13 março 2006

Guiné 63/74 - DCXXIV: Estórias cabralianas (6): SEXA o CACO em Missirá

Guiné > Zona leste > Sector L1 > Regulado do Cuor > Missirá > Março de 1970> O Humberto Reis, em reforço, com o 2º Gr Comb da CCAÇ 12, do destacamento de Missirá, posa para a fotografia com um troféu de caça a seus pés: na ocasião um antílope, apanhado pelos homens do Pel Caç Nat 54 ou algum caçador local. O destacamento de Missirá ficava a norte do Sector L1, já em terra de ninguém. A sul ficava o destacamento de mílicia e a tabanca em autodefesa de Finete, na margem direita do Rio Geba, frente a Bambadinca (LG).

Guiné > Zona leste > Sector L1 > Regulado do Cuor > Missirá > Março de 1970 > Esquartejamento de uma peça de caça grossa (um antílope, segundo me parece) caçado na zona de acção do Pel Caç Nat 54 (que em Novembro de 1969 tinha vindo render o Pel Caç Nat 52, comandado pelo Alf Mil Beja Santos). Na foto vê-se o comandante do Pel CaÇ Nat 54, o Alf Mil Correia. Meses mais tarde, o Pel Caç Nat 54 será substituído pelo Pel Caç Nat 63, do Alf Mil Cabral. Como se pode avaliar pelas duas fotos, Missirá era uma terra aonde dificilmente chegava o Regulamento de Disciplina Militar, o famoso RDM, ou seja, o poder de Bissau, o que aliás é testemunhado por mais esta bem-humorada estória cabraliana, que a seguir se publica... (LG).

Fotos do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)


Quando SEXA o CACO, em Missirá, ia perdendo o dito (1)

por Jorge Cabral

(ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71; hoje, advogado e professor universitário). A mensagem que o Jorge me mandou: "Luis Amigo e Companheiro, aí vai o relato da visita do Caco. Infelizmente não foi filmada... Um grande abraço, Jorge".... O episódio passa-se em Dezembro de 1970...


Poucos dias faltavam para o Natal, e a tarde estava quente. Todo nu no meu abrigo, fazia a sesta, quando sou despertado por enorme algazarra misturada com os ruídos do helicóptero.
-Alfero, Alfero, é Spínola! - gritam os meus soldados (2).

(Estou tramado, o quartel está uma merda. Que visto? Apresento-me em estado de nudez? Não há tempo a perder. O pássaro já poisou e o General avança. Enfio uns calções antigamente verdes, umas chinelas, e claro uma boina, para poder fazer a devida continência).

Eis-me assim, garboso Comandante, apresentando a tropa, e os milícias, todos eles mal fardados, como era habitual.

Sua Excelência, pede um intérprete, pois vai botar discurso. E começa:
- Debaixo desta bandeira… - e aponta o braço na direcção onde pensava que a mesma existia. Fica-lhe o braço no ar, mas continua:
- ... A Pátria… - , e notando a atrapalhação do tradutor, pergunta-lhe:
- Sabes o que é a Pátria?
- Não - responde aquele.

(Lixei-me! Vou ser despromovido, talvez preso. Dentro de mim um turbilhão de maus presságios começa a fervilhar. Mentalmente preparo réplicas. Não é necessária bandeira, pois a Pátria está dentro de nós, e por isso, meu General, é indefinível, responderei).

Mas o Caco nada me pergunta. Vem acompanhado de três majores e um capitão. Querem ver tudo. Primeiro a Escola. Onde funciona?

(Escola? Qual Escola? Pensa rápido, Jorge! Inventa!)

- Sabe, meu Major, estas crianças também frequentam o ensino corânico, que decorre ao ar livre. Por isso considerei que a nossa escola não devia ser enclausurada, pois tal podia traumatizá-las.
- Ainda assim…- começou o Major, impedido de continuar por um olhar do Com-Chefe.
- E o Heliporto? - indagou um outro Major - Parece muito atrasado.
- É que, meu Major, faltam os materiais e também operários especializados.
- Operários especializados? Então e os seus soldados?!
- Todos homens de Fé, meu Major. Tirando a actividade operacional, dedicam-se à reflexão.

Nem respondeu este Major. Logo outro se adiantou, interrogando o Amaral, sobre as povoações mais próximas. Em sentido, sério, calmo, respondeu o Amaral:
- Mato a Norte, mato a sul, mato a leste, mato a oeste, meu Major.

(Ah! Grande Amaral, vais fazer-me companhia na porrada!)
Mas o pior estava para vir! Sua Excelência queria testar o plano de defesa:
- Qual o sinal, nosso Alferes?
- Uma granada - improvisei eu.

Tendo-me dirigido à arrecadação não encontrei nenhuma granada ofensiva. Peguei então numa defensiva, e zás, lancei-a. Tudo tremeu! Manteve-se de pé o General, mas o caco caiu.

Entretanto os meus soldados, querendo mostrar heroicidade, encostaram-se ao arame, de peito descoberto, alguns mesmo sem arma.

(Agora sim, está tudo perdido! Que vergonha! E logo eu, neto de um herói de Chaimite).

Recomposto o Caco, olhou-me uma última vez e disse:
-Já vi tudo!.

Ao encaminhar-se para o helicóptero, ainda lhe ouvi comentar para a comitiva:
-Porra, que não é só o Alferes! Estão todos apanhados!

Deve porém ter ficado impressionado, pois três dias depois voltou. Eu não estava. Tinha ido a Fá, buscar uma garrafa de whisky, prenda mensal do Capitão João Bacar Djaló (3). Contou-me o Branquinho (4) que quando o informaram da minha ausência, Sua Excelência exclamou:
- Ainda bem!

© Jorge Cabral (2006)

_____________

Notas de L.G.

(1) Caco (ou Caco Baldé) era a a alcunha por que era mais conhecido o General Spínola entre os seus soldados. O termo queria referir-se ao vidrinho ou monóculo que ele usava... Baldé era um dos apelidos mais vulgares entre os fulas, aliados de Spínola... Vd posts de:

29 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXXIV: Recordações do 'Caco Baldé' no Xitole

24 de SDetembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCX: Oficial do Estado Maior do 'Caco'... por duas horas

(2) Este tipo de visita-surpresa, na quadra festiva (Natal e Ano Novo), por parte do Com-Chefe, António de Spínola, era frequente: vd. post de 3 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXVI: Herr Spínola na ponte do Rio Undunduma

Trata-se de um excerto do meu diário (Diário de um tuga):

"Ponte do Rio Undunduma, 3 de Fevereiro de 1971: De visita aos trabalhos da estrada Bambadinca-Xime, esteve aqui de passagem, com uma matilha de cães grandes atrás, Sexa General António de Spínola, Governador-Geral e Comandante-Chefe (vulgo, o Homem Grande). Eu gosto mais de chamar-lhe Herr Spínola, tout court. De monóculo, luvas pretas e pingalim, dá-me sempre a impressão de ser um fantasma da II Guerra Mundial, um sobrevivente da Wermacht nazi"(...).

(3) Capitão da 1º Companhia de Comandos Africanos, na altura sediado em Fá Mandinga: vd post de 11 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri

(4) Furriel Miliciano do Pel Caç Nat 63: vd post de 7 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXIX: O básico apaixonado (estórias cabralianas)

Guiné 63/74 - DCXXIV: Estórias cabralianas (6): SEXA o CACO em Missirá

Guiné > Zona leste > Sector L1 > Regulado do Cuor > Missirá > Março de 1970> O Humberto Reis, em reforço, com o 2º Gr Comb da CCAÇ 12, do destacamento de Missirá, posa para a fotografia com um troféu de caça a seus pés: na ocasião um antílope, apanhado pelos homens do Pel Caç Nat 54 ou algum caçador local. O destacamento de Missirá ficava a norte do Sector L1, já em terra de ninguém. A sul ficava o destacamento de mílicia e a tabanca em autodefesa de Finete, na margem direita do Rio Geba, frente a Bambadinca (LG).

Guiné > Zona leste > Sector L1 > Regulado do Cuor > Missirá > Março de 1970 > Esquartejamento de uma peça de caça grossa (um antílope, segundo me parece) caçado na zona de acção do Pel Caç Nat 54 (que em Novembro de 1969 tinha vindo render o Pel Caç Nat 52, comandado pelo Alf Mil Beja Santos). Na foto vê-se o comandante do Pel CaÇ Nat 54, o Alf Mil Correia. Meses mais tarde, o Pel Caç Nat 54 será substituído pelo Pel Caç Nat 63, do Alf Mil Cabral. Como se pode avaliar pelas duas fotos, Missirá era uma terra aonde dificilmente chegava o Regulamento de Disciplina Militar, o famoso RDM, ou seja, o poder de Bissau, o que aliás é testemunhado por mais esta bem-humorada estória cabraliana, que a seguir se publica... (LG).

Fotos do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)


Quando SEXA o CACO, em Missirá, ia perdendo o dito (1)

por Jorge Cabral

(ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71; hoje, advogado e professor universitário). A mensagem que o Jorge me mandou: "Luis Amigo e Companheiro, aí vai o relato da visita do Caco. Infelizmente não foi filmada... Um grande abraço, Jorge".... O episódio passa-se em Dezembro de 1970...


Poucos dias faltavam para o Natal, e a tarde estava quente. Todo nu no meu abrigo, fazia a sesta, quando sou despertado por enorme algazarra misturada com os ruídos do helicóptero.
-Alfero, Alfero, é Spínola! - gritam os meus soldados (2).

(Estou tramado, o quartel está uma merda. Que visto? Apresento-me em estado de nudez? Não há tempo a perder. O pássaro já poisou e o General avança. Enfio uns calções antigamente verdes, umas chinelas, e claro uma boina, para poder fazer a devida continência).

Eis-me assim, garboso Comandante, apresentando a tropa, e os milícias, todos eles mal fardados, como era habitual.

Sua Excelência, pede um intérprete, pois vai botar discurso. E começa:
- Debaixo desta bandeira… - e aponta o braço na direcção onde pensava que a mesma existia. Fica-lhe o braço no ar, mas continua:
- ... A Pátria… - , e notando a atrapalhação do tradutor, pergunta-lhe:
- Sabes o que é a Pátria?
- Não - responde aquele.

(Lixei-me! Vou ser despromovido, talvez preso. Dentro de mim um turbilhão de maus presságios começa a fervilhar. Mentalmente preparo réplicas. Não é necessária bandeira, pois a Pátria está dentro de nós, e por isso, meu General, é indefinível, responderei).

Mas o Caco nada me pergunta. Vem acompanhado de três majores e um capitão. Querem ver tudo. Primeiro a Escola. Onde funciona?

(Escola? Qual Escola? Pensa rápido, Jorge! Inventa!)

- Sabe, meu Major, estas crianças também frequentam o ensino corânico, que decorre ao ar livre. Por isso considerei que a nossa escola não devia ser enclausurada, pois tal podia traumatizá-las.
- Ainda assim…- começou o Major, impedido de continuar por um olhar do Com-Chefe.
- E o Heliporto? - indagou um outro Major - Parece muito atrasado.
- É que, meu Major, faltam os materiais e também operários especializados.
- Operários especializados? Então e os seus soldados?!
- Todos homens de Fé, meu Major. Tirando a actividade operacional, dedicam-se à reflexão.

