10 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DXV: Uma dívida que Portugal nunca pagou aos seus soldados africanos (Mário Dias)


Guiné > CCAÇ 12 > 1970 > Travessia de uma bolanha durante uma operação na ZA do Xitole... A CCAÇ 12 era uma companhia de quadros metropolitanos, de rendição individual, e de soldados do recrutamento local, de origem étnica maioritariamente fula (e, geograficamente, da actual região de Bafatá). Não sabemos o que terá acontecido a muitos deles a seguir à independência do território.

© Humberto Reis(2006)


Ainda sobre o pungente caso do Seni Candé, que pela quarta vez estive a escutar é, na verdade, uma vergonha para Portugal que existam situações destas. E existem. E são muitas.

Poder-se-á desculpar a sanha revolucionária dos que, a seguir ao 25 de Abril de 1974, consideravam como bestas criminosas todos os que tinham combatido ao lado de Portugal - militares portugueses incluídos - ao ponto de praticamente os entregarem à fúria vingativa PAIGC (Neste caso). Não nos esqueçamos dos comandos africanos abandonados à sua sorte (apesar das promessas do Brigadeiro Fabião) e fuzilados no Cumeré por ordem de Luis Cabral.

Mas passados tantos anos, assente a poeira do tempo que nos deveria deixar ver os acontecimentos sem qualquer espírito ideológico nem desejos de infundadas vinganças, é de lamentar que por parte dos governantes não exista vontade de reparar tantas injustiças.

Pior ainda: quando surge alguém a tentar remediar o mal cometido, e mantido ao longo destes mais dos 30 anos que já passaram, logo surgem as vozes do costume a chamar fascista, saudosista e quejandas expressões, e tudo fazem para que esta vergonha nacional não seja reparada.

Pelo que me toca, embora a solução não esteja nas minhas mãos, nunca deixarei de a denunciar sempre que a oportunidade surge, como é ocaso presente.


Um abraço

Mário Dias (ex-sargento comando, Brá, 1963/66)

Guiné 63/74 - DXV: Uma dívida que Portugal nunca pagou aos seus soldados africanos (Mário Dias)


Guiné > CCAÇ 12 > 1970 > Travessia de uma bolanha durante uma operação na ZA do Xitole... A CCAÇ 12 era uma companhia de quadros metropolitanos, de rendição individual, e de soldados do recrutamento local, de origem étnica maioritariamente fula (e, geograficamente, da actual região de Bafatá). Não sabemos o que terá acontecido a muitos deles a seguir à independência do território.

© Humberto Reis(2006)


Ainda sobre o pungente caso do Seni Candé, que pela quarta vez estive a escutar é, na verdade, uma vergonha para Portugal que existam situações destas. E existem. E são muitas.

Poder-se-á desculpar a sanha revolucionária dos que, a seguir ao 25 de Abril de 1974, consideravam como bestas criminosas todos os que tinham combatido ao lado de Portugal - militares portugueses incluídos - ao ponto de praticamente os entregarem à fúria vingativa PAIGC (Neste caso). Não nos esqueçamos dos comandos africanos abandonados à sua sorte (apesar das promessas do Brigadeiro Fabião) e fuzilados no Cumeré por ordem de Luis Cabral.

Mas passados tantos anos, assente a poeira do tempo que nos deveria deixar ver os acontecimentos sem qualquer espírito ideológico nem desejos de infundadas vinganças, é de lamentar que por parte dos governantes não exista vontade de reparar tantas injustiças.

Pior ainda: quando surge alguém a tentar remediar o mal cometido, e mantido ao longo destes mais dos 30 anos que já passaram, logo surgem as vozes do costume a chamar fascista, saudosista e quejandas expressões, e tudo fazem para que esta vergonha nacional não seja reparada.

Pelo que me toca, embora a solução não esteja nas minhas mãos, nunca deixarei de a denunciar sempre que a oportunidade surge, como é ocaso presente.


Um abraço

Mário Dias (ex-sargento comando, Brá, 1963/66)

Guiné 63/74 - DXIV: A CCAV 3420, do Salgueiro Maia e do José Afonso: presente!

Texto do José Afonso, natural do Fundão, ex-furriel miliciano da CCAV 3420 (1971/73):

Amigo:

Ainda há pouco me comecei a iniciar na Net e, logo de início, a minha preferência foi precisamente procurar algo sobre guerra colonial, em especial sobre a Guiné...

Tive o prazer de verificar haver muita coisa sobre essa antiga província e, porque sou um devorador de tudo quanto à Guiné diga respeito, desde livros, revistas ou publicações editadas por jornais diários, tanto em fascículos como publicações semanais, à gravação de todos ou quase todos os programas de televisão em cassete passando pela a compra de muitos livros, uma cassete gravada em 73 na Guiné (com um pouco do programa das Forças Armadas, o PIFAS, um noticiário do PAIGC, um noticiário nosso e a gravação de um ronco) até um LP distribuído no Natal de 1971 pelo Movimento Nacional Feminino (cassetes e LP com gravação má)... tudo isso me faz recordar pela positiva mesmo os maus momentos passados.

Talvez até porque pertenci a uma companhia de cavalaria, comandada pelo saudoso Salgueiro Maia, e de termos estado sempre em zonas de combate - Bula, Mansoa, Farim, Binta, Guidage -, tivemos a sorte de ter apenas 2 feridos graves e 3 ou 4 ligeiros.

Fomos nós, a CCAV 3420, os Progressistas ( nome que os altos comandos militares não queriam deixar passar por ser ousado de mais antes do nossa ida para a Guiné).

Estavamos com a comissão terminada e a aguardar regresso à Metrópole - e porque fomos sempre considerados uma companhia boa em combate-, quando tvémos que ir romper o cerco a Guidage com uma companhia de infantaria e a 38ª de comandos.

Foi realmente uma fase de angústia e revolta mas, com o saber e o óptimo condutor de homens que tínhamos, conseguimos ultrapassar tudo.

Vais desculpar-me o tratamento por tu. Alonguei-me em demasia quando o que pretendia era apenas saber como entrar no blogue. E também confirmar a indicaçao do dia do almoço anual da companhia que, desde que faleceu Salgueiro Maia, sou eu a organizar... Anualmente desde há uns 5 anos, para que não morra o elo que nos ligou uns aos outros ao longo de 27 ou 28 meses de Guiné.

O amigo Albano Costa teve a gentileza de te enviar (e já está no blogue) um trabalho que fiz sobre a zona de Guidage na altura em que nós lá fomos parar, sabendo que a situação era má mas não tanto. E porque foi a companhoia dele que foi para Guidage quando a situação ja estava mais calma, foi essa a razão de entrar em contacto com ele.

Amigo, as minhas desculpas por este texto. Por vezes esquecemo-nos do tempo quando falamos desse tempo da nossa juventude onde maus e bons momentos estão quase todos metidos no mesmo saco e onde as dificuldades nos levaram a criar as melhores amizades.

Um abraço...
José Afonso

Guiné 63/74 - DXIV: A CCAV 3420, do Salgueiro Maia e do José Afonso: presente!

Texto do José Afonso, natural do Fundão, ex-furriel miliciano da CCAV 3420 (1971/73):

Amigo:

Ainda há pouco me comecei a iniciar na Net e, logo de início, a minha preferência foi precisamente procurar algo sobre guerra colonial, em especial sobre a Guiné...

Tive o prazer de verificar haver muita coisa sobre essa antiga província e, porque sou um devorador de tudo quanto à Guiné diga respeito, desde livros, revistas ou publicações editadas por jornais diários, tanto em fascículos como publicações semanais, à gravação de todos ou quase todos os programas de televisão em cassete passando pela a compra de muitos livros, uma cassete gravada em 73 na Guiné (com um pouco do programa das Forças Armadas, o PIFAS, um noticiário do PAIGC, um noticiário nosso e a gravação de um ronco) até um LP distribuído no Natal de 1971 pelo Movimento Nacional Feminino (cassetes e LP com gravação má)... tudo isso me faz recordar pela positiva mesmo os maus momentos passados.

Talvez até porque pertenci a uma companhia de cavalaria, comandada pelo saudoso Salgueiro Maia, e de termos estado sempre em zonas de combate - Bula, Mansoa, Farim, Binta, Guidage -, tivemos a sorte de ter apenas 2 feridos graves e 3 ou 4 ligeiros.

Fomos nós, a CCAV 3420, os Progressistas ( nome que os altos comandos militares não queriam deixar passar por ser ousado de mais antes do nossa ida para a Guiné).

Estavamos com a comissão terminada e a aguardar regresso à Metrópole - e porque fomos sempre considerados uma companhia boa em combate-, quando tvémos que ir romper o cerco a Guidage com uma companhia de infantaria e a 38ª de comandos.

Foi realmente uma fase de angústia e revolta mas, com o saber e o óptimo condutor de homens que tínhamos, conseguimos ultrapassar tudo.

Vais desculpar-me o tratamento por tu. Alonguei-me em demasia quando o que pretendia era apenas saber como entrar no blogue. E também confirmar a indicaçao do dia do almoço anual da companhia que, desde que faleceu Salgueiro Maia, sou eu a organizar... Anualmente desde há uns 5 anos, para que não morra o elo que nos ligou uns aos outros ao longo de 27 ou 28 meses de Guiné.

O amigo Albano Costa teve a gentileza de te enviar (e já está no blogue) um trabalho que fiz sobre a zona de Guidage na altura em que nós lá fomos parar, sabendo que a situação era má mas não tanto. E porque foi a companhoia dele que foi para Guidage quando a situação ja estava mais calma, foi essa a razão de entrar em contacto com ele.

Amigo, as minhas desculpas por este texto. Por vezes esquecemo-nos do tempo quando falamos desse tempo da nossa juventude onde maus e bons momentos estão quase todos metidos no mesmo saco e onde as dificuldades nos levaram a criar as melhores amizades.

Um abraço...
José Afonso

09 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DXIII: Estórias do Zé Teixeira (1): Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

Guiuné-Bissau > Empada > 2005 > O Zé Teixeira reencontra o seu antigo ajudante fermero, Braima. © José Teixeira (2006)


Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

Passados largos anos, após o regresso da guerra, recebi um telefonema do Dr. Azevedo Franco, meu querido amigo, médico, que fez grande parte da sua comissão em Buba. Tinha-lhe aparecido no Hospital o Mudé Embaló e não tinha soluções de futuro para o puto.

