30 março 2006

Guiné 63/74 - DCLIX: Bateria de Artilharia Antiaérea 3001 (Nova Lamego, 1971/72)

Mensagem de Manuel Santos:

Olá, camaradas:

Após de ter consultado o vosso site, veio-me á lembrança os bons e maus momentos que eu passei na Guiné, mais propriamente em Nova Lamego [, Zona Leste, região de Gabu], nos anos de 71/72, estando integrado no Pelotão de Antiaérea 3001.

Vocês estão a fazer um belísssimo trabalho que é de se lhe tirar o chapéu, e eu dentro das minha possibilidades vou tentar aumentar o vosso espólio, espero. Temos um pequeno grupo do pelotão, faltando ainda uns elementos que não nos foi possível de contactar, mas espero vir ainda a descobri-los.

Não sei explicar o que sinto quando nos juntamos, a verdade é que conto os dias que faltam para nos reunirmo-nos e vai já ser no próximo mês de Maio no dia 20.

Espero notícias vossas e estou disponível para poder contribuir, dentro das minhas possibilidades e capacidades

Vosso camarada, ex-combatente
Manuel Santos

2. Comentário de L.G.:

Camarada: Não fazia a mínima ideia de que houvesse antiaéreas nossas na Região de Gabu, nessa época (1971/72). É claro que tu e os teus camaradas de pelotão serão bem-vindos à nossa tertúlia. Consta-nos mais da tua estória e manda-nos algumas fotos digitalizadas.

Quando dizes Pelotão de Antiaérea 3001 estás-te a referir à Bateria de Artilharia Anti-Aérea (BAA) 3001, que tinha um pelotão (o teu) em Lamego, é isso ?

Um abraço,
Luís Graça

Guiné 63/74 - DCLIX: Bateria de Artilharia Antiaérea 3001 (Nova Lamego, 1971/72)

Mensagem de Manuel Santos:

Olá, camaradas:

Após de ter consultado o vosso site, veio-me á lembrança os bons e maus momentos que eu passei na Guiné, mais propriamente em Nova Lamego [, Zona Leste, região de Gabu], nos anos de 71/72, estando integrado no Pelotão de Antiaérea 3001.

Vocês estão a fazer um belísssimo trabalho que é de se lhe tirar o chapéu, e eu dentro das minha possibilidades vou tentar aumentar o vosso espólio, espero. Temos um pequeno grupo do pelotão, faltando ainda uns elementos que não nos foi possível de contactar, mas espero vir ainda a descobri-los.

Não sei explicar o que sinto quando nos juntamos, a verdade é que conto os dias que faltam para nos reunirmo-nos e vai já ser no próximo mês de Maio no dia 20.

Espero notícias vossas e estou disponível para poder contribuir, dentro das minhas possibilidades e capacidades

Vosso camarada, ex-combatente
Manuel Santos

2. Comentário de L.G.:

Camarada: Não fazia a mínima ideia de que houvesse antiaéreas nossas na Região de Gabu, nessa época (1971/72). É claro que tu e os teus camaradas de pelotão serão bem-vindos à nossa tertúlia. Consta-nos mais da tua estória e manda-nos algumas fotos digitalizadas.

Quando dizes Pelotão de Antiaérea 3001 estás-te a referir à Bateria de Artilharia Anti-Aérea (BAA) 3001, que tinha um pelotão (o teu) em Lamego, é isso ?

Um abraço,
Luís Graça

29 março 2006

Guiné 63/74 - DCLVIII: Comerciantes de Bafatá: turras ou pides ? (Manuel Mata)

1. Texto do Manuel Mata:

Caro Luís Graça

Volto à questão do Teófilo ser ou não um presumível informador da PIDE/DGS... Não creio! (Com o devido respeito, e que me perdoe a família por estar a referir o seu nome e passagens do meu convívio com o seu familiar, mas são memórias de uma época que gosto de partilhar embora com alguma imprecisão, já que vão decorridos 36 anos, e os neurónios por vezes já não respondem a 100%).

O Esq Rec Fox 2640 (1) tinha um sistema rotativo do serviço de vagomestre, à messe de Oficiais e de Sargentos. No mês que coube ao 1º Sarg Mecânico (já falecido), as refeições ao longo das primeiras semanas foram quase sempre à base de peixe do rio, pescado na zona de Sonaco, a nordeste de Contuboel.



Guiné > Sonaco > Rio Geba > A pesca à granada... Na foto o Manuel Mata (à esquerda) © Manuel Mata (2006)


Eu levava granadas defensivas ou ofensivas que eram posteriormente justificadas em combate, questão que o 1º Sargento resolvia para que eu não tivesse problemas com o Comandante do Esquadrão. Lá seguíamos nós (ele, a esposa, o filho de 3 a 4 anos de idade e eu por vezes),numa Peugeot de caixa aberta e, chegados a Sonaco, dois Guineenses com canoas conduziam-nos pelo Rio...Granada aqui, granada acolá, lá vinha o peixe à tona da água, mergulhava um dos guias para apanhar o peixe...

Um certo dia, o pessoal do Esquadrão já estava saturado... O Comandante, Capitão Fernando Vouga, mandou que se atirasse tudo ao lixo e exigiu cabrito para o almoço. E assim foi! Nesse mesmo dia, passei pelo café do Teófilo, fez-me logo o comentário:
- Então, o mecânico não se contenta só com o que rouba ao civis na reparação das viaturas!? Vai pagar tudo!

O Esquadrão teve em determinada altura algumas armas de caça automáticas, de cinco tiros, que o pessoal podia requisitar para os seus tempos de lazer. O 1º Sargento mecânico era um dos elementos que as utilizava para a caça nocturna.

Uma noite, em que por casualidade o não acompanhei, foi coadjuvado pelo 1º Cabo Cozinheiro, cerca das 24 h, ao tentar regressar à viatura com o carregamento de lebres, o guia diz estar desorientado e não saber onde se encontrava a carrinha. O sargento deu-lhe algum tempo para se orientar na mata. Este continuou a dizer que não conseguia ir ter à carrinha. O sargento apontou-lhe a espingarda à cabeça e disse:
- Ou encontras já o transporte ou disparo! - O rapaz lá seguiu e, mal dada uma meia dúzia de passos, eis a carrinha à sua frente.

Guiné > Bafatá > 1970 > O milagre dos peixes...

© Manuel Mata (2006)

Posteriormente, passo pelo Café do Sr. Teófilo (parece que o estou a ver de bengala na mão, sentado na sua cadeira de braços, do lado esquerdo da porta do café)... Quando pus o pé no patamar, disse-me logo em voz baixa:
- Então o teu amigo mecânico ontem à noite ia ficando na caça?
Observei no mesmo tom:
- Como sabe? - Respondeu:
- Já te disse que sei tudo - e acrescentou:
- Não perde pela demora! - Semanas mais tarde, estando o 1º Sargento em casa, entre as 21 e as 23 horas, de um determinado dia, bateram-lhe à porta dizendo:
- Foge com a mulher e o menino, eles vêm para te matar!.

Não foi, por o Teófilo ser um presumível informador da PIDE/DGS, como se dizia, mas por haver fortes duvidas, quanto à sua ligação ao PAIGC, e ao mesmo tempo viver num bairro onde viviam elementos do IN, que chegou a estar tudo de prevenção em Bafatá, com o material bélico apontado para a zona, incluíndo o Pelotão de morteiros sediado no Batalhão, para queimarem a área... Felizmente imperou o bom senso.

Não creio que o Teófilo fosse um informador [da PIDE/DGS] mas socorria-se desse subterfúgio para camuflar outras facetas.

Falando em PIDE/DGS, recordo um elemento que estava em Bafatá, muito activo, de quem não me recordo o nome, mas penso ser da área de Castelo Branco: conseguiu descobrir (sempre andando na sua bicicleta) onde o pessoal do IN se reunia numa tabanca próximo da Ponte Salazar, no Rio Geba. Várias vezes o vi fazer o percurso da pista de aviação com destino a essa tabanca. Certo dia comentei com o Teófilo esta situação. Resposta curta e directa:
- Esse não sai de cá com vida! - Algum tempo depois, na referida tabanca, o pessoal reunido, lá aparece o elemento da PIDE/DGS, deram-lhe tanta pancada que foi evacuado de helicóptero...Por sorte, passava nesse momento o jipe da patrulha, o que levou os agressores a fugir e a aparecer gente para socorrer a vítima.

Comentário do Sr. Teófilo após o acontecimento:
- Eu não te disse? Já pagou! - Acrescentei eu:
- Sabe que o indivíduo já me tinha convidado para ingressar na PIDE/DGS, ele fazia-me o requerimento ao Director Rosa Casaco e eu quando regressase a Lisboa entrava logo ao serviço (claro não era serviço que se coadunasse com a minha forma de ser e de estar na sociedade)... O Teófilo ficou furioso e fez o seguinte comentário:
- Esse porco já teve o que merecia!

Foram estas situações, vividas e outras, que sempre me levaram a acreditar na sua inocência nesse campo, tanto mais que por vezes me dizia:
- A coluna que se realiza no dia x vai ser emboscada... - E era fatal como o destino. Quando foi o ataque a Bafatá, ele já o tinha previsto, umas semanas antes.

Manuel Mata

2. Comentário de L.G.:

Manuel Mata:

Estes elementos são preciosos... Eu nunca insinuei que o Teófilo fosse da PIDE/DGS... Pelo contrário, ele deveria ser contra a situação (o regime político então vigente desde 1926), só assim se explica que ele tivesse sido deportado para a Guiné no princípio dos anos 30... Nalguns sítios (como Bambadinca, que eu conheci melhor) havia a suspeita de os comerciantes locais serem também informadores da PIDE ou jogarem com um pau de dois bicos... Eu oenso que, aos olhos da tropa, isso devia acontecer em todos os os postos administrativos e localidades de menor importância onde houvesse comerciantes (portugueses, caboverdianos ou libaneses)...

Essa estória do PIDE que levou porrada numa tabanca (iam-lhe cortando o nariz, à dentada) ouvia-a eu ao próprio, em Bafatá, creio que na Transmontana... Hei-de contá-la aqui, um dia destes. Lembro-me que de ouvir a conversa dele (eu, incomodado, com a presença deles, numa mesa de alferes e furriéis milicianos de Bambadinca)...O fulano - que, se bem me lembro, falava alemão, por ter sido imigrante, com os pais, na Alemanha - estava lixado com o Spínola, por que na época (c. 1970) já não se podia fazer justiça pelas mãos próprias como nos bons velhos tempos do colonialismo...

Uma última pergunta: alguma vez vistes os pides locais frequentarem o café do Teófilo ? Pelo que me contas, ele não gostava mesmo deles, o que vem confirmar a minha teoria de ser o Teófilo um velho antifascista... (ou do reviralho, como diriam os pides). Infelizmente não tive com ele a mesma intimidade que tu tiveste!

___________

Nota de L.G.

(1)Vd. post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (3)

Guiné 63/74 - DCLVIII: Comerciantes de Bafatá: turras ou pides ? (Manuel Mata)

1. Texto do Manuel Mata:

Caro Luís Graça

Volto à questão do Teófilo ser ou não um presumível informador da PIDE/DGS... Não creio! (Com o devido respeito, e que me perdoe a família por estar a referir o seu nome e passagens do meu convívio com o seu familiar, mas são memórias de uma época que gosto de partilhar embora com alguma imprecisão, já que vão decorridos 36 anos, e os neurónios por vezes já não respondem a 100%).