Nem respondeu este Major. Logo outro se adiantou, interrogando o Amaral, sobre as povoações mais próximas. Em sentido, sério, calmo, respondeu o Amaral:
- Mato a Norte, mato a sul, mato a leste, mato a oeste, meu Major.

(Ah! Grande Amaral, vais fazer-me companhia na porrada!)
Mas o pior estava para vir! Sua Excelência queria testar o plano de defesa:
- Qual o sinal, nosso Alferes?
- Uma granada - improvisei eu.

Tendo-me dirigido à arrecadação não encontrei nenhuma granada ofensiva. Peguei então numa defensiva, e zás, lancei-a. Tudo tremeu! Manteve-se de pé o General, mas o caco caiu.

Entretanto os meus soldados, querendo mostrar heroicidade, encostaram-se ao arame, de peito descoberto, alguns mesmo sem arma.

(Agora sim, está tudo perdido! Que vergonha! E logo eu, neto de um herói de Chaimite).

Recomposto o Caco, olhou-me uma última vez e disse:
-Já vi tudo!.

Ao encaminhar-se para o helicóptero, ainda lhe ouvi comentar para a comitiva:
-Porra, que não é só o Alferes! Estão todos apanhados!

Deve porém ter ficado impressionado, pois três dias depois voltou. Eu não estava. Tinha ido a Fá, buscar uma garrafa de whisky, prenda mensal do Capitão João Bacar Djaló (3). Contou-me o Branquinho (4) que quando o informaram da minha ausência, Sua Excelência exclamou:
- Ainda bem!

© Jorge Cabral (2006)

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Notas de L.G.

(1) Caco (ou Caco Baldé) era a a alcunha por que era mais conhecido o General Spínola entre os seus soldados. O termo queria referir-se ao vidrinho ou monóculo que ele usava... Baldé era um dos apelidos mais vulgares entre os fulas, aliados de Spínola... Vd posts de:

29 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXXIV: Recordações do 'Caco Baldé' no Xitole

24 de SDetembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCX: Oficial do Estado Maior do 'Caco'... por duas horas

(2) Este tipo de visita-surpresa, na quadra festiva (Natal e Ano Novo), por parte do Com-Chefe, António de Spínola, era frequente: vd. post de 3 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXVI: Herr Spínola na ponte do Rio Undunduma

Trata-se de um excerto do meu diário (Diário de um tuga):

"Ponte do Rio Undunduma, 3 de Fevereiro de 1971: De visita aos trabalhos da estrada Bambadinca-Xime, esteve aqui de passagem, com uma matilha de cães grandes atrás, Sexa General António de Spínola, Governador-Geral e Comandante-Chefe (vulgo, o Homem Grande). Eu gosto mais de chamar-lhe Herr Spínola, tout court. De monóculo, luvas pretas e pingalim, dá-me sempre a impressão de ser um fantasma da II Guerra Mundial, um sobrevivente da Wermacht nazi"(...).

(3) Capitão da 1º Companhia de Comandos Africanos, na altura sediado em Fá Mandinga: vd post de 11 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri

(4) Furriel Miliciano do Pel Caç Nat 63: vd post de 7 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXIX: O básico apaixonado (estórias cabralianas)

Guiné 63/74 - DCXXIII: Op Borboleta Destemida: uma emboscada de meia-hora (Poindon/Ponta Varela, CCAÇ 12, Janeiro de 1970)


Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > 1969 ou 1970 > Pessoal do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 atravessando em coluna apeada a bolanha de Finete na margem direita do Rio Geba.

No primeiro plano, para além de municiador da Metralhadora Ligeira HK 21, Mamadú Uri Colubali (se não erro), vê-se o Furriel Miliciano Tony Levezinho, ao meio, ladeado pelo 1º Cabo Branco (à sua direita) e pelo 1º Cabo Alves (à sua esquerda). Acrescente-se que o José Marques Alves, de alcunha o Afredo, mora em Gondomar; e que o Manuel Alberto Faria Branco é da Póvoa do Varzim. Se alguém souber do seu paradeiro, que os encaminhe para a nossa tertúlia (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).

Extractos de: História da CCAÇ 12: Guiné 69/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores nº 12. 1971. Cap. II. 22-24. Selecção e notas de L.G.


(7.2.) Op Borboleta Destemida: Uma emboscada de meia-hora na zona de Poindon/Ponta Varela

O interrogatorio do elements 1N capturado por forças da CART 2413 no decorrer da anterior operação (1) (disse chamar-se Jomel Nanquitande, de etnia balanta, ter uma Espingarda Simonov distribuída e ser chefe da tabanca de Ponta Varela), permitiu-nos saber, entre outras coisas, que o IN voltara a instalar-se na área do antigo acampamento do Poindon/Ponta Varela destruído pelas NT em Setembro passado durante a Op Pato Rufia (2).

0 actual efectivo era de 25 homens, dispondo de Morteiro 82, cinco RPG-2 e armas automáticas. O dispositivo de segurança, mais rigoroso do que no tempo das chuvas, compunha-se de 4 sentinelas na estrada Xime-Ponta do Inglês (dois para cada lado).

0 grupo IN saía todas as manhãs a fim de montar segurança à população que trabalha na bolanha, regressando ao meio-dia e voltando à tarde até às 17h.

Com base nestes dados, foi decidido executar um golpe de mão clássico sobre o acampamento a fim de capturar ou aniquilar os elemen­tos IN assim como o material e meios de vida nele existentes (Op Borboleta Destemida).

Desenrolar da acção:

Em 13 de Janeiro de 1970, às 23h, a CCAÇ 12 a 3 Gr Comb (Dest a) e forças da CART 2520 (3)(Dest B) davam início à operação.

A progressão fez-se cuidadosamente pela estrada Xime-Ponta do Inglês até Madina Colhido, seguindo a corta-mato em direcção a Gundagué Beafada (4).

Devido à noite se encontrar excepcionalmente escura e o capim muito alto, os guias (compostos por 2 picadores do Xime e o prisioneiro) acabaram por perder-se. De forma que teve de retroceder-se a Madina Colhido onde se [retomou o] trilho.

Só se alcançou Gundagué Beafada por volta das 6h. Devido a este contratempo, seguiu-se imediatamente a corta-mato rumo ao trilho do Baio que se atingiu pelas 7.45h. Aqui o Dest B [CART 2520] separou-se encaminhando-se para o seu local de emboscada.

Entretanto, o prisioneiro informou que dali até ao acampamento [Ponta Varela / POindon] ainda era muito longe e que podia seguir-se o trilho até mais à frente, cortando-se depois à esquerda. 0 comandante do Dest A insistiu para que se cortasse já ali, mas como o prisioneiro afiançasse que podia fazê-lo mais à frente sem perigo e como se mostrasse muito seguro do que dizia, aquele concordou em prosseguir tendo recomendado ao prisioneiro que, ainda longe do acampamento cortasse à esquerda, a fim da nossa aproximação não ser detectada.

Progredíamos com redobrada cautela quando o prisioneiro informou que já estávamos perto e cortou por um trilho à esquerda que disse ir dar ao Buruntoni. Seguindo o mesmo, encontrou-se outro, em sentido inverso, que o prisioneiro declarou ser um dos trilhos de acesso ao acampamento.

Enveredando por ai, e passados uns 100 metros, os homens da frente (1º Gr Comb da 12), ao entrarem numa clareira, detectaram um grupo IN instalado atrás de baga-bagas e de árvores. Evidenciando grande rapidez de reflexos, o apontador de LGFog 8,9 Braima Jaló foi o primeiro a abrir fogo. No mesmo instante começámos a ser violentamente flagelados com Mort 82, Lança-Rckets e rajadas de metralhadora. Uma granada de morteiro rebentou junto da 2ª secção do do 1º Gr Comb, tendo os estilhaços atingido o Furriel Mil Pina, o 1º Cabo Atirador Valente e os soldados Baiel Buaró e Sajo Baldé (5).

Apos os primeiros momentos de surpresa e confusão, reagimos com determinação e, manobrando debaixo de fogo, obrigámos o IN a recuar. Por escassos segundos interrompeu-se o fogo para logo recomeçar com redobrada violência, quando já estávamos quase dentro do acampamento. Desta vez seriam atingidos pelas balas do IN os soldados do lº Gr Comb Leite (Transmissões) e Mamadu Au (6). A nossa reacção foi de tal modo pronta que o IN foi compelido a retirar definitivamente, com baixas prováveis. 0 fogo tinha durado mais de meia-hora.

Feita batida a zona, encontrou-se apenas 1 granada de RPG-2, 1 carregador de Metr Lig Degtyarev, peças de vestuário e diversos artigos. Foram destruídas todas as casas de mato. Verificou-se após a batida que tínhamos passado a menos de 50 metros do acampamento e que o "trilho do Buruntoni" era nem mais nem menos que a estrada Xime-Ponta do Inglês disfarçada pela abundância e altura do capim. Tornava-se evidente que a colaboração do prisioneiro se mostrara altamente comprometedora. Levou da primeira vez as NT até próximo do acampamento, para depois afastá-las, dando a nítida impressão de querer acima de tudo mostrá-las. Claro que, quando chegámos ao objectivo, já o IN estava emboscado.

Interrogado ainda sobre o depósito de material de que falara, disse que não era naquele acampamento e que ficava muito longe dali. Notou-se durante a batida vários buracos onde teriam estado enterradas munições e outro material.

Depois dos primeiros socorros, iniciou-se o regresso a corta-mato em direcção ao Xime, transportando-se os feridos mais graves às costas e progredindo-se cautelosamente a fim de evitar uma eventual emboscada entre Gundagué Beafada e Madina Colhido. Só aqui, aliás, é que o Dest A [CCAÇ 12] voltou a encontrar-se com o Dest B [CART 2520], em virtude da ligação-rádio ter falhado no decorrer da operação.

Feitas as heli-evacuações, reatou-se a marcha, tendo os 2 Dest chegado ao Xime por volta do meio-dia (7).

Dos feridos foram evacuados para o Hospital Militar 241 [Bissau] o Furriel Pina (hoje inoperacional), o 1º Cabo Valente (ainda operacional, mas com vários estilhaços pequenos e um músculo ligeiramente atrofiado), o Soldado Mamadu Au (com uma bala ainda por extrair na coxa) e Soldado TRAMS Leite.

_____________

Notas de L.G.

(1) Op Navalha Polida, 2 de Janeiro de 1970 : vd post de 7d e Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXII: Assalto ao destacamento IN de Seco Braima, na margem direita do Rio Corubal (Janeiro de 1970, CCAÇ 12, CAÇ 2404, CART 2413)

(2) Op Pato Rufia,vd post de 8 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLVI: Setembro/69 (Parte I) - Op Pato Rufia ou o primeiro golpe de mão da CCAÇ 12

(3) Unidade de quadrícula, aquartelada no Xime (1969/71)

(4) Vd mapa do Xime (1/50 000) onde estão claramente identificadas as várias localidades aqui referidas:

(i) Xime (sede da CART 2520);

(ii) a sul do Xime, Madina Colhido e Gundagué Beafada, na maregm esquerda do Rio Gundagé, afluente do Rio Geba;

(iii) mais para baixo, Baio (ou Darsalame) e Buruntonmi (na margem, dreitra do Rio Buruntoni, afluente dfo Rio Ciorubal);

(iv) e a oeste do Xime, Ponta Varela e Pondoin, com a sua enorme bolanha, no corno formado pelo Rio Geba e pelo Rio Corubal.

