxford. É bonito ver os filhos crescer - esta não era, nem é, uma geração rasca. Parabens a ela.

Um abraço de Amizade.

Paulo Salgado


2. Comentário do L.G.

Do Larinho ao Olossato > Blogue de Paulo Salgado


Parabéns!... A lusoblogosfera está mais rica! Só preciso que me expliques uma coisa: o Olossato, sei onde fica (embora nunca lá tenha ido); o Larinho, não faço ideia, a menos que seja o diminuitivo do Lar, Doce Lar, do teu Dulcíssimo Lar... É isso ?

Eu meu nome e em nome dos restantes tertulianos (refiro-me à nossa tertúlia, Luís Graça & Camaradas da Guiné...), desejo-te boa saúde e boa navegação em mais esta... aventura.

Prometo vir cá mais vezes blogar contigo, convosco, que a família, para ti, não se deixa em casa nem se confunde com a mobília.

Porque blogar é preciso, sobretudo quando se trata da saúde, da educação, da cooperação com África, e em especial com a nossa querida Guiné. Cooperação que, como tu muito bem dizes, se escreve com muitos "Ós", que se constroi com muitos nós (e vós), que se escreve com todas as letras dos nossos alfabetos...

Aproveito para mandar um xicoração às tuas mulheres e felicitar a Paula pelo seu brilhante doutoramento em Biologia, em Oxford. Paulo e Conceição: vocês bem podem orgulhar-se dessa menina (que eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente).

Um abraço, camarada e amigo.
Luís

Guiné 63/74 - DLXIV: Zélia, um caso de amor e paixão (III)

Texto da Zélia Neno, publicado no JN - Jornal de Notícias, em 19 Agosto de 1992



GUINÉ - TãO LONGE E TãO PERTO!

AFRICA! Quem nunca ouviu falar deste Continente, cheio de mistérios, outrora desbravado pelos nossos colonizadores e onde os portugueses enraizaram quinhentos anos da sua História?

Pois milhares de nós passaram por lá. Uns voluntariamente, procurando melhores condições de vida, pois África tinha muito para oferecer; outros, jovens que aos vinte anos, quando começavam a despertar para a vida, foram para lá empurrados, sem terem tempo sequer para compreender porque lhes haviam colocado uma arma na mão.

É com um destes jovens que me casei há dezassete anos, depois de haver cumprido o serviço militar na Guiné. Daí para cá tenho ouvido as suas narrativas pormenorizadas dos bons e maus momentos vividos no interior daquele mato, onde tudo lhes era adverso, pois para além da companhia dos colegas, só tinham a arma como "fiel companheira" e a solidão própria daquela situação.

Apesar disto, penso eu, a maior parte deles aprendeu o verdadeiro valor das palavras Amizade e Solidariedade, pois o viver em conjunto todos aqueles momentos, alguns bem difíceis de suportar, tentando sobreviver conforme podiam, auxiliando-se mutuamente, fez com que adquirissem valores morais que ainda hoje prevalecem no seu dia-a-dia, sendo frequente ouvi-los recordar com uma certa nostalgia esses anos vividos no seio da guerra, quando em cada dia existia a incerteza do dia seguinte.~

Apesar de tudo isto, os que sobreviveram, ainda aproveitaram algo de bom como o conhecerem um pouco terras africanas, pessoas de outras raças onde abundam várias etnias, cada uma com seu dialecto e seus ancestrais costumes, bem característicos do continente africano, onde tudo é tão diferente, até o ar que se respira.

E foi com este saudosismo de meu marido, a minha curiosidade, pois quis ser como S.Tomé -“ver para crer”, que nasceu o sonho de umas férias na Guiné. Mas Férias destas não são muito fáceis de se realizarem para pessoas que, como nós, vivem de ordenados médios, criando dois filhos adolescentes com todos os gastos inerentes à sua educação, pagando empréstimo pela compra da casa e com as despesas normais de qualquer família. Mas como “o sonho comanda a vida” e com muita vontade, sacrificando muitas saídas nos fins-de-semana durante vários meses, o sonho tornou-se realidade no passado mês de Abril. Juntamente com outro casal amigo, (eles, homens, companheiros de guerra) então partimos rumo àquele país, onde outrora se via desfraldada a Bandeira das Quinas.

Sempre tive espírito de aventura, mas não minto se disser que tinha um certo receio pelo que poderíamos ir encontrar, pois era a primeira vez que ia a um pais africano e obviamente conviver com pessoas diferentes e com outro estilo de vida, além da duvida como iríamos ser recebidos, já que eles eram ex-combatentes.

Tudo isto se dissipou logo no primeiro momento de contacto com aquela terra pois desde a saída do avião as novas sensações que experimentei foram tantas que este espaço é pequeno para as enunciar.

Depois de uma volta por Bissau, que já não era aquela mesma cidade que eles conheceram entre 1972 e 74, pois agora é uma capital pobre, suja, com o piso das ruas muito degradado aguardando conserto sabe-se lá para quando, mas onde não vi pedintes nem crianças subalimentadas como as que sabemos existir noutros países africanos, já que a televisão isso nos mostra nos noticiários, coincidentemente quando a maioria das famílias está a jantar, partimos de barco para uma das muitas ilhas do Arquipélago de Bijagós, daquelas ditas de paradisíacas. E aí, sim, pensei estar no Paraíso, se é que ele existe. Lá conhecemos quatro casais portugueses, dois dos quais em lua-de-mel, e que haviam escolhido aquele local para passar uns dias de férias, inesquecíveis para todos nós.

Desfrutamos de um mar estupendo com águas quentes e calmas banhando um extenso areal onde a sombra das palmeiras se projectava de dia, e à noite era iluminado por um luar que antes eu nunca tinha visto. Este cenário real tinha como musica de fundo o chilrear da passarada exótica abundante naquelas zonas e que nos transmite uma sensação de paz e tranquilidade só possível de encontrar em locais como aquele.
Mas, além desta aguarela africana, o que de mais forte me impressionou foi o espírito aberto e generoso dos guineenses, com a sua espontânea vontade de serem gentis para connosco e dizendo-se honrados por já terem sido portugueses.

Quantos de nós sabem ou ainda se lembram do nome dos rios, seus afluentes, onde nascem e desaguam que atravessam Portugal e que aprendemos na escola primária? Pois alguns desses “homens grandes” (assim chamam aos mais velhos) com quem passei horas a conversar, conhecem mais sobre o nosso país do que muitos cá da terra. Isto porquê? Porque o sentimento que têm por um povo ao qual chamam de irmão não deixa que o cordão umbilical que nos uniu enquanto mesma nação ainda não esteja cortado, passados que estão quase vinte anos desde a sua independência.

Tudo isto se torna mais notável para mim, ao pensar que estas gentes sofreram e consequentemente ainda sofrem, no corpo e na alma os malefícios de uma guerra evitável para ambas as partes, mas para eles o inimigo era Portugal, na realidade era quem o governava, mas para eles era os que por lá andavam de arma na mão.
Mesmo no interior da ilha, pude ver como vivem as populações indígenas no seu habitat natural, praticamente sem contacto com o exterior, comendo do que a terra produz e o mar lhes dá. Ali mesmo e uma vez mais, vi a alegria daqueles homens e mulheres por estarem a falar connosco, não no seu dialecto mas em português, língua que lhes é muito querida por todo um passado recente.

Depois deste dias, pouco para quem queria conhecer muito mais daquele pequeno país, regressei ao meu que muito amo, mas trouxe muita saudade daquela terra e da sua gente, além de uma enorme vontade de poder lá voltar.

Agora já consigo entender todos aqueles que um dia por lá passaram e trouxeram um pedaço no coração, pois a Guiné embora esteja longe está bem mais perto do que parece.

Zélia Neno

Guiné 63/74 - DLXIV: Zélia, um caso de amor e paixão (III)

Texto da Zélia Neno, publicado no JN - Jornal de Notícias, em 19 Agosto de 1992



GUINÉ - TãO LONGE E TãO PERTO!

AFRICA! Quem nunca ouviu falar deste Continente, cheio de mistérios, outrora desbravado pelos nossos colonizadores e onde os portugueses enraizaram quinhentos anos da sua História?

Pois milhares de nós passaram por lá. Uns voluntariamente, procurando melhores condições de vida, pois África tinha muito para oferecer; outros, jovens que aos vinte anos, quando começavam a despertar para a vida, foram para lá empurrados, sem terem tempo sequer para compreender porque lhes haviam colocado uma arma na mão.

É com um destes jovens que me casei há dezassete anos, depois de haver cumprido o serviço militar na Guiné. Daí para cá tenho ouvido as suas narrativas pormenorizadas dos bons e maus momentos vividos no interior daquele mato, onde tudo lhes era adverso, pois para além da companhia dos colegas, só tinham a arma como "fiel companheira" e a solidão própria daquela situação.

