11 janeiro 2006

Guinbé 63/74 - CDXLI: Lisboa-Bissau, de jipe (Abril, 2005)

1. Texto do A. Marques Lopes enviado a toda a tertúlia:


Camaradas de tertúlia

Estive há dois dias a combinar com o Allen (o Xico de Empada) a nossa ida à Guiné. Decidimos partir de Portugal no dia 6 de Abril próximo, o Allen, eu, o Hugo (filho do Albano Costa) e um camarada de nome Armindo. Vamos de jipe via Marrocos, Sara Ocidental, Mauritânia e Senegal, com objectivo de estar em Bissau a 14 de Abril, para nos juntarmos a outros camaradas, conhecidos do Allen, que chegarão de avião nessa data. O regresso será a 28 de Abril, de avião (o Allen deixa lá o jipe para futuras idas).

Sobretudo para saber da hipótese de se poder entrar por Farim, dei a conhecer ao Indami este nosso projecto. A resposta dele vai já em baixo. E como vêem, como futuro economista, até dá ideias para investimento na ajuda à população de Farim.
A seguir, o Indami (1) renovou o apelo que já tinha feito:

«Olá Pessoal !... O meu pai Agostinho Indami,ex-Governador de Região de Oio(2001-2004)está procurando contato de um grande amigo dele, ex-combatente português, Fruel [Furriel?] Santos, Companhia 2584, Alfer Lorreiro [Alferes Loureiro ?], em Có-Bula, região de Cacheu. Esse Senhor chamava o meu pai de Agostinho Gomes. Quem saber alguma coisa sobre esse senhor, favor entrar em contato comigo. Agradeço a todos. Um grande abraço do vosso amigo de sempre, Anízio Lona Indami".

Já tenho os meus trajectos delineados, e os outros que vão também têm, claro. Mas vou também fazer o levantamento dos tertulianos que lá trabalham e outros conhecidos meus (o Allen também conhece muitos), pois não podemos ir lá sem estar com eles. Mas, para isso, peço a especial ajuda do Luís Graça que tem bem presente todos os contactos e locais onde esses guineenses estão.
Abraços. A. Marques Lopes

2. Mensagem enviada ao Indami (10 de Janeiro de 2006):

Caríssimo Indami:

Já está programada a minha viagem à Guiné-Bissau. (...) Uma ida a Farim está no programa, claro! Já agora diz-me o seguinte: do Senegal para Farim há alguma estrada? Estive a ver num mapa e pareceu-me que há de Koldá até Farim. Será verdade? É que, se houver tempo antes da chegada do avião dos outros camaradas, podemos entrar logo por Farim. Até porque quero ir a seguir a Bigene e a Barro.

De qualquer modo, se não poder ser logo no princípio será num dos quinze dias seguintes, durante os quais tenho de ir a outros sítios, por exemplo Samba Culo (fica perto de Farim e Fajonquito) e Sinchã Jobel (fica perto de Banjara, Sare Ganá, Sare Banda, Sinchã Sutu e Sare Madina). Conheces? E haverá caminhos transitáveis para lá? É que nos tempos antigos em que por lá passei não havia...

Foram boas as tuas férias? As tuas aulas já devem ter começado e espero que continue tudo bem. Passaste nos exames? Espero que sim e que daqui a uns tempos (quanto tempo?...) eu volte à Guiné-Bissau e nos encontremos lá.

Um abraço amigo do
A. Marques Lopes

3. Resposta do Anízio Indami (11 de Janeiro de 2006):

Olá, meu caro amigo Marques:

Você não imagina a minha felicidade nesse momento.

Claro que tem muitas entradas do Senegal para Farim,mais podes ir a de Kolda,eu acho que é mais tranquilo,e não tem problemas dos rebeldes de Cassamansa que de vez em quando criam instabilidade na zona fronteiriça.

E aconselho logo, ao chegarem em Farim, podem perguntar a qualquer pessoa da casa do ex-Governador Agostinho Indami(meu pai),lógico,todo mundo lhe conhece.

Marques, todas essas tabancas que o senhor citou, conheço pouco, mas pelo nome conheço todas. Mas não te preocupas, o meu pai conhece todas essas tabancas de ponta a ponta, e na última vez que falei com ele, manifestou a disponibilidade total para ir com vocês a todos lugares.

Aliás,gostaria de aproveitar essa oportunidade de pedir a você e a toda a Equipe dos ex-combatentes e demais amigos que estarão na Guiné,para fazermos uma sociedade e investir em alguma coisa em Farim. Por exemplo: Uma fábrica de gelo, é o que o povo daquela cidade ou região precisa muito, principalmente na época do jenjum [o Ramadão]. Eu acho esse negocio,além de ajudar a população,tem baixo risco de investimento e vai nos dar um rápido retorno,e assim gerar o lucro.

E eu, como sou estudante, não tenho capital para entrar na sociedade,em troca posso garantir a vocês um espaço de terra(terreno) onde podemos construir a referida fábrica de gelo, isso eu garanto 100%, e me responsabilizo de tudo que diz respeito a movimentação dos documentos, vou pedir um apoio total do meu pai nesse sentido.

Tambem tenho como segunda opção a recuperação do Clube Desportivo de Farim. Seria um grande espaço de lazer, pois um europeu(Pinheiro) já tinha investido nesse clube e ganhou muito dinheiro,saiu de lá por causa do conflito político-militar do 7 de Junho. E depois que ele saiu o clube ficou totalmente abandonado. Situa-se em frente do porto, logo na travessia. E podem efectuar uma visita ao referido Clube junto com o meu pai. É só questão de entrar em contato com a direção de clube.

Caro amigo,esse é um assunto muito sério e é um dos meus grandes sonhos,e seria ótimo se for realizado.

Agradeço desde já a sua/vossa compreensão e espero uma resposta positiva por vossa parte o mais breve possível.

Até mais, um grande abraço do amigo
Anizio


_____

Notas de L.G.

(1) Vd. posts de:

5 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXX: Anízio, 22 anos, estudante, procura notícias do antigamente sobre a sua terra, Farim

7 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXVIII: Crianças de Farim ou como o mundo é pequeno (1)

Guinbé 63/74 - CDXLI: Lisboa-Bissau, de jipe (Abril, 2005)

1. Texto do A. Marques Lopes enviado a toda a tertúlia:


Camaradas de tertúlia

Estive há dois dias a combinar com o Allen (o Xico de Empada) a nossa ida à Guiné. Decidimos partir de Portugal no dia 6 de Abril próximo, o Allen, eu, o Hugo (filho do Albano Costa) e um camarada de nome Armindo. Vamos de jipe via Marrocos, Sara Ocidental, Mauritânia e Senegal, com objectivo de estar em Bissau a 14 de Abril, para nos juntarmos a outros camaradas, conhecidos do Allen, que chegarão de avião nessa data. O regresso será a 28 de Abril, de avião (o Allen deixa lá o jipe para futuras idas).

Sobretudo para saber da hipótese de se poder entrar por Farim, dei a conhecer ao Indami este nosso projecto. A resposta dele vai já em baixo. E como vêem, como futuro economista, até dá ideias para investimento na ajuda à população de Farim.
A seguir, o Indami (1) renovou o apelo que já tinha feito:

«Olá Pessoal !... O meu pai Agostinho Indami,ex-Governador de Região de Oio(2001-2004)está procurando contato de um grande amigo dele, ex-combatente português, Fruel [Furriel?] Santos, Companhia 2584, Alfer Lorreiro [Alferes Loureiro ?], em Có-Bula, região de Cacheu. Esse Senhor chamava o meu pai de Agostinho Gomes. Quem saber alguma coisa sobre esse senhor, favor entrar em contato comigo. Agradeço a todos. Um grande abraço do vosso amigo de sempre, Anízio Lona Indami".

Já tenho os meus trajectos delineados, e os outros que vão também têm, claro. Mas vou também fazer o levantamento dos tertulianos que lá trabalham e outros conhecidos meus (o Allen também conhece muitos), pois não podemos ir lá sem estar com eles. Mas, para isso, peço a especial ajuda do Luís Graça que tem bem presente todos os contactos e locais onde esses guineenses estão.
Abraços. A. Marques Lopes

2. Mensagem enviada ao Indami (10 de Janeiro de 2006):

Caríssimo Indami:

Já está programada a minha viagem à Guiné-Bissau. (...) Uma ida a Farim está no programa, claro! Já agora diz-me o seguinte: do Senegal para Farim há alguma estrada? Estive a ver num mapa e pareceu-me que há de Koldá até Farim. Será verdade? É que, se houver tempo antes da chegada do avião dos outros camaradas, podemos entrar logo por Farim. Até porque quero ir a seguir a Bigene e a Barro.

De qualquer modo, se não poder ser logo no princípio será num dos quinze dias seguintes, durante os quais tenho de ir a outros sítios, por exemplo Samba Culo (fica perto de Farim e Fajonquito) e Sinchã Jobel (fica perto de Banjara, Sare Ganá, Sare Banda, Sinchã Sutu e Sare Madina). Conheces? E haverá caminhos transitáveis para lá? É que nos tempos antigos em que por lá passei não havia...

Foram boas as tuas férias? As tuas aulas já devem ter começado e espero que continue tudo bem. Passaste nos exames? Espero que sim e que daqui a uns tempos (quanto tempo?...) eu volte à Guiné-Bissau e nos encontremos lá.

Um abraço amigo do
A. Marques Lopes

3. Resposta do Anízio Indami (11 de Janeiro de 2006):

Olá, meu caro amigo Marques:

Você não imagina a minha felicidade nesse momento.

Claro que tem muitas entradas do Senegal para Farim,mais podes ir a de Kolda,eu acho que é mais tranquilo,e não tem problemas dos rebeldes de Cassamansa que de vez em quando criam instabilidade na zona fronteiriça.

E aconselho logo, ao chegarem em Farim, podem perguntar a qualquer pessoa da casa do ex-Governador Agostinho Indami(meu pai),lógico,todo mundo lhe conhece.

Marques, todas essas tabancas que o senhor citou, conheço pouco, mas pelo nome conheço todas. Mas não te preocupas, o meu pai conhece todas essas tabancas de ponta a ponta, e na última vez que falei com ele, manifestou a disponibilidade total para ir com vocês a todos lugares.

Aliás,gostaria de aproveitar essa oportunidade de pedir a você e a toda a Equipe dos ex-combatentes e demais amigos que estarão na Guiné,para fazermos uma sociedade e investir em alguma coisa em Farim. Por exemplo: Uma fábrica de gelo, é o que o povo daquela cidade ou região precisa muito, principalmente na época do jenjum [o Ramadão]. Eu acho esse negocio,além de ajudar a população,tem baixo risco de investimento e vai nos dar um rápido retorno,e assim gerar o lucro.

E eu, como sou estudante, não tenho capital para entrar na sociedade,em troca posso garantir a vocês um espaço de terra(terreno) onde podemos construir a referida fábrica de gelo, isso eu garanto 100%, e me responsabilizo de tudo que diz respeito a movimentação dos documentos, vou pedir um apoio total do meu pai nesse sentido.

Tambem tenho como segunda opção a recuperação do Clube Desportivo de Farim. Seria um grande espaço de lazer, pois um europeu(Pinheiro) já tinha investido nesse clube e ganhou muito dinheiro,saiu de lá por causa do conflito político-militar do 7 de Junho. E depois que ele saiu o clube ficou totalmente abandonado. Situa-se em frente do porto, logo na travessia. E podem efectuar uma visita ao referido Clube junto com o meu pai. É só questão de entrar em contato com a direção de clube.

Caro amigo,esse é um assunto muito sério e é um dos meus grandes sonhos,e seria ótimo se for realizado.

Agradeço desde já a sua/vossa compreensão e espero uma resposta positiva por vossa parte o mais breve possível.

Até mais, um grande abraço do amigo
Anizio


_____

Notas de L.G.

