11 julho 2004

Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada

Para o António, o Xico, o Daniel, o Mário, a Evelize, o Miguel, o Cunha, o Jorge e os demais companheiros da saúde pública, portugueses e angolanos, que acreditam e apostam no humanware angolano, tendo concebido, planeado e implementado o 1º Curso de Introdução à Administração dos Hospitais (3 blocos, com mais de 20 módulos, num total superior a 600 horas), num discreto mas notável projecto de cooperação que envolve, pelo lado angolano, o Ministério da Saúde de Angola e a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e pelo lado português a Fundação Calouste Gulbenkian e a Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa. E para o pessoal de secretariado, da Idalisa (Lisboa) à Elisabete (Luanda), que na retaguarda asseguram as mil e uma pequenas coisas que garantem o sucesso das grandes coisas.

Um especial kandandu para o Jorge que eu não pude rever desta vez, em Luanda, e que me dizem estar doente. As tuas melhoras, amigo e companheiro.

Para a Rita, a Paulina, a Eugénia e a Maria Antónia, as meninas Leal Monteiro dessa Casa Grande & Sanzala que é a Hospedaria Soleme, em Luanda, na Maianga, que tem sido a nossa casa, o nosso oásis e o nosso porto de abrigo. Sem esquecer a velha senhora Maria Eulália, a matriarca da família, que eu infelizmente ainda não conheço.


Trata-se, além disso, de um lugar único em Luanda já que a casa está também cheia de recordações e de obras do grande pintor angolano Viteix (Vítor Teixeira) (1940-1993), só agora conhecido em Portugal (A galeria da Caixa Geral de Depósitos, no Porto, teve em exposição entre Abril e Junho de 2004 uma importante colecção de obras do pintor, do período de 1958 a 1993, uma parte das quais temporariamente cedidas pela família Leal Monteiro a que o pintor estava ligado pelos laços do casamento).


Um enorme painel de azulejos, reproduzindo um das suas telas, feito em Portugal e montado sob orientação do seu filho, passou entretanto a partir de Dezembro último a figurar no alto de uma das paredes, adjacentes à fachada principal do edifício da Soleme. Devidamente iluminado à noite por projectores, o painel é perfeitamente visível da Rua Kwamme N'krumah e constitui uma justa e terna homenagem da família ao Viteix. Os dez anos da sua morte também foram devidamente assinalados na sua terra, com uma exposição em Maio de 2003, sob o título "Reviver Viteix".

Queridas amigas: Continuo a pensar que a vossa casa, a Soleme, é um verdadeiro oásis em Luanda, um lugar onde se alia a tradição, a cultura, a gastronomia, a hospitalidade, o cosmopolitismo, a arte de bem receber e sobretudo o human touch, o toque humano, que faz de uma simples relação comercial uma verdadeira relação de amizade...

Quero aqui prestar, em meu nome, a minha homenagem às grandes mulheres que mantêm de pé a belíssima casa, feita de granito angolano, talhada por artesões portugueses dos anos 20, que foi do vosso pai e avô, João Monteiro, quadro superior da administração colonial que faria este ano cem anos se fosse vivo (1904-2004)... Tivemos pena, eu e o Daniel, de não podermos estar na vossa festa, na passada sexta-feira... De qualquer modo ficámos sensibilizados pelo vosso convite. A viagem de regresso a Lisboa correu bem. Até sempre, amig@s!





Fonte: Fotografia gentilmente cedida pela Hospedaria Soleme, Rua Kwamme N'krumah, 1, Maianga, Luanda





Luanda revis(i)tada



Não vi flores,

Não vi acácias vermelhas,

Dessas rubras acácias de Benguela,

No teu imenso muceque;

Não vi o esplendor celebrado

Da tua baía,

Nem senti o sortilégio da tua ilha dos amores,

Ó cidade de Luanda

Que a gente nunca esquece,

Outrora tão jovem e tão bela.



Porém, no teu rosto (re)visitado

Pelas rugas velhas

Da guerra, da pobreza e da malária,

Descobri diamantes em estado puro

No teu olhar de criança

Perdida em viagem imaginária.



De modo nenhum te quereria

Em postal ilustrado,

Decadente e saudosista,

Com carimbo de correio pós-colonial:

A restinga do Mussulo ao pôr-do-sol,

A laguna, o mangal, a marginal,

E o estúpido turista em férias,

No Coconuts, na ilha, elitista,

Ou na piscina do Hotel Tropical!



Não li sequer os graffiti do FMI,

Gravados a duro pau de giz

Nos muros dos palácios da cidade alta,

Proclamando urbi et orbi

Que doravante toda a malta

Seria rica e feliz!



Há muito que os kaluandas partiram,

Deixando atrás de si,

Com um misto de saudade e de glória,

O calor húmido e fraterno

Da grande nação crioula.

Mais os imbondeiros que resistiram

À seca, à fome, ao inferno,

Ao lixo, à sida, à história.



O cheiro fétido do humano

Viaja nos candongueiros

Que atravessam de lés a lés

A tua rede de túneis-formigueiros,

As tua entranhas, o teu tutano,

A tua essência.

Alguém poderia achar essas correrias loucas

Se não soubesse quem tu és,

Mas tu tens o teu tempo e a tua medida,

Ó cidade das mulheres empreendedoras,

Peritas na arte da sobrevivência.



Um enorme exército de formigas obreiras,

Com os jerricãs de plástico à cabeça,

Leva o fio da água da vida,

Tão preciosa quanto parca,

Ao teu ventre de Jocasta,

Mãe África, mãe de kixikila,

Zungueira, matriarca,

Moça reguila, parideira,

Quitandeira, kinguila.



Na praia dos pescadores

Há meninos, brancos e pretos,

Pé descalço e calças rotas,

A chutar a bola às balizas da sorte.

Poderão não vir a ser uns senhores,

E sorrir como o Mantorras,

O rosto espalhado em outdoors pela cidade.

Mas contarão, decerto, aos seus netos

Como souberam fintar a morte

Desde a mais tenra idade.



Mãe África, mãe coragem,

Para quem pouco te basta,

Mesmo se muito tu queres

Daquilo a que tens pleno direito:

Cidade revis(i)tada,

Sem mapa nem roteiro,

Simples lugar de passagem,

Onde um litro de gasolina, imagina!

Custa tanto quanto um pão,

Vinte kwanzas.



Poderei dizer em Lisboa, se quiseres,

Que o melhor de ti, Luanda, terra quente,

É a tua gente, a quem mando um chicoração:

As tuas infatigáveis mulheres,

E as tuas ternas, eternas, crianças.





Glossário de termos do falar local:



Candongueiros - Os endiabrados táxis colectivos de Luanda. Param um qualquer sítio e levam sempre mais um passageiro para além da sua lotação máxima Cada viagem custa 30 kwanzas. O termo vem de candonga (contrabando). "Inicialmente o contrabando de peixe seco. Só muitos anos mais tarde se passaria a usar o termo candongueiro para designar os contrabandistas de diamantes ou, mais tarde ainda, os novos taxistas luandenses do chamado processo dos 500" (Segundo leio no sítio de um brasileiro sobre os países e comunidades de língua portuguesa) .



Imbondeiro - Também conhecido por n´bondo (Adansonia digitata, Lin.):



Kaluanda - Nome antigo, colonial, dado ao habitante de Luanda.



Kandandu - Abraço (Plural: Jindandu). Ver outras expressões usadas nas saudações em kimbundu.



Kimbundu - Considerado o maior grupo etnolinguístico de Angola (c. 25% da população na costa oeste e no norte), a seguir ao ovimbundu (c. 37%, a sul), mas à frente do bakongo (13%) (Estas são as três principais línguas de Angola, todas elas pertencentes ao grupo bantu). A língua oficial é, como se sabe, o português. No Ciberdúvidas da Língua Portuguesa há uma interessantíssima nota de Rui Ramos sobre as relações nem sempre fáceis entre o português (colonial, dominante) e o kimbundu (ou quimbundo, o falar das gentes de Luanda-Malanje). Termos usados hoje pelos nossos jovens, como cota (dikota, pessoa mais velha) são provenientes do kimbundu. Sobre as questões de grafia (kimbundu ou quimbundo), ver igualmente a resposta do angolano Rui Ramos, especialista em línguas africanas, no mesmo sítio. Não se deve confundir, no entanto, o kimbundu com o calão de Luanda (caso de bué, e outras expressões que se ouvem na noite lisboeta).



Kinguila - Rapariga ou mulher que, no mercado paralelo, se dedica ao câmbio de moeda. Em geral, os maços de kwanzas e de dólares são guardados nos seios. Este negócio era tradicionalmente dos zairotas, habitantes do Zaire. Segundo o portal Netangola, numa página com preciosas dicas para os homens de negócios estrangeiros em visita a Luanda, "one can often find in the streets of the city the typical Kinguila - the seller of money - who normally offers the best quotation. This practice is forbidden by the authorities and offers some risks".



Kixikila - Em kimbundu, quer dizer contribuição, em dinheiro, para um dado fim colectivo. Em África, em geral, e em Angola, em particular, é aquilo que se designa pela expressão inglesa Rotating Savings and Credit Associations (ROSCA), um sistema informal de poupança e crédito, um grupo de ajuda mútua, liderado em geral por uma mulher, a "mãe de kixikila". O pequeno grupo, de cinco a dez elementos, tende a ser constituído por pessoas que estão ligadas entre si por laços de amizade, parentesco, vizinhança ou profissão. Cada elemento faz periodicamente uma determinada contribuição para um fundo comum que é depois utilizado rotativamente por cada um, com uma taxa de juro nula ou de valor reduzido. Na ausência de sistemas de crédito bancário acessíveis à generalidade da população, o kixikila voltou aos hábitos dos kaluandas como forma de atenuar ou reduzir o impacto da pobreza. O kixikila está hoje vulgarizado, não só entre as vendedeiras, quitandandeiras e kinguilas, mas também nos serviços públicos e nas empresas (vd. Neto, S. - Kixikila não é uma lotaria. Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004). 40-42). Vd. também: Ducados, H.L.; Ferreira, M.E. (1998) - O financiamento informal e as estratégias de sobrevivência económica das mulheres em Angola : a Kixikila no caso do município do Sambizanga (Luanda). Lisboa: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento. Instituto Superior de Economia e Gestão. Universidade Técnica de Lisboa. 1998 (Documentos de Trabalho, 53).



Kwanza - Moeda local. 1 dólar equivale a c. 85 kwanzas. O cacete (tipo de pão) custa cerca de 20 kwanzas (Julho de 2004). Consultar também o sítio oficial da República de Angola.



Muceques - Bairros populares degradados de Luanda.



Quitandeira - Vendedora de rua (ou de mercado), em geral de produtos hortofrutícolas. Vem de quitanda, um termo kimbundu que significa expor (determinados produtos para venda), e, por extensão, feira ou mercado. Há um belíssimo poema de Agostinho Neto sobre a quitandeira, que vem no seu livro Sagrada Esperança (1974): "A quitanda. Muito sol /e a quitandeira à sombra / da mulemba. /- Laranja, minha senhora, /laranjinha boa!"...



Zungueira - Vendedor ambulante, uma figura típica da economia paralela de Luanda. Em geral é do sexo feminino, mas também há cada mais jovens e crianças do sexo masculino. Estima-se que 70% da população de Luanda, em idade activa, seja zungueira. Ninguém sabe ao certo qual é a população actual da cidade e periferia: estima-se que possa chegar aos 4 milhões (a maior parte deslocados de guerra), ou seja, mais de 1/3 da população angolana actual, estimada actualmente pela CIA em c. 11 milhões de habitantes. Do verbo zunguar (andar para cima e para baixo, circular tentando vender alguma coisa). As zungueiras abastecem-se em mercados como o Roque Santeiro ou o Kikolo, onde não é aconselhável, por razões de segurança, a visita do turista estrangeiro. Considerando a sua densidade populacional e o drama do seu quotidiano, Luanda é apesar de tudo uma cidade com uma baixa taxa de criminalidade. Sobre o comércio informal, a figura da zungueira e a arte de sobreviver em Luanda, veja-se uma excelente reportagem assinada pelo jornalista e sociólogo Paulo de Carvalho (paulodecarvalho@sociologist.com, na revista Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004).34-39.



