blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
10 maio 2006
Guiné 63/74 - DCCXLII: O poilão dos fuzilamentos em Bambadinca (David Guimarães)
Órfãos de Pátria intitulava-se a primeira peça do programa Em Reportagem, da autoria do jornalista António Mateus.
Eu tinha mandado um lembrete a todo o pessoal da tertúlia e pedi inclusive um voluntário para tirar umas notas, visionar o programa e escrever um pequeno texto para o blogue. Recebi de imediato uma nota, crítica e de frustação, assinada pelo José Martins (CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70).:
- A montanha pariu uma rato! - disse ele.
Para o nosso camarada, o porgrama não trouxe nada de novo. E sobretudo perdeu-se uma oportunidade, a de fazer a justa homenagem aos guineenses que combaterem ao nosso lado e que se sentiam tão portugueses como nós:
"É pena que, mais uma vez, se tenha perdido a oportunidade de, pelo menos, prestar uma homenagem aqueles que, generosamente, defenderam uma terra que era sua e agora se sentem estrangeiros na própria terra".
O tema não é fácil, para nenhum de nós. Ainda há um bocado me telefonou o Jorge Cabral a perguntar se tinha visto o programa (perdi a primeira parte) e se tinha reconhecido o trsitemente famoso poilão dos fuzilamentos em Bambadinca, à beira da estrada:
- Passei por ele montes de vezes!
Para o Jorge Cabral que tem uma visão crítica da guerra e da nossa presença na Guiné ("só conhecemos a guerra, nunca conhecemos a Guiné, a sua cultura, a sua história, a história da sua violenta pacificação pelos portugueses"...) (1), é doloroso relembrar o destino trágico de antigos combatentes que ele conheceu e com quem privou, em Fá Mandinga e em Bissau, e alguns dos quais eram seus amigos: o Saegue, O Jamanca, o Camará...
2. Outro comentário que me chegou, cauteloso, foi o do David Guimarães (ex-Furriel Miliciano, CART 2716, Xitole, 1970-1972):
Luís: Eu vi o programa e direi porque não o quererei comentar no blogue... Como sabes, existe muita gente que tem amigos lá na Guiné - é assim e decerto eu também tenho...
Quanto ao que aconteceu, ainda um dia destes alguém queria incriminar o Nino Vieira. Ora bem, tudo isso se passou no tempo de Luís Cabral. Mas a sentença estava escrita desde 1973: isso sabe-se desde a declaração da Independência no Boé. Sabes que eu entendo que aquele povo tinha razão! Acho mesmo que os Comandos foram traidores à sua Pátria: não desmobilizaram e continuaram a lutar contra a sua pátria...
Se tivessem desmobilizado e entregue aos seus pátrios guerreiros e irmãos de raça, decerto não seriam mortos. Bem, mas isso é uma questão deles...
Outra, contudo, é a acusação que Luís Cabral faz a Nino Vieira, dizendo que este como Chefe das Forças Armadas teria sido o executante e responsável por tais actos sendo que ele não saberia de nada... Isso deve ser uma grande mentira, mas enfim quem tem razão ?!...
Existem as dores do crescimento da democracia: a Guiné padeceu mais ainda... e continua a padecer, pois não se entendem...
Sei da posição de alguns bloguistas que estão mortinhos por começar a falar de política... Ai, Luís, que os maiores culpados decerto até fomos nós, que abandonámos aquela gente... Ora eles tinham a nacionalidade portuguesa, tinham as mais altas condecorações portuguesas e os nossos governantes da altura (e de agora) nem se mexeram...
O Nino hoje [na reportagem] disse e teve razão, apontando a principal culpa aos Portugueses. Naturalmente, se trouxemos os brancos, os negros também viriam, se quisessem... Então, sim, não tínhamos que nos penitenciar...
Vi o programa todo e vi Bambadinca - a nossa Bambadinca... Decerto ou sou romântico demais ou sou parvo, mas naquela altura todo o combatente anti-pátria da Guiné, já independente em Madina de Boé, passou à qualidade de traidor à Pátria...
O que tu farias??
Pronto, aqui tens a minha opinião...
Um abraço David Guimarães
3. Comentário de L.G.
Meu querido David:
Não vou permitir que o pessoal entre em demagogias, no discurso fácil, emocional, acusatório... É abrir a Caixa de Pandora... O tema é doloroso e emotivo...
De qualquer modo, peço-te autorização para publicar o teu texto... É corajoso... Mas a verdade tem sempre um verso e um reverso...
De qualquer modo, nenhum de nós defende a pena capital - no primeiro país do mundo a abolir a pena de morte (em 1852, para crimes políticos; em 1867, para todos os crimes, excepto os militares; em 1911, para todos, incluindo os militares; e definitivamente, em 1976)...
Nenhum de nós, é a favor da pena de morte, revolucionária ou não... Por isso, a execução (praticamente sumária) dos nossos antigos camaradas dos comandos africanos não tem nem pode ter justificação alguma... Pode explicar-se, mas não justificar-se. Que fique clara a nossa posição!
4. O David respondeu a seguir:
Autorizado ... Nós só abolimos a pena de morte em Portugal em 1976... Luís, em crimes de guerra eram permitidas as penas capitais... Claro que eu não sou a favor de penas capitais, mas entendo naquele processo... É só isso...
Um abraço. És livre de publicar o meu texto, corrige algum Português que eu, emocionado, escrevo-te como falo...
___________
Nota de L.G.
(1) Vd post de 15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVI: Carta (aberta) ao Luís (Jorge Cabral)
Guiné 63/74 - DCCXLII: O poilão dos fuzilamentos em Bambadinca (David Guimarães)
Órfãos de Pátria intitulava-se a primeira peça do programa Em Reportagem, da autoria do jornalista António Mateus.
Eu tinha mandado um lembrete a todo o pessoal da tertúlia e pedi inclusive um voluntário para tirar umas notas, visionar o programa e escrever um pequeno texto para o blogue. Recebi de imediato uma nota, crítica e de frustação, assinada pelo José Martins (CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70).:
- A montanha pariu uma rato! - disse ele.
Para o nosso camarada, o porgrama não trouxe nada de novo. E sobretudo perdeu-se uma oportunidade, a de fazer a justa homenagem aos guineenses que combaterem ao nosso lado e que se sentiam tão portugueses como nós:
"É pena que, mais uma vez, se tenha perdido a oportunidade de, pelo menos, prestar uma homenagem aqueles que, generosamente, defenderam uma terra que era sua e agora se sentem estrangeiros na própria terra".
O tema não é fácil, para nenhum de nós. Ainda há um bocado me telefonou o Jorge Cabral a perguntar se tinha visto o programa (perdi a primeira parte) e se tinha reconhecido o trsitemente famoso poilão dos fuzilamentos em Bambadinca, à beira da estrada:
- Passei por ele montes de vezes!
Para o Jorge Cabral que tem uma visão crítica da guerra e da nossa presença na Guiné ("só conhecemos a guerra, nunca conhecemos a Guiné, a sua cultura, a sua história, a história da sua violenta pacificação pelos portugueses"...) (1), é doloroso relembrar o destino trágico de antigos combatentes que ele conheceu e com quem privou, em Fá Mandinga e em Bissau, e alguns dos quais eram seus amigos: o Saegue, O Jamanca, o Camará...
2. Outro comentário que me chegou, cauteloso, foi o do David Guimarães (ex-Furriel Miliciano, CART 2716, Xitole, 1970-1972):
Luís: Eu vi o programa e direi porque não o quererei comentar no blogue... Como sabes, existe muita gente que tem amigos lá na Guiné - é assim e decerto eu também tenho...
Quanto ao que aconteceu, ainda um dia destes alguém queria incriminar o Nino Vieira. Ora bem, tudo isso se passou no tempo de Luís Cabral. Mas a sentença estava escrita desde 1973: isso sabe-se desde a declaração da Independência no Boé. Sabes que eu entendo que aquele povo tinha razão! Acho mesmo que os Comandos foram traidores à sua Pátria: não desmobilizaram e continuaram a lutar contra a sua pátria...
Se tivessem desmobilizado e entregue aos seus pátrios guerreiros e irmãos de raça, decerto não seriam mortos. Bem, mas isso é uma questão deles...
Outra, contudo, é a acusação que Luís Cabral faz a Nino Vieira, dizendo que este como Chefe das Forças Armadas teria sido o executante e responsável por tais actos sendo que ele não saberia de nada... Isso deve ser uma grande mentira, mas enfim quem tem razão ?!...
Existem as dores do crescimento da democracia: a Guiné padeceu mais ainda... e continua a padecer, pois não se entendem...
Sei da posição de alguns bloguistas que estão mortinhos por começar a falar de política... Ai, Luís, que os maiores culpados decerto até fomos nós, que abandonámos aquela gente... Ora eles tinham a nacionalidade portuguesa, tinham as mais altas condecorações portuguesas e os nossos governantes da altura (e de agora) nem se mexeram...
O Nino hoje [na reportagem] disse e teve razão, apontando a principal culpa aos Portugueses. Naturalmente, se trouxemos os brancos, os negros também viriam, se quisessem... Então, sim, não tínhamos que nos penitenciar...
Vi o programa todo e vi Bambadinca - a nossa Bambadinca... Decerto ou sou romântico demais ou sou parvo, mas naquela altura todo o combatente anti-pátria da Guiné, já independente em Madina de Boé, passou à qualidade de traidor à Pátria...
O que tu farias??
Pronto, aqui tens a minha opinião...
Um abraço David Guimarães
3. Comentário de L.G.
Meu querido David:
Não vou permitir que o pessoal entre em demagogias, no discurso fácil, emocional, acusatório... É abrir a Caixa de Pandora... O tema é doloroso e emotivo...
De qualquer modo, peço-te autorização para publicar o teu texto... É corajoso... Mas a verdade tem sempre um verso e um reverso...
De qualquer modo, nenhum de nós defende a pena capital - no primeiro país do mundo a abolir a pena de morte (em 1852, para crimes políticos; em 1867, para todos os crimes, excepto os militares; em 1911, para todos, incluindo os militares; e definitivamente, em 1976)...
Nenhum de nós, é a favor da pena de morte, revolucionária ou não... Por isso, a execução (praticamente sumária) dos nossos antigos camaradas dos comandos africanos não tem nem pode ter justificação alguma... Pode explicar-se, mas não justificar-se. Que fique clara a nossa posição!
4. O David respondeu a seguir:
Autorizado ... Nós só abolimos a pena de morte em Portugal em 1976... Luís, em crimes de guerra eram permitidas as penas capitais... Claro que eu não sou a favor de penas capitais, mas entendo naquele processo... É só isso...
Um abraço. És livre de publicar o meu texto, corrige algum Português que eu, emocionado, escrevo-te como falo...
___________
Nota de L.G.
(1) Vd post de 15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVI: Carta (aberta) ao Luís (Jorge Cabral)
Guiné 63/74 - DCCXLI: Ajudem-me a encontrar o tenente evacuado em 1973 do Corredor da Morte (Victor Barata)
Pois bem, Luís Graça, tomei o gosto, não vos largo.