(v) A Ponta do Inglês -em crioulo, ponta quer dizer horta - fica na margem direita Rio Corubal: vd. mapa de Fulacunda (1 / 50 000). Esta antigo aquartelameto ou estacamento das NT tinha sido abandonado em meados de 1968...

(5) Furriel Miliciano, de Minas e Armadilhas, Joaquim João dos Santos Pina, é natural de Silves, Algarve; e 1º Cabo Atirador Manuel Monteiro Valente era apontador de dilagrama... O Sajo Baldé era municiador de LGFog 8.9).

(6) O Mamadu Au, da 2ª secção, era apontador de Metralhadora Ligeira HK 21; O soldado de transmissões ferido era, de seu nome completo, o José Leite Pereira.

(7) O comandante do 1º Gr Comb da CCAÇ 12 que sofreu as baixas era o Alferes Miliciano de Operações Especiais Francisco Magalhães Moreira, natural de Santo Tirso, se a memória me não falha e que eu gostaria de ter aqui, na nossa tertúlia. Pelo que eu julgo saber, ainda fez outra comissão - em Angola - como capitão miliciano.

Guiné 63/74 - DCXXIII: Op Borboleta Destemida: uma emboscada de meia-hora (Poindon/Ponta Varela, CCAÇ 12, Janeiro de 1970)


Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > 1969 ou 1970 > Pessoal do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 atravessando em coluna apeada a bolanha de Finete na margem direita do Rio Geba.

No primeiro plano, para além de municiador da Metralhadora Ligeira HK 21, Mamadú Uri Colubali (se não erro), vê-se o Furriel Miliciano Tony Levezinho, ao meio, ladeado pelo 1º Cabo Branco (à sua direita) e pelo 1º Cabo Alves (à sua esquerda). Acrescente-se que o José Marques Alves, de alcunha o Afredo, mora em Gondomar; e que o Manuel Alberto Faria Branco é da Póvoa do Varzim. Se alguém souber do seu paradeiro, que os encaminhe para a nossa tertúlia (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).

Extractos de: História da CCAÇ 12: Guiné 69/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores nº 12. 1971. Cap. II. 22-24. Selecção e notas de L.G.


(7.2.) Op Borboleta Destemida: Uma emboscada de meia-hora na zona de Poindon/Ponta Varela

O interrogatorio do elements 1N capturado por forças da CART 2413 no decorrer da anterior operação (1) (disse chamar-se Jomel Nanquitande, de etnia balanta, ter uma Espingarda Simonov distribuída e ser chefe da tabanca de Ponta Varela), permitiu-nos saber, entre outras coisas, que o IN voltara a instalar-se na área do antigo acampamento do Poindon/Ponta Varela destruído pelas NT em Setembro passado durante a Op Pato Rufia (2).

0 actual efectivo era de 25 homens, dispondo de Morteiro 82, cinco RPG-2 e armas automáticas. O dispositivo de segurança, mais rigoroso do que no tempo das chuvas, compunha-se de 4 sentinelas na estrada Xime-Ponta do Inglês (dois para cada lado).

0 grupo IN saía todas as manhãs a fim de montar segurança à população que trabalha na bolanha, regressando ao meio-dia e voltando à tarde até às 17h.

Com base nestes dados, foi decidido executar um golpe de mão clássico sobre o acampamento a fim de capturar ou aniquilar os elemen­tos IN assim como o material e meios de vida nele existentes (Op Borboleta Destemida).

Desenrolar da acção:

Em 13 de Janeiro de 1970, às 23h, a CCAÇ 12 a 3 Gr Comb (Dest a) e forças da CART 2520 (3)(Dest B) davam início à operação.

A progressão fez-se cuidadosamente pela estrada Xime-Ponta do Inglês até Madina Colhido, seguindo a corta-mato em direcção a Gundagué Beafada (4).

Devido à noite se encontrar excepcionalmente escura e o capim muito alto, os guias (compostos por 2 picadores do Xime e o prisioneiro) acabaram por perder-se. De forma que teve de retroceder-se a Madina Colhido onde se [retomou o] trilho.

Só se alcançou Gundagué Beafada por volta das 6h. Devido a este contratempo, seguiu-se imediatamente a corta-mato rumo ao trilho do Baio que se atingiu pelas 7.45h. Aqui o Dest B [CART 2520] separou-se encaminhando-se para o seu local de emboscada.

Entretanto, o prisioneiro informou que dali até ao acampamento [Ponta Varela / POindon] ainda era muito longe e que podia seguir-se o trilho até mais à frente, cortando-se depois à esquerda. 0 comandante do Dest A insistiu para que se cortasse já ali, mas como o prisioneiro afiançasse que podia fazê-lo mais à frente sem perigo e como se mostrasse muito seguro do que dizia, aquele concordou em prosseguir tendo recomendado ao prisioneiro que, ainda longe do acampamento cortasse à esquerda, a fim da nossa aproximação não ser detectada.

Progredíamos com redobrada cautela quando o prisioneiro informou que já estávamos perto e cortou por um trilho à esquerda que disse ir dar ao Buruntoni. Seguindo o mesmo, encontrou-se outro, em sentido inverso, que o prisioneiro declarou ser um dos trilhos de acesso ao acampamento.

Enveredando por ai, e passados uns 100 metros, os homens da frente (1º Gr Comb da 12), ao entrarem numa clareira, detectaram um grupo IN instalado atrás de baga-bagas e de árvores. Evidenciando grande rapidez de reflexos, o apontador de LGFog 8,9 Braima Jaló foi o primeiro a abrir fogo. No mesmo instante começámos a ser violentamente flagelados com Mort 82, Lança-Rckets e rajadas de metralhadora. Uma granada de morteiro rebentou junto da 2ª secção do do 1º Gr Comb, tendo os estilhaços atingido o Furriel Mil Pina, o 1º Cabo Atirador Valente e os soldados Baiel Buaró e Sajo Baldé (5).

Apos os primeiros momentos de surpresa e confusão, reagimos com determinação e, manobrando debaixo de fogo, obrigámos o IN a recuar. Por escassos segundos interrompeu-se o fogo para logo recomeçar com redobrada violência, quando já estávamos quase dentro do acampamento. Desta vez seriam atingidos pelas balas do IN os soldados do lº Gr Comb Leite (Transmissões) e Mamadu Au (6). A nossa reacção foi de tal modo pronta que o IN foi compelido a retirar definitivamente, com baixas prováveis. 0 fogo tinha durado mais de meia-hora.

Feita batida a zona, encontrou-se apenas 1 granada de RPG-2, 1 carregador de Metr Lig Degtyarev, peças de vestuário e diversos artigos. Foram destruídas todas as casas de mato. Verificou-se após a batida que tínhamos passado a menos de 50 metros do acampamento e que o "trilho do Buruntoni" era nem mais nem menos que a estrada Xime-Ponta do Inglês disfarçada pela abundância e altura do capim. Tornava-se evidente que a colaboração do prisioneiro se mostrara altamente comprometedora. Levou da primeira vez as NT até próximo do acampamento, para depois afastá-las, dando a nítida impressão de querer acima de tudo mostrá-las. Claro que, quando chegámos ao objectivo, já o IN estava emboscado.

Interrogado ainda sobre o depósito de material de que falara, disse que não era naquele acampamento e que ficava muito longe dali. Notou-se durante a batida vários buracos onde teriam estado enterradas munições e outro material.

Depois dos primeiros socorros, iniciou-se o regresso a corta-mato em direcção ao Xime, transportando-se os feridos mais graves às costas e progredindo-se cautelosamente a fim de evitar uma eventual emboscada entre Gundagué Beafada e Madina Colhido. Só aqui, aliás, é que o Dest A [CCAÇ 12] voltou a encontrar-se com o Dest B [CART 2520], em virtude da ligação-rádio ter falhado no decorrer da operação.

Feitas as heli-evacuações, reatou-se a marcha, tendo os 2 Dest chegado ao Xime por volta do meio-dia (7).

Dos feridos foram evacuados para o Hospital Militar 241 [Bissau] o Furriel Pina (hoje inoperacional), o 1º Cabo Valente (ainda operacional, mas com vários estilhaços pequenos e um músculo ligeiramente atrofiado), o Soldado Mamadu Au (com uma bala ainda por extrair na coxa) e Soldado TRAMS Leite.

_____________

Notas de L.G.

(1) Op Navalha Polida, 2 de Janeiro de 1970 : vd post de 7d e Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXII: Assalto ao destacamento IN de Seco Braima, na margem direita do Rio Corubal (Janeiro de 1970, CCAÇ 12, CAÇ 2404, CART 2413)

(2) Op Pato Rufia,vd post de 8 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLVI: Setembro/69 (Parte I) - Op Pato Rufia ou o primeiro golpe de mão da CCAÇ 12

(3) Unidade de quadrícula, aquartelada no Xime (1969/71)

(4) Vd mapa do Xime (1/50 000) onde estão claramente identificadas as várias localidades aqui referidas:

(i) Xime (sede da CART 2520);

(ii) a sul do Xime, Madina Colhido e Gundagué Beafada, na maregm esquerda do Rio Gundagé, afluente do Rio Geba;

(iii) mais para baixo, Baio (ou Darsalame) e Buruntonmi (na margem, dreitra do Rio Buruntoni, afluente dfo Rio Ciorubal);

(iv) e a oeste do Xime, Ponta Varela e Pondoin, com a sua enorme bolanha, no corno formado pelo Rio Geba e pelo Rio Corubal.

(v) A Ponta do Inglês -em crioulo, ponta quer dizer horta - fica na margem direita Rio Corubal: vd. mapa de Fulacunda (1 / 50 000). Esta antigo aquartelameto ou estacamento das NT tinha sido abandonado em meados de 1968...

(5) Furriel Miliciano, de Minas e Armadilhas, Joaquim João dos Santos Pina, é natural de Silves, Algarve; e 1º Cabo Atirador Manuel Monteiro Valente era apontador de dilagrama... O Sajo Baldé era municiador de LGFog 8.9).

(6) O Mamadu Au, da 2ª secção, era apontador de Metralhadora Ligeira HK 21; O soldado de transmissões ferido era, de seu nome completo, o José Leite Pereira.

(7) O comandante do 1º Gr Comb da CCAÇ 12 que sofreu as baixas era o Alferes Miliciano de Operações Especiais Francisco Magalhães Moreira, natural de Santo Tirso, se a memória me não falha e que eu gostaria de ter aqui, na nossa tertúlia. Pelo que eu julgo saber, ainda fez outra comissão - em Angola - como capitão miliciano.

12 março 2006

Guiné 63/74 - DCXXII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (18): Empada, Novembro/Dezembro de 1969

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Emapada > 2005 > O reencontro do Zé Teixeira com o Keba (à esquerda)... À direita, o Xico Allen, com quem o Zé Teixeira viajou em 2005, e que também tinha estado em Empada, embora já nais tarde (1972/74). De óculos, e vestido de azul, o Braima, que foi ajudante de enfermeiro do Zé Teixeira.

© José Teixeira (2006)


XVIII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).