Fotos de Luanda e de outros sítios de Angola:



O meu álbum de fotografias > Angola > Luanda > Cidade / City (tiradas em data posterior a este post)



Angola > Imagens



Luanda > Ilha do Mussulo > Imagens



Luanda > 1983 > Imagens



Lusoáfrica > Angola > Fotografias





Outros sítios sobre Angola (história, sociedade, economia, cultura):



Nhamalanda > História da Família Costa



SanzalAngola > Página de Helder de Sousa



UEA - União dos Escritores Angolanos





Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada

Para o António, o Xico, o Daniel, o Mário, a Evelize, o Miguel, o Cunha, o Jorge e os demais companheiros da saúde pública, portugueses e angolanos, que acreditam e apostam no humanware angolano, tendo concebido, planeado e implementado o 1º Curso de Introdução à Administração dos Hospitais (3 blocos, com mais de 20 módulos, num total superior a 600 horas), num discreto mas notável projecto de cooperação que envolve, pelo lado angolano, o Ministério da Saúde de Angola e a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e pelo lado português a Fundação Calouste Gulbenkian e a Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa. E para o pessoal de secretariado, da Idalisa (Lisboa) à Elisabete (Luanda), que na retaguarda asseguram as mil e uma pequenas coisas que garantem o sucesso das grandes coisas.

Um especial kandandu para o Jorge que eu não pude rever desta vez, em Luanda, e que me dizem estar doente. As tuas melhoras, amigo e companheiro.

Para a Rita, a Paulina, a Eugénia e a Maria Antónia, as meninas Leal Monteiro dessa Casa Grande & Sanzala que é a Hospedaria Soleme, em Luanda, na Maianga, que tem sido a nossa casa, o nosso oásis e o nosso porto de abrigo. Sem esquecer a velha senhora Maria Eulália, a matriarca da família, que eu infelizmente ainda não conheço.

Trata-se, além disso, de um lugar único em Luanda já que a casa está também cheia de recordações e de obras do grande pintor angolano Viteix (Vítor Teixeira) (1940-1993), só agora conhecido em Portugal (A galeria da Caixa Geral de Depósitos, no Porto, teve em exposição entre Abril e Junho de 2004 uma importante colecção de obras do pintor, do período de 1958 a 1993, uma parte das quais temporariamente cedidas pela família Leal Monteiro a que o pintor estava ligado pelos laços do casamento).

Um enorme painel de azulejos, reproduzindo um das suas telas, feito em Portugal e montado sob orientação do seu filho, passou entretanto a partir de Dezembro último a figurar no alto de uma das paredes, adjacentes à fachada principal do edifício da Soleme. Devidamente iluminado à noite por projectores, o painel é perfeitamente visível da Rua Kwamme N'krumah e constitui uma justa e terna homenagem da família ao Viteix. Os dez anos da sua morte também foram devidamente assinalados na sua terra, com uma exposição em Maio de 2003, sob o título "Reviver Viteix".

Queridas amigas: Continuo a pensar que a vossa casa, a Soleme, é um verdadeiro oásis em Luanda, um lugar onde se alia a tradição, a cultura, a gastronomia, a hospitalidade, o cosmopolitismo, a arte de bem receber e sobretudo o human touch, o toque humano, que faz de uma simples relação comercial uma verdadeira relação de amizade...

Quero aqui prestar, em meu nome, a minha homenagem às grandes mulheres que mantêm de pé a belíssima casa, feita de granito angolano, talhada por artesões portugueses dos anos 20, que foi do vosso pai e avô, João Monteiro, quadro superior da administração colonial que faria este ano cem anos se fosse vivo (1904-2004)... Tivemos pena, eu e o Daniel, de não podermos estar na vossa festa, na passada sexta-feira... De qualquer modo ficámos sensibilizados pelo vosso convite. A viagem de regresso a Lisboa correu bem. Até sempre, amig@s!




Fonte: Fotografia gentilmente cedida pela Hospedaria Soleme, Rua Kwamme N'krumah, 1, Maianga, Luanda


Luanda revis(i)tada

Não vi flores,
Não vi acácias vermelhas,
Dessas rubras acácias de Benguela,
No teu imenso muceque;
Não vi o esplendor celebrado
Da tua baía,
Nem senti o sortilégio da tua ilha dos amores,
Ó cidade de Luanda
Que a gente nunca esquece,
Outrora tão jovem e tão bela.

Porém, no teu rosto (re)visitado
Pelas rugas velhas
Da guerra, da pobreza e da malária,
Descobri diamantes em estado puro
No teu olhar de criança
Perdida em viagem imaginária.

De modo nenhum te quereria
Em postal ilustrado,
Decadente e saudosista,
Com carimbo de correio pós-colonial:
A restinga do Mussulo ao pôr-do-sol,
A laguna, o mangal, a marginal,
E o estúpido turista em férias,
No Coconuts, na ilha, elitista,
Ou na piscina do Hotel Tropical!

Não li sequer os graffiti do FMI,
Gravados a duro pau de giz
Nos muros dos palácios da cidade alta,
Proclamando urbi et orbi
Que doravante toda a malta
Seria rica e feliz!

Há muito que os kaluandas partiram,
Deixando atrás de si,
Com um misto de saudade e de glória,
O calor húmido e fraterno
Da grande nação crioula.
Mais os imbondeiros que resistiram
À seca, à fome, ao inferno,
Ao lixo, à sida, à história.

O cheiro fétido do humano
Viaja nos candongueiros
Que atravessam de lés a lés
A tua rede de túneis-formigueiros,
As tua entranhas, o teu tutano,
A tua essência.
Alguém poderia achar essas correrias loucas
Se não soubesse quem tu és,
Mas tu tens o teu tempo e a tua medida,
Ó cidade das mulheres empreendedoras,
Peritas na arte da sobrevivência.

Um enorme exército de formigas obreiras,
Com os jerricãs de plástico à cabeça,
Leva o fio da água da vida,
Tão preciosa quanto parca,
Ao teu ventre de Jocasta,
Mãe África, mãe de kixikila,
Zungueira, matriarca,
Moça reguila, parideira,
Quitandeira, kinguila.

Na praia dos pescadores
Há meninos, brancos e pretos,
Pé descalço e calças rotas,
A chutar a bola às balizas da sorte.
Poderão não vir a ser uns senhores,
E sorrir como o Mantorras,
O rosto espalhado em outdoors pela cidade.
Mas contarão, decerto, aos seus netos
Como souberam fintar a morte
Desde a mais tenra idade.

Mãe África, mãe coragem,
Para quem pouco te basta,
Mesmo se muito tu queres
Daquilo a que tens pleno direito:
Cidade revis(i)tada,
Sem mapa nem roteiro,
Simples lugar de passagem,
Onde um litro de gasolina, imagina!
Custa tanto quanto um pão,
Vinte kwanzas.

Poderei dizer em Lisboa, se quiseres,
Que o melhor de ti, Luanda, terra quente,
É a tua gente, a quem mando um chicoração:
As tuas infatigáveis mulheres,
E as tuas ternas, eternas, crianças.


Glossário de termos do falar local:

Candongueiros - Os endiabrados táxis colectivos de Luanda. Param um qualquer sítio e levam sempre mais um passageiro para além da sua lotação máxima Cada viagem custa 30 kwanzas. O termo vem de candonga (contrabando). "Inicialmente o contrabando de peixe seco. Só muitos anos mais tarde se passaria a usar o termo candongueiro para designar os contrabandistas de diamantes ou, mais tarde ainda, os novos taxistas luandenses do chamado processo dos 500" (Segundo leio no sítio de um brasileiro sobre os países e comunidades de língua portuguesa) .

Imbondeiro - Também conhecido por n´bondo (Adansonia digitata, Lin.):

Kaluanda - Nome antigo, colonial, dado ao habitante de Luanda.

Kandandu - Abraço (Plural: Jindandu). Ver outras expressões usadas nas saudações em kimbundu.

Kimbundu - Considerado o maior grupo etnolinguístico de Angola (c. 25% da população na costa oeste e no norte), a seguir ao ovimbundu (c. 37%, a sul), mas à frente do bakongo (13%) (Estas são as três principais línguas de Angola, todas elas pertencentes ao grupo bantu). A língua oficial é, como se sabe, o português. No Ciberdúvidas da Língua Portuguesa há uma interessantíssima nota de Rui Ramos sobre as relações nem sempre fáceis entre o português (colonial, dominante) e o kimbundu (ou quimbundo, o falar das gentes de Luanda-Malanje). Termos usados hoje pelos nossos jovens, como cota (dikota, pessoa mais velha) são provenientes do kimbundu. Sobre as questões de grafia (kimbundu ou quimbundo), ver igualmente a resposta do angolano Rui Ramos, especialista em línguas africanas, no mesmo sítio. Não se deve confundir, no entanto, o kimbundu com o calão de Luanda (caso de bué, e outras expressões que se ouvem na noite lisboeta).

Kinguila - Rapariga ou mulher que, no mercado paralelo, se dedica ao câmbio de moeda. Em geral, os maços de kwanzas e de dólares são guardados nos seios. Este negócio era tradicionalmente dos zairotas, habitantes do Zaire. Segundo o portal Netangola, numa página com preciosas dicas para os homens de negócios estrangeiros em visita a Luanda, "one can often find in the streets of the city the typical Kinguila - the seller of money - who normally offers the best quotation. This practice is forbidden by the authorities and offers some risks".

Kixikila - Em kimbundu, quer dizer contribuição, em dinheiro, para um dado fim colectivo. Em África, em geral, e em Angola, em particular, é aquilo que se designa pela expressão inglesa Rotating Savings and Credit Associations (ROSCA), um sistema informal de poupança e crédito, um grupo de ajuda mútua, liderado em geral por uma mulher, a "mãe de kixikila". O pequeno grupo, de cinco a dez elementos, tende a ser constituído por pessoas que estão ligadas entre si por laços de amizade, parentesco, vizinhança ou profissão. Cada elemento faz periodicamente uma determinada contribuição para um fundo comum que é depois utilizado rotativamente por cada um, com uma taxa de juro nula ou de valor reduzido. Na ausência de sistemas de crédito bancário acessíveis à generalidade da população, o kixikila voltou aos hábitos dos kaluandas como forma de atenuar ou reduzir o impacto da pobreza. O kixikila está hoje vulgarizado, não só entre as vendedeiras, quitandandeiras e kinguilas, mas também nos serviços públicos e nas empresas (vd. Neto, S. - Kixikila não é uma lotaria. Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004). 40-42). Vd. também: Ducados, H.L.; Ferreira, M.E. (1998) - O financiamento informal e as estratégias de sobrevivência económica das mulheres em Angola : a Kixikila no caso do município do Sambizanga (Luanda). Lisboa: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento. Instituto Superior de Economia e Gestão. Universidade Técnica de Lisboa. 1998 (Documentos de Trabalho, 53).

Kwanza - Moeda local. 1 dólar equivale a c. 85 kwanzas. O cacete (tipo de pão) custa cerca de 20 kwanzas (Julho de 2004). Consultar também o sítio oficial da República de Angola.

Muceques - Bairros populares degradados de Luanda.

Quitandeira - Vendedora de rua (ou de mercado), em geral de produtos hortofrutícolas. Vem de quitanda, um termo kimbundu que significa expor (determinados produtos para venda), e, por extensão, feira ou mercado. Há um belíssimo poema de Agostinho Neto sobre a quitandeira, que vem no seu livro Sagrada Esperança (1974): "A quitanda. Muito sol /e a quitandeira à sombra / da mulemba. /- Laranja, minha senhora, /laranjinha boa!"...

Zungueira - Vendedor ambulante, uma figura típica da economia paralela de Luanda. Em geral é do sexo feminino, mas também há cada mais jovens e crianças do sexo masculino. Estima-se que 70% da população de Luanda, em idade activa, seja zungueira. Ninguém sabe ao certo qual é a população actual da cidade e periferia: estima-se que possa chegar aos 4 milhões (a maior parte deslocados de guerra), ou seja, mais de 1/3 da população angolana actual, estimada actualmente pela CIA em c. 11 milhões de habitantes. Do verbo zunguar (andar para cima e para baixo, circular tentando vender alguma coisa). As zungueiras abastecem-se em mercados como o Roque Santeiro ou o Kikolo, onde não é aconselhável, por razões de segurança, a visita do turista estrangeiro. Considerando a sua densidade populacional e o drama do seu quotidiano, Luanda é apesar de tudo uma cidade com uma baixa taxa de criminalidade. Sobre o comércio informal, a figura da zungueira e a arte de sobreviver em Luanda, veja-se uma excelente reportagem assinada pelo jornalista e sociólogo Paulo de Carvalho (paulodecarvalho@sociologist.com, na revista Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004).34-39.