Chamo-me Victor Barata, fui Especialista da Força Aérea Portuguesa, MELEC (1) de Aviões e Instrumentos de Bordo.
Cumpri o meu serviço militar de 1969 a 1974, sendo o período de 1971/1973 cumprido na Província da Guiné, mais concretamente na linha da frente das DO27, fazendo todo o tipo de serviço desde a tão desejada entrega de correio, géneros alimentícios, etc., às tristes evacuações, algumas sabe Deus em que circunstâncias.
Percorri todos os locais onde este tipo de aeronave tinha poucas condições para se entregar a uns metros de terra avermelhada. Tive um acidente dentro de uma desta aeronaves, já em terra. Mas...existiu uma situação, há 35 anos, que me faz perder a fala de cada vez que a recordo... Vou tentar!
Julgo, se a memória não me atraiçoa, que em Fevereiro/Março de 1973, fui destacado para uma operação no Corredor da Morte (ainda não li nada com este nome no site!...). A carta cartográfica da Guiné designa por Guileje, onde participaram também os Fiats, os T6, os Helis.
Aterrá mos e, obviamente, que a expectativa era grande,não só por ser a primeira vez que ali estava como também pela alcunha com que o local foi baptizado [Corredor da Morte].
Estacionou-se o avião, abriu-se a porta e vejo a uma certa distância uma pessoa que de repente desapareceu. Não manifestando a minha desconfiança pelo facto, eis que nos aparece um Capitão do Exército, que se apresenta como o comandante da unidade, para nos dar as boas vindas e nos fazer uma visita guiada ao local.
Não perdendo o rumo ao local onde a tal figura desapareceu, lá fomos olhando para isto e para aquilo e eis que me é identificada a minha referência que não era mais nem menos que os abrigos subterrâneos onde dormia o pessoal!
Beliche, chão de terra batida e o tecto uma placa que, dizia o Capitão, era à prova de 120! Acredito solenemente nos traumas da Guerra, 24 meses, às vezes lerpava-se com mais uns meses, naquelas condições, debaixo de guerra constante?!...
Bom, chegou a hora de me ser destinado o aposento. Nada mais, nada menos, o quarto do Capitão Caldas, paraquedista, que estava no mato, não era subterrâneo mas sim em superfície, talvez 1,50 x 1,50, MUITO BOM!
O dia correu normalmente, até que fui jantar à messe de oficiais e depois jogar umas cartas até se fazer noite, pois a transição do dia para a noite, segundo diziam, era a hora do IN bater à porta.
Encontrei um Tenente do Exército cujo nome, infelizmente para mim, já não recordo, e que me aturou jogando comigo o que eu sabia e ensinando o que eu não sabia, somente para passar aquele mau período do dia.
Chegado às 23h00, como a noite já ia longa,resolvi pedir-lhe a sua anuência para me ausentar e fui-me deitar. Ainda não me tinha descalçado e já a festa estava a começar, pois os foguetes já estalavam no ar... Forte morteirada!
Nesta minha estada conheci figuras hoje públicas, recordo o actual Presidente da Guiné, Nino Vieira, desertor do nosso Exército, como prisioneiro (2).
Terminada a minha missão, regressei a Bissalanca.
Passados uns 2 meses, 6 horas da manhã, a sala de operações chama o alerta e sai o Dakota, avião bimotor, com trem de cauda, que traria sempre umas 20 macas, enquanto a DO 27 só podia trazer uma. A coisa era muito má, viemos a saber antes do regresso do Dakota... A expectativa para mim era total, porque tinha lá estado, até que se começa a ouvir o barulho dos motores, cada vez mais perto, a instabilidade, embora o tempo já nos tivesse reservado péssimas situações, não sabíamos o que ali vinha.
Eis o avião na placa (estacionamento), a porta é aberta, subo os poucos degraus da escada de acesso ao seu interior e coloco-me ao fundo, a meio,vendo cerca de 10 macas de cada lado com corpos envoltos em lençóis brancos! Clima de verdadeiro massacre,o silêncio era a voz que perdurava, os corpos começaram a ser retirados e eu arrisquei subir o corredor até à cabine.
Eis que num preciso momento ouço uma voz de grande sofrimento emitir o meu nome, não conseguia localizar a sua origem, volto a ouvir e ai, sim, era o tal Tenente que tanto me ajudou na minha estada no Corredor da Morte... E eu incapaz de lhe poder valer!
Acreditem, companheiros, que estou a redigir estas letras com muita emoção,e porque não dizê-lo, com algumas lágrimas à mistura! Hoje, a minha grande esperança reside no facto de que eu não o pude ajudar, mas Deus encarregou-se disso por mim...
Não consigo escrever mais, desculpem!
AJUDEM-ME A ENCONTRÁ-LO!!!
Victor Barata
_________
Notas de L.G.
(1) Melec: termo usado pelo pessoal da Força Aérea para designar a especialidade de manutenção electrónica...Vd. post de hoje > Guiné 63/74 - DCCXXXIX: Victor Barata, MELEC da FAP (1971/73)
(2) Deve haver aqui um mal-entendido por parte do nosso camarada: o 'Nino' Vieira, comandamte da frente sul, nunca foi nosso prisioneiro, pese embora as muitas operações de busca e caça e emboscadas que lhe foram montadas pela nossa tropa de elite, a começar pelo temível e mítico Marcelino da Mata.
Guiné 63/74 - DCCXLI: Ajudem-me a encontrar o tenente evacuado em 1973 do Corredor da Morte (Victor Barata)
Pois bem, Luís Graça, tomei o gosto, não vos largo.
Chamo-me Victor Barata, fui Especialista da Força Aérea Portuguesa, MELEC (1) de Aviões e Instrumentos de Bordo.
Cumpri o meu serviço militar de 1969 a 1974, sendo o período de 1971/1973 cumprido na Província da Guiné, mais concretamente na linha da frente das DO27, fazendo todo o tipo de serviço desde a tão desejada entrega de correio, géneros alimentícios, etc., às tristes evacuações, algumas sabe Deus em que circunstâncias.
Percorri todos os locais onde este tipo de aeronave tinha poucas condições para se entregar a uns metros de terra avermelhada. Tive um acidente dentro de uma desta aeronaves, já em terra. Mas...existiu uma situação, há 35 anos, que me faz perder a fala de cada vez que a recordo... Vou tentar!
Julgo, se a memória não me atraiçoa, que em Fevereiro/Março de 1973, fui destacado para uma operação no Corredor da Morte (ainda não li nada com este nome no site!...). A carta cartográfica da Guiné designa por Guileje, onde participaram também os Fiats, os T6, os Helis.
Aterrá mos e, obviamente, que a expectativa era grande,não só por ser a primeira vez que ali estava como também pela alcunha com que o local foi baptizado [Corredor da Morte].
Estacionou-se o avião, abriu-se a porta e vejo a uma certa distância uma pessoa que de repente desapareceu. Não manifestando a minha desconfiança pelo facto, eis que nos aparece um Capitão do Exército, que se apresenta como o comandante da unidade, para nos dar as boas vindas e nos fazer uma visita guiada ao local.
Não perdendo o rumo ao local onde a tal figura desapareceu, lá fomos olhando para isto e para aquilo e eis que me é identificada a minha referência que não era mais nem menos que os abrigos subterrâneos onde dormia o pessoal!
Beliche, chão de terra batida e o tecto uma placa que, dizia o Capitão, era à prova de 120! Acredito solenemente nos traumas da Guerra, 24 meses, às vezes lerpava-se com mais uns meses, naquelas condições, debaixo de guerra constante?!...
Bom, chegou a hora de me ser destinado o aposento. Nada mais, nada menos, o quarto do Capitão Caldas, paraquedista, que estava no mato, não era subterrâneo mas sim em superfície, talvez 1,50 x 1,50, MUITO BOM!
O dia correu normalmente, até que fui jantar à messe de oficiais e depois jogar umas cartas até se fazer noite, pois a transição do dia para a noite, segundo diziam, era a hora do IN bater à porta.
Encontrei um Tenente do Exército cujo nome, infelizmente para mim, já não recordo, e que me aturou jogando comigo o que eu sabia e ensinando o que eu não sabia, somente para passar aquele mau período do dia.
Chegado às 23h00, como a noite já ia longa,resolvi pedir-lhe a sua anuência para me ausentar e fui-me deitar. Ainda não me tinha descalçado e já a festa estava a começar, pois os foguetes já estalavam no ar... Forte morteirada!
Nesta minha estada conheci figuras hoje públicas, recordo o actual Presidente da Guiné, Nino Vieira, desertor do nosso Exército, como prisioneiro (2).
Terminada a minha missão, regressei a Bissalanca.
Passados uns 2 meses, 6 horas da manhã, a sala de operações chama o alerta e sai o Dakota, avião bimotor, com trem de cauda, que traria sempre umas 20 macas, enquanto a DO 27 só podia trazer uma. A coisa era muito má, viemos a saber antes do regresso do Dakota... A expectativa para mim era total, porque tinha lá estado, até que se começa a ouvir o barulho dos motores, cada vez mais perto, a instabilidade, embora o tempo já nos tivesse reservado péssimas situações, não sabíamos o que ali vinha.
Eis o avião na placa (estacionamento), a porta é aberta, subo os poucos degraus da escada de acesso ao seu interior e coloco-me ao fundo, a meio,vendo cerca de 10 macas de cada lado com corpos envoltos em lençóis brancos! Clima de verdadeiro massacre,o silêncio era a voz que perdurava, os corpos começaram a ser retirados e eu arrisquei subir o corredor até à cabine.
Eis que num preciso momento ouço uma voz de grande sofrimento emitir o meu nome, não conseguia localizar a sua origem, volto a ouvir e ai, sim, era o tal Tenente que tanto me ajudou na minha estada no Corredor da Morte... E eu incapaz de lhe poder valer!
Acreditem, companheiros, que estou a redigir estas letras com muita emoção,e porque não dizê-lo, com algumas lágrimas à mistura! Hoje, a minha grande esperança reside no facto de que eu não o pude ajudar, mas Deus encarregou-se disso por mim...
Não consigo escrever mais, desculpem!
AJUDEM-ME A ENCONTRÁ-LO!!!
Victor Barata
_________
Notas de L.G.
(1) Melec: termo usado pelo pessoal da Força Aérea para designar a especialidade de manutenção electrónica...Vd. post de hoje > Guiné 63/74 - DCCXXXIX: Victor Barata, MELEC da FAP (1971/73)
(2) Deve haver aqui um mal-entendido por parte do nosso camarada: o 'Nino' Vieira, comandamte da frente sul, nunca foi nosso prisioneiro, pese embora as muitas operações de busca e caça e emboscadas que lhe foram montadas pela nossa tropa de elite, a começar pelo temível e mítico Marcelino da Mata.
