05 março 2006

Guiné 63/74 - DCVIII: Mulheres e mães-coragem (Zélia Neno)

Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > Viúva de Chambel, régulo de Cantabane. Na pessoa desta mulher guineense, fica aqui uma singela homenagem da nossa tertúlia a todas as mulheres, mães, namoradas, esposas, amantes ou companheiras de todos os combatentes da guerra colonial ou da guerra de libertação (como queiram), de 1963 a 1974... (LG)

© José Teixeira (2006)

Texto da Zélia Neno:

Uma vez mais aqui estou, tentando não fugir ao tema generalista do blogue, vou falar de pessoas que também viveram o drama da Guerra Colonial mas tão pouco têm sido focadas em qualquer texto ou livro ao longo do tempo, e porque se está a aproximar o dia 8 de Março que, não sendo o da Mãe, é O DIA DA MULHER.

Porquê? Porque as mulheres que viveram esse período da Guerra Colonial não devem ser esquecidas. Algumas, militares, normalmente enfermeiras paraquedistas, que à época tiveram de ultrapassar certos tabus para seguir essa carreira de resignação (à família e ao meio que lhes era querido), de coragem e amor ao próximo, contribuindo para que muitos feridos sentissem seu sofrimento amenizado ou até conseguissem sobreviver, as quais bem merecem ser lembradas e reconhecidas.

As outras quem eram? - Simplesmente MULHERES. Algumas já esposas, que sofreram nessa qualidada, mas a minha singela e mais profunda homenagem é para todas aquelas Mães que deste lado do Oceano ficavam a orar a Deus e Nossa Senhora para que os filhos regressassem sãos e salvos, o que infelizmente nem sempre aconteceu, e mães houve que por lá tiveram mais do que um filho em simultâneo.

Hoje, como mãe, atrevo-me a perguntar: quem terá sofrido mais? Os filhos lutando naquela guerra, ou suas mães que, a tão longa distância, nada sabiam deles durante semanas e semanas, casos houve de meses e anos (caso dos aprisionados), alimentadas pela Esperança que as fazia aguardar ansiosamente notícias suas ou contando cada dia que ainda faltava para abraçar os seus queridos meninos?

Quantas noites elas não conseguiram dormir ? Quantas lágrimas, algumas de sangue, lhes marcaram os rostos? Será que “as mães desta guerra” também não sofreram ou sofrem (as que ainda vivem) de stress pós-traumático ou de qualquer outra doença mental, provocada por essa situação? Sofrimento num coração de mãe deixa marcas irreparáveis!

Ao percorrer algumas daquelas picadas, onde ainda se vê marcas das minas anticarro que ali deflagraram, decerto causando muito sofrimento, não consegui evitar que as lágrimas me corressem pela cara, nem sequer imaginar qual inferno eu teria vivido se tivesse sido uma dessas mães. Elas tinham “fibra”, eu não (ou penso que não).

Mãe é Mãe, foi e é no seu ventre que se forma (claro, com a ajuda de um pai) e se desenvolve aquele pequenino ser, que desde logo se torna tão importante em nossa vida mais até do que o ar que necessitamos para viver e que, quando crescidos e chegada a ocasião que pensamos ser a oportuna, embora a evolução do tempo nos induza às vezes a errar, temos que fazer como a águia, quando ainda no ninho seus filhotes já estão crescidos e aptos para voar, no mais supremo acto de amor, lhes dá o derradeiro empurrão para que descubram suas asas e aprendam a fazer uso delas, sempre sob a sua protecção, vivendo assim o privilégio de terem nascido.

Esta oportunidade nem sequer foi dada às mães dos ex-combatentes, pois foram obrigadas a vê-los partir, tão jovens ainda, com regresso incerto, ficando sem poder dar um carinho, uma palavra de conforto ou sua protecção quando eles mais precisavam, nem tão pouco saber da sua vivência diária, o que acontecia só quando algum aerograma chegava e casos houve em que nessa ocasião quem o escrevera já não se encontrava no mundo dos vivos.

Não posso nem devo esquecer todas as outras mulheres de raça negra, espalhadas pelas ex-colónias, pois também elas sofreram, como mães de combatentes, quer seus filhos se enquadrassem, como milícias, nas nossas fileiras quer nas do inimigo.

Como viviam em pleno cenário de guerra, mesmo sendo população civil, sofreram as dores físicas de ferimentos e amputações, viram suas crianças chorar e gemer pelo medo ou pela dor e até morrerem em seus braços sem nada poderem fazer para as salvar, pois em situações de ataques, o que viam elas em seu redor? Sofrimento e Destruição!

Estas são as MULHERES E MÃES-CORAGEM do meu país de então, Continental e Ultramarino, e é para elas esta minha homenagem escrita, póstuma para muitas delas mas não em vão.
Zélia Neno


N.B.- Perdoem-me se com estas palavras feri a sensibilidade de alguém, cuja mãe somente esteja viva em seu coração.

Guiné 63/74 - DCVIII: Mulheres e mães-coragem (Zélia Neno)

Guiné-Bissau > Saltinho > 2005 > Viúva de Chambel, régulo de Cantabane. Na pessoa desta mulher guineense, fica aqui uma singela homenagem da nossa tertúlia a todas as mulheres, mães, namoradas, esposas, amantes ou companheiras de todos os combatentes da guerra colonial ou da guerra de libertação (como queiram), de 1963 a 1974... (LG)

© José Teixeira (2006)

Texto da Zélia Neno:

Uma vez mais aqui estou, tentando não fugir ao tema generalista do blogue, vou falar de pessoas que também viveram o drama da Guerra Colonial mas tão pouco têm sido focadas em qualquer texto ou livro ao longo do tempo, e porque se está a aproximar o dia 8 de Março que, não sendo o da Mãe, é O DIA DA MULHER.

Porquê? Porque as mulheres que viveram esse período da Guerra Colonial não devem ser esquecidas. Algumas, militares, normalmente enfermeiras paraquedistas, que à época tiveram de ultrapassar certos tabus para seguir essa carreira de resignação (à família e ao meio que lhes era querido), de coragem e amor ao próximo, contribuindo para que muitos feridos sentissem seu sofrimento amenizado ou até conseguissem sobreviver, as quais bem merecem ser lembradas e reconhecidas.

As outras quem eram? - Simplesmente MULHERES. Algumas já esposas, que sofreram nessa qualidada, mas a minha singela e mais profunda homenagem é para todas aquelas Mães que deste lado do Oceano ficavam a orar a Deus e Nossa Senhora para que os filhos regressassem sãos e salvos, o que infelizmente nem sempre aconteceu, e mães houve que por lá tiveram mais do que um filho em simultâneo.

Hoje, como mãe, atrevo-me a perguntar: quem terá sofrido mais? Os filhos lutando naquela guerra, ou suas mães que, a tão longa distância, nada sabiam deles durante semanas e semanas, casos houve de meses e anos (caso dos aprisionados), alimentadas pela Esperança que as fazia aguardar ansiosamente notícias suas ou contando cada dia que ainda faltava para abraçar os seus queridos meninos?

Quantas noites elas não conseguiram dormir ? Quantas lágrimas, algumas de sangue, lhes marcaram os rostos? Será que “as mães desta guerra” também não sofreram ou sofrem (as que ainda vivem) de stress pós-traumático ou de qualquer outra doença mental, provocada por essa situação? Sofrimento num coração de mãe deixa marcas irreparáveis!

Ao percorrer algumas daquelas picadas, onde ainda se vê marcas das minas anticarro que ali deflagraram, decerto causando muito sofrimento, não consegui evitar que as lágrimas me corressem pela cara, nem sequer imaginar qual inferno eu teria vivido se tivesse sido uma dessas mães. Elas tinham “fibra”, eu não (ou penso que não).

Mãe é Mãe, foi e é no seu ventre que se forma (claro, com a ajuda de um pai) e se desenvolve aquele pequenino ser, que desde logo se torna tão importante em nossa vida mais até do que o ar que necessitamos para viver e que, quando crescidos e chegada a ocasião que pensamos ser a oportuna, embora a evolução do tempo nos induza às vezes a errar, temos que fazer como a águia, quando ainda no ninho seus filhotes já estão crescidos e aptos para voar, no mais supremo acto de amor, lhes dá o derradeiro empurrão para que descubram suas asas e aprendam a fazer uso delas, sempre sob a sua protecção, vivendo assim o privilégio de terem nascido.

