31 março 2006

Guiné 63/74 - DCLXV: Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá (Radiotelegrafista Tavares) (1): Obras em Piche

Guiné > Zona Leste > Bafatá > Esq Rec Fox 2640 (1969/71)> Jardim da Bafatá > Eis o autor das quadras que aqui se publicam, buscando inspiração na espuma dos dias, o José Luís Tavares,
sentado, à direita, sob a estátua de Oliveira Muzanty, um dos pacificadores da Guiné tal como Teixeira Pinto (informação valiosa do nosso Mário Dias que viveu na Guiné entre 1952 e 1966).

© Manuel Mata (2006)


Do Manuel Mata, "para os amigos que gostam de quadras com algum sentido crítico/satírico", aqui fim algumas do seu amigo José Luís Tavares, "homem de transmissões, companheiro do Esquadrão e das lides de organização dos convívios anuais"... Por mim, elas fazem parte do Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá: é uma pequena homenagem aos nossos camaradas da arma de vavalaria que penaram lá para os lados de Bafatá e Nova Lamego... L.G.


Obras em Piche

Aqui em Piche é mato
Mas manga de animação,
Tem cá uma piscina,
Foi hoje a inuguração.

Fizeram várias brincadeiras
Que meteram muita graça,
Jogaram também futebol
E, ao fim, a entrega da taça.

Foi um jogo de grande interesse
Como já é natural,
Mas ao fim, em vez da taça,
Deram uma cerveja Cristal.

Vou dizer-lhes o resultado
Só para nós em comum,
Que perderam os furriéis
Por nove golos a um.

Foi um jogo bem disputado,
Ouvi eu, numa entrevista,
Que mais parecia uma final
Com Sporting e Boavista.

Passou-se isto dia 28,
Mais nada, vou terminar,
E quanto à arbitragem
Acho que foi regular.

Tavares - Radiotelegrafista
28 de Junho de 1970

(Continua)
__________

Nota de L.G.

(1) Vd post anterior, com data de hoje > Guiné 63/74 - DCLXIV: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá (1969/71) (Manuel Mata) (4): as primeiras Chaimites para o Exército Português

Guiné 63/74 - DCLXIV: Áreas Protegidas e Parques Naturais

Caros Amigos

Informamos que a partir de agora, todos quantos se interessam pelas questões das Áreas Protegidas e Parques Naturais da Guiné-Bissau, podem ter acesso através do site da AD (http://www.adbissau.org/) a informações, mapas e fotografias sobre:

- todas as Áreas Protegidas
- Parque de Tarrafe de Cacheu
- Parque de Cantanhez
- Parque de Cufada
- Parque de Formosa
- Parque de João Vieira e Poilão
- Parque de Orango
- Reserva da Biosfera dos Bijagós
- Zona Costeira

Cumprimentos
Carlos Schwarz
Director Executivo da AD

Guiné 63/74 - DCLXIV: Áreas Protegidas e Parques Naturais

Caros Amigos

Informamos que a partir de agora, todos quantos se interessam pelas questões das Áreas Protegidas e Parques Naturais da Guiné-Bissau, podem ter acesso através do site da AD (http://www.adbissau.org/) a informações, mapas e fotografias sobre:

- todas as Áreas Protegidas
- Parque de Tarrafe de Cacheu
- Parque de Cantanhez
- Parque de Cufada
- Parque de Formosa
- Parque de João Vieira e Poilão
- Parque de Orango
- Reserva da Biosfera dos Bijagós
- Zona Costeira

Cumprimentos
Carlos Schwarz
Director Executivo da AD

Guiné 63/74 - DCLXIII: Diário do CMS (CART 2339)(1): Um homem ficou para trás e não há voluntários para o ir buscar...

Felizmente que há mais vida, para além da blogosfera... É o que eu deduzo da última mensagem do nosso CMS (Carlos Marques Santos), ex-furriel mil, CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69...

A esta hora, o CMS já terá partido, de manhã cedo, para França (região de Biarritz ) em viagem de uma semana em autocaravana. (Que os bons irãs das florestas do Corubal o acompanhem e o tragam de volta, são e salvo!).

Pede-nos desculpa por nos últimos tempos não ter dito nada no blogue, pois tem ocupado o seu tempo noutras andanças, "apesar de todos os dias vêr o que há de novo"...

Promete organizar qualquer coisa depois de vir de França". Mesmo assim mandou-nos umas notas do seu diário, com a seguinte legenda: "dois meses de Guiné e muita experiência".


Notas do Diário do CMS


5 de Abril de 1968

Às 15h, saída de Fá Mandinga para mais uma operação (Op Gavião). Desta vez para a zona do Enxalé, via Xime.

O [Rio] Geba foi atravessado de lancha. Do Enxalé saímos cerca da meia-noite iniciando mais um passo para o desconhecido. Dois meses de mato e já tínhamos tido a nossa dose. Andámos a corta mato até às 3.30h.

O guia turra capturado, como sempre, perdeu-se. Descanso até às 5.00h, seguindo as NT depois em progressão normal.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 >Brasão da CART 2339 (Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69)

© Carlos Marques Santos (2005)



Perto do objectivo vimos, na mata, dois nativos. Fugiram e nós continuámos. A CART 2338, nossa companheira de andanças, está a atacar o objectivo. A Companhia de Mansoa também.

Cerca do meio-dia sofremos um ataque de abelhas. Desespero em muitos de nós. Eu também fui completamente picado. Há camaradas inchados. Disformes. Há 2 camaradas desmaiados. Faz-se uma maca. Soam tiros...
- EMBOSCADA!

Um nativo do Pel Caç Nat 53 é atingido e morto. O ataque IN continua. Regressamos.

Sofremos 5 emboscadas, mas apesar de tudo correu sem grandes azares. O IN tem baixas. Fogem. Seguimos para o Enxalé. Mais 2 ataques de abelhas. CHOROS. Desespero. Há que fugir. Desorientação total. Armas abandonadas.

Compreendo agora - pois noutra ocasião e lá para a frente no tempo de comissão, estive debaixo de fogo - o que estar nestas mesmas circunstâncias. 45 minutos intermináveis. Antes o fogo do IN.

Chegámos ao Enxalé cerca das 18.00h. Soube-se depois que tinha ficado um homem da Cart 2338 desmaiado no local dos acontecimentos.

Quem vai procurá-lo? Ninguém. Não há voluntários.

Triste vida a da GUERRA e da sobrevivência. Mas nem sempre foi assim!

Passamos para o Xime e chegámos a Fá Mandinga às 03.00h da manhã do dia de 7 de Abril de 1968.

Estou exausto. Estamos todos exaustos.

Boas notícias: o nosso homem desmaiado, soube-se, apareceu por ele no Enxalé! Já li uma estória semelhante nesta tertúlia. Ou será o mesmo protagonista?

No dia seguinte, 8 de Abril de 1968, voltamos ao Enxalé procurar as armas perdidas. Na progressão ouvimos rebentamentos. Será Mato Cão?

Recuperámos 2 armas. Regressámos a Fá Mandinga sem incidentes.

10 de Abril de 1968

Há emboscada na estrada Xime-Bambadinca. Não houve incidentes, são as notícias que nos chegam.

14 de Abril de 1968

Dia de Páscoa, aqui, igual aos outros.

© Carlos Marques dos Santos (2006)

Guiné 63/74 - DCLXIII: Diário do CMS (CART 2339)(1): Um homem ficou para trás e não há voluntários para o ir buscar...

Felizmente que há mais vida, para além da blogosfera... É o que eu deduzo da última mensagem do nosso CMS (Carlos Marques Santos), ex-furriel mil, CART 2339, Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69...

A esta hora, o CMS já terá partido, de manhã cedo, para França (região de Biarritz ) em viagem de uma semana em autocaravana. (Que os bons irãs das florestas do Corubal o acompanhem e o tragam de volta, são e salvo!).

Pede-nos desculpa por nos últimos tempos não ter dito nada no blogue, pois tem ocupado o seu tempo noutras andanças, "apesar de todos os dias vêr o que há de novo"...

Promete organizar qualquer coisa depois de vir de França". Mesmo assim mandou-nos umas notas do seu diário, com a seguinte legenda: "dois meses de Guiné e muita experiência".


Notas do Diário do CMS


5 de Abril de 1968

Às 15h, saída de Fá Mandinga para mais uma operação (Op Gavião). Desta vez para a zona do Enxalé, via Xime.

O [Rio] Geba foi atravessado de lancha. Do Enxalé saímos cerca da meia-noite iniciando mais um passo para o desconhecido. Dois meses de mato e já tínhamos tido a nossa dose. Andámos a corta mato até às 3.30h.

O guia turra capturado, como sempre, perdeu-se. Descanso até às 5.00h, seguindo as NT depois em progressão normal.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 >Brasão da CART 2339 (Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69)

© Carlos Marques Santos (2005)



Perto do objectivo vimos, na mata, dois nativos. Fugiram e nós continuámos. A CART 2338, nossa companheira de andanças, está a atacar o objectivo. A Companhia de Mansoa também.

Cerca do meio-dia sofremos um ataque de abelhas. Desespero em muitos de nós. Eu também fui completamente picado. Há camaradas inchados. Disformes. Há 2 camaradas desmaiados. Faz-se uma maca. Soam tiros...
- EMBOSCADA!

Um nativo do Pel Caç Nat 53 é atingido e morto. O ataque IN continua. Regressamos.

Sofremos 5 emboscadas, mas apesar de tudo correu sem grandes azares. O IN tem baixas. Fogem. Seguimos para o Enxalé. Mais 2 ataques de abelhas. CHOROS. Desespero. Há que fugir. Desorientação total. Armas abandonadas.

Compreendo agora - pois noutra ocasião e lá para a frente no tempo de comissão, estive debaixo de fogo - o que estar nestas mesmas circunstâncias. 45 minutos intermináveis. Antes o fogo do IN.

Chegámos ao Enxalé cerca das 18.00h. Soube-se depois que tinha ficado um homem da Cart 2338 desmaiado no local dos acontecimentos.

Quem vai procurá-lo? Ninguém. Não há voluntários.

Triste vida a da GUERRA e da sobrevivência. Mas nem sempre foi assim!

Passamos para o Xime e chegámos a Fá Mandinga às 03.00h da manhã do dia de 7 de Abril de 1968.

Estou exausto. Estamos todos exaustos.

Boas notícias: o nosso homem desmaiado, soube-se, apareceu por ele no Enxalé! Já li uma estória semelhante nesta tertúlia. Ou será o mesmo protagonista?

No dia seguinte, 8 de Abril de 1968, voltamos ao Enxalé procurar as armas perdidas. Na progressão ouvimos rebentamentos. Será Mato Cão?

Recuperámos 2 armas. Regressámos a Fá Mandinga sem incidentes.

10 de Abril de 1968

Há emboscada na estrada Xime-Bambadinca. Não houve incidentes, são as notícias que nos chegam.

14 de Abril de 1968

Dia de Páscoa, aqui, igual aos outros.

© Carlos Marques dos Santos (2006)

30 março 2006

Guiné 63/74 - DCLXII: As minas do nosso descontentamento

1. Meu caríssimo amigo e camarada Paulo:

A nossa amiga Nela seguramente não queria afirmar ou insinuar que as minas de hoje na estrada de São Domingos eram as mesmíssimas minas de ontem, de há trinta anos... Seria técnica e materialmente impossível elas resistirem estes anos todos, já que essa via nunca esteve interdita, depois da independência... Além disso, tu passaste por lá, impunemente, há coisa de um mês e tal...

