12 agosto 2004

Blogantologia(s) – XVII: Paimogo da minha infância III

Nova versão em relação à de 20.06.04. O blogador, em férias, pode ser visto a fazer o seu jogging matinal, na baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia do Paimogo. Que, diga-se baixinho, é um dos mais belos recantos do litoral português. Oxalá os deuses e sobretudo os homens não sejam dominados pela súbita febre do cimento armado que tem destruído outros recantos belíssimos, selvagens, da nossa costa. Vejo, no entanto, com preocupação as pontas dos guindastes a avançarem da Praia da Areia Branca para norte...





Não preciso de ser geólogo

Para te amar,

Ó Praia de Paimogo

Da minha infância.



Nem de ser paleontólogo

Para desenhar na areia

As peugadas da tua errância

De dinossauro do Jurássico Superior.



Nem muito menos biólogo ou sociólogo

Para te conhecer aí onde

Se alimenta o recolector-caçador

E o polvo, o povo, se esconde

Nas marés vivas de lua cheia.



Fugi de terramotos e tempestades,

Procurei abrigo na tua enseada,

Domei as ondas e o vento,

Desfiz mitos, adorei divindades,

Esculpi a esfinge alada

Que guarda a porta do teu templo.



Andei na pesca ao candeio,

Fui pescador de lagosta,

Camponês, jornaleiro, camarada,

Andarilho de costa a costa,

Negociante de peixe, almocreve,

Apanhador de algas, caçador submarino,

Amigo do fado e da boémia,

Poeta, pirata e frade,

Mulher e fêmea,

Viúva de vivo e de morto,

Zé-Ninguém, cidadão clandestino.



Vim da Bretanha em barcos a vapor,

Fui avieiro nos meses longos de verão,

Fenício, cartaginês, romano e moçárabe,

Português do mundo em cada porto.



Armei navios, enriqueci, trafiquei,

De escravos fui senhor

E dono de engenhos nos brasis.

Embarcadiço e capitão do norte,

Aventureiro e explorador colonial,

Bandeirante, garimpeiro,

Prostituta e proxeneta,

E até de príncipes fui conselheiro.



Carreguei vinho nos barris

Da nossa Nau Catrineta,

Para a corte russa, imperial;

Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,

Adubei as minhas terras

Com o limo do mar dos sargaços,

Fiz o meu ninho de ave de rapina

No alto das tuas falésias,

Fui presa e predador,

Dos contrabandistas segui os passos,

Lavrei o mar, semeei a morte,

Sobrevivi a mil e uma guerras,

E os meus mortos enterrei

Nas tuas areias.



Vigiei o mar, o céu e a terra

Do alto setecentista do teu forte:

Tive visões, vi monstros e sereias,

Fugi das garras dos terópodes,

Escapei dos mandíbulas dos crocodilos,

Lutei contra muitas outras feras,

Fiz a paz e a guerra,

Da vida conheci todo os estilos,

Fui condenado às galeras

E quase devorado por gastrópodes,

Peguei de caras o minotauro,

Estive cativo do mouro

Nas longínquas mauritânias,

Choquei os teus ovos de dinossauro,

Construí castros, citânias,

Andei à deriva dos continentes,

Sobrevivi à fome e à peste,

Andei a monte, fugi a salto,

Lutei pela liberdade,

Pela lei e pela grei gritei bem alto,

De norte a sul, de leste a oeste,

E a pátria te defendi,

Contra todos os invasores.



A verdade, a verdade,

É que cobiçada por muitas gentes,

Desejada por muitos senhores,

Nunca nenhuma armada invencível te venceu,

Ó Praia de Paimogo da minha infância.

Se te perdeste,

Se alguma vez te perdeste,

Foi só por amores.



Quando eu era criança,

Quando eu tive a sorte de ser criança

Como diria o Fernando Pessoa,

As sardinhas voltavam sempre

Em frágeis cardumes de prata e luar

À praia onde haviam desovado.



Quando eu era menino e moço,

No tempo em que ainda partiam soldados

Para a Índia, para Goa,

Havia uma princesa, moura, encantada,

Num das tuas grutas submarinas;

O corpo coberto de ágar-ágar,

Era fonte de água pura, quente e doce,

Donde bebiam os ofegantes cavalos alados,

Com as suas enormes narinas.



E o vento, a nortada,

Nas velas dos barcos e dos moinhos,

Falavam-me da tragédia antiga,

Mas ainda viva,

Da filha do teu capitão

Que se havia matado do alto da arriba,

Dizem que por amor e solidão.



No antigo reino mouro

E depois franco e fero da Lourinhã,

Também os búzios me diziam

Que à noite as luzinhas,

A sul das Ilhas Berlengas,

Eram as alminhas

Dos que morriam

No mar, sem sepultura cristã.



Pobres náufragos,

Marinheiros, pescadores,

Poetas loucos, errantes, noctívagos,

Imigrantes clandestinos,

Corsários, contrabandistas, pecadores,

À deriva, sem um ui nem um ai,

Agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.



Hoje não acredito mais

Nessas lendas das alminhas

Que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,

Vendedores de letras de fado

E do Borda-d’Água:

Afinal essas luzinhas,

Lá longe e ali tão perto,

São apenas as traineiras

Ao largo do Mar do Serro,

Atrás dos cardumes de sardinhas.





Forte de Paimogo, visto do lado nascente.

Fotografia gentilmente cedida por © António Pena Luís (2004)





Notas explicativas:



1) O Forte de Paimogo, construído em 1674, construído durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontra-se há muito em estado de ruína. Apraz-me saber que a Cãmara Municipal da Lourinhã tem um projecto para a sua recuperação.



2) O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Cipriano (2001.261-262) refere a ocorrência, de 1968 a 2000, de seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de Março de 1971, no Mar do Serro, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de Maio de 1968), Altar de Deus (6 de Novembro de 1982), Arca de Deus (17 de Fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de Julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de Julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico.



3) Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”.



4) A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão, que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã (Cipriano, 2001. 17-25).



Referência bibliográfica:



Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.



Outras fontes:



Lusodino > Página pessoal de Octávio Mateus



GEAL - Museu da Lourinhã





Blogantologia(s) – XVII: Paimogo da minha infância III

Nova versão em relação à de 20.06.04. O blogador, em férias, pode ser visto a fazer o seu jogging matinal, na baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia do Paimogo. Que, diga-se baixinho, é um dos mais belos recantos do litoral português. Oxalá os deuses e sobretudo os homens não sejam dominados pela súbita febre do cimento armado que tem destruído outros recantos belíssimos, selvagens, da nossa costa. Vejo, no entanto, com preocupação as pontas dos guindastes a avançarem da Praia da Areia Branca para norte...


Não preciso de ser geólogo
Para te amar,
Ó Praia de Paimogo
Da minha infância.

Nem de ser paleontólogo
Para desenhar na areia
As peugadas da tua errância
De dinossauro do Jurássico Superior.

Nem muito menos biólogo ou sociólogo
Para te conhecer aí onde
Se alimenta o recolector-caçador
E o polvo, o povo, se esconde
Nas marés vivas de lua cheia.

Fugi de terramotos e tempestades,
Procurei abrigo na tua enseada,
Domei as ondas e o vento,
Desfiz mitos, adorei divindades,
Esculpi a esfinge alada
Que guarda a porta do teu templo.

Andei na pesca ao candeio,
Fui pescador de lagosta,
Camponês, jornaleiro, camarada,
Andarilho de costa a costa,
Negociante de peixe, almocreve,
Apanhador de algas, caçador submarino,
Amigo do fado e da boémia,
Poeta, pirata e frade,
Mulher e fêmea,
Viúva de vivo e de morto,
Zé-Ninguém, cidadão clandestino.

Vim da Bretanha em barcos a vapor,
Fui avieiro nos meses longos de verão,
Fenício, cartaginês, romano e moçárabe,
Português do mundo em cada porto.

Armei navios, enriqueci, trafiquei,
De escravos fui senhor
E dono de engenhos nos brasis.
Embarcadiço e capitão do norte,
Aventureiro e explorador colonial,
Bandeirante, garimpeiro,
Prostituta e proxeneta,
E até de príncipes fui conselheiro.

Carreguei vinho nos barris
Da nossa Nau Catrineta,
Para a corte russa, imperial;
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
Adubei as minhas terras
Com o limo do mar dos sargaços,
Fiz o meu ninho de ave de rapina
No alto das tuas falésias,
Fui presa e predador,
Dos contrabandistas segui os passos,
Lavrei o mar, semeei a morte,
Sobrevivi a mil e uma guerras,
E os meus mortos enterrei
Nas tuas areias.

Vigiei o mar, o céu e a terra
Do alto setecentista do teu forte:
Tive visões, vi monstros e sereias,
Fugi das garras dos terópodes,
Escapei dos mandíbulas dos crocodilos,
Lutei contra muitas outras feras,
Fiz a paz e a guerra,
Da vida conheci todo os estilos,
Fui condenado às galeras
E quase devorado por gastrópodes,
Peguei de caras o minotauro,
Estive cativo do mouro
Nas longínquas mauritânias,
Choquei os teus ovos de dinossauro,
Construí castros, citânias,
Andei à deriva dos continentes,
Sobrevivi à fome e à peste,
Andei a monte, fugi a salto,
Lutei pela liberdade,
Pela lei e pela grei gritei bem alto,
De norte a sul, de leste a oeste,
E a pátria te defendi,
Contra todos os invasores.

A verdade, a verdade,
É que cobiçada por muitas gentes,
Desejada por muitos senhores,
Nunca nenhuma armada invencível te venceu,
Ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste,
Se alguma vez te perdeste,
Foi só por amores.

Quando eu era criança,
Quando eu tive a sorte de ser criança
Como diria o Fernando Pessoa,
As sardinhas voltavam sempre
Em frágeis cardumes de prata e luar
À praia onde haviam desovado.

Quando eu era menino e moço,
No tempo em que ainda partiam soldados
Para a Índia, para Goa,
Havia uma princesa, moura, encantada,
Num das tuas grutas submarinas;
O corpo coberto de ágar-ágar,
Era fonte de água pura, quente e doce,
Donde bebiam os ofegantes cavalos alados,
Com as suas enormes narinas.

E o vento, a nortada,
Nas velas dos barcos e dos moinhos,
Falavam-me da tragédia antiga,
Mas ainda viva,
Da filha do teu capitão
Que se havia matado do alto da arriba,
Dizem que por amor e solidão.

No antigo reino mouro
E depois franco e fero da Lourinhã,
Também os búzios me diziam
Que à noite as luzinhas,
A sul das Ilhas Berlengas,
Eram as alminhas
Dos que morriam
No mar, sem sepultura cristã.