Fotos de Luanda e de outros sítios de Angola:

O meu álbum de fotografias > Angola > Luanda > Cidade / City (tiradas em data posterior a este post)

Angola > Imagens

Luanda > Ilha do Mussulo > Imagens

Luanda > 1983 > Imagens

Lusoáfrica > Angola > Fotografias


Outros sítios sobre Angola (história, sociedade, economia, cultura):

Nhamalanda > História da Família Costa

SanzalAngola > Página de Helder de Sousa

UEA - União dos Escritores Angolanos


10 julho 2004

Blogantologia(s) – XV: A novíssima poesia angolana

1. Ilha de Luanda. 8 de Julho de 2004. 18h. Esplanada do Restaurante Coconuts. Meia dúzia de adoradores do sol. Aristocracia crioula. Novos ricos. Homens de negócio russos. Cooperantes de desvairados sítios. Dois seguranças em cada ponta. Mais dois no parque de estacionamento. Aqui não chega o cheiro fétido do sub-humano mundo dos candongueiros. Aqui não há o incómodo ziguezaguear das corajosas zungueiras nas ruas atulhadas de Luanda. Não longe nas praias dos pescadores os futuros Mantorras-de-pé-descalço chutam a bola às balizas esfarradas do destino.



2. Descubro a poesia do José Luís Mendonça (n. 1955). O último livro: "Gramática do amor contemporâneo". Luanda: Editorial Nzila, 2002 (Colecção Letras Angolanas/Poesia, 7).



Escreve Luís Kandjimbo, na contracapa: “Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética”.



Aqui fica uma sugestão de leitura (poema 21, página 29):



__________



21



aqui, no fundo do oceano, tudo se filma em câmara ardente.

pouso o lápis no cerne desse êxtase de hungos-violinos, aliás,

escuto: será essa a vibração do mundo ? deixo a música

desfraldar o mastro das eternas sílabas de areia.



idólatra da carne, elevo a minha prece ao deus escaldante

da sede e da tortura da alma. o vento e as chuvas subiram

as escadas, um anjo alisa a argila microscópica do altar

coberto de moscas de basalto e um incêndio de nuvens de

arame coroa a mão do mundo, beijado pela suprema ciência

da poesia.



que diferença existe entre a vagina e a mão que escreve

este poema ?


________________





3. Por um feliz acaso, descobri desta vez a editora e livraria Chá de Caxinde, um sítio de visita obrigatória na baixa de Luanda (sita no edifício do Nacional Cine-Teatro). Da mesma editora (Nzila) e colecção (Letras Angolanas / Poesia, 3), comprei o livro do consagrado João Maimona (n. 1955). Aqui fica um dos mais belos poemas deste livro de 2001 ("No útero da morte"):



Feliz reencontro (p. 52)



uma crinça me trouxe,

com as mãos vazias, a ternura verde

nas vértebras, uma carta de renascimento.

a seca se volatilizou. dia dos homens.

noite de passos segundos. a hipertermia

deixou a pele. fruto de imenso acontecimento.

existem agora rios de luz. existe água

potável nos rios de luz.

e diante do templo que precede

o renascimento

leio chuvas de imenso silêncio:

reencontro minhas veias

no sistema vascular

dos meus antepassados.

Blogantologia(s) – XV: A novíssima poesia angolana

1. Ilha de Luanda. 8 de Julho de 2004. 18h. Esplanada do Restaurante Coconuts. Meia dúzia de adoradores do sol. Aristocracia crioula. Novos ricos. Homens de negócio russos. Cooperantes de desvairados sítios. Dois seguranças em cada ponta. Mais dois no parque de estacionamento. Aqui não chega o cheiro fétido do sub-humano mundo dos candongueiros. Aqui não há o incómodo ziguezaguear das corajosas zungueiras nas ruas atulhadas de Luanda. Não longe nas praias dos pescadores os futuros Mantorras-de-pé-descalço chutam a bola às balizas esfarradas do destino.

2. Descubro a poesia do José Luís Mendonça (n. 1955). O último livro: "Gramática do amor contemporâneo". Luanda: Editorial Nzila, 2002 (Colecção Letras Angolanas/Poesia, 7).

Escreve Luís Kandjimbo, na contracapa: “Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética”.

Aqui fica uma sugestão de leitura (poema 21, página 29):

__________

21

aqui, no fundo do oceano, tudo se filma em câmara ardente.
pouso o lápis no cerne desse êxtase de hungos-violinos, aliás,
escuto: será essa a vibração do mundo ? deixo a música
desfraldar o mastro das eternas sílabas de areia.

idólatra da carne, elevo a minha prece ao deus escaldante
da sede e da tortura da alma. o vento e as chuvas subiram
as escadas, um anjo alisa a argila microscópica do altar
coberto de moscas de basalto e um incêndio de nuvens de
arame coroa a mão do mundo, beijado pela suprema ciência
da poesia.

que diferença existe entre a vagina e a mão que escreve
este poema ?

________________


3. Por um feliz acaso, descobri desta vez a editora e livraria Chá de Caxinde, um sítio de visita obrigatória na baixa de Luanda (sita no edifício do Nacional Cine-Teatro). Da mesma editora (Nzila) e colecção (Letras Angolanas / Poesia, 3), comprei o livro do consagrado João Maimona (n. 1955). Aqui fica um dos mais belos poemas deste livro de 2001 ("No útero da morte"):

Feliz reencontro (p. 52)

uma crinça me trouxe,
com as mãos vazias, a ternura verde
nas vértebras, uma carta de renascimento.
a seca se volatilizou. dia dos homens.
noite de passos segundos. a hipertermia
deixou a pele. fruto de imenso acontecimento.
existem agora rios de luz. existe água
potável nos rios de luz.
e diante do templo que precede
o renascimento
leio chuvas de imenso silêncio:
reencontro minhas veias
no sistema vascular
dos meus antepassados.

01 julho 2004

Socio(b)logia - XI: Populismo: Vade retro, Santanás!

Há um provérbio popular português que diz: Guarda-te do alvoroço do povo e de travar com o doido.



Mas também há outro que adverte: Se queres conhecer o vilão mete-lhe o mando na mão.



É claro que o anti-populismo está nesta outra pérola da sabedoria popular: Segue tu sempre a verdade e a razão, embora a uns agrade e a outros não.



O que eu admiro, no Zé Povinho, é a sua capacidade para falar límguas mortas, como o latim. Por exemplo: Da peste, da fome e da guerra e do bispo da nossa terra, Libera nos, Domine!



A última que lhe ouvi, é de antologia: Vade retro, Santanás! E ainda dizem que o Zé Povinho é vilão, bajulador, analbafeto, reaccionário, retrógrado...

Socio(b)logia - XI: Populismo: Vade retro, Santanás!

Há um provérbio popular português que diz: Guarda-te do alvoroço do povo e de travar com o doido.

Mas também há outro que adverte: Se queres conhecer o vilão mete-lhe o mando na mão.

É claro que o anti-populismo está nesta outra pérola da sabedoria popular: Segue tu sempre a verdade e a razão, embora a uns agrade e a outros não.

O que eu admiro, no Zé Povinho, é a sua capacidade para falar límguas mortas, como o latim. Por exemplo: Da peste, da fome e da guerra e do bispo da nossa terra, Libera nos, Domine!

A última que lhe ouvi, é de antologia: Vade retro, Santanás! E ainda dizem que o Zé Povinho é vilão, bajulador, analbafeto, reaccionário, retrógrado...

25 junho 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - X: Ricardo, herói (nacional) por uma noite

1. Eu que sei o que é que o meu ilustre colega de Coimbra, muitíssimo mais ilustre do que eu, o sociólogo Carlos Fortuna, pensa da onda de nacionalismo que por aí vai, na sequência do Euro 2004: é "barato, imediatista e pouco consistente", disse ele aos jornais.



Não me admiraria nada que logo a seguir um outro ilustre coimbrão, vedeta da rádio, da televisão e da psiquiatria, o Prof. Carlos Amaral Dias, viesse dizer precisamente o contrário: que o futebol funciona hoje, de maneira eficaz e eficiente, como o tal caldo de cultura onde se misturam e produzem todos os elementos identitários de um povo, de uma nação, de um país. Em Portugal, em Inglaterra e por aí fora.



Eu sei que ele, Carlos Fortuna, tem toda a razão sociológica deste mundo, mas nem por isso ele deixa de dar a impressão de ser um chato de um sociólogo. E a pior coisa que nos pode acontecer, a nós, sociólogos, é sermos uns chatos de uns sociólogos.



Os sociólogos são chatos, não só por causa da (i) sua lingauagem de pau (langue du bois, em francês), mas também por que (ii) costumam dizer coisas que ninguém gosta de ouvir, a começar pelas elites do poder: que o rei vai nu, por exemplo... Além disso, são chatos por que (iii) vêm estragar a festa do Zé Povinho.



Em Coimbra, no Porto ou em Lisboa, que são as três praças fortes do pensamento sociológico, há sociólogos chatos. Lucidíssimos mas chatos. Sejamos pluralistas: e porque não também Braga ? ou Évora ? Não quero, com isto, hierarquizar os pólos da sociologia portuguesa que, de resto, está bem e recomenda-se (E o Prof.  Carlos Fortuna é um dos nomes que honra a sociologia portuguesa, diga-se a talhe de foice).



2. Eu subscrevo inteiramente o que o senhor professor de Coimbra escreveu a este propósito: "Este nacionalismo [futebolístico] é pouco". Mais: "a bandeira custa um euro". Pior ainda: a bandeira é made in China. Trágico:  foi feita numa daquelas fábricas de vão escada, em que o trabalho é sinónimo de sangue, suor e lágrimas.



As tristemente famosas sweatshops dos chinocas foram há dias publicamente denunciadas pelos nossos grandes industriais do têxtil, como exemplos de dumping social. Nunca os vi, entretanto, preocupados com as sweat shops dos portugas, em Vale do Ave e outros paraísos do empreendedorismo lusitano, com a melhoria das condições de trabalho dos operários portugueses, com a protecção da saúde e da segurança do trabalho, com a sua qualidade de vida no trabalho, etc.

 

Como eu costumo dizer, se as nossas fábricas e outros locais de trabalho fossem ao menos "estábulos-modelos", os nossos operários e demais trabalhadores poderiam ser equiparados à melhor aristocracia dos porcos, dos perus, dos frangos ou das vacas...



A verdade sociológica mais profunda é que este é um "nacionalismo barato", afirmou o ex-presidente da Associação Portuguesa de Sociologia (APS), em declarações à agência Lusa (Público, 11 de Junho de 2004). Eu acrescentaria: duplamente barato!



O meu ilustre colega sustenta que, "face à consciência nacional de um défice de resultados positivos (do país), os portugueses querem sucesso rápido, breve e imediato, e o futebol resolve-se em 90 minutos".



Ora, desse ponto de vista, o futebol "é fantástico, porque é a plena consciência nacional do fracasso", considerando que "há muita pouca coisa com que os portugueses se possam entusiasmar" (espero que o jornalista não tenha deturpado o pensamento do sociólogo).



Na opinião de Carlos Fortuna, existe em Portugal um "défice de nacionalismo e de auto-estima", e o país precisa de um nacionalismo "não tão imediatista e mais consistente do ponto de vista político".



Em suma, este é um recado, sábio, para o portuga de ejaculação precoce que espera o paraíso ao fim de 90 minutos de provação no inferno (há vários infernos: o dos dragões, o da luz, o de alvalade...).



3. Eu não gosto de fazer sociologia espontânea nem de me pôr em bicos de pés para aparecer em título de caixa alta. Quando muito, lá vou praticando a minha periférica e efémera socio(b)logia...



Mas se os doutos professores coimbrãos me permitem uma opinião de leigo ou, quando muito, de socio(b)logo, eu ficaria contente, se fosse psiquiatra ou até ministro da saúde, por os portugas deixarem de pensar, mesmo que por uns escassos momentos, no dramático fim de mês que, para cada vez mais portugas, tende a ser (ou parecer ser) pior que o fim o mundo...

 

O que de resto é compreensível, diga-se de passagem: (i) do fim do mundo nunca ninguém voltou para dar o dramático, pungente e irrepetível testemunho; (ii) e da terrível provação de tesos do dia 15 até ao fim do mês,  todos (ou quase todos) os portugas podem falar de cátedra...



Eu sei que o futebol não resolve este problema, nem nenhum outro problema dos nossos muitos problemas colectivos (estruturais, económicos, culturais, mentais...). Mas, que diabo!, faz bem a nossa auto-estima. Nem que seja por uma noite ou por umas horas!



