12 março 2006

Guiné 63/74 - DCXXII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (18): Empada, Novembro/Dezembro de 1969

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Emapada > 2005 > O reencontro do Zé Teixeira com o Keba (à esquerda)... À direita, o Xico Allen, com quem o Zé Teixeira viajou em 2005, e que também tinha estado em Empada, embora já nais tarde (1972/74). De óculos, e vestido de azul, o Braima, que foi ajudante de enfermeiro do Zé Teixeira.

© José Teixeira (2006)


XVIII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).




Empada, 16 Novembro de 1969

O Marinho Caixeiro Conceição morreu (1). Era querido e estimado por todos. Passava o dia a cantar a cantar a morte o surpreendeu, quando no ataque do dia 14 estava na retrete. Talvez porque estivesse a cantar, não ouviu as saídas nem os gritos de avisos dos colegas que iam tomar banho. Quando sentiu o primeiro rebentamento junto à caserna tentou fugir, mas já era tarde, uma das primeiras granadas rebentou no telhado e meteu-lhe alguns estilhaços no corpo - o que lhe perfurou a nuca foi fatal -, e ainda foi projectado contra a parede, aumentando os estragos.

Eram vinte e uma e trinta, quando começou. Utilizaram seis morteiros 82, treze lança roquetes, bazucas, morteiro 60 e, claro, a costureirinhas, algumas com balas tracejantes. Tiveram sorte na pontaria e conseguiram metê-las quase todas dentro do quartel e povoação. Só junto às casernas rebentaram oito granadas. Junto ao arame caíram manga delas.

Além do Conceição,que morreu, ficaram feridos o Açoreano e quatro nativos. Na tabanca da Fátima (prostituta) caíram duas, mas não houve azar, pois os camaradas que lá estavam já se tinham escapulido.

Foram perseguidos até ao fundo da pista, mas às duas da manhã voltaram, aproximaram-se mesmo do arame junto à pista. Felizmente, desta vez não causaram danos. Se desta vez a pontaria fosse idêntica à do primeiro ataque, teria sido uma catástrofe.

Guiné > Região do Cacheu > Antotinha, a sul do Ingoré > 1968 > O Zé Teixeira, no início da comissão, prestando assistência à população local.

© José Teixeira (2006)


Empada, 21 de Novembro de 1969

É uma família muito simpática. Ela, Bijagó, e ele, Cabo Verdeano. Têm quatro filhos: Marcos, Lucas, Júlia e Victória. Muito trabalhadores, aproveitam o terreno cultivável, na impossibilidade de se dedicarem à pesca, a sua profissão, por medo da guerra.

A Júlia está muito marcada pelo ambiente militar que a rodeia, tem até um filho de branco e creio que foi prostituta, em tempos, em Bissau. Tem três filhos todos de tenra idade e é uma tentação cá para a malta. A sua liberdade de linguagem é um dos factores para que qualquer homem se sinta tentado a persegui-la e receber as suas benesses, por troca de umas moedas. A Victória, essa tem porte digno, alguns de nós já se lançaram ao engate, mas ela troca-lhe as voltas.

Até há pouco tempo, toda esta gente - três homens, três mulheres e cinco crianças - dormiam no mesmo compartimento da morança. Com os ataques seguidos de há dias, o medo aumentou, o que se compreende, pois na mesma noite tiveram de pegar por duas vezes nas crianças e fugir para o abrigo rasgado na terra e coberto com cibes, tendo caído duas granadas muito perto da sua casa.

Na luta pela sobrevivência, decidiram passar a dormir no minúsculo abrigo, pondo lá dois pequenos colchões, tendo como companheiros lagartos, formigas, cobras, etc. Os dois velhos da família, por falta de lugar no abrigo, continuam a dormir na morança.

Um clima muito quente e húmido, a terra muito húmida, uma pequena abertura para entrar, a enorme quantidade de bichos, a urina das crianças, o suor dos corpos... são estas as condições desta família. Quantas famílias, quantas Júlias haverá por esta terra !?


Empada, 20 de Novembro de 1969

O Kebá (2) aparecia todos os dias na Enfermaria. É o nosso ajudante no tratamentos da população. Trata as pequenas feridas. Elas já sabem:
- Kebá põe mercuro ! - e ele põe.
- Kebá, parte quinino! - e ele vai buscar LM. Vão-se embora todos contentes.

Ao Almoço lá lhe trazemos uma cantina cheia de comida. É a nossa paga. Há dias deixou de aparecer. Estranho, mas como tem duas mulheres e vários filhos no mato, admiti que tivesse ido embora.

Ontem vi-o a carregar barricas de água, da fonte para o jardim do chefe de posto. Perguntei-lhe porque deixou de aparecer e fiquei horrorizado. Estava preso por não pagar o Imposto de Pé Descalço (3).

Vim para o Quartel e a minha revolta fez-me agir. Um quarto de hora depois estava a casa do Chefe de Posto cercada por militares armados de G3 a exigirem a libertação do Kebá.

Safou a situação o nosso capitão que, apercebendo-se dos acontecimentos, dirigiu-se ao local e conseguiu a libertação do homem. Como não desarmámos, pois queríamos que o bandido fosse castigado, foi-nos prometido pela capitão que ia fazer uma exposição a Bissau para que fosse retirado de Empada (4).

Acalmada a situação fiquei à espera do castigo, mas parece que me foi dada razão.


Empada, 26 de Novembro de 1969

Na semana passada os Paras fizeram ronco em Gandembel, no “carreiro da morte” , matando 10 e aprisionando um capitão cubano, ferido com uma rajada no braço.

Este confessou ser de origem cubana e estar na Guiné há cinco anos, mobilizado por Fidel Castro (5). Dirigia-se a Conakry para uma reunião com o comando turra. Cerca de duas horas antes tinha passado no mesmo local o Nino com as rampas de lançamento de mísseis.

Já no Hospital em Bissau, foi visitado e reconhecido pelas senhoras do MNF – Movimento Nacional Feminino. Vivia no Bairro da Ajuda, quase em frente do hospital, com a esposa e três filhos. Foi apanhado na sexta feira e tinha no bolso um bilhete do UDIB da terça feira anterior.

A febre e o fim da Comissão atingiu completamente toda a malta da companhia... Nota-se um grande nervosismo, por sentirem que ainda faltam dois meses (6).

Dizem que é costume o IN atacarem nos últimos tempos de comissão. A nós já nos deram recentemente um morto. Por isso a preocupação é enorme.


Empada, 24 de Dezembro de 1969

É Natal. No ar uma camada de cacimba que nos dificulta a visão. Ao longe o troar das armas, o ribombar dos canhões, lembram os sinos da paz e, pela sua insistência, recordam-nos que é Natal.

Então, o espírito, o coração, todo o nosso ser, sente o Natal. Não o Natal que vivemos na hora presente, preocupados com a morte que nos espreita pela boca de um canhão, atentos ao menos sinal de perigo, para de arma em posição de rajada fazermos frente ao Inimigo.

Sente-se o Natal de nossas casas, a paz dos nossos lares e sofre-se não propriamente por estarmos em guerra, mas porque nos lembramos dos nossos. O seu Natal, não é Natal, porque falta alguém querido, alguém que sente e vive o Natal e outra maneira, em circunstâncias muito difíceis. Eles nem sonham !

© José Teixeira (2006)

____________

Notas do autor

(1)Vd.post de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

(2) O Kebá passava o dia na Enfermaria. Não quis ser milícia, o que suponho se devia ao facto de ter 2 mulheres e vários filhos com o IN.

Conversámos várias vezes sobre este assunto. Disse-me que em tempos tinha deixado Empada e ido para o mato, localizou as mulheres e tentou convencê-las a virem com ele, mas estas não quiseram ou não as deixaram vir. Vivia este drama. Quando éramos atacados, ele mesmo dizia que não sabia se as suas mulheres estavam do outro lado.

Quando em 2005 tive o prazer de voltar a Empada, senti uma mão nas costas e alguém a perguntar-me se me lembrava dele. Olhei, o rosto dizia-me alguma coisa, mas o nome, esse, fora-se.
- Sou o Kebá.
Quantas histórias ali foram revividas. Imaginem o resto.

(3) Pelo que vim a saber era um pequeno (grande) imposto que toda a gente tinha de pagar, quer trabalhasse quer não, por isso lhe puseram o nome do Imposto do Pé Descalço.

(4) Tal veio a acontecer uns dias depois, ficando o Capitão na função de Chefe de Posto até à substituição.

(5) Esta não será, com certeza, a verdade (verdadeira) dos factos, mas foi assim que ma contaram. Estou apenas a transcrever o que escrevi na altura. Isso permitirá ajuizar como as mensagens eram passadas e eventualmente os factos deturpados por conveniência ou não.

(6) Na realidade, tivémos que esperar mais cinco meses...

Guiné 63/74 - DCXXII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (18): Empada, Novembro/Dezembro de 1969

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Emapada > 2005 > O reencontro do Zé Teixeira com o Keba (à esquerda)... À direita, o Xico Allen, com quem o Zé Teixeira viajou em 2005, e que também tinha estado em Empada, embora já nais tarde (1972/74). De óculos, e vestido de azul, o Braima, que foi ajudante de enfermeiro do Zé Teixeira.

© José Teixeira (2006)


XVIII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).




Empada, 16 Novembro de 1969

O Marinho Caixeiro Conceição morreu (1). Era querido e estimado por todos. Passava o dia a cantar a cantar a morte o surpreendeu, quando no ataque do dia 14 estava na retrete. Talvez porque estivesse a cantar, não ouviu as saídas nem os gritos de avisos dos colegas que iam tomar banho. Quando sentiu o primeiro rebentamento junto à caserna tentou fugir, mas já era tarde, uma das primeiras granadas rebentou no telhado e meteu-lhe alguns estilhaços no corpo - o que lhe perfurou a nuca foi fatal -, e ainda foi projectado contra a parede, aumentando os estragos.

Eram vinte e uma e trinta, quando começou. Utilizaram seis morteiros 82, treze lança roquetes, bazucas, morteiro 60 e, claro, a costureirinhas, algumas com balas tracejantes. Tiveram sorte na pontaria e conseguiram metê-las quase todas dentro do quartel e povoação. Só junto às casernas rebentaram oito granadas. Junto ao arame caíram manga delas.

Além do Conceição,que morreu, ficaram feridos o Açoreano e quatro nativos. Na tabanca da Fátima (prostituta) caíram duas, mas não houve azar, pois os camaradas que lá estavam já se tinham escapulido.

Foram perseguidos até ao fundo da pista, mas às duas da manhã voltaram, aproximaram-se mesmo do arame junto à pista. Felizmente, desta vez não causaram danos. Se desta vez a pontaria fosse idêntica à do primeiro ataque, teria sido uma catástrofe.

Guiné > Região do Cacheu > Antotinha, a sul do Ingoré > 1968 > O Zé Teixeira, no início da comissão, prestando assistência à população local.