Guiné 63/74 - DCCXL : Regressei bem e sem traumas (Manuel Cruz, CCAÇ 3493)
Artigo de opinião do Manuel Cruz , que foi enviado com data de 19d e Abril de 2004. Este nosso camarada foi Capitão Miliciano da CCAÇ 3493 / BART 3873, tendo passado por Bolama, Mansambo, Cobumba, Fá Mandinga e Bissau (1972/74) (1).
Meus caros:
1. Tenho lido, apreciado e pouco tenho comentado. Perdoem-me, mas não sou muito dado à história, mesmo que esta nos toque de perto, ou antes, tenhamos vivido.
Regressei bem e sem traumas, apesar de ter vivido horrores. Participo em alguns encontros anuais da CCART 3493, e saboreio esses momentos. ... e pouco mais.
2. Agora, um tema que suponho nos interessa a todos, pois se todos nós fomos forçados a fazer o que não queríamos, devemos colher todos os benefícios do que "temos direito".
- CONTAGEM DE SERVIÇO MILITAR para efeitos de reforma (dos que ainda estamos no activo)?
- CONTAGEM DE SERVIÇO MILITAR para efeitos de complemento de pensão (dos que já não estão no activo)?
- CONTAGEM DE SERVIÇO MILITAR para efeitos de ...
ETC, ETC.
Creio que nesta matéria haverá muitas dúvidas em alguns de nós. Como estamos? No meu, no teu caso e noutros?
Por exemplo, eu não consigo respostas do Ministério, a várias questões mesmo utilizando os meios que o Ministério da Defesa Nacional coloca ao dispor via-mail.
Também existe um balcão oficial na Rua Braancamp, 90, em Lisboa, que presta esclarecimentos, mas ainda não visitei.
Afinal, do tempo do Ultramar sempre temos os 100% de bónus em tempo ou em euros ? Algum de vós tem respostas a estas matérias?
Manuel Cruz
____________
Nota de L.G.:
(1) Vd. post de 13 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CVIII: Welcome aboard, captain ! (CCAÇ 3493, Mansambo, 1972)
Guiné 63/74 - DCCXL : Regressei bem e sem traumas (Manuel Cruz, CCAÇ 3493)
Artigo de opinião do Manuel Cruz , que foi enviado com data de 19d e Abril de 2004. Este nosso camarada foi Capitão Miliciano da CCAÇ 3493 / BART 3873, tendo passado por Bolama, Mansambo, Cobumba, Fá Mandinga e Bissau (1972/74) (1).
Meus caros:
1. Tenho lido, apreciado e pouco tenho comentado. Perdoem-me, mas não sou muito dado à história, mesmo que esta nos toque de perto, ou antes, tenhamos vivido.
Regressei bem e sem traumas, apesar de ter vivido horrores. Participo em alguns encontros anuais da CCART 3493, e saboreio esses momentos. ... e pouco mais.
2. Agora, um tema que suponho nos interessa a todos, pois se todos nós fomos forçados a fazer o que não queríamos, devemos colher todos os benefícios do que "temos direito".
- CONTAGEM DE SERVIÇO MILITAR para efeitos de reforma (dos que ainda estamos no activo)?
- CONTAGEM DE SERVIÇO MILITAR para efeitos de complemento de pensão (dos que já não estão no activo)?
- CONTAGEM DE SERVIÇO MILITAR para efeitos de ...
ETC, ETC.
Creio que nesta matéria haverá muitas dúvidas em alguns de nós. Como estamos? No meu, no teu caso e noutros?
Por exemplo, eu não consigo respostas do Ministério, a várias questões mesmo utilizando os meios que o Ministério da Defesa Nacional coloca ao dispor via-mail.
Também existe um balcão oficial na Rua Braancamp, 90, em Lisboa, que presta esclarecimentos, mas ainda não visitei.
Afinal, do tempo do Ultramar sempre temos os 100% de bónus em tempo ou em euros ? Algum de vós tem respostas a estas matérias?
Manuel Cruz
____________
Nota de L.G.:
(1) Vd. post de 13 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CVIII: Welcome aboard, captain ! (CCAÇ 3493, Mansambo, 1972)
Guiné 63/74 - DCCXXXIX: Victor Barata, MELEC da FAP (1971/73)
Força Aérea Portuguesa (FAP) > Museu do Ar > Alverca > Imagem de um DO 27© Museu do Ar - Alverca (2006) (com a devida vénia...) (1)
1. Texto de Victor Barata, ex-especialista da Força Aérea Portuguesa, MELEC (1) de Aviões e Instrumentos de Bordo, Guiné, 1971/73.
Luis Graça, não tenho a honra de te conhecer mas tenho o privilégio de ser, há uns dois meses a esta parte, um assíduo [visitante] e admirador do teu site Blogue-Fora Nada. Parabéns!
Por diversas vezes redigi um artigo com um assunto que me traz no peito há 35 anos, relativo a uma episódio passado na Guiné, mas sempre achei que era inoportuno da minha parte estar a meter a foice em seara alheia e como tal nunca tive a coragem de o enviar.
Isto tudo, porquê? Porque servi, com muito orgulho, a Força Aérea Portuguesa (FAP)!
Para meu espanto e alegria em paralelo, aparece um companheiro da Armada (2) e de imediato tu a salientares a falta de um da FAP!
Pois, do que é que eu estou à espera para entrar nesta maravilhosa colectânea de recordações de toda a espécie e saudar todos os que me vão receber, e a ti agradecer esta minha primeira intervenção ?!
Fui Especialista da FAP, na área dos Instrumentos de Bordo, de 1969 a 1974. Fiz a Guiné de 1971 a 73, na linha da frente das DO 27. Conheço tudo o que era sítio onde havia a pista de aterragem para este tipo de aeronave.
Oportunamente, se me for permitido, contarei o tal episódio que tenho preso há 35 anos!
Bem hajas! Victor Barata.
2. Comentário de L.G.:
Victor: A pista pode ser curta mas é toda tua... Na nossa caserna cabem todos os camaradas, sejam eles terrestres, voadores ou ambífios. A FAP, tão dignamente representada por ti, é bem especialmente bem vinda à nossa tertúlia e ao nosso blogue... Por mim, sempre tive uma especial admiração pelos malucos das dessas máquinas voadoras que eram as DO 27 e que nos traziam notícias do mundo, do outro do mundo... Já não gostava tanto quando elas, em vez do carteiro, transportavam o senhor major de operações ou do senhor comandante de qualquer coisa... Ou sejam, quando de frágil caranguejola eram promovidas a um coisa que pomposamente se chamava o PCV.
Um reparo: o blogue chama-se Luís Graça & Camaradas da Guiné > Blogue-fora-nada. Eu sou apenas o editor. A partir de hoje o blogue também é teu, de pleno direito. Vou publicar o texto adicional que me mandaste, e que é um bonito testemunho de solidariedade em tempo de guerra, ou seja, de camaradgem. Se tiveres fotos desses tempos que já lá vão, manda, que os tertulianos têm ainda a ilusão de que recordar é viver...
__________
Notas de L.G.
(1) No sítido do Museu do Ar, em Alverca (e que está aberto das 10 às 17 - Jul, Ago e Set, das 10 às 18 -, encerrando à segunda-feira, 1 de Jan, Domingo de Páscoa e 24 e 25 de Dez), pode ler-se o seguinte sobre a história do DO 27 em Portugal:
"Os aviões Do 27, de que a Força Aérea teve 133 exemplares nas versões A3 e A4, começaram a ser recebidos em 1961. Estes aviões foram adquiridos para operação no Ultramar, em missões de transporte ligeiro, evacuação sanitária e reconhecimento armado - para o que era equipado com lança foguetes - e operaram, praticamente, de todas as unidades do Ultramar. No fim das hostilidades alguns aviões foram cedidos aos novos países independentes e os restantes voltaram para a Metrópole onde serviram até 1979. O Museu do Ar tem 3 Do 27 estando todos a voar".
(2) Vd. post de 21 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXIII: Apresenta-se o Imediato da NRP Orion (1966/68) e 1º tenente da reserva naval Lema Santos
Guiné 63/74 - DCCXXXIX: Victor Barata, MELEC da FAP (1971/73)
Força Aérea Portuguesa (FAP) > Museu do Ar > Alverca > Imagem de um DO 27© Museu do Ar - Alverca (2006) (com a devida vénia...) (1)
1. Texto de Victor Barata, ex-especialista da Força Aérea Portuguesa, MELEC (1) de Aviões e Instrumentos de Bordo, Guiné, 1971/73.
Luis Graça, não tenho a honra de te conhecer mas tenho o privilégio de ser, há uns dois meses a esta parte, um assíduo [visitante] e admirador do teu site Blogue-Fora Nada. Parabéns!
Por diversas vezes redigi um artigo com um assunto que me traz no peito há 35 anos, relativo a uma episódio passado na Guiné, mas sempre achei que era inoportuno da minha parte estar a meter a foice em seara alheia e como tal nunca tive a coragem de o enviar.
Isto tudo, porquê? Porque servi, com muito orgulho, a Força Aérea Portuguesa (FAP)!
Para meu espanto e alegria em paralelo, aparece um companheiro da Armada (2) e de imediato tu a salientares a falta de um da FAP!
Pois, do que é que eu estou à espera para entrar nesta maravilhosa colectânea de recordações de toda a espécie e saudar todos os que me vão receber, e a ti agradecer esta minha primeira intervenção ?!
Fui Especialista da FAP, na área dos Instrumentos de Bordo, de 1969 a 1974. Fiz a Guiné de 1971 a 73, na linha da frente das DO 27. Conheço tudo o que era sítio onde havia a pista de aterragem para este tipo de aeronave.
Oportunamente, se me for permitido, contarei o tal episódio que tenho preso há 35 anos!
Bem hajas! Victor Barata.
2. Comentário de L.G.:
Victor: A pista pode ser curta mas é toda tua... Na nossa caserna cabem todos os camaradas, sejam eles terrestres, voadores ou ambífios. A FAP, tão dignamente representada por ti, é bem especialmente bem vinda à nossa tertúlia e ao nosso blogue... Por mim, sempre tive uma especial admiração pelos malucos das dessas máquinas voadoras que eram as DO 27 e que nos traziam notícias do mundo, do outro do mundo... Já não gostava tanto quando elas, em vez do carteiro, transportavam o senhor major de operações ou do senhor comandante de qualquer coisa... Ou sejam, quando de frágil caranguejola eram promovidas a um coisa que pomposamente se chamava o PCV.
Um reparo: o blogue chama-se Luís Graça & Camaradas da Guiné > Blogue-fora-nada. Eu sou apenas o editor. A partir de hoje o blogue também é teu, de pleno direito. Vou publicar o texto adicional que me mandaste, e que é um bonito testemunho de solidariedade em tempo de guerra, ou seja, de camaradgem. Se tiveres fotos desses tempos que já lá vão, manda, que os tertulianos têm ainda a ilusão de que recordar é viver...
__________
Notas de L.G.