Cibercaríssimo Carlos, deixe o portuga (i) sonhar, (ii) alienar-se, (iii) embebedar-se, por uma uma noite... Deixe o portuga tuga (iv) pensar que é o maior do mundo só por que às veze até é capaz de enfiar a bola na baliza... A ressaca do dia seguinte é terrível e aí você pode aplicar a sua pesada, pesadíssima, lucidez de sociólogo, o rigoroso método do Durkheim, do Weber ou do Bourdieu...



4. Leio nos jornais que, em Coimbra, a procura das bandeiras portuguesas tem sido tal que se encontra praticamente esgotada, nomeadamente nos quiosques:



"Esgotaram há três, quatro dias", disse à Lusa José Maria Saraiva, da Tabacaria S. Cruz, uma das mais centrais na cidade.A varanda, a janela, a porta, o fio da roupa, o chapéu-de-sol que abriga o engraxador de sapatos, quase tudo serve para expor a bandeira nacional, na cidade de Coimbra, seja qual for o tamanho. Na Baixa citadina, é nas zonas mais degradadas que as bandeiras mais se destacam, nalguns casos atravessando as estreitas ruas de lado a lado, como na Rua Direita" (Público, 11 de Junho de 2004).



Em Lisboa, eu também constato o mesmo fenómeno e, curiosamente, é nos bairros populares e nos bairros de habitação social que se desfraldam mais bandeiras portuguesas, das tais made in China, com os símbolos lusitanos aldrabados: os famigerados pagodes budistas em vez dos nossos garbosos castelos conquistados à moirama!



5. A esta hora da noite, ou melhor da madrugada, deixem-me dizer que o meu herói, provisório, efémero, é o Ricardo... Ou porque não os dois Ricardos ? E quem diz os dois diz os vinte e três mais o resto da orquestra... Esta npoite chamo-me Ricardo. Confesso que não vi o jogo Portugal-Inglaterra, apenas os últimos, dramáticos minutos, impróprios para cardíacos...

 

Em boa verdade sou patriota mas não sou masoquista; aliás, pela Pátria já dei o meu quinhão de sangue, suor e lágrimas...



O que me tocou, o que me sensibilizou profundamente, o que emocionou mesmo foi a sua (dele, Ricardo) atitude de autoconfiança, pondo a cabeça no cepo ao oferecer-se, ele próprio, para marcar o último e decisivo penalty, depois de ter acabado de fazer a grande defesa da noite...



Eu acho que ele quis matar de vez o fantasma do Vitor Baía, como diria o Prof. Carlos Amaral Dias (e dirão os jornais do dia seguinte). Independentemente disso, eu passei a ter um enorme respeito por este mouro do Montijo. A sua postura, a sua determinação, a sua coragem e a sua heterodoxia são (bons) exemplos que extravasam as quatro linhas bem delimitadas de um campo de futebol...



Eu que não vi o jogo de futebol Portugal-Inglaterra, e que de resto não passou de um simples jogo de futebol entre onze portugueses e onze ingleses... Ou terão sido muitos mais ?



O que vale é que portugueses, espanhóis e ingleses são fracos em história, senão já teriam trazido, para o relvado dos estádios novinhos em folha, as (e)ternas questões por resolver, ligadas à nossa história comum: por ex., a valorosa padeira de Aljubarrota teria mesmo seis dedos em cada mão ? E como que é que, mesmo assim, com seis dedos, ela foi capaz de matar, só à conta dela, sete castelhanos?



6.  Não há dúvida de que o nacionalismo é uma ideologia eficiente e eficaz.  O futebol é hoje o-pão-e-o-circo da pós-modernidade. A(s) direita(s) europeia(s) sempre o souberam explorar. Começaram por fazer dele um fenómeno interclassista, logo acima de todas as diferenças que todos os dias nos separam...



Não era por acaso que denunciávamos, antes e depois do 25 de Abril de 1974, a ditadura dos três F (Fátima, Fado e Futebol).



O Futebol é hoje a continuação da guerra por outros meios. Em plena euroforia, é bom pôr (re)pensar o fenómeno da futebolização da sociedade portuguesa actual... Não vale a pena dar-lhe muita importância, mas também não é aconselhável  subestimá-la. Socio(b)logo dixit!



Portugas que merecem as nossas palmas - X: Ricardo, herói (nacional) por uma noite

1. Eu que sei o que é que o meu ilustre colega de Coimbra, muitíssimo mais ilustre do que eu, o sociólogo Carlos Fortuna, pensa da onda de nacionalismo que por aí vai, na sequência do Euro 2004: é "barato, imediatista e pouco consistente", disse ele aos jornais.

Não me admiraria nada que logo a seguir um outro ilustre coimbrão, vedeta da rádio, da televisão e da psiquiatria, o Prof. Carlos Amaral Dias, viesse dizer precisamente o contrário: que o futebol funciona hoje, de maneira eficaz e eficiente, como o tal caldo de cultura onde se misturam e produzem todos os elementos identitários de um povo, de uma nação, de um país. Em Portugal, em Inglaterra e por aí fora.

Eu sei que ele, Carlos Fortuna, tem toda a razão sociológica deste mundo, mas nem por isso ele deixa de dar a impressão de ser um chato de um sociólogo. E a pior coisa que nos pode acontecer, a nós, sociólogos, é sermos uns chatos de uns sociólogos.

Os sociólogos são chatos, não só por causa da (i) sua lingauagem de pau (langue du bois, em francês), mas também por que (ii) costumam dizer coisas que ninguém gosta de ouvir, a começar pelas elites do poder: que o rei vai nu, por exemplo... Além disso, são chatos por que (iii) vêm estragar a festa do Zé Povinho.

Em Coimbra, no Porto ou em Lisboa, que são as três praças fortes do pensamento sociológico, há sociólogos chatos. Lucidíssimos mas chatos. Sejamos pluralistas: e porque não também Braga ? ou Évora ? Não quero, com isto, hierarquizar os pólos da sociologia portuguesa que, de resto, está bem e recomenda-se (E o Prof.  Carlos Fortuna é um dos nomes que honra a sociologia portuguesa, diga-se a talhe de foice).

2. Eu subscrevo inteiramente o que o senhor professor de Coimbra escreveu a este propósito: "Este nacionalismo [futebolístico] é pouco". Mais: "a bandeira custa um euro". Pior ainda: a bandeira é made in China. Trágico:  foi feita numa daquelas fábricas de vão escada, em que o trabalho é sinónimo de sangue, suor e lágrimas.

As tristemente famosas sweatshops dos chinocas foram há dias publicamente denunciadas pelos nossos grandes industriais do têxtil, como exemplos de dumping social. Nunca os vi, entretanto, preocupados com as sweat shops dos portugas, em Vale do Ave e outros paraísos do empreendedorismo lusitano, com a melhoria das condições de trabalho dos operários portugueses, com a protecção da saúde e da segurança do trabalho, com a sua qualidade de vida no trabalho, etc.
 
Como eu costumo dizer, se as nossas fábricas e outros locais de trabalho fossem ao menos "estábulos-modelos", os nossos operários e demais trabalhadores poderiam ser equiparados à melhor aristocracia dos porcos, dos perus, dos frangos ou das vacas...

A verdade sociológica mais profunda é que este é um "nacionalismo barato", afirmou o ex-presidente da Associação Portuguesa de Sociologia (APS), em declarações à agência Lusa (Público, 11 de Junho de 2004). Eu acrescentaria: duplamente barato!

O meu ilustre colega sustenta que, "face à consciência nacional de um défice de resultados positivos (do país), os portugueses querem sucesso rápido, breve e imediato, e o futebol resolve-se em 90 minutos".

Ora, desse ponto de vista, o futebol "é fantástico, porque é a plena consciência nacional do fracasso", considerando que "há muita pouca coisa com que os portugueses se possam entusiasmar" (espero que o jornalista não tenha deturpado o pensamento do sociólogo).

Na opinião de Carlos Fortuna, existe em Portugal um "défice de nacionalismo e de auto-estima", e o país precisa de um nacionalismo "não tão imediatista e mais consistente do ponto de vista político".

Em suma, este é um recado, sábio, para o portuga de ejaculação precoce que espera o paraíso ao fim de 90 minutos de provação no inferno (há vários infernos: o dos dragões, o da luz, o de alvalade...).

3. Eu não gosto de fazer sociologia espontânea nem de me pôr em bicos de pés para aparecer em título de caixa alta. Quando muito, lá vou praticando a minha periférica e efémera socio(b)logia...

Mas se os doutos professores coimbrãos me permitem uma opinião de leigo ou, quando muito, de socio(b)logo, eu ficaria contente, se fosse psiquiatra ou até ministro da saúde, por os portugas deixarem de pensar, mesmo que por uns escassos momentos, no dramático fim de mês que, para cada vez mais portugas, tende a ser (ou parecer ser) pior que o fim o mundo...
 
O que de resto é compreensível, diga-se de passagem: (i) do fim do mundo nunca ninguém voltou para dar o dramático, pungente e irrepetível testemunho; (ii) e da terrível provação de tesos do dia 15 até ao fim do mês,  todos (ou quase todos) os portugas podem falar de cátedra...

Eu sei que o futebol não resolve este problema, nem nenhum outro problema dos nossos muitos problemas colectivos (estruturais, económicos, culturais, mentais...). Mas, que diabo!, faz bem a nossa auto-estima. Nem que seja por uma noite ou por umas horas!

Cibercaríssimo Carlos, deixe o portuga (i) sonhar, (ii) alienar-se, (iii) embebedar-se, por uma uma noite... Deixe o portuga tuga (iv) pensar que é o maior do mundo só por que às veze até é capaz de enfiar a bola na baliza... A ressaca do dia seguinte é terrível e aí você pode aplicar a sua pesada, pesadíssima, lucidez de sociólogo, o rigoroso método do Durkheim, do Weber ou do Bourdieu...

4. Leio nos jornais que, em Coimbra, a procura das bandeiras portuguesas tem sido tal que se encontra praticamente esgotada, nomeadamente nos quiosques:

"Esgotaram há três, quatro dias", disse à Lusa José Maria Saraiva, da Tabacaria S. Cruz, uma das mais centrais na cidade.A varanda, a janela, a porta, o fio da roupa, o chapéu-de-sol que abriga o engraxador de sapatos, quase tudo serve para expor a bandeira nacional, na cidade de Coimbra, seja qual for o tamanho. Na Baixa citadina, é nas zonas mais degradadas que as bandeiras mais se destacam, nalguns casos atravessando as estreitas ruas de lado a lado, como na Rua Direita" (Público, 11 de Junho de 2004).

Em Lisboa, eu também constato o mesmo fenómeno e, curiosamente, é nos bairros populares e nos bairros de habitação social que se desfraldam mais bandeiras portuguesas, das tais made in China, com os símbolos lusitanos aldrabados: os famigerados pagodes budistas em vez dos nossos garbosos castelos conquistados à moirama!

5. A esta hora da noite, ou melhor da madrugada, deixem-me dizer que o meu herói, provisório, efémero, é o Ricardo... Ou porque não os dois Ricardos ? E quem diz os dois diz os vinte e três mais o resto da orquestra... Esta npoite chamo-me Ricardo. Confesso que não vi o jogo Portugal-Inglaterra, apenas os últimos, dramáticos minutos, impróprios para cardíacos...
 
Em boa verdade sou patriota mas não sou masoquista; aliás, pela Pátria já dei o meu quinhão de sangue, suor e lágrimas...

O que me tocou, o que me sensibilizou profundamente, o que emocionou mesmo foi a sua (dele, Ricardo) atitude de autoconfiança, pondo a cabeça no cepo ao oferecer-se, ele próprio, para marcar o último e decisivo penalty, depois de ter acabado de fazer a grande defesa da noite...

Eu acho que ele quis matar de vez o fantasma do Vitor Baía, como diria o Prof. Carlos Amaral Dias (e dirão os jornais do dia seguinte). Independentemente disso, eu passei a ter um enorme respeito por este mouro do Montijo. A sua postura, a sua determinação, a sua coragem e a sua heterodoxia são (bons) exemplos que extravasam as quatro linhas bem delimitadas de um campo de futebol...

Eu que não vi o jogo de futebol Portugal-Inglaterra, e que de resto não passou de um simples jogo de futebol entre onze portugueses e onze ingleses... Ou terão sido muitos mais ?

