1. Há dias, num dos cemitérios de Lisboa, estava um jovem, de boa aparênica, a depositar um ramo de flores na campa, presumivelmente, de um familiar ou amigo. De repente vê a seu lado um velhote, com traços fisionómicos de chinês, que colocava delicadamente um prato de arroz na lápida de outra campa.
O jovem portuga não se conteve e logo ali entabulou conversa com o velhote chinês:
- O senhor desculpe, mas acha mesmo que o seu defunto virá aqui comer o arroz?
Respondeu o velho chinocas, com a confiança, a serenidade e o humor que são próprias dos sábios e da milenar cultura das gentes do Oriente:
- Mas concerteza, meu jovem!
- Ah, sim ?! E, já agora, quando ?, retorquiu o portuga, com ar irónico.
- Olhe, ma mesma altura em que o seu defunto vier cheirar as flores!
2. Moral da estória:
Tenta compreender o outro,
E sobretudo respeita as opções do teu vizinho,
Do teu irmão, do teu amigo
E do estrangeiro que passa
No passeio do outro lado da rua.
Sejam elas no domínio teológico ou filosófico,
Religioso, moral, ético ou político.
Nunca sejas juiz em causa própria.
Põe-te na pele do outro,
Que é diferente,
Que não pensa como tu
Nem tem de se comportar como tu
Em muitos outros assuntos,
E nomeadamente nos da esfera privada…
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
27 novembro 2004
Estórias com mural ao fundo - XXV: O português e o chinês
1. Há dias, num dos cemitérios de Lisboa, estava um jovem, de boa aparênica, a depositar um ramo de flores na campa, presumivelmente, de um familiar ou amigo. De repente vê a seu lado um velhote, com traços fisionómicos de chinês, que colocava delicadamente um prato de arroz na lápida de outra campa.
O jovem portuga não se conteve e logo ali entabulou conversa com o velhote chinês:
- O senhor desculpe, mas acha mesmo que o seu defunto virá aqui comer o arroz?
Respondeu o velho chinocas, com a confiança, a serenidade e o humor que são próprias dos sábios e da milenar cultura das gentes do Oriente:
- Mas concerteza, meu jovem!
- Ah, sim ?! E, já agora, quando ?, retorquiu o portuga, com ar irónico.
- Olhe, ma mesma altura em que o seu defunto vier cheirar as flores!
2. Moral da estória:
Tenta compreender o outro,
E sobretudo respeita as opções do teu vizinho,
Do teu irmão, do teu amigo
E do estrangeiro que passa
No passeio do outro lado da rua.
Sejam elas no domínio teológico ou filosófico,
Religioso, moral, ético ou político.
Nunca sejas juiz em causa própria.
Põe-te na pele do outro,
Que é diferente,
Que não pensa como tu
Nem tem de se comportar como tu
Em muitos outros assuntos,
E nomeadamente nos da esfera privada…
O jovem portuga não se conteve e logo ali entabulou conversa com o velhote chinês:
- O senhor desculpe, mas acha mesmo que o seu defunto virá aqui comer o arroz?
Respondeu o velho chinocas, com a confiança, a serenidade e o humor que são próprias dos sábios e da milenar cultura das gentes do Oriente:
- Mas concerteza, meu jovem!
- Ah, sim ?! E, já agora, quando ?, retorquiu o portuga, com ar irónico.
- Olhe, ma mesma altura em que o seu defunto vier cheirar as flores!
2. Moral da estória:
Tenta compreender o outro,
E sobretudo respeita as opções do teu vizinho,
Do teu irmão, do teu amigo
E do estrangeiro que passa
No passeio do outro lado da rua.
Sejam elas no domínio teológico ou filosófico,
Religioso, moral, ético ou político.
Nunca sejas juiz em causa própria.
Põe-te na pele do outro,
Que é diferente,
Que não pensa como tu
Nem tem de se comportar como tu
Em muitos outros assuntos,
E nomeadamente nos da esfera privada…
26 novembro 2004
Humor com humor se paga - XXVII: Descansem em paz
As melhores lápides funerárias do mundo:
O Amigo do Peito: À volta cá te espero!
O Apaixonado: Voltaria a morrer por ti, meu bem!
O Ateu: Mas porquê eu, se nem acredito em Deus ?!
O Barqueiro de Caronte: Viagem sem retorno.
O Bombista Suicida (Muçulmano): Virgens, cheguei!
O Calceteiro: Erros de médico a terra os cobre!
O Caloteiro: Deus te pague!
O Católico: Obrigado, Pai,vou por fim conhecer-Te, pessoalmente!
O Claustrobófico: Por favor, tirem-me daqui!
O Comerciante: Liquidação Total. Preços de saldo. Motivo força maior.
O Comodista: O último a morrer que feche a tampa do caixão!
O Coveiro: Reformado! Não se aceitam mais encomendas!
O Ecologista: Extinto!
O Escritor: Ponto final parágrafo. Fim da estória.
O Fadista: Fado meu!
O Filósofo: Ser ou não ser, eis a questão.
O Gourmet: Acabou-se o que era doce!
O Herói: Saltei para o lado errado da barricada!
O Hipocondríaco: Eu bem disse que estava doente!
O Homem Mais Velho do Mundo: Custou mas foi!
O Humorista: Ói, pessoal, onde é que está a piada ?
O Informático: Vítima do pior vírus do mundo!
O Jogador de Futebol: Arrumei as botas!
O Malcriado: A vida é uma merda!
O Marido Fiel: Até que a morte, por fim, nos separou!
O Médico: O cangalheiro e o coveiro são sempre os últimos a rir!
O Metereologista: No inferno deve estar um frio de rachar!
O Optimista: É só um momentinho, por favor!
O Padre: Meu Deus, porque me escolhestes a mim ?
O Paleontologista: De fóssil em fóssil!
O Pedófilo: Anjinhos, cheguei!
O Pessimista: Nunca mais vou sair daqui!
O Poeta: Saudade eterna!
O Poeta Bocage: Já Bocage não sou...
O Politicamente Correcto: Tudo acaba!
O Portuga (Pobre): Nunca mais vejo a tal luz ao fundo do túnel!
O Portuga (Rico): Uma suite para a eternidade!
O Revolucionário: Os vermes ao poder! A terra a quem a trabalha!
O Suicida Arrependido: Porra, não comprei bilhete de ida e volta!
O Soldado: Levantado do chão.
O Toxicodependente: Enfim, meu, é só pó!
O Virgem (Resistente): Maldita terra que me hás de comer!
O Amigo do Peito: À volta cá te espero!
O Apaixonado: Voltaria a morrer por ti, meu bem!
O Ateu: Mas porquê eu, se nem acredito em Deus ?!
O Barqueiro de Caronte: Viagem sem retorno.
O Bombista Suicida (Muçulmano): Virgens, cheguei!
O Calceteiro: Erros de médico a terra os cobre!
O Caloteiro: Deus te pague!
O Católico: Obrigado, Pai,vou por fim conhecer-Te, pessoalmente!
O Claustrobófico: Por favor, tirem-me daqui!
O Comerciante: Liquidação Total. Preços de saldo. Motivo força maior.
O Comodista: O último a morrer que feche a tampa do caixão!
O Coveiro: Reformado! Não se aceitam mais encomendas!
O Ecologista: Extinto!
O Escritor: Ponto final parágrafo. Fim da estória.
O Fadista: Fado meu!
O Filósofo: Ser ou não ser, eis a questão.
O Gourmet: Acabou-se o que era doce!
O Herói: Saltei para o lado errado da barricada!
O Hipocondríaco: Eu bem disse que estava doente!
O Homem Mais Velho do Mundo: Custou mas foi!
O Humorista: Ói, pessoal, onde é que está a piada ?
O Informático: Vítima do pior vírus do mundo!
O Jogador de Futebol: Arrumei as botas!
O Malcriado: A vida é uma merda!
O Marido Fiel: Até que a morte, por fim, nos separou!
O Médico: O cangalheiro e o coveiro são sempre os últimos a rir!
O Metereologista: No inferno deve estar um frio de rachar!
O Optimista: É só um momentinho, por favor!
O Padre: Meu Deus, porque me escolhestes a mim ?
O Paleontologista: De fóssil em fóssil!
O Pedófilo: Anjinhos, cheguei!
O Pessimista: Nunca mais vou sair daqui!
O Poeta: Saudade eterna!
O Poeta Bocage: Já Bocage não sou...
O Politicamente Correcto: Tudo acaba!
O Portuga (Pobre): Nunca mais vejo a tal luz ao fundo do túnel!
O Portuga (Rico): Uma suite para a eternidade!
O Revolucionário: Os vermes ao poder! A terra a quem a trabalha!
O Suicida Arrependido: Porra, não comprei bilhete de ida e volta!
O Soldado: Levantado do chão.
O Toxicodependente: Enfim, meu, é só pó!
O Virgem (Resistente): Maldita terra que me hás de comer!
Humor com humor se paga - XXVII: Descansem em paz
As melhores lápides funerárias do mundo:
O Amigo do Peito: À volta cá te espero!
O Apaixonado: Voltaria a morrer por ti, meu bem!
O Ateu: Mas porquê eu, se nem acredito em Deus ?!
O Barqueiro de Caronte: Viagem sem retorno.
O Bombista Suicida (Muçulmano): Virgens, cheguei!
O Calceteiro: Erros de médico a terra os cobre!
O Caloteiro: Deus te pague!
O Católico: Obrigado, Pai,vou por fim conhecer-Te, pessoalmente!
O Claustrobófico: Por favor, tirem-me daqui!
O Comerciante: Liquidação Total. Preços de saldo. Motivo força maior.
O Comodista: O último a morrer que feche a tampa do caixão!
O Coveiro: Reformado! Não se aceitam mais encomendas!
O Ecologista: Extinto!
O Escritor: Ponto final parágrafo. Fim da estória.
O Fadista: Fado meu!
O Filósofo: Ser ou não ser, eis a questão.
O Gourmet: Acabou-se o que era doce!
O Herói: Saltei para o lado errado da barricada!
O Hipocondríaco: Eu bem disse que estava doente!
O Homem Mais Velho do Mundo: Custou mas foi!
O Humorista: Ói, pessoal, onde é que está a piada ?
O Informático: Vítima do pior vírus do mundo!
O Jogador de Futebol: Arrumei as botas!
O Malcriado: A vida é uma merda!
O Marido Fiel: Até que a morte, por fim, nos separou!
O Médico: O cangalheiro e o coveiro são sempre os últimos a rir!
O Metereologista: No inferno deve estar um frio de rachar!
O Optimista: É só um momentinho, por favor!
O Padre: Meu Deus, porque me escolhestes a mim ?
O Paleontologista: De fóssil em fóssil!
O Pedófilo: Anjinhos, cheguei!
O Pessimista: Nunca mais vou sair daqui!
O Poeta: Saudade eterna!
O Poeta Bocage: Já Bocage não sou...
O Politicamente Correcto: Tudo acaba!
O Portuga (Pobre): Nunca mais vejo a tal luz ao fundo do túnel!
O Portuga (Rico): Uma suite para a eternidade!
O Revolucionário: Os vermes ao poder! A terra a quem a trabalha!
O Suicida Arrependido: Porra, não comprei bilhete de ida e volta!
O Soldado: Levantado do chão.
O Toxicodependente: Enfim, meu, é só pó!
O Virgem (Resistente): Maldita terra que me hás de comer!
O Amigo do Peito: À volta cá te espero!
O Apaixonado: Voltaria a morrer por ti, meu bem!
O Ateu: Mas porquê eu, se nem acredito em Deus ?!
O Barqueiro de Caronte: Viagem sem retorno.
O Bombista Suicida (Muçulmano): Virgens, cheguei!
O Calceteiro: Erros de médico a terra os cobre!
O Caloteiro: Deus te pague!
O Católico: Obrigado, Pai,vou por fim conhecer-Te, pessoalmente!
O Claustrobófico: Por favor, tirem-me daqui!
O Comerciante: Liquidação Total. Preços de saldo. Motivo força maior.
O Comodista: O último a morrer que feche a tampa do caixão!
O Coveiro: Reformado! Não se aceitam mais encomendas!
O Ecologista: Extinto!
O Escritor: Ponto final parágrafo. Fim da estória.
O Fadista: Fado meu!
O Filósofo: Ser ou não ser, eis a questão.
O Gourmet: Acabou-se o que era doce!
O Herói: Saltei para o lado errado da barricada!
O Hipocondríaco: Eu bem disse que estava doente!
O Homem Mais Velho do Mundo: Custou mas foi!
O Humorista: Ói, pessoal, onde é que está a piada ?
O Informático: Vítima do pior vírus do mundo!
O Jogador de Futebol: Arrumei as botas!
O Malcriado: A vida é uma merda!
O Marido Fiel: Até que a morte, por fim, nos separou!
O Médico: O cangalheiro e o coveiro são sempre os últimos a rir!
O Metereologista: No inferno deve estar um frio de rachar!
O Optimista: É só um momentinho, por favor!
O Padre: Meu Deus, porque me escolhestes a mim ?
O Paleontologista: De fóssil em fóssil!
O Pedófilo: Anjinhos, cheguei!
O Pessimista: Nunca mais vou sair daqui!
O Poeta: Saudade eterna!
O Poeta Bocage: Já Bocage não sou...
O Politicamente Correcto: Tudo acaba!
O Portuga (Pobre): Nunca mais vejo a tal luz ao fundo do túnel!
O Portuga (Rico): Uma suite para a eternidade!
O Revolucionário: Os vermes ao poder! A terra a quem a trabalha!
O Suicida Arrependido: Porra, não comprei bilhete de ida e volta!
O Soldado: Levantado do chão.
O Toxicodependente: Enfim, meu, é só pó!
O Virgem (Resistente): Maldita terra que me hás de comer!
(Ex)citações de cada dia - XIII: O leite
"302. O melhor leite, e o mais proveitofo, he o de mulher; e fe for preta, melhor: logo o de burras, depois defte o de cabras negras, ou ruivas, logo o de vacas, e o de ovelhas naõ havendo outro".
Fonte: Postilla religiosa, e arte de enfermeiros (Lisboa, 1741.156).
Fonte: Postilla religiosa, e arte de enfermeiros (Lisboa, 1741.156).
(Ex)citações de cada dia - XIII: O leite
"302. O melhor leite, e o mais proveitofo, he o de mulher; e fe for preta, melhor: logo o de burras, depois defte o de cabras negras, ou ruivas, logo o de vacas, e o de ovelhas naõ havendo outro".
Fonte: Postilla religiosa, e arte de enfermeiros (Lisboa, 1741.156).
Fonte: Postilla religiosa, e arte de enfermeiros (Lisboa, 1741.156).
25 novembro 2004
Blogarias - IV: História do jardim que estava muito triste
História do Jardim que Estava Muito Triste
Por Não Poder Ir à Festa da Joana
Para a Joaninha
No dia em que fez três anos.
Uma história escrita pelo papá
E contada pela mamã,
Segundo o princípio da divisão social do trabalho.
Amadora, 6 de Abril de 1981
Perdida no sótão das velharias
E recuperada vinte e três anos depois.
Em homenagem àquela que hoje é
A mais bela rosa do meu jardim,
E que ficará sempre conhecida como
A Joaninha da Fada Oriana.
Dedico-a a todos os meninos e meninas deste país,
Com problemas de sono,
E aos respectivos papás e mamãs
Que já esgotaram o seu vasto resportório de estórias e cantigas de embalar.
_______
Era uma vez um jardim
Com três árvores, três flores e um cãozinho.
Mas lá não havia meninos
E o cãozinho estava muito triste
Porque não gostava de brincar sozinho.
Um dia apareceram no jardim
Três peixinhos que vinham do mar.
E então o cãozinho, as árvores e as flores
Ficaram logo contentes
E arranjaram uma casinha para os peixinhos
Com água da chuva e tudo.
A essa casinha puseram o nome de lago.
Os peixinhos nadavam
E brincavam muito no lago
Até que o cãozinho ficou todo molhado
E começou a chorar.
A fada Oriana ia a passar ao pé do jardim
E ouviu o cãozinho a chorar.
De forma que foi lá ver o que era aquilo.
E então o cãozinho disse
Que estava muito triste
Porque os peixinhos não gostavam dele.
A Oriana que ia para a festa da Joana,
Deu-lhe um beijinho
E perguntou se ele não queria ir também
Brincar com muitos meninos
E apagar a vela.
E o cãozinho disse logo que sim.
Mas os peixinhos que eram muito espertalhões,
Ouviram a conversa toda
E também quiseram ir à casa da Joana.
