20 abril 2006

Guiné 63/74 - DCCXXII: Em louvor da AD - Acção para o Desenvolvimento (Bissau)


Guiné-Bissau > Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 2005 > "O jovem fruticultor Ansumane, da tabanca de Faro Sadjuma, junto à estrada entre Guiledje e Bedanda, mostra com orgulho um dos exemplares de ananás da variedade Cayenne Lisa, que ele acabou de colher.

"Trata-se de um fruticultor moderno que pratica a indução floral, o que lhe permite ter, a partir de Fevereiro de cada ano, uma produção de ananás que escoa para Bissau, numa altura em que o mercado está carente deste fruto, uma vez que só começa a ser vendido no início da época das chuvas, em Junho.

"As más estradas e a falta de meios de transporte adaptados são um factor que dificulta o aumento da área de produção, tendo em conta que ele cultiva igualmente abacates, citrinos, bananas, cola e outras culturas".

© AD - Acção para o Desenvolvimento (2005) (com a devida vénia)


Amigos e camaradas da Guiné:

1. Não é meu hábito desviar a vossa atenção daquilo que nos une à volta do nosso Blogue-fora-nada, usando e abusando do privilégio de ser o seu editor... E muito menos impôr-vos a minha visão dos problemas da Guiné, tanto de hoje como do passado... Temos, contudo, em comum a solicitude, a solidariedade, a simpatia, a (com)paixão e a amizade para com a Guiné e o seu povo...O que se passa hoje, na Guiné, seja bom ou mau, não nos deixa indiferentes... Já demos várias provas disso, no nosso blogue ou através da troca de e-mails.

2. Apraz-me, por isso, registar com agrado as notícias que o nosso amigo Pepito nos mandou. Acabo de ler, com atenção, o relatório de actividade de 2005 da ONG que ele fundou e dirige, há 14 anos. A AD - Acção para o Desenvolvimento tem hoje uma imagem de liderança, seriedade, competência, qualidade e eficácia, dentro e fora do país, que honra a sua direcção e os seus colaboradores, e que constitui um motivo de esperança para a população que serve.

3. O trabalho da AD (substituindo-se muitas vezes a um Estado que não existe, ou que se demite ou que pura e simplesmente não funciona) merece o nosso respeito e admiração. Tomei, por isso, a liberdade de divulgar, pela tertúlia, o relatório da actividade do no de 2005 (disponível em linha, em formato.pdf) para que os nossos amigos e camaradas conheçam melhor o trabalho feito por esta ONG guineense, em prol da democracia, da cidadania, da participação comunitária, da protecção da natureza, do desenvolvimento sustentado e integrado da Guiné bem como da preservação da sua identidade histórica e cultural, nos mais diversos sectores e domínios.

Aqui ficam os meus parabéns pelos resultados alcançados e sobretudo pela ambição do Pepito e dos seus amigos e parceiros de fazer sempre muito mais e melhor, dentro dos difíceis condicionalismos da actual situação política, social e económica daquele país lusófono...

Registo também a coragem (física e moral) e a coerência do autor do relatório, ao identificar e denunicar os vários demónios que ameaçam o futuro da Guiné-Bissau, alguns dos quais estão associados a poderosos lobbies ou grupos de interesses. O relatório cita pelo menos quatro ou cinco grandes demónios cujo crescimento se tornou notório em 2005:

(i) o eleitoralismo, o populismo, a demagogia, a intolerância e a violência por parte dos grupos políticos em luta pelo controlo do aparelho de Estado;

(ii) a perda do sentido de Nação, a amnésia histórica, o retorno ao tchon, o tribalismo, ("omnipresente em quase todas as situações, análises, explicações e decisões do dia a dia", p. 2);

(iii) a irrupção do tráfico de droga, o enriquecimento fácil, a corrupção da juventude, o branqueamento do dinheiro, a demissão ou conivência do poder judicial;

(iv) a biopirataria, que volta a estar na ordem do dia com a "venda de golfinhos" (p. 3);

(v) a caixa de Pandora que pode vir a tornar-se a "questão do petróleo", considerada durante anos como tabu político...

4. Os guineenses têm direito, como qualquer outro povo, a serem felizes, livres, saudáveis... A AD, o Pepito e todos os seus demais colaboradores estão no terreno a fazer coisas bonitas, não apenas para mas tmabém com (e através de) os homens e as mulheres da Guiné, que finalmente poderão vir a ser donos do seu destino...

Ao comemorar os seus 14 anos de existência, "a AD assume-se como uma organização que quer viver os desafios do seu tempo: a luta pela instauração da democracia; a procura de caminhos alternativos ao neoliberalismo para um desenvolvimento justo e solidário; e a participação no combate internacional à globalização enquanto expressão de desigualdades, exclusão e pobreza" (p. 4).

5. Não vou aqui analisar emn detalhe as múltiplas actividades realizadas pela AD em 2005... Naquilo que também nos toca, por razões históricas e sentimentais, destaco o Projecto Guiledje... É feito no relatório o ponto da situação:

(i) A iniciativa arrancou em 2005;

(ii) Estão a ser prosseguidos dois objectivos: por um lado, afirmar a responsabilidade moral que a AD tem "no resgate da história do local que constitui o berço da nacionalidade e das primeiras zonas libertadas na luta pela independência"; por outro, valorizar o ecoturismo como elemento dinamizador do desenvolvimento do Cantanhez (cuja mata era um das mais míticas no nosso tempo de combatentes);

(iii) A salvaguarda da memória histórica está a feita por várias vias: por um lado, criação de um rede (informal) de antigos militares portugueses que já disponibilizaram mais de um centena de fotografias antigas de Guiledje, Medjo e Gandembel, a par de testemunhos escritos, relatórios miliares, mapas e outros documentos; por outro, o registo em vídeo das narrativas de antigos milícias e de elementos antiga população local de Guiledje, bem como de antigos guerrilheiros do PAIGC; também se está a fazer o levantamento dos antigos acampamentos de guerrilha espalhados pelas matas do Cantanhez;

(iv) Toda esta informação ficará depois à disposição dos interessados no futuro Centro de Documentação Histórica, Cultural e Ambiental do Cantanhez...


6. Eu, pessoalmente, gostaria de, no futuro, poder canalizar mais apoios (materiais e imateriais) para esta ONG. Talvez o Pepito nos possa ajudar, falando-nos das suas necessidades e prioridades... Mas, para já, aqui vai o meu grande abraço, o nosso grande abraço de amigos e camaradas da Guiné, ao Pepito e à sua equipa, um abraço longo de 4 mil quilómetros, que é a distância física que nos separa... O importante, o mais importante, é o traço de união que nos mantém ligados à Guiné e ao seu povo, pela história, pela cultura, pela língua e até pela dura experiência da guerra...

7. Com a modéstia, a sensibilidade e a honestidade intelectual que lhe são próprias, o Pepito acaba de nos mandar duas palavras de agradecimento. Aqui ficam, para conhecimento de todos. Aproveito também para lhe agradecer a referência (elogiosa) que ele faz, no supracitado relatório, ao discreto e modesto trabalho do nosso blogue:

"Amigo Luís: Muito obrigado por teres difundido o nosso relatório da AD e também pelas palavras que nos tocaram muito.

"Vindas de quem vêm e de quem muito consideramos, têm um especial valor e dão-nos aquela coragem para continuar e para acreditar.

"É no silêncio de nós próprios que as relembramos quando nos assaltam dúvidas e decidimos continuar a lutar.

"Obrigado. Abraços amigos. pepito"

Guiné 63/74 - DCCXXII: Em louvor da AD - Acção para o Desenvolvimento (Bissau)


Guiné-Bissau > Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 2005 > "O jovem fruticultor Ansumane, da tabanca de Faro Sadjuma, junto à estrada entre Guiledje e Bedanda, mostra com orgulho um dos exemplares de ananás da variedade Cayenne Lisa, que ele acabou de colher.

"Trata-se de um fruticultor moderno que pratica a indução floral, o que lhe permite ter, a partir de Fevereiro de cada ano, uma produção de ananás que escoa para Bissau, numa altura em que o mercado está carente deste fruto, uma vez que só começa a ser vendido no início da época das chuvas, em Junho.

"As más estradas e a falta de meios de transporte adaptados são um factor que dificulta o aumento da área de produção, tendo em conta que ele cultiva igualmente abacates, citrinos, bananas, cola e outras culturas".

© AD - Acção para o Desenvolvimento (2005) (com a devida vénia)


Amigos e camaradas da Guiné:

1. Não é meu hábito desviar a vossa atenção daquilo que nos une à volta do nosso Blogue-fora-nada, usando e abusando do privilégio de ser o seu editor... E muito menos impôr-vos a minha visão dos problemas da Guiné, tanto de hoje como do passado... Temos, contudo, em comum a solicitude, a solidariedade, a simpatia, a (com)paixão e a amizade para com a Guiné e o seu povo...O que se passa hoje, na Guiné, seja bom ou mau, não nos deixa indiferentes... Já demos várias provas disso, no nosso blogue ou através da troca de e-mails.

2. Apraz-me, por isso, registar com agrado as notícias que o nosso amigo Pepito nos mandou. Acabo de ler, com atenção, o relatório de actividade de 2005 da ONG que ele fundou e dirige, há 14 anos. A AD - Acção para o Desenvolvimento tem hoje uma imagem de liderança, seriedade, competência, qualidade e eficácia, dentro e fora do país, que honra a sua direcção e os seus colaboradores, e que constitui um motivo de esperança para a população que serve.

3. O trabalho da AD (substituindo-se muitas vezes a um Estado que não existe, ou que se demite ou que pura e simplesmente não funciona) merece o nosso respeito e admiração. Tomei, por isso, a liberdade de divulgar, pela tertúlia, o relatório da actividade do no de 2005 (disponível em linha, em formato.pdf) para que os nossos amigos e camaradas conheçam melhor o trabalho feito por esta ONG guineense, em prol da democracia, da cidadania, da participação comunitária, da protecção da natureza, do desenvolvimento sustentado e integrado da Guiné bem como da preservação da sua identidade histórica e cultural, nos mais diversos sectores e domínios.

Aqui ficam os meus parabéns pelos resultados alcançados e sobretudo pela ambição do Pepito e dos seus amigos e parceiros de fazer sempre muito mais e melhor, dentro dos difíceis condicionalismos da actual situação política, social e económica daquele país lusófono...

Registo também a coragem (física e moral) e a coerência do autor do relatório, ao identificar e denunicar os vários demónios que ameaçam o futuro da Guiné-Bissau, alguns dos quais estão associados a poderosos lobbies ou grupos de interesses. O relatório cita pelo menos quatro ou cinco grandes demónios cujo crescimento se tornou notório em 2005:

(i) o eleitoralismo, o populismo, a demagogia, a intolerância e a violência por parte dos grupos políticos em luta pelo controlo do aparelho de Estado;

(ii) a perda do sentido de Nação, a amnésia histórica, o retorno ao tchon, o tribalismo, ("omnipresente em quase todas as situações, análises, explicações e decisões do dia a dia", p. 2);

(iii) a irrupção do tráfico de droga, o enriquecimento fácil, a corrupção da juventude, o branqueamento do dinheiro, a demissão ou conivência do poder judicial;

(iv) a biopirataria, que volta a estar na ordem do dia com a "venda de golfinhos" (p. 3);

(v) a caixa de Pandora que pode vir a tornar-se a "questão do petróleo", considerada durante anos como tabu político...