Apesar disto, penso eu, a maior parte deles aprendeu o verdadeiro valor das palavras Amizade e Solidariedade, pois o viver em conjunto todos aqueles momentos, alguns bem difíceis de suportar, tentando sobreviver conforme podiam, auxiliando-se mutuamente, fez com que adquirissem valores morais que ainda hoje prevalecem no seu dia-a-dia, sendo frequente ouvi-los recordar com uma certa nostalgia esses anos vividos no seio da guerra, quando em cada dia existia a incerteza do dia seguinte.~

Apesar de tudo isto, os que sobreviveram, ainda aproveitaram algo de bom como o conhecerem um pouco terras africanas, pessoas de outras raças onde abundam várias etnias, cada uma com seu dialecto e seus ancestrais costumes, bem característicos do continente africano, onde tudo é tão diferente, até o ar que se respira.

E foi com este saudosismo de meu marido, a minha curiosidade, pois quis ser como S.Tomé -“ver para crer”, que nasceu o sonho de umas férias na Guiné. Mas Férias destas não são muito fáceis de se realizarem para pessoas que, como nós, vivem de ordenados médios, criando dois filhos adolescentes com todos os gastos inerentes à sua educação, pagando empréstimo pela compra da casa e com as despesas normais de qualquer família. Mas como “o sonho comanda a vida” e com muita vontade, sacrificando muitas saídas nos fins-de-semana durante vários meses, o sonho tornou-se realidade no passado mês de Abril. Juntamente com outro casal amigo, (eles, homens, companheiros de guerra) então partimos rumo àquele país, onde outrora se via desfraldada a Bandeira das Quinas.

Sempre tive espírito de aventura, mas não minto se disser que tinha um certo receio pelo que poderíamos ir encontrar, pois era a primeira vez que ia a um pais africano e obviamente conviver com pessoas diferentes e com outro estilo de vida, além da duvida como iríamos ser recebidos, já que eles eram ex-combatentes.

Tudo isto se dissipou logo no primeiro momento de contacto com aquela terra pois desde a saída do avião as novas sensações que experimentei foram tantas que este espaço é pequeno para as enunciar.

Depois de uma volta por Bissau, que já não era aquela mesma cidade que eles conheceram entre 1972 e 74, pois agora é uma capital pobre, suja, com o piso das ruas muito degradado aguardando conserto sabe-se lá para quando, mas onde não vi pedintes nem crianças subalimentadas como as que sabemos existir noutros países africanos, já que a televisão isso nos mostra nos noticiários, coincidentemente quando a maioria das famílias está a jantar, partimos de barco para uma das muitas ilhas do Arquipélago de Bijagós, daquelas ditas de paradisíacas. E aí, sim, pensei estar no Paraíso, se é que ele existe. Lá conhecemos quatro casais portugueses, dois dos quais em lua-de-mel, e que haviam escolhido aquele local para passar uns dias de férias, inesquecíveis para todos nós.

Desfrutamos de um mar estupendo com águas quentes e calmas banhando um extenso areal onde a sombra das palmeiras se projectava de dia, e à noite era iluminado por um luar que antes eu nunca tinha visto. Este cenário real tinha como musica de fundo o chilrear da passarada exótica abundante naquelas zonas e que nos transmite uma sensação de paz e tranquilidade só possível de encontrar em locais como aquele.
Mas, além desta aguarela africana, o que de mais forte me impressionou foi o espírito aberto e generoso dos guineenses, com a sua espontânea vontade de serem gentis para connosco e dizendo-se honrados por já terem sido portugueses.

Quantos de nós sabem ou ainda se lembram do nome dos rios, seus afluentes, onde nascem e desaguam que atravessam Portugal e que aprendemos na escola primária? Pois alguns desses “homens grandes” (assim chamam aos mais velhos) com quem passei horas a conversar, conhecem mais sobre o nosso país do que muitos cá da terra. Isto porquê? Porque o sentimento que têm por um povo ao qual chamam de irmão não deixa que o cordão umbilical que nos uniu enquanto mesma nação ainda não esteja cortado, passados que estão quase vinte anos desde a sua independência.

Tudo isto se torna mais notável para mim, ao pensar que estas gentes sofreram e consequentemente ainda sofrem, no corpo e na alma os malefícios de uma guerra evitável para ambas as partes, mas para eles o inimigo era Portugal, na realidade era quem o governava, mas para eles era os que por lá andavam de arma na mão.
Mesmo no interior da ilha, pude ver como vivem as populações indígenas no seu habitat natural, praticamente sem contacto com o exterior, comendo do que a terra produz e o mar lhes dá. Ali mesmo e uma vez mais, vi a alegria daqueles homens e mulheres por estarem a falar connosco, não no seu dialecto mas em português, língua que lhes é muito querida por todo um passado recente.

Depois deste dias, pouco para quem queria conhecer muito mais daquele pequeno país, regressei ao meu que muito amo, mas trouxe muita saudade daquela terra e da sua gente, além de uma enorme vontade de poder lá voltar.

Agora já consigo entender todos aqueles que um dia por lá passaram e trouxeram um pedaço no coração, pois a Guiné embora esteja longe está bem mais perto do que parece.

Zélia Neno

Guiné 63/74 - DLXIII: Zélia, um caso de amor e de paixão (II)

Guiné-Bissau > > 2005 > O Xico Allen em convívio com antigos combatentes do PAIGC .

© José Teixeira (2005)

Texto da Zélia Cardoso, mulher do Xico Allen, e nossa mais recente tertuliana.

Gaia, 15 de Janeiro de 2006

Como é normal em circunstâncias destas, começo por me apresentar: meu nome é Zélia Neno, tenho 52 anos, 2 filhos (1 casal de 28 e 27 anos), casada há 30 com o Xico Allen, ex-combatente (Empada, 1972/74) e que alguns dos tertulianos, de quem costumamos ambos ler os seus relatos no blogue, já bem conhecem (1).

Após casada, comecei a ter que conviver com os seus pesadelos que me conseguiam acordar e a ver quanto se assustava com o rebentar de um simples foguete no ar. Então comecei a pedir que me fosse contando aquela passada mas recente vivência que ainda o atormentava, pois receava que tal se mantivesse ao longo dos anos, o que me assustava, como é obvio.

Dizem que o tempo cura as feridas mas casos há em que é necessário abri-las, fazendo-as sangrar até, para limpar com um anti-séptico e então esperar que curem completamente.

E assim, durante anos, algumas vezes já deitados e antes do sono chegar, comecei a ouvir os seus relatos, revivendo os 27 meses vividos num cenário de guerra, sofrendo com toda aquela adversidade, onde para ele e todos os outros o estar vivo no dia seguinte era incerteza constanste.

Falar disto aos jovens de hoje pouco lhes diz pois foram crescendo vendo a guerra dos filmes, onde quase todos os enredos são ficcionados e quando aparece o END, viram costas e entram noutra.

À época, o Xico e eu, além de vizinhos, unia-nos uma amizade fraternal, mas quer por ele como por todos os nossos amigos distribuídos pelas várias colónias, eu também sofri e chorei, quer no momento da partida, quer pela saudade que a ausência provoca, quer com o que podiam contar nos aerogramas que me enviavam, alguns dos quais ainda guardo religiosamente.

Quase todos puderam vir passar as tão merecidas férias, mas já se notava que alguns tinham sido "apanhados pelo clima", e passado esse curto período tudo se repetia, com um "Adeus até ao meu regresso"...

Voltando ao tema das horas passadas ouvindo o Xico relembrar alguns dos momentos maus,outros menos maus, alguns divertidos e até caricatos, especialmente enquanto "periquito", a alegria que sentia ao rever um companheiro, pelo que quase logo tomou a iniciativa de os ir juntando anualmente num almoço de confraternização, nos quais eu também participava, despertando em mim cada vez mais curiosidade por aquele pedaço de terra, que lá a 4.000 Kms, se estava a tornar saudoso e nostálgico e que para mim era virtual.

Marrocos, a caminho da Guiné-Bissau > 2005 >Uma paragem técnica para revisão das viaturas. De pé, o Xico Allen (à esquerda) e o Camilo (à direita).

© José Teixeira (2005)


Decidimos então começar uma poupança para poder realizar um sonho que então já ambos alimentávamos, pois com 2 filhos adolescentes, pagar as prestações da casa, e os gastos inevitáveis na manutenção duma família, tivemos que sacrificar saídas nos fins-de-semana, férias fora do país e outras coisas, pois nunca devemos de abandonar os nossos sonhos sem nada fazermos para os tentar realizar, mesmo que alguns nunca se concretizem: - Não é o sonho que comanda a Vida ?

Em Abril de 1992, com outro casal amigo, ele fora companheiro do Xico em Empada, o Artur Ribeiro, depois de tratados todos os requisitos exigidos, desde vacinas a vistos de autorização no passaporte, lá partimos embora com alguns receios pois para nós, mulheres, era a primeira visita a um país africano, para os dois ex-combatentes era a dúvida como nos iriam receber uma vez que lá tinham combatido como inimigos.

Aterrámos era 1 da manhã, no mesmo velho e degradado aeroporto donde eles haviam partido, de regresso a casa, em Junho de 1974, na altura sem qualquer vontade de lá voltar, mas como "o coração tem razões que a própria Razão desconhece", ali estavam e mal as portas do avião se abriram, os receios se dissiparam.

