11 maio 2004

Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1)

1. No final dos anos sessenta, no norte de Moçambique, na região do Niassa, os soldados portuguesas entoavam fados e canções que relatavam as alegrias e as tristezas do seu quotidiano de guerra. O registo era, umas vezes, de bravata e paródia, e outras vezes mais triste e intimista... Era uma forma de exorcizar a angústia das emboscadas e das minas, de lidar com o stresse, de manter viva a ligação com a sua terra natal, de reforçar o seu espírito de corpo como combatentes e até de certo modo humanizar uma guerra que não parecia ter uma solução militar à vista. Nas letras dessas músicas podia-se inclusive descortinar sinais de contestação e até de resistência, sinais esses que minavam o moral das tropas e a vontade de combater.



O mesmo se passava, de resto, noutras frentes de guerra, como a Guiné, como eu posso testemunhar pela minha própria experiência pessoal: as longas noites da Guiné eram passadas, muitas vezes, entre muitos copos de uísque, cerveja, intermináveis jogos de lerpa e longas sessões de fados, baladas e outras canções (com o Manuel Freire à cabeça, seguido do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, dos Beatles, do Bob Dylan, do Donovan e de tantos outros...): "Eles não sabem nem sonham/ Que o sonho comanda a vida...", era uma das nossas preferidas, sendo cantada e acompanhada à viola com um misto de saudades da nossa terra e de rebeldia contra o aparelho político-militar.



Vários poetas e versejadores, de maior ou menor talento, pertencentes aos três ramos das forças armadas, contribuiram anonimamente para aquilo a que depois se veio a chamar o Cancioneiro do Niassa. As letras eram acompanhadas por melodias em voga na época, incluindo tangos e fados, tradicionais ou não, ainda hoje facilmente reconhecíveis (por ex., A Casa da Marquinhas, de Alfredo Marceneiro, ou a Júlia Florista, da Amália). O seu interesse não é literário mas sim documental, socioantropológico.



2. Aqui fica uma selecção de algumas das Canções do Niassa, com parabéns ao J.M.A. Santos pelo seu notável trabalho de recolha, preservação e divulgação desta documentação tão efémera mas tão importante para a sociologia histórica da guerra colonial, incluindo o estudo das representações sociais do turra, o invisível e obíquo inimigo que combatíamos em Moçambique, Angola e Guiné. No total a recolha de J.M. A. Santos ultrapassa as 40 canções, disponíveis no seu site:



Página de J. M. A. Santos > Guerra Colonial Portuguesa > Canções do Niassa (O Jorge Santos fez parte da 4ª Companhia de Fuzileiros e esteve no Niassa entre 1968 e 1970).



3. Há uma edição discográfica das Canções do Niassa, que resultaram da colaboração do actor João Maria Pinto (que no início da década de 1970 fez, com um grupo de amigos, as primeiras gravações do Cancioneiro do Niassa, vendendo depois as 'cassetes piratas' aos soldados recém chegados) e ao produtor Laurent Filipe: Canções proibidas: O Cancioneiro do Niassa. Lisboa: EMI - Valentim de Carvalho, Música, Lda. 1999. CD. 7243 5 20797 2 8.



Foram seleccionadas e gravadas 13 canções, cantadas pelo João Maria Pinto e seus convidados (entre outros, Carlos do Carmo, Rui Veloso, Paulo Carvalho, Janita Salomé, João Afonso): 1. Ventos de Guerra - João Maria Pinto/Rui Veloso; 2. Taberna do Diabo - João Maria Pinto/Gouveia Ferreira; 3. Fado do Checa - Paulo de Carvalho; 4. O Turra das Minas - João Maria Pinto/Rui Veloso; 5. Erva Lá Na Picada - João Maria Pinto/Janita Salomé; 6. Luta p'la Vida - João Maria Pinto; 7. Neutel d'Abreu - João Maria Pinto/Mariana Abrunheiro; 8. Bocas Bocas - Lura, João Maria Pinto/Mingo Rangel; 9. Fado do Miliciano - Janita Salomé; 10. O Fado do desertor - Carlos do Carmo; 11. O fado do Antoninho - Teresa Tapadas; 12. Hino de Vila Cabral - Carlos Macedo/João Maria Pinto; 13. O Hino do Lunho - João Maria Pinto e outros (João Afonso, Ana Picoito, Tetvocal...).



Destas 13 canções, apenas se conhecem os autores de duas: Gouveia Ferreira (Taberna do Diabo) e Carlos Macedo (Hino de Vila Cabral).





4. Antologia de canções do Niassa:



Ei-los que Partem



I

Ei-los que partem, olhos molhados,

Coração triste, mochila às costas,

Adeus aos seus entes amados.

Ei-los que partem, olhos molhados.



II

Virão um dia, ricos ou não,

Contando histórias da sua guerra

Onde a dor se fez em pão.

Virão um dia, ricos ou não.



III

Ei-los que partem, olhos cansados,

Já estão no fim da comissão,

Alguns doentes e aleijados.

Ei-los que partem, pobres soldados,

Ei-los que partem, pobres soldados,

Ei-los que partem, pobres soldados.



Comentário de L.G.: É uma adaptação de uma conhecida balada de Manuel Freire.





Fado do Turra



I

Se de mim nada consegues,

Não sei porque me persegues

Constantemente no mato!

Sabes bem que sou ladino,

Que tenho um andar muito fino,

E me escapo como um rato!



II

Lá porque és branco e pedante,

Pretendes ser arrogante,

Por capricho e altivez!

Eu que tenho sido pobre,

Mas que tenho a alma nobre

Talvez te lixe de vez!



III

Como ando sempre alerta,

Tua arma não me acerta,

Nem me deixa atrapalhado!

E assim, num breve instante,

Por mais que andes vigilante,

Tu serás sempre emboscado!



IV

Por isso toma cuidado!

E não me venhas com o teu fado

Dizer que branco é melhor.

Eu já muito codilhado,

Estou sempre desconfiado,

E irás desta p'ra pior.



Comentário de J.M.A. Santos: "Outro fado de humor, em que o autor põe o turra a falar". Comentário: Julgo reconhecer nesta letra o belíssimo fado do Alfredo Marceneiro, Não venhas tarde.





Poema do Militante



Mãe,

Eu tenho uma espingarda de ferro!

O teu filho,

Aquele a quem um dia viste acorrentarem

E choraste,

Como se as correntes prendessem e ferissem

As tuas mãos e os teus pés,

O teu filho já é livre, Mãe!



O teu filho tem uma espingarda de ferro,

A minha espingarda

Vai quebrar todas as correntes,

Vai abrir todas as prisões,

Vai matar todos os tiranos,

Vai restituir a terra ao nosso povo,

Mãe, é belo lutar pela liberdade!



Há uma mensagem de justiça em cada bala que disparo,

Há sonhos antigos que acordam como pássaros.

Nas horas de combate, na frente de batalha,

A tua imagem próxima desce sobre mim.

É por ti também que eu luto, Mãe!,

Para que não haja lágrimas nos teus olhos.



Comentário de J.M. A. Santos: "Poema encontrado numa base da Frelimo na zona do Lunho".





O Turra das Minas



I

O turra das minas,

Pequeno e traquinas,

Lá vai na picada

E a malta escondida,

Na mata batida

Monta a emboscada.

O turra passou,

A malta esperou,

Já toda estafada,

E a Berliet

Sempre foi estoirada.



II

Ó turra das minas,

A tua vida agora

É pôr as marmitas

Pela estrada fora.

Oh turra das minas,

Tua arma soa

Por léguas e léguas,

Aqui no Niassa,

Onde a Guerra entoa [ecoa].



III

Há mortos e feridos

E os mais comidos

Somos sempre nós,

Vamos pelos ares,

Gritando por todos,

Até pelos avós.

Ó turra bairrista,

Mas pouco fadista,

Já é tradição

Ser paraquedista

Sem tirar o curso,

Ai isso é que não.



Refrão

Oh turra das minas,

A tua vida agora...



Comentário de J.M. A. Santos: Fado de humor em que, como o nome indica, é o turra ou terrorista que põe as marmitas , as minas, nas picadas, os sejam, os caminhos através do mato.



Comentário de L.G.: Música de Joaquim Pimenal, fado "A Júlia Florista", uma das muitas criações de Amália. A Berliet era uma das viaturas mais usadas no transporte de tropas: de origem francesa, eram montadas no Tramagal.





Emboscada



I

Em tempos tive a mania

Que não havia emboscada,

Até que num lindo dia

Toda a minha companhia

Pelos turras foi avisada.



II

A história que vou contar,

Contou-ma certo velhinho

Quando eu vim para o Ultramar,

Disse-me ele a sussurrar:

Checa, toma juizinho.



III

E lá no mato cansado,

De aspecto frio e sério,

Há sempre um soldado

Prestes a ser emboscado

E a ir p'ró cemitério.



IV

P'ró Niassa veio alguém

Com uma ideia aperrada:

Ouve turra, escuta bem,

Que nós não queremos ninguém

Emboscado na picada.



V

Perante a admiração de todos

Acabou-se a emboscada,

Foi o Batalhão dos Rangers

Que deu porrada a rodos,

Temos a guerra acabada.



Comentário de L.G.: Facilmente se conclui que esta canção foi adaptada do célebre fado do Embuçado, letra e música de João Ferreira Rosa; uma das estrofes mais conhecidas diz assim: A história que eu vou contar / Contou-me certa velhinha/Certa vez que eu fui cantar /Ao salão de um Titular/ Lá para o Paço da Rainha.





Ventos da guerra



De quantos sacrifícios, senhores que em mim mandam,

É feita a vida dum soldado,

De quantas noites perdidas no mato

É feita a vida dum guerreiro.



São ventos de guerra,

Não penses, amigo,

Que a hora que passa é de perigo.



Bis



De quantos tiros, senhores que me ordenam,

É feita a vida dum soldado,

De quantas minas, senhores que em mim mandam

É feita a vida dum guerreiro.



Quem limpa, senhores, as manchas de sangue

Que os jovens deixam na picada,

Quem limpa, senhores, lágrimas choradas

Por noivas e mães adoradas.



São ventos de guerra... etc.



De quantas saudades, senhores que em mim mandam,

É feita a vida dum soldado,

E quantas loucuras, senhores que me ordenam,

Contém a vida dum guerreiro.



De quantos desgostos, senhores que em mim mandam,

É feita a vida dum soldado

E quanto vinho senhores que me ordenam

Se deve beber p'ra esquecer.



São ventos de guerra... etc.



E quantas vezes, senhores que em mim mandam,

Se deve expor a vida ao perigo

E quantos gritos se devem soltar

Para se acreditar que está vivo.



Quantas idéias tombadas na luta,

Quantas esperanças perdidas,

Quanto sangue deve um jovem verter

Antes que o chamem de homem.



São ventos de guerra...etc.



Comentário de L.G.: Corrigi a pontuação, como de resto fiz nas outras letras. Julgo que o autor desta letra se inspirou no conhecido poema de Fernando Pessoa, Mar Português, do livro Mensagem: "Ó mar salgado, quanto do sal/são lágrimas de Portugal"...



Comentário de João Maria Pinto (1999): "Fase final do Cancioneiro do Niassa que recolhi entre 69/71 em Moçambique. Muita influenciada pelas baladas de Bob Dylan, fazendo o paralelo com a Guerra do Vietname"...No CD, a música é de Laurent Filipe.