4. Os guineenses têm direito, como qualquer outro povo, a serem felizes, livres, saudáveis... A AD, o Pepito e todos os seus demais colaboradores estão no terreno a fazer coisas bonitas, não apenas para mas tmabém com (e através de) os homens e as mulheres da Guiné, que finalmente poderão vir a ser donos do seu destino...

Ao comemorar os seus 14 anos de existência, "a AD assume-se como uma organização que quer viver os desafios do seu tempo: a luta pela instauração da democracia; a procura de caminhos alternativos ao neoliberalismo para um desenvolvimento justo e solidário; e a participação no combate internacional à globalização enquanto expressão de desigualdades, exclusão e pobreza" (p. 4).

5. Não vou aqui analisar emn detalhe as múltiplas actividades realizadas pela AD em 2005... Naquilo que também nos toca, por razões históricas e sentimentais, destaco o Projecto Guiledje... É feito no relatório o ponto da situação:

(i) A iniciativa arrancou em 2005;

(ii) Estão a ser prosseguidos dois objectivos: por um lado, afirmar a responsabilidade moral que a AD tem "no resgate da história do local que constitui o berço da nacionalidade e das primeiras zonas libertadas na luta pela independência"; por outro, valorizar o ecoturismo como elemento dinamizador do desenvolvimento do Cantanhez (cuja mata era um das mais míticas no nosso tempo de combatentes);

(iii) A salvaguarda da memória histórica está a feita por várias vias: por um lado, criação de um rede (informal) de antigos militares portugueses que já disponibilizaram mais de um centena de fotografias antigas de Guiledje, Medjo e Gandembel, a par de testemunhos escritos, relatórios miliares, mapas e outros documentos; por outro, o registo em vídeo das narrativas de antigos milícias e de elementos antiga população local de Guiledje, bem como de antigos guerrilheiros do PAIGC; também se está a fazer o levantamento dos antigos acampamentos de guerrilha espalhados pelas matas do Cantanhez;

(iv) Toda esta informação ficará depois à disposição dos interessados no futuro Centro de Documentação Histórica, Cultural e Ambiental do Cantanhez...


6. Eu, pessoalmente, gostaria de, no futuro, poder canalizar mais apoios (materiais e imateriais) para esta ONG. Talvez o Pepito nos possa ajudar, falando-nos das suas necessidades e prioridades... Mas, para já, aqui vai o meu grande abraço, o nosso grande abraço de amigos e camaradas da Guiné, ao Pepito e à sua equipa, um abraço longo de 4 mil quilómetros, que é a distância física que nos separa... O importante, o mais importante, é o traço de união que nos mantém ligados à Guiné e ao seu povo, pela história, pela cultura, pela língua e até pela dura experiência da guerra...

7. Com a modéstia, a sensibilidade e a honestidade intelectual que lhe são próprias, o Pepito acaba de nos mandar duas palavras de agradecimento. Aqui ficam, para conhecimento de todos. Aproveito também para lhe agradecer a referência (elogiosa) que ele faz, no supracitado relatório, ao discreto e modesto trabalho do nosso blogue:

"Amigo Luís: Muito obrigado por teres difundido o nosso relatório da AD e também pelas palavras que nos tocaram muito.

"Vindas de quem vêm e de quem muito consideramos, têm um especial valor e dão-nos aquela coragem para continuar e para acreditar.

"É no silêncio de nós próprios que as relembramos quando nos assaltam dúvidas e decidimos continuar a lutar.

"Obrigado. Abraços amigos. pepito"

Guiné 63/74 - DCCXXI: Ainda o caso do Seni Candé (Pelotão de Milícias nº 143)

Texto do Hugo Moura Ferreira, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1621 e CCAÇ 6 (1966/68)


Caros amigos:

Depois de algumas tentativas, baseando-me apenas na data de nascimento do Seni Candé, não esperando pela informação do nome dos pais, voltei ao Arquivo Geral do Exército onde localizei o seu processo individual (1).

Conclui, conjuntamente com a pessoa que me facultou as indicações, que ambos os números indicados nas nossas mensagens estavam correctos.

Também concluímos que ele nunca foi das companhias territoriais (CCAÇ 6), mas sim do Pelotão de Milícia nº 143, comandado pelo Alferes de 2ª linha, Tala Biú Djaló, meu grande amigo, morto em combate em Conakry, durante a Op Mar Verde, como furriel da 1ª Companhia de Comandos Africanos.

Conversando, oficiosamente, naquele serviço do Exército, foi-me dito, no que se refere à Pensão perdida pelo Seni, que havia a possibilidade de ele poder requerer a sua reactivação.

Mas aqui começam as dificuldades maiores. Para tal, teria que estar em Portugal, para poder solicitar pessoalmente a comparência a uma nova Junta Médica e, ao mesmo tempo, caso se ausentasse, teria que ter uma morada no território nacional para poder ser contactado, consoante a evolução do processo.

Neste último ponto, naturalmente que eu não poria qualquer entrave em que a minha morada pessoal fosse utilizada para tal fim, mas antes haveria que se proceder em conformidade e a presença dele seria imprescindível.

Claro que este é o caso vertente do Seni Candé, mas como ele deve haver muitos mais que gostariam que os seus processos fossem reabertos... E que nós bem gostaríamos de ajudar também.

Naturalmente, penso que uma tarefa destas se me afigura de possibilidades muito remotas, no entanto, quem sabe se poderemos vir a ajudar algum deles, ou mesmo o Seni Candé.

Essa possibilidade ficará, se me permitem o alvitre, sem querer chutar a bola no inicio do jogo à consideração e disponibilidade do Jorge Neto que, numa primeira análise, teria que conversar com o interessado a propósito da questão.

Uma abraço a todos.

Moura Ferreira

_____

Nota de L.G.,

(1) Vd. posts anteriores:

5 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCVII: A pensão do Seni Candé

10 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXVI: O Seni Candé da minha CCAÇ 6 (Moura Ferreira)

9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DX: O abandono do Seni Candé (Zé Neto)

8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DVI: As (des)venturas de Seni Candé (Jorge Neto)

Guiné 63/74 - DCCXXI: Ainda o caso do Seni Candé (Pelotão de Milícias nº 143)

Texto do Hugo Moura Ferreira, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1621 e CCAÇ 6 (1966/68)


Caros amigos:

Depois de algumas tentativas, baseando-me apenas na data de nascimento do Seni Candé, não esperando pela informação do nome dos pais, voltei ao Arquivo Geral do Exército onde localizei o seu processo individual (1).

Conclui, conjuntamente com a pessoa que me facultou as indicações, que ambos os números indicados nas nossas mensagens estavam correctos.

Também concluímos que ele nunca foi das companhias territoriais (CCAÇ 6), mas sim do Pelotão de Milícia nº 143, comandado pelo Alferes de 2ª linha, Tala Biú Djaló, meu grande amigo, morto em combate em Conakry, durante a Op Mar Verde, como furriel da 1ª Companhia de Comandos Africanos.

Conversando, oficiosamente, naquele serviço do Exército, foi-me dito, no que se refere à Pensão perdida pelo Seni, que havia a possibilidade de ele poder requerer a sua reactivação.

Mas aqui começam as dificuldades maiores. Para tal, teria que estar em Portugal, para poder solicitar pessoalmente a comparência a uma nova Junta Médica e, ao mesmo tempo, caso se ausentasse, teria que ter uma morada no território nacional para poder ser contactado, consoante a evolução do processo.

Neste último ponto, naturalmente que eu não poria qualquer entrave em que a minha morada pessoal fosse utilizada para tal fim, mas antes haveria que se proceder em conformidade e a presença dele seria imprescindível.

Claro que este é o caso vertente do Seni Candé, mas como ele deve haver muitos mais que gostariam que os seus processos fossem reabertos... E que nós bem gostaríamos de ajudar também.

Naturalmente, penso que uma tarefa destas se me afigura de possibilidades muito remotas, no entanto, quem sabe se poderemos vir a ajudar algum deles, ou mesmo o Seni Candé.

Essa possibilidade ficará, se me permitem o alvitre, sem querer chutar a bola no inicio do jogo à consideração e disponibilidade do Jorge Neto que, numa primeira análise, teria que conversar com o interessado a propósito da questão.

Uma abraço a todos.

Moura Ferreira

_____

Nota de L.G.,

(1) Vd. posts anteriores:

5 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCVII: A pensão do Seni Candé

10 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXVI: O Seni Candé da minha CCAÇ 6 (Moura Ferreira)

9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DX: O abandono do Seni Candé (Zé Neto)

8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DVI: As (des)venturas de Seni Candé (Jorge Neto)

Guiné 63/74 - DCCXX: O cheiro fétido dos navios que transportavam 'carne para canhão'

Navio de carga Alenquer > Foi construído em Inglaterra em 1948. O seu comprimento era de cerca de 137 metros. A sua arqueação bruta não chegava às 5,3 mil toneladas. Armador: Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa. Velocidade de cruzeiro: 13 nós. Nº de tripulantes: 37. Foi nesta embarcação que o José Martins (CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70) foi parar à Guiné...

Fonte: Navios Mercantes Portugueses (2000)

N/M Ana Mafalda > Foi neste luxuoso paquete da nossa marinha mercante colonial que companhias como a CART 1690 (Geba, 1967/69), do A. Marques Lopes, ou a CART 2339 (Mansambo, 1968/69), do Carlos Marques dos Santos, partiram de Lisboa com destino à Guiné ...

O Ana Mafalda era um navio misto, de carga e de passageiros, construído pela CUF - Companhia União Fabril, em Lisboa, em 1951 e abatido em 1975. O seu comprimento era de 103 metros. A sua arqueação bruta pouco ultrapassava as 3,3 mil toneladas. Teve dois armadores: Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa (1950-1972); e Companhia Nacional de Navegação, Lisboa (1972-1973). Velocidade de cruzeiro: 12 nós. Alojamentos para 16 passageiros em primeira classe, 24 em segunda e 12 em terceira classe, no total de 52 passageiros. Nº de tripulantes: 47.

Fonte: Navios Mercantes Portugueses (2000) (com a devida vénia)


1. A propósito do transporte de tropas para a Guiné (durante muito tempo, exclusivamente de barco), lancei para a tertúlia a seguinte questão, que não é inocente mas também não é provocatória:
- Vocês ainda se lembram do cheiro nauseabundo, fétido, do cheiro a merda e a vomitado, que vinha dos porões dos Niassas, dos Uíges e dos outros navios negreiros que transportavam a carne para canhão ?... Oficiais e sargentos iam em 1ª classe e em classe turística, já não se devem lembrar muito bem desses malditos, inconfundíveis e indescritíveis cheiros… Mas o pobre soldado, meu Deus!, esse seguramente que ainda hoje se lembra desse cheiro nauseabundo, tão característico dos navios da nossa marinha mercante que foram fretados pela tropa.... Enfim, estamos a falar das duras condições em que chegavamos à Guiné, o tal sítio que ficava longe do Vietname...

Alguns camaradas apressaram-se a responder-me, dando o seu testemunho, fazendo um comentário ou contando uma pequena estória... Estou-lhes grato.