Apesar da hora tardia encontrámos pessoas afáveis, educadas e gentis, instalando-nos no melhor e mais recente hotel de Bissau, o Sheraton Hotel, hoje Hotel Hotti, com atendimento e condições óptimas, condizentes com o nome que tinha.

No dia seguinte e como era óbvio, fomos dar uma volta pela cidade e falando com uns e com outros todos faziam questão de dizer que eram nossos irmãos, pois acabara a guerra mas as condições de vida e o próprio país caira na decadência bem visível aos nossos olhos, pois Bissau tornara-se numa cidade feia, com as ruas degradadas, mal cheirosas, onde o lixo se amontoava servindo de alimento aos abutres, o que nunca havia visto e infelizmente revi quando em 92, também na minha primeira visita ao Brasil, e no interior da Baía por onde andei 2 meses, me confrontava diariamente com estas degradantes situações.

Deixando Bissau, rumamos a um verdadeiro paraíso que são as Ilhas Bijagós, com praias de areia branca sobre as quais se debruçam palmeiras e coqueiros, banhadas por águas quentes e serenas das quais é extraído muito e variado peixe e cujo marulhar só se mistura com o chilrear da passarada exótica que ali existe, formando assim um cenário paradísíaco convidativo ao descanso do corpo e da mente.

Ali, assim como pelo interior da Guiné, onde verdadeiramente a guerra se desenrolou já não se via lixo mas sim os nativos semi-nus, vivendo nas tabancas, onde não existe luz nem água canalizada e cuja base de alimentação é fundamentalmente o arroz e frutos, como os deliciosos mangos e a fruta do cajueiro, cujo sumo é uma delicia, para além das suas propriedades benéficas para a saúde e que depois de fermentado se torna em vinho.

Guiné-Bissau > > 2005 > O Xico Allen (à direita) em convívio com habitantes locais, o Kebá (antigo milícia, à esqterda) e o Braima (antigo ajudante de enfermagem, vestido de azul, ao meio).

© José Teixeira (2005)



Nunca esquecerei esta primeira ida à Guiné, e lamento que poucas famílias portuguesas por ali passem, pois ao dar-lhes um lápis, uma aspirina ou um rebuçado recebemos como agradecimento um grande sorriso franco e terno e vemos um brilho no seu olhar que só aquelas gentes nos podem proporcionar, transmitindo-nos uma energia que nos faz meditar e crescer espiritualmente, pois vivemos noutra parte do mesmo mundo, rodeados pelas novas tecnologias mas onde reina uma ambição sem limites, geradora de ódios, crueldades e muita pouca Paz.

Será isto um dos mistérios que faz nascer a paixão por África a quem a visita pela 1ª vez? Em mim a dita paixão virou quase doença e assim em 94 lá voltamos, já 3 casais e novas experiências vivemos. Desta vez conseguimos ir a Empada, onde os nossos 3 homens tinham perdido talvez o melhor tempo da sua juventude interrompida.

Encontraram entre a população alguns ex-milícias da nossa tropa e outros, ex-combatentes mas do lado inimigo e então ali frente a frente, entre abraços, risos e algumas lágrimas, reviveram factos passados, distanciados pelo tempo mas sem dor nem rancor. Pediram que voltássemos mais vezes, dissemos que o faríamos sempre que a vida tal nos proporcionasse e assim, 2 anos volvidos, em 96,lá estávamos novamente, acompanhados por mais um outro casal amigo, de Viana, e que também ele estivera em Empada.

Em Maio de 98, só os dois lá fomos e como costume, super carregados de roupas, brinquedos, medicamentos e alguns comestíveis, tudo para por lá distribuir. Xico sempre se zangava comigo na hora da partida pois parecia que eu desconhecia que de avião cada passageiro só pode levar 30 kgs de bagagem a não ser que pague o excesso. Mas eu, confiando sempre na minha boa estrela, deixava-o resmungar pois logo se veria, já que pagar é que não fazia parte dos nossos planos. Chegados ao balcão do chek-in e pesadas as malas, o peso total atingia quase 130 kgs. Que fazer?

Enquanto ele resmungava pois sentia-se envergonhado perante tal situação, eu fui conversando com o gentil assistente, dizendo o que levava e porque o fazia, pois ia ao encontro de tantas carências quando as podia amenizar um pouco com tudo que ali estava, levando assim um pouco de felicidade e muita alegria sobretudo às crianças que nunca tinham tido um brinquedo de verdade. A minha argumentação conseguiu que a sua sensibilidade ultrapassasse o cumprimento das regras impostas e, já que não havia risco de perigo, pois se uns levam peso a mais outros levam a menos, o facto é que conseguimos levar tudo sem pagar mais por isso.

Lá chegados, passamos uns 2 dias em Bissau e num jipe alugado viajámos para o interior, tendo como destino Empada, onde estivemos 2 dias. Aí sim, a experiência foi única até hoje, pois dormimos, comemos e tomamos alguns banhos na tabanca, onde luz só a da lua, das estrelas e da nossa lanterna pois desde a saída da tropa portuguesa não mais houve energia assim como outros bens essenciais, desde material escolar, medicamentos e alimentação. Os banhos, se assim se podem chamar, eram feitos despejando cabaceiras cheias de água retirada de um poço que gentilmente algumas mulheres nos iam entregando, fazendo-os passar por cima de um cercado e que funcionava como banheiro e não só...

Quis cozinhar um almoço pois havia levado 1 kg de esparguete, o que causou muita alegria entre os homens já que não comiam tal coisa desde 74 e para tal pedi que matassem 2 "pica no chão" mas de tão pequeninos que eram mais pareciam pintos e então comecei a minha aventura.

Sentada numa das pedras que rodeiam a fogueira comunitária, situada no centro duma palhota onde as mulheres grandes fazem a comida e sob um calor intenso que rondava os 40 graus, eu lá consegui distribuir e estufar aqueles pedacitos de frango em 2 grandes tachos, colocando num o esparguete e no outro arroz e ainda hoje não sei como saiu tudo gostoso e se houve algum milagre como o da multiplicação dos pães, já que somente aquele esparguete e igual quantidade de arroz conseguiu chegar para mais de 40 pessoas, na maioria homens e alguns até repetiram.

Nunca tinha vivido nada assim, mas senti-me imensamente feliz. Afinal a Felicidade não é mais do que o conjunto de momentos felizes que vivemos durante a nossa vida. No sábado regressámos a Bissau, onde outra grande aventura nos aguardava mas é demasiado longa assim como tantas outras para as inserir aqui, regresso esse devido a que no domingo à noite, com a chegada do avião,iria juntar-se a nós um grupo de 10 pessoas, 7 deles ex-combatentes, na sua 1ª romagem de saudade, que como todos os outros era a concretização de um sonho, sendo um deles o Sr. Casimiro, aqui do Porto, que se fez acompanhar pelo seu jovem genro, o Carlos, e outros seus amigos e companheiros de guerra, tendo então eu a oportunidade de conhecer o Sr.Armindo, de Moreira de Cónegos, o Sr. Camilo, do Algarve, o Sr. Pauleri, de Vizela, o Sr.Amílcar, aqui de Gaia, único que levou a esposa sendo assim eu beneficiada pois tive companheira para o resto da estadia e dos restantes lamentavelmente não me recordo dos nomes.

O que não esquecerei nunca, foi poder ver a alegria misturada com a emoção, quando chegámos a Jumbembem, local bem conhecido deles, pois mais não me pareciam do que crianças irrequietas em pleno Portugal dos Pequeninos, tentando ver todo o canto e recanto onde viveram outrora.

Esta foi até hoje, 2006, a minha ultima visita à Guiné. Porquê ? Porque um amigo convence outro e este mais outro e outro, e estas viagens passaram a ser anuais, 3 das quais foram por via terrestre em jipes referenciados como Missão Humanitária pois têm ido carregados de material escolar e medicamentos e penso que iria empecilhar o grupo, devido à ausência feminina. Não sei se isto acontece por falta de vontade dos maridos ou das esposas pensando que não vale a pena ir à Guiné já que existem tantos destinos para passar férias bem mais conhecidos ! ! !

Posso afirmar que para nós mulheres, que já lá estivemos, em momento algum nos arrependemos de o ter feito, bem antes pelo contrário, não só pelas experiências vividas no contacto com um povo cuja vida, costumes e ideais são tão diferentes dos nossos mas também porque a partir de então, ouvir nossos maridos falar daquele pedaço de chão com cerca de 36.000 klms quadrados, já visualizamos o cenário que para nós deixou de ser virtual.

Para os homens estas viagens, além de "romagem de saudade",servem para alguns deles exorcizarem algum fantasma da guerra que infelizmente tem destruido a saúde e a vida de muitos ex-combatentes e consequentemente de suas famílias, pois embora sem rosto visível tem nome-: Stress de guerra pós-traumático.

Não sendo perita neste assunto que em cada ano que passa faz mais vitimas, a minha opinião é que todos aqueles que podem e ainda têm saúde para isso, voltem a esses lugares, sejam em Angola, Moçambique ou Guiné.