O que vale é que portugueses, espanhóis e ingleses são fracos em história, senão já teriam trazido, para o relvado dos estádios novinhos em folha, as (e)ternas questões por resolver, ligadas à nossa história comum: por ex., a valorosa padeira de Aljubarrota teria mesmo seis dedos em cada mão ? E como que é que, mesmo assim, com seis dedos, ela foi capaz de matar, só à conta dela, sete castelhanos?

6.  Não há dúvida de que o nacionalismo é uma ideologia eficiente e eficaz.  O futebol é hoje o-pão-e-o-circo da pós-modernidade. A(s) direita(s) europeia(s) sempre o souberam explorar. Começaram por fazer dele um fenómeno interclassista, logo acima de todas as diferenças que todos os dias nos separam...

Não era por acaso que denunciávamos, antes e depois do 25 de Abril de 1974, a ditadura dos três F (Fátima, Fado e Futebol).

O Futebol é hoje a continuação da guerra por outros meios. Em plena euroforia, é bom pôr (re)pensar o fenómeno da futebolização da sociedade portuguesa actual... Não vale a pena dar-lhe muita importância, mas também não é aconselhável  subestimá-la. Socio(b)logo dixit!

24 junho 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - IX: João Lobo Antunes e a ciência (a)moral

A ciência é amoral ? Puro engano, isso não existe. A amoralidade em ciência. Não há tecnologia nem ciência(s) puras. Temos que fazer escolhas, quase sempre difíceis e por vezes dilacerantes. Agora o que não podemos é proibir o conhecimento. O acesso à informação e ao conhecimento é, hoje, um dado civilizacional, um valor democrático.



Corremos o risco de abrir a caixa de Pandora ? Mas a aventura humana não é outra coisa senão essa oportunidade e esse desafio.



Perguntam: mas as novas tecnologias (por exemplo, as da saúde) são igualizadoras, garantem a igualdade de oportunidades, ou não passam de “brinquedos para os ricos” ? É como a história do aborto: não se pode fazer em Portugal ? Dá-se uma salto a Badajoz, ali mesmo ao aldo, onde há clínicas abortivas para quem pode pagar...



Foram estas e outras perguntas (muito mnais do que as respostas) que constituíram a excelente, estimulante e amena cavaqueira que o Prof. João Lobo Antunes manteve, no passado dia 22, com dúzia e meia de privilegiad@s no Salão Nobre da Escola Nacional de Saúde Pública, das 17 às 18 horas, a propósito das novas tecnologias da saúde, da prática clínica e da administração de cuidados.



Nada como juntar o papel de médico que manipula uma alta tecnologia (a neurocirurgia) com o do membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, sem esquecer, o professor, o cidadão, o escritor, o humanista (no sentido renascentista do termo), o Prémio Pessoa 1996, etc.



Que implicações éticas têm as novas tecnologias ? Muitas, a começar pelos custos e benefícios. Veja-se o discurso dos políticos sobre a investigação em células estaminais humanas: os mais conservadores (v.g., Bush, Agosto de 2001) têm acentuado (i) o princípio dos riscos morais; e (ii) a negação do princípio (erradamente atribuído a Maquiavel) de que os fins (e sobretudo os mais nobres...) justificam os meios. E que fins mais nobres do que o de prevenir e curar a doença (v.g., Alzeimher) ou até de melhorar a espécie humana ?!



O drama é que a ciência não é mais pura... A ciência tornou-se pura com o iluminismo. Mas ela começou por ser pragmática (por exemplo, na Idade Média, nos conventos). Hoje tende a desaparecer o gap entre a ciência académica (individual, teórica, desinteressada, pura...) e a ciência industrial (grupal, prática, pragmática, produzindo valor acrescentado...). Há uma tremenda pressão para que a ciência se transforma em tecnologia, essa filha sexy da ciência...



O que temos hoje é a apploid science: (i) colectiva, em rede; (ii) aplicável, logo rentável; (iii) propensa ao conflito (há sempre conflito de interesses; e, por fim, com (iv) consequências éticas... Veja-se o que se passou cokm o grupo de cientistas que esteve na origem na construção da bomba atómica (J. Robert Oppenhieimer, Einstein, Leo Szilard...).



As novas tecnologias começam por exercer em nós uma enorme surpresa e encanto (i); há depois uma segunda fase, que é de refluxo, de receios pelos riscos (“a acaixa de Pandora”); e, +por fim, (iii) a preessão do Estado e da socieade civcil para a regulamantação.



No campo da a saúde, pode-se falar há muito de um complexo médico-industrial, com particulares interesses nos tipos de tecnologia: (i) as de suporte à vida; (ii) as diagnósticas; e, por fim, (iii) as cirúrgicas.



(...)

Portugas que merecem as nossas palmas - IX: João Lobo Antunes e a ciência (a)moral

A ciência é amoral ? Puro engano, isso não existe. A amoralidade em ciência. Não há tecnologia nem ciência(s) puras. Temos que fazer escolhas, quase sempre difíceis e por vezes dilacerantes. Agora o que não podemos é proibir o conhecimento. O acesso à informação e ao conhecimento é, hoje, um dado civilizacional, um valor democrático.

Corremos o risco de abrir a caixa de Pandora ? Mas a aventura humana não é outra coisa senão essa oportunidade e esse desafio.

Perguntam: mas as novas tecnologias (por exemplo, as da saúde) são igualizadoras, garantem a igualdade de oportunidades, ou não passam de “brinquedos para os ricos” ? É como a história do aborto: não se pode fazer em Portugal ? Dá-se uma salto a Badajoz, ali mesmo ao aldo, onde há clínicas abortivas para quem pode pagar...

Foram estas e outras perguntas (muito mnais do que as respostas) que constituíram a excelente, estimulante e amena cavaqueira que o Prof. João Lobo Antunes manteve, no passado dia 22, com dúzia e meia de privilegiad@s no Salão Nobre da Escola Nacional de Saúde Pública, das 17 às 18 horas, a propósito das novas tecnologias da saúde, da prática clínica e da administração de cuidados.

Nada como juntar o papel de médico que manipula uma alta tecnologia (a neurocirurgia) com o do membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, sem esquecer, o professor, o cidadão, o escritor, o humanista (no sentido renascentista do termo), o Prémio Pessoa 1996, etc.

Que implicações éticas têm as novas tecnologias ? Muitas, a começar pelos custos e benefícios. Veja-se o discurso dos políticos sobre a investigação em células estaminais humanas: os mais conservadores (v.g., Bush, Agosto de 2001) têm acentuado (i) o princípio dos riscos morais; e (ii) a negação do princípio (erradamente atribuído a Maquiavel) de que os fins (e sobretudo os mais nobres...) justificam os meios. E que fins mais nobres do que o de prevenir e curar a doença (v.g., Alzeimher) ou até de melhorar a espécie humana ?!

O drama é que a ciência não é mais pura... A ciência tornou-se pura com o iluminismo. Mas ela começou por ser pragmática (por exemplo, na Idade Média, nos conventos). Hoje tende a desaparecer o gap entre a ciência académica (individual, teórica, desinteressada, pura...) e a ciência industrial (grupal, prática, pragmática, produzindo valor acrescentado...). Há uma tremenda pressão para que a ciência se transforma em tecnologia, essa filha sexy da ciência...

O que temos hoje é a apploid science: (i) colectiva, em rede; (ii) aplicável, logo rentável; (iii) propensa ao conflito (há sempre conflito de interesses; e, por fim, com (iv) consequências éticas... Veja-se o que se passou cokm o grupo de cientistas que esteve na origem na construção da bomba atómica (J. Robert Oppenhieimer, Einstein, Leo Szilard...).

As novas tecnologias começam por exercer em nós uma enorme surpresa e encanto (i); há depois uma segunda fase, que é de refluxo, de receios pelos riscos (“a acaixa de Pandora”); e, +por fim, (iii) a preessão do Estado e da socieade civcil para a regulamantação.

No campo da a saúde, pode-se falar há muito de um complexo médico-industrial, com particulares interesses nos tipos de tecnologia: (i) as de suporte à vida; (ii) as diagnósticas; e, por fim, (iii) as cirúrgicas.

(...)

20 junho 2004

Blogantologia(s) - XIV: Paimogo da minha infância I

Não preciso de ser geólogo

Para te amar,

Ó Praia de Paimogo

Da minha infância.



Nem de ser paleontólogo

Para seguir as peugadas

Da tua errância

De dinossauro

do Jurássico Superior.



Nem muito menos biólogo ou sociólogo

Para te conhecer aí onde

Se alimenta o recolector-caçador

E o polvo, o povo, se esconde

Nas marés vivas de lua cheia.



Procurei abrigo na tua enseada,

Domei as ondas e o vento,

Esculpi a esfinge que guarda

A porta do teu templo,

Andei na pesca ao candeio,

Contrabandeei, fui almocreve,

Maçarico, marinheiro, calafate,

Pescador de lagosta, camarada,

Embarcadiço, capitão do norte,

Poeta, pirata e frade,

Fenício, celta, romano e moçárabe,

Português do mundo em cada esquina.



Armei navios, enriqueci, trafiquei,

Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,

Adubei as minha terras com o teu limo,

Fiz o meu ninho de ave de rapina

No alto das tuas falésias,

Lavrei o mar, semeei a morte,

E os meus mortos enterrei

Nas tuas areias.



Vigiei o mar, o céu e a terra

Do alto setecentista do teu forte;

Tive visões, vi monstros e sereias,

Fugi das garras dos temíveis terópodes,

Extingui vulcões, sofri horrores,

Conheci a paz e a guerra,

Estive cativo do mouro,

Fui devorado por gasterópodes,

Choquei os teus ovos de dinossauro,

Andei à deriva dos continentes,

Mas a verdade é que,

Cobiçada por muitas gentes,

Nunca nenhuma armada invencível te venceu,

Ó Praia de Paimogo da minha infância.

Se te perdeste, foi só por amores!



Quando eu era criança,

Quando eu tive a sorte de ser criança,

As sardinhas voltavam sempre

Em frágeis cardumes de prata e luar

À praia onde haviam nascido.



Quando eu era menino e moço,

Havia uma princesa moura, encantada,

Numa das tuas grutas submarinas;

O corpo coberto de lapas e algas agar-agar,

Era fonte de água pura, doce e quente,

Donde bebiam os ofegantes cavalos alados

Com as suas enormes narinas.

E o vento, nas velas dos barcos e dos moinhos,

Falava-me da tragédia antiga, mas ainda viva,

Da filha do teu capitão

Que se havia matado do alto da arriba,

Dizem que por amor e solidão.



No antigo reino mouro

e depois franco da Lourinhã,

Também os búzios me diziam

Que à noite as luzinhas,

Ao sul das Ilhas Berlengas,

Eram as alminhas

Dos que morriam

Sem sepultura cristã.



Hoje não acredito mais nessas lendas:

Afinal essas luzes são apenas as das traineiras,

Ao largo do Mar da Cerca,

Atrás dos cardumes de sardinhas.







Fonte: © Atelier Hannover 2000(1999-2000)





Post scriptum



Em 1993, foi descoberto em Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo, e mais específicamente de dinossauros terópodes (carnívoros bípedes).



Segundo ojovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. "Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)". Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, "descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo. Essa ocorrência permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico".







1º Prémio do II Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros: Eustreptospondylus (pormenor) - Autor: Vladimir Bondar (Ucrânia)



© Vladimir Bondar e GEAL-Museu da Lourinhã (2002).



Divulgue o Museu da Lourinhã e sobretudo visite-o: é a melhor exposição permanente do País na área da paleontologia dos dinossauros.



Blogantologia(s) - XIV: Paimogo da minha infância I

Não preciso de ser geólogo
Para te amar,
Ó Praia de Paimogo
Da minha infância.

Nem de ser paleontólogo
Para seguir as peugadas
Da tua errância
De dinossauro
do Jurássico Superior.

Nem muito menos biólogo ou sociólogo
Para te conhecer aí onde
Se alimenta o recolector-caçador
E o polvo, o povo, se esconde
Nas marés vivas de lua cheia.

Procurei abrigo na tua enseada,
Domei as ondas e o vento,
Esculpi a esfinge que guarda
A porta do teu templo,
Andei na pesca ao candeio,
Contrabandeei, fui almocreve,
Maçarico, marinheiro, calafate,
Pescador de lagosta, camarada,
Embarcadiço, capitão do norte,
Poeta, pirata e frade,
Fenício, celta, romano e moçárabe,
Português do mundo em cada esquina.