O Esq Rec Fox 2640 (1) tinha um sistema rotativo do serviço de vagomestre, à messe de Oficiais e de Sargentos. No mês que coube ao 1º Sarg Mecânico (já falecido), as refeições ao longo das primeiras semanas foram quase sempre à base de peixe do rio, pescado na zona de Sonaco, a nordeste de Contuboel.



Guiné > Sonaco > Rio Geba > A pesca à granada... Na foto o Manuel Mata (à esquerda) © Manuel Mata (2006)


Eu levava granadas defensivas ou ofensivas que eram posteriormente justificadas em combate, questão que o 1º Sargento resolvia para que eu não tivesse problemas com o Comandante do Esquadrão. Lá seguíamos nós (ele, a esposa, o filho de 3 a 4 anos de idade e eu por vezes),numa Peugeot de caixa aberta e, chegados a Sonaco, dois Guineenses com canoas conduziam-nos pelo Rio...Granada aqui, granada acolá, lá vinha o peixe à tona da água, mergulhava um dos guias para apanhar o peixe...

Um certo dia, o pessoal do Esquadrão já estava saturado... O Comandante, Capitão Fernando Vouga, mandou que se atirasse tudo ao lixo e exigiu cabrito para o almoço. E assim foi! Nesse mesmo dia, passei pelo café do Teófilo, fez-me logo o comentário:
- Então, o mecânico não se contenta só com o que rouba ao civis na reparação das viaturas!? Vai pagar tudo!

O Esquadrão teve em determinada altura algumas armas de caça automáticas, de cinco tiros, que o pessoal podia requisitar para os seus tempos de lazer. O 1º Sargento mecânico era um dos elementos que as utilizava para a caça nocturna.

Uma noite, em que por casualidade o não acompanhei, foi coadjuvado pelo 1º Cabo Cozinheiro, cerca das 24 h, ao tentar regressar à viatura com o carregamento de lebres, o guia diz estar desorientado e não saber onde se encontrava a carrinha. O sargento deu-lhe algum tempo para se orientar na mata. Este continuou a dizer que não conseguia ir ter à carrinha. O sargento apontou-lhe a espingarda à cabeça e disse:
- Ou encontras já o transporte ou disparo! - O rapaz lá seguiu e, mal dada uma meia dúzia de passos, eis a carrinha à sua frente.

Guiné > Bafatá > 1970 > O milagre dos peixes...

© Manuel Mata (2006)

Posteriormente, passo pelo Café do Sr. Teófilo (parece que o estou a ver de bengala na mão, sentado na sua cadeira de braços, do lado esquerdo da porta do café)... Quando pus o pé no patamar, disse-me logo em voz baixa:
- Então o teu amigo mecânico ontem à noite ia ficando na caça?
Observei no mesmo tom:
- Como sabe? - Respondeu:
- Já te disse que sei tudo - e acrescentou:
- Não perde pela demora! - Semanas mais tarde, estando o 1º Sargento em casa, entre as 21 e as 23 horas, de um determinado dia, bateram-lhe à porta dizendo:
- Foge com a mulher e o menino, eles vêm para te matar!.

Não foi, por o Teófilo ser um presumível informador da PIDE/DGS, como se dizia, mas por haver fortes duvidas, quanto à sua ligação ao PAIGC, e ao mesmo tempo viver num bairro onde viviam elementos do IN, que chegou a estar tudo de prevenção em Bafatá, com o material bélico apontado para a zona, incluíndo o Pelotão de morteiros sediado no Batalhão, para queimarem a área... Felizmente imperou o bom senso.

Não creio que o Teófilo fosse um informador [da PIDE/DGS] mas socorria-se desse subterfúgio para camuflar outras facetas.

Falando em PIDE/DGS, recordo um elemento que estava em Bafatá, muito activo, de quem não me recordo o nome, mas penso ser da área de Castelo Branco: conseguiu descobrir (sempre andando na sua bicicleta) onde o pessoal do IN se reunia numa tabanca próximo da Ponte Salazar, no Rio Geba. Várias vezes o vi fazer o percurso da pista de aviação com destino a essa tabanca. Certo dia comentei com o Teófilo esta situação. Resposta curta e directa:
- Esse não sai de cá com vida! - Algum tempo depois, na referida tabanca, o pessoal reunido, lá aparece o elemento da PIDE/DGS, deram-lhe tanta pancada que foi evacuado de helicóptero...Por sorte, passava nesse momento o jipe da patrulha, o que levou os agressores a fugir e a aparecer gente para socorrer a vítima.

Comentário do Sr. Teófilo após o acontecimento:
- Eu não te disse? Já pagou! - Acrescentei eu:
- Sabe que o indivíduo já me tinha convidado para ingressar na PIDE/DGS, ele fazia-me o requerimento ao Director Rosa Casaco e eu quando regressase a Lisboa entrava logo ao serviço (claro não era serviço que se coadunasse com a minha forma de ser e de estar na sociedade)... O Teófilo ficou furioso e fez o seguinte comentário:
- Esse porco já teve o que merecia!

Foram estas situações, vividas e outras, que sempre me levaram a acreditar na sua inocência nesse campo, tanto mais que por vezes me dizia:
- A coluna que se realiza no dia x vai ser emboscada... - E era fatal como o destino. Quando foi o ataque a Bafatá, ele já o tinha previsto, umas semanas antes.

Manuel Mata

2. Comentário de L.G.:

Manuel Mata:

Estes elementos são preciosos... Eu nunca insinuei que o Teófilo fosse da PIDE/DGS... Pelo contrário, ele deveria ser contra a situação (o regime político então vigente desde 1926), só assim se explica que ele tivesse sido deportado para a Guiné no princípio dos anos 30... Nalguns sítios (como Bambadinca, que eu conheci melhor) havia a suspeita de os comerciantes locais serem também informadores da PIDE ou jogarem com um pau de dois bicos... Eu oenso que, aos olhos da tropa, isso devia acontecer em todos os os postos administrativos e localidades de menor importância onde houvesse comerciantes (portugueses, caboverdianos ou libaneses)...

Essa estória do PIDE que levou porrada numa tabanca (iam-lhe cortando o nariz, à dentada) ouvia-a eu ao próprio, em Bafatá, creio que na Transmontana... Hei-de contá-la aqui, um dia destes. Lembro-me que de ouvir a conversa dele (eu, incomodado, com a presença deles, numa mesa de alferes e furriéis milicianos de Bambadinca)...O fulano - que, se bem me lembro, falava alemão, por ter sido imigrante, com os pais, na Alemanha - estava lixado com o Spínola, por que na época (c. 1970) já não se podia fazer justiça pelas mãos próprias como nos bons velhos tempos do colonialismo...

Uma última pergunta: alguma vez vistes os pides locais frequentarem o café do Teófilo ? Pelo que me contas, ele não gostava mesmo deles, o que vem confirmar a minha teoria de ser o Teófilo um velho antifascista... (ou do reviralho, como diriam os pides). Infelizmente não tive com ele a mesma intimidade que tu tiveste!

___________

Nota de L.G.

(1)Vd. post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (3)

28 março 2006

Guiné 63/74 - DCLVII: O grande comandante-em-chefe que foi o Amílcar Cabral

1. Comentário do L.G. ao comentário (pertinentíssimo) do João Tunes, blogador-mor do Água Lisa (6), benfiquista de alma e coração, tertuliano indefectível, amigo & camarada dos idos tempos da Guiné, e muitos outros atributos que eu me dispenso de enumerar aqui:

João: Acabo de levar no toutiço (e bem!) por uma frase (infeliz!) que pode revelar (revela, de facto!) alguma ligeireza, e que eu escrevi há dias, ao correr da pena. Uma primeira conclusão (provisória) que posso tirar é que não se deve escrever ao correr da pena, qaudno se é corredor de fundo...

Dizes-me em elegantíssimo comentário (que eu já publiquei previamente, como mandam as boas regras da convivialidade em vigor cá na nossa caserna):

"Não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo [que] Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino... Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?"...

O que eu escrevi foi o seguinte:

Quanto ao PAIGC, gostava de saber mais... Por exemplo, como é que um homem como Nino chegou aonde chegou... Há muitos mitos à volta da sua actuação como comandante... Mitos alimentados por nós mas também pelos seus homens... Eis um excelente tema para uma próxima discussão... Alguém o conheceu, a ele, Nino, na frente de combate ? De kalash na mão ? E chapéu à cowboy ? O PAIGC (e a Guiné-Bissau) teria sido diferente com Amílcar Cabral, se este ainda hoje fosse vivo?

O pomo da discórdia está na frase seguinte (fatal): "Mas Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino"...

Reconheço que deveria ter usado o verbo no futuro do conjuntivo: "Mas Cabral não terá sido um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como Nino"... O que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar...

Isto é apenas um exemplo do risco que corremos de não sermos, muitas vezes, "claros, concisos e precisos" (sic)... Pessoalmente dou muitíssima mais (que horror de construção frásica!) importância à figura (ímpar) do líder revolucionário do que à do comandante... Ou foi o contrário ? Se me enganei, peço desculpa ao nosso herói - ao meu herói dos verdes vinte anos - que lá estará algures no panteão dos heróis revolucionários, que a história rapidamente esqueceu... Infelizmente, Amílcar Cabral e o seu exemplo nobre, lúcido e generoso já foram há muito esquecidos pela sua pátria (quiçá menor, que a maior era a da língua portuguesa!).

João: tens, pois, toda razão!... Fui duplamente injusto: (i) para com o Amílcar Cabal (descendo-o do pedestal, pondo-o ao nível do Nino); (ii) para com o Nino, agigantando-o, elevando-o à categoria de lider revolucionário (que ele nunca foi, nem estava preparado para sê-lo)...

Confesso que tinha (e tenho) uma certa admiração (intelectual) pelo Amílcar, desde o meu tempo de menino e moço, o que era normal num gajo de esquerda do nosso tempo, mesmo desalinhado como eu... Hoje tenho muito mais informação e conhecimento do que tinha na época, o que me obriga a ser, no mínimo, mais crítico, mais prudente, mais racional...

Mesmo assim reconheço que sei pouco (muito pouco, afinal!) do homem e da obra...

Quanto ao Correia Jesuíno: não creio que ele tenha estado em Angola... Não estarás a confundi-lo com o Almirante Rosa Coutinho ?

2. O João volta hoje à carga, com o seu apuradíssimo gosto pela polémica, ou melhor, pelo franco e aberto debate de ideias, o que só pode prestigiar e animar este pedaço da blogosfera lusófona:

Caro Luís,

Sobre Amílcar, pois há muito a discutir e a desvendar. Embora seja sempre complicado lidar com mitos. Agora, o que me parece indiscutível é que, enquanto vivo, Amilcar nunca perdeu um fio do controlo total sobre a estratégia militar da guerrilha e assegurando o seu controlo político. Foi, pois, um autêntico comandante-em-chefe (embora entrecortada por muitas ausências pelo mundo, em acções diplomáticas e de obtenção de apoios), ou seja, um equivalente à altura de Spínola (este, na contra-guerrilha).

Sobre Correia Jesuíno em Angola - não, não o confundi com o Rosa Coutinho. Não há livro de militar reaccionário, ou de colono branco ressabiado, que não o refira como figura central do MFA na transição angolana pré-independência. E o que dizem dele!!! (o que tomo como elogios, é claro).

