03 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - CDXCV: Madina do Boé: 37º aniversário do desastre de Cheche (José Martins)

Guiné > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e Cheche.

Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)



Texto escrito e enviado pelo José Martins, "para lembrar o 37º aniversário do desastre do Cheche", occorido no Rio Corubal, em 6 de Fevereiro de 1969, na operação de retirada de Madina do Boé (1)

Madina do Boé: contributo para sua história

OS HOMENS

Falar de Madina do Boé é falar dos homens que ao longo do tempo, e muito concretamente entre Maio de 1965 e 6 Fevereiro de 1969, estiveram em quadrícula naquela parcela do território português, hoje independente, e sobre o qual flutuou a Bandeira de Portugal.

Consultando o terceiro volume da Resenha Histórica-Militar das Campanhas de África (1961-1974) (Dispositivo das Nossas Forças - Guiné), e encontrei os seguintes elementos sobre as companhias que passaram/estiveram/permanecem para sempre, nos factos que constituem a história desta zona da actual Guiné-Bissau.

A primeira unidade a instalar-se em Madina do Boé, foi a Companhia de Cavalaria nº 702 – Batalhão de Cavalaria nº 705 - formada no Regimento de Cavalaria 7 em Lisboa (já extinto) que chegou à Guiné em Julho de 1964 e ficou instalada em Bissau. Posteriormente foi transferida para Bula (Janeiro de 1965) e Contubuel (Março de 1965). Foi colocada em Madina do Boé em Maio de 1965 onde permaneceu até Abril de 1966, quando terminou a sua comissão de serviço.

Foi substituída pela Companhia de Caçadores nº 1416 – Batalhão de Caçadores nº 1856 - formada no Regimento de Infantaria 1 e ainda instalado na Serra da Carregueira na região de Lisboa e onde, actualmente, se encontra o Regimento de Comandos, foi colocada em Nova Lamego em Agosto de 1965. Posteriormente, em Maio de 1966 foi substituir a CCAV 702 em Madina do Boé, onde permaneceu até Abril de 1967, quando terminou a sua comissão de serviço.
A Companhia de Caçadores nº 1589 – Batalhão de Caçadores nº 1894, formada no Regimento de Infantaria 15, em Tomar (uma das unidades que mobilizou militares para a I Grande Guerra), chegou à Guiné em Agosto de 1966 ficando instalada em Bissau. Daqui foi enviada para Fá Mandinga em Dezembro de 1966 e para Madina do Boé, para substituir a CCaç 1416, em Abril de 1967, onde permaneceu até Janeiro de 1968, altura em que foi transferida para Nova Lamego, e, em Março de 1968 foi enviada para Bissau onde permaneceu até Maio de 1968, altura em que terminou a sua comissão de serviço.

Em Pirada, em Março de 1965, foi criada a Companhia de Milícias nº 15 que foi enviada em Junho de 1967 para Madina do Boé para reforço das forças ali estacionadas. Não existe registo para onde foi transferida depois de retirada de Madina. Foi desactivada em Dezembro de 1971.

A última unidade a permanecer naquela zona foi a Companhia de Caçadores nº 1790 – Batalhão de Caçadores nº 1933, formada no Regimento de Infantaria 15 em Tomar. Quando chegou à Guiné em Outubro de 1967 ficou estacionada em Fá Mandinga. Daqui foi transferida para Madina do Boé em Janeiro de 1968 onde permaneceu até Fevereiro de 1969, seguindo nesta data para Nova Lamego e em Abril de 1969 foi transferida para S. Domingos, onde se manteve até ao final da sua comissão de serviço em Julho de 1969. Esta unidade tinha um destacamento em Beli, que foi mandado regressar e juntar-se à companhia em Junho de 1968.

O LOCAL

Conheci Madina do Boé numa altura em que regressava ao aquartelamento do minha unidade, a Companhia de Caçadores nº 5 estacionada em Canjadude, indo de Nova Lamego onde tinha estado, já não me recordo, se em serviço ou no regresso de férias. Viajava numa Dornier e conheci o aquartelamento do ar. Sei que só aterramos depois de dois bombardeiros T 6, que nos escoltaram a partir da altura do Rio Corubal, terem feito uma observação dos locais onde era normal estarem e/ou atacarem o aquartelamento os elementos do PAIGC. Íamos buscar o Padre Libório, Alferes/Capelão do Batalhão de Caçadores nº 2835, que tinha estado junto daquela unidade durante alguns dias.