O Mudé tinha-se iniciado, como ajudante de fermero, com onze/doze anos, na Chamarra, com o meu colega de Companhia, Jorge Catarino que lá se encontrava integrado no seu pelotão. Na minha curta passagem por Chamarra ( cerca de dois meses) (1), pude apreciar o jeito, a capacidade de aprender do miúdo. Era muito esperto, educado, sempre disponível e cativante na forma de estar.

Dois dias depois do meu regresso a Buba, apareceu-me na enfermaria logo de manhã. Tinha-se metido a caminho pelo mato. Catarino e Teixeira eram os seus ídolos e queria ser fermero.

Criou amizades com os outros enfermeiros e com o médico, e por lá continuou quando abalámos para Empada.

Chegada a independência, foi para Bissau. Estudou até ao 2º ciclo, mas o seu sonho era vir para Portugal, e estar com os seus amigos.

Começou por dar explicações. Assim ganhou algum dinheiro para a passagem de avião. Comprou um cheque em USD que escondeu na sobrecapa de um livro que sempre o acompanhava e desembarcou em Lisboa.

O seu destino era o Porto, pois sabia que o Dr. Azevedo Franco morava no Porto. Meteu-se no comboio e chegou a Campanhã. Logo começou a perguntar pelo Dr. Azevedo Franco, até que alguém teve a feliz ideia de lhe indicar o Hospital de S. João. Deste para o de Santo António e por último o de Rodrigues Semide, até que . . .
- Dôtor, Bô ká na lembra di mim ? Sou o Mudé qui firma na Buba...
- E agora que vamos fazer com o puto ? - dizia-me o doutor...

Tentei empregá-lo num escritório pois dizia-me que sabia escrever à máquina. Tinha trabalhado num escritório em Bissau. Puro engano, levou mais de uma hora a escrever meia dúzia de letras.

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > A antiga enfermaria do Zé Teixeira.

© José Teixeira (2006)



Alguém conseguiu empregá-lo em Lisboa numa clínica, como auxiliar, mas . . . julgava-se enfermeiro e não estava para fazer os trabalhos próprios da função, muito menos limpezas. Desenrascou-se sozinho e desapareceu.

Passados dois/três anos reapareceu com novo problema. A mãe tinha sido mortalmente atropelada em Bissau, um irmão tinha morrido na guerra colonial e o outro, o Sáculo, que eu conheci, pisou uma A/P [mina antipessoal]. Então este enviou-lhe uma mensagem para ir ao avião buscar uma encomenda. Ele foi e a encomenda era ... a Djubae, a sua irmã com 6 anos.

Conseguiu-se que esta entrasse num colégio em Lisboa. Ela fez o 12 º ano e hoje se alguém, na margem sul do Tejo, tiver o azar de receber ordem de paragem por uma agente da Brigada de Trânsito de cor negra, pode saudá-la com O corpo di Bô ? ou o Ná pinda, pois é a nossa Djubae, agora com um nome europeu, creio que Carla ou Conceição.

O Mudé Embaló perdeu-se algures entre Portugal e a Holanda e nem a família que localizei em Sinchã Sambel ( Saltinho) sabe do seu paradeiro.

Quanto à Djubae, essa, já lá voltou, toda orgulhosa. Ela tem otoridade em Portugal.

Zé Teixeira
(ex-1º cabo enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70). __________


Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 19 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXI: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (8): Chamarra, Janeiro de 1969

Guiné 63/74 - DXIII: Estórias do Zé Teixeira (1): Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

Guiuné-Bissau > Empada > 2005 > O Zé Teixeira reencontra o seu antigo ajudante fermero, Braima. © José Teixeira (2006)


Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

Passados largos anos, após o regresso da guerra, recebi um telefonema do Dr. Azevedo Franco, meu querido amigo, médico, que fez grande parte da sua comissão em Buba. Tinha-lhe aparecido no Hospital o Mudé Embaló e não tinha soluções de futuro para o puto.

O Mudé tinha-se iniciado, como ajudante de fermero, com onze/doze anos, na Chamarra, com o meu colega de Companhia, Jorge Catarino que lá se encontrava integrado no seu pelotão. Na minha curta passagem por Chamarra ( cerca de dois meses) (1), pude apreciar o jeito, a capacidade de aprender do miúdo. Era muito esperto, educado, sempre disponível e cativante na forma de estar.

Dois dias depois do meu regresso a Buba, apareceu-me na enfermaria logo de manhã. Tinha-se metido a caminho pelo mato. Catarino e Teixeira eram os seus ídolos e queria ser fermero.

Criou amizades com os outros enfermeiros e com o médico, e por lá continuou quando abalámos para Empada.

Chegada a independência, foi para Bissau. Estudou até ao 2º ciclo, mas o seu sonho era vir para Portugal, e estar com os seus amigos.

Começou por dar explicações. Assim ganhou algum dinheiro para a passagem de avião. Comprou um cheque em USD que escondeu na sobrecapa de um livro que sempre o acompanhava e desembarcou em Lisboa.

O seu destino era o Porto, pois sabia que o Dr. Azevedo Franco morava no Porto. Meteu-se no comboio e chegou a Campanhã. Logo começou a perguntar pelo Dr. Azevedo Franco, até que alguém teve a feliz ideia de lhe indicar o Hospital de S. João. Deste para o de Santo António e por último o de Rodrigues Semide, até que . . .
- Dôtor, Bô ká na lembra di mim ? Sou o Mudé qui firma na Buba...
- E agora que vamos fazer com o puto ? - dizia-me o doutor...

Tentei empregá-lo num escritório pois dizia-me que sabia escrever à máquina. Tinha trabalhado num escritório em Bissau. Puro engano, levou mais de uma hora a escrever meia dúzia de letras.

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > A antiga enfermaria do Zé Teixeira.

© José Teixeira (2006)



Alguém conseguiu empregá-lo em Lisboa numa clínica, como auxiliar, mas . . . julgava-se enfermeiro e não estava para fazer os trabalhos próprios da função, muito menos limpezas. Desenrascou-se sozinho e desapareceu.

Passados dois/três anos reapareceu com novo problema. A mãe tinha sido mortalmente atropelada em Bissau, um irmão tinha morrido na guerra colonial e o outro, o Sáculo, que eu conheci, pisou uma A/P [mina antipessoal]. Então este enviou-lhe uma mensagem para ir ao avião buscar uma encomenda. Ele foi e a encomenda era ... a Djubae, a sua irmã com 6 anos.

Conseguiu-se que esta entrasse num colégio em Lisboa. Ela fez o 12 º ano e hoje se alguém, na margem sul do Tejo, tiver o azar de receber ordem de paragem por uma agente da Brigada de Trânsito de cor negra, pode saudá-la com O corpo di Bô ? ou o Ná pinda, pois é a nossa Djubae, agora com um nome europeu, creio que Carla ou Conceição.

O Mudé Embaló perdeu-se algures entre Portugal e a Holanda e nem a família que localizei em Sinchã Sambel ( Saltinho) sabe do seu paradeiro.

Quanto à Djubae, essa, já lá voltou, toda orgulhosa. Ela tem otoridade em Portugal.

Zé Teixeira
(ex-1º cabo enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70). __________


Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 19 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXI: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (8): Chamarra, Janeiro de 1969

Guiné 63/74 - DXII: Memórias do antigamente (Mário Dias) (1): Um cabaço de leite


Guiné-Bissau > Bissau, capital do país. Planta da cidade, pós-independência. (Vd. mapa ampliado na página sobre sobre Bafatá e Bissau)

© A. Marques Lopes (2005)


Começamos hoje a dar ínicío à publicação das memórias do Mário Dias relativamente à sua experiência na Guiné, como civil, na década de 1950. O Mário foi depois sargento comando durante a guerra (Brá, 1963/66).


Um cabaço de leite

Naqueles longínquos anos da década de 50 (do século passado) cheguei à Guiné ainda adolescente. Como qualquer pessoa nessa fase da vida, também o apelo da magia africana me enfeitiçava. Trazia a cabeça cheia com as descrições fantasiosas sobre África:
- Cuidado com os leões. Há bichos perigosos por todos os lados. Os pretos são muito maus. Ainda há antropófagos. É tudo selva inóspita.

Depressa verifiquei quão erradas eram as atoardas que um pouco por todo o lado pretendiam caracterizar aquelas terras. Encontrei um povo afável, uma terra linda, linda, linda como não imaginava pudesse existir. Foi amor à primeira vista!

Bissau era uma cidade pequena mas onde apetecia viver. Desfeito no meu espírito o mito de leões a rondar as casas, de selvagens canibais e de outras intimidantes tragédias, parti à descoberta da terra.

Guiado pelos amigos que rapidamente fiz, onde se incluíam naturais da Guiné, iniciei-me no convívio com os guineenses. Terminado o trabalho diário, lá íamos nós, avenida da República acima, praça do Império, - vira aí à esquerda, pá - direitos ao Alto do Crim. À nossa esquerda iam ficando os que se entretinham a treinar futebol no então chamado estádio Sarmento Rodrigues (1). Os mais esclarecidos informavam:
- Hoje é a UDIB. Estás a ver as camisolas com aquela risca verde larga, ao meio da camisola branca? É o equipamento deles. O Benfica tem camisolas iguais ao de Lisboa e o Sporting também.

Mais ao fundo, os mais afortunados jogavam ténis e nos campos ao lado praticava-se basquetebol e hóquei em patins. E a alegre comitiva prosseguia rua fora até alcançar o intrincado labirinto de ruas bordejadas por casas e moranças. À sombra de frondosas árvores, os habitantes repousavam as fadigas do dia conversando ou simplesmente meditando - sabe-se lá - talvez na dureza da vida que nem para todos era fácil. E, conforme avançávamos, íamos lançando à esquerda e à direita:
- Bôs tarde, bu ´stá bom ? qui noba di corpo? - Rostos afáveis e sorridentes nos respondiam, cabeças respeitosamente se descobriam. Uma ou outra mulher, atarefadas à volta dos potes de ferro onde se cozinhava a bianda, convidavam:
- Branco, bim nó cúmi.
- Obrigado, pa Deus djudábo. (Deus te ajude). - E neste doce deambular, o dia ia chegando ao fim. Quando as garças rompiam o céu direitas ao Ilhéu dos Pássaros onde pernoitavam pousadas nos frondosos poilões, sabíamos que eram horas do regresso. O crepúsculo era rápido e a noite calma caía sobre a terra tudo envolvendo no seu misterioso manto.