2. Mensagem do David Guimarães, com data de ontem:

Amigo Luís:

Boa estada em Itália. Isso importa. Depois continuarás esta amálgama de guerra em que estamos... Ainda bem, pois vale a pena... Acho que parar não, muitas histórias há a contar e muitos barcos a explorar. Isso, aqueles que nos levaram e trouxeram à guerra, embora eu fosse já um dos primeiros que gozei o privilégio de voltar em Avião 707 dos TAM [Transportes Aéreos Militares]... Que luxo!

3. Mensagem do Carlos Marques Santos:

(...) Só de propores que se fale dos cheiros dos nossos paquetes, já estou com náuseas. Cinco dias intermináveis!

Nem de sargento de dia se podia fazer o porão, onde desgraçadamente iam amontoados os soldados.

Só vivido. Contado ninguém acredita.

Eu e os meus fomos no Ana Mafalda. Esse era um autêntico negreiro.

4. Texto do José Martins:

Caro Luís: Antes de mais faz uma boa viagem e goza esses dias de calmaria (?) em
Itália. Cuidado com os mafiosos!

Estórias da minha ida de barco, o Alenquer, é bastante soft. Levava apenas 12 passageiros. Creio que tenho algo escrito sobre a viagem. Em caso afirmativo irei enviar. Será uma estória fora do contexto normal.

Quanto à História (com H, grande) é fantástica. É digna de antologia, já que escritos como este não abundam. É pena porque estas histórias deviam/devem ser dadas à estampa.

Um abraço do José Martins (ex-furriel miliciano de transmissões, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)

5. O Marques Lopes tem uma descrição realista mas bem-humorada da sua viagem no Ana Mafalda: vd post de 28 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXXVII: A caminho da Guiné, no "Ana Mafalda" (1967)

Aqui vão alguns excertos, para recordar:

(...) "Os alferes, sargentos e furriéis foram distribuídos pelos beliches dos camarotes de segunda e terceira classe. Em primeira classe ficou o capitão da companhia, o comandante do navio, o imediato, o oficial das máquinas, certamente, e uns mangas que se penduraram em nós à boleia, que eu não sei quem eram nem procurei saber.

"O Zé Soldado, sempre o mais fodido nestas situações, foi para o porão onde estavam montados uns beliches de ferro com umas enxergas em cima, e onde casa de banho não havia.

"Largámos às 12h00 do dia 8 de Abril de 1967. Foi uma bela viagem, como devem calcular, com os baldes dos dejectos do porão a serem despejados borda fora de manhã e ao fim da tarde (ao menos haja regras). Mas os despejos começaram logo à saída da barra do Tejo. Eu, pessoalmente, nunca tinha chamado tantas vezes pelo Gregório" (...).

6. Eu próprio já aqui evoquei a minha viagem no Niassa, em finais de Maio de 1969: vd post de 23 de Junho de 2005 > Guiné 63/74 - LXXVI: (i) A bordo do Niassa; (ii) Chegada a Bissau

(...) "Excertos do Diário de um tuga. Luis Graça (ex-furriel miliciano Henriques CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71).

(...) "Eis-nos nos tristes trópicos. Atravessámos hoje o Trópico de Câncer, com peixes voadores e alguns tubarões a acompanhar-nos (...).

"Alguém se lembrou de abrir uma garrafa de champagne como se tivéssemos atravessado o Equador em alegre cruzeiro pelo Atlântico Sul. Com um sorriso amarelo, também participei neste ritual de iniciação e ergui a minha taça:
- Afinal, estamos todos no mesmo barco!, - pensei.

"De resto, come-se e bebe-se o dia todo para matar o tédio da vida a bordo. Há os viciados da lerpa. Os oficiais superiores, esses, divertem-se com o tiro ao alvo na popa do navio, enquanto a malta da turística escreve cartas, aos pais, namoradas, noivas e mulheres, cartas que eu imagino já molhadas de lágrimas salgadas e de saudades. As praças, essas, vomitam nos porões. Todo o navio fede e no meio do cheiro nauseabundo há um desgraçado de um desertor que vai a ferros" (...).

7. Testemundo do Carlos Vinhal:

Caros camaradas.

Eu também foi um digno passageiro do Ana Mafalda.

Não há dúvida que o Ana Mafalda se fartou de levar gente para a Guiné. Parece que a grande maioria dos tertulianos viajaram nele.

Quando a minha Companhia embarcou no Ana Mafalda no Cais do Porto do Funchal, já ele vinha com lotação esgotada. Juro que é verdade. Trazia dos Açores uma Companhia açoriana e ainda lá conseguiram meter uma madeirense.

O navio já trazia uma vedação em madeira que dividia o barco a meio, para impedir que açorianos e madeirenses se juntassem e trocassem mimos entre eles. Ainda houve umas escaramuças através das grades, mas nada digno de registo ou que fosse contra o RDM. Só um pouco de álcool à mistura.

Confesso humildemente que nunca desci aos porões, porque não tive coragem. Espreitei uma vez cá de cima lá para baixo e chegou. Por sorte não me tocou nenhum Sargento de Dia a bordo.

Apesar de tudo a viagem foi tão pequena que o sofrimento não deve ter sido muito e apenas se dormiram 4 noites a bordo. Durante o dia o pessoal andava cá por cima.

Alguém falou de imundicie, e de fome ninguém fala? Eu já fui dos sortudos que vieram de avião, mas tenho amigos que regressaram também de navio e queixam-se de que a alimentação no regresso era inferior e de pior qualidade, comparada com a de ida. Subentende-se que para lá nos queriam gordinhos, para cá cada um que se desenrascasse - passe o termo pouco ortodoxo.
Cordiais saudações.

Carlos Vinhal

Guiné 63/74 - DCCXX: O cheiro fétido dos navios que transportavam 'carne para canhão'

Navio de carga Alenquer > Foi construído em Inglaterra em 1948. O seu comprimento era de cerca de 137 metros. A sua arqueação bruta não chegava às 5,3 mil toneladas. Armador: Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa. Velocidade de cruzeiro: 13 nós. Nº de tripulantes: 37. Foi nesta embarcação que o José Martins (CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70) foi parar à Guiné...

Fonte: Navios Mercantes Portugueses (2000)

N/M Ana Mafalda > Foi neste luxuoso paquete da nossa marinha mercante colonial que companhias como a CART 1690 (Geba, 1967/69), do A. Marques Lopes, ou a CART 2339 (Mansambo, 1968/69), do Carlos Marques dos Santos, partiram de Lisboa com destino à Guiné ...

O Ana Mafalda era um navio misto, de carga e de passageiros, construído pela CUF - Companhia União Fabril, em Lisboa, em 1951 e abatido em 1975. O seu comprimento era de 103 metros. A sua arqueação bruta pouco ultrapassava as 3,3 mil toneladas. Teve dois armadores: Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa (1950-1972); e Companhia Nacional de Navegação, Lisboa (1972-1973). Velocidade de cruzeiro: 12 nós. Alojamentos para 16 passageiros em primeira classe, 24 em segunda e 12 em terceira classe, no total de 52 passageiros. Nº de tripulantes: 47.

Fonte: Navios Mercantes Portugueses (2000) (com a devida vénia)


1. A propósito do transporte de tropas para a Guiné (durante muito tempo, exclusivamente de barco), lancei para a tertúlia a seguinte questão, que não é inocente mas também não é provocatória:
- Vocês ainda se lembram do cheiro nauseabundo, fétido, do cheiro a merda e a vomitado, que vinha dos porões dos Niassas, dos Uíges e dos outros navios negreiros que transportavam a carne para canhão ?... Oficiais e sargentos iam em 1ª classe e em classe turística, já não se devem lembrar muito bem desses malditos, inconfundíveis e indescritíveis cheiros… Mas o pobre soldado, meu Deus!, esse seguramente que ainda hoje se lembra desse cheiro nauseabundo, tão característico dos navios da nossa marinha mercante que foram fretados pela tropa.... Enfim, estamos a falar das duras condições em que chegavamos à Guiné, o tal sítio que ficava longe do Vietname...

Alguns camaradas apressaram-se a responder-me, dando o seu testemunho, fazendo um comentário ou contando uma pequena estória... Estou-lhes grato.

2. Mensagem do David Guimarães, com data de ontem:

Amigo Luís:

Boa estada em Itália. Isso importa. Depois continuarás esta amálgama de guerra em que estamos... Ainda bem, pois vale a pena... Acho que parar não, muitas histórias há a contar e muitos barcos a explorar. Isso, aqueles que nos levaram e trouxeram à guerra, embora eu fosse já um dos primeiros que gozei o privilégio de voltar em Avião 707 dos TAM [Transportes Aéreos Militares]... Que luxo!

3. Mensagem do Carlos Marques Santos:

(...) Só de propores que se fale dos cheiros dos nossos paquetes, já estou com náuseas. Cinco dias intermináveis!

Nem de sargento de dia se podia fazer o porão, onde desgraçadamente iam amontoados os soldados.

Só vivido. Contado ninguém acredita.

Eu e os meus fomos no Ana Mafalda. Esse era um autêntico negreiro.

4. Texto do José Martins:

Caro Luís: Antes de mais faz uma boa viagem e goza esses dias de calmaria (?) em
Itália. Cuidado com os mafiosos!

Estórias da minha ida de barco, o Alenquer, é bastante soft. Levava apenas 12 passageiros. Creio que tenho algo escrito sobre a viagem. Em caso afirmativo irei enviar. Será uma estória fora do contexto normal.

Quanto à História (com H, grande) é fantástica. É digna de antologia, já que escritos como este não abundam. É pena porque estas histórias deviam/devem ser dadas à estampa.

Um abraço do José Martins (ex-furriel miliciano de transmissões, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)

5. O Marques Lopes tem uma descrição realista mas bem-humorada da sua viagem no Ana Mafalda: vd post de 28 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXXVII: A caminho da Guiné, no "Ana Mafalda" (1967)

Aqui vão alguns excertos, para recordar:

(...) "Os alferes, sargentos e furriéis foram distribuídos pelos beliches dos camarotes de segunda e terceira classe. Em primeira classe ficou o capitão da companhia, o comandante do navio, o imediato, o oficial das máquinas, certamente, e uns mangas que se penduraram em nós à boleia, que eu não sei quem eram nem procurei saber.

"O Zé Soldado, sempre o mais fodido nestas situações, foi para o porão onde estavam montados uns beliches de ferro com umas enxergas em cima, e onde casa de banho não havia.

"Largámos às 12h00 do dia 8 de Abril de 1967. Foi uma bela viagem, como devem calcular, com os baldes dos dejectos do porão a serem despejados borda fora de manhã e ao fim da tarde (ao menos haja regras). Mas os despejos começaram logo à saída da barra do Tejo. Eu, pessoalmente, nunca tinha chamado tantas vezes pelo Gregório" (...).

6. Eu próprio já aqui evoquei a minha viagem no Niassa, em finais de Maio de 1969: vd post de 23 de Junho de 2005 > Guiné 63/74 - LXXVI: (i) A bordo do Niassa; (ii) Chegada a Bissau

(...) "Excertos do Diário de um tuga. Luis Graça (ex-furriel miliciano Henriques CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71).

(...) "Eis-nos nos tristes trópicos. Atravessámos hoje o Trópico de Câncer, com peixes voadores e alguns tubarões a acompanhar-nos (...).