Percebo a tua estupefacção, tu que és (com a tua São) um andarilho e, mais do que isso, um connaisseur e um apaixonado da Guiné... No nosso blogue, temos, de facto, procurado respeitar a verdade (e só verdade) dos factos, mesmo quando eles não são abonatórios para nós... (Nós, tugas; nós, povo; nós, Estado; nós, Nação)... De qualquer modo, devo deixar claro que rejeito, liminarmente, qualquer ideia de responsabiliddae colectiva: é uma monstruosidae jurídica!... Não me venham e muito menos a mim - pedir contas pelos alegados erros e crimes do colonialismo português, que o meu livro de reclamações, uma vez aberto, vai direitinho ao Céu e ao Criador!

Antes de publicar o teu comentário, tinha pedido à Nela que esclarecesse melhor o seu ponto de vista... Coisa que ela fez, de bom grado e de imediato. A questão é simples: tu sabes, meu caro Paulo, como as palavras às vezes nos atraiçoam!...

Eu próprio levei há dias no toutiço por uma frase que revelava, no mínimo, alguma ligeireza, ao insinuar que o grande Amílcar Cabral não teria sido um verdadeiro guerrilheiro, como o Nino, só por não andar de Kaslash na mão, nem as ouvir assobiar, às balas da nossa G-3, por cima dos ouvidos...

Na realidade o que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar... Enfim, um exemplo do tipo de risco que corremos quando não conseguimos, muitas vezes, ser "claros, concisos e precisos"...

Quanto à Nela, se bem percebeste, estes episódios recentes na zona fronteiriça do noroeste da Guiné fizeram-lhe lembrar outros trágicos acontecimentos, do tempo da guerra colonial, como o da mina que vitimou o seu futuro e actual marido...

Last but not the least, é bom (e reconfortante) sentir a presença e a confiança dos amigos que estão próximos do terreno, como é o teu caso e o da São... Fico feliz por saber notícias vossas. E estou agradecido pelo teu oportuno (e veemente) comentário... Quanto ao esclarecimento que eu pedi à Nela, a nossa nova tertuliana, ele aqui fica, para melhor enquadramento desta questão das minas do nosso descontentamento e da nossa indignação... LG


2. Mensagem da Nela:

Luís: Obrigado pelas fotos e pelo comentário que me enviou, escrito pelo Paulo.

Confesso que, ao ver aquelas fotos, tive saudades do tempo que passámos em Bissau, depois da Independência e como cooperantes ao serviço da Educação.

Quanto ao que o Paulo diz, concordo com ele : é um facto que aquelas minas de agora não podem ser as de há 30 anos atrás. Eu própria recordo o dia em que fomos a Ingoré, e ao irmos pla estrada em direcção à localidade, depois de termos atravessado o rio numa canoa, o comentário do meu marido: "e pensar, que há anos, não podíamos aqui passar sem ir a picar a estrada"...

Talvez este comentário tenha sido o causador da frase que indignou o Paulo. Mas, o que eu quis dizer foi simplesmente... que, como então, com outros protagonistas, é certo, a história repete-se - minas numa estrada que é de vital importância para as populações guineenses.

As minas não são as mesmas, claro, mas os meios de que se servem os senhores da guerra são os mesmos...

É o recurso às minas que me revolta e para o qual não consigo encontrar explicação plausível.
Quero, contudo, recordar, que eu vivi a guerra do lado de cá e estive em Bissau depois da Independência, onde tive oportunidade de contactar e conviver quer com soldados que pertenceram ao Pelotão 60 [Pel Caç Nat 60 ?] , que o meu marido comandava, quer com oficiais do PAIGC de quem nos tornámos amigos. Algumas dessas histórias ficam para outros posts.

Gostaria ainda de reafirmar que, ao escrever - e faço-o directamente no meu blogue - apenas me move o sentido de partilhar sentimentos, histórias e factos. Algumas imprecisões de escrita podem levar a outros entendimentos, mas, em momento algum, pretendo falsear a História ou os factos ocorridos.

Sei, contudo, que também a História de um Povo pode ser narrada em diferentes perspectivas. Da minha parte, apenas pretendo falar de factos que marcaram a nossa vida, aliados a sentimentos que perduram - nomedamente a recusa à guerra e um desejo veemente de que África, um continente fascinante, encontre o desenvolvimento a que tem direito!

Saudações amigas

Nela (Manuela Gonçalves)

Guiné 63/74 - DCLXII: As minas do nosso descontentamento

1. Meu caríssimo amigo e camarada Paulo:

A nossa amiga Nela seguramente não queria afirmar ou insinuar que as minas de hoje na estrada de São Domingos eram as mesmíssimas minas de ontem, de há trinta anos... Seria técnica e materialmente impossível elas resistirem estes anos todos, já que essa via nunca esteve interdita, depois da independência... Além disso, tu passaste por lá, impunemente, há coisa de um mês e tal...

Percebo a tua estupefacção, tu que és (com a tua São) um andarilho e, mais do que isso, um connaisseur e um apaixonado da Guiné... No nosso blogue, temos, de facto, procurado respeitar a verdade (e só verdade) dos factos, mesmo quando eles não são abonatórios para nós... (Nós, tugas; nós, povo; nós, Estado; nós, Nação)... De qualquer modo, devo deixar claro que rejeito, liminarmente, qualquer ideia de responsabiliddae colectiva: é uma monstruosidae jurídica!... Não me venham e muito menos a mim - pedir contas pelos alegados erros e crimes do colonialismo português, que o meu livro de reclamações, uma vez aberto, vai direitinho ao Céu e ao Criador!

Antes de publicar o teu comentário, tinha pedido à Nela que esclarecesse melhor o seu ponto de vista... Coisa que ela fez, de bom grado e de imediato. A questão é simples: tu sabes, meu caro Paulo, como as palavras às vezes nos atraiçoam!...

Eu próprio levei há dias no toutiço por uma frase que revelava, no mínimo, alguma ligeireza, ao insinuar que o grande Amílcar Cabral não teria sido um verdadeiro guerrilheiro, como o Nino, só por não andar de Kaslash na mão, nem as ouvir assobiar, às balas da nossa G-3, por cima dos ouvidos...

Na realidade o que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar... Enfim, um exemplo do tipo de risco que corremos quando não conseguimos, muitas vezes, ser "claros, concisos e precisos"...

Quanto à Nela, se bem percebeste, estes episódios recentes na zona fronteiriça do noroeste da Guiné fizeram-lhe lembrar outros trágicos acontecimentos, do tempo da guerra colonial, como o da mina que vitimou o seu futuro e actual marido...

Last but not the least, é bom (e reconfortante) sentir a presença e a confiança dos amigos que estão próximos do terreno, como é o teu caso e o da São... Fico feliz por saber notícias vossas. E estou agradecido pelo teu oportuno (e veemente) comentário... Quanto ao esclarecimento que eu pedi à Nela, a nossa nova tertuliana, ele aqui fica, para melhor enquadramento desta questão das minas do nosso descontentamento e da nossa indignação... LG


2. Mensagem da Nela:

Luís: Obrigado pelas fotos e pelo comentário que me enviou, escrito pelo Paulo.

Confesso que, ao ver aquelas fotos, tive saudades do tempo que passámos em Bissau, depois da Independência e como cooperantes ao serviço da Educação.

Quanto ao que o Paulo diz, concordo com ele : é um facto que aquelas minas de agora não podem ser as de há 30 anos atrás. Eu própria recordo o dia em que fomos a Ingoré, e ao irmos pla estrada em direcção à localidade, depois de termos atravessado o rio numa canoa, o comentário do meu marido: "e pensar, que há anos, não podíamos aqui passar sem ir a picar a estrada"...

Talvez este comentário tenha sido o causador da frase que indignou o Paulo. Mas, o que eu quis dizer foi simplesmente... que, como então, com outros protagonistas, é certo, a história repete-se - minas numa estrada que é de vital importância para as populações guineenses.

As minas não são as mesmas, claro, mas os meios de que se servem os senhores da guerra são os mesmos...

É o recurso às minas que me revolta e para o qual não consigo encontrar explicação plausível.
Quero, contudo, recordar, que eu vivi a guerra do lado de cá e estive em Bissau depois da Independência, onde tive oportunidade de contactar e conviver quer com soldados que pertenceram ao Pelotão 60 [Pel Caç Nat 60 ?] , que o meu marido comandava, quer com oficiais do PAIGC de quem nos tornámos amigos. Algumas dessas histórias ficam para outros posts.

Gostaria ainda de reafirmar que, ao escrever - e faço-o directamente no meu blogue - apenas me move o sentido de partilhar sentimentos, histórias e factos. Algumas imprecisões de escrita podem levar a outros entendimentos, mas, em momento algum, pretendo falsear a História ou os factos ocorridos.

Sei, contudo, que também a História de um Povo pode ser narrada em diferentes perspectivas. Da minha parte, apenas pretendo falar de factos que marcaram a nossa vida, aliados a sentimentos que perduram - nomedamente a recusa à guerra e um desejo veemente de que África, um continente fascinante, encontre o desenvolvimento a que tem direito!

Saudações amigas

Nela (Manuela Gonçalves)

Guiné 63/74 - DCLXI: Estrada de São Domingos: as minas de ontem e as de hoje (Paulo Salgado)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Estrada S. Domigos-Varela > Edjim (ou Igim, de acordo com o mapa geral da Guiné, de 1961)> 10 de Fevereiro de 2006 > O Paulo Salgado, com o colega do Hospital Nacional Simão Mendes, à beira do Rio de Edjim, conversando com um antigo soldado guineense, apanhador de ostras.


© Paulo Salgado (2006)


Texto do Paulo Salgado:

Caros Bloguistas, camaradas e amigos,

Estou absolutamente estupefacto. Direi mesmo siderado. Com a notícia/comentário, inserida pelo Luís Graça, da Manuela Gonçalves: "Uma mina na estrada de São Domingos para Varela". Que me desculpe a Manuela e o Luís.


Guiné-Bissau > Regiãodo Cacheu > Estrada S. Domigos-Varela > 10 de Fevereiro de 2006 > Guiné-Bissau > Estrada S. Domingos-Varela> Um passeio, sexta-feira ao fim da tarde, 10 de Feverereiro de 2006.

© Paulo Salgado (2006)


As estórias não podem ser confundidas com a História; os factos de hoje têm que ser contados com verdade sob pena de estarmos a trair a nossa consciência cívica. Trata-se - julgo que a propósito do que está a acontecer na fronteira da Guiné/Bissau com o Senegal - de uma pura invenção esta de afirmar (e duvidar) «se muitas delas (das minas) não foram colocadas na guerra colonial».


Guiné-Bissau > Região do Cacheu Estrada S. Domigos-Varela > 10 de Fevereiro de 2006 > Uma paragem para o lanche...

© Paulo Salgado (2006)




Só quem não quer estar de boa fé - ou quem não domina as situações conhecendo a realidade local, ou quem quer gracejar com o presente e com o passado -, é que pode pensar que as minas de hoje são de antanho.

Da minha parte, conheço a Guiné quase toda - falta-me apenas a zona de Madina do Boé e de Cheche -, desde 1990 (depois de ter passado aqui em 1970 / 1972), por picadas antes minadas, por carreiros antigos também antes minados, por tabancas remotas - acompanhado pela minha mulher - em passeios de carro, a pé, de candonga, de cambança, e nunca me falaram de minas que restassem.

Apenas registo - porque é justo - que em 1991, quando faziam a estrada de alcatrão de Bambadinca para o Sul, me informaram terem sido descobertas e rebentadas minas na antiga estrada, certamente conhecida dos nossos companheiros que por ali passaram.