Estes passeios exploratórios eram muito frequentes e assim fiquei a conhecer, Gambeafa, Cupelon (2), Chão de Papel, Santa Luzia, Bandim, e mais bairros à volta de Bissau (3). Surgiu, porém, uma actividade em que me iniciaram e conquistou a minha preferência: a venatória. Nada de leões ou outras feras. Nem gazelas ou outros antílopes, que essas exigiam armas de maior calibre que não tínhamos nem autorizavam - devido a sermos menores - e só se encontravam em zonas já mais afastadas da cidade. Simplesmente rolas ou os saborosíssimos pombos verdes que abundavam por todo o lado e caçávamos com as pequenas espingardas de cartuchos de 9 mm conhecidas por flauberts.

Aos poucos fui-me tornando, ou julguei ser, um perito. Já me sentia na pele dos caçadores de feras africanas que povoavam os meus sonhos nos verdes anos. E foi assim que um belo dia, resolvi que estava na hora de me aventurar sozinho. Pensei, pensei, e decidi.

Num belo domingo, ainda o dia não tinha despontado, sorrateiramente peguei na flaubert e, pé ante pé para não acordar ninguém, saí da cidade caminhando para os lados de Bór. Antevendo a fartura de rolas e pombos verdes com que iria surpreender o meu pai e irmãos estuguei o passo. O local onde, com os meus amigos, anteriormente tinha visto e caçado muitas, ainda ficava longe. Quando finalmente lá cheguei, delas, nem sombras. Que desilusão! Fugiram? Naquela altura ainda não sabia que as aves, só de manhã muito cedo e ao fim do dia, ali se encontravam para passar a noite. Durante o resto do dia deambulavam por bolanhas ou por onde houvesse cereais e outras sementes.

Decidido a não voltar de mãos a abanar, continuei campo fora, olhar fixo nas árvores, ouvidos tentando escutar o arrulhar das aves. A manhã escoava-se. Nada. Raios dos pássaros, por onde andariam? À desilusão, sobrepunha-se a minha vontade de conseguir uma frutuosa caçada; doutra maneira iria ser alvo de gozo. E pensando no fracasso, dizia com os meus botões que o melhor seria não contar a ninguém tal desaire. Continuei o caminho e andei, andei, andei… o sol queimava, como é sua obrigação. Não sei se instintivamente, porque o calor era muito, ou por pensar que no meio do arvoredo seriam maiores as possibilidades de encontrar os fugidios pombos, fui-me internando no bosque, que depois já era mata, e depois floresta cerrada. Como era de esperar, às tantas já não sabia onde estava nem para onde me dirigir. Estava perdido. A tarde avançava e o estômago reclamava pois apenas tinha comido o pequeno-almoço que, embora substancial, à boa maneira africana, não era suficiente para tantas horas de jejum. Não entrei em pânico pois sabia que nada de mal me aconteceria e, além disso, o prazer da caça dominava o meu pensamento.

Finalmente alcancei uma clareira. Ah!... que bom. Aqui talvez conseguisse, pelo menos, um par de rolas. Olhando atentamente uma árvore, para ela me dirigi sempre olhando para a ramagem. E tão atento ia, que nem reparei num tronco partido atravessado no meu caminho. Deu-se o inevitável: tropecei e estendi-me ao comprido no chão cheio de carvão e cinzas do capim recentemente queimado. Fiquei todo enfarruscado; cara, braços e pernas, além de alguns pequenos arranhões.

Continuando a andar, algum tempo depois escutei vozes. Para lá me dirigi sabendo que me indicariam o caminho para alcançar a estrada que me conduziria a Bissau. Deparei com uma morança, debaixo de duas frondosas mangueiras à sombra das quais um homem sentado chupava fumaças do cachimbo. A ele me dirigi e, mal me viu, reparando ma minha figura, soltou um divertido:
- Có, có, có… éh, brancozinho, kuma qui bu fungli sim? (Como é que está assim enfarruscado?). - Contei-lhe, num incipiente crioulo que na altura ainda pouco dominava, a minha odisseia. A cada peripécia ria, bem disposto mas sempre com uma suave compreensão no semblante. Quando terminei e lhe pedi se me podia indicar o caminho que me levasse a alcançar a estrada, disse: Espera. E voltando a cabeça em direcção à palhota chamou. Surgiu uma mulher a quem deu algumas indicações na língua papel que era a sua. Nada percebi mas de imediato soube de que se tratava. A mulher pegou num pequeno cabaço e com ele se dirigiu a uma vaca que se encontrava ali perto e diligentemente a ordenhou. Regressou com o cabaço cheio de leite que, sorridente, me estendeu dizendo:
- Bibi. - Bebi, senti-me reconfortado e agradeci. Visivelmente satisfeito por me ver mais animado, o homem levantou-se e guiou-me até à estrada que, afinal, até nem era longe dali; simplesmente eu, na minha ainda pouca experiência de orientação e no entusiasmo de encontrar os pombos verdes ou as rolas, tinha andado às voltas sem me aperceber.

Enquanto caminhava de regresso a Bissau, fui meditando na afabilidade e simpatia daquela gente da Guiné que nesse dia me tinha sido revelada e se viria a confirmar durante os 14 anos que por lá vivi. Como tudo, afinal, era tão diferente do que corria entre os europeus como sendo a "selvajaria" dos africanos!

Algum tempo depois, logo que um colega de trabalho se disponibilizou a levar-me no carro dele até à morança do meu salvador, fui agradecer-lhe. Levei um garrafão de vinho, bebida que sabia muito apreciarem. Deixámos o carro na estrada, junto do caminho que nos conduzia, a pé, até à casa. Fomos recebidos com evidentes sinais de alegria pelo homem, que continuava a chupar o cachimbo. Oferta entregue, os cumprimentos do costume, as habituais mantenhas, e já nos dispúnhamos a regressar quando ele disse:
- Espera.- E mais uma vez chamou a mulher e deu as suas instruções na língua papel. (ficámos a zero).

A mulher torneou a casa e surgiu com uma galinha que de imediato degolou, depenou, temperou e pôs a assar nas brasas de uma fogueira. Não demorou muito a ficar pronta, tostadinha e apetitosa. Com o nosso hospedeiro foi por nós prontamente devorada, com lamber dos dedos e tudo, acompanhada de alguns copos do vinho que lhe havia trazido. Foram momentos de confraternização e são convívio que demonstra bem como dois povos tão diferentes, ao contrário do que propalavam os que denunciavam atrocidades dos colonos e incompatibilidades ou hostilidade por parte dos nativos, afinal, entendiam-se bem.

Assim era antes da guerra, assim continuou apesar dela ou por causa dela, e assim continua sendo.

© Mário Dias (2006)
___________

Notas de L.G.

(1) Oficial da marinha, governador Geral da Guiné, entre 1945 e 1949.

(2) Pilão, para os tugas do meu tempo...

(3) Vd planta de Bissau.

Guiné 63/74 - DXII: Memórias do antigamente (Mário Dias) (1): Um cabaço de leite


Guiné-Bissau > Bissau, capital do país. Planta da cidade, pós-independência. (Vd. mapa ampliado na página sobre sobre Bafatá e Bissau)

© A. Marques Lopes (2005)


Começamos hoje a dar ínicío à publicação das memórias do Mário Dias relativamente à sua experiência na Guiné, como civil, na década de 1950. O Mário foi depois sargento comando durante a guerra (Brá, 1963/66).


Um cabaço de leite

Naqueles longínquos anos da década de 50 (do século passado) cheguei à Guiné ainda adolescente. Como qualquer pessoa nessa fase da vida, também o apelo da magia africana me enfeitiçava. Trazia a cabeça cheia com as descrições fantasiosas sobre África:
- Cuidado com os leões. Há bichos perigosos por todos os lados. Os pretos são muito maus. Ainda há antropófagos. É tudo selva inóspita.

Depressa verifiquei quão erradas eram as atoardas que um pouco por todo o lado pretendiam caracterizar aquelas terras. Encontrei um povo afável, uma terra linda, linda, linda como não imaginava pudesse existir. Foi amor à primeira vista!

Bissau era uma cidade pequena mas onde apetecia viver. Desfeito no meu espírito o mito de leões a rondar as casas, de selvagens canibais e de outras intimidantes tragédias, parti à descoberta da terra.

Guiado pelos amigos que rapidamente fiz, onde se incluíam naturais da Guiné, iniciei-me no convívio com os guineenses. Terminado o trabalho diário, lá íamos nós, avenida da República acima, praça do Império, - vira aí à esquerda, pá - direitos ao Alto do Crim. À nossa esquerda iam ficando os que se entretinham a treinar futebol no então chamado estádio Sarmento Rodrigues (1). Os mais esclarecidos informavam:
- Hoje é a UDIB. Estás a ver as camisolas com aquela risca verde larga, ao meio da camisola branca? É o equipamento deles. O Benfica tem camisolas iguais ao de Lisboa e o Sporting também.

Mais ao fundo, os mais afortunados jogavam ténis e nos campos ao lado praticava-se basquetebol e hóquei em patins. E a alegre comitiva prosseguia rua fora até alcançar o intrincado labirinto de ruas bordejadas por casas e moranças. À sombra de frondosas árvores, os habitantes repousavam as fadigas do dia conversando ou simplesmente meditando - sabe-se lá - talvez na dureza da vida que nem para todos era fácil. E, conforme avançávamos, íamos lançando à esquerda e à direita:
- Bôs tarde, bu ´stá bom ? qui noba di corpo? - Rostos afáveis e sorridentes nos respondiam, cabeças respeitosamente se descobriam. Uma ou outra mulher, atarefadas à volta dos potes de ferro onde se cozinhava a bianda, convidavam:
- Branco, bim nó cúmi.
- Obrigado, pa Deus djudábo. (Deus te ajude). - E neste doce deambular, o dia ia chegando ao fim. Quando as garças rompiam o céu direitas ao Ilhéu dos Pássaros onde pernoitavam pousadas nos frondosos poilões, sabíamos que eram horas do regresso. O crepúsculo era rápido e a noite calma caía sobre a terra tudo envolvendo no seu misterioso manto.

Estes passeios exploratórios eram muito frequentes e assim fiquei a conhecer, Gambeafa, Cupelon (2), Chão de Papel, Santa Luzia, Bandim, e mais bairros à volta de Bissau (3). Surgiu, porém, uma actividade em que me iniciaram e conquistou a minha preferência: a venatória. Nada de leões ou outras feras. Nem gazelas ou outros antílopes, que essas exigiam armas de maior calibre que não tínhamos nem autorizavam - devido a sermos menores - e só se encontravam em zonas já mais afastadas da cidade. Simplesmente rolas ou os saborosíssimos pombos verdes que abundavam por todo o lado e caçávamos com as pequenas espingardas de cartuchos de 9 mm conhecidas por flauberts.