"Alguém se lembrou de abrir uma garrafa de champagne como se tivéssemos atravessado o Equador em alegre cruzeiro pelo Atlântico Sul. Com um sorriso amarelo, também participei neste ritual de iniciação e ergui a minha taça:
- Afinal, estamos todos no mesmo barco!, - pensei.

"De resto, come-se e bebe-se o dia todo para matar o tédio da vida a bordo. Há os viciados da lerpa. Os oficiais superiores, esses, divertem-se com o tiro ao alvo na popa do navio, enquanto a malta da turística escreve cartas, aos pais, namoradas, noivas e mulheres, cartas que eu imagino já molhadas de lágrimas salgadas e de saudades. As praças, essas, vomitam nos porões. Todo o navio fede e no meio do cheiro nauseabundo há um desgraçado de um desertor que vai a ferros" (...).

7. Testemundo do Carlos Vinhal:

Caros camaradas.

Eu também foi um digno passageiro do Ana Mafalda.

Não há dúvida que o Ana Mafalda se fartou de levar gente para a Guiné. Parece que a grande maioria dos tertulianos viajaram nele.

Quando a minha Companhia embarcou no Ana Mafalda no Cais do Porto do Funchal, já ele vinha com lotação esgotada. Juro que é verdade. Trazia dos Açores uma Companhia açoriana e ainda lá conseguiram meter uma madeirense.

O navio já trazia uma vedação em madeira que dividia o barco a meio, para impedir que açorianos e madeirenses se juntassem e trocassem mimos entre eles. Ainda houve umas escaramuças através das grades, mas nada digno de registo ou que fosse contra o RDM. Só um pouco de álcool à mistura.

Confesso humildemente que nunca desci aos porões, porque não tive coragem. Espreitei uma vez cá de cima lá para baixo e chegou. Por sorte não me tocou nenhum Sargento de Dia a bordo.

Apesar de tudo a viagem foi tão pequena que o sofrimento não deve ter sido muito e apenas se dormiram 4 noites a bordo. Durante o dia o pessoal andava cá por cima.

Alguém falou de imundicie, e de fome ninguém fala? Eu já fui dos sortudos que vieram de avião, mas tenho amigos que regressaram também de navio e queixam-se de que a alimentação no regresso era inferior e de pior qualidade, comparada com a de ida. Subentende-se que para lá nos queriam gordinhos, para cá cada um que se desenrascasse - passe o termo pouco ortodoxo.
Cordiais saudações.

Carlos Vinhal

Guiné 63/74 - DCCXIX: Estórias do Zé Teixeira (7): Síndrome de guerra

Guiné-Bissau > Desenho inserido na publicação Conhecer para amar, amar para proteger: Rio Grande de Buba e Lagoa de Cufada. Bissau: Tiniguena. 1995.Imagem gentilmente cedida por José Teixeira (2006).


Aqui vão mais estórias do Zé Teixeira... Chamemos-lhe narrativas autobiográficas. Escrevê-las faz-lhe bem a ele; lê-las faz-nos bem a nós... Obrigado, Zé! Foste um herói, és um herói! (LG)

Síndrome de guerra

Passados uns meses do regresso, em plena Baixa do Porto, assisti a um embate de duas viaturas. O estrondo assustou-me e desatei a correr, parecia um carteirista logo após ter feito a maroteira de sacar a carteira a algum incauto.

Parei no Carmo a cerca de 800 metros, ofegante e desorientado, o meu corpo tremia todo. Sentei-me numa cadeira no Café piolho e pus-me a reflectir sobre o acontecido. Revi a cena e procurei compreender-me. As conclusões foram simples e rápidas: Vieram-me à memória as cenas de sangue que vivi na Guiné, o sangue ainda quente que senti nas minhas mãos, os feridos e mortos que entraram na minha vida como enfermeiro à força. Tive medo de que houvesse feridos e tudo voltasse a acontecer.

Ainda não sou capaz de parar junto de um acidente em estrada. Não dá para entender.

Passados uns anos sentia-me muito irritável. Tudo me angustiava. Reagia sobretudo com a família de forma menos correcta o que não era consentâneo com a minha maneira de pensar, ser e estar na vida.

Procurei um neurologista amigo. Falei largos minutos, mais de uma hora, talvez. A receita deixou-me de boca aberta:
- São efeitos secundários da guerra que viveste, e que estão a vir ao de cima. Os medicamentos não curam isso. Só o tempo te vai ajudar. -

E o tempo tem vinmdo, de facto, a ajudar. Aconselhou-me a deixar o tabaco, o que não era problema, pois desde que fui para a tropa que tinha saído dos meus hábitos. Deixar de tomar café, o que foi mais difícil. Aguentei oito dias e para comemorar, voltei . Só que felizmente foi ao fim da tarde e com estava em desintoxicação, passei a noite sem dormir e depois… aguentei mais de dez anos. Hoje tomo um por dia, da parte de manhã.

Aconselhou-me ainda a não abusar do álcool, o que também não era problema, pelo que ainda aqui estou.

Em 1999 tive de fazer um exame ao aparelho auditivo, devido a uns ruídos estranhos que sentia e por cá ficaram. Trata-se de artero-esclerose dos vasos capilares auditivos, que origina um ruído do sangue ao forçar a sua passagem nos vasos. Nada de grave, só que levarei esses ruídos para a cova um dia. Incomoda, mas não dói, nem afecta a saúde.

O estranho é a descoberta que o médico fez. Tenho uma quebra de audição nos sons agudos de cerca de 20%. Pergunta-me o médico:
- Andou na guerra ?
- Sim estive na Guiné entre 1968 a 1970.
- Mas andou mesmo nas zonas de combate ?
- Sim, sofri muitos ataques, acompanhei ataques, sofri emboscadas . . .
- Então está explicado a sua quebra de audição nos agudos. Chama-se síndrome de guerra e está dentro dos limites previstos, não se preocupe porque não vai evoluir, disse o médico.

Chega de estórias estranhas à guerra, mas que são reflexos da guerra que vivi.
Venham mais cinco, para contar mais estórias destas que as há por aí.

José Teixeira
(1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Guiné 63/74 - DCCXIX: Estórias do Zé Teixeira (7): Síndrome de guerra

Guiné-Bissau > Desenho inserido na publicação Conhecer para amar, amar para proteger: Rio Grande de Buba e Lagoa de Cufada. Bissau: Tiniguena. 1995.Imagem gentilmente cedida por José Teixeira (2006).


Aqui vão mais estórias do Zé Teixeira... Chamemos-lhe narrativas autobiográficas. Escrevê-las faz-lhe bem a ele; lê-las faz-nos bem a nós... Obrigado, Zé! Foste um herói, és um herói! (LG)

Síndrome de guerra

Passados uns meses do regresso, em plena Baixa do Porto, assisti a um embate de duas viaturas. O estrondo assustou-me e desatei a correr, parecia um carteirista logo após ter feito a maroteira de sacar a carteira a algum incauto.

Parei no Carmo a cerca de 800 metros, ofegante e desorientado, o meu corpo tremia todo. Sentei-me numa cadeira no Café piolho e pus-me a reflectir sobre o acontecido. Revi a cena e procurei compreender-me. As conclusões foram simples e rápidas: Vieram-me à memória as cenas de sangue que vivi na Guiné, o sangue ainda quente que senti nas minhas mãos, os feridos e mortos que entraram na minha vida como enfermeiro à força. Tive medo de que houvesse feridos e tudo voltasse a acontecer.

Ainda não sou capaz de parar junto de um acidente em estrada. Não dá para entender.

Passados uns anos sentia-me muito irritável. Tudo me angustiava. Reagia sobretudo com a família de forma menos correcta o que não era consentâneo com a minha maneira de pensar, ser e estar na vida.

Procurei um neurologista amigo. Falei largos minutos, mais de uma hora, talvez. A receita deixou-me de boca aberta:
- São efeitos secundários da guerra que viveste, e que estão a vir ao de cima. Os medicamentos não curam isso. Só o tempo te vai ajudar. -

E o tempo tem vinmdo, de facto, a ajudar. Aconselhou-me a deixar o tabaco, o que não era problema, pois desde que fui para a tropa que tinha saído dos meus hábitos. Deixar de tomar café, o que foi mais difícil. Aguentei oito dias e para comemorar, voltei . Só que felizmente foi ao fim da tarde e com estava em desintoxicação, passei a noite sem dormir e depois… aguentei mais de dez anos. Hoje tomo um por dia, da parte de manhã.

Aconselhou-me ainda a não abusar do álcool, o que também não era problema, pelo que ainda aqui estou.

Em 1999 tive de fazer um exame ao aparelho auditivo, devido a uns ruídos estranhos que sentia e por cá ficaram. Trata-se de artero-esclerose dos vasos capilares auditivos, que origina um ruído do sangue ao forçar a sua passagem nos vasos. Nada de grave, só que levarei esses ruídos para a cova um dia. Incomoda, mas não dói, nem afecta a saúde.

O estranho é a descoberta que o médico fez. Tenho uma quebra de audição nos sons agudos de cerca de 20%. Pergunta-me o médico:
- Andou na guerra ?
- Sim estive na Guiné entre 1968 a 1970.
- Mas andou mesmo nas zonas de combate ?
- Sim, sofri muitos ataques, acompanhei ataques, sofri emboscadas . . .
- Então está explicado a sua quebra de audição nos agudos. Chama-se síndrome de guerra e está dentro dos limites previstos, não se preocupe porque não vai evoluir, disse o médico.

Chega de estórias estranhas à guerra, mas que são reflexos da guerra que vivi.
Venham mais cinco, para contar mais estórias destas que as há por aí.

José Teixeira
(1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Guiné 63/74 - DCCXVIII: Estórias do Zé Teixeira (6): um atribulado regresso

Post nº 718 (DCCXVIII)

José Teixeira, ex- 1º cabo enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70.

© José Teixeira (2006)


Atribulado regresso

Quando soubemos a data definitiva da partida de Bissau foi um alegre alvoroço (1). Cada um pensava como ia conseguir descortinar a família no cais de desembarque, em Lisboa, tal seria a multidão. Os Enfermeiros decidiram fazer um cartaz com uma cruz vermelha e a palavra Empada para se dar a reconhecer às respectivas famílias.

Escreveu-se para as famílias a dar a informação e a pedir para estas corresponderam da mesmo modo. Chegados ao cais, após uma noite não dormida no alto Tejo, com Lisboa à vista, há que desfraldar o cartaz e as famílias foram dando sinais, só a minha é que não aparecia. Fiquei sozinho com o cartaz, já enrolado e continuei a percorrer o barco de ponta a ponta com os olhos postos na enorme plateia de gente que acenava, chamava, gritava pelos nomes dos seus queridos, só eu, nada.

Lá vislumbrei a minha cunhada e o meu irmão. Saltei de alegria, comecei a dar pancadas na borda do barco com o pau da bandeira e nesse instante entrei num estado de amnésia. Desliguei-me desta cena e continuei a procura, por estranho que pareça, da minha família, que tinha acabado de localizar. Fui dos últimos a descer do barco, deixei os trastes, junto de um colega que estava já com os seus familiares e fui à procura de quem já tinha localizado, mas não me recordava.

Minha mãe e meus irmãos fixaram-se no sítio onde estavam e olhavam para mim lá em cima, estranhavam que não descesse e mais estranharam quando desembarquei, passei por duas vezes a cerca de dois metros deles, não os ouvia chamar por mim e continuava à sua procura.