Entretanto a próxima ida do Xico, via terrestre, está para breve com os preparativos já a decorrer mas com ele irão uns 5 ou 6 amigos, entre os quais o Sr.Armindo e o Hugo, filho do Sr.Albano, da Foto Guifões, que apesar de tão jovem já é a 2ª vez que lá vai e os restantes do grupo, Sr.Casimiro e C.A. seguirão de avião após uns dias, tentando chegar a Bissau em simultâneo, Até lá que Deus a todos acompanhe.

Perdoem esta minha intromissão e tão alongado texto, mas como meu marido diz, sou um perigo a falar ou escrever sobre a Guiné, pois não me canso de o fazer mas devo cansar quem me empresta os ouvidos, neste caso os olhos.

Zélia Neno

_____________


Notas de L.G.

(1) Vd posts de

16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXVI: O Xico de Empada, grande amigo dos guinéus (Albano Costa)


31 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDV: a tertúlia do Porto

Guiné 63/74 - DLXIII: Zélia, um caso de amor e de paixão (II)

Guiné-Bissau > > 2005 > O Xico Allen em convívio com antigos combatentes do PAIGC .

© José Teixeira (2005)

Texto da Zélia Cardoso, mulher do Xico Allen, e nossa mais recente tertuliana.

Gaia, 15 de Janeiro de 2006

Como é normal em circunstâncias destas, começo por me apresentar: meu nome é Zélia Neno, tenho 52 anos, 2 filhos (1 casal de 28 e 27 anos), casada há 30 com o Xico Allen, ex-combatente (Empada, 1972/74) e que alguns dos tertulianos, de quem costumamos ambos ler os seus relatos no blogue, já bem conhecem (1).

Após casada, comecei a ter que conviver com os seus pesadelos que me conseguiam acordar e a ver quanto se assustava com o rebentar de um simples foguete no ar. Então comecei a pedir que me fosse contando aquela passada mas recente vivência que ainda o atormentava, pois receava que tal se mantivesse ao longo dos anos, o que me assustava, como é obvio.

Dizem que o tempo cura as feridas mas casos há em que é necessário abri-las, fazendo-as sangrar até, para limpar com um anti-séptico e então esperar que curem completamente.

E assim, durante anos, algumas vezes já deitados e antes do sono chegar, comecei a ouvir os seus relatos, revivendo os 27 meses vividos num cenário de guerra, sofrendo com toda aquela adversidade, onde para ele e todos os outros o estar vivo no dia seguinte era incerteza constanste.

Falar disto aos jovens de hoje pouco lhes diz pois foram crescendo vendo a guerra dos filmes, onde quase todos os enredos são ficcionados e quando aparece o END, viram costas e entram noutra.

À época, o Xico e eu, além de vizinhos, unia-nos uma amizade fraternal, mas quer por ele como por todos os nossos amigos distribuídos pelas várias colónias, eu também sofri e chorei, quer no momento da partida, quer pela saudade que a ausência provoca, quer com o que podiam contar nos aerogramas que me enviavam, alguns dos quais ainda guardo religiosamente.

Quase todos puderam vir passar as tão merecidas férias, mas já se notava que alguns tinham sido "apanhados pelo clima", e passado esse curto período tudo se repetia, com um "Adeus até ao meu regresso"...

Voltando ao tema das horas passadas ouvindo o Xico relembrar alguns dos momentos maus,outros menos maus, alguns divertidos e até caricatos, especialmente enquanto "periquito", a alegria que sentia ao rever um companheiro, pelo que quase logo tomou a iniciativa de os ir juntando anualmente num almoço de confraternização, nos quais eu também participava, despertando em mim cada vez mais curiosidade por aquele pedaço de terra, que lá a 4.000 Kms, se estava a tornar saudoso e nostálgico e que para mim era virtual.

Marrocos, a caminho da Guiné-Bissau > 2005 >Uma paragem técnica para revisão das viaturas. De pé, o Xico Allen (à esquerda) e o Camilo (à direita).

© José Teixeira (2005)


Decidimos então começar uma poupança para poder realizar um sonho que então já ambos alimentávamos, pois com 2 filhos adolescentes, pagar as prestações da casa, e os gastos inevitáveis na manutenção duma família, tivemos que sacrificar saídas nos fins-de-semana, férias fora do país e outras coisas, pois nunca devemos de abandonar os nossos sonhos sem nada fazermos para os tentar realizar, mesmo que alguns nunca se concretizem: - Não é o sonho que comanda a Vida ?

Em Abril de 1992, com outro casal amigo, ele fora companheiro do Xico em Empada, o Artur Ribeiro, depois de tratados todos os requisitos exigidos, desde vacinas a vistos de autorização no passaporte, lá partimos embora com alguns receios pois para nós, mulheres, era a primeira visita a um país africano, para os dois ex-combatentes era a dúvida como nos iriam receber uma vez que lá tinham combatido como inimigos.

Aterrámos era 1 da manhã, no mesmo velho e degradado aeroporto donde eles haviam partido, de regresso a casa, em Junho de 1974, na altura sem qualquer vontade de lá voltar, mas como "o coração tem razões que a própria Razão desconhece", ali estavam e mal as portas do avião se abriram, os receios se dissiparam.

Apesar da hora tardia encontrámos pessoas afáveis, educadas e gentis, instalando-nos no melhor e mais recente hotel de Bissau, o Sheraton Hotel, hoje Hotel Hotti, com atendimento e condições óptimas, condizentes com o nome que tinha.

No dia seguinte e como era óbvio, fomos dar uma volta pela cidade e falando com uns e com outros todos faziam questão de dizer que eram nossos irmãos, pois acabara a guerra mas as condições de vida e o próprio país caira na decadência bem visível aos nossos olhos, pois Bissau tornara-se numa cidade feia, com as ruas degradadas, mal cheirosas, onde o lixo se amontoava servindo de alimento aos abutres, o que nunca havia visto e infelizmente revi quando em 92, também na minha primeira visita ao Brasil, e no interior da Baía por onde andei 2 meses, me confrontava diariamente com estas degradantes situações.

Deixando Bissau, rumamos a um verdadeiro paraíso que são as Ilhas Bijagós, com praias de areia branca sobre as quais se debruçam palmeiras e coqueiros, banhadas por águas quentes e serenas das quais é extraído muito e variado peixe e cujo marulhar só se mistura com o chilrear da passarada exótica que ali existe, formando assim um cenário paradísíaco convidativo ao descanso do corpo e da mente.

Ali, assim como pelo interior da Guiné, onde verdadeiramente a guerra se desenrolou já não se via lixo mas sim os nativos semi-nus, vivendo nas tabancas, onde não existe luz nem água canalizada e cuja base de alimentação é fundamentalmente o arroz e frutos, como os deliciosos mangos e a fruta do cajueiro, cujo sumo é uma delicia, para além das suas propriedades benéficas para a saúde e que depois de fermentado se torna em vinho.

Guiné-Bissau > > 2005 > O Xico Allen (à direita) em convívio com habitantes locais, o Kebá (antigo milícia, à esqterda) e o Braima (antigo ajudante de enfermagem, vestido de azul, ao meio).

© José Teixeira (2005)



Nunca esquecerei esta primeira ida à Guiné, e lamento que poucas famílias portuguesas por ali passem, pois ao dar-lhes um lápis, uma aspirina ou um rebuçado recebemos como agradecimento um grande sorriso franco e terno e vemos um brilho no seu olhar que só aquelas gentes nos podem proporcionar, transmitindo-nos uma energia que nos faz meditar e crescer espiritualmente, pois vivemos noutra parte do mesmo mundo, rodeados pelas novas tecnologias mas onde reina uma ambição sem limites, geradora de ódios, crueldades e muita pouca Paz.

Será isto um dos mistérios que faz nascer a paixão por África a quem a visita pela 1ª vez? Em mim a dita paixão virou quase doença e assim em 94 lá voltamos, já 3 casais e novas experiências vivemos. Desta vez conseguimos ir a Empada, onde os nossos 3 homens tinham perdido talvez o melhor tempo da sua juventude interrompida.

Encontraram entre a população alguns ex-milícias da nossa tropa e outros, ex-combatentes mas do lado inimigo e então ali frente a frente, entre abraços, risos e algumas lágrimas, reviveram factos passados, distanciados pelo tempo mas sem dor nem rancor. Pediram que voltássemos mais vezes, dissemos que o faríamos sempre que a vida tal nos proporcionasse e assim, 2 anos volvidos, em 96,lá estávamos novamente, acompanhados por mais um outro casal amigo, de Viana, e que também ele estivera em Empada.

Em Maio de 98, só os dois lá fomos e como costume, super carregados de roupas, brinquedos, medicamentos e alguns comestíveis, tudo para por lá distribuir. Xico sempre se zangava comigo na hora da partida pois parecia que eu desconhecia que de avião cada passageiro só pode levar 30 kgs de bagagem a não ser que pague o excesso. Mas eu, confiando sempre na minha boa estrela, deixava-o resmungar pois logo se veria, já que pagar é que não fazia parte dos nossos planos. Chegados ao balcão do chek-in e pesadas as malas, o peso total atingia quase 130 kgs. Que fazer?