Aos poucos fui-me tornando, ou julguei ser, um perito. Já me sentia na pele dos caçadores de feras africanas que povoavam os meus sonhos nos verdes anos. E foi assim que um belo dia, resolvi que estava na hora de me aventurar sozinho. Pensei, pensei, e decidi.

Num belo domingo, ainda o dia não tinha despontado, sorrateiramente peguei na flaubert e, pé ante pé para não acordar ninguém, saí da cidade caminhando para os lados de Bór. Antevendo a fartura de rolas e pombos verdes com que iria surpreender o meu pai e irmãos estuguei o passo. O local onde, com os meus amigos, anteriormente tinha visto e caçado muitas, ainda ficava longe. Quando finalmente lá cheguei, delas, nem sombras. Que desilusão! Fugiram? Naquela altura ainda não sabia que as aves, só de manhã muito cedo e ao fim do dia, ali se encontravam para passar a noite. Durante o resto do dia deambulavam por bolanhas ou por onde houvesse cereais e outras sementes.

Decidido a não voltar de mãos a abanar, continuei campo fora, olhar fixo nas árvores, ouvidos tentando escutar o arrulhar das aves. A manhã escoava-se. Nada. Raios dos pássaros, por onde andariam? À desilusão, sobrepunha-se a minha vontade de conseguir uma frutuosa caçada; doutra maneira iria ser alvo de gozo. E pensando no fracasso, dizia com os meus botões que o melhor seria não contar a ninguém tal desaire. Continuei o caminho e andei, andei, andei… o sol queimava, como é sua obrigação. Não sei se instintivamente, porque o calor era muito, ou por pensar que no meio do arvoredo seriam maiores as possibilidades de encontrar os fugidios pombos, fui-me internando no bosque, que depois já era mata, e depois floresta cerrada. Como era de esperar, às tantas já não sabia onde estava nem para onde me dirigir. Estava perdido. A tarde avançava e o estômago reclamava pois apenas tinha comido o pequeno-almoço que, embora substancial, à boa maneira africana, não era suficiente para tantas horas de jejum. Não entrei em pânico pois sabia que nada de mal me aconteceria e, além disso, o prazer da caça dominava o meu pensamento.

Finalmente alcancei uma clareira. Ah!... que bom. Aqui talvez conseguisse, pelo menos, um par de rolas. Olhando atentamente uma árvore, para ela me dirigi sempre olhando para a ramagem. E tão atento ia, que nem reparei num tronco partido atravessado no meu caminho. Deu-se o inevitável: tropecei e estendi-me ao comprido no chão cheio de carvão e cinzas do capim recentemente queimado. Fiquei todo enfarruscado; cara, braços e pernas, além de alguns pequenos arranhões.

Continuando a andar, algum tempo depois escutei vozes. Para lá me dirigi sabendo que me indicariam o caminho para alcançar a estrada que me conduziria a Bissau. Deparei com uma morança, debaixo de duas frondosas mangueiras à sombra das quais um homem sentado chupava fumaças do cachimbo. A ele me dirigi e, mal me viu, reparando ma minha figura, soltou um divertido:
- Có, có, có… éh, brancozinho, kuma qui bu fungli sim? (Como é que está assim enfarruscado?). - Contei-lhe, num incipiente crioulo que na altura ainda pouco dominava, a minha odisseia. A cada peripécia ria, bem disposto mas sempre com uma suave compreensão no semblante. Quando terminei e lhe pedi se me podia indicar o caminho que me levasse a alcançar a estrada, disse: Espera. E voltando a cabeça em direcção à palhota chamou. Surgiu uma mulher a quem deu algumas indicações na língua papel que era a sua. Nada percebi mas de imediato soube de que se tratava. A mulher pegou num pequeno cabaço e com ele se dirigiu a uma vaca que se encontrava ali perto e diligentemente a ordenhou. Regressou com o cabaço cheio de leite que, sorridente, me estendeu dizendo:
- Bibi. - Bebi, senti-me reconfortado e agradeci. Visivelmente satisfeito por me ver mais animado, o homem levantou-se e guiou-me até à estrada que, afinal, até nem era longe dali; simplesmente eu, na minha ainda pouca experiência de orientação e no entusiasmo de encontrar os pombos verdes ou as rolas, tinha andado às voltas sem me aperceber.

Enquanto caminhava de regresso a Bissau, fui meditando na afabilidade e simpatia daquela gente da Guiné que nesse dia me tinha sido revelada e se viria a confirmar durante os 14 anos que por lá vivi. Como tudo, afinal, era tão diferente do que corria entre os europeus como sendo a "selvajaria" dos africanos!

Algum tempo depois, logo que um colega de trabalho se disponibilizou a levar-me no carro dele até à morança do meu salvador, fui agradecer-lhe. Levei um garrafão de vinho, bebida que sabia muito apreciarem. Deixámos o carro na estrada, junto do caminho que nos conduzia, a pé, até à casa. Fomos recebidos com evidentes sinais de alegria pelo homem, que continuava a chupar o cachimbo. Oferta entregue, os cumprimentos do costume, as habituais mantenhas, e já nos dispúnhamos a regressar quando ele disse:
- Espera.- E mais uma vez chamou a mulher e deu as suas instruções na língua papel. (ficámos a zero).

A mulher torneou a casa e surgiu com uma galinha que de imediato degolou, depenou, temperou e pôs a assar nas brasas de uma fogueira. Não demorou muito a ficar pronta, tostadinha e apetitosa. Com o nosso hospedeiro foi por nós prontamente devorada, com lamber dos dedos e tudo, acompanhada de alguns copos do vinho que lhe havia trazido. Foram momentos de confraternização e são convívio que demonstra bem como dois povos tão diferentes, ao contrário do que propalavam os que denunciavam atrocidades dos colonos e incompatibilidades ou hostilidade por parte dos nativos, afinal, entendiam-se bem.

Assim era antes da guerra, assim continuou apesar dela ou por causa dela, e assim continua sendo.

© Mário Dias (2006)
___________

Notas de L.G.

(1) Oficial da marinha, governador Geral da Guiné, entre 1945 e 1949.

(2) Pilão, para os tugas do meu tempo...

(3) Vd planta de Bissau.

Guiné 63/74 - DXI: Mansambo em 1973 (Sousa de Castro, CART 3494)

Em Abril de 1973, segundo informações do Sousa de Castro, a CART 3493 foi para o Cotumba, e a companhia dele, que estava aquartelada no Xime, a CART 3494 , foi para Mansambo. Ambas petenciam ao BART 3873 (1972/1974), sediado em Bambadinca. Publicam-se duas fotos dessa época.



Guiné > Mansambo > 1973 > O Sousa de Castro mais um camarada da CART 3494, junto ao monumento da CART 2339 - Os Viriatos (1968/69).

© Sousa de Castro (2006)


Guiné > Mansambo > 1973 > O Sousa de Castro junto ao oráculo da Virgem, mandado erigir pela CART 2714 (1970/72), pertencente ao BART 2917 (Bambadinca, 1970/1972). Em baixo pode ler-se: "Senhora, protegei-nos".

© Sousa de Castro (2006)

Guiné 63/74 - DXI: Mansambo em 1973 (Sousa de Castro, CART 3494)

Em Abril de 1973, segundo informações do Sousa de Castro, a CART 3493 foi para o Cotumba, e a companhia dele, que estava aquartelada no Xime, a CART 3494 , foi para Mansambo. Ambas petenciam ao BART 3873 (1972/1974), sediado em Bambadinca. Publicam-se duas fotos dessa época.



Guiné > Mansambo > 1973 > O Sousa de Castro mais um camarada da CART 3494, junto ao monumento da CART 2339 - Os Viriatos (1968/69).

© Sousa de Castro (2006)


Guiné > Mansambo > 1973 > O Sousa de Castro junto ao oráculo da Virgem, mandado erigir pela CART 2714 (1970/72), pertencente ao BART 2917 (Bambadinca, 1970/1972). Em baixo pode ler-se: "Senhora, protegei-nos".

© Sousa de Castro (2006)

Guiné 63/74 - DX: O abandono do Seni Candé (Zé Neto)

1. A triste sorte do Seni Candé e de tantos outros combatentes africanos que estiveram do nosso lado e que foram literalmente abandonados por nós, já mereceu alguns comentários dos membros da nossa tertúlia.

O Mário Dias enviou-me as suas memórias da Guiné dos anos cinquenta, para futura publicação, com uma curta nota: "Ainda mal refeito dos arrepios que a história do Seni Candé me causou"... Mais frontal e directo, foi o nosso Zé Neto. Aqui vai o testemunho dele. LG

2. Texto do Zé Neto:

Luis:

Estou arrepiado. O trabalho do meu homónimo Jorge Neto trouxe à minha velha cabeça um turbilhão de pensamentos, sem excluir o sentimento de raiva. Raiva por sentir que a minha voz já não tem a força dos tempos em que estava no activo. Tive muitos amargos de boca, mas também alguns sucessos. E sabes porquê?

Quando acabei o meu curso de Águeda e depois duma esporádica passagem pelo QG/RML, fui colocado no DGA, na Calçada da Ajuda, como tesoureiro da 4ª Companhia, a companhia dos evacuados com mais de quatrocentos doentes, feridos e estropiados. (E alguns sargentos e oficiais do QP evacuados profissionais que me metiam nojo).

Eu fazia os pagamentos à boca do cofre e, mensalmente em dias concertados, ia pagar ao Alcoitão, HMP (Estrela), Anexo do HMP (Rua de Artilharia 1), ADFA (Lumiar) e HMDIC (Infecto contagiosas de Belém). De 1973 a 1977(ano em que fui para a Guarda Fiscal) lidei com a parte mais horrenda e suja das nossas campanhas de África. O que eu passei, mais os/as funcionários/as civis que me acompanhavam com a papelada!!!

Sabes o que é assistir a um furriel enfermeiro a maltratar um desgraçado dum catanguês que, em Angola, combateu ao nosso lado e e ficou com a cabeça escaqueirada, perdendo um olho, numa acção de combate? Apresentei uma participação contra esse estafermo, mas naquela época de bagunçada ninguém punia niguém.