(1) No sítido do Museu do Ar, em Alverca (e que está aberto das 10 às 17 - Jul, Ago e Set, das 10 às 18 -, encerrando à segunda-feira, 1 de Jan, Domingo de Páscoa e 24 e 25 de Dez), pode ler-se o seguinte sobre a história do DO 27 em Portugal:
"Os aviões Do 27, de que a Força Aérea teve 133 exemplares nas versões A3 e A4, começaram a ser recebidos em 1961. Estes aviões foram adquiridos para operação no Ultramar, em missões de transporte ligeiro, evacuação sanitária e reconhecimento armado - para o que era equipado com lança foguetes - e operaram, praticamente, de todas as unidades do Ultramar. No fim das hostilidades alguns aviões foram cedidos aos novos países independentes e os restantes voltaram para a Metrópole onde serviram até 1979. O Museu do Ar tem 3 Do 27 estando todos a voar".
(2) Vd. post de 21 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXIII: Apresenta-se o Imediato da NRP Orion (1966/68) e 1º tenente da reserva naval Lema Santos
Guiné 63/74 - DCCXXXVIII: Festa Na Lona, um bravo combatente do PAIGC (CCAÇ 12, Fevereiro de 1970)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > 1970 > Força da CCAÇ 12 na estrada Mansambo-Xitole, a caminho de mais uma operação, em plena época seca, na zona de acção das unidades de quadrícula de Mansambo e Xitole.Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).
© Humberto Reis (2006).
Extractos de: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971. Capítulo II. 28-29.
(81) Fevereiro de 1970Op Bodião Decidido: uma operação com sucesso na área de Satecuta
Foi realizada em 14 e 15 de Fevereiro de 1970 para uma batida à área de Satecuta até ao Rio Corubal (1), por forças da CART 2413, CCAÇ 2404 e CCAÇ 12 (1º, 2º e 4º Gr Comb), constituindo respectivamente os Destacamentos A, B e C (2).
De acordo com o plano estabelecido para a acção, os 3 Dest saíram de Mansambo e Xitole às 5h00 do dia D (14), percorrendo a estrada [Xitole-Mansambo] até ao ponto de encontro (área de Gulobó) [onde fizeram paragem para descanso e almoço, entre as 12h00 e as 16h00](3).
Após uma rápida reunião dos Comandantes dos Dest, iniciou-se a progressão a corta-mato, tendo-se atingido pelas 17h00 o local escolhido para pernoita e montagem de emboscadas nocturnas (4).
Verificou-se, através de vestígios, que o IN tinha reconhecido o trilho utilizado pelas NT durante a Op Navalha Polida (5), embora não tivessem sido detectadas quaisquer minas ou armadilhas.
Às 4h00 da manhã (dia D + 1), os Dest continuaram a progressão até atingirem um trilho muito batido na região Xime 4 F2 – 29. Aí ficou emboscado o Dest B (CCAÇ 2404), reforçado por 1 Gr Comb do Dest C (CCAÇ 12), enquanto os outros Dest seguiram em direcção a Satecuta.
Pelas 7h00, o Dest B avistou 1 grupo IN de 15/20 elementos, tendo os homens da frente aberto fogo no momento oportuno, causando 1 morto deixado no terreno e feridos prováveis, com um gasto mínimo de munições (1 dilagrama e 1 carregador de G-3). Foi apreendido ao IN um RPG-2 [ LGFog ] e várias granadas.
O IN dispersou imediatamente e flagelou o Dest B quando alguns elementos deste foram à zona de morte a fim de verificar os resultados colhidos.
Os Dest A e C foram também flagelados com fogo de morteiro e armas automáticas, não reagindo para não revelar a sua localização exacta e movimentando-se apenas para conseguir estabelecer ligação com o Dest B.
Uma vez que toda a população e elementos IN da área tinham ficado alertados, devido à troca de tiros, as NT após uma batida muito rápida retiraram de forma a evitar quaisquer emboscada de outros grupos IN vindos de Seco Braima ou Galo Corubal.
O ponto de reunião inicial foi atingido cerca das 10h00, regressando depois as NT aos seus aquartelamentos.
Constatou-se que o IN, depois da Op Navalha Polida (5), tinha redobrado de vigilância, patrulhando constantemente a região entre Seco Braima e Galo Corubal a avaliar pelos trilhos feitos.
Verificou-se também que por vezes executa tiros à distância na tentativa de localizar as NT e posteriormente montar-lhes embocadas, especialmente no regresso. No presente caso, as NT não tiveram qualquer reacção pelo fogo, o que malogrou as intenções do IN.
Transcrição da Mensagem 676/C COM-CHEFE (REP/OPE): “COM-CHEFE manifesta seu agrado realização Op Bodião Decidido e resultados obtidos” (6).
A 24 de Fevereiro, efectua-se outra operação a nível de Batalhão (7) a fim de executar um golpe de mão conjugado com emboscadas em linha e batida na área compreendida entre o Rio Samba Uriel, o limite da ZA das CART 2413 e CCAÇ 2404 e estrada Xitole-Mansambo.
Das declarações prestadas pelo prisioneiro Festa (8), ficou a saber-se que o IN tinha um acampamento na região de Biro, junto à margem direita do Rio Bissari depois da confluência com o Rio Samba Uriel. Os efectivos eram estimados em 30 elementos, divididos em 2 grupos de 15 e dispondo de Mort 60, LGFog e armas automáticas.
A operação foi realizada por forças das CCAÇ 2404, CART 2413 e CCAÇ 12 (2º e 4º Gr Comb).O prisioneiro serviu de guia (8). No decorrer da acção, quando as NT progrediam na região de Galoiel/Biro, ouviram tiros de reconhecimento e aviso feitos pelo IN.
Encontraram-se trilhos batidos (especialmente o trilho assinalado na carta que conduz à foz do Rio Bissari e daí à região de Galo Corubal, apresentando indícios de ser utilizado por pequenos grupos IN em acções de patrulhamento) e grandes extensões de capim queimado, mas as NT não conseguiram localizar o acampamento IN (Op Leão Nómada) (9).
__________
Notas de L.G.
(1) Patrulhamento ofensivo com emboscadas nas regiões de (Vd. mapa do Xime):
(i) Mansambo, Culobó, (Xime 4H6-46), Seco Braima, Culobó, (Xime 4H6-46),
(ii) Xitole, Ponte dos Fulas, Satecuta, Bissau Novo, Benate, Ponte dos Fulas, Xitole…
(2) Unidades aquarteladas, respectivamente, em Mansambo, Xitole e Bambadinca. As duas primeiras eram unidades de quadrícula. A CCAÇ 12, constituída por soldados africanos e quadros metropolitanos, era uma unidade de interevenção, às ordens do BCAÇ 2852, até meados de 1970 (e depois do BART 2917, até ao final da sua 1ª comissão, em Fevereiro de 1971).
(3) Para saírem àquela hora de Mansambo, os 3 Gr de Comb da CCAÇ já se tinham deslocado umas largas horas antes, de Bambadinca para Mansambo.
Tal significou que alguém teve de picar a estrada e montar segurança na ZA da CART 2413. Nessa noite, obviamente ninguém dormiu. Tal como não dormiu na noite seguinte… Soldados e quadros da CCAÇ 12 eram um bando de noctívagos e sonâmbulos… Estávamos então em plena estação seca…
(4) Repare-se como escassos quilómetros em linha recta, nas matas da Guiné, levavam um dia a percorrer em corta-mato…Quando o sol estava a pique, não havia outro remédio senão procurar a sombra protectora e a fresquidão da orla da mata, circundante de uma bolanha ou lala, até às 4h00 da tarde… Homens e bichos reduziam ao mínimo a sua penosa actividade fisiológica…
(5) Vd post de 7 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXII: Assalto ao destacamento IN de Seco Braima, na margem direita do Rio Corubal (Janeiro de 1970, CCAÇ 12, CAÇ 2404, CART 2413)
(6) Em geral, o Com-Chefe só mandava mensagens destas quando havia ronco: no mínimo, apreensão de material de guerra, prisioneiros ou mortos IN, confirmados no terreno. Os burocratas da guerra do ar condicionado, em Bissau, sabiam que, por sistema, os operacionais, os do mato, tinham tendência para amplificar e hiperbolizar os seus feitos heróicos e contabilizar baixas no papel que não tinham qualquer correspondência no terreno… Em suma, todos, do alferes ao tenente coronel, queriam ficar bem na fotografia... Por causa das dúvidas, os paraquedistas fotografavam os cadáveres, quando havia tempo e vagar para isso…
(7) É de notar que neste sector (L1) qualquer operação implicava a afectação de importantes meios humanos: no mínimo, dois destacamentos, 6 grupos de combate, duas ou mais companhias... A desproporção de meios era flagrante: levávamos 150 a 250 homens, no mínimo, para andar à caça de 15 a 30 guerrilheiros... Esta região tinha sido palco de uma megaoperação, que mobilizou 1200 homens, entre miliatres e carregadores, onze meses antes: Op Lança Afiada, de 8 a 18 de Março de 1969: vd post de 14 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIX: Op Lança Afiada (IV): O soldado Spínola na margem direita do Rio Corubal
(8) Vd. post de 19 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLI: Ponta do Inglês, Janeiro de 1970 (CCAÇ 12 e CART 2520): capturados 15 elementos da população e um guerrilheiro armado
(...) "Um dos homens capturados disse chamar-se Festa Na Lona, de etnia Balanta, estar alí a passar férias e pertencer a uma unidade combatente do Gabu. Foi-lhe apreendido uma pistola Tokarev (7,62, m/ 1933) e vários documentos" (...).
(9) Presto aqui a minha homenagem aos combatentes do PAIGC que, mesmo sob as duras condições (físicas e psicológicas) de cativeiro, eram capazes de nos ludibriar, a nós e aos nossos guias, e salvar os seus camaradas e a população afecta à guerrilha... Nunca cheguei a saber qual foi o destino dado ao Festa Na Lona, provavelmente recambiado para a região do Gabu, para ser de novo interrogado e forçado a servir de guia às NT...
Já vimos como, em operação anterior, a Op Boga Destemida, outro prisioneiro, Jomel Nanquitande, conseguiu fugir, debaixo de fogo, algemado e provavelmente ferido: vd post de 10 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXXVIII: Violenta emboscada em L (Op Boga Destemida, CCAÇ 12, CART 2520 e Pel Caç Nat 63, em Gundagué Beafada, Fevereiro de 1970)
(...) "O Dest A progrediu com o prisioneiro Festa em direcção ao objectivo, tendo passado por um acampamento com vestígios de abandono recente. Depois de progredir mais de 2 horas na direcção sul, e como o prisioneiro continuasse a dizer que era longe, contradizendo-se, o Dest A que só dispunha de 2 Gr Comb, entrou em ligação com o Dest B a fim de tomar uma decisão face à situação (...).
(...) "Cerca das 11.30h, o PCV sobrevoou a zona, quando o Dest B, já feita a cambança, armadilhava o local onde havia vestígios recentes do IN.