© José Teixeira (2006)


Empada, 21 de Novembro de 1969

É uma família muito simpática. Ela, Bijagó, e ele, Cabo Verdeano. Têm quatro filhos: Marcos, Lucas, Júlia e Victória. Muito trabalhadores, aproveitam o terreno cultivável, na impossibilidade de se dedicarem à pesca, a sua profissão, por medo da guerra.

A Júlia está muito marcada pelo ambiente militar que a rodeia, tem até um filho de branco e creio que foi prostituta, em tempos, em Bissau. Tem três filhos todos de tenra idade e é uma tentação cá para a malta. A sua liberdade de linguagem é um dos factores para que qualquer homem se sinta tentado a persegui-la e receber as suas benesses, por troca de umas moedas. A Victória, essa tem porte digno, alguns de nós já se lançaram ao engate, mas ela troca-lhe as voltas.

Até há pouco tempo, toda esta gente - três homens, três mulheres e cinco crianças - dormiam no mesmo compartimento da morança. Com os ataques seguidos de há dias, o medo aumentou, o que se compreende, pois na mesma noite tiveram de pegar por duas vezes nas crianças e fugir para o abrigo rasgado na terra e coberto com cibes, tendo caído duas granadas muito perto da sua casa.

Na luta pela sobrevivência, decidiram passar a dormir no minúsculo abrigo, pondo lá dois pequenos colchões, tendo como companheiros lagartos, formigas, cobras, etc. Os dois velhos da família, por falta de lugar no abrigo, continuam a dormir na morança.

Um clima muito quente e húmido, a terra muito húmida, uma pequena abertura para entrar, a enorme quantidade de bichos, a urina das crianças, o suor dos corpos... são estas as condições desta família. Quantas famílias, quantas Júlias haverá por esta terra !?


Empada, 20 de Novembro de 1969

O Kebá (2) aparecia todos os dias na Enfermaria. É o nosso ajudante no tratamentos da população. Trata as pequenas feridas. Elas já sabem:
- Kebá põe mercuro ! - e ele põe.
- Kebá, parte quinino! - e ele vai buscar LM. Vão-se embora todos contentes.

Ao Almoço lá lhe trazemos uma cantina cheia de comida. É a nossa paga. Há dias deixou de aparecer. Estranho, mas como tem duas mulheres e vários filhos no mato, admiti que tivesse ido embora.

Ontem vi-o a carregar barricas de água, da fonte para o jardim do chefe de posto. Perguntei-lhe porque deixou de aparecer e fiquei horrorizado. Estava preso por não pagar o Imposto de Pé Descalço (3).

Vim para o Quartel e a minha revolta fez-me agir. Um quarto de hora depois estava a casa do Chefe de Posto cercada por militares armados de G3 a exigirem a libertação do Kebá.

Safou a situação o nosso capitão que, apercebendo-se dos acontecimentos, dirigiu-se ao local e conseguiu a libertação do homem. Como não desarmámos, pois queríamos que o bandido fosse castigado, foi-nos prometido pela capitão que ia fazer uma exposição a Bissau para que fosse retirado de Empada (4).

Acalmada a situação fiquei à espera do castigo, mas parece que me foi dada razão.


Empada, 26 de Novembro de 1969

Na semana passada os Paras fizeram ronco em Gandembel, no “carreiro da morte” , matando 10 e aprisionando um capitão cubano, ferido com uma rajada no braço.

Este confessou ser de origem cubana e estar na Guiné há cinco anos, mobilizado por Fidel Castro (5). Dirigia-se a Conakry para uma reunião com o comando turra. Cerca de duas horas antes tinha passado no mesmo local o Nino com as rampas de lançamento de mísseis.

Já no Hospital em Bissau, foi visitado e reconhecido pelas senhoras do MNF – Movimento Nacional Feminino. Vivia no Bairro da Ajuda, quase em frente do hospital, com a esposa e três filhos. Foi apanhado na sexta feira e tinha no bolso um bilhete do UDIB da terça feira anterior.

A febre e o fim da Comissão atingiu completamente toda a malta da companhia... Nota-se um grande nervosismo, por sentirem que ainda faltam dois meses (6).

Dizem que é costume o IN atacarem nos últimos tempos de comissão. A nós já nos deram recentemente um morto. Por isso a preocupação é enorme.


Empada, 24 de Dezembro de 1969

É Natal. No ar uma camada de cacimba que nos dificulta a visão. Ao longe o troar das armas, o ribombar dos canhões, lembram os sinos da paz e, pela sua insistência, recordam-nos que é Natal.

Então, o espírito, o coração, todo o nosso ser, sente o Natal. Não o Natal que vivemos na hora presente, preocupados com a morte que nos espreita pela boca de um canhão, atentos ao menos sinal de perigo, para de arma em posição de rajada fazermos frente ao Inimigo.

Sente-se o Natal de nossas casas, a paz dos nossos lares e sofre-se não propriamente por estarmos em guerra, mas porque nos lembramos dos nossos. O seu Natal, não é Natal, porque falta alguém querido, alguém que sente e vive o Natal e outra maneira, em circunstâncias muito difíceis. Eles nem sonham !

© José Teixeira (2006)

____________

Notas do autor

(1)Vd.post de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

(2) O Kebá passava o dia na Enfermaria. Não quis ser milícia, o que suponho se devia ao facto de ter 2 mulheres e vários filhos com o IN.

Conversámos várias vezes sobre este assunto. Disse-me que em tempos tinha deixado Empada e ido para o mato, localizou as mulheres e tentou convencê-las a virem com ele, mas estas não quiseram ou não as deixaram vir. Vivia este drama. Quando éramos atacados, ele mesmo dizia que não sabia se as suas mulheres estavam do outro lado.

Quando em 2005 tive o prazer de voltar a Empada, senti uma mão nas costas e alguém a perguntar-me se me lembrava dele. Olhei, o rosto dizia-me alguma coisa, mas o nome, esse, fora-se.
- Sou o Kebá.
Quantas histórias ali foram revividas. Imaginem o resto.

(3) Pelo que vim a saber era um pequeno (grande) imposto que toda a gente tinha de pagar, quer trabalhasse quer não, por isso lhe puseram o nome do Imposto do Pé Descalço.

(4) Tal veio a acontecer uns dias depois, ficando o Capitão na função de Chefe de Posto até à substituição.

(5) Esta não será, com certeza, a verdade (verdadeira) dos factos, mas foi assim que ma contaram. Estou apenas a transcrever o que escrevi na altura. Isso permitirá ajuizar como as mensagens eram passadas e eventualmente os factos deturpados por conveniência ou não.

(6) Na realidade, tivémos que esperar mais cinco meses...

09 março 2006

Guiné 63/74 - DCXXI: Os rios (e os lugares) da nossa memória (3): Geba, Undunduma (Carlos Marques dos Santos)

Post nº 621 (DCXXI)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > Pessoal do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 atravessando em coluna apeada a bolanha de Finete na margem direita do Rio Geba. A tabanca, em autodefesa, guarnecida pelo Pelotão de Milicia nº 102, é visível ao fundo. No primeiro plano, para além de municiador da Metralhadora Ligeira HK 21, Mamadú Uri Colubali (se não erro), vê-se o Fur Mil Reis e o 1º Cabo Branco (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).


© Humberto Reis (2006).


Texto do Carlos Marques dos Santos, ex-furriel miliciano da CART 2339 (Mansambo, 1968/69), afecta ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (1).

Guiné > Rio Geba, junto ao Xime > Travessia de canoa para o Enxalé (1969),

© Carlos Marques Santos (2005)


Guiné > Rio Geba > Cais (1969)

© Carlos Marques Santos (2005)

Luís:

1. O tema do rio Geba levou-me a ir repescar estas velhas fotos. A qualidade não é famosa, mas apesar de tudo é o rio Geba retratado.

E eu que estive muitas vezes perto dele, vigiando a passagem dos barcos vindos de Bissau. Finete, os seus mangais e cajueiros. A Bor e o macaréu. Som impressionante da água, em força, a lutar contra aquilo que era natural.

Os rios correm para o mar. Este não! Ciclicamente corre contra o seu rumo natural. E as suas margens enlameadas, onde, enterrados até à cintura, recolhíamos os tão saborosos camarões.

Guiné > Zona Leste > Rio Undunduma, afluente do Rio Geba > 1969 >
© Carlos Marques Santos (2005)


Guiné > Zona leste > Rio Undunduma > Pôr do sol (1969)

© Carlos Marques Santos (2005)

2. Já agora e porque não, outro pequeno rio, o Undunduma, também motivo de memórias (1).

O nascer e o pôr do sol serão inesquecíveis, apesar das condições em que vivemos neste cenário.

Memórias de um tempo vivido e que passou.

Um abraço.

CMS

_______

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de

4 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCVIII: Os dias felizes na ponte do Rio Undunduma (CCAÇ 12)

4 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXIX: Os Solitários da CART 2339 na Ponte do Rio Undunduma e em Fá

3 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXVI: Herr Spínola na ponte do Rio Undunduma


Guiné 63/74 - DCXXI: Os rios (e os lugares) da nossa memória (3): Geba, Udunduma (Carlos Marques dos Santos)

Post nº 621 (DCXXI)




Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > Pessoal do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 atravessando em coluna apeada a bolanha de Finete na margem direita do Rio Geba. A tabanca, em autodefesa, guarnecida pelo Pelotão de Milicia nº 102, é visível ao fundo. No primeiro plano, para além de municiador da Metralhadora Ligeira HK 21, Mamadú Uri Colubali (se não erro), vê-se o Fur Mil Reis e o 1º Cabo Branco (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).


Texto do Carlos Marques dos Santos, ex-furriel miliciano da CART 2339 (Mansambo, 1968/69), afecta ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (1).


Guiné > Rio Geba, junto ao Xime > Travessia de canoa para o Enxalé (1969),

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados



Guiné > Rio Geba > Cais (1969)

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados

Luís:

1. O tema do rio Geba levou-me a ir repescar estas velhas fotos. A qualidade não é famosa, mas apesar de tudo é o rio Geba retratado.

E eu que estive muitas vezes perto dele, vigiando a passagem dos barcos vindos de Bissau. Finete, os seus mangais e cajueiros. A Bor e o macaréu. Som impressionante da água, em força, a lutar contra aquilo que era natural.

Os rios correm para o mar. Este não! Ciclicamente corre contra o seu rumo natural. E as suas margens enlameadas, onde, enterrados até à cintura, recolhíamos os tão saborosos camarões.


Guiné > Zona Leste > Rio Udunduma, afluente do Rio Geba > 1969 >

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados




Guiné > Zona leste > Rio Udunduma > Pôr do sol (1969)

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados


2. Já agora e porque não, outro pequeno rio, o Udunduma, também motivo de memórias (1).

O nascer e o pôr do sol serão inesquecíveis, apesar das condições em que vivemos neste cenário.

Memórias de um tempo vivido e que passou.