Armei navios, enriqueci, trafiquei,
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
Adubei as minha terras com o teu limo,
Fiz o meu ninho de ave de rapina
No alto das tuas falésias,
Lavrei o mar, semeei a morte,
E os meus mortos enterrei
Nas tuas areias.

Vigiei o mar, o céu e a terra
Do alto setecentista do teu forte;
Tive visões, vi monstros e sereias,
Fugi das garras dos temíveis terópodes,
Extingui vulcões, sofri horrores,
Conheci a paz e a guerra,
Estive cativo do mouro,
Fui devorado por gasterópodes,
Choquei os teus ovos de dinossauro,
Andei à deriva dos continentes,
Mas a verdade é que,
Cobiçada por muitas gentes,
Nunca nenhuma armada invencível te venceu,
Ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste, foi só por amores!

Quando eu era criança,
Quando eu tive a sorte de ser criança,
As sardinhas voltavam sempre
Em frágeis cardumes de prata e luar
À praia onde haviam nascido.

Quando eu era menino e moço,
Havia uma princesa moura, encantada,
Numa das tuas grutas submarinas;
O corpo coberto de lapas e algas agar-agar,
Era fonte de água pura, doce e quente,
Donde bebiam os ofegantes cavalos alados
Com as suas enormes narinas.
E o vento, nas velas dos barcos e dos moinhos,
Falava-me da tragédia antiga, mas ainda viva,
Da filha do teu capitão
Que se havia matado do alto da arriba,
Dizem que por amor e solidão.

No antigo reino mouro
e depois franco da Lourinhã,
Também os búzios me diziam
Que à noite as luzinhas,
Ao sul das Ilhas Berlengas,
Eram as alminhas
Dos que morriam
Sem sepultura cristã.

Hoje não acredito mais nessas lendas:
Afinal essas luzes são apenas as das traineiras,
Ao largo do Mar da Cerca,
Atrás dos cardumes de sardinhas.



Fonte: © Atelier Hannover 2000(1999-2000)


Post scriptum

Em 1993, foi descoberto em Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo, e mais específicamente de dinossauros terópodes (carnívoros bípedes).

Segundo ojovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. "Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)". Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, "descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo. Essa ocorrência permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico".



1º Prémio do II Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros: Eustreptospondylus (pormenor) - Autor: Vladimir Bondar (Ucrânia)

© Vladimir Bondar e GEAL-Museu da Lourinhã (2002).

Divulgue o Museu da Lourinhã e sobretudo visite-o: é a melhor exposição permanente do País na área da paleontologia dos dinossauros.

16 junho 2004

Portugas que merecem os nossos assobios - III: Os avelinos

(i) Ah!, este Portugal caceteiro, reaccionário, castiço, afadistado, arrogante, prepotente, troglodita, fascistóide, psicótico!... O Portugal do Senhor Dom Miguel e do Remexido!...



(ii) Eu que fiz daquela terra a minha terceira terra, tenho pena que este primata antissocial ainda seja o pequeno rei & roque do Marco de Canaveses, a terra que é berço da artista Carmen Miranda, do Eng. Belmiro de Azevedo e de um bom lote dos meus amigos e familiares (gente de cinco estrelas, como por lá se diz!)



(iii) Castigat ridendo mores: Que ao menos seja pelo humor, pelo riso, que a gente castigue estes pouco brandos costumes ancestrais...



(iv) É expondo-os ao ridículo do écrã da televisão ou da grande pantalha da blogosfera, perante milhões de portugas, que estes energúmenos acabam por sair de cena... Pode levar o seu tempo, mas acabam por passar de moda... Eu sei que na próxima telenovela aparecerão outros com maneiras mais sofisticadas, com new look, com outra Kultura Democrática e outra Etiketa Social...



(v) O que é intrigante são as cumplicidades de que estes e outros avelinos parecem beneficiar, entre os tentáculos do Estado-polvo e as enguias do poder do dinheiro; são os diabretes que a democracia pós-abrilista acabou por gerar no seu ventre ubérrimo, generoso mas nem sempre lúcido e inteligente.

Portugas que merecem os nossos assobios - III: Os avelinos

(i) Ah!, este Portugal caceteiro, reaccionário, castiço, afadistado, arrogante, prepotente, troglodita, fascistóide, psicótico!... O Portugal do Senhor Dom Miguel e do Remexido!...

(ii) Eu que fiz daquela terra a minha terceira terra, tenho pena que este primata antissocial ainda seja o pequeno rei & roque do Marco de Canaveses, a terra que é berço da artista Carmen Miranda, do Eng. Belmiro de Azevedo e de um bom lote dos meus amigos e familiares (gente de cinco estrelas, como por lá se diz!)

(iii) Castigat ridendo mores: Que ao menos seja pelo humor, pelo riso, que a gente castigue estes pouco brandos costumes ancestrais...

(iv) É expondo-os ao ridículo do écrã da televisão ou da grande pantalha da blogosfera, perante milhões de portugas, que estes energúmenos acabam por sair de cena... Pode levar o seu tempo, mas acabam por passar de moda... Eu sei que na próxima telenovela aparecerão outros com maneiras mais sofisticadas, com new look, com outra Kultura Democrática e outra Etiketa Social...

(v) O que é intrigante são as cumplicidades de que estes e outros avelinos parecem beneficiar, entre os tentáculos do Estado-polvo e as enguias do poder do dinheiro; são os diabretes que a democracia pós-abrilista acabou por gerar no seu ventre ubérrimo, generoso mas nem sempre lúcido e inteligente.

Blogantologia(s) - XIII: Para ti

Para ti, A., em jeito de poemacção, de poemafeição, de poemamor, de poemagradecimento, de poemapoio ou tão só de poemassombração. Como quiseres, que em poesia não há relações lineares de causa-efeito.





Quanto é bom voltar a ver-te voar





gaivota deusa alada

cortas fundo o branco

da manhã

e até ao cabo mais ocidental

do meu corpo

quero-te e espero-te

a viajar

no último comboio da madrugada



até ao fim até ao sul

paro escuto e olho

os semáforos do nevoeiro no país verde-rubro

mas já a maré enche de azul

as praças da cidade

e tu amor sem arribar



porto seguro e encantatório

ilha secreta gruta radar

com uma palmeira à janela

e uma bandeira em cada promontório

dizem que és filha da liberdade

do rio e da foz do vulcão e da lava

e em dias de neblina também és oásis

aldeia palafita e ponto final

entre as arribas e a praia-mar



não olhei para o calendário

nas paredes da falésia

nem fixei o dia o mês o ano ou a era

mas hoje o teu voo é preclaro sinal

de primavera



ponho um cêdê do fado novo

paro escuto perscruto

o telefone os búzios a guitarra

mas tu amante sibila cartomante

sem aportar



frias são as estrias do poema

e hirto o sax-grito

do último navio na noite

mas a letra do fado me diz

que tu gaivota deusa alada

estás p’ra chegar.



quanto é bom voltar a ver-te

voar.



28.3.1985

16.6.2004



Blogantologia(s) - XIII: Para ti

Para ti, A., em jeito de poemacção, de poemafeição, de poemamor, de poemagradecimento, de poemapoio ou tão só de poemassombração. Como quiseres, que em poesia não há relações lineares de causa-efeito.


Quanto é bom voltar a ver-te voar


gaivota deusa alada
cortas fundo o branco
da manhã
e até ao cabo mais ocidental
do meu corpo
quero-te e espero-te
a viajar
no último comboio da madrugada

até ao fim até ao sul
paro escuto e olho
os semáforos do nevoeiro no país verde-rubro
mas já a maré enche de azul
as praças da cidade
e tu amor sem arribar

porto seguro e encantatório
ilha secreta gruta radar
com uma palmeira à janela
e uma bandeira em cada promontório
dizem que és filha da liberdade
do rio e da foz do vulcão e da lava
e em dias de neblina também és oásis
aldeia palafita e ponto final
entre as arribas e a praia-mar

não olhei para o calendário
nas paredes da falésia
nem fixei o dia o mês o ano ou a era
mas hoje o teu voo é preclaro sinal
de primavera

ponho um cêdê do fado novo
paro escuto perscruto
o telefone os búzios a guitarra
mas tu amante sibila cartomante
sem aportar

frias são as estrias do poema
e hirto o sax-grito
do último navio na noite
mas a letra do fado me diz
que tu gaivota deusa alada
estás p’ra chegar.

quanto é bom voltar a ver-te
voar.

28.3.1985
16.6.2004

08 junho 2004

Blogantologia(s) - XII: Antony Gormley: no princípio era o corpo

A construção social do risco
ou socio(b)logando sobre uma exposição do escultor Anthony Gormley
("Mass and Empathy")


No princípio não era ainda o verbo.
O verbo virá depois.
Critical mass. Domain field.
O Anjo do Norte. O corpo e a morte.
E outras ideias fortes
Esculpidas no gesso, no ferro, no aço ou no cimento.

No princípio era o corpo.
A imensa mole de corpos.
A mão. O braço. O teu corpo.
O braço como extensão do teu corpo.
O corpo ubíquo. Iníquo.
O corpo de pé. De cócoras. De joelhos.
Sentado. Dobrado.
Deitado. Despojado.
Amontoado. Pendurado. Dependurado.
Petrificado. Fossilizado.

A partir do teu corpo.
Da extensão do teu braço.
Marcas um círculo à tua volta.
Aí mesmo onde as pedras fizeram uma elipse e
Pousaram.
Na terra. A cima da terra.
O teu corpo em molde de gesso.
Recuperas o teu corpo. Molécula a molécula.
Devolves o teu genoma à terra.
Estás num caixão. Um sarcófago. Um cofre.
Sem olhos. Estanque.

Um corpo à procura dum lugar para ser.
Um corpo. Um braço.
Algo que é teu.
O braço do teu corpo.
Mas que te é estranho.
Familiarmente estranho.
Como os restos do cordão umbilical
Que te liga(m) à matriz original
De todas as coisas.

Na tua mão seguras
O epicentro do mundo.
Chamemos-lhe provisoriamente mundo.
Punhamo-lo entre parêntesis. O mundo.
Entre parêntesis de arame farpado.
Porque no princípio era apenas o corpo
E a extensão do teu corpo.
E a violência do teu parto.
E o cordão umbilical que te liga à terra.

Mas isto não é um corpo.
É uma maçã, diz Magritte. Ou talvez não.
Apenas um poema em construção.
Um acto de criação.
A criação em acção.
Um muro liso e branco.
O muro. O fio de prumo.
O pêndulo. A corda. O cadafalso.
A linha do horizonte na vertical.
A luz ao fundo do túnel.
O fio de Ariane que te conduz
No labirinto.

Se o em si existe
É esta porção de mundo
Que está ao alcance da tua mão.
Um círculo. A exacta circunferência
Desenhada pelo teu dedo
Na areia da praia onde arribaste.
Ou poderia ter sido o dedo do deus
De Miguel Ângelo.
Ou outra criatura. Ou outro criador.

O teu corpo supunha-o blindado.
Como um caixão de chumbo. Um sarcófago.
Blindado mas oco como uma forma.
Sem olhos. Vazio. Mumificado.
Afinal, o teu corpo
É apenas um material de construção.
Um poema em construção. Um projecto.
Com especificações técnicas como qualquer projecto.
E dentro do poema um coração
Onde se lê: Cuidado, frágil.

É a relação com os outros
Que importa agora reter.
A semelhança. A dissemelhança.
É o relacional que dá sentido
À tua ubiquidade.
À tua iniquidade.
És velho e novo.
Alto e baixo.
Servo e senhor.
Objecto e sujeito.
Doente e terapeuta.
Masculino e feminino.
Escultor e esculpido.
Medium e antropólogo.
Construído e construtor.
Vítima e predador.
Fio e labirinto.
Perdido e achado.
Fóssil e paleontólogo.
Arte e artista.
Antony e Gormley.

És mais do que um corpo.
Mais do que um corpo na cidade.
És a própria cidade em construção.
A textura da cidade. O sociograma.
Mais do que rélation, diria rapport.
Relação de força, tensão, stresse, strain.

Tenho dificuldade em explicar-te
Onde acaba o biológico
E onde começa o social.
A linha de risco. O risco. O existencial.
O normal e o patológico.
O céu e o inferno. O axiológico.
A salutogénese e a patogénese.
A expiação do pecado original.
O mal. Pompeia e o Etna.
Hiroshima. O absurdo.
A angústia à flor da pele.
O envelhecer. A dor.
A raíz da dor. A depressão. O medo.
A morte e o morrer.
E sobretudo o poder.
Da vida e da morte.
O poder que não é coisa,
Atributo, categoria ou variável.
Mas relação. Um construído.
Como o teu corpo. A tua identidade.
A estratificação socioespacial do teu corpo.
O tempo e o lugar. A equidade. A bioética.
O corpo no labirinto.