(1) Vd. posts de:

5 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXX: Anízio, 22 anos, estudante, procura notícias do antigamente sobre a sua terra, Farim

7 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXVIII: Crianças de Farim ou como o mundo é pequeno (1)

Guiné 63/74 - CDXL: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (6): Mampatá, Setembro-Outubro de 1968

Marrocos > A caminho da Guiné-Bissau > Abril de 2005 >

O (im)possível regresso ao passado... O José Teixeira regressa aos sítios por onde andou em 1968/70, no sul da Guiné... Desta vez a missão é pacífica: o jipe vai carregado de...livros escolares

© José Teixeira (2005)




Continuação da publicação de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70):


Mampatá, 11 de Setembro de 1968

Desta vez foi Chamarra a escolhida para fazer a festa. Cerca das 20 horas o bandido abriu fogo com vários canhões e lança-roquetes. Durante uns minutos ouvimos ao longe o ruído característico do rebentamento de granadas. O pelotão da minha Companhia que aí se encontra destacado, comandado pelo Alferes Barbosa reagiu bem, pondo-os em debandada. Mesmo assim há a lamentar um soldado ferido e dois mortos civis, uma mulher e uma criança... Tantas vítimas inocentes nesta guerra que não quero fazer!


Mampatá, 15 de Setembro de 1968

Visitei Chamarra. O último ataque foi tremendo. Aproximaram-se do arame farpado para pregar aos meus colegas uma terrível partida, apanhá-los à mão. Felizmente os meus colegas reagiram em força e não permitiram.

Chamarra é o posto mais avançado de ligação com Gandembel, por Ponte Balana, o único caminho que permite chegar a este posto avançado, pois ninguém de bom senso se arrisca a fazer a ligação pelo corredor da morte – Guileje, Mejo e Gandamael Porto. Esse só para o Inimigo e para os Páras ou Comandos, de vez em quando e com muito cuidado, fazer os seus raides de aventura.

Consta que Mampatá vai ser atacado pelo mesmo sistema.


Mampatá, 16 de Setembro de 1968


Ontem Chamarra foi mais uma vez atacado. Desta vez não houve azar. Em Guileje também houve festa dura. A companhia de Páras tem trabalhado bem, no patrulhamento da Zona, mais usada pelos terroristas para introduzirem homens e equipamento, mas mesmo assim....

Guiné-Bissau > 2005 > Que diefrenças entre a Guiné de 168/70 e a de hoje ?

© José Teixeira (2005)



Hoje na estrada de Chamarra-Mampatá ia-se dando mais uma catástrofe. O IN. estava a montar minas A/C na estrada quando uma patrulha de milícias apareceu e abriu fogo pondo o IN em fuga deixando duas minas de 15 Kg. Todos os dias passa nesta estrada uma viatura com 10 homens a caminho de Aldeia Formosa.


Mampatá, 17 de Setembro de 1968


Dia de correio. Ainda cedo sentiu-se a avioneta de Sector em direcção a Aldeia Formosa. Aguardamos com ansiedade a viatura que partiu para lá....

O Vitor escreveu-me. Por Bissorã nem tudo corre bem. Segundo ele, num pequeno incidente ficaram dois soldados inutilizados para toda a vida, ambos com uma perna amputada e um outro com a cara cheia de estilhaços. Além destes, uma nativa morta e outra sem uma perna. Tudo por rebentamento de minas A/P, montadas pelo IN.

Numa saída em patrulha a malta vingou-se fazendo sete mortos e dois prisioneiros. O último a morrer foi o tipo que montou as minas e, pelo que ele conta, teve morte honrosa. Todos os africanos verificaram a eficiência das suas facas no seu corpo.


Mampatá, 23 de Setembro de 1968


Tudo está calmo, há dias que o IN não ataca. Todos estamos convencidos que o próximo objectivo é Mampatá e com o seu novo sistema de ataque nos vai dar que fazer.

Uma das coisas que me agrada fazer, embora perigosa, é a ronda nocturna pelos postos de sentinela. No princípio detestava, mas agora dá-me prazer. Normalmente passo um quarto de hora em cada posto, a conversar baixinho com o camarada que está de sentinela. Assim, ajudo-o a passar o tempo e a manter-se atento. Esta missão nocturna é distribuída pelo Alferes, pelos Furriéis e por mim.

Ontem aconteceu-me uma cena que dá para rir. Como é hábito, avisei com um pequeno assobio (a senha) o primeiro sentinela que me estava a aproximar. Sentei-me ao lado dele no chão e ficamos a conversar. Não notei que me tinha sentado em cima de um carreiro de formiga preta e quando me levantei senti o corpo todo a ser ferrado. Que dores horríveis pelo corpo todo !

Tirei a roupa toda, arranquei as formigas como pude, coloquei a roupa na ponta da espingarda e continuei a ronda completamente nu. Estava no primeiro posto, faltavam cinco. Os meus camaradas ao verem-me chegar ao posto com o fato que a minha mãe me deu ao nascer gozaram em cheio e durante uns dias não se falou noutra coisa.

A formiga preta faz carreiros de quilómetros à procura das suas presas. Na família desta formiga existem várias funções e tamanhos físicos. Assim as batedeiras são grandes e gordas. Normalmente andam fora da fila a procurar as presas e são as mais agressivas. A fila é composta por duas alas laterais e duas alas interiores, sendo as laterais como que soldados, mais fortes que as que vão no interior, as escravas que transportam o alimento para um esconderijo debaixo da terra

Quando as batedeiras localizam a presa morta ou viva, esta por qualquer razão em estado imobilizado, automaticamente a fila abre-se em duas e começa o envolvimento e a tomada de assalto sem que a vítima dê por nada. Quando esta se mexer sentirá milhares de ferradelas. Os cornos das formigas ficam de tal maneira cravados, que muitos ficam agarrados ao corpo, quando a vítima se tenta libertar. Foi isso que me aconteceu. Dizem que gostam muito de atacar os ‘tomates’ e eu que o diga !

Disse-me a Aliu Djaló que a giboia depois de asfixiar a presa explora a zona num raio de 20 a 30 metros e se sentir que há formigas, abandona o alimento. Acontece que como fica vários dias a deglutir o animal que caçou, se as formigas forem atraídas pelo sangue da vítima, ou a descobrirem cobrem-na e no momento em que com o estômago cheio tenta abandonar o local, as formigas atacam e ficam com alimentação para vários dias.

São milhões de formigas. Eu vi uma cobra apanhada pela formiga, melhor, vi uma mancha negra do que fora uma cobra.



Mampatá, 25 de Setembro de 1968

Como é belo sentir nas próprias mãos o pulsar de um coração novo que acaba de vir ao mundo. Um corpo pequenino, branco como a neve, puro como os anjos e no entanto, este corpo vai crescer, a pouco e pouco a natureza encarregar-se-á de o tornar negro como os seus progenitores, negro como os seus irmãos que hoje não cabiam em si de contentes. É puro como os anjos, a sua alma está imaculada, mas virá o tempo em que conhecerá o pecado, terá de escolher entre o bem e o mal.

Um novo ser que ri e chora. Um novo ser que é feliz porque não sente, não houve o troar das armas, não foge para o abrigo aterrorizado, não se deita no chão para fugir às balas assassinas e traiçoeiras. Vai com os outros e se morrer ?... não conhece, não sente, não ama...

Guiné-Bissau > 2005 > A actual estrada (asfaltada) de Quebo para Mampatá Forea.

© José Teixeira (2005)



Ontem fui chamado para assistir a uma mulher que estava a ter uma criança e se sentia muito mal. Assisti-a o melhor que pude. Mãe e filho estão bem.

Na minha ronda de ontem apanhei um susto que no fim deu para rir às gargalhadas.
Estava na ponta norte da aldeia, pelas duas da madrugada, quando avisto um clarão na ponta sul. Parecia uma tabanca a arder. Por vezes diminuía de intensidade e não se ouvia qualquer indício de movimento de pessoas. Pensei: é o inimigo que atacou o posto do morteiro, num golpe de mão e apanhou os meus colegas. Vou mandar uma rajada para acordar o pessoal. Depois decidi ir ver o que se passava atravessando a aldeia com todo o cuidado por entre as tabancas e fui dar com os meus colegas todos nus a tirar palha das tabancas, incendiá-la e queimar milhares de formigas que aproveitando-se do seu sono os visitaram e quando um deles se mexeu foi uma autêntica catástrofe, ao sentir dezenas de corninhos a picarem-lhe o corpo todo. O vizinho acordou com o grito que o desgraçado deu e sentiu o mesmo. O chão era um tapete negro, pelo que quando puseram os pés no chão tiveram outra surpresa.. Então começou a luta entre o soldado Português e a formiga preta da Guiné. Houve milhares de mortes por parte do inimigo, um grande susto que eu apanhei e por pouco não pus a Tabanca toda em alvoroço às duas da manhã.


Mampatá, 27 de Setembro de 1968


Há alguns dias que a guerra parece ter parado. As povoações deixaram de ser atacadas. As colunas fazem-se sem incidentes, só as minas continuam. Desta vez foi um alferes em Gandembel que pisou uma bailarina que o cortou pela cintura. Para ele como para tantos outros acabou a guerra...

Os dias sucedem-se no seu marchar monótono, uns mais fáceis de passar, outros mais difíceis, mas a realidade é que eles vão passando e com eles vai o sofrimento de quem se vê longe dos seus e anseia que chegue o último dia, o dia em que de novo se aproxima dos seus entes queridos, os abraça e se fica com eles, jurando a si mesmo, nunca mais se afastar.

Porquê este desejo enorme que o tempo passe se com o seu andar nos torna mais velhos ? A felicidade só é possível onde haja amor, onde haja paz. Num ambiente de guerra onde somos uns estranhos, numa terra que não é nossa e que desconhecemos, onde nos consideram e respeitam porque precisam de nós, porque lhes tratamos as feridas e matamos a fome e sobretudo porque temos a força das armas, neste ambiente de desamor, onde muitas vezes impera o ódio e o terror, não pode haver felicidade e o que é a vida sem uma réstia de felicidade ?

Que vale a vida se não vemos o "outro" ou passamos por ele e porque as circunstâncias o exige, fingimos não o ver ?... Vivemos na esperança que o tempo, uns escassos meses da nossa vida, passe depressa para uma liberdade duradoira e uma paz excelente...

Apanhei mais um susto. Na Guiné há noites que mais parecem dia, tal é a luz do luar. Quantas cartas eu escrevi de noite enquanto fazia horas para iniciar a minha ronda. Noutras ocasiões a escuridão é tão profunda que não se vê um palmo à frente do nariz. Numa dessas noites ia eu de um posto de sentinela para outro, às apalpadelas e por vezes contra as palhotas, quando sinto que bati em algo que se mexeu. Tive um pressentimento e gritei:
- Tem calma pessoal fricano, é fermero (enfermeiro) qui na vai !- Ouço a voz do Suleimane (1):
- Tu na tem sorte, djubi (estás com sorte, olha). - Mostrou-me a catana que tinha na mão. Disse-lhe eu:
- Sorte na tem tu!- e mostro-lhe o dedo no gatilho da G - 3, pronta a disparar. Demos um abraço e ficamo-nos a rir. Tinha vindo fora da tabanca urinar, mas como estava muito escuro houve um choque que podia dar mau resultado.

Mampatá, 21 de Outubro de 1968

Recomeçaram os ataques a Gandembel. Há algum tempo que paira no ar uma atmosfera tensa.. A dúvida e a preocupação vê-se em todos os rostos. Podiam começar em qualquer lugar.

Ontem, em Bacardado, pequeno povoação que só tem um pequeno grupo de milícias com mausers, a dois quilómetros de Mampatá, junto à estrada onde passamos todos os dias. O terrorista apareceu de noite e queimou toda a povoação e feriu alguns nativos. A pouca população juntou-se e defendeu-se bem, pondo o bandido em fuga. Apenas ficaram de pé três palhotas. Animais, dinheiro e haveres, foi tudo queimado.