Um abraço.
CMS
_______

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de

4 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCVIII: Os dias felizes na ponte do Rio Udunduma (CCAÇ 12)

4 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXIX: Os Solitários da CART 2339 na Ponte do Rio Udunduma e em Fá

3 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXVI: Herr Spínola na ponte do Rio Udunduma

Guiné 63/74 - DCXX: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (17): Este gajo estava mesmo apanhado

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Um militar da CCAÇ 2381 - Os Maiorais na fase final da sua comissão (1969/70)

© José Teixeira (2006)



Luís:

A paz, a felicidade e o amor estejam contigo.

Junto a última parte do meu diário. Coisas muito pessoais ficaram do lado de cá. No entanto vão algumas partes reflexo de um ser que nunca deixou de pensar que talvez não tenham interesse em fazer passar no Blogue. Deixo ao teu critério.

Segue também um pequeno texto sobre o que está neste momento na berra: a sexualidade em tempo de guerra. É mais uma brasa para a fogueira que merece ser alimentada, pois muita coisa há a dizer.

Zé Teixeira


XVII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Recorde-se os principais passos do nosso camarada Zé:

"Fui enfermeiro de campanha na CCAÇ 2381. Fui para a Guiné em fins de Abril de 1968 e regressei em Maio de 1970. Estacionei cerca de 3 meses em Ingoré, no Norte, onde a companhia fez o seu treino operacional.

"Seguimos depois para Buba e fixámo-nos em Quebo (Aldeia Formosa), [no final de Julho de 1968]." Aí a CCAÇ 23881 teve como missão fazer escoltas de segurança às colunas logísticas de abastecimento entre Aldeia Formosa/Buba e Aldeia Formosa/Gandembel, ao mesmo tempo que garantia a autodefesa de Aldeia Formosa, Mampatá e Chamarra.

"Regressámos a Buba, em Janeiro de 1969, para servirmos de guarda às equipas de Engenharia que construiram a estrada Buba/Aldeia Formosa. Face ao desgaste físico e emocional fomos enviados, a partir de [Maio de] 1969, para Empada onde vivemos os últimos meses de Comissão [até ao regresso em Maio de 1970]".

O Diário do Zé Teixeira começou a ser publicado no nosso blogue no dia 1 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDX: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (1): Buba, Julho de 1968


Empada, 19 de Setembro de 1969

Preciso de desabafar, de me abrir com alguém. Dentro de mim existe uma tremenda confusão. Quero fugir deste ambiente bélico, em que só se pensa na sobrevivência. Em que se mata para não morrer. Em que não se faz nada a não ser estar atento para ouvir uma possível saída de morteiro, que pode ser a nossa desgraça. Em que se parte ao desconhecido numa terra vermelha, estranha, inóspita, que esconde armadilhas fatais.

Sou inocente, nesta guerra que me recuso a fazer.

Procuro na solidão e no estudo, melhor na simples leitura, pois não consigo concentrar-me, as forças que me faltam, já que ninguém consegue compreender o meu estado de espírito. Também não encontro ninguém com quem possa conversar estas coisas. Ninharias, dirão.

Em cada dia que passa a confiança em mim mesmo vai-se abaixo enquanto sinto crescer dentro de mim um estado de espírito de revolta contra todos os homens que fomentam as guerras. Queria ir a Bissau fazer história mas não sou capaz.

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Restos de abrigos construídos nos antigos quartos dos furréis da CCAÇ 2381, aqui aquartelados em 1969.

© José Teixeira (2006)


Empada, 24 de Setembro de 1969

O IN ainda não decidiu deixar-me em paz. No dia 20 à noite apareceram por esta terra. Aliás, no dia dezoito também cá estiveram, mas foi de muito longe. Só notei porque o 81 funcionou, para que não se entusiasmassem. O ataque do dia 20 foi fraco, talvez o mais fraco ataque que sofri até à data e me fez correr para o abrigo. Poucas granadas rebentaram e caíram todas fora do arame. Também utilizaram a costureirinha, mas sem quaisquer efeitos.
Também fizeram duas visitas a Buba. Apenas assustaram.

Empada, 16 de Outubro de 1969

Do pelotão que está em Buba chegam novidades. Há dias houve por lá um terrível ataque com tentativa de assalto. Atacaram do sítio habitual do lado do rio com 10 Canhões s/r, enquanto do lado da pista fazia o desenvolvimento do assalto, procurando apanhar a tropa desprevenida.

Segundo dizem os meus colegas eram mais de duzentos, a avançarem em arco para que se as nossas forças saíssem as envolverem. Felizmente estava emboscado um Pelotão que os detectou. Parece que foi um tremendo fogachal, enquanto os Fuzas perseguiam os que atacaram do lado do rio que pretendiam reforçar as forças de assalto.

Ao fazer-se o reconhecimento, foi encontrado um rádio, sinal de que o ataque foi bem comandado e o fogo controlado por sentinelas avançadas. Foram descobertas e desenterradas 180 granadas de canhão s/recuo. Foi também ouvido ruído de viaturas.

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Antigo abrigo de morteiro construído pela CCAÇ 2381, na fase final da sua comissão (1969/70)

© José Teixeira (2006)


Quando os Fuzas voltaram ao quartel, foram seguidos pelo IN que os atacou muito perto de Buba. Assim caíram entre dois fogos, o do IN e o de Buba que reagiu a um possível ataque sem saber que o fogo era destinado ao grupo de fuzas..

No dia anterior tinha havido uma coluna a Nhala ,onde apenas foi encontrada uma A/P com dispositivo anti-levantamento eléctrico que felizmente não funcionou por ter as pilhas gastas.

Nesta mina havia uma mensagem escrita: "Esta é para Alferes Gonçalves". Infelizmente este furriel (e não alferes) já está em Lisboa devido a um estilhaço que apanhou noutro ataque a Buba.

Há tempos apareceu aqui por Empada um turra. Deu várias informações e foi para Buba integrado no Grupo de fuzas, para fazer de guia. Parece que conseguiu fugir levando uma G3 (1).

Empada, 26 de Outubro de 1969

Vejo-te, nesta manhã radiosa, em que o sol parece sorrir enamorado. A brisa bate de leve no teu rosto, ciumenta do teu olhar. Os pássaros, nos seus chilreios cantam hinos de louvor à tua beleza. Até as pedras da rua se sentem orgulhosas por te servirem de trono.

Eu vejo-te passar através do meu espírito, do meu coração enamorado. Sinto ciúmes de tudo o que te rodeia, de tudo o que amas, pois é amor que me roubas. Quem me dera ter-te a meu lado e de mãos dadas, cabeça erguida, altivos, felizes e confiantes, palmilharmos o caminho da vida . . .

Ontem procedeu-se à rendição do Pelotão estacionado em Buba. Parece que Sector está em brasa. Durante um mês foram atacados sete vezes. Num ataque de tiro ao alvo, meteram nove canhoadas numa parede de caserna . . sem ninguém. Que sorte.

_______

Notas do autor:

(1) A história foi muito mal contada na altura pelos Fuzas. No meu regresso em fim de Comissão vinha também no Niassa um fuza que tinha sofrido um castigo e foi expulso da Guiné. Contou-me este, que o tal Turra não fugiu. Um dos Fuzas tinha perdido a G3 e era preciso justificá-la. Por outro lado as suas informações eram a causa para eventuais futuras acções de combate, com assaltos a bases do IN, o que era sempre arriscado. A solução foi amarrar o gajo e atirá-lo ao rio fazendo-o desaparecer e passando a informação que tinha conseguido fugir.


(2) Comentário do autor em 2006: "Este gajo estava mesmo apanhado"...

Guiné 63/74 - DCXX: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (17): Este gajo estava mesmo apanhado

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Um militar da CCAÇ 2381 - Os Maiorais na fase final da sua comissão (1969/70)

© José Teixeira (2006)



Luís:

A paz, a felicidade e o amor estejam contigo.

Junto a última parte do meu diário. Coisas muito pessoais ficaram do lado de cá. No entanto vão algumas partes reflexo de um ser que nunca deixou de pensar que talvez não tenham interesse em fazer passar no Blogue. Deixo ao teu critério.

Segue também um pequeno texto sobre o que está neste momento na berra: a sexualidade em tempo de guerra. É mais uma brasa para a fogueira que merece ser alimentada, pois muita coisa há a dizer.

Zé Teixeira


XVII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Recorde-se os principais passos do nosso camarada Zé:

"Fui enfermeiro de campanha na CCAÇ 2381. Fui para a Guiné em fins de Abril de 1968 e regressei em Maio de 1970. Estacionei cerca de 3 meses em Ingoré, no Norte, onde a companhia fez o seu treino operacional.

"Seguimos depois para Buba e fixámo-nos em Quebo (Aldeia Formosa), [no final de Julho de 1968]." Aí a CCAÇ 23881 teve como missão fazer escoltas de segurança às colunas logísticas de abastecimento entre Aldeia Formosa/Buba e Aldeia Formosa/Gandembel, ao mesmo tempo que garantia a autodefesa de Aldeia Formosa, Mampatá e Chamarra.

"Regressámos a Buba, em Janeiro de 1969, para servirmos de guarda às equipas de Engenharia que construiram a estrada Buba/Aldeia Formosa. Face ao desgaste físico e emocional fomos enviados, a partir de [Maio de] 1969, para Empada onde vivemos os últimos meses de Comissão [até ao regresso em Maio de 1970]".

O Diário do Zé Teixeira começou a ser publicado no nosso blogue no dia 1 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDX: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (1): Buba, Julho de 1968


Empada, 19 de Setembro de 1969

Preciso de desabafar, de me abrir com alguém. Dentro de mim existe uma tremenda confusão. Quero fugir deste ambiente bélico, em que só se pensa na sobrevivência. Em que se mata para não morrer. Em que não se faz nada a não ser estar atento para ouvir uma possível saída de morteiro, que pode ser a nossa desgraça. Em que se parte ao desconhecido numa terra vermelha, estranha, inóspita, que esconde armadilhas fatais.

Sou inocente, nesta guerra que me recuso a fazer.

Procuro na solidão e no estudo, melhor na simples leitura, pois não consigo concentrar-me, as forças que me faltam, já que ninguém consegue compreender o meu estado de espírito. Também não encontro ninguém com quem possa conversar estas coisas. Ninharias, dirão.

Em cada dia que passa a confiança em mim mesmo vai-se abaixo enquanto sinto crescer dentro de mim um estado de espírito de revolta contra todos os homens que fomentam as guerras. Queria ir a Bissau fazer história mas não sou capaz.

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Restos de abrigos construídos nos antigos quartos dos furréis da CCAÇ 2381, aqui aquartelados em 1969.

© José Teixeira (2006)


Empada, 24 de Setembro de 1969

O IN ainda não decidiu deixar-me em paz. No dia 20 à noite apareceram por esta terra. Aliás, no dia dezoito também cá estiveram, mas foi de muito longe. Só notei porque o 81 funcionou, para que não se entusiasmassem. O ataque do dia 20 foi fraco, talvez o mais fraco ataque que sofri até à data e me fez correr para o abrigo. Poucas granadas rebentaram e caíram todas fora do arame. Também utilizaram a costureirinha, mas sem quaisquer efeitos.
Também fizeram duas visitas a Buba. Apenas assustaram.