A erva lá na picada



I

A erva lá na picada

Pisam-na os guerrilheiros,

O coração do soldado

Pisam-no os coronéis

E ajudam os machambeiros. (Bis)



II

Que culpa tem o soldado

De ter raiva à sua sorte

Se chega um filho da puta

Que o mete numa farda

E o manda para a morte. (Bis)



III

E o senhor brigadeiro

Vive muito consolado

Até comprou uma balança

Para pesar o dinheiro

Que rouba ao pobre soldado. (Bis)



IV

Quando será, Deus do céu,

Que um dia haverá verba,

Que um dia haverá verba,

Para a malta comer pão

E os chicos erva erva /merda merda. (Bis)



Merda merda!

Merda merda!

Merda merda!



Comentário de J.M. A. Santos: "Música da guerra civil espanhola, cujo tema foi tratado por um grupo de alferes milicianos, e em que se aborda os negócios escuros da guerra e da exploração do soldado, sempre o mais injustiçado. Feita em Nampula em 1970".



Comentário de L.G.: Pelo meu lado, reconheço antes nesta letra a canção do Adriano Correia de Oliveira, o Senhor Morgado: no entanto, esta balada é do álbum Gente de Aqui e de Agora, editado em 1971, em data portanto posterior à indicada por J.M.A. Santos; mas é possível que o Adriano já a cantasse antes em festas de estudantes ou reuniões de amigos.



Comentário de João Maria Pinto (1999): Canção feita em Nampula em 70. Inspira-se numa conhecida canção da guerra civil espanhola: "La hierba de los caminos / la pisan los caminantes / y la mujer de lo obrero / la pisan quatro tonantes / de essos que tienen dinero" (...).





Checas



I

Ó checa, amigo checa,

Cacimbado ando eu,

Já estou farto disto tudo,

Aqui em Nova Viseu.



II

Já estou farto de picar,

De fazer operações,

De rios atravessar

Com água até aos calções.



III

Já estou farto de buracos,

Feitos pelas marmitas,

Já estou farto de ir ao ar

E sem ver os terroristas.



IV

Ó checa, amigo checa,

Na picada, faz favor,

Tu serás paraquedista

Ou piloto aviador.



V

Comes feijão ao almoço,

Comes feijão ao jantar

E quando não é feijão

É punga para variar.



VI

Uma sopa de mosquitos,

E de formas esquisitas,

Dia sim, dia não,

Lá virão os ciclistas.



VII

Ó checa, amigo checa,

Isto aqui é muito chato,

Aturar a chicalhada

Que nunca saem para o mato.



VIII

Esta guerra é dos soldados

E também dos furriéis,

O resto dos graduados

Faz a guerra dos papéis.



IX

Assim é Nova Viseu

E isto ainda aumenta,

Isto é uma charanga

Na trinta e quatro setenta.



Comentário de L.G.: Referência à Companhia 3470, aquartelada em Nova Viseu, na região do Niassa. Desconheço a proveniência do termo checa, o qual designa, se bem entendo, o soldado que acaba de chegar da Metrópole, sem experiência de combate, em suma, o maçarico, o periquito, como nós dizíamos na Guiné em 1969/71: Checa é pior que turra, é o título de uma obra de ficção, publicada em 1996 por Manuel Maria, que esteve em Moçambique entre 1972 e 1974. O romance, edição de autor (Porto, 1996), tem como subtítulo: Caricaturas da guerra colonial.





Quanto ao termo punga, não sei se está está correcto, no contecto em que é usado: segundo o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, o termo seria de origem suaíli e designaria "uma espécie de samba cantado, marcado por tambor, com versos improvisados e que é dançado em roda"...Mas não me parece que seja nesse sentido que o termo é aqui empregue: Comes feijão ao almoço,/Comes feijão ao jantar / E quando não é feijão / É punga para variar.. Quanto ao termo picar, significava detectar minas utilizando para o efeito um pau tendo na extremidade um ferro aguçado ou um prego com que se picava o chão, a picada, os trilhos suspeitos de esconderem marmitas ou minas anticarro ou antipessoal). Por sua vez, o termo chicalhada era uma forma de se referir, em termos depreciativos, os oficiais e sargentos do quadro das Forças Armadas, o pessoal da carreira militar, os quais eram em geral muito mais velhos do que os soldados do contingente geral, os furriéis milicianos e os alferes milicianos. Meter o chico era um termo depreciativo, designando uma acção desprezível de um furriel ou alferes miliciano que, no final da comissão, optava pela continuação na vida militar: veja-se por exemplo o Fado do Miliciano que o J.M.AS Santos diz ser a versão do Exército do Fado da Marinha).





Fado do Checa





Bem vindo, Checa,

P'ra esta guerra

Que cá te espera;

Não estejas triste,

Que a guerra é linda,

Só fazes cera,

Vais ter saudades

De mulheres brancas;

Ai que tormentos,

Aqui há pretas

Mas tem cuidado

Com seus lamentos



Refrão



Checa danado,

Pela tropa mui lixado,

Não chores, ó desgraçado,

Não vale a pena chorar;

Checa bem vindo,

Chegaste a horas,

Eu já vou indo

E afinal, mal encavado,

Que vieste cá fazer ?

Checa danado,

Vieste p'ra me render;

Vais lerpar muito

Mas com o aumento

Vais ficar rico,

Dá-o às pretas

Pois assim fazes

A tua psico.

Mas tem cuidado,

Checa danado,

Sê pouco anjinho,

Manda-os lixar

E faz a tua guerra sozinho.



Refrão

Checa danado...



Fonte: Letra transcrita do CD, "Canções Proibidas", 1999; música de Raul Ferrão, fado "A Rosa Enjeitada".



Comentário de João Maria Pinto (1999): O checa era "o esperado substituto", "o homem que nos rendia e que assegurava o regresso a casa. Era preciso tratá-lo bem e dar-lhe bons conselhos. Feito na Primavera Marcelista, cheia de falinhas mansas".





Fadinho Serrano



Muito boa noite,senhoras e senhores,

Os homens do Lunho são bons lutadores,

São bons lutadores,são bons guerrilheiros,

Fazem horas extras sem ganhar dinheiro.



Sem ganhar dinheiro, nada se ficam,

Nos dias de folga vão p'rá pá e pica.



Fazemos machambas e nasce o que é bom

No rancho comemos sopa de feijão,

Sopa de feijão, grelos com cristas.

Para variar comemos ciclistas,

Comemos ciclistas com molho e salada,

Fome não passamos, mas fartura nada.



Roupa que não falta

A verdade é uma

Até colchões temos

E de lusospuma.



Para não estragar,

Fazemos um esforço

Ou mandam para o mato

Ou pôr de reforço.



Pôr-nos de reforço,

Já sabem quem são,

Colchões para durar

Outra comissão.



Comentário de J.M. A. Santos: "Machambas [eram as] hortas".



Comentário de L.G.: Letra adaptada do conhecidíssimo fado cantado pela Amália, Fadinho Serrano (Hernâni Correia/Arlindo de Carvalho). Expressões como "ir para o mato" e "pôr de reforço" são tipicamente militares: querem dizer "sair do aquartelamento em missão" e "reforçar a segurança ao aquartelamento", respectivamente. O termo "machambeiros" era aplicado, depreciativamente, aos colonos brancos.





Fado a Metangula



Tens belas ruas, tens avenidas,

Tens tantas coisas que nos são queridas,

Tens aeroporto, tens aviões

Tens bom cinema, tens diversões.



Recentemente já rádio há,

Nem há paisagem como a de cá,

Tens pôr-do-sol visto de graça,

És a mais linda deste Niassa.



Ó Metangula,

És afinal

Grande "cidade" de Portugal,

Tens tantas coisas,

Boas e belas,

Que nós ficamos

Loucos com elas.



Ó Metangula,

Tu tens razão,

Já só te falta

Televisão.

Vais dentro em pouco

Ser das primeiras,

Mas só não tens é

Mulheres solteiras.



Comentário de J.M.A. Santos: "O autor deste fado, com optimismo, vê Metangula por um prisma muito favorável, levado pelo progresso e olhado com muito exagero! Mas no entanto, como se deduz do estribilho, ainda há muita coisa que falta!!!";



Comentário de L.G.: Em Metangula, nas margens do Lago Niassa, havia uma importante base naval, criada pela nossa Marinha de Guerra; não admira por isso que algumas das canções do Niassa sejam atribuídas ao pessoal deste ramo das forças armadas: ver por exemplo a letra do Fado do Buldozer, cuja letra não transcrevo aqui por razões de economia de espaço, e que também foi recolhida por J.M.A. Santos.





Fado das comparações



Que estranha forma de vida!

Que estranha comparação!

Vive-se em Lourenço Marques, (Bis)

Cá arrisca-se o coirão!



Vida boa, vida airada!

Boites, é só festança!

Lá não se fala em matança, (Bis)

Nem turras; há só borgadas.



Niassa, pura olvidança!

Guerra, como és ignorada!

Conversa que é evitada, (Bis)

P'los que vivem n'abastança!



Falar na nossa desdita

Fica mal e aborrece!

E como lembrar irrita, (Bis)

Toda a gente a desconhece!



Ao passar pela cidade,

Com tanta tranquilidade,

Deu-me [pr'a] comparar

Meninas com mini-saias!

Mandai-as p'ras nossas praias

P'ra manobra de atacar!



Hippies com carros GT's,

Mandai-os para as Berliets,

Tirai-lhes as modas finas,

Melenudos efeminados

Eram bem utilizados

P'ra fazer rebentar minas!



Bem como essas tais meninas

Que, apesar de enfezadinhas,

Mas com ar da sua graça

Serviriam muito a jeito

Para aliviar a dor do peito,

Cá da malta do Niassa.



Mas não, só por pirraça,

Hão-de lá continuar!

E nós temos de lerpar,

Invertem-se as posições!

E trocam-se as situações!

Continuamos a aguentar!



Nós, sem sermos desejados,

Ficamos cá apanhados

Aos urros, num desvario!

Eles, os daqui naturais,

Gastando dinheiro aos pais

Vão p'ra p... que os pariu!



Acabe-se com a tradição!

Entre-se em mobilização!

Utilize-se a manada!

Dentro de poucas semanas,

Como quem come bananas,

Estará a Guerra acabada.





Comentário de J.M. A. Santos: "Este é um fado que compara algumas coisas que se passavam. Não é um fado para ofender, e era cantado em ambientes muito particulares e com público esclarecido! De resto, como todo o cancioneiro, sobressai sempre o aspecto humorístico com que todos os

temas são abordados".



Comentário de L.G.: Canção que tudo indica foi inspirado no fado Estranha forma de vida (Letra e música: Afredo Duarte e Amália Rodrigues).



Reconheço nesta canção sarcástica sobre a privilegiada condição dos colonos moçambicanos e dos seus flhos e filhas uma das maiores contradições daquela guerra onde dificilmente se podia convencer um soldado da metrópole que estava a defender o chão sagrado da Pátria...



Noutro registo, era o mesmo tipo de crítica que nós fazíamos na Guiné - nós, os operacionais, a carne para canhão - aos privilegiados da guerra do ar condicionado, instalados no relativo conforto e na precária segurança de Bissau... Recorde-se que na Guiné não havia colonos brancos, a única empresa que se podia chamar colonialista era a Casa Gouveia, ligada à CUF - Companhia União Fabril, mas que ficou praticamente inactiva com o início da guerra).