Mampatá, 23 de Outubro de 1968

Passei em Bacardado. Triste abandono, palhotas queimadas, animais mortos, nem uma viva alma, só os abutres, medonhos, anunciantes da morte e da desolação, procurando os restos de carne para com avidez saciarem a fome e um cheiro nauseabundo e pestilento...

A estrada está vazia. O medo fez a população abandonar o que porventura lhes restava e vieram acolher-se a Mampatá. Deixou de haver movimento humano na estrada. Quando passávamos de viatura, as crianças, nuas e sujas de lama, mas com a alegria no rosto acorriam a dizer adeus e a desejar bom biaje. Agora vejo-as todos os dias à minha frente esfomeadas, a mendigar migalhas para matarem a fome.

O vazio da estrada transmitiu-se à alma. Também ela sofre. O coração chora tantos inocentes que procuravam viver a sua vida em paz, só queriam uma bolanha para trabalharem a terra e tirarem o seu sustento. De um momento para outro viram surgir junto de si, um inimigo traiçoeiro que, escondido no alto capim, esperou que a noite viesse, como uma fera que espera a sua presa , para protegido pela escuridão, incendiar, ferir, matar, arrasar tudo - se meia dúzia de valentes não lho impedissem - e depois fugir cobardemente à procura de protecção para lá da fronteira.

Porquê atacar e matar os seus irmãos de raça ? Não sei (2) ...
____________

(1) Tive o prazer de reencontrar o Suleimane em Abril de 2005 no Saltinho. Estava o mesmo, parece que os anos nem passaram por ele.

(2) Em Abril de 2005 visitei Bacardado e como fiquei feliz ao verificar que a vida logo depois do fim da guerra recomeçou e hoje liga com Áfia e Mampatá Forea fazendo como que uma única aldeia!

Guiné 63/74 - CDXL: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (6): Mampatá, Setembro-Outubro de 1968

Marrocos > A caminho da Guiné-Bissau > Abril de 2005 >

O (im)possível regresso ao passado... O José Teixeira regressa aos sítios por onde andou em 1968/70, no sul da Guiné... Desta vez a missão é pacífica: o jipe vai carregado de...livros escolares

© José Teixeira (2005)




Continuação da publicação de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70):


Mampatá, 11 de Setembro de 1968

Desta vez foi Chamarra a escolhida para fazer a festa. Cerca das 20 horas o bandido abriu fogo com vários canhões e lança-roquetes. Durante uns minutos ouvimos ao longe o ruído característico do rebentamento de granadas. O pelotão da minha Companhia que aí se encontra destacado, comandado pelo Alferes Barbosa reagiu bem, pondo-os em debandada. Mesmo assim há a lamentar um soldado ferido e dois mortos civis, uma mulher e uma criança... Tantas vítimas inocentes nesta guerra que não quero fazer!


Mampatá, 15 de Setembro de 1968

Visitei Chamarra. O último ataque foi tremendo. Aproximaram-se do arame farpado para pregar aos meus colegas uma terrível partida, apanhá-los à mão. Felizmente os meus colegas reagiram em força e não permitiram.

Chamarra é o posto mais avançado de ligação com Gandembel, por Ponte Balana, o único caminho que permite chegar a este posto avançado, pois ninguém de bom senso se arrisca a fazer a ligação pelo corredor da morte – Guileje, Mejo e Gandamael Porto. Esse só para o Inimigo e para os Páras ou Comandos, de vez em quando e com muito cuidado, fazer os seus raides de aventura.

Consta que Mampatá vai ser atacado pelo mesmo sistema.


Mampatá, 16 de Setembro de 1968


Ontem Chamarra foi mais uma vez atacado. Desta vez não houve azar. Em Guileje também houve festa dura. A companhia de Páras tem trabalhado bem, no patrulhamento da Zona, mais usada pelos terroristas para introduzirem homens e equipamento, mas mesmo assim....

Guiné-Bissau > 2005 > Que diefrenças entre a Guiné de 168/70 e a de hoje ?

© José Teixeira (2005)



Hoje na estrada de Chamarra-Mampatá ia-se dando mais uma catástrofe. O IN. estava a montar minas A/C na estrada quando uma patrulha de milícias apareceu e abriu fogo pondo o IN em fuga deixando duas minas de 15 Kg. Todos os dias passa nesta estrada uma viatura com 10 homens a caminho de Aldeia Formosa.


Mampatá, 17 de Setembro de 1968


Dia de correio. Ainda cedo sentiu-se a avioneta de Sector em direcção a Aldeia Formosa. Aguardamos com ansiedade a viatura que partiu para lá....

O Vitor escreveu-me. Por Bissorã nem tudo corre bem. Segundo ele, num pequeno incidente ficaram dois soldados inutilizados para toda a vida, ambos com uma perna amputada e um outro com a cara cheia de estilhaços. Além destes, uma nativa morta e outra sem uma perna. Tudo por rebentamento de minas A/P, montadas pelo IN.

Numa saída em patrulha a malta vingou-se fazendo sete mortos e dois prisioneiros. O último a morrer foi o tipo que montou as minas e, pelo que ele conta, teve morte honrosa. Todos os africanos verificaram a eficiência das suas facas no seu corpo.


Mampatá, 23 de Setembro de 1968


Tudo está calmo, há dias que o IN não ataca. Todos estamos convencidos que o próximo objectivo é Mampatá e com o seu novo sistema de ataque nos vai dar que fazer.

Uma das coisas que me agrada fazer, embora perigosa, é a ronda nocturna pelos postos de sentinela. No princípio detestava, mas agora dá-me prazer. Normalmente passo um quarto de hora em cada posto, a conversar baixinho com o camarada que está de sentinela. Assim, ajudo-o a passar o tempo e a manter-se atento. Esta missão nocturna é distribuída pelo Alferes, pelos Furriéis e por mim.

Ontem aconteceu-me uma cena que dá para rir. Como é hábito, avisei com um pequeno assobio (a senha) o primeiro sentinela que me estava a aproximar. Sentei-me ao lado dele no chão e ficamos a conversar. Não notei que me tinha sentado em cima de um carreiro de formiga preta e quando me levantei senti o corpo todo a ser ferrado. Que dores horríveis pelo corpo todo !

Tirei a roupa toda, arranquei as formigas como pude, coloquei a roupa na ponta da espingarda e continuei a ronda completamente nu. Estava no primeiro posto, faltavam cinco. Os meus camaradas ao verem-me chegar ao posto com o fato que a minha mãe me deu ao nascer gozaram em cheio e durante uns dias não se falou noutra coisa.

A formiga preta faz carreiros de quilómetros à procura das suas presas. Na família desta formiga existem várias funções e tamanhos físicos. Assim as batedeiras são grandes e gordas. Normalmente andam fora da fila a procurar as presas e são as mais agressivas. A fila é composta por duas alas laterais e duas alas interiores, sendo as laterais como que soldados, mais fortes que as que vão no interior, as escravas que transportam o alimento para um esconderijo debaixo da terra

Quando as batedeiras localizam a presa morta ou viva, esta por qualquer razão em estado imobilizado, automaticamente a fila abre-se em duas e começa o envolvimento e a tomada de assalto sem que a vítima dê por nada. Quando esta se mexer sentirá milhares de ferradelas. Os cornos das formigas ficam de tal maneira cravados, que muitos ficam agarrados ao corpo, quando a vítima se tenta libertar. Foi isso que me aconteceu. Dizem que gostam muito de atacar os ‘tomates’ e eu que o diga !

Disse-me a Aliu Djaló que a giboia depois de asfixiar a presa explora a zona num raio de 20 a 30 metros e se sentir que há formigas, abandona o alimento. Acontece que como fica vários dias a deglutir o animal que caçou, se as formigas forem atraídas pelo sangue da vítima, ou a descobrirem cobrem-na e no momento em que com o estômago cheio tenta abandonar o local, as formigas atacam e ficam com alimentação para vários dias.

São milhões de formigas. Eu vi uma cobra apanhada pela formiga, melhor, vi uma mancha negra do que fora uma cobra.



Mampatá, 25 de Setembro de 1968

Como é belo sentir nas próprias mãos o pulsar de um coração novo que acaba de vir ao mundo. Um corpo pequenino, branco como a neve, puro como os anjos e no entanto, este corpo vai crescer, a pouco e pouco a natureza encarregar-se-á de o tornar negro como os seus progenitores, negro como os seus irmãos que hoje não cabiam em si de contentes. É puro como os anjos, a sua alma está imaculada, mas virá o tempo em que conhecerá o pecado, terá de escolher entre o bem e o mal.

Um novo ser que ri e chora. Um novo ser que é feliz porque não sente, não houve o troar das armas, não foge para o abrigo aterrorizado, não se deita no chão para fugir às balas assassinas e traiçoeiras. Vai com os outros e se morrer ?... não conhece, não sente, não ama...

Guiné-Bissau > 2005 > A actual estrada (asfaltada) de Quebo para Mampatá Forea.

© José Teixeira (2005)



Ontem fui chamado para assistir a uma mulher que estava a ter uma criança e se sentia muito mal. Assisti-a o melhor que pude. Mãe e filho estão bem.

Na minha ronda de ontem apanhei um susto que no fim deu para rir às gargalhadas.
Estava na ponta norte da aldeia, pelas duas da madrugada, quando avisto um clarão na ponta sul. Parecia uma tabanca a arder. Por vezes diminuía de intensidade e não se ouvia qualquer indício de movimento de pessoas. Pensei: é o inimigo que atacou o posto do morteiro, num golpe de mão e apanhou os meus colegas. Vou mandar uma rajada para acordar o pessoal. Depois decidi ir ver o que se passava atravessando a aldeia com todo o cuidado por entre as tabancas e fui dar com os meus colegas todos nus a tirar palha das tabancas, incendiá-la e queimar milhares de formigas que aproveitando-se do seu sono os visitaram e quando um deles se mexeu foi uma autêntica catástrofe, ao sentir dezenas de corninhos a picarem-lhe o corpo todo. O vizinho acordou com o grito que o desgraçado deu e sentiu o mesmo. O chão era um tapete negro, pelo que quando puseram os pés no chão tiveram outra surpresa.. Então começou a luta entre o soldado Português e a formiga preta da Guiné. Houve milhares de mortes por parte do inimigo, um grande susto que eu apanhei e por pouco não pus a Tabanca toda em alvoroço às duas da manhã.


Mampatá, 27 de Setembro de 1968


Há alguns dias que a guerra parece ter parado. As povoações deixaram de ser atacadas. As colunas fazem-se sem incidentes, só as minas continuam. Desta vez foi um alferes em Gandembel que pisou uma bailarina que o cortou pela cintura. Para ele como para tantos outros acabou a guerra...

Os dias sucedem-se no seu marchar monótono, uns mais fáceis de passar, outros mais difíceis, mas a realidade é que eles vão passando e com eles vai o sofrimento de quem se vê longe dos seus e anseia que chegue o último dia, o dia em que de novo se aproxima dos seus entes queridos, os abraça e se fica com eles, jurando a si mesmo, nunca mais se afastar.

Porquê este desejo enorme que o tempo passe se com o seu andar nos torna mais velhos ? A felicidade só é possível onde haja amor, onde haja paz. Num ambiente de guerra onde somos uns estranhos, numa terra que não é nossa e que desconhecemos, onde nos consideram e respeitam porque precisam de nós, porque lhes tratamos as feridas e matamos a fome e sobretudo porque temos a força das armas, neste ambiente de desamor, onde muitas vezes impera o ódio e o terror, não pode haver felicidade e o que é a vida sem uma réstia de felicidade ?

