31 março 2006

Guiné 63/74 - DCLXVI: Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá (Radiotelegrafista Tavares) (2): Piche, BART 2857

Guiné > Zona Leste > Bafatá > Esq Rec Fox 2640 (1969/71) > Finais de 1970 > As primeiras viaturas Chaimite, anfíbias com canhão, que chegaram ao TO da Guiné.

© Manuel Mata (2006)


Cancioneiro do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá (1969/71).

Autor das letras: José Luís Tavares. Recolha: Manuel Mata, ex-1º cabo apontador de Carros de Combate M 47 .


Piche - BART 2857 (1)

Piche tem campo e piscina,
Que já foi a inauguração,
São obras de grande valor,
Feitas pelo Batalhão.

Até parece mentira
Aquilo que eu vou contar,
O Batalhão fez um campo
Para a cavalaria jogar.

A cavalaria é um posto,
Já vem de tempos atrás,
Imaginem um Batalhão
Fazer um campo para nós.

Nós temos duas equipas,
Como toda gente a vê:
Temos a boa Equipa A,
Não desfazendo na B.

Têm equipamento novo,
Que aqulio é um asseio,
E o dirigente da equipa
É o nosso alferes Feio.

São duas equipas rivais
Que mandam o seu respeitinho
E, de árbitro permanente,
O nosso amigo Agostinho.

Tavares - Radiotelegrafista

1 de Julho de 1970

© Manuel Mata (2006)

__________

Nota de L.G.

(1) Vd post anterior, com data de hoje > Guiné 63/74 - DCLXV: Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá (Radiotelegrafista Tavares) (1): Obras em Piche .

O BART 2857 presumo que fosse aquele que, na época, estava sediado em Nova Lamego. Piche pertencia ao Sector de Nova Lamego. Em Bafatá estava o BCAÇ 2856 (1968/70) a cuja CCS pertenceu o nosso camarada Jorge Tavares, ex-fur mil radiomontador.

Guiné 63/74 - DCLXVI: Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá (Radiotelegrafista Tavares) (2): Piche, BART 2857

Guiné > Zona Leste > Bafatá > Esq Rec Fox 2640 (1969/71) > Finais de 1970 > As primeiras viaturas Chaimite, anfíbias com canhão, que chegaram ao TO da Guiné.

© Manuel Mata (2006)


Cancioneiro do Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá (1969/71).

Autor das letras: José Luís Tavares. Recolha: Manuel Mata, ex-1º cabo apontador de Carros de Combate M 47 .


Piche - BART 2857 (1)

Piche tem campo e piscina,
Que já foi a inauguração,
São obras de grande valor,
Feitas pelo Batalhão.

Até parece mentira
Aquilo que eu vou contar,
O Batalhão fez um campo
Para a cavalaria jogar.

A cavalaria é um posto,
Já vem de tempos atrás,
Imaginem um Batalhão
Fazer um campo para nós.

Nós temos duas equipas,
Como toda gente a vê:
Temos a boa Equipa A,
Não desfazendo na B.

Têm equipamento novo,
Que aqulio é um asseio,
E o dirigente da equipa
É o nosso alferes Feio.

São duas equipas rivais
Que mandam o seu respeitinho
E, de árbitro permanente,
O nosso amigo Agostinho.

Tavares - Radiotelegrafista

1 de Julho de 1970

© Manuel Mata (2006)

__________

Nota de L.G.

(1) Vd post anterior, com data de hoje > Guiné 63/74 - DCLXV: Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá (Radiotelegrafista Tavares) (1): Obras em Piche .

O BART 2857 presumo que fosse aquele que, na época, estava sediado em Nova Lamego. Piche pertencia ao Sector de Nova Lamego. Em Bafatá estava o BCAÇ 2856 (1968/70) a cuja CCS pertenceu o nosso camarada Jorge Tavares, ex-fur mil radiomontador.

Guiné 63/74 - DCLXV: Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá (Radiotelegrafista Tavares) (1): Obras em Piche

Guiné > Zona Leste > Bafatá > Esq Rec Fox 2640 (1969/71)> Jardim da Bafatá > Eis o autor das quadras que aqui se publicam, buscando inspiração na espuma dos dias, o José Luís Tavares,
sentado, à direita, sob a estátua de Oliveira Muzanty, um dos pacificadores da Guiné tal como Teixeira Pinto (informação valiosa do nosso Mário Dias que viveu na Guiné entre 1952 e 1966).

© Manuel Mata (2006)


Do Manuel Mata, "para os amigos que gostam de quadras com algum sentido crítico/satírico", aqui fim algumas do seu amigo José Luís Tavares, "homem de transmissões, companheiro do Esquadrão e das lides de organização dos convívios anuais"... Por mim, elas fazem parte do Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá: é uma pequena homenagem aos nossos camaradas da arma de vavalaria que penaram lá para os lados de Bafatá e Nova Lamego... L.G.


Obras em Piche

Aqui em Piche é mato
Mas manga de animação,
Tem cá uma piscina,
Foi hoje a inuguração.

Fizeram várias brincadeiras
Que meteram muita graça,
Jogaram também futebol
E, ao fim, a entrega da taça.

Foi um jogo de grande interesse
Como já é natural,
Mas ao fim, em vez da taça,
Deram uma cerveja Cristal.

Vou dizer-lhes o resultado
Só para nós em comum,
Que perderam os furriéis
Por nove golos a um.

Foi um jogo bem disputado,
Ouvi eu, numa entrevista,
Que mais parecia uma final
Com Sporting e Boavista.

Passou-se isto dia 28,
Mais nada, vou terminar,
E quanto à arbitragem
Acho que foi regular.

Tavares - Radiotelegrafista
28 de Junho de 1970

(Continua)
__________

Nota de L.G.

(1) Vd post anterior, com data de hoje > Guiné 63/74 - DCLXIV: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá (1969/71) (Manuel Mata) (4): as primeiras Chaimites para o Exército Português

Guiné 63/74 - DCLXV: Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá (Radiotelegrafista Tavares) (1): Obras em Piche

Guiné > Zona Leste > Bafatá > Esq Rec Fox 2640 (1969/71)> Jardim da Bafatá > Eis o autor das quadras que aqui se publicam, buscando inspiração na espuma dos dias, o José Luís Tavares,
sentado, à direita, sob a estátua de Oliveira Muzanty, um dos pacificadores da Guiné tal como Teixeira Pinto (informação valiosa do nosso Mário Dias que viveu na Guiné entre 1952 e 1966).

© Manuel Mata (2006)


Do Manuel Mata, "para os amigos que gostam de quadras com algum sentido crítico/satírico", aqui fim algumas do seu amigo José Luís Tavares, "homem de transmissões, companheiro do Esquadrão e das lides de organização dos convívios anuais"... Por mim, elas fazem parte do Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá: é uma pequena homenagem aos nossos camaradas da arma de vavalaria que penaram lá para os lados de Bafatá e Nova Lamego... L.G.


Obras em Piche

Aqui em Piche é mato
Mas manga de animação,
Tem cá uma piscina,
Foi hoje a inuguração.

Fizeram várias brincadeiras
Que meteram muita graça,
Jogaram também futebol
E, ao fim, a entrega da taça.

Foi um jogo de grande interesse
Como já é natural,
Mas ao fim, em vez da taça,
Deram uma cerveja Cristal.

Vou dizer-lhes o resultado
Só para nós em comum,
Que perderam os furriéis
Por nove golos a um.

Foi um jogo bem disputado,
Ouvi eu, numa entrevista,
Que mais parecia uma final
Com Sporting e Boavista.

Passou-se isto dia 28,
Mais nada, vou terminar,
E quanto à arbitragem
Acho que foi regular.

Tavares - Radiotelegrafista
28 de Junho de 1970

(Continua)
__________

Nota de L.G.

(1) Vd post anterior, com data de hoje > Guiné 63/74 - DCLXIV: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá (1969/71) (Manuel Mata) (4): as primeiras Chaimites para o Exército Português

Guiné 63/74 - DCLXIV: Áreas Protegidas e Parques Naturais

Caros Amigos

Informamos que a partir de agora, todos quantos se interessam pelas questões das Áreas Protegidas e Parques Naturais da Guiné-Bissau, podem ter acesso através do site da AD (http://www.adbissau.org/) a informações, mapas e fotografias sobre:

- todas as Áreas Protegidas
- Parque de Tarrafe de Cacheu
- Parque de Cantanhez
- Parque de Cufada
- Parque de Formosa
- Parque de João Vieira e Poilão
- Parque de Orango
- Reserva da Biosfera dos Bijagós
- Zona Costeira

Cumprimentos
Carlos Schwarz
Director Executivo da AD

Guiné 63/74 - DCLXIV: Áreas Protegidas e Parques Naturais

Caros Amigos

Informamos que a partir de agora, todos quantos se interessam pelas questões das Áreas Protegidas e Parques Naturais da Guiné-Bissau, podem ter acesso através do site da AD (http://www.adbissau.org/) a informações, mapas e fotografias sobre:

- todas as Áreas Protegidas
- Parque de Tarrafe de Cacheu
- Parque de Cantanhez
- Parque de Cufada
- Parque de Formosa
- Parque de João Vieira e Poilão
- Parque de Orango
- Reserva da Biosfera dos Bijagós
- Zona Costeira

Cumprimentos
Carlos Schwarz
Director Executivo da AD

Guiné 63/74 - DCLXIII: Diário do CMS (CART 2339)(1): Um homem ficou para trás e não há voluntários para o ir buscar...