Empada, 16 Novembro de 1969

O Marinho Caixeiro Conceição morreu (1). Era querido e estimado por todos. Passava o dia a cantar a cantar a morte o surpreendeu, quando no ataque do dia 14 estava na retrete. Talvez porque estivesse a cantar, não ouviu as saídas nem os gritos de avisos dos colegas que iam tomar banho. Quando sentiu o primeiro rebentamento junto à caserna tentou fugir, mas já era tarde, uma das primeiras granadas rebentou no telhado e meteu-lhe alguns estilhaços no corpo - o que lhe perfurou a nuca foi fatal -, e ainda foi projectado contra a parede, aumentando os estragos.

Eram vinte e uma e trinta, quando começou. Utilizaram seis morteiros 82, treze lança roquetes, bazucas, morteiro 60 e, claro, a costureirinhas, algumas com balas tracejantes. Tiveram sorte na pontaria e conseguiram metê-las quase todas dentro do quartel e povoação. Só junto às casernas rebentaram oito granadas. Junto ao arame caíram manga delas.

Além do Conceição,que morreu, ficaram feridos o Açoreano e quatro nativos. Na tabanca da Fátima (prostituta) caíram duas, mas não houve azar, pois os camaradas que lá estavam já se tinham escapulido.

Foram perseguidos até ao fundo da pista, mas às duas da manhã voltaram, aproximaram-se mesmo do arame junto à pista. Felizmente, desta vez não causaram danos. Se desta vez a pontaria fosse idêntica à do primeiro ataque, teria sido uma catástrofe.

Guiné > Região do Cacheu > Antotinha, a sul do Ingoré > 1968 > O Zé Teixeira, no início da comissão, prestando assistência à população local.

© José Teixeira (2006)


Empada, 21 de Novembro de 1969

É uma família muito simpática. Ela, Bijagó, e ele, Cabo Verdeano. Têm quatro filhos: Marcos, Lucas, Júlia e Victória. Muito trabalhadores, aproveitam o terreno cultivável, na impossibilidade de se dedicarem à pesca, a sua profissão, por medo da guerra.

A Júlia está muito marcada pelo ambiente militar que a rodeia, tem até um filho de branco e creio que foi prostituta, em tempos, em Bissau. Tem três filhos todos de tenra idade e é uma tentação cá para a malta. A sua liberdade de linguagem é um dos factores para que qualquer homem se sinta tentado a persegui-la e receber as suas benesses, por troca de umas moedas. A Victória, essa tem porte digno, alguns de nós já se lançaram ao engate, mas ela troca-lhe as voltas.

Até há pouco tempo, toda esta gente - três homens, três mulheres e cinco crianças - dormiam no mesmo compartimento da morança. Com os ataques seguidos de há dias, o medo aumentou, o que se compreende, pois na mesma noite tiveram de pegar por duas vezes nas crianças e fugir para o abrigo rasgado na terra e coberto com cibes, tendo caído duas granadas muito perto da sua casa.

Na luta pela sobrevivência, decidiram passar a dormir no minúsculo abrigo, pondo lá dois pequenos colchões, tendo como companheiros lagartos, formigas, cobras, etc. Os dois velhos da família, por falta de lugar no abrigo, continuam a dormir na morança.

Um clima muito quente e húmido, a terra muito húmida, uma pequena abertura para entrar, a enorme quantidade de bichos, a urina das crianças, o suor dos corpos... são estas as condições desta família. Quantas famílias, quantas Júlias haverá por esta terra !?


Empada, 20 de Novembro de 1969

O Kebá (2) aparecia todos os dias na Enfermaria. É o nosso ajudante no tratamentos da população. Trata as pequenas feridas. Elas já sabem:
- Kebá põe mercuro ! - e ele põe.
- Kebá, parte quinino! - e ele vai buscar LM. Vão-se embora todos contentes.

Ao Almoço lá lhe trazemos uma cantina cheia de comida. É a nossa paga. Há dias deixou de aparecer. Estranho, mas como tem duas mulheres e vários filhos no mato, admiti que tivesse ido embora.

Ontem vi-o a carregar barricas de água, da fonte para o jardim do chefe de posto. Perguntei-lhe porque deixou de aparecer e fiquei horrorizado. Estava preso por não pagar o Imposto de Pé Descalço (3).

Vim para o Quartel e a minha revolta fez-me agir. Um quarto de hora depois estava a casa do Chefe de Posto cercada por militares armados de G3 a exigirem a libertação do Kebá.

Safou a situação o nosso capitão que, apercebendo-se dos acontecimentos, dirigiu-se ao local e conseguiu a libertação do homem. Como não desarmámos, pois queríamos que o bandido fosse castigado, foi-nos prometido pela capitão que ia fazer uma exposição a Bissau para que fosse retirado de Empada (4).

Acalmada a situação fiquei à espera do castigo, mas parece que me foi dada razão.


Empada, 26 de Novembro de 1969

Na semana passada os Paras fizeram ronco em Gandembel, no “carreiro da morte” , matando 10 e aprisionando um capitão cubano, ferido com uma rajada no braço.

Este confessou ser de origem cubana e estar na Guiné há cinco anos, mobilizado por Fidel Castro (5). Dirigia-se a Conakry para uma reunião com o comando turra. Cerca de duas horas antes tinha passado no mesmo local o Nino com as rampas de lançamento de mísseis.

Já no Hospital em Bissau, foi visitado e reconhecido pelas senhoras do MNF – Movimento Nacional Feminino. Vivia no Bairro da Ajuda, quase em frente do hospital, com a esposa e três filhos. Foi apanhado na sexta feira e tinha no bolso um bilhete do UDIB da terça feira anterior.

A febre e o fim da Comissão atingiu completamente toda a malta da companhia... Nota-se um grande nervosismo, por sentirem que ainda faltam dois meses (6).

Dizem que é costume o IN atacarem nos últimos tempos de comissão. A nós já nos deram recentemente um morto. Por isso a preocupação é enorme.


Empada, 24 de Dezembro de 1969

É Natal. No ar uma camada de cacimba que nos dificulta a visão. Ao longe o troar das armas, o ribombar dos canhões, lembram os sinos da paz e, pela sua insistência, recordam-nos que é Natal.

Então, o espírito, o coração, todo o nosso ser, sente o Natal. Não o Natal que vivemos na hora presente, preocupados com a morte que nos espreita pela boca de um canhão, atentos ao menos sinal de perigo, para de arma em posição de rajada fazermos frente ao Inimigo.

Sente-se o Natal de nossas casas, a paz dos nossos lares e sofre-se não propriamente por estarmos em guerra, mas porque nos lembramos dos nossos. O seu Natal, não é Natal, porque falta alguém querido, alguém que sente e vive o Natal e outra maneira, em circunstâncias muito difíceis. Eles nem sonham !

© José Teixeira (2006)

____________

Notas do autor

(1)Vd.post de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

(2) O Kebá passava o dia na Enfermaria. Não quis ser milícia, o que suponho se devia ao facto de ter 2 mulheres e vários filhos com o IN.

Conversámos várias vezes sobre este assunto. Disse-me que em tempos tinha deixado Empada e ido para o mato, localizou as mulheres e tentou convencê-las a virem com ele, mas estas não quiseram ou não as deixaram vir. Vivia este drama. Quando éramos atacados, ele mesmo dizia que não sabia se as suas mulheres estavam do outro lado.

Quando em 2005 tive o prazer de voltar a Empada, senti uma mão nas costas e alguém a perguntar-me se me lembrava dele. Olhei, o rosto dizia-me alguma coisa, mas o nome, esse, fora-se.
- Sou o Kebá.
Quantas histórias ali foram revividas. Imaginem o resto.

(3) Pelo que vim a saber era um pequeno (grande) imposto que toda a gente tinha de pagar, quer trabalhasse quer não, por isso lhe puseram o nome do Imposto do Pé Descalço.

(4) Tal veio a acontecer uns dias depois, ficando o Capitão na função de Chefe de Posto até à substituição.

(5) Esta não será, com certeza, a verdade (verdadeira) dos factos, mas foi assim que ma contaram. Estou apenas a transcrever o que escrevi na altura. Isso permitirá ajuizar como as mensagens eram passadas e eventualmente os factos deturpados por conveniência ou não.

(6) Na realidade, tivémos que esperar mais cinco meses...

Guiné 63/74 - DCXXII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (18): Empada, Novembro/Dezembro de 1969

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Emapada > 2005 > O reencontro do Zé Teixeira com o Keba (à esquerda)... À direita, o Xico Allen, com quem o Zé Teixeira viajou em 2005, e que também tinha estado em Empada, embora já nais tarde (1972/74). De óculos, e vestido de azul, o Braima, que foi ajudante de enfermeiro do Zé Teixeira.

© José Teixeira (2006)


XVIII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).




Empada, 16 Novembro de 1969

O Marinho Caixeiro Conceição morreu (1). Era querido e estimado por todos. Passava o dia a cantar a cantar a morte o surpreendeu, quando no ataque do dia 14 estava na retrete. Talvez porque estivesse a cantar, não ouviu as saídas nem os gritos de avisos dos colegas que iam tomar banho. Quando sentiu o primeiro rebentamento junto à caserna tentou fugir, mas já era tarde, uma das primeiras granadas rebentou no telhado e meteu-lhe alguns estilhaços no corpo - o que lhe perfurou a nuca foi fatal -, e ainda foi projectado contra a parede, aumentando os estragos.

Eram vinte e uma e trinta, quando começou. Utilizaram seis morteiros 82, treze lança roquetes, bazucas, morteiro 60 e, claro, a costureirinhas, algumas com balas tracejantes. Tiveram sorte na pontaria e conseguiram metê-las quase todas dentro do quartel e povoação. Só junto às casernas rebentaram oito granadas. Junto ao arame caíram manga delas.

Além do Conceição,que morreu, ficaram feridos o Açoreano e quatro nativos. Na tabanca da Fátima (prostituta) caíram duas, mas não houve azar, pois os camaradas que lá estavam já se tinham escapulido.

Foram perseguidos até ao fundo da pista, mas às duas da manhã voltaram, aproximaram-se mesmo do arame junto à pista. Felizmente, desta vez não causaram danos. Se desta vez a pontaria fosse idêntica à do primeiro ataque, teria sido uma catástrofe.

Guiné > Região do Cacheu > Antotinha, a sul do Ingoré > 1968 > O Zé Teixeira, no início da comissão, prestando assistência à população local.

© José Teixeira (2006)


Empada, 21 de Novembro de 1969

É uma família muito simpática. Ela, Bijagó, e ele, Cabo Verdeano. Têm quatro filhos: Marcos, Lucas, Júlia e Victória. Muito trabalhadores, aproveitam o terreno cultivável, na impossibilidade de se dedicarem à pesca, a sua profissão, por medo da guerra.

A Júlia está muito marcada pelo ambiente militar que a rodeia, tem até um filho de branco e creio que foi prostituta, em tempos, em Bissau. Tem três filhos todos de tenra idade e é uma tentação cá para a malta. A sua liberdade de linguagem é um dos factores para que qualquer homem se sinta tentado a persegui-la e receber as suas benesses, por troca de umas moedas. A Victória, essa tem porte digno, alguns de nós já se lançaram ao engate, mas ela troca-lhe as voltas.

Até há pouco tempo, toda esta gente - três homens, três mulheres e cinco crianças - dormiam no mesmo compartimento da morança. Com os ataques seguidos de há dias, o medo aumentou, o que se compreende, pois na mesma noite tiveram de pegar por duas vezes nas crianças e fugir para o abrigo rasgado na terra e coberto com cibes, tendo caído duas granadas muito perto da sua casa.