A palavra lerpar era utilizada pelas nossas tropas, da Guiné a Moçambique, com o mesmo sentido de perda: morrer, ser ferido, perder qualquer coisa, apanhar um castigo, ser escalado, etc.





Fado do Antoninho



I

Foi no domingo passado que eu passei

À casa onde vivia o Antoninho,

Mas está tudo tão mudado

Que não vi em nenhum lado

Os tais agentes da Pide, bonitinhos.



II

Do rés-do-chão ao telhado

Não vi nada,nada, nada, nada, que fizesse

Recordar a tal vidinha;

Já não há vidros pregados, reforçados,

Guardados com tabuinhas.



III

Entrei onde era a casa, agora está

À secretária um sujeito, uma delícia,

Não vi bombas nem espingardas

Nem revólveres nem espadas

Nem espreitadelas furtivas da polícia.



IV

O tempo cravou a garra

Na alma daquela casa

Onde às vezes parecia não ter gente

E onde em noites de segredo, a meter medo,

Lá surgia o Presidente.



V

As janelas tão medonhas que ficavam

Com cortinas a tapar a velharia,

Ganharam de novo a graça

Pois são hoje umas vidraças,

Já livres de toda a porcaria.



VI

E lá p'ra dentro quem passa,

Hoje é para ir ao Marcelo

Entregar ao Presidente um pedidinho

Pois chega a esta desgraça toda a graça

Com a doença do velhinho.



VII

P'ra terem feito da casa o que fizeram

Melhor fora que a mandassem p'rás alminhas,

Pois na casa de Saúde

Provas de amor amiúde

É idéia que não cabe cá nas minhas.



VIII

Recordações do pavor,

D'avareza e do terror,

Vamos procurar esquecer nas cervejinhas

Pois dar de beber à dor é o melhor

Já dizia a Mariquinhas.



Comentário de J.M.A. Santos: "Versos feitos provavelmente por civis que parodiavam a 'Primavera Marcelista', 'evolução na continuidade', 'doença de Salazar' ".



Comentário L.G.: de origem militar ou civil, esta paródia do fado da Casa da Mariquinhas é uma delícia. Recorde-se que a letra original é de Silva Tavares e a música é do grande e imortal Alfredo Duarte, o Marceneiro. É bom também lembrar que a política política, a PIDE (DGS, com Marcelo Caetano), teve um papel muito activo e tenebroso na guerra colonial. Eram os pides que faziam o trabalho mais sujo que a tropa não queria ou não gostava de fazer como a tortura e o interrogatório de prisioneiros da FELIMO, do MPLA e do PAIGC. O Antoninho é o diminuitivo de António de Oliveira Salazar.





Taberna do Diabo



I

Um dia fui dar com Deus

Na taberna do diabo,

Entre cristãos e ateus

Fizeram de mim soldado.



II

E eu sem querer fui embarcado, (Bis)

Levei armas e um galão

Pr'ó outro lado do mar,

Quis levar o coração

Não mo deixaram levar.



E eu sem querer ia matar. (Bis)



III

Deram-me uma Cruz de Guerra

Quando matei meu irmão,

E a gente da minha terra

Promoveu-me a capitão.



E eu sem querer fiquei papão. (Bis)



IV

Todos me chamam herói,

Ninguém me chama Manel,

Quem quer uma Cruz de Guerra

Que eu já não vou pr'ó quartel.



Que eu já não vou pr'ó quartel. (Bis)



Comentário de João Maria Pinto: "Feita em Braga no ano de 66 por Gouveia Ferreira", foi lavada para Moçamboque em Dezembro de 1969, tornando-se "obrigatória nas tertúlias e nos gravadores de dezenas de militares". Esta canção "reflecte os medos de uma geraão face à Guerra Colonial" (....). Muitos desertaram, muitos não e foram sem mais voltar 'a acender no meu o seu cigarro' ".



Comentário de L.G.: Segundo o CD "Canções Proibidas" (EMI, 1999), a letra e a música são de Manuel António Gouveia Ferreira.





Fado a um autor desconhecido



I

Desconhecido autor porreiro,

A ti devemos tod'o nosso Cancioneiro.

Em fado lento, em fado antigo,

O teu talento foi o nosso melhor amigo.



II

Cantaste o fado, cantaste a raça

Disseste em verso da beleza do Niassa,

Disseste até sem uma falha

A vida triste que cá viv'esta maralha.



III

Tempo esquecido

Que ao passar

Só a saudade por castigo faz ficar.

Desconhecido,

Vais-nos deixar,

Ó Metangula, tens razão para chorar.



IV

Virão mais checas, virá mais malta,

Tal como nós hão-de sentir a tua falta.

Serás cantado, tenho a certeza,

A tua ausência lembraremos com tristeza.



V

Já lá vai longe, foi há um ano

Que nos deixaste, grande amigo Adriano.

Vamos voltar, vamos-te ver,

P'ra nosso fado todos juntos reviver.





Comentário de J.M. A. Santos: "Esta composição é dedicada ao Autor Desconhecido a cujo entusiasmo, veia poética e garra fadista se deve a concretização do sentimento que em nós existia e só ele soube cantar. Como testemunho do muito apreço e gratidão da maralha".





Hino do Lunho





No céu cinzento sob o astro mudo,

Batendo os hélices na terra esquentada,

Vêm em bandos com pés de veludo

Chupar o sangue fresco da manada.



Se alguém se engana com o seu sorrir

E lhes franqueia as portas à chegada,

Só mandam, só mandam vir,

Só mandam vir e não fazem nada.



Bis



A toda a parte vai um helicóptero

Poisam nos tandas, poisa nas picadas,

Leva no bojo os cabeças de ouro

Que de guerrilha não percebem nada.



São os reizinhos do Niassa todo,

Senhores por escolha, mandadores sem punho,

Aceitam cunhas e dizem que não,

Fazem as rondas sob o céu do Lunho.



Estou farto deles,

Estou farto deles,

Só mandam vir

E não fazem nada.



Bis



Quantas Mercedes, senhor Capitão,

Até agora foram fornicadas,

Eu bem lhe disse que pusesse os homens

Estourando minas, fazendo emboscadas.



No chão do medo tombam os vencidos,

Ouvem-se os gritos na noite abafada,

Jazem nos fossos vítimas de um credo

E não se esgota o sangue da manada.



Fazendo estradas sobre um chão de greda,

Fazem-se aterros, pontes e pontões,

Ouvem-se os tiros lá na emboscada,

Aqui no Lunho é que há leões.



Estou farto deles,

Estou farto deles,

Só mandam vir

E não fazem nada.



Bis



Tremem paredes de qualquer quartel,

São militares, anda tudo à bulha,

Ri-te, capitão, ri-te coronel,

Com esta moda da minipatrulha.



Encher o peito de metal brilhante

É essa a sua grande aspiração,

Por isso deixa os turras sossegados

Dentro da linha de contenção.



Deixem crescê-los,

Organizá-los,

Depois eu vou

Deitar-lhes a mão.



Bis



Estranha forma de tratar o cancro

Que se propaga p’la nossa nação,

Ele será leigo ou talvez ceifeiro,

Mas nunca médico cirugião.



Por uma ponte sem terminação,

O nosso sangue foi derramado,

Mas, aleluia, não será lembrado

Pelos cabeças d’ar condicionado.



Estou farto deles,

Estou farto deles,

Só mandam vir

E não fazem nada.



Bis



Se alguém se engana com o seu sorrir

E lhes franqueia as portas à chegada,

Só mandam, só mandam vir,

Só mandam vir e não fazem nada.



Bis



Estou farto deles,

Estou farto deles,

Só mandam vir

E não fazem nada.



Bis



Comentário de João Maria Pinto (1999): "Primeira obra forte do cancioneiro do Niassa, feita por um Alferes Miliciano sobre 'os vampiros' do Zeca Afonso. O Lunho foi um dos locais mais duros da guerra no norte de Moçambique. Homenagem sentida ao grande lutador que foi José Afonso e que apoiou a ADFA [Associação dos Deficientes das Forças Armadas, que também apoiou a a edição deste CD].



Comentário de L. G.: Alguns termos do calão da guerra colonial têm de ser descodificados, tais como picada (estrada de terra batida), cabeça de ouro (alta patente militar), fornicar (destruir, dar cabo de), tandas (clareiras na mata, junto às picadas ou estradas), psico (acção piscossocial levada a cabo pelas forças armadas junto das populações locais, sob o controlo das nossas tropas ou sob a influência da guerrilha), minipatrulha (patrulha com um pequeno grupo de homens), mercedes (viaturas militares de transporte de carga), metal brilhante (condecorações), cabeças d'ar condicionado (o mesmo que cabeças de oiro ou, mais genericamente, pessoal de gabinete, pessoal das companhias de serviços).

Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1)

1. No final dos anos sessenta, no norte de Moçambique, na região do Niassa, os soldados portuguesas entoavam fados e canções que relatavam as alegrias e as tristezas do seu quotidiano de guerra. O registo era, umas vezes, de bravata e paródia, e outras vezes mais triste e intimista... Era uma forma de exorcizar a angústia das emboscadas e das minas, de lidar com o stresse, de manter viva a ligação com a sua terra natal, de reforçar o seu espírito de corpo como combatentes e até de certo modo humanizar uma guerra que não parecia ter uma solução militar à vista. Nas letras dessas músicas podia-se inclusive descortinar sinais de contestação e até de resistência, sinais esses que minavam o moral das tropas e a vontade de combater.

O mesmo se passava, de resto, noutras frentes de guerra, como a Guiné, como eu posso testemunhar pela minha própria experiência pessoal: as longas noites da Guiné eram passadas, muitas vezes, entre muitos copos de uísque, cerveja, intermináveis jogos de lerpa e longas sessões de fados, baladas e outras canções (com o Manuel Freire à cabeça, seguido do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, dos Beatles, do Bob Dylan, do Donovan e de tantos outros...): "Eles não sabem nem sonham/ Que o sonho comanda a vida...", era uma das nossas preferidas, sendo cantada e acompanhada à viola com um misto de saudades da nossa terra e de rebeldia contra o aparelho político-militar.

Vários poetas e versejadores, de maior ou menor talento, pertencentes aos três ramos das forças armadas, contribuiram anonimamente para aquilo a que depois se veio a chamar o Cancioneiro do Niassa. As letras eram acompanhadas por melodias em voga na época, incluindo tangos e fados, tradicionais ou não, ainda hoje facilmente reconhecíveis (por ex., A Casa da Marquinhas, de Alfredo Marceneiro, ou a Júlia Florista, da Amália). O seu interesse não é literário mas sim documental, socioantropológico.

2. Aqui fica uma selecção de algumas das Canções do Niassa, com parabéns ao J.M.A. Santos pelo seu notável trabalho de recolha, preservação e divulgação desta documentação tão efémera mas tão importante para a sociologia histórica da guerra colonial, incluindo o estudo das representações sociais do turra, o invisível e obíquo inimigo que combatíamos em Moçambique, Angola e Guiné. No total a recolha de J.M. A. Santos ultrapassa as 40 canções, disponíveis no seu site:

Página de J. M. A. Santos > Guerra Colonial Portuguesa > Canções do Niassa (O Jorge Santos fez parte da 4ª Companhia de Fuzileiros e esteve no Niassa entre 1968 e 1970).

