Texto do João S. Parreira (ex-Furriel Miliciano Comando, Brá, 1964/66), acrescentando mais nomes à lista de ex-militares, de origem guineense, que combateram nas NT e foram executados a seguir à independência, pelo PAIGC ou em nome do PAIGC (1). Não sei qual é a fonte usada pelo João (associação de comandos ? ex-camaradas dos comandos ? familiares ?), mas esta é uma missão do nosso blogue, uma missão nobre, útil e necessária (mesmo que dolorosa) que temos de cumprir.
Mais: é um dever dos tugas que conhecerem, treinaram e foram camaradas de armas destes homens, uma obrigação de Portugal e da Guiné-Bissau, dois países que se dizem irmãos e onde ainda existe uma enorme complexo de culpa e um sentimento de vergonha que nos impede falar publicamente, olhos nos olhos, da guerra colonial e pós-colonial, das suas sequelas e dos seus fantasmas... Em Portugal e na Guiné-Bissau, os armários da nossa memória colectiva estão cheios de cadáveres, reais ou fantasmagóricos: temos que os abrir, por mor da verdade histórica e da nossa saúde mental... (LG).
Caro Luís Graça,
Sobre o que tem vindo a lume, posso garantir que durante o tempo que permaneci na Guiné, 1964/66, nunca assisti ou ouvi falar de assassinatos de guineenses pelos comandos africanos que integraram os Grupos existentes na altura.
Estávamos em estado de guerra, onde ninguém pediu para ir, e a intenção, julgo eu, era matar para não morrer. Assim, em ambas as partes, por vezes era inevitável não haver mortos ou feridos em combate. Felizes os camaradas que nunca estiveram metidos em combates, e por isso desconhecem quanto traumatizante é essa situação.
Como todos nós que por lá andámos sabemos, os Grupos de guerrilheiros, a que muitos guineenses se juntaram voluntariamente, estavam nìtidamente em vantagem pois conheciam bem o terreno, tinham grande resistência e mobilidade, sobreviviam com pouco, estavam bem armados e conheciam bem as tácticas de guerrilhas, aprendida em vários países estrangeiros, para além de terem a colaboração natural ou forçada das populações. Em caso de necessidade tinham a vantagem de terem santuário em países vizinhos.
Se os guineenses que mais tarde fizeram parte das companhias de comandos não tivessem optado por se alistarem, e como tal sido treinados pelo nosso Exército, seriam por certo forçados a lutar ao lado dos guerrilheiros.
Agora visto por outro prisma. Se estes africanos eram assim tão sanguinários e assassinos como dizem, pois desconheço, pobres de nós, militares portugueses, se os mesmo se tivessem aliado aos seus irmãos de côr. Ou pior ainda, se mais tarde desertassem e se juntassem à causa da guerrilha.
Veio a verificar-se que fizeram uma opção errada, pois não seriam executados e hoje seriam, talvez, heróis nacionais, já que com o seu treino e perícia, teriam por certo no seu palmarés a morte de manga de portugueses, e quem sabe se algum de nós.
Outros fuzilamentos após a Independência da Guiné:
1º. Sargento Enfermeiro João Baptista (Depósito de Adidos)
2º. Sarg Inf Agnaldo Quinde Baldé (CCS/QG)
Soldado Infantaria Dicó Baldé (CCS/QG)
Sold Inf Miguel Francisco Pires (CCS/QG)
Sold Artilharia Henrique Sello Jaló (GAC 7)
Sold Art Jaló Seidi (GAC 7)
Sold Art Bacar Seidi (GAC 7)
Sold Inf Sello Jaló (GAC 7)
Sold Inf Demba Ganó (CCAÇ 11)
Sold Inf Sidi Jaló (CCAÇ 12)(2)
Sold Inf Aliu Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Baba Gallé Jaló (CCAÇ 18)
Sold Inf Bacar Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Mori Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Braima Jau (CCAÇ 18)
Sold Inf Amadu Baldé (CCAÇ 21)(3)
Sold Condutor Napoleão Jaló (Marinha)
Cmdt Milícia Bacar Alansó Cassamá (Empada)
Cmdt Mil Cabá Santiago (Bissorã)
Cmdt Mil Dantil Mendes (Jolmete)
Cmdt Mil Mamadu Seidi (Mansabá)
Um abraço.
João Parreira
___________
Nota de L.G.