Só as árvores e as flores
É que ficaram no jardim, muito tristes,
Por não poderem sair e andar de comboio.
A Oriana que era fada
E tinha uma varinha de condão,
Tocou com a varinha nas árvores e nas flores
E logo elas se puseram a correr,
Atrás do cãozinho e dos peixinhos.
E foram todos de comboio
Até à casa da Joana
Onde já estavam muitos meninos.
Quando lá chegaram cantaram todos
Os "Parabéns a você",
Apagaram a vela,
Comeram o bolo
E deram muitos beijinhos e chicorações à Joana.
Depois desse dia
O jardim nunca mais ficou triste
Porque os meninos iam sempre para lá brincar
Com as árvores, as florinhas, os peixinhos,
O cãozinho, a Joana e... a fada Oriana!!!
Fim
Por Não Poder Ir à Festa da Joana
Para a Joaninha
No dia em que fez três anos.
Uma história escrita pelo papá
E contada pela mamã,
Segundo o princípio da divisão social do trabalho.
Amadora, 6 de Abril de 1981
Perdida no sótão das velharias
E recuperada vinte e três anos depois.
Em homenagem àquela que hoje é
A mais bela rosa do meu jardim,
E que ficará sempre conhecida como
A Joaninha da Fada Oriana.
Dedico-a a todos os meninos e meninas deste país,
Com problemas de sono,
E aos respectivos papás e mamãs
Que já esgotaram o seu vasto resportório de estórias e cantigas de embalar.
_______
Era uma vez um jardim
Com três árvores, três flores e um cãozinho.
Mas lá não havia meninos
E o cãozinho estava muito triste
Porque não gostava de brincar sozinho.
Um dia apareceram no jardim
Três peixinhos que vinham do mar.
E então o cãozinho, as árvores e as flores
Ficaram logo contentes
E arranjaram uma casinha para os peixinhos
Com água da chuva e tudo.
A essa casinha puseram o nome de lago.
Os peixinhos nadavam
E brincavam muito no lago
Até que o cãozinho ficou todo molhado
E começou a chorar.
A fada Oriana ia a passar ao pé do jardim
E ouviu o cãozinho a chorar.
De forma que foi lá ver o que era aquilo.
E então o cãozinho disse
Que estava muito triste
Porque os peixinhos não gostavam dele.
A Oriana que ia para a festa da Joana,
Deu-lhe um beijinho
E perguntou se ele não queria ir também
Brincar com muitos meninos
E apagar a vela.
E o cãozinho disse logo que sim.
Mas os peixinhos que eram muito espertalhões,
Ouviram a conversa toda
E também quiseram ir à casa da Joana.
Só as árvores e as flores
É que ficaram no jardim, muito tristes,
Por não poderem sair e andar de comboio.
A Oriana que era fada
E tinha uma varinha de condão,
Tocou com a varinha nas árvores e nas flores
E logo elas se puseram a correr,
Atrás do cãozinho e dos peixinhos.
E foram todos de comboio
Até à casa da Joana
Onde já estavam muitos meninos.
Quando lá chegaram cantaram todos
Os "Parabéns a você",
Apagaram a vela,
Comeram o bolo
E deram muitos beijinhos e chicorações à Joana.
Depois desse dia
O jardim nunca mais ficou triste
Porque os meninos iam sempre para lá brincar
Com as árvores, as florinhas, os peixinhos,
O cãozinho, a Joana e... a fada Oriana!!!
Fim
Blogarias - IV: História do jardim que estava muito triste
História do Jardim que Estava Muito Triste
Por Não Poder Ir à Festa da Joana
Para a Joaninha
No dia em que fez três anos.
Uma história escrita pelo papá
E contada pela mamã,
Segundo o princípio da divisão social do trabalho.
Amadora, 6 de Abril de 1981
Perdida no sótão das velharias
E recuperada vinte e três anos depois.
Em homenagem àquela que hoje é
A mais bela rosa do meu jardim,
E que ficará sempre conhecida como
A Joaninha da Fada Oriana.
Dedico-a a todos os meninos e meninas deste país,
Com problemas de sono,
E aos respectivos papás e mamãs
Que já esgotaram o seu vasto resportório de estórias e cantigas de embalar.
_______
Era uma vez um jardim
Com três árvores, três flores e um cãozinho.
Mas lá não havia meninos
E o cãozinho estava muito triste
Porque não gostava de brincar sozinho.
Um dia apareceram no jardim
Três peixinhos que vinham do mar.
E então o cãozinho, as árvores e as flores
Ficaram logo contentes
E arranjaram uma casinha para os peixinhos
Com água da chuva e tudo.
A essa casinha puseram o nome de lago.
Os peixinhos nadavam
E brincavam muito no lago
Até que o cãozinho ficou todo molhado
E começou a chorar.
A fada Oriana ia a passar ao pé do jardim
E ouviu o cãozinho a chorar.
De forma que foi lá ver o que era aquilo.
E então o cãozinho disse
Que estava muito triste
Porque os peixinhos não gostavam dele.
A Oriana que ia para a festa da Joana,
Deu-lhe um beijinho
E perguntou se ele não queria ir também
Brincar com muitos meninos
E apagar a vela.
E o cãozinho disse logo que sim.
Mas os peixinhos que eram muito espertalhões,
Ouviram a conversa toda
E também quiseram ir à casa da Joana.
Só as árvores e as flores
É que ficaram no jardim, muito tristes,
Por não poderem sair e andar de comboio.
A Oriana que era fada
E tinha uma varinha de condão,
Tocou com a varinha nas árvores e nas flores
E logo elas se puseram a correr,
Atrás do cãozinho e dos peixinhos.
E foram todos de comboio
Até à casa da Joana
Onde já estavam muitos meninos.
Quando lá chegaram cantaram todos
Os "Parabéns a você",
Apagaram a vela,
Comeram o bolo
E deram muitos beijinhos e chicorações à Joana.
Depois desse dia
O jardim nunca mais ficou triste
Porque os meninos iam sempre para lá brincar
Com as árvores, as florinhas, os peixinhos,
O cãozinho, a Joana e... a fada Oriana!!!
Fim
Por Não Poder Ir à Festa da Joana
Para a Joaninha
No dia em que fez três anos.
Uma história escrita pelo papá
E contada pela mamã,
Segundo o princípio da divisão social do trabalho.
Amadora, 6 de Abril de 1981
Perdida no sótão das velharias
E recuperada vinte e três anos depois.
Em homenagem àquela que hoje é
A mais bela rosa do meu jardim,
E que ficará sempre conhecida como
A Joaninha da Fada Oriana.
Dedico-a a todos os meninos e meninas deste país,
Com problemas de sono,
E aos respectivos papás e mamãs
Que já esgotaram o seu vasto resportório de estórias e cantigas de embalar.
_______
Era uma vez um jardim
Com três árvores, três flores e um cãozinho.
Mas lá não havia meninos
E o cãozinho estava muito triste
Porque não gostava de brincar sozinho.
Um dia apareceram no jardim
Três peixinhos que vinham do mar.
E então o cãozinho, as árvores e as flores
Ficaram logo contentes
E arranjaram uma casinha para os peixinhos
Com água da chuva e tudo.
A essa casinha puseram o nome de lago.
Os peixinhos nadavam
E brincavam muito no lago
Até que o cãozinho ficou todo molhado
E começou a chorar.
A fada Oriana ia a passar ao pé do jardim
E ouviu o cãozinho a chorar.
De forma que foi lá ver o que era aquilo.
E então o cãozinho disse
Que estava muito triste
Porque os peixinhos não gostavam dele.
A Oriana que ia para a festa da Joana,
Deu-lhe um beijinho
E perguntou se ele não queria ir também
Brincar com muitos meninos
E apagar a vela.
E o cãozinho disse logo que sim.
Mas os peixinhos que eram muito espertalhões,
Ouviram a conversa toda
E também quiseram ir à casa da Joana.
Só as árvores e as flores
É que ficaram no jardim, muito tristes,
Por não poderem sair e andar de comboio.
A Oriana que era fada
E tinha uma varinha de condão,
Tocou com a varinha nas árvores e nas flores
E logo elas se puseram a correr,
Atrás do cãozinho e dos peixinhos.
E foram todos de comboio
Até à casa da Joana
Onde já estavam muitos meninos.
Quando lá chegaram cantaram todos
Os "Parabéns a você",
Apagaram a vela,
Comeram o bolo
E deram muitos beijinhos e chicorações à Joana.
Depois desse dia
O jardim nunca mais ficou triste
Porque os meninos iam sempre para lá brincar
Com as árvores, as florinhas, os peixinhos,
O cãozinho, a Joana e... a fada Oriana!!!
Fim
Blogarias - III: Rua da Conceição
português sem título nobiliárquico
sem pedigree
marca d'água
árvore geneológica
e agora explorado oprimido
quer dizer periférico
dependente
depois de perder o império colonial
o último
advinha fácil para um marinheiro sem bote nem mar
mas os novos senhores da praça do comércio
ainda gostam do travo a sal
maresia canela azebre patine sangue
que a grande aventura dos avoengos lhes deixou
na boca
e no fígado já sem fel
pelo menos estas imagens e cheiros são flores de estilo
metáforas
que ainda salpicam os seus discursos
gongoricamente socializantes
tuga chamavam-te os negros da guiné
em crioulo
como quem te chama filho da puta
hoje demandas outras paragens
vais por terra porque
já não tens porto nem caravelas
seis milhas marítimas são um lago
para as crianças brincarem
e já não há rei nem roque
para chamares aqui d’el-rei
mas não estás só
nem órfão
a europa dizem-te
está contigo
de qualquer modo
não perdeste
o gosto pelas anedotas trágico-marítimas
e agora falas no tigre de são bento
que era de papel
e tinha um amigo em belém
rodeado de quarenta piratas de perna de pau
que tinham trocado a cruz e a espada
pelo garfo e faca do gambrinus
português enfim
de seu nome
filho de gente pouco ilustre mas suave
cuja origem se perde na noite dos tempos
bip
bipolar
bifurcação
bicéfalo
bis bis
bisar bisca bilhete bissexto
banco
banco português
banco intercontinental português
pluricontinental pluracial
capital plural
rua da conceição número cem
baixa pombalina
entre o ouro e a prata
e sua majestade augusta o capital
15 de fevereiro de 1977
recordações
que o ex-império tece
mas onde é que
acaba o passado e
começa o futuro ponto de interrogação
fim de citação
um poeta sem mensagem
que podia ter sido fernando
o menino de sua mãe
ou ricardo coração de leão
lisboa, 15 de feveiro de 1977
ao fundo, o som triste de um cacilheiro
sem pedigree
marca d'água
árvore geneológica
e agora explorado oprimido
quer dizer periférico
dependente
depois de perder o império colonial
o último
advinha fácil para um marinheiro sem bote nem mar
mas os novos senhores da praça do comércio
ainda gostam do travo a sal
maresia canela azebre patine sangue
que a grande aventura dos avoengos lhes deixou
na boca
e no fígado já sem fel
pelo menos estas imagens e cheiros são flores de estilo
metáforas
que ainda salpicam os seus discursos
gongoricamente socializantes
tuga chamavam-te os negros da guiné
em crioulo
como quem te chama filho da puta
hoje demandas outras paragens
vais por terra porque
já não tens porto nem caravelas
seis milhas marítimas são um lago
para as crianças brincarem
e já não há rei nem roque
para chamares aqui d’el-rei
mas não estás só
nem órfão
a europa dizem-te
está contigo
de qualquer modo
não perdeste
o gosto pelas anedotas trágico-marítimas
e agora falas no tigre de são bento
que era de papel
e tinha um amigo em belém
rodeado de quarenta piratas de perna de pau
que tinham trocado a cruz e a espada
pelo garfo e faca do gambrinus
português enfim
de seu nome
filho de gente pouco ilustre mas suave
cuja origem se perde na noite dos tempos
bip
bipolar
bifurcação
bicéfalo
bis bis
bisar bisca bilhete bissexto
banco
banco português
banco intercontinental português
pluricontinental pluracial
capital plural
rua da conceição número cem
baixa pombalina
entre o ouro e a prata
e sua majestade augusta o capital
15 de fevereiro de 1977
recordações
que o ex-império tece
mas onde é que
acaba o passado e
começa o futuro ponto de interrogação
fim de citação
um poeta sem mensagem
que podia ter sido fernando
o menino de sua mãe
ou ricardo coração de leão
lisboa, 15 de feveiro de 1977
ao fundo, o som triste de um cacilheiro
Blogarias - III: Rua da Conceição
português sem título nobiliárquico
sem pedigree
marca d'água
árvore geneológica
e agora explorado oprimido
quer dizer periférico
dependente
depois de perder o império colonial
o último
advinha fácil para um marinheiro sem bote nem mar
mas os novos senhores da praça do comércio
ainda gostam do travo a sal
maresia canela azebre patine sangue
que a grande aventura dos avoengos lhes deixou
na boca
e no fígado já sem fel
pelo menos estas imagens e cheiros são flores de estilo
metáforas
que ainda salpicam os seus discursos
gongoricamente socializantes
tuga chamavam-te os negros da guiné
em crioulo
como quem te chama filho da puta
hoje demandas outras paragens
vais por terra porque
já não tens porto nem caravelas
seis milhas marítimas são um lago
para as crianças brincarem
e já não há rei nem roque
para chamares aqui d’el-rei
mas não estás só
nem órfão
a europa dizem-te
está contigo
de qualquer modo
não perdeste
o gosto pelas anedotas trágico-marítimas
e agora falas no tigre de são bento
que era de papel
e tinha um amigo em belém
rodeado de quarenta piratas de perna de pau
que tinham trocado a cruz e a espada
pelo garfo e faca do gambrinus
português enfim
de seu nome
filho de gente pouco ilustre mas suave
cuja origem se perde na noite dos tempos
bip
bipolar
bifurcação
bicéfalo
bis bis
bisar bisca bilhete bissexto
banco
banco português
banco intercontinental português
pluricontinental pluracial
capital plural
rua da conceição número cem
baixa pombalina
entre o ouro e a prata
e sua majestade augusta o capital
15 de fevereiro de 1977
recordações
que o ex-império tece
mas onde é que
acaba o passado e
começa o futuro ponto de interrogação
fim de citação
um poeta sem mensagem
que podia ter sido fernando
o menino de sua mãe
ou ricardo coração de leão
lisboa, 15 de feveiro de 1977
ao fundo, o som triste de um cacilheiro
sem pedigree
marca d'água
árvore geneológica
e agora explorado oprimido
quer dizer periférico
dependente
depois de perder o império colonial
o último
advinha fácil para um marinheiro sem bote nem mar
mas os novos senhores da praça do comércio
ainda gostam do travo a sal
maresia canela azebre patine sangue
que a grande aventura dos avoengos lhes deixou
na boca
e no fígado já sem fel
pelo menos estas imagens e cheiros são flores de estilo
metáforas
que ainda salpicam os seus discursos
gongoricamente socializantes
tuga chamavam-te os negros da guiné
em crioulo
como quem te chama filho da puta
hoje demandas outras paragens
vais por terra porque
já não tens porto nem caravelas
seis milhas marítimas são um lago
para as crianças brincarem
e já não há rei nem roque
para chamares aqui d’el-rei
mas não estás só
nem órfão
a europa dizem-te
está contigo
de qualquer modo
não perdeste
o gosto pelas anedotas trágico-marítimas
e agora falas no tigre de são bento
que era de papel
e tinha um amigo em belém
rodeado de quarenta piratas de perna de pau
que tinham trocado a cruz e a espada
pelo garfo e faca do gambrinus
português enfim
de seu nome
filho de gente pouco ilustre mas suave
cuja origem se perde na noite dos tempos
bip
bipolar
bifurcação
bicéfalo
bis bis
bisar bisca bilhete bissexto
banco
banco português
banco intercontinental português
pluricontinental pluracial
capital plural
rua da conceição número cem
baixa pombalina
entre o ouro e a prata
e sua majestade augusta o capital
15 de fevereiro de 1977
recordações
que o ex-império tece
mas onde é que
acaba o passado e
começa o futuro ponto de interrogação
fim de citação
um poeta sem mensagem
que podia ter sido fernando
o menino de sua mãe
ou ricardo coração de leão
lisboa, 15 de feveiro de 1977
ao fundo, o som triste de um cacilheiro
21 novembro 2004
Blogarias - II: O grande circo americano
e agora meus senhores e minhas senhoras
vamos apresentar o espectáculo do século
transmitido via satélite para todo o sistema solar
o grande match ford-carter
a finalíssima das presidenciais
o imperialismo sentou-se na cagadeira
a ver televisão a cores
os lobbies os grupos de pressão
as multinacionais o exército azul
a nasa
todas as esquadras de todos mares imperialistas
o primeiro homen que pisou a lua
o new york times
o frankenstein do kissinger
mais a sua baby doll
o cowboy da velha fita do animatógrafo
e o showbusiness
enfim todo o respeitável público
do grande circo americano
além da escumalha que não tem money para o bilhete
e que ficou nos bastidores da história
assistiu ao grande debate masturbatório
estoirou o fígado de coca-cola whisky e pipocas
veio-se três vezes como o gary cooper
deu um urra
e adormeceu altas horas da madrugada
debaixo do guarda-chuva atómico
no dia seguinte continuou a foder a mulher o negro o portorriquenho o índio
o latino americano o africano o asiático o zé portuga
e a propósito alguém quis saber se
o judeu do henry miller sempre tinha morrido de tanta tesão
e a contracultura também era responsável pelos massacres no sudoeste asiático
e se o black power tinha morto definitivamente a luta de classes nos states
e se os contestatários de 68 ainda contestavam
e se a classe operária ainda existia
tudo isto vem a talhe de foice
com a apresentação da minha professora de métodos e técnicas de ciências sociais
que era assistente social
e que foi para o novo mundo com uma bolsa de estudos
e que teve um professor que for morto à naifada
por uns putos que apenas lhe queriam roubar o relógio
e dar uma fumaça de marijuana
e que apontou este episódio do seu pesadelo americano
como algo de ridículo tragicamente ridículo
afinal estou numa sociedade civilizada ou na selva
e aqui a selva é apenas o negativo do cliché da ordem burguesa
sim porque a selva são as reservas dos índios
os guetos dos negros
o vietname Angola o Líbano
a cia o fbi o crime organizado
os computadores ao serviço do imperialismo
o pentágono os pastores evangélicos a mafia
o dolar as flores dos hippies de são francisco
os ratos das ruas de nova Iorque
o fim das reservas petrolíferas
o crescimento zero
o meu cartão de crédito a zeros
em contrapartida para a querida minha professora
que tem as mamas grandes
e gagueja de vez em quando
os gajos têm um grande espaço de liberdade intelectual
grandes bibliotecas grandes
onde se pode consultar e ler tudo mas mesmo tudo
até os reltórios da cia que já foram ultrapassados pela luta anti-imperialista
levada cabo nos cinco continentes
toda a produção intelectual da humanidade ab initio
desde o marx de muletas liofilizado e encadernado
até aquele coreano ferozmente anticomunista
que é o big boss das novas santas teresinhas
que andam p’ra aí a limpar as paredes dos burgas
para depois escreverem cartas de amor
jesus ama-te jesus vem(-se)
a américa enfim
é o país dos colarinhos brancos
dos cabeças de ovo
dos sociólogos do estrutural-funcionalismo