As instruções do Furriel que pilotava a aeronave foram precisas: assim que o aparelho parar saltas e corres para junto dos abrigos.

Assim fizemos e, ao chegar junto dos militares que não tinham saído de junto dos abrigos, fomos recebidos com algumas dezenas de abraços e palmadas nas costas daqueles homens que, só muito raramente, viam alguém que não fossem os seus camaradas habituais. Das manifestações havidas, já não sei se foram de boas vindas ou de despedida, pois o tempo de permanência da DO em terra teria que ser mínimo.

Do local ficou-me a sensação de que era uma terra inóspita, sem população civil, e, portanto, apenas a teimosia de alguém que não sabe o que é “estar no terreno de operações” fazia permanecer tropas naquele local.

A guerra que travávamos tinha como primeiro objectivo captar a simpatia e apoio das populações, transmitir-lhe alguns ensinamentos, e, sobretudo, prepará-los para “Um Futuro numa Guiné melhor”. Neste cenário não havia razão para sacrificar aqueles homens ao isolamento e ao sofrimento da incerteza da sorte das armas.

A RETIRADA

A saída da zona do Boé começou em Junho de 1968, com o desmantelamento do destacamento de Beli, guarnecido por uma força destacada de Madina de Boé. Participei nessa operação, como pira já que ainda não tinha um mês de Guiné, para visitar os destacamentos de Canjadude e Cheche, locais que se encontravam guarnecidos por forças da CCAÇ 5, unidade em que fora colocado como Sargento de Transmissões.

A minha missa terminava no Cheche. Aí ficaria a aguardar o regresso da coluna que, depois de proceder ao desmantelamento de Beli e deslocar a guarnição para Madina do Boé, voltaria, pelo mesmo e único caminho, a Nova Lamego.

Presenciei o nervosismo, e porque não dizer o medo, do pessoal que ia em primeiro lugar, na jangada, ocupar posições na outra margem, para montar a segurança para a passagem do restante da coluna.

Só os meios aéreos poderiam antecipar dados que permitissem cambar o rio com relativa segurança.

Já não assisti ao regresso da coluna nem aos trabalhos da passagem para a margem norte do Corubal, pois a primeira crise de paludismo originou novo baptismo: a evacuação aérea para Nova Lamego. Dias mais tarde assisti ao regresso da coluna e, naturalmente, à descompressão das tropas utilizadas nessa operação.

Toda esta manobra obedecia a uma directiva, a nº 1/68, do Comandante Chefe recentemente empossado, o então Brigadeiro António de Spínola que previa o estabelecimento de uma grande base operacional na região do Cheche. Nessa região ficariam instaladas forças de intervenção, seria construída uma pista para aviões do tipo Dakota, além de uma jangada para a travessia do rio. As canoas, que seriam a estrutura base dessa jangada, passariam mais tarde por Canjadude, em mais uma das muitas colunas que por lá passaram, tendo como destino o Cheche.

Assim, mesmo sem que a base tivesse sido instalada, a guarnição de Madina do Boé seria retirada desse destacamento, numa operação montada e que seria realizada no início de Fevereiro de 1969. A coluna constituída por cinquenta e seis viaturas foi escoltada, entre outras forças, por elementos da Companhia de Caçadores nº 2405 – Batalhão de Caçadores nº 2852 (2)rmado no Regimento de Infantaria nº 2.

DESASTRE DO CHECHE

Constou, na altura, que tinha havido uma alteração na "ordem de operações". Previa-se que, aquando da travessia do Corubal, as últimas unidades a atravessar o rio seriam as de armas pesadas, ao contrário do que se verificou, que foram tropas de infantaria.

Imagino que, ao verem na outra margem do rio Corubal e para a qual se deslocavam, uma série de morteiros e canhões-sem-recuo prontos a responder a qualquer ataque, os militares tivessem descomprimido um pouco, podendo eventualmente ter tentado encher os cantis com água do rio, cuja falta se fazia sentir naquela altura do ano, desconhecendo que um Unimog, guarnecido por uma secção que eu próprio comandava, se encontrava muito próximo para reabastecer quem necessitasse, uma vez que a companhia retirada e as que haviam procedido à sua escolta, não entrariam no perímetro militar de Canjadude, não só por questões logísticas mas também operacionais.

