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31 dezembro 2005
Guiné 63/74 - CDVI: Maimuna, uma história de amor (José Teixeira)
Guiné > Mampatá (1)> 1968> O 1º cabo enfermeiro Teixeira (CCAÇ 2381, Buba e Empada, 1968/70), com a sua inseparável amiguinha Maimuna.
© José Teixeira (2005)
A minha homenagem à Maimuna, minha mascote que durante seis meses foi a minha companheira de todos os dias.
A Maimuna (2) tinha oito luas quando cheguei a Mampatá. Pretinha como carvão, um carrapito e um sorriso sempre que lhe fazia festas. Cativou-me e transformei-a na minha mascote. A casa da Answar, sua mãe era paredes meias com a enfermaria, isto é, o coberto onde montava todos os dias a enfermaria. A parede era de canas entrelaçadas, pelo que se ouvia tudo de um e outro lado.
Tudo começou, quando a avó da Maimuna, logo no dia seguinte à minha chegada me traz a menina:
- Minina e na tourse - dizia-me ela apontando para a garganta da bébé e tentando imitar uma pessoa a tossir. Custou-me a entender a velhinha, pedi ajuda a um Milicia e ele respondeu-me:
- Garganta de minina e na dê tourse, tourse -. De facto a bébé tinha os brônquios inflamados. Dei-lhe uma colher de xarope para a tosse e mandei-a vir três vezes por dia à enfermaria. Só tinha um frasco de antitússico e se lho desse era certo que quando chegasse a casa lho dava por inteiro de imediato para curar mais depressa.
Assim durante três dias tive a Maimuna no meu colo quatro vezes por dia e como ficou boa a mãe ofereceu-ma para minha mulher. Como o xarope era doce, ela vinha ao meu colo toda contente e habituou-se à minha pessoa e ao nome "Fermero". Então quando estava a chorar a mãe dizia-lhe:
- Cá na chora, Fermero e na vem (Não chores mais que vem aí o enfermeiro) . - A menina calava-se ficando a procurar com os olhos a minha pessoa. Quando saía a passear pela tabanca ou visitar os meus colegas aos postos de vigia, pegava na Maimuna ao ombro, ela, toda nua, agarrava-me uma orelha e lá ia toda contente. Habitou-se a ouvir o meu assobio e quando estava a chorar bastava eu assobiar, de cá de fora, para se calar. Aprendeu a rastejar e vinha ter comigo. Depois ensinei-a a andar. Passava tardes inteiras a brincar com ela e com a minha criação de camaleões.
Guiné > Mampatá (1)> 1968> O 1º cabo enfermeiro Teixeira (CCAÇ 2381, Buba e Empada, 1968/70), noutra foto, com a Maimuna.
© José Teixeira (2005)
Há dias levei-a para o meu abrigo e como eram horas de ela dormir deitei-a na minha cama, ficando ao lado dela. Armou um berreiro e tive de a levar à mãe e então compreendi a razão do choro. A mãe disse-me:
- Leva-a e deita-a atrás de ti de modo a que se possa agarrar às tuas costas . - Assim fiz e a menina dormiu um grande sono que eu acompanhei. Simplesmente, a mãe à noite dormia com a menina amarrada às costas, tal como é costume de dia quando andam a trabalhar, mas por razões diferentes, ou seja se houvesse um ataque tinham de fugir para o abrigo subterrâneo, por sinal ao lado do Posto de rádio e assim, com a menina amarrada às costas, não corria o perigo de na precipitação da fuga deixar a menina sem protecção.
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(1) No sul da Guiné, a sudeste de Buba, junto a Aldeia Formosa (Quebo)
(2) – Deixem passar este poema que dedico à Maimuna, trinta anos depois …
MAIMUNA
Um amor que encontrei,
Me acompanhou e viveu,
Como eu.
A guerra que não queria,
Mas sentia,
Nas corridas para o abrigo,
Da mãe que fugia ao perigo.
Comigo aprendeste a andar,
No meio de balas, granadas,
Minas, na tua terra, semeadas.
Perigosas bonecas para o teu brincar.
E só de pensar,
Meu coração tremia
Que uma bala perdida,
Tua vida fosse roubar.
Eras a esperança.
O futuro que não queria perder.
Foste razão do meu viver,
Quando aos ombros
Percorrias, comigo, os escombros.
Da guerra que nos fazia sofrer.
Abandonei-te
à guerra fugi.
Mas hoje,
Trinta anos depois, ainda gosto de ti.
Tu e eu.
Companheiros de horas vazias.
Passeios de sonho e esperança.
Teu chilrear de bonança
Enchia a minha alma,
E me transmitia imensa calma.
Eu, em troca, te abandonei.
Fugi e nada te dei.
Hoje,
Quero ver-te, tocar-te
E dizer-te.
Quanto te amei.
José Teixeira - 1996
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