dos gajos que vão pôr esta merda nos eixos
na calhas da ordem
que vão ordenar o espaço e o tempo da desordem
que vão salvar o sistema capitalista mundial
que vão salvar o planeta e o sistema solar
que vão salvar a tua alma
agora as armas são outras
já não são os pattons as carabinas m17 e os f111
que os camponeses dos arrozais vietnamitas abatiam como pássaros
segundo diz propaganda dos vietcongues
mais o napalm a sétima esquadra a brigada na nato portuguesa os magriços
são os gajos que vão resolver as contradições do mpc
chamar branco ao preto e preto ao branco sem jogar xadrez
chamar pá ao burga e tratar por vexa o proleta
os gajos vão pôr os chineses e os russos
e todo o mundo incluindo os pobres dos arapesh da guiné
aos índios da amazónia e o pastor de cabras do gerês
a comer a beber a cagar a pensar made in usa
o kissinger desta vez perdeu por carambola
mas já vem outro na volta do correio
qu’isto em demokracia é preciso saber perder e saber ganhar
mas o circo continua e agora temos o carter
que não sofre de perturbações mentais
nunca esteve internado num hospital psiquiátrico
e que já foi marinheiro dum submarino nuclear
todos os grandes democratas de resto
já passaram por essa gloriosa escola
que são as united state forces
e que depois se dedicou à política em fultime
mas que antes era filho dum grande fazendeiro da geórgia
onde fuçavam umas centenas de pretos filhos de pretos e netos de escravos
por o gajo ser um porreiraço prós pretos
ao ponto de encher a administração do estado
com os netos dos escravos
quando foi eleito governador
e que foi pastor evangélico
e que foi o misticismo que o salvou
e que o levou a candidatar-se
ao primeiro lugar da hierarquia do corpo social
puuf norte-americano
bem o resto da história não sei
ganhou o carter pois que viva o raio que o parta
4 de Novembro de 1976
vamos apresentar o espectáculo do século
transmitido via satélite para todo o sistema solar
o grande match ford-carter
a finalíssima das presidenciais
o imperialismo sentou-se na cagadeira
a ver televisão a cores
os lobbies os grupos de pressão
as multinacionais o exército azul
a nasa
todas as esquadras de todos mares imperialistas
o primeiro homen que pisou a lua
o new york times
o frankenstein do kissinger
mais a sua baby doll
o cowboy da velha fita do animatógrafo
e o showbusiness
enfim todo o respeitável público
do grande circo americano
além da escumalha que não tem money para o bilhete
e que ficou nos bastidores da história
assistiu ao grande debate masturbatório
estoirou o fígado de coca-cola whisky e pipocas
veio-se três vezes como o gary cooper
deu um urra
e adormeceu altas horas da madrugada
debaixo do guarda-chuva atómico
no dia seguinte continuou a foder a mulher o negro o portorriquenho o índio
o latino americano o africano o asiático o zé portuga
e a propósito alguém quis saber se
o judeu do henry miller sempre tinha morrido de tanta tesão
e a contracultura também era responsável pelos massacres no sudoeste asiático
e se o black power tinha morto definitivamente a luta de classes nos states
e se os contestatários de 68 ainda contestavam
e se a classe operária ainda existia
tudo isto vem a talhe de foice
com a apresentação da minha professora de métodos e técnicas de ciências sociais
que era assistente social
e que foi para o novo mundo com uma bolsa de estudos
e que teve um professor que for morto à naifada
por uns putos que apenas lhe queriam roubar o relógio
e dar uma fumaça de marijuana
e que apontou este episódio do seu pesadelo americano
como algo de ridículo tragicamente ridículo
afinal estou numa sociedade civilizada ou na selva
e aqui a selva é apenas o negativo do cliché da ordem burguesa
sim porque a selva são as reservas dos índios
os guetos dos negros
o vietname Angola o Líbano
a cia o fbi o crime organizado
os computadores ao serviço do imperialismo
o pentágono os pastores evangélicos a mafia
o dolar as flores dos hippies de são francisco
os ratos das ruas de nova Iorque
o fim das reservas petrolíferas
o crescimento zero
o meu cartão de crédito a zeros
em contrapartida para a querida minha professora
que tem as mamas grandes
e gagueja de vez em quando
os gajos têm um grande espaço de liberdade intelectual
grandes bibliotecas grandes
onde se pode consultar e ler tudo mas mesmo tudo
até os reltórios da cia que já foram ultrapassados pela luta anti-imperialista
levada cabo nos cinco continentes
toda a produção intelectual da humanidade ab initio
desde o marx de muletas liofilizado e encadernado
até aquele coreano ferozmente anticomunista
que é o big boss das novas santas teresinhas
que andam p’ra aí a limpar as paredes dos burgas
para depois escreverem cartas de amor
jesus ama-te jesus vem(-se)
a américa enfim
é o país dos colarinhos brancos
dos cabeças de ovo
dos sociólogos do estrutural-funcionalismo
dos gajos que vão pôr esta merda nos eixos
na calhas da ordem
que vão ordenar o espaço e o tempo da desordem
que vão salvar o sistema capitalista mundial
que vão salvar o planeta e o sistema solar
que vão salvar a tua alma
agora as armas são outras
já não são os pattons as carabinas m17 e os f111
que os camponeses dos arrozais vietnamitas abatiam como pássaros
segundo diz propaganda dos vietcongues
mais o napalm a sétima esquadra a brigada na nato portuguesa os magriços
são os gajos que vão resolver as contradições do mpc
chamar branco ao preto e preto ao branco sem jogar xadrez
chamar pá ao burga e tratar por vexa o proleta
os gajos vão pôr os chineses e os russos
e todo o mundo incluindo os pobres dos arapesh da guiné
aos índios da amazónia e o pastor de cabras do gerês
a comer a beber a cagar a pensar made in usa
o kissinger desta vez perdeu por carambola
mas já vem outro na volta do correio
qu’isto em demokracia é preciso saber perder e saber ganhar
mas o circo continua e agora temos o carter
que não sofre de perturbações mentais
nunca esteve internado num hospital psiquiátrico
e que já foi marinheiro dum submarino nuclear
todos os grandes democratas de resto
já passaram por essa gloriosa escola
que são as united state forces
e que depois se dedicou à política em fultime
mas que antes era filho dum grande fazendeiro da geórgia
onde fuçavam umas centenas de pretos filhos de pretos e netos de escravos
por o gajo ser um porreiraço prós pretos
ao ponto de encher a administração do estado
com os netos dos escravos
quando foi eleito governador
e que foi pastor evangélico
e que foi o misticismo que o salvou
e que o levou a candidatar-se
ao primeiro lugar da hierarquia do corpo social
puuf norte-americano
bem o resto da história não sei
ganhou o carter pois que viva o raio que o parta
4 de Novembro de 1976
Blogarias - II: O grande circo americano
e agora meus senhores e minhas senhoras
vamos apresentar o espectáculo do século
transmitido via satélite para todo o sistema solar
o grande match ford-carter
a finalíssima das presidenciais
o imperialismo sentou-se na cagadeira
a ver televisão a cores
os lobbies os grupos de pressão
as multinacionais o exército azul
a nasa
todas as esquadras de todos mares imperialistas
o primeiro homen que pisou a lua
o new york times
o frankenstein do kissinger
mais a sua baby doll
o cowboy da velha fita do animatógrafo
e o showbusiness
enfim todo o respeitável público
do grande circo americano
além da escumalha que não tem money para o bilhete
e que ficou nos bastidores da história
assistiu ao grande debate masturbatório
estoirou o fígado de coca-cola whisky e pipocas
veio-se três vezes como o gary cooper
deu um urra
e adormeceu altas horas da madrugada
debaixo do guarda-chuva atómico
no dia seguinte continuou a foder a mulher o negro o portorriquenho o índio
o latino americano o africano o asiático o zé portuga
e a propósito alguém quis saber se
o judeu do henry miller sempre tinha morrido de tanta tesão
e a contracultura também era responsável pelos massacres no sudoeste asiático
e se o black power tinha morto definitivamente a luta de classes nos states
e se os contestatários de 68 ainda contestavam
e se a classe operária ainda existia
tudo isto vem a talhe de foice
com a apresentação da minha professora de métodos e técnicas de ciências sociais
que era assistente social
e que foi para o novo mundo com uma bolsa de estudos
e que teve um professor que for morto à naifada
por uns putos que apenas lhe queriam roubar o relógio
e dar uma fumaça de marijuana
e que apontou este episódio do seu pesadelo americano
como algo de ridículo tragicamente ridículo
afinal estou numa sociedade civilizada ou na selva
e aqui a selva é apenas o negativo do cliché da ordem burguesa
sim porque a selva são as reservas dos índios
os guetos dos negros
o vietname Angola o Líbano
a cia o fbi o crime organizado
os computadores ao serviço do imperialismo
o pentágono os pastores evangélicos a mafia
o dolar as flores dos hippies de são francisco
os ratos das ruas de nova Iorque
o fim das reservas petrolíferas
o crescimento zero
o meu cartão de crédito a zeros
em contrapartida para a querida minha professora
que tem as mamas grandes
e gagueja de vez em quando
os gajos têm um grande espaço de liberdade intelectual
grandes bibliotecas grandes
onde se pode consultar e ler tudo mas mesmo tudo
até os reltórios da cia que já foram ultrapassados pela luta anti-imperialista
levada cabo nos cinco continentes
toda a produção intelectual da humanidade ab initio
desde o marx de muletas liofilizado e encadernado
até aquele coreano ferozmente anticomunista
que é o big boss das novas santas teresinhas
que andam p’ra aí a limpar as paredes dos burgas
para depois escreverem cartas de amor
jesus ama-te jesus vem(-se)
a américa enfim
é o país dos colarinhos brancos
dos cabeças de ovo
dos sociólogos do estrutural-funcionalismo
dos gajos que vão pôr esta merda nos eixos
na calhas da ordem
que vão ordenar o espaço e o tempo da desordem
que vão salvar o sistema capitalista mundial
que vão salvar o planeta e o sistema solar
que vão salvar a tua alma
agora as armas são outras
já não são os pattons as carabinas m17 e os f111
que os camponeses dos arrozais vietnamitas abatiam como pássaros
segundo diz propaganda dos vietcongues
mais o napalm a sétima esquadra a brigada na nato portuguesa os magriços
são os gajos que vão resolver as contradições do mpc
chamar branco ao preto e preto ao branco sem jogar xadrez
chamar pá ao burga e tratar por vexa o proleta
os gajos vão pôr os chineses e os russos
e todo o mundo incluindo os pobres dos arapesh da guiné
aos índios da amazónia e o pastor de cabras do gerês
a comer a beber a cagar a pensar made in usa
o kissinger desta vez perdeu por carambola
mas já vem outro na volta do correio
qu’isto em demokracia é preciso saber perder e saber ganhar
mas o circo continua e agora temos o carter
que não sofre de perturbações mentais
nunca esteve internado num hospital psiquiátrico
e que já foi marinheiro dum submarino nuclear
todos os grandes democratas de resto
já passaram por essa gloriosa escola
que são as united state forces
e que depois se dedicou à política em fultime
mas que antes era filho dum grande fazendeiro da geórgia
onde fuçavam umas centenas de pretos filhos de pretos e netos de escravos
por o gajo ser um porreiraço prós pretos
ao ponto de encher a administração do estado
com os netos dos escravos
quando foi eleito governador
e que foi pastor evangélico
e que foi o misticismo que o salvou
e que o levou a candidatar-se
ao primeiro lugar da hierarquia do corpo social
puuf norte-americano
bem o resto da história não sei
ganhou o carter pois que viva o raio que o parta
4 de Novembro de 1976
vamos apresentar o espectáculo do século
transmitido via satélite para todo o sistema solar
o grande match ford-carter
a finalíssima das presidenciais
o imperialismo sentou-se na cagadeira
a ver televisão a cores
os lobbies os grupos de pressão
as multinacionais o exército azul
a nasa
todas as esquadras de todos mares imperialistas
o primeiro homen que pisou a lua
o new york times
o frankenstein do kissinger
mais a sua baby doll
o cowboy da velha fita do animatógrafo
e o showbusiness
enfim todo o respeitável público
do grande circo americano
além da escumalha que não tem money para o bilhete
e que ficou nos bastidores da história
assistiu ao grande debate masturbatório
estoirou o fígado de coca-cola whisky e pipocas
veio-se três vezes como o gary cooper
deu um urra
e adormeceu altas horas da madrugada
debaixo do guarda-chuva atómico
no dia seguinte continuou a foder a mulher o negro o portorriquenho o índio
o latino americano o africano o asiático o zé portuga
e a propósito alguém quis saber se
o judeu do henry miller sempre tinha morrido de tanta tesão
e a contracultura também era responsável pelos massacres no sudoeste asiático
e se o black power tinha morto definitivamente a luta de classes nos states
e se os contestatários de 68 ainda contestavam
e se a classe operária ainda existia
tudo isto vem a talhe de foice
com a apresentação da minha professora de métodos e técnicas de ciências sociais
que era assistente social
e que foi para o novo mundo com uma bolsa de estudos
e que teve um professor que for morto à naifada
por uns putos que apenas lhe queriam roubar o relógio
e dar uma fumaça de marijuana
e que apontou este episódio do seu pesadelo americano
como algo de ridículo tragicamente ridículo
afinal estou numa sociedade civilizada ou na selva
e aqui a selva é apenas o negativo do cliché da ordem burguesa
sim porque a selva são as reservas dos índios
os guetos dos negros
o vietname Angola o Líbano
a cia o fbi o crime organizado
os computadores ao serviço do imperialismo
o pentágono os pastores evangélicos a mafia
o dolar as flores dos hippies de são francisco
os ratos das ruas de nova Iorque
o fim das reservas petrolíferas
o crescimento zero
o meu cartão de crédito a zeros
em contrapartida para a querida minha professora
que tem as mamas grandes
e gagueja de vez em quando
os gajos têm um grande espaço de liberdade intelectual
grandes bibliotecas grandes
onde se pode consultar e ler tudo mas mesmo tudo
até os reltórios da cia que já foram ultrapassados pela luta anti-imperialista
levada cabo nos cinco continentes
toda a produção intelectual da humanidade ab initio
desde o marx de muletas liofilizado e encadernado
até aquele coreano ferozmente anticomunista
que é o big boss das novas santas teresinhas
que andam p’ra aí a limpar as paredes dos burgas
para depois escreverem cartas de amor
jesus ama-te jesus vem(-se)
a américa enfim
é o país dos colarinhos brancos
dos cabeças de ovo
dos sociólogos do estrutural-funcionalismo
dos gajos que vão pôr esta merda nos eixos
na calhas da ordem
que vão ordenar o espaço e o tempo da desordem
que vão salvar o sistema capitalista mundial
que vão salvar o planeta e o sistema solar
que vão salvar a tua alma
agora as armas são outras
já não são os pattons as carabinas m17 e os f111
que os camponeses dos arrozais vietnamitas abatiam como pássaros
segundo diz propaganda dos vietcongues
mais o napalm a sétima esquadra a brigada na nato portuguesa os magriços
são os gajos que vão resolver as contradições do mpc
chamar branco ao preto e preto ao branco sem jogar xadrez
chamar pá ao burga e tratar por vexa o proleta
os gajos vão pôr os chineses e os russos
e todo o mundo incluindo os pobres dos arapesh da guiné
aos índios da amazónia e o pastor de cabras do gerês
a comer a beber a cagar a pensar made in usa
o kissinger desta vez perdeu por carambola
mas já vem outro na volta do correio
qu’isto em demokracia é preciso saber perder e saber ganhar
mas o circo continua e agora temos o carter
que não sofre de perturbações mentais
nunca esteve internado num hospital psiquiátrico
e que já foi marinheiro dum submarino nuclear
todos os grandes democratas de resto
já passaram por essa gloriosa escola
que são as united state forces
e que depois se dedicou à política em fultime
mas que antes era filho dum grande fazendeiro da geórgia
onde fuçavam umas centenas de pretos filhos de pretos e netos de escravos
por o gajo ser um porreiraço prós pretos
ao ponto de encher a administração do estado
com os netos dos escravos
quando foi eleito governador
e que foi pastor evangélico
e que foi o misticismo que o salvou
e que o levou a candidatar-se
ao primeiro lugar da hierarquia do corpo social
puuf norte-americano
bem o resto da história não sei
ganhou o carter pois que viva o raio que o parta
4 de Novembro de 1976
Blogarias - I: Portugal, porta do cavalo da Europa
Blogarias. Papéis velhos, desenterrados do baú, literalmente do sótão da casa e da memória. Outos tempos. Outros estados de alma. Em 1976, o mundo ainda era a preto e branco, não havia televisão a cores. Nem computadores pessoais. Escrevia numa maquineta de dactilografar, levezinha, daquelas portáteis. Era estudante de sociologia. Trabalhava na Rua da Conceição e apanhava o agora famoso 28 para ir almoçar a casa. Morava nas traseiras da Infante Santo, no baiiro da Lapa dos bores. Tinha posto um anúncio no "Página Um", tentando a sorte de arranjar uma casa ou parte de casa. Ainda me recordo que o anúncio (pessoal) começava assim: "A um capitalista que leia o 'Página Um' por engano". Arranjei uma parte de casa. Estudava à noite. Entretanto o ministro Cardia tinha mandado fechar o nosso instituto, o ISCPS. Em nome da normalização democrática. Tinham tirado o U ao velho ISCSPU, depois da queda do império. Sanearam as 'múmias'. Decapitaram o conselho científico. Os assistentes e os estudantes tomaram o poder. Nada que não se tivesse visto antes, noutros tempos, noutros lugares. O poder tem horror ao vazio. Fui para o ISEG. Outros como o Salgueiro Maia ficaram por lá, na Guerra Junqueiro, para acabar a antropologia. Mas os sociólogos e os economistas foram corridos. Acabei, no 3º ano, por ir parar ao ISCTE do Sedas Nunes. Algumas destas blogarias são dessa época, de 1976. Outras são até mais antigas. Tinha-lhes perdido o rasto. Já não me reconheço totalmente no que escrevia na época. Mas não rejeito esses escritos nem vou branqueá-los.