Matosinhos > O Zé Teixeira, hoje, ex-gerente bancário, reformado, contador de estórias da Guiné, apaixonado pela Guiné e pelo seu povo... Voltou lá em 2005...© José Teixeira (2006)


Encontrei a minha namorada, hoje minha esposa, e lá continuamos à procura, até que sinto uma mão a agarrar-me. Era o meu irmão que tinha saltado a barreira de controlo. Claro que este momento de reencontro foi de extrema felicidade, mas notei por parte da minha mãe, alguma frieza que se alastrou a toda a família e que durou por cerca de 8 dias.

Argumentavam que eu os tinha localizado do barco. Eu negava. Insistiam que passei junto a eles já no Cais por duas vezes e chamavam por mim, que eu olhava e continuava em frente. Eu negava. Pois é, preocupava-me mais em procurar a namorada que a minha querida mãe. Estava aqui o busílis da questão.
,

reformado
© José Teixeira (2006)
O mal estar em surdina era profundo. Evitavam falar comigo. Pensei em sair de casa, apesar de estar sem cheta e desempregado. Um dia, minha irmã, que não tinha ido esperar-me, chegou da escola nocturna e sentou-se a beira da minha cama. Era a única que procurava entender-me. O assunto foi o que nos desunia. Começou por comigo refazer a história que eu negava. Dizia ela:
- Tu andavas no barco de um lado para o outro, fazias muitos gestos para as pessoas que estavam no Cais e, em determinado momento, localizaste a nossa família. Dizem que entraste em euforia, aos saltos e bateste com um pau na borda do barco.

Pegou na régua que trazia com ela e repetiu o gesto na borda da cama:
- Truz ! Truz ! Truz!
Três pancadas que senti na minha cabeça e fez-se luz, na minha memória. Revi num ápice todas as cenas que se passaram e era tudo verdadeiro o que minha mãe afirmava.
Saltei da cama e fui ter com ela que já dormia a sono solto.

Deixo aos prezados leitores a construção do imaginário que se seguiu.

© José Teixeira (2006)

Vd. também o Blogue > Os Maiorais de Empada

___________

Nota de L.G.

(1) Vd post de 14d e Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXVI: O meu diário (Zé Teixeira) (fim): Confesso que vi e vivi

Guiné 63/74 - DCCXVIII: Estórias do Zé Teixeira (6): um atribulado regresso

Post nº 718 (DCCXVIII)

José Teixeira, ex- 1º cabo enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70.

© José Teixeira (2006)


Atribulado regresso

Quando soubemos a data definitiva da partida de Bissau foi um alegre alvoroço (1). Cada um pensava como ia conseguir descortinar a família no cais de desembarque, em Lisboa, tal seria a multidão. Os Enfermeiros decidiram fazer um cartaz com uma cruz vermelha e a palavra Empada para se dar a reconhecer às respectivas famílias.

Escreveu-se para as famílias a dar a informação e a pedir para estas corresponderam da mesmo modo. Chegados ao cais, após uma noite não dormida no alto Tejo, com Lisboa à vista, há que desfraldar o cartaz e as famílias foram dando sinais, só a minha é que não aparecia. Fiquei sozinho com o cartaz, já enrolado e continuei a percorrer o barco de ponta a ponta com os olhos postos na enorme plateia de gente que acenava, chamava, gritava pelos nomes dos seus queridos, só eu, nada.

Lá vislumbrei a minha cunhada e o meu irmão. Saltei de alegria, comecei a dar pancadas na borda do barco com o pau da bandeira e nesse instante entrei num estado de amnésia. Desliguei-me desta cena e continuei a procura, por estranho que pareça, da minha família, que tinha acabado de localizar. Fui dos últimos a descer do barco, deixei os trastes, junto de um colega que estava já com os seus familiares e fui à procura de quem já tinha localizado, mas não me recordava.

Minha mãe e meus irmãos fixaram-se no sítio onde estavam e olhavam para mim lá em cima, estranhavam que não descesse e mais estranharam quando desembarquei, passei por duas vezes a cerca de dois metros deles, não os ouvia chamar por mim e continuava à sua procura.


Matosinhos > O Zé Teixeira, hoje, ex-gerente bancário, reformado, contador de estórias da Guiné, apaixonado pela Guiné e pelo seu povo... Voltou lá em 2005...© José Teixeira (2006)


Encontrei a minha namorada, hoje minha esposa, e lá continuamos à procura, até que sinto uma mão a agarrar-me. Era o meu irmão que tinha saltado a barreira de controlo. Claro que este momento de reencontro foi de extrema felicidade, mas notei por parte da minha mãe, alguma frieza que se alastrou a toda a família e que durou por cerca de 8 dias.

Argumentavam que eu os tinha localizado do barco. Eu negava. Insistiam que passei junto a eles já no Cais por duas vezes e chamavam por mim, que eu olhava e continuava em frente. Eu negava. Pois é, preocupava-me mais em procurar a namorada que a minha querida mãe. Estava aqui o busílis da questão.
,

reformado
© José Teixeira (2006)
O mal estar em surdina era profundo. Evitavam falar comigo. Pensei em sair de casa, apesar de estar sem cheta e desempregado. Um dia, minha irmã, que não tinha ido esperar-me, chegou da escola nocturna e sentou-se a beira da minha cama. Era a única que procurava entender-me. O assunto foi o que nos desunia. Começou por comigo refazer a história que eu negava. Dizia ela:
- Tu andavas no barco de um lado para o outro, fazias muitos gestos para as pessoas que estavam no Cais e, em determinado momento, localizaste a nossa família. Dizem que entraste em euforia, aos saltos e bateste com um pau na borda do barco.

Pegou na régua que trazia com ela e repetiu o gesto na borda da cama:
- Truz ! Truz ! Truz!
Três pancadas que senti na minha cabeça e fez-se luz, na minha memória. Revi num ápice todas as cenas que se passaram e era tudo verdadeiro o que minha mãe afirmava.
Saltei da cama e fui ter com ela que já dormia a sono solto.

Deixo aos prezados leitores a construção do imaginário que se seguiu.

© José Teixeira (2006)

Vd. também o Blogue > Os Maiorais de Empada

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Nota de L.G.

(1) Vd post de 14d e Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXVI: O meu diário (Zé Teixeira) (fim): Confesso que vi e vivi

Guiné 63/74 - DCCXVII: Estórias cabralianas (9): Má chegada, pior partida

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Jovem fula ou mandinga vestido o seu grandbubu, e protegemdo-se da canícula por intermédio do seu inseparável chapéu automático (dois luxos que chegavam à tabancas do interior, graças ao comércio dos djilas do tchon francês e ao patacon ganho na tropa) (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).



N/M Alfredo da Silva: foto obtida (com a devida vénia) do excelente sítio Navios Mercantes Portugueses, de visita obrigatória para quem quiser relembrar ou conhecer o nosso passado de potência marítima...

O Alfredo da Silva era um navio misto, de carga e de passageiros, construído pela CUF - Companhia União Fabril, em Lisboa, em 1949 e abatido em 1973. Ostenta de resto o nome do fundador daquele grupo económico cujos interesses, na Guiné, eram representados pela sua subsidiária, a famosa Casa Gouveia. O seu comprimento não chegava aos 103 metros. A sua arqueação bruta era de 3.374 toneladas. Teve dois armadores: Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa (1950-1972); e Companhia Nacional de Navegação, Lisboa (1972-1973). Velocidade de cruzeiro: 12 nós. Alojamentos para 20 passageiros em primeira classe e 68 em classe turística, num total de 88 passageiros. Nº de tripulantes: 45. Foi este navio da marinha mercante que levou até à Guiné o nosso amigo e camarada Jorge Cabral, em 1969.

Texto de Jorge Cabral (ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71):


Má chegada, pior partida – mas sempre sob a ameaça de uma porrada


Com destino à Guerra, viajei no Alfredo da Silva, quase um cacilheiro, durante doze dias. Em primeira classe, sete oficiais e uma dona puta em pré-reforma habitavam um ambiente de opereta, jantando de gravata, com a estafada dama na mesa do comando. Depois havia a valsa… Cheirava a mofo, a decadência, ao fim do Império…

Cheguei à noite, sentindo logo a África, no calor, na cor, na humidade. A bordo subiram militares, e o putativo marido da senhora, cuja profissão nunca descobri. Um sargento gago carimbou-me a guia de marcha e assinalou:
- Pel. Caç. Nat. 63. - Bem lhe perguntei o significado da sigla e para onde ia, mas não sabia ou não quis dizer.

Desembarcado, apanhei uma boleia num camião militar carregado de batatas, que me deixou no Biafra, depósito de alferes em trânsito por Bissau.

Talvez para impressionarem o periquito, todos se mostraram totalmente apanhados. Quanto ao meu destino foram animadores
- É pá, vais para um pelotão de nharros. É só embrulhar. Estás lixado.

Apresentado no Quartel-General, ordenaram-me a partida para o Xime. Tinha que tomar um Barco no dia seguinte, às tantas horas. Regressado ao Biafra, aconselharam-me a não ir:
- Recusa-te. Os Barcos são sempre atacados.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Fá Mandinga > 1970 > Um dia o Jorge Cabral sonhou que podia ser fula entre os fulas, mandinga entre os mandingas, guinéu entre os guinéus, homem entre os homens e até louco entre os loucos... Afinal, todos nós temos direito a um pouco de loucura e de humanidade, o que implica pôr-nos na pele do outro (LG).

© Jorge Cabral (2005)


Confiante na experiência dos velhinhos, falhei o embarque tendo voltado ao Q. G. Aí um Capitão barrigudo, passou-me a um Major nervoso, que me remeteu para um Tenente-Coronel que, quase apopléctico, me descompôs:
- Começa mal! Está a pedir uma porrada. As ordens são para cumprir. Desapareça da minha vista!

Desapareci, e o certo é que fui de avião para Bafatá.

Muitos dias, muitos meses, mais de dois anos passaram e eu continuei no mato. (As cunhas funcionavam na perfeição. Chegados a Bissau, em rendição individual, podiam ser encaixados, sem grande escândalo, em qualquer Repartição.) Tinha porém de ser rendido, e a solução foi encontrada a nível de Batalhão, substituindo-me por um alferes da Companhia de Mansambo.

Entretanto o meu Pelotão foi para a ponte do rio Undunduma e a Missirá voltou o Pel Caç Nat 52, tendo eu permanecido mais três semanas, e entrado ainda numa operação, na qual morreram dois soldados africanos que, indo a fumar o mesmo cigarro, accionaram uma mina anti-pessoal reforçada.

Finalmente, e após uns dias em Bambadinca, embarquei no Xime com destino a Bissau. Recusara à chegada, mas afinal regressava de barco… e ao Biafra. Agora eu era o velhinho e o apanhado.

No dia da partida, eu que cismara aparecer em Lisboa vestido com o grandbubu azul, bordado a ouro, que comprara a um djila senegalês em Missirá, resolvera mandar encurtar a vestimenta a um costureiro de rua. Enquanto esperava, passou por mim um furriel conhecido, que me alertou, o voo havia sido antecipado. À pressa, pego no fato, meto-me num táxi e vou para Bissalanca (toda a minha bagagem, fotografias, o meu diário, os versos que escrevi, ficaram no Biafra).