Que vale a vida se não vemos o "outro" ou passamos por ele e porque as circunstâncias o exige, fingimos não o ver ?... Vivemos na esperança que o tempo, uns escassos meses da nossa vida, passe depressa para uma liberdade duradoira e uma paz excelente...

Apanhei mais um susto. Na Guiné há noites que mais parecem dia, tal é a luz do luar. Quantas cartas eu escrevi de noite enquanto fazia horas para iniciar a minha ronda. Noutras ocasiões a escuridão é tão profunda que não se vê um palmo à frente do nariz. Numa dessas noites ia eu de um posto de sentinela para outro, às apalpadelas e por vezes contra as palhotas, quando sinto que bati em algo que se mexeu. Tive um pressentimento e gritei:
- Tem calma pessoal fricano, é fermero (enfermeiro) qui na vai !- Ouço a voz do Suleimane (1):
- Tu na tem sorte, djubi (estás com sorte, olha). - Mostrou-me a catana que tinha na mão. Disse-lhe eu:
- Sorte na tem tu!- e mostro-lhe o dedo no gatilho da G - 3, pronta a disparar. Demos um abraço e ficamo-nos a rir. Tinha vindo fora da tabanca urinar, mas como estava muito escuro houve um choque que podia dar mau resultado.

Mampatá, 21 de Outubro de 1968

Recomeçaram os ataques a Gandembel. Há algum tempo que paira no ar uma atmosfera tensa.. A dúvida e a preocupação vê-se em todos os rostos. Podiam começar em qualquer lugar.

Ontem, em Bacardado, pequeno povoação que só tem um pequeno grupo de milícias com mausers, a dois quilómetros de Mampatá, junto à estrada onde passamos todos os dias. O terrorista apareceu de noite e queimou toda a povoação e feriu alguns nativos. A pouca população juntou-se e defendeu-se bem, pondo o bandido em fuga. Apenas ficaram de pé três palhotas. Animais, dinheiro e haveres, foi tudo queimado.


Mampatá, 23 de Outubro de 1968

Passei em Bacardado. Triste abandono, palhotas queimadas, animais mortos, nem uma viva alma, só os abutres, medonhos, anunciantes da morte e da desolação, procurando os restos de carne para com avidez saciarem a fome e um cheiro nauseabundo e pestilento...

A estrada está vazia. O medo fez a população abandonar o que porventura lhes restava e vieram acolher-se a Mampatá. Deixou de haver movimento humano na estrada. Quando passávamos de viatura, as crianças, nuas e sujas de lama, mas com a alegria no rosto acorriam a dizer adeus e a desejar bom biaje. Agora vejo-as todos os dias à minha frente esfomeadas, a mendigar migalhas para matarem a fome.

O vazio da estrada transmitiu-se à alma. Também ela sofre. O coração chora tantos inocentes que procuravam viver a sua vida em paz, só queriam uma bolanha para trabalharem a terra e tirarem o seu sustento. De um momento para outro viram surgir junto de si, um inimigo traiçoeiro que, escondido no alto capim, esperou que a noite viesse, como uma fera que espera a sua presa , para protegido pela escuridão, incendiar, ferir, matar, arrasar tudo - se meia dúzia de valentes não lho impedissem - e depois fugir cobardemente à procura de protecção para lá da fronteira.

Porquê atacar e matar os seus irmãos de raça ? Não sei (2) ...
____________

(1) Tive o prazer de reencontrar o Suleimane em Abril de 2005 no Saltinho. Estava o mesmo, parece que os anos nem passaram por ele.

(2) Em Abril de 2005 visitei Bacardado e como fiquei feliz ao verificar que a vida logo depois do fim da guerra recomeçou e hoje liga com Áfia e Mampatá Forea fazendo como que uma única aldeia!

10 janeiro 2006

Guiné 63/74 - CDXXXIX: Ainda a questão do bigrupo (Sousa de Castro)

Guiné > Sector de Cubucare > Guerrilheiros do PAIGC sendo inspeccionados por um comandante.

Foto: UN / Yutaka Nagata, fonte: Return to the Source: Selected Speeches, by Amilcar Cabral. New York: Monthly Review Press, 1974. (Imagem gentilment cedida por Jorge Santos, 2005)


Texto do Sousa de Castro:

De acordo com o livro Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, e com base em estimativa do comando militar português, em 1971, os efectivos do PAIGC empenhados na luta pela independência eram assim constituídos:

Efectivos por unidade:

- bigrupo: 38/44 unidades
- bigrupo reforçado: 70 unidades
- grupo de artilharia: 50 unidades
- grupo de canhões/morteiros: 23 unidades
- grupo de foguetões/antiaéreos: 16 unidades

Efectivos por regiões:

Inter-Região Norte:

- Frente S. Domingos/Sambuiá: 630 unidades
- Frente CanchungoBiambe: 760 unidades
- Frente Morés/Nhacra: 680 unidades
- Frente Bafatá/Gabu Norte: 730 unidades

Inter-Região Sul:

- Frente Bafatá/Gabu Sul: 200 unidades
- Frente Bafatá/Xitole: 160 unidades
- Frente Buba/ Quitafine: 1230 unidades
- Frente do Quínara: 560 unidades
- Frente de Catió: 370 unidades.

Além destes efectivos, que totalizavam 5500 elementos para o Exército Popular, há que acrescentar cerca de 2000 milícias, 900 a 1000 em cada inter-região [Ou seja, o PAIGC não teria mais do que 7500 homens em armas].

O PAIGC, atendendo à taxa de natalidade e mortalidade existente, podia aumentar os seus efectivos em cerca de 5000 combatentes, valendo-se somente das populações controladas.

Sousa de Castro

Guiné 63/74 - CDXXXIX: Ainda a questão do bigrupo (Sousa de Castro)

Guiné > Sector de Cubucare > Guerrilheiros do PAIGC sendo inspeccionados por um comandante.

Foto: UN / Yutaka Nagata, fonte: Return to the Source: Selected Speeches, by Amilcar Cabral. New York: Monthly Review Press, 1974. (Imagem gentilment cedida por Jorge Santos, 2005)


Texto do Sousa de Castro:

De acordo com o livro Guerra Colonial: Angola, Guiné, Moçambique (Lisboa: Diário de Notícias, s/d), da autoria de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, e com base em estimativa do comando militar português, em 1971, os efectivos do PAIGC empenhados na luta pela independência eram assim constituídos:

Efectivos por unidade:

- bigrupo: 38/44 unidades
- bigrupo reforçado: 70 unidades
- grupo de artilharia: 50 unidades
- grupo de canhões/morteiros: 23 unidades
- grupo de foguetões/antiaéreos: 16 unidades

Efectivos por regiões:

Inter-Região Norte:

- Frente S. Domingos/Sambuiá: 630 unidades
- Frente CanchungoBiambe: 760 unidades
- Frente Morés/Nhacra: 680 unidades
- Frente Bafatá/Gabu Norte: 730 unidades

Inter-Região Sul:

- Frente Bafatá/Gabu Sul: 200 unidades
- Frente Bafatá/Xitole: 160 unidades
- Frente Buba/ Quitafine: 1230 unidades
- Frente do Quínara: 560 unidades
- Frente de Catió: 370 unidades.

Além destes efectivos, que totalizavam 5500 elementos para o Exército Popular, há que acrescentar cerca de 2000 milícias, 900 a 1000 em cada inter-região [Ou seja, o PAIGC não teria mais do que 7500 homens em armas].

O PAIGC, atendendo à taxa de natalidade e mortalidade existente, podia aumentar os seus efectivos em cerca de 5000 combatentes, valendo-se somente das populações controladas.

Sousa de Castro

Guiné 63/74 - CDXXXVIII: Mais estórias do Virgínio Briote (1): o Tintas fugiu ?

Viva Luís,

Estou de regresso com mais dois episódios das minhas memórias da Guiné.
Um abraço a todos os camaradas.
vb
_______

Saudamos o regresso do nosso camarada vb. Publicamos hoje o primeiro desses "episódios". LG


1. O TINTAS FUGIU?

Alternava períodos no mato com uma semana em Brá. Aproveitava esses dias para manter-se em forma, praticava tiro, mantinha o grupo em instrução diária, ao fim do dia ia até Bissau, dava uns passeios a pé. No fim de jantar, quando tinha vontade, punha a escrita em dia e lia pela noite fora.

Não havia muito para fazer na cidade. O hotel Portugal onde se reunia ao jantar com os conhecidos, o Fonseca de vez em quando para comer frango assado com batatas fritas aos paus, enormes, ou beber cerveja cá fora com um cesto de ostras ao lado.

Parava na esplanada do Bento, quase sempre a abarrotar de fardas, obrigatório para quem queria encontrar companheiros destacados no mato, em trânsito por Bissau, para consultas médicas, tratar de assuntos dos destacamentos ou à espera do avião para férias na metrópole.
Não lhe saíam da cabeça, as férias, ver a família, os amigos, a namorada, ir ao cinema, apanhar um ar diferente. Um entusiasmo, só de pensar, estavam á porta, um ou dois meses se tanto, ia descontando os dias.

Atravessava a fase fotográfica, ia para o Cupilão (1), negras com os bebés às costas a pilarem o arroz, mancarra (2) a secar, crianças a brincar, velhos negros de barbas brancas, curvados, a cortar as unhas dos pés com a catana enorme na mão, outros sentados em fila, encostados às casas, olhos vermelhos de doenças, clicava tudo.

O conflito sentia-se em todo o lado, em Bissau também, embora não houvesse relatos de episódios violentos dentro da cidade. Claro que via o que se passava, ouvia os helis pousar no Hospital, pertinho deles, quase vizinhos, tinha acesso aos citreps (3) e aos perintreps, era visita frequente da 2ª e da 3ª Rep, almoçava com este e aquele, estava a par do que se passava em todo o território.

O Tintas era companheiro das mesmas lides desde há anos. De baixa estatura, magro, enfezado, aparência tímida mas muita lábia, via-se que era desenrascado há muito. Estiveram juntos em Mafra, juntos seguiram no Carvalho Araújo (4) para os Açores, despediram-se no cais de Ponta Delgada.

Encontraram-se, de novo no mesmo navio, no regresso ao continente. Mobilizados para a Guiné, apanharam o comboio em Santa Apolónia, para o norte, para gozar os dias de licença a que tinham direito e reencontraram-se em Campanhã para o regresso a Lisboa. Passaram os dias na capital, despedindo-se da vida boa que lá se vivia, até embarcarem no Alfredo da Silva. Na véspera do embarque fizeram questão de mandar vir lagosta e champanhe francês, no Solmar, ali nas portas de Santo Antão. Davam-se, não ligavam às mesmas coisas, nem eram muito parecidos mas entendiam-se bem. O acaso fizera com que se juntassem nesse percurso. Já em Bissau, com o capitão Matos e outros companheiros da viagem, separaram-se, até um dia destes.

Numa dessas visitas ao QG soube que o Tintas tinha sido preso no Senegal. A comunicação oficial era confusa, não se entendia bem, se tinha sido apanhado, se desertara. Certo é que tinha sido levado para Dacar.

O Tintas estava a comandar um pelotão reforçado em Sare Bacar, no norte, para leste, encostado ao Senegal, uma zona calma, comparada com as outras. O PAIGC, na altura, servia-se das fronteiras do Senegal mais como corredores de passagem para o interior e o Shenghor (5) não queria problemas, já tinha que chegassem.

Levava uma vida tranquila, mantinha boas relações com a população local. Terá sido abordado pela polícia, em território senegalês, quando, sentado a uma mesa, defrontava um frango que lhe tinham preparado, disse mais tarde. Puseram-lhe as algemas e meteram-no num jeep a caminho de Koldá.

Depois de ouvido foi para a cadeia de Ziguinchor e por lá ficou uma semana, enquanto se desenvolviam negociações, por intermédio da família, que o Estado não se meteu. A Igreja interessou-se, a Cruz Vermelha Internacional intercedeu, levaram-no para Dacar, onde foi presente a um juiz que decidiu recambiá-lo para Lisboa.