Esta oportunidade nem sequer foi dada às mães dos ex-combatentes, pois foram obrigadas a vê-los partir, tão jovens ainda, com regresso incerto, ficando sem poder dar um carinho, uma palavra de conforto ou sua protecção quando eles mais precisavam, nem tão pouco saber da sua vivência diária, o que acontecia só quando algum aerograma chegava e casos houve em que nessa ocasião quem o escrevera já não se encontrava no mundo dos vivos.

Não posso nem devo esquecer todas as outras mulheres de raça negra, espalhadas pelas ex-colónias, pois também elas sofreram, como mães de combatentes, quer seus filhos se enquadrassem, como milícias, nas nossas fileiras quer nas do inimigo.

Como viviam em pleno cenário de guerra, mesmo sendo população civil, sofreram as dores físicas de ferimentos e amputações, viram suas crianças chorar e gemer pelo medo ou pela dor e até morrerem em seus braços sem nada poderem fazer para as salvar, pois em situações de ataques, o que viam elas em seu redor? Sofrimento e Destruição!

Estas são as MULHERES E MÃES-CORAGEM do meu país de então, Continental e Ultramarino, e é para elas esta minha homenagem escrita, póstuma para muitas delas mas não em vão.
Zélia Neno


N.B.- Perdoem-me se com estas palavras feri a sensibilidade de alguém, cuja mãe somente esteja viva em seu coração.

Guiné 63/74 - DCVII: A pensão do Seni Candé

1. Mensagem do Hugo Moura Ferreira, de 24 de Fevereiro de 2006

Meus amigos:

Tal como lhes tinha dito que ia fazer, visitei o Arquivo Geral do Exército, tentando encontrar algo relacionado com o Seni Candé, ou mesmo o seu processo individual.

Como eles ali não têm nada digitalizado, por enquanto no que se refere às PU (Províncias Ultramarinas), não foi possível pesquisar nada. Muito menos quanto à hipótese de ele ter adquirido aqui outros nomes por erro de registo.

Assim ali o que me disseram foi para que tentasse saber os nomes do pai e da mãe, já que com a data de nascimento apenas (10 de Fevereiro de 1947) não seria também possível.

Assim, para dar continuidade ao que me propus fazer queria pedir a ajuda, caso seja possivel, do Jorge Neto que talvez localmente consiga obter essa informação.

Ficarei a aguardar qualquer notícia para poder dar continuidade, embora nos pareça difícil alterar a situação.

No meu caso, só no FIM de todas as tentativas é que as classificarei de infrutíferas ou não. Mas até lá...um abraço.

Moura Ferreira


2. Resposta anterior do Jorge Neto, de 10 de Fevereiro de 2006: Caros tertulianos,

Pelas informações que consegui apurar não podemos fazer muito pelo Seni Candé (2), pelo menos para já. Parece que em 1982 o governo português passou para o governo guineense a responsabilidade do pagamento das pensões de reforma, invalidez, etc., dos antigos combatentes que haviam lutado no lado luso. Como devem imaginar, depois de 1982 nunca mais ninguém recebeu nada. Em troca, Portugal perdoou a dívida à Guiné-Bissau.

Assim sendo, actualmente a responsabilidade pelo pagamento das pensões a estes homens é do Estado guineense. Ao longo do fim-de-semana irei ainda estabelecer mais um contacto para averiguar tudo isto.

Só a título de curiosidade!... O homem faz anos hoje. Estive a ouvir as gravações outra vez e apercebi-me que nasceu a 10/02/47.

Um bom fim-de-semana,

JN (Africanidades)

__________

(1) Vd. posts de:

8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DVI: As (des)venturas de Seni Candé (Jorge Neto)

10 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXVI: O Seni Candé da minha CCAÇ 6 (Moura Ferreira)

(2) Vd. post de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DX: O abandono do Seni Candé (Zé Neto)

Guiné 63/74 - DCVII: A pensão do Seni Candé

1. Mensagem do Hugo Moura Ferreira, de 24 de Fevereiro de 2006

Meus amigos:

Tal como lhes tinha dito que ia fazer, visitei o Arquivo Geral do Exército, tentando encontrar algo relacionado com o Seni Candé, ou mesmo o seu processo individual.

Como eles ali não têm nada digitalizado, por enquanto no que se refere às PU (Províncias Ultramarinas), não foi possível pesquisar nada. Muito menos quanto à hipótese de ele ter adquirido aqui outros nomes por erro de registo.

Assim ali o que me disseram foi para que tentasse saber os nomes do pai e da mãe, já que com a data de nascimento apenas (10 de Fevereiro de 1947) não seria também possível.

Assim, para dar continuidade ao que me propus fazer queria pedir a ajuda, caso seja possivel, do Jorge Neto que talvez localmente consiga obter essa informação.

Ficarei a aguardar qualquer notícia para poder dar continuidade, embora nos pareça difícil alterar a situação.

No meu caso, só no FIM de todas as tentativas é que as classificarei de infrutíferas ou não. Mas até lá...um abraço.

Moura Ferreira


2. Resposta anterior do Jorge Neto, de 10 de Fevereiro de 2006: Caros tertulianos,

Pelas informações que consegui apurar não podemos fazer muito pelo Seni Candé (2), pelo menos para já. Parece que em 1982 o governo português passou para o governo guineense a responsabilidade do pagamento das pensões de reforma, invalidez, etc., dos antigos combatentes que haviam lutado no lado luso. Como devem imaginar, depois de 1982 nunca mais ninguém recebeu nada. Em troca, Portugal perdoou a dívida à Guiné-Bissau.

Assim sendo, actualmente a responsabilidade pelo pagamento das pensões a estes homens é do Estado guineense. Ao longo do fim-de-semana irei ainda estabelecer mais um contacto para averiguar tudo isto.

Só a título de curiosidade!... O homem faz anos hoje. Estive a ouvir as gravações outra vez e apercebi-me que nasceu a 10/02/47.

Um bom fim-de-semana,

JN (Africanidades)

__________

(1) Vd. posts de:

8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DVI: As (des)venturas de Seni Candé (Jorge Neto)

10 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXVI: O Seni Candé da minha CCAÇ 6 (Moura Ferreira)

(2) Vd. post de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DX: O abandono do Seni Candé (Zé Neto)

Guiné 63/74 - DCVI: A dolce vita de Canjadude, até ao dia 27 de Abril de 1973 (João Carvalho)


Guiné > Zona leste > Algures > 1973 > Uma Daimler, avariada, é levada em cima de uma GMC... Sítio ? Talvez Bambadinca, talvez Bafatá, junto ao Rio Geba... quando o João Carvalho veio de férias à metrópole... © João Carvalho (2006).


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O Bar da CCAÇ 5, onde se fizeram muitos terrafianços. © João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O sentido de humor dos tugas da CCAÇ 5: Placa, em pedra, que sinaliza o "Aeroporto da Portela de Canjadude", com data de 2-11-68, e que tem a assinatura da CCAÇ 5 / CART 2338. © João Carvalho (2006)



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Posto de rádio da CCAÇ 5
"onde eu, ilegalmente, muitas vezes passei umas boas horas a jogar King" (JC) © João Carvalho (2006).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Um furriel miliciano enfermeiro... em serviço no posto de rádio. © João Carvalho (2006).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O João Carvalho deve ter batido umas boas sonecas neste cadeirão, no posto de rádio... © João Carvalho (2006)

Olá Luís

Venho complementar a informação descrita no aerograma sobre o ataque a Canjadude em 27 de Abril de 1973, com mísseis terra-terra Katyusha (1).

1 - A razão da existência de um Unimog estacionado (contra a qual eu choquei) num local em que não era habitual haver viaturas foi a seguinte:

Tinha sido enviado para Canjadude um grupo de milícia africana para uma operação. Qual a finalidade ou objectivo dessa operação, eu desconheço. Sei é que esse grupo foi transportado desde Nova Lamego até Canjadude no referido Mercedes Unimog.