Na luta pela sobrevivência, decidiram passar a dormir no minúsculo abrigo, pondo lá dois pequenos colchões, tendo como companheiros lagartos, formigas, cobras, etc. Os dois velhos da família, por falta de lugar no abrigo, continuam a dormir na morança.

Um clima muito quente e húmido, a terra muito húmida, uma pequena abertura para entrar, a enorme quantidade de bichos, a urina das crianças, o suor dos corpos... são estas as condições desta família. Quantas famílias, quantas Júlias haverá por esta terra !?


Empada, 20 de Novembro de 1969

O Kebá (2) aparecia todos os dias na Enfermaria. É o nosso ajudante no tratamentos da população. Trata as pequenas feridas. Elas já sabem:
- Kebá põe mercuro ! - e ele põe.
- Kebá, parte quinino! - e ele vai buscar LM. Vão-se embora todos contentes.

Ao Almoço lá lhe trazemos uma cantina cheia de comida. É a nossa paga. Há dias deixou de aparecer. Estranho, mas como tem duas mulheres e vários filhos no mato, admiti que tivesse ido embora.

Ontem vi-o a carregar barricas de água, da fonte para o jardim do chefe de posto. Perguntei-lhe porque deixou de aparecer e fiquei horrorizado. Estava preso por não pagar o Imposto de Pé Descalço (3).

Vim para o Quartel e a minha revolta fez-me agir. Um quarto de hora depois estava a casa do Chefe de Posto cercada por militares armados de G3 a exigirem a libertação do Kebá.

Safou a situação o nosso capitão que, apercebendo-se dos acontecimentos, dirigiu-se ao local e conseguiu a libertação do homem. Como não desarmámos, pois queríamos que o bandido fosse castigado, foi-nos prometido pela capitão que ia fazer uma exposição a Bissau para que fosse retirado de Empada (4).

Acalmada a situação fiquei à espera do castigo, mas parece que me foi dada razão.


Empada, 26 de Novembro de 1969

Na semana passada os Paras fizeram ronco em Gandembel, no “carreiro da morte” , matando 10 e aprisionando um capitão cubano, ferido com uma rajada no braço.

Este confessou ser de origem cubana e estar na Guiné há cinco anos, mobilizado por Fidel Castro (5). Dirigia-se a Conakry para uma reunião com o comando turra. Cerca de duas horas antes tinha passado no mesmo local o Nino com as rampas de lançamento de mísseis.

Já no Hospital em Bissau, foi visitado e reconhecido pelas senhoras do MNF – Movimento Nacional Feminino. Vivia no Bairro da Ajuda, quase em frente do hospital, com a esposa e três filhos. Foi apanhado na sexta feira e tinha no bolso um bilhete do UDIB da terça feira anterior.

A febre e o fim da Comissão atingiu completamente toda a malta da companhia... Nota-se um grande nervosismo, por sentirem que ainda faltam dois meses (6).

Dizem que é costume o IN atacarem nos últimos tempos de comissão. A nós já nos deram recentemente um morto. Por isso a preocupação é enorme.


Empada, 24 de Dezembro de 1969

É Natal. No ar uma camada de cacimba que nos dificulta a visão. Ao longe o troar das armas, o ribombar dos canhões, lembram os sinos da paz e, pela sua insistência, recordam-nos que é Natal.

Então, o espírito, o coração, todo o nosso ser, sente o Natal. Não o Natal que vivemos na hora presente, preocupados com a morte que nos espreita pela boca de um canhão, atentos ao menos sinal de perigo, para de arma em posição de rajada fazermos frente ao Inimigo.

Sente-se o Natal de nossas casas, a paz dos nossos lares e sofre-se não propriamente por estarmos em guerra, mas porque nos lembramos dos nossos. O seu Natal, não é Natal, porque falta alguém querido, alguém que sente e vive o Natal e outra maneira, em circunstâncias muito difíceis. Eles nem sonham !

© José Teixeira (2006)

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Notas do autor

(1)Vd.post de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

(2) O Kebá passava o dia na Enfermaria. Não quis ser milícia, o que suponho se devia ao facto de ter 2 mulheres e vários filhos com o IN.

Conversámos várias vezes sobre este assunto. Disse-me que em tempos tinha deixado Empada e ido para o mato, localizou as mulheres e tentou convencê-las a virem com ele, mas estas não quiseram ou não as deixaram vir. Vivia este drama. Quando éramos atacados, ele mesmo dizia que não sabia se as suas mulheres estavam do outro lado.

Quando em 2005 tive o prazer de voltar a Empada, senti uma mão nas costas e alguém a perguntar-me se me lembrava dele. Olhei, o rosto dizia-me alguma coisa, mas o nome, esse, fora-se.
- Sou o Kebá.
Quantas histórias ali foram revividas. Imaginem o resto.

(3) Pelo que vim a saber era um pequeno (grande) imposto que toda a gente tinha de pagar, quer trabalhasse quer não, por isso lhe puseram o nome do Imposto do Pé Descalço.

(4) Tal veio a acontecer uns dias depois, ficando o Capitão na função de Chefe de Posto até à substituição.

(5) Esta não será, com certeza, a verdade (verdadeira) dos factos, mas foi assim que ma contaram. Estou apenas a transcrever o que escrevi na altura. Isso permitirá ajuizar como as mensagens eram passadas e eventualmente os factos deturpados por conveniência ou não.

(6) Na realidade, tivémos que esperar mais cinco meses...

09 março 2006

Guiné 63/74 - DCXXI: Os rios (e os lugares) da nossa memória (3): Geba, Undunduma (Carlos Marques dos Santos)

Post nº 621 (DCXXI)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > Pessoal do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 atravessando em coluna apeada a bolanha de Finete na margem direita do Rio Geba. A tabanca, em autodefesa, guarnecida pelo Pelotão de Milicia nº 102, é visível ao fundo. No primeiro plano, para além de municiador da Metralhadora Ligeira HK 21, Mamadú Uri Colubali (se não erro), vê-se o Fur Mil Reis e o 1º Cabo Branco (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).


© Humberto Reis (2006).


Texto do Carlos Marques dos Santos, ex-furriel miliciano da CART 2339 (Mansambo, 1968/69), afecta ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (1).

Guiné > Rio Geba, junto ao Xime > Travessia de canoa para o Enxalé (1969),

© Carlos Marques Santos (2005)


Guiné > Rio Geba > Cais (1969)

© Carlos Marques Santos (2005)

Luís:

1. O tema do rio Geba levou-me a ir repescar estas velhas fotos. A qualidade não é famosa, mas apesar de tudo é o rio Geba retratado.

E eu que estive muitas vezes perto dele, vigiando a passagem dos barcos vindos de Bissau. Finete, os seus mangais e cajueiros. A Bor e o macaréu. Som impressionante da água, em força, a lutar contra aquilo que era natural.

Os rios correm para o mar. Este não! Ciclicamente corre contra o seu rumo natural. E as suas margens enlameadas, onde, enterrados até à cintura, recolhíamos os tão saborosos camarões.

Guiné > Zona Leste > Rio Undunduma, afluente do Rio Geba > 1969 >
© Carlos Marques Santos (2005)


Guiné > Zona leste > Rio Undunduma > Pôr do sol (1969)

© Carlos Marques Santos (2005)

2. Já agora e porque não, outro pequeno rio, o Undunduma, também motivo de memórias (1).

O nascer e o pôr do sol serão inesquecíveis, apesar das condições em que vivemos neste cenário.

Memórias de um tempo vivido e que passou.

Um abraço.

CMS

_______

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de

4 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCVIII: Os dias felizes na ponte do Rio Undunduma (CCAÇ 12)

4 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXIX: Os Solitários da CART 2339 na Ponte do Rio Undunduma e em Fá

3 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXVI: Herr Spínola na ponte do Rio Undunduma


Guiné 63/74 - DCXXI: Os rios (e os lugares) da nossa memória (3): Geba, Udunduma (Carlos Marques dos Santos)

Post nº 621 (DCXXI)




Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > Pessoal do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 atravessando em coluna apeada a bolanha de Finete na margem direita do Rio Geba. A tabanca, em autodefesa, guarnecida pelo Pelotão de Milicia nº 102, é visível ao fundo. No primeiro plano, para além de municiador da Metralhadora Ligeira HK 21, Mamadú Uri Colubali (se não erro), vê-se o Fur Mil Reis e o 1º Cabo Branco (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).


Texto do Carlos Marques dos Santos, ex-furriel miliciano da CART 2339 (Mansambo, 1968/69), afecta ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (1).


Guiné > Rio Geba, junto ao Xime > Travessia de canoa para o Enxalé (1969),

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados



Guiné > Rio Geba > Cais (1969)

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados

Luís:

1. O tema do rio Geba levou-me a ir repescar estas velhas fotos. A qualidade não é famosa, mas apesar de tudo é o rio Geba retratado.

E eu que estive muitas vezes perto dele, vigiando a passagem dos barcos vindos de Bissau. Finete, os seus mangais e cajueiros. A Bor e o macaréu. Som impressionante da água, em força, a lutar contra aquilo que era natural.

Os rios correm para o mar. Este não! Ciclicamente corre contra o seu rumo natural. E as suas margens enlameadas, onde, enterrados até à cintura, recolhíamos os tão saborosos camarões.


Guiné > Zona Leste > Rio Udunduma, afluente do Rio Geba > 1969 >

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados




Guiné > Zona leste > Rio Udunduma > Pôr do sol (1969)

Foto: © Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados


2. Já agora e porque não, outro pequeno rio, o Udunduma, também motivo de memórias (1).

O nascer e o pôr do sol serão inesquecíveis, apesar das condições em que vivemos neste cenário.

Memórias de um tempo vivido e que passou.

Um abraço.
CMS
_______

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de

4 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCVIII: Os dias felizes na ponte do Rio Udunduma (CCAÇ 12)

4 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXIX: Os Solitários da CART 2339 na Ponte do Rio Udunduma e em Fá

3 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXVI: Herr Spínola na ponte do Rio Udunduma

Guiné 63/74 - DCXX: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (17): Este gajo estava mesmo apanhado

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Um militar da CCAÇ 2381 - Os Maiorais na fase final da sua comissão (1969/70)

© José Teixeira (2006)



Luís:

A paz, a felicidade e o amor estejam contigo.

Junto a última parte do meu diário. Coisas muito pessoais ficaram do lado de cá. No entanto vão algumas partes reflexo de um ser que nunca deixou de pensar que talvez não tenham interesse em fazer passar no Blogue. Deixo ao teu critério.

Segue também um pequeno texto sobre o que está neste momento na berra: a sexualidade em tempo de guerra. É mais uma brasa para a fogueira que merece ser alimentada, pois muita coisa há a dizer.

Zé Teixeira


XVII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Recorde-se os principais passos do nosso camarada Zé:

"Fui enfermeiro de campanha na CCAÇ 2381. Fui para a Guiné em fins de Abril de 1968 e regressei em Maio de 1970. Estacionei cerca de 3 meses em Ingoré, no Norte, onde a companhia fez o seu treino operacional.

"Seguimos depois para Buba e fixámo-nos em Quebo (Aldeia Formosa), [no final de Julho de 1968]." Aí a CCAÇ 23881 teve como missão fazer escoltas de segurança às colunas logísticas de abastecimento entre Aldeia Formosa/Buba e Aldeia Formosa/Gandembel, ao mesmo tempo que garantia a autodefesa de Aldeia Formosa, Mampatá e Chamarra.