Não posso nem devo afirmar peremptoriamente que todas as minas da guerra colonial foram rebentadas ou desativadas. Diferente é confundir estória com História. O que se passa na fronteira é profundamente sério para se mandarem palpites desta natureza. O que se passa na fronteira é algo que transcende um problema de limites: os interesses geo-estratégicos regionais e mesmo mundiais.

Já uma vez, ou duas, afirmei neste magnífico local de comunicação que um dado facto ocorrido numa emboscada, num patrulhamento, num golpe de mão, mesmo num desafio de futebol pela tarde de domingo, no Olossato, em Bambadinca, no Xitole, em Buruntuma, pode ser recontado de maneiras diferentes, convencidos os autores de que estão a falar a verdade - mas é tão-somente a sua verdade.

Já agora: há pouco mais de um mês, a equipa que está aqui desde Setembro [como cooperantes, no Hospital Nacional Simão Mendes], foi a Varela pela picada difícil (a mesma em que há dias foi colocada uma mina), merendou no caminho, tirou umas fotos, visitou tabancas e locais aprazíveis, e dormiu no aparthotel da Fátima - que, a esta hora, deve estar preocupada, com o marido e funcionários!

Mantanhas pa tudus.

Paulo Salgado

PS: Concordo: antes como agora, as minas não devem não podem ser colocadas!

Guiné 63/74 - DCLXI: Estrada de São Domingos: as minas de ontem e as de hoje (Paulo Salgado)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Estrada S. Domigos-Varela > Edjim (ou Igim, de acordo com o mapa geral da Guiné, de 1961)> 10 de Fevereiro de 2006 > O Paulo Salgado, com o colega do Hospital Nacional Simão Mendes, à beira do Rio de Edjim, conversando com um antigo soldado guineense, apanhador de ostras.


© Paulo Salgado (2006)


Texto do Paulo Salgado:

Caros Bloguistas, camaradas e amigos,

Estou absolutamente estupefacto. Direi mesmo siderado. Com a notícia/comentário, inserida pelo Luís Graça, da Manuela Gonçalves: "Uma mina na estrada de São Domingos para Varela". Que me desculpe a Manuela e o Luís.


Guiné-Bissau > Regiãodo Cacheu > Estrada S. Domigos-Varela > 10 de Fevereiro de 2006 > Guiné-Bissau > Estrada S. Domingos-Varela> Um passeio, sexta-feira ao fim da tarde, 10 de Feverereiro de 2006.

© Paulo Salgado (2006)


As estórias não podem ser confundidas com a História; os factos de hoje têm que ser contados com verdade sob pena de estarmos a trair a nossa consciência cívica. Trata-se - julgo que a propósito do que está a acontecer na fronteira da Guiné/Bissau com o Senegal - de uma pura invenção esta de afirmar (e duvidar) «se muitas delas (das minas) não foram colocadas na guerra colonial».


Guiné-Bissau > Região do Cacheu Estrada S. Domigos-Varela > 10 de Fevereiro de 2006 > Uma paragem para o lanche...

© Paulo Salgado (2006)




Só quem não quer estar de boa fé - ou quem não domina as situações conhecendo a realidade local, ou quem quer gracejar com o presente e com o passado -, é que pode pensar que as minas de hoje são de antanho.

Da minha parte, conheço a Guiné quase toda - falta-me apenas a zona de Madina do Boé e de Cheche -, desde 1990 (depois de ter passado aqui em 1970 / 1972), por picadas antes minadas, por carreiros antigos também antes minados, por tabancas remotas - acompanhado pela minha mulher - em passeios de carro, a pé, de candonga, de cambança, e nunca me falaram de minas que restassem.

Apenas registo - porque é justo - que em 1991, quando faziam a estrada de alcatrão de Bambadinca para o Sul, me informaram terem sido descobertas e rebentadas minas na antiga estrada, certamente conhecida dos nossos companheiros que por ali passaram.

Não posso nem devo afirmar peremptoriamente que todas as minas da guerra colonial foram rebentadas ou desativadas. Diferente é confundir estória com História. O que se passa na fronteira é profundamente sério para se mandarem palpites desta natureza. O que se passa na fronteira é algo que transcende um problema de limites: os interesses geo-estratégicos regionais e mesmo mundiais.

Já uma vez, ou duas, afirmei neste magnífico local de comunicação que um dado facto ocorrido numa emboscada, num patrulhamento, num golpe de mão, mesmo num desafio de futebol pela tarde de domingo, no Olossato, em Bambadinca, no Xitole, em Buruntuma, pode ser recontado de maneiras diferentes, convencidos os autores de que estão a falar a verdade - mas é tão-somente a sua verdade.

Já agora: há pouco mais de um mês, a equipa que está aqui desde Setembro [como cooperantes, no Hospital Nacional Simão Mendes], foi a Varela pela picada difícil (a mesma em que há dias foi colocada uma mina), merendou no caminho, tirou umas fotos, visitou tabancas e locais aprazíveis, e dormiu no aparthotel da Fátima - que, a esta hora, deve estar preocupada, com o marido e funcionários!

Mantanhas pa tudus.

Paulo Salgado

PS: Concordo: antes como agora, as minas não devem não podem ser colocadas!

Guiné 63/74 - DCLX: À sexta-feira, dia 13, o melhor era ficar na cama (Carlos Vinhal)

Post nº 660 (DCLX). Texto do Carlos Vinhal (ex-Fur Mil, de Minas e Armadilhas, da CART 2732, Mansabá, 1970/72):

Mansabá, 13 de Agosto de 1971 – Sexta-feira

Tarde quente de Agosto que se adivinhava enfadonha. Como não tinha nada que fazer, estava deitado na cama, deixando correr o tempo e ouvia pela milionésima vez uma das duas cassetes que tinha.

O meu Pelotão estava de Serviço ao Aquartelamento e eu, como estava de Sargento de Ronda, entraria ao serviço só lá pela meia-noite. De repente lembrei-me que era Sexta-feira e ao mesmo tempo dia 13.

Como não sou supersticioso, saltei da cama e logo pensei que era o dia indicado para se fazer aquelas tarefas que se não devem fazer nestes dias ditos azarentos. Vesti-me e fui à caserna dos condutores procurar um voluntário para ir comigo ao exterior do arame farpado rebentar granadas velhas. Não foi difícil encontrar alguém, porque toda a gente gostava assistir ao espectáculo dos rebentamentos.

Enquanto ele foi aprontar um Unimog, fui levantar um Rádio e avisar o meu alferes que estava de Oficial de Dia, dos meus intentos, para que ele por sua vez avisasse todos os Postos à volta do Aquartelamento e mais quem achasse por direito ser prevenido.

Carregado o Unimog, dirigimo-nos para o exterior do arame farpado, estrada de Mansabá para o K3, para junto de uma árvore morta onde eu costumava, num buraco existente junto dela, destruir o material que ia armazenando.

Depois de dispostas, com cuidado, as granadas velhas no buraco, juntei-lhes uns pedaços de TNT providos de detonadores eléctricos para provocar o rebentamento controlado com comando remoto.

Após o rebentamento e enquanto o fumo se dissipava, aproximei-me para verificar se tinha corrido tudo bem. Mal me abeirei do local, fui recebido por um enxame de abelhas selvagens, em polvorosa, que me perseguiram, enquanto eu fugia a sete pés.

Como não fui suficientemente lesto fui picado na cabeça e nas mãos. Enquanto corria, pelo Rádio começaram a chamar por mim. Quando pude, parei e atendi: era um soldado das Transmissões a comunicar-me que o Comandante, pessoa com quem eu não simpatizava e vice-versa, ordenava que me apresentasse imediatamente no seu gabinete.

Desmontei o serviço, carregámos as tralhas na viatura e lá fomos a caminho do Aquartelamento, não prevendo já nada de bom.

Quando entrei na porta da Secretaria, o gabinete do Comandante só tinha acesso por lá, fui alvo de riso por parte dos presentes. O meu aspecto era algo caricato pelos inchaços na testa provocados pelas picadas das abelhas. Ao mesmo tempo vi caras de preocupação pelo que me esperava lá dentro.

Bati à porta e à voz de ENTRE, entrei, fiz a continência da praxe e em sentido esperei pela pancada. Indiferente ao meu aspecto, perguntou-me o Comandante, muito furioso:

- Nosso Furriel, quem o autorizou a fazer rebentamentos? - Respondi que ninguém e que julgava ter competência suficiente para saber qual era a melhor ocasião para destruir material perigoso, depositado na Arrecadação do Material de Guerra, à minha responsabilidade, desde que antecipadamente desse conhecimento.

- Mas eu não soube de nada!!!

Disse-lhe que previamente tinha avisado o nosso Alferes B. que estava de Oficial de Dia, para que ele por sua vez alertasse os postos de vigilância e providenciasse pela minha segurança e do condutor que me acompanhava.

- Vá chamar imediatamente o nosso alferes.

Fui ao Bar dos oficiais procurar o Oficial de Dia para ele me acompanhar ao gabinete do nosso Capitão. Com os dois já na presença dele, foi a vez de ser o alferes o interpelado:

- Nosso alferes, o nosso furriel Vinhal deu-lhe conhecimento de que ia fazer rebentamentos?

- Sim, meu comandante, deu.

- E você avisou-me?

- Não meu comandante, avisei toda a gente mas não me lembrei do senhor, peço desculpa pelo esquecimento.

- Nosso furriel, pode retirar-se. Por esta vez escapou de uma porrada, mas tenha cuidado comigo.

O que se passou no Gabinete do Comandante depois de eu sair não sei, mas adivinho que o alferes tenha ouvido das boas.

Na Secretaria fiquei a saber pelo nosso Primeiro que, quando se deu o rebentamento, o Capitão, julgando tratar-se de um ataque ao aquartelamento, deitou a fugir pelo gabinete fora, mas quando viu que toda a gente continuava sentada a trabalhar, impávida e serena e, ainda por cima com ar de riso, ficou furioso. Sabendo posteriormente que fui eu o autor do rebentamento, gostando de mim como gostava, julgou chegada a hora de me dar a porrada há muito prometida.

Restabelecida a ordem, dediquei-me a tratar as picadas das abelhas e a reflectir sobre a tarde que tinha passado. Não foi enfadonha, mas convenhamos que às Sextas-feiras dias 13, o melhor é ficar na cama, sossegadinho, a ouvir pela milionésima vez a música de uma de duas cassetes que se tenha e da qual se sabe de cor e salteado a sequência das canções.

Felizmente, para mim, mais tarde este comandante deu baixa por doença (?) ao Hospital Militar 241, sendo posteriormente evacuado definitivamente para Lisboa.

Carlos Vinhal

Ex-Fur Mil Minas e Armadillhas

CART 2732 (1970/72) (1)

_____________

Nota de L.G.

(1) Vd post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLI: A madeirense CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

Guiné 63/74 - DCLX: À sexta-feira, dia 13, o melhor era ficar na cama (Carlos Vinhal)

Post nº 660 (DCLX). Texto do Carlos Vinhal (ex-Fur Mil, de Minas e Armadilhas, da CART 2732, Mansabá, 1970/72):

Mansabá, 13 de Agosto de 1971 – Sexta-feira

Tarde quente de Agosto que se adivinhava enfadonha. Como não tinha nada que fazer, estava deitado na cama, deixando correr o tempo e ouvia pela milionésima vez uma das duas cassetes que tinha.