2 - Depois do ataque, constou que os mísseis não teriam sido levados para aquela zona, com a finalidade de serem lançados sobre Canjadude, mas sim sobre Nova Lamego e que o que originou a alteração dos alvos teria sido o PAIGC ter detectado (ou ter sido perseguido por) o grupo de milícias.

Não sei se esta versão corresponderá à realidade, nem se alguém terá dados para confirmá-la ou desmenti-la. O que me leva a supor que haja pelo menos um mínimo de verdade nisto, é que em todo o tempo que estive em Canjadude,esta foi a única vez que um grupo exterior à companhia CCAÇ 5 passou por lá para uma operação.

Observações pessoais:

Será que haveria informações que o PAIGC iria atacar Nova Lamego? Terá sido por isso que foi enviado um grupo de milícias para tentar que isso não acontecesse ? É evidente que atacar com mísseis Nova Lamego ou Canjadude, o impacto político-militar seria muito diferente:
- Manga de ronco!!! - diríamos nós, na época. Ou melhor: já não me lembro bem se a expressão utilizada era esta para grande façanha).


Anexo duas fotos a cores, mais algumas, a preto e branco, que ilustram a calmaria - direi mais, a dolce vita ! - em que se vivia em Canjadude, antes do famoso ataque com foguetões:

(i) Uma tirada quando vim de férias à Metrópole: uma Daimler, avariada, em cima de um GMC, talvez em Bambadinca... (a memória é fraca, se alguém me confirmar, eu agradeço!).

(ii) O nosso bar em Canjadude, vendo-se um dos bancos em que eu estava sentado quando se ouviu o lançamento dos mísseis terra-terra Katyusha. Neste bar foram feitos muitos terrafianços. (Não sei se a expressão era utilizada também nas outras companhias para designar farras com muita, muita, bebida).

Abraços para ti e para todos os tertulianos

João Carvalho

__________

Nota de L.G.:

(1) Vd post de 5 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCIX: O ataque de foguetões a Canjadude, em Abril de 1973 (João Carvalho)

Guiné 63/74 - DCVI: A dolce vita de Canjadude, até ao dia 27 de Abril de 1973 (João Carvalho)


Guiné > Zona leste > Algures > 1973 > Uma Daimler, avariada, é levada em cima de uma GMC... Sítio ? Talvez Bambadinca, talvez Bafatá, junto ao Rio Geba... quando o João Carvalho veio de férias à metrópole... © João Carvalho (2006).


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O Bar da CCAÇ 5, onde se fizeram muitos terrafianços. © João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O sentido de humor dos tugas da CCAÇ 5: Placa, em pedra, que sinaliza o "Aeroporto da Portela de Canjadude", com data de 2-11-68, e que tem a assinatura da CCAÇ 5 / CART 2338. © João Carvalho (2006)



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Posto de rádio da CCAÇ 5
"onde eu, ilegalmente, muitas vezes passei umas boas horas a jogar King" (JC) © João Carvalho (2006).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Um furriel miliciano enfermeiro... em serviço no posto de rádio. © João Carvalho (2006).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O João Carvalho deve ter batido umas boas sonecas neste cadeirão, no posto de rádio... © João Carvalho (2006)

Olá Luís

Venho complementar a informação descrita no aerograma sobre o ataque a Canjadude em 27 de Abril de 1973, com mísseis terra-terra Katyusha (1).

1 - A razão da existência de um Unimog estacionado (contra a qual eu choquei) num local em que não era habitual haver viaturas foi a seguinte:

Tinha sido enviado para Canjadude um grupo de milícia africana para uma operação. Qual a finalidade ou objectivo dessa operação, eu desconheço. Sei é que esse grupo foi transportado desde Nova Lamego até Canjadude no referido Mercedes Unimog.

2 - Depois do ataque, constou que os mísseis não teriam sido levados para aquela zona, com a finalidade de serem lançados sobre Canjadude, mas sim sobre Nova Lamego e que o que originou a alteração dos alvos teria sido o PAIGC ter detectado (ou ter sido perseguido por) o grupo de milícias.

Não sei se esta versão corresponderá à realidade, nem se alguém terá dados para confirmá-la ou desmenti-la. O que me leva a supor que haja pelo menos um mínimo de verdade nisto, é que em todo o tempo que estive em Canjadude,esta foi a única vez que um grupo exterior à companhia CCAÇ 5 passou por lá para uma operação.

Observações pessoais:

Será que haveria informações que o PAIGC iria atacar Nova Lamego? Terá sido por isso que foi enviado um grupo de milícias para tentar que isso não acontecesse ? É evidente que atacar com mísseis Nova Lamego ou Canjadude, o impacto político-militar seria muito diferente:
- Manga de ronco!!! - diríamos nós, na época. Ou melhor: já não me lembro bem se a expressão utilizada era esta para grande façanha).


Anexo duas fotos a cores, mais algumas, a preto e branco, que ilustram a calmaria - direi mais, a dolce vita ! - em que se vivia em Canjadude, antes do famoso ataque com foguetões:

(i) Uma tirada quando vim de férias à Metrópole: uma Daimler, avariada, em cima de um GMC, talvez em Bambadinca... (a memória é fraca, se alguém me confirmar, eu agradeço!).

(ii) O nosso bar em Canjadude, vendo-se um dos bancos em que eu estava sentado quando se ouviu o lançamento dos mísseis terra-terra Katyusha. Neste bar foram feitos muitos terrafianços. (Não sei se a expressão era utilizada também nas outras companhias para designar farras com muita, muita, bebida).

Abraços para ti e para todos os tertulianos

João Carvalho

__________

Nota de L.G.:

(1) Vd post de 5 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCIX: O ataque de foguetões a Canjadude, em Abril de 1973 (João Carvalho)

04 março 2006

Guiné 63/74 - DCV: A última noite em Canjadude (CCAÇ 5) (João Carvalho)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > A azáfama dos últimos dias ...© João Carvalho (2006)

Guiné > Bissau > 1974 > A peluda à vista para os tugas da CCAÇ 5... © João Carvalho (2006)

Olá, Luís:

A fotos que se publicam,em anexo, mostram: a primeira, os preparativos para a saída definitiva das NT de Canjadude, após a independência; a segunda, a chegada a Bissau, ao QG, para em seguida apanharmos o avião de volta à Metropole.

Relacionado com a retirada das NT de Canjadude, vou contar-te mais um dos episódios por que passei nesses lugares longínquos, mas que não nos saiem da memória.



A última noite em Canjadude


Finalmente chegou o dia! Pegar nos trapos e deixar Canjadude para regressar à metrópole. Peluda!!! Aquele regresso tão ansiosamente esperado!!!

Carregam-se as Berliet Tramagal e os Mercedes Unimog, com tudo o que era possível lá encaixar: caixotes com armamento, malas, etc, etc. A azáfama é grande, pois a quantidade de tralha para trazer é enorme e o dia é curto.

Com o aproximar do fim do dia, constatando-se que era quase impossível carregar tudo, foi decidido que partiria nesse dia uma coluna em direcção a Nova Lamego e que no dia seguinte algumas viaturas voltariam a Canjadude para transportar o resto, assim como um mini grupo das NT que ainda ficavam uma noite a tomar conta do resto dos pertences. Fui incluído nos que ficavam.

Depois de assistir à partida da coluna, dirigi-me para o abrigo, para me deitar um bocado, pois carregar viaturas deixa-nos um pouco cansados.

Como o abrigo já tinha diversas camas sem ocupação, pois os camaradas já tinham partido, as camas vagas foram ocupadas pelas tropas do PAIGC (ex-IN).

Nessa altura começaram os problemas. Um dos nossos camaradas furriéis do mini grupo (não me lembro qual) quis tirar o seu armário (caixote), para ir dar a um dos nossos soldados africanos que vivia na tabanca e a quem já o tinha prometido há muito.

Um dos soldados do PAIGC começou a refilar, porque aquilo agora era deles e que dalí não saia nada. A situação começou a ficar um bocado esquisita, se assim se pode dizer. Os ex-IN, deitados, com garrafas de cerveja (manga delas) e Kalashnikov na mão, não davam bom agouro àquela noite.