3. Há uma edição discográfica das Canções do Niassa, que resultaram da colaboração do actor João Maria Pinto (que no início da década de 1970 fez, com um grupo de amigos, as primeiras gravações do Cancioneiro do Niassa, vendendo depois as 'cassetes piratas' aos soldados recém chegados) e ao produtor Laurent Filipe: Canções proibidas: O Cancioneiro do Niassa. Lisboa: EMI - Valentim de Carvalho, Música, Lda. 1999. CD. 7243 5 20797 2 8.

Foram seleccionadas e gravadas 13 canções, cantadas pelo João Maria Pinto e seus convidados (entre outros, Carlos do Carmo, Rui Veloso, Paulo Carvalho, Janita Salomé, João Afonso): 1. Ventos de Guerra - João Maria Pinto/Rui Veloso; 2. Taberna do Diabo - João Maria Pinto/Gouveia Ferreira; 3. Fado do Checa - Paulo de Carvalho; 4. O Turra das Minas - João Maria Pinto/Rui Veloso; 5. Erva Lá Na Picada - João Maria Pinto/Janita Salomé; 6. Luta p'la Vida - João Maria Pinto; 7. Neutel d'Abreu - João Maria Pinto/Mariana Abrunheiro; 8. Bocas Bocas - Lura, João Maria Pinto/Mingo Rangel; 9. Fado do Miliciano - Janita Salomé; 10. O Fado do desertor - Carlos do Carmo; 11. O fado do Antoninho - Teresa Tapadas; 12. Hino de Vila Cabral - Carlos Macedo/João Maria Pinto; 13. O Hino do Lunho - João Maria Pinto e outros (João Afonso, Ana Picoito, Tetvocal...).

Destas 13 canções, apenas se conhecem os autores de duas: Gouveia Ferreira (Taberna do Diabo) e Carlos Macedo (Hino de Vila Cabral).


4. Antologia de canções do Niassa:

Ei-los que Partem

I
Ei-los que partem, olhos molhados,
Coração triste, mochila às costas,
Adeus aos seus entes amados.
Ei-los que partem, olhos molhados.

II
Virão um dia, ricos ou não,
Contando histórias da sua guerra
Onde a dor se fez em pão.
Virão um dia, ricos ou não.

III
Ei-los que partem, olhos cansados,
Já estão no fim da comissão,
Alguns doentes e aleijados.
Ei-los que partem, pobres soldados,
Ei-los que partem, pobres soldados,
Ei-los que partem, pobres soldados.

Comentário de L.G.: É uma adaptação de uma conhecida balada de Manuel Freire.


Fado do Turra

I
Se de mim nada consegues,
Não sei porque me persegues
Constantemente no mato!
Sabes bem que sou ladino,
Que tenho um andar muito fino,
E me escapo como um rato!

II
Lá porque és branco e pedante,
Pretendes ser arrogante,
Por capricho e altivez!
Eu que tenho sido pobre,
Mas que tenho a alma nobre
Talvez te lixe de vez!

III
Como ando sempre alerta,
Tua arma não me acerta,
Nem me deixa atrapalhado!
E assim, num breve instante,
Por mais que andes vigilante,
Tu serás sempre emboscado!

IV
Por isso toma cuidado!
E não me venhas com o teu fado
Dizer que branco é melhor.
Eu já muito codilhado,
Estou sempre desconfiado,
E irás desta p'ra pior.

Comentário de J.M.A. Santos: "Outro fado de humor, em que o autor põe o turra a falar". Comentário: Julgo reconhecer nesta letra o belíssimo fado do Alfredo Marceneiro, Não venhas tarde.


Poema do Militante

Mãe,
Eu tenho uma espingarda de ferro!
O teu filho,
Aquele a quem um dia viste acorrentarem
E choraste,
Como se as correntes prendessem e ferissem
As tuas mãos e os teus pés,
O teu filho já é livre, Mãe!

O teu filho tem uma espingarda de ferro,
A minha espingarda
Vai quebrar todas as correntes,
Vai abrir todas as prisões,
Vai matar todos os tiranos,
Vai restituir a terra ao nosso povo,
Mãe, é belo lutar pela liberdade!

Há uma mensagem de justiça em cada bala que disparo,
Há sonhos antigos que acordam como pássaros.
Nas horas de combate, na frente de batalha,
A tua imagem próxima desce sobre mim.
É por ti também que eu luto, Mãe!,
Para que não haja lágrimas nos teus olhos.

Comentário de J.M. A. Santos: "Poema encontrado numa base da Frelimo na zona do Lunho".


O Turra das Minas

I
O turra das minas,
Pequeno e traquinas,
Lá vai na picada
E a malta escondida,
Na mata batida
Monta a emboscada.
O turra passou,
A malta esperou,
Já toda estafada,
E a Berliet
Sempre foi estoirada.

II
Ó turra das minas,
A tua vida agora
É pôr as marmitas
Pela estrada fora.
Oh turra das minas,
Tua arma soa
Por léguas e léguas,
Aqui no Niassa,
Onde a Guerra entoa [ecoa].

III
Há mortos e feridos
E os mais comidos
Somos sempre nós,
Vamos pelos ares,
Gritando por todos,
Até pelos avós.
Ó turra bairrista,
Mas pouco fadista,
Já é tradição
Ser paraquedista
Sem tirar o curso,
Ai isso é que não.

Refrão
Oh turra das minas,
A tua vida agora...

Comentário de J.M. A. Santos: Fado de humor em que, como o nome indica, é o turra ou terrorista que põe as marmitas , as minas, nas picadas, os sejam, os caminhos através do mato.

Comentário de L.G.: Música de Joaquim Pimenal, fado "A Júlia Florista", uma das muitas criações de Amália. A Berliet era uma das viaturas mais usadas no transporte de tropas: de origem francesa, eram montadas no Tramagal.


Emboscada

I
Em tempos tive a mania
Que não havia emboscada,
Até que num lindo dia
Toda a minha companhia
Pelos turras foi avisada.

II
A história que vou contar,
Contou-ma certo velhinho
Quando eu vim para o Ultramar,
Disse-me ele a sussurrar:
Checa, toma juizinho.

III
E lá no mato cansado,
De aspecto frio e sério,
Há sempre um soldado
Prestes a ser emboscado
E a ir p'ró cemitério.

IV
P'ró Niassa veio alguém
Com uma ideia aperrada:
Ouve turra, escuta bem,
Que nós não queremos ninguém
Emboscado na picada.

V
Perante a admiração de todos
Acabou-se a emboscada,
Foi o Batalhão dos Rangers
Que deu porrada a rodos,
Temos a guerra acabada.

Comentário de L.G.: Facilmente se conclui que esta canção foi adaptada do célebre fado do Embuçado, letra e música de João Ferreira Rosa; uma das estrofes mais conhecidas diz assim: A história que eu vou contar / Contou-me certa velhinha/Certa vez que eu fui cantar /Ao salão de um Titular/ Lá para o Paço da Rainha.


Ventos da guerra

De quantos sacrifícios, senhores que em mim mandam,
É feita a vida dum soldado,
De quantas noites perdidas no mato
É feita a vida dum guerreiro.

São ventos de guerra,
Não penses, amigo,
Que a hora que passa é de perigo.

Bis

De quantos tiros, senhores que me ordenam,
É feita a vida dum soldado,
De quantas minas, senhores que em mim mandam
É feita a vida dum guerreiro.

Quem limpa, senhores, as manchas de sangue
Que os jovens deixam na picada,
Quem limpa, senhores, lágrimas choradas
Por noivas e mães adoradas.

São ventos de guerra... etc.

De quantas saudades, senhores que em mim mandam,
É feita a vida dum soldado,
E quantas loucuras, senhores que me ordenam,
Contém a vida dum guerreiro.

De quantos desgostos, senhores que em mim mandam,
É feita a vida dum soldado
E quanto vinho senhores que me ordenam
Se deve beber p'ra esquecer.

São ventos de guerra... etc.

E quantas vezes, senhores que em mim mandam,
Se deve expor a vida ao perigo
E quantos gritos se devem soltar
Para se acreditar que está vivo.

Quantas idéias tombadas na luta,
Quantas esperanças perdidas,
Quanto sangue deve um jovem verter
Antes que o chamem de homem.

São ventos de guerra...etc.

Comentário de L.G.: Corrigi a pontuação, como de resto fiz nas outras letras. Julgo que o autor desta letra se inspirou no conhecido poema de Fernando Pessoa, Mar Português, do livro Mensagem: "Ó mar salgado, quanto do sal/são lágrimas de Portugal"...

Comentário de João Maria Pinto (1999): "Fase final do Cancioneiro do Niassa que recolhi entre 69/71 em Moçambique. Muita influenciada pelas baladas de Bob Dylan, fazendo o paralelo com a Guerra do Vietname"...No CD, a música é de Laurent Filipe.


A erva lá na picada

I
A erva lá na picada
Pisam-na os guerrilheiros,
O coração do soldado
Pisam-no os coronéis
E ajudam os machambeiros. (Bis)

II
Que culpa tem o soldado
De ter raiva à sua sorte
Se chega um filho da puta
Que o mete numa farda
E o manda para a morte. (Bis)

III
E o senhor brigadeiro
Vive muito consolado
Até comprou uma balança
Para pesar o dinheiro
Que rouba ao pobre soldado. (Bis)

IV
Quando será, Deus do céu,
Que um dia haverá verba,
Que um dia haverá verba,
Para a malta comer pão
E os chicos erva erva /merda merda. (Bis)

Merda merda!
Merda merda!
Merda merda!

Comentário de J.M. A. Santos: "Música da guerra civil espanhola, cujo tema foi tratado por um grupo de alferes milicianos, e em que se aborda os negócios escuros da guerra e da exploração do soldado, sempre o mais injustiçado. Feita em Nampula em 1970".

Comentário de L.G.: Pelo meu lado, reconheço antes nesta letra a canção do Adriano Correia de Oliveira, o Senhor Morgado: no entanto, esta balada é do álbum Gente de Aqui e de Agora, editado em 1971, em data portanto posterior à indicada por J.M.A. Santos; mas é possível que o Adriano já a cantasse antes em festas de estudantes ou reuniões de amigos.

Comentário de João Maria Pinto (1999): Canção feita em Nampula em 70. Inspira-se numa conhecida canção da guerra civil espanhola: "La hierba de los caminos / la pisan los caminantes / y la mujer de lo obrero / la pisan quatro tonantes / de essos que tienen dinero" (...).


Checas

I
Ó checa, amigo checa,
Cacimbado ando eu,
Já estou farto disto tudo,
Aqui em Nova Viseu.

II
Já estou farto de picar,
De fazer operações,
De rios atravessar
Com água até aos calções.

III
Já estou farto de buracos,
Feitos pelas marmitas,
Já estou farto de ir ao ar
E sem ver os terroristas.

IV
Ó checa, amigo checa,
Na picada, faz favor,
Tu serás paraquedista
Ou piloto aviador.

V
Comes feijão ao almoço,
Comes feijão ao jantar
E quando não é feijão
É punga para variar.

VI
Uma sopa de mosquitos,
E de formas esquisitas,
Dia sim, dia não,
Lá virão os ciclistas.