Pobres náufragos,
Marinheiros, pescadores,
Poetas loucos, errantes, noctívagos,
Imigrantes clandestinos,
Corsários, contrabandistas, pecadores,
À deriva, sem um ui nem um ai,
Agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.

Hoje não acredito mais
Nessas lendas das alminhas
Que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,
Vendedores de letras de fado
E do Borda-d’Água:
Afinal essas luzinhas,
Lá longe e ali tão perto,
São apenas as traineiras
Ao largo do Mar do Serro,
Atrás dos cardumes de sardinhas.


Forte de Paimogo, visto do lado nascente.
Fotografia gentilmente cedida por © António Pena Luís (2004)


Notas explicativas:

1) O Forte de Paimogo, construído em 1674, construído durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontra-se há muito em estado de ruína. Apraz-me saber que a Cãmara Municipal da Lourinhã tem um projecto para a sua recuperação.

2) O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Cipriano (2001.261-262) refere a ocorrência, de 1968 a 2000, de seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de Março de 1971, no Mar do Serro, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de Maio de 1968), Altar de Deus (6 de Novembro de 1982), Arca de Deus (17 de Fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de Julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de Julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico.

3) Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”.

4) A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão, que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã (Cipriano, 2001. 17-25).

Referência bibliográfica:

Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.

Outras fontes:

Lusodino > Página pessoal de Octávio Mateus

GEAL - Museu da Lourinhã


23 julho 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - XI: Sophia de Mello Breyner Andresen ( 1919-2004) e Carlos Paredes (1925-2004)

Pura beleza, a poesia da Sophia,  pura emoção, a música do Carlos!



Seguramente dois dos melhores portugas da geração dos meus pais, dois dos melhores dos nossos melhores em todas as gerações.



Dois portugas que marcaram a minha adolescência e a minha juventude: eu nunca seria o mesmo (nós nunca seríamos os mesmos ...) se em 1962 não tivessem ocorrido dois momentos mágicos: (i) o Livro Sexto, da Sophia; e (ii) os Verdes Anos (o filme de Paulo Rocha, com banda sonora do Carlos Paredes).



Ah!, este país que ainda consegue emocionar-me, mexer comigo e até ser motivo de orgulho!



"Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar." (Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962).



Obrigado, amiga! Obrigado, amigo!



Portugas que merecem as nossas palmas - XI: Sophia de Mello Breyner Andresen ( 1919-2004) e Carlos Paredes (1925-2004)

Pura beleza, a poesia da Sophia,  pura emoção, a música do Carlos!

Seguramente dois dos melhores portugas da geração dos meus pais, dois dos melhores dos nossos melhores em todas as gerações.

Dois portugas que marcaram a minha adolescência e a minha juventude: eu nunca seria o mesmo (nós nunca seríamos os mesmos ...) se em 1962 não tivessem ocorrido dois momentos mágicos: (i) o Livro Sexto, da Sophia; e (ii) os Verdes Anos (o filme de Paulo Rocha, com banda sonora do Carlos Paredes).

Ah!, este país que ainda consegue emocionar-me, mexer comigo e até ser motivo de orgulho!

"Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar." (Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962).

Obrigado, amiga! Obrigado, amigo!

22 julho 2004

Humor com humor se paga - XVI: A (e)terna sabedoria popular

1. A revolução é a festa dos deprimidos (… e o futebol, a dos comprimidos).



2. À noite todas as pardas são gatas (… e todas as loiras são inteligentes mas daltónicas).



3. Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras (…dão mais jeito, são mais práticas, dão mais pica).



4. Amor livre, sexo pago (… não se pode ter tudo).



5. As mulheres perdidas são as mais procuradas (… na secção de Perdidos & Achados da esquadra de polícia mais próxima).



6. Até encontrares o homem  certo, diverte-te com os errados (... para sermos socialmente correctos: Até encontrares a mulher certa, diverte-te com as erradas). 



7. Cuidado com as mulheres fáceis:  será difícil  livrares-te delas!  (... mas também não sei o que as mulheres pensam dos homens fáceis).



8. Conselho (para)suicidário: existe, insiste! (... ah!, o duro ofício de viver).



9. Dizem que o diabo não é tão feio como o pintam (... o que é decepcionante:  já não posso diabolizar  a outra metade do mundo que eu detesto).



10. Entra merda, sai merda (… ou será  melhor dar o benefício da dúvida ?).



11. Errar é  tão humano quanto divino (... acho que assim é teologicamente mais correcto).



12. Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro (... é o que eu costumo dizer ao meu chefe para justificar os meus já crónicos problemas de pontualidade). 



13. Mulher que sabe latim, não tem marido nem bom fim! (… é uma hipótese de investigação para a socio(b)logia dos gender-relatade studies).



14. Melancia grande e gaja boa, ninguém come sozinho (... viva a socialização do prazer!) .



15. Médico novo e puta velha, todos gostam de experimentar (... o que é confirmadoi pelo ICEP quando diz que Portugal é particularmente sensível à modernidade, por um lado, e à tradição, por outro).



16. Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador (... não sei qual será o estatuto dos gajos que andam à boleia no país do Zé) .



17. Não roubarás, diz um dos Dez Mandamentos da lei de Deus (… além disso,  o Estado detesta concorrência).



18. No teatro do poder, todos somos diplomados: uns em artes cénicas e outros em artes cínicas (... não me venhas dizer, companheiro, que o poder não te interessa de todo).



19. O beijo pode não matar a fome, mas abre o apetite (... foi você quem pediu um beijo ?).



20. O dinheiro pode não  trazer a felicidade, mas ajuda-te a gerir a depressão  (… em sítios in como a Quinta do Lago que eu só conheço como excursionista).



21. O dinheiro não compra a saúde (... mas eu prefiro ser rico com saúde do que pobre com doença).



22. O Homem é um erro de 'casting' de Deus (… o contrário não é verdadeiro e, se o fosse, seria blasfémia!) .



23. O hóspede e o peixe aos três dias fedem (…é melhor pô-los no frigorífico!).



24. O meu Banco ? O Alimentar Contra a Fome (... que a fome dos outros, em Portugal ou em Angola, é apenas um fait-divers).



25. Os negócios do Zé (… afinal, quem os não tem?) .



26. Pensamento (não-oficial, mas oficioso) do dia:  Percebe-se melhor o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida de  um país quando até o Primeiro-Ministro é um emigrante (de luxo).



27. Portugal: 0; Europa: 1 (… "Perdi um mau primeiro-ministro portuga; espero ganhar um bom presidente europeu", disse um dos indefectíveis apoiantes da selecção nacional de futebol que ainda não despiram a camisola, não penduraram o cachecol nem retiraram da janela a bandeira das quinas, na ressaca do Euro2004-de-todas-as-emoções-excepto-a-da-vitória-final).

28. Quando pobre come frango, um dos dois está doente (... ou fora do prazo de validade).



29. Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu (... esta é miserabilista!).



30. Se a morte é um descanso, então eu prefiro viver cansado (... o que não me resolve o problema, a avaliar pelo provérbio 'Muita saúde, pouco vida, porque Deus não dá tudo').



31. Se Deus escreve direito por linhas tortas, a culpa só pode ser da caneta, do papel ou do professor.



32. Se te queres matar, porque não te queres matar?  (… Se o Álvaro de Campos estivesse aqui acrescentaria: Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria...). 



33. Sous le pavé, la plage!  ("Debaixo da calçada, a praia!") (1968) (...os estudantes hoje não têm mais imaginação: vão directamente à agência de viagens da respectiva associação, em vez de levantarem as pedras da calçada).



34. Terra virgem (…que a minhoca é mole).



35. Uns têm veia poética, outros têm varizes (… é um problema de equidade em saúde).



36. Velho dá bom conselho (… já que não consegue dar mau exemplo).



37. Zé: A família tem orgulho em ti. Boa sorte! Desculpa lá qualquer coisinha...









Humor com humor se paga - XVI: A (e)terna sabedoria popular

1. A revolução é a festa dos deprimidos (… e o futebol, a dos comprimidos).

2. À noite todas as pardas são gatas (… e todas as loiras são inteligentes mas daltónicas).

3. Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras (…dão mais jeito, são mais práticas, dão mais pica).

4. Amor livre, sexo pago (… não se pode ter tudo).

5. As mulheres perdidas são as mais procuradas (… na secção de Perdidos & Achados da esquadra de polícia mais próxima).

6. Até encontrares o homem  certo, diverte-te com os errados (... para sermos socialmente correctos: Até encontrares a mulher certa, diverte-te com as erradas). 

7. Cuidado com as mulheres fáceis:  será difícil  livrares-te delas!  (... mas também não sei o que as mulheres pensam dos homens fáceis).

8. Conselho (para)suicidário: existe, insiste! (... ah!, o duro ofício de viver).

9. Dizem que o diabo não é tão feio como o pintam (... o que é decepcionante:  já não posso diabolizar  a outra metade do mundo que eu detesto).

10. Entra merda, sai merda (… ou será  melhor dar o benefício da dúvida ?).

11. Errar é  tão humano quanto divino (... acho que assim é teologicamente mais correcto).

12. Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro (... é o que eu costumo dizer ao meu chefe para justificar os meus já crónicos problemas de pontualidade). 

13. Mulher que sabe latim, não tem marido nem bom fim! (… é uma hipótese de investigação para a socio(b)logia dos gender-relatade studies).

14. Melancia grande e gaja boa, ninguém come sozinho (... viva a socialização do prazer!) .

15. Médico novo e puta velha, todos gostam de experimentar (... o que é confirmadoi pelo ICEP quando diz que Portugal é particularmente sensível à modernidade, por um lado, e à tradição, por outro).

16. Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador (... não sei qual será o estatuto dos gajos que andam à boleia no país do Zé) .

17. Não roubarás, diz um dos Dez Mandamentos da lei de Deus (… além disso,  o Estado detesta concorrência).

18. No teatro do poder, todos somos diplomados: uns em artes cénicas e outros em artes cínicas (... não me venhas dizer, companheiro, que o poder não te interessa de todo).

19. O beijo pode não matar a fome, mas abre o apetite (... foi você quem pediu um beijo ?).

20. O dinheiro pode não  trazer a felicidade, mas ajuda-te a gerir a depressão  (… em sítios in como a Quinta do Lago que eu só conheço como excursionista).

21. O dinheiro não compra a saúde (... mas eu prefiro ser rico com saúde do que pobre com doença).

22. O Homem é um erro de 'casting' de Deus (… o contrário não é verdadeiro e, se o fosse, seria blasfémia!) .

23. O hóspede e o peixe aos três dias fedem (…é melhor pô-los no frigorífico!).

24. O meu Banco ? O Alimentar Contra a Fome (... que a fome dos outros, em Portugal ou em Angola, é apenas um fait-divers).