"Em marcha lenta, devido ao transporte do ferido em maca, os 2 Dest seguiram o trilho de Darsalame Baio-Gundagué Beafada, através do capim alto. Próximo da antiga tabanca beafada, cerca das 13h, as NT sofreriam uma violenta emboscada montada em L e com grande poder de fogo, especialmente de lança-rockets. A secção que ia na vanguarda do Dest B ficou praticamente fora de combate, tendo sido gravemente feridos, entre outros, o respectivo comandante e a praça encarregada da segurança do prisioneiro Jomel Nanquitande que, aproveitando a confusão, conseguiu fugir, embora algemado e muito provavelmente ferido" (...).
Guiné 63/74 - DCCXXXVIII: Festa Na Lona, um bravo combatente do PAIGC (CCAÇ 12, Fevereiro de 1970)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > 1970 > Força da CCAÇ 12 na estrada Mansambo-Xitole, a caminho de mais uma operação, em plena época seca, na zona de acção das unidades de quadrícula de Mansambo e Xitole.Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).
© Humberto Reis (2006).
Extractos de: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971. Capítulo II. 28-29.
(81) Fevereiro de 1970Op Bodião Decidido: uma operação com sucesso na área de Satecuta
Foi realizada em 14 e 15 de Fevereiro de 1970 para uma batida à área de Satecuta até ao Rio Corubal (1), por forças da CART 2413, CCAÇ 2404 e CCAÇ 12 (1º, 2º e 4º Gr Comb), constituindo respectivamente os Destacamentos A, B e C (2).
De acordo com o plano estabelecido para a acção, os 3 Dest saíram de Mansambo e Xitole às 5h00 do dia D (14), percorrendo a estrada [Xitole-Mansambo] até ao ponto de encontro (área de Gulobó) [onde fizeram paragem para descanso e almoço, entre as 12h00 e as 16h00](3).
Após uma rápida reunião dos Comandantes dos Dest, iniciou-se a progressão a corta-mato, tendo-se atingido pelas 17h00 o local escolhido para pernoita e montagem de emboscadas nocturnas (4).
Verificou-se, através de vestígios, que o IN tinha reconhecido o trilho utilizado pelas NT durante a Op Navalha Polida (5), embora não tivessem sido detectadas quaisquer minas ou armadilhas.
Às 4h00 da manhã (dia D + 1), os Dest continuaram a progressão até atingirem um trilho muito batido na região Xime 4 F2 – 29. Aí ficou emboscado o Dest B (CCAÇ 2404), reforçado por 1 Gr Comb do Dest C (CCAÇ 12), enquanto os outros Dest seguiram em direcção a Satecuta.
Pelas 7h00, o Dest B avistou 1 grupo IN de 15/20 elementos, tendo os homens da frente aberto fogo no momento oportuno, causando 1 morto deixado no terreno e feridos prováveis, com um gasto mínimo de munições (1 dilagrama e 1 carregador de G-3). Foi apreendido ao IN um RPG-2 [ LGFog ] e várias granadas.
O IN dispersou imediatamente e flagelou o Dest B quando alguns elementos deste foram à zona de morte a fim de verificar os resultados colhidos.
Os Dest A e C foram também flagelados com fogo de morteiro e armas automáticas, não reagindo para não revelar a sua localização exacta e movimentando-se apenas para conseguir estabelecer ligação com o Dest B.
Uma vez que toda a população e elementos IN da área tinham ficado alertados, devido à troca de tiros, as NT após uma batida muito rápida retiraram de forma a evitar quaisquer emboscada de outros grupos IN vindos de Seco Braima ou Galo Corubal.
O ponto de reunião inicial foi atingido cerca das 10h00, regressando depois as NT aos seus aquartelamentos.
Constatou-se que o IN, depois da Op Navalha Polida (5), tinha redobrado de vigilância, patrulhando constantemente a região entre Seco Braima e Galo Corubal a avaliar pelos trilhos feitos.
Verificou-se também que por vezes executa tiros à distância na tentativa de localizar as NT e posteriormente montar-lhes embocadas, especialmente no regresso. No presente caso, as NT não tiveram qualquer reacção pelo fogo, o que malogrou as intenções do IN.
Transcrição da Mensagem 676/C COM-CHEFE (REP/OPE): “COM-CHEFE manifesta seu agrado realização Op Bodião Decidido e resultados obtidos” (6).
A 24 de Fevereiro, efectua-se outra operação a nível de Batalhão (7) a fim de executar um golpe de mão conjugado com emboscadas em linha e batida na área compreendida entre o Rio Samba Uriel, o limite da ZA das CART 2413 e CCAÇ 2404 e estrada Xitole-Mansambo.
Das declarações prestadas pelo prisioneiro Festa (8), ficou a saber-se que o IN tinha um acampamento na região de Biro, junto à margem direita do Rio Bissari depois da confluência com o Rio Samba Uriel. Os efectivos eram estimados em 30 elementos, divididos em 2 grupos de 15 e dispondo de Mort 60, LGFog e armas automáticas.
A operação foi realizada por forças das CCAÇ 2404, CART 2413 e CCAÇ 12 (2º e 4º Gr Comb).O prisioneiro serviu de guia (8). No decorrer da acção, quando as NT progrediam na região de Galoiel/Biro, ouviram tiros de reconhecimento e aviso feitos pelo IN.
Encontraram-se trilhos batidos (especialmente o trilho assinalado na carta que conduz à foz do Rio Bissari e daí à região de Galo Corubal, apresentando indícios de ser utilizado por pequenos grupos IN em acções de patrulhamento) e grandes extensões de capim queimado, mas as NT não conseguiram localizar o acampamento IN (Op Leão Nómada) (9).
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Notas de L.G.
(1) Patrulhamento ofensivo com emboscadas nas regiões de (Vd. mapa do Xime):
(i) Mansambo, Culobó, (Xime 4H6-46), Seco Braima, Culobó, (Xime 4H6-46),
(ii) Xitole, Ponte dos Fulas, Satecuta, Bissau Novo, Benate, Ponte dos Fulas, Xitole…
(2) Unidades aquarteladas, respectivamente, em Mansambo, Xitole e Bambadinca. As duas primeiras eram unidades de quadrícula. A CCAÇ 12, constituída por soldados africanos e quadros metropolitanos, era uma unidade de interevenção, às ordens do BCAÇ 2852, até meados de 1970 (e depois do BART 2917, até ao final da sua 1ª comissão, em Fevereiro de 1971).
(3) Para saírem àquela hora de Mansambo, os 3 Gr de Comb da CCAÇ já se tinham deslocado umas largas horas antes, de Bambadinca para Mansambo.
Tal significou que alguém teve de picar a estrada e montar segurança na ZA da CART 2413. Nessa noite, obviamente ninguém dormiu. Tal como não dormiu na noite seguinte… Soldados e quadros da CCAÇ 12 eram um bando de noctívagos e sonâmbulos… Estávamos então em plena estação seca…
(4) Repare-se como escassos quilómetros em linha recta, nas matas da Guiné, levavam um dia a percorrer em corta-mato…Quando o sol estava a pique, não havia outro remédio senão procurar a sombra protectora e a fresquidão da orla da mata, circundante de uma bolanha ou lala, até às 4h00 da tarde… Homens e bichos reduziam ao mínimo a sua penosa actividade fisiológica…
(5) Vd post de 7 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXII: Assalto ao destacamento IN de Seco Braima, na margem direita do Rio Corubal (Janeiro de 1970, CCAÇ 12, CAÇ 2404, CART 2413)
(6) Em geral, o Com-Chefe só mandava mensagens destas quando havia ronco: no mínimo, apreensão de material de guerra, prisioneiros ou mortos IN, confirmados no terreno. Os burocratas da guerra do ar condicionado, em Bissau, sabiam que, por sistema, os operacionais, os do mato, tinham tendência para amplificar e hiperbolizar os seus feitos heróicos e contabilizar baixas no papel que não tinham qualquer correspondência no terreno… Em suma, todos, do alferes ao tenente coronel, queriam ficar bem na fotografia... Por causa das dúvidas, os paraquedistas fotografavam os cadáveres, quando havia tempo e vagar para isso…
(7) É de notar que neste sector (L1) qualquer operação implicava a afectação de importantes meios humanos: no mínimo, dois destacamentos, 6 grupos de combate, duas ou mais companhias... A desproporção de meios era flagrante: levávamos 150 a 250 homens, no mínimo, para andar à caça de 15 a 30 guerrilheiros... Esta região tinha sido palco de uma megaoperação, que mobilizou 1200 homens, entre miliatres e carregadores, onze meses antes: Op Lança Afiada, de 8 a 18 de Março de 1969: vd post de 14 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIX: Op Lança Afiada (IV): O soldado Spínola na margem direita do Rio Corubal
(8) Vd. post de 19 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXLI: Ponta do Inglês, Janeiro de 1970 (CCAÇ 12 e CART 2520): capturados 15 elementos da população e um guerrilheiro armado
(...) "Um dos homens capturados disse chamar-se Festa Na Lona, de etnia Balanta, estar alí a passar férias e pertencer a uma unidade combatente do Gabu. Foi-lhe apreendido uma pistola Tokarev (7,62, m/ 1933) e vários documentos" (...).
(9) Presto aqui a minha homenagem aos combatentes do PAIGC que, mesmo sob as duras condições (físicas e psicológicas) de cativeiro, eram capazes de nos ludibriar, a nós e aos nossos guias, e salvar os seus camaradas e a população afecta à guerrilha... Nunca cheguei a saber qual foi o destino dado ao Festa Na Lona, provavelmente recambiado para a região do Gabu, para ser de novo interrogado e forçado a servir de guia às NT...
Já vimos como, em operação anterior, a Op Boga Destemida, outro prisioneiro, Jomel Nanquitande, conseguiu fugir, debaixo de fogo, algemado e provavelmente ferido: vd post de 10 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXXVIII: Violenta emboscada em L (Op Boga Destemida, CCAÇ 12, CART 2520 e Pel Caç Nat 63, em Gundagué Beafada, Fevereiro de 1970)
(...) "O Dest A progrediu com o prisioneiro Festa em direcção ao objectivo, tendo passado por um acampamento com vestígios de abandono recente. Depois de progredir mais de 2 horas na direcção sul, e como o prisioneiro continuasse a dizer que era longe, contradizendo-se, o Dest A que só dispunha de 2 Gr Comb, entrou em ligação com o Dest B a fim de tomar uma decisão face à situação (...).
(...) "Cerca das 11.30h, o PCV sobrevoou a zona, quando o Dest B, já feita a cambança, armadilhava o local onde havia vestígios recentes do IN.
"Em marcha lenta, devido ao transporte do ferido em maca, os 2 Dest seguiram o trilho de Darsalame Baio-Gundagué Beafada, através do capim alto. Próximo da antiga tabanca beafada, cerca das 13h, as NT sofreriam uma violenta emboscada montada em L e com grande poder de fogo, especialmente de lança-rockets. A secção que ia na vanguarda do Dest B ficou praticamente fora de combate, tendo sido gravemente feridos, entre outros, o respectivo comandante e a praça encarregada da segurança do prisioneiro Jomel Nanquitande que, aproveitando a confusão, conseguiu fugir, embora algemado e muito provavelmente ferido" (...).