Chegado ao aeroporto enverguei o meu traje, causando o espanto e o riso dos passageiros, militares. Eis que sou cercado por um Coronel e dois Majores, os quais em coro me determinam:
– Não pode ir assim, é uma vergonha, lembre-se que é um oficial, blá, blá, blá…
Tento contestar:
- Se um fula pode embarcar com um fato europeu, porque não posso eu ir vestido à fula?

Nada feito, se persistir não vou e levarei uma porrada. Obrigado a obedecer, lá entro no avião, no qual segue também o Coronel, o que impediu de me fardar a bordo.

Teimoso porém, mal chego a Lisboa, envergo o grandbubu, e é com ele vestido que abraço a família. Franze o sobrolho o meu pai que me diz que o Carnaval ainda não chegou, que tenha juízo e não o faça passar vergonhas… Quanto à minha mãe, chora, talvez de alegria, mas muito mais de tristeza. Coitado do filho…enlouqueceu.

Num destes dias vou de novo vestir o meu grandbubu. Pode ser que tenha conquistado o direito a um pouco de loucura. Talvez…

Guiné 63/74 - DCCXVII: Estórias cabralianas (9): Má chegada, pior partida (Jorge Cabral)


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Jovem fula ou mandinga vestido o seu grandbubu, e protegemdo-se da canícula por intermédio do seu inseparável chapéu automático (dois luxos que chegavam à tabancas do interior, graças ao comércio dos djilas do tchon francês e ao patacon ganho na tropa) (LG).

Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados




N/M Alfredo da Silva: foto obtida (com a devida vénia) do excelente sítio Navios Mercantes Portugueses, de visita obrigatória para quem quiser relembrar ou conhecer o nosso passado de potência marítima...

O Alfredo da Silva era um navio misto, de carga e de passageiros, construído pela CUF - Companhia União Fabril, em Lisboa, em 1949 e abatido em 1973. Ostenta de resto o nome do fundador daquele grupo económico cujos interesses, na Guiné, eram representados pela sua subsidiária, a famosa Casa Gouveia. O seu comprimento não chegava aos 103 metros. A sua arqueação bruta era de 3.374 toneladas. Teve dois armadores: Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa (1950-1972); e Companhia Nacional de Navegação, Lisboa (1972-1973). Velocidade de cruzeiro: 12 nós. Alojamentos para 20 passageiros em primeira classe e 68 em classe turística, num total de 88 passageiros. Nº de tripulantes: 45. Foi este navio da marinha mercante que levou até à Guiné o nosso amigo e camarada Jorge Cabral, em 1969.

Texto de Jorge Cabral (ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71):


Má chegada, pior partida – mas sempre sob a ameaça de uma porrada


Com destino à Guerra, viajei no Alfredo da Silva, quase um cacilheiro, durante doze dias. Em primeira classe, sete oficiais e uma dona puta em pré-reforma habitavam um ambiente de opereta, jantando de gravata, com a estafada dama na mesa do comando. Depois havia a valsa… Cheirava a mofo, a decadência, ao fim do Império…

Cheguei à noite, sentindo logo a África, no calor, na cor, na humidade. A bordo subiram militares, e o putativo marido da senhora, cuja profissão nunca descobri. Um sargento gago carimbou-me a guia de marcha e assinalou:
- Pel. Caç. Nat. 63. - Bem lhe perguntei o significado da sigla e para onde ia, mas não sabia ou não quis dizer.

Desembarcado, apanhei uma boleia num camião militar carregado de batatas, que me deixou no Biafra, depósito de alferes em trânsito por Bissau.

Talvez para impressionarem o periquito, todos se mostraram totalmente apanhados. Quanto ao meu destino foram animadores
- É pá, vais para um pelotão de nharros. É só embrulhar. Estás lixado.

Apresentado no Quartel-General, ordenaram-me a partida para o Xime. Tinha que tomar um Barco no dia seguinte, às tantas horas. Regressado ao Biafra, aconselharam-me a não ir:
- Recusa-te. Os Barcos são sempre atacados.

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Fá Mandinga > 1970 > Um dia o Jorge Cabral sonhou que podia ser fula entre os fulas, mandinga entre os mandingas, guinéu entre os guinéus, homem entre os homens e até louco entre os loucos... Afinal, todos nós temos direito a um pouco de loucura e de humanidade, o que implica pôr-nos na pele do outro (LG).

© Jorge Cabral (2005)


Confiante na experiência dos velhinhos, falhei o embarque tendo voltado ao Q. G. Aí um Capitão barrigudo, passou-me a um Major nervoso, que me remeteu para um Tenente-Coronel que, quase apopléctico, me descompôs:
- Começa mal! Está a pedir uma porrada. As ordens são para cumprir. Desapareça da minha vista!

Desapareci, e o certo é que fui de avião para Bafatá.

Muitos dias, muitos meses, mais de dois anos passaram e eu continuei no mato. (As cunhas funcionavam na perfeição. Chegados a Bissau, em rendição individual, podiam ser encaixados, sem grande escândalo, em qualquer Repartição.) Tinha porém de ser rendido, e a solução foi encontrada a nível de Batalhão, substituindo-me por um alferes da Companhia de Mansambo.

Entretanto o meu Pelotão foi para a ponte do rio Udunduma e a Missirá voltou o Pel Caç Nat 52, tendo eu permanecido mais três semanas, e entrado ainda numa operação, na qual morreram dois soldados africanos que, indo a fumar o mesmo cigarro, accionaram uma mina anti-pessoal reforçada.

Finalmente, e após uns dias em Bambadinca, embarquei no Xime com destino a Bissau. Recusara à chegada, mas afinal regressava de barco… e ao Biafra. Agora eu era o velhinho e o apanhado.

No dia da partida, eu que cismara aparecer em Lisboa vestido com o grandbubu azul, bordado a ouro, que comprara a um djila senegalês em Missirá, resolvera mandar encurtar a vestimenta a um costureiro de rua. Enquanto esperava, passou por mim um furriel conhecido, que me alertou, o voo havia sido antecipado. À pressa, pego no fato, meto-me num táxi e vou para Bissalanca (toda a minha bagagem, fotografias, o meu diário, os versos que escrevi, ficaram no Biafra).

Chegado ao aeroporto enverguei o meu traje, causando o espanto e o riso dos passageiros, militares. Eis que sou cercado por um Coronel e dois Majores, os quais em coro me determinam:
– Não pode ir assim, é uma vergonha, lembre-se que é um oficial, blá, blá, blá…
Tento contestar:
- Se um fula pode embarcar com um fato europeu, porque não posso eu ir vestido à fula?

Nada feito, se persistir não vou e levarei uma porrada. Obrigado a obedecer, lá entro no avião, no qual segue também o Coronel, o que impediu de me fardar a bordo.

Teimoso porém, mal chego a Lisboa, envergo o grandbubu, e é com ele vestido que abraço a família. Franze o sobrolho o meu pai que me diz que o Carnaval ainda não chegou, que tenha juízo e não o faça passar vergonhas… Quanto à minha mãe, chora, talvez de alegria, mas muito mais de tristeza. Coitado do filho…enlouqueceu.

Num destes dias vou de novo vestir o meu grandbubu. Pode ser que tenha conquistado o direito a um pouco de loucura. Talvez…

19 abril 2006

Guiné 63/74 - DCCXVI: Aqueles que não constam do Memorial dos Mortos do Ultramar (Jorge Cabral)

Post nº 716 (DCCXVI). Texto do Jorge Cabral:

Amigo Luís,

Oxalá tenhas passado umas boas férias. Gostaria de deixar claro que a reflexão publicada expressa apenas a procura do significado da Guerra na minha vida, a qual obviamente só ganhará sentido se assentar na análise de uma vivência muito própria. Evidentemente que éramos diferentes, passámos experiências diferentes e somos diferentes.

És o dono e administrador do blogue, que transformaste numa ampla e livre tribuna, na qual muitos colaboram, da forma e do modo que desejam. Por mim optei desde o início por contar estórias…, até porque não gosto de recordar tristezas. E fá-lo-ei enquanto mo deixares. Diz o Carlos Marques dos Santos, para quem envio um abraço, que não tem estórias para contar porque viveu sempre “entre quatro arames farpados”. Claro que discordo… mas não discuto.

Fui a semana passada visitado pelo Reitor da Universidade Amílcar Cabral de Bissau, Prof. Doutor Idrissa Embaló, de quem sou amigo. Levei-o a visitar o Memorial dos Mortos no Ultramar, e tivemos ocasião de constatar o grande número de soldados africanos mortos na Guiné, quase todos fulas. Ele comoveu-se, até porque lá encontrou o nome do tio, falecido no desastre do Cheche (2).

Também há poucos dias apareceu no meu escritório um guineense. Conversa puxa conversa, então não é que o homem foi soldado do Pel Caç Nat 58 que era comandado por um meu amigo e colega ?! Esteve preso e foi torturado, tendo assistido à execução de alguns comandos meus conhecidos, tendo-me descrito como foi morto o Ten Jamanca, em Bambadinca (3).

Parece que, quer queira quer não, continuo ligado à Guiné. Todos estes homens morreram por terem pertencido ao Exército Português. Então porque não constam os seus nomes do Memorial?

Envio uma estória-relato das peripécias da minha chegada e das vicissitudes da minha partida, ocorridas nos distantes anos de 1969 e 1971, respectivamente, e como sempre

Um Grande, Grande Abraço

Jorge

___________

Notas de L.G.


(1) Vd. post 12 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCXCVIII: Reflexão de Jorge Cabral (Pel Caç Nat 63): recordar ou esquecer a Guiné ? E qual delas ?


(2) Vd post de 3 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCV: Madina do Boé: 37º aniversário do desastre de Cheche (José Martins)

Da lista dos 47 mortos no desastre do Cheche (elaborada pelo José Martins), constam os seguintes, naturais da Guiné:

3 Soldados:

Alfa Jau, natural da Guiné – CCAÇ 1790
Judite Embuque, natural de Guiné – CCAÇ 1790
Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu, Guiné – CCAÇ 1790

1 Civil: Um caçador nativo não identificado.


(3) Pertenceu à 1ª Companhia de Comandos Africanos: vd post de 11 de JUlho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri . Participou ´na Op Mar Verdade (invasão da Guiné-Conacri, em 22 de Novembro de 1970).

(...) "O estranho e inexplicável rebate de consciência do supervisor da 1ª CCA (o então major Leal de Almeida) que inicialmente se teria recusado a participar na Op Mar Verde; o momento de hesitação do capitão graduado comando e herói Bacar Jaló; e, mais tarde, a deserção do filho da puta do tenente graduado Januário e dos seus homens, além da forma bizarra como actuou no terreno a equipa do alferes graduado Jamanca (as expressões em itálico não são minhas, mas do comandante Alpoim Galvão) não deixam, entretanto, de pôr em causa a tão proclamada eficácia, eficiência, disciplina e espírito de corpo dos comandos, sendo factos reveladores desta verdade tão simples e comezinha: mesmo os profissionais da guerra, mesmo a tropa de elite, por muito máquinas que sejam, não deixam de ser tão livres, responsáveis, vulneráveis e… até mortais como os outros homens, civis ou militares". (...)