O meu Pelotão estava de Serviço ao Aquartelamento e eu, como estava de Sargento de Ronda, entraria ao serviço só lá pela meia-noite. De repente lembrei-me que era Sexta-feira e ao mesmo tempo dia 13.

Como não sou supersticioso, saltei da cama e logo pensei que era o dia indicado para se fazer aquelas tarefas que se não devem fazer nestes dias ditos azarentos. Vesti-me e fui à caserna dos condutores procurar um voluntário para ir comigo ao exterior do arame farpado rebentar granadas velhas. Não foi difícil encontrar alguém, porque toda a gente gostava assistir ao espectáculo dos rebentamentos.

Enquanto ele foi aprontar um Unimog, fui levantar um Rádio e avisar o meu alferes que estava de Oficial de Dia, dos meus intentos, para que ele por sua vez avisasse todos os Postos à volta do Aquartelamento e mais quem achasse por direito ser prevenido.

Carregado o Unimog, dirigimo-nos para o exterior do arame farpado, estrada de Mansabá para o K3, para junto de uma árvore morta onde eu costumava, num buraco existente junto dela, destruir o material que ia armazenando.

Depois de dispostas, com cuidado, as granadas velhas no buraco, juntei-lhes uns pedaços de TNT providos de detonadores eléctricos para provocar o rebentamento controlado com comando remoto.

Após o rebentamento e enquanto o fumo se dissipava, aproximei-me para verificar se tinha corrido tudo bem. Mal me abeirei do local, fui recebido por um enxame de abelhas selvagens, em polvorosa, que me perseguiram, enquanto eu fugia a sete pés.

Como não fui suficientemente lesto fui picado na cabeça e nas mãos. Enquanto corria, pelo Rádio começaram a chamar por mim. Quando pude, parei e atendi: era um soldado das Transmissões a comunicar-me que o Comandante, pessoa com quem eu não simpatizava e vice-versa, ordenava que me apresentasse imediatamente no seu gabinete.

Desmontei o serviço, carregámos as tralhas na viatura e lá fomos a caminho do Aquartelamento, não prevendo já nada de bom.

Quando entrei na porta da Secretaria, o gabinete do Comandante só tinha acesso por lá, fui alvo de riso por parte dos presentes. O meu aspecto era algo caricato pelos inchaços na testa provocados pelas picadas das abelhas. Ao mesmo tempo vi caras de preocupação pelo que me esperava lá dentro.

Bati à porta e à voz de ENTRE, entrei, fiz a continência da praxe e em sentido esperei pela pancada. Indiferente ao meu aspecto, perguntou-me o Comandante, muito furioso:

- Nosso Furriel, quem o autorizou a fazer rebentamentos? - Respondi que ninguém e que julgava ter competência suficiente para saber qual era a melhor ocasião para destruir material perigoso, depositado na Arrecadação do Material de Guerra, à minha responsabilidade, desde que antecipadamente desse conhecimento.

- Mas eu não soube de nada!!!

Disse-lhe que previamente tinha avisado o nosso Alferes B. que estava de Oficial de Dia, para que ele por sua vez alertasse os postos de vigilância e providenciasse pela minha segurança e do condutor que me acompanhava.

- Vá chamar imediatamente o nosso alferes.

Fui ao Bar dos oficiais procurar o Oficial de Dia para ele me acompanhar ao gabinete do nosso Capitão. Com os dois já na presença dele, foi a vez de ser o alferes o interpelado:

- Nosso alferes, o nosso furriel Vinhal deu-lhe conhecimento de que ia fazer rebentamentos?

- Sim, meu comandante, deu.

- E você avisou-me?

- Não meu comandante, avisei toda a gente mas não me lembrei do senhor, peço desculpa pelo esquecimento.

- Nosso furriel, pode retirar-se. Por esta vez escapou de uma porrada, mas tenha cuidado comigo.

O que se passou no Gabinete do Comandante depois de eu sair não sei, mas adivinho que o alferes tenha ouvido das boas.

Na Secretaria fiquei a saber pelo nosso Primeiro que, quando se deu o rebentamento, o Capitão, julgando tratar-se de um ataque ao aquartelamento, deitou a fugir pelo gabinete fora, mas quando viu que toda a gente continuava sentada a trabalhar, impávida e serena e, ainda por cima com ar de riso, ficou furioso. Sabendo posteriormente que fui eu o autor do rebentamento, gostando de mim como gostava, julgou chegada a hora de me dar a porrada há muito prometida.

Restabelecida a ordem, dediquei-me a tratar as picadas das abelhas e a reflectir sobre a tarde que tinha passado. Não foi enfadonha, mas convenhamos que às Sextas-feiras dias 13, o melhor é ficar na cama, sossegadinho, a ouvir pela milionésima vez a música de uma de duas cassetes que se tenha e da qual se sabe de cor e salteado a sequência das canções.

Felizmente, para mim, mais tarde este comandante deu baixa por doença (?) ao Hospital Militar 241, sendo posteriormente evacuado definitivamente para Lisboa.

Carlos Vinhal

Ex-Fur Mil Minas e Armadillhas

CART 2732 (1970/72) (1)

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Nota de L.G.

(1) Vd post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLI: A madeirense CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

Guiné 63/74 - DCLIX: Bateria de Artilharia Antiaérea 3001 (Nova Lamego, 1971/72)

Mensagem de Manuel Santos:

Olá, camaradas:

Após de ter consultado o vosso site, veio-me á lembrança os bons e maus momentos que eu passei na Guiné, mais propriamente em Nova Lamego [, Zona Leste, região de Gabu], nos anos de 71/72, estando integrado no Pelotão de Antiaérea 3001.

Vocês estão a fazer um belísssimo trabalho que é de se lhe tirar o chapéu, e eu dentro das minha possibilidades vou tentar aumentar o vosso espólio, espero. Temos um pequeno grupo do pelotão, faltando ainda uns elementos que não nos foi possível de contactar, mas espero vir ainda a descobri-los.

Não sei explicar o que sinto quando nos juntamos, a verdade é que conto os dias que faltam para nos reunirmo-nos e vai já ser no próximo mês de Maio no dia 20.

Espero notícias vossas e estou disponível para poder contribuir, dentro das minhas possibilidades e capacidades

Vosso camarada, ex-combatente
Manuel Santos

2. Comentário de L.G.:

Camarada: Não fazia a mínima ideia de que houvesse antiaéreas nossas na Região de Gabu, nessa época (1971/72). É claro que tu e os teus camaradas de pelotão serão bem-vindos à nossa tertúlia. Consta-nos mais da tua estória e manda-nos algumas fotos digitalizadas.

Quando dizes Pelotão de Antiaérea 3001 estás-te a referir à Bateria de Artilharia Anti-Aérea (BAA) 3001, que tinha um pelotão (o teu) em Lamego, é isso ?

Um abraço,
Luís Graça

Guiné 63/74 - DCLIX: Bateria de Artilharia Antiaérea 3001 (Nova Lamego, 1971/72)

Mensagem de Manuel Santos:

Olá, camaradas:

Após de ter consultado o vosso site, veio-me á lembrança os bons e maus momentos que eu passei na Guiné, mais propriamente em Nova Lamego [, Zona Leste, região de Gabu], nos anos de 71/72, estando integrado no Pelotão de Antiaérea 3001.

Vocês estão a fazer um belísssimo trabalho que é de se lhe tirar o chapéu, e eu dentro das minha possibilidades vou tentar aumentar o vosso espólio, espero. Temos um pequeno grupo do pelotão, faltando ainda uns elementos que não nos foi possível de contactar, mas espero vir ainda a descobri-los.

Não sei explicar o que sinto quando nos juntamos, a verdade é que conto os dias que faltam para nos reunirmo-nos e vai já ser no próximo mês de Maio no dia 20.

Espero notícias vossas e estou disponível para poder contribuir, dentro das minhas possibilidades e capacidades

Vosso camarada, ex-combatente
Manuel Santos

2. Comentário de L.G.:

Camarada: Não fazia a mínima ideia de que houvesse antiaéreas nossas na Região de Gabu, nessa época (1971/72). É claro que tu e os teus camaradas de pelotão serão bem-vindos à nossa tertúlia. Consta-nos mais da tua estória e manda-nos algumas fotos digitalizadas.

Quando dizes Pelotão de Antiaérea 3001 estás-te a referir à Bateria de Artilharia Anti-Aérea (BAA) 3001, que tinha um pelotão (o teu) em Lamego, é isso ?

Um abraço,
Luís Graça

29 março 2006

Guiné 63/74 - DCLVIII: Comerciantes de Bafatá: turras ou pides ? (Manuel Mata)

1. Texto do Manuel Mata:

Caro Luís Graça

Volto à questão do Teófilo ser ou não um presumível informador da PIDE/DGS... Não creio! (Com o devido respeito, e que me perdoe a família por estar a referir o seu nome e passagens do meu convívio com o seu familiar, mas são memórias de uma época que gosto de partilhar embora com alguma imprecisão, já que vão decorridos 36 anos, e os neurónios por vezes já não respondem a 100%).

O Esq Rec Fox 2640 (1) tinha um sistema rotativo do serviço de vagomestre, à messe de Oficiais e de Sargentos. No mês que coube ao 1º Sarg Mecânico (já falecido), as refeições ao longo das primeiras semanas foram quase sempre à base de peixe do rio, pescado na zona de Sonaco, a nordeste de Contuboel.



Guiné > Sonaco > Rio Geba > A pesca à granada... Na foto o Manuel Mata (à esquerda) © Manuel Mata (2006)


Eu levava granadas defensivas ou ofensivas que eram posteriormente justificadas em combate, questão que o 1º Sargento resolvia para que eu não tivesse problemas com o Comandante do Esquadrão. Lá seguíamos nós (ele, a esposa, o filho de 3 a 4 anos de idade e eu por vezes),numa Peugeot de caixa aberta e, chegados a Sonaco, dois Guineenses com canoas conduziam-nos pelo Rio...Granada aqui, granada acolá, lá vinha o peixe à tona da água, mergulhava um dos guias para apanhar o peixe...

Um certo dia, o pessoal do Esquadrão já estava saturado... O Comandante, Capitão Fernando Vouga, mandou que se atirasse tudo ao lixo e exigiu cabrito para o almoço. E assim foi! Nesse mesmo dia, passei pelo café do Teófilo, fez-me logo o comentário:
- Então, o mecânico não se contenta só com o que rouba ao civis na reparação das viaturas!? Vai pagar tudo!

O Esquadrão teve em determinada altura algumas armas de caça automáticas, de cinco tiros, que o pessoal podia requisitar para os seus tempos de lazer. O 1º Sargento mecânico era um dos elementos que as utilizava para a caça nocturna.

Uma noite, em que por casualidade o não acompanhei, foi coadjuvado pelo 1º Cabo Cozinheiro, cerca das 24 h, ao tentar regressar à viatura com o carregamento de lebres, o guia diz estar desorientado e não saber onde se encontrava a carrinha. O sargento deu-lhe algum tempo para se orientar na mata. Este continuou a dizer que não conseguia ir ter à carrinha. O sargento apontou-lhe a espingarda à cabeça e disse:
- Ou encontras já o transporte ou disparo! - O rapaz lá seguiu e, mal dada uma meia dúzia de passos, eis a carrinha à sua frente.

Guiné > Bafatá > 1970 > O milagre dos peixes...