09 maio 2006
Guiné 63/74 - DCCXXXVII: A guerra que ainda não acabou (José Martins)
Caros camaradas!
Durante anos quisemos esquecer que fomos combatentes. Pura ingenuidade. Agora recordamos, cada vez mais, e cada vez mais dolorosa é a recordação.
Quando quizemos falar, não nos deixaram. Não era politicamente correcto. Não era uma atitude revolucionária.
Os governos passaram a ser constituidos por aqueles que nunca vestiram uma farda, mas usavam-na para as fotografias dos jornais ou em visitas a forças militares em manobras ou no estrangeiro. Pareciam soldadinhos de chumbo.
Depois vieram aqueles que: OU ERAM MUITO NOVOS, PARA TEREM IDO À GUERRA DO ULTRAMAR, OU MUITO VELHOS, PARA QUE OS PAIS LÁ TENHAM ESTADO.
Resta-nos esperar que o actual COMANDANTE SUPREMO DAS FORÇAS ARMADAS, o primeiro Presidente da Républica de Portugal que, como nós, tambem foi combatente à força, envide esforços no sentido de mudar as coisas.
Como mudar as coisas, entendo, atender às dificuldades daqueles que, com marcas visíveis no corpo e/ou invisíveis na alma, sejam devidamente ajudados.
Veja-se a situação em que se encontram camaradas nossos que têm a vida completamente destroçada, e o futuro sem FUTURO.
Para nós, infelizmente, a guerra ainda não acabou.
José Martins
Ex-Furriel Miliciano
CCAÇ 5
Guiné, 1968/70
Guiné 63/74 - DCCXXXVII: A guerra que ainda não acabou (José Martins)
Caros camaradas!
Durante anos quisemos esquecer que fomos combatentes. Pura ingenuidade. Agora recordamos, cada vez mais, e cada vez mais dolorosa é a recordação.
Quando quizemos falar, não nos deixaram. Não era politicamente correcto. Não era uma atitude revolucionária.
Os governos passaram a ser constituidos por aqueles que nunca vestiram uma farda, mas usavam-na para as fotografias dos jornais ou em visitas a forças militares em manobras ou no estrangeiro. Pareciam soldadinhos de chumbo.
Depois vieram aqueles que: OU ERAM MUITO NOVOS, PARA TEREM IDO À GUERRA DO ULTRAMAR, OU MUITO VELHOS, PARA QUE OS PAIS LÁ TENHAM ESTADO.
Resta-nos esperar que o actual COMANDANTE SUPREMO DAS FORÇAS ARMADAS, o primeiro Presidente da Républica de Portugal que, como nós, tambem foi combatente à força, envide esforços no sentido de mudar as coisas.
Como mudar as coisas, entendo, atender às dificuldades daqueles que, com marcas visíveis no corpo e/ou invisíveis na alma, sejam devidamente ajudados.
Veja-se a situação em que se encontram camaradas nossos que têm a vida completamente destroçada, e o futuro sem FUTURO.
Para nós, infelizmente, a guerra ainda não acabou.
José Martins
Ex-Furriel Miliciano
CCAÇ 5
Guiné, 1968/70
Guiné 63/74 - DCCXXXVI: A RTP1 e os 'Órfãos de Pátria': a montanha pariu um rato (José Martins)
Caro Luis
Acabo de ver o programa, da RTP, tão apregoado e que.... nada disse.
Nós que passamos pela guerra e que convivemos/vivemos com os nossos QUERIDOS NHARROS; nós que fomos AFRICANOS E GUINEENSES POR INTEIRO; nós que ajudámos AQUELES BRAVOS a defender uma bandeira e uma pátria...
A nós, os combatentes, nada disseram de novo. Aos outros, os que estão por fora, deve ter sido uma chatice.
Para mim, a montanha pariu .... nada, ou pior, a frustração!
É pena que, mais uma vez, se tenha perdido a oportunidade de, pelo menos, prestar uma homenagem aqueles que, generosamente, defenderam uma terra que era sua e agora se sentem ESTRANGEIROS NA PRÓPRIA TERRA.
Será que não há quem saiba fazer MELHOR? Será que não há quem saiba fazer (ou pedir) JUSTIÇA?
Há que ter FÈ e ESPERANÇA que um dia isso chegue, não só aos AFRICANOS mas também aos EUROPEUS.
Um abraço
Martins
__________
Nota de L.G.
(1) Vd post de 6 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXX: Ex-comandos africanos, 'órfãos de Pátria', reportagem na RTP 1 (José Martins)
Guiné 63/74 - DCCXXXVI: A RTP1 e os 'Órfãos de Pátria': a montanha pariu um rato (José Martins)
Caro Luis
Acabo de ver o programa, da RTP, tão apregoado e que.... nada disse.
Nós que passamos pela guerra e que convivemos/vivemos com os nossos QUERIDOS NHARROS; nós que fomos AFRICANOS E GUINEENSES POR INTEIRO; nós que ajudámos AQUELES BRAVOS a defender uma bandeira e uma pátria...
A nós, os combatentes, nada disseram de novo. Aos outros, os que estão por fora, deve ter sido uma chatice.
Para mim, a montanha pariu .... nada, ou pior, a frustração!
É pena que, mais uma vez, se tenha perdido a oportunidade de, pelo menos, prestar uma homenagem aqueles que, generosamente, defenderam uma terra que era sua e agora se sentem ESTRANGEIROS NA PRÓPRIA TERRA.
Será que não há quem saiba fazer MELHOR? Será que não há quem saiba fazer (ou pedir) JUSTIÇA?
Há que ter FÈ e ESPERANÇA que um dia isso chegue, não só aos AFRICANOS mas também aos EUROPEUS.
Um abraço
Martins
__________
Nota de L.G.
(1) Vd post de 6 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXX: Ex-comandos africanos, 'órfãos de Pátria', reportagem na RTP 1 (José Martins)
Guiné 63/74 - DCCXXV: Amigos para sempre (Tony Levezinho, CCAÇ 12)

"Olá, Luís" e a seguinte justificação: "Como prometido aqui seguem as seguintes digitalizações:
As quatro páginas da ementa da última refeição, na viagem de regresso, a bordo do Uíge, e outras tantas fotos mais de interesse pessoal do que documental mas, mesmo assim... aí vão.
Um grande abraço. Tony"...
N/M Uíge > 17 Março de 1971 : Dia da partida de Bissau para Lisboa. Regressávamos da guerra, com a morte na alma e mazelas no corpo, num navio da marinha mercante da Companhia Colonial de Navegação (uma empresa, fundada em Angola em 1922, para assegurar os transportes marítimos das colónias portuguesas com a Metrópole, sendo o paqueteVera Cruz o seu navio mais emblemático, e que não teve tempo de fazer o branqueamento do seu nome, já que o termo colonial não era politicamente correcto no início dos anos 70...).
Como se tudo continuasse como dantes e a vida corresse normalmente, "contra os ventos da história" (como então se dizia), nessa viagem de regresso à pátria servia-se a bordo, na classe turística (reservada aos sargentos) uma sopa de creme de marisco, seguido de um prato de peixe (Pescada à baiana) e um de carne (Lombo Estufado à Boulanger)... sem esquecer a sobremesa: a bela fruta da época, o bom café colonial, o inevitável cigarro a acompanhar um uísque velho, antes de mais uma noitada de lerpa ou de king... Obrigado ao Humberto Reis e à sua já famosa "memória de elefante" por me lembrar que o 17 de Março de 1971 foi o primeiro dia do resto das nossas vidas... (LG)
© António Levezinho (2006)
A caminho da Guiné > A bordo do Niassa > Maio de 1969: Quadros metropolitanos da CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), na viagem de Lisboa-Bissau (24 a 29 de Maio de 1969). Da esquerda para a direita: 2º sargento Videira, furriéis milicianos Branquinho, Levezinho, Reis, Fernandes, Henriques e Almeida (este último já falecido).
© Luís Graça (2005)
N/M Uíge > Março de 1971 > Nomes e moradas que ficaram escritos numa folha de papel (nas costas da ementa de um jantar a bordo) no alvoroço do regresso... Alguns de nós nunca mais se voltaram a encontrar: foi o caso do Luciano, desaparecido em condições trágicas (ao que me contaram) ... O Branquinho voltou para a Évora, o Fernandes para o Barreiro e para a CUF.... Voltei a encontrá-lo apenas uma vez, há uns anos atrás... tal como o José Manuel Rosado Piça, o grande Piça, para os amigos!.... Mesmo assim, ficámos amigos... para sempre ! (LG)
© António Levezinho (2006)
Guiné > Zona Leste > Contuboel> CCAÇ 12 > Junho de 1969 > Furriéis Levezinho e Henriques, no bem-bom da instrução de especialidade dada aos nharros da futura CCAÇ 12 (na altura CCAÇ 2590)... Havia tempo para tudo, até para brincadeiras estúpidas ou tão inocentes como esta simulação de um catana a exercer o seu mister no delicado pescoço de um tuga... (LG)
© António Levezinho (2006)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1970 > Furriéis Levezinho e Henriques, à beira da estrada, descando por uns momentos, já com ar de velhinhos, próximos do final da comissão... O quico (balanta ?) do furriel Henriques era manifestamente um sinal de que o RDM já não se aplicava no teatro de operações da Guiné... Acho que foi aqui que começámos a perder a guerra... com a nossa progressiva cafrealização... Mas o pior de todos, o exemplo mais subversivo, era o do Jorge Cabral, régulo tuga de Fá Mandinga...(LG)
© António Levezinho (2006)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1970 > Furriéis Levezinho e Henriques, à civil, com ar domingueiro... Por detrás, as excelentes instalações do hotel de Bambadinca que faziam inveja a muitos dos nossos camaradas de passagem pela sede do Sector L1... O Henriques sempre o conheci de livro debaixo do braço, razão porque tinha um ombro mais alto do que outro...(LG)
© António Levezinho (2006)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > Novembro de 1969 > Furriéis Henriques, Reis e Levezinho, no bar de sargentos, comemorando mais um feliz aniversário do Tony: creio que o 22º, a 24 de Novembro de 1969... Se não foi nesse dia (já que os dois últimos passaram a noite a fazer segurança a uma máquina da engenharia atolada na estrada Xime-Bambadicna), terá sido no dia seguinte... No teatro da morte, todos os pretextos eram bons para saudar à vida... E tamb´+em saudámos ao casamemto do Tony, a meio da comissão, aproveitando o merecido mês de férias na Metrópole... Creio que a Isabel nessa altura tinha 17 anos... Nunca a deixámos ser viúva, tomando bem conta do seu Tony...
O furriel Henriques garante que esta foto é de 1969, já que está de óculos; no aniversário seguinte, a 24 de Novembro de 1970, dois dias depois da invasão de Conacri por Alpoim Galvão e os seus rapazes, ele já não usava óculos: tinha-os perdidado definitivamente, por efeito do cone de fogo de uma bazuka, da sequência de uma emboscada, sofrida durante a Op Boga Destemida, em 9 de Fevereiro de 1970... (2)(LG).