Guiné 63/74 - DCCXVI: Aqueles que não constam do Memorial dos Mortos do Ultramar (Jorge Cabral)

Post nº 716 (DCCXVI). Texto do Jorge Cabral:

Amigo Luís,

Oxalá tenhas passado umas boas férias. Gostaria de deixar claro que a reflexão publicada expressa apenas a procura do significado da Guerra na minha vida, a qual obviamente só ganhará sentido se assentar na análise de uma vivência muito própria. Evidentemente que éramos diferentes, passámos experiências diferentes e somos diferentes.

És o dono e administrador do blogue, que transformaste numa ampla e livre tribuna, na qual muitos colaboram, da forma e do modo que desejam. Por mim optei desde o início por contar estórias…, até porque não gosto de recordar tristezas. E fá-lo-ei enquanto mo deixares. Diz o Carlos Marques dos Santos, para quem envio um abraço, que não tem estórias para contar porque viveu sempre “entre quatro arames farpados”. Claro que discordo… mas não discuto.

Fui a semana passada visitado pelo Reitor da Universidade Amílcar Cabral de Bissau, Prof. Doutor Idrissa Embaló, de quem sou amigo. Levei-o a visitar o Memorial dos Mortos no Ultramar, e tivemos ocasião de constatar o grande número de soldados africanos mortos na Guiné, quase todos fulas. Ele comoveu-se, até porque lá encontrou o nome do tio, falecido no desastre do Cheche (2).

Também há poucos dias apareceu no meu escritório um guineense. Conversa puxa conversa, então não é que o homem foi soldado do Pel Caç Nat 58 que era comandado por um meu amigo e colega ?! Esteve preso e foi torturado, tendo assistido à execução de alguns comandos meus conhecidos, tendo-me descrito como foi morto o Ten Jamanca, em Bambadinca (3).

Parece que, quer queira quer não, continuo ligado à Guiné. Todos estes homens morreram por terem pertencido ao Exército Português. Então porque não constam os seus nomes do Memorial?

Envio uma estória-relato das peripécias da minha chegada e das vicissitudes da minha partida, ocorridas nos distantes anos de 1969 e 1971, respectivamente, e como sempre

Um Grande, Grande Abraço

Jorge

___________

Notas de L.G.


(1) Vd. post 12 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCXCVIII: Reflexão de Jorge Cabral (Pel Caç Nat 63): recordar ou esquecer a Guiné ? E qual delas ?


(2) Vd post de 3 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCV: Madina do Boé: 37º aniversário do desastre de Cheche (José Martins)

Da lista dos 47 mortos no desastre do Cheche (elaborada pelo José Martins), constam os seguintes, naturais da Guiné:

3 Soldados:

Alfa Jau, natural da Guiné – CCAÇ 1790
Judite Embuque, natural de Guiné – CCAÇ 1790
Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu, Guiné – CCAÇ 1790

1 Civil: Um caçador nativo não identificado.


(3) Pertenceu à 1ª Companhia de Comandos Africanos: vd post de 11 de JUlho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri . Participou ´na Op Mar Verdade (invasão da Guiné-Conacri, em 22 de Novembro de 1970).

(...) "O estranho e inexplicável rebate de consciência do supervisor da 1ª CCA (o então major Leal de Almeida) que inicialmente se teria recusado a participar na Op Mar Verde; o momento de hesitação do capitão graduado comando e herói Bacar Jaló; e, mais tarde, a deserção do filho da puta do tenente graduado Januário e dos seus homens, além da forma bizarra como actuou no terreno a equipa do alferes graduado Jamanca (as expressões em itálico não são minhas, mas do comandante Alpoim Galvão) não deixam, entretanto, de pôr em causa a tão proclamada eficácia, eficiência, disciplina e espírito de corpo dos comandos, sendo factos reveladores desta verdade tão simples e comezinha: mesmo os profissionais da guerra, mesmo a tropa de elite, por muito máquinas que sejam, não deixam de ser tão livres, responsáveis, vulneráveis e… até mortais como os outros homens, civis ou militares". (...)

Guiné 63/74 - DCCXV: O meu testemunho (Paulo Raposo, CCAÇ 2405, 1968/70) (3): De Santa Margarida ao Uíge

N/M Uíge > Foto da excelente página Navios Mercantes Portugueses (com a devida vénia)...

O Uíge era um navio misto, de carga e de passageiros, construído na Bélgica em 1954 e abatido em 1978. O seu comprimento não chegava aos 150 metros. A sua arqueação bruta era de 10 mil toneladas. Armador: Companhia Colonial de Navegação, Lisboa. Velocidade de cruzeiro: 16 nós. Alojamentos para 4 passageiros em classe de luxo, 74 em primeira classe, 493 em classe turística, no total de 571 passageiros... Nº de tripulantes: 139. Na viagem que levou o Paulo Raposo até à Guiné, em finais de Julho de 1968, transportava dois batalhões, ou seja, cerca de 1200 homens.


N/M Uíge > Final de Julho de 1968 > A caminho de Bissau > "A alegria do regresso quase que compensa a tristeza da partida". O Paulo Raposo é o segundo a contra da esquerda.

© Paulo Raposo (2006)


III parte do testemunho do Paulo Raposo (ex- Alf Mil de Inf, com a especialidade de Minas e Armadilhas, na CCAÇ 2405, pertencente ao BCAÇ 2852 (Guiné, Zona Leste, Sector L1, Bambadinca, 1968/70> Galomaro e Dulombi).

Extractos de: Raposo, P. E. L. (1997) - O meu testemunho e visão da guerra de África.[Montemor-o-Novo, Herdade da Ameira]. Documento policopiado. Dezembro de 1997. pp. 10-14

SANTA MARGARIDA

Após termos dado a instrução aos soldados em Abrantes, lá fomos para o grande campo de Santa Margarida para tirar o IAO, a Instrução de Adaptação Operacional.

Santa Margarida era, na realidade, parecida com aquilo que víamos nos filmes de cowboys. Uma avenida muito larga e comprida, com uma capela ao fundo. De um lado e de outro dessa larga avenida havia enormes quartéis de todos os ramos do Exército. Estavam lá os carros de combate, a Engenharia, a Infantaria, as Comunicações, o Estado Maior de Brigada, etc.

Continuando depois da capela, havia o grande campo de tiro para onde íamos fazer fogo real.
Passado o IAO tivemos duas semanas de férias, para nos despedirmos da família, antes de embarcarmos.

Era precisamente neste período de férias que muitos rapazes se aproveitavam do dinheiro recebido do subsídio de embarque, para fugirem.

Um país não se constrói com aqueles que têm por hábito fugir e na volta, habilmente, dão-lhe uma componente política para se justificarem, mais perante eles próprios que perante os outros. Só se tem autoridade para criticar depois do dever cumprido.

Sobre este tema deixo aqui uma história:O Comodoro Cunha Aragão era um assanhado oponente de Salazar. Era amigo de meu pai e visita de minha casa. Em 1960 estava a comandar o aviso Afonso de Albuquerque, quando a União Indiana desencadeia a acção militar contra Goa.
Quando surge a primeira salva de tiros proveniente dos navios indianos que deu origem à invasão de Goa, o Comodoro Cunha Aragão agarra nos retratos de Salazar e Tomaz, que estavam no navio, e, atirando-os borda fora, diz:
- Vamo-nos bater por Portugal, não por estes gajos.

Este gesto custou-lhe as estrelas de Almirante. Foi ferido em combate, foi vencido, mas foi um bravo.

Uma coisa é a Pátria, outra são os regimes. Uma coisa é a Alta Política e outra é a baixa política. Hoje não sabemos distinguir uma da outra.

O EMBARQUE

No final de Julho de 1968, no Cais de Conde de Óbidos, lá embarcámos no Uíge. Seguiram os BCAÇ 2851 e 2852.

A largada foi terrível. O barco a afastar-se do cais é muito doloroso para nós, com as carpideiras que para lá eram enviadas, para nos desmoralizarem ainda mais.

Depois do navio largar e passar S. Julião da Barra, fomos para o bar à espera que nos chamassem para o almoço.

O Major Branco, que comandava interinamente o nosso Batalhão, uma vez que o nosso Comandante, Ten. Cor. Pimentel Bastos já tinha seguido de avião, perguntou ao nosso Capitão:
- Embarcaram todos os rapazes?

O Capitão respondeu de imediato:
- Sim, sim, meu Comandante.

Ele sabia lá!

Em conversa, o Cap Medina, que comandava uma companhia do outro batalhão que seguiia connosco e estava a partir para a sua segunda comissão, disse algo de que nunca me esqueci:
- A alegria do regresso quase que compensa a tristeza da partida.

Na realidade foi bem assim.

Durante os cinco dias que se seguiram, o ambiente a bordo não podia ser o melhor. Conversávmos muito uns com os outros enquanto passeávamos ao longo do tombadilho.

O nosso espírito era unânime. De política, nada sabíamos. Sabíamos apenas que aquela ida para África era o preço que tínhamos de pagar para ter um lugar na sociedade. E se na na vida tínhamos de passar sacrifícios, então iríamos passá-los de uma assentada para o resto da vida.

A defesa do Ultramar para nós, naquela altura, era uma coisa que não nos dizia directamente respeito, nem nos apercebíamos que África era fonte de abastecimento das nossas matérias primas.

O que é que íamos defender na Guiné, território que estava rodeado de países francófonos ? A população estava dividida por várias etnias, a função pública era ocupada por caboverdianos, os comerciantes eram senegaleses e a religão dominante a muçulmana.

Portugueses europeus não os havia por lá.

Guiné 63/74 - DCCXV: O meu testemunho (Paulo Raposo, CCAÇ 2405, 1968/70) (3): De Santa Margarida ao Uíge

N/M Uíge > Foto da excelente página Navios Mercantes Portugueses (com a devida vénia)...

O Uíge era um navio misto, de carga e de passageiros, construído na Bélgica em 1954 e abatido em 1978. O seu comprimento não chegava aos 150 metros. A sua arqueação bruta era de 10 mil toneladas. Armador: Companhia Colonial de Navegação, Lisboa. Velocidade de cruzeiro: 16 nós. Alojamentos para 4 passageiros em classe de luxo, 74 em primeira classe, 493 em classe turística, no total de 571 passageiros... Nº de tripulantes: 139. Na viagem que levou o Paulo Raposo até à Guiné, em finais de Julho de 1968, transportava dois batalhões, ou seja, cerca de 1200 homens.


N/M Uíge > Final de Julho de 1968 > A caminho de Bissau > "A alegria do regresso quase que compensa a tristeza da partida". O Paulo Raposo é o segundo a contra da esquerda.

© Paulo Raposo (2006)


III parte do testemunho do Paulo Raposo (ex- Alf Mil de Inf, com a especialidade de Minas e Armadilhas, na CCAÇ 2405, pertencente ao BCAÇ 2852 (Guiné, Zona Leste, Sector L1, Bambadinca, 1968/70> Galomaro e Dulombi).

Extractos de: Raposo, P. E. L. (1997) - O meu testemunho e visão da guerra de África.[Montemor-o-Novo, Herdade da Ameira]. Documento policopiado. Dezembro de 1997. pp. 10-14

SANTA MARGARIDA

Após termos dado a instrução aos soldados em Abrantes, lá fomos para o grande campo de Santa Margarida para tirar o IAO, a Instrução de Adaptação Operacional.