Andas mesmo a baldar-te ao almoço a três, incluindo o Briote?

Grande abraço,
João Tunes

Guiné 63/74 - DCLVII: O grande comandante-em-chefe que foi o Amílcar Cabral

1. Comentário do L.G. ao comentário (pertinentíssimo) do João Tunes, blogador-mor do Água Lisa (6), benfiquista de alma e coração, tertuliano indefectível, amigo & camarada dos idos tempos da Guiné, e muitos outros atributos que eu me dispenso de enumerar aqui:

João: Acabo de levar no toutiço (e bem!) por uma frase (infeliz!) que pode revelar (revela, de facto!) alguma ligeireza, e que eu escrevi há dias, ao correr da pena. Uma primeira conclusão (provisória) que posso tirar é que não se deve escrever ao correr da pena, qaudno se é corredor de fundo...

Dizes-me em elegantíssimo comentário (que eu já publiquei previamente, como mandam as boas regras da convivialidade em vigor cá na nossa caserna):

"Não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo [que] Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino... Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?"...

O que eu escrevi foi o seguinte:

Quanto ao PAIGC, gostava de saber mais... Por exemplo, como é que um homem como Nino chegou aonde chegou... Há muitos mitos à volta da sua actuação como comandante... Mitos alimentados por nós mas também pelos seus homens... Eis um excelente tema para uma próxima discussão... Alguém o conheceu, a ele, Nino, na frente de combate ? De kalash na mão ? E chapéu à cowboy ? O PAIGC (e a Guiné-Bissau) teria sido diferente com Amílcar Cabral, se este ainda hoje fosse vivo?

O pomo da discórdia está na frase seguinte (fatal): "Mas Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino"...

Reconheço que deveria ter usado o verbo no futuro do conjuntivo: "Mas Cabral não terá sido um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como Nino"... O que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar...

Isto é apenas um exemplo do risco que corremos de não sermos, muitas vezes, "claros, concisos e precisos" (sic)... Pessoalmente dou muitíssima mais (que horror de construção frásica!) importância à figura (ímpar) do líder revolucionário do que à do comandante... Ou foi o contrário ? Se me enganei, peço desculpa ao nosso herói - ao meu herói dos verdes vinte anos - que lá estará algures no panteão dos heróis revolucionários, que a história rapidamente esqueceu... Infelizmente, Amílcar Cabral e o seu exemplo nobre, lúcido e generoso já foram há muito esquecidos pela sua pátria (quiçá menor, que a maior era a da língua portuguesa!).

João: tens, pois, toda razão!... Fui duplamente injusto: (i) para com o Amílcar Cabal (descendo-o do pedestal, pondo-o ao nível do Nino); (ii) para com o Nino, agigantando-o, elevando-o à categoria de lider revolucionário (que ele nunca foi, nem estava preparado para sê-lo)...

Confesso que tinha (e tenho) uma certa admiração (intelectual) pelo Amílcar, desde o meu tempo de menino e moço, o que era normal num gajo de esquerda do nosso tempo, mesmo desalinhado como eu... Hoje tenho muito mais informação e conhecimento do que tinha na época, o que me obriga a ser, no mínimo, mais crítico, mais prudente, mais racional...

Mesmo assim reconheço que sei pouco (muito pouco, afinal!) do homem e da obra...

Quanto ao Correia Jesuíno: não creio que ele tenha estado em Angola... Não estarás a confundi-lo com o Almirante Rosa Coutinho ?

2. O João volta hoje à carga, com o seu apuradíssimo gosto pela polémica, ou melhor, pelo franco e aberto debate de ideias, o que só pode prestigiar e animar este pedaço da blogosfera lusófona:

Caro Luís,

Sobre Amílcar, pois há muito a discutir e a desvendar. Embora seja sempre complicado lidar com mitos. Agora, o que me parece indiscutível é que, enquanto vivo, Amilcar nunca perdeu um fio do controlo total sobre a estratégia militar da guerrilha e assegurando o seu controlo político. Foi, pois, um autêntico comandante-em-chefe (embora entrecortada por muitas ausências pelo mundo, em acções diplomáticas e de obtenção de apoios), ou seja, um equivalente à altura de Spínola (este, na contra-guerrilha).

Sobre Correia Jesuíno em Angola - não, não o confundi com o Rosa Coutinho. Não há livro de militar reaccionário, ou de colono branco ressabiado, que não o refira como figura central do MFA na transição angolana pré-independência. E o que dizem dele!!! (o que tomo como elogios, é claro).

Andas mesmo a baldar-te ao almoço a três, incluindo o Briote?

Grande abraço,
João Tunes

Guiné 63/74 - DCLVI: Tratado sobre a liderança em tempo de guerra (João Tunes)

Post nº 656 (DCLVI)

Guiné > Algures durante a guerra de libertação > Amílcar Cabral, mais do que um ícone revolucionário (tal como Che Guevara), foi um dos maiores líderes africanos do Século XX. "Amílcar não escreveu uma única frase de pensamento sem olhar para a espingarda. Amílcar não mandou dar um único tiro de espingarda fora da lógica política da estratégia da libertação anticolonial e da emancipação africana, pensada e repensada na sua profunda cultura marxista e criativa, no seu modo próprio de pensar a Guiné, África e o mundo" (João Tunes).

Fonte: Foto de origem desconhecida (PAIGG ?).


Camarada Luís,

Com o trato da questão da liderança (estilo de comando) no viver militar, foste buscar o nosso camarada da Marinha, teu amigo e colega académico, Correia Jesuíno, que não tenho prazer de conhecer, nem sequer de vista. Mas acontece que o Prof Correia Jesuíno é santo cá da minha casa (por via conjugal, vivendo eu, em vida partilhada de vinte anos, podando a quatro mãos um rebento a ameaçar ser adulto já em Julho, com uma sua antiga aluna e discípula no ISPA) e permite que conteste a tua afirmação que ele só conheceu, do ex-império, e de passagem, Cabo Verde. E então o papel fulcral e determinante que ele teve em Angola na chamada fase de transição da descolonização? Ó camarada Luís, aquilo não valeu, custou, mais que vinte comissões no mato? Não sei, não.

Depois, permite-mo, não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo "Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino...."(1). Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?

Eu não tenho idolatria por Cabral, não lhe meto tijolo na adoração como mito. Aliás, sou altamente crítico quanto ao preço pago pela sua utopia (ego-étnica) da unidade (absurda, autojustificativa como desiderato da sua condição de mestiço) Guiné-Cabo Verde e que Cabral impôs ao PAIGC e dando, neste absurdo (mas, se calhar, condição necessária para o sucesso), o trunfo maior, no divisionismo e na traição, para o trabalho sujo da Pide e do Exército Colonial (que custaria a própria vida, dele Cabral, e hoje termos a Guiné-Bissau entregue a um apenas bom guerrilheiro como Nino, faltando-lhe o resto, se calhar o mais importante).

Mas Amílcar Cabral foi um dos líderes mais inteligentes e geniais de toda a África (assumamos a honra de termos combatido um Chefe IN de tamanha envergadura, o maior líder africano!). E foi-o pela praxis, porque foi teórico enquanto operacional, operacional enquanto pensador revolucionário.

Amílcar não escreveu uma única frase de pensamento sem olhar para a espingarda. Amílcar não mandou dar um único tiro de espingarda fora da lógica política da estratégia da libertação anticolonial e da emancipação africana, pensada e repensada na sua profunda cultura marxista e criativa, no seu modo próprio de pensar a Guiné, África e o mundo.

Amílcar que teve a sorte trágica de ter sido assassinado e transformado em mártir antes de lhe chegar a hora de ver e ser julgado pela obra feita, prestando contas, com o Estado às costas, perante a história e os seus seguidores, das consequências da eficácia e absurdos da sua lógica, dos seus acertos e desacertos.

Mas vamos à substância. Que só pode ser dada pela vida vivida, ou seja, pela experiência feita corpo e alma. E, neste campo, se me permitem, tu e os restantes camaradas tertulianos, dou-te dois, como testemunhos.

1º) Um dos merdas militares que conheci logo na ida e chegada à Guiné foi um major que fazia as vezes de 2º Comandante (depois pirou-se para uma repartição e não nos acompanhou na ida para o mato no Pelundo). Era, como muitos outros, um cagarolas apesar de já ter feito várias comissões na guerra colonial.

No primeiro dia da ocupação periquita do Quartel de Santa Luzia em Bissau, apanhei, como oficial de dia, um levantamento de rancho organizado pelos velhinhos que esperavam embarque de regresso porque os cozinheiros periquitos do meu Batalhão tinham entornado sal a mais na comida (a maioria deles nunca tinha cozinhado na puta da vida) (1).

Um gozo do camandro aquele, o dos velhinhos, sentados no refeitório quietos e com gozo sádico, a praxarem periquitos e a malta não comia e dizia em coro:
- Piú, piú, velhinhos, fartos de mato, não comem comida salgada por piriquito, piriquito vai pró mato, piú, piú.

Eu, fodido, a comprovar que a comida estava mesmo salgada, a sentir escorrer o suor dos cozinheiros novatos em pânico, apardalado como periquito que era, pedindo ajuda ao major para sair da embrulhada, o gajo encafuado nos galões do traço grosso junto a um traço fino, eu dependente porque só tinha um traço fino em cima do ombro e a perguntar-lhe:
-Meu major, como vamos resolver? - E o gajo a ficar mais à rasca que eu, a suar mais que eu e que os cozinheiros nossos camaradas e feitos merda, atarantado, atarantado, e depois sair-se:
- Ó alferes, para que é que tem essa pistola à cintura? Abata um ou dois, depois os outros comem! - E eu, feito palerma, mais palerma que periquito, a olhar o merdas do major a mandar-me dar tiros nos velhinhos praxistas da perda da solidariedade, e a ver o major a desaparecer atrás da secretária e a querer dizer-me que não estava ali, nem tinha vindo em comissão, apesar de ir na terceira comissão e com a terceira comissão ir acabar de pagar os prédios que comprara em Lisboa, com o pé de meia da guerra, da guerra por Minho a Timor.

E eu ali, feito parvo, entre aquele major de merda, a preparar transferência para uma repartição no quartel general, os velhinhos da praxe, os cozinheiros ainda sem dedo para o sal. Mais a Walter pendurada no cinto que o major me mandava descarregar em cima dos velhinhos para os obrigar a engolir a comida salgada. E subiu-me o calor à cabeça, fazendo luz, arranquei a Walter da cintura, meti-lhe bala na câmara e atirei-a ao major de merda e disse-lhe:
- Vá lá você, ó valentão, ó seu major de merda, corra lá a tropa a tiro, se é capaz, eu cubro-lhe a retaguarda.

E o gajo, o major, quieto, enfiado na secretária, a suar, a suar, sem pio e sem se mexer. Feito merda, afinal merda feita major. Virei costas ao major, veio-me o sentido da lucidez, do comando, da liderança, do consenso. Disso tudo que tu, Luís, tão bem falas por tão bem saberes falar. E, calmo, periquito feito velhinho instantâneo pelo aperto, acordei logo ali a anulação do levantamento de rancho com uma patuscada de recurso de salsichas, ovos estrelados e batatas fritas à maneira, e com maneira no sal, com que os velhinhos se deliciaram e os periquitos secaram os suores.