Saímos do abrigo e fizemos uma mini-reunião. A partida era complicada. Ainda havia bastante tralha para carregar e a única viatura existente era uma Berliet que tinha um buraco enorme no radiador.

A probabilidade de chegar a Nova Lamego durante a noite e com uma viatura naquele estado, era bastante remota. A alternativa era ficar e esperar que nada de grave acontecesse.

Foi decidido partir. Mesmo com a grande probabilidade de passar a noite no meio da picada, era mais seguro do que ficar.

Carregámos a Berliet de tal forma que, lá em cima da tralha, quase era necessário fazer equilibrio para não vir parar ao meio do chão. O nosso camarada mecânico resolveu improvisar (como bom português) e deitou no radiador água e cimento (sim, cimento em pó!).

Finalmente partimos. Pelo caminho, andando muito devagar devido à carga instável, fomos sempre deitando água (a pouca que conseguimos transportar) no radiador da bendita Berliet.

Já perto do final da picada, relativamente próximo da estrada alcatroada, fomos encontrar, para nosso espanto, parte das viaturas que tinham saído, ainda durante o dia, de Canjadude (Avarias também acontecem às máquinas que parecem estar em bom estado).

O mini grupo chegou ainda nessa noite a Nova Lamego, enquanto as viaturas que avariaram na picada, tiveram de esperar pelo dia seguinte para serem rebocadas.

Estas nossas estadias por aquela maravilhosa África foram cheias de pequenos episódios bons e maus, mas que nos marcaram, não há dúvida nenhuma.

João Carvalho

Guiné 63/74 - DCV: A última noite em Canjadude (CCAÇ 5) (João Carvalho)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > A azáfama dos últimos dias ...© João Carvalho (2006)

Guiné > Bissau > 1974 > A peluda à vista para os tugas da CCAÇ 5... © João Carvalho (2006)

Olá, Luís:

A fotos que se publicam,em anexo, mostram: a primeira, os preparativos para a saída definitiva das NT de Canjadude, após a independência; a segunda, a chegada a Bissau, ao QG, para em seguida apanharmos o avião de volta à Metropole.

Relacionado com a retirada das NT de Canjadude, vou contar-te mais um dos episódios por que passei nesses lugares longínquos, mas que não nos saiem da memória.



A última noite em Canjadude


Finalmente chegou o dia! Pegar nos trapos e deixar Canjadude para regressar à metrópole. Peluda!!! Aquele regresso tão ansiosamente esperado!!!

Carregam-se as Berliet Tramagal e os Mercedes Unimog, com tudo o que era possível lá encaixar: caixotes com armamento, malas, etc, etc. A azáfama é grande, pois a quantidade de tralha para trazer é enorme e o dia é curto.

Com o aproximar do fim do dia, constatando-se que era quase impossível carregar tudo, foi decidido que partiria nesse dia uma coluna em direcção a Nova Lamego e que no dia seguinte algumas viaturas voltariam a Canjadude para transportar o resto, assim como um mini grupo das NT que ainda ficavam uma noite a tomar conta do resto dos pertences. Fui incluído nos que ficavam.

Depois de assistir à partida da coluna, dirigi-me para o abrigo, para me deitar um bocado, pois carregar viaturas deixa-nos um pouco cansados.

Como o abrigo já tinha diversas camas sem ocupação, pois os camaradas já tinham partido, as camas vagas foram ocupadas pelas tropas do PAIGC (ex-IN).

Nessa altura começaram os problemas. Um dos nossos camaradas furriéis do mini grupo (não me lembro qual) quis tirar o seu armário (caixote), para ir dar a um dos nossos soldados africanos que vivia na tabanca e a quem já o tinha prometido há muito.

Um dos soldados do PAIGC começou a refilar, porque aquilo agora era deles e que dalí não saia nada. A situação começou a ficar um bocado esquisita, se assim se pode dizer. Os ex-IN, deitados, com garrafas de cerveja (manga delas) e Kalashnikov na mão, não davam bom agouro àquela noite.

Saímos do abrigo e fizemos uma mini-reunião. A partida era complicada. Ainda havia bastante tralha para carregar e a única viatura existente era uma Berliet que tinha um buraco enorme no radiador.

A probabilidade de chegar a Nova Lamego durante a noite e com uma viatura naquele estado, era bastante remota. A alternativa era ficar e esperar que nada de grave acontecesse.

Foi decidido partir. Mesmo com a grande probabilidade de passar a noite no meio da picada, era mais seguro do que ficar.

Carregámos a Berliet de tal forma que, lá em cima da tralha, quase era necessário fazer equilibrio para não vir parar ao meio do chão. O nosso camarada mecânico resolveu improvisar (como bom português) e deitou no radiador água e cimento (sim, cimento em pó!).

Finalmente partimos. Pelo caminho, andando muito devagar devido à carga instável, fomos sempre deitando água (a pouca que conseguimos transportar) no radiador da bendita Berliet.

Já perto do final da picada, relativamente próximo da estrada alcatroada, fomos encontrar, para nosso espanto, parte das viaturas que tinham saído, ainda durante o dia, de Canjadude (Avarias também acontecem às máquinas que parecem estar em bom estado).

O mini grupo chegou ainda nessa noite a Nova Lamego, enquanto as viaturas que avariaram na picada, tiveram de esperar pelo dia seguinte para serem rebocadas.

Estas nossas estadias por aquela maravilhosa África foram cheias de pequenos episódios bons e maus, mas que nos marcaram, não há dúvida nenhuma.

João Carvalho

Guiné 63/74 - DCIV: Os últimos dias de Canjadude (fotos de João Carvalho)

Olá, Luís!

Se não me pedes para parar, não sei onde vais arranjar espaço para guardar tantas fotos.

Envio-te mais umas fotos, com as respectivas legendas, todas relacionadas com a partida em definitivo de Canjadude (1).

Um abraço

João Carvalho (ex-furriel mil enfermeiro, CCaç 5 - Os Gatos Pretos, Canjadude, 1973/74)




Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > Queima da papelada existente que não podia ser trazida e que não devia cair nas mãos do ex-IN, na altura da entrega do aquartelamento aos novos senhores da Guiné (JC).

Comentário de LG: Presumo que tenham sido dias de sentimentos contraditórios, de alívio e de tristeza... Para os africanos, para os verdadeiros gatos pretos, dias de tensão e de apreensão... Ou não ? Para os tugas, por sua vez, terão sido dias de descompressão, cantarolando o Hino da Velhice (2)...


© João Carvalho (2006)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > Penso que esta foto se refere à entrega da farda e armamento, por parte dos nossos soldadoa africanos. Não me lembro se também tinha a ver com o receber o último pré (JC).

Comentário de LG: O que terão pensado os teus gatos pretos, agora abandonados pelos tugas ? Como terão vivido os dias que antecederam a chegada dos guerrilheiros do PAIGC, seus inimigos de muitos anos ? © João Carvalho (2006)


Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > O pessoal da tabanca teve autorização para ficar com os bidões vazios. Foi uma verdadeira corrida para ver quem conseguia ficar com eles (JC).

Comentário de LG: Fracos despojos de guerra...

© João Carvalho (2006)

________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

Guiné > Canjadude > 1974 > O PAIGC toma posse do antigo aquartelamento da CCAÇ 5 e hasteia a bandeira da nova República da Guiné-Bissau, na presença da população local (fula) e dos poucos brancos, fardados, da CCAÇ 5 ...

Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)

(2) Vd. post de 28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

Hino da Velhice

Ai....
Tirem-me daqui,
Mandem-me p'ra Metrópole,
Que eu estou a ficar maluco, maluco, maluco,
Quero ir daqui embora!...

Já lá vem o meu periquito
A saltar na bolanha,
Quando for daqui para fora
Nunca mais ninguém me apanha.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

Refrão

Despedidas eu vou fazer
E a arma entregar.
Depois então vou receber
A guia p'ra marchar.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

Guiné 63/74 - DCIV: Os últimos dias de Canjadude (fotos de João Carvalho)

Olá, Luís!

Se não me pedes para parar, não sei onde vais arranjar espaço para guardar tantas fotos.

Envio-te mais umas fotos, com as respectivas legendas, todas relacionadas com a partida em definitivo de Canjadude (1).