25. Os negócios do Zé (… afinal, quem os não tem?) .

26. Pensamento (não-oficial, mas oficioso) do dia:  Percebe-se melhor o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida de  um país quando até o Primeiro-Ministro é um emigrante (de luxo).

27. Portugal: 0; Europa: 1 (… "Perdi um mau primeiro-ministro portuga; espero ganhar um bom presidente europeu", disse um dos indefectíveis apoiantes da selecção nacional de futebol que ainda não despiram a camisola, não penduraram o cachecol nem retiraram da janela a bandeira das quinas, na ressaca do Euro2004-de-todas-as-emoções-excepto-a-da-vitória-final).
28. Quando pobre come frango, um dos dois está doente (... ou fora do prazo de validade).

29. Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu (... esta é miserabilista!).

30. Se a morte é um descanso, então eu prefiro viver cansado (... o que não me resolve o problema, a avaliar pelo provérbio 'Muita saúde, pouco vida, porque Deus não dá tudo').

31. Se Deus escreve direito por linhas tortas, a culpa só pode ser da caneta, do papel ou do professor.

32. Se te queres matar, porque não te queres matar?  (… Se o Álvaro de Campos estivesse aqui acrescentaria: Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria...). 

33. Sous le pavé, la plage!  ("Debaixo da calçada, a praia!") (1968) (...os estudantes hoje não têm mais imaginação: vão directamente à agência de viagens da respectiva associação, em vez de levantarem as pedras da calçada).

34. Terra virgem (…que a minhoca é mole).

35. Uns têm veia poética, outros têm varizes (… é um problema de equidade em saúde).

36. Velho dá bom conselho (… já que não consegue dar mau exemplo).

37. Zé: A família tem orgulho em ti. Boa sorte! Desculpa lá qualquer coisinha...




16 julho 2004

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - V: Porque (não) reclamam os utentes dos serviços de saúde ?

A Andreia é uma ciberamiga que eu não conheço pessoalmente mas com quem me correspondo por e-mail, há mais de cinco anos! Jornalista, tem andado por vários sítios, o último dos quais no "Tempo Médico".

Há dias pediu-me, mesmo em cima da hora, para lhe responder a umas tantas perguntas, suscitadas pela leitura do relatório sobre as reclamações que chegaram à Direcção Geral de Saúde, relativamente ao ano de 2003 e aos utentes dos serviços de saúde, quer públicos quer privados (n=114). O relatório, de 13 páginas, está disponível em formato pdf no sítio da Direcção Geral de Saúde.
 
Eis as perguntas (P) da Andreia a que eu respondi (R), de improviso, em cima do joelho, sem ter lido o citado documento:

P1 - Quais serão os motivos que poderão justificar o facto de serem os médicos os mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%), quer na vertente de prestação de cuidados, quer na vertente da sua correcção e humanidade?
 
R1 - Os médicos são  mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%) do que os outros profissionais (enfermeiros, pessoal de acção médica, administrativos, técnicos de diagnóstico e terapêutica)…
 
Haverá diversas explicações: (i) maior número de interacções dos utentes/doentes com o pessoal médico; (ii) maior impacto da relação terapêutica na satisfação do utente/doente; (iii) a relação terapêutica é uma relação de poder, assimétrica, stressante, propensa ao conflito; (iv) o poder técnico-científico que é reconhecido ao médico tem uma dimensão oculta (o poder mágico-religioso de toda a relação terapêutica: a palavra  terapeuta vem do grego (terapeutes), quer dizer: medium, aquele que faz a ligação a um deus, aquele que cura através de ….; (v) last but not the least, os médicos, nas faculdades de medicina, são treinados para ver doenças, não para lidar com doentes, com pessoas doentes…

 
P2 - Nos Centros de Saúde, as matérias relacionadas com a sua organização e funcionamento originam a maioria das reclamações dos seus utentes (47%). O que é que o poderá motivar e o que poderá ser feito para melhorar a situação?

R2 - Os problemas de organização e funcionamento dos centros de saúde  estão na origem da maioria das reclamações dos seus utentes (47%)… São sobretudo os problemas de marcação de consulta, de gestão da lista do médico de família, de falta de médicos, de excesso de consultas por médico, de horários, de falta de condições de acolhimento dos utentes (sala de espera)…

O primeiro contacto com o centro de saúde, o rosto do centro de saúde, é um administrativo, sem formação específica, muitas vezes com baixa escolaridade, e que nalguns casos vem da escala mais baixa do funcionalismo público: o pessoal auxiliar e operário… A solução do problema passa também pela melhoria das competências em gestão dos médicos, enfermeiros e administrativos que dirigem (ou dirigiam)  os centros de saúde…

A actual reforma da rede dos cuidados de saúde primária (Decreto Lei nº 60/200, de 1 de Abril) pretende atacar este problema, mas isso não se resolve de um pé para a mão pondo os “privados” a governar o barco… Por outro lado, a clientela dos nossos centros de saúde tende, cada vez mais, a ser a população com menores recursos económicos e culturais (idosos, pobres, imigrantes…).

P3 - A DGS refere no relatório que as reclamações ainda não são usadas pelos utentes como oportunidades de melhoramento, mas para fazerem acusações. Como interpreta esta afirmação?

R3 - Na realidade, o utente dos serviços de saúde tem um papel passivo, e não proactivo: foi sempre visto como um consumidor, um doente, um “paciente” (sic), e não como um verdadeiro cliente com capacidade de influenciar a oferta de serviços… É um problema de empowerment, de competição, de mercado, de equidade… É também um problema sociocultural mais complexo…

P4 - Cerca de metade (49%) das reclamações são de utentes de instituições da Sub-Região de Saúde de Lisboa, seguindo-se as da Sub-Região de Saúde do Porto (13%) e de Setúbal (11%). A “interioridade” revela-se também neste tipo de actuação (ou não actuação) dos utentes?

R4 - De facto,a "interioridade” também se revela aqui… O eixo Setúbal-Braga, desenvolvido, litoral, urbano, jovem, com maior grau de literacia, também aqui faz sentir o seu peso (demográfico, económico, social…) sobre a periferia, pobre, rural, envelhecida, com baixa literacia…

Por outro lado, há uma maior relação de proximidade dos centros de saúde do interior (por ex., Baixo Alentejo) com a população que servem… O modelo de prestação de cuidados (por ex., trabalho em equipa, visitas domiciliárias, existência de extensões) também pode ser uma variável relevante para explicar estas diferenças comportamentais…

P5 - A maior parte das reclamações dizem respeito ao sector público. Será que as pessoas não se queixam do sector privado por falta de motivos de queixa ou porque não sabem que a DGS poderá intervir a esse nível?

R5 - Eu acho que os portugueses, embora não sendo parvos, são masoquistas… Por um lado, pensam que o dinheiro compra tudo (competência, qualidade, simpatia…), o que não é verdade… Se assim fosse, as nossas grandes empresas prestadores de serviços tratariam muito melhor os seus clientes… Essa história do “em cima o cliente, em baixo o presidente”, é uma história de conto de fadas que a gente costuma contar nos cursos de formação, mas que hoje em dia só produz sorrisos amarelos…

De resto, há cada vez menos respeito pelo cliente (seja externo, seja interno): parece que o único stakeholder que interessa satisfazer é o shareholder, esse peixe voraz e anónimo que especula na bolsa de valores…

Há ainda que referir que os consumidores de saúde (ou melhor do health care industry, que é a indústria da doença, e não da saúde!) não estão organizados, nem têm os mesmos meios de defesa e de lobbying como os outros… Abro uma excepção, para as relativamente poderosas associações de doentes crónicos…

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - V: Porque (não) reclamam os utentes dos serviços de saúde ?

A Andreia é uma ciberamiga que eu não conheço pessoalmente mas com quem me correspondo por e-mail, há mais de cinco anos! Jornalista, tem andado por vários sítios, o último dos quais no "Tempo Médico".

Há dias pediu-me, mesmo em cima da hora, para lhe responder a umas tantas perguntas, suscitadas pela leitura do relatório sobre as reclamações que chegaram à Direcção Geral de Saúde, relativamente ao ano de 2003 e aos utentes dos serviços de saúde, quer públicos quer privados (n=114). O relatório, de 13 páginas, está disponível em formato pdf no sítio da Direcção Geral de Saúde.
 
Eis as perguntas (P) da Andreia a que eu respondi (R), de improviso, em cima do joelho, sem ter lido o citado documento:

P1 - Quais serão os motivos que poderão justificar o facto de serem os médicos os mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%), quer na vertente de prestação de cuidados, quer na vertente da sua correcção e humanidade?
 
R1 - Os médicos são  mais visados pelas queixas dos utentes dos hospitais do SNS (48%) e centros de saúde (34%) do que os outros profissionais (enfermeiros, pessoal de acção médica, administrativos, técnicos de diagnóstico e terapêutica)…
 
Haverá diversas explicações: (i) maior número de interacções dos utentes/doentes com o pessoal médico; (ii) maior impacto da relação terapêutica na satisfação do utente/doente; (iii) a relação terapêutica é uma relação de poder, assimétrica, stressante, propensa ao conflito; (iv) o poder técnico-científico que é reconhecido ao médico tem uma dimensão oculta (o poder mágico-religioso de toda a relação terapêutica: a palavra  terapeuta vem do grego (terapeutes), quer dizer: medium, aquele que faz a ligação a um deus, aquele que cura através de ….; (v) last but not the least, os médicos, nas faculdades de medicina, são treinados para ver doenças, não para lidar com doentes, com pessoas doentes…

 
P2 - Nos Centros de Saúde, as matérias relacionadas com a sua organização e funcionamento originam a maioria das reclamações dos seus utentes (47%). O que é que o poderá motivar e o que poderá ser feito para melhorar a situação?

R2 - Os problemas de organização e funcionamento dos centros de saúde  estão na origem da maioria das reclamações dos seus utentes (47%)… São sobretudo os problemas de marcação de consulta, de gestão da lista do médico de família, de falta de médicos, de excesso de consultas por médico, de horários, de falta de condições de acolhimento dos utentes (sala de espera)…

O primeiro contacto com o centro de saúde, o rosto do centro de saúde, é um administrativo, sem formação específica, muitas vezes com baixa escolaridade, e que nalguns casos vem da escala mais baixa do funcionalismo público: o pessoal auxiliar e operário… A solução do problema passa também pela melhoria das competências em gestão dos médicos, enfermeiros e administrativos que dirigem (ou dirigiam)  os centros de saúde…

A actual reforma da rede dos cuidados de saúde primária (Decreto Lei nº 60/200, de 1 de Abril) pretende atacar este problema, mas isso não se resolve de um pé para a mão pondo os “privados” a governar o barco… Por outro lado, a clientela dos nossos centros de saúde tende, cada vez mais, a ser a população com menores recursos económicos e culturais (idosos, pobres, imigrantes…).