Felizmente que há mais vida, para além da blogosfera... É o que eu deduzo da última mensagem do nosso CMS (Carlos Marques Santos), ex-furriel mil, CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69...

A esta hora, o CMS já terá partido, de manhã cedo, para França (região de Biarritz ) em viagem de uma semana em autocaravana. (Que os bons irãs das florestas do Corubal o acompanhem e o tragam de volta, são e salvo!).

Pede-nos desculpa por nos últimos tempos não ter dito nada no blogue, pois tem ocupado o seu tempo noutras andanças, "apesar de todos os dias vêr o que há de novo"...

Promete organizar qualquer coisa depois de vir de França". Mesmo assim mandou-nos umas notas do seu diário, com a seguinte legenda: "dois meses de Guiné e muita experiência".


Notas do Diário do CMS


5 de Abril de 1968

Às 15h, saída de Fá Mandinga para mais uma operação (Op Gavião). Desta vez para a zona do Enxalé, via Xime.

O [Rio] Geba foi atravessado de lancha. Do Enxalé saímos cerca da meia-noite iniciando mais um passo para o desconhecido. Dois meses de mato e já tínhamos tido a nossa dose. Andámos a corta mato até às 3.30h.

O guia turra capturado, como sempre, perdeu-se. Descanso até às 5.00h, seguindo as NT depois em progressão normal.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 >Brasão da CART 2339 (Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69)

© Carlos Marques Santos (2005)



Perto do objectivo vimos, na mata, dois nativos. Fugiram e nós continuámos. A CART 2338, nossa companheira de andanças, está a atacar o objectivo. A Companhia de Mansoa também.

Cerca do meio-dia sofremos um ataque de abelhas. Desespero em muitos de nós. Eu também fui completamente picado. Há camaradas inchados. Disformes. Há 2 camaradas desmaiados. Faz-se uma maca. Soam tiros...
- EMBOSCADA!

Um nativo do Pel Caç Nat 53 é atingido e morto. O ataque IN continua. Regressamos.

Sofremos 5 emboscadas, mas apesar de tudo correu sem grandes azares. O IN tem baixas. Fogem. Seguimos para o Enxalé. Mais 2 ataques de abelhas. CHOROS. Desespero. Há que fugir. Desorientação total. Armas abandonadas.

Compreendo agora - pois noutra ocasião e lá para a frente no tempo de comissão, estive debaixo de fogo - o que estar nestas mesmas circunstâncias. 45 minutos intermináveis. Antes o fogo do IN.

Chegámos ao Enxalé cerca das 18.00h. Soube-se depois que tinha ficado um homem da Cart 2338 desmaiado no local dos acontecimentos.

Quem vai procurá-lo? Ninguém. Não há voluntários.

Triste vida a da GUERRA e da sobrevivência. Mas nem sempre foi assim!

Passamos para o Xime e chegámos a Fá Mandinga às 03.00h da manhã do dia de 7 de Abril de 1968.

Estou exausto. Estamos todos exaustos.

Boas notícias: o nosso homem desmaiado, soube-se, apareceu por ele no Enxalé! Já li uma estória semelhante nesta tertúlia. Ou será o mesmo protagonista?

No dia seguinte, 8 de Abril de 1968, voltamos ao Enxalé procurar as armas perdidas. Na progressão ouvimos rebentamentos. Será Mato Cão?

Recuperámos 2 armas. Regressámos a Fá Mandinga sem incidentes.

10 de Abril de 1968

Há emboscada na estrada Xime-Bambadinca. Não houve incidentes, são as notícias que nos chegam.

14 de Abril de 1968

Dia de Páscoa, aqui, igual aos outros.

© Carlos Marques dos Santos (2006)

Guiné 63/74 - DCLXIII: Diário do CMS (CART 2339)(1): Um homem ficou para trás e não há voluntários para o ir buscar...

Felizmente que há mais vida, para além da blogosfera... É o que eu deduzo da última mensagem do nosso CMS (Carlos Marques Santos), ex-furriel mil, CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69...

A esta hora, o CMS já terá partido, de manhã cedo, para França (região de Biarritz ) em viagem de uma semana em autocaravana. (Que os bons irãs das florestas do Corubal o acompanhem e o tragam de volta, são e salvo!).

Pede-nos desculpa por nos últimos tempos não ter dito nada no blogue, pois tem ocupado o seu tempo noutras andanças, "apesar de todos os dias vêr o que há de novo"...

Promete organizar qualquer coisa depois de vir de França". Mesmo assim mandou-nos umas notas do seu diário, com a seguinte legenda: "dois meses de Guiné e muita experiência".


Notas do Diário do CMS


5 de Abril de 1968

Às 15h, saída de Fá Mandinga para mais uma operação (Op Gavião). Desta vez para a zona do Enxalé, via Xime.

O [Rio] Geba foi atravessado de lancha. Do Enxalé saímos cerca da meia-noite iniciando mais um passo para o desconhecido. Dois meses de mato e já tínhamos tido a nossa dose. Andámos a corta mato até às 3.30h.

O guia turra capturado, como sempre, perdeu-se. Descanso até às 5.00h, seguindo as NT depois em progressão normal.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 >Brasão da CART 2339 (Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69)

© Carlos Marques Santos (2005)



Perto do objectivo vimos, na mata, dois nativos. Fugiram e nós continuámos. A CART 2338, nossa companheira de andanças, está a atacar o objectivo. A Companhia de Mansoa também.

Cerca do meio-dia sofremos um ataque de abelhas. Desespero em muitos de nós. Eu também fui completamente picado. Há camaradas inchados. Disformes. Há 2 camaradas desmaiados. Faz-se uma maca. Soam tiros...
- EMBOSCADA!

Um nativo do Pel Caç Nat 53 é atingido e morto. O ataque IN continua. Regressamos.

Sofremos 5 emboscadas, mas apesar de tudo correu sem grandes azares. O IN tem baixas. Fogem. Seguimos para o Enxalé. Mais 2 ataques de abelhas. CHOROS. Desespero. Há que fugir. Desorientação total. Armas abandonadas.

Compreendo agora - pois noutra ocasião e lá para a frente no tempo de comissão, estive debaixo de fogo - o que estar nestas mesmas circunstâncias. 45 minutos intermináveis. Antes o fogo do IN.

Chegámos ao Enxalé cerca das 18.00h. Soube-se depois que tinha ficado um homem da Cart 2338 desmaiado no local dos acontecimentos.

Quem vai procurá-lo? Ninguém. Não há voluntários.

Triste vida a da GUERRA e da sobrevivência. Mas nem sempre foi assim!

Passamos para o Xime e chegámos a Fá Mandinga às 03.00h da manhã do dia de 7 de Abril de 1968.

Estou exausto. Estamos todos exaustos.

Boas notícias: o nosso homem desmaiado, soube-se, apareceu por ele no Enxalé! Já li uma estória semelhante nesta tertúlia. Ou será o mesmo protagonista?

No dia seguinte, 8 de Abril de 1968, voltamos ao Enxalé procurar as armas perdidas. Na progressão ouvimos rebentamentos. Será Mato Cão?

Recuperámos 2 armas. Regressámos a Fá Mandinga sem incidentes.

10 de Abril de 1968

Há emboscada na estrada Xime-Bambadinca. Não houve incidentes, são as notícias que nos chegam.

14 de Abril de 1968

Dia de Páscoa, aqui, igual aos outros.

© Carlos Marques dos Santos (2006)

30 março 2006

Guiné 63/74 - DCLXII: As minas do nosso descontentamento

1. Meu caríssimo amigo e camarada Paulo:

A nossa amiga Nela seguramente não queria afirmar ou insinuar que as minas de hoje na estrada de São Domingos eram as mesmíssimas minas de ontem, de há trinta anos... Seria técnica e materialmente impossível elas resistirem estes anos todos, já que essa via nunca esteve interdita, depois da independência... Além disso, tu passaste por lá, impunemente, há coisa de um mês e tal...

Percebo a tua estupefacção, tu que és (com a tua São) um andarilho e, mais do que isso, um connaisseur e um apaixonado da Guiné... No nosso blogue, temos, de facto, procurado respeitar a verdade (e só verdade) dos factos, mesmo quando eles não são abonatórios para nós... (Nós, tugas; nós, povo; nós, Estado; nós, Nação)... De qualquer modo, devo deixar claro que rejeito, liminarmente, qualquer ideia de responsabiliddae colectiva: é uma monstruosidae jurídica!... Não me venham e muito menos a mim - pedir contas pelos alegados erros e crimes do colonialismo português, que o meu livro de reclamações, uma vez aberto, vai direitinho ao Céu e ao Criador!

Antes de publicar o teu comentário, tinha pedido à Nela que esclarecesse melhor o seu ponto de vista... Coisa que ela fez, de bom grado e de imediato. A questão é simples: tu sabes, meu caro Paulo, como as palavras às vezes nos atraiçoam!...