"Regressámos a Buba, em Janeiro de 1969, para servirmos de guarda às equipas de Engenharia que construiram a estrada Buba/Aldeia Formosa. Face ao desgaste físico e emocional fomos enviados, a partir de [Maio de] 1969, para Empada onde vivemos os últimos meses de Comissão [até ao regresso em Maio de 1970]".

O Diário do Zé Teixeira começou a ser publicado no nosso blogue no dia 1 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDX: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (1): Buba, Julho de 1968


Empada, 19 de Setembro de 1969

Preciso de desabafar, de me abrir com alguém. Dentro de mim existe uma tremenda confusão. Quero fugir deste ambiente bélico, em que só se pensa na sobrevivência. Em que se mata para não morrer. Em que não se faz nada a não ser estar atento para ouvir uma possível saída de morteiro, que pode ser a nossa desgraça. Em que se parte ao desconhecido numa terra vermelha, estranha, inóspita, que esconde armadilhas fatais.

Sou inocente, nesta guerra que me recuso a fazer.

Procuro na solidão e no estudo, melhor na simples leitura, pois não consigo concentrar-me, as forças que me faltam, já que ninguém consegue compreender o meu estado de espírito. Também não encontro ninguém com quem possa conversar estas coisas. Ninharias, dirão.

Em cada dia que passa a confiança em mim mesmo vai-se abaixo enquanto sinto crescer dentro de mim um estado de espírito de revolta contra todos os homens que fomentam as guerras. Queria ir a Bissau fazer história mas não sou capaz.

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Restos de abrigos construídos nos antigos quartos dos furréis da CCAÇ 2381, aqui aquartelados em 1969.

© José Teixeira (2006)


Empada, 24 de Setembro de 1969

O IN ainda não decidiu deixar-me em paz. No dia 20 à noite apareceram por esta terra. Aliás, no dia dezoito também cá estiveram, mas foi de muito longe. Só notei porque o 81 funcionou, para que não se entusiasmassem. O ataque do dia 20 foi fraco, talvez o mais fraco ataque que sofri até à data e me fez correr para o abrigo. Poucas granadas rebentaram e caíram todas fora do arame. Também utilizaram a costureirinha, mas sem quaisquer efeitos.
Também fizeram duas visitas a Buba. Apenas assustaram.

Empada, 16 de Outubro de 1969

Do pelotão que está em Buba chegam novidades. Há dias houve por lá um terrível ataque com tentativa de assalto. Atacaram do sítio habitual do lado do rio com 10 Canhões s/r, enquanto do lado da pista fazia o desenvolvimento do assalto, procurando apanhar a tropa desprevenida.

Segundo dizem os meus colegas eram mais de duzentos, a avançarem em arco para que se as nossas forças saíssem as envolverem. Felizmente estava emboscado um Pelotão que os detectou. Parece que foi um tremendo fogachal, enquanto os Fuzas perseguiam os que atacaram do lado do rio que pretendiam reforçar as forças de assalto.

Ao fazer-se o reconhecimento, foi encontrado um rádio, sinal de que o ataque foi bem comandado e o fogo controlado por sentinelas avançadas. Foram descobertas e desenterradas 180 granadas de canhão s/recuo. Foi também ouvido ruído de viaturas.

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Antigo abrigo de morteiro construído pela CCAÇ 2381, na fase final da sua comissão (1969/70)

© José Teixeira (2006)


Quando os Fuzas voltaram ao quartel, foram seguidos pelo IN que os atacou muito perto de Buba. Assim caíram entre dois fogos, o do IN e o de Buba que reagiu a um possível ataque sem saber que o fogo era destinado ao grupo de fuzas..

No dia anterior tinha havido uma coluna a Nhala ,onde apenas foi encontrada uma A/P com dispositivo anti-levantamento eléctrico que felizmente não funcionou por ter as pilhas gastas.

Nesta mina havia uma mensagem escrita: "Esta é para Alferes Gonçalves". Infelizmente este furriel (e não alferes) já está em Lisboa devido a um estilhaço que apanhou noutro ataque a Buba.

Há tempos apareceu aqui por Empada um turra. Deu várias informações e foi para Buba integrado no Grupo de fuzas, para fazer de guia. Parece que conseguiu fugir levando uma G3 (1).

Empada, 26 de Outubro de 1969

Vejo-te, nesta manhã radiosa, em que o sol parece sorrir enamorado. A brisa bate de leve no teu rosto, ciumenta do teu olhar. Os pássaros, nos seus chilreios cantam hinos de louvor à tua beleza. Até as pedras da rua se sentem orgulhosas por te servirem de trono.

Eu vejo-te passar através do meu espírito, do meu coração enamorado. Sinto ciúmes de tudo o que te rodeia, de tudo o que amas, pois é amor que me roubas. Quem me dera ter-te a meu lado e de mãos dadas, cabeça erguida, altivos, felizes e confiantes, palmilharmos o caminho da vida . . .

Ontem procedeu-se à rendição do Pelotão estacionado em Buba. Parece que Sector está em brasa. Durante um mês foram atacados sete vezes. Num ataque de tiro ao alvo, meteram nove canhoadas numa parede de caserna . . sem ninguém. Que sorte.

_______

Notas do autor:

(1) A história foi muito mal contada na altura pelos Fuzas. No meu regresso em fim de Comissão vinha também no Niassa um fuza que tinha sofrido um castigo e foi expulso da Guiné. Contou-me este, que o tal Turra não fugiu. Um dos Fuzas tinha perdido a G3 e era preciso justificá-la. Por outro lado as suas informações eram a causa para eventuais futuras acções de combate, com assaltos a bases do IN, o que era sempre arriscado. A solução foi amarrar o gajo e atirá-lo ao rio fazendo-o desaparecer e passando a informação que tinha conseguido fugir.


(2) Comentário do autor em 2006: "Este gajo estava mesmo apanhado"...

Guiné 63/74 - DCXX: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (17): Este gajo estava mesmo apanhado

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Um militar da CCAÇ 2381 - Os Maiorais na fase final da sua comissão (1969/70)

© José Teixeira (2006)



Luís:

A paz, a felicidade e o amor estejam contigo.

Junto a última parte do meu diário. Coisas muito pessoais ficaram do lado de cá. No entanto vão algumas partes reflexo de um ser que nunca deixou de pensar que talvez não tenham interesse em fazer passar no Blogue. Deixo ao teu critério.

Segue também um pequeno texto sobre o que está neste momento na berra: a sexualidade em tempo de guerra. É mais uma brasa para a fogueira que merece ser alimentada, pois muita coisa há a dizer.

Zé Teixeira


XVII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Recorde-se os principais passos do nosso camarada Zé:

"Fui enfermeiro de campanha na CCAÇ 2381. Fui para a Guiné em fins de Abril de 1968 e regressei em Maio de 1970. Estacionei cerca de 3 meses em Ingoré, no Norte, onde a companhia fez o seu treino operacional.

"Seguimos depois para Buba e fixámo-nos em Quebo (Aldeia Formosa), [no final de Julho de 1968]." Aí a CCAÇ 23881 teve como missão fazer escoltas de segurança às colunas logísticas de abastecimento entre Aldeia Formosa/Buba e Aldeia Formosa/Gandembel, ao mesmo tempo que garantia a autodefesa de Aldeia Formosa, Mampatá e Chamarra.

"Regressámos a Buba, em Janeiro de 1969, para servirmos de guarda às equipas de Engenharia que construiram a estrada Buba/Aldeia Formosa. Face ao desgaste físico e emocional fomos enviados, a partir de [Maio de] 1969, para Empada onde vivemos os últimos meses de Comissão [até ao regresso em Maio de 1970]".

O Diário do Zé Teixeira começou a ser publicado no nosso blogue no dia 1 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDX: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (1): Buba, Julho de 1968


Empada, 19 de Setembro de 1969

Preciso de desabafar, de me abrir com alguém. Dentro de mim existe uma tremenda confusão. Quero fugir deste ambiente bélico, em que só se pensa na sobrevivência. Em que se mata para não morrer. Em que não se faz nada a não ser estar atento para ouvir uma possível saída de morteiro, que pode ser a nossa desgraça. Em que se parte ao desconhecido numa terra vermelha, estranha, inóspita, que esconde armadilhas fatais.

Sou inocente, nesta guerra que me recuso a fazer.

Procuro na solidão e no estudo, melhor na simples leitura, pois não consigo concentrar-me, as forças que me faltam, já que ninguém consegue compreender o meu estado de espírito. Também não encontro ninguém com quem possa conversar estas coisas. Ninharias, dirão.

Em cada dia que passa a confiança em mim mesmo vai-se abaixo enquanto sinto crescer dentro de mim um estado de espírito de revolta contra todos os homens que fomentam as guerras. Queria ir a Bissau fazer história mas não sou capaz.

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Restos de abrigos construídos nos antigos quartos dos furréis da CCAÇ 2381, aqui aquartelados em 1969.

© José Teixeira (2006)


Empada, 24 de Setembro de 1969

O IN ainda não decidiu deixar-me em paz. No dia 20 à noite apareceram por esta terra. Aliás, no dia dezoito também cá estiveram, mas foi de muito longe. Só notei porque o 81 funcionou, para que não se entusiasmassem. O ataque do dia 20 foi fraco, talvez o mais fraco ataque que sofri até à data e me fez correr para o abrigo. Poucas granadas rebentaram e caíram todas fora do arame. Também utilizaram a costureirinha, mas sem quaisquer efeitos.
Também fizeram duas visitas a Buba. Apenas assustaram.

Empada, 16 de Outubro de 1969

Do pelotão que está em Buba chegam novidades. Há dias houve por lá um terrível ataque com tentativa de assalto. Atacaram do sítio habitual do lado do rio com 10 Canhões s/r, enquanto do lado da pista fazia o desenvolvimento do assalto, procurando apanhar a tropa desprevenida.

Segundo dizem os meus colegas eram mais de duzentos, a avançarem em arco para que se as nossas forças saíssem as envolverem. Felizmente estava emboscado um Pelotão que os detectou. Parece que foi um tremendo fogachal, enquanto os Fuzas perseguiam os que atacaram do lado do rio que pretendiam reforçar as forças de assalto.

Ao fazer-se o reconhecimento, foi encontrado um rádio, sinal de que o ataque foi bem comandado e o fogo controlado por sentinelas avançadas. Foram descobertas e desenterradas 180 granadas de canhão s/recuo. Foi também ouvido ruído de viaturas.

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005 > Antigo abrigo de morteiro construído pela CCAÇ 2381, na fase final da sua comissão (1969/70)

© José Teixeira (2006)


Quando os Fuzas voltaram ao quartel, foram seguidos pelo IN que os atacou muito perto de Buba. Assim caíram entre dois fogos, o do IN e o de Buba que reagiu a um possível ataque sem saber que o fogo era destinado ao grupo de fuzas..

No dia anterior tinha havido uma coluna a Nhala ,onde apenas foi encontrada uma A/P com dispositivo anti-levantamento eléctrico que felizmente não funcionou por ter as pilhas gastas.

Nesta mina havia uma mensagem escrita: "Esta é para Alferes Gonçalves". Infelizmente este furriel (e não alferes) já está em Lisboa devido a um estilhaço que apanhou noutro ataque a Buba.