P3 - A DGS refere no relatório que as reclamações ainda não são usadas pelos utentes como oportunidades de melhoramento, mas para fazerem acusações. Como interpreta esta afirmação?

R3 - Na realidade, o utente dos serviços de saúde tem um papel passivo, e não proactivo: foi sempre visto como um consumidor, um doente, um “paciente” (sic), e não como um verdadeiro cliente com capacidade de influenciar a oferta de serviços… É um problema de empowerment, de competição, de mercado, de equidade… É também um problema sociocultural mais complexo…

P4 - Cerca de metade (49%) das reclamações são de utentes de instituições da Sub-Região de Saúde de Lisboa, seguindo-se as da Sub-Região de Saúde do Porto (13%) e de Setúbal (11%). A “interioridade” revela-se também neste tipo de actuação (ou não actuação) dos utentes?

R4 - De facto,a "interioridade” também se revela aqui… O eixo Setúbal-Braga, desenvolvido, litoral, urbano, jovem, com maior grau de literacia, também aqui faz sentir o seu peso (demográfico, económico, social…) sobre a periferia, pobre, rural, envelhecida, com baixa literacia…

Por outro lado, há uma maior relação de proximidade dos centros de saúde do interior (por ex., Baixo Alentejo) com a população que servem… O modelo de prestação de cuidados (por ex., trabalho em equipa, visitas domiciliárias, existência de extensões) também pode ser uma variável relevante para explicar estas diferenças comportamentais…

P5 - A maior parte das reclamações dizem respeito ao sector público. Será que as pessoas não se queixam do sector privado por falta de motivos de queixa ou porque não sabem que a DGS poderá intervir a esse nível?

R5 - Eu acho que os portugueses, embora não sendo parvos, são masoquistas… Por um lado, pensam que o dinheiro compra tudo (competência, qualidade, simpatia…), o que não é verdade… Se assim fosse, as nossas grandes empresas prestadores de serviços tratariam muito melhor os seus clientes… Essa história do “em cima o cliente, em baixo o presidente”, é uma história de conto de fadas que a gente costuma contar nos cursos de formação, mas que hoje em dia só produz sorrisos amarelos…

De resto, há cada vez menos respeito pelo cliente (seja externo, seja interno): parece que o único stakeholder que interessa satisfazer é o shareholder, esse peixe voraz e anónimo que especula na bolsa de valores…

Há ainda que referir que os consumidores de saúde (ou melhor do health care industry, que é a indústria da doença, e não da saúde!) não estão organizados, nem têm os mesmos meios de defesa e de lobbying como os outros… Abro uma excepção, para as relativamente poderosas associações de doentes crónicos…

11 julho 2004

Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada

Para o António, o Xico, o Daniel, o Mário, a Evelize, o Miguel, o Cunha, o Jorge e os demais companheiros da saúde pública, portugueses e angolanos, que acreditam e apostam no humanware angolano, tendo concebido, planeado e implementado o 1º Curso de Introdução à Administração dos Hospitais (3 blocos, com mais de 20 módulos, num total superior a 600 horas), num discreto mas notável projecto de cooperação que envolve, pelo lado angolano, o Ministério da Saúde de Angola e a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e pelo lado português a Fundação Calouste Gulbenkian e a Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa. E para o pessoal de secretariado, da Idalisa (Lisboa) à Elisabete (Luanda), que na retaguarda asseguram as mil e uma pequenas coisas que garantem o sucesso das grandes coisas.

Um especial kandandu para o Jorge que eu não pude rever desta vez, em Luanda, e que me dizem estar doente. As tuas melhoras, amigo e companheiro.

Para a Rita, a Paulina, a Eugénia e a Maria Antónia, as meninas Leal Monteiro dessa Casa Grande & Sanzala que é a Hospedaria Soleme, em Luanda, na Maianga, que tem sido a nossa casa, o nosso oásis e o nosso porto de abrigo. Sem esquecer a velha senhora Maria Eulália, a matriarca da família, que eu infelizmente ainda não conheço.


Trata-se, além disso, de um lugar único em Luanda já que a casa está também cheia de recordações e de obras do grande pintor angolano Viteix (Vítor Teixeira) (1940-1993), só agora conhecido em Portugal (A galeria da Caixa Geral de Depósitos, no Porto, teve em exposição entre Abril e Junho de 2004 uma importante colecção de obras do pintor, do período de 1958 a 1993, uma parte das quais temporariamente cedidas pela família Leal Monteiro a que o pintor estava ligado pelos laços do casamento).


Um enorme painel de azulejos, reproduzindo um das suas telas, feito em Portugal e montado sob orientação do seu filho, passou entretanto a partir de Dezembro último a figurar no alto de uma das paredes, adjacentes à fachada principal do edifício da Soleme. Devidamente iluminado à noite por projectores, o painel é perfeitamente visível da Rua Kwamme N'krumah e constitui uma justa e terna homenagem da família ao Viteix. Os dez anos da sua morte também foram devidamente assinalados na sua terra, com uma exposição em Maio de 2003, sob o título "Reviver Viteix".

Queridas amigas: Continuo a pensar que a vossa casa, a Soleme, é um verdadeiro oásis em Luanda, um lugar onde se alia a tradição, a cultura, a gastronomia, a hospitalidade, o cosmopolitismo, a arte de bem receber e sobretudo o human touch, o toque humano, que faz de uma simples relação comercial uma verdadeira relação de amizade...

Quero aqui prestar, em meu nome, a minha homenagem às grandes mulheres que mantêm de pé a belíssima casa, feita de granito angolano, talhada por artesões portugueses dos anos 20, que foi do vosso pai e avô, João Monteiro, quadro superior da administração colonial que faria este ano cem anos se fosse vivo (1904-2004)... Tivemos pena, eu e o Daniel, de não podermos estar na vossa festa, na passada sexta-feira... De qualquer modo ficámos sensibilizados pelo vosso convite. A viagem de regresso a Lisboa correu bem. Até sempre, amig@s!





Fonte: Fotografia gentilmente cedida pela Hospedaria Soleme, Rua Kwamme N'krumah, 1, Maianga, Luanda





Luanda revis(i)tada



Não vi flores,

Não vi acácias vermelhas,

Dessas rubras acácias de Benguela,

No teu imenso muceque;

Não vi o esplendor celebrado

Da tua baía,

Nem senti o sortilégio da tua ilha dos amores,

Ó cidade de Luanda

Que a gente nunca esquece,

Outrora tão jovem e tão bela.



Porém, no teu rosto (re)visitado

Pelas rugas velhas

Da guerra, da pobreza e da malária,

Descobri diamantes em estado puro

No teu olhar de criança

Perdida em viagem imaginária.



De modo nenhum te quereria

Em postal ilustrado,

Decadente e saudosista,

Com carimbo de correio pós-colonial:

A restinga do Mussulo ao pôr-do-sol,

A laguna, o mangal, a marginal,

E o estúpido turista em férias,

No Coconuts, na ilha, elitista,

Ou na piscina do Hotel Tropical!



Não li sequer os graffiti do FMI,

Gravados a duro pau de giz

Nos muros dos palácios da cidade alta,

Proclamando urbi et orbi

Que doravante toda a malta

Seria rica e feliz!



Há muito que os kaluandas partiram,

Deixando atrás de si,

Com um misto de saudade e de glória,

O calor húmido e fraterno

Da grande nação crioula.

Mais os imbondeiros que resistiram

À seca, à fome, ao inferno,

Ao lixo, à sida, à história.



O cheiro fétido do humano

Viaja nos candongueiros

Que atravessam de lés a lés

A tua rede de túneis-formigueiros,

As tua entranhas, o teu tutano,

A tua essência.

Alguém poderia achar essas correrias loucas

Se não soubesse quem tu és,

Mas tu tens o teu tempo e a tua medida,

Ó cidade das mulheres empreendedoras,

Peritas na arte da sobrevivência.



Um enorme exército de formigas obreiras,

Com os jerricãs de plástico à cabeça,

Leva o fio da água da vida,

Tão preciosa quanto parca,

Ao teu ventre de Jocasta,

Mãe África, mãe de kixikila,

Zungueira, matriarca,

Moça reguila, parideira,

Quitandeira, kinguila.



Na praia dos pescadores

Há meninos, brancos e pretos,

Pé descalço e calças rotas,

A chutar a bola às balizas da sorte.

Poderão não vir a ser uns senhores,

E sorrir como o Mantorras,

O rosto espalhado em outdoors pela cidade.

Mas contarão, decerto, aos seus netos

Como souberam fintar a morte

Desde a mais tenra idade.



Mãe África, mãe coragem,

Para quem pouco te basta,

Mesmo se muito tu queres

Daquilo a que tens pleno direito:

Cidade revis(i)tada,

Sem mapa nem roteiro,

Simples lugar de passagem,

Onde um litro de gasolina, imagina!

Custa tanto quanto um pão,

Vinte kwanzas.



Poderei dizer em Lisboa, se quiseres,

Que o melhor de ti, Luanda, terra quente,

É a tua gente, a quem mando um chicoração:

As tuas infatigáveis mulheres,

E as tuas ternas, eternas, crianças.





Glossário de termos do falar local:



Candongueiros - Os endiabrados táxis colectivos de Luanda. Param um qualquer sítio e levam sempre mais um passageiro para além da sua lotação máxima Cada viagem custa 30 kwanzas. O termo vem de candonga (contrabando). "Inicialmente o contrabando de peixe seco. Só muitos anos mais tarde se passaria a usar o termo candongueiro para designar os contrabandistas de diamantes ou, mais tarde ainda, os novos taxistas luandenses do chamado processo dos 500" (Segundo leio no sítio de um brasileiro sobre os países e comunidades de língua portuguesa) .



Imbondeiro - Também conhecido por n´bondo (Adansonia digitata, Lin.):



Kaluanda - Nome antigo, colonial, dado ao habitante de Luanda.



Kandandu - Abraço (Plural: Jindandu). Ver outras expressões usadas nas saudações em kimbundu.



Kimbundu - Considerado o maior grupo etnolinguístico de Angola (c. 25% da população na costa oeste e no norte), a seguir ao ovimbundu (c. 37%, a sul), mas à frente do bakongo (13%) (Estas são as três principais línguas de Angola, todas elas pertencentes ao grupo bantu). A língua oficial é, como se sabe, o português. No Ciberdúvidas da Língua Portuguesa há uma interessantíssima nota de Rui Ramos sobre as relações nem sempre fáceis entre o português (colonial, dominante) e o kimbundu (ou quimbundo, o falar das gentes de Luanda-Malanje). Termos usados hoje pelos nossos jovens, como cota (dikota, pessoa mais velha) são provenientes do kimbundu. Sobre as questões de grafia (kimbundu ou quimbundo), ver igualmente a resposta do angolano Rui Ramos, especialista em línguas africanas, no mesmo sítio. Não se deve confundir, no entanto, o kimbundu com o calão de Luanda (caso de bué, e outras expressões que se ouvem na noite lisboeta).