Eu próprio levei há dias no toutiço por uma frase que revelava, no mínimo, alguma ligeireza, ao insinuar que o grande Amílcar Cabral não teria sido um verdadeiro guerrilheiro, como o Nino, só por não andar de Kaslash na mão, nem as ouvir assobiar, às balas da nossa G-3, por cima dos ouvidos...

Na realidade o que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar... Enfim, um exemplo do tipo de risco que corremos quando não conseguimos, muitas vezes, ser "claros, concisos e precisos"...

Quanto à Nela, se bem percebeste, estes episódios recentes na zona fronteiriça do noroeste da Guiné fizeram-lhe lembrar outros trágicos acontecimentos, do tempo da guerra colonial, como o da mina que vitimou o seu futuro e actual marido...

Last but not the least, é bom (e reconfortante) sentir a presença e a confiança dos amigos que estão próximos do terreno, como é o teu caso e o da São... Fico feliz por saber notícias vossas. E estou agradecido pelo teu oportuno (e veemente) comentário... Quanto ao esclarecimento que eu pedi à Nela, a nossa nova tertuliana, ele aqui fica, para melhor enquadramento desta questão das minas do nosso descontentamento e da nossa indignação... LG


2. Mensagem da Nela:

Luís: Obrigado pelas fotos e pelo comentário que me enviou, escrito pelo Paulo.

Confesso que, ao ver aquelas fotos, tive saudades do tempo que passámos em Bissau, depois da Independência e como cooperantes ao serviço da Educação.

Quanto ao que o Paulo diz, concordo com ele : é um facto que aquelas minas de agora não podem ser as de há 30 anos atrás. Eu própria recordo o dia em que fomos a Ingoré, e ao irmos pla estrada em direcção à localidade, depois de termos atravessado o rio numa canoa, o comentário do meu marido: "e pensar, que há anos, não podíamos aqui passar sem ir a picar a estrada"...

Talvez este comentário tenha sido o causador da frase que indignou o Paulo. Mas, o que eu quis dizer foi simplesmente... que, como então, com outros protagonistas, é certo, a história repete-se - minas numa estrada que é de vital importância para as populações guineenses.

As minas não são as mesmas, claro, mas os meios de que se servem os senhores da guerra são os mesmos...

É o recurso às minas que me revolta e para o qual não consigo encontrar explicação plausível.
Quero, contudo, recordar, que eu vivi a guerra do lado de cá e estive em Bissau depois da Independência, onde tive oportunidade de contactar e conviver quer com soldados que pertenceram ao Pelotão 60 [Pel Caç Nat 60 ?] , que o meu marido comandava, quer com oficiais do PAIGC de quem nos tornámos amigos. Algumas dessas histórias ficam para outros posts.

Gostaria ainda de reafirmar que, ao escrever - e faço-o directamente no meu blogue - apenas me move o sentido de partilhar sentimentos, histórias e factos. Algumas imprecisões de escrita podem levar a outros entendimentos, mas, em momento algum, pretendo falsear a História ou os factos ocorridos.

Sei, contudo, que também a História de um Povo pode ser narrada em diferentes perspectivas. Da minha parte, apenas pretendo falar de factos que marcaram a nossa vida, aliados a sentimentos que perduram - nomedamente a recusa à guerra e um desejo veemente de que África, um continente fascinante, encontre o desenvolvimento a que tem direito!

Saudações amigas

Nela (Manuela Gonçalves)

Guiné 63/74 - DCLXII: As minas do nosso descontentamento

1. Meu caríssimo amigo e camarada Paulo:

A nossa amiga Nela seguramente não queria afirmar ou insinuar que as minas de hoje na estrada de São Domingos eram as mesmíssimas minas de ontem, de há trinta anos... Seria técnica e materialmente impossível elas resistirem estes anos todos, já que essa via nunca esteve interdita, depois da independência... Além disso, tu passaste por lá, impunemente, há coisa de um mês e tal...

Percebo a tua estupefacção, tu que és (com a tua São) um andarilho e, mais do que isso, um connaisseur e um apaixonado da Guiné... No nosso blogue, temos, de facto, procurado respeitar a verdade (e só verdade) dos factos, mesmo quando eles não são abonatórios para nós... (Nós, tugas; nós, povo; nós, Estado; nós, Nação)... De qualquer modo, devo deixar claro que rejeito, liminarmente, qualquer ideia de responsabiliddae colectiva: é uma monstruosidae jurídica!... Não me venham e muito menos a mim - pedir contas pelos alegados erros e crimes do colonialismo português, que o meu livro de reclamações, uma vez aberto, vai direitinho ao Céu e ao Criador!

Antes de publicar o teu comentário, tinha pedido à Nela que esclarecesse melhor o seu ponto de vista... Coisa que ela fez, de bom grado e de imediato. A questão é simples: tu sabes, meu caro Paulo, como as palavras às vezes nos atraiçoam!...

Eu próprio levei há dias no toutiço por uma frase que revelava, no mínimo, alguma ligeireza, ao insinuar que o grande Amílcar Cabral não teria sido um verdadeiro guerrilheiro, como o Nino, só por não andar de Kaslash na mão, nem as ouvir assobiar, às balas da nossa G-3, por cima dos ouvidos...

Na realidade o que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar... Enfim, um exemplo do tipo de risco que corremos quando não conseguimos, muitas vezes, ser "claros, concisos e precisos"...

Quanto à Nela, se bem percebeste, estes episódios recentes na zona fronteiriça do noroeste da Guiné fizeram-lhe lembrar outros trágicos acontecimentos, do tempo da guerra colonial, como o da mina que vitimou o seu futuro e actual marido...

Last but not the least, é bom (e reconfortante) sentir a presença e a confiança dos amigos que estão próximos do terreno, como é o teu caso e o da São... Fico feliz por saber notícias vossas. E estou agradecido pelo teu oportuno (e veemente) comentário... Quanto ao esclarecimento que eu pedi à Nela, a nossa nova tertuliana, ele aqui fica, para melhor enquadramento desta questão das minas do nosso descontentamento e da nossa indignação... LG


2. Mensagem da Nela:

Luís: Obrigado pelas fotos e pelo comentário que me enviou, escrito pelo Paulo.

Confesso que, ao ver aquelas fotos, tive saudades do tempo que passámos em Bissau, depois da Independência e como cooperantes ao serviço da Educação.

Quanto ao que o Paulo diz, concordo com ele : é um facto que aquelas minas de agora não podem ser as de há 30 anos atrás. Eu própria recordo o dia em que fomos a Ingoré, e ao irmos pla estrada em direcção à localidade, depois de termos atravessado o rio numa canoa, o comentário do meu marido: "e pensar, que há anos, não podíamos aqui passar sem ir a picar a estrada"...

Talvez este comentário tenha sido o causador da frase que indignou o Paulo. Mas, o que eu quis dizer foi simplesmente... que, como então, com outros protagonistas, é certo, a história repete-se - minas numa estrada que é de vital importância para as populações guineenses.

As minas não são as mesmas, claro, mas os meios de que se servem os senhores da guerra são os mesmos...

É o recurso às minas que me revolta e para o qual não consigo encontrar explicação plausível.
Quero, contudo, recordar, que eu vivi a guerra do lado de cá e estive em Bissau depois da Independência, onde tive oportunidade de contactar e conviver quer com soldados que pertenceram ao Pelotão 60 [Pel Caç Nat 60 ?] , que o meu marido comandava, quer com oficiais do PAIGC de quem nos tornámos amigos. Algumas dessas histórias ficam para outros posts.

Gostaria ainda de reafirmar que, ao escrever - e faço-o directamente no meu blogue - apenas me move o sentido de partilhar sentimentos, histórias e factos. Algumas imprecisões de escrita podem levar a outros entendimentos, mas, em momento algum, pretendo falsear a História ou os factos ocorridos.

Sei, contudo, que também a História de um Povo pode ser narrada em diferentes perspectivas. Da minha parte, apenas pretendo falar de factos que marcaram a nossa vida, aliados a sentimentos que perduram - nomedamente a recusa à guerra e um desejo veemente de que África, um continente fascinante, encontre o desenvolvimento a que tem direito!

Saudações amigas

Nela (Manuela Gonçalves)

Guiné 63/74 - DCLXI: Estrada de São Domingos: as minas de ontem e as de hoje (Paulo Salgado)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Estrada S. Domigos-Varela > Edjim (ou Igim, de acordo com o mapa geral da Guiné, de 1961)> 10 de Fevereiro de 2006 > O Paulo Salgado, com o colega do Hospital Nacional Simão Mendes, à beira do Rio de Edjim, conversando com um antigo soldado guineense, apanhador de ostras.


© Paulo Salgado (2006)


Texto do Paulo Salgado:

Caros Bloguistas, camaradas e amigos,

Estou absolutamente estupefacto. Direi mesmo siderado. Com a notícia/comentário, inserida pelo Luís Graça, da Manuela Gonçalves: "Uma mina na estrada de São Domingos para Varela". Que me desculpe a Manuela e o Luís.