VII
Ó checa, amigo checa,
Isto aqui é muito chato,
Aturar a chicalhada
Que nunca saem para o mato.

VIII
Esta guerra é dos soldados
E também dos furriéis,
O resto dos graduados
Faz a guerra dos papéis.

IX
Assim é Nova Viseu
E isto ainda aumenta,
Isto é uma charanga
Na trinta e quatro setenta.

Comentário de L.G.: Referência à Companhia 3470, aquartelada em Nova Viseu, na região do Niassa. Desconheço a proveniência do termo checa, o qual designa, se bem entendo, o soldado que acaba de chegar da Metrópole, sem experiência de combate, em suma, o maçarico, o periquito, como nós dizíamos na Guiné em 1969/71: Checa é pior que turra, é o título de uma obra de ficção, publicada em 1996 por Manuel Maria, que esteve em Moçambique entre 1972 e 1974. O romance, edição de autor (Porto, 1996), tem como subtítulo: Caricaturas da guerra colonial.


Quanto ao termo punga, não sei se está está correcto, no contecto em que é usado: segundo o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, o termo seria de origem suaíli e designaria "uma espécie de samba cantado, marcado por tambor, com versos improvisados e que é dançado em roda"...Mas não me parece que seja nesse sentido que o termo é aqui empregue: Comes feijão ao almoço,/Comes feijão ao jantar / E quando não é feijão / É punga para variar.. Quanto ao termo picar, significava detectar minas utilizando para o efeito um pau tendo na extremidade um ferro aguçado ou um prego com que se picava o chão, a picada, os trilhos suspeitos de esconderem marmitas ou minas anticarro ou antipessoal). Por sua vez, o termo chicalhada era uma forma de se referir, em termos depreciativos, os oficiais e sargentos do quadro das Forças Armadas, o pessoal da carreira militar, os quais eram em geral muito mais velhos do que os soldados do contingente geral, os furriéis milicianos e os alferes milicianos. Meter o chico era um termo depreciativo, designando uma acção desprezível de um furriel ou alferes miliciano que, no final da comissão, optava pela continuação na vida militar: veja-se por exemplo o Fado do Miliciano que o J.M.AS Santos diz ser a versão do Exército do Fado da Marinha).


Fado do Checa


Bem vindo, Checa,
P'ra esta guerra
Que cá te espera;
Não estejas triste,
Que a guerra é linda,
Só fazes cera,
Vais ter saudades
De mulheres brancas;
Ai que tormentos,
Aqui há pretas
Mas tem cuidado
Com seus lamentos

Refrão

Checa danado,
Pela tropa mui lixado,
Não chores, ó desgraçado,
Não vale a pena chorar;
Checa bem vindo,
Chegaste a horas,
Eu já vou indo
E afinal, mal encavado,
Que vieste cá fazer ?
Checa danado,
Vieste p'ra me render;
Vais lerpar muito
Mas com o aumento
Vais ficar rico,
Dá-o às pretas
Pois assim fazes
A tua psico.
Mas tem cuidado,
Checa danado,
Sê pouco anjinho,
Manda-os lixar
E faz a tua guerra sozinho.

Refrão
Checa danado...

Fonte: Letra transcrita do CD, "Canções Proibidas", 1999; música de Raul Ferrão, fado "A Rosa Enjeitada".

Comentário de João Maria Pinto (1999): O checa era "o esperado substituto", "o homem que nos rendia e que assegurava o regresso a casa. Era preciso tratá-lo bem e dar-lhe bons conselhos. Feito na Primavera Marcelista, cheia de falinhas mansas".


Fadinho Serrano

Muito boa noite,senhoras e senhores,
Os homens do Lunho são bons lutadores,
São bons lutadores,são bons guerrilheiros,
Fazem horas extras sem ganhar dinheiro.

Sem ganhar dinheiro, nada se ficam,
Nos dias de folga vão p'rá pá e pica.

Fazemos machambas e nasce o que é bom
No rancho comemos sopa de feijão,
Sopa de feijão, grelos com cristas.
Para variar comemos ciclistas,
Comemos ciclistas com molho e salada,
Fome não passamos, mas fartura nada.

Roupa que não falta
A verdade é uma
Até colchões temos
E de lusospuma.

Para não estragar,
Fazemos um esforço
Ou mandam para o mato
Ou pôr de reforço.

Pôr-nos de reforço,
Já sabem quem são,
Colchões para durar
Outra comissão.

Comentário de J.M. A. Santos: "Machambas [eram as] hortas".

Comentário de L.G.: Letra adaptada do conhecidíssimo fado cantado pela Amália, Fadinho Serrano (Hernâni Correia/Arlindo de Carvalho). Expressões como "ir para o mato" e "pôr de reforço" são tipicamente militares: querem dizer "sair do aquartelamento em missão" e "reforçar a segurança ao aquartelamento", respectivamente. O termo "machambeiros" era aplicado, depreciativamente, aos colonos brancos.


Fado a Metangula

Tens belas ruas, tens avenidas,
Tens tantas coisas que nos são queridas,
Tens aeroporto, tens aviões
Tens bom cinema, tens diversões.

Recentemente já rádio há,
Nem há paisagem como a de cá,
Tens pôr-do-sol visto de graça,
És a mais linda deste Niassa.

Ó Metangula,
És afinal
Grande "cidade" de Portugal,
Tens tantas coisas,
Boas e belas,
Que nós ficamos
Loucos com elas.

Ó Metangula,
Tu tens razão,
Já só te falta
Televisão.
Vais dentro em pouco
Ser das primeiras,
Mas só não tens é
Mulheres solteiras.

Comentário de J.M.A. Santos: "O autor deste fado, com optimismo, vê Metangula por um prisma muito favorável, levado pelo progresso e olhado com muito exagero! Mas no entanto, como se deduz do estribilho, ainda há muita coisa que falta!!!";

Comentário de L.G.: Em Metangula, nas margens do Lago Niassa, havia uma importante base naval, criada pela nossa Marinha de Guerra; não admira por isso que algumas das canções do Niassa sejam atribuídas ao pessoal deste ramo das forças armadas: ver por exemplo a letra do Fado do Buldozer, cuja letra não transcrevo aqui por razões de economia de espaço, e que também foi recolhida por J.M.A. Santos.


Fado das comparações

Que estranha forma de vida!
Que estranha comparação!
Vive-se em Lourenço Marques, (Bis)
Cá arrisca-se o coirão!

Vida boa, vida airada!
Boites, é só festança!
Lá não se fala em matança, (Bis)
Nem turras; há só borgadas.

Niassa, pura olvidança!
Guerra, como és ignorada!
Conversa que é evitada, (Bis)
P'los que vivem n'abastança!

Falar na nossa desdita
Fica mal e aborrece!
E como lembrar irrita, (Bis)
Toda a gente a desconhece!

Ao passar pela cidade,
Com tanta tranquilidade,
Deu-me [pr'a] comparar
Meninas com mini-saias!
Mandai-as p'ras nossas praias
P'ra manobra de atacar!

Hippies com carros GT's,
Mandai-os para as Berliets,
Tirai-lhes as modas finas,
Melenudos efeminados
Eram bem utilizados
P'ra fazer rebentar minas!

Bem como essas tais meninas
Que, apesar de enfezadinhas,
Mas com ar da sua graça
Serviriam muito a jeito
Para aliviar a dor do peito,
Cá da malta do Niassa.

Mas não, só por pirraça,
Hão-de lá continuar!
E nós temos de lerpar,
Invertem-se as posições!
E trocam-se as situações!
Continuamos a aguentar!

Nós, sem sermos desejados,
Ficamos cá apanhados
Aos urros, num desvario!
Eles, os daqui naturais,
Gastando dinheiro aos pais
Vão p'ra p... que os pariu!

Acabe-se com a tradição!
Entre-se em mobilização!
Utilize-se a manada!
Dentro de poucas semanas,
Como quem come bananas,
Estará a Guerra acabada.


Comentário de J.M. A. Santos: "Este é um fado que compara algumas coisas que se passavam. Não é um fado para ofender, e era cantado em ambientes muito particulares e com público esclarecido! De resto, como todo o cancioneiro, sobressai sempre o aspecto humorístico com que todos os
temas são abordados".

Comentário de L.G.: Canção que tudo indica foi inspirado no fado Estranha forma de vida (Letra e música: Afredo Duarte e Amália Rodrigues).

Reconheço nesta canção sarcástica sobre a privilegiada condição dos colonos moçambicanos e dos seus flhos e filhas uma das maiores contradições daquela guerra onde dificilmente se podia convencer um soldado da metrópole que estava a defender o chão sagrado da Pátria...

Noutro registo, era o mesmo tipo de crítica que nós fazíamos na Guiné - nós, os operacionais, a carne para canhão - aos privilegiados da guerra do ar condicionado, instalados no relativo conforto e na precária segurança de Bissau... Recorde-se que na Guiné não havia colonos brancos, a única empresa que se podia chamar colonialista era a Casa Gouveia, ligada à CUF - Companhia União Fabril, mas que ficou praticamente inactiva com o início da guerra).

A palavra lerpar era utilizada pelas nossas tropas, da Guiné a Moçambique, com o mesmo sentido de perda: morrer, ser ferido, perder qualquer coisa, apanhar um castigo, ser escalado, etc.


Fado do Antoninho

I
Foi no domingo passado que eu passei
À casa onde vivia o Antoninho,
Mas está tudo tão mudado
Que não vi em nenhum lado
Os tais agentes da Pide, bonitinhos.

II
Do rés-do-chão ao telhado
Não vi nada,nada, nada, nada, que fizesse
Recordar a tal vidinha;
Já não há vidros pregados, reforçados,
Guardados com tabuinhas.

III
Entrei onde era a casa, agora está
À secretária um sujeito, uma delícia,
Não vi bombas nem espingardas
Nem revólveres nem espadas
Nem espreitadelas furtivas da polícia.

IV
O tempo cravou a garra
Na alma daquela casa
Onde às vezes parecia não ter gente
E onde em noites de segredo, a meter medo,
Lá surgia o Presidente.

V
As janelas tão medonhas que ficavam
Com cortinas a tapar a velharia,
Ganharam de novo a graça
Pois são hoje umas vidraças,
Já livres de toda a porcaria.

VI
E lá p'ra dentro quem passa,
Hoje é para ir ao Marcelo
Entregar ao Presidente um pedidinho
Pois chega a esta desgraça toda a graça
Com a doença do velhinho.

VII
P'ra terem feito da casa o que fizeram
Melhor fora que a mandassem p'rás alminhas,
Pois na casa de Saúde
Provas de amor amiúde
É idéia que não cabe cá nas minhas.

VIII
Recordações do pavor,
D'avareza e do terror,
Vamos procurar esquecer nas cervejinhas
Pois dar de beber à dor é o melhor
Já dizia a Mariquinhas.

Comentário de J.M.A. Santos: "Versos feitos provavelmente por civis que parodiavam a 'Primavera Marcelista', 'evolução na continuidade', 'doença de Salazar' ".