Quantas mães, quantas esposas, quantas namoradas tiveram a satisfação de rever os seus entes queridos em parte devido a esses valentes africanos? Lado certo, lado errado, isso é outra conversa.

O Seni Candé é uma das muitas vítimas que os fervores e delírios do PREC abandonaram deliberadamente, repito, deliberadamente, à sua sorte. Não posso mais.

Desculpa.
Um abraço do Zé Neto

3. O Sousa de Castro acaba de me enviar uma curta mensagem: "São 6.30horas, estou a ouvir o Candé. É um poço de memória e então aquela do Periquito vai no mato faz-me lembrar as tainadas, acabavamos sempre com esta canção, ainda hoje nos nossos convívios cantamos sempre Periquito vai no mato, olé, lé, lé / Que a velhice vai pra Bissau, olé, lé, lé...

Guiné 63/74 - DX: O abandono do Seni Candé (Zé Neto)

1. A triste sorte do Seni Candé e de tantos outros combatentes africanos que estiveram do nosso lado e que foram literalmente abandonados por nós, já mereceu alguns comentários dos membros da nossa tertúlia.

O Mário Dias enviou-me as suas memórias da Guiné dos anos cinquenta, para futura publicação, com uma curta nota: "Ainda mal refeito dos arrepios que a história do Seni Candé me causou"... Mais frontal e directo, foi o nosso Zé Neto. Aqui vai o testemunho dele. LG

2. Texto do Zé Neto:

Luis:

Estou arrepiado. O trabalho do meu homónimo Jorge Neto trouxe à minha velha cabeça um turbilhão de pensamentos, sem excluir o sentimento de raiva. Raiva por sentir que a minha voz já não tem a força dos tempos em que estava no activo. Tive muitos amargos de boca, mas também alguns sucessos. E sabes porquê?

Quando acabei o meu curso de Águeda e depois duma esporádica passagem pelo QG/RML, fui colocado no DGA, na Calçada da Ajuda, como tesoureiro da 4ª Companhia, a companhia dos evacuados com mais de quatrocentos doentes, feridos e estropiados. (E alguns sargentos e oficiais do QP evacuados profissionais que me metiam nojo).

Eu fazia os pagamentos à boca do cofre e, mensalmente em dias concertados, ia pagar ao Alcoitão, HMP (Estrela), Anexo do HMP (Rua de Artilharia 1), ADFA (Lumiar) e HMDIC (Infecto contagiosas de Belém). De 1973 a 1977(ano em que fui para a Guarda Fiscal) lidei com a parte mais horrenda e suja das nossas campanhas de África. O que eu passei, mais os/as funcionários/as civis que me acompanhavam com a papelada!!!

Sabes o que é assistir a um furriel enfermeiro a maltratar um desgraçado dum catanguês que, em Angola, combateu ao nosso lado e e ficou com a cabeça escaqueirada, perdendo um olho, numa acção de combate? Apresentei uma participação contra esse estafermo, mas naquela época de bagunçada ninguém punia niguém.

Quantas mães, quantas esposas, quantas namoradas tiveram a satisfação de rever os seus entes queridos em parte devido a esses valentes africanos? Lado certo, lado errado, isso é outra conversa.

O Seni Candé é uma das muitas vítimas que os fervores e delírios do PREC abandonaram deliberadamente, repito, deliberadamente, à sua sorte. Não posso mais.

Desculpa.
Um abraço do Zé Neto

3. O Sousa de Castro acaba de me enviar uma curta mensagem: "São 6.30horas, estou a ouvir o Candé. É um poço de memória e então aquela do Periquito vai no mato faz-me lembrar as tainadas, acabavamos sempre com esta canção, ainda hoje nos nossos convívios cantamos sempre Periquito vai no mato, olé, lé, lé / Que a velhice vai pra Bissau, olé, lé, lé...

Guiné 63/74 - DIX: As baixas da CART 2339 (Mansambo, 1968/69)

Guiné > Mansambo > CART 2339 > Movembro de 1969 > Brazão da companhia e lista dos mortos.

© Carlos Marques dos Santos (2006)


1. Lista dos mortos em combate:

1.º cabo Aux. Enfermagem Fernando R. de Sousa – 24 de Julho de 1968
Soldado de Transmissões Humberto P. Vieira – 19 de Setembro de 1968
1.º cabo condutor João M. J. Figueiras – 25 de Setembro de 1968
Soldado Atirador José Ferreira Bessa – 3 de Janeiro de 1969 (1)
Soldado Atirador - Joaquim M. Barbosa – 29 de Setembro de 1969 (2)


2. Desaparecido:

Soldado Armas Pesadas – Francisco M. Monteiro – 11 de Julho de 1968

3. Baixas por outras causas:

(i) Mortos por afogamento:

Soldado Atirador – Carlos Armando Duarte – 3 de Dezembro de 1968 (Op Dá Forte)
Soldado Atirador – Carlos Manuel Pimenta – 3 de Dezembro de 1968 (Op Dá Forte)

(ii) Mortos por acidente viação:

Soldado Atirador José Francisco Casadinho – 2 de Outubro de 1969


3. Feridos:

(i) Feridos:

8 evacuados para o HMP (Lisboa);
17 evacuados paar o HM 241 (Bissau);
8 não evacuados;
2 evacuados por acidente (um para o Hospital Militar Principal; outro para o HM 241)

(ii) Doentes:

4 evacuados para o HMP;
3 para o HM 241

© Carlos Marques dos Santos(2006)

_________

Notas de L.G.

(1) Em resultado de flagelação ao aquartelamento de Mansamo, às 2h00, com Mort 82, Mort 60, LGFog e armas ligeiras. Além da vítima mortal, houve um ferido grave.

(2) Emboscada , às 6h50, no intinerário Mansambo-Bambadinca (Xime 8B4-72), por grupo IN estimado em 15/20 elementos, com armas automáticas, Mort 60 e LGFog, durante 15 minutos, que causou um ferido grave às NT, além da vítima mortal.

Guiné 63/74 - DIX: As baixas da CART 2339 (Mansambo, 1968/69)

Guiné > Mansambo > CART 2339 > Movembro de 1969 > Brazão da companhia e lista dos mortos.

© Carlos Marques dos Santos (2006)


1. Lista dos mortos em combate:

1.º cabo Aux. Enfermagem Fernando R. de Sousa – 24 de Julho de 1968
Soldado de Transmissões Humberto P. Vieira – 19 de Setembro de 1968
1.º cabo condutor João M. J. Figueiras – 25 de Setembro de 1968
Soldado Atirador José Ferreira Bessa – 3 de Janeiro de 1969 (1)
Soldado Atirador - Joaquim M. Barbosa – 29 de Setembro de 1969 (2)


2. Desaparecido:

Soldado Armas Pesadas – Francisco M. Monteiro – 11 de Julho de 1968

3. Baixas por outras causas:

(i) Mortos por afogamento:

Soldado Atirador – Carlos Armando Duarte – 3 de Dezembro de 1968 (Op Dá Forte)
Soldado Atirador – Carlos Manuel Pimenta – 3 de Dezembro de 1968 (Op Dá Forte)

(ii) Mortos por acidente viação:

Soldado Atirador José Francisco Casadinho – 2 de Outubro de 1969


3. Feridos:

(i) Feridos:

8 evacuados para o HMP (Lisboa);
17 evacuados paar o HM 241 (Bissau);
8 não evacuados;
2 evacuados por acidente (um para o Hospital Militar Principal; outro para o HM 241)

(ii) Doentes:

4 evacuados para o HMP;
3 para o HM 241

© Carlos Marques dos Santos(2006)

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Notas de L.G.

(1) Em resultado de flagelação ao aquartelamento de Mansamo, às 2h00, com Mort 82, Mort 60, LGFog e armas ligeiras. Além da vítima mortal, houve um ferido grave.

(2) Emboscada , às 6h50, no intinerário Mansambo-Bambadinca (Xime 8B4-72), por grupo IN estimado em 15/20 elementos, com armas automáticas, Mort 60 e LGFog, durante 15 minutos, que causou um ferido grave às NT, além da vítima mortal.

Guiné 63/74 - DVIII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (13): Vi a morte à minha frente (31 de Julho de 1969)

Post nº 508 (DVIII)



Guiné > Buba > 1969 > Contrapropaganda das NT > Uma costureirinha (pistola-metralhadora PPSH, de origem soviética) por meia dúzia de pesos... A acção psicossocial é intensificada com o novo governador-geral e comandante-chefe António Spínola, apesar de ser considerado um grande cabo de guerra, seguramente o mais emblemático, com Kaulza de Arriaga, em Moçambique, dos generais que fizeram a guerra colonial. Na Guiné, a escalada da guerra, por terra e por ar, vai tornar-se irreversível e conduzir a uma espécie de suicídio das NT, com a criação do Movimento das Forças Armadas (MFA). Em Março de 1973, o PAIGC passa a dispor de mísseis terra-ar Strella, acabando com a superioridade portuguesa nos céus. Em 10 de Setembro de 1974, o Portugal revolucionário reconhecia a independência da Guiné-Bissau, proclamada unilateralmente um ano antes (LG).

© José Teixeira (2006)


XIII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Buba, 31 de Julho de 1969

Vi a morte à minha frente. Saí de manhã até à Bolanha de Beafada, a montar segurança à coluna que ia para Aldeia Formosa. Tinha como missão assistir os Picadores que iam à frente a tentar detectar as possíveis minas que o IN costuma colocar. Coloquei a bolsa na 1ª viatura e segui à frente da mesma.

Como havia muitas poças de água, instalei-me ao lado do condutor. Em determinado momento tive um pressentimento e saltei da viatura seguindo à sua frente. Não andei 50 metros e senti um rebentamento, fui projectado pela deslocação do ar e senti algo a cair em cima de mim, deduzindo que eram estilhaços. Pensei:
- Desta não escapo.


Guiné > Buba > 1969 > Contrapropaganda das NT > A verdade é que "juntos não conseguimos vencer"... Não se tratava de Portugal e dos portugueses nem da Guiné e dos guineenses mas de um regime político que não tinha qualquer legitimidade (política, legal e moral) para continuar a exigir o supremo sacrifício dos nossos jovens (LG).

