30 maio 2006

Guiné 63/74 - DCCCXIX: Do Porto a Bissau (23): Os restos mais dolorosos do resto do Império (A. Marques Lopes)

Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério (colonial) > Abril de 2006 > Restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram. Como o Soldado Anastácio Vieira Domingos, nº 688/64, que pertencia à CCAÇ 727. Era muito provavelmente alentejano. A CCAÇ 727 teve como unidade mobilizadora o RI 16, de Évora. A comissão foi de Outubro de 1964 a Agosto de 1966. O Soldado Anastácio não chegou a conhecer a época das chuvas: morreu ao fim de dois meses de Guiné, mais exactamente a 13 de Dezembro de 1964. O seu nome consta do memorial aos mortos das guerras do ultramar, junto à torre de Belém. (LG).



Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério (colonial) > Abril de 2006 > Restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram. Como o 1º Cabo Augusto Quintã, de 1966, nº ...204/66, que pertencia a uma unidade do Exército [número ilegível] .

Morreu "pela Pátria" a 19 do Outubro de 1967, conforme se pode confirmar pela lista que consta do memorial aos mortos das guerras do ultramar, junto à torre de Belém, em Lisboa. Obrigado ao Jorge Santos, pela ajuda. (LG).


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério (colonial) > Abril de 2006 > Restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram. Como o Soldado [Comando ? ] Ramajó Candé (ou Canté ?) que morreu a 23 de Junho de 1968, conforme se pode confirmar na lista dos nomes dos mortos nas guerras do Ultramar, no memorial junto à torre de Belém (LG).



Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério (colonial) > Abril de 2006 > Restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram. Como o Soldado, de 1966, Manuel da Costa [Sacramento], pertencente a uma unidade do Exército, e que morreu a 16 de Agosto de 1967, conforme se pode confirmar através do memorial erguido aos mortos da guerra do Ultramar, junto à torre de Belém (LG).


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério (colonial) > Abril de 2006 > Restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram. Como o Soldado nº 021208/64, João Gomes, pertencente a uma unidade do Exército, e que morreu a 16 de Junho de 1967, conforme se pode confirmar através do memorial erguido aos mortos da guerra do Ultramar, junto à torre de Belém (LG).

Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério (colonial) > Abril de 2006 > Restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram. Como o Soldado Manuel Rogério L[opes] Torres, pertencente a uma unidade do Exército, e que morreu a 10 de Novembro de 1964, conforme se pode confirmar através do memorial erguido aos mortos da guerra do Ultramar, junto à torre de Belém. Era muito provavelmente do Norte do país: pertencia à CART 566, cuja unidade mobilizadora foi o RAP 2, de Vila Nova de Gaia. A CART 566 esteve na Guiné de Agosto de 1964 a Novembro de 1965. O Soldado Torres também morreu na época seca, ao fim de escassos três meses de Guiné (LG).

Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério (colonial) > Abril de 2006 > Restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram. Como o Soldado Apa Ié, pertencente a uma unidade do Exército, e que morreu a 10 de Agosto de 1968, conforme se pode confirmar através do memorial erguido aos mortos da guerra do Ultramar, junto à torre de Belém (LG).

Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério (colonial) > Abril de 2006 > Restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram. Como o lendário Capitão Comando João Bacar Jaló, natural da Guiné, morto em combate em 16 de Abril de 1971 (LG).




Guiné > Bissau > 1966 > Cemitério onde ficaram sepultados os primeiros combatentes da guerra colonial. Há placas funerárias de militares de origem metropolitana que vão, pelo menos, até 1968. O estado de abandono do cemitério faz doer oc oração, diz-nos o Marques Lopes, que esteve lá recentemente, em Abril de 2006, com o Xico Allen (LG).

Foto: © Virgínio Briote (2005)


Texto e fotos (excepto a última): © A. Marques Lopes (2006)

Estes são os restos mais dolorosos da nossa passagem pela Guiné. Muito mais do que o que resta de abrigos e casernas. São placas de sepulturas no cemitério de Bissau, aquelas em que se pode ainda ler algumas letras ou números. Mais há, mas já nada se pode ler.

Soube, em tempos, que chegou a haver uma comissão encarregada de fazer a trasladação dos corpos lá sepultados. Mas nunca funcionou, segundo sei. É pena, pois eles e as respectivas famílias mereciam. Ali, parece que só a família do Bacar Jaló (1) tem tratado dele.