Empada, 16 de Outubro de 1969

Do pelotão que está em Buba chegam novidades. Há dias houve por lá um terrível ataque com tentativa de assalto. Atacaram do sítio habitual do lado do rio com 10 Canhões s/r, enquanto do lado da pista fazia o desenvolvimento do assalto, procurando apanhar a tropa desprevenida.

Segundo dizem os meus colegas eram mais de duzentos, a avançarem em arco para que se as nossas forças saíssem as envolverem. Felizmente estava emboscado um Pelotão que os detectou. Parece que foi um tremendo fogachal, enquanto os Fuzas perseguiam os que atacaram do lado do rio que pretendiam reforçar as forças de assalto.

Ao fazer-se o reconhecimento, foi encontrado um rádio, sinal de que o ataque foi bem comandado e o fogo controlado por sentinelas avançadas. Foram descobertas e desenterradas 180 granadas de canhão s/recuo. Foi também ouvido ruído de viaturas.

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Antigo abrigo de morteiro construído pela CCAÇ 2381, na fase final da sua comissão (1969/70)

© José Teixeira (2006)


Quando os Fuzas voltaram ao quartel, foram seguidos pelo IN que os atacou muito perto de Buba. Assim caíram entre dois fogos, o do IN e o de Buba que reagiu a um possível ataque sem saber que o fogo era destinado ao grupo de fuzas..

No dia anterior tinha havido uma coluna a Nhala ,onde apenas foi encontrada uma A/P com dispositivo anti-levantamento eléctrico que felizmente não funcionou por ter as pilhas gastas.

Nesta mina havia uma mensagem escrita: "Esta é para Alferes Gonçalves". Infelizmente este furriel (e não alferes) já está em Lisboa devido a um estilhaço que apanhou noutro ataque a Buba.

Há tempos apareceu aqui por Empada um turra. Deu várias informações e foi para Buba integrado no Grupo de fuzas, para fazer de guia. Parece que conseguiu fugir levando uma G3 (1).

Empada, 26 de Outubro de 1969

Vejo-te, nesta manhã radiosa, em que o sol parece sorrir enamorado. A brisa bate de leve no teu rosto, ciumenta do teu olhar. Os pássaros, nos seus chilreios cantam hinos de louvor à tua beleza. Até as pedras da rua se sentem orgulhosas por te servirem de trono.

Eu vejo-te passar através do meu espírito, do meu coração enamorado. Sinto ciúmes de tudo o que te rodeia, de tudo o que amas, pois é amor que me roubas. Quem me dera ter-te a meu lado e de mãos dadas, cabeça erguida, altivos, felizes e confiantes, palmilharmos o caminho da vida . . .

Ontem procedeu-se à rendição do Pelotão estacionado em Buba. Parece que Sector está em brasa. Durante um mês foram atacados sete vezes. Num ataque de tiro ao alvo, meteram nove canhoadas numa parede de caserna . . sem ninguém. Que sorte.

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Notas do autor:

(1) A história foi muito mal contada na altura pelos Fuzas. No meu regresso em fim de Comissão vinha também no Niassa um fuza que tinha sofrido um castigo e foi expulso da Guiné. Contou-me este, que o tal Turra não fugiu. Um dos Fuzas tinha perdido a G3 e era preciso justificá-la. Por outro lado as suas informações eram a causa para eventuais futuras acções de combate, com assaltos a bases do IN, o que era sempre arriscado. A solução foi amarrar o gajo e atirá-lo ao rio fazendo-o desaparecer e passando a informação que tinha conseguido fugir.


(2) Comentário do autor em 2006: "Este gajo estava mesmo apanhado"...

Guiné 63/74 - DCXIX: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (1): O nosso vagomestre Cabral


1. Começo por agradecer ao Paulo Raposo a gentileza do envio, pelo correio, de um documento, ilustrado, com a sua história na Guiné, que é também a história da CCAÇ 2405 (Mansoa, Galomaro, Dulombi...) do BCCAÇ 2852 (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca, 1968/70), um relato do seu envolvimento pessoal e militar, com a sua visão (muito própia e assumida) das coisas, com as suas alegrias e tristezas (a morte do seu pai, por exemplo, durante a comissão; o desastre no Rio Corubal, no Cheche...).

É um documento notável que eu gostaria de poder partilhar com o resto da tertúlia, se ele para tanto me der autorização para tal... O Paulo esteve em Madina do Boé, no Fiofioli, conheceu camaradas que eu, o Humberto, o Tony Levezinho, o Fernandes e o Jorge Cabral também conhecemos, em Bambadinca, como o Beja Santos... O Paulo foi alferes miliciano, com a especialidade de minas e armadilhas, na CCAÇ 2405, sendo portanto camarada de outros dois membros da nossa tertúlia, o Victor David e Rui Felício (1) .

Por sua vez, o Rui, já o sabemos, é um excelente contador de estórias. O Paulo mandou-te também cópia de várias dessas estórias, que são deliciosas, e a que eu vou chamar estórias de Dulombi. Publica-se hoje a primeira dessas estórias, com a devida vénia e um grande abraço aos camaradas de Dulombi e Galomaro: Paulo, Victor e Rui...


2. O nosso vagomestre Cabral (por Rui Felício)

O Natal aproximava-se…

Antes da data prevista, chegara-nos um presente inesperado! Um periquito….

O furriel Cabral foi-nos mandado para substituir o furriel vagomestre, uns meses antes falecido em acidente de viação na estrada de Galomaro-Bafatá numa viagem de reabastecimento de viveres à nossa Companhia…

O Cabral era uma jóia de pessoa, simpatiquíssimo, um tanto ingénuo e crédulo, sempre bem disposto e que rapidamente granjeou a estima de todos.

Natural de Bissau, de etnia pepel, um verdadeiro e retinto preto da Guiné…

Estudara em Lisboa, e, incorporado no exército, fez o curso de sargentos milicianos até que foi promovido a furriel e mobilizado, em rendição individual, para a Guiné, sua terra natal…

Calhou-lhe em sorte (ou azar…), ser destacado para a nossa Companhia numa altura em que já tinhamos cumprido um ano e meio de comissão.

Portanto já éramos, claramente, velhinhos experientes, com tudo o que de bom e de mau isso significava.

Ora um periquito no seio de tantos velhinhos era coisa que prometia animar a rotina e que não se podia desperdiçar.

O Sargento Vargas, que já tinha feito uma comissão em Angola como furriel miliciano e que metera o chico no fim da mesma, combinou pregar uma partida ao Cabral, de conluio com os seus camaradas (furriéis Veiga, Ribas, Trombinhas, Rebelo e muitos outros… ).

Deu conhecimento disso aos alferes e explicou-lhes o plano.

O cabo Xico, responsável pelo bar da messe conjunta de oficiais e sargentos, foi avisado que depois de jantar lhe seria pedida uma rodada de aniz escarchado, bebida incolor, em tudo semelhante à água, excepto no sabor muito doce e no grau alcoólico, como é evidente.

E o cabo deveria satisfazer o pedido colocando à frente de cada um dos presentes sentados à mesa, um cálice cheio da referida bebida….

Só que…(!)… apenas o cálice do furriel Cabral deveria conter aniz! Todos os restantes seriam cheios com água……..

E assim foi feito…

Sempre que os comparsas engoliam os repectivos cálices, alguém se prontificava a pagar mais uma rodada para todos…. E o cabo Xico lá ia levantando os cálices trazendo-os de novo cheios, um com aniz para o Cabral e um para cada um dos restantes, com água…

O Cabral foi perdendo a timidez, ganhando alegria, e com a voz entaramelada era já ele próprio que ordenava ao cabo Xico:

- Mais uma ( hic.. ) rodada que pago eu agora ( hic… ), se fachabôri, rrr…rápido e com ( hic…) bons modos! Hic..hic…
E gargalhava sem ele próprio perceber a razão de tão súbita e inusitada alegria….

Muitas rodadas depois, o Sargento Vargas, resolveu acabar por ali com a brincadeira, receoso de que o Cabral não resistisse muito mais aos efeitos de tanto aniz…e aconselhou a que todos fossem para a rua tomar o ar fresco da noite…

Quem não estava muito pelos ajustes era o Carbral que queria beber mais um cálice… Confessava ser a primeira vez que tinha bebido aniz e que nunca sonhara que fosse uma bebida tão deliciosamente doce…

E intimou o cabo Xico, socorrendo-se de toda a autoridade que as suas divisas lhe conferiam:

- Ou trazes mais uma ( hic… ) rodada ou levas uma ( hic… ) porrada!... Escolhe!

Como o cabo Xico, por indicação do Sargento Vargas, não cumprisse a ordem, o Cabral deu um impulso para se levantar e para coagir o Xico a cumprir a ordem.

Mas o peso do aniz foi mais forte que o impulso… e o Cabral caiu de borco no chão …inanimado!

O furriel enfermeiro Ribas, ali presente, apercebeu-se, primeiro que todos, da gravidade da situação e foi rápidamente buscar uma injecção de coramina que de imediato ministrou no corpo inanimado do Cabral…

Alguns segundos depois o Cabral retomava os sentidos e foi ajudado a dirigir-se ao seu abrigo onde o deitaram e o adormeceram….

Entre risos e alguns suspiros de alivio por a brincadeira não ter resultado em tragédia, todos se dirigiram para os respectivos abrigos, remoendo as peripécias do sucedido…

A noite passou…

E o alvorecer, marcado pelo som ritmado dos pilões a descascar o arroz e pelas orações matinais dos homens grandes da tabanca, foi acordando os militares que, a pouco e pouco começavam a sua azáfama diária.

Uns a irem buscar água para abastecer os diversos bidons espalhados pelo aquartelamento, transformados em reservatórios, os das transmissões e da secretaria para os respectivos locais de trabalho e os operacionais em preparação do próximo patrulhamento ou na limpeza das armas.

Na messe, alguns alferes, sargentos e furriéis matavam o bicho matinal e recordavam as cenas da noite anterior e, especialmente, reviviam os pormenores da bebedeira do Cabral.

Com os olhos encovados, ar de ressaca ainda mal curada, e alguma vergonha pelo sucedido, surge o furriel Cabral, que com um sorriso amarelo cumprimentou os presentes:

- Bom dia!

Quase em coro, com um largo sorriso, os presentes retribuiram:

- Bom dia pá! Passaste bem a noite?

- Nem me lembro bem…. Só sei que estou com uma sede terrivel.. e umas náuseas e dor de cabeça insuportáveis….- retorquiu o Cabral

E continuou:

- Mas já falei com o Ribas e ele diz que isso é natural e que mais umas horas tudo voltará ao normal...