Aprendi ali, logo ali, que, em questão de liderança e bom senso, um traço grosso só atrapalhava na companhia ao traço fino. Devia saber isso, mas, na altura, eu ainda era periquito.

2º) O Alferes Chico, operacional junto à CCS, era o meu melhor amigo, ali no Pelundo. Um gajo porreiro e puro. Algarvio, com um curso de professor de educação física, aliava excelentes sentimentos e boa consciência social e política, com um gosto físico pela actividade, pelas operações, pelo fazer a guerra. Estava contra a guerra colonial mas, no fundo, fervia-lhe a apetência de guerreiro e pela acção. Era o meu principal companheiro de tertúlia, também para as farras selectas com bajudas selectas - alma aberta e límpida, ingénua também.

Uma noite, o PAIGC resolveu perturbar a calma do Pelundo com umas rajadas soltas de costureirinha, para avisarem que estavam lá, existiam, tentando quebrar a modorra da psico que ia tecendo harmonia entre tropa e população, num rame-rame que era favorável à consolidação do domínio-tampão sobre o chão manjaco.

O tenente coronel nabo que comandava as tropas, reuniu o oficialato de emergência. O homem estava possesso, como assim, tanto bem que lhes fazemos, mais isto, mais aquilo, estes cabrões dos pretos da tabanca estão feitos com os turras, alferes Chico forme já o seu pelotão, saia e dê uma lição à pretalhada, eles precisam de umas porradas bem dadas, foda-lhes os cornos que eles precisam de aprender que não se brinca com a tropa.

Eu a ouvir o discurso e a olhar para o Chico, o meu amigo Chico, e a medir-lhe a reacção. E a ver-lhe na cara a contradição entre senso e acção. E a medir-lhe pelo subir do seu bigode algarvio que o apelo da acção lhe estava a aquecer a cabeça e a pesar-lhe na mão agarrada á G3.

Deu-me um vaip, um vaip guerreiro, e logo me ofereci para o combate:
-Meu tenente-coronel, se me permite, ofereço-me para incorporar a acção punitiva, convém manter as transmissões operacionais com o quartel, permite que seja o oficial de transmissões do Alferes Francisco?.

De orgulho escancarado foi a reacção do oficial comandante. Com certeza, com certeza, muito bem, muito bem. Cheguei-me ao Chico, a tropa alinhada, artilhada, pronta para tudo, disposta a tudo que o alferes mandasse, o Chico todo marcial na sua missão de comando e represália, e eu a dar-lhe missa mansa:
- Ó Chico, como é que é, vamos arrear nas bajudas e nas mães das bajudas com que roçamos? - E o Chico, hirto:
- Tem que ser, Tunes, tem que ser, se os gajos mijam fora do penico levam para aprenderem, não ouviste o comandante. E eu, calmo e sem desarmar:
- Não me fodas, Chico, vamos primeiro ver se tudo está ou não está a dormir, nas calmas, só para ver, pode ter sido malta de fora, para desestabilizar, depois lixamos as bajudas e ficamos sem bajuda para dançar, o que é preciso é calma, ó Chico, porque se estragamos a psico amanhã temos o Caco a dar-nos na mona.

Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Alferes milicianos da CCS do BCAÇ 2884, com sede no Pelundo, em alegre e descontraído convívio, no dia 1 de Janeiro de 1970. João Tunes, oficial cripto, é o segundo da esquerda, de costas e de quico na cabeça, abraçando um camarada (talvez o médico ou o capelão) ..."E lá fomos, em guerreira missão, apanhando e comendo tomates da horta militar com a tropa toda a desopilar em risos e em descarga guerreira. Voltámos em alívio e em alegria, sem parar para pensar o que seriam aqueles mesmos lúdicos militares por roubarem tomates a um major se o comando, a liderança, lhes apontasse, impulsionasse, impusesse, antes, o caminho da filha de putice. Da barbárie até" (João Tunes).

© João Tunes (2005)


Vi logo nos olhos do meu amigo Chico ele quebrou, ficou mais algarvio que guerreiro, mais a puxar para a bajuda que para a porrada, mais para a consciência que para a pulsão. Não me respondeu, mas aquele silêncio disse-me tudo. Entrámos numa palhota, tudo dormia como se nada tivesse acontecido. O Chico riu-se. E tomou-me a dianteira:
- Eentão aquele cagarola queria que andássemos à porrada com mulheres a dormir, ó Tunes, já viste o que aquele cabrão queria armar?.

Dei-lhe razão sem muita ênfase. Estava no papo. O melhor do Chico tinha vindo ao de cima. Não interessava forçar a nota. A questão era como regressar ao quartel, recolhendo à tenda. A ideia veio-me, sei lá como:
- Ó Chico, vamos fazer um golpe de mão e mamar a horta do major Pinho, sacando-lhe os tomates! - O Chico riu-se com uma das suas inigualáveis e mais sonoras gargalhadas, concordando.

E lá fomos, em guerreira missão, apanhando e comendo tomates da horta militar com a tropa toda a desopilar em risos e em descarga guerreira. Voltámos em alívio e em alegria, sem parar para pensar o que seriam aqueles mesmos lúdicos militares por roubarem tomates a um major se o comando, a liderança, lhes apontasse, impulsionasse, impusesse, antes, o caminho da filha de putice. Da barbárie até.

Abraços. Para ti e para toda a digna e marcial Tertúlia.

João Tunes

____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 21 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLV: Estilo de comando e espírito de casta (João Tunes)

(2) Este episódio já aqui foi evocado pelo João Tunes, em post de 17 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CXCII: Os nossos (des)encontros: do Niassa ao Pelundo, passando por Bissau (João Tunes)

Guiné 63/74 - DCLVI: Tratado sobre a liderança em tempo de guerra (João Tunes)

Post nº 656 (DCLVI)

Guiné > Algures durante a guerra de libertação > Amílcar Cabral, mais do que um ícone revolucionário (tal como Che Guevara), foi um dos maiores líderes africanos do Século XX. "Amílcar não escreveu uma única frase de pensamento sem olhar para a espingarda. Amílcar não mandou dar um único tiro de espingarda fora da lógica política da estratégia da libertação anticolonial e da emancipação africana, pensada e repensada na sua profunda cultura marxista e criativa, no seu modo próprio de pensar a Guiné, África e o mundo" (João Tunes).

Fonte: Foto de origem desconhecida (PAIGG ?).


Camarada Luís,

Com o trato da questão da liderança (estilo de comando) no viver militar, foste buscar o nosso camarada da Marinha, teu amigo e colega académico, Correia Jesuíno, que não tenho prazer de conhecer, nem sequer de vista. Mas acontece que o Prof Correia Jesuíno é santo cá da minha casa (por via conjugal, vivendo eu, em vida partilhada de vinte anos, podando a quatro mãos um rebento a ameaçar ser adulto já em Julho, com uma sua antiga aluna e discípula no ISPA) e permite que conteste a tua afirmação que ele só conheceu, do ex-império, e de passagem, Cabo Verde. E então o papel fulcral e determinante que ele teve em Angola na chamada fase de transição da descolonização? Ó camarada Luís, aquilo não valeu, custou, mais que vinte comissões no mato? Não sei, não.

Depois, permite-mo, não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo "Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino...."(1). Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?

Eu não tenho idolatria por Cabral, não lhe meto tijolo na adoração como mito. Aliás, sou altamente crítico quanto ao preço pago pela sua utopia (ego-étnica) da unidade (absurda, autojustificativa como desiderato da sua condição de mestiço) Guiné-Cabo Verde e que Cabral impôs ao PAIGC e dando, neste absurdo (mas, se calhar, condição necessária para o sucesso), o trunfo maior, no divisionismo e na traição, para o trabalho sujo da Pide e do Exército Colonial (que custaria a própria vida, dele Cabral, e hoje termos a Guiné-Bissau entregue a um apenas bom guerrilheiro como Nino, faltando-lhe o resto, se calhar o mais importante).

Mas Amílcar Cabral foi um dos líderes mais inteligentes e geniais de toda a África (assumamos a honra de termos combatido um Chefe IN de tamanha envergadura, o maior líder africano!). E foi-o pela praxis, porque foi teórico enquanto operacional, operacional enquanto pensador revolucionário.

Amílcar não escreveu uma única frase de pensamento sem olhar para a espingarda. Amílcar não mandou dar um único tiro de espingarda fora da lógica política da estratégia da libertação anticolonial e da emancipação africana, pensada e repensada na sua profunda cultura marxista e criativa, no seu modo próprio de pensar a Guiné, África e o mundo.

Amílcar que teve a sorte trágica de ter sido assassinado e transformado em mártir antes de lhe chegar a hora de ver e ser julgado pela obra feita, prestando contas, com o Estado às costas, perante a história e os seus seguidores, das consequências da eficácia e absurdos da sua lógica, dos seus acertos e desacertos.

Mas vamos à substância. Que só pode ser dada pela vida vivida, ou seja, pela experiência feita corpo e alma. E, neste campo, se me permitem, tu e os restantes camaradas tertulianos, dou-te dois, como testemunhos.

1º) Um dos merdas militares que conheci logo na ida e chegada à Guiné foi um major que fazia as vezes de 2º Comandante (depois pirou-se para uma repartição e não nos acompanhou na ida para o mato no Pelundo). Era, como muitos outros, um cagarolas apesar de já ter feito várias comissões na guerra colonial.

No primeiro dia da ocupação periquita do Quartel de Santa Luzia em Bissau, apanhei, como oficial de dia, um levantamento de rancho organizado pelos velhinhos que esperavam embarque de regresso porque os cozinheiros periquitos do meu Batalhão tinham entornado sal a mais na comida (a maioria deles nunca tinha cozinhado na puta da vida) (1).

Um gozo do camandro aquele, o dos velhinhos, sentados no refeitório quietos e com gozo sádico, a praxarem periquitos e a malta não comia e dizia em coro:
- Piú, piú, velhinhos, fartos de mato, não comem comida salgada por piriquito, piriquito vai pró mato, piú, piú.

Eu, fodido, a comprovar que a comida estava mesmo salgada, a sentir escorrer o suor dos cozinheiros novatos em pânico, apardalado como periquito que era, pedindo ajuda ao major para sair da embrulhada, o gajo encafuado nos galões do traço grosso junto a um traço fino, eu dependente porque só tinha um traço fino em cima do ombro e a perguntar-lhe:
-Meu major, como vamos resolver? - E o gajo a ficar mais à rasca que eu, a suar mais que eu e que os cozinheiros nossos camaradas e feitos merda, atarantado, atarantado, e depois sair-se:
- Ó alferes, para que é que tem essa pistola à cintura? Abata um ou dois, depois os outros comem! - E eu, feito palerma, mais palerma que periquito, a olhar o merdas do major a mandar-me dar tiros nos velhinhos praxistas da perda da solidariedade, e a ver o major a desaparecer atrás da secretária e a querer dizer-me que não estava ali, nem tinha vindo em comissão, apesar de ir na terceira comissão e com a terceira comissão ir acabar de pagar os prédios que comprara em Lisboa, com o pé de meia da guerra, da guerra por Minho a Timor.

E eu ali, feito parvo, entre aquele major de merda, a preparar transferência para uma repartição no quartel general, os velhinhos da praxe, os cozinheiros ainda sem dedo para o sal. Mais a Walter pendurada no cinto que o major me mandava descarregar em cima dos velhinhos para os obrigar a engolir a comida salgada. E subiu-me o calor à cabeça, fazendo luz, arranquei a Walter da cintura, meti-lhe bala na câmara e atirei-a ao major de merda e disse-lhe:
- Vá lá você, ó valentão, ó seu major de merda, corra lá a tropa a tiro, se é capaz, eu cubro-lhe a retaguarda.