Kinguila - Rapariga ou mulher que, no mercado paralelo, se dedica ao câmbio de moeda. Em geral, os maços de kwanzas e de dólares são guardados nos seios. Este negócio era tradicionalmente dos zairotas, habitantes do Zaire. Segundo o portal Netangola, numa página com preciosas dicas para os homens de negócios estrangeiros em visita a Luanda, "one can often find in the streets of the city the typical Kinguila - the seller of money - who normally offers the best quotation. This practice is forbidden by the authorities and offers some risks".



Kixikila - Em kimbundu, quer dizer contribuição, em dinheiro, para um dado fim colectivo. Em África, em geral, e em Angola, em particular, é aquilo que se designa pela expressão inglesa Rotating Savings and Credit Associations (ROSCA), um sistema informal de poupança e crédito, um grupo de ajuda mútua, liderado em geral por uma mulher, a "mãe de kixikila". O pequeno grupo, de cinco a dez elementos, tende a ser constituído por pessoas que estão ligadas entre si por laços de amizade, parentesco, vizinhança ou profissão. Cada elemento faz periodicamente uma determinada contribuição para um fundo comum que é depois utilizado rotativamente por cada um, com uma taxa de juro nula ou de valor reduzido. Na ausência de sistemas de crédito bancário acessíveis à generalidade da população, o kixikila voltou aos hábitos dos kaluandas como forma de atenuar ou reduzir o impacto da pobreza. O kixikila está hoje vulgarizado, não só entre as vendedeiras, quitandandeiras e kinguilas, mas também nos serviços públicos e nas empresas (vd. Neto, S. - Kixikila não é uma lotaria. Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004). 40-42). Vd. também: Ducados, H.L.; Ferreira, M.E. (1998) - O financiamento informal e as estratégias de sobrevivência económica das mulheres em Angola : a Kixikila no caso do município do Sambizanga (Luanda). Lisboa: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento. Instituto Superior de Economia e Gestão. Universidade Técnica de Lisboa. 1998 (Documentos de Trabalho, 53).



Kwanza - Moeda local. 1 dólar equivale a c. 85 kwanzas. O cacete (tipo de pão) custa cerca de 20 kwanzas (Julho de 2004). Consultar também o sítio oficial da República de Angola.



Muceques - Bairros populares degradados de Luanda.



Quitandeira - Vendedora de rua (ou de mercado), em geral de produtos hortofrutícolas. Vem de quitanda, um termo kimbundu que significa expor (determinados produtos para venda), e, por extensão, feira ou mercado. Há um belíssimo poema de Agostinho Neto sobre a quitandeira, que vem no seu livro Sagrada Esperança (1974): "A quitanda. Muito sol /e a quitandeira à sombra / da mulemba. /- Laranja, minha senhora, /laranjinha boa!"...



Zungueira - Vendedor ambulante, uma figura típica da economia paralela de Luanda. Em geral é do sexo feminino, mas também há cada mais jovens e crianças do sexo masculino. Estima-se que 70% da população de Luanda, em idade activa, seja zungueira. Ninguém sabe ao certo qual é a população actual da cidade e periferia: estima-se que possa chegar aos 4 milhões (a maior parte deslocados de guerra), ou seja, mais de 1/3 da população angolana actual, estimada actualmente pela CIA em c. 11 milhões de habitantes. Do verbo zunguar (andar para cima e para baixo, circular tentando vender alguma coisa). As zungueiras abastecem-se em mercados como o Roque Santeiro ou o Kikolo, onde não é aconselhável, por razões de segurança, a visita do turista estrangeiro. Considerando a sua densidade populacional e o drama do seu quotidiano, Luanda é apesar de tudo uma cidade com uma baixa taxa de criminalidade. Sobre o comércio informal, a figura da zungueira e a arte de sobreviver em Luanda, veja-se uma excelente reportagem assinada pelo jornalista e sociólogo Paulo de Carvalho (paulodecarvalho@sociologist.com, na revista Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004).34-39.



Fotos de Luanda e de outros sítios de Angola:



O meu álbum de fotografias > Angola > Luanda > Cidade / City (tiradas em data posterior a este post)



Angola > Imagens



Luanda > Ilha do Mussulo > Imagens



Luanda > 1983 > Imagens



Lusoáfrica > Angola > Fotografias





Outros sítios sobre Angola (história, sociedade, economia, cultura):



Nhamalanda > História da Família Costa



SanzalAngola > Página de Helder de Sousa



UEA - União dos Escritores Angolanos





Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada

Para o António, o Xico, o Daniel, o Mário, a Evelize, o Miguel, o Cunha, o Jorge e os demais companheiros da saúde pública, portugueses e angolanos, que acreditam e apostam no humanware angolano, tendo concebido, planeado e implementado o 1º Curso de Introdução à Administração dos Hospitais (3 blocos, com mais de 20 módulos, num total superior a 600 horas), num discreto mas notável projecto de cooperação que envolve, pelo lado angolano, o Ministério da Saúde de Angola e a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e pelo lado português a Fundação Calouste Gulbenkian e a Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa. E para o pessoal de secretariado, da Idalisa (Lisboa) à Elisabete (Luanda), que na retaguarda asseguram as mil e uma pequenas coisas que garantem o sucesso das grandes coisas.

Um especial kandandu para o Jorge que eu não pude rever desta vez, em Luanda, e que me dizem estar doente. As tuas melhoras, amigo e companheiro.

Para a Rita, a Paulina, a Eugénia e a Maria Antónia, as meninas Leal Monteiro dessa Casa Grande & Sanzala que é a Hospedaria Soleme, em Luanda, na Maianga, que tem sido a nossa casa, o nosso oásis e o nosso porto de abrigo. Sem esquecer a velha senhora Maria Eulália, a matriarca da família, que eu infelizmente ainda não conheço.

Trata-se, além disso, de um lugar único em Luanda já que a casa está também cheia de recordações e de obras do grande pintor angolano Viteix (Vítor Teixeira) (1940-1993), só agora conhecido em Portugal (A galeria da Caixa Geral de Depósitos, no Porto, teve em exposição entre Abril e Junho de 2004 uma importante colecção de obras do pintor, do período de 1958 a 1993, uma parte das quais temporariamente cedidas pela família Leal Monteiro a que o pintor estava ligado pelos laços do casamento).

Um enorme painel de azulejos, reproduzindo um das suas telas, feito em Portugal e montado sob orientação do seu filho, passou entretanto a partir de Dezembro último a figurar no alto de uma das paredes, adjacentes à fachada principal do edifício da Soleme. Devidamente iluminado à noite por projectores, o painel é perfeitamente visível da Rua Kwamme N'krumah e constitui uma justa e terna homenagem da família ao Viteix. Os dez anos da sua morte também foram devidamente assinalados na sua terra, com uma exposição em Maio de 2003, sob o título "Reviver Viteix".

Queridas amigas: Continuo a pensar que a vossa casa, a Soleme, é um verdadeiro oásis em Luanda, um lugar onde se alia a tradição, a cultura, a gastronomia, a hospitalidade, o cosmopolitismo, a arte de bem receber e sobretudo o human touch, o toque humano, que faz de uma simples relação comercial uma verdadeira relação de amizade...

Quero aqui prestar, em meu nome, a minha homenagem às grandes mulheres que mantêm de pé a belíssima casa, feita de granito angolano, talhada por artesões portugueses dos anos 20, que foi do vosso pai e avô, João Monteiro, quadro superior da administração colonial que faria este ano cem anos se fosse vivo (1904-2004)... Tivemos pena, eu e o Daniel, de não podermos estar na vossa festa, na passada sexta-feira... De qualquer modo ficámos sensibilizados pelo vosso convite. A viagem de regresso a Lisboa correu bem. Até sempre, amig@s!




Fonte: Fotografia gentilmente cedida pela Hospedaria Soleme, Rua Kwamme N'krumah, 1, Maianga, Luanda


Luanda revis(i)tada

Não vi flores,
Não vi acácias vermelhas,
Dessas rubras acácias de Benguela,
No teu imenso muceque;
Não vi o esplendor celebrado
Da tua baía,
Nem senti o sortilégio da tua ilha dos amores,
Ó cidade de Luanda
Que a gente nunca esquece,
Outrora tão jovem e tão bela.

Porém, no teu rosto (re)visitado
Pelas rugas velhas
Da guerra, da pobreza e da malária,
Descobri diamantes em estado puro
No teu olhar de criança
Perdida em viagem imaginária.

De modo nenhum te quereria
Em postal ilustrado,
Decadente e saudosista,
Com carimbo de correio pós-colonial:
A restinga do Mussulo ao pôr-do-sol,
A laguna, o mangal, a marginal,
E o estúpido turista em férias,
No Coconuts, na ilha, elitista,
Ou na piscina do Hotel Tropical!

Não li sequer os graffiti do FMI,
Gravados a duro pau de giz
Nos muros dos palácios da cidade alta,
Proclamando urbi et orbi
Que doravante toda a malta
Seria rica e feliz!

Há muito que os kaluandas partiram,
Deixando atrás de si,
Com um misto de saudade e de glória,
O calor húmido e fraterno
Da grande nação crioula.
Mais os imbondeiros que resistiram
À seca, à fome, ao inferno,
Ao lixo, à sida, à história.

O cheiro fétido do humano
Viaja nos candongueiros
Que atravessam de lés a lés
A tua rede de túneis-formigueiros,
As tua entranhas, o teu tutano,
A tua essência.
Alguém poderia achar essas correrias loucas
Se não soubesse quem tu és,
Mas tu tens o teu tempo e a tua medida,
Ó cidade das mulheres empreendedoras,
Peritas na arte da sobrevivência.

Um enorme exército de formigas obreiras,
Com os jerricãs de plástico à cabeça,
Leva o fio da água da vida,
Tão preciosa quanto parca,
Ao teu ventre de Jocasta,
Mãe África, mãe de kixikila,
Zungueira, matriarca,
Moça reguila, parideira,
Quitandeira, kinguila.

Na praia dos pescadores
Há meninos, brancos e pretos,
Pé descalço e calças rotas,
A chutar a bola às balizas da sorte.
Poderão não vir a ser uns senhores,
E sorrir como o Mantorras,
O rosto espalhado em outdoors pela cidade.
Mas contarão, decerto, aos seus netos
Como souberam fintar a morte
Desde a mais tenra idade.

Mãe África, mãe coragem,
Para quem pouco te basta,
Mesmo se muito tu queres
Daquilo a que tens pleno direito:
Cidade revis(i)tada,
Sem mapa nem roteiro,
Simples lugar de passagem,
Onde um litro de gasolina, imagina!
Custa tanto quanto um pão,
Vinte kwanzas.