Enquanto ele resmungava pois sentia-se envergonhado perante tal situação, eu fui conversando com o gentil assistente, dizendo o que levava e porque o fazia, pois ia ao encontro de tantas carências quando as podia amenizar um pouco com tudo que ali estava, levando assim um pouco de felicidade e muita alegria sobretudo às crianças que nunca tinham tido um brinquedo de verdade. A minha argumentação conseguiu que a sua sensibilidade ultrapassasse o cumprimento das regras impostas e, já que não havia risco de perigo, pois se uns levam peso a mais outros levam a menos, o facto é que conseguimos levar tudo sem pagar mais por isso.

Lá chegados, passamos uns 2 dias em Bissau e num jipe alugado viajámos para o interior, tendo como destino Empada, onde estivemos 2 dias. Aí sim, a experiência foi única até hoje, pois dormimos, comemos e tomamos alguns banhos na tabanca, onde luz só a da lua, das estrelas e da nossa lanterna pois desde a saída da tropa portuguesa não mais houve energia assim como outros bens essenciais, desde material escolar, medicamentos e alimentação. Os banhos, se assim se podem chamar, eram feitos despejando cabaceiras cheias de água retirada de um poço que gentilmente algumas mulheres nos iam entregando, fazendo-os passar por cima de um cercado e que funcionava como banheiro e não só...

Quis cozinhar um almoço pois havia levado 1 kg de esparguete, o que causou muita alegria entre os homens já que não comiam tal coisa desde 74 e para tal pedi que matassem 2 "pica no chão" mas de tão pequeninos que eram mais pareciam pintos e então comecei a minha aventura.

Sentada numa das pedras que rodeiam a fogueira comunitária, situada no centro duma palhota onde as mulheres grandes fazem a comida e sob um calor intenso que rondava os 40 graus, eu lá consegui distribuir e estufar aqueles pedacitos de frango em 2 grandes tachos, colocando num o esparguete e no outro arroz e ainda hoje não sei como saiu tudo gostoso e se houve algum milagre como o da multiplicação dos pães, já que somente aquele esparguete e igual quantidade de arroz conseguiu chegar para mais de 40 pessoas, na maioria homens e alguns até repetiram.

Nunca tinha vivido nada assim, mas senti-me imensamente feliz. Afinal a Felicidade não é mais do que o conjunto de momentos felizes que vivemos durante a nossa vida. No sábado regressámos a Bissau, onde outra grande aventura nos aguardava mas é demasiado longa assim como tantas outras para as inserir aqui, regresso esse devido a que no domingo à noite, com a chegada do avião,iria juntar-se a nós um grupo de 10 pessoas, 7 deles ex-combatentes, na sua 1ª romagem de saudade, que como todos os outros era a concretização de um sonho, sendo um deles o Sr. Casimiro, aqui do Porto, que se fez acompanhar pelo seu jovem genro, o Carlos, e outros seus amigos e companheiros de guerra, tendo então eu a oportunidade de conhecer o Sr.Armindo, de Moreira de Cónegos, o Sr. Camilo, do Algarve, o Sr. Pauleri, de Vizela, o Sr.Amílcar, aqui de Gaia, único que levou a esposa sendo assim eu beneficiada pois tive companheira para o resto da estadia e dos restantes lamentavelmente não me recordo dos nomes.

O que não esquecerei nunca, foi poder ver a alegria misturada com a emoção, quando chegámos a Jumbembem, local bem conhecido deles, pois mais não me pareciam do que crianças irrequietas em pleno Portugal dos Pequeninos, tentando ver todo o canto e recanto onde viveram outrora.

Esta foi até hoje, 2006, a minha ultima visita à Guiné. Porquê ? Porque um amigo convence outro e este mais outro e outro, e estas viagens passaram a ser anuais, 3 das quais foram por via terrestre em jipes referenciados como Missão Humanitária pois têm ido carregados de material escolar e medicamentos e penso que iria empecilhar o grupo, devido à ausência feminina. Não sei se isto acontece por falta de vontade dos maridos ou das esposas pensando que não vale a pena ir à Guiné já que existem tantos destinos para passar férias bem mais conhecidos ! ! !

Posso afirmar que para nós mulheres, que já lá estivemos, em momento algum nos arrependemos de o ter feito, bem antes pelo contrário, não só pelas experiências vividas no contacto com um povo cuja vida, costumes e ideais são tão diferentes dos nossos mas também porque a partir de então, ouvir nossos maridos falar daquele pedaço de chão com cerca de 36.000 klms quadrados, já visualizamos o cenário que para nós deixou de ser virtual.

Para os homens estas viagens, além de "romagem de saudade",servem para alguns deles exorcizarem algum fantasma da guerra que infelizmente tem destruido a saúde e a vida de muitos ex-combatentes e consequentemente de suas famílias, pois embora sem rosto visível tem nome-: Stress de guerra pós-traumático.

Não sendo perita neste assunto que em cada ano que passa faz mais vitimas, a minha opinião é que todos aqueles que podem e ainda têm saúde para isso, voltem a esses lugares, sejam em Angola, Moçambique ou Guiné.

Entretanto a próxima ida do Xico, via terrestre, está para breve com os preparativos já a decorrer mas com ele irão uns 5 ou 6 amigos, entre os quais o Sr.Armindo e o Hugo, filho do Sr.Albano, da Foto Guifões, que apesar de tão jovem já é a 2ª vez que lá vai e os restantes do grupo, Sr.Casimiro e C.A. seguirão de avião após uns dias, tentando chegar a Bissau em simultâneo, Até lá que Deus a todos acompanhe.

Perdoem esta minha intromissão e tão alongado texto, mas como meu marido diz, sou um perigo a falar ou escrever sobre a Guiné, pois não me canso de o fazer mas devo cansar quem me empresta os ouvidos, neste caso os olhos.

Zélia Neno

_____________


Notas de L.G.

(1) Vd posts de

16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXVI: O Xico de Empada, grande amigo dos guinéus (Albano Costa)


31 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDV: a tertúlia do Porto

Guiné 63/74 - DLXII: Zélia, um caso de amor e de paixão (I)

A Zélia, de quem eu já tinha ouvido falar, no último Natal, na nossa minitertúlia do Porto-Matosinhos-Gaia, é o que se pode chamar, com toda a justiça, uma mulher de armas, uma mulher do Norte, uma caso sério de amor e de paixão (pelo seu Allen mas também pela Guiné e o seu povo)... Foi, por mor (como se diz no Norte) da guerra e do stresse pós-traumático da guerra, que ele acompanhou o marido à Guiné, em 1992, e já lá voltou várias vezes...

Fico muito honrado por publicar esta carta e, por desde já, convidá-la sem mais demoras a figurar no quadro de honra da nossa tertúlia (a ela e ao Allen, pois claro!). A Zélia (trato-o como se a conhecesse há anos!...) mandou-me mais documentos que serão inseridos no blogue ainda este fim de semana.

Quanto às lendas fulas e mandingas (que eu adoro!), recolhidas por Manuel Dias Belchior, deve haver exemplares nas nossas bibliotecas públicas, a começar pela Biblioteca Nacional. Depois tratamos disso.

Zélia: Fiquei muito sensibilizado pela tua carta. A partir de agora, como nova tertuliana,e de acordo com as regras do nosso blogue e da nossa tertúlia, o tratamento é por tu, com o respeito que é devido a qualquer camarada, independentemente do género e da arma. Um xicoração para o Xico (Allen). Luís Graça

_________________

Porto, 2006-02-16

De: Zélia Maria Neno Cardoso

Luís Graça:

Achará estranho receber este email enviado por uma mulher do
Blogue-Fora-Nada, onde se encontram largas centenas de quilómetros de palavras
sobre a Guiné.

O senhor não me conhece, o mesmo não acontece comigo, pois não só através da escrita como por foto. Sou casada com o Xico Allen, que o senhor conhece mas ainda não é tertuliano, mas foi ele que há meses me alertou para a existência deste blogue e como sou uma verdadeira amante da Guiné e da sua História, passada, presente e futura, que lamentavelmente teima em não vir a ser bem mais favorável para aquele seu povo tão sofredor, estou quase viciada a diariamente ler o que vão contando no blogue.
Por influência do Sr.Albano [Costa] e até do Sr.[José] Teixeira, que conheço pessoalmente pois ambos já foram à Guiné com o meu marido, fui incentivada a escrever
contando algumas (pois são muitas) das minhas vivências naquela maravilhosa
terra que conheci em Março de 92, conforme conto no texto inicial e que enviei
para o senhor no passado dia 15 Janeiro [por erro no endereço de -mail, não deve ter chegado, pelo que se volta a enviar].

Não abordo factos da guerra que não vivi, embora seja esse o tema do blogue,
mas com ela está relacionado, pois por ela ter existido é que já
lá fui 4 vezes. A principal intenção foi dar um empurrãozinho a quem
ainda quer mas tem receio de lá ir e de algumas esposas de ex-combatentes
também o poderem fazer, pois nada há a recear.