© Manuel Mata (2006)

Posteriormente, passo pelo Café do Sr. Teófilo (parece que o estou a ver de bengala na mão, sentado na sua cadeira de braços, do lado esquerdo da porta do café)... Quando pus o pé no patamar, disse-me logo em voz baixa:
- Então o teu amigo mecânico ontem à noite ia ficando na caça?
Observei no mesmo tom:
- Como sabe? - Respondeu:
- Já te disse que sei tudo - e acrescentou:
- Não perde pela demora! - Semanas mais tarde, estando o 1º Sargento em casa, entre as 21 e as 23 horas, de um determinado dia, bateram-lhe à porta dizendo:
- Foge com a mulher e o menino, eles vêm para te matar!.

Não foi, por o Teófilo ser um presumível informador da PIDE/DGS, como se dizia, mas por haver fortes duvidas, quanto à sua ligação ao PAIGC, e ao mesmo tempo viver num bairro onde viviam elementos do IN, que chegou a estar tudo de prevenção em Bafatá, com o material bélico apontado para a zona, incluíndo o Pelotão de morteiros sediado no Batalhão, para queimarem a área... Felizmente imperou o bom senso.

Não creio que o Teófilo fosse um informador [da PIDE/DGS] mas socorria-se desse subterfúgio para camuflar outras facetas.

Falando em PIDE/DGS, recordo um elemento que estava em Bafatá, muito activo, de quem não me recordo o nome, mas penso ser da área de Castelo Branco: conseguiu descobrir (sempre andando na sua bicicleta) onde o pessoal do IN se reunia numa tabanca próximo da Ponte Salazar, no Rio Geba. Várias vezes o vi fazer o percurso da pista de aviação com destino a essa tabanca. Certo dia comentei com o Teófilo esta situação. Resposta curta e directa:
- Esse não sai de cá com vida! - Algum tempo depois, na referida tabanca, o pessoal reunido, lá aparece o elemento da PIDE/DGS, deram-lhe tanta pancada que foi evacuado de helicóptero...Por sorte, passava nesse momento o jipe da patrulha, o que levou os agressores a fugir e a aparecer gente para socorrer a vítima.

Comentário do Sr. Teófilo após o acontecimento:
- Eu não te disse? Já pagou! - Acrescentei eu:
- Sabe que o indivíduo já me tinha convidado para ingressar na PIDE/DGS, ele fazia-me o requerimento ao Director Rosa Casaco e eu quando regressase a Lisboa entrava logo ao serviço (claro não era serviço que se coadunasse com a minha forma de ser e de estar na sociedade)... O Teófilo ficou furioso e fez o seguinte comentário:
- Esse porco já teve o que merecia!

Foram estas situações, vividas e outras, que sempre me levaram a acreditar na sua inocência nesse campo, tanto mais que por vezes me dizia:
- A coluna que se realiza no dia x vai ser emboscada... - E era fatal como o destino. Quando foi o ataque a Bafatá, ele já o tinha previsto, umas semanas antes.

Manuel Mata

2. Comentário de L.G.:

Manuel Mata:

Estes elementos são preciosos... Eu nunca insinuei que o Teófilo fosse da PIDE/DGS... Pelo contrário, ele deveria ser contra a situação (o regime político então vigente desde 1926), só assim se explica que ele tivesse sido deportado para a Guiné no princípio dos anos 30... Nalguns sítios (como Bambadinca, que eu conheci melhor) havia a suspeita de os comerciantes locais serem também informadores da PIDE ou jogarem com um pau de dois bicos... Eu oenso que, aos olhos da tropa, isso devia acontecer em todos os os postos administrativos e localidades de menor importância onde houvesse comerciantes (portugueses, caboverdianos ou libaneses)...

Essa estória do PIDE que levou porrada numa tabanca (iam-lhe cortando o nariz, à dentada) ouvia-a eu ao próprio, em Bafatá, creio que na Transmontana... Hei-de contá-la aqui, um dia destes. Lembro-me que de ouvir a conversa dele (eu, incomodado, com a presença deles, numa mesa de alferes e furriéis milicianos de Bambadinca)...O fulano - que, se bem me lembro, falava alemão, por ter sido imigrante, com os pais, na Alemanha - estava lixado com o Spínola, por que na época (c. 1970) já não se podia fazer justiça pelas mãos próprias como nos bons velhos tempos do colonialismo...

Uma última pergunta: alguma vez vistes os pides locais frequentarem o café do Teófilo ? Pelo que me contas, ele não gostava mesmo deles, o que vem confirmar a minha teoria de ser o Teófilo um velho antifascista... (ou do reviralho, como diriam os pides). Infelizmente não tive com ele a mesma intimidade que tu tiveste!

___________

Nota de L.G.

(1)Vd. post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (3)

Guiné 63/74 - DCLVIII: Comerciantes de Bafatá: turras ou pides ? (Manuel Mata)

1. Texto do Manuel Mata:

Caro Luís Graça

Volto à questão do Teófilo ser ou não um presumível informador da PIDE/DGS... Não creio! (Com o devido respeito, e que me perdoe a família por estar a referir o seu nome e passagens do meu convívio com o seu familiar, mas são memórias de uma época que gosto de partilhar embora com alguma imprecisão, já que vão decorridos 36 anos, e os neurónios por vezes já não respondem a 100%).

O Esq Rec Fox 2640 (1) tinha um sistema rotativo do serviço de vagomestre, à messe de Oficiais e de Sargentos. No mês que coube ao 1º Sarg Mecânico (já falecido), as refeições ao longo das primeiras semanas foram quase sempre à base de peixe do rio, pescado na zona de Sonaco, a nordeste de Contuboel.



Guiné > Sonaco > Rio Geba > A pesca à granada... Na foto o Manuel Mata (à esquerda) © Manuel Mata (2006)


Eu levava granadas defensivas ou ofensivas que eram posteriormente justificadas em combate, questão que o 1º Sargento resolvia para que eu não tivesse problemas com o Comandante do Esquadrão. Lá seguíamos nós (ele, a esposa, o filho de 3 a 4 anos de idade e eu por vezes),numa Peugeot de caixa aberta e, chegados a Sonaco, dois Guineenses com canoas conduziam-nos pelo Rio...Granada aqui, granada acolá, lá vinha o peixe à tona da água, mergulhava um dos guias para apanhar o peixe...

Um certo dia, o pessoal do Esquadrão já estava saturado... O Comandante, Capitão Fernando Vouga, mandou que se atirasse tudo ao lixo e exigiu cabrito para o almoço. E assim foi! Nesse mesmo dia, passei pelo café do Teófilo, fez-me logo o comentário:
- Então, o mecânico não se contenta só com o que rouba ao civis na reparação das viaturas!? Vai pagar tudo!

O Esquadrão teve em determinada altura algumas armas de caça automáticas, de cinco tiros, que o pessoal podia requisitar para os seus tempos de lazer. O 1º Sargento mecânico era um dos elementos que as utilizava para a caça nocturna.

Uma noite, em que por casualidade o não acompanhei, foi coadjuvado pelo 1º Cabo Cozinheiro, cerca das 24 h, ao tentar regressar à viatura com o carregamento de lebres, o guia diz estar desorientado e não saber onde se encontrava a carrinha. O sargento deu-lhe algum tempo para se orientar na mata. Este continuou a dizer que não conseguia ir ter à carrinha. O sargento apontou-lhe a espingarda à cabeça e disse:
- Ou encontras já o transporte ou disparo! - O rapaz lá seguiu e, mal dada uma meia dúzia de passos, eis a carrinha à sua frente.

Guiné > Bafatá > 1970 > O milagre dos peixes...

© Manuel Mata (2006)

Posteriormente, passo pelo Café do Sr. Teófilo (parece que o estou a ver de bengala na mão, sentado na sua cadeira de braços, do lado esquerdo da porta do café)... Quando pus o pé no patamar, disse-me logo em voz baixa:
- Então o teu amigo mecânico ontem à noite ia ficando na caça?
Observei no mesmo tom:
- Como sabe? - Respondeu:
- Já te disse que sei tudo - e acrescentou:
- Não perde pela demora! - Semanas mais tarde, estando o 1º Sargento em casa, entre as 21 e as 23 horas, de um determinado dia, bateram-lhe à porta dizendo:
- Foge com a mulher e o menino, eles vêm para te matar!.

Não foi, por o Teófilo ser um presumível informador da PIDE/DGS, como se dizia, mas por haver fortes duvidas, quanto à sua ligação ao PAIGC, e ao mesmo tempo viver num bairro onde viviam elementos do IN, que chegou a estar tudo de prevenção em Bafatá, com o material bélico apontado para a zona, incluíndo o Pelotão de morteiros sediado no Batalhão, para queimarem a área... Felizmente imperou o bom senso.

Não creio que o Teófilo fosse um informador [da PIDE/DGS] mas socorria-se desse subterfúgio para camuflar outras facetas.

Falando em PIDE/DGS, recordo um elemento que estava em Bafatá, muito activo, de quem não me recordo o nome, mas penso ser da área de Castelo Branco: conseguiu descobrir (sempre andando na sua bicicleta) onde o pessoal do IN se reunia numa tabanca próximo da Ponte Salazar, no Rio Geba. Várias vezes o vi fazer o percurso da pista de aviação com destino a essa tabanca. Certo dia comentei com o Teófilo esta situação. Resposta curta e directa:
- Esse não sai de cá com vida! - Algum tempo depois, na referida tabanca, o pessoal reunido, lá aparece o elemento da PIDE/DGS, deram-lhe tanta pancada que foi evacuado de helicóptero...Por sorte, passava nesse momento o jipe da patrulha, o que levou os agressores a fugir e a aparecer gente para socorrer a vítima.

Comentário do Sr. Teófilo após o acontecimento:
- Eu não te disse? Já pagou! - Acrescentei eu:
- Sabe que o indivíduo já me tinha convidado para ingressar na PIDE/DGS, ele fazia-me o requerimento ao Director Rosa Casaco e eu quando regressase a Lisboa entrava logo ao serviço (claro não era serviço que se coadunasse com a minha forma de ser e de estar na sociedade)... O Teófilo ficou furioso e fez o seguinte comentário:
- Esse porco já teve o que merecia!

Foram estas situações, vividas e outras, que sempre me levaram a acreditar na sua inocência nesse campo, tanto mais que por vezes me dizia:
- A coluna que se realiza no dia x vai ser emboscada... - E era fatal como o destino. Quando foi o ataque a Bafatá, ele já o tinha previsto, umas semanas antes.

Manuel Mata

2. Comentário de L.G.:

Manuel Mata:

Estes elementos são preciosos... Eu nunca insinuei que o Teófilo fosse da PIDE/DGS... Pelo contrário, ele deveria ser contra a situação (o regime político então vigente desde 1926), só assim se explica que ele tivesse sido deportado para a Guiné no princípio dos anos 30... Nalguns sítios (como Bambadinca, que eu conheci melhor) havia a suspeita de os comerciantes locais serem também informadores da PIDE ou jogarem com um pau de dois bicos... Eu oenso que, aos olhos da tropa, isso devia acontecer em todos os os postos administrativos e localidades de menor importância onde houvesse comerciantes (portugueses, caboverdianos ou libaneses)...

Essa estória do PIDE que levou porrada numa tabanca (iam-lhe cortando o nariz, à dentada) ouvia-a eu ao próprio, em Bafatá, creio que na Transmontana... Hei-de contá-la aqui, um dia destes. Lembro-me que de ouvir a conversa dele (eu, incomodado, com a presença deles, numa mesa de alferes e furriéis milicianos de Bambadinca)...O fulano - que, se bem me lembro, falava alemão, por ter sido imigrante, com os pais, na Alemanha - estava lixado com o Spínola, por que na época (c. 1970) já não se podia fazer justiça pelas mãos próprias como nos bons velhos tempos do colonialismo...