Mas ele não queria, temia represálias, queria voltar a Sare Bacar. Semanas depois, acabou por ser entregue na fronteira às autoridades militares portuguesas.
_____

(1) Bairro de Bissau
(2) Amendoim
(3) Relatórios Militares
(4) Navio apreendido aos alemães na fase final da 2ª Guerra. Fazia o curso para as Ilhas.
(5) Leopold Shengor, Presidente do Senegal

Guiné 63/74 - CDXXXVIII: Mais estórias do Virgínio Briote (1): o Tintas fugiu ?

Viva Luís,

Estou de regresso com mais dois episódios das minhas memórias da Guiné.
Um abraço a todos os camaradas.
vb
_______

Saudamos o regresso do nosso camarada vb. Publicamos hoje o primeiro desses "episódios". LG


1. O TINTAS FUGIU?

Alternava períodos no mato com uma semana em Brá. Aproveitava esses dias para manter-se em forma, praticava tiro, mantinha o grupo em instrução diária, ao fim do dia ia até Bissau, dava uns passeios a pé. No fim de jantar, quando tinha vontade, punha a escrita em dia e lia pela noite fora.

Não havia muito para fazer na cidade. O hotel Portugal onde se reunia ao jantar com os conhecidos, o Fonseca de vez em quando para comer frango assado com batatas fritas aos paus, enormes, ou beber cerveja cá fora com um cesto de ostras ao lado.

Parava na esplanada do Bento, quase sempre a abarrotar de fardas, obrigatório para quem queria encontrar companheiros destacados no mato, em trânsito por Bissau, para consultas médicas, tratar de assuntos dos destacamentos ou à espera do avião para férias na metrópole.
Não lhe saíam da cabeça, as férias, ver a família, os amigos, a namorada, ir ao cinema, apanhar um ar diferente. Um entusiasmo, só de pensar, estavam á porta, um ou dois meses se tanto, ia descontando os dias.

Atravessava a fase fotográfica, ia para o Cupilão (1), negras com os bebés às costas a pilarem o arroz, mancarra (2) a secar, crianças a brincar, velhos negros de barbas brancas, curvados, a cortar as unhas dos pés com a catana enorme na mão, outros sentados em fila, encostados às casas, olhos vermelhos de doenças, clicava tudo.

O conflito sentia-se em todo o lado, em Bissau também, embora não houvesse relatos de episódios violentos dentro da cidade. Claro que via o que se passava, ouvia os helis pousar no Hospital, pertinho deles, quase vizinhos, tinha acesso aos citreps (3) e aos perintreps, era visita frequente da 2ª e da 3ª Rep, almoçava com este e aquele, estava a par do que se passava em todo o território.

O Tintas era companheiro das mesmas lides desde há anos. De baixa estatura, magro, enfezado, aparência tímida mas muita lábia, via-se que era desenrascado há muito. Estiveram juntos em Mafra, juntos seguiram no Carvalho Araújo (4) para os Açores, despediram-se no cais de Ponta Delgada.

Encontraram-se, de novo no mesmo navio, no regresso ao continente. Mobilizados para a Guiné, apanharam o comboio em Santa Apolónia, para o norte, para gozar os dias de licença a que tinham direito e reencontraram-se em Campanhã para o regresso a Lisboa. Passaram os dias na capital, despedindo-se da vida boa que lá se vivia, até embarcarem no Alfredo da Silva. Na véspera do embarque fizeram questão de mandar vir lagosta e champanhe francês, no Solmar, ali nas portas de Santo Antão. Davam-se, não ligavam às mesmas coisas, nem eram muito parecidos mas entendiam-se bem. O acaso fizera com que se juntassem nesse percurso. Já em Bissau, com o capitão Matos e outros companheiros da viagem, separaram-se, até um dia destes.

Numa dessas visitas ao QG soube que o Tintas tinha sido preso no Senegal. A comunicação oficial era confusa, não se entendia bem, se tinha sido apanhado, se desertara. Certo é que tinha sido levado para Dacar.

O Tintas estava a comandar um pelotão reforçado em Sare Bacar, no norte, para leste, encostado ao Senegal, uma zona calma, comparada com as outras. O PAIGC, na altura, servia-se das fronteiras do Senegal mais como corredores de passagem para o interior e o Shenghor (5) não queria problemas, já tinha que chegassem.

Levava uma vida tranquila, mantinha boas relações com a população local. Terá sido abordado pela polícia, em território senegalês, quando, sentado a uma mesa, defrontava um frango que lhe tinham preparado, disse mais tarde. Puseram-lhe as algemas e meteram-no num jeep a caminho de Koldá.

Depois de ouvido foi para a cadeia de Ziguinchor e por lá ficou uma semana, enquanto se desenvolviam negociações, por intermédio da família, que o Estado não se meteu. A Igreja interessou-se, a Cruz Vermelha Internacional intercedeu, levaram-no para Dacar, onde foi presente a um juiz que decidiu recambiá-lo para Lisboa.

Mas ele não queria, temia represálias, queria voltar a Sare Bacar. Semanas depois, acabou por ser entregue na fronteira às autoridades militares portuguesas.
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(1) Bairro de Bissau
(2) Amendoim
(3) Relatórios Militares
(4) Navio apreendido aos alemães na fase final da 2ª Guerra. Fazia o curso para as Ilhas.
(5) Leopold Shengor, Presidente do Senegal

Guiné 63/74 - CDXXXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (1): Prelúdio(s)

Guiné > Guileje > 1967 > Foto aérea do aquartelamento e tabanca.

© José Neto (2005) (1)


O Zé Neto é o patriarca da nossa tertúlia. Pela sua idade e pela sua experiência como homem e como militar (que andou por Macau, Cabinda, Guiné, outra vez Angola...) merece o nosso respeito e, mais do que isso, um tratamento carinhoso.

Há dias escreveu-me um e-mail muito bonito mas que eu interpreto como sendo também uma homenagem aos demais amigos e camaradas desta tertúlia. É um homem, de resto, com um forte sentido de lealdade mas também de bom senso, que o impede, por exemplo, de identificar camaradas que ainda hoje estão vivos e cujo comportamento, em 1967/68, deixava muito a desejar... Diz ele: "Eu sei que, a partir do momento em que me dispus a fazer parte da nossa tertúlia, é meu dever partilhar com todos as minhas recordações da Guiné. Sei também que alguns dos meus estimados Furriéis, Cabos e Soldados que têm Internet visitam regularmente o blogue (fui eu que os induzi a tal)(...)". Há, porém, "comparsas da história" que limitam a divulgação, de um ou outro ponto, do texto do Zé Neto...

Vamos ter em linha de conta esta louvável preocupação do Zé Neto em não transformnar este blogue num tribunal de opinião pública sobre a guerra colonial (que, de facto, não é nem pretende ser):


Meu caro Luis:

Depois de muito meditar cheguei à conclusão de que, pelo menos tu, mereces a minha confiança para partillhar contigo uma parte "muito significativa" das memórias da minha vida militar. São trinta e três páginas retiradas (e ampliadas) das 265 que fui escrevendo ao correr da pena para responder a milhentas perguntas que o meu neto Afonso, um jovem de 17 anos, que pensava que o avô materno andou em África só "a matar pretos" enquanto que o paterno, médico branco de Angola, matava leões sentado numa esplanada de Nova Lisboa (Huambo). Coisas de família...

Já cedi este modesto trabalho à AD do Pepito e conto não o fazer mais, por enquanto. É, como já te disse, uma perspectiva um tanto diferente dos relatos do blogue, mas é assim que sei contar as minhas angústias e sucessos.

Diz qualquer coisa. Até breve.
Um abraço do "patriarca" Zé Neto


O capitão, reformado, José Neto. Há dias tinha-lhe pedido duas 'chapas', uma dos gloriosos tempos de Guiné e outra mais recente, mais condizente com o dolce far niente do repouso do guerreiro.... Eis a resposta dele, sempre bem-humorada:

"Falaste em eu 'não ficar mal na fotografia' e lembrei-me que ainda minguém, no blogue, conhece a minha cara. Do tempo da Guiné não tenho, por enquanto, porque, como já disse, estão todas em Leiria para digitalizar. Das recentes tenho para aqui umas, mais engravatado, menos retocado, mas escolhi esta que é mais 'retrato' do que 'foto', que a minha neta Leonor captou e usa no ecrã do 'télélé'. Guarda aí até virem as outras". Não há dúvida que o Zé Neto, com estes netos (a Leonor, o Afonso...), é um avô babado e sortudo... E nós também ficámos a ganhar: temos o privilégio de sermos, depois do Afonso e do Pepito, os primeiros leitores das suas memórias de Guileje... A propósito: escrevo Guileje, e não Guilege, como o Zé (ou Guiledje, como o Pepito), de acordo com a grafia usada pelos Serviços Cartográficos do Exército... Não me levem a mal, nem um nem outro. L.G.



Extracto das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613, o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado).

I Parte - Anotações prévias


Nas páginas que deixo para trás, respeitantes à Guiné, descrevo a maneira atribulada, para não dizer trapalhona, como o meu Batalhão, e por arrasto a minha Companhia, CART 1613, foi parar àquela Província Ultramarina e os remendos que se seguiram.

Resumindo:

O Batalhão de Artilharia nº 1896 (BART 1896) foi formado no RAP 2, Vila Nova de Gaia, com destino a Angola.

Depois da instrução dos recrutas foi confirmado esse destino, em 29 de Julho de 1966, e, como havia de se fazer a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO) em Viana do Castelo, tal não foi possível porque tinha sido adiado o embarque ao batalhão que ocupava as instalações militares daquela cidade minhota.

Ao mesmo tempo o RAP 2 deu início à formação de mais um batalhão, pelo que o pessoal da Unidade foi distribuído por quartéis velhos, alguns já desactivados, na área do grande Porto.

A minha Companhia foi aquartelar nas antigas e quase desmanteladas instalações do GACA 3, em Espinho.

No fim de Agosto solucionou-se o “engarrafamento de batalhões” e seguimos para Viana do Castelo.

Já a IAO ia a meio quando, em 24 de Setembro de 1966, foi alterado o destino do Batalhão para Moçambique.

Depois de introduzidas algumas alterações no planeamento da IAO (derivado à diferença da morfologia do terreno…?) continuou a referida instrução. Estava a IAO terminada e o Batalhão pronto para seguir quando, em 6 de Outubro de 1966, chegou a ordem para demandarmos a Guiné.

Iniciou-se nova IAO, com temas mais virados para terrenos alagadiços, mas, em fim de Verão as nossas "bolanhas" estavam secas. Fez-se o que foi possível… Embarcámos em Lisboa no dia 12 de Novembro e desembarcamos em Bissau em 18 do mesmo mês.

Como batalhão de reforço seguiu em "ordem de marcha" o que significa que, desde a esferográfica, passando pelos lençóis, até à mais pesada viatura auto, tudo foi connosco.

Aquartelamos no campo militar de Brá e… a trapalhada continuou. As três companhias operacionais (CART 1612, 1613 e 1614) foram desligadas do comando do Batalhão e as primeira e terceira seguiram para reforço doutros batalhões enquanto que a segunda (CART 1613) foi destinada a Unidade de Intervenção à ordem do Comando-chefe, continuando aquartelada em Brá.

Mais treino operacional para a 1613, desta vez na área de Tite, mais propriamente em São João e treino de saltos de helicóptero para um grupo de combate de voluntários de entre o efectivo da companhia.

De Janeiro a Maio de 1967 a CART 1613 andou de colchão pneumático às costas e tendo por caserna a copa das árvores, a “biscatar” pelo território da Província, com maior incidência nas zonas de Pelundo e Jolmete.

Com a atribuição da responsabilidade do Sector S 2, com sede em Buba, ao BART 1896, este reagrupou-se e a CART 1613 foi instalar-se nas povoações de Colibuia e Cumbijã, onde nunca tinha estado qualquer unidade militar.