Poderei dizer em Lisboa, se quiseres,
Que o melhor de ti, Luanda, terra quente,
É a tua gente, a quem mando um chicoração:
As tuas infatigáveis mulheres,
E as tuas ternas, eternas, crianças.


Glossário de termos do falar local:

Candongueiros - Os endiabrados táxis colectivos de Luanda. Param um qualquer sítio e levam sempre mais um passageiro para além da sua lotação máxima Cada viagem custa 30 kwanzas. O termo vem de candonga (contrabando). "Inicialmente o contrabando de peixe seco. Só muitos anos mais tarde se passaria a usar o termo candongueiro para designar os contrabandistas de diamantes ou, mais tarde ainda, os novos taxistas luandenses do chamado processo dos 500" (Segundo leio no sítio de um brasileiro sobre os países e comunidades de língua portuguesa) .

Imbondeiro - Também conhecido por n´bondo (Adansonia digitata, Lin.):

Kaluanda - Nome antigo, colonial, dado ao habitante de Luanda.

Kandandu - Abraço (Plural: Jindandu). Ver outras expressões usadas nas saudações em kimbundu.

Kimbundu - Considerado o maior grupo etnolinguístico de Angola (c. 25% da população na costa oeste e no norte), a seguir ao ovimbundu (c. 37%, a sul), mas à frente do bakongo (13%) (Estas são as três principais línguas de Angola, todas elas pertencentes ao grupo bantu). A língua oficial é, como se sabe, o português. No Ciberdúvidas da Língua Portuguesa há uma interessantíssima nota de Rui Ramos sobre as relações nem sempre fáceis entre o português (colonial, dominante) e o kimbundu (ou quimbundo, o falar das gentes de Luanda-Malanje). Termos usados hoje pelos nossos jovens, como cota (dikota, pessoa mais velha) são provenientes do kimbundu. Sobre as questões de grafia (kimbundu ou quimbundo), ver igualmente a resposta do angolano Rui Ramos, especialista em línguas africanas, no mesmo sítio. Não se deve confundir, no entanto, o kimbundu com o calão de Luanda (caso de bué, e outras expressões que se ouvem na noite lisboeta).

Kinguila - Rapariga ou mulher que, no mercado paralelo, se dedica ao câmbio de moeda. Em geral, os maços de kwanzas e de dólares são guardados nos seios. Este negócio era tradicionalmente dos zairotas, habitantes do Zaire. Segundo o portal Netangola, numa página com preciosas dicas para os homens de negócios estrangeiros em visita a Luanda, "one can often find in the streets of the city the typical Kinguila - the seller of money - who normally offers the best quotation. This practice is forbidden by the authorities and offers some risks".

Kixikila - Em kimbundu, quer dizer contribuição, em dinheiro, para um dado fim colectivo. Em África, em geral, e em Angola, em particular, é aquilo que se designa pela expressão inglesa Rotating Savings and Credit Associations (ROSCA), um sistema informal de poupança e crédito, um grupo de ajuda mútua, liderado em geral por uma mulher, a "mãe de kixikila". O pequeno grupo, de cinco a dez elementos, tende a ser constituído por pessoas que estão ligadas entre si por laços de amizade, parentesco, vizinhança ou profissão. Cada elemento faz periodicamente uma determinada contribuição para um fundo comum que é depois utilizado rotativamente por cada um, com uma taxa de juro nula ou de valor reduzido. Na ausência de sistemas de crédito bancário acessíveis à generalidade da população, o kixikila voltou aos hábitos dos kaluandas como forma de atenuar ou reduzir o impacto da pobreza. O kixikila está hoje vulgarizado, não só entre as vendedeiras, quitandandeiras e kinguilas, mas também nos serviços públicos e nas empresas (vd. Neto, S. - Kixikila não é uma lotaria. Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004). 40-42). Vd. também: Ducados, H.L.; Ferreira, M.E. (1998) - O financiamento informal e as estratégias de sobrevivência económica das mulheres em Angola : a Kixikila no caso do município do Sambizanga (Luanda). Lisboa: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento. Instituto Superior de Economia e Gestão. Universidade Técnica de Lisboa. 1998 (Documentos de Trabalho, 53).

Kwanza - Moeda local. 1 dólar equivale a c. 85 kwanzas. O cacete (tipo de pão) custa cerca de 20 kwanzas (Julho de 2004). Consultar também o sítio oficial da República de Angola.

Muceques - Bairros populares degradados de Luanda.

Quitandeira - Vendedora de rua (ou de mercado), em geral de produtos hortofrutícolas. Vem de quitanda, um termo kimbundu que significa expor (determinados produtos para venda), e, por extensão, feira ou mercado. Há um belíssimo poema de Agostinho Neto sobre a quitandeira, que vem no seu livro Sagrada Esperança (1974): "A quitanda. Muito sol /e a quitandeira à sombra / da mulemba. /- Laranja, minha senhora, /laranjinha boa!"...

Zungueira - Vendedor ambulante, uma figura típica da economia paralela de Luanda. Em geral é do sexo feminino, mas também há cada mais jovens e crianças do sexo masculino. Estima-se que 70% da população de Luanda, em idade activa, seja zungueira. Ninguém sabe ao certo qual é a população actual da cidade e periferia: estima-se que possa chegar aos 4 milhões (a maior parte deslocados de guerra), ou seja, mais de 1/3 da população angolana actual, estimada actualmente pela CIA em c. 11 milhões de habitantes. Do verbo zunguar (andar para cima e para baixo, circular tentando vender alguma coisa). As zungueiras abastecem-se em mercados como o Roque Santeiro ou o Kikolo, onde não é aconselhável, por razões de segurança, a visita do turista estrangeiro. Considerando a sua densidade populacional e o drama do seu quotidiano, Luanda é apesar de tudo uma cidade com uma baixa taxa de criminalidade. Sobre o comércio informal, a figura da zungueira e a arte de sobreviver em Luanda, veja-se uma excelente reportagem assinada pelo jornalista e sociólogo Paulo de Carvalho (paulodecarvalho@sociologist.com, na revista Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004).34-39.

Fotos de Luanda e de outros sítios de Angola:

O meu álbum de fotografias > Angola > Luanda > Cidade / City (tiradas em data posterior a este post)

Angola > Imagens

Luanda > Ilha do Mussulo > Imagens

Luanda > 1983 > Imagens

Lusoáfrica > Angola > Fotografias


Outros sítios sobre Angola (história, sociedade, economia, cultura):

Nhamalanda > História da Família Costa

SanzalAngola > Página de Helder de Sousa

UEA - União dos Escritores Angolanos


10 julho 2004

Blogantologia(s) – XV: A novíssima poesia angolana

1. Ilha de Luanda. 8 de Julho de 2004. 18h. Esplanada do Restaurante Coconuts. Meia dúzia de adoradores do sol. Aristocracia crioula. Novos ricos. Homens de negócio russos. Cooperantes de desvairados sítios. Dois seguranças em cada ponta. Mais dois no parque de estacionamento. Aqui não chega o cheiro fétido do sub-humano mundo dos candongueiros. Aqui não há o incómodo ziguezaguear das corajosas zungueiras nas ruas atulhadas de Luanda. Não longe nas praias dos pescadores os futuros Mantorras-de-pé-descalço chutam a bola às balizas esfarradas do destino.



2. Descubro a poesia do José Luís Mendonça (n. 1955). O último livro: "Gramática do amor contemporâneo". Luanda: Editorial Nzila, 2002 (Colecção Letras Angolanas/Poesia, 7).



Escreve Luís Kandjimbo, na contracapa: “Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética”.



Aqui fica uma sugestão de leitura (poema 21, página 29):



__________



21



aqui, no fundo do oceano, tudo se filma em câmara ardente.

pouso o lápis no cerne desse êxtase de hungos-violinos, aliás,

escuto: será essa a vibração do mundo ? deixo a música

desfraldar o mastro das eternas sílabas de areia.



idólatra da carne, elevo a minha prece ao deus escaldante

da sede e da tortura da alma. o vento e as chuvas subiram

as escadas, um anjo alisa a argila microscópica do altar

coberto de moscas de basalto e um incêndio de nuvens de

arame coroa a mão do mundo, beijado pela suprema ciência

da poesia.



que diferença existe entre a vagina e a mão que escreve

este poema ?


________________





3. Por um feliz acaso, descobri desta vez a editora e livraria Chá de Caxinde, um sítio de visita obrigatória na baixa de Luanda (sita no edifício do Nacional Cine-Teatro). Da mesma editora (Nzila) e colecção (Letras Angolanas / Poesia, 3), comprei o livro do consagrado João Maimona (n. 1955). Aqui fica um dos mais belos poemas deste livro de 2001 ("No útero da morte"):



Feliz reencontro (p. 52)



uma crinça me trouxe,

com as mãos vazias, a ternura verde

nas vértebras, uma carta de renascimento.

a seca se volatilizou. dia dos homens.

noite de passos segundos. a hipertermia

deixou a pele. fruto de imenso acontecimento.

existem agora rios de luz. existe água

potável nos rios de luz.

e diante do templo que precede

o renascimento

leio chuvas de imenso silêncio:

reencontro minhas veias

no sistema vascular

dos meus antepassados.

Blogantologia(s) – XV: A novíssima poesia angolana

1. Ilha de Luanda. 8 de Julho de 2004. 18h. Esplanada do Restaurante Coconuts. Meia dúzia de adoradores do sol. Aristocracia crioula. Novos ricos. Homens de negócio russos. Cooperantes de desvairados sítios. Dois seguranças em cada ponta. Mais dois no parque de estacionamento. Aqui não chega o cheiro fétido do sub-humano mundo dos candongueiros. Aqui não há o incómodo ziguezaguear das corajosas zungueiras nas ruas atulhadas de Luanda. Não longe nas praias dos pescadores os futuros Mantorras-de-pé-descalço chutam a bola às balizas esfarradas do destino.

2. Descubro a poesia do José Luís Mendonça (n. 1955). O último livro: "Gramática do amor contemporâneo". Luanda: Editorial Nzila, 2002 (Colecção Letras Angolanas/Poesia, 7).

Escreve Luís Kandjimbo, na contracapa: “Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética”.

Aqui fica uma sugestão de leitura (poema 21, página 29):

__________

21

aqui, no fundo do oceano, tudo se filma em câmara ardente.
pouso o lápis no cerne desse êxtase de hungos-violinos, aliás,
escuto: será essa a vibração do mundo ? deixo a música
desfraldar o mastro das eternas sílabas de areia.

idólatra da carne, elevo a minha prece ao deus escaldante
da sede e da tortura da alma. o vento e as chuvas subiram
as escadas, um anjo alisa a argila microscópica do altar
coberto de moscas de basalto e um incêndio de nuvens de
arame coroa a mão do mundo, beijado pela suprema ciência
da poesia.

que diferença existe entre a vagina e a mão que escreve
este poema ?