Nós, dois casais, fomos quase pioneiros destas viagens, pois em Bissau já alguns ex-combatentes tinham ido, especialmente por razões de trabalho, mas bem lá no interior nunca mais por lá passara nenhum branco ex-combatente, muito menos acompanhados pelas
mulheres e em férias.

Desta 1ºviagem vou tentar enviar ao senhor um outro texto que escrevi na altura
e saiu publicado no Jornal de Notícias, em 19 Agosto de 1992, onde desde logo se pode verificar o sentimento que me deixou ligada à Guiné.

Para além de já ter lido alguns livros sobre os anos desta guerra sem sentido,
(teria para alguns!!!), pois meu marido tem uma substancial biblioteca sobre
este assunto, nesta ocasião estou a ler um pequeno livro, fotocopiado de um
original muito antigo e que me foi oferecido há alguns anos por um jovem
colega da Portugal Telecom, cujo pai então já falecido, cumprira o serviço
militar na Guiné quando a Guerra iniciou e de lá trouxera o tal exemplar cujo
titulo é: Grandeza Africana - Lendas da Guiné Portuguesa - fulas e mandingas, escrito por um tal Dr.Manuel Dias Belchior que viveu a sua carreira
administrativa no Ultramar entre 1932 e 1961, tendo sido investigador da Junta
de Investigações do Ultramar e foi nessa condição que na Guiné fez um levantamento de antigas lendas (Sec.XIII,XIV e XV), juntando as devidas anotações históricas e etnográficas. O prefácio sido escrito pelo seu amigo de então, Major Carlos Gomes Bessa, Comissário Adjunto para o Ultramar da Mocidade Portuguesa.

Como diz o autor,"...elas fazem parte do património histórico e intelectual dos mandingas e fulas da Guiné Portuguesa...". Hoje haverá algum fula ou mandinga que conheça este dito património? Será que algures ainda existe um exemplar deste livrinho?

Para mim ou pessoas como eu, que gostando das estórias que fazem a História de qualquer país lêem isto pelo prazer, tal não será muito importante, mas talvez alguns guineenses gostassem de as conhecer para descobrir a origem e como nasceu aquele pedaço de chão a que foi posto o nome de Guiné.

Se eu puder contribuir par tal, não me importo de as transcrever, só não sei
para onde e talvez aí o senhor me possa dar a sua opinião, que desde já agradeço.

Parabéns pelo blogue e a todos que nele contribuem com seus depoimentos dando a
possibilidade aos interessados no assunto de ficarem a saber mais e aos nossos
jovens que vivem ligados à Internet, por procura ou casualidade lá
passem, leiam para se convencerem que a guerra que alguns de seus pais sofreram
no corpo e na alma não é ficção.

Para finalizar e segundo julgo saber, o senhor ainda não foi à Guiné do pós-guerra. Porquê? Não esqueça que O POVO MAIS GENTIO É O DA GUINÈ !! Atenciosamente. Zélia

Guiné 63/74 - DLXII: Zélia, um caso de amor e de paixão (I)

A Zélia, de quem eu já tinha ouvido falar, no último Natal, na nossa minitertúlia do Porto-Matosinhos-Gaia, é o que se pode chamar, com toda a justiça, uma mulher de armas, uma mulher do Norte, uma caso sério de amor e de paixão (pelo seu Allen mas também pela Guiné e o seu povo)... Foi, por mor (como se diz no Norte) da guerra e do stresse pós-traumático da guerra, que ele acompanhou o marido à Guiné, em 1992, e já lá voltou várias vezes...

Fico muito honrado por publicar esta carta e, por desde já, convidá-la sem mais demoras a figurar no quadro de honra da nossa tertúlia (a ela e ao Allen, pois claro!). A Zélia (trato-o como se a conhecesse há anos!...) mandou-me mais documentos que serão inseridos no blogue ainda este fim de semana.

Quanto às lendas fulas e mandingas (que eu adoro!), recolhidas por Manuel Dias Belchior, deve haver exemplares nas nossas bibliotecas públicas, a começar pela Biblioteca Nacional. Depois tratamos disso.

Zélia: Fiquei muito sensibilizado pela tua carta. A partir de agora, como nova tertuliana,e de acordo com as regras do nosso blogue e da nossa tertúlia, o tratamento é por tu, com o respeito que é devido a qualquer camarada, independentemente do género e da arma. Um xicoração para o Xico (Allen). Luís Graça

_________________

Porto, 2006-02-16

De: Zélia Maria Neno Cardoso

Luís Graça:

Achará estranho receber este email enviado por uma mulher do
Blogue-Fora-Nada, onde se encontram largas centenas de quilómetros de palavras
sobre a Guiné.

O senhor não me conhece, o mesmo não acontece comigo, pois não só através da escrita como por foto. Sou casada com o Xico Allen, que o senhor conhece mas ainda não é tertuliano, mas foi ele que há meses me alertou para a existência deste blogue e como sou uma verdadeira amante da Guiné e da sua História, passada, presente e futura, que lamentavelmente teima em não vir a ser bem mais favorável para aquele seu povo tão sofredor, estou quase viciada a diariamente ler o que vão contando no blogue.
Por influência do Sr.Albano [Costa] e até do Sr.[José] Teixeira, que conheço pessoalmente pois ambos já foram à Guiné com o meu marido, fui incentivada a escrever
contando algumas (pois são muitas) das minhas vivências naquela maravilhosa
terra que conheci em Março de 92, conforme conto no texto inicial e que enviei
para o senhor no passado dia 15 Janeiro [por erro no endereço de -mail, não deve ter chegado, pelo que se volta a enviar].

Não abordo factos da guerra que não vivi, embora seja esse o tema do blogue,
mas com ela está relacionado, pois por ela ter existido é que já
lá fui 4 vezes. A principal intenção foi dar um empurrãozinho a quem
ainda quer mas tem receio de lá ir e de algumas esposas de ex-combatentes
também o poderem fazer, pois nada há a recear.

Nós, dois casais, fomos quase pioneiros destas viagens, pois em Bissau já alguns ex-combatentes tinham ido, especialmente por razões de trabalho, mas bem lá no interior nunca mais por lá passara nenhum branco ex-combatente, muito menos acompanhados pelas
mulheres e em férias.

Desta 1ºviagem vou tentar enviar ao senhor um outro texto que escrevi na altura
e saiu publicado no Jornal de Notícias, em 19 Agosto de 1992, onde desde logo se pode verificar o sentimento que me deixou ligada à Guiné.

Para além de já ter lido alguns livros sobre os anos desta guerra sem sentido,
(teria para alguns!!!), pois meu marido tem uma substancial biblioteca sobre
este assunto, nesta ocasião estou a ler um pequeno livro, fotocopiado de um
original muito antigo e que me foi oferecido há alguns anos por um jovem
colega da Portugal Telecom, cujo pai então já falecido, cumprira o serviço
militar na Guiné quando a Guerra iniciou e de lá trouxera o tal exemplar cujo
titulo é: Grandeza Africana - Lendas da Guiné Portuguesa - fulas e mandingas, escrito por um tal Dr.Manuel Dias Belchior que viveu a sua carreira
administrativa no Ultramar entre 1932 e 1961, tendo sido investigador da Junta
de Investigações do Ultramar e foi nessa condição que na Guiné fez um levantamento de antigas lendas (Sec.XIII,XIV e XV), juntando as devidas anotações históricas e etnográficas. O prefácio sido escrito pelo seu amigo de então, Major Carlos Gomes Bessa, Comissário Adjunto para o Ultramar da Mocidade Portuguesa.

Como diz o autor,"...elas fazem parte do património histórico e intelectual dos mandingas e fulas da Guiné Portuguesa...". Hoje haverá algum fula ou mandinga que conheça este dito património? Será que algures ainda existe um exemplar deste livrinho?

Para mim ou pessoas como eu, que gostando das estórias que fazem a História de qualquer país lêem isto pelo prazer, tal não será muito importante, mas talvez alguns guineenses gostassem de as conhecer para descobrir a origem e como nasceu aquele pedaço de chão a que foi posto o nome de Guiné.

Se eu puder contribuir par tal, não me importo de as transcrever, só não sei
para onde e talvez aí o senhor me possa dar a sua opinião, que desde já agradeço.

Parabéns pelo blogue e a todos que nele contribuem com seus depoimentos dando a
possibilidade aos interessados no assunto de ficarem a saber mais e aos nossos
jovens que vivem ligados à Internet, por procura ou casualidade lá
passem, leiam para se convencerem que a guerra que alguns de seus pais sofreram
no corpo e na alma não é ficção.