Que disse que o mundo é
Injusto ou errado ?
Ou foi mal planeado ?
O problema não é de filosofia
Nem de risk assessment
Mas de engenharia (meta)física.
O stresse é uma força
Que aplicada sobre o aço do teu corpo
A deforma. Mais: O stresse mata.

E depois há o corpo que suporta
O peso. Do próprio corpo.
Dos outros corpos. Do mundo.
Mais do que os teus 700 quilos de ferro forjado
É o insustentável peso do mundo
Que tu habitas mais o teu corpo.
E o teu frágil coração.
Julgava-o blindado, o teu corpo. Mas não.

Há também, antes ou depois,
O corpo solidário. A rede.
O projecto identitário.
O poema em construção.
O desastre humanitário.
O fio do labirinto de Ariane.
O estado totalitário.
O corpo em acção.
O futuro sempre precário.

Mesmo Robinson Crusoe na tua ilha de arribação,
És um corpo com marcas indeléveis.
No teu invólucro de gesso
Vejo a marca do bisturi. Do naufrágio.
Da Kalashnikov. Do trabalho.
Da doença. Da escrita.
Da escola. Do código de Hamurabi.
Da guerra. Da tatuagem. Do sucesso.
Da formatação. Do clã. Do vulcão.
Do genoma. Da engenharia genética.
Da iatrogénse. Do puro terror.
Do Génesis. Da palavra de salvação.
Da bomba de Hiroshima.
Do desembarque nas praias da Normandia.
Do fado. Da saudade da partida.
Do horóscopo. Da viagem.
Da memória. Da história.
Da tua história de vida.

Mercator, ergo pestiferus.
Corpo ambulante. Desertor. Militante.
Mercador. Corsário. Marinheiro.
Recrutador de soldados.
Hóspede e hospedeiro.
Enfim, livre.
Trazes das outras ilhas a peste. A vida.
Nunca te reconheceria apenas pela cor dos teus olhos.
Furados.

Fundação Calouste Gulbenkian,
Museu de Arte Moderna,
Lisboa, 7 de Maio de 2004.

Por ocasião de uma visita guiada à exposição "mass and Empahy", de Antony Gormley, na companhia da Prof. Dra. Isabel Loureiro, do psiquiatra Dr. Luís Gamito e de dezasseis mestrand@s de saúde pública (7º Mestrado de Saúde Pública, Escola Nacional de Saúde Pública/Universidade Nova de Lisboa, 2003/2005)

Duas instalações de Antoney Gormley (n. Londres, 1950):

(i) Critical Mass II (1998). Ferro forjado. 60 unidades em tamanho natural. Molde do corpo do artista. Oficinas de carpintaria da Gulbenkian.

(ii) Domain Field (2003). Barras de ferro inoxidável. 4.76 x 4.76 mm. 287 esculturas, vários tamanhos, resultantes de moldes em gesso de habitantes de Newcastle-Gateshead com idades compreendidas entre os 2.5 anos e os 84 anos. Espaço (fabuloso) de exposições temporárias do Centro de Arte Moderna.


Outros sítios sobre Antony Gormley:

21st Century British Sculpture > Antony Gormley

Artcyclopedia > Antony Gormley

BBC > BBC Four > Audio Interviews > Antony Gormley

BALTIC > Summer 2003 Imagebank > Antony Gormley> Body and Fruit, 1993

Graeme Peacock > Photos > Angel of the North > Gateshead, Tyne & Wear, UK

Blogantologia(s) - XII: Antony Gormley: no princípio era o corpo

A construção social do risco
ou socio(b)logando sobre uma exposição do escultor Anthony Gormley
("Mass and Empathy")


No princípio não era ainda o verbo.
O verbo virá depois.
Critical mass. Domain field.
O Anjo do Norte. O corpo e a morte.
E outras ideias fortes
Esculpidas no gesso, no ferro, no aço ou no cimento.

No princípio era o corpo.
A imensa mole de corpos.
A mão. O braço. O teu corpo.
O braço como extensão do teu corpo.
O corpo ubíquo. Iníquo.
O corpo de pé. De cócoras. De joelhos.
Sentado. Dobrado.
Deitado. Despojado.
Amontoado. Pendurado. Dependurado.
Petrificado. Fossilizado.

A partir do teu corpo.
Da extensão do teu braço.
Marcas um círculo à tua volta.
Aí mesmo onde as pedras fizeram uma elipse e
Pousaram.
Na terra. A cima da terra.
O teu corpo em molde de gesso.
Recuperas o teu corpo. Molécula a molécula.
Devolves o teu genoma à terra.
Estás num caixão. Um sarcófago. Um cofre.
Sem olhos. Estanque.

Um corpo à procura dum lugar para ser.
Um corpo. Um braço.
Algo que é teu.
O braço do teu corpo.
Mas que te é estranho.
Familiarmente estranho.
Como os restos do cordão umbilical
Que te liga(m) à matriz original
De todas as coisas.

Na tua mão seguras
O epicentro do mundo.
Chamemos-lhe provisoriamente mundo.
Punhamo-lo entre parêntesis. O mundo.
Entre parêntesis de arame farpado.
Porque no princípio era apenas o corpo
E a extensão do teu corpo.
E a violência do teu parto.
E o cordão umbilical que te liga à terra.

Mas isto não é um corpo.
É uma maçã, diz Magritte. Ou talvez não.
Apenas um poema em construção.
Um acto de criação.
A criação em acção.
Um muro liso e branco.
O muro. O fio de prumo.
O pêndulo. A corda. O cadafalso.
A linha do horizonte na vertical.
A luz ao fundo do túnel.
O fio de Ariane que te conduz
No labirinto.

Se o em si existe
É esta porção de mundo
Que está ao alcance da tua mão.
Um círculo. A exacta circunferência
Desenhada pelo teu dedo
Na areia da praia onde arribaste.
Ou poderia ter sido o dedo do deus
De Miguel Ângelo.
Ou outra criatura. Ou outro criador.

O teu corpo supunha-o blindado.
Como um caixão de chumbo. Um sarcófago.
Blindado mas oco como uma forma.
Sem olhos. Vazio. Mumificado.
Afinal, o teu corpo
É apenas um material de construção.
Um poema em construção. Um projecto.
Com especificações técnicas como qualquer projecto.
E dentro do poema um coração
Onde se lê: Cuidado, frágil.

É a relação com os outros
Que importa agora reter.
A semelhança. A dissemelhança.
É o relacional que dá sentido
À tua ubiquidade.
À tua iniquidade.
És velho e novo.
Alto e baixo.
Servo e senhor.
Objecto e sujeito.
Doente e terapeuta.
Masculino e feminino.
Escultor e esculpido.
Medium e antropólogo.
Construído e construtor.
Vítima e predador.
Fio e labirinto.
Perdido e achado.
Fóssil e paleontólogo.
Arte e artista.
Antony e Gormley.

És mais do que um corpo.
Mais do que um corpo na cidade.
És a própria cidade em construção.
A textura da cidade. O sociograma.
Mais do que rélation, diria rapport.
Relação de força, tensão, stresse, strain.

Tenho dificuldade em explicar-te
Onde acaba o biológico
E onde começa o social.
A linha de risco. O risco. O existencial.
O normal e o patológico.
O céu e o inferno. O axiológico.
A salutogénese e a patogénese.
A expiação do pecado original.
O mal. Pompeia e o Etna.
Hiroshima. O absurdo.
A angústia à flor da pele.
O envelhecer. A dor.
A raíz da dor. A depressão. O medo.
A morte e o morrer.
E sobretudo o poder.
Da vida e da morte.
O poder que não é coisa,
Atributo, categoria ou variável.
Mas relação. Um construído.
Como o teu corpo. A tua identidade.
A estratificação socioespacial do teu corpo.
O tempo e o lugar. A equidade. A bioética.
O corpo no labirinto.

Que disse que o mundo é
Injusto ou errado ?
Ou foi mal planeado ?
O problema não é de filosofia
Nem de risk assessment
Mas de engenharia (meta)física.
O stresse é uma força
Que aplicada sobre o aço do teu corpo
A deforma. Mais: O stresse mata.

E depois há o corpo que suporta
O peso. Do próprio corpo.
Dos outros corpos. Do mundo.
Mais do que os teus 700 quilos de ferro forjado
É o insustentável peso do mundo
Que tu habitas mais o teu corpo.
E o teu frágil coração.
Julgava-o blindado, o teu corpo. Mas não.

Há também, antes ou depois,
O corpo solidário. A rede.
O projecto identitário.
O poema em construção.
O desastre humanitário.
O fio do labirinto de Ariane.
O estado totalitário.
O corpo em acção.
O futuro sempre precário.

Mesmo Robinson Crusoe na tua ilha de arribação,
És um corpo com marcas indeléveis.
No teu invólucro de gesso
Vejo a marca do bisturi. Do naufrágio.
Da Kalashnikov. Do trabalho.
Da doença. Da escrita.
Da escola. Do código de Hamurabi.
Da guerra. Da tatuagem. Do sucesso.
Da formatação. Do clã. Do vulcão.
Do genoma. Da engenharia genética.
Da iatrogénse. Do puro terror.
Do Génesis. Da palavra de salvação.
Da bomba de Hiroshima.
Do desembarque nas praias da Normandia.
Do fado. Da saudade da partida.
Do horóscopo. Da viagem.
Da memória. Da história.
Da tua história de vida.

Mercator, ergo pestiferus.
Corpo ambulante. Desertor. Militante.
Mercador. Corsário. Marinheiro.
Recrutador de soldados.
Hóspede e hospedeiro.
Enfim, livre.
Trazes das outras ilhas a peste. A vida.
Nunca te reconheceria apenas pela cor dos teus olhos.
Furados.

Fundação Calouste Gulbenkian,
Museu de Arte Moderna,
Lisboa, 7 de Maio de 2004.

Por ocasião de uma visita guiada à exposição "mass and Empahy", de Antony Gormley, na companhia da Prof. Dra. Isabel Loureiro, do psiquiatra Dr. Luís Gamito e de dezasseis mestrand@s de saúde pública (7º Mestrado de Saúde Pública, Escola Nacional de Saúde Pública/Universidade Nova de Lisboa, 2003/2005)

Duas instalações de Antoney Gormley (n. Londres, 1950):

(i) Critical Mass II (1998). Ferro forjado. 60 unidades em tamanho natural. Molde do corpo do artista. Oficinas de carpintaria da Gulbenkian.

(ii) Domain Field (2003). Barras de ferro inoxidável. 4.76 x 4.76 mm. 287 esculturas, vários tamanhos, resultantes de moldes em gesso de habitantes de Newcastle-Gateshead com idades compreendidas entre os 2.5 anos e os 84 anos. Espaço (fabuloso) de exposições temporárias do Centro de Arte Moderna.


Outros sítios sobre Antony Gormley:

21st Century British Sculpture > Antony Gormley

Artcyclopedia > Antony Gormley

BBC > BBC Four > Audio Interviews > Antony Gormley

BALTIC > Summer 2003 Imagebank > Antony Gormley> Body and Fruit, 1993

Graeme Peacock > Photos > Angel of the North > Gateshead, Tyne & Wear, UK

04 junho 2004

Socio(b)logia - X: Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim

1. Um cota, um senhor cota, veio há dias defender, em público, o sistema de quotas para as mulheres que querem ser médicas. É uma opinião, seguramente polémica mas provavelmente respeitável. Por ser pública e não privada, é uma opinião que pode e deve ser comentada no espaço semi-público que é este, o da blogosfera.



Acontece que o senhor é ministro, e não é um ministro qualquer. É o ministro que tutela a saúde, a nossa saúde. Os rapazes que querem ser médicos mas não conseguem entrar nas faculdades de medicina, terão aplaudido. Alguns. Outros não terão sequer entendido o alcance histórico da controversa proposta do senhor. Para mais, feita fora de portas, no Luxemburgo.



2. Os médicos, alguns, terão aplaudido. Voltámos à guerra dos sexos ? A avaliar pela posição pública do Bastonário da Ordem dos Médicos, não. Trata-se apenas de (re)equacionar, sem tabus, um problema que vai ter consequências no exercício futuro da medicina em Portugal. A urologia e a ortopedia, por exemplo. As mulheres não têm apetência para estas especialidades. E depois há as questões do pudor médico, masculino e feminino. Vocês estão a imaginar as urologistas a fazer o toque rectal à turma dos portugas ?