E, ainda confuso, perguntou:

- Quantos anizes a gente bebeu ontem?... Eu acho que até 15 contei.. mas depois a minha memória não tem mais nada registado… Vocês contaram-nos ?... O cabo Xico deve ter tomado nota, com certeza….

O Xico, atrás do balcão, matreiro, antecipou-se na resposta:

- Apontei 17, meu furriel, e dessas rodadas, 3 são da sua conta… Logo que puder, agradeço-lhe que salde a dívida….

E o Cabral, pressuroso, puxando da carteira:

- Eh pá, desculpa lá… Vamos a contas… Eu ontem nem me preocupei com isso…

O Ribas, ali presente é que atalhou o diálogo:

- Nada disso, tu apanhaste a bebedeira, mas quem paga somos nós, fica tranquilo…

- Há uma coisa que me tem metralhado o cérebro desde que acordei – confidenciou o Cabral…

E continuou:

- Sei que de todos nós, o único que realmente se embebedou a sério fui eu… Reparei, segundo me lembro, que vocês todos não aparentavam estar tão mal como eu...pelo contrário…

Os circunstantes mordiam o riso, mas tentavam manter a compostura para não denunciarem toda a tramóia.

E deixaram o Cabral continuar o seu devaneio:

- Sou forçado a concluir que branco aguenta vinho como o caraças!

Resposta imediata do Vargas:

- Claro.. há diferenças entre brancos e pretos… Essa é uma delas: a capacidade de aguentar a bebida…

E perante o rebentar de gargalhadas dos presentes, incapazes de se conterem por mais tempo, sentenciou:

- Por alguma razão somos brancos! Já devias ter compreendido isso!

[Abro um parentesis para garantir que neste diálogo não há o menor resquício de racismo! O à vontade com o que o Vargas assim falou só se explica exactamente porque não havia racismo entre nós. Se o houvesse, penso que jamais teria sido dito de uma forma tão inocent]

EPÍLOGO

Durante vários dias o segredo manteve-se e o Cabral devia continuar a matutar se de facto existiam diferenças fisicas e morfológicas entre um branco e um preto, que justificassem tal diferença na capacidade de aguentar bebedeiras.

Descansámo-lo quando, um certo dia, o Ribas se prontificou a contar-lhe a verdade Que o Cabral aceitou com a maior desportivismo! Era de facto uma jóia de pessoa…

Vim a encontrá-lo uns anos mais tarde em Lisboa, por mero acaso, e perguntei-lhe o que fazia na Grande Tabanca.

Disse-me que cursava Economia para depois regressar à Guiné e colaborar na consrução do seu País independente.

Soube que, passados poucos anos, já licenciado, morreu de doença, em Bissau, por falta de assistência médica, medicamentosa e hospitalar…

Como a dele, também a ilusão de muitos outros guineenses, bem intencionados, que se deixaram enganar pelos ineptos e corruptos politicos que invadiram o poder daquela bela terra… Que a têm continuadamente destruido, em prol das suas ambições e do seu nepotismo!

Mas enfim.. A terra é deles.. Centremos as nossas preocupações em Portugal…

Nesta nossa terra que cá vai andando… cantando e rindo… umas vezes para os lados, outras para trás e poucas , muito poucas vezes, para a frente…

Rui Felício

DULOMBI
CCAÇ 2405
Ex-Alf Mil Inf

______________

Nota de L. G.

(1) Vd post de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXV: Paulo Raposo e Rui Felício, dois novos camaradas (CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)

Guiné 63/74 - DCXIX: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (1): O nosso vagomestre Cabral


1. Começo por agradecer ao Paulo Raposo a gentileza do envio, pelo correio, de um documento, ilustrado, com a sua história na Guiné, que é também a história da CCAÇ 2405 (Mansoa, Galomaro, Dulombi...) do BCCAÇ 2852 (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca, 1968/70), um relato do seu envolvimento pessoal e militar, com a sua visão (muito própia e assumida) das coisas, com as suas alegrias e tristezas (a morte do seu pai, por exemplo, durante a comissão; o desastre no Rio Corubal, no Cheche...).

É um documento notável que eu gostaria de poder partilhar com o resto da tertúlia, se ele para tanto me der autorização para tal... O Paulo esteve em Madina do Boé, no Fiofioli, conheceu camaradas que eu, o Humberto, o Tony Levezinho, o Fernandes e o Jorge Cabral também conhecemos, em Bambadinca, como o Beja Santos... O Paulo foi alferes miliciano, com a especialidade de minas e armadilhas, na CCAÇ 2405, sendo portanto camarada de outros dois membros da nossa tertúlia, o Victor David e Rui Felício (1) .

Por sua vez, o Rui, já o sabemos, é um excelente contador de estórias. O Paulo mandou-te também cópia de várias dessas estórias, que são deliciosas, e a que eu vou chamar estórias de Dulombi. Publica-se hoje a primeira dessas estórias, com a devida vénia e um grande abraço aos camaradas de Dulombi e Galomaro: Paulo, Victor e Rui...


2. O nosso vagomestre Cabral (por Rui Felício)

O Natal aproximava-se…

Antes da data prevista, chegara-nos um presente inesperado! Um periquito….

O furriel Cabral foi-nos mandado para substituir o furriel vagomestre, uns meses antes falecido em acidente de viação na estrada de Galomaro-Bafatá numa viagem de reabastecimento de viveres à nossa Companhia…

O Cabral era uma jóia de pessoa, simpatiquíssimo, um tanto ingénuo e crédulo, sempre bem disposto e que rapidamente granjeou a estima de todos.

Natural de Bissau, de etnia pepel, um verdadeiro e retinto preto da Guiné…

Estudara em Lisboa, e, incorporado no exército, fez o curso de sargentos milicianos até que foi promovido a furriel e mobilizado, em rendição individual, para a Guiné, sua terra natal…

Calhou-lhe em sorte (ou azar…), ser destacado para a nossa Companhia numa altura em que já tinhamos cumprido um ano e meio de comissão.

Portanto já éramos, claramente, velhinhos experientes, com tudo o que de bom e de mau isso significava.

Ora um periquito no seio de tantos velhinhos era coisa que prometia animar a rotina e que não se podia desperdiçar.

O Sargento Vargas, que já tinha feito uma comissão em Angola como furriel miliciano e que metera o chico no fim da mesma, combinou pregar uma partida ao Cabral, de conluio com os seus camaradas (furriéis Veiga, Ribas, Trombinhas, Rebelo e muitos outros… ).

Deu conhecimento disso aos alferes e explicou-lhes o plano.

O cabo Xico, responsável pelo bar da messe conjunta de oficiais e sargentos, foi avisado que depois de jantar lhe seria pedida uma rodada de aniz escarchado, bebida incolor, em tudo semelhante à água, excepto no sabor muito doce e no grau alcoólico, como é evidente.

E o cabo deveria satisfazer o pedido colocando à frente de cada um dos presentes sentados à mesa, um cálice cheio da referida bebida….

Só que…(!)… apenas o cálice do furriel Cabral deveria conter aniz! Todos os restantes seriam cheios com água……..

E assim foi feito…

Sempre que os comparsas engoliam os repectivos cálices, alguém se prontificava a pagar mais uma rodada para todos…. E o cabo Xico lá ia levantando os cálices trazendo-os de novo cheios, um com aniz para o Cabral e um para cada um dos restantes, com água…

O Cabral foi perdendo a timidez, ganhando alegria, e com a voz entaramelada era já ele próprio que ordenava ao cabo Xico:

- Mais uma ( hic.. ) rodada que pago eu agora ( hic… ), se fachabôri, rrr…rápido e com ( hic…) bons modos! Hic..hic…
E gargalhava sem ele próprio perceber a razão de tão súbita e inusitada alegria….

Muitas rodadas depois, o Sargento Vargas, resolveu acabar por ali com a brincadeira, receoso de que o Cabral não resistisse muito mais aos efeitos de tanto aniz…e aconselhou a que todos fossem para a rua tomar o ar fresco da noite…

Quem não estava muito pelos ajustes era o Carbral que queria beber mais um cálice… Confessava ser a primeira vez que tinha bebido aniz e que nunca sonhara que fosse uma bebida tão deliciosamente doce…

E intimou o cabo Xico, socorrendo-se de toda a autoridade que as suas divisas lhe conferiam:

- Ou trazes mais uma ( hic… ) rodada ou levas uma ( hic… ) porrada!... Escolhe!

Como o cabo Xico, por indicação do Sargento Vargas, não cumprisse a ordem, o Cabral deu um impulso para se levantar e para coagir o Xico a cumprir a ordem.

Mas o peso do aniz foi mais forte que o impulso… e o Cabral caiu de borco no chão …inanimado!

O furriel enfermeiro Ribas, ali presente, apercebeu-se, primeiro que todos, da gravidade da situação e foi rápidamente buscar uma injecção de coramina que de imediato ministrou no corpo inanimado do Cabral…

Alguns segundos depois o Cabral retomava os sentidos e foi ajudado a dirigir-se ao seu abrigo onde o deitaram e o adormeceram….

Entre risos e alguns suspiros de alivio por a brincadeira não ter resultado em tragédia, todos se dirigiram para os respectivos abrigos, remoendo as peripécias do sucedido…

A noite passou…

E o alvorecer, marcado pelo som ritmado dos pilões a descascar o arroz e pelas orações matinais dos homens grandes da tabanca, foi acordando os militares que, a pouco e pouco começavam a sua azáfama diária.

Uns a irem buscar água para abastecer os diversos bidons espalhados pelo aquartelamento, transformados em reservatórios, os das transmissões e da secretaria para os respectivos locais de trabalho e os operacionais em preparação do próximo patrulhamento ou na limpeza das armas.

Na messe, alguns alferes, sargentos e furriéis matavam o bicho matinal e recordavam as cenas da noite anterior e, especialmente, reviviam os pormenores da bebedeira do Cabral.

Com os olhos encovados, ar de ressaca ainda mal curada, e alguma vergonha pelo sucedido, surge o furriel Cabral, que com um sorriso amarelo cumprimentou os presentes:

- Bom dia!

Quase em coro, com um largo sorriso, os presentes retribuiram:

- Bom dia pá! Passaste bem a noite?

- Nem me lembro bem…. Só sei que estou com uma sede terrivel.. e umas náuseas e dor de cabeça insuportáveis….- retorquiu o Cabral

E continuou:

- Mas já falei com o Ribas e ele diz que isso é natural e que mais umas horas tudo voltará ao normal...

E, ainda confuso, perguntou:

- Quantos anizes a gente bebeu ontem?... Eu acho que até 15 contei.. mas depois a minha memória não tem mais nada registado… Vocês contaram-nos ?... O cabo Xico deve ter tomado nota, com certeza….

O Xico, atrás do balcão, matreiro, antecipou-se na resposta:

- Apontei 17, meu furriel, e dessas rodadas, 3 são da sua conta… Logo que puder, agradeço-lhe que salde a dívida….