Comentário L.G.: de origem militar ou civil, esta paródia do fado da Casa da Mariquinhas é uma delícia. Recorde-se que a letra original é de Silva Tavares e a música é do grande e imortal Alfredo Duarte, o Marceneiro. É bom também lembrar que a política política, a PIDE (DGS, com Marcelo Caetano), teve um papel muito activo e tenebroso na guerra colonial. Eram os pides que faziam o trabalho mais sujo que a tropa não queria ou não gostava de fazer como a tortura e o interrogatório de prisioneiros da FELIMO, do MPLA e do PAIGC. O Antoninho é o diminuitivo de António de Oliveira Salazar.


Taberna do Diabo

I
Um dia fui dar com Deus
Na taberna do diabo,
Entre cristãos e ateus
Fizeram de mim soldado.

II
E eu sem querer fui embarcado, (Bis)
Levei armas e um galão
Pr'ó outro lado do mar,
Quis levar o coração
Não mo deixaram levar.

E eu sem querer ia matar. (Bis)

III
Deram-me uma Cruz de Guerra
Quando matei meu irmão,
E a gente da minha terra
Promoveu-me a capitão.

E eu sem querer fiquei papão. (Bis)

IV
Todos me chamam herói,
Ninguém me chama Manel,
Quem quer uma Cruz de Guerra
Que eu já não vou pr'ó quartel.

Que eu já não vou pr'ó quartel. (Bis)

Comentário de João Maria Pinto: "Feita em Braga no ano de 66 por Gouveia Ferreira", foi lavada para Moçamboque em Dezembro de 1969, tornando-se "obrigatória nas tertúlias e nos gravadores de dezenas de militares". Esta canção "reflecte os medos de uma geraão face à Guerra Colonial" (....). Muitos desertaram, muitos não e foram sem mais voltar 'a acender no meu o seu cigarro' ".

Comentário de L.G.: Segundo o CD "Canções Proibidas" (EMI, 1999), a letra e a música são de Manuel António Gouveia Ferreira.


Fado a um autor desconhecido

I
Desconhecido autor porreiro,
A ti devemos tod'o nosso Cancioneiro.
Em fado lento, em fado antigo,
O teu talento foi o nosso melhor amigo.

II
Cantaste o fado, cantaste a raça
Disseste em verso da beleza do Niassa,
Disseste até sem uma falha
A vida triste que cá viv'esta maralha.

III
Tempo esquecido
Que ao passar
Só a saudade por castigo faz ficar.
Desconhecido,
Vais-nos deixar,
Ó Metangula, tens razão para chorar.

IV
Virão mais checas, virá mais malta,
Tal como nós hão-de sentir a tua falta.
Serás cantado, tenho a certeza,
A tua ausência lembraremos com tristeza.

V
Já lá vai longe, foi há um ano
Que nos deixaste, grande amigo Adriano.
Vamos voltar, vamos-te ver,
P'ra nosso fado todos juntos reviver.


Comentário de J.M. A. Santos: "Esta composição é dedicada ao Autor Desconhecido a cujo entusiasmo, veia poética e garra fadista se deve a concretização do sentimento que em nós existia e só ele soube cantar. Como testemunho do muito apreço e gratidão da maralha".


Hino do Lunho


No céu cinzento sob o astro mudo,
Batendo os hélices na terra esquentada,
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada.

Se alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas à chegada,
Só mandam, só mandam vir,
Só mandam vir e não fazem nada.

Bis

A toda a parte vai um helicóptero
Poisam nos tandas, poisa nas picadas,
Leva no bojo os cabeças de ouro
Que de guerrilha não percebem nada.

São os reizinhos do Niassa todo,
Senhores por escolha, mandadores sem punho,
Aceitam cunhas e dizem que não,
Fazem as rondas sob o céu do Lunho.

Estou farto deles,
Estou farto deles,
Só mandam vir
E não fazem nada.

Bis

Quantas Mercedes, senhor Capitão,
Até agora foram fornicadas,
Eu bem lhe disse que pusesse os homens
Estourando minas, fazendo emboscadas.

No chão do medo tombam os vencidos,
Ouvem-se os gritos na noite abafada,
Jazem nos fossos vítimas de um credo
E não se esgota o sangue da manada.

Fazendo estradas sobre um chão de greda,
Fazem-se aterros, pontes e pontões,
Ouvem-se os tiros lá na emboscada,
Aqui no Lunho é que há leões.

Estou farto deles,
Estou farto deles,
Só mandam vir
E não fazem nada.

Bis

Tremem paredes de qualquer quartel,
São militares, anda tudo à bulha,
Ri-te, capitão, ri-te coronel,
Com esta moda da minipatrulha.

Encher o peito de metal brilhante
É essa a sua grande aspiração,
Por isso deixa os turras sossegados
Dentro da linha de contenção.

Deixem crescê-los,
Organizá-los,
Depois eu vou
Deitar-lhes a mão.

Bis

Estranha forma de tratar o cancro
Que se propaga p’la nossa nação,
Ele será leigo ou talvez ceifeiro,
Mas nunca médico cirugião.

Por uma ponte sem terminação,
O nosso sangue foi derramado,
Mas, aleluia, não será lembrado
Pelos cabeças d’ar condicionado.

Estou farto deles,
Estou farto deles,
Só mandam vir
E não fazem nada.

Bis

Se alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas à chegada,
Só mandam, só mandam vir,
Só mandam vir e não fazem nada.

Bis

Estou farto deles,
Estou farto deles,
Só mandam vir
E não fazem nada.

Bis

Comentário de João Maria Pinto (1999): "Primeira obra forte do cancioneiro do Niassa, feita por um Alferes Miliciano sobre 'os vampiros' do Zeca Afonso. O Lunho foi um dos locais mais duros da guerra no norte de Moçambique. Homenagem sentida ao grande lutador que foi José Afonso e que apoiou a ADFA [Associação dos Deficientes das Forças Armadas, que também apoiou a a edição deste CD].

Comentário de L. G.: Alguns termos do calão da guerra colonial têm de ser descodificados, tais como picada (estrada de terra batida), cabeça de ouro (alta patente militar), fornicar (destruir, dar cabo de), tandas (clareiras na mata, junto às picadas ou estradas), psico (acção piscossocial levada a cabo pelas forças armadas junto das populações locais, sob o controlo das nossas tropas ou sob a influência da guerrilha), minipatrulha (patrulha com um pequeno grupo de homens), mercedes (viaturas militares de transporte de carga), metal brilhante (condecorações), cabeças d'ar condicionado (o mesmo que cabeças de oiro ou, mais genericamente, pessoal de gabinete, pessoal das companhias de serviços).

07 maio 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - VIII: António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência

1. Tive há dois dias o privilégio de conhecer pessoalmente o Prof. António Coutinho e de ouvir uma conferência sua sobre investigação biomédica e administração de saúde. Local e data: Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 5 de Maio de 2004.

António Coutinho é director do Instituto Gulbenkian de Ciência e é um dos poucos cientistas portugueses que, à partida, pode dar-se ao luxo de dizer, no seu invejável currículo, que já ultrapassou, há muito, os famigerados 100 artigos publicados em revistas internacionais referenciadas nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI), em Filadélfia, nos EUA. Como se sabe, esta é a bitola (dita, bibliométrica) para que um investigador português no estrangeiro possa candidatar-se a uma bolsa de dois anos e regressar a Portugal.

Pelas contas do jornal Público, de 22 de Abril de 2004, só o imunologista António Coutinho, de 57 anos, e o neurologista António Damásio, de 60, teriam lugar no Olimpo da ciência portuguesa. São já sobejamente conhecidas as críticas da comunidade científica portuguesa a esta medida, ridícula para uns e demagógica para outros.

Em contrapartida, a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, diz que está "convencida de que há cerca de 100 cientistas em Portugal com mais de 100 artigos", em entrevista ao Público, de 22 de Abril de 2004.

Segundo notícia do Público, também de 22 de Abril de 2004, Pedro Magalhães, professor de ciências políticas do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL), começou por pesquisar alguns nomes nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI Web of Knowledge), uma referência a nível mundial no que respeita à informação sobre a literatura científica. Verificou-se que "vários investigadores, incluindo premiados com o Nobel da Economia, não seriam contemplados com os critérios portugueses".

2. Retive algumas ideias-chaves da intervenção de António Coutinho sobre o papel da ciência numa sociedade moderna, que não sendo originais não deixam de ser muito actuais e relevantes para o debate sobre o nosso sistema de gestão da investigação científica: (i) não há democracia sem ciência; (ii) a ciência é a base em que deve assentar o desenvolvimento económico e social; (iii) é a fonte (essencial) da racionalidade; mas também é (iv) a escola da tolerância, a garantia do pluralismo teórico-ideológico, a matriz em que se produz e reproduz a cultura da pós-modernidade...

3. Achei interessante (ou saudavelmente provocatória ?) a ideia de que só se faz ciência enquanto se é jovem, que há uma idade (entre os 25 e os 45 anos) para se ser investigador... A revolução que o Prof. António Coutinho operou no Instituto Gulbenkian de Ciência (e da qual, de resto, sei pouco) vai nesse sentido: "Não quero que os jovens investigadores façam carreira no Instituto, dou-lhes apenas as condições para arrancarem com os seus projectos, criarem equipas, tornarem-se líderes e prepararem-se para outros voos, cá dentro ou no estrangeiro" (cito de cor). Não é esse, de resto, o entendimento do Prof. António Coutinho para quem nem sequer ainda chegámos à Biologia dos Sistemas...

4. Achei estimulante (e muito próprio de um fundamentalista, no sentido literal, biológico e francês do termo) aquela outra ideia de que a medicina ainda é uma tecnologia de base empírica, não científica, baseada na evidência, malgré les progrès de la biomedicine... É caso para se dizer que o novo paradigma biomédico, não sendo organicista, não deixa de ser menos redutor e imperialista ? Ou que durante às próximas décadas tudo vai ser explicado pelo determinismo genético ?

No futuro, daqui a cinco a dez anos, “a terapêutica vai ser mais biológica do que farmacológica” (sic) e o “velho patologista” pode arrumar o seu microscópio e desaparecer de cena... Estamos a falar de um número potencial de 30 a 40 mil doenças genéticas, tantos quanto os genes do genoma humano até agora descobertos... Mas o que é que isso representa em relação ao total das doenças humanas ? Qual o seu peso em termos de saúde pública ? “Menos de 1%” (sic)...

A verdade seja dita: "a doença pode ter uma base genética, mas não é só genética, é epigenética , logo multifactorial" (cito de cor)... Todas as doenças têm uma base genética, da depressão à simples gripe...Em maior ou menor grau... “Mesmo as doenças infecciosas... e até as intoxicações!” (sic)... Tão elementar , quanto isso, meu caro Watson, James Watson, um dos pais do DNA, com Francis Crick, em 1953 (co-laureados com o Prémio Nobel da Medicina em 1962).

5. Ninguém hoje se atreveria a negar ou a pôr em causa a revolução (silenciosa, primeiro; triunfante, depois) da genética nestes últimos 50 anos... As suas implicações para a saúde pública, para a protecção e a promoção da saúde para a investigação em saúde, para a formação dos profissionais de saúde ou para a prática da medicina também não são difíceis de advinhar: vamos passar, muito rapidamente, do diagnóstico e tratamento para a predição/prevenção: (i) mudança (mais fácil) de “estilo de vida”; (ii) mudança (mais difícil) no ambiente onde a gente nasce, respira, cresce, vive, trabalha , dorme, consome, descansa, adoece, envelhece e morre; (iii) terapia profiláctica...