Uma última pergunta: alguma vez vistes os pides locais frequentarem o café do Teófilo ? Pelo que me contas, ele não gostava mesmo deles, o que vem confirmar a minha teoria de ser o Teófilo um velho antifascista... (ou do reviralho, como diriam os pides). Infelizmente não tive com ele a mesma intimidade que tu tiveste!

___________

Nota de L.G.

(1)Vd. post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Bafatá, 1969/71) (Manuel Mata) (3)

28 março 2006

Guiné 63/74 - DCLVII: O grande comandante-em-chefe que foi o Amílcar Cabral

1. Comentário do L.G. ao comentário (pertinentíssimo) do João Tunes, blogador-mor do Água Lisa (6), benfiquista de alma e coração, tertuliano indefectível, amigo & camarada dos idos tempos da Guiné, e muitos outros atributos que eu me dispenso de enumerar aqui:

João: Acabo de levar no toutiço (e bem!) por uma frase (infeliz!) que pode revelar (revela, de facto!) alguma ligeireza, e que eu escrevi há dias, ao correr da pena. Uma primeira conclusão (provisória) que posso tirar é que não se deve escrever ao correr da pena, qaudno se é corredor de fundo...

Dizes-me em elegantíssimo comentário (que eu já publiquei previamente, como mandam as boas regras da convivialidade em vigor cá na nossa caserna):

"Não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo [que] Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino... Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?"...

O que eu escrevi foi o seguinte:

Quanto ao PAIGC, gostava de saber mais... Por exemplo, como é que um homem como Nino chegou aonde chegou... Há muitos mitos à volta da sua actuação como comandante... Mitos alimentados por nós mas também pelos seus homens... Eis um excelente tema para uma próxima discussão... Alguém o conheceu, a ele, Nino, na frente de combate ? De kalash na mão ? E chapéu à cowboy ? O PAIGC (e a Guiné-Bissau) teria sido diferente com Amílcar Cabral, se este ainda hoje fosse vivo?

O pomo da discórdia está na frase seguinte (fatal): "Mas Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino"...

Reconheço que deveria ter usado o verbo no futuro do conjuntivo: "Mas Cabral não terá sido um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como Nino"... O que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar...

Isto é apenas um exemplo do risco que corremos de não sermos, muitas vezes, "claros, concisos e precisos" (sic)... Pessoalmente dou muitíssima mais (que horror de construção frásica!) importância à figura (ímpar) do líder revolucionário do que à do comandante... Ou foi o contrário ? Se me enganei, peço desculpa ao nosso herói - ao meu herói dos verdes vinte anos - que lá estará algures no panteão dos heróis revolucionários, que a história rapidamente esqueceu... Infelizmente, Amílcar Cabral e o seu exemplo nobre, lúcido e generoso já foram há muito esquecidos pela sua pátria (quiçá menor, que a maior era a da língua portuguesa!).

João: tens, pois, toda razão!... Fui duplamente injusto: (i) para com o Amílcar Cabal (descendo-o do pedestal, pondo-o ao nível do Nino); (ii) para com o Nino, agigantando-o, elevando-o à categoria de lider revolucionário (que ele nunca foi, nem estava preparado para sê-lo)...

Confesso que tinha (e tenho) uma certa admiração (intelectual) pelo Amílcar, desde o meu tempo de menino e moço, o que era normal num gajo de esquerda do nosso tempo, mesmo desalinhado como eu... Hoje tenho muito mais informação e conhecimento do que tinha na época, o que me obriga a ser, no mínimo, mais crítico, mais prudente, mais racional...

Mesmo assim reconheço que sei pouco (muito pouco, afinal!) do homem e da obra...

Quanto ao Correia Jesuíno: não creio que ele tenha estado em Angola... Não estarás a confundi-lo com o Almirante Rosa Coutinho ?

2. O João volta hoje à carga, com o seu apuradíssimo gosto pela polémica, ou melhor, pelo franco e aberto debate de ideias, o que só pode prestigiar e animar este pedaço da blogosfera lusófona:

Caro Luís,

Sobre Amílcar, pois há muito a discutir e a desvendar. Embora seja sempre complicado lidar com mitos. Agora, o que me parece indiscutível é que, enquanto vivo, Amilcar nunca perdeu um fio do controlo total sobre a estratégia militar da guerrilha e assegurando o seu controlo político. Foi, pois, um autêntico comandante-em-chefe (embora entrecortada por muitas ausências pelo mundo, em acções diplomáticas e de obtenção de apoios), ou seja, um equivalente à altura de Spínola (este, na contra-guerrilha).

Sobre Correia Jesuíno em Angola - não, não o confundi com o Rosa Coutinho. Não há livro de militar reaccionário, ou de colono branco ressabiado, que não o refira como figura central do MFA na transição angolana pré-independência. E o que dizem dele!!! (o que tomo como elogios, é claro).

Andas mesmo a baldar-te ao almoço a três, incluindo o Briote?

Grande abraço,
João Tunes

Guiné 63/74 - DCLVII: O grande comandante-em-chefe que foi o Amílcar Cabral

1. Comentário do L.G. ao comentário (pertinentíssimo) do João Tunes, blogador-mor do Água Lisa (6), benfiquista de alma e coração, tertuliano indefectível, amigo & camarada dos idos tempos da Guiné, e muitos outros atributos que eu me dispenso de enumerar aqui:

João: Acabo de levar no toutiço (e bem!) por uma frase (infeliz!) que pode revelar (revela, de facto!) alguma ligeireza, e que eu escrevi há dias, ao correr da pena. Uma primeira conclusão (provisória) que posso tirar é que não se deve escrever ao correr da pena, qaudno se é corredor de fundo...

Dizes-me em elegantíssimo comentário (que eu já publiquei previamente, como mandam as boas regras da convivialidade em vigor cá na nossa caserna):

"Não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo [que] Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino... Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?"...

O que eu escrevi foi o seguinte:

Quanto ao PAIGC, gostava de saber mais... Por exemplo, como é que um homem como Nino chegou aonde chegou... Há muitos mitos à volta da sua actuação como comandante... Mitos alimentados por nós mas também pelos seus homens... Eis um excelente tema para uma próxima discussão... Alguém o conheceu, a ele, Nino, na frente de combate ? De kalash na mão ? E chapéu à cowboy ? O PAIGC (e a Guiné-Bissau) teria sido diferente com Amílcar Cabral, se este ainda hoje fosse vivo?

O pomo da discórdia está na frase seguinte (fatal): "Mas Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino"...

Reconheço que deveria ter usado o verbo no futuro do conjuntivo: "Mas Cabral não terá sido um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como Nino"... O que eu queria dizer (e que, de facto, não consegui transmitir) é que o Amílcar foi um grande líder revolucionário, o que não é sinónimo de comandante militar...

Isto é apenas um exemplo do risco que corremos de não sermos, muitas vezes, "claros, concisos e precisos" (sic)... Pessoalmente dou muitíssima mais (que horror de construção frásica!) importância à figura (ímpar) do líder revolucionário do que à do comandante... Ou foi o contrário ? Se me enganei, peço desculpa ao nosso herói - ao meu herói dos verdes vinte anos - que lá estará algures no panteão dos heróis revolucionários, que a história rapidamente esqueceu... Infelizmente, Amílcar Cabral e o seu exemplo nobre, lúcido e generoso já foram há muito esquecidos pela sua pátria (quiçá menor, que a maior era a da língua portuguesa!).

João: tens, pois, toda razão!... Fui duplamente injusto: (i) para com o Amílcar Cabal (descendo-o do pedestal, pondo-o ao nível do Nino); (ii) para com o Nino, agigantando-o, elevando-o à categoria de lider revolucionário (que ele nunca foi, nem estava preparado para sê-lo)...

Confesso que tinha (e tenho) uma certa admiração (intelectual) pelo Amílcar, desde o meu tempo de menino e moço, o que era normal num gajo de esquerda do nosso tempo, mesmo desalinhado como eu... Hoje tenho muito mais informação e conhecimento do que tinha na época, o que me obriga a ser, no mínimo, mais crítico, mais prudente, mais racional...

Mesmo assim reconheço que sei pouco (muito pouco, afinal!) do homem e da obra...

Quanto ao Correia Jesuíno: não creio que ele tenha estado em Angola... Não estarás a confundi-lo com o Almirante Rosa Coutinho ?

2. O João volta hoje à carga, com o seu apuradíssimo gosto pela polémica, ou melhor, pelo franco e aberto debate de ideias, o que só pode prestigiar e animar este pedaço da blogosfera lusófona:

Caro Luís,

Sobre Amílcar, pois há muito a discutir e a desvendar. Embora seja sempre complicado lidar com mitos. Agora, o que me parece indiscutível é que, enquanto vivo, Amilcar nunca perdeu um fio do controlo total sobre a estratégia militar da guerrilha e assegurando o seu controlo político. Foi, pois, um autêntico comandante-em-chefe (embora entrecortada por muitas ausências pelo mundo, em acções diplomáticas e de obtenção de apoios), ou seja, um equivalente à altura de Spínola (este, na contra-guerrilha).

Sobre Correia Jesuíno em Angola - não, não o confundi com o Rosa Coutinho. Não há livro de militar reaccionário, ou de colono branco ressabiado, que não o refira como figura central do MFA na transição angolana pré-independência. E o que dizem dele!!! (o que tomo como elogios, é claro).

Andas mesmo a baldar-te ao almoço a três, incluindo o Briote?

Grande abraço,
João Tunes

Guiné 63/74 - DCLVI: Tratado sobre a liderança em tempo de guerra (João Tunes)

Post nº 656 (DCLVI)

Guiné > Algures durante a guerra de libertação > Amílcar Cabral, mais do que um ícone revolucionário (tal como Che Guevara), foi um dos maiores líderes africanos do Século XX. "Amílcar não escreveu uma única frase de pensamento sem olhar para a espingarda. Amílcar não mandou dar um único tiro de espingarda fora da lógica política da estratégia da libertação anticolonial e da emancipação africana, pensada e repensada na sua profunda cultura marxista e criativa, no seu modo próprio de pensar a Guiné, África e o mundo" (João Tunes).

Fonte: Foto de origem desconhecida (PAIGG ?).


Camarada Luís,

Com o trato da questão da liderança (estilo de comando) no viver militar, foste buscar o nosso camarada da Marinha, teu amigo e colega académico, Correia Jesuíno, que não tenho prazer de conhecer, nem sequer de vista. Mas acontece que o Prof Correia Jesuíno é santo cá da minha casa (por via conjugal, vivendo eu, em vida partilhada de vinte anos, podando a quatro mãos um rebento a ameaçar ser adulto já em Julho, com uma sua antiga aluna e discípula no ISPA) e permite que conteste a tua afirmação que ele só conheceu, do ex-império, e de passagem, Cabo Verde. E então o papel fulcral e determinante que ele teve em Angola na chamada fase de transição da descolonização? Ó camarada Luís, aquilo não valeu, custou, mais que vinte comissões no mato? Não sei, não.

Depois, permite-mo, não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo "Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino...."(1). Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?

Eu não tenho idolatria por Cabral, não lhe meto tijolo na adoração como mito. Aliás, sou altamente crítico quanto ao preço pago pela sua utopia (ego-étnica) da unidade (absurda, autojustificativa como desiderato da sua condição de mestiço) Guiné-Cabo Verde e que Cabral impôs ao PAIGC e dando, neste absurdo (mas, se calhar, condição necessária para o sucesso), o trunfo maior, no divisionismo e na traição, para o trabalho sujo da Pide e do Exército Colonial (que custaria a própria vida, dele Cabral, e hoje termos a Guiné-Bissau entregue a um apenas bom guerrilheiro como Nino, faltando-lhe o resto, se calhar o mais importante).