E o Cabral, pressuroso, puxando da carteira:

- Eh pá, desculpa lá… Vamos a contas… Eu ontem nem me preocupei com isso…

O Ribas, ali presente é que atalhou o diálogo:

- Nada disso, tu apanhaste a bebedeira, mas quem paga somos nós, fica tranquilo…

- Há uma coisa que me tem metralhado o cérebro desde que acordei – confidenciou o Cabral…

E continuou:

- Sei que de todos nós, o único que realmente se embebedou a sério fui eu… Reparei, segundo me lembro, que vocês todos não aparentavam estar tão mal como eu...pelo contrário…

Os circunstantes mordiam o riso, mas tentavam manter a compostura para não denunciarem toda a tramóia.

E deixaram o Cabral continuar o seu devaneio:

- Sou forçado a concluir que branco aguenta vinho como o caraças!

Resposta imediata do Vargas:

- Claro.. há diferenças entre brancos e pretos… Essa é uma delas: a capacidade de aguentar a bebida…

E perante o rebentar de gargalhadas dos presentes, incapazes de se conterem por mais tempo, sentenciou:

- Por alguma razão somos brancos! Já devias ter compreendido isso!

[Abro um parentesis para garantir que neste diálogo não há o menor resquício de racismo! O à vontade com o que o Vargas assim falou só se explica exactamente porque não havia racismo entre nós. Se o houvesse, penso que jamais teria sido dito de uma forma tão inocent]

EPÍLOGO

Durante vários dias o segredo manteve-se e o Cabral devia continuar a matutar se de facto existiam diferenças fisicas e morfológicas entre um branco e um preto, que justificassem tal diferença na capacidade de aguentar bebedeiras.

Descansámo-lo quando, um certo dia, o Ribas se prontificou a contar-lhe a verdade Que o Cabral aceitou com a maior desportivismo! Era de facto uma jóia de pessoa…

Vim a encontrá-lo uns anos mais tarde em Lisboa, por mero acaso, e perguntei-lhe o que fazia na Grande Tabanca.

Disse-me que cursava Economia para depois regressar à Guiné e colaborar na consrução do seu País independente.

Soube que, passados poucos anos, já licenciado, morreu de doença, em Bissau, por falta de assistência médica, medicamentosa e hospitalar…

Como a dele, também a ilusão de muitos outros guineenses, bem intencionados, que se deixaram enganar pelos ineptos e corruptos politicos que invadiram o poder daquela bela terra… Que a têm continuadamente destruido, em prol das suas ambições e do seu nepotismo!

Mas enfim.. A terra é deles.. Centremos as nossas preocupações em Portugal…

Nesta nossa terra que cá vai andando… cantando e rindo… umas vezes para os lados, outras para trás e poucas , muito poucas vezes, para a frente…

Rui Felício

DULOMBI
CCAÇ 2405
Ex-Alf Mil Inf

______________

Nota de L. G.

(1) Vd post de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXV: Paulo Raposo e Rui Felício, dois novos camaradas (CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)

08 março 2006

Guiné 63/74 - DCXVIII: Dia Internacional da Mulher (6): a guerra no feminino (Manuela Gonçalves)

1. A Nela, já aqui referida em tempos (1), não faz mas devia fazer parte da nossa tertúlia, juntamente com o seu marido: ele foi nosso camarada na época de 1969/70, foi no Niassa em Maio de 1969 - o mesmo é dizer que fomos juntos, ele e o pessoal metropolitano da CCAÇ 2590, a futura CCAÇ 12 - esteve em Ingoré e foi gravemente ferido na explosão de uma mina anticarro... Ela, jovem estudante universitára e então namorada, viveu a guerra à distância, com a morte na alma... Já casada, anos depois, desloca-se à Guiné-Bissau, com a família, para exorcizar os seus fantasmas... Da paixão à cooperação foi um passo... Mais recentemente, descobriu o nosso blogue, que visita regularmente, e mais do que isso mantém o seu próprio blogue: Caminhos por onde andei...

Hoje voltou a escrever-me, dizendo:

"No Blog, vou revivendo e recordando com o meu marido. Continuarei a blogar. Estamos a tentar digitalizar os slides de 69/70, época da luta (nunca chamei turras aos guerrilheiros) e 81/82, época em que estivemos lá como cooperantes.

"No meu blog, as memórias e factos, alguns bem curiosos, irão aparecendo. Continuem com a vossa tertúlia! Passo por lá diariamente. Os meus cumprimentos. Manuela Gonçalves".

No Dia Internacional da Mulher, a Nela, companheira de um camarada nosso (cujo nome e unidade desconhecemos, mas que terá viajado connosco no memso barco, na mesma altura), merece o devido destaque.

Com a sua licença, tomo a liberdade de reproduzir aqui dois dos seus posts em que ela evoca esse doloroso tempo em que elo de comunicação entre os homens que faziam a guerra na Guiné e as mulheres (mães, namoradas, madrinhas de guerra...) que ficavam na retaguarda, se fazia através do frágil e suspeito aerograma...


2. Blogue da Nela [Manuela Gonçalves] > Caminhos por onde andei > 7 de Janeiro de 2006 > Guiné-Bissau (1)

Esta noite, ao navegar pelos blogs que visito habitualmente, fui parar, através de hiperligações de posts, ao Blogue Fora-Nada, que reúne documentos e memórias de ex-combatentes da Guiné-Bissau.

Não fui combatente na Guiné, mas esses caminhos foram percorridos por mim de modo e tempo diferentes... Tornaram-se mesmo decisivos na minha vida de jovem estudante universitária rebelde, namorada de um alferes miliciano que para ali fora enviado para a guerra, mais tarde meu companheiro de vida (já lá vão 35 anos) e de mulher e mãe, que considerou importante ir para Bissau, como cooperante!

A Guiné dos aerogramas despertara um desejo imenso de conhecer a Guiné das bolanhas, das tabancas, dos mosquitos, dos rios e pântanos e das gentes que ali viviam, dos flupes, dos mandingas, dos papéis, de Amílcar Cabral, dos guerrilheiros do PAIGC...

Nunca tinha aceite a Guerra Colonial, mas uma vez que ela tinha entrado nas nossas vidas abruptamente e deixado incapacidades físicas ao maridão, senti uma vontade imensa de viajar para aquele pequeno país e conhecê-lo bem!

Era como que uma necessidade intrínseca de compreender bem uma etapa importante da vida vivida pelo companheiro de route!

Bissau, Bafatá, Mansoa, São Domingos, Ingoré eram locais que precisávamos (re)visitar.

E fomos lá! Também os nossos filhos nos acompanharam, crianças ainda, viram e pisaram as picadas que , anos antes, o pai cruzara, sempre alerta! Agora podíamos circular livremente, apesar do mau estado das estradas, mas em paz e liberdade!
Gostei da Guiné-Bissau! Voltar lá foi um modo de exorcizar fantasmas de guerra que habitavam a nossa casa!

Hei-de voltar ao tema!

Nela [Manuela Gonçalves]

Terça-feira, 7 de Março de 2006 > Guiné-Bissau (2)

Andei a rever fotos antigas. Com elas caminhei por memórias bem aninhadas em mim, por vidas vividas, por estradas perdidas, por espaços guardiães das minhas / nossas vivências. Nossas, cá da casa, mas sobretudo minhas e do companheiro de tantos anos.

Foi em 1969, Maio, que ele foi para a Guiné. A bordo do Niassa e integrado numa companhia que fora formada em Estremoz. Rendição individual, quando nada fazia prever que ainda fosse até à Guerra. A faculdade ficou para trás, os sonhos adiados por uns anos.

Da Guiné, chegavam aerogramas que eu lia e tentava decifrar. Sim, naquela época, era preciso decifrar as palavras, como aquelas em que me dizia que tinha dado um passeio até ao Senegal. Eu sabia que tal significava que tinham feito uma incursão em terras senegalesas e fiquei receando que fosse feito prisioneiro. Pouco tempo antes, um grupo de oficiais tinha desertado e procurado asilo na Suécia.

Na faculdade, eu continuava o curso e a apoiar as lutas estudantis contra a guerra colonial. E escrevia cartas, cartas, aerogramas. Sempre muito cautelosa, sabia-se lá quem poderia ler as nossas palavras.

Recebia aerogramas aos pares. Um dia não recebi. O silêncio continuou por duas longas semanas. Não fazia ideia do que poderia ter acontecido. Passaram diversos cenários pela minha mente, todos deduzidos pelas conversas que tínhamos tido, pelas utopias que partilhávamos, pelas palavras que não eram escritas. Teria sido apanhado no Senegal? Teria ido ele para o Senegal? Estaria morto? Ferido? Os jornais falavam da captura de um major cubano.

Que se passava? Um aerograma de um amigo, Alferes Baptista, no Q.G. em Bissau, deu – me a notícia: uma mina tinha rebentado com o Unimog, quando ele e o seu pelotão 60 seguiam numa patrulha. Ele estava no HMP em Bissau, em coma. Era dia 13 de Novembro de 1969, 10:30 da manhã.

Restava-me esperar que o trouxessem para Lisboa e falar diariamente com um médico, amigo de uma tia, que prestava serviço no Hospital em Bissau. E de longe fui acompanhando o seu estado! Mais tarde um lacónico aerograma dele, muito parco em palavras, cheio de silêncios, confirmava-a.

Apesar de toda a dor e angústia sentidas, uma grande alegria: ele estava vivo. Os sonhos continuavam adiados, mas não jogados fora. Uma nova etapa nas nossas vidas havia começado!

Nela [Manuela Gonçalves]

____________

Nota de L.G.

(1) Vd. pots de 9 de Janeiro de 2006 > Guine 63/74 - CDXXXV: O que os outros (blogues) dizem de nós (1): Caminhos por onde andei

Guiné 63/74 - DCXVIII: Dia Internacional da Mulher (6): a guerra no feminino (Manuela Gonçalves)

1. A Nela, já aqui referida em tempos (1), não faz mas devia fazer parte da nossa tertúlia, juntamente com o seu marido: ele foi nosso camarada na época de 1969/70, foi no Niassa em Maio de 1969 - o mesmo é dizer que fomos juntos, ele e o pessoal metropolitano da CCAÇ 2590, a futura CCAÇ 12 - esteve em Ingoré e foi gravemente ferido na explosão de uma mina anticarro... Ela, jovem estudante universitára e então namorada, viveu a guerra à distância, com a morte na alma... Já casada, anos depois, desloca-se à Guiné-Bissau, com a família, para exorcizar os seus fantasmas... Da paixão à cooperação foi um passo... Mais recentemente, descobriu o nosso blogue, que visita regularmente, e mais do que isso mantém o seu próprio blogue: Caminhos por onde andei...

Hoje voltou a escrever-me, dizendo:

"No Blog, vou revivendo e recordando com o meu marido. Continuarei a blogar. Estamos a tentar digitalizar os slides de 69/70, época da luta (nunca chamei turras aos guerrilheiros) e 81/82, época em que estivemos lá como cooperantes.