tempo
outono de 1976
lugar
portugal porta do cavalo da europa
exercícios de estilo
atenção meus senhores isto é um assalto mãos ao ar
impressões de viagem no eléctrico estrela rua da conceição
fichas de leitura
escrita automática
contributo para um novo modo de produzir e de viver
faits divers
a ideologia que se consome todos os dias à mesa
o direito de cagar ao livre consagrado na constituição já
notícias necrológicas
histórias aos quadradinhos dum maginal-secante
boletim metereológico da revolução pra manhã
cartas clandestinas ou nem por isso
folha dominical para os dias cinzentos da semana
informações pidescas ou pós
relatório do crime
pequena enciclopédia da via sexual dos sete aos setenta anos
títulos de caixa alta
o tédio em tempo de paz
a imaginação para a prisão
recortes de A a Z
curriculum vitae oprimido e explorado
o livrinho cor de rosa dos maus pensamentos
transgressões íntimas
o elogio do colchão ortopédico
misérias e grandezas do(a) capital
blá blá
peças em 1 acto (sexual)
parecer sobre o estado calamitoso do reino
a arte de fugir ao fisco
os contos do vinho tinto
a autofagia ou a economia política ao alcance de todas bocas
proletas de todo o mundo (re)uni
os destroços das batalhas perdidas
dos últimos dois séculos
vous aimez marx
a angústia em papel celofane
poesia amor arte guerra solidão
solidariedade de classe revolução
misturem bem e bebam frio
haraquiri dum petit-bourgeois
aqui e agora
comem-se castanhas assadas
no jardim da estrela
tempo
outono de 1976
lugar
portugal porta do cavalo da europa
exercícios de estilo
atenção meus senhores isto é um assalto mãos ao ar
impressões de viagem no eléctrico estrela rua da conceição
fichas de leitura
escrita automática
contributo para um novo modo de produzir e de viver
faits divers
a ideologia que se consome todos os dias à mesa
o direito de cagar ao livre consagrado na constituição já
notícias necrológicas
histórias aos quadradinhos dum maginal-secante
boletim metereológico da revolução pra manhã
cartas clandestinas ou nem por isso
folha dominical para os dias cinzentos da semana
informações pidescas ou pós
relatório do crime
pequena enciclopédia da via sexual dos sete aos setenta anos
títulos de caixa alta
o tédio em tempo de paz
a imaginação para a prisão
recortes de A a Z
curriculum vitae oprimido e explorado
o livrinho cor de rosa dos maus pensamentos
transgressões íntimas
o elogio do colchão ortopédico
misérias e grandezas do(a) capital
blá blá
peças em 1 acto (sexual)
parecer sobre o estado calamitoso do reino
a arte de fugir ao fisco
os contos do vinho tinto
a autofagia ou a economia política ao alcance de todas bocas
proletas de todo o mundo (re)uni
os destroços das batalhas perdidas
dos últimos dois séculos
vous aimez marx
a angústia em papel celofane
poesia amor arte guerra solidão
solidariedade de classe revolução
misturem bem e bebam frio
haraquiri dum petit-bourgeois
aqui e agora
comem-se castanhas assadas
no jardim da estrela
Blogarias - I: Portugal, porta do cavalo da Europa
Blogarias. Papéis velhos, desenterrados do baú, literalmente do sótão da casa e da memória. Outos tempos. Outros estados de alma. Em 1976, o mundo ainda era a preto e branco, não havia televisão a cores. Nem computadores pessoais. Escrevia numa maquineta de dactilografar, levezinha, daquelas portáteis. Era estudante de sociologia. Trabalhava na Rua da Conceição e apanhava o agora famoso 28 para ir almoçar a casa. Morava nas traseiras da Infante Santo, no baiiro da Lapa dos bores. Tinha posto um anúncio no "Página Um", tentando a sorte de arranjar uma casa ou parte de casa. Ainda me recordo que o anúncio (pessoal) começava assim: "A um capitalista que leia o 'Página Um' por engano". Arranjei uma parte de casa. Estudava à noite. Entretanto o ministro Cardia tinha mandado fechar o nosso instituto, o ISCPS. Em nome da normalização democrática. Tinham tirado o U ao velho ISCSPU, depois da queda do império. Sanearam as 'múmias'. Decapitaram o conselho científico. Os assistentes e os estudantes tomaram o poder. Nada que não se tivesse visto antes, noutros tempos, noutros lugares. O poder tem horror ao vazio. Fui para o ISEG. Outros como o Salgueiro Maia ficaram por lá, na Guerra Junqueiro, para acabar a antropologia. Mas os sociólogos e os economistas foram corridos. Acabei, no 3º ano, por ir parar ao ISCTE do Sedas Nunes. Algumas destas blogarias são dessa época, de 1976. Outras são até mais antigas. Tinha-lhes perdido o rasto. Já não me reconheço totalmente no que escrevia na época. Mas não rejeito esses escritos nem vou branqueá-los.
tempo
outono de 1976
lugar
portugal porta do cavalo da europa
exercícios de estilo
atenção meus senhores isto é um assalto mãos ao ar
impressões de viagem no eléctrico estrela rua da conceição
fichas de leitura
escrita automática
contributo para um novo modo de produzir e de viver
faits divers
a ideologia que se consome todos os dias à mesa
o direito de cagar ao livre consagrado na constituição já
notícias necrológicas
histórias aos quadradinhos dum maginal-secante
boletim metereológico da revolução pra manhã
cartas clandestinas ou nem por isso
folha dominical para os dias cinzentos da semana
informações pidescas ou pós
relatório do crime
pequena enciclopédia da via sexual dos sete aos setenta anos
títulos de caixa alta
o tédio em tempo de paz
a imaginação para a prisão
recortes de A a Z
curriculum vitae oprimido e explorado
o livrinho cor de rosa dos maus pensamentos
transgressões íntimas
o elogio do colchão ortopédico
misérias e grandezas do(a) capital
blá blá
peças em 1 acto (sexual)
parecer sobre o estado calamitoso do reino
a arte de fugir ao fisco
os contos do vinho tinto
a autofagia ou a economia política ao alcance de todas bocas
proletas de todo o mundo (re)uni
os destroços das batalhas perdidas
dos últimos dois séculos
vous aimez marx
a angústia em papel celofane
poesia amor arte guerra solidão
solidariedade de classe revolução
misturem bem e bebam frio
haraquiri dum petit-bourgeois
aqui e agora
comem-se castanhas assadas
no jardim da estrela
tempo
outono de 1976
lugar
portugal porta do cavalo da europa
exercícios de estilo
atenção meus senhores isto é um assalto mãos ao ar
impressões de viagem no eléctrico estrela rua da conceição
fichas de leitura
escrita automática
contributo para um novo modo de produzir e de viver
faits divers
a ideologia que se consome todos os dias à mesa
o direito de cagar ao livre consagrado na constituição já
notícias necrológicas
histórias aos quadradinhos dum maginal-secante
boletim metereológico da revolução pra manhã
cartas clandestinas ou nem por isso
folha dominical para os dias cinzentos da semana
informações pidescas ou pós
relatório do crime
pequena enciclopédia da via sexual dos sete aos setenta anos
títulos de caixa alta
o tédio em tempo de paz
a imaginação para a prisão
recortes de A a Z
curriculum vitae oprimido e explorado
o livrinho cor de rosa dos maus pensamentos
transgressões íntimas
o elogio do colchão ortopédico
misérias e grandezas do(a) capital
blá blá
peças em 1 acto (sexual)
parecer sobre o estado calamitoso do reino
a arte de fugir ao fisco
os contos do vinho tinto
a autofagia ou a economia política ao alcance de todas bocas
proletas de todo o mundo (re)uni
os destroços das batalhas perdidas
dos últimos dois séculos
vous aimez marx
a angústia em papel celofane
poesia amor arte guerra solidão
solidariedade de classe revolução
misturem bem e bebam frio
haraquiri dum petit-bourgeois
aqui e agora
comem-se castanhas assadas
no jardim da estrela
16 novembro 2004
Portugal sacro-profano - XXI: 'Ala malek' ou o tráfico do Cairo
1. Às vezes este país...
Às vezes este país parece-se com o Cairo,
Com o caótico tráfico rodoviário do Cairo.
Sem código da estrada.
Sem regras.
Sem semáforos.
Sem polícia sinaleiro.
Uma perigosa montanha russa,
Um carrossel desengonçado.
Mas mesmo assim a coisa anda, flui,
E a gente sempre consegue chegar a alguma parte.
Pode não ser o sítio certo,
Mas sempre chega a algum parte.
Ou pelo menos tem essa ilusão de óptica.
Que o importante é chegar, sobreviver, dizem-te.
"Cá vamos andando", responde-te o Zé Portuga,
Quando lhe perguntas como está.
No Portugal sacro-profano, a gente lá vai andando.
Às vezes a gente tropeça e cai,
Para logo se levantar e prosseguir a marcha,
Ora lenta ora brusca.
Agora o pobre do país tenta, a todo o custo,
Não perder a última carruagem
Do comboio chamado Europa.
Há quanto tempo?
Às vezes tenho a impressão
De que essa correria atrás do comboio da Europa
É um filme que dura há já muito,
Há anos, há séculos, quiçá desde sempre...
Um daqueles filmes, mudos,
Que a gente via no nosso cinema de bairro.
Quando havia cinema de bairro
E filmes mudos
E a Fénix da Europa renascia das cinzas
E eu vivia num país orgulhosamente só.
Pobrezinhos mas orgulhosamente sós.
Mas tal comparação é injusta e ofensiva
Para com os portugas, para com o Zé Portuga:
Na realidade, é a política deste país
Que se parece com o caótico trânsito cairota...
É a política, são os políticos,
Os seus dirigentes, a sua elite...
É a gestão da coisa pública, ou a falta dela,
O laxismo, o cansaço, a falta de imaginação,
A perda de valores, a ausência de liderança,
A opacidade das regras ou melhor o seu vazio,
A ligeireza, a falta de lata, de vergonha, de carácter...
Às vezes apetece-me gritar, ao homem do leme,
Ao motorista do táxi, ao condutor do carro de bois,
Ao simples peão, a mim próprio:
"Ala malek"!, mais depressa, homem,
Que se faz tarde,
E que ainda perdes a última carruagem do último comboio.
2. "Ala malek", em árabe, quer dizer mais depressa. É sempre bom, em qualquer esquina do mundo, ter meia dúzia de palavras do patois local na ponta da língua...
Leio, aloém disso, na minha Guia prática para viajar a Egipto (guia, no feminino, na língua de Cervantes), que levei comigo no tórrido passado mês de Agosto para a terra dos filhos dos faraós: "Los taxis de El Cairo son blancos y negros, con una placa naranja en la que aparece el número de la licencia".
Esta informação é sempre útil, mesmo quando a gente não tenciona andar de táxi porque vai com um pacote de férias onde está tudo incluído, desde o hotel aos transportes, ao guarda-costa, à entrada nos museus e à mão estendida dos indígenas. Fico a saber, incrédulo ma no troppo, que "los contadores" (os taxímetros) só se utilizam "raramente" (já imaginava!) e que a coisa "deberá hacerse con una tarifa oficial" (como em toda parte, há dois mundos, o de superfície e o subterrâneo). Mais: "Lo mejor es indicar el destino, pactar un precio, y pagar al llegar a destino".
Ah!, como eu gostaria de poder recorrer, no meu país, a este expediente, tão prático e tão cómodo, de indicar ao motorista da Nação um destino, negociar um preço e pagar-lhe só no fim do serviço... Com a condição de ele não me deixar especado, no meio da rua, sem passaporte, sem dinheiro, sem guia, sem mapa, sem bagagens, sem ideias, sem pinga de sangue!
Claro, há depois os conselhos do amigo da onça: "No olvide la propina". A propina é universal, mô camba. "Gasosa, muadié", em mangolês, no falar de Angola. E depois há os naturais problemas de comunicação entre os humanos de diferentes tribos. Nada como consultares o manual prático (manual, porque está sempre à mão; e prático, por que é do tipo pão-pão, queijo-queijo): "Tendrá dificultades para entenderse con el conductor, a no ser que usted conozca el itinerario y puede guiarle con expresiones como izquierda, derecha, etc.".