A determinada altura, conforme se refere num filme realizado por José Manuel Saraiva, de 1995, e editado em cassete vídeo pelo Diário de Notícias, um som abafado, muito semelhante "à saída de uma morteirada ", teria gerado agitação entre os elementos que eram transportados na jangada, e eram bastantes. Da agitação resultou o desequilíbrio da jangada e a queda nas águas de uma parte substancial dos homens que estavam a ser transportados na mesma. O receio era de que tivessem sido seguidos à distância por forças IN e que as mesmas estivessem a preparar um ataque à jangada, que se deslocava lentamente.

A grande preocupação foi a ajuda aos que tinham caído à água, pois que transportavam consigo todo o equipamento normal numa missão de patrulhamento que, além da arma, do cantil e do bornal, munições de reserva não só para as armas ligeiras, mas também para as bazucas e para os morteiros.

Não foi só o equipamento individual que foi o responsável pelo afogamento de tantos homens. Os habitantes daquele rio também tiveram uma intervenção pouco amigável. Diz quem também esteve no centro daquele acontecimento, que as águas tomaram um tom avermelhado.

Naquela tarde de 6 de Fevereiro de 1969, o Corubal roubou a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas dos quais, poucos, viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.

OS HERÓIS/MÁRTIRES

É com emoção que, quando falo ou escrevo sobre este tema, me perfilo em continência, os meus lábios murmuram uma breve oração, e me curvo perante a memória daqueles que não voltaram e cujo espírito permanece sobre as águas do Rio Corubal:

Furriéis Milicianos:

Carlos Augusto da Rocha, natural de Angústias – Horta – Açores – CCAÇ 1790
Gregório dos Santos Corvelo Rebelo, natural de Terra Chã – Angra do Heroísmo – Açores – CCAÇ 2405


Primeiros-cabos:

Alfredo António Rocha Guedes, natural de Vila Jusa – Mesão Frio – CCAÇ 2405
Augusto Maria Gamito, natural de S. Francisco da Serra – Santiago do Cacém – CCAÇ 1790
Francisco de Jesus Gonçalves Ferreira, natural de Tortosendo - Covilhã – CCAÇ 1790
Joaquim Rita Coutinho, natural de Samora Correia - Benavente – CCAÇ 1790José Antunes Claudino, natural de Alcanhões - Santarém – CCAÇ 2405
José Simões Correia de Araújo, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
Luís Francisco da Conceição Jóia, natural de Alvor - Portimão – CCAÇ 1790

Soldados:

Alberto da Silva Mendes, natural de Sande - Guimarães – CCAÇ 2405
Alfa Jau, natural da Guiné – CCAÇ 1790
Américo Alberto Dias Saraiva, natural de S. Sebastião da Pedreira - Lisboa – CCAÇ 1790
Aníbal Jorge da Costa, natural de Rossas – Vieira do Minho – CCAÇ 1790António Domingos Nascimento, natural de Santa Maria - Trancoso – CCAÇ 2405
António dos Santos Lobo, natural de Favaios do Douro - Alijó – CCAÇ 1790
António dos Santos Marques, natural de Lorvão - Penacova – CCAÇ 2405
António Jesus da Silva, natural de Arazedo – Montemor-o-velho – CCAÇ 2405
António Marques Faria, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790António Martins de Oliveira, natural de Rio Tinto - Gondomar – C.Caç 1790
Augusto Caril Correia, natural de Santa Cruz - Coimbra – CCAÇ 1790
Avelino Madail de Almeida, natural de Glória - Aveiro – CCAÇ 1790
Celestino Gonçalves Sousa, natural de Poiares – Ponte de Lima – CCAÇ 1790
David Pacheco de Sousa, natural de Lustosa - Lousada – CCAÇ 1790
Francisco da Cruz, natural de Lebução - Valpaços – CCAÇ 2405
Joaquim Nunes Alcobia, natural de Igreja Nova – Ferreira do Zêzere – CCAÇ 1790
Joel Santos Silva, natural de Guisande – Vila da Feira – CCAÇ 1790
José da Silva Coelho, natural de Recarei - Paredes – CCAÇ 1790
José da Silva Góis, natural de Meãs do Campo – Montemor-o-novo – CCAÇ 2405
José da Silva Marques, natural de Marmeleira - Mortágua – CCAÇ 2405
José de Almeida Mateus, natural de Santa Comba Dão – CCAÇ 1790
José Fernando Alves Gomes, natural de Carvalhosa – Paços de Ferreira – CCAÇ 1790
José Ferreira Martins, natural de Pousada de Saramagos – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
José Loureiro, natural de S. João de Fontoura Resende – CCAÇ 2405
José Maria Leal de Barros, natural de Vilela - Paredes – CCAÇ 1790
José Pereira Simão, natural de Salzedas - Tarouca – CCAÇ 2405
Judite Embuque, natural de Guiné – CCAÇ 1790
Laurentino Anjos Pessoa, natural de Sonim - Valpaços – CCAÇ 2405
Manuel António Cunha Fernandes, natural de Arão – Valença do Minho – CCAÇ 1790
Manuel Conceição Silva Ferreira, natural de Pombalinho - Santarém – CCAÇ 2405
Manuel da Silva Pereira, natural de Penude - Lamego – CCAÇ 1790
Octávio Augusto Barreira, natural de Suçães - Mirandela – CCAÇ 2405
Ricardo Pereira da Silva, natural de Serzedo – Vila Nova de Gaia – CCAÇ 1790
Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu – CCAÇ 1790
Valentim Pinto Faria, natural de Valdigem - Lamego – CCAÇ 2405
Victor Manuel Oliveira Neto, natural de Buarcos – Figueira da Foz – CCAÇ 2405