Guiné-Bissau > Regiãodo Cacheu > Estrada S. Domigos-Varela > 10 de Fevereiro de 2006 > Guiné-Bissau > Estrada S. Domingos-Varela> Um passeio, sexta-feira ao fim da tarde, 10 de Feverereiro de 2006.

© Paulo Salgado (2006)


As estórias não podem ser confundidas com a História; os factos de hoje têm que ser contados com verdade sob pena de estarmos a trair a nossa consciência cívica. Trata-se - julgo que a propósito do que está a acontecer na fronteira da Guiné/Bissau com o Senegal - de uma pura invenção esta de afirmar (e duvidar) «se muitas delas (das minas) não foram colocadas na guerra colonial».


Guiné-Bissau > Região do Cacheu Estrada S. Domigos-Varela > 10 de Fevereiro de 2006 > Uma paragem para o lanche...

© Paulo Salgado (2006)




Só quem não quer estar de boa fé - ou quem não domina as situações conhecendo a realidade local, ou quem quer gracejar com o presente e com o passado -, é que pode pensar que as minas de hoje são de antanho.

Da minha parte, conheço a Guiné quase toda - falta-me apenas a zona de Madina do Boé e de Cheche -, desde 1990 (depois de ter passado aqui em 1970 / 1972), por picadas antes minadas, por carreiros antigos também antes minados, por tabancas remotas - acompanhado pela minha mulher - em passeios de carro, a pé, de candonga, de cambança, e nunca me falaram de minas que restassem.

Apenas registo - porque é justo - que em 1991, quando faziam a estrada de alcatrão de Bambadinca para o Sul, me informaram terem sido descobertas e rebentadas minas na antiga estrada, certamente conhecida dos nossos companheiros que por ali passaram.

Não posso nem devo afirmar peremptoriamente que todas as minas da guerra colonial foram rebentadas ou desativadas. Diferente é confundir estória com História. O que se passa na fronteira é profundamente sério para se mandarem palpites desta natureza. O que se passa na fronteira é algo que transcende um problema de limites: os interesses geo-estratégicos regionais e mesmo mundiais.

Já uma vez, ou duas, afirmei neste magnífico local de comunicação que um dado facto ocorrido numa emboscada, num patrulhamento, num golpe de mão, mesmo num desafio de futebol pela tarde de domingo, no Olossato, em Bambadinca, no Xitole, em Buruntuma, pode ser recontado de maneiras diferentes, convencidos os autores de que estão a falar a verdade - mas é tão-somente a sua verdade.

Já agora: há pouco mais de um mês, a equipa que está aqui desde Setembro [como cooperantes, no Hospital Nacional Simão Mendes], foi a Varela pela picada difícil (a mesma em que há dias foi colocada uma mina), merendou no caminho, tirou umas fotos, visitou tabancas e locais aprazíveis, e dormiu no aparthotel da Fátima - que, a esta hora, deve estar preocupada, com o marido e funcionários!

Mantanhas pa tudus.

Paulo Salgado

PS: Concordo: antes como agora, as minas não devem não podem ser colocadas!

Guiné 63/74 - DCLXI: Estrada de São Domingos: as minas de ontem e as de hoje (Paulo Salgado)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Estrada S. Domigos-Varela > Edjim (ou Igim, de acordo com o mapa geral da Guiné, de 1961)> 10 de Fevereiro de 2006 > O Paulo Salgado, com o colega do Hospital Nacional Simão Mendes, à beira do Rio de Edjim, conversando com um antigo soldado guineense, apanhador de ostras.


© Paulo Salgado (2006)


Texto do Paulo Salgado:

Caros Bloguistas, camaradas e amigos,

Estou absolutamente estupefacto. Direi mesmo siderado. Com a notícia/comentário, inserida pelo Luís Graça, da Manuela Gonçalves: "Uma mina na estrada de São Domingos para Varela". Que me desculpe a Manuela e o Luís.


Guiné-Bissau > Regiãodo Cacheu > Estrada S. Domigos-Varela > 10 de Fevereiro de 2006 > Guiné-Bissau > Estrada S. Domingos-Varela> Um passeio, sexta-feira ao fim da tarde, 10 de Feverereiro de 2006.

© Paulo Salgado (2006)


As estórias não podem ser confundidas com a História; os factos de hoje têm que ser contados com verdade sob pena de estarmos a trair a nossa consciência cívica. Trata-se - julgo que a propósito do que está a acontecer na fronteira da Guiné/Bissau com o Senegal - de uma pura invenção esta de afirmar (e duvidar) «se muitas delas (das minas) não foram colocadas na guerra colonial».


Guiné-Bissau > Região do Cacheu Estrada S. Domigos-Varela > 10 de Fevereiro de 2006 > Uma paragem para o lanche...

© Paulo Salgado (2006)




Só quem não quer estar de boa fé - ou quem não domina as situações conhecendo a realidade local, ou quem quer gracejar com o presente e com o passado -, é que pode pensar que as minas de hoje são de antanho.

Da minha parte, conheço a Guiné quase toda - falta-me apenas a zona de Madina do Boé e de Cheche -, desde 1990 (depois de ter passado aqui em 1970 / 1972), por picadas antes minadas, por carreiros antigos também antes minados, por tabancas remotas - acompanhado pela minha mulher - em passeios de carro, a pé, de candonga, de cambança, e nunca me falaram de minas que restassem.

Apenas registo - porque é justo - que em 1991, quando faziam a estrada de alcatrão de Bambadinca para o Sul, me informaram terem sido descobertas e rebentadas minas na antiga estrada, certamente conhecida dos nossos companheiros que por ali passaram.

Não posso nem devo afirmar peremptoriamente que todas as minas da guerra colonial foram rebentadas ou desativadas. Diferente é confundir estória com História. O que se passa na fronteira é profundamente sério para se mandarem palpites desta natureza. O que se passa na fronteira é algo que transcende um problema de limites: os interesses geo-estratégicos regionais e mesmo mundiais.

Já uma vez, ou duas, afirmei neste magnífico local de comunicação que um dado facto ocorrido numa emboscada, num patrulhamento, num golpe de mão, mesmo num desafio de futebol pela tarde de domingo, no Olossato, em Bambadinca, no Xitole, em Buruntuma, pode ser recontado de maneiras diferentes, convencidos os autores de que estão a falar a verdade - mas é tão-somente a sua verdade.

Já agora: há pouco mais de um mês, a equipa que está aqui desde Setembro [como cooperantes, no Hospital Nacional Simão Mendes], foi a Varela pela picada difícil (a mesma em que há dias foi colocada uma mina), merendou no caminho, tirou umas fotos, visitou tabancas e locais aprazíveis, e dormiu no aparthotel da Fátima - que, a esta hora, deve estar preocupada, com o marido e funcionários!

Mantanhas pa tudus.

Paulo Salgado

PS: Concordo: antes como agora, as minas não devem não podem ser colocadas!

Guiné 63/74 - DCLX: À sexta-feira, dia 13, o melhor era ficar na cama (Carlos Vinhal)

Post nº 660 (DCLX). Texto do Carlos Vinhal (ex-Fur Mil, de Minas e Armadilhas, da CART 2732, Mansabá, 1970/72):

Mansabá, 13 de Agosto de 1971 – Sexta-feira

Tarde quente de Agosto que se adivinhava enfadonha. Como não tinha nada que fazer, estava deitado na cama, deixando correr o tempo e ouvia pela milionésima vez uma das duas cassetes que tinha.

O meu Pelotão estava de Serviço ao Aquartelamento e eu, como estava de Sargento de Ronda, entraria ao serviço só lá pela meia-noite. De repente lembrei-me que era Sexta-feira e ao mesmo tempo dia 13.

Como não sou supersticioso, saltei da cama e logo pensei que era o dia indicado para se fazer aquelas tarefas que se não devem fazer nestes dias ditos azarentos. Vesti-me e fui à caserna dos condutores procurar um voluntário para ir comigo ao exterior do arame farpado rebentar granadas velhas. Não foi difícil encontrar alguém, porque toda a gente gostava assistir ao espectáculo dos rebentamentos.

Enquanto ele foi aprontar um Unimog, fui levantar um Rádio e avisar o meu alferes que estava de Oficial de Dia, dos meus intentos, para que ele por sua vez avisasse todos os Postos à volta do Aquartelamento e mais quem achasse por direito ser prevenido.

Carregado o Unimog, dirigimo-nos para o exterior do arame farpado, estrada de Mansabá para o K3, para junto de uma árvore morta onde eu costumava, num buraco existente junto dela, destruir o material que ia armazenando.

Depois de dispostas, com cuidado, as granadas velhas no buraco, juntei-lhes uns pedaços de TNT providos de detonadores eléctricos para provocar o rebentamento controlado com comando remoto.

Após o rebentamento e enquanto o fumo se dissipava, aproximei-me para verificar se tinha corrido tudo bem. Mal me abeirei do local, fui recebido por um enxame de abelhas selvagens, em polvorosa, que me perseguiram, enquanto eu fugia a sete pés.