Ora aqui está uma ideia peregrina e uma coisa que é exportável: e por que não aplicar essa filosofia lapalissiana, tal e qual, ao meu país ? Seguramente que a história seria muito mais apaixonante e divertida se a gente pudesse, a nosso bel-prazer, comandar o homem da jangada de pedra.
Parece-me elementar: esquerda, direita, aprendi eu, na tropa, em longas marchas (es)forçadas. Por outro lado, não adianta gritar às alimárias que te conduzem, que elas nem sequer sabem para que lado é a direita e a esquerda, na língua de Camões. Esquerda, direita, são hieróglifos, dizem os populistas. Em qualquer dos casos, cuidado: "Los taxistas egípcios tienen fama de temerarios al volante". Não andei de táxi no Cairo, mas andei de carroça em Luxor, e posso comprovar que os condutores egípcios encaixam bem no estereótipo.
O Egipto é uma coisa, o Cairo é outra. O Cairo é outro país, é um mundo. É decididamente a maior montanha russa do mundo. Não sei se é, mas a mim pareceu-me, mesmo não conhecendo outras megacidades como Bombaim, Xangai, São Paulo ou Tóquio. Eu, pelo menos, diverti-me a andar no sobe e desce dos viadutos ("pasos elevados"), altos como prédios de cinco ou seis andares. No mínimo, conta com um trânsito infernal, próprio de uma cidade que tem o dobro da população da tua terra, ó Zé Portuga. Apesar dos faraónicos esforços de modernização: "A pesar de que se han construido numerosos pasos elevados, se ha prohibido la circulación por el centro de la ciudad a vehículos pesados a determinadas horas, se ha hecho una carretera de circunvalación, el tráfico en El Cairo sigue siendo un problema fundamental".
Toma nota: O tráfico do Cairo é um problema, um problema fundamental... Mesmo assim, os cairotas são sortudos porque só têm um problema fundamental. Os portugas, esses, queixam-se sempre de terem muitos problemas fundamentais. Nunca os contei, mas devem ser muitos pela frequência e gravidade das queixas.
3. Caro viajante que passas pelo gigantesco Cairo, a caminho do Nilo, das pirâmides e dos demais templos antigos, ou em busca da misteriosa Núbia e da África perdida, a pensar na formosíssima Lisboa dos fenícios ou na mui nobre e invicta cidade do Porto, escreve ou memoriza estes ensinamentos de quem anda há muito neste ofício de globetrotter: "En la ciudad circule al ritmo de los demás. Si es demasiado lento, le adelantarán por los dos lados".
"Acerte o passo, ó sua besta!", que na tropa e lá fora não há lugar para os desalinhados. É verdade que a tartaruga , apesar de lenta em terra, ganhou a luta pela sobrevivência no mar, diz o meu amigo Charles Darwin. Mas tu, no Cairo, estás tramado, se andares como a tartaruga. A regra é não haver regras e não seres nenhum empata: "No hay preferencias: el primero que llega a una intersección, cruza; si espera, sólo logrará confundir a otros conductores". Agora entende-se melhor por que é que os "coches" cairotas andam mais amolgados do que a minha panela de cozer batatas no campismo.
Diga-se de passagem que não vi nenhum velhinha ser passada a ferro na passagem de peões. Também não me lembro de ver passagens de peões. Mas vi gentis polícias a acompanharem simpáticas velhinhas a atravessar a rua. No Cairo, além do fabuloso pôr-do-sol, ainda podes ver este gesto de humanidade. No meu país, terás de travar a fundo, buzinar à velhinha e gritar-lhe meia dúzia de palavrões, daqueles de fazer corar um menino de coro. No meu país, tu terás de gritar ou buzinar para que dêem conta da tua insigificante existência de desalinhado. Também no Cairo, como no resto do mundo motorizado pós-fordista, poderás comprovar que "el uso del claxon es algo habitual".
Last but not the least, nunca pares, em caso algum! É a única regra de segurança que, pessoalmente, deves observar, além de não beberes água da torneira. No Egipto e no resto da África: "Si choca con un peatón o un animal doméstico, que no sea un perro o un gato, no pare, vaya a la estación de policía más cercana. No intente ayudar o salir del coche".
No meu país, leva-se o conselho a sério e ao exagero: já nem se para quando se apropela um gato ou um cão. É assim que a gente cultiva a arte e a ciência do ir andando no Portugal sacro-profano.
Às vezes este país parece-se com o Cairo,
Com o caótico tráfico rodoviário do Cairo.
Sem código da estrada.
Sem regras.
Sem semáforos.
Sem polícia sinaleiro.
Uma perigosa montanha russa,
Um carrossel desengonçado.
Mas mesmo assim a coisa anda, flui,
E a gente sempre consegue chegar a alguma parte.
Pode não ser o sítio certo,
Mas sempre chega a algum parte.
Ou pelo menos tem essa ilusão de óptica.
Que o importante é chegar, sobreviver, dizem-te.
"Cá vamos andando", responde-te o Zé Portuga,
Quando lhe perguntas como está.
No Portugal sacro-profano, a gente lá vai andando.
Às vezes a gente tropeça e cai,
Para logo se levantar e prosseguir a marcha,
Ora lenta ora brusca.
Agora o pobre do país tenta, a todo o custo,
Não perder a última carruagem
Do comboio chamado Europa.
Há quanto tempo?
Às vezes tenho a impressão
De que essa correria atrás do comboio da Europa
É um filme que dura há já muito,
Há anos, há séculos, quiçá desde sempre...
Um daqueles filmes, mudos,
Que a gente via no nosso cinema de bairro.
Quando havia cinema de bairro
E filmes mudos
E a Fénix da Europa renascia das cinzas
E eu vivia num país orgulhosamente só.
Pobrezinhos mas orgulhosamente sós.
Mas tal comparação é injusta e ofensiva
Para com os portugas, para com o Zé Portuga:
Na realidade, é a política deste país
Que se parece com o caótico trânsito cairota...
É a política, são os políticos,
Os seus dirigentes, a sua elite...
É a gestão da coisa pública, ou a falta dela,
O laxismo, o cansaço, a falta de imaginação,
A perda de valores, a ausência de liderança,
A opacidade das regras ou melhor o seu vazio,
A ligeireza, a falta de lata, de vergonha, de carácter...
Às vezes apetece-me gritar, ao homem do leme,
Ao motorista do táxi, ao condutor do carro de bois,
Ao simples peão, a mim próprio:
"Ala malek"!, mais depressa, homem,
Que se faz tarde,
E que ainda perdes a última carruagem do último comboio.
2. "Ala malek", em árabe, quer dizer mais depressa. É sempre bom, em qualquer esquina do mundo, ter meia dúzia de palavras do patois local na ponta da língua...
Leio, aloém disso, na minha Guia prática para viajar a Egipto (guia, no feminino, na língua de Cervantes), que levei comigo no tórrido passado mês de Agosto para a terra dos filhos dos faraós: "Los taxis de El Cairo son blancos y negros, con una placa naranja en la que aparece el número de la licencia".
Esta informação é sempre útil, mesmo quando a gente não tenciona andar de táxi porque vai com um pacote de férias onde está tudo incluído, desde o hotel aos transportes, ao guarda-costa, à entrada nos museus e à mão estendida dos indígenas. Fico a saber, incrédulo ma no troppo, que "los contadores" (os taxímetros) só se utilizam "raramente" (já imaginava!) e que a coisa "deberá hacerse con una tarifa oficial" (como em toda parte, há dois mundos, o de superfície e o subterrâneo). Mais: "Lo mejor es indicar el destino, pactar un precio, y pagar al llegar a destino".
Ah!, como eu gostaria de poder recorrer, no meu país, a este expediente, tão prático e tão cómodo, de indicar ao motorista da Nação um destino, negociar um preço e pagar-lhe só no fim do serviço... Com a condição de ele não me deixar especado, no meio da rua, sem passaporte, sem dinheiro, sem guia, sem mapa, sem bagagens, sem ideias, sem pinga de sangue!
Claro, há depois os conselhos do amigo da onça: "No olvide la propina". A propina é universal, mô camba. "Gasosa, muadié", em mangolês, no falar de Angola. E depois há os naturais problemas de comunicação entre os humanos de diferentes tribos. Nada como consultares o manual prático (manual, porque está sempre à mão; e prático, por que é do tipo pão-pão, queijo-queijo): "Tendrá dificultades para entenderse con el conductor, a no ser que usted conozca el itinerario y puede guiarle con expresiones como izquierda, derecha, etc.".
Ora aqui está uma ideia peregrina e uma coisa que é exportável: e por que não aplicar essa filosofia lapalissiana, tal e qual, ao meu país ? Seguramente que a história seria muito mais apaixonante e divertida se a gente pudesse, a nosso bel-prazer, comandar o homem da jangada de pedra.
Parece-me elementar: esquerda, direita, aprendi eu, na tropa, em longas marchas (es)forçadas. Por outro lado, não adianta gritar às alimárias que te conduzem, que elas nem sequer sabem para que lado é a direita e a esquerda, na língua de Camões. Esquerda, direita, são hieróglifos, dizem os populistas. Em qualquer dos casos, cuidado: "Los taxistas egípcios tienen fama de temerarios al volante". Não andei de táxi no Cairo, mas andei de carroça em Luxor, e posso comprovar que os condutores egípcios encaixam bem no estereótipo.
O Egipto é uma coisa, o Cairo é outra. O Cairo é outro país, é um mundo. É decididamente a maior montanha russa do mundo. Não sei se é, mas a mim pareceu-me, mesmo não conhecendo outras megacidades como Bombaim, Xangai, São Paulo ou Tóquio. Eu, pelo menos, diverti-me a andar no sobe e desce dos viadutos ("pasos elevados"), altos como prédios de cinco ou seis andares. No mínimo, conta com um trânsito infernal, próprio de uma cidade que tem o dobro da população da tua terra, ó Zé Portuga. Apesar dos faraónicos esforços de modernização: "A pesar de que se han construido numerosos pasos elevados, se ha prohibido la circulación por el centro de la ciudad a vehículos pesados a determinadas horas, se ha hecho una carretera de circunvalación, el tráfico en El Cairo sigue siendo un problema fundamental".
Toma nota: O tráfico do Cairo é um problema, um problema fundamental... Mesmo assim, os cairotas são sortudos porque só têm um problema fundamental. Os portugas, esses, queixam-se sempre de terem muitos problemas fundamentais. Nunca os contei, mas devem ser muitos pela frequência e gravidade das queixas.
3. Caro viajante que passas pelo gigantesco Cairo, a caminho do Nilo, das pirâmides e dos demais templos antigos, ou em busca da misteriosa Núbia e da África perdida, a pensar na formosíssima Lisboa dos fenícios ou na mui nobre e invicta cidade do Porto, escreve ou memoriza estes ensinamentos de quem anda há muito neste ofício de globetrotter: "En la ciudad circule al ritmo de los demás. Si es demasiado lento, le adelantarán por los dos lados".
"Acerte o passo, ó sua besta!", que na tropa e lá fora não há lugar para os desalinhados. É verdade que a tartaruga , apesar de lenta em terra, ganhou a luta pela sobrevivência no mar, diz o meu amigo Charles Darwin. Mas tu, no Cairo, estás tramado, se andares como a tartaruga. A regra é não haver regras e não seres nenhum empata: "No hay preferencias: el primero que llega a una intersección, cruza; si espera, sólo logrará confundir a otros conductores". Agora entende-se melhor por que é que os "coches" cairotas andam mais amolgados do que a minha panela de cozer batatas no campismo.
Diga-se de passagem que não vi nenhum velhinha ser passada a ferro na passagem de peões. Também não me lembro de ver passagens de peões. Mas vi gentis polícias a acompanharem simpáticas velhinhas a atravessar a rua. No Cairo, além do fabuloso pôr-do-sol, ainda podes ver este gesto de humanidade. No meu país, terás de travar a fundo, buzinar à velhinha e gritar-lhe meia dúzia de palavrões, daqueles de fazer corar um menino de coro. No meu país, tu terás de gritar ou buzinar para que dêem conta da tua insigificante existência de desalinhado. Também no Cairo, como no resto do mundo motorizado pós-fordista, poderás comprovar que "el uso del claxon es algo habitual".
Last but not the least, nunca pares, em caso algum! É a única regra de segurança que, pessoalmente, deves observar, além de não beberes água da torneira. No Egipto e no resto da África: "Si choca con un peatón o un animal doméstico, que no sea un perro o un gato, no pare, vaya a la estación de policía más cercana. No intente ayudar o salir del coche".
No meu país, leva-se o conselho a sério e ao exagero: já nem se para quando se apropela um gato ou um cão. É assim que a gente cultiva a arte e a ciência do ir andando no Portugal sacro-profano.
Portugal sacro-profano - XXI: 'Ala malek' ou o tráfico do Cairo
1. Às vezes este país...
Às vezes este país parece-se com o Cairo,
Com o caótico tráfico rodoviário do Cairo.
Sem código da estrada.
Sem regras.
Sem semáforos.
Sem polícia sinaleiro.
Uma perigosa montanha russa,
Um carrossel desengonçado.
Mas mesmo assim a coisa anda, flui,
E a gente sempre consegue chegar a alguma parte.
Pode não ser o sítio certo,
Mas sempre chega a algum parte.
Ou pelo menos tem essa ilusão de óptica.
Que o importante é chegar, sobreviver, dizem-te.
"Cá vamos andando", responde-te o Zé Portuga,
Quando lhe perguntas como está.
No Portugal sacro-profano, a gente lá vai andando.
Às vezes a gente tropeça e cai,
Para logo se levantar e prosseguir a marcha,
Ora lenta ora brusca.
Agora o pobre do país tenta, a todo o custo,
Não perder a última carruagem
Do comboio chamado Europa.
Há quanto tempo?
Às vezes tenho a impressão
De que essa correria atrás do comboio da Europa
É um filme que dura há já muito,
Há anos, há séculos, quiçá desde sempre...
Um daqueles filmes, mudos,
Que a gente via no nosso cinema de bairro.
Quando havia cinema de bairro
E filmes mudos
E a Fénix da Europa renascia das cinzas
E eu vivia num país orgulhosamente só.
Pobrezinhos mas orgulhosamente sós.
Mas tal comparação é injusta e ofensiva
Para com os portugas, para com o Zé Portuga:
Na realidade, é a política deste país
Que se parece com o caótico trânsito cairota...
É a política, são os políticos,
Os seus dirigentes, a sua elite...
É a gestão da coisa pública, ou a falta dela,
O laxismo, o cansaço, a falta de imaginação,
A perda de valores, a ausência de liderança,
A opacidade das regras ou melhor o seu vazio,
A ligeireza, a falta de lata, de vergonha, de carácter...
Às vezes apetece-me gritar, ao homem do leme,
Ao motorista do táxi, ao condutor do carro de bois,
Ao simples peão, a mim próprio:
"Ala malek"!, mais depressa, homem,
Que se faz tarde,
E que ainda perdes a última carruagem do último comboio.
2. "Ala malek", em árabe, quer dizer mais depressa. É sempre bom, em qualquer esquina do mundo, ter meia dúzia de palavras do patois local na ponta da língua...
Leio, aloém disso, na minha Guia prática para viajar a Egipto (guia, no feminino, na língua de Cervantes), que levei comigo no tórrido passado mês de Agosto para a terra dos filhos dos faraós: "Los taxis de El Cairo son blancos y negros, con una placa naranja en la que aparece el número de la licencia".
Esta informação é sempre útil, mesmo quando a gente não tenciona andar de táxi porque vai com um pacote de férias onde está tudo incluído, desde o hotel aos transportes, ao guarda-costa, à entrada nos museus e à mão estendida dos indígenas. Fico a saber, incrédulo ma no troppo, que "los contadores" (os taxímetros) só se utilizam "raramente" (já imaginava!) e que a coisa "deberá hacerse con una tarifa oficial" (como em toda parte, há dois mundos, o de superfície e o subterrâneo). Mais: "Lo mejor es indicar el destino, pactar un precio, y pagar al llegar a destino".
Ah!, como eu gostaria de poder recorrer, no meu país, a este expediente, tão prático e tão cómodo, de indicar ao motorista da Nação um destino, negociar um preço e pagar-lhe só no fim do serviço... Com a condição de ele não me deixar especado, no meio da rua, sem passaporte, sem dinheiro, sem guia, sem mapa, sem bagagens, sem ideias, sem pinga de sangue!