Por ali andou em trabalhos de construção de cobertos e abrigos para a imensa tralha de materiais que levara da Metrópole.

Menos de dois meses depois, em 17 de Junho de 1967, um Gr Comb deslocou-se para o futuro destino de quadrícula, ou seja, área de ocupação definida, e duas semanas depois seguiu-se a transferência para Guileje.

_____

Notas de L.G.

(1) Sobre a história desta foto, vd post de 5 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXXIX: José Neto, outro senhor de Guileje (CART 1613, 1967/68)

(2) Região de Quínara, no sul

Guiné 63/74 - CDXXXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (1): Prelúdio(s)

Guiné > Guileje > 1967 > Foto aérea do aquartelamento e tabanca.

© José Neto (2005) (1)


O Zé Neto é o patriarca da nossa tertúlia. Pela sua idade e pela sua experiência como homem e como militar (que andou por Macau, Cabinda, Guiné, outra vez Angola...) merece o nosso respeito e, mais do que isso, um tratamento carinhoso.

Há dias escreveu-me um e-mail muito bonito mas que eu interpreto como sendo também uma homenagem aos demais amigos e camaradas desta tertúlia. É um homem, de resto, com um forte sentido de lealdade mas também de bom senso, que o impede, por exemplo, de identificar camaradas que ainda hoje estão vivos e cujo comportamento, em 1967/68, deixava muito a desejar... Diz ele: "Eu sei que, a partir do momento em que me dispus a fazer parte da nossa tertúlia, é meu dever partilhar com todos as minhas recordações da Guiné. Sei também que alguns dos meus estimados Furriéis, Cabos e Soldados que têm Internet visitam regularmente o blogue (fui eu que os induzi a tal)(...)". Há, porém, "comparsas da história" que limitam a divulgação, de um ou outro ponto, do texto do Zé Neto...

Vamos ter em linha de conta esta louvável preocupação do Zé Neto em não transformnar este blogue num tribunal de opinião pública sobre a guerra colonial (que, de facto, não é nem pretende ser):


Meu caro Luis:

Depois de muito meditar cheguei à conclusão de que, pelo menos tu, mereces a minha confiança para partillhar contigo uma parte "muito significativa" das memórias da minha vida militar. São trinta e três páginas retiradas (e ampliadas) das 265 que fui escrevendo ao correr da pena para responder a milhentas perguntas que o meu neto Afonso, um jovem de 17 anos, que pensava que o avô materno andou em África só "a matar pretos" enquanto que o paterno, médico branco de Angola, matava leões sentado numa esplanada de Nova Lisboa (Huambo). Coisas de família...

Já cedi este modesto trabalho à AD do Pepito e conto não o fazer mais, por enquanto. É, como já te disse, uma perspectiva um tanto diferente dos relatos do blogue, mas é assim que sei contar as minhas angústias e sucessos.

Diz qualquer coisa. Até breve.
Um abraço do "patriarca" Zé Neto


O capitão, reformado, José Neto. Há dias tinha-lhe pedido duas 'chapas', uma dos gloriosos tempos de Guiné e outra mais recente, mais condizente com o dolce far niente do repouso do guerreiro.... Eis a resposta dele, sempre bem-humorada:

"Falaste em eu 'não ficar mal na fotografia' e lembrei-me que ainda minguém, no blogue, conhece a minha cara. Do tempo da Guiné não tenho, por enquanto, porque, como já disse, estão todas em Leiria para digitalizar. Das recentes tenho para aqui umas, mais engravatado, menos retocado, mas escolhi esta que é mais 'retrato' do que 'foto', que a minha neta Leonor captou e usa no ecrã do 'télélé'. Guarda aí até virem as outras". Não há dúvida que o Zé Neto, com estes netos (a Leonor, o Afonso...), é um avô babado e sortudo... E nós também ficámos a ganhar: temos o privilégio de sermos, depois do Afonso e do Pepito, os primeiros leitores das suas memórias de Guileje... A propósito: escrevo Guileje, e não Guilege, como o Zé (ou Guiledje, como o Pepito), de acordo com a grafia usada pelos Serviços Cartográficos do Exército... Não me levem a mal, nem um nem outro. L.G.



Extracto das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613, o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado).

I Parte - Anotações prévias


Nas páginas que deixo para trás, respeitantes à Guiné, descrevo a maneira atribulada, para não dizer trapalhona, como o meu Batalhão, e por arrasto a minha Companhia, CART 1613, foi parar àquela Província Ultramarina e os remendos que se seguiram.

Resumindo:

O Batalhão de Artilharia nº 1896 (BART 1896) foi formado no RAP 2, Vila Nova de Gaia, com destino a Angola.

Depois da instrução dos recrutas foi confirmado esse destino, em 29 de Julho de 1966, e, como havia de se fazer a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO) em Viana do Castelo, tal não foi possível porque tinha sido adiado o embarque ao batalhão que ocupava as instalações militares daquela cidade minhota.

Ao mesmo tempo o RAP 2 deu início à formação de mais um batalhão, pelo que o pessoal da Unidade foi distribuído por quartéis velhos, alguns já desactivados, na área do grande Porto.

A minha Companhia foi aquartelar nas antigas e quase desmanteladas instalações do GACA 3, em Espinho.

No fim de Agosto solucionou-se o “engarrafamento de batalhões” e seguimos para Viana do Castelo.

Já a IAO ia a meio quando, em 24 de Setembro de 1966, foi alterado o destino do Batalhão para Moçambique.

Depois de introduzidas algumas alterações no planeamento da IAO (derivado à diferença da morfologia do terreno…?) continuou a referida instrução. Estava a IAO terminada e o Batalhão pronto para seguir quando, em 6 de Outubro de 1966, chegou a ordem para demandarmos a Guiné.

Iniciou-se nova IAO, com temas mais virados para terrenos alagadiços, mas, em fim de Verão as nossas "bolanhas" estavam secas. Fez-se o que foi possível… Embarcámos em Lisboa no dia 12 de Novembro e desembarcamos em Bissau em 18 do mesmo mês.

Como batalhão de reforço seguiu em "ordem de marcha" o que significa que, desde a esferográfica, passando pelos lençóis, até à mais pesada viatura auto, tudo foi connosco.

Aquartelamos no campo militar de Brá e… a trapalhada continuou. As três companhias operacionais (CART 1612, 1613 e 1614) foram desligadas do comando do Batalhão e as primeira e terceira seguiram para reforço doutros batalhões enquanto que a segunda (CART 1613) foi destinada a Unidade de Intervenção à ordem do Comando-chefe, continuando aquartelada em Brá.

Mais treino operacional para a 1613, desta vez na área de Tite, mais propriamente em São João e treino de saltos de helicóptero para um grupo de combate de voluntários de entre o efectivo da companhia.

De Janeiro a Maio de 1967 a CART 1613 andou de colchão pneumático às costas e tendo por caserna a copa das árvores, a “biscatar” pelo território da Província, com maior incidência nas zonas de Pelundo e Jolmete.

Com a atribuição da responsabilidade do Sector S 2, com sede em Buba, ao BART 1896, este reagrupou-se e a CART 1613 foi instalar-se nas povoações de Colibuia e Cumbijã, onde nunca tinha estado qualquer unidade militar.

Por ali andou em trabalhos de construção de cobertos e abrigos para a imensa tralha de materiais que levara da Metrópole.

Menos de dois meses depois, em 17 de Junho de 1967, um Gr Comb deslocou-se para o futuro destino de quadrícula, ou seja, área de ocupação definida, e duas semanas depois seguiu-se a transferência para Guileje.

_____

Notas de L.G.

(1) Sobre a história desta foto, vd post de 5 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXXIX: José Neto, outro senhor de Guileje (CART 1613, 1967/68)

(2) Região de Quínara, no sul

Guiné 63/74 - CDXXXVI: Um bigrupo, quantos homens eram ?

Guiné > Região de Quínara > Buba > 1968

Tropas do PAIGC atacam o aquartelamento de Buba, na "Frente Sul", em Fevereiro de 1968. À direita, Lando Mane, comandante do grupo-B 30.

Foto: World in Action, Granada TV. Fonte: DAVIDSON, Basil. The liberation of Guiné: aspects of an African revolution. (With a foreword by Amilcar Cabral). Harmondsworth, G.B.: Penguin Books, (Penguin African Library; 27), 1969 (Imagem gentilmente cedida à tertúlia por Jorge Santos, 2005)


1. Há dias, na tertúlia, houve uma saudável e amigável discussão sobre o tamanho de um bigrupo. O Zé Neto comentava, com muito interesse, o diário do Zé Teixeira (1): "Hoje deu-me para revisor. São manias!!! Tenho acompanhado com interesse especial o Diário do José Teixeira por uma simples razão: Eu estava em Buba, com a CART 1613 (Os lenços verdes) quando a companhia dele lá desembarcou"....Mas mais adiante faz um reparo: "Só que ele [José Teixeira] não era obrigado a conhecer a orgânica do IN e escreve (...) que foram emboscados 'por dois bigrupos'. Dois bigrupos eram quatrocentos homens. É muita fruta, não achas?"...

No meu tempo e na zona leste, um bigrupo não ultrapassava os 50/60 homens. Foi isso que transmiti ao Zé Neto. Mas antes disso consultei o meu especialista militar, o nosso coronel (DFA), reformado, A. Marque Lopes... A resposta que ele me deu e que levou o Zé Neto a reconhecer o seu lapso (motivado por pura distracção), merece ser inserida no blogue e conhecida por todos. O nosso blogue também prima pela cultura do rigor... Aqui vai. L.G.

2. Texto do A. Marques Lopes (que foi alferes milicano da CART 1690, em Geba; e da CCAÇ 3, em Barro, entre 1967/68; desmobilizado como tenente miliciano, acabou por fazer a carreira militar, tendo-se reformado com o posto de coronel, DFA):

Não sou propriamente um especialista, é apenas uma reflexão ditada pela experiência vivida. Nem pensar em 400 o número de combatentes de dois bigrupos. Os efectivos variavam entre 50/60. Dois bigrupos iam aos 100, mais ou menos. Podendo variar conforme o número de elementos recrutados em cada sector. São esses os números que aparecem nos relatórios de operações.

O bigrupo era aquilo que podemos chamar a companhia no exército do PAIGC, quando decidiu dar um passo na organização da guerrilha em termos formais, com estrutura de comando, com armamento distribuído uniformemente por cada unidade (o bigrupo), onde cada um tinha a sua função: havia os apontadores de RPG, os de metralhadora pesada, os de morteiro, os atiradores de kalash... quando avançaram para a organização de operações.

Guiné > "Frente Sul" > s/d >

O secretário-geral do PAIGC Amilcar Cabral, à direita, com Nino (Bernardo Vieira), à esquerda, "no comando da Frente Sul".

Foto: PAIGC. Fonte: DAVIDSON, Basil. The liberation of Guiné: aspects of an African revolution. (With a foreword by Amilcar Cabral). Harmondsworth, G.B.: Penguin Books, (Penguin African Library; 27), 1969 (Imagem gentilmente cedida à tertúlia por Jorge Santos, 2005).

A necessidade de dispersão da guerrilha, para ocupação de território e também para fazer face à dispersão das NT por quartéis e destacamentos, com a consequente táctica de ataques dispersos, rápidos e variados, não se coadunava com a existência de unidades daquelas dimensões.

Penso que nem em Guidage os usaram: aí tiveram a vantagem dos apoios e abastecimentos vindos directamente da fronteira com o Senegal. Além de que, se as tivessem, não acredito que, por exemplo, os ataques feitos aos destacamentos da CART 1690 não tivessem tido o mesmo sucesso que aquele de Cantacunda...