A. Marques Lopes

Comentário de L.G.:

Amigos e camaradas:

Quem se interessa por cemitérios ? Só os góticos, a tribo dos góticos, os nossos putos que se vestem de preto e têm horror à luz do dia...Por uma manhã ou uma tarde do mês de Abril de 2006, não sei ao certo em que dia, o A. Marques Lopes (julgo que acompanhado do Xico Allen) entrou no velho cemitério (colonial) de Bissau e fotografou os restos mais dolorosos do resto do nosso Império: as lápides funerárias, os restos dos soldados portugueses que por lá ficaram, mortos nos primeiros anos de guerra (até pelo menos 1968), "mortos pela Pátria", e que a Pátria nem sequer se deu ao trabalho de os trasladar para as suas terras natais...

Vocês dirão: depois de morto, tanto me faz... Mas espiritual e culturalmente não é assim... Os seres humanos só fazem o luto baseado na evidência da morte... E eu sei do que falo porque tenho parentes e conterrâneos, desaparecidos no mar, cujos corpos nunca deram à costa: e sem o cadáver não se pode fazer o luto, nem os ritos de passagem associados à morte, nem há viuvez nem orfandade...

Pois o Marques Lopes, que é um homem de cultura e de sensibilidade, tentou o insólito e o impossível: fotografar os últimos vestígios (materiais) de uma guerra, as letras e os números de identificação dos tugas (e alguns naturais da Guiné) que morreram e não tiveram uma sepultura condigna no cemitério da sua terra natal...

Em oito fotografias que le me mandou, só duas eram legíveis... Pela minha parte, passei um bom bocado de tempo a recompôr/reconstituir/decifrar o resto (Obrigado ao Jorge Santos, pela sua ajuda, já que me socorri da lista dos mortos da guerra colonial que consta do seu site)...

Julgo não ter perdido o meu tempo: de facto, e como muito bem diz o Marques Lopes, "eles e as respectivas famílias mereciam"... Ficam, pelo menos aqui, registados no nosso blogue os seus nomes, talvez alguém ainda os possa reconhecer, meio século depois, de entre os seus familiares e amigos.

E os seus nomes são (por odem alfabética): Anastácio Vieira Domingos, Apa Ié, Augusto Quintã, João Bacar Jaló, João Gomes, Manuel da Costa [Sacramento], Manuel Rogério Lopes Torres, Ramajó Candé (ou Canté ?)... (L.G.)
___________

Nota de L.G.

(1) João Bacar Jaló (ou Djaló): Capitão da 1º Companhia de Comandos Africanos, na altura sediada em Fá Mandinga:

vd posts de:

(i) 11 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri (Luís Graça)

(...) "O comandante operacional, esse, era o lendário capitão graduado comando João Bacar Jaló, um torre e espada, ex-alferes de milícia, de etnia fula, que viria a morrer em combate, mais tarde, já depois de Conacri (...). Não creio que tenha trocado com o João Bacar Jaló mais do que meia dúzia de palavras, em português. Mas estou a vê-lo, a entrar na parada do quartel de Bambadinca, ao volante de um burrinho (Unimog 411), à revelia de qualquer Regulamento de Disciplina Militar (RDM), à frente dos seus garbosos comandos, fabricados em série, denotando forte espírito de corpo, moral elevada e não menor fanfarronice.

"Alguns de nós chamávamos-lhes, com um certo desprezo e ironia, os muchachos de Pancho Villa por andarem armados até aos dentes e com fitas de metralhadora a tiracolo, além de gostarem de se fazer anunciar com enervantes rajadas de Kalash para o ar… Nas barbas do comandante do BART 2917 e do seu oficialato" (...).


(ii) 13 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXIV: Estórias cabralianas (6): SEXA o CACO em Missirá

(...) "Recomposto o Caco, olhou-me uma última vez e disse:
-Já vi tudo!

"Ao encaminhar-se para o helicóptero, ainda lhe ouvi comentar para a comitiva:
-Porra, que não é só o Alferes! Estão todos apanhados!

"Deve porém ter ficado impressionado, pois três dias depois voltou. Eu não estava. Tinha ido a Fá, buscar uma garrafa de whisky, prenda mensal do Capitão João Bacar Djaló. Contou-me o Branquinho que quando o informaram da minha ausência, Sua Excelência exclamou:
- Ainda bem!" (...)

2 comentários:

Anónimo disse...

Adorei ver tudo isto e nunca fui a tropa ,tenho 35 anos e tenho um tio que esteve na guine em bambadinca.vou mostralhe tudo isto quando istiver com ele ele vai-se passar quando ver tudo isto,axo que vai gostar.o nome dele é Aderito Pinto Loureiro.depois dou noticias,tenho orgulho de vosses todos.abraço fontinha.

Joaquim Laranjo disse...

Caro Luis Graça
Não estive na Guiné mas deixei lá uma parte da minha familia (meu irmão) em Kanquelifá em Outubro/69.
Gostaria de ter o seu contacto para poder saber mais coisas sobre a guerra colonial nessa ex-provincia
Parabens pelo seu blogue.
jotalaranjo@gmail.com