Para finalizar e segundo julgo saber, o senhor ainda não foi à Guiné do pós-guerra. Porquê? Não esqueça que O POVO MAIS GENTIO É O DA GUINÈ !! Atenciosamente. Zélia

18 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DLXI: Um periquito da CCAÇ 12 (António Duarte / Sousa de Castro)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Destacamento do Rio Undunduma > 1970 > CCAÇ 12 > O Humberto Reis e pessoal do seu pelotão (o 2ºGrupo de Combate)

Arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)


© Humberto Reis (2006)


1. Através do Sousa de Castro, chegou-nos a seguinte mensagem (que muito nos alegra, pelo menos à malta da CCAÇ 12):

Caro Sousa de Castro

Fui seu companheiro na Guiné.

Fui furriel da CART 3493, tendo estado em Mansambo. Antes da companhia seguir para o sul (suponho Cobumba), fui para a CCAÇ 12 (1) onde acabei por passar a rendição individual e regressar [à Metrópole] em Janeiro de 1974 enquanto que o BART 3873 regressou só em Abril.

Quero dar-lhe os parabéns por ser um activista das nossas recordações, quer através do blogue do Luís Graça, quer noutras paragens na Net. Afigura-se-me que nos faz bem.

Da sua companhia [CART 3494] tenho encontrado o ex-furriel Luciano, que trabalha em seguros, na CGD. Recordo também com muita saudade o Bento, que esteve comigo na especialidade em Vendas Novas. Faleceu em 22 de Abril de 1972.

Um abraço, de camarada para camarada,
António Duarte


2. Resposta do Sousa de Castro ao Duarte:

Antes demais existe uma regra no blogue-fora-nada (Luis Graça & Camaradas da Guiné) que é tratarmo-nos por tu: afinal somos todos mais ou menos da mesma idade, portanto estás à vontade para blogar.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xime > 1972 > O Sousa de Castro, 1º cabo radiotelegrafista da CART 3494 (Xime e Mansambo, 1972/74)

Como deves calcular, eu pertenci à CART 3494 do Xime que, depois da CART 3493 transitar para Cobumba, foi ocupar a vossa zona - Mansambo.

O Luís Graça que é o grande obreiro da muita documentação publicada no blogue, também pertenceu à CCAÇ 12 [Bambadinca, 1969/71].

Quanto ao ex-Furriel Luciano creio que estás a falar do Luciano José Marcelino de Jesus, certo? Faz o convite a ele, por mim, para entrar no blogue e tu também... Sou o único da CART 3494 [Xime e Mansambo, 1972/74] que tem estado mais ou menos activo. Precisamos que contem as vossas estórias passadas no teatro de operações na Guiné. Como disseste, isto faz-nos bem. Temos muitas fotos da época publicadas no blogue .

Fui 1º cabo radiotelegrafista e moro em Vila Fria - Viana do Castelo. Manda para o Luis Graça uma pequena estória e uma foto da época e outra actual, para a tertúlia.

Fala com o Luciano para fazer o mesmo, diz-lhe também que o próximo convívio da CART 3494 será realizado em Vila Nova de Gaia pelo ex-Furriel de TRMS Luís Coutinho Domingues, no dia 10 de Junho 2006.

Alfa Bravo, Sousa de Castro


____________

Nota de L.G.

(1) O António Duarte é o primeiro graduado da CCAÇ 12, da época de 1972/74, que chega até nós. Pessoalmente, fico muito feliz, eu e os demais velhinos (se é que me é permitido falar em nome deles, o Humberto Reis, o António Levezinho, o Joaquim Fernandes...) já que fomos nós a formar a CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71). Vamos ter muito que conversar, Duarte, se estiveres disposto a isso... Pels minhas contas, ainda passaste nove meses com os nossos queridos nharros, entre Abril de 1973 e Janeiro de 1974... Foi isso ? Nove meses que, imagino, não terão sido fáceis...

Recorde-se que em Abril de 1973, segundo informações do Sousa de Castro, a CART 3493 foi para o sul, a companhia dele, que estava no Xime (CART 3493) foi para Mansambo, sendo substituída no Xime pela CCAÇ 12 até à data da independência. Nessa época o Xime continuou ainda a ser mais atacado.

Guiné 63/74 - DLXI: Um periquito da CCAÇ 12 (António Duarte / Sousa de Castro)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Destacamento do Rio Undunduma > 1970 > CCAÇ 12 > O Humberto Reis e pessoal do seu pelotão (o 2ºGrupo de Combate)

Arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)


© Humberto Reis (2006)


1. Através do Sousa de Castro, chegou-nos a seguinte mensagem (que muito nos alegra, pelo menos à malta da CCAÇ 12):

Caro Sousa de Castro

Fui seu companheiro na Guiné.

Fui furriel da CART 3493, tendo estado em Mansambo. Antes da companhia seguir para o sul (suponho Cobumba), fui para a CCAÇ 12 (1) onde acabei por passar a rendição individual e regressar [à Metrópole] em Janeiro de 1974 enquanto que o BART 3873 regressou só em Abril.

Quero dar-lhe os parabéns por ser um activista das nossas recordações, quer através do blogue do Luís Graça, quer noutras paragens na Net. Afigura-se-me que nos faz bem.

Da sua companhia [CART 3494] tenho encontrado o ex-furriel Luciano, que trabalha em seguros, na CGD. Recordo também com muita saudade o Bento, que esteve comigo na especialidade em Vendas Novas. Faleceu em 22 de Abril de 1972.

Um abraço, de camarada para camarada,
António Duarte


2. Resposta do Sousa de Castro ao Duarte:

Antes demais existe uma regra no blogue-fora-nada (Luis Graça & Camaradas da Guiné) que é tratarmo-nos por tu: afinal somos todos mais ou menos da mesma idade, portanto estás à vontade para blogar.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Xime > 1972 > O Sousa de Castro, 1º cabo radiotelegrafista da CART 3494 (Xime e Mansambo, 1972/74)

Como deves calcular, eu pertenci à CART 3494 do Xime que, depois da CART 3493 transitar para Cobumba, foi ocupar a vossa zona - Mansambo.

O Luís Graça que é o grande obreiro da muita documentação publicada no blogue, também pertenceu à CCAÇ 12 [Bambadinca, 1969/71].

Quanto ao ex-Furriel Luciano creio que estás a falar do Luciano José Marcelino de Jesus, certo? Faz o convite a ele, por mim, para entrar no blogue e tu também... Sou o único da CART 3494 [Xime e Mansambo, 1972/74] que tem estado mais ou menos activo. Precisamos que contem as vossas estórias passadas no teatro de operações na Guiné. Como disseste, isto faz-nos bem. Temos muitas fotos da época publicadas no blogue .

Fui 1º cabo radiotelegrafista e moro em Vila Fria - Viana do Castelo. Manda para o Luis Graça uma pequena estória e uma foto da época e outra actual, para a tertúlia.

Fala com o Luciano para fazer o mesmo, diz-lhe também que o próximo convívio da CART 3494 será realizado em Vila Nova de Gaia pelo ex-Furriel de TRMS Luís Coutinho Domingues, no dia 10 de Junho 2006.

Alfa Bravo, Sousa de Castro


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Nota de L.G.

(1) O António Duarte é o primeiro graduado da CCAÇ 12, da época de 1972/74, que chega até nós. Pessoalmente, fico muito feliz, eu e os demais velhinos (se é que me é permitido falar em nome deles, o Humberto Reis, o António Levezinho, o Joaquim Fernandes...) já que fomos nós a formar a CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71). Vamos ter muito que conversar, Duarte, se estiveres disposto a isso... Pels minhas contas, ainda passaste nove meses com os nossos queridos nharros, entre Abril de 1973 e Janeiro de 1974... Foi isso ? Nove meses que, imagino, não terão sido fáceis...

Recorde-se que em Abril de 1973, segundo informações do Sousa de Castro, a CART 3493 foi para o sul, a companhia dele, que estava no Xime (CART 3493) foi para Mansambo, sendo substituída no Xime pela CCAÇ 12 até à data da independência. Nessa época o Xime continuou ainda a ser mais atacado.

Guiné 63/74 - DLX: Nha fidju i fidju de soldado (Paulo Salgado)

Guiné > Olossato > 1970 > O Alf Mil Cav Salgado, dando uma mãozinha ao pessoal dos serviços de saúde da CCAV 2721.

© Paulo Salgado (2005)


Camaradas e Amigos:

Quero contar-vos uma estória. Em 1991, corria um Fiat Uno vermelho na picada, então muito boa, de Varela para S. Domingos [na região do Cacheu]. Lá dentro um casal. Seriam quatro da tarde. O sol ainda aquecia e o carrinho não tinha ar condicionado, apenas o ventinho quente aligeirava a modorra dentro da viatura, entrecortada pelos monossílabos que o casal ia trocando.

De repente, após uma curva, sob o peso de um jigo de verga de palmeira bem carregado de nadas (suponho), uma mulher gritava:
- Bolem, bolea!- .O condutor parou adiante, ajudou a colocar o cesto na bagageira, a arrumar a mulher no banco de trás. A mulher do condutor:
- Boa tarde, boa tarde; tome estas bolachas... para onde vai?
- Pa S. Domingos... - respondeu a convidada. O condutor:
- Manga de calor! - E ela:
- Calor, tchiu! - O condutor:
- A nôs portuguesis... - E ela:
- Ah, nha fidju i fidju de soldado. I lebal pa Lisboa. I na cuida del. I na manda dinheru um bokadu…

O condutor e a mulher ficaram estarrecidos. Aquele soldado... Lá de Portugal... grande exemplo de grandez... Verdadeira, esta estória. Comovente. Rememoro-a, a propósito do que ultimamente se tem falado no nosso blogue .