Também não me parece, nem conheço exemplo nenhum, que as bases do PAIGC tivessem tão grande número de combatentes. Se assim fosse, não teria sido possível que duas companhias nossas e um grupo de combate (o meu) conseguissem destruir a base de Samba Culo (2)... O PAIGC não tinha, aliás, efectivos em número suficiente para constituir unidades dessa dimensão. Como sucedeu noutros casos também. O caso de Sinchã Jobel (3) foi especial, devido à sua localização geográfica privilegiada, onde nem os comandos conseguiram entrar. Daquela dimensão, ou maiores, só na guerra do Vietnam, mas aí eram unidades formadas na base de toda a população de um país, o Vietnam do Norte. Não era a mesma situação na Guiné (...).
_________

Notas de L.G.

(1) Vd post de 1 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXI: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (2): Buba/Aldeia Formosa, Julho de 1968

(2) Vd. post de A. Marques Lopes > 8d e Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLIX: Samba Culo II

(3) Vd. posts de A. Marques Lopes:

30 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXV: Uma estória de Sinchã Jobel ou a noite em que o Alferes Lopes dormiu na bolanha (1967)

5 de Junbho de 2005 > Guiné 69/71 - XLV: Sinchã Jobel VII

Guiné 63/74 - CDXXXVI: Um bigrupo, quantos homens eram ?

Guiné > Região de Quínara > Buba > 1968

Tropas do PAIGC atacam o aquartelamento de Buba, na "Frente Sul", em Fevereiro de 1968. À direita, Lando Mane, comandante do grupo-B 30.

Foto: World in Action, Granada TV. Fonte: DAVIDSON, Basil. The liberation of Guiné: aspects of an African revolution. (With a foreword by Amilcar Cabral). Harmondsworth, G.B.: Penguin Books, (Penguin African Library; 27), 1969 (Imagem gentilmente cedida à tertúlia por Jorge Santos, 2005)


1. Há dias, na tertúlia, houve uma saudável e amigável discussão sobre o tamanho de um bigrupo. O Zé Neto comentava, com muito interesse, o diário do Zé Teixeira (1): "Hoje deu-me para revisor. São manias!!! Tenho acompanhado com interesse especial o Diário do José Teixeira por uma simples razão: Eu estava em Buba, com a CART 1613 (Os lenços verdes) quando a companhia dele lá desembarcou"....Mas mais adiante faz um reparo: "Só que ele [José Teixeira] não era obrigado a conhecer a orgânica do IN e escreve (...) que foram emboscados 'por dois bigrupos'. Dois bigrupos eram quatrocentos homens. É muita fruta, não achas?"...

No meu tempo e na zona leste, um bigrupo não ultrapassava os 50/60 homens. Foi isso que transmiti ao Zé Neto. Mas antes disso consultei o meu especialista militar, o nosso coronel (DFA), reformado, A. Marque Lopes... A resposta que ele me deu e que levou o Zé Neto a reconhecer o seu lapso (motivado por pura distracção), merece ser inserida no blogue e conhecida por todos. O nosso blogue também prima pela cultura do rigor... Aqui vai. L.G.

2. Texto do A. Marques Lopes (que foi alferes milicano da CART 1690, em Geba; e da CCAÇ 3, em Barro, entre 1967/68; desmobilizado como tenente miliciano, acabou por fazer a carreira militar, tendo-se reformado com o posto de coronel, DFA):

Não sou propriamente um especialista, é apenas uma reflexão ditada pela experiência vivida. Nem pensar em 400 o número de combatentes de dois bigrupos. Os efectivos variavam entre 50/60. Dois bigrupos iam aos 100, mais ou menos. Podendo variar conforme o número de elementos recrutados em cada sector. São esses os números que aparecem nos relatórios de operações.

O bigrupo era aquilo que podemos chamar a companhia no exército do PAIGC, quando decidiu dar um passo na organização da guerrilha em termos formais, com estrutura de comando, com armamento distribuído uniformemente por cada unidade (o bigrupo), onde cada um tinha a sua função: havia os apontadores de RPG, os de metralhadora pesada, os de morteiro, os atiradores de kalash... quando avançaram para a organização de operações.

Guiné > "Frente Sul" > s/d >

O secretário-geral do PAIGC Amilcar Cabral, à direita, com Nino (Bernardo Vieira), à esquerda, "no comando da Frente Sul".

Foto: PAIGC. Fonte: DAVIDSON, Basil. The liberation of Guiné: aspects of an African revolution. (With a foreword by Amilcar Cabral). Harmondsworth, G.B.: Penguin Books, (Penguin African Library; 27), 1969 (Imagem gentilmente cedida à tertúlia por Jorge Santos, 2005).

A necessidade de dispersão da guerrilha, para ocupação de território e também para fazer face à dispersão das NT por quartéis e destacamentos, com a consequente táctica de ataques dispersos, rápidos e variados, não se coadunava com a existência de unidades daquelas dimensões.

Penso que nem em Guidage os usaram: aí tiveram a vantagem dos apoios e abastecimentos vindos directamente da fronteira com o Senegal. Além de que, se as tivessem, não acredito que, por exemplo, os ataques feitos aos destacamentos da CART 1690 não tivessem tido o mesmo sucesso que aquele de Cantacunda...

Também não me parece, nem conheço exemplo nenhum, que as bases do PAIGC tivessem tão grande número de combatentes. Se assim fosse, não teria sido possível que duas companhias nossas e um grupo de combate (o meu) conseguissem destruir a base de Samba Culo (2)... O PAIGC não tinha, aliás, efectivos em número suficiente para constituir unidades dessa dimensão. Como sucedeu noutros casos também. O caso de Sinchã Jobel (3) foi especial, devido à sua localização geográfica privilegiada, onde nem os comandos conseguiram entrar. Daquela dimensão, ou maiores, só na guerra do Vietnam, mas aí eram unidades formadas na base de toda a população de um país, o Vietnam do Norte. Não era a mesma situação na Guiné (...).
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Notas de L.G.

(1) Vd post de 1 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXI: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (2): Buba/Aldeia Formosa, Julho de 1968

(2) Vd. post de A. Marques Lopes > 8d e Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLIX: Samba Culo II

(3) Vd. posts de A. Marques Lopes:

30 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXXV: Uma estória de Sinchã Jobel ou a noite em que o Alferes Lopes dormiu na bolanha (1967)

5 de Junbho de 2005 > Guiné 69/71 - XLV: Sinchã Jobel VII

09 janeiro 2006

Guine 63/74 - CDXXXV: O que os outros (blogues) dizem de nós (1): Caminhos por onde andei


Guiné > "Frente Sul" > Fevereiro de 1968 > Carmen Pereira, comissária política do PAIGC

(Foto: John Sheppard, Granada TV. Fonte: DAVIDSON, Basil. The liberation of Guiné: aspects of an African revolution. (With a foreword by Amilcar Cabral). Harmondsworth, G.B.: Penguin Books, (Penguin African Library; 27), 1969 (Imagem gentilmente cedida à tertúlia por Jorge Santos, 2005)


1. Manuela Gonçalves (Nela) mandou-nos a seguinte mensagem, que nos honra e que eu agradeço vivamente em nome dos amigos e camaradas de tertúlia. Reproduzo, com a devida vénia e para conhecimento de todos, o que ela escreveu sobre nós e a sobre a sua Guiné revisitada, no seu próprio blogue.

Devo sublinhar quão importante é o seu ponto de vista, já que nos faltam testemunhos (escritos) das nossas companheiras, que viveram a guerra de África através das fotos e dos aerogramas que mandávamos pelo SPM, tendo elas aprendido a ler nas entrelinhas. Aliás, faltam-nos também os testemunhos das corajosas mulheres que, do outro lado, nos combateram... como foi o caso, por exemplo, de Carmen Pereira (n. 1937), cuja foto publicamos, como um pequeno gesto de homenagem à única mulher que, na sua qualidade de comissária política da Frente Sul, pertencia ao Comité Executivo da Luta.



Cópia da mensagem:

Não posso deixar de enviar os meus parabéns pela excelente ideia deste blog! Também nós temos muitas recordações de Bissau! Vou recordar alguns desses momentos no meu blog. Continuem o vosso blog!

Blog: Caminhos por onde andeiPost: Guiné- Bissau (1)

Manuel Gonçalves (Nela)

________________________

Sábado, Janeiro 7, 2006

Guiné- Bissau (1)

Esta noite, ao navegar pelos blogs que visito habitualmente, fui parar , através de hiperligações de posts, ao Blogue Fora-Nada, que reúne documentos e memórias de ex-combatentes da Guiné-Bissau!

Não fui combatente na Guiné, mas esses caminhos foram percorridos por mim de modo e tempo diferentes... Tornaram-se mesmo decisivos na minha vida de jovem estudante universitária rebelde , namorada de um alferes miliciano que para ali fora enviado para a guerra , mais tarde meu companheiro de vida (já lá vão 35 anos) e de mulher e mãe, que considerou importante ir para Bissau, como cooperante!

A Guiné dos aerogramas despertara um desejo imenso de conhecer a Guiné das bolanhas, das tabancas, dos mosquitos, dos rios e pântanos e das gentes que ali viviam, dos felupes, dos mandingas, dos papéis, de Amílcar Cabral, dos guerrilheiros do PAIGC...

Nunca tinha aceite a Guerra Colonial, mas uma vez que ela tinha entrado nas nossas vidas abruptamente e deixado incapacidades físicas ao maridão, senti uma vontade imensa de viajar para aquele pequeno país e conhecê-lo bem!

Era como que uma necessidade intrínseca de compreender bem uma etapa importante da vida vivida pelo companheiro de route!

Bissau, Bafatá, Mansoa, São Domingos, Ingoré eram locais que precisávamos (re)visitar.

E fomos lá! Também os nossos filhos nos acompanharam , crianças ainda, viram e pisaram as picadas que, anos antes, o pai cruzara, sempre alerta! Agora podíamos circular livremente, apesar do mau estado das estradas, mas em paz e liberdade!
Gostei da Guiné-Bissau! Voltar lá foi um modo de "exorcizar" fantasmas de guerra que habitavam a nossa casa!

Hei-de voltar ao tema!

Manuela Gonçalves
Blog > Caminhos por onde andei

Guine 63/74 - CDXXXV: O que os outros (blogues) dizem de nós (1): Caminhos por onde andei


Guiné > "Frente Sul" > Fevereiro de 1968 > Carmen Pereira, comissária política do PAIGC

(Foto: John Sheppard, Granada TV. Fonte: DAVIDSON, Basil. The liberation of Guiné: aspects of an African revolution. (With a foreword by Amilcar Cabral). Harmondsworth, G.B.: Penguin Books, (Penguin African Library; 27), 1969 (Imagem gentilmente cedida à tertúlia por Jorge Santos, 2005)


1. Manuela Gonçalves (Nela) mandou-nos a seguinte mensagem, que nos honra e que eu agradeço vivamente em nome dos amigos e camaradas de tertúlia. Reproduzo, com a devida vénia e para conhecimento de todos, o que ela escreveu sobre nós e a sobre a sua Guiné revisitada, no seu próprio blogue.

Devo sublinhar quão importante é o seu ponto de vista, já que nos faltam testemunhos (escritos) das nossas companheiras, que viveram a guerra de África através das fotos e dos aerogramas que mandávamos pelo SPM, tendo elas aprendido a ler nas entrelinhas. Aliás, faltam-nos também os testemunhos das corajosas mulheres que, do outro lado, nos combateram... como foi o caso, por exemplo, de Carmen Pereira (n. 1937), cuja foto publicamos, como um pequeno gesto de homenagem à única mulher que, na sua qualidade de comissária política da Frente Sul, pertencia ao Comité Executivo da Luta.



Cópia da mensagem:

Não posso deixar de enviar os meus parabéns pela excelente ideia deste blog! Também nós temos muitas recordações de Bissau! Vou recordar alguns desses momentos no meu blog. Continuem o vosso blog!