Fica em aberto a (difícil, terrível) questão da equidade: a “medical genomics” chegou, viu e venceu, mas não é para todos... Os testes genéticos são “cost-effective”, mas quem, fora do mundo ocidental (mais Japão + outros tigres asiáticos...), terá acesso a esta nova tecnologia ? Pelo menos, para já ?

6. Falou-se também, entre outras coisas, da porno-science, da clonagem e da pretensão dos guardiões do templo que querem legislar em matéria de bioética... Mas que sei eu de biologia molecular ou de biologia evolutiva para discutir com os teólogos e os filósofos ? Retive também uma informação do Prof. António Coutinho: (i) "seriam precisas dois milhões de mulheres, voluntárias, para clonar um Hitler"; (ii) "clonagem já fazemos desde que inventámos a agricultura"... Curiosamente não falámos, por falta de tempo, da biodiversidade nem da agricultura transgénica...

7. Retemperarei o meu entusiasmo sobre o admirável mundo novo da Biologia Molecular e da Engenharia Genética com as eruditas e elegantes observações que o Prof. João Lobo Antunes fez, há uns anos atrás, numa oração de sapiência que já é hoje de antologia:

"Mas esta nova Biologia, a Biologia Molecular, que dá alma a que Lewis Thomas chamou a mais nova das ciências, a Medicina, brotou também do encontro da Física e da Química, que lhe cederam os conceitos e os instrumentos de investigação, a cromatografia, os radioisótopos, a microscopia electrónica, a cristalografia, provavelmente pela sedução que o último mistério da ciência, o segredo da vida, sempre exerce. Niels Bohr, por exemplo, dizia que a Biologia era fonte inesgotável de novas leis da Física à espera de serem descobertas. E vieram o ADN, a dupla hélice, a decifração do código genético, a transferência dos genes, em suma, a integração dos mundos das ciências básica e clínica, criando dois imperativos fundamentais para a educação dos jovens médicos. O primeiro é a necessidade de incorporar novos conceitos e nova linguagem; o outro é igualmente importante embora talvez menos evidente. É a que a Biologia Molecular, na sua acção unificadora, cria necessariamente, como disse François Jacob, "um modo diferente de olhar as coisas, que leva à descoberta de novas relações entre os fenómenos e portanto à mudança da ordem existente". Se deixarmos por isso que o ensino médico se isole deste novo saber, poderemos formar artesãos ou técnicos, mas não os médicos de que a Nação precisa".

8. Tinham-me dito, alguns dos meus amigos médicos, que o Prof. António Coutinho, beirão também ele como outro António, o Ribeiro Sanches (n. Penamacor, 1699-m. Paris, 1783), era arrogante, como qualquer bom portuga estrangeirado. Mentira, achei-o encantador, aberto, culto, humilde, um verdadeiro homem de ciência e seguramente um homem com um perfil de grande líder e gestor... Claro, crítico, e com um fino sentido de humor... E tem motivos para orgulho quando fala do seu Instituto Gulbenkian de Ciência, o qual já fabricou uma centena de doutorados em biomedicina, e que agora precisa, como pão para a boca, é de bio-informáticos... "Se for preciso, acaba-se a fileira dos doutoramentos em biomedicina e abre-se a da bio-informática" (cito de cor)...

O seu orgulho parece-me inteiramente justo quando se sabe que, com um orçamento de 8 milhões de euros, menos de 1% do orçamento da investigação científica em Portugal, O IGC produz um terço da investigação na área da saúde... E não é um terço qualquer, é um terço de excelência! Espero não me enganar, nem estar a fazer mal as contas: não sei exactamente qual é o orçamento da ciência em Portugal mas não ultrapassa os 0.75% do PIB, ou seja, deverá ser qualquer coisa como mil milhões de euros (200 milhões de contos em moeda antiga).

Por tudo isto, António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência merecem as minhas palmas. As nossas palmas. (...Embora seguramente não precisem delas!)


Post scriptum:

(i) É bom recordar que "fabricar doutorados não é igual a criar cientistas, cuja vocação tem de ser primeiro despertada, depois alimentada, multiplicada e, o que também não é comum entre nós, devidamente apreciada" (J. Lobo Antunes dixit).

(ii) No dia seguinte à publicação este post, deparei com uma excelente reportagem do Público (edição de 7 de Maio de 2004), assinada pela Clara Barata e pela Joana Gorjão Henriques, sobre o "ninho de formação de líderes cieníficos" que é hoje o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), sob a liderança do Prof. António Coutinho. Juro que só tive conhecimento deste texto, no sábado de manhã, dia 8. Trata-se, por isso, de uma feliz coincidência.

Para um país distraído, com tendência para a descrença, o pessimismo, o fatalismo e a depressão, é imprescindível e salutar ler mais esta história de sucesso no país de Abril. Não se pense, todavia, que o ICG é um oásis num deserto, e cheia de estrangeirados. Helena Soares, por exemplo, 41 anos, prestigiada investigadora, responsável pelo grupo de Stress e Dinâmica do Citoesqueleto, nunca quis sair de Portugal por razões pessoais, e diz à jornalista que "já não há uma diferença tão grande em relação ao exterior" embora o "meio científico ainda [seja] pequeno".

Parabéns também ao Público por esta notável série de reportagens ("30 anos do 25 de Abril: histórias de um país de sucesso").

Portugas que merecem as nossas palmas - VIII: António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência

1. Tive há dois dias o privilégio de conhecer pessoalmente o Prof. António Coutinho e de ouvir uma conferência sua sobre investigação biomédica e administração de saúde. Local e data: Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 5 de Maio de 2004.

António Coutinho é director do Instituto Gulbenkian de Ciência e é um dos poucos cientistas portugueses que, à partida, pode dar-se ao luxo de dizer, no seu invejável currículo, que já ultrapassou, há muito, os famigerados 100 artigos publicados em revistas internacionais referenciadas nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI), em Filadélfia, nos EUA. Como se sabe, esta é a bitola (dita, bibliométrica) para que um investigador português no estrangeiro possa candidatar-se a uma bolsa de dois anos e regressar a Portugal.

Pelas contas do jornal Público, de 22 de Abril de 2004, só o imunologista António Coutinho, de 57 anos, e o neurologista António Damásio, de 60, teriam lugar no Olimpo da ciência portuguesa. São já sobejamente conhecidas as críticas da comunidade científica portuguesa a esta medida, ridícula para uns e demagógica para outros.

Em contrapartida, a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, diz que está "convencida de que há cerca de 100 cientistas em Portugal com mais de 100 artigos", em entrevista ao Público, de 22 de Abril de 2004.

Segundo notícia do Público, também de 22 de Abril de 2004, Pedro Magalhães, professor de ciências políticas do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL), começou por pesquisar alguns nomes nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI Web of Knowledge), uma referência a nível mundial no que respeita à informação sobre a literatura científica. Verificou-se que "vários investigadores, incluindo premiados com o Nobel da Economia, não seriam contemplados com os critérios portugueses".

2. Retive algumas ideias-chaves da intervenção de António Coutinho sobre o papel da ciência numa sociedade moderna, que não sendo originais não deixam de ser muito actuais e relevantes para o debate sobre o nosso sistema de gestão da investigação científica: (i) não há democracia sem ciência; (ii) a ciência é a base em que deve assentar o desenvolvimento económico e social; (iii) é a fonte (essencial) da racionalidade; mas também é (iv) a escola da tolerância, a garantia do pluralismo teórico-ideológico, a matriz em que se produz e reproduz a cultura da pós-modernidade...

3. Achei interessante (ou saudavelmente provocatória ?) a ideia de que só se faz ciência enquanto se é jovem, que há uma idade (entre os 25 e os 45 anos) para se ser investigador... A revolução que o Prof. António Coutinho operou no Instituto Gulbenkian de Ciência (e da qual, de resto, sei pouco) vai nesse sentido: "Não quero que os jovens investigadores façam carreira no Instituto, dou-lhes apenas as condições para arrancarem com os seus projectos, criarem equipas, tornarem-se líderes e prepararem-se para outros voos, cá dentro ou no estrangeiro" (cito de cor). Não é esse, de resto, o entendimento do Prof. António Coutinho para quem nem sequer ainda chegámos à Biologia dos Sistemas...

4. Achei estimulante (e muito próprio de um fundamentalista, no sentido literal, biológico e francês do termo) aquela outra ideia de que a medicina ainda é uma tecnologia de base empírica, não científica, baseada na evidência, malgré les progrès de la biomedicine... É caso para se dizer que o novo paradigma biomédico, não sendo organicista, não deixa de ser menos redutor e imperialista ? Ou que durante às próximas décadas tudo vai ser explicado pelo determinismo genético ?

No futuro, daqui a cinco a dez anos, “a terapêutica vai ser mais biológica do que farmacológica” (sic) e o “velho patologista” pode arrumar o seu microscópio e desaparecer de cena... Estamos a falar de um número potencial de 30 a 40 mil doenças genéticas, tantos quanto os genes do genoma humano até agora descobertos... Mas o que é que isso representa em relação ao total das doenças humanas ? Qual o seu peso em termos de saúde pública ? “Menos de 1%” (sic)...

A verdade seja dita: "a doença pode ter uma base genética, mas não é só genética, é epigenética , logo multifactorial" (cito de cor)... Todas as doenças têm uma base genética, da depressão à simples gripe...Em maior ou menor grau... “Mesmo as doenças infecciosas... e até as intoxicações!” (sic)... Tão elementar , quanto isso, meu caro Watson, James Watson, um dos pais do DNA, com Francis Crick, em 1953 (co-laureados com o Prémio Nobel da Medicina em 1962).

5. Ninguém hoje se atreveria a negar ou a pôr em causa a revolução (silenciosa, primeiro; triunfante, depois) da genética nestes últimos 50 anos... As suas implicações para a saúde pública, para a protecção e a promoção da saúde para a investigação em saúde, para a formação dos profissionais de saúde ou para a prática da medicina também não são difíceis de advinhar: vamos passar, muito rapidamente, do diagnóstico e tratamento para a predição/prevenção: (i) mudança (mais fácil) de “estilo de vida”; (ii) mudança (mais difícil) no ambiente onde a gente nasce, respira, cresce, vive, trabalha , dorme, consome, descansa, adoece, envelhece e morre; (iii) terapia profiláctica...

Fica em aberto a (difícil, terrível) questão da equidade: a “medical genomics” chegou, viu e venceu, mas não é para todos... Os testes genéticos são “cost-effective”, mas quem, fora do mundo ocidental (mais Japão + outros tigres asiáticos...), terá acesso a esta nova tecnologia ? Pelo menos, para já ?

6. Falou-se também, entre outras coisas, da porno-science, da clonagem e da pretensão dos guardiões do templo que querem legislar em matéria de bioética... Mas que sei eu de biologia molecular ou de biologia evolutiva para discutir com os teólogos e os filósofos ? Retive também uma informação do Prof. António Coutinho: (i) "seriam precisas dois milhões de mulheres, voluntárias, para clonar um Hitler"; (ii) "clonagem já fazemos desde que inventámos a agricultura"... Curiosamente não falámos, por falta de tempo, da biodiversidade nem da agricultura transgénica...