© Humberto Reis (2006)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1971 > Furriéis Levezinho e Fernandes, em convalescença... Ao Tony já não sei o que é que aconteceu... Ao Fernandes, o braço ao peito tem uma explicação: a explosão de uma mina anticarro à saída de Nhabijões, no dia 13 de Janeiro de 1970 (um dia fatídico o nosso soldado condutor auto, Soares, que teve morte imediata; mas também para o Fernandes, que ficou ferido; para o Alf Mil Moreira, que foi gravemente ferido; e para outros camaradas, incluindo o furriéis Marques e Henriques e, que cairam, com o seu grupo de combate, numa segunda mina; por caso o dia, embora 13, não foi sexta-feira, mas sim quarta-feira) (2) (3) (LG)
© António Levezinho (2006)
_____
Notas de L.G.
(1) Vd. post de 9 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXXVIII: Violenta emboscada em L (Op Boga Destemida, CCAÇ 12, CART 2520 e Pel Caç Nat 63, em Gundagué Beafada, Fevereiro de 1970)
(2) Vd. post de 23 Setembro 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)
(3) Vd post de 24 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática
Guiné 63/74 - DCCXXV: Amigos para sempre (Tony Levezinho, CCAÇ 12)

"Olá, Luís" e a seguinte justificação: "Como prometido aqui seguem as seguintes digitalizações:
As quatro páginas da ementa da última refeição, na viagem de regresso, a bordo do Uíge, e outras tantas fotos mais de interesse pessoal do que documental mas, mesmo assim... aí vão.
Um grande abraço. Tony"...
N/M Uíge > 17 Março de 1971 : Dia da partida de Bissau para Lisboa. Regressávamos da guerra, com a morte na alma e mazelas no corpo, num navio da marinha mercante da Companhia Colonial de Navegação (uma empresa, fundada em Angola em 1922, para assegurar os transportes marítimos das colónias portuguesas com a Metrópole, sendo o paqueteVera Cruz o seu navio mais emblemático, e que não teve tempo de fazer o branqueamento do seu nome, já que o termo colonial não era politicamente correcto no início dos anos 70...).
Como se tudo continuasse como dantes e a vida corresse normalmente, "contra os ventos da história" (como então se dizia), nessa viagem de regresso à pátria servia-se a bordo, na classe turística (reservada aos sargentos) uma sopa de creme de marisco, seguido de um prato de peixe (Pescada à baiana) e um de carne (Lombo Estufado à Boulanger)... sem esquecer a sobremesa: a bela fruta da época, o bom café colonial, o inevitável cigarro a acompanhar um uísque velho, antes de mais uma noitada de lerpa ou de king... Obrigado ao Humberto Reis e à sua já famosa "memória de elefante" por me lembrar que o 17 de Março de 1971 foi o primeiro dia do resto das nossas vidas... (LG)
© António Levezinho (2006)
A caminho da Guiné > A bordo do Niassa > Maio de 1969: Quadros metropolitanos da CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), na viagem de Lisboa-Bissau (24 a 29 de Maio de 1969). Da esquerda para a direita: 2º sargento Videira, furriéis milicianos Branquinho, Levezinho, Reis, Fernandes, Henriques e Almeida (este último já falecido).
© Luís Graça (2005)
N/M Uíge > Março de 1971 > Nomes e moradas que ficaram escritos numa folha de papel (nas costas da ementa de um jantar a bordo) no alvoroço do regresso... Alguns de nós nunca mais se voltaram a encontrar: foi o caso do Luciano, desaparecido em condições trágicas (ao que me contaram) ... O Branquinho voltou para a Évora, o Fernandes para o Barreiro e para a CUF.... Voltei a encontrá-lo apenas uma vez, há uns anos atrás... tal como o José Manuel Rosado Piça, o grande Piça, para os amigos!.... Mesmo assim, ficámos amigos... para sempre ! (LG)
© António Levezinho (2006)
Guiné > Zona Leste > Contuboel> CCAÇ 12 > Junho de 1969 > Furriéis Levezinho e Henriques, no bem-bom da instrução de especialidade dada aos nharros da futura CCAÇ 12 (na altura CCAÇ 2590)... Havia tempo para tudo, até para brincadeiras estúpidas ou tão inocentes como esta simulação de um catana a exercer o seu mister no delicado pescoço de um tuga... (LG)
© António Levezinho (2006)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1970 > Furriéis Levezinho e Henriques, à beira da estrada, descando por uns momentos, já com ar de velhinhos, próximos do final da comissão... O quico (balanta ?) do furriel Henriques era manifestamente um sinal de que o RDM já não se aplicava no teatro de operações da Guiné... Acho que foi aqui que começámos a perder a guerra... com a nossa progressiva cafrealização... Mas o pior de todos, o exemplo mais subversivo, era o do Jorge Cabral, régulo tuga de Fá Mandinga...(LG)
© António Levezinho (2006)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1970 > Furriéis Levezinho e Henriques, à civil, com ar domingueiro... Por detrás, as excelentes instalações do hotel de Bambadinca que faziam inveja a muitos dos nossos camaradas de passagem pela sede do Sector L1... O Henriques sempre o conheci de livro debaixo do braço, razão porque tinha um ombro mais alto do que outro...(LG)
© António Levezinho (2006)
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > Novembro de 1969 > Furriéis Henriques, Reis e Levezinho, no bar de sargentos, comemorando mais um feliz aniversário do Tony: creio que o 22º, a 24 de Novembro de 1969... Se não foi nesse dia (já que os dois últimos passaram a noite a fazer segurança a uma máquina da engenharia atolada na estrada Xime-Bambadicna), terá sido no dia seguinte... No teatro da morte, todos os pretextos eram bons para saudar à vida... E tamb´+em saudámos ao casamemto do Tony, a meio da comissão, aproveitando o merecido mês de férias na Metrópole... Creio que a Isabel nessa altura tinha 17 anos... Nunca a deixámos ser viúva, tomando bem conta do seu Tony...
O furriel Henriques garante que esta foto é de 1969, já que está de óculos; no aniversário seguinte, a 24 de Novembro de 1970, dois dias depois da invasão de Conacri por Alpoim Galvão e os seus rapazes, ele já não usava óculos: tinha-os perdidado definitivamente, por efeito do cone de fogo de uma bazuka, da sequência de uma emboscada, sofrida durante a Op Boga Destemida, em 9 de Fevereiro de 1970... (2)(LG).
© Humberto Reis (2006)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1971 > Furriéis Levezinho e Fernandes, em convalescença... Ao Tony já não sei o que é que aconteceu... Ao Fernandes, o braço ao peito tem uma explicação: a explosão de uma mina anticarro à saída de Nhabijões, no dia 13 de Janeiro de 1970 (um dia fatídico o nosso soldado condutor auto, Soares, que teve morte imediata; mas também para o Fernandes, que ficou ferido; para o Alf Mil Moreira, que foi gravemente ferido; e para outros camaradas, incluindo o furriéis Marques e Henriques e, que cairam, com o seu grupo de combate, numa segunda mina; por caso o dia, embora 13, não foi sexta-feira, mas sim quarta-feira) (2) (3) (LG)
© António Levezinho (2006)
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Notas de L.G.
(1) Vd. post de 9 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXXVIII: Violenta emboscada em L (Op Boga Destemida, CCAÇ 12, CART 2520 e Pel Caç Nat 63, em Gundagué Beafada, Fevereiro de 1970)
(2) Vd. post de 23 Setembro 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)
(3) Vd post de 24 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática
08 maio 2006
Guiné 63/74 - DCCXXXIV: Nunca digas jamais (António Santos, Pel Mort 4574/72, Nova Lamego)
Em anexo envio um documento que pretende ser a minha primeira participação no Blogue-fora-nada.
Aguardo notícias para continuar.
Obrigado,
António Santos
Noprodigital, Lda.
Tel(s).: +351 21 9809880-8
Fax.: +351 21 9809889
Caneças, 15 de Maio de 2006
Caro camarada Luis Graça.
Peço desculpa de, no primeiro contacto, estar tão íntimo mas tomo a liberdade após entender que no blogue-fora-nada é mesmo assim.
Ando há cerca de um mês a espreitar o teu blogue cujo tema é a Guiné, e a vontade de entrar na conversa vai aumentando todos os dias e, como alguma vez tem que ser a primeira, cá vai.
Essa terra que, apesar de independente, com todo o direito, sinto que é hoje mais nossa do que o foi há 34 anos, (para o meu turno), quando fui (fomos) brindados com uma viagem de ida e talvez volta, felizmente que a volta o foi para a grandissíma maioria dos camaradas.
Tenho reparado que o pessoal da zona onde fui parar [Nova Lamego], não aparece para desabafar o muito que tem para contar
Data: 1 de Agosto de 1974, 12 horas; local: aeroporto de Bissalanca, Guiné-Bissau... Saímos aproximadamente 4 horas depois do previsto, porque o avião estava a ser reparado na ilha do Sal em Cabo Verde de uma pequena avaria, mas a pressa era tanta em regressar que ninguém se importou em embarcar.
O Boeing 707 dos TAM começa a sua corrida para levantar voo com destino a Lisboa e, no preciso momento em que as rodas deixaram de tocar na pista, alguém disse alto e bom som:
- Nunca mais volto a esta terra!
... Pois passados 32 anos sobre esse dia, esse alguém está com uma vontade louca de voltar (vontade que não é de agora, já dura há alguns anitos). Voltar à Guiné só tem acontecido em sonhos e muitos, pois já fui mobilizado umas quantas vezes.
Voltar não só para visitar Nova Lamego (Gabu Sara), terra de mim, mas também outros locais de que tanto ouvi falar por variadíssimas razões, e que o blogue-fora-nada veio recordar.
Esse alguém é quem está a escrever, como já percebeste. Chamo-me António Santos, ex-Soldado de Transmissões, em Nova Lamego, Sector L3, de 1972 a 1974, incorporado no Pel Mort 4574/72, para render o Pel Mort 2267/70.
Mas voltando ao início, como tudo começou:
- 19 de Outubro de 1971: Recruta no RI 3, Beja;
- 2 de Janeiro de 1972, especialidade no BCAÇ 5, Campolide, Lisboa;
- 13 de Março de 1972, pronto, Amadora: nesse dia, guia de marcha para uma diligência no HMP na Estrela Lisboa;
- finalmente, 31 de Maio de 19 72, a (não desejada)mobilização pelo RI 15 em Tomar, com destino à Guiné.
Por agora fico por aqui, para não se tornar uma grande seca. Estou a digitalizar uma série de fotos que, se estiveres de acordo, vou enviando, conforme for escrevendo.
Cumprimentos
Depois disto tudo, se me é permitido envio um abração para toda a tropa.
Comentário de L.G.:
Nunca digas... jamais, seca, dá-me licença, meu comandante... Nem peças para entrar: a caserna é grande e é nossa... O blogue é teu, camarada.
Guiné 63/74 - DCCXXXIV: Nunca digas jamais (António Santos, Pel Mort 4574/72, Nova Lamego)
Em anexo envio um documento que pretende ser a minha primeira participação no Blogue-fora-nada.