© José Teixeira (2006)


Logo a seguir cai à minha frente um africano que ia em cima da viatura e que deve ficar cego (1). Verifico então que a viatura de onde tinha saltado há momentos e do lado em que eu vinha, tinha pisado uma anticarro. Apanhei apenas com lama e pedras, e um grande susto. O condutor, sentado em sacos de areia, foi ao ar, mas apenas sofreu um grande susto, também. Os Africanos que vinham em cima foram projectados e um perfurou o olho esquerdo, ficando este ao dependuro. Desnorteado, não sabia o que fazer. A bolsa estava na viatura sinistrada. Havia o ferido para tratar, mas também havia o perigo de minas antipessoais.

Andava de um lado para outro, sem saber o que fazer, sujeito a cair numa mina perdida. Lentamente fui acalmando, entretanto chegaram os outros enfermeiros, fui buscar a minha bolsa à viatura destruída e tratei dos feridos

Tal como os outros companheiros, pensei em aproveitar-me das bebidas da viatura destruída e mesmo das outras, já que ao dar-se baixa da viatura descarrega-se tudo e o que ficou em condições de ser aproveitado desaparece. Deu-se um autêntico assalto às viaturas e foi um fartar de roubar, ou melhor, aproveitar a ocasião.

Pouco depois aparece-me o Franklim com uma perna ferida por ter ficado debaixo de um atrelado, com bidões cheios de combustível, pois o condutor da viatura, na confusão gerada deixou-a destravada e esta ao deslizar fez passar por cima da perna do Franklim o atrelado que arrastava.

Os feridos voltaram para Buba depois de assistidos, para serem evacuados para Bissau. Restabelecida a calma retomamos a marcha, para de seguida rebentar uma anti-pessoal que estava colocada no local, mesmo no centro da picada onde eu tratei os feridos, possivelmente pisada várias vezes, mas que só rebentou quando foi pisada pelo rodado de um atrelado de viatura, para sorte de algum de nós, talvez por estar um pouco funda. Continuei na coluna até Beafada, onde encontramos o Pelotão de Picadores que tinha partido de Aldeia Formosa, tendo regressado a Buba com mais esta história para contar.

O meu sistema nervoso que andava abalado foi-se de vez. Fui ao Dr. Franco que me receitou um calmante, pois preciso de reagir. Tenho 15 meses de guerra e ainda falta muito tempo para o regresso. A guerra ainda não acabou para mim.

Guiné 63/74 - DVIII: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (13): Vi a morte à minha frente (31 de Julho de 1969)

Post nº 508 (DVIII)



Guiné > Buba > 1969 > Contrapropaganda das NT > Uma costureirinha (pistola-metralhadora PPSH, de origem soviética) por meia dúzia de pesos... A acção psicossocial é intensificada com o novo governador-geral e comandante-chefe António Spínola, apesar de ser considerado um grande cabo de guerra, seguramente o mais emblemático, com Kaulza de Arriaga, em Moçambique, dos generais que fizeram a guerra colonial. Na Guiné, a escalada da guerra, por terra e por ar, vai tornar-se irreversível e conduzir a uma espécie de suicídio das NT, com a criação do Movimento das Forças Armadas (MFA). Em Março de 1973, o PAIGC passa a dispor de mísseis terra-ar Strella, acabando com a superioridade portuguesa nos céus. Em 10 de Setembro de 1974, o Portugal revolucionário reconhecia a independência da Guiné-Bissau, proclamada unilateralmente um ano antes (LG).

© José Teixeira (2006)


XIII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Buba, 31 de Julho de 1969

Vi a morte à minha frente. Saí de manhã até à Bolanha de Beafada, a montar segurança à coluna que ia para Aldeia Formosa. Tinha como missão assistir os Picadores que iam à frente a tentar detectar as possíveis minas que o IN costuma colocar. Coloquei a bolsa na 1ª viatura e segui à frente da mesma.

Como havia muitas poças de água, instalei-me ao lado do condutor. Em determinado momento tive um pressentimento e saltei da viatura seguindo à sua frente. Não andei 50 metros e senti um rebentamento, fui projectado pela deslocação do ar e senti algo a cair em cima de mim, deduzindo que eram estilhaços. Pensei:
- Desta não escapo.


Guiné > Buba > 1969 > Contrapropaganda das NT > A verdade é que "juntos não conseguimos vencer"... Não se tratava de Portugal e dos portugueses nem da Guiné e dos guineenses mas de um regime político que não tinha qualquer legitimidade (política, legal e moral) para continuar a exigir o supremo sacrifício dos nossos jovens (LG).

© José Teixeira (2006)


Logo a seguir cai à minha frente um africano que ia em cima da viatura e que deve ficar cego (1). Verifico então que a viatura de onde tinha saltado há momentos e do lado em que eu vinha, tinha pisado uma anticarro. Apanhei apenas com lama e pedras, e um grande susto. O condutor, sentado em sacos de areia, foi ao ar, mas apenas sofreu um grande susto, também. Os Africanos que vinham em cima foram projectados e um perfurou o olho esquerdo, ficando este ao dependuro. Desnorteado, não sabia o que fazer. A bolsa estava na viatura sinistrada. Havia o ferido para tratar, mas também havia o perigo de minas antipessoais.

Andava de um lado para outro, sem saber o que fazer, sujeito a cair numa mina perdida. Lentamente fui acalmando, entretanto chegaram os outros enfermeiros, fui buscar a minha bolsa à viatura destruída e tratei dos feridos

Tal como os outros companheiros, pensei em aproveitar-me das bebidas da viatura destruída e mesmo das outras, já que ao dar-se baixa da viatura descarrega-se tudo e o que ficou em condições de ser aproveitado desaparece. Deu-se um autêntico assalto às viaturas e foi um fartar de roubar, ou melhor, aproveitar a ocasião.

Pouco depois aparece-me o Franklim com uma perna ferida por ter ficado debaixo de um atrelado, com bidões cheios de combustível, pois o condutor da viatura, na confusão gerada deixou-a destravada e esta ao deslizar fez passar por cima da perna do Franklim o atrelado que arrastava.

Os feridos voltaram para Buba depois de assistidos, para serem evacuados para Bissau. Restabelecida a calma retomamos a marcha, para de seguida rebentar uma anti-pessoal que estava colocada no local, mesmo no centro da picada onde eu tratei os feridos, possivelmente pisada várias vezes, mas que só rebentou quando foi pisada pelo rodado de um atrelado de viatura, para sorte de algum de nós, talvez por estar um pouco funda. Continuei na coluna até Beafada, onde encontramos o Pelotão de Picadores que tinha partido de Aldeia Formosa, tendo regressado a Buba com mais esta história para contar.

O meu sistema nervoso que andava abalado foi-se de vez. Fui ao Dr. Franco que me receitou um calmante, pois preciso de reagir. Tenho 15 meses de guerra e ainda falta muito tempo para o regresso. A guerra ainda não acabou para mim.

08 fevereiro 2006

Guiné 63/74 - DVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(6): dos Lordes e das bestas

Guiné-Bissau > Guileje > 2005 > Restos arqueológicos da presença dos portugueses por terras de Guileje. E dos que por lá passaram havia de tudo, como em toda a parte do território: das bestas aos gajos bestiais...

© AD - Acção para o Desenvolvimento (2005)


VI parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado).


Quanto às operações no terreno, as nossas - principalmente patrulhas de reconhecimento e nomadizações destinadas a manter o controle possível no itinerário de Gadamael Porto - decorriam sem sobressalto de maior, porque, era mais que evidente, o IN evitava o contacto para não denunciar os trilhos que utilizava nas suas infiltrações para o interior do território.
Mas, como já referi, era a partir de Guilege que se lançavam as operações conjuntas e de maior envergadura sobre o corredor de penetração dos turras.

Para executar as ordens do Comando do Batalhão ou até do Sector (sediado em Bolama) as unidades empenhadas deslocavam-se até Guilege, onde permaneciam o tempo necessário para a planificação, um, dois dias, e na hora H iniciavam a marcha para o alvo previamente referenciado.

Geralmente os resultados destas operações eram nulos ou pouco compensadores. Nós tínhamos um serviço de informações razoável, com a ajuda dos reconhecimentos aéreos, mas não éramos tão ingénuos que não soubéssemos que nesse aspecto o IN nos levava a vantagem da sua maior mobilidade, conhecimento do terreno e algumas cumplicidades de elementos das populações.

Além disso, o planeamento das operações era feito com as regras copiadas à pressa dos manuais clássicos e algumas leituras dos teóricos da guerrilha e, como tal, se não causavam autênticos descalabros nas nossas tropas isso se devia à bravura dos nossos soldados e ao discernimento dos seus comandantes que sabiam avaliar o momento em que deviam mandar às malvas o rigor dos papéis e actuarem em conformidade com o que deparavam no terreno.

Um pequeno exemplo: as cartas topográficas assinalam correctamente todas as características do terreno, ponto final.

Ponto final no Alentejo ou nas Beiras. Na Guiné nem sequer chega a ser vírgula, porque quando a maré sobe o mar engole uma parte considerável da área total do território. Por outro lado, as bolanhas são assinaladas como terreno alagado e vistas de avião até têm o aspecto de solo enlameado com farta vegetação, facilmente transponível. A realidade é bem diferente. Extensas zonas que, com os seus socalcos, tinham sido férteis campos de arroz, eram agora, quase abandonadas, autênticas armadilhas onde à mínima distracção um homem se afogava ou ficava atolado até ao pescoço.

Ganhou alguma notoriedade o diálogo entre o Celestino (1) e o Capitão Cadete. Numa operação em que as nossas tropas pretendiam desmantelar a fortificação que os turras tinham implantado em Salancaúr, o Celestino comandava comodamente instalado num avião Dornier.

A companhia do Capitão Cadete estava, a pouco mais de duzentos metros do objectivo, a ser fustigada por fogo de canhão sem recuo do IN e o Celestino berrava pela rádio:
-Avance! Organize o assalto pelo flanco esquerdo!!!

O Capitão, homem experiente, sabia que era de todo impossível dar mais um passo em direcção ao objectivo, estrategicamente defendido pelos lodaçais e, perante a insistência, gritou pelo microfone:
-Venha cá abaixo e enterre o seu focinho na bolanha, seu…

Isto foi ouvido em todo a rede de transmissões das unidades da zona que, em sintonia, seguiam o desenrolar da operação e… nunca constou que o Capitão Cadete tivesse sido punido.

A zona de Salancaúr, que era uma pequena península quando a maré subia, foi durante muito tempo um espinho cravado na nossa garganta. As informações diziam que os turras tinham ali instalado vinte e quatro canhões sem recuo (talvez um exagero), ao mesmo tempo que o reconhecimento aéreo dava conta de actividade rural por parte da população da tabanca nas redondezas o que punha fora de hipótese a destruição por bombardeamento da aviação.