E o gajo, o major, quieto, enfiado na secretária, a suar, a suar, sem pio e sem se mexer. Feito merda, afinal merda feita major. Virei costas ao major, veio-me o sentido da lucidez, do comando, da liderança, do consenso. Disso tudo que tu, Luís, tão bem falas por tão bem saberes falar. E, calmo, periquito feito velhinho instantâneo pelo aperto, acordei logo ali a anulação do levantamento de rancho com uma patuscada de recurso de salsichas, ovos estrelados e batatas fritas à maneira, e com maneira no sal, com que os velhinhos se deliciaram e os periquitos secaram os suores.

Aprendi ali, logo ali, que, em questão de liderança e bom senso, um traço grosso só atrapalhava na companhia ao traço fino. Devia saber isso, mas, na altura, eu ainda era periquito.

2º) O Alferes Chico, operacional junto à CCS, era o meu melhor amigo, ali no Pelundo. Um gajo porreiro e puro. Algarvio, com um curso de professor de educação física, aliava excelentes sentimentos e boa consciência social e política, com um gosto físico pela actividade, pelas operações, pelo fazer a guerra. Estava contra a guerra colonial mas, no fundo, fervia-lhe a apetência de guerreiro e pela acção. Era o meu principal companheiro de tertúlia, também para as farras selectas com bajudas selectas - alma aberta e límpida, ingénua também.

Uma noite, o PAIGC resolveu perturbar a calma do Pelundo com umas rajadas soltas de costureirinha, para avisarem que estavam lá, existiam, tentando quebrar a modorra da psico que ia tecendo harmonia entre tropa e população, num rame-rame que era favorável à consolidação do domínio-tampão sobre o chão manjaco.

O tenente coronel nabo que comandava as tropas, reuniu o oficialato de emergência. O homem estava possesso, como assim, tanto bem que lhes fazemos, mais isto, mais aquilo, estes cabrões dos pretos da tabanca estão feitos com os turras, alferes Chico forme já o seu pelotão, saia e dê uma lição à pretalhada, eles precisam de umas porradas bem dadas, foda-lhes os cornos que eles precisam de aprender que não se brinca com a tropa.

Eu a ouvir o discurso e a olhar para o Chico, o meu amigo Chico, e a medir-lhe a reacção. E a ver-lhe na cara a contradição entre senso e acção. E a medir-lhe pelo subir do seu bigode algarvio que o apelo da acção lhe estava a aquecer a cabeça e a pesar-lhe na mão agarrada á G3.

Deu-me um vaip, um vaip guerreiro, e logo me ofereci para o combate:
-Meu tenente-coronel, se me permite, ofereço-me para incorporar a acção punitiva, convém manter as transmissões operacionais com o quartel, permite que seja o oficial de transmissões do Alferes Francisco?.

De orgulho escancarado foi a reacção do oficial comandante. Com certeza, com certeza, muito bem, muito bem. Cheguei-me ao Chico, a tropa alinhada, artilhada, pronta para tudo, disposta a tudo que o alferes mandasse, o Chico todo marcial na sua missão de comando e represália, e eu a dar-lhe missa mansa:
- Ó Chico, como é que é, vamos arrear nas bajudas e nas mães das bajudas com que roçamos? - E o Chico, hirto:
- Tem que ser, Tunes, tem que ser, se os gajos mijam fora do penico levam para aprenderem, não ouviste o comandante. E eu, calmo e sem desarmar:
- Não me fodas, Chico, vamos primeiro ver se tudo está ou não está a dormir, nas calmas, só para ver, pode ter sido malta de fora, para desestabilizar, depois lixamos as bajudas e ficamos sem bajuda para dançar, o que é preciso é calma, ó Chico, porque se estragamos a psico amanhã temos o Caco a dar-nos na mona.

Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Alferes milicianos da CCS do BCAÇ 2884, com sede no Pelundo, em alegre e descontraído convívio, no dia 1 de Janeiro de 1970. João Tunes, oficial cripto, é o segundo da esquerda, de costas e de quico na cabeça, abraçando um camarada (talvez o médico ou o capelão) ..."E lá fomos, em guerreira missão, apanhando e comendo tomates da horta militar com a tropa toda a desopilar em risos e em descarga guerreira. Voltámos em alívio e em alegria, sem parar para pensar o que seriam aqueles mesmos lúdicos militares por roubarem tomates a um major se o comando, a liderança, lhes apontasse, impulsionasse, impusesse, antes, o caminho da filha de putice. Da barbárie até" (João Tunes).

© João Tunes (2005)


Vi logo nos olhos do meu amigo Chico ele quebrou, ficou mais algarvio que guerreiro, mais a puxar para a bajuda que para a porrada, mais para a consciência que para a pulsão. Não me respondeu, mas aquele silêncio disse-me tudo. Entrámos numa palhota, tudo dormia como se nada tivesse acontecido. O Chico riu-se. E tomou-me a dianteira:
- Eentão aquele cagarola queria que andássemos à porrada com mulheres a dormir, ó Tunes, já viste o que aquele cabrão queria armar?.

Dei-lhe razão sem muita ênfase. Estava no papo. O melhor do Chico tinha vindo ao de cima. Não interessava forçar a nota. A questão era como regressar ao quartel, recolhendo à tenda. A ideia veio-me, sei lá como:
- Ó Chico, vamos fazer um golpe de mão e mamar a horta do major Pinho, sacando-lhe os tomates! - O Chico riu-se com uma das suas inigualáveis e mais sonoras gargalhadas, concordando.

E lá fomos, em guerreira missão, apanhando e comendo tomates da horta militar com a tropa toda a desopilar em risos e em descarga guerreira. Voltámos em alívio e em alegria, sem parar para pensar o que seriam aqueles mesmos lúdicos militares por roubarem tomates a um major se o comando, a liderança, lhes apontasse, impulsionasse, impusesse, antes, o caminho da filha de putice. Da barbárie até.

Abraços. Para ti e para toda a digna e marcial Tertúlia.

João Tunes

____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 21 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLV: Estilo de comando e espírito de casta (João Tunes)

(2) Este episódio já aqui foi evocado pelo João Tunes, em post de 17 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CXCII: Os nossos (des)encontros: do Niassa ao Pelundo, passando por Bissau (João Tunes)

27 março 2006

Guiné 63/74 - DCLV: Os donos dos carimbos (Zé Neto)

Guiné > Bissau > Outubro de 1968. Esplanada do Café Bento, a famosa 5ª Rep onde se juntavam (mas não se misturavam) o pessoal da guerra do ar condicionado e os apanhados do clima que vinham do interior. Comentário do Zé Neto: "A pele e o monte de ossos do Zé Neto que sobrou da Comissão Liquidatária da CART 1613".

© José Neto (2006)


Luís: Guarda aí esta croniqueta para quando te der jeito meteres no blogue. Se for caso disso, a apresentação é por tua conta. Boa noite, um abração e até breve. Zé Neto (26/2/2006).

Comentário de L.G.:

Os burocratas são mais ou menos iguais em toda a parte e em todas as épocas. Nas empresas, na administração pública, nas forças armadas. Em Portugal ou nos Estados Unidos. Com uma única diferença: podem ser mais arrogantes e prepotentes nas sociedades não democráticas, como era aquela em que a gente vivia durante a guerra colonial. Também dependia do seu sentido de impunidade: por exemplo, no mato, era mais difícil ao burocrata levar a burocracia à letra (por exemplo, o RMD - Regulamento de Disciplina Militar)...

Esta estória, aqui contada pelo Zé Neto, é edificante. Acaba bem. Tem moral e tudo. Mas podia ter sido um pesadelo para o nosso amigo e camarada, responsável e único membro da Comissão Liquidatária da sua unidade, a CART 1613... No fundo, a estória teve um desfecho feliz, ou melhor, à portuguesa, graças ao nosso proverbial sentido de desenrascanço...

Felizmente que os sistemas de acção humana organizada (como as forças armadas,a s escolas, as empresas, os hospitais...) são suficientemente flexíveis e contingentes (diz-se hoje, que são sistemas inteligentes) para darem lugar a (ou tolerarem) comportamentos desviantes, logica e formalmente não previstos nem desejados... Neste caso, o efeito não-previsto chamava-se Furriel Miliciano João Paulo...

Enfim, confesso que não fazia a mínima ideia do que era o trabalho dos nossos sargentos nas comissões liquidatárias. Por isso o testemunho do Zé Neto - em complemento das suas memórias de Guileje (1) - merece, mais uma vez, a nossa atenção e o nosso interesse. As guerras também se ganham (ou perdem) com os burocratas e com o seu poder, a burocracia (do francês, bureaucratie, o poder dos escritórios, das repartições).

O Zé Neto tem razão: o que um homem tinha de saber de legislação militar! Vão espreitar o famoso livrinho que nos davam na altura do embarque (Estado Maior do Exército - Missão na Guiné. Lisboa: SPEME, 1971. pp 68 e ss.). É só uma amostra...

Os donos dos carimbos (por Zé Neto)



Guiné-Bissau > Guileje > 2005 > Aqui era o aquartelamento de Guileje... © AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guileje (2005)


Preâmbulo

Não me surpreende a constatação do facto de que, até agora, só eu tenho trazido ao blogue um pouco da vivência intramuros (melhor, intra-arame farpado) das unidades combatentes no que concerne ao sector administrativo, por vezes uma guerra tão violenta e suja como a que se travava nas matas.

Aos alferes, furriéis, cabos e soldados pouco importava a manobra dos papéis desde que a pensão na Metrópole, a subvenção de família, o requerimento para a licença, os descontos dos débitos na cantina, o pré e vencimentos pagos na hora e outros assuntos estivessem em dia. Os bipés, carregadores, cantis, facas-de-mato e outros artigos perdidos nas operações eram problemas que, depois de comunicados, ficavam para o pessoal do arame farpado resolver.

Gostava de saber qual dos ex-graduados deste blogue teve o cuidado de, ao render outros num destacamento, conferir minuciosamente todos os artigos de material da Folha de Carga, ou até se essa folha lá estava, como era regulamentar.

Guiné > Guileje > CART 1613 (1967/68) > Alguém, numa unidade de quadrícula, algures no mato, tinha de se preocupar com os papéis, para se poder pagar a pensão na Metrópole ou a subvenção de família, autorizar o requerimento para a licença de férias ou ter o pré e os vencimentos pagos na hora... © José Neto (2006)


Compreendo. Fomos treinados para combater e não para burocratas. Será a resposta.
Só que a soma desses pequenos descuidos sobravam sempre para o Chico chato que responde pela companhia, o primeiro-sargento que, no meu caso, nem esse posto tinha.

Por isso vos trago hoje esta memória da minha campanha contra os donos dos carimbos de Bissau.

Os carimbos e os seus donos

A comissão acabou, o Niassa levou o pessoal com um saco de bagagem e duas mudas de roupa apenas e tudo o que restou ficou com a Comissão Liquidatária da companhia.

Durante duas semanas após o embarque ainda tive a preciosa ajuda do meu Capitão que se recusou a embarcar por saber da montanha de problemas que me deixava.