Claro, há depois os conselhos do amigo da onça: "No olvide la propina". A propina é universal, mô camba. "Gasosa, muadié", em mangolês, no falar de Angola. E depois há os naturais problemas de comunicação entre os humanos de diferentes tribos. Nada como consultares o manual prático (manual, porque está sempre à mão; e prático, por que é do tipo pão-pão, queijo-queijo): "Tendrá dificultades para entenderse con el conductor, a no ser que usted conozca el itinerario y puede guiarle con expresiones como izquierda, derecha, etc.".
Ora aqui está uma ideia peregrina e uma coisa que é exportável: e por que não aplicar essa filosofia lapalissiana, tal e qual, ao meu país ? Seguramente que a história seria muito mais apaixonante e divertida se a gente pudesse, a nosso bel-prazer, comandar o homem da jangada de pedra.
Parece-me elementar: esquerda, direita, aprendi eu, na tropa, em longas marchas (es)forçadas. Por outro lado, não adianta gritar às alimárias que te conduzem, que elas nem sequer sabem para que lado é a direita e a esquerda, na língua de Camões. Esquerda, direita, são hieróglifos, dizem os populistas. Em qualquer dos casos, cuidado: "Los taxistas egípcios tienen fama de temerarios al volante". Não andei de táxi no Cairo, mas andei de carroça em Luxor, e posso comprovar que os condutores egípcios encaixam bem no estereótipo.
O Egipto é uma coisa, o Cairo é outra. O Cairo é outro país, é um mundo. É decididamente a maior montanha russa do mundo. Não sei se é, mas a mim pareceu-me, mesmo não conhecendo outras megacidades como Bombaim, Xangai, São Paulo ou Tóquio. Eu, pelo menos, diverti-me a andar no sobe e desce dos viadutos ("pasos elevados"), altos como prédios de cinco ou seis andares. No mínimo, conta com um trânsito infernal, próprio de uma cidade que tem o dobro da população da tua terra, ó Zé Portuga. Apesar dos faraónicos esforços de modernização: "A pesar de que se han construido numerosos pasos elevados, se ha prohibido la circulación por el centro de la ciudad a vehículos pesados a determinadas horas, se ha hecho una carretera de circunvalación, el tráfico en El Cairo sigue siendo un problema fundamental".
Toma nota: O tráfico do Cairo é um problema, um problema fundamental... Mesmo assim, os cairotas são sortudos porque só têm um problema fundamental. Os portugas, esses, queixam-se sempre de terem muitos problemas fundamentais. Nunca os contei, mas devem ser muitos pela frequência e gravidade das queixas.
3. Caro viajante que passas pelo gigantesco Cairo, a caminho do Nilo, das pirâmides e dos demais templos antigos, ou em busca da misteriosa Núbia e da África perdida, a pensar na formosíssima Lisboa dos fenícios ou na mui nobre e invicta cidade do Porto, escreve ou memoriza estes ensinamentos de quem anda há muito neste ofício de globetrotter: "En la ciudad circule al ritmo de los demás. Si es demasiado lento, le adelantarán por los dos lados".
"Acerte o passo, ó sua besta!", que na tropa e lá fora não há lugar para os desalinhados. É verdade que a tartaruga , apesar de lenta em terra, ganhou a luta pela sobrevivência no mar, diz o meu amigo Charles Darwin. Mas tu, no Cairo, estás tramado, se andares como a tartaruga. A regra é não haver regras e não seres nenhum empata: "No hay preferencias: el primero que llega a una intersección, cruza; si espera, sólo logrará confundir a otros conductores". Agora entende-se melhor por que é que os "coches" cairotas andam mais amolgados do que a minha panela de cozer batatas no campismo.
Diga-se de passagem que não vi nenhum velhinha ser passada a ferro na passagem de peões. Também não me lembro de ver passagens de peões. Mas vi gentis polícias a acompanharem simpáticas velhinhas a atravessar a rua. No Cairo, além do fabuloso pôr-do-sol, ainda podes ver este gesto de humanidade. No meu país, terás de travar a fundo, buzinar à velhinha e gritar-lhe meia dúzia de palavrões, daqueles de fazer corar um menino de coro. No meu país, tu terás de gritar ou buzinar para que dêem conta da tua insigificante existência de desalinhado. Também no Cairo, como no resto do mundo motorizado pós-fordista, poderás comprovar que "el uso del claxon es algo habitual".
Last but not the least, nunca pares, em caso algum! É a única regra de segurança que, pessoalmente, deves observar, além de não beberes água da torneira. No Egipto e no resto da África: "Si choca con un peatón o un animal doméstico, que no sea un perro o un gato, no pare, vaya a la estación de policía más cercana. No intente ayudar o salir del coche".
No meu país, leva-se o conselho a sério e ao exagero: já nem se para quando se apropela um gato ou um cão. É assim que a gente cultiva a arte e a ciência do ir andando no Portugal sacro-profano.
Às vezes este país parece-se com o Cairo,
Com o caótico tráfico rodoviário do Cairo.
Sem código da estrada.
Sem regras.
Sem semáforos.
Sem polícia sinaleiro.
Uma perigosa montanha russa,
Um carrossel desengonçado.
Mas mesmo assim a coisa anda, flui,
E a gente sempre consegue chegar a alguma parte.
Pode não ser o sítio certo,
Mas sempre chega a algum parte.
Ou pelo menos tem essa ilusão de óptica.
Que o importante é chegar, sobreviver, dizem-te.
"Cá vamos andando", responde-te o Zé Portuga,
Quando lhe perguntas como está.
No Portugal sacro-profano, a gente lá vai andando.
Às vezes a gente tropeça e cai,
Para logo se levantar e prosseguir a marcha,
Ora lenta ora brusca.
Agora o pobre do país tenta, a todo o custo,
Não perder a última carruagem
Do comboio chamado Europa.
Há quanto tempo?
Às vezes tenho a impressão
De que essa correria atrás do comboio da Europa
É um filme que dura há já muito,
Há anos, há séculos, quiçá desde sempre...
Um daqueles filmes, mudos,
Que a gente via no nosso cinema de bairro.
Quando havia cinema de bairro
E filmes mudos
E a Fénix da Europa renascia das cinzas
E eu vivia num país orgulhosamente só.
Pobrezinhos mas orgulhosamente sós.
Mas tal comparação é injusta e ofensiva
Para com os portugas, para com o Zé Portuga:
Na realidade, é a política deste país
Que se parece com o caótico trânsito cairota...
É a política, são os políticos,
Os seus dirigentes, a sua elite...
É a gestão da coisa pública, ou a falta dela,
O laxismo, o cansaço, a falta de imaginação,
A perda de valores, a ausência de liderança,
A opacidade das regras ou melhor o seu vazio,
A ligeireza, a falta de lata, de vergonha, de carácter...
Às vezes apetece-me gritar, ao homem do leme,
Ao motorista do táxi, ao condutor do carro de bois,
Ao simples peão, a mim próprio:
"Ala malek"!, mais depressa, homem,
Que se faz tarde,
E que ainda perdes a última carruagem do último comboio.
2. "Ala malek", em árabe, quer dizer mais depressa. É sempre bom, em qualquer esquina do mundo, ter meia dúzia de palavras do patois local na ponta da língua...
Leio, aloém disso, na minha Guia prática para viajar a Egipto (guia, no feminino, na língua de Cervantes), que levei comigo no tórrido passado mês de Agosto para a terra dos filhos dos faraós: "Los taxis de El Cairo son blancos y negros, con una placa naranja en la que aparece el número de la licencia".
Esta informação é sempre útil, mesmo quando a gente não tenciona andar de táxi porque vai com um pacote de férias onde está tudo incluído, desde o hotel aos transportes, ao guarda-costa, à entrada nos museus e à mão estendida dos indígenas. Fico a saber, incrédulo ma no troppo, que "los contadores" (os taxímetros) só se utilizam "raramente" (já imaginava!) e que a coisa "deberá hacerse con una tarifa oficial" (como em toda parte, há dois mundos, o de superfície e o subterrâneo). Mais: "Lo mejor es indicar el destino, pactar un precio, y pagar al llegar a destino".
Ah!, como eu gostaria de poder recorrer, no meu país, a este expediente, tão prático e tão cómodo, de indicar ao motorista da Nação um destino, negociar um preço e pagar-lhe só no fim do serviço... Com a condição de ele não me deixar especado, no meio da rua, sem passaporte, sem dinheiro, sem guia, sem mapa, sem bagagens, sem ideias, sem pinga de sangue!
Claro, há depois os conselhos do amigo da onça: "No olvide la propina". A propina é universal, mô camba. "Gasosa, muadié", em mangolês, no falar de Angola. E depois há os naturais problemas de comunicação entre os humanos de diferentes tribos. Nada como consultares o manual prático (manual, porque está sempre à mão; e prático, por que é do tipo pão-pão, queijo-queijo): "Tendrá dificultades para entenderse con el conductor, a no ser que usted conozca el itinerario y puede guiarle con expresiones como izquierda, derecha, etc.".
Ora aqui está uma ideia peregrina e uma coisa que é exportável: e por que não aplicar essa filosofia lapalissiana, tal e qual, ao meu país ? Seguramente que a história seria muito mais apaixonante e divertida se a gente pudesse, a nosso bel-prazer, comandar o homem da jangada de pedra.
Parece-me elementar: esquerda, direita, aprendi eu, na tropa, em longas marchas (es)forçadas. Por outro lado, não adianta gritar às alimárias que te conduzem, que elas nem sequer sabem para que lado é a direita e a esquerda, na língua de Camões. Esquerda, direita, são hieróglifos, dizem os populistas. Em qualquer dos casos, cuidado: "Los taxistas egípcios tienen fama de temerarios al volante". Não andei de táxi no Cairo, mas andei de carroça em Luxor, e posso comprovar que os condutores egípcios encaixam bem no estereótipo.
O Egipto é uma coisa, o Cairo é outra. O Cairo é outro país, é um mundo. É decididamente a maior montanha russa do mundo. Não sei se é, mas a mim pareceu-me, mesmo não conhecendo outras megacidades como Bombaim, Xangai, São Paulo ou Tóquio. Eu, pelo menos, diverti-me a andar no sobe e desce dos viadutos ("pasos elevados"), altos como prédios de cinco ou seis andares. No mínimo, conta com um trânsito infernal, próprio de uma cidade que tem o dobro da população da tua terra, ó Zé Portuga. Apesar dos faraónicos esforços de modernização: "A pesar de que se han construido numerosos pasos elevados, se ha prohibido la circulación por el centro de la ciudad a vehículos pesados a determinadas horas, se ha hecho una carretera de circunvalación, el tráfico en El Cairo sigue siendo un problema fundamental".
Toma nota: O tráfico do Cairo é um problema, um problema fundamental... Mesmo assim, os cairotas são sortudos porque só têm um problema fundamental. Os portugas, esses, queixam-se sempre de terem muitos problemas fundamentais. Nunca os contei, mas devem ser muitos pela frequência e gravidade das queixas.
3. Caro viajante que passas pelo gigantesco Cairo, a caminho do Nilo, das pirâmides e dos demais templos antigos, ou em busca da misteriosa Núbia e da África perdida, a pensar na formosíssima Lisboa dos fenícios ou na mui nobre e invicta cidade do Porto, escreve ou memoriza estes ensinamentos de quem anda há muito neste ofício de globetrotter: "En la ciudad circule al ritmo de los demás. Si es demasiado lento, le adelantarán por los dos lados".
"Acerte o passo, ó sua besta!", que na tropa e lá fora não há lugar para os desalinhados. É verdade que a tartaruga , apesar de lenta em terra, ganhou a luta pela sobrevivência no mar, diz o meu amigo Charles Darwin. Mas tu, no Cairo, estás tramado, se andares como a tartaruga. A regra é não haver regras e não seres nenhum empata: "No hay preferencias: el primero que llega a una intersección, cruza; si espera, sólo logrará confundir a otros conductores". Agora entende-se melhor por que é que os "coches" cairotas andam mais amolgados do que a minha panela de cozer batatas no campismo.
Diga-se de passagem que não vi nenhum velhinha ser passada a ferro na passagem de peões. Também não me lembro de ver passagens de peões. Mas vi gentis polícias a acompanharem simpáticas velhinhas a atravessar a rua. No Cairo, além do fabuloso pôr-do-sol, ainda podes ver este gesto de humanidade. No meu país, terás de travar a fundo, buzinar à velhinha e gritar-lhe meia dúzia de palavrões, daqueles de fazer corar um menino de coro. No meu país, tu terás de gritar ou buzinar para que dêem conta da tua insigificante existência de desalinhado. Também no Cairo, como no resto do mundo motorizado pós-fordista, poderás comprovar que "el uso del claxon es algo habitual".
Last but not the least, nunca pares, em caso algum! É a única regra de segurança que, pessoalmente, deves observar, além de não beberes água da torneira. No Egipto e no resto da África: "Si choca con un peatón o un animal doméstico, que no sea un perro o un gato, no pare, vaya a la estación de policía más cercana. No intente ayudar o salir del coche".
No meu país, leva-se o conselho a sério e ao exagero: já nem se para quando se apropela um gato ou um cão. É assim que a gente cultiva a arte e a ciência do ir andando no Portugal sacro-profano.
09 novembro 2004
Portugas que merecem as nossas palmas - XII: António Lobo Antunes
É seguramente muito melhor a escrever livros do que a dar entrevistas. O gajo (o snenhor gajo...) não se sente bem no papel de entrevistado: é desconfortável lê-lo, dá a ideia de que anda com papelinhos amarelos no bolso, daqueles de tipo autocolante, com citações de gajos tão ou mais famosos do que ele, com frases feitas, e pequenas histórias prontas a servir... Achei-o mais piegas, mais ternurento, menos cínico, mais portuga, na entrevista que deu hoje ao Adelino Gomes, no "Público". A pretexto da homenagem que lhe estão a fazer, a esta hora, em Lisboa. E do seu último romance, "Eu hei-de amar uma pedra" (Lisboa: D. Quixote, 2004, 616 pp., 19 euros no hipermercado mais próximo de si; se for adolescente e não tiver graveto, faça um choradinho junto do autor, numa sessão de autógrafos, de preferência na presença do editor).
A homenagem é a dos seus vinte e cinco anos de carreira literária. E a da sua consagração de escritor de nível mundial. Vão cá estar grandes críticos literários: a portuguesa Maria Alzira Seixo, a espanhola Maria Luisa Blanco, o sueco Mats Gellerfelt, o alemão Wolfram Schütte. Ele, António Loibo Antunes, o melhor escritor de língua portiguesa da actualidade, podia já dar-se ao luxo de fazer birras, de mandar os portugas à merda, de cobrar a factura por ser mal amado na sua terra e no Hospital Miguel Bombarda. Mas não, ele faz o frete de ir ao Teatro Muncipal São Luís, de dar entrevistas, de autografar livros, de mostrar um sorriso amarelo aos leitores que lhe compram os livros e o lêem. Com a idade e a fama, o nosso António está a ficar mais consensual, mais nacional, mais bem comportado. A sua ferida narcísica está melhor. Ou, pelo menos, não está pior. E os portugas rendem-se à evidência do êxito e, mesmo se o não lêem nem o entendem, tiram-lhe o chapéu. É um dos nossos poucos produtos de exportação. É, pá, o gajo (o senhor gajo...) tem mesmo de ser bom, para ter o êxito que tem na estranja, na Alemanha, na Suécia, na França, nos States... Esse argumneto convence o papalvo, e o portuga pode ser saloio mas não é parvo. E o Sampaio, que é da geração dele, e amigo dele e da família dele, achou por bem dar-lhe a grã-cruz-de-não-sei-quê. Espero que não tenha sido o Sampaio, o irmão do Daniel Sampaio, mas o Presidente, o Presidente de todos os portugas. Este país é pequeno (em latim, parvo). E há vizinhos e amigos por todo o lado. Este país continua a ser o Bairro de Benfica dos anos cinquenta e sessenta. A Benfica das hortas e dos quintais. E depois temos a lágrima fácil ao canto do olho. Eu gosto do António, do escritor, que não do homem (que não conheço, vi-o uma vez na Feira do Livro, com o ar de quem estava ali a fazer um grande frete, contrariamente ao Zé Cardoso Pires, que era a humanidade em pessoa, um e outro autografando livros aos meus filhos, a Joana e o João). Confesso que não sou um "serial reader" do António, mas quando pego num livro do gajo lei-o de rajada. Não resisto a fazer "copy and paste" desta carta que ele mandou de Angola a um dos manos mais novos, quando esteve no cu de Judas. Vem hoje no "Público". O estilo é o da Guidinha, do saudoso Stau Monteiro. Presumo que a carta seja autêntica, e que o original, agora desenterrado do baú, esteja nas mãos do irmão. Reconheço nele (e nela, a carta) o estilo desalinhado e irreverente do futuro grande escritor. Um gajo como ele não precisa de ser adjectivado nem muito menos da grã-cruz-de-não-sei-quantas. O Portugal que o viu nascer é que precisa de homanegeá-lo. Acredito que ele não se sinta bem na sua pele, ao ser hoje apaparicado por tanta gente, no São Luís. E de ter honras de telejornal. Ele, no fundo, gosta, diz que não gosta, mas gosta... A vaidade é própria dos primatas. E vai gostar de ainda um dia destes receber o Nobel. É ele e nós. Com ele há uma parte de nós, dos portugas, que é apaparicada. E nós estamos mesmo com necessidade e desejo de sermos apaparicados. Tivemos o Saramago, outro mal amado; temos agora o António, que está de reserva. Ainda o temos o eterno Manuel de Oliveira, que já está no Guiness por ser o realizador mais velho do mundo ainda a trabalhar... Não temos muito mais, talvez o Siza Vieira, talvez a Paula Rego, talvez o António Damásio, talvez o Figo, talvez até o Francis Obikwelo e o Deco, outros dois portugas d corpo inteiro... Não vou dizer que o gajo, o António, o Lobo Antunes, é um génio e escreve bem, que isso ele já sabe, a gente já sabe. A crítica reconhece-o. Mas palmas, pelo menos, apetece-me dar-lhas e mandar-lhas neste dia. O António é um dos portugas que merece as minhas, as nossas palmas. Não fui à tua festa, pá, mas fiz-me de certo modo representar por cinquenta por cento dos meus genes. Já comprei o teu último e tenho-o à mesa de cabeceira: prometo lê-lo por estes dias de outono.