Como não fui suficientemente lesto fui picado na cabeça e nas mãos. Enquanto corria, pelo Rádio começaram a chamar por mim. Quando pude, parei e atendi: era um soldado das Transmissões a comunicar-me que o Comandante, pessoa com quem eu não simpatizava e vice-versa, ordenava que me apresentasse imediatamente no seu gabinete.

Desmontei o serviço, carregámos as tralhas na viatura e lá fomos a caminho do Aquartelamento, não prevendo já nada de bom.

Quando entrei na porta da Secretaria, o gabinete do Comandante só tinha acesso por lá, fui alvo de riso por parte dos presentes. O meu aspecto era algo caricato pelos inchaços na testa provocados pelas picadas das abelhas. Ao mesmo tempo vi caras de preocupação pelo que me esperava lá dentro.

Bati à porta e à voz de ENTRE, entrei, fiz a continência da praxe e em sentido esperei pela pancada. Indiferente ao meu aspecto, perguntou-me o Comandante, muito furioso:

- Nosso Furriel, quem o autorizou a fazer rebentamentos? - Respondi que ninguém e que julgava ter competência suficiente para saber qual era a melhor ocasião para destruir material perigoso, depositado na Arrecadação do Material de Guerra, à minha responsabilidade, desde que antecipadamente desse conhecimento.

- Mas eu não soube de nada!!!

Disse-lhe que previamente tinha avisado o nosso Alferes B. que estava de Oficial de Dia, para que ele por sua vez alertasse os postos de vigilância e providenciasse pela minha segurança e do condutor que me acompanhava.

- Vá chamar imediatamente o nosso alferes.

Fui ao Bar dos oficiais procurar o Oficial de Dia para ele me acompanhar ao gabinete do nosso Capitão. Com os dois já na presença dele, foi a vez de ser o alferes o interpelado:

- Nosso alferes, o nosso furriel Vinhal deu-lhe conhecimento de que ia fazer rebentamentos?

- Sim, meu comandante, deu.

- E você avisou-me?

- Não meu comandante, avisei toda a gente mas não me lembrei do senhor, peço desculpa pelo esquecimento.

- Nosso furriel, pode retirar-se. Por esta vez escapou de uma porrada, mas tenha cuidado comigo.

O que se passou no Gabinete do Comandante depois de eu sair não sei, mas adivinho que o alferes tenha ouvido das boas.

Na Secretaria fiquei a saber pelo nosso Primeiro que, quando se deu o rebentamento, o Capitão, julgando tratar-se de um ataque ao aquartelamento, deitou a fugir pelo gabinete fora, mas quando viu que toda a gente continuava sentada a trabalhar, impávida e serena e, ainda por cima com ar de riso, ficou furioso. Sabendo posteriormente que fui eu o autor do rebentamento, gostando de mim como gostava, julgou chegada a hora de me dar a porrada há muito prometida.

Restabelecida a ordem, dediquei-me a tratar as picadas das abelhas e a reflectir sobre a tarde que tinha passado. Não foi enfadonha, mas convenhamos que às Sextas-feiras dias 13, o melhor é ficar na cama, sossegadinho, a ouvir pela milionésima vez a música de uma de duas cassetes que se tenha e da qual se sabe de cor e salteado a sequência das canções.

Felizmente, para mim, mais tarde este comandante deu baixa por doença (?) ao Hospital Militar 241, sendo posteriormente evacuado definitivamente para Lisboa.

Carlos Vinhal

Ex-Fur Mil Minas e Armadillhas

CART 2732 (1970/72) (1)

_____________

Nota de L.G.

(1) Vd post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLI: A madeirense CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

Guiné 63/74 - DCLX: À sexta-feira, dia 13, o melhor era ficar na cama (Carlos Vinhal)

Post nº 660 (DCLX). Texto do Carlos Vinhal (ex-Fur Mil, de Minas e Armadilhas, da CART 2732, Mansabá, 1970/72):

Mansabá, 13 de Agosto de 1971 – Sexta-feira

Tarde quente de Agosto que se adivinhava enfadonha. Como não tinha nada que fazer, estava deitado na cama, deixando correr o tempo e ouvia pela milionésima vez uma das duas cassetes que tinha.

O meu Pelotão estava de Serviço ao Aquartelamento e eu, como estava de Sargento de Ronda, entraria ao serviço só lá pela meia-noite. De repente lembrei-me que era Sexta-feira e ao mesmo tempo dia 13.

Como não sou supersticioso, saltei da cama e logo pensei que era o dia indicado para se fazer aquelas tarefas que se não devem fazer nestes dias ditos azarentos. Vesti-me e fui à caserna dos condutores procurar um voluntário para ir comigo ao exterior do arame farpado rebentar granadas velhas. Não foi difícil encontrar alguém, porque toda a gente gostava assistir ao espectáculo dos rebentamentos.

Enquanto ele foi aprontar um Unimog, fui levantar um Rádio e avisar o meu alferes que estava de Oficial de Dia, dos meus intentos, para que ele por sua vez avisasse todos os Postos à volta do Aquartelamento e mais quem achasse por direito ser prevenido.

Carregado o Unimog, dirigimo-nos para o exterior do arame farpado, estrada de Mansabá para o K3, para junto de uma árvore morta onde eu costumava, num buraco existente junto dela, destruir o material que ia armazenando.

Depois de dispostas, com cuidado, as granadas velhas no buraco, juntei-lhes uns pedaços de TNT providos de detonadores eléctricos para provocar o rebentamento controlado com comando remoto.

Após o rebentamento e enquanto o fumo se dissipava, aproximei-me para verificar se tinha corrido tudo bem. Mal me abeirei do local, fui recebido por um enxame de abelhas selvagens, em polvorosa, que me perseguiram, enquanto eu fugia a sete pés.

Como não fui suficientemente lesto fui picado na cabeça e nas mãos. Enquanto corria, pelo Rádio começaram a chamar por mim. Quando pude, parei e atendi: era um soldado das Transmissões a comunicar-me que o Comandante, pessoa com quem eu não simpatizava e vice-versa, ordenava que me apresentasse imediatamente no seu gabinete.

Desmontei o serviço, carregámos as tralhas na viatura e lá fomos a caminho do Aquartelamento, não prevendo já nada de bom.

Quando entrei na porta da Secretaria, o gabinete do Comandante só tinha acesso por lá, fui alvo de riso por parte dos presentes. O meu aspecto era algo caricato pelos inchaços na testa provocados pelas picadas das abelhas. Ao mesmo tempo vi caras de preocupação pelo que me esperava lá dentro.

Bati à porta e à voz de ENTRE, entrei, fiz a continência da praxe e em sentido esperei pela pancada. Indiferente ao meu aspecto, perguntou-me o Comandante, muito furioso:

- Nosso Furriel, quem o autorizou a fazer rebentamentos? - Respondi que ninguém e que julgava ter competência suficiente para saber qual era a melhor ocasião para destruir material perigoso, depositado na Arrecadação do Material de Guerra, à minha responsabilidade, desde que antecipadamente desse conhecimento.

- Mas eu não soube de nada!!!

Disse-lhe que previamente tinha avisado o nosso Alferes B. que estava de Oficial de Dia, para que ele por sua vez alertasse os postos de vigilância e providenciasse pela minha segurança e do condutor que me acompanhava.

- Vá chamar imediatamente o nosso alferes.

Fui ao Bar dos oficiais procurar o Oficial de Dia para ele me acompanhar ao gabinete do nosso Capitão. Com os dois já na presença dele, foi a vez de ser o alferes o interpelado:

- Nosso alferes, o nosso furriel Vinhal deu-lhe conhecimento de que ia fazer rebentamentos?

- Sim, meu comandante, deu.

- E você avisou-me?

- Não meu comandante, avisei toda a gente mas não me lembrei do senhor, peço desculpa pelo esquecimento.

- Nosso furriel, pode retirar-se. Por esta vez escapou de uma porrada, mas tenha cuidado comigo.

O que se passou no Gabinete do Comandante depois de eu sair não sei, mas adivinho que o alferes tenha ouvido das boas.

Na Secretaria fiquei a saber pelo nosso Primeiro que, quando se deu o rebentamento, o Capitão, julgando tratar-se de um ataque ao aquartelamento, deitou a fugir pelo gabinete fora, mas quando viu que toda a gente continuava sentada a trabalhar, impávida e serena e, ainda por cima com ar de riso, ficou furioso. Sabendo posteriormente que fui eu o autor do rebentamento, gostando de mim como gostava, julgou chegada a hora de me dar a porrada há muito prometida.

Restabelecida a ordem, dediquei-me a tratar as picadas das abelhas e a reflectir sobre a tarde que tinha passado. Não foi enfadonha, mas convenhamos que às Sextas-feiras dias 13, o melhor é ficar na cama, sossegadinho, a ouvir pela milionésima vez a música de uma de duas cassetes que se tenha e da qual se sabe de cor e salteado a sequência das canções.

Felizmente, para mim, mais tarde este comandante deu baixa por doença (?) ao Hospital Militar 241, sendo posteriormente evacuado definitivamente para Lisboa.

Carlos Vinhal

Ex-Fur Mil Minas e Armadillhas

CART 2732 (1970/72) (1)

_____________

Nota de L.G.