Um abraço

João Carvalho (ex-furriel mil enfermeiro, CCaç 5 - Os Gatos Pretos, Canjadude, 1973/74)




Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > Queima da papelada existente que não podia ser trazida e que não devia cair nas mãos do ex-IN, na altura da entrega do aquartelamento aos novos senhores da Guiné (JC).

Comentário de LG: Presumo que tenham sido dias de sentimentos contraditórios, de alívio e de tristeza... Para os africanos, para os verdadeiros gatos pretos, dias de tensão e de apreensão... Ou não ? Para os tugas, por sua vez, terão sido dias de descompressão, cantarolando o Hino da Velhice (2)...


© João Carvalho (2006)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > Penso que esta foto se refere à entrega da farda e armamento, por parte dos nossos soldadoa africanos. Não me lembro se também tinha a ver com o receber o último pré (JC).

Comentário de LG: O que terão pensado os teus gatos pretos, agora abandonados pelos tugas ? Como terão vivido os dias que antecederam a chegada dos guerrilheiros do PAIGC, seus inimigos de muitos anos ? © João Carvalho (2006)


Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > O pessoal da tabanca teve autorização para ficar com os bidões vazios. Foi uma verdadeira corrida para ver quem conseguia ficar com eles (JC).

Comentário de LG: Fracos despojos de guerra...

© João Carvalho (2006)

________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

Guiné > Canjadude > 1974 > O PAIGC toma posse do antigo aquartelamento da CCAÇ 5 e hasteia a bandeira da nova República da Guiné-Bissau, na presença da população local (fula) e dos poucos brancos, fardados, da CCAÇ 5 ...

Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)

(2) Vd. post de 28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

Hino da Velhice

Ai....
Tirem-me daqui,
Mandem-me p'ra Metrópole,
Que eu estou a ficar maluco, maluco, maluco,
Quero ir daqui embora!...

Já lá vem o meu periquito
A saltar na bolanha,
Quando for daqui para fora
Nunca mais ninguém me apanha.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

Refrão

Despedidas eu vou fazer
E a arma entregar.
Depois então vou receber
A guia p'ra marchar.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

03 março 2006

Guiné 63/74 - DCIII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Manuel Mata) (2)

Aqui vai o resto das fotos enviadas pelo Manuel Mata, ex-1º cabo apontador de Carros de Combate M 47, do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71)(1). II Parte da história desta unidade.




Guiné > Zona Leste > Bafatá > Sede do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640. Na foto, o nosso camarada de pé, em cima de uma viatura Auto-Metralhadora Daimler. Ao fundo, o famoso cartaz, visível dos ares: "Aqui mora a cavalaria!"...

© Manuel Mata (2006)



Guiné > Zona Leste > Bafatá > Uma AM Fox, em reparação na oficina do Esquadrão... Este tipo de viaturas blindadas adaptava-se mal às difíceis condições do terreno na Guiné... Não me lembro de ter visto muitas a andar pelos seus próprios meios nos sítios por onde andei... Imagino a trabalheira que terá sido trazê-las até aqui" ... (LG)

© Manuel Mata (2006)


Guiné > Zona Leste > Bafatá > Duas viaturas White estacionadads junto à catedral da cidade... Nunca as vi integradas em colunas logísticas lá para os meus lados (Sector L1, triângulo Xime - Bambadinca - Xitole). Nas nossas picadas, em tempo de chuva, afundar-se-iam inevitavelmente... Nas ruas (alcatroadas) de Bafatá não se portavam mal... Mesmo assim, eram capazes de meter algum respeito aos atrevidos guerrilheiros do PAIGC que nos emboscavam e faziam a vida negra (LG)

© Manuel Mata (2006)

Guiné > Zona Leste > Bafatá > Viatura White com a sua guarnição completa... Uma recordação para a posteridade... Espero que haja mais camaradas, de preferência da arma de cavalaria, que completem estas lacónicas e mal alinhavadas legendas... (LG)


© Manuel Mata (2006)

_____________

(1) Vd post de 2 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DXCVII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (1)

Guiné 63/74 - DCIII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Manuel Mata) (2)

Aqui vai o resto das fotos enviadas pelo Manuel Mata, ex-1º cabo apontador de Carros de Combate M 47, do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71)(1). II Parte da história desta unidade.




Guiné > Zona Leste > Bafatá > Sede do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640. Na foto, o nosso camarada de pé, em cima de uma viatura Auto-Metralhadora Daimler. Ao fundo, o famoso cartaz, visível dos ares: "Aqui mora a cavalaria!"...

© Manuel Mata (2006)



Guiné > Zona Leste > Bafatá > Uma AM Fox, em reparação na oficina do Esquadrão... Este tipo de viaturas blindadas adaptava-se mal às difíceis condições do terreno na Guiné... Não me lembro de ter visto muitas a andar pelos seus próprios meios nos sítios por onde andei... Imagino a trabalheira que terá sido trazê-las até aqui" ... (LG)

© Manuel Mata (2006)


Guiné > Zona Leste > Bafatá > Duas viaturas White estacionadads junto à catedral da cidade... Nunca as vi integradas em colunas logísticas lá para os meus lados (Sector L1, triângulo Xime - Bambadinca - Xitole). Nas nossas picadas, em tempo de chuva, afundar-se-iam inevitavelmente... Nas ruas (alcatroadas) de Bafatá não se portavam mal... Mesmo assim, eram capazes de meter algum respeito aos atrevidos guerrilheiros do PAIGC que nos emboscavam e faziam a vida negra (LG)

© Manuel Mata (2006)

Guiné > Zona Leste > Bafatá > Viatura White com a sua guarnição completa... Uma recordação para a posteridade... Espero que haja mais camaradas, de preferência da arma de cavalaria, que completem estas lacónicas e mal alinhavadas legendas... (LG)


© Manuel Mata (2006)

_____________

(1) Vd post de 2 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DXCVII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (1)

Guiné 63/74 - DCII: Horácio Ramos, presente!! (BCAV 2867, Tite, 1979/70)

1. Texto do João Martins:

Caros Camaradas:

Estive há poucas horas a falar com o Fernando Fraquito que me confirmou que o pai pertenceu ao BCAV 2867. Prometi emviar-lhe novos elementos, que seguem em anexo.

Resta agora que alguém que tenha conhecido o Horácio, que entre em contacto com o Fernando, para ele obter aquilo porque anseia.

Creio que, quando houver um encontro desta unidade, ele vai estar na fila de frente.

Um forte abraço

José Martins

2. Mensagem do Fernando Fraquito:

Olá, bom dia, Sr. José Martins:

Quero agradecer do fundo do coração toda a ajuda que me tem prestado, toda a simpatia e disponibilidade.

Na caderneta militar do meu pai está, de facto, indicação de que pertenceu à CCS Batalhão de Cavalaria 2867.

Dados completos:

Nome: Horácio Martinho Ramos

Natural de Colos, concelho de Odemira

Nº Militar: 075576/68

Gostaria muito de encontrar antigos camaradas do meu pai na Guiné e participar num encontro/almoço se possível, ficaria muito honrado e grato, é como o cumprir de uma ultima missão pelo meu pai.

Os meus maiores cumprimentos

Fernando Manuel Ramos Martinho Fraquito

__________________________

BATALHÃO DE CAVALARIA 2867

Unidade Mobilizadora > Regimento de Cavalaria 3, em Estremoz

Comandante > TCor Cav José Luís Trinité Rosa
2º Comandante > Maj Cav Francisco José Martins Ferreira
O Inf Op/Adj > Maj Cav Carlos Dias Antunes
Comandantes CCS > Cap Mil Art Carlos Pedro da Fonseca e Silva / Cap Mil Art Mário Pais Mexia Leitão

Divisa >"SOMOS COMO SOMOS"

Partida em 23 de Fevereiro de 1969; desembarque em 1 de Março de 1969; e regresso em 23 de Dezembro de 1970.

Em 3 de Março de 1969 assumiu a responsabilidade do Sector S1, com sede em Tite, abrangendo os subsectores de Tite, Nova Sintra, Jabadá e Fulacunda, mantendo as suas subunidades enquadradas no seu dispositivo.