Depois da sua profícua actuação em que alguns Autos tramitavam de cima para baixo, ou seja, quando chegavam à secretaria do Serviço por onde deviam entrar já levavam o despacho do Chefe, que ele obtinha junto dos seus amigos e condiscípulos da Academia Militar, depois disso, repito, a Comissão Liquidatária era composta por mim de manhã, eu à tarde e o desgraçado do Zé Neto à noite.

A Guia de Desembaraço da Liquidatária só depois de carimbada por todas as chafaricas nela inscritas me dava o direito de pedir o meu transporte de regresso. Avisado de antemão e já com a experiência da comissão anterior em Cabinda guardei 20 miniaturas do Guião da companhia para os subornos, pois os donos dos carimbos tinham uma apetência muito acentuada por esses troféus.

Quando cheguei à parte de liquidar o material de guerra só restava um e esse era o meu. Por nada deste mundo alguém mo arrancava.

Lá me arrastei até à Bolola com uma pasta atafulhada de Guias de entrega, Autos de ruína, extravio, etc. aprovados e fiquei diante dum 1º sargento amanuense, pomposamente intitulado Chefe da Secção de Ficheiros do Serviço de Material, assessorado por um furriel miliciano do recrutamento local, mestiço, ali tratado por João Paulo. Foi o que me ficou do nome do rapaz.
-Hei! nosso sargento. Você tem para aí tralha a dar com um pau! …Traz o Guião?

Arrumei uma mentira dizendo que a Casa das Bandeiras (em Lisboa) se enganara na confecção e que tinham sido devolvidos, com muita pena nossa, bralaubau e por aí fora…

O homem esboçou um sorriso cínico (nunca mais esqueci aqueles dentes amarelos acastanhados que provavelmente nunca viram uma escova) e calendarizou as conferências:
- Amanhã quero o acerto da carga que trouxeram da Metrópole, depois se marca a de Guilege e ainda fica a restar a de Buba e destacamentos.

A primeira sessão foi de arrasar! Estaca práqui, pinchavelho pracolá, o homem tinha estudado aturadamente a maneira de me massacrar. Saí dali com vontade de lhe dar o meu Guião, mas o raio da peta que lhe meti, não se conjugava bem com a situação.

No Clube dos Liquidatários, que reunia ao fim da tarde na esplanada do Bento, comentei o aperto que tinha levado e logo o Parracho (meu conhecido de Macau), que já andava por lá há quatro meses naqueles trabalhos, me afiançou:
– Estás fod... com o gajo. Vai-te espremer até ao tutano. Já em Moçambique esse filho da p... fez mossa nessa função em que se especializou. Estive lá com ele. Arranja maneira de lhe dar a volta.

E arranjei. Ou melhor, os meus santinhos ajudaram-me a dar a volta por cima.
Uma tarde em que não me apeteceu aparecer no Clube, sentei-me na esplanada do Zé da Amura a emborcar cafés para curar o desalento. Senti uma leve batida no ombro e o João Paulo perguntou-me:
- Posso pagar-lhe uma cerveja?
- Não bebo disso, mas sente-se e mande vir que pago eu. Então? Conte lá.
- Passei o dia a separar as suas fichas para a conferência de amanhã e está lá uma que, calculo, lhe pode dar mais um mesito de Guiné. O meu sargento tem a Guia de Entrega assinada das cento e tal espingardas Mauser distribuídas aos núcleos de população em auto-defesa, à responsabilidade da companhia operacional de Buba?
- Espingardas Mauser??? Vi algumas em Nhala, mas até pensei que eram oferecidas como ferro-velho para os nativos caçarem. Ai que estou tramado!!!
- Acalme-se, meu sargento. Eu não estou aqui por acaso. Andei à sua procura.
- Como me incomodam as atitudes do nosso primeiro para consigo, eu resolvi arriscar o extravio dessa ficha que ele ainda não viu, e mais tarde, quando o senhor embarcar, volto a pô-la no lugar, fora de ordem para disfarçar. Depois...que Deus nos ajude.

Para que não ficassem dúvidas da lisura da sua intenção, fez questão de pagar a despesa e foi à sua vida.

No dia seguinte, chegamos à última ficha e, num gesto que me pareceu durar uma eternidade, o ogre ergueu o carimbo, humedeceu-o com o seu bafo mal cheiroso, deixou-o cair no rectângulo respectivo e, com aquele sorriso grosseiro e alvar, pegou na caneta e rabiscou o nome. Nome que conheço, mas não quero escrevê-lo para não manchar este espaço.

Dos nove quilos que perdi na Guiné, creio que nessa noite recuperei uns gramas graças à atitude indisciplinada do Furriel Mil João Paulo qualquer coisa.

Ai, meu caro João Paulo. Se a tua forte compleição física e o teu espírito de bem-fazer te conservaram a vida, andas agora pelos sessenta e eu já vou nos setenta e muitos anos. Podes crer que sempre ocupaste um lugar muito especial na memória deste velho soldado.

José A S Neto
____________

Nota de L.G.

(1) vd post de 25 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXXXV: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (Fim): o descanso em Buba

Guiné 63/74 - DCLV: Os donos dos carimbos (Zé Neto)

Guiné > Bissau > Outubro de 1968. Esplanada do Café Bento, a famosa 5ª Rep onde se juntavam (mas não se misturavam) o pessoal da guerra do ar condicionado e os apanhados do clima que vinham do interior. Comentário do Zé Neto: "A pele e o monte de ossos do Zé Neto que sobrou da Comissão Liquidatária da CART 1613".

© José Neto (2006)


Luís: Guarda aí esta croniqueta para quando te der jeito meteres no blogue. Se for caso disso, a apresentação é por tua conta. Boa noite, um abração e até breve. Zé Neto (26/2/2006).

Comentário de L.G.:

Os burocratas são mais ou menos iguais em toda a parte e em todas as épocas. Nas empresas, na administração pública, nas forças armadas. Em Portugal ou nos Estados Unidos. Com uma única diferença: podem ser mais arrogantes e prepotentes nas sociedades não democráticas, como era aquela em que a gente vivia durante a guerra colonial. Também dependia do seu sentido de impunidade: por exemplo, no mato, era mais difícil ao burocrata levar a burocracia à letra (por exemplo, o RMD - Regulamento de Disciplina Militar)...

Esta estória, aqui contada pelo Zé Neto, é edificante. Acaba bem. Tem moral e tudo. Mas podia ter sido um pesadelo para o nosso amigo e camarada, responsável e único membro da Comissão Liquidatária da sua unidade, a CART 1613... No fundo, a estória teve um desfecho feliz, ou melhor, à portuguesa, graças ao nosso proverbial sentido de desenrascanço...

Felizmente que os sistemas de acção humana organizada (como as forças armadas,a s escolas, as empresas, os hospitais...) são suficientemente flexíveis e contingentes (diz-se hoje, que são sistemas inteligentes) para darem lugar a (ou tolerarem) comportamentos desviantes, logica e formalmente não previstos nem desejados... Neste caso, o efeito não-previsto chamava-se Furriel Miliciano João Paulo...

Enfim, confesso que não fazia a mínima ideia do que era o trabalho dos nossos sargentos nas comissões liquidatárias. Por isso o testemunho do Zé Neto - em complemento das suas memórias de Guileje (1) - merece, mais uma vez, a nossa atenção e o nosso interesse. As guerras também se ganham (ou perdem) com os burocratas e com o seu poder, a burocracia (do francês, bureaucratie, o poder dos escritórios, das repartições).

O Zé Neto tem razão: o que um homem tinha de saber de legislação militar! Vão espreitar o famoso livrinho que nos davam na altura do embarque (Estado Maior do Exército - Missão na Guiné. Lisboa: SPEME, 1971. pp 68 e ss.). É só uma amostra...

Os donos dos carimbos (por Zé Neto)



Guiné-Bissau > Guileje > 2005 > Aqui era o aquartelamento de Guileje... © AD - Acção para o Desenvolvimento > Projecto Guileje (2005)


Preâmbulo

Não me surpreende a constatação do facto de que, até agora, só eu tenho trazido ao blogue um pouco da vivência intramuros (melhor, intra-arame farpado) das unidades combatentes no que concerne ao sector administrativo, por vezes uma guerra tão violenta e suja como a que se travava nas matas.

Aos alferes, furriéis, cabos e soldados pouco importava a manobra dos papéis desde que a pensão na Metrópole, a subvenção de família, o requerimento para a licença, os descontos dos débitos na cantina, o pré e vencimentos pagos na hora e outros assuntos estivessem em dia. Os bipés, carregadores, cantis, facas-de-mato e outros artigos perdidos nas operações eram problemas que, depois de comunicados, ficavam para o pessoal do arame farpado resolver.

Gostava de saber qual dos ex-graduados deste blogue teve o cuidado de, ao render outros num destacamento, conferir minuciosamente todos os artigos de material da Folha de Carga, ou até se essa folha lá estava, como era regulamentar.

Guiné > Guileje > CART 1613 (1967/68) > Alguém, numa unidade de quadrícula, algures no mato, tinha de se preocupar com os papéis, para se poder pagar a pensão na Metrópole ou a subvenção de família, autorizar o requerimento para a licença de férias ou ter o pré e os vencimentos pagos na hora... © José Neto (2006)


Compreendo. Fomos treinados para combater e não para burocratas. Será a resposta.
Só que a soma desses pequenos descuidos sobravam sempre para o Chico chato que responde pela companhia, o primeiro-sargento que, no meu caso, nem esse posto tinha.

Por isso vos trago hoje esta memória da minha campanha contra os donos dos carimbos de Bissau.

Os carimbos e os seus donos

A comissão acabou, o Niassa levou o pessoal com um saco de bagagem e duas mudas de roupa apenas e tudo o que restou ficou com a Comissão Liquidatária da companhia.

Durante duas semanas após o embarque ainda tive a preciosa ajuda do meu Capitão que se recusou a embarcar por saber da montanha de problemas que me deixava.

Depois da sua profícua actuação em que alguns Autos tramitavam de cima para baixo, ou seja, quando chegavam à secretaria do Serviço por onde deviam entrar já levavam o despacho do Chefe, que ele obtinha junto dos seus amigos e condiscípulos da Academia Militar, depois disso, repito, a Comissão Liquidatária era composta por mim de manhã, eu à tarde e o desgraçado do Zé Neto à noite.

A Guia de Desembaraço da Liquidatária só depois de carimbada por todas as chafaricas nela inscritas me dava o direito de pedir o meu transporte de regresso. Avisado de antemão e já com a experiência da comissão anterior em Cabinda guardei 20 miniaturas do Guião da companhia para os subornos, pois os donos dos carimbos tinham uma apetência muito acentuada por esses troféus.

Quando cheguei à parte de liquidar o material de guerra só restava um e esse era o meu. Por nada deste mundo alguém mo arrancava.

Lá me arrastei até à Bolola com uma pasta atafulhada de Guias de entrega, Autos de ruína, extravio, etc. aprovados e fiquei diante dum 1º sargento amanuense, pomposamente intitulado Chefe da Secção de Ficheiros do Serviço de Material, assessorado por um furriel miliciano do recrutamento local, mestiço, ali tratado por João Paulo. Foi o que me ficou do nome do rapaz.
-Hei! nosso sargento. Você tem para aí tralha a dar com um pau! …Traz o Guião?