(1) Vd post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLI: A madeirense CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

Guiné 63/74 - DCLIX: Bateria de Artilharia Antiaérea 3001 (Nova Lamego, 1971/72)

Mensagem de Manuel Santos:

Olá, camaradas:

Após de ter consultado o vosso site, veio-me á lembrança os bons e maus momentos que eu passei na Guiné, mais propriamente em Nova Lamego [, Zona Leste, região de Gabu], nos anos de 71/72, estando integrado no Pelotão de Antiaérea 3001.

Vocês estão a fazer um belísssimo trabalho que é de se lhe tirar o chapéu, e eu dentro das minha possibilidades vou tentar aumentar o vosso espólio, espero. Temos um pequeno grupo do pelotão, faltando ainda uns elementos que não nos foi possível de contactar, mas espero vir ainda a descobri-los.

Não sei explicar o que sinto quando nos juntamos, a verdade é que conto os dias que faltam para nos reunirmo-nos e vai já ser no próximo mês de Maio no dia 20.

Espero notícias vossas e estou disponível para poder contribuir, dentro das minhas possibilidades e capacidades

Vosso camarada, ex-combatente
Manuel Santos

2. Comentário de L.G.:

Camarada: Não fazia a mínima ideia de que houvesse antiaéreas nossas na Região de Gabu, nessa época (1971/72). É claro que tu e os teus camaradas de pelotão serão bem-vindos à nossa tertúlia. Consta-nos mais da tua estória e manda-nos algumas fotos digitalizadas.

Quando dizes Pelotão de Antiaérea 3001 estás-te a referir à Bateria de Artilharia Anti-Aérea (BAA) 3001, que tinha um pelotão (o teu) em Lamego, é isso ?

Um abraço,
Luís Graça

Guiné 63/74 - DCLIX: Bateria de Artilharia Antiaérea 3001 (Nova Lamego, 1971/72)

Mensagem de Manuel Santos:

Olá, camaradas:

Após de ter consultado o vosso site, veio-me á lembrança os bons e maus momentos que eu passei na Guiné, mais propriamente em Nova Lamego [, Zona Leste, região de Gabu], nos anos de 71/72, estando integrado no Pelotão de Antiaérea 3001.

Vocês estão a fazer um belísssimo trabalho que é de se lhe tirar o chapéu, e eu dentro das minha possibilidades vou tentar aumentar o vosso espólio, espero. Temos um pequeno grupo do pelotão, faltando ainda uns elementos que não nos foi possível de contactar, mas espero vir ainda a descobri-los.

Não sei explicar o que sinto quando nos juntamos, a verdade é que conto os dias que faltam para nos reunirmo-nos e vai já ser no próximo mês de Maio no dia 20.

Espero notícias vossas e estou disponível para poder contribuir, dentro das minhas possibilidades e capacidades

Vosso camarada, ex-combatente
Manuel Santos

2. Comentário de L.G.:

Camarada: Não fazia a mínima ideia de que houvesse antiaéreas nossas na Região de Gabu, nessa época (1971/72). É claro que tu e os teus camaradas de pelotão serão bem-vindos à nossa tertúlia. Consta-nos mais da tua estória e manda-nos algumas fotos digitalizadas.

Quando dizes Pelotão de Antiaérea 3001 estás-te a referir à Bateria de Artilharia Anti-Aérea (BAA) 3001, que tinha um pelotão (o teu) em Lamego, é isso ?

Um abraço,
Luís Graça

29 março 2006

Guiné 63/74 - DCLVIII: Comerciantes de Bafatá: turras ou pides ? (Manuel Mata)

1. Texto do Manuel Mata:

Caro Luís Graça

Volto à questão do Teófilo ser ou não um presumível informador da PIDE/DGS... Não creio! (Com o devido respeito, e que me perdoe a família por estar a referir o seu nome e passagens do meu convívio com o seu familiar, mas são memórias de uma época que gosto de partilhar embora com alguma imprecisão, já que vão decorridos 36 anos, e os neurónios por vezes já não respondem a 100%).

O Esq Rec Fox 2640 (1) tinha um sistema rotativo do serviço de vagomestre, à messe de Oficiais e de Sargentos. No mês que coube ao 1º Sarg Mecânico (já falecido), as refeições ao longo das primeiras semanas foram quase sempre à base de peixe do rio, pescado na zona de Sonaco, a nordeste de Contuboel.



Guiné > Sonaco > Rio Geba > A pesca à granada... Na foto o Manuel Mata (à esquerda) © Manuel Mata (2006)


Eu levava granadas defensivas ou ofensivas que eram posteriormente justificadas em combate, questão que o 1º Sargento resolvia para que eu não tivesse problemas com o Comandante do Esquadrão. Lá seguíamos nós (ele, a esposa, o filho de 3 a 4 anos de idade e eu por vezes),numa Peugeot de caixa aberta e, chegados a Sonaco, dois Guineenses com canoas conduziam-nos pelo Rio...Granada aqui, granada acolá, lá vinha o peixe à tona da água, mergulhava um dos guias para apanhar o peixe...

Um certo dia, o pessoal do Esquadrão já estava saturado... O Comandante, Capitão Fernando Vouga, mandou que se atirasse tudo ao lixo e exigiu cabrito para o almoço. E assim foi! Nesse mesmo dia, passei pelo café do Teófilo, fez-me logo o comentário:
- Então, o mecânico não se contenta só com o que rouba ao civis na reparação das viaturas!? Vai pagar tudo!

O Esquadrão teve em determinada altura algumas armas de caça automáticas, de cinco tiros, que o pessoal podia requisitar para os seus tempos de lazer. O 1º Sargento mecânico era um dos elementos que as utilizava para a caça nocturna.

Uma noite, em que por casualidade o não acompanhei, foi coadjuvado pelo 1º Cabo Cozinheiro, cerca das 24 h, ao tentar regressar à viatura com o carregamento de lebres, o guia diz estar desorientado e não saber onde se encontrava a carrinha. O sargento deu-lhe algum tempo para se orientar na mata. Este continuou a dizer que não conseguia ir ter à carrinha. O sargento apontou-lhe a espingarda à cabeça e disse:
- Ou encontras já o transporte ou disparo! - O rapaz lá seguiu e, mal dada uma meia dúzia de passos, eis a carrinha à sua frente.

Guiné > Bafatá > 1970 > O milagre dos peixes...

© Manuel Mata (2006)

Posteriormente, passo pelo Café do Sr. Teófilo (parece que o estou a ver de bengala na mão, sentado na sua cadeira de braços, do lado esquerdo da porta do café)... Quando pus o pé no patamar, disse-me logo em voz baixa:
- Então o teu amigo mecânico ontem à noite ia ficando na caça?
Observei no mesmo tom:
- Como sabe? - Respondeu:
- Já te disse que sei tudo - e acrescentou:
- Não perde pela demora! - Semanas mais tarde, estando o 1º Sargento em casa, entre as 21 e as 23 horas, de um determinado dia, bateram-lhe à porta dizendo:
- Foge com a mulher e o menino, eles vêm para te matar!.

Não foi, por o Teófilo ser um presumível informador da PIDE/DGS, como se dizia, mas por haver fortes duvidas, quanto à sua ligação ao PAIGC, e ao mesmo tempo viver num bairro onde viviam elementos do IN, que chegou a estar tudo de prevenção em Bafatá, com o material bélico apontado para a zona, incluíndo o Pelotão de morteiros sediado no Batalhão, para queimarem a área... Felizmente imperou o bom senso.

Não creio que o Teófilo fosse um informador [da PIDE/DGS] mas socorria-se desse subterfúgio para camuflar outras facetas.

Falando em PIDE/DGS, recordo um elemento que estava em Bafatá, muito activo, de quem não me recordo o nome, mas penso ser da área de Castelo Branco: conseguiu descobrir (sempre andando na sua bicicleta) onde o pessoal do IN se reunia numa tabanca próximo da Ponte Salazar, no Rio Geba. Várias vezes o vi fazer o percurso da pista de aviação com destino a essa tabanca. Certo dia comentei com o Teófilo esta situação. Resposta curta e directa:
- Esse não sai de cá com vida! - Algum tempo depois, na referida tabanca, o pessoal reunido, lá aparece o elemento da PIDE/DGS, deram-lhe tanta pancada que foi evacuado de helicóptero...Por sorte, passava nesse momento o jipe da patrulha, o que levou os agressores a fugir e a aparecer gente para socorrer a vítima.

Comentário do Sr. Teófilo após o acontecimento:
- Eu não te disse? Já pagou! - Acrescentei eu:
- Sabe que o indivíduo já me tinha convidado para ingressar na PIDE/DGS, ele fazia-me o requerimento ao Director Rosa Casaco e eu quando regressase a Lisboa entrava logo ao serviço (claro não era serviço que se coadunasse com a minha forma de ser e de estar na sociedade)... O Teófilo ficou furioso e fez o seguinte comentário:
- Esse porco já teve o que merecia!

Foram estas situações, vividas e outras, que sempre me levaram a acreditar na sua inocência nesse campo, tanto mais que por vezes me dizia:
- A coluna que se realiza no dia x vai ser emboscada... - E era fatal como o destino. Quando foi o ataque a Bafatá, ele já o tinha previsto, umas semanas antes.