Os comandos não desistiam de eliminar aquele importante ponto de apoio do corredor de Guilege e as surtidas das nossas tropas sucediam-se sem resultados palpáveis.

Numa dessas operações, poucos dias depois do Natal desse ano de 1967 (sei a data precisa, mas não a quero referir) tivemos mais três baixas estúpidas, a juntar à de São João.

As nossas tropas saíram ao alvorecer e, excepcionalmente, os Lordes (2) do Alferes Tavares Machado ficaram no quartel, constituindo a segurança das instalações.

Menos de uma hora depois ouvimos um tiroteio aceso. Os turras tinham emboscado a frente da nossa coluna. Pelo rádio o Capitão Corvacho disse que não havia novidade, que estavam a reagir à emboscada e que o IN estava a retirar.

Em resposta o Alferes Tavares Machado disse que sabia por onde os turras iam fugir e que lhes ia dar uma coça. O Capitão mandou-o ficar onde estava pois a situação estava controlada.
Qual quê? Reuniu os seus homens rapidamente e, ele de calças de ganga e camisola branca, embrenharam-se na mata em direcção ao sítio onde deflagrara o tiroteio.

Pouco tempo depois, talvez meia hora, ouvimos novo arraial e não tivemos dúvidas de que agora eram os Lordes que estavam sob o fogo bem conhecido das Kalash.

Posto ao corrente do sucedido, o Capitão retrocedeu ainda a tempo de enfrentar os turras e evitar uma chacina completa. Só não conseguiu evitar as mortes dos Alferes Nuno da Costa Tavares Machado, Soldado António Lopes (cuja alcunha era o Sargento, devido aos seus modos bruscos) e Soldado António de Sousa Oliveira (o Francesinho).

Se houvesse que configurar num homem só, a raça, o patriotismo e o espírito de sacrifício do valoroso soldado português eu escolhia o Francesinho, sem hesitação.

© José Neto (2006)

_____

Notas do autor:

(1) Celestino era o nome com que depreciativamente tratávamos o Ten-Cor. Celestino C... R..., comandante do BART 1896, sediado em Buba, personagem muito sombria da minha memória pois ameaçou-me com cinco punições, nunca concretizadas. Algumas vezes o trato por besta nesta narrativa, com alguma propriedade.

(29 Os Lordes era a designação dum Grupo de Combate formado por voluntários da companhia que recebeu instrução especial em Bissau com o fim de constituir o primeiro escalão de progressão e assalto, dado que a CART 1613 foi, inicialmente, companhia de intervenção à ordem do Comando Chefe e actuou em vários pontos do território.

Guiné 63/74 - DVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(6): dos Lordes e das bestas

Guiné-Bissau > Guileje > 2005 > Restos arqueológicos da presença dos portugueses por terras de Guileje. E dos que por lá passaram havia de tudo, como em toda a parte do território: das bestas aos gajos bestiais...

© AD - Acção para o Desenvolvimento (2005)


VI parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado).


Quanto às operações no terreno, as nossas - principalmente patrulhas de reconhecimento e nomadizações destinadas a manter o controle possível no itinerário de Gadamael Porto - decorriam sem sobressalto de maior, porque, era mais que evidente, o IN evitava o contacto para não denunciar os trilhos que utilizava nas suas infiltrações para o interior do território.
Mas, como já referi, era a partir de Guilege que se lançavam as operações conjuntas e de maior envergadura sobre o corredor de penetração dos turras.

Para executar as ordens do Comando do Batalhão ou até do Sector (sediado em Bolama) as unidades empenhadas deslocavam-se até Guilege, onde permaneciam o tempo necessário para a planificação, um, dois dias, e na hora H iniciavam a marcha para o alvo previamente referenciado.

Geralmente os resultados destas operações eram nulos ou pouco compensadores. Nós tínhamos um serviço de informações razoável, com a ajuda dos reconhecimentos aéreos, mas não éramos tão ingénuos que não soubéssemos que nesse aspecto o IN nos levava a vantagem da sua maior mobilidade, conhecimento do terreno e algumas cumplicidades de elementos das populações.

Além disso, o planeamento das operações era feito com as regras copiadas à pressa dos manuais clássicos e algumas leituras dos teóricos da guerrilha e, como tal, se não causavam autênticos descalabros nas nossas tropas isso se devia à bravura dos nossos soldados e ao discernimento dos seus comandantes que sabiam avaliar o momento em que deviam mandar às malvas o rigor dos papéis e actuarem em conformidade com o que deparavam no terreno.

Um pequeno exemplo: as cartas topográficas assinalam correctamente todas as características do terreno, ponto final.

Ponto final no Alentejo ou nas Beiras. Na Guiné nem sequer chega a ser vírgula, porque quando a maré sobe o mar engole uma parte considerável da área total do território. Por outro lado, as bolanhas são assinaladas como terreno alagado e vistas de avião até têm o aspecto de solo enlameado com farta vegetação, facilmente transponível. A realidade é bem diferente. Extensas zonas que, com os seus socalcos, tinham sido férteis campos de arroz, eram agora, quase abandonadas, autênticas armadilhas onde à mínima distracção um homem se afogava ou ficava atolado até ao pescoço.

Ganhou alguma notoriedade o diálogo entre o Celestino (1) e o Capitão Cadete. Numa operação em que as nossas tropas pretendiam desmantelar a fortificação que os turras tinham implantado em Salancaúr, o Celestino comandava comodamente instalado num avião Dornier.

A companhia do Capitão Cadete estava, a pouco mais de duzentos metros do objectivo, a ser fustigada por fogo de canhão sem recuo do IN e o Celestino berrava pela rádio:
-Avance! Organize o assalto pelo flanco esquerdo!!!

O Capitão, homem experiente, sabia que era de todo impossível dar mais um passo em direcção ao objectivo, estrategicamente defendido pelos lodaçais e, perante a insistência, gritou pelo microfone:
-Venha cá abaixo e enterre o seu focinho na bolanha, seu…

Isto foi ouvido em todo a rede de transmissões das unidades da zona que, em sintonia, seguiam o desenrolar da operação e… nunca constou que o Capitão Cadete tivesse sido punido.

A zona de Salancaúr, que era uma pequena península quando a maré subia, foi durante muito tempo um espinho cravado na nossa garganta. As informações diziam que os turras tinham ali instalado vinte e quatro canhões sem recuo (talvez um exagero), ao mesmo tempo que o reconhecimento aéreo dava conta de actividade rural por parte da população da tabanca nas redondezas o que punha fora de hipótese a destruição por bombardeamento da aviação.

Os comandos não desistiam de eliminar aquele importante ponto de apoio do corredor de Guilege e as surtidas das nossas tropas sucediam-se sem resultados palpáveis.

Numa dessas operações, poucos dias depois do Natal desse ano de 1967 (sei a data precisa, mas não a quero referir) tivemos mais três baixas estúpidas, a juntar à de São João.

As nossas tropas saíram ao alvorecer e, excepcionalmente, os Lordes (2) do Alferes Tavares Machado ficaram no quartel, constituindo a segurança das instalações.

Menos de uma hora depois ouvimos um tiroteio aceso. Os turras tinham emboscado a frente da nossa coluna. Pelo rádio o Capitão Corvacho disse que não havia novidade, que estavam a reagir à emboscada e que o IN estava a retirar.

Em resposta o Alferes Tavares Machado disse que sabia por onde os turras iam fugir e que lhes ia dar uma coça. O Capitão mandou-o ficar onde estava pois a situação estava controlada.
Qual quê? Reuniu os seus homens rapidamente e, ele de calças de ganga e camisola branca, embrenharam-se na mata em direcção ao sítio onde deflagrara o tiroteio.

Pouco tempo depois, talvez meia hora, ouvimos novo arraial e não tivemos dúvidas de que agora eram os Lordes que estavam sob o fogo bem conhecido das Kalash.

Posto ao corrente do sucedido, o Capitão retrocedeu ainda a tempo de enfrentar os turras e evitar uma chacina completa. Só não conseguiu evitar as mortes dos Alferes Nuno da Costa Tavares Machado, Soldado António Lopes (cuja alcunha era o Sargento, devido aos seus modos bruscos) e Soldado António de Sousa Oliveira (o Francesinho).

Se houvesse que configurar num homem só, a raça, o patriotismo e o espírito de sacrifício do valoroso soldado português eu escolhia o Francesinho, sem hesitação.

© José Neto (2006)

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Notas do autor:

(1) Celestino era o nome com que depreciativamente tratávamos o Ten-Cor. Celestino C... R..., comandante do BART 1896, sediado em Buba, personagem muito sombria da minha memória pois ameaçou-me com cinco punições, nunca concretizadas. Algumas vezes o trato por besta nesta narrativa, com alguma propriedade.

(29 Os Lordes era a designação dum Grupo de Combate formado por voluntários da companhia que recebeu instrução especial em Bissau com o fim de constituir o primeiro escalão de progressão e assalto, dado que a CART 1613 foi, inicialmente, companhia de intervenção à ordem do Comando Chefe e actuou em vários pontos do território.

Guiné 63/74 - DVI: As (des)venturas de Seni Candé (Jorge Neto)

Olá, Luís,

Junto envio um texto com quatro ficheiros sonoros acerca de um guineense que lutou do lado português. A estória de Seni Candé é muito interessante, a meu ver. Pena é que ele fale um mau português.

Se vir que tem interesse publique no Blogueforanada. Eu, no Africanidades, irei usar apenas a quarta parte.

O texto que se segue vai já editado, com tags para os ficheiros e tudo. É só fazer copy & paste (e as alterações que achar por bem fazer).

Um abraço,
Jorge Neto

Seni Candé, iludido pelo destino (entrevista e sonorização por Jorge Neto)

Image hosting by Photobucket
Guiné-Bissau >Parque Natural do Cantanhez > 2006 > Seni Candé, à direita na imagem
© Jorge Neto

Se ainda fossem necessárias provas como a guerra colonial deixou memórias, Seni Candé seria uma delas. Este guineense defendeu a bandeira de Portugal na guerra colonial e, pode dizer-se, esteve do lado errado da luta. Assim que as tropas portuguesas bateram em retirada, Seni foi perseguido pelo PAIGC. Preso por duas vezes, escapou à morte refugiando-se na vizinha Gâmbia.