Desenvolveu actividade operacional de patrulhamento, reconhecimento, batidas, emboscadas e controlo de itinerários, coordenando as suas subunidades em várias operações em que se destacam: ARMAS LEAIS, GERÊS, 3ª ESTOCADA, 4ª BATALHA, 6º DESFORÇO, ANDAR LIGEIRO e GRANDE RODA.

Do material que capturou, destaca-se: 4 metralhadoras ligeiras, 6 pistolas-metralhadoras, 12 espingardas e 5 lança-granadas foguete.

Companhia de Cavalaria 2482

Comandante > Cap Cav > Henrique de Carvalho Morais

Assumiu o subsector de Tite em 2 de Março de 1969

Foi transferida para Fulacunda em 30 de Junho de 1969.

Foi rendida em 14 de Dezembro de 1970, recolhendo a Bissau para regresso à Metrópole

Companhia de Cavalaria 2483

Comandantes > Cap Cav Joaquim Manuel Correia Bernardo / Cap Mil Art João José Pires de Almeida Loureiro / Cap Mil Art Ricardo José Prego Gamado

Assumiu o subsector de Nova Sintra em 31 de Maio de 1969, destacando um pelotão para S. João.

Foi transferida para Tite em 23 de Setembro de 1970 com função de intervenção e quadrícula. Foi rendida em 14 de Dezembro de 1970, recolhendo a Bissau para regresso à Metrópole.

Companhia de Cavalaria 2484

Comandante > Cap Cav José Guilherme Paixão Ferreira Durão

Assumiu o subsector de Jabadá em 4 de Março de 1969.

Destacou, entre 3 de Novembro de 1969 e 9 de Novembro de 1969, três pelotões para Tite. Foi rendida em 9 de Dezembro de 1970, recolhendo a Bissau para regresso à Metrópole.

Fontes:

História da Unidade – Arquivo Histórico Militar (Caixa 126 – 2ª divisão – 4ª Secção)

© Resenha Histórico-Militar das Campanhas de Africa (1961-1974). 7º Volume/Tomo II – Fichas das Unidades – Guiné. Condensação de José Martins – Março 2006

Guiné 63/74 - DCII: Horácio Ramos, presente!! (BCAV 2867, Tite, 1979/70)

1. Texto do João Martins:

Caros Camaradas:

Estive há poucas horas a falar com o Fernando Fraquito que me confirmou que o pai pertenceu ao BCAV 2867. Prometi emviar-lhe novos elementos, que seguem em anexo.

Resta agora que alguém que tenha conhecido o Horácio, que entre em contacto com o Fernando, para ele obter aquilo porque anseia.

Creio que, quando houver um encontro desta unidade, ele vai estar na fila de frente.

Um forte abraço

José Martins

2. Mensagem do Fernando Fraquito:

Olá, bom dia, Sr. José Martins:

Quero agradecer do fundo do coração toda a ajuda que me tem prestado, toda a simpatia e disponibilidade.

Na caderneta militar do meu pai está, de facto, indicação de que pertenceu à CCS Batalhão de Cavalaria 2867.

Dados completos:

Nome: Horácio Martinho Ramos

Natural de Colos, concelho de Odemira

Nº Militar: 075576/68

Gostaria muito de encontrar antigos camaradas do meu pai na Guiné e participar num encontro/almoço se possível, ficaria muito honrado e grato, é como o cumprir de uma ultima missão pelo meu pai.

Os meus maiores cumprimentos

Fernando Manuel Ramos Martinho Fraquito

__________________________

BATALHÃO DE CAVALARIA 2867

Unidade Mobilizadora > Regimento de Cavalaria 3, em Estremoz

Comandante > TCor Cav José Luís Trinité Rosa
2º Comandante > Maj Cav Francisco José Martins Ferreira
O Inf Op/Adj > Maj Cav Carlos Dias Antunes
Comandantes CCS > Cap Mil Art Carlos Pedro da Fonseca e Silva / Cap Mil Art Mário Pais Mexia Leitão

Divisa >"SOMOS COMO SOMOS"

Partida em 23 de Fevereiro de 1969; desembarque em 1 de Março de 1969; e regresso em 23 de Dezembro de 1970.

Em 3 de Março de 1969 assumiu a responsabilidade do Sector S1, com sede em Tite, abrangendo os subsectores de Tite, Nova Sintra, Jabadá e Fulacunda, mantendo as suas subunidades enquadradas no seu dispositivo.

Desenvolveu actividade operacional de patrulhamento, reconhecimento, batidas, emboscadas e controlo de itinerários, coordenando as suas subunidades em várias operações em que se destacam: ARMAS LEAIS, GERÊS, 3ª ESTOCADA, 4ª BATALHA, 6º DESFORÇO, ANDAR LIGEIRO e GRANDE RODA.

Do material que capturou, destaca-se: 4 metralhadoras ligeiras, 6 pistolas-metralhadoras, 12 espingardas e 5 lança-granadas foguete.

Companhia de Cavalaria 2482

Comandante > Cap Cav > Henrique de Carvalho Morais

Assumiu o subsector de Tite em 2 de Março de 1969

Foi transferida para Fulacunda em 30 de Junho de 1969.

Foi rendida em 14 de Dezembro de 1970, recolhendo a Bissau para regresso à Metrópole

Companhia de Cavalaria 2483

Comandantes > Cap Cav Joaquim Manuel Correia Bernardo / Cap Mil Art João José Pires de Almeida Loureiro / Cap Mil Art Ricardo José Prego Gamado

Assumiu o subsector de Nova Sintra em 31 de Maio de 1969, destacando um pelotão para S. João.

Foi transferida para Tite em 23 de Setembro de 1970 com função de intervenção e quadrícula. Foi rendida em 14 de Dezembro de 1970, recolhendo a Bissau para regresso à Metrópole.

Companhia de Cavalaria 2484

Comandante > Cap Cav José Guilherme Paixão Ferreira Durão

Assumiu o subsector de Jabadá em 4 de Março de 1969.

Destacou, entre 3 de Novembro de 1969 e 9 de Novembro de 1969, três pelotões para Tite. Foi rendida em 9 de Dezembro de 1970, recolhendo a Bissau para regresso à Metrópole.

Fontes:

História da Unidade – Arquivo Histórico Militar (Caixa 126 – 2ª divisão – 4ª Secção)

© Resenha Histórico-Militar das Campanhas de Africa (1961-1974). 7º Volume/Tomo II – Fichas das Unidades – Guiné. Condensação de José Martins – Março 2006

02 março 2006

Guiné 63/74 - DCI: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' do Paulo Salgado) (12): reviver o passado em Olossato

Guiné-Bissau > Maqué > 2006 > " O mais belo poilão que conheço da Guiné" (Paulo Salgado) .
© Paulo & Conceição Salgado (2006)




Texto do Paulo Salgado:


O regresso de um homem bom!

Quero falar-vos do Moura Marques – camarada de luta, companheiro de labutas, amigo de confidências. Nos idos meses de 1970-1972. Foi no Olossato que se forjou uma solidariedade grande, mas já em Santa Margarida se notava ali a bondade e valentia do Moura Marques, para quem não havia heroísmos nem cobardias, para quem mais valia a verdade do que o servilismo. Se foi louvado, só o poderia ser pela coragem, pelo exemplo, pela calma que dele transparecia, que dele irradiava.

Ontem, dia 26 de Fevereiro de 2006, 35 anos depois de a CCAV 2721 embarcar para Lisboa, fomos ao Olossato: ele, a Maria da Conceição e eu no Prado. Devagar, para bebermos em conjunto as emoções, e rememorar momentos vividos com os outros camaradas.

Saída em direcção a Bula e dali para Bissorã: o largo, as fotos ao que resta de Os Bigodes, as casas coloniais envelhecidas pelo tempo inclemente, a picada, que outrora era picada por causa das minas, e, não sei por que razão, agora estava linda, avermelhada, e, ao lado, as pequenas bolanhas do alto do Maqué, onde está o mais belo poilão que conheço da Guiné, o que resta do aquartelamento da pontão do Maqué, não mais do que algumas paredes onde ainda se descobre uma fresta espreitando para a mata lá atrás (ai quantas sentinelas feitas pelos infernais, pelos vampiros). As fotos da praxe. O marejar de lágrimas do MM.