Há tempos apareceu aqui por Empada um turra. Deu várias informações e foi para Buba integrado no Grupo de fuzas, para fazer de guia. Parece que conseguiu fugir levando uma G3 (1).

Empada, 26 de Outubro de 1969

Vejo-te, nesta manhã radiosa, em que o sol parece sorrir enamorado. A brisa bate de leve no teu rosto, ciumenta do teu olhar. Os pássaros, nos seus chilreios cantam hinos de louvor à tua beleza. Até as pedras da rua se sentem orgulhosas por te servirem de trono.

Eu vejo-te passar através do meu espírito, do meu coração enamorado. Sinto ciúmes de tudo o que te rodeia, de tudo o que amas, pois é amor que me roubas. Quem me dera ter-te a meu lado e de mãos dadas, cabeça erguida, altivos, felizes e confiantes, palmilharmos o caminho da vida . . .

Ontem procedeu-se à rendição do Pelotão estacionado em Buba. Parece que Sector está em brasa. Durante um mês foram atacados sete vezes. Num ataque de tiro ao alvo, meteram nove canhoadas numa parede de caserna . . sem ninguém. Que sorte.

_______

Notas do autor:

(1) A história foi muito mal contada na altura pelos Fuzas. No meu regresso em fim de Comissão vinha também no Niassa um fuza que tinha sofrido um castigo e foi expulso da Guiné. Contou-me este, que o tal Turra não fugiu. Um dos Fuzas tinha perdido a G3 e era preciso justificá-la. Por outro lado as suas informações eram a causa para eventuais futuras acções de combate, com assaltos a bases do IN, o que era sempre arriscado. A solução foi amarrar o gajo e atirá-lo ao rio fazendo-o desaparecer e passando a informação que tinha conseguido fugir.


(2) Comentário do autor em 2006: "Este gajo estava mesmo apanhado"...

Guiné 63/74 - DCXIX: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (1): O nosso vagomestre Cabral


1. Começo por agradecer ao Paulo Raposo a gentileza do envio, pelo correio, de um documento, ilustrado, com a sua história na Guiné, que é também a história da CCAÇ 2405 (Mansoa, Galomaro, Dulombi...) do BCCAÇ 2852 (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca, 1968/70), um relato do seu envolvimento pessoal e militar, com a sua visão (muito própia e assumida) das coisas, com as suas alegrias e tristezas (a morte do seu pai, por exemplo, durante a comissão; o desastre no Rio Corubal, no Cheche...).

É um documento notável que eu gostaria de poder partilhar com o resto da tertúlia, se ele para tanto me der autorização para tal... O Paulo esteve em Madina do Boé, no Fiofioli, conheceu camaradas que eu, o Humberto, o Tony Levezinho, o Fernandes e o Jorge Cabral também conhecemos, em Bambadinca, como o Beja Santos... O Paulo foi alferes miliciano, com a especialidade de minas e armadilhas, na CCAÇ 2405, sendo portanto camarada de outros dois membros da nossa tertúlia, o Victor David e Rui Felício (1) .

Por sua vez, o Rui, já o sabemos, é um excelente contador de estórias. O Paulo mandou-te também cópia de várias dessas estórias, que são deliciosas, e a que eu vou chamar estórias de Dulombi. Publica-se hoje a primeira dessas estórias, com a devida vénia e um grande abraço aos camaradas de Dulombi e Galomaro: Paulo, Victor e Rui...


2. O nosso vagomestre Cabral (por Rui Felício)

O Natal aproximava-se…

Antes da data prevista, chegara-nos um presente inesperado! Um periquito….

O furriel Cabral foi-nos mandado para substituir o furriel vagomestre, uns meses antes falecido em acidente de viação na estrada de Galomaro-Bafatá numa viagem de reabastecimento de viveres à nossa Companhia…

O Cabral era uma jóia de pessoa, simpatiquíssimo, um tanto ingénuo e crédulo, sempre bem disposto e que rapidamente granjeou a estima de todos.

Natural de Bissau, de etnia pepel, um verdadeiro e retinto preto da Guiné…

Estudara em Lisboa, e, incorporado no exército, fez o curso de sargentos milicianos até que foi promovido a furriel e mobilizado, em rendição individual, para a Guiné, sua terra natal…

Calhou-lhe em sorte (ou azar…), ser destacado para a nossa Companhia numa altura em que já tinhamos cumprido um ano e meio de comissão.

Portanto já éramos, claramente, velhinhos experientes, com tudo o que de bom e de mau isso significava.

Ora um periquito no seio de tantos velhinhos era coisa que prometia animar a rotina e que não se podia desperdiçar.

O Sargento Vargas, que já tinha feito uma comissão em Angola como furriel miliciano e que metera o chico no fim da mesma, combinou pregar uma partida ao Cabral, de conluio com os seus camaradas (furriéis Veiga, Ribas, Trombinhas, Rebelo e muitos outros… ).

Deu conhecimento disso aos alferes e explicou-lhes o plano.

O cabo Xico, responsável pelo bar da messe conjunta de oficiais e sargentos, foi avisado que depois de jantar lhe seria pedida uma rodada de aniz escarchado, bebida incolor, em tudo semelhante à água, excepto no sabor muito doce e no grau alcoólico, como é evidente.

E o cabo deveria satisfazer o pedido colocando à frente de cada um dos presentes sentados à mesa, um cálice cheio da referida bebida….

Só que…(!)… apenas o cálice do furriel Cabral deveria conter aniz! Todos os restantes seriam cheios com água……..

E assim foi feito…

Sempre que os comparsas engoliam os repectivos cálices, alguém se prontificava a pagar mais uma rodada para todos…. E o cabo Xico lá ia levantando os cálices trazendo-os de novo cheios, um com aniz para o Cabral e um para cada um dos restantes, com água…

O Cabral foi perdendo a timidez, ganhando alegria, e com a voz entaramelada era já ele próprio que ordenava ao cabo Xico:

- Mais uma ( hic.. ) rodada que pago eu agora ( hic… ), se fachabôri, rrr…rápido e com ( hic…) bons modos! Hic..hic…
E gargalhava sem ele próprio perceber a razão de tão súbita e inusitada alegria….

Muitas rodadas depois, o Sargento Vargas, resolveu acabar por ali com a brincadeira, receoso de que o Cabral não resistisse muito mais aos efeitos de tanto aniz…e aconselhou a que todos fossem para a rua tomar o ar fresco da noite…

Quem não estava muito pelos ajustes era o Carbral que queria beber mais um cálice… Confessava ser a primeira vez que tinha bebido aniz e que nunca sonhara que fosse uma bebida tão deliciosamente doce…

E intimou o cabo Xico, socorrendo-se de toda a autoridade que as suas divisas lhe conferiam:

- Ou trazes mais uma ( hic… ) rodada ou levas uma ( hic… ) porrada!... Escolhe!

Como o cabo Xico, por indicação do Sargento Vargas, não cumprisse a ordem, o Cabral deu um impulso para se levantar e para coagir o Xico a cumprir a ordem.

Mas o peso do aniz foi mais forte que o impulso… e o Cabral caiu de borco no chão …inanimado!

O furriel enfermeiro Ribas, ali presente, apercebeu-se, primeiro que todos, da gravidade da situação e foi rápidamente buscar uma injecção de coramina que de imediato ministrou no corpo inanimado do Cabral…

Alguns segundos depois o Cabral retomava os sentidos e foi ajudado a dirigir-se ao seu abrigo onde o deitaram e o adormeceram….

Entre risos e alguns suspiros de alivio por a brincadeira não ter resultado em tragédia, todos se dirigiram para os respectivos abrigos, remoendo as peripécias do sucedido…

A noite passou…

E o alvorecer, marcado pelo som ritmado dos pilões a descascar o arroz e pelas orações matinais dos homens grandes da tabanca, foi acordando os militares que, a pouco e pouco começavam a sua azáfama diária.

Uns a irem buscar água para abastecer os diversos bidons espalhados pelo aquartelamento, transformados em reservatórios, os das transmissões e da secretaria para os respectivos locais de trabalho e os operacionais em preparação do próximo patrulhamento ou na limpeza das armas.

Na messe, alguns alferes, sargentos e furriéis matavam o bicho matinal e recordavam as cenas da noite anterior e, especialmente, reviviam os pormenores da bebedeira do Cabral.

Com os olhos encovados, ar de ressaca ainda mal curada, e alguma vergonha pelo sucedido, surge o furriel Cabral, que com um sorriso amarelo cumprimentou os presentes:

- Bom dia!

Quase em coro, com um largo sorriso, os presentes retribuiram:

- Bom dia pá! Passaste bem a noite?

- Nem me lembro bem…. Só sei que estou com uma sede terrivel.. e umas náuseas e dor de cabeça insuportáveis….- retorquiu o Cabral

E continuou:

- Mas já falei com o Ribas e ele diz que isso é natural e que mais umas horas tudo voltará ao normal...

E, ainda confuso, perguntou:

- Quantos anizes a gente bebeu ontem?... Eu acho que até 15 contei.. mas depois a minha memória não tem mais nada registado… Vocês contaram-nos ?... O cabo Xico deve ter tomado nota, com certeza….

O Xico, atrás do balcão, matreiro, antecipou-se na resposta:

- Apontei 17, meu furriel, e dessas rodadas, 3 são da sua conta… Logo que puder, agradeço-lhe que salde a dívida….

E o Cabral, pressuroso, puxando da carteira:

- Eh pá, desculpa lá… Vamos a contas… Eu ontem nem me preocupei com isso…

O Ribas, ali presente é que atalhou o diálogo:

- Nada disso, tu apanhaste a bebedeira, mas quem paga somos nós, fica tranquilo…

- Há uma coisa que me tem metralhado o cérebro desde que acordei – confidenciou o Cabral…

E continuou:

- Sei que de todos nós, o único que realmente se embebedou a sério fui eu… Reparei, segundo me lembro, que vocês todos não aparentavam estar tão mal como eu...pelo contrário…

Os circunstantes mordiam o riso, mas tentavam manter a compostura para não denunciarem toda a tramóia.

E deixaram o Cabral continuar o seu devaneio:

- Sou forçado a concluir que branco aguenta vinho como o caraças!

Resposta imediata do Vargas:

- Claro.. há diferenças entre brancos e pretos… Essa é uma delas: a capacidade de aguentar a bebida…

E perante o rebentar de gargalhadas dos presentes, incapazes de se conterem por mais tempo, sentenciou:

- Por alguma razão somos brancos! Já devias ter compreendido isso!

[Abro um parentesis para garantir que neste diálogo não há o menor resquício de racismo! O à vontade com o que o Vargas assim falou só se explica exactamente porque não havia racismo entre nós. Se o houvesse, penso que jamais teria sido dito de uma forma tão inocent]

EPÍLOGO

Durante vários dias o segredo manteve-se e o Cabral devia continuar a matutar se de facto existiam diferenças fisicas e morfológicas entre um branco e um preto, que justificassem tal diferença na capacidade de aguentar bebedeiras.

Descansámo-lo quando, um certo dia, o Ribas se prontificou a contar-lhe a verdade Que o Cabral aceitou com a maior desportivismo! Era de facto uma jóia de pessoa…

Vim a encontrá-lo uns anos mais tarde em Lisboa, por mero acaso, e perguntei-lhe o que fazia na Grande Tabanca.

Disse-me que cursava Economia para depois regressar à Guiné e colaborar na consrução do seu País independente.