Aguardo notícias para continuar.
Obrigado,
António Santos
Noprodigital, Lda.
Tel(s).: +351 21 9809880-8
Fax.: +351 21 9809889
Caneças, 15 de Maio de 2006
Caro camarada Luis Graça.
Peço desculpa de, no primeiro contacto, estar tão íntimo mas tomo a liberdade após entender que no blogue-fora-nada é mesmo assim.
Ando há cerca de um mês a espreitar o teu blogue cujo tema é a Guiné, e a vontade de entrar na conversa vai aumentando todos os dias e, como alguma vez tem que ser a primeira, cá vai.
Essa terra que, apesar de independente, com todo o direito, sinto que é hoje mais nossa do que o foi há 34 anos, (para o meu turno), quando fui (fomos) brindados com uma viagem de ida e talvez volta, felizmente que a volta o foi para a grandissíma maioria dos camaradas.
Tenho reparado que o pessoal da zona onde fui parar [Nova Lamego], não aparece para desabafar o muito que tem para contar
Data: 1 de Agosto de 1974, 12 horas; local: aeroporto de Bissalanca, Guiné-Bissau... Saímos aproximadamente 4 horas depois do previsto, porque o avião estava a ser reparado na ilha do Sal em Cabo Verde de uma pequena avaria, mas a pressa era tanta em regressar que ninguém se importou em embarcar.
O Boeing 707 dos TAM começa a sua corrida para levantar voo com destino a Lisboa e, no preciso momento em que as rodas deixaram de tocar na pista, alguém disse alto e bom som:
- Nunca mais volto a esta terra!
... Pois passados 32 anos sobre esse dia, esse alguém está com uma vontade louca de voltar (vontade que não é de agora, já dura há alguns anitos). Voltar à Guiné só tem acontecido em sonhos e muitos, pois já fui mobilizado umas quantas vezes.
Voltar não só para visitar Nova Lamego (Gabu Sara), terra de mim, mas também outros locais de que tanto ouvi falar por variadíssimas razões, e que o blogue-fora-nada veio recordar.
Esse alguém é quem está a escrever, como já percebeste. Chamo-me António Santos, ex-Soldado de Transmissões, em Nova Lamego, Sector L3, de 1972 a 1974, incorporado no Pel Mort 4574/72, para render o Pel Mort 2267/70.
Mas voltando ao início, como tudo começou:
- 19 de Outubro de 1971: Recruta no RI 3, Beja;
- 2 de Janeiro de 1972, especialidade no BCAÇ 5, Campolide, Lisboa;
- 13 de Março de 1972, pronto, Amadora: nesse dia, guia de marcha para uma diligência no HMP na Estrela Lisboa;
- finalmente, 31 de Maio de 19 72, a (não desejada)mobilização pelo RI 15 em Tomar, com destino à Guiné.
Por agora fico por aqui, para não se tornar uma grande seca. Estou a digitalizar uma série de fotos que, se estiveres de acordo, vou enviando, conforme for escrevendo.
Cumprimentos
Depois disto tudo, se me é permitido envio um abração para toda a tropa.
Comentário de L.G.:
Nunca digas... jamais, seca, dá-me licença, meu comandante... Nem peças para entrar: a caserna é grande e é nossa... O blogue é teu, camarada.
Guiné 63/74 - DCXXXIII: O meu testemunho (Paulo Raposo, CCAÇ 2405, 1968/70) (6); Mansoa, baptismo de fogo
Post nº 733 (DCCXXXIII):VI parte do testemunho do Paulo Raposo (ex-Alf Mil Inf, com a especialidade de Minas e Armadilhas, da CCAÇ 2405, pertencente ao BCAÇ 2852 > Guiné, Zona Leste, Sector L1, Bambadinca, 1968/70 > Galomaro e Dulombi).
Extractos de: Raposo, P. E. L. (1997) - O meu testemunho e visão da guerra de África.[Montemor-o-Novo, Herdade da Ameira]. Documento policopiado. Dezembro de 1997. pp. 18-22 (1).
Guiné > Região do Oio > Mansoa > 1968 > O Alf Mil Raposo, de óculos escuros, com o Furriel Ribas, à sua esquerda, e alguns soldados, observando uma giboia morta perlas NT © Paulo Raposo (2006)
Mansoa: Baptismo de fogo
O sacrifício era muito. Vou contar uns episódios dos muitos que por lá passàmos:
1. Após a nossa chegada a Mansoa, foi-nos distribuído o material de guerra. Já armados, fomos para uma bolanha, nome que se dava a um grande charco de água, que enchia com a chuva.
Esta bolanha ficava para além de uma companhia de balantas, que fazia a protecção do nosso quartel. Naquela zona de Mansoa, sair fora do arame farpado tinha riscos.
Este exercício tinha como objectivo habituarmo-nos a estar debaixo de fogo. Deita-se um grupo de combate, e por cima deste, faz-se fogo.
Aconteceu que logo no primeiro exercício, quando estava o primeiro grupo de combate deitado, há um disparo que sai mais baixo e vai ferir em ambas as pernas um soldado. Depressa foi chamada uma viatura, para o levar rapidamente para o Hospital. Para aquele rapaz, a comissão terminou ali.
Este acidente foi muito desmoralizante para os restantes e mais nenhum outro exercício foi feito. Perguntei-me nessa altura como iria sair dali.
2. Um belo dia o meu grupo de combate estava encarregue de levar e proteger os homens que iam limpar do capim uma faixa grande de ambos os lados da estrada. Assim evitávamos que tivessemos emboscadas coladas à picada.
Dirigimo-nos para o local de trabalho em duas viaturas. Parámos precisamente no sítio aonde tínhamos terminado o trabalho no dia anterior, ou seja ainda na zona já descapinada.
Quando parámos, saltaram do capim alguns elementos IN para a estrada. Fizemos fogo, eles fugiram e não responderam. Se tivéssemos parado 50 metros mais à frente, tínhamos caído na emboscada.
Recuperados da emoção, os homens começaram o seu trabalho e eu dirijo-me para um tronco de árvore, que estava caído, para me sentar. Ao aproximar-me do tronco, este mexe-se. Era uma gibóia, com sete metros de comprido. Enfiei-lhe um carregador em cima e ela continuava bem viva. O Cabo enfermeiro Luís, agarra num tronco de um ramo verde, e, pondo-se à frente dela, bate-lhe continuamente na cabeça, até a cobra se ver perdida.
Uma vez perdida, morde-se a ela própria, para não se humilhar à mão do enfermeiro Luís.
3. Durante as muitas operações de patrulhamento que fazíamos, tivemos numa delas o nosso baptismo de fogo.
Depois de termos passado o dia a andar, paramos para passar a noite. Íamos a nível de companhia. Ao levantarmo-nos, de madrugada, iniciámos o regresso. Estava muito húmido.
Por cima de nós estava o PC em DO para controlar a nossa progressão.
O PC era o nome que dávamos ao Posto de Comando e o DO era um monomotor da Força Aérea, mais precisamente DO-27. Em determinadas operações um posto de comando era enviado para controlar a progressão da força no terreno, e para ter a certeza que esta atingia o objectivo da operação.
Era a maneira evoluída e mais humana do que se fazia nas guerras convencionais de trincheira.
Quando se pretendia fazer um avanço em linha nas forças inimigas a estratégia era a seguinte:
A artilharia bombardeava durante três dias as trincheiras inimigas, para as aniquilar fisicamente, criar um clima de terror e de ansiedade no inimigo, destruindo-o psicologicamente também, dado que não tinham descanso naqueles dias. De seguida dava-se ordem às nossas tropas para avançarem. Imediatamente a artilharia passava a bombardear as nossas trincheiras, para ter a certeza que ninguém ficava para trás.
Hoje, do ponto de vista comercial, os técnicos das mais avançadas empresas de Sillicon Valley dizem:
- Obtem-se o que se inspecciona, não o que se espera.
Este assunto já vem descrito na Sagrada Bíblia. Só depois do dono da seara mandar aparelhar o cavalo, é que as cotovias dizem umas para as outras:
- Agora sim, irmãs, é hora de irmos embora. - Mandar os criados : não basta, é preciso acompanhá-los.
De repente ficámos debaixo de um grande tiroteio, com a irritante costureirinha, assim lhe chamavamos, à PPSH do inimigo, a bater por cima de nós. Era uma arma automática, que tinha uma maneira muito característica de fazer fogo (2).
Instala-se a surpresa e o medo. Quando a nossa resposta se inicia, o medo desaparece, passamos a dominar a situação, e vá de levantar e sair rapidamente da zona de morte. Depois de tanto barulho, tiros e granadas, pensamos que haverá alguns mortos e feridos. Nada disso. Nada aconteceu. Nossa Senhora vai-nos protegendo.
Quando isto acontece na segunda vez notamos que é quase impossível haver vítimas e é então que se instala a confiança.
Havia pois três períodos distintos durante a Comissão: O primeiro, o da chegada, era o do medo do desconhecido, o medo de não sabermos controlar as situações que nos apareciam. O segundo era o da auto confiança, em que nos considerávamos os maiores. Nada nos intimidava. O terceiro era a fase final. Era o pior pois a pouco tempo do embarque e já com a comissão prestes a acabar, tínhamos medo que algo nos acontecesse. Era a fase do tirem-me daqui.
4. Todos os dias havia uma coluna que ia a Bissau e que era acompanhada por um grupo de combate para protecção dos carros. Na volta a coluna formava-se junto ao Hospital Militar.
Sempre que eu ia a Bissau costumava subir à enfermaria dos oficiais para saber se lá estava alguém conhecido. Numa dessas vezes entro e vejo um rapaz amigo, o Alvarez. Tinha entrado comigo para Mafra. Naquela altura, ele tinha um DKW que se via aflito para subir a ladeira de Cheleiros [, estrada de acesso a Mafra].
Era Alferes dos Comandos e, numa operação no Sul, contou-me ele, ia em terceiro lugar e deu de caras com o inimigo, num trilho. Depois da troca de tiros, há uma granada de bazuca do inimigo que explode nas árvores e os estilhaços choveram sobre ele.
Coitado, estava todo esburacado. Depois de várias operações, ficou bom e é hoje um dos melhores comandantes da TAP. Já tive a sorte de voar com ele uma vez.
____________
Nota de L.G.
(1) Vd último post, de 7 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXXI: O meu testemunho (Paulo Raposo, CCAÇ 2405, 1968/70) (5): Periquito em Mansoa
(2) Vd. a página de Bill Berg, em inglês, sobre a PPSH bem como fotos desta famosa arma russa que nos punha os cabelos em pé, na Guiné (fotos da autoria de Oleg Volk) . Sobre as armas utilizadas na guerra colonial, consultar também o Centro de Documentação 25 de Abril , da Universidade de Coimbra. Infelizmente há poucos sítios, em portugugês, com as imagens e com as especificações técnicas das armas mais usadas durante a guerra colonial em África. É um campo a explorar eventualmente por um dos nossos tertulianos...