Mas Amílcar Cabral foi um dos líderes mais inteligentes e geniais de toda a África (assumamos a honra de termos combatido um Chefe IN de tamanha envergadura, o maior líder africano!). E foi-o pela praxis, porque foi teórico enquanto operacional, operacional enquanto pensador revolucionário.

Amílcar não escreveu uma única frase de pensamento sem olhar para a espingarda. Amílcar não mandou dar um único tiro de espingarda fora da lógica política da estratégia da libertação anticolonial e da emancipação africana, pensada e repensada na sua profunda cultura marxista e criativa, no seu modo próprio de pensar a Guiné, África e o mundo.

Amílcar que teve a sorte trágica de ter sido assassinado e transformado em mártir antes de lhe chegar a hora de ver e ser julgado pela obra feita, prestando contas, com o Estado às costas, perante a história e os seus seguidores, das consequências da eficácia e absurdos da sua lógica, dos seus acertos e desacertos.

Mas vamos à substância. Que só pode ser dada pela vida vivida, ou seja, pela experiência feita corpo e alma. E, neste campo, se me permitem, tu e os restantes camaradas tertulianos, dou-te dois, como testemunhos.

1º) Um dos merdas militares que conheci logo na ida e chegada à Guiné foi um major que fazia as vezes de 2º Comandante (depois pirou-se para uma repartição e não nos acompanhou na ida para o mato no Pelundo). Era, como muitos outros, um cagarolas apesar de já ter feito várias comissões na guerra colonial.

No primeiro dia da ocupação periquita do Quartel de Santa Luzia em Bissau, apanhei, como oficial de dia, um levantamento de rancho organizado pelos velhinhos que esperavam embarque de regresso porque os cozinheiros periquitos do meu Batalhão tinham entornado sal a mais na comida (a maioria deles nunca tinha cozinhado na puta da vida) (1).

Um gozo do camandro aquele, o dos velhinhos, sentados no refeitório quietos e com gozo sádico, a praxarem periquitos e a malta não comia e dizia em coro:
- Piú, piú, velhinhos, fartos de mato, não comem comida salgada por piriquito, piriquito vai pró mato, piú, piú.

Eu, fodido, a comprovar que a comida estava mesmo salgada, a sentir escorrer o suor dos cozinheiros novatos em pânico, apardalado como periquito que era, pedindo ajuda ao major para sair da embrulhada, o gajo encafuado nos galões do traço grosso junto a um traço fino, eu dependente porque só tinha um traço fino em cima do ombro e a perguntar-lhe:
-Meu major, como vamos resolver? - E o gajo a ficar mais à rasca que eu, a suar mais que eu e que os cozinheiros nossos camaradas e feitos merda, atarantado, atarantado, e depois sair-se:
- Ó alferes, para que é que tem essa pistola à cintura? Abata um ou dois, depois os outros comem! - E eu, feito palerma, mais palerma que periquito, a olhar o merdas do major a mandar-me dar tiros nos velhinhos praxistas da perda da solidariedade, e a ver o major a desaparecer atrás da secretária e a querer dizer-me que não estava ali, nem tinha vindo em comissão, apesar de ir na terceira comissão e com a terceira comissão ir acabar de pagar os prédios que comprara em Lisboa, com o pé de meia da guerra, da guerra por Minho a Timor.

E eu ali, feito parvo, entre aquele major de merda, a preparar transferência para uma repartição no quartel general, os velhinhos da praxe, os cozinheiros ainda sem dedo para o sal. Mais a Walter pendurada no cinto que o major me mandava descarregar em cima dos velhinhos para os obrigar a engolir a comida salgada. E subiu-me o calor à cabeça, fazendo luz, arranquei a Walter da cintura, meti-lhe bala na câmara e atirei-a ao major de merda e disse-lhe:
- Vá lá você, ó valentão, ó seu major de merda, corra lá a tropa a tiro, se é capaz, eu cubro-lhe a retaguarda.

E o gajo, o major, quieto, enfiado na secretária, a suar, a suar, sem pio e sem se mexer. Feito merda, afinal merda feita major. Virei costas ao major, veio-me o sentido da lucidez, do comando, da liderança, do consenso. Disso tudo que tu, Luís, tão bem falas por tão bem saberes falar. E, calmo, periquito feito velhinho instantâneo pelo aperto, acordei logo ali a anulação do levantamento de rancho com uma patuscada de recurso de salsichas, ovos estrelados e batatas fritas à maneira, e com maneira no sal, com que os velhinhos se deliciaram e os periquitos secaram os suores.

Aprendi ali, logo ali, que, em questão de liderança e bom senso, um traço grosso só atrapalhava na companhia ao traço fino. Devia saber isso, mas, na altura, eu ainda era periquito.

2º) O Alferes Chico, operacional junto à CCS, era o meu melhor amigo, ali no Pelundo. Um gajo porreiro e puro. Algarvio, com um curso de professor de educação física, aliava excelentes sentimentos e boa consciência social e política, com um gosto físico pela actividade, pelas operações, pelo fazer a guerra. Estava contra a guerra colonial mas, no fundo, fervia-lhe a apetência de guerreiro e pela acção. Era o meu principal companheiro de tertúlia, também para as farras selectas com bajudas selectas - alma aberta e límpida, ingénua também.

Uma noite, o PAIGC resolveu perturbar a calma do Pelundo com umas rajadas soltas de costureirinha, para avisarem que estavam lá, existiam, tentando quebrar a modorra da psico que ia tecendo harmonia entre tropa e população, num rame-rame que era favorável à consolidação do domínio-tampão sobre o chão manjaco.

O tenente coronel nabo que comandava as tropas, reuniu o oficialato de emergência. O homem estava possesso, como assim, tanto bem que lhes fazemos, mais isto, mais aquilo, estes cabrões dos pretos da tabanca estão feitos com os turras, alferes Chico forme já o seu pelotão, saia e dê uma lição à pretalhada, eles precisam de umas porradas bem dadas, foda-lhes os cornos que eles precisam de aprender que não se brinca com a tropa.

Eu a ouvir o discurso e a olhar para o Chico, o meu amigo Chico, e a medir-lhe a reacção. E a ver-lhe na cara a contradição entre senso e acção. E a medir-lhe pelo subir do seu bigode algarvio que o apelo da acção lhe estava a aquecer a cabeça e a pesar-lhe na mão agarrada á G3.

Deu-me um vaip, um vaip guerreiro, e logo me ofereci para o combate:
-Meu tenente-coronel, se me permite, ofereço-me para incorporar a acção punitiva, convém manter as transmissões operacionais com o quartel, permite que seja o oficial de transmissões do Alferes Francisco?.

De orgulho escancarado foi a reacção do oficial comandante. Com certeza, com certeza, muito bem, muito bem. Cheguei-me ao Chico, a tropa alinhada, artilhada, pronta para tudo, disposta a tudo que o alferes mandasse, o Chico todo marcial na sua missão de comando e represália, e eu a dar-lhe missa mansa:
- Ó Chico, como é que é, vamos arrear nas bajudas e nas mães das bajudas com que roçamos? - E o Chico, hirto:
- Tem que ser, Tunes, tem que ser, se os gajos mijam fora do penico levam para aprenderem, não ouviste o comandante. E eu, calmo e sem desarmar:
- Não me fodas, Chico, vamos primeiro ver se tudo está ou não está a dormir, nas calmas, só para ver, pode ter sido malta de fora, para desestabilizar, depois lixamos as bajudas e ficamos sem bajuda para dançar, o que é preciso é calma, ó Chico, porque se estragamos a psico amanhã temos o Caco a dar-nos na mona.

Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Alferes milicianos da CCS do BCAÇ 2884, com sede no Pelundo, em alegre e descontraído convívio, no dia 1 de Janeiro de 1970. João Tunes, oficial cripto, é o segundo da esquerda, de costas e de quico na cabeça, abraçando um camarada (talvez o médico ou o capelão) ..."E lá fomos, em guerreira missão, apanhando e comendo tomates da horta militar com a tropa toda a desopilar em risos e em descarga guerreira. Voltámos em alívio e em alegria, sem parar para pensar o que seriam aqueles mesmos lúdicos militares por roubarem tomates a um major se o comando, a liderança, lhes apontasse, impulsionasse, impusesse, antes, o caminho da filha de putice. Da barbárie até" (João Tunes).

© João Tunes (2005)


Vi logo nos olhos do meu amigo Chico ele quebrou, ficou mais algarvio que guerreiro, mais a puxar para a bajuda que para a porrada, mais para a consciência que para a pulsão. Não me respondeu, mas aquele silêncio disse-me tudo. Entrámos numa palhota, tudo dormia como se nada tivesse acontecido. O Chico riu-se. E tomou-me a dianteira:
- Eentão aquele cagarola queria que andássemos à porrada com mulheres a dormir, ó Tunes, já viste o que aquele cabrão queria armar?.

Dei-lhe razão sem muita ênfase. Estava no papo. O melhor do Chico tinha vindo ao de cima. Não interessava forçar a nota. A questão era como regressar ao quartel, recolhendo à tenda. A ideia veio-me, sei lá como:
- Ó Chico, vamos fazer um golpe de mão e mamar a horta do major Pinho, sacando-lhe os tomates! - O Chico riu-se com uma das suas inigualáveis e mais sonoras gargalhadas, concordando.

E lá fomos, em guerreira missão, apanhando e comendo tomates da horta militar com a tropa toda a desopilar em risos e em descarga guerreira. Voltámos em alívio e em alegria, sem parar para pensar o que seriam aqueles mesmos lúdicos militares por roubarem tomates a um major se o comando, a liderança, lhes apontasse, impulsionasse, impusesse, antes, o caminho da filha de putice. Da barbárie até.

Abraços. Para ti e para toda a digna e marcial Tertúlia.

João Tunes

____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 21 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLV: Estilo de comando e espírito de casta (João Tunes)

(2) Este episódio já aqui foi evocado pelo João Tunes, em post de 17 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CXCII: Os nossos (des)encontros: do Niassa ao Pelundo, passando por Bissau (João Tunes)

Guiné 63/74 - DCLVI: Tratado sobre a liderança em tempo de guerra (João Tunes)

Post nº 656 (DCLVI)

Guiné > Algures durante a guerra de libertação > Amílcar Cabral, mais do que um ícone revolucionário (tal como Che Guevara), foi um dos maiores líderes africanos do Século XX. "Amílcar não escreveu uma única frase de pensamento sem olhar para a espingarda. Amílcar não mandou dar um único tiro de espingarda fora da lógica política da estratégia da libertação anticolonial e da emancipação africana, pensada e repensada na sua profunda cultura marxista e criativa, no seu modo próprio de pensar a Guiné, África e o mundo" (João Tunes).

Fonte: Foto de origem desconhecida (PAIGG ?).


Camarada Luís,

Com o trato da questão da liderança (estilo de comando) no viver militar, foste buscar o nosso camarada da Marinha, teu amigo e colega académico, Correia Jesuíno, que não tenho prazer de conhecer, nem sequer de vista. Mas acontece que o Prof Correia Jesuíno é santo cá da minha casa (por via conjugal, vivendo eu, em vida partilhada de vinte anos, podando a quatro mãos um rebento a ameaçar ser adulto já em Julho, com uma sua antiga aluna e discípula no ISPA) e permite que conteste a tua afirmação que ele só conheceu, do ex-império, e de passagem, Cabo Verde. E então o papel fulcral e determinante que ele teve em Angola na chamada fase de transição da descolonização? Ó camarada Luís, aquilo não valeu, custou, mais que vinte comissões no mato? Não sei, não.