Hoje é guia de ocasião no Parque Natural do Cantanhez, no sul da Guiné-Bissau. Com onze filhos, sem emprego certo e uma casa miserável, Seni alimenta a esperança de um dia conseguir uma pensão do Estado português:
- Na embaixada de Portugal em Bissau não sabem do meu caso, mas assim que souberem pagam-me... É só eu ir lá! - O destino ilude Seni. O Estado português nunca pagará o braço direito que lhe roubou. Muito menos o resto, a dívida moral que tem para com ele (e tantos outros Senis espalhados pelas ex-colónias).

Nestes registos, Seni Candé,[nascido em 10 de Fevereiro de 1947] explica, num português que exige paciência (muita!), como entrou no exército verde-rubro [e chegou a 1º cabo, nº 397/65, CCAÇ 6]. Diz ainda com uma ponta de orgulho: "Sou um combatnte português". Fala dos oficiais que ficaram na sua sua memória,e que um dia, "se tiver saúde", ainda vai procurar a Portugal. Avalia, por fim, a coragem dos soldados portugueses, desde os açoreanos aos lisboetas (aqui se fica a saber quem eram os mais valentes).

Antes do fim, Seni relembra duas canções daquele doloroso tempo e uma passagem pela metrópole quando, à conta de um braço cortado, foi evacuado de avião [em 1969]. O Intendente, o Martim Moniz e a Trafaria fizeram as delícias deste homem que continua a acreditar que um dia voltará a ganhar o equivalente aos 775 Escudos que auferia na altura [e que faziam dele um homem "muito rico"].

2. Comentário de L.G.:

2.1. Instruções - Ligar o som... O carregamento de cada ficheiro pode levar algum tempo... Tenham alguma paciência... Mas estes quatro excertos da entrevista do Seni Candé, feitos pelo Jorge Neto, valem bem a pena!...
2.2. Este homem, o Seni Candé, de apelido tipicamente fula, que começou como caçador nativo, teve "três louvores de guerra" (em Novembro de 1968 e já em 1974, capturou três armas), ficou sem braço, decepado por uma roquetada (creio que em 3 de Junho de 1969), esteve na Metrópole em convalescença nesse ano e, tanto quanto eu percebi, esteve na CCAÇ 3493 (Mansambo e Cobumba) - refere o nome de vários capitões, incluindo o do nosso camarada de tertúlia, o Manuel Cruz - e na CCAÇ 6... É como se eu estivesse a ouvir os meus queridos nahrros da CCAÇ 12...

É a primeira vez que inserimos este tipo de ficheiros (de som) no nosso blogue. No seu conjunto, constituem um documento, pungente, de destroçar o coração!... A verdade é que nós abandonámos miseravelmente estes homens!

Estou profundamente agradecido ao Jorge pela sua sensibilidade e talento em saber tocar nestas feridas de guerra (que também nos doem, e de que maneira!).... Mesmo assim, admirem, amigos e camaradas de tertúlia, a serenidade com que este homem, o Candé, relata a sua vida de luta ao lado dos tugas, sem um queixume, sem uma reivindicação, com uma voz doce, com orgulho e... com uma grande saudade! Vejam como ele recorda o dia, em Cufar, em que viu, mais uma vez a morte á sua frente, com a CCAÇ 6 a sofer 5 mortos e 25 feridos... mas era "preciso coragem" para salvar os camaradas... Vejam como ele fala dos seus amigos portugueses e de Portugal!... Confesso que fiquei muito sensibilizado...

PS - O Sousa de Castro acaba de me confirmar e corrigir: " Luís, quando o Candé refere CCAÇ 3493 deve querer dizer CART 3493, pertencente ao BART 3873 que saiu de Mansambo para Cobumba em Março 1973. A CART 3494 substituiu a CART 3493 em Mansambo que estava no Xime. Era de facto o Manuel Cruz , o CMDT da CART 3493".

Primeira parte [Da CCAÇ 6 aos ajustes de contas do PAIGC, em 1975: fuzilamento do pai, do régulo e mais 5 pessoas da tabanca]
(Duração: 4.09mn)

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Segunda parte [Opinião sobre os combatentes portugueses, incluindo vários capitães / Referência à CCAÇ 3493 que veio de Mansambo para Cobumba, em Abril de 1973]
(Duração: 5.03m)

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Terceira parte [Evocando a Lisboa de 1969/70,as bajudas do Intendente e do Bairro Alto... quando era "muito rico"]
(Duração: 4.04m)

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Quarta parte [CCAÇ 6, Operação em Cufar, 5 mortos e 25 feridos / As nossas canções: Periquito vai no mato.../ Elisa, á-u-é, Elisa, á-u-á... ]
(Duração: 6.02m)

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Guiné 63/74 - DVI: As (des)venturas de Seni Candé (Jorge Neto)

Olá, Luís,

Junto envio um texto com quatro ficheiros sonoros acerca de um guineense que lutou do lado português. A estória de Seni Candé é muito interessante, a meu ver. Pena é que ele fale um mau português.

Se vir que tem interesse publique no Blogueforanada. Eu, no Africanidades, irei usar apenas a quarta parte.

O texto que se segue vai já editado, com tags para os ficheiros e tudo. É só fazer copy & paste (e as alterações que achar por bem fazer).

Um abraço,
Jorge Neto

Seni Candé, iludido pelo destino (entrevista e sonorização por Jorge Neto)

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Guiné-Bissau >Parque Natural do Cantanhez > 2006 > Seni Candé, à direita na imagem
© Jorge Neto

Se ainda fossem necessárias provas como a guerra colonial deixou memórias, Seni Candé seria uma delas. Este guineense defendeu a bandeira de Portugal na guerra colonial e, pode dizer-se, esteve do lado errado da luta. Assim que as tropas portuguesas bateram em retirada, Seni foi perseguido pelo PAIGC. Preso por duas vezes, escapou à morte refugiando-se na vizinha Gâmbia.

Hoje é guia de ocasião no Parque Natural do Cantanhez, no sul da Guiné-Bissau. Com onze filhos, sem emprego certo e uma casa miserável, Seni alimenta a esperança de um dia conseguir uma pensão do Estado português:
- Na embaixada de Portugal em Bissau não sabem do meu caso, mas assim que souberem pagam-me... É só eu ir lá! - O destino ilude Seni. O Estado português nunca pagará o braço direito que lhe roubou. Muito menos o resto, a dívida moral que tem para com ele (e tantos outros Senis espalhados pelas ex-colónias).

Nestes registos, Seni Candé,[nascido em 10 de Fevereiro de 1947] explica, num português que exige paciência (muita!), como entrou no exército verde-rubro [e chegou a 1º cabo, nº 397/65, CCAÇ 6]. Diz ainda com uma ponta de orgulho: "Sou um combatnte português". Fala dos oficiais que ficaram na sua sua memória,e que um dia, "se tiver saúde", ainda vai procurar a Portugal. Avalia, por fim, a coragem dos soldados portugueses, desde os açoreanos aos lisboetas (aqui se fica a saber quem eram os mais valentes).

Antes do fim, Seni relembra duas canções daquele doloroso tempo e uma passagem pela metrópole quando, à conta de um braço cortado, foi evacuado de avião [em 1969]. O Intendente, o Martim Moniz e a Trafaria fizeram as delícias deste homem que continua a acreditar que um dia voltará a ganhar o equivalente aos 775 Escudos que auferia na altura [e que faziam dele um homem "muito rico"].

2. Comentário de L.G.:

2.1. Instruções - Ligar o som... O carregamento de cada ficheiro pode levar algum tempo... Tenham alguma paciência... Mas estes quatro excertos da entrevista do Seni Candé, feitos pelo Jorge Neto, valem bem a pena!...
2.2. Este homem, o Seni Candé, de apelido tipicamente fula, que começou como caçador nativo, teve "três louvores de guerra" (em Novembro de 1968 e já em 1974, capturou três armas), ficou sem braço, decepado por uma roquetada (creio que em 3 de Junho de 1969), esteve na Metrópole em convalescença nesse ano e, tanto quanto eu percebi, esteve na CCAÇ 3493 (Mansambo e Cobumba) - refere o nome de vários capitões, incluindo o do nosso camarada de tertúlia, o Manuel Cruz - e na CCAÇ 6... É como se eu estivesse a ouvir os meus queridos nahrros da CCAÇ 12...

É a primeira vez que inserimos este tipo de ficheiros (de som) no nosso blogue. No seu conjunto, constituem um documento, pungente, de destroçar o coração!... A verdade é que nós abandonámos miseravelmente estes homens!

Estou profundamente agradecido ao Jorge pela sua sensibilidade e talento em saber tocar nestas feridas de guerra (que também nos doem, e de que maneira!).... Mesmo assim, admirem, amigos e camaradas de tertúlia, a serenidade com que este homem, o Candé, relata a sua vida de luta ao lado dos tugas, sem um queixume, sem uma reivindicação, com uma voz doce, com orgulho e... com uma grande saudade! Vejam como ele recorda o dia, em Cufar, em que viu, mais uma vez a morte á sua frente, com a CCAÇ 6 a sofer 5 mortos e 25 feridos... mas era "preciso coragem" para salvar os camaradas... Vejam como ele fala dos seus amigos portugueses e de Portugal!... Confesso que fiquei muito sensibilizado...

PS - O Sousa de Castro acaba de me confirmar e corrigir: " Luís, quando o Candé refere CCAÇ 3493 deve querer dizer CART 3493, pertencente ao BART 3873 que saiu de Mansambo para Cobumba em Março 1973. A CART 3494 substituiu a CART 3493 em Mansambo que estava no Xime. Era de facto o Manuel Cruz , o CMDT da CART 3493".

Primeira parte [Da CCAÇ 6 aos ajustes de contas do PAIGC, em 1975: fuzilamento do pai, do régulo e mais 5 pessoas da tabanca]
(Duração: 4.09mn)

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Segunda parte [Opinião sobre os combatentes portugueses, incluindo vários capitães / Referência à CCAÇ 3493 que veio de Mansambo para Cobumba, em Abril de 1973]
(Duração: 5.03m)

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Terceira parte [Evocando a Lisboa de 1969/70,as bajudas do Intendente e do Bairro Alto... quando era "muito rico"]
(Duração: 4.04m)

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Quarta parte [CCAÇ 6, Operação em Cufar, 5 mortos e 25 feridos / As nossas canções: Periquito vai no mato.../ Elisa, á-u-é, Elisa, á-u-á... ]
(Duração: 6.02m)

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