3. As mulheres, essas, indignaram-se. É que a guerra dos sexos acabou, é verdade. Já assinámos há muito o nosso Tratado de Évora-Monte. Mas ainda está bem fresca, na memória das chavalas e das cotas, a guerra dos sexos. De resto, já não se diz sexo, mas género: ser homem ou mulher já não é apenas resultado do determinismo genético, é também uma construção social.



Até uma cota, que por acaso é ministra (de outra pasta), foi aos arames e deixou o seu colega mais corado do que um pimentão vermelho, ao puxar-lhe as orelhas. Em público, fora de portas, no Luxemburgo. Olhe que não, olhe que não: que essa das mulheres para o gineceu, já!, só nos faz perder votos; e você quer melhor exemplo de dedicação à coisa pública do que eu, que uso saias ?



4. Recorde-se o argumento (capital) do senhor a favor das quotas para as mulheres em medicina: (i) as mulheres, quais marabuntas, invadiram aos anfiteatros de anatomia, os centros de saúde, os hospitais, os congressos de medicina; (ii) cerca de 63% dos actuais estudantes que frequentam o curso de medicina nas nossas 7 faculdades (n= 6067) são mulheres; (iii) daqui a uns anos os pobres dos homens, no SNS (leia-se: Serviço Nacional de Saúde), serão uma minoria socioprofissional, reduzidos a meia dúzia de maqueiros e ortopedistas; (iv) por causa dessa coisa da maternidade, elas são muito mais absentistas que os homens.



Pois é, diz o senhor Bastonário, elas têm mais juízo do que os rapazes, são mais aplicadas, estudam mais e melhor. E agora a gente vai ter que as aturar, incluindo naqueles dias em que elas estão impróprias para tudo, para todo o tipo de relação: a profissional, a terapêutica, a conjugal, a filial, etc. Abreviando argumentos, "a maternidade afasta as mulheres do serviço e tira-lhes alguma da capacidade de doação à profissão" (sic) (Bastonário da Ordem dos Médicos, Público, 2 de Junho de 2004). Em termos mais simples: um homem pode estar vinte e quatro horas por dia de alma e coração a exercer medicina; a mulher não tem disponibilidade nem física nem mental para ser doutora a tempo inteiro: ou é doutora e não pode exercer os outros papéis sociais que se esperam dela, como mulher, como mãe, como doméstica; ou é mulher, mãe e doméstica, e nesse caso só pode ser doutora em part-time.



5. Aí surge a valente Isabel do Carmo a comprar esta guerra (Público, do mesmo dia): (i) meus senhores, “nunca ninguém se lembrou de quotas quando a situação era inversa”; (ii) e quando vocês partiram para a guerra e nós ficámos na rectaguarda, fomos capazes de nos bater com os cotas em todas as especialidades, sem deixar de parir e educar os nossos filhos...



Comentário das jornalistas que fizeram a peça (Alexandra Campos, Emília Monteiro): “O que continua a preocupar Isabel do Carmo é que, havendo hoje tantas médicas, apenas cheguem homens a directores de serviço”. Este, por acaso, não é dos menos intrigantes paradoxos da sociedade dos portugas.



6. Curiosamente, de tempos a tempos somos visitados pelos velhos deuses e demónios da medicina, dos saberes e dos poderes da medicina... Há uns cem anos atrás, diziam os burgueses, machos, nova clsse social em ascensão: "Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras"...



Mais brutal era o cota, porventura cristão-velho, escolástico, seguramente misógeno e sexista, que industriava o povo, do alto do púlpito da igreja ou da cátedra de Coimbra, com nacos de prosa como esta há trezentos anos atrás: "Deus nos livre da mula que faz him e da mulher que sabe latim"...



7. Pelos vistos, este dossiê está longe de estar encerrado. Há 141 anos atrás, em 1863, os médicos do Middlesex Hospital emitiam a seguinte declaração sobre o assunto escaldante das woman doctors:



"The presence of a young female in the operating theatre is an outrage to our natural instincts and is calculated to destroy the respect and admiration with which the opposite sex is regarded" (em português: "A presenaça de uma jovem mulher na sala de operações é um ultraje aos nossos instintos naturais e tem como intenção destruir o respeito e a admiração com que são devidos ao sexo oposto".



Recorde-se que as mulheres só há cento e poucos anos puderam, no Ocidente cristão, burguês e particular, entrar no santos dos santos (que era então a universidade). A luta para serem reconhecidas como médicas e praticarem a medicina não foi fácil.



É justo referir aqui o nome de Elizabeth Blackwell (1821-1910): (i) a primeira mulher médica dos tempos modernos; (ii) inglesa, emigrou para os EUA em 1832 com a família; (iii) depois de rejeitada por inúmeras escolas, conseguiu finalmente diplomar-se pela Geneva Medical School, em Nova Iorque, em 1843; (iv) foi sistematicamente boicotada e vilipendiada em toda a parte ao tentar exercer medicina (EUA, França, Inglaterra); (v) foi professora da London School of Medicine for Women (1875-1907); e, por fim, (vi) é hoje considerada como uma das grandes feministas da 1ª geração, por ter travado um longo combate pelo direito das mulheres a seguirem a medicina como profissão.



Post Scriptum - As mulheres não só se indignaram como inclusive estão a pedir a cabeça do São João Baptista, quero eu dizer, do Senbhor Ministro da Saúde. Veja-se a recolha de assinaturas que está a ser organizada, com o apoio da APMJ - Associação portuguesa de Mulheres Juristas. refiro-me a abaixo assinado Mulheres em Medicina Sim, Retrocesso Não!

Socio(b)logia - X: Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim

1. Um cota, um senhor cota, veio há dias defender, em público, o sistema de quotas para as mulheres que querem ser médicas. É uma opinião, seguramente polémica mas provavelmente respeitável. Por ser pública e não privada, é uma opinião que pode e deve ser comentada no espaço semi-público que é este, o da blogosfera.

Acontece que o senhor é ministro, e não é um ministro qualquer. É o ministro que tutela a saúde, a nossa saúde. Os rapazes que querem ser médicos mas não conseguem entrar nas faculdades de medicina, terão aplaudido. Alguns. Outros não terão sequer entendido o alcance histórico da controversa proposta do senhor. Para mais, feita fora de portas, no Luxemburgo.

2. Os médicos, alguns, terão aplaudido. Voltámos à guerra dos sexos ? A avaliar pela posição pública do Bastonário da Ordem dos Médicos, não. Trata-se apenas de (re)equacionar, sem tabus, um problema que vai ter consequências no exercício futuro da medicina em Portugal. A urologia e a ortopedia, por exemplo. As mulheres não têm apetência para estas especialidades. E depois há as questões do pudor médico, masculino e feminino. Vocês estão a imaginar as urologistas a fazer o toque rectal à turma dos portugas ?

3. As mulheres, essas, indignaram-se. É que a guerra dos sexos acabou, é verdade. Já assinámos há muito o nosso Tratado de Évora-Monte. Mas ainda está bem fresca, na memória das chavalas e das cotas, a guerra dos sexos. De resto, já não se diz sexo, mas género: ser homem ou mulher já não é apenas resultado do determinismo genético, é também uma construção social.

Até uma cota, que por acaso é ministra (de outra pasta), foi aos arames e deixou o seu colega mais corado do que um pimentão vermelho, ao puxar-lhe as orelhas. Em público, fora de portas, no Luxemburgo. Olhe que não, olhe que não: que essa das mulheres para o gineceu, já!, só nos faz perder votos; e você quer melhor exemplo de dedicação à coisa pública do que eu, que uso saias ?

4. Recorde-se o argumento (capital) do senhor a favor das quotas para as mulheres em medicina: (i) as mulheres, quais marabuntas, invadiram aos anfiteatros de anatomia, os centros de saúde, os hospitais, os congressos de medicina; (ii) cerca de 63% dos actuais estudantes que frequentam o curso de medicina nas nossas 7 faculdades (n= 6067) são mulheres; (iii) daqui a uns anos os pobres dos homens, no SNS (leia-se: Serviço Nacional de Saúde), serão uma minoria socioprofissional, reduzidos a meia dúzia de maqueiros e ortopedistas; (iv) por causa dessa coisa da maternidade, elas são muito mais absentistas que os homens.

Pois é, diz o senhor Bastonário, elas têm mais juízo do que os rapazes, são mais aplicadas, estudam mais e melhor. E agora a gente vai ter que as aturar, incluindo naqueles dias em que elas estão impróprias para tudo, para todo o tipo de relação: a profissional, a terapêutica, a conjugal, a filial, etc. Abreviando argumentos, "a maternidade afasta as mulheres do serviço e tira-lhes alguma da capacidade de doação à profissão" (sic) (Bastonário da Ordem dos Médicos, Público, 2 de Junho de 2004). Em termos mais simples: um homem pode estar vinte e quatro horas por dia de alma e coração a exercer medicina; a mulher não tem disponibilidade nem física nem mental para ser doutora a tempo inteiro: ou é doutora e não pode exercer os outros papéis sociais que se esperam dela, como mulher, como mãe, como doméstica; ou é mulher, mãe e doméstica, e nesse caso só pode ser doutora em part-time.

5. Aí surge a valente Isabel do Carmo a comprar esta guerra (Público, do mesmo dia): (i) meus senhores, “nunca ninguém se lembrou de quotas quando a situação era inversa”; (ii) e quando vocês partiram para a guerra e nós ficámos na rectaguarda, fomos capazes de nos bater com os cotas em todas as especialidades, sem deixar de parir e educar os nossos filhos...

Comentário das jornalistas que fizeram a peça (Alexandra Campos, Emília Monteiro): “O que continua a preocupar Isabel do Carmo é que, havendo hoje tantas médicas, apenas cheguem homens a directores de serviço”. Este, por acaso, não é dos menos intrigantes paradoxos da sociedade dos portugas.

6. Curiosamente, de tempos a tempos somos visitados pelos velhos deuses e demónios da medicina, dos saberes e dos poderes da medicina... Há uns cem anos atrás, diziam os burgueses, machos, nova clsse social em ascensão: "Não provam bem as senhoras que se metem a doutoras"...

Mais brutal era o cota, porventura cristão-velho, escolástico, seguramente misógeno e sexista, que industriava o povo, do alto do púlpito da igreja ou da cátedra de Coimbra, com nacos de prosa como esta há trezentos anos atrás: "Deus nos livre da mula que faz him e da mulher que sabe latim"...

7. Pelos vistos, este dossiê está longe de estar encerrado. Há 141 anos atrás, em 1863, os médicos do Middlesex Hospital emitiam a seguinte declaração sobre o assunto escaldante das woman doctors:

"The presence of a young female in the operating theatre is an outrage to our natural instincts and is calculated to destroy the respect and admiration with which the opposite sex is regarded" (em português: "A presenaça de uma jovem mulher na sala de operações é um ultraje aos nossos instintos naturais e tem como intenção destruir o respeito e a admiração com que são devidos ao sexo oposto".

Recorde-se que as mulheres só há cento e poucos anos puderam, no Ocidente cristão, burguês e particular, entrar no santos dos santos (que era então a universidade). A luta para serem reconhecidas como médicas e praticarem a medicina não foi fácil.

É justo referir aqui o nome de Elizabeth Blackwell (1821-1910): (i) a primeira mulher médica dos tempos modernos; (ii) inglesa, emigrou para os EUA em 1832 com a família; (iii) depois de rejeitada por inúmeras escolas, conseguiu finalmente diplomar-se pela Geneva Medical School, em Nova Iorque, em 1843; (iv) foi sistematicamente boicotada e vilipendiada em toda a parte ao tentar exercer medicina (EUA, França, Inglaterra); (v) foi professora da London School of Medicine for Women (1875-1907); e, por fim, (vi) é hoje considerada como uma das grandes feministas da 1ª geração, por ter travado um longo combate pelo direito das mulheres a seguirem a medicina como profissão.

Post Scriptum - As mulheres não só se indignaram como inclusive estão a pedir a cabeça do São João Baptista, quero eu dizer, do Senbhor Ministro da Saúde. Veja-se a recolha de assinaturas que está a ser organizada, com o apoio da APMJ - Associação portuguesa de Mulheres Juristas. refiro-me a abaixo assinado Mulheres em Medicina Sim, Retrocesso Não!