Depois, permite-mo, não concordo nada, nadinha mesmo, com essa de meteres Amílcar Cabral na redoma do líder político-intelectual, dizendo "Cabral não foi um operacional, um verdadeiro guerrilheiro como o Nino...."(1). Como assim? Dizes isto, com tamanha ligeireza, e logo a propósito de um exemplo acabado de praxis feito gente como foi Amílcar?

Eu não tenho idolatria por Cabral, não lhe meto tijolo na adoração como mito. Aliás, sou altamente crítico quanto ao preço pago pela sua utopia (ego-étnica) da unidade (absurda, autojustificativa como desiderato da sua condição de mestiço) Guiné-Cabo Verde e que Cabral impôs ao PAIGC e dando, neste absurdo (mas, se calhar, condição necessária para o sucesso), o trunfo maior, no divisionismo e na traição, para o trabalho sujo da Pide e do Exército Colonial (que custaria a própria vida, dele Cabral, e hoje termos a Guiné-Bissau entregue a um apenas bom guerrilheiro como Nino, faltando-lhe o resto, se calhar o mais importante).

Mas Amílcar Cabral foi um dos líderes mais inteligentes e geniais de toda a África (assumamos a honra de termos combatido um Chefe IN de tamanha envergadura, o maior líder africano!). E foi-o pela praxis, porque foi teórico enquanto operacional, operacional enquanto pensador revolucionário.

Amílcar não escreveu uma única frase de pensamento sem olhar para a espingarda. Amílcar não mandou dar um único tiro de espingarda fora da lógica política da estratégia da libertação anticolonial e da emancipação africana, pensada e repensada na sua profunda cultura marxista e criativa, no seu modo próprio de pensar a Guiné, África e o mundo.

Amílcar que teve a sorte trágica de ter sido assassinado e transformado em mártir antes de lhe chegar a hora de ver e ser julgado pela obra feita, prestando contas, com o Estado às costas, perante a história e os seus seguidores, das consequências da eficácia e absurdos da sua lógica, dos seus acertos e desacertos.

Mas vamos à substância. Que só pode ser dada pela vida vivida, ou seja, pela experiência feita corpo e alma. E, neste campo, se me permitem, tu e os restantes camaradas tertulianos, dou-te dois, como testemunhos.

1º) Um dos merdas militares que conheci logo na ida e chegada à Guiné foi um major que fazia as vezes de 2º Comandante (depois pirou-se para uma repartição e não nos acompanhou na ida para o mato no Pelundo). Era, como muitos outros, um cagarolas apesar de já ter feito várias comissões na guerra colonial.

No primeiro dia da ocupação periquita do Quartel de Santa Luzia em Bissau, apanhei, como oficial de dia, um levantamento de rancho organizado pelos velhinhos que esperavam embarque de regresso porque os cozinheiros periquitos do meu Batalhão tinham entornado sal a mais na comida (a maioria deles nunca tinha cozinhado na puta da vida) (1).

Um gozo do camandro aquele, o dos velhinhos, sentados no refeitório quietos e com gozo sádico, a praxarem periquitos e a malta não comia e dizia em coro:
- Piú, piú, velhinhos, fartos de mato, não comem comida salgada por piriquito, piriquito vai pró mato, piú, piú.

Eu, fodido, a comprovar que a comida estava mesmo salgada, a sentir escorrer o suor dos cozinheiros novatos em pânico, apardalado como periquito que era, pedindo ajuda ao major para sair da embrulhada, o gajo encafuado nos galões do traço grosso junto a um traço fino, eu dependente porque só tinha um traço fino em cima do ombro e a perguntar-lhe:
-Meu major, como vamos resolver? - E o gajo a ficar mais à rasca que eu, a suar mais que eu e que os cozinheiros nossos camaradas e feitos merda, atarantado, atarantado, e depois sair-se:
- Ó alferes, para que é que tem essa pistola à cintura? Abata um ou dois, depois os outros comem! - E eu, feito palerma, mais palerma que periquito, a olhar o merdas do major a mandar-me dar tiros nos velhinhos praxistas da perda da solidariedade, e a ver o major a desaparecer atrás da secretária e a querer dizer-me que não estava ali, nem tinha vindo em comissão, apesar de ir na terceira comissão e com a terceira comissão ir acabar de pagar os prédios que comprara em Lisboa, com o pé de meia da guerra, da guerra por Minho a Timor.

E eu ali, feito parvo, entre aquele major de merda, a preparar transferência para uma repartição no quartel general, os velhinhos da praxe, os cozinheiros ainda sem dedo para o sal. Mais a Walter pendurada no cinto que o major me mandava descarregar em cima dos velhinhos para os obrigar a engolir a comida salgada. E subiu-me o calor à cabeça, fazendo luz, arranquei a Walter da cintura, meti-lhe bala na câmara e atirei-a ao major de merda e disse-lhe:
- Vá lá você, ó valentão, ó seu major de merda, corra lá a tropa a tiro, se é capaz, eu cubro-lhe a retaguarda.

E o gajo, o major, quieto, enfiado na secretária, a suar, a suar, sem pio e sem se mexer. Feito merda, afinal merda feita major. Virei costas ao major, veio-me o sentido da lucidez, do comando, da liderança, do consenso. Disso tudo que tu, Luís, tão bem falas por tão bem saberes falar. E, calmo, periquito feito velhinho instantâneo pelo aperto, acordei logo ali a anulação do levantamento de rancho com uma patuscada de recurso de salsichas, ovos estrelados e batatas fritas à maneira, e com maneira no sal, com que os velhinhos se deliciaram e os periquitos secaram os suores.

Aprendi ali, logo ali, que, em questão de liderança e bom senso, um traço grosso só atrapalhava na companhia ao traço fino. Devia saber isso, mas, na altura, eu ainda era periquito.

2º) O Alferes Chico, operacional junto à CCS, era o meu melhor amigo, ali no Pelundo. Um gajo porreiro e puro. Algarvio, com um curso de professor de educação física, aliava excelentes sentimentos e boa consciência social e política, com um gosto físico pela actividade, pelas operações, pelo fazer a guerra. Estava contra a guerra colonial mas, no fundo, fervia-lhe a apetência de guerreiro e pela acção. Era o meu principal companheiro de tertúlia, também para as farras selectas com bajudas selectas - alma aberta e límpida, ingénua também.

Uma noite, o PAIGC resolveu perturbar a calma do Pelundo com umas rajadas soltas de costureirinha, para avisarem que estavam lá, existiam, tentando quebrar a modorra da psico que ia tecendo harmonia entre tropa e população, num rame-rame que era favorável à consolidação do domínio-tampão sobre o chão manjaco.

O tenente coronel nabo que comandava as tropas, reuniu o oficialato de emergência. O homem estava possesso, como assim, tanto bem que lhes fazemos, mais isto, mais aquilo, estes cabrões dos pretos da tabanca estão feitos com os turras, alferes Chico forme já o seu pelotão, saia e dê uma lição à pretalhada, eles precisam de umas porradas bem dadas, foda-lhes os cornos que eles precisam de aprender que não se brinca com a tropa.

Eu a ouvir o discurso e a olhar para o Chico, o meu amigo Chico, e a medir-lhe a reacção. E a ver-lhe na cara a contradição entre senso e acção. E a medir-lhe pelo subir do seu bigode algarvio que o apelo da acção lhe estava a aquecer a cabeça e a pesar-lhe na mão agarrada á G3.

Deu-me um vaip, um vaip guerreiro, e logo me ofereci para o combate:
-Meu tenente-coronel, se me permite, ofereço-me para incorporar a acção punitiva, convém manter as transmissões operacionais com o quartel, permite que seja o oficial de transmissões do Alferes Francisco?.

De orgulho escancarado foi a reacção do oficial comandante. Com certeza, com certeza, muito bem, muito bem. Cheguei-me ao Chico, a tropa alinhada, artilhada, pronta para tudo, disposta a tudo que o alferes mandasse, o Chico todo marcial na sua missão de comando e represália, e eu a dar-lhe missa mansa:
- Ó Chico, como é que é, vamos arrear nas bajudas e nas mães das bajudas com que roçamos? - E o Chico, hirto:
- Tem que ser, Tunes, tem que ser, se os gajos mijam fora do penico levam para aprenderem, não ouviste o comandante. E eu, calmo e sem desarmar:
- Não me fodas, Chico, vamos primeiro ver se tudo está ou não está a dormir, nas calmas, só para ver, pode ter sido malta de fora, para desestabilizar, depois lixamos as bajudas e ficamos sem bajuda para dançar, o que é preciso é calma, ó Chico, porque se estragamos a psico amanhã temos o Caco a dar-nos na mona.

Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Alferes milicianos da CCS do BCAÇ 2884, com sede no Pelundo, em alegre e descontraído convívio, no dia 1 de Janeiro de 1970. João Tunes, oficial cripto, é o segundo da esquerda, de costas e de quico na cabeça, abraçando um camarada (talvez o médico ou o capelão) ..."E lá fomos, em guerreira missão, apanhando e comendo tomates da horta militar com a tropa toda a desopilar em risos e em descarga guerreira. Voltámos em alívio e em alegria, sem parar para pensar o que seriam aqueles mesmos lúdicos militares por roubarem tomates a um major se o comando, a liderança, lhes apontasse, impulsionasse, impusesse, antes, o caminho da filha de putice. Da barbárie até" (João Tunes).

© João Tunes (2005)


Vi logo nos olhos do meu amigo Chico ele quebrou, ficou mais algarvio que guerreiro, mais a puxar para a bajuda que para a porrada, mais para a consciência que para a pulsão. Não me respondeu, mas aquele silêncio disse-me tudo. Entrámos numa palhota, tudo dormia como se nada tivesse acontecido. O Chico riu-se. E tomou-me a dianteira:
- Eentão aquele cagarola queria que andássemos à porrada com mulheres a dormir, ó Tunes, já viste o que aquele cabrão queria armar?.

Dei-lhe razão sem muita ênfase. Estava no papo. O melhor do Chico tinha vindo ao de cima. Não interessava forçar a nota. A questão era como regressar ao quartel, recolhendo à tenda. A ideia veio-me, sei lá como:
- Ó Chico, vamos fazer um golpe de mão e mamar a horta do major Pinho, sacando-lhe os tomates! - O Chico riu-se com uma das suas inigualáveis e mais sonoras gargalhadas, concordando.

E lá fomos, em guerreira missão, apanhando e comendo tomates da horta militar com a tropa toda a desopilar em risos e em descarga guerreira. Voltámos em alívio e em alegria, sem parar para pensar o que seriam aqueles mesmos lúdicos militares por roubarem tomates a um major se o comando, a liderança, lhes apontasse, impulsionasse, impusesse, antes, o caminho da filha de putice. Da barbárie até.

Abraços. Para ti e para toda a digna e marcial Tertúlia.

João Tunes

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Notas de L.G.

(1) Vd. post de 21 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLV: Estilo de comando e espírito de casta (João Tunes)

(2) Este episódio já aqui foi evocado pelo João Tunes, em post de 17 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CXCII: Os nossos (des)encontros: do Niassa ao Pelundo, passando por Bissau (João Tunes)