Santa Margarida era, na realidade, parecida com aquilo que víamos nos filmes de cowboys. Uma avenida muito larga e comprida, com uma capela ao fundo. De um lado e de outro dessa larga avenida havia enormes quartéis de todos os ramos do Exército. Estavam lá os carros de combate, a Engenharia, a Infantaria, as Comunicações, o Estado Maior de Brigada, etc.

Continuando depois da capela, havia o grande campo de tiro para onde íamos fazer fogo real.
Passado o IAO tivemos duas semanas de férias, para nos despedirmos da família, antes de embarcarmos.

Era precisamente neste período de férias que muitos rapazes se aproveitavam do dinheiro recebido do subsídio de embarque, para fugirem.

Um país não se constrói com aqueles que têm por hábito fugir e na volta, habilmente, dão-lhe uma componente política para se justificarem, mais perante eles próprios que perante os outros. Só se tem autoridade para criticar depois do dever cumprido.

Sobre este tema deixo aqui uma história:O Comodoro Cunha Aragão era um assanhado oponente de Salazar. Era amigo de meu pai e visita de minha casa. Em 1960 estava a comandar o aviso Afonso de Albuquerque, quando a União Indiana desencadeia a acção militar contra Goa.
Quando surge a primeira salva de tiros proveniente dos navios indianos que deu origem à invasão de Goa, o Comodoro Cunha Aragão agarra nos retratos de Salazar e Tomaz, que estavam no navio, e, atirando-os borda fora, diz:
- Vamo-nos bater por Portugal, não por estes gajos.

Este gesto custou-lhe as estrelas de Almirante. Foi ferido em combate, foi vencido, mas foi um bravo.

Uma coisa é a Pátria, outra são os regimes. Uma coisa é a Alta Política e outra é a baixa política. Hoje não sabemos distinguir uma da outra.

O EMBARQUE

No final de Julho de 1968, no Cais de Conde de Óbidos, lá embarcámos no Uíge. Seguiram os BCAÇ 2851 e 2852.

A largada foi terrível. O barco a afastar-se do cais é muito doloroso para nós, com as carpideiras que para lá eram enviadas, para nos desmoralizarem ainda mais.

Depois do navio largar e passar S. Julião da Barra, fomos para o bar à espera que nos chamassem para o almoço.

O Major Branco, que comandava interinamente o nosso Batalhão, uma vez que o nosso Comandante, Ten. Cor. Pimentel Bastos já tinha seguido de avião, perguntou ao nosso Capitão:
- Embarcaram todos os rapazes?

O Capitão respondeu de imediato:
- Sim, sim, meu Comandante.

Ele sabia lá!

Em conversa, o Cap Medina, que comandava uma companhia do outro batalhão que seguiia connosco e estava a partir para a sua segunda comissão, disse algo de que nunca me esqueci:
- A alegria do regresso quase que compensa a tristeza da partida.

Na realidade foi bem assim.

Durante os cinco dias que se seguiram, o ambiente a bordo não podia ser o melhor. Conversávmos muito uns com os outros enquanto passeávamos ao longo do tombadilho.

O nosso espírito era unânime. De política, nada sabíamos. Sabíamos apenas que aquela ida para África era o preço que tínhamos de pagar para ter um lugar na sociedade. E se na na vida tínhamos de passar sacrifícios, então iríamos passá-los de uma assentada para o resto da vida.

A defesa do Ultramar para nós, naquela altura, era uma coisa que não nos dizia directamente respeito, nem nos apercebíamos que África era fonte de abastecimento das nossas matérias primas.

O que é que íamos defender na Guiné, território que estava rodeado de países francófonos ? A população estava dividida por várias etnias, a função pública era ocupada por caboverdianos, os comerciantes eram senegaleses e a religão dominante a muçulmana.

Portugueses europeus não os havia por lá.

Guiné 63/74 - DCCXIV: Um sobrevivente de Gandembel/Ponte Balana (Idálio Reis, CCAÇ 2317)

Texto de Idálio Reis (CCAÇ 2317, 1968/69) que me chegou, via e-mail, através do Zé Teixeira:

Em plena Semana Santa, recebi um telefonema questionando-me sobre um certo itinerário pessoal vivido enquanto militar na Guiné. A interpelação, ainda que de uma voz que me era inteiramente estranha, em breve tomou uma empatia síntona que agradavelmente me era entusiasmante, e com a candura que se absorve em certos momentos, tentei então responder à imprevisibilidade surtida:

- Sim, sou eu, o Reis da CCAÇ 2317, que acompanhou desde sempre, do ajudar a nascer ao ver morrer (por abandono), algures na estrada/picada de Gadamael-Guilege(cruzamento)-Aldeia Formosa-Buba, um aquartelamento chamado Gandembel com uma anexa, a Ponte Balana.

E por solicitação, comprometi-me e vou escrever, do fundo do tempo, estórias daqui e doutros locais por onde passámos, como Guilege, Buba, Nova Lamego, Cansissé, etc, desde as mais suaves até às mais pungentes e dramáticas (o tombar de tantos companheiros mortos em pleno viço da vida, os gritos lancinantes dos feridos mais graves, o espectro da fome por falta de víveres, o sentimento do medo, o apego à vida,...).

Eis ainda os incontidos ecos de Gandembel que parecem continuar a ressoar tão fortemente e que todos os anos nos irmana em confraternização para os sentirmos porventura mais nossos, tão incontornáveis eles se assumem.

É obvio, que me entroso com incontido júbilo na Tertúlia. Apraz-me registar tal facto, para nesta primeira mensagem poder dar o meu testemunho de apreço aos que tiveram o lampejo de quererem congregar uns fora-nada e de lhes ofertar o privilégio dessa sublime manifestação tão transcendente quanto encantatória, que o recordar também é viver. Bem hajam!

Só alguns sumários dados pessoais. É isso, chamo-me Idálio Rodrigues Ferreira Reis, vivo onde nasci, num pequeno casario do concelho de Cantanhede, a meia dezena de quilómetros a poente da portagem da A1 em Mealhada. Apresto-me para entrar em fase de aposentação, para reencetar uma outra forma de estar na vida, em que me seduz pensar ir dispôr de todo o tempo para fazer o que melhor me aprouver. Até lá, não obsto que se disponibilize do meu endereço electrónico: idalio.reis@sapo.pt.

Um pequeno aditamento esclarecedor. A CCAÇ 2317 que pertencia ao BCaç 2835, esteve em comissão de soberania desde meados de Janeiro de 1968 até ao início de Dezembro de 1969. Foi comandada ab initio por um tal Capitão Barroso de Moura, que a abandonou a cerca de meio desse tempo com regresso ao Continente. Desde que deixou a Companhia, foi cidadão que jamais vi, ainda que saiba que já se reformou com a patente de tenente-general.

A tal passagem por Guilege, onde se encontrava a CART 1613, foi curta - de 20 de Março a 8 de Abril de 1968 - e serviu essencialmente como local de depósito de materiais destinados à construção de um aquartelamento junto ao célebre corredor de Guileje, por onde o PAIGC fazia passar grande parte dos seus reabastecimentos originários da ex-Guiné-Conacri.

Nesse lapso de tempo, várias colunas se fizeram desde Gadamael; numa missão de protecção, a 28 de Março, no cruzamento de Guilege, o meu grupo de combate num baptismo de fogo externo demasiado intenso (vimos militares não negros, porventura cubanos!), perdeu dois homens, a quem presto a minha sentida homenagem: Domingos Ferreira da Costa e Manuel Joaquim Meireles Ferreira.

Até à próxima. Que toda a Tertúlia desfrute de uma Páscoa muito feliz, com todos os seus.
Afectuosamente, Idálio Reis.

Guiné 63/74 - DCCXIV: Um sobrevivente de Gandembel/Ponte Balana (Idálio Reis, CCAÇ 2317)

Texto de Idálio Reis (CCAÇ 2317, 1968/69) que me chegou, via e-mail, através do Zé Teixeira:

Em plena Semana Santa, recebi um telefonema questionando-me sobre um certo itinerário pessoal vivido enquanto militar na Guiné. A interpelação, ainda que de uma voz que me era inteiramente estranha, em breve tomou uma empatia síntona que agradavelmente me era entusiasmante, e com a candura que se absorve em certos momentos, tentei então responder à imprevisibilidade surtida:

- Sim, sou eu, o Reis da CCAÇ 2317, que acompanhou desde sempre, do ajudar a nascer ao ver morrer (por abandono), algures na estrada/picada de Gadamael-Guilege(cruzamento)-Aldeia Formosa-Buba, um aquartelamento chamado Gandembel com uma anexa, a Ponte Balana.

E por solicitação, comprometi-me e vou escrever, do fundo do tempo, estórias daqui e doutros locais por onde passámos, como Guilege, Buba, Nova Lamego, Cansissé, etc, desde as mais suaves até às mais pungentes e dramáticas (o tombar de tantos companheiros mortos em pleno viço da vida, os gritos lancinantes dos feridos mais graves, o espectro da fome por falta de víveres, o sentimento do medo, o apego à vida,...).

Eis ainda os incontidos ecos de Gandembel que parecem continuar a ressoar tão fortemente e que todos os anos nos irmana em confraternização para os sentirmos porventura mais nossos, tão incontornáveis eles se assumem.

É obvio, que me entroso com incontido júbilo na Tertúlia. Apraz-me registar tal facto, para nesta primeira mensagem poder dar o meu testemunho de apreço aos que tiveram o lampejo de quererem congregar uns fora-nada e de lhes ofertar o privilégio dessa sublime manifestação tão transcendente quanto encantatória, que o recordar também é viver. Bem hajam!

Só alguns sumários dados pessoais. É isso, chamo-me Idálio Rodrigues Ferreira Reis, vivo onde nasci, num pequeno casario do concelho de Cantanhede, a meia dezena de quilómetros a poente da portagem da A1 em Mealhada. Apresto-me para entrar em fase de aposentação, para reencetar uma outra forma de estar na vida, em que me seduz pensar ir dispôr de todo o tempo para fazer o que melhor me aprouver. Até lá, não obsto que se disponibilize do meu endereço electrónico: idalio.reis@sapo.pt.

Um pequeno aditamento esclarecedor. A CCAÇ 2317 que pertencia ao BCaç 2835, esteve em comissão de soberania desde meados de Janeiro de 1968 até ao início de Dezembro de 1969. Foi comandada ab initio por um tal Capitão Barroso de Moura, que a abandonou a cerca de meio desse tempo com regresso ao Continente. Desde que deixou a Companhia, foi cidadão que jamais vi, ainda que saiba que já se reformou com a patente de tenente-general.

A tal passagem por Guilege, onde se encontrava a CART 1613, foi curta - de 20 de Março a 8 de Abril de 1968 - e serviu essencialmente como local de depósito de materiais destinados à construção de um aquartelamento junto ao célebre corredor de Guileje, por onde o PAIGC fazia passar grande parte dos seus reabastecimentos originários da ex-Guiné-Conacri.

Nesse lapso de tempo, várias colunas se fizeram desde Gadamael; numa missão de protecção, a 28 de Março, no cruzamento de Guilege, o meu grupo de combate num baptismo de fogo externo demasiado intenso (vimos militares não negros, porventura cubanos!), perdeu dois homens, a quem presto a minha sentida homenagem: Domingos Ferreira da Costa e Manuel Joaquim Meireles Ferreira.

Até à próxima. Que toda a Tertúlia desfrute de uma Páscoa muito feliz, com todos os seus.
Afectuosamente, Idálio Reis.