"No meu blog, as memórias e factos, alguns bem curiosos, irão aparecendo. Continuem com a vossa tertúlia! Passo por lá diariamente. Os meus cumprimentos. Manuela Gonçalves".

No Dia Internacional da Mulher, a Nela, companheira de um camarada nosso (cujo nome e unidade desconhecemos, mas que terá viajado connosco no memso barco, na mesma altura), merece o devido destaque.

Com a sua licença, tomo a liberdade de reproduzir aqui dois dos seus posts em que ela evoca esse doloroso tempo em que elo de comunicação entre os homens que faziam a guerra na Guiné e as mulheres (mães, namoradas, madrinhas de guerra...) que ficavam na retaguarda, se fazia através do frágil e suspeito aerograma...


2. Blogue da Nela [Manuela Gonçalves] > Caminhos por onde andei > 7 de Janeiro de 2006 > Guiné-Bissau (1)

Esta noite, ao navegar pelos blogs que visito habitualmente, fui parar, através de hiperligações de posts, ao Blogue Fora-Nada, que reúne documentos e memórias de ex-combatentes da Guiné-Bissau.

Não fui combatente na Guiné, mas esses caminhos foram percorridos por mim de modo e tempo diferentes... Tornaram-se mesmo decisivos na minha vida de jovem estudante universitária rebelde, namorada de um alferes miliciano que para ali fora enviado para a guerra, mais tarde meu companheiro de vida (já lá vão 35 anos) e de mulher e mãe, que considerou importante ir para Bissau, como cooperante!

A Guiné dos aerogramas despertara um desejo imenso de conhecer a Guiné das bolanhas, das tabancas, dos mosquitos, dos rios e pântanos e das gentes que ali viviam, dos flupes, dos mandingas, dos papéis, de Amílcar Cabral, dos guerrilheiros do PAIGC...

Nunca tinha aceite a Guerra Colonial, mas uma vez que ela tinha entrado nas nossas vidas abruptamente e deixado incapacidades físicas ao maridão, senti uma vontade imensa de viajar para aquele pequeno país e conhecê-lo bem!

Era como que uma necessidade intrínseca de compreender bem uma etapa importante da vida vivida pelo companheiro de route!

Bissau, Bafatá, Mansoa, São Domingos, Ingoré eram locais que precisávamos (re)visitar.

E fomos lá! Também os nossos filhos nos acompanharam, crianças ainda, viram e pisaram as picadas que , anos antes, o pai cruzara, sempre alerta! Agora podíamos circular livremente, apesar do mau estado das estradas, mas em paz e liberdade!
Gostei da Guiné-Bissau! Voltar lá foi um modo de exorcizar fantasmas de guerra que habitavam a nossa casa!

Hei-de voltar ao tema!

Nela [Manuela Gonçalves]

Terça-feira, 7 de Março de 2006 > Guiné-Bissau (2)

Andei a rever fotos antigas. Com elas caminhei por memórias bem aninhadas em mim, por vidas vividas, por estradas perdidas, por espaços guardiães das minhas / nossas vivências. Nossas, cá da casa, mas sobretudo minhas e do companheiro de tantos anos.

Foi em 1969, Maio, que ele foi para a Guiné. A bordo do Niassa e integrado numa companhia que fora formada em Estremoz. Rendição individual, quando nada fazia prever que ainda fosse até à Guerra. A faculdade ficou para trás, os sonhos adiados por uns anos.

Da Guiné, chegavam aerogramas que eu lia e tentava decifrar. Sim, naquela época, era preciso decifrar as palavras, como aquelas em que me dizia que tinha dado um passeio até ao Senegal. Eu sabia que tal significava que tinham feito uma incursão em terras senegalesas e fiquei receando que fosse feito prisioneiro. Pouco tempo antes, um grupo de oficiais tinha desertado e procurado asilo na Suécia.

Na faculdade, eu continuava o curso e a apoiar as lutas estudantis contra a guerra colonial. E escrevia cartas, cartas, aerogramas. Sempre muito cautelosa, sabia-se lá quem poderia ler as nossas palavras.

Recebia aerogramas aos pares. Um dia não recebi. O silêncio continuou por duas longas semanas. Não fazia ideia do que poderia ter acontecido. Passaram diversos cenários pela minha mente, todos deduzidos pelas conversas que tínhamos tido, pelas utopias que partilhávamos, pelas palavras que não eram escritas. Teria sido apanhado no Senegal? Teria ido ele para o Senegal? Estaria morto? Ferido? Os jornais falavam da captura de um major cubano.

Que se passava? Um aerograma de um amigo, Alferes Baptista, no Q.G. em Bissau, deu – me a notícia: uma mina tinha rebentado com o Unimog, quando ele e o seu pelotão 60 seguiam numa patrulha. Ele estava no HMP em Bissau, em coma. Era dia 13 de Novembro de 1969, 10:30 da manhã.

Restava-me esperar que o trouxessem para Lisboa e falar diariamente com um médico, amigo de uma tia, que prestava serviço no Hospital em Bissau. E de longe fui acompanhando o seu estado! Mais tarde um lacónico aerograma dele, muito parco em palavras, cheio de silêncios, confirmava-a.

Apesar de toda a dor e angústia sentidas, uma grande alegria: ele estava vivo. Os sonhos continuavam adiados, mas não jogados fora. Uma nova etapa nas nossas vidas havia começado!

Nela [Manuela Gonçalves]

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Nota de L.G.

(1) Vd. pots de 9 de Janeiro de 2006 > Guine 63/74 - CDXXXV: O que os outros (blogues) dizem de nós (1): Caminhos por onde andei

Guiné 63/74 - DCXVII: Dia Internacional da Mulher (5): 'Fermero, ká na tem patacão pra paga, fica ku minha mudjer' (Zé Teixeira) .

Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > O Zé Teixeira com um antigo milícia, o Braima de Mampatá.

© José Teixeira (2005)



XVI Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

© José Teixeira:


Empada, 11 de Setembro de 1969

Conheci a Mariama no primeiro dia que aqui cheguei. A sua alegria contagiante, as suas brincadeiras e a maneira como sabia fazer-se respeitada, tudo isso fez com que simpatizasse logo com ela. De manhã vinha acordar-me:
- Tissera, corpo stá bom ?

Ao fim da tarde de hoje, passou pela enfermaria, como sempre, mas vinha diferente; olhos inchados, cabelo muito arranjado, a alegria habitual tinha desaparecido.
- Mariama Corpo di bó ?
- Ká stá bom, hodje manga di chátisse.
- Porquê? Qui passa ?
- Meu pai diz a minha Mãe: 'Põe Mariama bonito. Hodje ela vai cása cum alfaiate'. Mim ká na sibi qui vai cása. Mim ká miste alfaiate.
E acrescentou:
- Eu fui trabalhar na bolanha , manhã cedo, muito trabalho. Vem, lava roupa de Catarino (1) e passo tua roupa a ferro. Chega a minha mãe e conta a verdade. Eu não sabia que ia casar...

As lágrimas escorriam-lhe para o regaço. Não gosta do Sanhá e parece que nem sabia que o pai a tinha vendido como se faz com os animais. Sabia o que a esperava mais dia menos dia, mas nunca com um velho.

Nos Beafadas a cerimónia de casamento é diferente dos Fulas. Ao fim da tarde a bajuda segue para a morança do futuro marido, acompanhada por outras bajudas em festa: aí espera-a um jantar.

Em tempos apreciei um casamento fula em Mampatá. O casamento foi programado com antecedência. A festa durou dois dias com muita animação e até batuque. Este foi controlado pelo Sargento da Milícia, que a determinada altura mandou parar a batucada e vingou o silêncio. A noiva seguiu para casa do noivo às costas de um ancião coberto com um lençol de modo a ficar escondida dos olhares dos curiosos e, segundo me disseram, no dia seguinte tinha de pôr à porta o lençol com manchas de sangue para demonstrar que estava virgem.

Guiné-Bissau > 2005 > Campanha sanitária: "Usa camisinha na hora di ten"... Trinta anos depois da independência, o que é mudou na condição da mulher guineense ? Uma pergunta de difícil resposta, mas que não nos deixa indiferentes (LG).

© José Teixeira (2005)


A conversa com Mariama prolongou-se. Apresentou-me a Fanta, minha nova lavandera e deixou-me a dar largas aos meus pensamentos… Vieram-me à memória os jovens de Nápoles, e os da Ribeira . . . A Fármara de Mampatá que gostava do Amadu e era feliz; da Jubae, e da Yeró.

Esta última casada à força, presa fácil da tropa, que o marido me ofereceu como pagamento por lhe ter salvo o pai de uma doença (2), da Fatinha (siriana), cujo marido não se cansava de lhe bater. . e era tão bonita !... Da Suade … das suas lágrimas, quando à sua volta toda agente dançava ao som do batuque.

Pergunto a mim mesmo, como é possível em pleno século XX, ainda haver este tipo de escravidão. Como é possível um pai vender sua filha por uma vaca e três carneiros !
_________

Notas do L.G.

(1) Jorge Catarino, meu companheiro nas artes de seringa e grande amigo

(2) Quando cheguei a Mampatá, veio ter comigo pedir quinino para o pai que estava com muitas dores. O Furriel enfermeiro que fui substituir disse-me:
- Este gajo tem o pai a morrer, eu estou a dar-lhe um comprimido por dia de X medicamento. Não lhe dês mais que um por dia, pois só tens esta caixa e em Aldeia Formosa não há.

Assim fiz e no dia seguinte, já sozinho, fui ver o doente. Velho de cabelos brancos, amarelo como cera, há mais de um mês de cama, sem forças etc,etc.

Reuni com o Alferes comandante do Destacamento e decidimos pedir a evacuação, à revelia das ordens que havia, o que gerou ameaças solenes para o Alferes do Comandante de Quebo, o qual teve como resposta:
- Sr. Major, eu não sou médico nem enfermeiro, o meu enfermeiro diz-me que não se responsabiliza pela saúde do homem. O Sr. Major responsabiliza-se ?

Assim o velho, foi evacuado. Esteve cerca de dois meses internado, fez uma operação ao intestino e regressou, para alegria dos familiares, muito melhor. Quando deixei Mampatá estava vivinho da costa.

Como prémio ou pagamento do meu trabalho, o filho, disse-me:
- Fermero, Ká na tem patacão pra paga. Fica ku minha mudjer.

Este gesto gerou outra conversa que como esta história não coube no meu diário.

Guiné 63/74 - DCXVII: Dia Internacional da Mulher (5): 'Fermero, ká na tem patacão pra paga, fica ku minha mudjer' (Zé Teixeira) .

Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > O Zé Teixeira com um antigo milícia, o Braima de Mampatá.

© José Teixeira (2005)



XVI Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

© José Teixeira:


Empada, 11 de Setembro de 1969

Conheci a Mariama no primeiro dia que aqui cheguei. A sua alegria contagiante, as suas brincadeiras e a maneira como sabia fazer-se respeitada, tudo isso fez com que simpatizasse logo com ela. De manhã vinha acordar-me:
- Tissera, corpo stá bom ?