E queria acrescentar algo. Se me permitis, camaradas. Um aquartelamento. Arame farpado à volta. Saídas para emboscadas, patrulhamentos, golpes de mão; ou sofrer ataques, alguns bem perto, direi mesmo ao arame, ou de longe com mísseis…E, pelo menos 150 tipos entre os 20 e 25 anos (no caso de uma companhia sediada em tabanca). O quê de isolamento, o quê solidão, o quê de sexo – como aguentar tal sofrimento, tal ansiedade?!

Já reparastes como é sofrida uma guerra neste particular aspecto? Tanta coisa aconteceu, camaradas. Algumas estórias não nos dignificam, camaradas. Ainda que nada seja tabu, demos ter algum recato quando falamos de terceiros, de outras pessoas que estão vivas, que deverão ser respeitadas. E a dignidade passa por nós próprios. Nada é tabu. Mas tudo deve ser (re)contado com muita dignidade.

Paulo Salgado (2006)

Recorde-se que, para além de antigo Alf Mil Cav da CCAV 2721, comandada pelo então Cap Cav Tomé (nos idos tempos de 1970/72, lá para os lados do Olossato, a sudoeste de Farim, e depois em Nhacra, a nordeste de Bissau), o Paulo é também, hoje em dia, um cooperante activo, solidário e empenhado, na Guiné-Bissau, estando à frente do Hospital Nacional Simão Mendes (LG)

Guiné 63/74 - DLX: Nha fidju i fidju de soldado (Paulo Salgado)

Guiné > Olossato > 1970 > O Alf Mil Cav Salgado, dando uma mãozinha ao pessoal dos serviços de saúde da CCAV 2721.

© Paulo Salgado (2005)


Camaradas e Amigos:

Quero contar-vos uma estória. Em 1991, corria um Fiat Uno vermelho na picada, então muito boa, de Varela para S. Domingos [na região do Cacheu]. Lá dentro um casal. Seriam quatro da tarde. O sol ainda aquecia e o carrinho não tinha ar condicionado, apenas o ventinho quente aligeirava a modorra dentro da viatura, entrecortada pelos monossílabos que o casal ia trocando.

De repente, após uma curva, sob o peso de um jigo de verga de palmeira bem carregado de nadas (suponho), uma mulher gritava:
- Bolem, bolea!- .O condutor parou adiante, ajudou a colocar o cesto na bagageira, a arrumar a mulher no banco de trás. A mulher do condutor:
- Boa tarde, boa tarde; tome estas bolachas... para onde vai?
- Pa S. Domingos... - respondeu a convidada. O condutor:
- Manga de calor! - E ela:
- Calor, tchiu! - O condutor:
- A nôs portuguesis... - E ela:
- Ah, nha fidju i fidju de soldado. I lebal pa Lisboa. I na cuida del. I na manda dinheru um bokadu…

O condutor e a mulher ficaram estarrecidos. Aquele soldado... Lá de Portugal... grande exemplo de grandez... Verdadeira, esta estória. Comovente. Rememoro-a, a propósito do que ultimamente se tem falado no nosso blogue .

E queria acrescentar algo. Se me permitis, camaradas. Um aquartelamento. Arame farpado à volta. Saídas para emboscadas, patrulhamentos, golpes de mão; ou sofrer ataques, alguns bem perto, direi mesmo ao arame, ou de longe com mísseis…E, pelo menos 150 tipos entre os 20 e 25 anos (no caso de uma companhia sediada em tabanca). O quê de isolamento, o quê solidão, o quê de sexo – como aguentar tal sofrimento, tal ansiedade?!

Já reparastes como é sofrida uma guerra neste particular aspecto? Tanta coisa aconteceu, camaradas. Algumas estórias não nos dignificam, camaradas. Ainda que nada seja tabu, demos ter algum recato quando falamos de terceiros, de outras pessoas que estão vivas, que deverão ser respeitadas. E a dignidade passa por nós próprios. Nada é tabu. Mas tudo deve ser (re)contado com muita dignidade.

Paulo Salgado (2006)

Recorde-se que, para além de antigo Alf Mil Cav da CCAV 2721, comandada pelo então Cap Cav Tomé (nos idos tempos de 1970/72, lá para os lados do Olossato, a sudoeste de Farim, e depois em Nhacra, a nordeste de Bissau), o Paulo é também, hoje em dia, um cooperante activo, solidário e empenhado, na Guiné-Bissau, estando à frente do Hospital Nacional Simão Mendes (LG)

Guiné 63/74 - DLIX: os relatórios militares e a História (Zé Neto)

Texto do José Neto

Meu caro Luis:

Deste-me corda, agora tens de me aturar. Na tua conversa com o Pepito puseste em evidência um facto que eu tenho sentido ao longo deste terço final da minha vida e não o tinha classificado com a clareza do teu experimentado raciocínio: Nós, os que vivemos os factos, temos pressa de transmitir as nossas estórias porque quando se escrever a História já não podemos voltar das tumbas e dizer: Mentiroso!!!

Já aqui li que é uma pena as autoridades militares tardarem em abrir os seus arquivos históricos. Para quê? O que decerto lá consta é o produto do Relatórios e todos nós sabemos quem e como os elaboravam.

Exemplo? Aí vai: Quando em princípios de 1968 Guileje estava a ferro e fogo aterrou na pista uma biela (Dornier) e ficou na placa de manobra com o motor em funcionamento. Quando nos acercamos da aeronave vimos que o passageiro era o coronel comandante do Sector (nesse tempo sediado em Bolama) que gritava pelo comandante e pelo primeiro sargento da CART 1613. A conversa berrada no que me tocou foi:
- Trate de pôr na sua Ordem de Serviço que eu visitei o aquartelamento. - Dito isto ordenou ao piloto que se fizesse aos ares. Nem um saco de correio (a mercadoria mais preciosa que os aviões nos levavam) nos deixou...
- Coronel manda, sargento redige, escriturário bate à máquina e capitão assina.

Na O.S. do Batalhão, passados dias, lá vinha a transcrição: Visitou o aquartelamento de Guilege no passado dia x o Excelentíssimo Coronel y, Comandante do Sector. ´

No aconchego de Santa Luzia (QG/CTIG) ficou-se a saber que as tropas do Sudeste estavam a ser devidamente inspeccionadas. Essa visita consta da História do BART 1896, documento classificado como Confidencial, de que possuo um exemplar.

Mais palavras para quê? Era um artista português, cheio de...pressa.Entretanto ainda voltarei a este tema Relatórios, de outra guerra, a de Angola, mas que julgo significativo.

Um abração e até breve.

Zé Neto

Guiné 63/74 - DLIX: os relatórios militares e a História (Zé Neto)

Texto do José Neto

Meu caro Luis:

Deste-me corda, agora tens de me aturar. Na tua conversa com o Pepito puseste em evidência um facto que eu tenho sentido ao longo deste terço final da minha vida e não o tinha classificado com a clareza do teu experimentado raciocínio: Nós, os que vivemos os factos, temos pressa de transmitir as nossas estórias porque quando se escrever a História já não podemos voltar das tumbas e dizer: Mentiroso!!!

Já aqui li que é uma pena as autoridades militares tardarem em abrir os seus arquivos históricos. Para quê? O que decerto lá consta é o produto do Relatórios e todos nós sabemos quem e como os elaboravam.

Exemplo? Aí vai: Quando em princípios de 1968 Guileje estava a ferro e fogo aterrou na pista uma biela (Dornier) e ficou na placa de manobra com o motor em funcionamento. Quando nos acercamos da aeronave vimos que o passageiro era o coronel comandante do Sector (nesse tempo sediado em Bolama) que gritava pelo comandante e pelo primeiro sargento da CART 1613. A conversa berrada no que me tocou foi:
- Trate de pôr na sua Ordem de Serviço que eu visitei o aquartelamento. - Dito isto ordenou ao piloto que se fizesse aos ares. Nem um saco de correio (a mercadoria mais preciosa que os aviões nos levavam) nos deixou...
- Coronel manda, sargento redige, escriturário bate à máquina e capitão assina.

Na O.S. do Batalhão, passados dias, lá vinha a transcrição: Visitou o aquartelamento de Guilege no passado dia x o Excelentíssimo Coronel y, Comandante do Sector. ´

No aconchego de Santa Luzia (QG/CTIG) ficou-se a saber que as tropas do Sudeste estavam a ser devidamente inspeccionadas. Essa visita consta da História do BART 1896, documento classificado como Confidencial, de que possuo um exemplar.

Mais palavras para quê? Era um artista português, cheio de...pressa.Entretanto ainda voltarei a este tema Relatórios, de outra guerra, a de Angola, mas que julgo significativo.

Um abração e até breve.

Zé Neto