Blog: Caminhos por onde andeiPost: Guiné- Bissau (1)

Manuel Gonçalves (Nela)

________________________

Sábado, Janeiro 7, 2006

Guiné- Bissau (1)

Esta noite, ao navegar pelos blogs que visito habitualmente, fui parar , através de hiperligações de posts, ao Blogue Fora-Nada, que reúne documentos e memórias de ex-combatentes da Guiné-Bissau!

Não fui combatente na Guiné, mas esses caminhos foram percorridos por mim de modo e tempo diferentes... Tornaram-se mesmo decisivos na minha vida de jovem estudante universitária rebelde , namorada de um alferes miliciano que para ali fora enviado para a guerra , mais tarde meu companheiro de vida (já lá vão 35 anos) e de mulher e mãe, que considerou importante ir para Bissau, como cooperante!

A Guiné dos aerogramas despertara um desejo imenso de conhecer a Guiné das bolanhas, das tabancas, dos mosquitos, dos rios e pântanos e das gentes que ali viviam, dos felupes, dos mandingas, dos papéis, de Amílcar Cabral, dos guerrilheiros do PAIGC...

Nunca tinha aceite a Guerra Colonial, mas uma vez que ela tinha entrado nas nossas vidas abruptamente e deixado incapacidades físicas ao maridão, senti uma vontade imensa de viajar para aquele pequeno país e conhecê-lo bem!

Era como que uma necessidade intrínseca de compreender bem uma etapa importante da vida vivida pelo companheiro de route!

Bissau, Bafatá, Mansoa, São Domingos, Ingoré eram locais que precisávamos (re)visitar.

E fomos lá! Também os nossos filhos nos acompanharam , crianças ainda, viram e pisaram as picadas que, anos antes, o pai cruzara, sempre alerta! Agora podíamos circular livremente, apesar do mau estado das estradas, mas em paz e liberdade!
Gostei da Guiné-Bissau! Voltar lá foi um modo de "exorcizar" fantasmas de guerra que habitavam a nossa casa!

Hei-de voltar ao tema!

Manuela Gonçalves
Blog > Caminhos por onde andei

Guiné 63/74 - CDXXXIV: As mesmas andanças (A. Marques Lopes)

Guiné > Zona Leste > Subsector de Geba > CART 1690 > Destacamento de Cantacunda > 1968 > Caminho para Cantacunda. A sede da Companhia, em Geba, ficava a 50 Km.

© A. Marques Lopes (2005)



1. Há um bocado telefonou-me o Jorge Cabral, o único de nós que não levou a guerra a sério e que se divertiu (à grande e à fula...) com a sua (co)missão... como comandante do famoso Pelotão de Caçadores Nativos nº 63... Já temos um almoço mais ou menos marcado para inícios de Fevereiro próximo. Dizia-me ele que se sente honrado por pertencer à nossa tertúlia; em contrapartida, acha que somos todos muitos sérios, que temos uma postura dramática, que ainda fizemos o luto da Guiné e que ele, pelo seu lado, gostaria de contar mais umas estórias divertidas, só que algumas são impublicáveis... Desafiei-o a pô-las em letra de forma, pelo que à volta cá o espero... Entertanto acabo de receber uma prosa, bem-humorada, do nosso coronel A. Marques Lopes que, espero, apreciem e tomem como exemplo e referência... Saibamos também recordar e reconstituir as peripécias, mais ou menos divertidas, por que passámos... Nem tudo foi sangue, suor e lágrimas... Ou foi ?

2. Texto do A. Marques Lopes:

Amigo Marques do Santos, caro camarada das mesmas andanças:

Fico contente por ter encontrado alguém que, como eu, também participou num dos maravilhosos cruzeiros daquele magnífico paquete de luxo que era o Ana Mafalda. Hás-de lembrar-te - eu nunca me hei-de esquecer! - daquela calma e serena saída da barra do Tejo (não sei se tu encontraste o Gregório, eu não, apesar de me fartar de chamar por ele durante a viagem), dos dias de gozo no imenso oceano Atlântico, antes de chegar à entrada do Geba. Comida farta, instalações maravilhosas, gente feliz, momentos inesquecíveis!

E também passaste, como eu, umas ricas férias naquela estância de Cantacunda. Quando eu lá estive as instalações não eram grande coisa, e parece que tu também tens algumas queixas a apresentar, mas, olha, não havia livro de reclamações (só agora o governo do Sócrates é que pensou nisso, mas nem o Salazar nem o Marcelo tinham pensado...).

Desculpa este sarcasmo logo de entrada. Mas o facto de (r)estarmos vivos depois daqueles tormentos passados é que nos dá a capacidade de conseguirmos relevar alguns aspectos irónicos que também tiveram (muitos dos nossos camaradas infelizmente não o podem fazer, porque morreram). São maravilhosos, por exemplo, os relatos do Cabral no nosso blogue.

Quanto ao Ana Mafalda, tu sabes do martírio daquela estadia, e eu também já contei.

Falando a sério de Cantacunda: Depois do ataque IN a este destacamento (na noite fatídica de 10/11 de Abril de 1968), o qual ficou quase totalmente destruído, teve de se proceder a construção do mesmo, com a ajuda do Pelotão de Sapadores da CCS/BCAV 1905:

- Reparação das fiadas de arame farpado;

- Início da construção da pista para DO ficando quase concluída, quando a CART 1690 de lá saíu;

- Reparação de abrigos;

- Construção de 3 abrigos-caserna;

- Construção de abrigo para metralhadora Breda;

- Construção de abrigo para morteiro;

- Reparação do celeiro e cozinha;

- Colocação de duas fiadas de arame farpado;

- Desmatação de uma densa zona arborizada com árvores de grande porte;

- Limpeza e capinagem do aquartelamento;

(Fonte: "História da Unidade - CART 1690")

Mas, como constataste, não terá sido suficiente. Mas penso que terão valido alguma coisa estas obras, dado que, em 26 de Outubro de 1971, já com outra companhia, portanto (ainda não descobri qual era), o destacamento foi atacado, tendo o IN ultrapassado a primeira linha de arame farpado, mas não conseguindo ir mais além; o destacamento aguentou-se e uma coluna que foi em seu auxílio, no dia seguinte, foi emboscada na estrada para Cantacunda (a tal da fotografia já colocada no blogue) e teve 7 mortos e 12 feridos.

"Delila", do Tom Jones, "Puppet on a string", da Sandy Shaw, e "O vento mudou", do Eduardo Nascimento, mas com outra letra (O vento mudou e ela não voltou, e ela partiu, puta qua pariu, nunca mais ninguém a viu...)... também cantámos disso com o giradisco roufenho, ligado ao frigorífico a petróleo! Mais que surrealista, acompanhadas do emborcamento das latas mandadas pelos americanos, de cerveja com cocacola, rum com cocacola, gin com cocacola... Tudo isto dava um filme (também nesta área, não temos aproveitado a fabulosa matéria-prima, burlesca, trágico-cómica, que temos).

Um abraço amigo e até sempre.

A. Marques Lopes

Guiné 63/74 - CDXXXIV: As mesmas andanças (A. Marques Lopes)

Guiné > Zona Leste > Subsector de Geba > CART 1690 > Destacamento de Cantacunda > 1968 > Caminho para Cantacunda. A sede da Companhia, em Geba, ficava a 50 Km.

© A. Marques Lopes (2005)



1. Há um bocado telefonou-me o Jorge Cabral, o único de nós que não levou a guerra a sério e que se divertiu (à grande e à fula...) com a sua (co)missão... como comandante do famoso Pelotão de Caçadores Nativos nº 63... Já temos um almoço mais ou menos marcado para inícios de Fevereiro próximo. Dizia-me ele que se sente honrado por pertencer à nossa tertúlia; em contrapartida, acha que somos todos muitos sérios, que temos uma postura dramática, que ainda fizemos o luto da Guiné e que ele, pelo seu lado, gostaria de contar mais umas estórias divertidas, só que algumas são impublicáveis... Desafiei-o a pô-las em letra de forma, pelo que à volta cá o espero... Entertanto acabo de receber uma prosa, bem-humorada, do nosso coronel A. Marques Lopes que, espero, apreciem e tomem como exemplo e referência... Saibamos também recordar e reconstituir as peripécias, mais ou menos divertidas, por que passámos... Nem tudo foi sangue, suor e lágrimas... Ou foi ?

2. Texto do A. Marques Lopes:

Amigo Marques do Santos, caro camarada das mesmas andanças:

Fico contente por ter encontrado alguém que, como eu, também participou num dos maravilhosos cruzeiros daquele magnífico paquete de luxo que era o Ana Mafalda. Hás-de lembrar-te - eu nunca me hei-de esquecer! - daquela calma e serena saída da barra do Tejo (não sei se tu encontraste o Gregório, eu não, apesar de me fartar de chamar por ele durante a viagem), dos dias de gozo no imenso oceano Atlântico, antes de chegar à entrada do Geba. Comida farta, instalações maravilhosas, gente feliz, momentos inesquecíveis!

E também passaste, como eu, umas ricas férias naquela estância de Cantacunda. Quando eu lá estive as instalações não eram grande coisa, e parece que tu também tens algumas queixas a apresentar, mas, olha, não havia livro de reclamações (só agora o governo do Sócrates é que pensou nisso, mas nem o Salazar nem o Marcelo tinham pensado...).

Desculpa este sarcasmo logo de entrada. Mas o facto de (r)estarmos vivos depois daqueles tormentos passados é que nos dá a capacidade de conseguirmos relevar alguns aspectos irónicos que também tiveram (muitos dos nossos camaradas infelizmente não o podem fazer, porque morreram). São maravilhosos, por exemplo, os relatos do Cabral no nosso blogue.

Quanto ao Ana Mafalda, tu sabes do martírio daquela estadia, e eu também já contei.

Falando a sério de Cantacunda: Depois do ataque IN a este destacamento (na noite fatídica de 10/11 de Abril de 1968), o qual ficou quase totalmente destruído, teve de se proceder a construção do mesmo, com a ajuda do Pelotão de Sapadores da CCS/BCAV 1905:

- Reparação das fiadas de arame farpado;

- Início da construção da pista para DO ficando quase concluída, quando a CART 1690 de lá saíu;

- Reparação de abrigos;

- Construção de 3 abrigos-caserna;

- Construção de abrigo para metralhadora Breda;

- Construção de abrigo para morteiro;

- Reparação do celeiro e cozinha;

- Colocação de duas fiadas de arame farpado;

- Desmatação de uma densa zona arborizada com árvores de grande porte;

- Limpeza e capinagem do aquartelamento;

(Fonte: "História da Unidade - CART 1690")

Mas, como constataste, não terá sido suficiente. Mas penso que terão valido alguma coisa estas obras, dado que, em 26 de Outubro de 1971, já com outra companhia, portanto (ainda não descobri qual era), o destacamento foi atacado, tendo o IN ultrapassado a primeira linha de arame farpado, mas não conseguindo ir mais além; o destacamento aguentou-se e uma coluna que foi em seu auxílio, no dia seguinte, foi emboscada na estrada para Cantacunda (a tal da fotografia já colocada no blogue) e teve 7 mortos e 12 feridos.

"Delila", do Tom Jones, "Puppet on a string", da Sandy Shaw, e "O vento mudou", do Eduardo Nascimento, mas com outra letra (O vento mudou e ela não voltou, e ela partiu, puta qua pariu, nunca mais ninguém a viu...)... também cantámos disso com o giradisco roufenho, ligado ao frigorífico a petróleo! Mais que surrealista, acompanhadas do emborcamento das latas mandadas pelos americanos, de cerveja com cocacola, rum com cocacola, gin com cocacola... Tudo isto dava um filme (também nesta área, não temos aproveitado a fabulosa matéria-prima, burlesca, trágico-cómica, que temos).

Um abraço amigo e até sempre.

A. Marques Lopes