_______________________
Carta da Guerra em Angola Enviada por Lobo Antunes ao Irmão Mais Novo
Público, Terça-feira, 09 de Novembro de 2004
Remetente:
António Lobo Antunes
Alferes-médico SPM 2676
Ex.mo Sr. Manuel Lobo Antunes
Travessa dos Arneiros, 14
Lisboa 4
Metrópole
Redação: A Sopa
27-04-1971, em Ninda
Querido Manuel,
Eu estou em Angola. Eu gosto muito de Angola. Eu vim para Angola num barco muito grande, com muitos soldados. Eu vou voltar de avião. Eu vou aí em Setembro. Eu tenho patilhas. Eu tenho cabelo rapado. Eu tenho muitas saudades de todos, tais como da Margarida. Angola é em África. África tem leões, macacos, gazelas, elefantes, pacaças, palancas e muitos pretos. Os pretos tem um cabelo com muitos caracóis e dentes brancos. Os pretos não falam português, falam preto. A gente não percebe os pretos a falar preto. Os pretos às vezes falam português. Os portugueses nunca falam preto. Em Angola há muito calor todo o dia. Eu tenho uma espingarda mas ainda não matei ninguém. Eu visto farda. Farda é um fato igual para todos. Eu como coisas que não gosto de comer mas como porque há muita gente com fome e não devemos desperdiçar. A colher fica em pé na sopa de tal maneira a sopa é grossa. A sopa serve também para pegar tijolos uns aos outros. Há casas que foram feitas graças à sopa. A sopa tem muitas coisas dentro, que a gente tem de mastigar, e às vezes corta-se a sopa com a faca. A sopa é mais dura do que um bife muito duro. As colheres de sopa caiem no estômago da gente com um barulho parecido com pedras a cair num poço. Eu não gosto de sopa. Eu nunca mais como sopa. Já me nasceram dentes na barriga para moer a sopa, e os meus intestinos, a fazerem a digestão da sopa, parecem mesmo um motor de traineira. Quando me sento à mesa e vem a sopa tenho medo porque a sopa parece cimento. Eu estou forrado de sopa por dentro. Quando me assoo sai sopa do nariz. Quando espirro espirro gotinhas de sopa. Outro dia tiraram-me sangue e um talo de couve saiu-me da veia e entupiu a agulha. De vez em quando, quando há feridos, fazem-se transfusões de sopa, e a gente vê o grão e o feijão da sopa a saírem de um para entrarem no outro. Quando há feridas é preciso desinfectar a sopa que sai da ferida. Se se espreme uma borbulha aparecem logo bagos de arroz de sopa. A sopa é o nosso pior inimigo, a espiar a gente do fundo das panelas duas vezes por dia, ao almoço e ao jantar, a sopa ataca-nos. A sopa já fez muitas baixas. Às vezes a sopa traz brindes como os bolos-reis tais como baratas, insectos, borboletas, que morreram envenenados pela sopa. De maneira que a gente vai começar a usar a sopa como remédio para os ratos. Os americanos já nos pediram para a gente mandar sopa para o Vietname, porque os comunistas morrem todos se a comerem. Eu gostava muito de dar sopa à sopa. Eu vou acabar. São horas de comer a minha sopa.
António Lobo Antunes
Vítima nº 07890263 da sopa
Morto no campo de batalha do refeitório com um ataque agudo de sopa
A homenagem é a dos seus vinte e cinco anos de carreira literária. E a da sua consagração de escritor de nível mundial. Vão cá estar grandes críticos literários: a portuguesa Maria Alzira Seixo, a espanhola Maria Luisa Blanco, o sueco Mats Gellerfelt, o alemão Wolfram Schütte. Ele, António Loibo Antunes, o melhor escritor de língua portiguesa da actualidade, podia já dar-se ao luxo de fazer birras, de mandar os portugas à merda, de cobrar a factura por ser mal amado na sua terra e no Hospital Miguel Bombarda. Mas não, ele faz o frete de ir ao Teatro Muncipal São Luís, de dar entrevistas, de autografar livros, de mostrar um sorriso amarelo aos leitores que lhe compram os livros e o lêem. Com a idade e a fama, o nosso António está a ficar mais consensual, mais nacional, mais bem comportado. A sua ferida narcísica está melhor. Ou, pelo menos, não está pior. E os portugas rendem-se à evidência do êxito e, mesmo se o não lêem nem o entendem, tiram-lhe o chapéu. É um dos nossos poucos produtos de exportação. É, pá, o gajo (o senhor gajo...) tem mesmo de ser bom, para ter o êxito que tem na estranja, na Alemanha, na Suécia, na França, nos States... Esse argumneto convence o papalvo, e o portuga pode ser saloio mas não é parvo. E o Sampaio, que é da geração dele, e amigo dele e da família dele, achou por bem dar-lhe a grã-cruz-de-não-sei-quê. Espero que não tenha sido o Sampaio, o irmão do Daniel Sampaio, mas o Presidente, o Presidente de todos os portugas. Este país é pequeno (em latim, parvo). E há vizinhos e amigos por todo o lado. Este país continua a ser o Bairro de Benfica dos anos cinquenta e sessenta. A Benfica das hortas e dos quintais. E depois temos a lágrima fácil ao canto do olho. Eu gosto do António, do escritor, que não do homem (que não conheço, vi-o uma vez na Feira do Livro, com o ar de quem estava ali a fazer um grande frete, contrariamente ao Zé Cardoso Pires, que era a humanidade em pessoa, um e outro autografando livros aos meus filhos, a Joana e o João). Confesso que não sou um "serial reader" do António, mas quando pego num livro do gajo lei-o de rajada. Não resisto a fazer "copy and paste" desta carta que ele mandou de Angola a um dos manos mais novos, quando esteve no cu de Judas. Vem hoje no "Público". O estilo é o da Guidinha, do saudoso Stau Monteiro. Presumo que a carta seja autêntica, e que o original, agora desenterrado do baú, esteja nas mãos do irmão. Reconheço nele (e nela, a carta) o estilo desalinhado e irreverente do futuro grande escritor. Um gajo como ele não precisa de ser adjectivado nem muito menos da grã-cruz-de-não-sei-quantas. O Portugal que o viu nascer é que precisa de homanegeá-lo. Acredito que ele não se sinta bem na sua pele, ao ser hoje apaparicado por tanta gente, no São Luís. E de ter honras de telejornal. Ele, no fundo, gosta, diz que não gosta, mas gosta... A vaidade é própria dos primatas. E vai gostar de ainda um dia destes receber o Nobel. É ele e nós. Com ele há uma parte de nós, dos portugas, que é apaparicada. E nós estamos mesmo com necessidade e desejo de sermos apaparicados. Tivemos o Saramago, outro mal amado; temos agora o António, que está de reserva. Ainda o temos o eterno Manuel de Oliveira, que já está no Guiness por ser o realizador mais velho do mundo ainda a trabalhar... Não temos muito mais, talvez o Siza Vieira, talvez a Paula Rego, talvez o António Damásio, talvez o Figo, talvez até o Francis Obikwelo e o Deco, outros dois portugas d corpo inteiro... Não vou dizer que o gajo, o António, o Lobo Antunes, é um génio e escreve bem, que isso ele já sabe, a gente já sabe. A crítica reconhece-o. Mas palmas, pelo menos, apetece-me dar-lhas e mandar-lhas neste dia. O António é um dos portugas que merece as minhas, as nossas palmas. Não fui à tua festa, pá, mas fiz-me de certo modo representar por cinquenta por cento dos meus genes. Já comprei o teu último e tenho-o à mesa de cabeceira: prometo lê-lo por estes dias de outono.
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Carta da Guerra em Angola Enviada por Lobo Antunes ao Irmão Mais Novo
Público, Terça-feira, 09 de Novembro de 2004
Remetente:
António Lobo Antunes
Alferes-médico SPM 2676
Ex.mo Sr. Manuel Lobo Antunes
Travessa dos Arneiros, 14
Lisboa 4
Metrópole
Redação: A Sopa
27-04-1971, em Ninda
Querido Manuel,
Eu estou em Angola. Eu gosto muito de Angola. Eu vim para Angola num barco muito grande, com muitos soldados. Eu vou voltar de avião. Eu vou aí em Setembro. Eu tenho patilhas. Eu tenho cabelo rapado. Eu tenho muitas saudades de todos, tais como da Margarida. Angola é em África. África tem leões, macacos, gazelas, elefantes, pacaças, palancas e muitos pretos. Os pretos tem um cabelo com muitos caracóis e dentes brancos. Os pretos não falam português, falam preto. A gente não percebe os pretos a falar preto. Os pretos às vezes falam português. Os portugueses nunca falam preto. Em Angola há muito calor todo o dia. Eu tenho uma espingarda mas ainda não matei ninguém. Eu visto farda. Farda é um fato igual para todos. Eu como coisas que não gosto de comer mas como porque há muita gente com fome e não devemos desperdiçar. A colher fica em pé na sopa de tal maneira a sopa é grossa. A sopa serve também para pegar tijolos uns aos outros. Há casas que foram feitas graças à sopa. A sopa tem muitas coisas dentro, que a gente tem de mastigar, e às vezes corta-se a sopa com a faca. A sopa é mais dura do que um bife muito duro. As colheres de sopa caiem no estômago da gente com um barulho parecido com pedras a cair num poço. Eu não gosto de sopa. Eu nunca mais como sopa. Já me nasceram dentes na barriga para moer a sopa, e os meus intestinos, a fazerem a digestão da sopa, parecem mesmo um motor de traineira. Quando me sento à mesa e vem a sopa tenho medo porque a sopa parece cimento. Eu estou forrado de sopa por dentro. Quando me assoo sai sopa do nariz. Quando espirro espirro gotinhas de sopa. Outro dia tiraram-me sangue e um talo de couve saiu-me da veia e entupiu a agulha. De vez em quando, quando há feridos, fazem-se transfusões de sopa, e a gente vê o grão e o feijão da sopa a saírem de um para entrarem no outro. Quando há feridas é preciso desinfectar a sopa que sai da ferida. Se se espreme uma borbulha aparecem logo bagos de arroz de sopa. A sopa é o nosso pior inimigo, a espiar a gente do fundo das panelas duas vezes por dia, ao almoço e ao jantar, a sopa ataca-nos. A sopa já fez muitas baixas. Às vezes a sopa traz brindes como os bolos-reis tais como baratas, insectos, borboletas, que morreram envenenados pela sopa. De maneira que a gente vai começar a usar a sopa como remédio para os ratos. Os americanos já nos pediram para a gente mandar sopa para o Vietname, porque os comunistas morrem todos se a comerem. Eu gostava muito de dar sopa à sopa. Eu vou acabar. São horas de comer a minha sopa.
António Lobo Antunes
Vítima nº 07890263 da sopa
Morto no campo de batalha do refeitório com um ataque agudo de sopa
Portugas que merecem as nossas palmas - XII: António Lobo Antunes
É seguramente muito melhor a escrever livros do que a dar entrevistas. O gajo (o snenhor gajo...) não se sente bem no papel de entrevistado: é desconfortável lê-lo, dá a ideia de que anda com papelinhos amarelos no bolso, daqueles de tipo autocolante, com citações de gajos tão ou mais famosos do que ele, com frases feitas, e pequenas histórias prontas a servir... Achei-o mais piegas, mais ternurento, menos cínico, mais portuga, na entrevista que deu hoje ao Adelino Gomes, no "Público". A pretexto da homenagem que lhe estão a fazer, a esta hora, em Lisboa. E do seu último romance, "Eu hei-de amar uma pedra" (Lisboa: D. Quixote, 2004, 616 pp., 19 euros no hipermercado mais próximo de si; se for adolescente e não tiver graveto, faça um choradinho junto do autor, numa sessão de autógrafos, de preferência na presença do editor).
A homenagem é a dos seus vinte e cinco anos de carreira literária. E a da sua consagração de escritor de nível mundial. Vão cá estar grandes críticos literários: a portuguesa Maria Alzira Seixo, a espanhola Maria Luisa Blanco, o sueco Mats Gellerfelt, o alemão Wolfram Schütte. Ele, António Loibo Antunes, o melhor escritor de língua portiguesa da actualidade, podia já dar-se ao luxo de fazer birras, de mandar os portugas à merda, de cobrar a factura por ser mal amado na sua terra e no Hospital Miguel Bombarda. Mas não, ele faz o frete de ir ao Teatro Muncipal São Luís, de dar entrevistas, de autografar livros, de mostrar um sorriso amarelo aos leitores que lhe compram os livros e o lêem. Com a idade e a fama, o nosso António está a ficar mais consensual, mais nacional, mais bem comportado. A sua ferida narcísica está melhor. Ou, pelo menos, não está pior. E os portugas rendem-se à evidência do êxito e, mesmo se o não lêem nem o entendem, tiram-lhe o chapéu. É um dos nossos poucos produtos de exportação. É, pá, o gajo (o senhor gajo...) tem mesmo de ser bom, para ter o êxito que tem na estranja, na Alemanha, na Suécia, na França, nos States... Esse argumneto convence o papalvo, e o portuga pode ser saloio mas não é parvo. E o Sampaio, que é da geração dele, e amigo dele e da família dele, achou por bem dar-lhe a grã-cruz-de-não-sei-quê. Espero que não tenha sido o Sampaio, o irmão do Daniel Sampaio, mas o Presidente, o Presidente de todos os portugas. Este país é pequeno (em latim, parvo). E há vizinhos e amigos por todo o lado. Este país continua a ser o Bairro de Benfica dos anos cinquenta e sessenta. A Benfica das hortas e dos quintais. E depois temos a lágrima fácil ao canto do olho. Eu gosto do António, do escritor, que não do homem (que não conheço, vi-o uma vez na Feira do Livro, com o ar de quem estava ali a fazer um grande frete, contrariamente ao Zé Cardoso Pires, que era a humanidade em pessoa, um e outro autografando livros aos meus filhos, a Joana e o João). Confesso que não sou um "serial reader" do António, mas quando pego num livro do gajo lei-o de rajada. Não resisto a fazer "copy and paste" desta carta que ele mandou de Angola a um dos manos mais novos, quando esteve no cu de Judas. Vem hoje no "Público". O estilo é o da Guidinha, do saudoso Stau Monteiro. Presumo que a carta seja autêntica, e que o original, agora desenterrado do baú, esteja nas mãos do irmão. Reconheço nele (e nela, a carta) o estilo desalinhado e irreverente do futuro grande escritor. Um gajo como ele não precisa de ser adjectivado nem muito menos da grã-cruz-de-não-sei-quantas. O Portugal que o viu nascer é que precisa de homanegeá-lo. Acredito que ele não se sinta bem na sua pele, ao ser hoje apaparicado por tanta gente, no São Luís. E de ter honras de telejornal. Ele, no fundo, gosta, diz que não gosta, mas gosta... A vaidade é própria dos primatas. E vai gostar de ainda um dia destes receber o Nobel. É ele e nós. Com ele há uma parte de nós, dos portugas, que é apaparicada. E nós estamos mesmo com necessidade e desejo de sermos apaparicados. Tivemos o Saramago, outro mal amado; temos agora o António, que está de reserva. Ainda o temos o eterno Manuel de Oliveira, que já está no Guiness por ser o realizador mais velho do mundo ainda a trabalhar... Não temos muito mais, talvez o Siza Vieira, talvez a Paula Rego, talvez o António Damásio, talvez o Figo, talvez até o Francis Obikwelo e o Deco, outros dois portugas d corpo inteiro... Não vou dizer que o gajo, o António, o Lobo Antunes, é um génio e escreve bem, que isso ele já sabe, a gente já sabe. A crítica reconhece-o. Mas palmas, pelo menos, apetece-me dar-lhas e mandar-lhas neste dia. O António é um dos portugas que merece as minhas, as nossas palmas. Não fui à tua festa, pá, mas fiz-me de certo modo representar por cinquenta por cento dos meus genes. Já comprei o teu último e tenho-o à mesa de cabeceira: prometo lê-lo por estes dias de outono.