Manuel Mata

2. Comentário de L.G.:

Manuel Mata:

Estes elementos são preciosos... Eu nunca insinuei que o Teófilo fosse da PIDE/DGS... Pelo contrário, ele deveria ser contra a situação (o regime político então vigente desde 1926), só assim se explica que ele tivesse sido deportado para a Guiné no princípio dos anos 30... Nalguns sítios (como Bambadinca, que eu conheci melhor) havia a suspeita de os comerciantes locais serem também informadores da PIDE ou jogarem com um pau de dois bicos... Eu oenso que, aos olhos da tropa, isso devia acontecer em todos os os postos administrativos e localidades de menor importância onde houvesse comerciantes (portugueses, caboverdianos ou libaneses)...

Essa estória do PIDE que levou porrada numa tabanca (iam-lhe cortando o nariz, à dentada) ouvia-a eu ao próprio, em Bafatá, creio que na Transmontana... Hei-de contá-la aqui, um dia destes. Lembro-me que de ouvir a conversa dele (eu, incomodado, com a presença deles, numa mesa de alferes e furriéis milicianos de Bambadinca)...O fulano - que, se bem me lembro, falava alemão, por ter sido imigrante, com os pais, na Alemanha - estava lixado com o Spínola, por que na época (c. 1970) já não se podia fazer justiça pelas mãos próprias como nos bons velhos tempos do colonialismo...

Uma última pergunta: alguma vez vistes os pides locais frequentarem o café do Teófilo ? Pelo que me contas, ele não gostava mesmo deles, o que vem confirmar a minha teoria de ser o Teófilo um velho antifascista... (ou do reviralho, como diriam os pides). Infelizmente não tive com ele a mesma intimidade que tu tiveste!

___________

Nota de L.G.

(1)Vd. post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (3)

Guiné 63/74 - DCLVIII: Comerciantes de Bafatá: turras ou pides ? (Manuel Mata)

1. Texto do Manuel Mata:

Caro Luís Graça

Volto à questão do Teófilo ser ou não um presumível informador da PIDE/DGS... Não creio! (Com o devido respeito, e que me perdoe a família por estar a referir o seu nome e passagens do meu convívio com o seu familiar, mas são memórias de uma época que gosto de partilhar embora com alguma imprecisão, já que vão decorridos 36 anos, e os neurónios por vezes já não respondem a 100%).

O Esq Rec Fox 2640 (1) tinha um sistema rotativo do serviço de vagomestre, à messe de Oficiais e de Sargentos. No mês que coube ao 1º Sarg Mecânico (já falecido), as refeições ao longo das primeiras semanas foram quase sempre à base de peixe do rio, pescado na zona de Sonaco, a nordeste de Contuboel.



Guiné > Sonaco > Rio Geba > A pesca à granada... Na foto o Manuel Mata (à esquerda) © Manuel Mata (2006)


Eu levava granadas defensivas ou ofensivas que eram posteriormente justificadas em combate, questão que o 1º Sargento resolvia para que eu não tivesse problemas com o Comandante do Esquadrão. Lá seguíamos nós (ele, a esposa, o filho de 3 a 4 anos de idade e eu por vezes),numa Peugeot de caixa aberta e, chegados a Sonaco, dois Guineenses com canoas conduziam-nos pelo Rio...Granada aqui, granada acolá, lá vinha o peixe à tona da água, mergulhava um dos guias para apanhar o peixe...

Um certo dia, o pessoal do Esquadrão já estava saturado... O Comandante, Capitão Fernando Vouga, mandou que se atirasse tudo ao lixo e exigiu cabrito para o almoço. E assim foi! Nesse mesmo dia, passei pelo café do Teófilo, fez-me logo o comentário:
- Então, o mecânico não se contenta só com o que rouba ao civis na reparação das viaturas!? Vai pagar tudo!

O Esquadrão teve em determinada altura algumas armas de caça automáticas, de cinco tiros, que o pessoal podia requisitar para os seus tempos de lazer. O 1º Sargento mecânico era um dos elementos que as utilizava para a caça nocturna.

Uma noite, em que por casualidade o não acompanhei, foi coadjuvado pelo 1º Cabo Cozinheiro, cerca das 24 h, ao tentar regressar à viatura com o carregamento de lebres, o guia diz estar desorientado e não saber onde se encontrava a carrinha. O sargento deu-lhe algum tempo para se orientar na mata. Este continuou a dizer que não conseguia ir ter à carrinha. O sargento apontou-lhe a espingarda à cabeça e disse:
- Ou encontras já o transporte ou disparo! - O rapaz lá seguiu e, mal dada uma meia dúzia de passos, eis a carrinha à sua frente.

Guiné > Bafatá > 1970 > O milagre dos peixes...

© Manuel Mata (2006)

Posteriormente, passo pelo Café do Sr. Teófilo (parece que o estou a ver de bengala na mão, sentado na sua cadeira de braços, do lado esquerdo da porta do café)... Quando pus o pé no patamar, disse-me logo em voz baixa:
- Então o teu amigo mecânico ontem à noite ia ficando na caça?
Observei no mesmo tom:
- Como sabe? - Respondeu:
- Já te disse que sei tudo - e acrescentou:
- Não perde pela demora! - Semanas mais tarde, estando o 1º Sargento em casa, entre as 21 e as 23 horas, de um determinado dia, bateram-lhe à porta dizendo:
- Foge com a mulher e o menino, eles vêm para te matar!.

Não foi, por o Teófilo ser um presumível informador da PIDE/DGS, como se dizia, mas por haver fortes duvidas, quanto à sua ligação ao PAIGC, e ao mesmo tempo viver num bairro onde viviam elementos do IN, que chegou a estar tudo de prevenção em Bafatá, com o material bélico apontado para a zona, incluíndo o Pelotão de morteiros sediado no Batalhão, para queimarem a área... Felizmente imperou o bom senso.

Não creio que o Teófilo fosse um informador [da PIDE/DGS] mas socorria-se desse subterfúgio para camuflar outras facetas.

Falando em PIDE/DGS, recordo um elemento que estava em Bafatá, muito activo, de quem não me recordo o nome, mas penso ser da área de Castelo Branco: conseguiu descobrir (sempre andando na sua bicicleta) onde o pessoal do IN se reunia numa tabanca próximo da Ponte Salazar, no Rio Geba. Várias vezes o vi fazer o percurso da pista de aviação com destino a essa tabanca. Certo dia comentei com o Teófilo esta situação. Resposta curta e directa:
- Esse não sai de cá com vida! - Algum tempo depois, na referida tabanca, o pessoal reunido, lá aparece o elemento da PIDE/DGS, deram-lhe tanta pancada que foi evacuado de helicóptero...Por sorte, passava nesse momento o jipe da patrulha, o que levou os agressores a fugir e a aparecer gente para socorrer a vítima.

Comentário do Sr. Teófilo após o acontecimento:
- Eu não te disse? Já pagou! - Acrescentei eu:
- Sabe que o indivíduo já me tinha convidado para ingressar na PIDE/DGS, ele fazia-me o requerimento ao Director Rosa Casaco e eu quando regressase a Lisboa entrava logo ao serviço (claro não era serviço que se coadunasse com a minha forma de ser e de estar na sociedade)... O Teófilo ficou furioso e fez o seguinte comentário:
- Esse porco já teve o que merecia!

Foram estas situações, vividas e outras, que sempre me levaram a acreditar na sua inocência nesse campo, tanto mais que por vezes me dizia:
- A coluna que se realiza no dia x vai ser emboscada... - E era fatal como o destino. Quando foi o ataque a Bafatá, ele já o tinha previsto, umas semanas antes.

Manuel Mata

2. Comentário de L.G.:

Manuel Mata:

Estes elementos são preciosos... Eu nunca insinuei que o Teófilo fosse da PIDE/DGS... Pelo contrário, ele deveria ser contra a situação (o regime político então vigente desde 1926), só assim se explica que ele tivesse sido deportado para a Guiné no princípio dos anos 30... Nalguns sítios (como Bambadinca, que eu conheci melhor) havia a suspeita de os comerciantes locais serem também informadores da PIDE ou jogarem com um pau de dois bicos... Eu oenso que, aos olhos da tropa, isso devia acontecer em todos os os postos administrativos e localidades de menor importância onde houvesse comerciantes (portugueses, caboverdianos ou libaneses)...

Essa estória do PIDE que levou porrada numa tabanca (iam-lhe cortando o nariz, à dentada) ouvia-a eu ao próprio, em Bafatá, creio que na Transmontana... Hei-de contá-la aqui, um dia destes. Lembro-me que de ouvir a conversa dele (eu, incomodado, com a presença deles, numa mesa de alferes e furriéis milicianos de Bambadinca)...O fulano - que, se bem me lembro, falava alemão, por ter sido imigrante, com os pais, na Alemanha - estava lixado com o Spínola, por que na época (c. 1970) já não se podia fazer justiça pelas mãos próprias como nos bons velhos tempos do colonialismo...