Civis:

Um caçador nativo não identificado



José Martins – Sócio da L.C. [ Liga dos Combatentes] nº 80.393

(ex-furriel miliciano de transmissões, CCAÇ 5, Canjadude, 1969/70)

Janeiro de 2006

_________

Notas de L.G.

(1) Vd posts anteriores sobre este tópico:

17 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIX: Antologia (7): Os bravos de Madina do Boé (CCAÇ 1790)
"Apresentação do livro de Gustavo Pimenta, sairómeM - Guerra Colonial (Palimage Editores, 1999), no Porto, Cooperativa Árvore, em 10 de Dezembro de 1999. Autor do texto: José Manuel Saraiva, jornalista do Expresso" (...)

2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre do Cheche, na retirada de Madina ...

"Este documento, que me chegou às mãos através do Humberto Reis, relata aa dramática operação em que participou a CCAÇ 2405, sedeada em Galomaro, e pertencente ao BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), operação essa que tinha em vista operação essa que tinha em vista retirar as NT da posição insustentável de Madina do Boé, cercada pelo PAIGC"...


8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXX: A retirada de Madina do Boé (José Martins)

"O mês de Fevereiro de 1969 tivera inicio há poucos dias quando passou, no aquartelamento de Canjadude, uma coluna cuja missão era retirar a Companhia de Caçadores nº 1790 do seu destacamento de Madina do Boé. Paralelamente a guarnição do posto do Cheche, pertencente à Companhia de Caçadores nº 5, também retiraria e juntar-se-ia à nossa companhia em Canjadude" (...)

8 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXI: Comentário de Afonso Sousa ao texto sobre a retirada de Madina do Boé

"Emociona este seu testemunho. Eu só faço uma pequena ideia do sofrimento de todos vocês, naquele momento trágico, nas horas e nos dias seguintes - em terras de solidão, em paragens dos confins da Guiné" (...).

(2) O BCAÇ 2852 estava sediado em Bambadinca, e a CCAÇ 2405 era a unidade de quadrícula de Galomaro

2 comentários:

Carlos disse...

Na altura travei conhecimento com alguns sobreviventes dessa tragédia no QG em Bissau e ouvi também os seus relatos. Comparando o que está escrito com aquilo que ouvi na altura há algumas diferenças. Por exemplo, disseram-me na altura que a jangada era constituida por três canoas e que nessa ultima viagem uma dessas canoas estaria partida, a meter água e a desequilibrar a jangada. Teria sido assim? E se foi porque é que comtinua a ser escamoteado este pormenor?
Carlos Pinheiro

Anonymous disse...

Hoje dia de aniv. deste tragico acid.devo acrescentar que para a verdade seja reposta o comentador diga toda a verdade sem medo,não se deixando manipular pelas conveniencias.1ºo aciden. foi ás 8,45 e não de tarde.2º não houve qualquer disparo,nem perto nem ao longe.3ºNão tenha medo de dizer que quem comandava a operação obrigou todo o pessoal a saltar p/ a jangada ignorando varios avisos para não se precipitar nesta decisão.muito mais teria a acrescentar mas não por esta via. Quem isto diz esteve no local do crime. m.s.oliveira1946@gmail.com--Um Abraço