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3. Por um feliz acaso, descobri desta vez a editora e livraria Chá de Caxinde, um sítio de visita obrigatória na baixa de Luanda (sita no edifício do Nacional Cine-Teatro). Da mesma editora (Nzila) e colecção (Letras Angolanas / Poesia, 3), comprei o livro do consagrado João Maimona (n. 1955). Aqui fica um dos mais belos poemas deste livro de 2001 ("No útero da morte"):

Feliz reencontro (p. 52)

uma crinça me trouxe,
com as mãos vazias, a ternura verde
nas vértebras, uma carta de renascimento.
a seca se volatilizou. dia dos homens.
noite de passos segundos. a hipertermia
deixou a pele. fruto de imenso acontecimento.
existem agora rios de luz. existe água
potável nos rios de luz.
e diante do templo que precede
o renascimento
leio chuvas de imenso silêncio:
reencontro minhas veias
no sistema vascular
dos meus antepassados.

01 julho 2004

Socio(b)logia - XI: Populismo: Vade retro, Santanás!

Há um provérbio popular português que diz: Guarda-te do alvoroço do povo e de travar com o doido.



Mas também há outro que adverte: Se queres conhecer o vilão mete-lhe o mando na mão.



É claro que o anti-populismo está nesta outra pérola da sabedoria popular: Segue tu sempre a verdade e a razão, embora a uns agrade e a outros não.



O que eu admiro, no Zé Povinho, é a sua capacidade para falar límguas mortas, como o latim. Por exemplo: Da peste, da fome e da guerra e do bispo da nossa terra, Libera nos, Domine!



A última que lhe ouvi, é de antologia: Vade retro, Santanás! E ainda dizem que o Zé Povinho é vilão, bajulador, analbafeto, reaccionário, retrógrado...

Socio(b)logia - XI: Populismo: Vade retro, Santanás!

Há um provérbio popular português que diz: Guarda-te do alvoroço do povo e de travar com o doido.

Mas também há outro que adverte: Se queres conhecer o vilão mete-lhe o mando na mão.

É claro que o anti-populismo está nesta outra pérola da sabedoria popular: Segue tu sempre a verdade e a razão, embora a uns agrade e a outros não.

O que eu admiro, no Zé Povinho, é a sua capacidade para falar límguas mortas, como o latim. Por exemplo: Da peste, da fome e da guerra e do bispo da nossa terra, Libera nos, Domine!

A última que lhe ouvi, é de antologia: Vade retro, Santanás! E ainda dizem que o Zé Povinho é vilão, bajulador, analbafeto, reaccionário, retrógrado...

25 junho 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - X: Ricardo, herói (nacional) por uma noite

1. Eu que sei o que é que o meu ilustre colega de Coimbra, muitíssimo mais ilustre do que eu, o sociólogo Carlos Fortuna, pensa da onda de nacionalismo que por aí vai, na sequência do Euro 2004: é "barato, imediatista e pouco consistente", disse ele aos jornais.



Não me admiraria nada que logo a seguir um outro ilustre coimbrão, vedeta da rádio, da televisão e da psiquiatria, o Prof. Carlos Amaral Dias, viesse dizer precisamente o contrário: que o futebol funciona hoje, de maneira eficaz e eficiente, como o tal caldo de cultura onde se misturam e produzem todos os elementos identitários de um povo, de uma nação, de um país. Em Portugal, em Inglaterra e por aí fora.



Eu sei que ele, Carlos Fortuna, tem toda a razão sociológica deste mundo, mas nem por isso ele deixa de dar a impressão de ser um chato de um sociólogo. E a pior coisa que nos pode acontecer, a nós, sociólogos, é sermos uns chatos de uns sociólogos.



Os sociólogos são chatos, não só por causa da (i) sua lingauagem de pau (langue du bois, em francês), mas também por que (ii) costumam dizer coisas que ninguém gosta de ouvir, a começar pelas elites do poder: que o rei vai nu, por exemplo... Além disso, são chatos por que (iii) vêm estragar a festa do Zé Povinho.



Em Coimbra, no Porto ou em Lisboa, que são as três praças fortes do pensamento sociológico, há sociólogos chatos. Lucidíssimos mas chatos. Sejamos pluralistas: e porque não também Braga ? ou Évora ? Não quero, com isto, hierarquizar os pólos da sociologia portuguesa que, de resto, está bem e recomenda-se (E o Prof.  Carlos Fortuna é um dos nomes que honra a sociologia portuguesa, diga-se a talhe de foice).



2. Eu subscrevo inteiramente o que o senhor professor de Coimbra escreveu a este propósito: "Este nacionalismo [futebolístico] é pouco". Mais: "a bandeira custa um euro". Pior ainda: a bandeira é made in China. Trágico:  foi feita numa daquelas fábricas de vão escada, em que o trabalho é sinónimo de sangue, suor e lágrimas.



As tristemente famosas sweatshops dos chinocas foram há dias publicamente denunciadas pelos nossos grandes industriais do têxtil, como exemplos de dumping social. Nunca os vi, entretanto, preocupados com as sweat shops dos portugas, em Vale do Ave e outros paraísos do empreendedorismo lusitano, com a melhoria das condições de trabalho dos operários portugueses, com a protecção da saúde e da segurança do trabalho, com a sua qualidade de vida no trabalho, etc.

 

Como eu costumo dizer, se as nossas fábricas e outros locais de trabalho fossem ao menos "estábulos-modelos", os nossos operários e demais trabalhadores poderiam ser equiparados à melhor aristocracia dos porcos, dos perus, dos frangos ou das vacas...



A verdade sociológica mais profunda é que este é um "nacionalismo barato", afirmou o ex-presidente da Associação Portuguesa de Sociologia (APS), em declarações à agência Lusa (Público, 11 de Junho de 2004). Eu acrescentaria: duplamente barato!



O meu ilustre colega sustenta que, "face à consciência nacional de um défice de resultados positivos (do país), os portugueses querem sucesso rápido, breve e imediato, e o futebol resolve-se em 90 minutos".



Ora, desse ponto de vista, o futebol "é fantástico, porque é a plena consciência nacional do fracasso", considerando que "há muita pouca coisa com que os portugueses se possam entusiasmar" (espero que o jornalista não tenha deturpado o pensamento do sociólogo).



Na opinião de Carlos Fortuna, existe em Portugal um "défice de nacionalismo e de auto-estima", e o país precisa de um nacionalismo "não tão imediatista e mais consistente do ponto de vista político".



Em suma, este é um recado, sábio, para o portuga de ejaculação precoce que espera o paraíso ao fim de 90 minutos de provação no inferno (há vários infernos: o dos dragões, o da luz, o de alvalade...).



3. Eu não gosto de fazer sociologia espontânea nem de me pôr em bicos de pés para aparecer em título de caixa alta. Quando muito, lá vou praticando a minha periférica e efémera socio(b)logia...



Mas se os doutos professores coimbrãos me permitem uma opinião de leigo ou, quando muito, de socio(b)logo, eu ficaria contente, se fosse psiquiatra ou até ministro da saúde, por os portugas deixarem de pensar, mesmo que por uns escassos momentos, no dramático fim de mês que, para cada vez mais portugas, tende a ser (ou parecer ser) pior que o fim o mundo...

 

O que de resto é compreensível, diga-se de passagem: (i) do fim do mundo nunca ninguém voltou para dar o dramático, pungente e irrepetível testemunho; (ii) e da terrível provação de tesos do dia 15 até ao fim do mês,  todos (ou quase todos) os portugas podem falar de cátedra...



Eu sei que o futebol não resolve este problema, nem nenhum outro problema dos nossos muitos problemas colectivos (estruturais, económicos, culturais, mentais...). Mas, que diabo!, faz bem a nossa auto-estima. Nem que seja por uma noite ou por umas horas!



Cibercaríssimo Carlos, deixe o portuga (i) sonhar, (ii) alienar-se, (iii) embebedar-se, por uma uma noite... Deixe o portuga tuga (iv) pensar que é o maior do mundo só por que às veze até é capaz de enfiar a bola na baliza... A ressaca do dia seguinte é terrível e aí você pode aplicar a sua pesada, pesadíssima, lucidez de sociólogo, o rigoroso método do Durkheim, do Weber ou do Bourdieu...



4. Leio nos jornais que, em Coimbra, a procura das bandeiras portuguesas tem sido tal que se encontra praticamente esgotada, nomeadamente nos quiosques:



"Esgotaram há três, quatro dias", disse à Lusa José Maria Saraiva, da Tabacaria S. Cruz, uma das mais centrais na cidade.A varanda, a janela, a porta, o fio da roupa, o chapéu-de-sol que abriga o engraxador de sapatos, quase tudo serve para expor a bandeira nacional, na cidade de Coimbra, seja qual for o tamanho. Na Baixa citadina, é nas zonas mais degradadas que as bandeiras mais se destacam, nalguns casos atravessando as estreitas ruas de lado a lado, como na Rua Direita" (Público, 11 de Junho de 2004).



Em Lisboa, eu também constato o mesmo fenómeno e, curiosamente, é nos bairros populares e nos bairros de habitação social que se desfraldam mais bandeiras portuguesas, das tais made in China, com os símbolos lusitanos aldrabados: os famigerados pagodes budistas em vez dos nossos garbosos castelos conquistados à moirama!



5. A esta hora da noite, ou melhor da madrugada, deixem-me dizer que o meu herói, provisório, efémero, é o Ricardo... Ou porque não os dois Ricardos ? E quem diz os dois diz os vinte e três mais o resto da orquestra... Esta npoite chamo-me Ricardo. Confesso que não vi o jogo Portugal-Inglaterra, apenas os últimos, dramáticos minutos, impróprios para cardíacos...

 

Em boa verdade sou patriota mas não sou masoquista; aliás, pela Pátria já dei o meu quinhão de sangue, suor e lágrimas...



O que me tocou, o que me sensibilizou profundamente, o que emocionou mesmo foi a sua (dele, Ricardo) atitude de autoconfiança, pondo a cabeça no cepo ao oferecer-se, ele próprio, para marcar o último e decisivo penalty, depois de ter acabado de fazer a grande defesa da noite...



Eu acho que ele quis matar de vez o fantasma do Vitor Baía, como diria o Prof. Carlos Amaral Dias (e dirão os jornais do dia seguinte). Independentemente disso, eu passei a ter um enorme respeito por este mouro do Montijo. A sua postura, a sua determinação, a sua coragem e a sua heterodoxia são (bons) exemplos que extravasam as quatro linhas bem delimitadas de um campo de futebol...