Uma última pergunta: alguma vez vistes os pides locais frequentarem o café do Teófilo ? Pelo que me contas, ele não gostava mesmo deles, o que vem confirmar a minha teoria de ser o Teófilo um velho antifascista... (ou do reviralho, como diriam os pides). Infelizmente não tive com ele a mesma intimidade que tu tiveste!

___________

Nota de L.G.

(1)Vd. post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (3)

28 março 2006

Guiné 63/74 - DCLVII: O grande comandante-em-chefe que foi o Amílcar Cabral

1. Comentário do L.G. ao comentário (pertinentíssimo) do João Tunes, blogador-mor do Água Lisa (6), benfiquista de alma e coração, tertuliano indefectível, amigo & camarada dos idos tempos da Guiné, e muitos outros atributos que eu me dispenso de enumerar aqui:

João: Acabo de levar no toutiço (e bem!) por uma frase (infeliz!) que pode revelar (revela, de facto!) alguma ligeireza, e que eu escrevi há dias, ao correr da pena. Uma primeira conclusão (provisória) que posso tirar é que não se deve escrever ao correr da pena, qaudno se é corredor de fundo...

Dizes-me em elegantíssimo comentário (que eu já publiquei previamente, como mandam as boas regras da convivialidade em vigor cá na nossa caserna):

"Não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo [que] Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino... Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?"...

O que eu escrevi foi o seguinte:

Quanto ao PAIGC, gostava de saber mais... Por exemplo, como é que um homem como Nino chegou aonde chegou... Há muitos mitos à volta da sua actuação como comandante... Mitos alimentados por nós mas também pelos seus homens... Eis um excelente tema para uma próxima discussão... Alguém o conheceu, a ele, Nino, na frente de combate ? De kalash na mão ? E chapéu à cowboy ? O PAIGC (e a Guiné-Bissau) teria sido diferente com Amílcar Cabral, se este ainda hoje fosse vivo?

O pomo da discórdia está na frase seguinte (fatal): "Mas Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino"...

Reconheço que deveria ter usado o verbo no futuro do conjuntivo: "Mas Cabral não terá sido um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como Nino"... O que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar...

Isto é apenas um exemplo do risco que corremos de não sermos, muitas vezes, "claros, concisos e precisos" (sic)... Pessoalmente dou muitíssima mais (que horror de construção frásica!) importância à figura (ímpar) do líder revolucionário do que à do comandante... Ou foi o contrário ? Se me enganei, peço desculpa ao nosso herói - ao meu herói dos verdes vinte anos - que lá estará algures no panteão dos heróis revolucionários, que a história rapidamente esqueceu... Infelizmente, Amílcar Cabral e o seu exemplo nobre, lúcido e generoso já foram há muito esquecidos pela sua pátria (quiçá menor, que a maior era a da língua portuguesa!).

João: tens, pois, toda razão!... Fui duplamente injusto: (i) para com o Amílcar Cabal (descendo-o do pedestal, pondo-o ao nível do Nino); (ii) para com o Nino, agigantando-o, elevando-o à categoria de lider revolucionário (que ele nunca foi, nem estava preparado para sê-lo)...

Confesso que tinha (e tenho) uma certa admiração (intelectual) pelo Amílcar, desde o meu tempo de menino e moço, o que era normal num gajo de esquerda do nosso tempo, mesmo desalinhado como eu... Hoje tenho muito mais informação e conhecimento do que tinha na época, o que me obriga a ser, no mínimo, mais crítico, mais prudente, mais racional...

Mesmo assim reconheço que sei pouco (muito pouco, afinal!) do homem e da obra...

Quanto ao Correia Jesuíno: não creio que ele tenha estado em Angola... Não estarás a confundi-lo com o Almirante Rosa Coutinho ?

2. O João volta hoje à carga, com o seu apuradíssimo gosto pela polémica, ou melhor, pelo franco e aberto debate de ideias, o que só pode prestigiar e animar este pedaço da blogosfera lusófona:

Caro Luís,

Sobre Amílcar, pois há muito a discutir e a desvendar. Embora seja sempre complicado lidar com mitos. Agora, o que me parece indiscutível é que, enquanto vivo, Amilcar nunca perdeu um fio do controlo total sobre a estratégia militar da guerrilha e assegurando o seu controlo político. Foi, pois, um autêntico comandante-em-chefe (embora entrecortada por muitas ausências pelo mundo, em acções diplomáticas e de obtenção de apoios), ou seja, um equivalente à altura de Spínola (este, na contra-guerrilha).

Sobre Correia Jesuíno em Angola - não, não o confundi com o Rosa Coutinho. Não há livro de militar reaccionário, ou de colono branco ressabiado, que não o refira como figura central do MFA na transição angolana pré-independência. E o que dizem dele!!! (o que tomo como elogios, é claro).

Andas mesmo a baldar-te ao almoço a três, incluindo o Briote?

Grande abraço,
João Tunes

Guiné 63/74 - DCLVII: O grande comandante-em-chefe que foi o Amílcar Cabral

1. Comentário do L.G. ao comentário (pertinentíssimo) do João Tunes, blogador-mor do Água Lisa (6), benfiquista de alma e coração, tertuliano indefectível, amigo & camarada dos idos tempos da Guiné, e muitos outros atributos que eu me dispenso de enumerar aqui:

João: Acabo de levar no toutiço (e bem!) por uma frase (infeliz!) que pode revelar (revela, de facto!) alguma ligeireza, e que eu escrevi há dias, ao correr da pena. Uma primeira conclusão (provisória) que posso tirar é que não se deve escrever ao correr da pena, qaudno se é corredor de fundo...

Dizes-me em elegantíssimo comentário (que eu já publiquei previamente, como mandam as boas regras da convivialidade em vigor cá na nossa caserna):

"Não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo [que] Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino... Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?"...

O que eu escrevi foi o seguinte:

Quanto ao PAIGC, gostava de saber mais... Por exemplo, como é que um homem como Nino chegou aonde chegou... Há muitos mitos à volta da sua actuação como comandante... Mitos alimentados por nós mas também pelos seus homens... Eis um excelente tema para uma próxima discussão... Alguém o conheceu, a ele, Nino, na frente de combate ? De kalash na mão ? E chapéu à cowboy ? O PAIGC (e a Guiné-Bissau) teria sido diferente com Amílcar Cabral, se este ainda hoje fosse vivo?

O pomo da discórdia está na frase seguinte (fatal): "Mas Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino"...

Reconheço que deveria ter usado o verbo no futuro do conjuntivo: "Mas Cabral não terá sido um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como Nino"... O que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar...

Isto é apenas um exemplo do risco que corremos de não sermos, muitas vezes, "claros, concisos e precisos" (sic)... Pessoalmente dou muitíssima mais (que horror de construção frásica!) importância à figura (ímpar) do líder revolucionário do que à do comandante... Ou foi o contrário ? Se me enganei, peço desculpa ao nosso herói - ao meu herói dos verdes vinte anos - que lá estará algures no panteão dos heróis revolucionários, que a história rapidamente esqueceu... Infelizmente, Amílcar Cabral e o seu exemplo nobre, lúcido e generoso já foram há muito esquecidos pela sua pátria (quiçá menor, que a maior era a da língua portuguesa!).

João: tens, pois, toda razão!... Fui duplamente injusto: (i) para com o Amílcar Cabal (descendo-o do pedestal, pondo-o ao nível do Nino); (ii) para com o Nino, agigantando-o, elevando-o à categoria de lider revolucionário (que ele nunca foi, nem estava preparado para sê-lo)...

Confesso que tinha (e tenho) uma certa admiração (intelectual) pelo Amílcar, desde o meu tempo de menino e moço, o que era normal num gajo de esquerda do nosso tempo, mesmo desalinhado como eu... Hoje tenho muito mais informação e conhecimento do que tinha na época, o que me obriga a ser, no mínimo, mais crítico, mais prudente, mais racional...

Mesmo assim reconheço que sei pouco (muito pouco, afinal!) do homem e da obra...

Quanto ao Correia Jesuíno: não creio que ele tenha estado em Angola... Não estarás a confundi-lo com o Almirante Rosa Coutinho ?

2. O João volta hoje à carga, com o seu apuradíssimo gosto pela polémica, ou melhor, pelo franco e aberto debate de ideias, o que só pode prestigiar e animar este pedaço da blogosfera lusófona:

Caro Luís,

Sobre Amílcar, pois há muito a discutir e a desvendar. Embora seja sempre complicado lidar com mitos. Agora, o que me parece indiscutível é que, enquanto vivo, Amilcar nunca perdeu um fio do controlo total sobre a estratégia militar da guerrilha e assegurando o seu controlo político. Foi, pois, um autêntico comandante-em-chefe (embora entrecortada por muitas ausências pelo mundo, em acções diplomáticas e de obtenção de apoios), ou seja, um equivalente à altura de Spínola (este, na contra-guerrilha).

Sobre Correia Jesuíno em Angola - não, não o confundi com o Rosa Coutinho. Não há livro de militar reaccionário, ou de colono branco ressabiado, que não o refira como figura central do MFA na transição angolana pré-independência. E o que dizem dele!!! (o que tomo como elogios, é claro).

Andas mesmo a baldar-te ao almoço a três, incluindo o Briote?

Grande abraço,
João Tunes