Soube que, passados poucos anos, já licenciado, morreu de doença, em Bissau, por falta de assistência médica, medicamentosa e hospitalar…

Como a dele, também a ilusão de muitos outros guineenses, bem intencionados, que se deixaram enganar pelos ineptos e corruptos politicos que invadiram o poder daquela bela terra… Que a têm continuadamente destruido, em prol das suas ambições e do seu nepotismo!

Mas enfim.. A terra é deles.. Centremos as nossas preocupações em Portugal…

Nesta nossa terra que cá vai andando… cantando e rindo… umas vezes para os lados, outras para trás e poucas , muito poucas vezes, para a frente…

Rui Felício

DULOMBI
CCAÇ 2405
Ex-Alf Mil Inf

______________

Nota de L. G.

(1) Vd post de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXV: Paulo Raposo e Rui Felício, dois novos camaradas (CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)

Guiné 63/74 - DCXIX: Estórias de Dulombi (Rui Felício, CCAÇ 2405) (1): O nosso vagomestre Cabral


1. Começo por agradecer ao Paulo Raposo a gentileza do envio, pelo correio, de um documento, ilustrado, com a sua história na Guiné, que é também a história da CCAÇ 2405 (Mansoa, Galomaro, Dulombi...) do BCCAÇ 2852 (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca, 1968/70), um relato do seu envolvimento pessoal e militar, com a sua visão (muito própia e assumida) das coisas, com as suas alegrias e tristezas (a morte do seu pai, por exemplo, durante a comissão; o desastre no Rio Corubal, no Cheche...).

É um documento notável que eu gostaria de poder partilhar com o resto da tertúlia, se ele para tanto me der autorização para tal... O Paulo esteve em Madina do Boé, no Fiofioli, conheceu camaradas que eu, o Humberto, o Tony Levezinho, o Fernandes e o Jorge Cabral também conhecemos, em Bambadinca, como o Beja Santos... O Paulo foi alferes miliciano, com a especialidade de minas e armadilhas, na CCAÇ 2405, sendo portanto camarada de outros dois membros da nossa tertúlia, o Victor David e Rui Felício (1) .

Por sua vez, o Rui, já o sabemos, é um excelente contador de estórias. O Paulo mandou-te também cópia de várias dessas estórias, que são deliciosas, e a que eu vou chamar estórias de Dulombi. Publica-se hoje a primeira dessas estórias, com a devida vénia e um grande abraço aos camaradas de Dulombi e Galomaro: Paulo, Victor e Rui...


2. O nosso vagomestre Cabral (por Rui Felício)

O Natal aproximava-se…

Antes da data prevista, chegara-nos um presente inesperado! Um periquito….

O furriel Cabral foi-nos mandado para substituir o furriel vagomestre, uns meses antes falecido em acidente de viação na estrada de Galomaro-Bafatá numa viagem de reabastecimento de viveres à nossa Companhia…

O Cabral era uma jóia de pessoa, simpatiquíssimo, um tanto ingénuo e crédulo, sempre bem disposto e que rapidamente granjeou a estima de todos.

Natural de Bissau, de etnia pepel, um verdadeiro e retinto preto da Guiné…

Estudara em Lisboa, e, incorporado no exército, fez o curso de sargentos milicianos até que foi promovido a furriel e mobilizado, em rendição individual, para a Guiné, sua terra natal…

Calhou-lhe em sorte (ou azar…), ser destacado para a nossa Companhia numa altura em que já tinhamos cumprido um ano e meio de comissão.

Portanto já éramos, claramente, velhinhos experientes, com tudo o que de bom e de mau isso significava.

Ora um periquito no seio de tantos velhinhos era coisa que prometia animar a rotina e que não se podia desperdiçar.

O Sargento Vargas, que já tinha feito uma comissão em Angola como furriel miliciano e que metera o chico no fim da mesma, combinou pregar uma partida ao Cabral, de conluio com os seus camaradas (furriéis Veiga, Ribas, Trombinhas, Rebelo e muitos outros… ).

Deu conhecimento disso aos alferes e explicou-lhes o plano.

O cabo Xico, responsável pelo bar da messe conjunta de oficiais e sargentos, foi avisado que depois de jantar lhe seria pedida uma rodada de aniz escarchado, bebida incolor, em tudo semelhante à água, excepto no sabor muito doce e no grau alcoólico, como é evidente.

E o cabo deveria satisfazer o pedido colocando à frente de cada um dos presentes sentados à mesa, um cálice cheio da referida bebida….

Só que…(!)… apenas o cálice do furriel Cabral deveria conter aniz! Todos os restantes seriam cheios com água……..

E assim foi feito…

Sempre que os comparsas engoliam os repectivos cálices, alguém se prontificava a pagar mais uma rodada para todos…. E o cabo Xico lá ia levantando os cálices trazendo-os de novo cheios, um com aniz para o Cabral e um para cada um dos restantes, com água…

O Cabral foi perdendo a timidez, ganhando alegria, e com a voz entaramelada era já ele próprio que ordenava ao cabo Xico:

- Mais uma ( hic.. ) rodada que pago eu agora ( hic… ), se fachabôri, rrr…rápido e com ( hic…) bons modos! Hic..hic…
E gargalhava sem ele próprio perceber a razão de tão súbita e inusitada alegria….

Muitas rodadas depois, o Sargento Vargas, resolveu acabar por ali com a brincadeira, receoso de que o Cabral não resistisse muito mais aos efeitos de tanto aniz…e aconselhou a que todos fossem para a rua tomar o ar fresco da noite…

Quem não estava muito pelos ajustes era o Carbral que queria beber mais um cálice… Confessava ser a primeira vez que tinha bebido aniz e que nunca sonhara que fosse uma bebida tão deliciosamente doce…

E intimou o cabo Xico, socorrendo-se de toda a autoridade que as suas divisas lhe conferiam:

- Ou trazes mais uma ( hic… ) rodada ou levas uma ( hic… ) porrada!... Escolhe!

Como o cabo Xico, por indicação do Sargento Vargas, não cumprisse a ordem, o Cabral deu um impulso para se levantar e para coagir o Xico a cumprir a ordem.

Mas o peso do aniz foi mais forte que o impulso… e o Cabral caiu de borco no chão …inanimado!

O furriel enfermeiro Ribas, ali presente, apercebeu-se, primeiro que todos, da gravidade da situação e foi rápidamente buscar uma injecção de coramina que de imediato ministrou no corpo inanimado do Cabral…

Alguns segundos depois o Cabral retomava os sentidos e foi ajudado a dirigir-se ao seu abrigo onde o deitaram e o adormeceram….

Entre risos e alguns suspiros de alivio por a brincadeira não ter resultado em tragédia, todos se dirigiram para os respectivos abrigos, remoendo as peripécias do sucedido…

A noite passou…

E o alvorecer, marcado pelo som ritmado dos pilões a descascar o arroz e pelas orações matinais dos homens grandes da tabanca, foi acordando os militares que, a pouco e pouco começavam a sua azáfama diária.

Uns a irem buscar água para abastecer os diversos bidons espalhados pelo aquartelamento, transformados em reservatórios, os das transmissões e da secretaria para os respectivos locais de trabalho e os operacionais em preparação do próximo patrulhamento ou na limpeza das armas.

Na messe, alguns alferes, sargentos e furriéis matavam o bicho matinal e recordavam as cenas da noite anterior e, especialmente, reviviam os pormenores da bebedeira do Cabral.

Com os olhos encovados, ar de ressaca ainda mal curada, e alguma vergonha pelo sucedido, surge o furriel Cabral, que com um sorriso amarelo cumprimentou os presentes:

- Bom dia!

Quase em coro, com um largo sorriso, os presentes retribuiram:

- Bom dia pá! Passaste bem a noite?

- Nem me lembro bem…. Só sei que estou com uma sede terrivel.. e umas náuseas e dor de cabeça insuportáveis….- retorquiu o Cabral

E continuou:

- Mas já falei com o Ribas e ele diz que isso é natural e que mais umas horas tudo voltará ao normal...

E, ainda confuso, perguntou:

- Quantos anizes a gente bebeu ontem?... Eu acho que até 15 contei.. mas depois a minha memória não tem mais nada registado… Vocês contaram-nos ?... O cabo Xico deve ter tomado nota, com certeza….

O Xico, atrás do balcão, matreiro, antecipou-se na resposta:

- Apontei 17, meu furriel, e dessas rodadas, 3 são da sua conta… Logo que puder, agradeço-lhe que salde a dívida….

E o Cabral, pressuroso, puxando da carteira:

- Eh pá, desculpa lá… Vamos a contas… Eu ontem nem me preocupei com isso…

O Ribas, ali presente é que atalhou o diálogo:

- Nada disso, tu apanhaste a bebedeira, mas quem paga somos nós, fica tranquilo…

- Há uma coisa que me tem metralhado o cérebro desde que acordei – confidenciou o Cabral…

E continuou:

- Sei que de todos nós, o único que realmente se embebedou a sério fui eu… Reparei, segundo me lembro, que vocês todos não aparentavam estar tão mal como eu...pelo contrário…

Os circunstantes mordiam o riso, mas tentavam manter a compostura para não denunciarem toda a tramóia.

E deixaram o Cabral continuar o seu devaneio:

- Sou forçado a concluir que branco aguenta vinho como o caraças!

Resposta imediata do Vargas:

- Claro.. há diferenças entre brancos e pretos… Essa é uma delas: a capacidade de aguentar a bebida…

E perante o rebentar de gargalhadas dos presentes, incapazes de se conterem por mais tempo, sentenciou:

- Por alguma razão somos brancos! Já devias ter compreendido isso!

[Abro um parentesis para garantir que neste diálogo não há o menor resquício de racismo! O à vontade com o que o Vargas assim falou só se explica exactamente porque não havia racismo entre nós. Se o houvesse, penso que jamais teria sido dito de uma forma tão inocent]

EPÍLOGO

Durante vários dias o segredo manteve-se e o Cabral devia continuar a matutar se de facto existiam diferenças fisicas e morfológicas entre um branco e um preto, que justificassem tal diferença na capacidade de aguentar bebedeiras.

Descansámo-lo quando, um certo dia, o Ribas se prontificou a contar-lhe a verdade Que o Cabral aceitou com a maior desportivismo! Era de facto uma jóia de pessoa…

Vim a encontrá-lo uns anos mais tarde em Lisboa, por mero acaso, e perguntei-lhe o que fazia na Grande Tabanca.

Disse-me que cursava Economia para depois regressar à Guiné e colaborar na consrução do seu País independente.

Soube que, passados poucos anos, já licenciado, morreu de doença, em Bissau, por falta de assistência médica, medicamentosa e hospitalar…

Como a dele, também a ilusão de muitos outros guineenses, bem intencionados, que se deixaram enganar pelos ineptos e corruptos politicos que invadiram o poder daquela bela terra… Que a têm continuadamente destruido, em prol das suas ambições e do seu nepotismo!

Mas enfim.. A terra é deles.. Centremos as nossas preocupações em Portugal…

Nesta nossa terra que cá vai andando… cantando e rindo… umas vezes para os lados, outras para trás e poucas , muito poucas vezes, para a frente…

Rui Felício

DULOMBI
CCAÇ 2405
Ex-Alf Mil Inf

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Nota de L. G.

(1) Vd post de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXV: Paulo Raposo e Rui Felício, dois novos camaradas (CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/70)