Arrumei uma mentira dizendo que a Casa das Bandeiras (em Lisboa) se enganara na confecção e que tinham sido devolvidos, com muita pena nossa, bralaubau e por aí fora…

O homem esboçou um sorriso cínico (nunca mais esqueci aqueles dentes amarelos acastanhados que provavelmente nunca viram uma escova) e calendarizou as conferências:
- Amanhã quero o acerto da carga que trouxeram da Metrópole, depois se marca a de Guilege e ainda fica a restar a de Buba e destacamentos.

A primeira sessão foi de arrasar! Estaca práqui, pinchavelho pracolá, o homem tinha estudado aturadamente a maneira de me massacrar. Saí dali com vontade de lhe dar o meu Guião, mas o raio da peta que lhe meti, não se conjugava bem com a situação.

No Clube dos Liquidatários, que reunia ao fim da tarde na esplanada do Bento, comentei o aperto que tinha levado e logo o Parracho (meu conhecido de Macau), que já andava por lá há quatro meses naqueles trabalhos, me afiançou:
– Estás fod... com o gajo. Vai-te espremer até ao tutano. Já em Moçambique esse filho da p... fez mossa nessa função em que se especializou. Estive lá com ele. Arranja maneira de lhe dar a volta.

E arranjei. Ou melhor, os meus santinhos ajudaram-me a dar a volta por cima.
Uma tarde em que não me apeteceu aparecer no Clube, sentei-me na esplanada do Zé da Amura a emborcar cafés para curar o desalento. Senti uma leve batida no ombro e o João Paulo perguntou-me:
- Posso pagar-lhe uma cerveja?
- Não bebo disso, mas sente-se e mande vir que pago eu. Então? Conte lá.
- Passei o dia a separar as suas fichas para a conferência de amanhã e está lá uma que, calculo, lhe pode dar mais um mesito de Guiné. O meu sargento tem a Guia de Entrega assinada das cento e tal espingardas Mauser distribuídas aos núcleos de população em auto-defesa, à responsabilidade da companhia operacional de Buba?
- Espingardas Mauser??? Vi algumas em Nhala, mas até pensei que eram oferecidas como ferro-velho para os nativos caçarem. Ai que estou tramado!!!
- Acalme-se, meu sargento. Eu não estou aqui por acaso. Andei à sua procura.
- Como me incomodam as atitudes do nosso primeiro para consigo, eu resolvi arriscar o extravio dessa ficha que ele ainda não viu, e mais tarde, quando o senhor embarcar, volto a pô-la no lugar, fora de ordem para disfarçar. Depois...que Deus nos ajude.

Para que não ficassem dúvidas da lisura da sua intenção, fez questão de pagar a despesa e foi à sua vida.

No dia seguinte, chegamos à última ficha e, num gesto que me pareceu durar uma eternidade, o ogre ergueu o carimbo, humedeceu-o com o seu bafo mal cheiroso, deixou-o cair no rectângulo respectivo e, com aquele sorriso grosseiro e alvar, pegou na caneta e rabiscou o nome. Nome que conheço, mas não quero escrevê-lo para não manchar este espaço.

Dos nove quilos que perdi na Guiné, creio que nessa noite recuperei uns gramas graças à atitude indisciplinada do Furriel Mil João Paulo qualquer coisa.

Ai, meu caro João Paulo. Se a tua forte compleição física e o teu espírito de bem-fazer te conservaram a vida, andas agora pelos sessenta e eu já vou nos setenta e muitos anos. Podes crer que sempre ocupaste um lugar muito especial na memória deste velho soldado.

José A S Neto
____________

Nota de L.G.

(1) vd post de 25 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXXXV: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (Fim): o descanso em Buba

26 março 2006

Guiné 63/74 - DCLIV: Bafatá: o Café do Teófilo, o desterrado





Guiné > Zona Leste > Bafatá > Em cima: estrada de Bambadinca-Batatá (vista de héli); a meio, vista aérea de Bafatá, com o Rio Geba do lado direito (foto tirada de helicóptero, do lado oeste); em baixo, a famosa piscina local (na imagem, o Humberto Reis).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71). © Humberto Reis (2006).


1. O Café Teófilo era conhecido por todos os tugas que estiveram em Bafatá, ou iam a Bafatá, em serviço ou em lazer. Era o caso do pessoal metropolitano da CCAÇ 12 que, mais ou menos de mês a mês, conforme a frequência e a intensidade da actividade operacional, ia a Bafatá comer o seu bifinho com batatas fritas (em geral na Transmontana), visitar as amigas do Bataclã, fazer compras na Casa Gouveia ou simplesmente distrair a vista pelas montras da civilização... Com cerca de 4 mil habitantes (no princípio dos anos 60), Bafatá era a sede de concelho do mesmo nome e a segunda maior cidade da Guiné (passou de vila a cidade só em Março de 1970!)...

O Teófilo foi aqui evocado pelo Manuel Mata, do Esquadão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71): "Café do Teófilo: À saída de Bafatá, na estrada para Bambadinca. Este homem era sobrevivente de um grupo desterrado para a Guiné nos anos 30. No período da guerra era apontado como sendo informador do IN. Foi pessoa com quem me dei particularmente bem, pois tinha pelos alentejanos (em especial de Portalegre) um carinho especial. Era sítio que eu visitava com alguma regularidade, tomava-se uma cerveja gelada, com alguma descrição, acompanhada de uma breve conversa. Era uma pessoa de parcas palavras" (1).

Mandei a seguinte mensagem ao Manuel Mata:

"A história do Teófilo intressa-me. Eu julgo que ele era das Caldas da Rainha, do Oeste (eu sou da Lourinhã). Seria ? Fiquei com essa ideia, das minhas conversas (escassas) com ele... Eu ia lá algumas vezes, recordo-me da filha [, a Rita]. Ele era de poucas palavras (acrescentei eu, à tua legenda).

"Sabes o motivo por que foi desterrado (ou deportado, como se dizia na época) para a Guiné ? Por razões políticas ? Seria ? Terá estado envolvido nalgum movimento de contestação ao Estado Novo nos anos 30 ? Recorde-se que em 1936 foi criado o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde (2), e que entre 1916 e 1939, mais de 15 mil portugueses foram presos e, muitos deles, deportados (para as ilhas adjacentes e colónias) por razões políticas, segundo estimativa do historiador Fernando Rosas ...

"De facto, no meu tempo, ele já tinha 40 anos de Guiné... Nunca aprofundei essa estória. Voltaste a saber dele ? Vou perguntar também ao meu camarada Humberto Reis, da CCAÇ 12" (3)...

2. Informações adicionais do Mata sobre o Teófilo:

No que respeita ao Sr. Teófilo, soube em certa altura após o 25 de Abril de 74, suponho que por um dos meus amigos de Castelo Branco, donde a esposa do senhor era natural, que a Ritinha e o irmão (furriel na altura, em Bissau) viviam em Lisboa.

Quando cheguei a Bafatá, em Novembro de 1969, alguém me disse:
- O fulano ali do café procura militares de Castelo Branco e de Portalegre. - Lá fui eu e dois companheiros de Castelo Branco, acabámos por jantar com o senhor.

Posteriormente em conversas havidas, recordo de me contar que era sobrinho do Sr. Tapadinhas, proprietário da Tipografia Tapadinhas, em Portalegre.

Contou-me que tinha sido desterrado para a Guiné no inicío dos anos trinta, num grupo de 40 elementos dos quais restavam três à data, estando ele e um outro em Bafatá de quem não me recordo o nome - sei que tinha uma taberna na Tabanca entre a casa dele e o Hospital (pessoa com que, de resto, privei algumas vezes, para ouvir os programas em Português da BBC de Londres).

Sei que o Sr. Teófilo tinha vindo à Metrópole apenas duas vezes, tinha uma estima profunda pelos Guineenses, pois foi esse povo maravilhoso que o tratou de inúmeras doenças, e só assim conseguiu sobreviver.

Deu-me muitos conselhos, contou-me muita coisa confidencial, mas nunca quis falar da razão que deu origem ao seu desterro. Sempre respeitei a sua vontade, não o pressionando.

Manuel Mata

3. Comentário de L.G.:

Esta história é fantástica: o Manuel Mata veio-me refrescar a memória. Lembro-me muito bem do velho Teófilo, que era apontado com um caso excepcional de sobrevivência às duras condições da Guiné: ele sobreviveu a tudo, o paludismo, a bilharziose, a doença do sono e tantas outras doenças tropicais; ao isolamento, ao desterro... Como todos os brancos (em especial, comerciantes) que eu conheci na Guiné, o Teófilo tinha fama de estar feito com o IN (ou, noutros casos, era-se inevitavelmente suspeito de ser informador da PIDE/DGS, como era o caso de um comerciante de Bambadinca, cuja casa frequentei /frequentámos algumas vezes)... Não me recordo de ter visto os agentes da PIDE/DGS de Bafatá no Café Teófilo...No Transmontana, sim...

De qualquer modo, o Manuel Mata (que passou a sua comissão em Bafatá e era visita da casa do Teófilo) sabe mais estórias sobre este grupo de deportados que não nos quer contar, por razões que eu respeito... Tratava-se de homens que não morriam de amores pelo Estado Novo, de serem do reviralho... E daí a suspeita de pactuarem com o IN (leia-se: os turras)... Enfim, é pelo menos uma primeira conclusão que eu posso tirar...

Mas há mais malta da nossa tertúlia que esteve em (ou passou por) Bafatá, para além do Manuel Mata (Esq Rec Fox 2640), do pessoal da CCAÇ 12 (eu, o Humberto, o Tony Levezinho, o Fernandes) e outra malta que esteve no Sector L1 (Bambadinca)... Refiro-me ao A. Marques Lopes (CART 1690), o Jorge Varanda (CCAÇ 2636), o Jorge Tavares (CCS do BCAÇ 2856), o Maurício Nunes Vieira (CCS do BART 3884) , etc.

O Teófilo, cuja memória evoco com respeito (hoje se fosse vivo teria mais de 90 anos, mesmo perto dos 100), fez-me lembrar-me o caso dos lançados... Eram tipos (desde os condenados pela justiça do rei aos aventureiros, aos judeus, aos ‘assimilados’, etc.) que desde o tempo de D. Henrique eram literalmente lançados, sozinhos, com a missão de explorar, por conta e risco, a costa da África Ocidental, os países subsaarianos, até à próxima viagem das caravelas ... Eram, na época dos Descobrimentos, uma espécie de guias e picadores, de espiões, de antropólogos, de embaixadores, de bandeirantes: iam à frente, para conhecer e mostrar uma caminho… Também eram conhecidos por tangomaus. Nem sempre foram bem vistos pela autoridade régia (que pretendia manter o monopólio do comércio com a África Ocidental, enquanto os lançados também faziam negócios com os ingleses, os franceses e e os holandeses) nem muito menos pelos missionários que os acusavam de estarem completamente cafrealizados, vivendo em poligamia, no pecado, à maneira dos cafres...

Estamos a falar ainda do Séc. XV… Os nossos amigos tertulianos estão a imaginar serem lançados no Xime, com uma missão (contactar os povos da margem direita do Corubal) e a promessa de voltarem a casa no ano seguinte ?

Estas são outras histórias do Império que muitos de nós desconhecem... Sobre os Lançados, vd. Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses (ed lit Luís de Albuquerque). Vol II. Lisboa: Círculo de Leitores. 1994.582-584. Ver também o texto do senegalês Mamadou Mané - Algumas observações sobre a presença portuguesa na Senegâmbia até ao séc. XVII, publicado na Revista ICALP, vol. 18, Dezembro de 1989, pp. 117-125, disponível em formato pdf na página do Instituto Camões.