7. Retemperarei o meu entusiasmo sobre o admirável mundo novo da Biologia Molecular e da Engenharia Genética com as eruditas e elegantes observações que o Prof. João Lobo Antunes fez, há uns anos atrás, numa oração de sapiência que já é hoje de antologia:

"Mas esta nova Biologia, a Biologia Molecular, que dá alma a que Lewis Thomas chamou a mais nova das ciências, a Medicina, brotou também do encontro da Física e da Química, que lhe cederam os conceitos e os instrumentos de investigação, a cromatografia, os radioisótopos, a microscopia electrónica, a cristalografia, provavelmente pela sedução que o último mistério da ciência, o segredo da vida, sempre exerce. Niels Bohr, por exemplo, dizia que a Biologia era fonte inesgotável de novas leis da Física à espera de serem descobertas. E vieram o ADN, a dupla hélice, a decifração do código genético, a transferência dos genes, em suma, a integração dos mundos das ciências básica e clínica, criando dois imperativos fundamentais para a educação dos jovens médicos. O primeiro é a necessidade de incorporar novos conceitos e nova linguagem; o outro é igualmente importante embora talvez menos evidente. É a que a Biologia Molecular, na sua acção unificadora, cria necessariamente, como disse François Jacob, "um modo diferente de olhar as coisas, que leva à descoberta de novas relações entre os fenómenos e portanto à mudança da ordem existente". Se deixarmos por isso que o ensino médico se isole deste novo saber, poderemos formar artesãos ou técnicos, mas não os médicos de que a Nação precisa".

8. Tinham-me dito, alguns dos meus amigos médicos, que o Prof. António Coutinho, beirão também ele como outro António, o Ribeiro Sanches (n. Penamacor, 1699-m. Paris, 1783), era arrogante, como qualquer bom portuga estrangeirado. Mentira, achei-o encantador, aberto, culto, humilde, um verdadeiro homem de ciência e seguramente um homem com um perfil de grande líder e gestor... Claro, crítico, e com um fino sentido de humor... E tem motivos para orgulho quando fala do seu Instituto Gulbenkian de Ciência, o qual já fabricou uma centena de doutorados em biomedicina, e que agora precisa, como pão para a boca, é de bio-informáticos... "Se for preciso, acaba-se a fileira dos doutoramentos em biomedicina e abre-se a da bio-informática" (cito de cor)...

O seu orgulho parece-me inteiramente justo quando se sabe que, com um orçamento de 8 milhões de euros, menos de 1% do orçamento da investigação científica em Portugal, O IGC produz um terço da investigação na área da saúde... E não é um terço qualquer, é um terço de excelência! Espero não me enganar, nem estar a fazer mal as contas: não sei exactamente qual é o orçamento da ciência em Portugal mas não ultrapassa os 0.75% do PIB, ou seja, deverá ser qualquer coisa como mil milhões de euros (200 milhões de contos em moeda antiga).

Por tudo isto, António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência merecem as minhas palmas. As nossas palmas. (...Embora seguramente não precisem delas!)


Post scriptum:

(i) É bom recordar que "fabricar doutorados não é igual a criar cientistas, cuja vocação tem de ser primeiro despertada, depois alimentada, multiplicada e, o que também não é comum entre nós, devidamente apreciada" (J. Lobo Antunes dixit).

(ii) No dia seguinte à publicação este post, deparei com uma excelente reportagem do Público (edição de 7 de Maio de 2004), assinada pela Clara Barata e pela Joana Gorjão Henriques, sobre o "ninho de formação de líderes cieníficos" que é hoje o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), sob a liderança do Prof. António Coutinho. Juro que só tive conhecimento deste texto, no sábado de manhã, dia 8. Trata-se, por isso, de uma feliz coincidência.

Para um país distraído, com tendência para a descrença, o pessimismo, o fatalismo e a depressão, é imprescindível e salutar ler mais esta história de sucesso no país de Abril. Não se pense, todavia, que o ICG é um oásis num deserto, e cheia de estrangeirados. Helena Soares, por exemplo, 41 anos, prestigiada investigadora, responsável pelo grupo de Stress e Dinâmica do Citoesqueleto, nunca quis sair de Portugal por razões pessoais, e diz à jornalista que "já não há uma diferença tão grande em relação ao exterior" embora o "meio científico ainda [seja] pequeno".

Parabéns também ao Público por esta notável série de reportagens ("30 anos do 25 de Abril: histórias de um país de sucesso").

06 maio 2004

Blogantologia(s) - X: O poemombro

Um ombro amigo



Às vezes a gente pensa

que o mundo vai desabar.

Às vezes a gente julga

que o céu vai cair

em cima das nossas cabeças.



Às vezes a gente deixa de ver.

E de sentir. E até de pensar.

Às vezes a gente vê que não há luz.

Que estamos num túnel.

Que não há luz ao fundo do túnel.

Que há alguém que te diz:

É o fim! Acabou-se!

É bom que esqueças,

Parte para outra!



Às vezes a gente tem dúvidas.

E pergunta se vale a pena.

Se valeu a pena.

Às vezes a gente até duvida

do amor e da amizade

dos que nos amam e gostam de nós.

Às vezes a coisa parece que está feia.

Às vezes parece que tudo é feio.

Que a coisa está preta e feia.

A vida, o país, o mundo à nossa volta.

Os outros. O marido ou a mulher. Os filhos

Os amigos, os colegas de trabalho.



Às vezes dá-te uma enorme vontade de chorar.

E de parar no caminho.

E de chorar numa pedra do caminho.

Às vezes a gente quer desistir de caminhar.

A gente sente que lhe faltam as forças.

E que já que foi longe de mais.

Que não nascemos para caminhantes.

Que já fizemos a nossa parte.

Que já cumprimos o nosso papel.

Que as pernas estão cansadas.

As pernas. O corpo. A alma.

Que andamos a caminhar há muito tempo.

Que já demos a volta ao mundo

não sei quantas vezes.



Às vezes a gente apercebe-se

Que tem uma enorme vontade de chorar.

Mas que não tem lágrimas para o fazer.

Não tem sequer forças para o fazer.



E é então que nos dá uma raiva danada.

Telúrica. Fulminante. Brutal.

Uma raiva de vulcão.

E descobrimos o terrível vulcão que há em nós.

E a gente, de repente,

dá de novo à chave de ignição.

E retoma o caminho.



Querid@ amig@:

Eu sei que não podemos competir com os vulcões.

Que só explodem de mil em mil anos.

Ou de cem mil em cem mil, tanto faz.

E que são uma força bruta da natureza.

Brutal. Fulminante. Telúrica.

Mas temos o direito de explodir.

De dizer o que nos vai na alma.

Temos o direito ao nosso vulcão.

Tu tens direito ao teu vulcão.

Tens direito mesmo ao teu vulcãozinho.

O direito de mostrar o que te dói

no corpo e na alma.

De chorar. De chorar de raiva.



A única diferença, além da escala de tempo,

é que os vulcões não têm uma ombro amigo.

Para chorar.

Para encostar a cabeça e chorar.

No dia dos teus anos, como hoje,

Ou em qualquer outro dia da semana.

Em qualquer outro dia do ano.

Sempre que te apetecer.

Sempre que te der raiva de chorar.



Se @s amig@s têm algum préstimo

É justamente para saber ouvir.

Ouvir, escutar, entender

Mais do que falar, analisar ou compreender.

Para estar contigo.

Simplesmente para estar ao pé de ti.

Ou para te segredar ao ouvido

Qualquer coisa que te faça sorrir.

Ao ouvido, baixinho.

E sobretudo para te oferecer

o ombro amigo.

Pode até ter pouco préstimo

Mas sempre é mais macio e quente

Do que a pedra do caminho.



L.G.



Lisboa, 29 de Abril de 2004



PS - Um (pre)texto que serviu de prenda de aniversário para uma amiga, a Matilde, que fazia anos neste dia e que estava a precisar de um ombro amigo. Do nosso ombro amigo. LG/AC



Blogantologia(s) - X: O poemombro

Um ombro amigo

Às vezes a gente pensa
que o mundo vai desabar.
Às vezes a gente julga
que o céu vai cair
em cima das nossas cabeças.

Às vezes a gente deixa de ver.
E de sentir. E até de pensar.
Às vezes a gente vê que não há luz.
Que estamos num túnel.
Que não há luz ao fundo do túnel.
Que há alguém que te diz:
É o fim! Acabou-se!
É bom que esqueças,
Parte para outra!

Às vezes a gente tem dúvidas.
E pergunta se vale a pena.
Se valeu a pena.
Às vezes a gente até duvida
do amor e da amizade
dos que nos amam e gostam de nós.
Às vezes a coisa parece que está feia.
Às vezes parece que tudo é feio.
Que a coisa está preta e feia.
A vida, o país, o mundo à nossa volta.
Os outros. O marido ou a mulher. Os filhos
Os amigos, os colegas de trabalho.

Às vezes dá-te uma enorme vontade de chorar.
E de parar no caminho.
E de chorar numa pedra do caminho.
Às vezes a gente quer desistir de caminhar.
A gente sente que lhe faltam as forças.
E que já que foi longe de mais.
Que não nascemos para caminhantes.
Que já fizemos a nossa parte.
Que já cumprimos o nosso papel.
Que as pernas estão cansadas.
As pernas. O corpo. A alma.
Que andamos a caminhar há muito tempo.
Que já demos a volta ao mundo
não sei quantas vezes.

Às vezes a gente apercebe-se
Que tem uma enorme vontade de chorar.
Mas que não tem lágrimas para o fazer.
Não tem sequer forças para o fazer.

E é então que nos dá uma raiva danada.
Telúrica. Fulminante. Brutal.
Uma raiva de vulcão.
E descobrimos o terrível vulcão que há em nós.
E a gente, de repente,
dá de novo à chave de ignição.
E retoma o caminho.

Querid@ amig@:
Eu sei que não podemos competir com os vulcões.
Que só explodem de mil em mil anos.
Ou de cem mil em cem mil, tanto faz.
E que são uma força bruta da natureza.
Brutal. Fulminante. Telúrica.
Mas temos o direito de explodir.
De dizer o que nos vai na alma.
Temos o direito ao nosso vulcão.
Tu tens direito ao teu vulcão.
Tens direito mesmo ao teu vulcãozinho.
O direito de mostrar o que te dói
no corpo e na alma.
De chorar. De chorar de raiva.

A única diferença, além da escala de tempo,
é que os vulcões não têm uma ombro amigo.
Para chorar.
Para encostar a cabeça e chorar.
No dia dos teus anos, como hoje,
Ou em qualquer outro dia da semana.
Em qualquer outro dia do ano.
Sempre que te apetecer.
Sempre que te der raiva de chorar.

Se @s amig@s têm algum préstimo
É justamente para saber ouvir.
Ouvir, escutar, entender
Mais do que falar, analisar ou compreender.
Para estar contigo.
Simplesmente para estar ao pé de ti.
Ou para te segredar ao ouvido
Qualquer coisa que te faça sorrir.
Ao ouvido, baixinho.
E sobretudo para te oferecer
o ombro amigo.
Pode até ter pouco préstimo
Mas sempre é mais macio e quente
Do que a pedra do caminho.

L.G.

Lisboa, 29 de Abril de 2004

PS - Um (pre)texto que serviu de prenda de aniversário para uma amiga, a Matilde, que fazia anos neste dia e que estava a precisar de um ombro amigo. Do nosso ombro amigo. LG/AC