Ao fim da tarde de hoje, passou pela enfermaria, como sempre, mas vinha diferente; olhos inchados, cabelo muito arranjado, a alegria habitual tinha desaparecido.
- Mariama Corpo di bó ?
- Ká stá bom, hodje manga di chátisse.
- Porquê? Qui passa ?
- Meu pai diz a minha Mãe: 'Põe Mariama bonito. Hodje ela vai cása cum alfaiate'. Mim ká na sibi qui vai cása. Mim ká miste alfaiate.
E acrescentou:
- Eu fui trabalhar na bolanha , manhã cedo, muito trabalho. Vem, lava roupa de Catarino (1) e passo tua roupa a ferro. Chega a minha mãe e conta a verdade. Eu não sabia que ia casar...

As lágrimas escorriam-lhe para o regaço. Não gosta do Sanhá e parece que nem sabia que o pai a tinha vendido como se faz com os animais. Sabia o que a esperava mais dia menos dia, mas nunca com um velho.

Nos Beafadas a cerimónia de casamento é diferente dos Fulas. Ao fim da tarde a bajuda segue para a morança do futuro marido, acompanhada por outras bajudas em festa: aí espera-a um jantar.

Em tempos apreciei um casamento fula em Mampatá. O casamento foi programado com antecedência. A festa durou dois dias com muita animação e até batuque. Este foi controlado pelo Sargento da Milícia, que a determinada altura mandou parar a batucada e vingou o silêncio. A noiva seguiu para casa do noivo às costas de um ancião coberto com um lençol de modo a ficar escondida dos olhares dos curiosos e, segundo me disseram, no dia seguinte tinha de pôr à porta o lençol com manchas de sangue para demonstrar que estava virgem.

Guiné-Bissau > 2005 > Campanha sanitária: "Usa camisinha na hora di ten"... Trinta anos depois da independência, o que é mudou na condição da mulher guineense ? Uma pergunta de difícil resposta, mas que não nos deixa indiferentes (LG).

© José Teixeira (2005)


A conversa com Mariama prolongou-se. Apresentou-me a Fanta, minha nova lavandera e deixou-me a dar largas aos meus pensamentos… Vieram-me à memória os jovens de Nápoles, e os da Ribeira . . . A Fármara de Mampatá que gostava do Amadu e era feliz; da Jubae, e da Yeró.

Esta última casada à força, presa fácil da tropa, que o marido me ofereceu como pagamento por lhe ter salvo o pai de uma doença (2), da Fatinha (siriana), cujo marido não se cansava de lhe bater. . e era tão bonita !... Da Suade … das suas lágrimas, quando à sua volta toda agente dançava ao som do batuque.

Pergunto a mim mesmo, como é possível em pleno século XX, ainda haver este tipo de escravidão. Como é possível um pai vender sua filha por uma vaca e três carneiros !
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Notas do L.G.

(1) Jorge Catarino, meu companheiro nas artes de seringa e grande amigo

(2) Quando cheguei a Mampatá, veio ter comigo pedir quinino para o pai que estava com muitas dores. O Furriel enfermeiro que fui substituir disse-me:
- Este gajo tem o pai a morrer, eu estou a dar-lhe um comprimido por dia de X medicamento. Não lhe dês mais que um por dia, pois só tens esta caixa e em Aldeia Formosa não há.

Assim fiz e no dia seguinte, já sozinho, fui ver o doente. Velho de cabelos brancos, amarelo como cera, há mais de um mês de cama, sem forças etc,etc.

Reuni com o Alferes comandante do Destacamento e decidimos pedir a evacuação, à revelia das ordens que havia, o que gerou ameaças solenes para o Alferes do Comandante de Quebo, o qual teve como resposta:
- Sr. Major, eu não sou médico nem enfermeiro, o meu enfermeiro diz-me que não se responsabiliza pela saúde do homem. O Sr. Major responsabiliza-se ?

Assim o velho, foi evacuado. Esteve cerca de dois meses internado, fez uma operação ao intestino e regressou, para alegria dos familiares, muito melhor. Quando deixei Mampatá estava vivinho da costa.

Como prémio ou pagamento do meu trabalho, o filho, disse-me:
- Fermero, Ká na tem patacão pra paga. Fica ku minha mudjer.

Este gesto gerou outra conversa que como esta história não coube no meu diário.

Guiné 63/74 - DCXVI: Dia Internacional da Mulher (4): O antes e o depois de 1961 (Mário Dias)

Caro Luis

Tenho andado a dar voltas à tola para satisfazer o teu pedido de referências e experiências vividas com as mulheres (ou bajudas) da Guiné durante a guerra. Sobre este assunto pouco tenho a dizer e julgo que, melhor do que eu, outros tertulianos o poderão fazer.

Se até 1961, antes da guerra, tive aventuras facilmente imagináveis, a partir dessa data, não sofri as privações que os nossos camaradas sofreram, nem me envolvi em românticas aventuras porque já era casado e tinha família constituída em Bissau.

No entanto, não deixo de prestar a minha homenagem às mães, esposas, companheiras e amigas, nossas e do inimigo, que connosco partilharam as agruras daqueles tempos. A história não poderá de forma alguma esquecê-las.

Continuando as minhas crónicas sobre o que era a vida na Guiné antes da guerra, para que todos os camaradas tertulianos sintam que o ambiente era semelhante ao que existe hoje, instalada a paz, envio mais um capítulo sobre Bissau. Conto fazer algo semelhante sobre Farim e Bafatá, por serem as terras onde habitei com carácter mais permanente. Isto, claro, se vires nisso algum interesse.

Um grande abraço para todos os tertulianos e para as mulheres a minha singela homenagem no dia que lhes é dedicado. E que não sejam esquecidas nos restantes 364 dias do ano.

Mário Dias

Guiné 63/74 - DCXVI: Dia Internacional da Mulher (4): O antes e o depois de 1961 (Mário Dias)

Caro Luis

Tenho andado a dar voltas à tola para satisfazer o teu pedido de referências e experiências vividas com as mulheres (ou bajudas) da Guiné durante a guerra. Sobre este assunto pouco tenho a dizer e julgo que, melhor do que eu, outros tertulianos o poderão fazer.

Se até 1961, antes da guerra, tive aventuras facilmente imagináveis, a partir dessa data, não sofri as privações que os nossos camaradas sofreram, nem me envolvi em românticas aventuras porque já era casado e tinha família constituída em Bissau.

No entanto, não deixo de prestar a minha homenagem às mães, esposas, companheiras e amigas, nossas e do inimigo, que connosco partilharam as agruras daqueles tempos. A história não poderá de forma alguma esquecê-las.

Continuando as minhas crónicas sobre o que era a vida na Guiné antes da guerra, para que todos os camaradas tertulianos sintam que o ambiente era semelhante ao que existe hoje, instalada a paz, envio mais um capítulo sobre Bissau. Conto fazer algo semelhante sobre Farim e Bafatá, por serem as terras onde habitei com carácter mais permanente. Isto, claro, se vires nisso algum interesse.

Um grande abraço para todos os tertulianos e para as mulheres a minha singela homenagem no dia que lhes é dedicado. E que não sejam esquecidas nos restantes 364 dias do ano.

Mário Dias

Guiné 63/74 - DCXV: Dia Internacional da Mulher (3): Mulher da Minha Terra (poema de Eunice Borges)

Caro Luís,

Segue um poema de homenagem à mulher,sem fundamnetalismos ou feminilismos
doentios. Homenagem a todas as mulheres seja qual for a latitude ou longitude. E uma foto da Mãe-África, como fundo, será que é possível?
Mantenhas

Bissau, 8 de Março de 2006

Conceição Salgado

Mãe-África (escultura)


MULHER DA MINHA TERRA

Mulher da minha terra,
Mulher sofredora,
Mulher escrava,
Que só conhece deveres,
Vem!
Vem que já brilha
Para ti uma nova luz!
Vem de fronte erguida
E grita bem alto
Que ser mulher não é desdouro!
Vem!
Ser mulher não é ser fraca,
Ser mulher não é
Obedecer sem perceber,
Seguir sem conhecer o caminho,
Dar, sem receber
Não! Mulher da minha terra!
Vem!
Vem conhecer o teu valor
De ser mulher,
Deixa a ignorância
E vem aprender a ser mulher!
Vem!
Não precisas de adornos fúteis
Para seres bela
Mesmo coberta de farrapos.
Vem dar o teu contributo,
A tua palavra,
Até mesmo o teu olhar
Tem o seu valor como mulher!
Vem!
Mulher-criança!
Mulher-jovem
Mulher-mãe
Mulher velhinha,
Todas hoje unidas
No mesmo amor,
Vem glorificar
A Natureza que te fez
Mulher.

Eunice Borges
(nascida em Cabo Verde, descende das mais antigas famílias do arquipélago dos Bijagós)

Fonte: Antologia Poética da Guiné-Bissau (Lisboa: Editorial Inquérito, 1990) (1)

_________

Nota de L.G.

(1) Vd Breve resenha sobre a literatura da Guiné-Bissau (Filomena Embaló, 2004)

Guiné 63/74 - DCXV: Dia Internacional da Mulher (3): Mulher da Minha Terra (poema de Eunice Borges)

Caro Luís,

Segue um poema de homenagem à mulher,sem fundamnetalismos ou feminilismos
doentios. Homenagem a todas as mulheres seja qual for a latitude ou longitude. E uma foto da Mãe-África, como fundo, será que é possível?
Mantenhas

Bissau, 8 de Março de 2006

Conceição Salgado

Mãe-África (escultura)


MULHER DA MINHA TERRA

Mulher da minha terra,
Mulher sofredora,
Mulher escrava,
Que só conhece deveres,
Vem!
Vem que já brilha
Para ti uma nova luz!
Vem de fronte erguida
E grita bem alto
Que ser mulher não é desdouro!
Vem!
Ser mulher não é ser fraca,
Ser mulher não é
Obedecer sem perceber,
Seguir sem conhecer o caminho,
Dar, sem receber
Não! Mulher da minha terra!
Vem!
Vem conhecer o teu valor
De ser mulher,
Deixa a ignorância
E vem aprender a ser mulher!
Vem!
Não precisas de adornos fúteis
Para seres bela
Mesmo coberta de farrapos.
Vem dar o teu contributo,
A tua palavra,
Até mesmo o teu olhar
Tem o seu valor como mulher!
Vem!
Mulher-criança!
Mulher-jovem
Mulher-mãe
Mulher velhinha,
Todas hoje unidas
No mesmo amor,
Vem glorificar
A Natureza que te fez
Mulher.

Eunice Borges
(nascida em Cabo Verde, descende das mais antigas famílias do arquipélago dos Bijagós)

Fonte: Antologia Poética da Guiné-Bissau (Lisboa: Editorial Inquérito, 1990) (1)

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Nota de L.G.

(1) Vd Breve resenha sobre a literatura da Guiné-Bissau (Filomena Embaló, 2004)