- Vês, ali, Salgado, tantas horas de trabalho na construção do heliporto, quantas horas perdidas na solidão da mata, quanto de nós ali está ! – dizia ele, emocionado… E a Maria da Conceição tirando as fotos das mais bonitas que já vimos…
Na ligeira subida para o Olossato, alguém grita correndo:
- Bolea, patim bolea!
Parámos. Uma mulher vinha correndo:
- Um mindjer prenhadu sta ali na caminhu!

E nós os três preparados para o que desse e viesse que as dores e contracções (percebiam-se) eram repetidas e já nos imaginávamos a fazer de parteiros na beira da estrada…Felizmente a mulher aguentou. E lá foi levada com mil cuidados ao centro de saúde. E nós, como sorrimos de satisfação e de alívio.

Guiné-Bissau > Cumeré > 2006 > Uma viagem de regresso ao passado... © Paulo & Conceição Salgado (2006)


O reencontro com os amigos. Um deles anda se recordava do cabo Moura. E o Moura Marques mais uma vez emocionado:
– Bolas, um homem sofre, com este exorcismo (palavras do MM).

Uma oferta aos amigos. Uma visita à campa muçulmana do Suleiman Seidi. Uma oração em silêncio, um silêncio de saudade, uma saudade enorme – o Suleiman era um irmão. Eu que o diga. O Moura Marques chorou, de pé, honrando a memória de soldado milícia português – um homem chora quando tem que chorar, bolas.
- Olha, ali era o PC, e ali o local dos morteiros; acolá o bar…
-E ali, bem visível a caserna, agora escola de marabu...

O sol já caía a pino. E os amigos, de volta: mantenhas, e o desejo manifesto do grão-de-bico (homem agora com quatro filhos…menino era naquele tempo):
- Cabo Moura leva-me para Lisboa.
Guiné-Bissau >Olossato > 2006 > O grão-de-bico, ontem criança, hoje homem grande, pai de filhos, reencontra o Moura Marques e o Paulo Salgado... © Paulo & Conceição Salgado (2006)


Que carinho e que ternura e que vontade de ter outra vida o desejo destes homens, dos que estiveram connosco dos que combateram do outro lado.
- Salgado, isto é demais!

Lá fomos em direcção ao rio Olossato, sempre bonito e frondosas as margens, lodoso, embora. Mais fotos e sempre as crianças, as belas crianças. Umas bolachas que a Conceição distribuiu fizeram-nas sorrir. Sorrir ainda mais, se é possível.

Guiné-Bissau > Rio Olossato > O Paulo Salgado e o Moura Marques, 35 anos depois...
© Paulo & Conceição Salgado (2006)


Depois a picada para Farim com passagem por Cansambo (só possível agora visitar, pois naquele tempo estava arrasada) e K3; a travessia de canoa a remos para a outra banda: Farim. Tarde quente de calor do sol e de calor humano. Uma cerveja meio quente junto da Fatu Turé e Mustika Turé, encarregadas do bar da festa carnavalística (assim lhe chamou o comandante da canoa! – um neologismo (?!) para o nosso vocabulário.
- Boa tarde! A bos portuguisis? Pai di nôs.
O que responder a tal fé antiga? Sem palavras.
De novo a cambança. No meio do rio, gritou o comandante da canoa vizinha, a motor, sorrindo:
- Li, tene manga di lagartus…


Guiné-Bissau > Rio Farim > 2006 > Cambana do rio..."A bos portuguisis? Pai di nôs".© Paulo & Conceição Salgado (2006)


A corrida para Mansabá, umas fotos do jovem ferreiro e da forja… Depois, Mansoa. Um hospitalzinho novo, da cooperação francesa, e as ruínas do quartel com soldados sentados à sombra dos mangueiros…!

E a seguir, Uaque. O último olhar para uma viagem longa, mas emocionantemente bela, reconfortante. Estava (quase) feita a catarse… O Moura Marques:
- Meu Camaradão, meu amigo.

PS - No dia anterior, estivéramos em Nhacra e no Cumeré… exactamente no dia em que pela última vez o MM almoçara com o seu amigo Fernando (periquito) que viria a morrer em emboscada dois dias depois…

Guiné 63/74 - DCI: Crónicas de Bissau (ou o 'bombolom' do Paulo Salgado) (12): reviver o passado em Olossato

Guiné-Bissau > Maqué > 2006 > " O mais belo poilão que conheço da Guiné" (Paulo Salgado) .
© Paulo & Conceição Salgado (2006)




Texto do Paulo Salgado:


O regresso de um homem bom!

Quero falar-vos do Moura Marques – camarada de luta, companheiro de labutas, amigo de confidências. Nos idos meses de 1970-1972. Foi no Olossato que se forjou uma solidariedade grande, mas já em Santa Margarida se notava ali a bondade e valentia do Moura Marques, para quem não havia heroísmos nem cobardias, para quem mais valia a verdade do que o servilismo. Se foi louvado, só o poderia ser pela coragem, pelo exemplo, pela calma que dele transparecia, que dele irradiava.

Ontem, dia 26 de Fevereiro de 2006, 35 anos depois de a CCAV 2721 embarcar para Lisboa, fomos ao Olossato: ele, a Maria da Conceição e eu no Prado. Devagar, para bebermos em conjunto as emoções, e rememorar momentos vividos com os outros camaradas.

Saída em direcção a Bula e dali para Bissorã: o largo, as fotos ao que resta de Os Bigodes, as casas coloniais envelhecidas pelo tempo inclemente, a picada, que outrora era picada por causa das minas, e, não sei por que razão, agora estava linda, avermelhada, e, ao lado, as pequenas bolanhas do alto do Maqué, onde está o mais belo poilão que conheço da Guiné, o que resta do aquartelamento da pontão do Maqué, não mais do que algumas paredes onde ainda se descobre uma fresta espreitando para a mata lá atrás (ai quantas sentinelas feitas pelos infernais, pelos vampiros). As fotos da praxe. O marejar de lágrimas do MM.

- Vês, ali, Salgado, tantas horas de trabalho na construção do heliporto, quantas horas perdidas na solidão da mata, quanto de nós ali está ! – dizia ele, emocionado… E a Maria da Conceição tirando as fotos das mais bonitas que já vimos…
Na ligeira subida para o Olossato, alguém grita correndo:
- Bolea, patim bolea!
Parámos. Uma mulher vinha correndo:
- Um mindjer prenhadu sta ali na caminhu!

E nós os três preparados para o que desse e viesse que as dores e contracções (percebiam-se) eram repetidas e já nos imaginávamos a fazer de parteiros na beira da estrada…Felizmente a mulher aguentou. E lá foi levada com mil cuidados ao centro de saúde. E nós, como sorrimos de satisfação e de alívio.

Guiné-Bissau > Cumeré > 2006 > Uma viagem de regresso ao passado... © Paulo & Conceição Salgado (2006)


O reencontro com os amigos. Um deles anda se recordava do cabo Moura. E o Moura Marques mais uma vez emocionado:
– Bolas, um homem sofre, com este exorcismo (palavras do MM).

Uma oferta aos amigos. Uma visita à campa muçulmana do Suleiman Seidi. Uma oração em silêncio, um silêncio de saudade, uma saudade enorme – o Suleiman era um irmão. Eu que o diga. O Moura Marques chorou, de pé, honrando a memória de soldado milícia português – um homem chora quando tem que chorar, bolas.
- Olha, ali era o PC, e ali o local dos morteiros; acolá o bar…
-E ali, bem visível a caserna, agora escola de marabu...

O sol já caía a pino. E os amigos, de volta: mantenhas, e o desejo manifesto do grão-de-bico (homem agora com quatro filhos…menino era naquele tempo):
- Cabo Moura leva-me para Lisboa.
Guiné-Bissau >Olossato > 2006 > O grão-de-bico, ontem criança, hoje homem grande, pai de filhos, reencontra o Moura Marques e o Paulo Salgado... © Paulo & Conceição Salgado (2006)


Que carinho e que ternura e que vontade de ter outra vida o desejo destes homens, dos que estiveram connosco dos que combateram do outro lado.
- Salgado, isto é demais!