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Carta da Guerra em Angola Enviada por Lobo Antunes ao Irmão Mais Novo
Público, Terça-feira, 09 de Novembro de 2004
Remetente:
António Lobo Antunes
Alferes-médico SPM 2676
Ex.mo Sr. Manuel Lobo Antunes
Travessa dos Arneiros, 14
Lisboa 4
Metrópole
Redação: A Sopa
27-04-1971, em Ninda
Querido Manuel,
Eu estou em Angola. Eu gosto muito de Angola. Eu vim para Angola num barco muito grande, com muitos soldados. Eu vou voltar de avião. Eu vou aí em Setembro. Eu tenho patilhas. Eu tenho cabelo rapado. Eu tenho muitas saudades de todos, tais como da Margarida. Angola é em África. África tem leões, macacos, gazelas, elefantes, pacaças, palancas e muitos pretos. Os pretos tem um cabelo com muitos caracóis e dentes brancos. Os pretos não falam português, falam preto. A gente não percebe os pretos a falar preto. Os pretos às vezes falam português. Os portugueses nunca falam preto. Em Angola há muito calor todo o dia. Eu tenho uma espingarda mas ainda não matei ninguém. Eu visto farda. Farda é um fato igual para todos. Eu como coisas que não gosto de comer mas como porque há muita gente com fome e não devemos desperdiçar. A colher fica em pé na sopa de tal maneira a sopa é grossa. A sopa serve também para pegar tijolos uns aos outros. Há casas que foram feitas graças à sopa. A sopa tem muitas coisas dentro, que a gente tem de mastigar, e às vezes corta-se a sopa com a faca. A sopa é mais dura do que um bife muito duro. As colheres de sopa caiem no estômago da gente com um barulho parecido com pedras a cair num poço. Eu não gosto de sopa. Eu nunca mais como sopa. Já me nasceram dentes na barriga para moer a sopa, e os meus intestinos, a fazerem a digestão da sopa, parecem mesmo um motor de traineira. Quando me sento à mesa e vem a sopa tenho medo porque a sopa parece cimento. Eu estou forrado de sopa por dentro. Quando me assoo sai sopa do nariz. Quando espirro espirro gotinhas de sopa. Outro dia tiraram-me sangue e um talo de couve saiu-me da veia e entupiu a agulha. De vez em quando, quando há feridos, fazem-se transfusões de sopa, e a gente vê o grão e o feijão da sopa a saírem de um para entrarem no outro. Quando há feridas é preciso desinfectar a sopa que sai da ferida. Se se espreme uma borbulha aparecem logo bagos de arroz de sopa. A sopa é o nosso pior inimigo, a espiar a gente do fundo das panelas duas vezes por dia, ao almoço e ao jantar, a sopa ataca-nos. A sopa já fez muitas baixas. Às vezes a sopa traz brindes como os bolos-reis tais como baratas, insectos, borboletas, que morreram envenenados pela sopa. De maneira que a gente vai começar a usar a sopa como remédio para os ratos. Os americanos já nos pediram para a gente mandar sopa para o Vietname, porque os comunistas morrem todos se a comerem. Eu gostava muito de dar sopa à sopa. Eu vou acabar. São horas de comer a minha sopa.
António Lobo Antunes
Vítima nº 07890263 da sopa
Morto no campo de batalha do refeitório com um ataque agudo de sopa
A homenagem é a dos seus vinte e cinco anos de carreira literária. E a da sua consagração de escritor de nível mundial. Vão cá estar grandes críticos literários: a portuguesa Maria Alzira Seixo, a espanhola Maria Luisa Blanco, o sueco Mats Gellerfelt, o alemão Wolfram Schütte. Ele, António Loibo Antunes, o melhor escritor de língua portiguesa da actualidade, podia já dar-se ao luxo de fazer birras, de mandar os portugas à merda, de cobrar a factura por ser mal amado na sua terra e no Hospital Miguel Bombarda. Mas não, ele faz o frete de ir ao Teatro Muncipal São Luís, de dar entrevistas, de autografar livros, de mostrar um sorriso amarelo aos leitores que lhe compram os livros e o lêem. Com a idade e a fama, o nosso António está a ficar mais consensual, mais nacional, mais bem comportado. A sua ferida narcísica está melhor. Ou, pelo menos, não está pior. E os portugas rendem-se à evidência do êxito e, mesmo se o não lêem nem o entendem, tiram-lhe o chapéu. É um dos nossos poucos produtos de exportação. É, pá, o gajo (o senhor gajo...) tem mesmo de ser bom, para ter o êxito que tem na estranja, na Alemanha, na Suécia, na França, nos States... Esse argumneto convence o papalvo, e o portuga pode ser saloio mas não é parvo. E o Sampaio, que é da geração dele, e amigo dele e da família dele, achou por bem dar-lhe a grã-cruz-de-não-sei-quê. Espero que não tenha sido o Sampaio, o irmão do Daniel Sampaio, mas o Presidente, o Presidente de todos os portugas. Este país é pequeno (em latim, parvo). E há vizinhos e amigos por todo o lado. Este país continua a ser o Bairro de Benfica dos anos cinquenta e sessenta. A Benfica das hortas e dos quintais. E depois temos a lágrima fácil ao canto do olho. Eu gosto do António, do escritor, que não do homem (que não conheço, vi-o uma vez na Feira do Livro, com o ar de quem estava ali a fazer um grande frete, contrariamente ao Zé Cardoso Pires, que era a humanidade em pessoa, um e outro autografando livros aos meus filhos, a Joana e o João). Confesso que não sou um "serial reader" do António, mas quando pego num livro do gajo lei-o de rajada. Não resisto a fazer "copy and paste" desta carta que ele mandou de Angola a um dos manos mais novos, quando esteve no cu de Judas. Vem hoje no "Público". O estilo é o da Guidinha, do saudoso Stau Monteiro. Presumo que a carta seja autêntica, e que o original, agora desenterrado do baú, esteja nas mãos do irmão. Reconheço nele (e nela, a carta) o estilo desalinhado e irreverente do futuro grande escritor. Um gajo como ele não precisa de ser adjectivado nem muito menos da grã-cruz-de-não-sei-quantas. O Portugal que o viu nascer é que precisa de homanegeá-lo. Acredito que ele não se sinta bem na sua pele, ao ser hoje apaparicado por tanta gente, no São Luís. E de ter honras de telejornal. Ele, no fundo, gosta, diz que não gosta, mas gosta... A vaidade é própria dos primatas. E vai gostar de ainda um dia destes receber o Nobel. É ele e nós. Com ele há uma parte de nós, dos portugas, que é apaparicada. E nós estamos mesmo com necessidade e desejo de sermos apaparicados. Tivemos o Saramago, outro mal amado; temos agora o António, que está de reserva. Ainda o temos o eterno Manuel de Oliveira, que já está no Guiness por ser o realizador mais velho do mundo ainda a trabalhar... Não temos muito mais, talvez o Siza Vieira, talvez a Paula Rego, talvez o António Damásio, talvez o Figo, talvez até o Francis Obikwelo e o Deco, outros dois portugas d corpo inteiro... Não vou dizer que o gajo, o António, o Lobo Antunes, é um génio e escreve bem, que isso ele já sabe, a gente já sabe. A crítica reconhece-o. Mas palmas, pelo menos, apetece-me dar-lhas e mandar-lhas neste dia. O António é um dos portugas que merece as minhas, as nossas palmas. Não fui à tua festa, pá, mas fiz-me de certo modo representar por cinquenta por cento dos meus genes. Já comprei o teu último e tenho-o à mesa de cabeceira: prometo lê-lo por estes dias de outono.
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Carta da Guerra em Angola Enviada por Lobo Antunes ao Irmão Mais Novo
Público, Terça-feira, 09 de Novembro de 2004
Remetente:
António Lobo Antunes
Alferes-médico SPM 2676
Ex.mo Sr. Manuel Lobo Antunes
Travessa dos Arneiros, 14
Lisboa 4
Metrópole
Redação: A Sopa
27-04-1971, em Ninda
Querido Manuel,
Eu estou em Angola. Eu gosto muito de Angola. Eu vim para Angola num barco muito grande, com muitos soldados. Eu vou voltar de avião. Eu vou aí em Setembro. Eu tenho patilhas. Eu tenho cabelo rapado. Eu tenho muitas saudades de todos, tais como da Margarida. Angola é em África. África tem leões, macacos, gazelas, elefantes, pacaças, palancas e muitos pretos. Os pretos tem um cabelo com muitos caracóis e dentes brancos. Os pretos não falam português, falam preto. A gente não percebe os pretos a falar preto. Os pretos às vezes falam português. Os portugueses nunca falam preto. Em Angola há muito calor todo o dia. Eu tenho uma espingarda mas ainda não matei ninguém. Eu visto farda. Farda é um fato igual para todos. Eu como coisas que não gosto de comer mas como porque há muita gente com fome e não devemos desperdiçar. A colher fica em pé na sopa de tal maneira a sopa é grossa. A sopa serve também para pegar tijolos uns aos outros. Há casas que foram feitas graças à sopa. A sopa tem muitas coisas dentro, que a gente tem de mastigar, e às vezes corta-se a sopa com a faca. A sopa é mais dura do que um bife muito duro. As colheres de sopa caiem no estômago da gente com um barulho parecido com pedras a cair num poço. Eu não gosto de sopa. Eu nunca mais como sopa. Já me nasceram dentes na barriga para moer a sopa, e os meus intestinos, a fazerem a digestão da sopa, parecem mesmo um motor de traineira. Quando me sento à mesa e vem a sopa tenho medo porque a sopa parece cimento. Eu estou forrado de sopa por dentro. Quando me assoo sai sopa do nariz. Quando espirro espirro gotinhas de sopa. Outro dia tiraram-me sangue e um talo de couve saiu-me da veia e entupiu a agulha. De vez em quando, quando há feridos, fazem-se transfusões de sopa, e a gente vê o grão e o feijão da sopa a saírem de um para entrarem no outro. Quando há feridas é preciso desinfectar a sopa que sai da ferida. Se se espreme uma borbulha aparecem logo bagos de arroz de sopa. A sopa é o nosso pior inimigo, a espiar a gente do fundo das panelas duas vezes por dia, ao almoço e ao jantar, a sopa ataca-nos. A sopa já fez muitas baixas. Às vezes a sopa traz brindes como os bolos-reis tais como baratas, insectos, borboletas, que morreram envenenados pela sopa. De maneira que a gente vai começar a usar a sopa como remédio para os ratos. Os americanos já nos pediram para a gente mandar sopa para o Vietname, porque os comunistas morrem todos se a comerem. Eu gostava muito de dar sopa à sopa. Eu vou acabar. São horas de comer a minha sopa.
António Lobo Antunes
Vítima nº 07890263 da sopa
Morto no campo de batalha do refeitório com um ataque agudo de sopa
05 novembro 2004
Blogantologia(s) - XXI: Reflexões de fim de tarde
No Alfa, Porto-Lisboa, ao pôr do sol
Todos os dias se põe o sol.
E todos os dias ele nasce (ou renasce).
Curioso, não dizes:
“Todos os dias morre o sol”.
Porque ele não morre, tal como não nasce.
Nem gira à volta da tua cabeça.
Pobre Galileu,
Paladino da nuova scienza,
Que baralhaste as mentes pouco iluminadas
E as velhas cabeças
Da Velha Europa,
Muito coroadas mas mal pensantes.
É uma força de expressão, essa,
Que usas.
Que o sol, que o sol se pões,
Que o sol gira à volta da terra.
É a tua, a nossa, maneira
De humanizar a natureza.
Ou talvez antes
Uma (vã) tentativa de a domar, de a vencer.
O sol é o relógio da vida.
Quiçá a própria vida.
Por isso o adoramos.
Há milhares de anos.
E continuamos a adorá-lo, a fotografá-lo,
A cantá-lo, a musicá-lo, a temê-lo.
Como qualquer outro deus,
Ele é poderoso, fascinante, temível.
Todos os dias se põe o sol.
E todos os dias ele nasce (ou renasce).
Curioso, não dizes:
“Todos os dias morre o sol”.
Porque ele não morre, tal como não nasce.
Nem gira à volta da tua cabeça.
Pobre Galileu,
Paladino da nuova scienza,
Que baralhaste as mentes pouco iluminadas
E as velhas cabeças
Da Velha Europa,
Muito coroadas mas mal pensantes.
É uma força de expressão, essa,
Que usas.
Que o sol, que o sol se pões,
Que o sol gira à volta da terra.
É a tua, a nossa, maneira
De humanizar a natureza.
Ou talvez antes
Uma (vã) tentativa de a domar, de a vencer.
O sol é o relógio da vida.
Quiçá a própria vida.
Por isso o adoramos.
Há milhares de anos.
E continuamos a adorá-lo, a fotografá-lo,
A cantá-lo, a musicá-lo, a temê-lo.
Como qualquer outro deus,
Ele é poderoso, fascinante, temível.
Blogantologia(s) - XXI: Reflexões de fim de tarde
No Alfa, Porto-Lisboa, ao pôr do sol
Todos os dias se põe o sol.
E todos os dias ele nasce (ou renasce).
Curioso, não dizes:
“Todos os dias morre o sol”.
Porque ele não morre, tal como não nasce.
Nem gira à volta da tua cabeça.
Pobre Galileu,
Paladino da nuova scienza,
Que baralhaste as mentes pouco iluminadas
E as velhas cabeças
Da Velha Europa,
Muito coroadas mas mal pensantes.
É uma força de expressão, essa,
Que usas.
Que o sol, que o sol se pões,
Que o sol gira à volta da terra.
É a tua, a nossa, maneira
De humanizar a natureza.
Ou talvez antes
Uma (vã) tentativa de a domar, de a vencer.
O sol é o relógio da vida.
Quiçá a própria vida.
Por isso o adoramos.
Há milhares de anos.
E continuamos a adorá-lo, a fotografá-lo,
A cantá-lo, a musicá-lo, a temê-lo.
Como qualquer outro deus,
Ele é poderoso, fascinante, temível.
Todos os dias se põe o sol.
E todos os dias ele nasce (ou renasce).
Curioso, não dizes:
“Todos os dias morre o sol”.
Porque ele não morre, tal como não nasce.
Nem gira à volta da tua cabeça.
Pobre Galileu,
Paladino da nuova scienza,
Que baralhaste as mentes pouco iluminadas
E as velhas cabeças
Da Velha Europa,
Muito coroadas mas mal pensantes.
É uma força de expressão, essa,
Que usas.
Que o sol, que o sol se pões,
Que o sol gira à volta da terra.
É a tua, a nossa, maneira
De humanizar a natureza.
Ou talvez antes
Uma (vã) tentativa de a domar, de a vencer.
O sol é o relógio da vida.
Quiçá a própria vida.
Por isso o adoramos.
Há milhares de anos.
E continuamos a adorá-lo, a fotografá-lo,
A cantá-lo, a musicá-lo, a temê-lo.
Como qualquer outro deus,
Ele é poderoso, fascinante, temível.
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