Eu que não vi o jogo de futebol Portugal-Inglaterra, e que de resto não passou de um simples jogo de futebol entre onze portugueses e onze ingleses... Ou terão sido muitos mais ?



O que vale é que portugueses, espanhóis e ingleses são fracos em história, senão já teriam trazido, para o relvado dos estádios novinhos em folha, as (e)ternas questões por resolver, ligadas à nossa história comum: por ex., a valorosa padeira de Aljubarrota teria mesmo seis dedos em cada mão ? E como que é que, mesmo assim, com seis dedos, ela foi capaz de matar, só à conta dela, sete castelhanos?



6.  Não há dúvida de que o nacionalismo é uma ideologia eficiente e eficaz.  O futebol é hoje o-pão-e-o-circo da pós-modernidade. A(s) direita(s) europeia(s) sempre o souberam explorar. Começaram por fazer dele um fenómeno interclassista, logo acima de todas as diferenças que todos os dias nos separam...



Não era por acaso que denunciávamos, antes e depois do 25 de Abril de 1974, a ditadura dos três F (Fátima, Fado e Futebol).



O Futebol é hoje a continuação da guerra por outros meios. Em plena euroforia, é bom pôr (re)pensar o fenómeno da futebolização da sociedade portuguesa actual... Não vale a pena dar-lhe muita importância, mas também não é aconselhável  subestimá-la. Socio(b)logo dixit!



Portugas que merecem as nossas palmas - X: Ricardo, herói (nacional) por uma noite

1. Eu que sei o que é que o meu ilustre colega de Coimbra, muitíssimo mais ilustre do que eu, o sociólogo Carlos Fortuna, pensa da onda de nacionalismo que por aí vai, na sequência do Euro 2004: é "barato, imediatista e pouco consistente", disse ele aos jornais.

Não me admiraria nada que logo a seguir um outro ilustre coimbrão, vedeta da rádio, da televisão e da psiquiatria, o Prof. Carlos Amaral Dias, viesse dizer precisamente o contrário: que o futebol funciona hoje, de maneira eficaz e eficiente, como o tal caldo de cultura onde se misturam e produzem todos os elementos identitários de um povo, de uma nação, de um país. Em Portugal, em Inglaterra e por aí fora.

Eu sei que ele, Carlos Fortuna, tem toda a razão sociológica deste mundo, mas nem por isso ele deixa de dar a impressão de ser um chato de um sociólogo. E a pior coisa que nos pode acontecer, a nós, sociólogos, é sermos uns chatos de uns sociólogos.

Os sociólogos são chatos, não só por causa da (i) sua lingauagem de pau (langue du bois, em francês), mas também por que (ii) costumam dizer coisas que ninguém gosta de ouvir, a começar pelas elites do poder: que o rei vai nu, por exemplo... Além disso, são chatos por que (iii) vêm estragar a festa do Zé Povinho.

Em Coimbra, no Porto ou em Lisboa, que são as três praças fortes do pensamento sociológico, há sociólogos chatos. Lucidíssimos mas chatos. Sejamos pluralistas: e porque não também Braga ? ou Évora ? Não quero, com isto, hierarquizar os pólos da sociologia portuguesa que, de resto, está bem e recomenda-se (E o Prof.  Carlos Fortuna é um dos nomes que honra a sociologia portuguesa, diga-se a talhe de foice).

2. Eu subscrevo inteiramente o que o senhor professor de Coimbra escreveu a este propósito: "Este nacionalismo [futebolístico] é pouco". Mais: "a bandeira custa um euro". Pior ainda: a bandeira é made in China. Trágico:  foi feita numa daquelas fábricas de vão escada, em que o trabalho é sinónimo de sangue, suor e lágrimas.

As tristemente famosas sweatshops dos chinocas foram há dias publicamente denunciadas pelos nossos grandes industriais do têxtil, como exemplos de dumping social. Nunca os vi, entretanto, preocupados com as sweat shops dos portugas, em Vale do Ave e outros paraísos do empreendedorismo lusitano, com a melhoria das condições de trabalho dos operários portugueses, com a protecção da saúde e da segurança do trabalho, com a sua qualidade de vida no trabalho, etc.
 
Como eu costumo dizer, se as nossas fábricas e outros locais de trabalho fossem ao menos "estábulos-modelos", os nossos operários e demais trabalhadores poderiam ser equiparados à melhor aristocracia dos porcos, dos perus, dos frangos ou das vacas...

A verdade sociológica mais profunda é que este é um "nacionalismo barato", afirmou o ex-presidente da Associação Portuguesa de Sociologia (APS), em declarações à agência Lusa (Público, 11 de Junho de 2004). Eu acrescentaria: duplamente barato!

O meu ilustre colega sustenta que, "face à consciência nacional de um défice de resultados positivos (do país), os portugueses querem sucesso rápido, breve e imediato, e o futebol resolve-se em 90 minutos".

Ora, desse ponto de vista, o futebol "é fantástico, porque é a plena consciência nacional do fracasso", considerando que "há muita pouca coisa com que os portugueses se possam entusiasmar" (espero que o jornalista não tenha deturpado o pensamento do sociólogo).

Na opinião de Carlos Fortuna, existe em Portugal um "défice de nacionalismo e de auto-estima", e o país precisa de um nacionalismo "não tão imediatista e mais consistente do ponto de vista político".

Em suma, este é um recado, sábio, para o portuga de ejaculação precoce que espera o paraíso ao fim de 90 minutos de provação no inferno (há vários infernos: o dos dragões, o da luz, o de alvalade...).

3. Eu não gosto de fazer sociologia espontânea nem de me pôr em bicos de pés para aparecer em título de caixa alta. Quando muito, lá vou praticando a minha periférica e efémera socio(b)logia...

Mas se os doutos professores coimbrãos me permitem uma opinião de leigo ou, quando muito, de socio(b)logo, eu ficaria contente, se fosse psiquiatra ou até ministro da saúde, por os portugas deixarem de pensar, mesmo que por uns escassos momentos, no dramático fim de mês que, para cada vez mais portugas, tende a ser (ou parecer ser) pior que o fim o mundo...
 
O que de resto é compreensível, diga-se de passagem: (i) do fim do mundo nunca ninguém voltou para dar o dramático, pungente e irrepetível testemunho; (ii) e da terrível provação de tesos do dia 15 até ao fim do mês,  todos (ou quase todos) os portugas podem falar de cátedra...

Eu sei que o futebol não resolve este problema, nem nenhum outro problema dos nossos muitos problemas colectivos (estruturais, económicos, culturais, mentais...). Mas, que diabo!, faz bem a nossa auto-estima. Nem que seja por uma noite ou por umas horas!

Cibercaríssimo Carlos, deixe o portuga (i) sonhar, (ii) alienar-se, (iii) embebedar-se, por uma uma noite... Deixe o portuga tuga (iv) pensar que é o maior do mundo só por que às veze até é capaz de enfiar a bola na baliza... A ressaca do dia seguinte é terrível e aí você pode aplicar a sua pesada, pesadíssima, lucidez de sociólogo, o rigoroso método do Durkheim, do Weber ou do Bourdieu...

4. Leio nos jornais que, em Coimbra, a procura das bandeiras portuguesas tem sido tal que se encontra praticamente esgotada, nomeadamente nos quiosques:

"Esgotaram há três, quatro dias", disse à Lusa José Maria Saraiva, da Tabacaria S. Cruz, uma das mais centrais na cidade.A varanda, a janela, a porta, o fio da roupa, o chapéu-de-sol que abriga o engraxador de sapatos, quase tudo serve para expor a bandeira nacional, na cidade de Coimbra, seja qual for o tamanho. Na Baixa citadina, é nas zonas mais degradadas que as bandeiras mais se destacam, nalguns casos atravessando as estreitas ruas de lado a lado, como na Rua Direita" (Público, 11 de Junho de 2004).

Em Lisboa, eu também constato o mesmo fenómeno e, curiosamente, é nos bairros populares e nos bairros de habitação social que se desfraldam mais bandeiras portuguesas, das tais made in China, com os símbolos lusitanos aldrabados: os famigerados pagodes budistas em vez dos nossos garbosos castelos conquistados à moirama!

5. A esta hora da noite, ou melhor da madrugada, deixem-me dizer que o meu herói, provisório, efémero, é o Ricardo... Ou porque não os dois Ricardos ? E quem diz os dois diz os vinte e três mais o resto da orquestra... Esta npoite chamo-me Ricardo. Confesso que não vi o jogo Portugal-Inglaterra, apenas os últimos, dramáticos minutos, impróprios para cardíacos...
 
Em boa verdade sou patriota mas não sou masoquista; aliás, pela Pátria já dei o meu quinhão de sangue, suor e lágrimas...

O que me tocou, o que me sensibilizou profundamente, o que emocionou mesmo foi a sua (dele, Ricardo) atitude de autoconfiança, pondo a cabeça no cepo ao oferecer-se, ele próprio, para marcar o último e decisivo penalty, depois de ter acabado de fazer a grande defesa da noite...

Eu acho que ele quis matar de vez o fantasma do Vitor Baía, como diria o Prof. Carlos Amaral Dias (e dirão os jornais do dia seguinte). Independentemente disso, eu passei a ter um enorme respeito por este mouro do Montijo. A sua postura, a sua determinação, a sua coragem e a sua heterodoxia são (bons) exemplos que extravasam as quatro linhas bem delimitadas de um campo de futebol...

Eu que não vi o jogo de futebol Portugal-Inglaterra, e que de resto não passou de um simples jogo de futebol entre onze portugueses e onze ingleses... Ou terão sido muitos mais ?

O que vale é que portugueses, espanhóis e ingleses são fracos em história, senão já teriam trazido, para o relvado dos estádios novinhos em folha, as (e)ternas questões por resolver, ligadas à nossa história comum: por ex., a valorosa padeira de Aljubarrota teria mesmo seis dedos em cada mão ? E como que é que, mesmo assim, com seis dedos, ela foi capaz de matar, só à conta dela, sete castelhanos?

6.  Não há dúvida de que o nacionalismo é uma ideologia eficiente e eficaz.  O futebol é hoje o-pão-e-o-circo da pós-modernidade. A(s) direita(s) europeia(s) sempre o souberam explorar. Começaram por fazer dele um fenómeno interclassista, logo acima de todas as diferenças que todos os dias nos separam...

Não era por acaso que denunciávamos, antes e depois do 25 de Abril de 1974, a ditadura dos três F (Fátima, Fado e Futebol).

O Futebol é hoje a continuação da guerra por outros meios. Em plena euroforia, é bom pôr (re)pensar o fenómeno da futebolização da sociedade portuguesa actual... Não vale a pena dar-lhe muita importância, mas também não é aconselhável  subestimá-la. Socio(b)logo dixit!