____________

Nota de L.G.

(1) Vd post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (3)

(2) Segundo o historiador Fernando Rosas, o número de deportados nas ilhas e nas colónias, em finais de 1931, meados de 1932, entre oficiais, sargentos praças e civis, era de 1421 (a maior parte em Angola, Timor, Cabo Verde e Açores).

Na Guiné, o número de deportados reviralhistas (opositores ao regime instalado em Portugal depois do golpe militar de 28 de Maio de 1926) era de 46, dos quais 18 oficiais, 5 sargentos, 5 praças e 18 civis... Será que entre estes civis poderia estar o nosso jovem Teófilo ? Recordo-me do Teófilo me ter sempre falado de um grupo original de 40 portugueses que veio para a Guiné, e de que ele era já (em 1969/71) um dos últimos sobreviventes. Julgo que mais tarde (se não mesmo logo em 1932) ele e os seus companheiros de infortúnio terão beneficiado de uma amnistia.

Fonte: História de Portugal (ed. lit. José Mattoso), Vol. 7: O Estado Novo (1926-1974). Lisboa: Circulo de Leitores 1994. 209.

(3) Eis o que o Humberto Reis me esclareceu sobre o assunto: "Do Teófilo apenas me lembro de que era lá que se formava a coluna de regresso a Bambadinca, por isso aí se bebiam os últimos copos. Também me recordo que a filha, Rita, trabalhava nos correios lá em Bafatá e que a balança se queixava, cada vez que ela se punha lá em cima (era uma miúda nova mas já bastante forte para a idade). De resto já não me recordo de mais nada ".

Guiné 63/74 - DCLIV: Bafatá: o Café do Teófilo, o desterrado





Guiné > Zona Leste > Bafatá > Em cima: estrada de Bambadinca-Batatá (vista de héli); a meio, vista aérea de Bafatá, com o Rio Geba do lado direito (foto tirada de helicóptero, do lado oeste); em baixo, a famosa piscina local (na imagem, o Humberto Reis).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71). © Humberto Reis (2006).


1. O Café Teófilo era conhecido por todos os tugas que estiveram em Bafatá, ou iam a Bafatá, em serviço ou em lazer. Era o caso do pessoal metropolitano da CCAÇ 12 que, mais ou menos de mês a mês, conforme a frequência e a intensidade da actividade operacional, ia a Bafatá comer o seu bifinho com batatas fritas (em geral na Transmontana), visitar as amigas do Bataclã, fazer compras na Casa Gouveia ou simplesmente distrair a vista pelas montras da civilização... Com cerca de 4 mil habitantes (no princípio dos anos 60), Bafatá era a sede de concelho do mesmo nome e a segunda maior cidade da Guiné (passou de vila a cidade só em Março de 1970!)...

O Teófilo foi aqui evocado pelo Manuel Mata, do Esquadão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71): "Café do Teófilo: À saída de Bafatá, na estrada para Bambadinca. Este homem era sobrevivente de um grupo desterrado para a Guiné nos anos 30. No período da guerra era apontado como sendo informador do IN. Foi pessoa com quem me dei particularmente bem, pois tinha pelos alentejanos (em especial de Portalegre) um carinho especial. Era sítio que eu visitava com alguma regularidade, tomava-se uma cerveja gelada, com alguma descrição, acompanhada de uma breve conversa. Era uma pessoa de parcas palavras" (1).

Mandei a seguinte mensagem ao Manuel Mata:

"A história do Teófilo intressa-me. Eu julgo que ele era das Caldas da Rainha, do Oeste (eu sou da Lourinhã). Seria ? Fiquei com essa ideia, das minhas conversas (escassas) com ele... Eu ia lá algumas vezes, recordo-me da filha [, a Rita]. Ele era de poucas palavras (acrescentei eu, à tua legenda).

"Sabes o motivo por que foi desterrado (ou deportado, como se dizia na época) para a Guiné ? Por razões políticas ? Seria ? Terá estado envolvido nalgum movimento de contestação ao Estado Novo nos anos 30 ? Recorde-se que em 1936 foi criado o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde (2), e que entre 1916 e 1939, mais de 15 mil portugueses foram presos e, muitos deles, deportados (para as ilhas adjacentes e colónias) por razões políticas, segundo estimativa do historiador Fernando Rosas ...

"De facto, no meu tempo, ele já tinha 40 anos de Guiné... Nunca aprofundei essa estória. Voltaste a saber dele ? Vou perguntar também ao meu camarada Humberto Reis, da CCAÇ 12" (3)...

2. Informações adicionais do Mata sobre o Teófilo:

No que respeita ao Sr. Teófilo, soube em certa altura após o 25 de Abril de 74, suponho que por um dos meus amigos de Castelo Branco, donde a esposa do senhor era natural, que a Ritinha e o irmão (furriel na altura, em Bissau) viviam em Lisboa.

Quando cheguei a Bafatá, em Novembro de 1969, alguém me disse:
- O fulano ali do café procura militares de Castelo Branco e de Portalegre. - Lá fui eu e dois companheiros de Castelo Branco, acabámos por jantar com o senhor.

Posteriormente em conversas havidas, recordo de me contar que era sobrinho do Sr. Tapadinhas, proprietário da Tipografia Tapadinhas, em Portalegre.

Contou-me que tinha sido desterrado para a Guiné no inicío dos anos trinta, num grupo de 40 elementos dos quais restavam três à data, estando ele e um outro em Bafatá de quem não me recordo o nome - sei que tinha uma taberna na Tabanca entre a casa dele e o Hospital (pessoa com que, de resto, privei algumas vezes, para ouvir os programas em Português da BBC de Londres).

Sei que o Sr. Teófilo tinha vindo à Metrópole apenas duas vezes, tinha uma estima profunda pelos Guineenses, pois foi esse povo maravilhoso que o tratou de inúmeras doenças, e só assim conseguiu sobreviver.

Deu-me muitos conselhos, contou-me muita coisa confidencial, mas nunca quis falar da razão que deu origem ao seu desterro. Sempre respeitei a sua vontade, não o pressionando.

Manuel Mata

3. Comentário de L.G.:

Esta história é fantástica: o Manuel Mata veio-me refrescar a memória. Lembro-me muito bem do velho Teófilo, que era apontado com um caso excepcional de sobrevivência às duras condições da Guiné: ele sobreviveu a tudo, o paludismo, a bilharziose, a doença do sono e tantas outras doenças tropicais; ao isolamento, ao desterro... Como todos os brancos (em especial, comerciantes) que eu conheci na Guiné, o Teófilo tinha fama de estar feito com o IN (ou, noutros casos, era-se inevitavelmente suspeito de ser informador da PIDE/DGS, como era o caso de um comerciante de Bambadinca, cuja casa frequentei /frequentámos algumas vezes)... Não me recordo de ter visto os agentes da PIDE/DGS de Bafatá no Café Teófilo...No Transmontana, sim...

De qualquer modo, o Manuel Mata (que passou a sua comissão em Bafatá e era visita da casa do Teófilo) sabe mais estórias sobre este grupo de deportados que não nos quer contar, por razões que eu respeito... Tratava-se de homens que não morriam de amores pelo Estado Novo, de serem do reviralho... E daí a suspeita de pactuarem com o IN (leia-se: os turras)... Enfim, é pelo menos uma primeira conclusão que eu posso tirar...

Mas há mais malta da nossa tertúlia que esteve em (ou passou por) Bafatá, para além do Manuel Mata (Esq Rec Fox 2640), do pessoal da CCAÇ 12 (eu, o Humberto, o Tony Levezinho, o Fernandes) e outra malta que esteve no Sector L1 (Bambadinca)... Refiro-me ao A. Marques Lopes (CART 1690), o Jorge Varanda (CCAÇ 2636), o Jorge Tavares (CCS do BCAÇ 2856), o Maurício Nunes Vieira (CCS do BART 3884) , etc.

O Teófilo, cuja memória evoco com respeito (hoje se fosse vivo teria mais de 90 anos, mesmo perto dos 100), fez-me lembrar-me o caso dos lançados... Eram tipos (desde os condenados pela justiça do rei aos aventureiros, aos judeus, aos ‘assimilados’, etc.) que desde o tempo de D. Henrique eram literalmente lançados, sozinhos, com a missão de explorar, por conta e risco, a costa da África Ocidental, os países subsaarianos, até à próxima viagem das caravelas ... Eram, na época dos Descobrimentos, uma espécie de guias e picadores, de espiões, de antropólogos, de embaixadores, de bandeirantes: iam à frente, para conhecer e mostrar uma caminho… Também eram conhecidos por tangomaus. Nem sempre foram bem vistos pela autoridade régia (que pretendia manter o monopólio do comércio com a África Ocidental, enquanto os lançados também faziam negócios com os ingleses, os franceses e e os holandeses) nem muito menos pelos missionários que os acusavam de estarem completamente cafrealizados, vivendo em poligamia, no pecado, à maneira dos cafres...

Estamos a falar ainda do Séc. XV… Os nossos amigos tertulianos estão a imaginar serem lançados no Xime, com uma missão (contactar os povos da margem direita do Corubal) e a promessa de voltarem a casa no ano seguinte ?

Estas são outras histórias do Império que muitos de nós desconhecem... Sobre os Lançados, vd. Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses (ed lit Luís de Albuquerque). Vol II. Lisboa: Círculo de Leitores. 1994.582-584. Ver também o texto do senegalês Mamadou Mané - Algumas observações sobre a presença portuguesa na Senegâmbia até ao séc. XVII, publicado na Revista ICALP, vol. 18, Dezembro de 1989, pp. 117-125, disponível em formato pdf na página do Instituto Camões.

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Nota de L.G.

(1) Vd post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (3)

(2) Segundo o historiador Fernando Rosas, o número de deportados nas ilhas e nas colónias, em finais de 1931, meados de 1932, entre oficiais, sargentos praças e civis, era de 1421 (a maior parte em Angola, Timor, Cabo Verde e Açores).

Na Guiné, o número de deportados reviralhistas (opositores ao regime instalado em Portugal depois do golpe militar de 28 de Maio de 1926) era de 46, dos quais 18 oficiais, 5 sargentos, 5 praças e 18 civis... Será que entre estes civis poderia estar o nosso jovem Teófilo ? Recordo-me do Teófilo me ter sempre falado de um grupo original de 40 portugueses que veio para a Guiné, e de que ele era já (em 1969/71) um dos últimos sobreviventes. Julgo que mais tarde (se não mesmo logo em 1932) ele e os seus companheiros de infortúnio terão beneficiado de uma amnistia.

Fonte: História de Portugal (ed. lit. José Mattoso), Vol. 7: O Estado Novo (1926-1974). Lisboa: Circulo de Leitores 1994. 209.

(3) Eis o que o Humberto Reis me esclareceu sobre o assunto: "Do Teófilo apenas me lembro de que era lá que se formava a coluna de regresso a Bambadinca, por isso aí se bebiam os últimos copos. Também me recordo que a filha, Rita, trabalhava nos correios lá em Bafatá e que a balança se queixava, cada vez que ela se punha lá em cima (era uma miúda nova mas já bastante forte para a idade). De resto já não me recordo de mais nada ".