Lá fomos em direcção ao rio Olossato, sempre bonito e frondosas as margens, lodoso, embora. Mais fotos e sempre as crianças, as belas crianças. Umas bolachas que a Conceição distribuiu fizeram-nas sorrir. Sorrir ainda mais, se é possível.

Guiné-Bissau > Rio Olossato > O Paulo Salgado e o Moura Marques, 35 anos depois...
© Paulo & Conceição Salgado (2006)


Depois a picada para Farim com passagem por Cansambo (só possível agora visitar, pois naquele tempo estava arrasada) e K3; a travessia de canoa a remos para a outra banda: Farim. Tarde quente de calor do sol e de calor humano. Uma cerveja meio quente junto da Fatu Turé e Mustika Turé, encarregadas do bar da festa carnavalística (assim lhe chamou o comandante da canoa! – um neologismo (?!) para o nosso vocabulário.
- Boa tarde! A bos portuguisis? Pai di nôs.
O que responder a tal fé antiga? Sem palavras.
De novo a cambança. No meio do rio, gritou o comandante da canoa vizinha, a motor, sorrindo:
- Li, tene manga di lagartus…


Guiné-Bissau > Rio Farim > 2006 > Cambana do rio..."A bos portuguisis? Pai di nôs".© Paulo & Conceição Salgado (2006)


A corrida para Mansabá, umas fotos do jovem ferreiro e da forja… Depois, Mansoa. Um hospitalzinho novo, da cooperação francesa, e as ruínas do quartel com soldados sentados à sombra dos mangueiros…!

E a seguir, Uaque. O último olhar para uma viagem longa, mas emocionantemente bela, reconfortante. Estava (quase) feita a catarse… O Moura Marques:
- Meu Camaradão, meu amigo.

PS - No dia anterior, estivéramos em Nhacra e no Cumeré… exactamente no dia em que pela última vez o MM almoçara com o seu amigo Fernando (periquito) que viria a morrer em emboscada dois dias depois…

Guiné 63/74 - DC: Poema em memória do Conceição (Zé Teixeira)

Post nº 600 (DC)Guiné > Algures no sul (Quebo, Mampatá, Buba ou Empada) > 1968 ou 1969 > O Zé Teixeira nas noites de escrita e solidão... © José Teixeira (2006)


1. Mensagem do José Teixeira:

Fui ao meu baú de memórias buscar mais este poema Em memória do Conceição (1) que escrevi em 1996, vinte e cinco anos depois do regresso. Não pela sua qualidade, mas sobretudo para realçar que cá dentro ficam recalcadas estas memórias que o tempo não cura.

Vinte e cinco anos depois tive de escrever, dolorosamente, um poema e rever em sofrimento esso momento terrível em que pulava e gritava em plenos pulmões, de contente à porta da enfermaria:
- Não há mortos nem feridos. Filhos da puta, deixei-nos em paz ! - quando o Pedro muito calmamente me chamou e disse:
- Teixeira, estás enganado, leva este para a enfermaria, está morto !

Um abraço
José Teixeira
(ex-1º cabo enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


A Carta que escrevi

A carta que escrevi
Não escrevi.
Ao seu destino chegou.
Atrasada.
No avião seguia, quando morri,
Levou-me o sopro de uma granada.
Dizia eu que estava bem. Era verdade.
A guerra estava parada.
À vista o fim da Missão,
Servir a Pátria amada.
Cantava.
Cantava de alegria,
Afastava a solidão,
O medo, a angústia, o desejo de voltar.
E veio a granada para me matar.
A notícia voou rápida,
Para ferir.
Levou à minha amada
A dor de me ver partir,
Sem me despedir.
A carta.
Juro que a escrevi,
Mas não escrevi
Porque morri.
Sei que a leste
Com que fé, amor !
Esperança danada,
Que fez esquecer a dor,
Da mensagem levada
Pelo Crocodilo lacrimado
Com o resto da minha granada ,
medalhado.
Eu estava.
Mas não estou.
Quando cantava
A morte me levou
E a minha carta
Para ti, Amor
Viajava, levando a esperança
Que acabou.


Abril/96

____________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

"O Conceição era uma camarada de Lisboa, que tanto quanto eu sabia, não tinha pais e vivia com a avó. Era um moço muito alegre e passava o dia a cantar.

"Já perto do fim da comissão, em Empada (está na parte do diário que não enviei para o blogue), estava na retrete ... e a cantar. Não ouviu as saídas de morteiro que nos foram enviadas do cimo da pista e controladas via rádio por alguém lá dentro ou junto ao arame farpado. Uma das primeiras rebentou no telhado da retrete e projetou-o para trás, esmagando parte da nuca contra a parede.

"Eu, logo após o ataque, dei uma volta pelo quartel. Fiquei assustado, pois cairam várias lá dentro e gritava de contente. Não havia aparentemente feridos e muito menos mortos. Nesse momento, o Furriel Pedro (actualmente muito doente, com um derrame celebral) grita-me:
- Teixeira vem aqui ! - Fiquei horrorizado com o que vi. Mais uma vez chorei de raiva" (...)".

Guiné 63/74 - DC: Poema em memória do Conceição (Zé Teixeira)

Post nº 600 (DC)Guiné > Algures no sul (Quebo, Mampatá, Buba ou Empada) > 1968 ou 1969 > O Zé Teixeira nas noites de escrita e solidão... © José Teixeira (2006)


1. Mensagem do José Teixeira:

Fui ao meu baú de memórias buscar mais este poema Em memória do Conceição (1) que escrevi em 1996, vinte e cinco anos depois do regresso. Não pela sua qualidade, mas sobretudo para realçar que cá dentro ficam recalcadas estas memórias que o tempo não cura.

Vinte e cinco anos depois tive de escrever, dolorosamente, um poema e rever em sofrimento esso momento terrível em que pulava e gritava em plenos pulmões, de contente à porta da enfermaria:
- Não há mortos nem feridos. Filhos da puta, deixei-nos em paz ! - quando o Pedro muito calmamente me chamou e disse:
- Teixeira, estás enganado, leva este para a enfermaria, está morto !

Um abraço
José Teixeira
(ex-1º cabo enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


A Carta que escrevi

A carta que escrevi
Não escrevi.
Ao seu destino chegou.
Atrasada.
No avião seguia, quando morri,
Levou-me o sopro de uma granada.
Dizia eu que estava bem. Era verdade.
A guerra estava parada.
À vista o fim da Missão,
Servir a Pátria amada.
Cantava.
Cantava de alegria,
Afastava a solidão,
O medo, a angústia, o desejo de voltar.
E veio a granada para me matar.
A notícia voou rápida,
Para ferir.
Levou à minha amada
A dor de me ver partir,
Sem me despedir.
A carta.
Juro que a escrevi,
Mas não escrevi
Porque morri.
Sei que a leste
Com que fé, amor !
Esperança danada,
Que fez esquecer a dor,
Da mensagem levada
Pelo Crocodilo lacrimado
Com o resto da minha granada ,
medalhado.
Eu estava.
Mas não estou.
Quando cantava
A morte me levou
E a minha carta
Para ti, Amor
Viajava, levando a esperança
Que acabou.


Abril/96

____________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

"O Conceição era uma camarada de Lisboa, que tanto quanto eu sabia, não tinha pais e vivia com a avó. Era um moço muito alegre e passava o dia a cantar.

"Já perto do fim da comissão, em Empada (está na parte do diário que não enviei para o blogue), estava na retrete ... e a cantar. Não ouviu as saídas de morteiro que nos foram enviadas do cimo da pista e controladas via rádio por alguém lá dentro ou junto ao arame farpado. Uma das primeiras rebentou no telhado da retrete e projetou-o para trás, esmagando parte da nuca contra a parede.

"Eu, logo após o ataque, dei uma volta pelo quartel. Fiquei assustado, pois cairam várias lá dentro e gritava de contente. Não havia aparentemente feridos e muito menos mortos. Nesse momento, o Furriel Pedro (actualmente muito doente, com um derrame celebral) grita-me:
- Teixeira vem aqui ! - Fiquei horrorizado com o que vi. Mais uma vez chorei de raiva" (...)".