(1) Vd. post de 23 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)
(2) Sold 82116369 Sidi Jaló (Apontador de Dilagrama), futa-fula, pertencente à 1ª secção do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 (Bambadinbca, 1969/71). Era Comandante deste Gr Comb o Alf Mil de Inf 13002168 António Manuel Carlão. A ele também pertenciam os nossos queridos amigos e camaradas, os furriéis milicianos António Levezinho e Humberto Simões.
Vd. post de 21 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)
(3) Poderá tratar-se do Sold 82105669 Amadu Baldé, futa-fula, que pertenceu à 3ª secção do 1º Grupo de Combate da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71), grupo esse que era comandado pelo Alf Mil Op Esp Francisco Magalhães Moreira. O comandante da secção era o Fur Mil António Manuel Martins Branquinho, natural de (e residente em) Évora. Houve sodlados e graduados da CCAÇ 12 que integraram, em 1973, a nova CCAÇ 21. O Amadu Baldé poderá ter sido um deles: é apenas uma hipótese.
Vd. post de 21 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)
blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!
A apresentar mensagens correspondentes à consulta "Composição da CCAÇ 12" ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta "Composição da CCAÇ 12" ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
31 maio 2006
Guiné 63/74 - DCCCXXII: Mais ex-combatentes fuzilados a seguir à independência (João Parreira)
Texto do João S. Parreira (ex-Furriel Miliciano Comando, Brá, 1964/66), acrescentando mais nomes à lista de ex-militares, de origem guineense, que combateram nas NT e foram executados a seguir à independência, pelo PAIGC ou em nome do PAIGC (1). Não sei qual é a fonte usada pelo João (associação de comandos ? ex-camaradas dos comandos ? familiares ?), mas esta é uma missão do nosso blogue, uma missão nobre, útil e necessária (mesmo que dolorosa) que temos de cumprir.
Mais: é um dever dos tugas que conhecerem, treinaram e foram camaradas de armas destes homens, uma obrigação de Portugal e da Guiné-Bissau, dois países que se dizem irmãos e onde ainda existe uma enorme complexo de culpa e um sentimento de vergonha que nos impede falar publicamente, olhos nos olhos, da guerra colonial e pós-colonial, das suas sequelas e dos seus fantasmas... Em Portugal e na Guiné-Bissau, os armários da nossa memória colectiva estão cheios de cadáveres, reais ou fantasmagóricos: temos que os abrir, por mor da verdade histórica e da nossa saúde mental... (LG).
Caro Luís Graça,
Sobre o que tem vindo a lume, posso garantir que durante o tempo que permaneci na Guiné, 1964/66, nunca assisti ou ouvi falar de assassinatos de guineenses pelos comandos africanos que integraram os Grupos existentes na altura.
Estávamos em estado de guerra, onde ninguém pediu para ir, e a intenção, julgo eu, era matar para não morrer. Assim, em ambas as partes, por vezes era inevitável não haver mortos ou feridos em combate. Felizes os camaradas que nunca estiveram metidos em combates, e por isso desconhecem quanto traumatizante é essa situação.
Como todos nós que por lá andámos sabemos, os Grupos de guerrilheiros, a que muitos guineenses se juntaram voluntariamente, estavam nìtidamente em vantagem pois conheciam bem o terreno, tinham grande resistência e mobilidade, sobreviviam com pouco, estavam bem armados e conheciam bem as tácticas de guerrilhas, aprendida em vários países estrangeiros, para além de terem a colaboração natural ou forçada das populações. Em caso de necessidade tinham a vantagem de terem santuário em países vizinhos.
Se os guineenses que mais tarde fizeram parte das companhias de comandos não tivessem optado por se alistarem, e como tal sido treinados pelo nosso Exército, seriam por certo forçados a lutar ao lado dos guerrilheiros.
Agora visto por outro prisma. Se estes africanos eram assim tão sanguinários e assassinos como dizem, pois desconheço, pobres de nós, militares portugueses, se os mesmo se tivessem aliado aos seus irmãos de côr. Ou pior ainda, se mais tarde desertassem e se juntassem à causa da guerrilha.
Veio a verificar-se que fizeram uma opção errada, pois não seriam executados e hoje seriam, talvez, heróis nacionais, já que com o seu treino e perícia, teriam por certo no seu palmarés a morte de manga de portugueses, e quem sabe se algum de nós.
Outros fuzilamentos após a Independência da Guiné:
1º. Sargento Enfermeiro João Baptista (Depósito de Adidos)
2º. Sarg Inf Agnaldo Quinde Baldé (CCS/QG)
Soldado Infantaria Dicó Baldé (CCS/QG)
Sold Inf Miguel Francisco Pires (CCS/QG)
Sold Artilharia Henrique Sello Jaló (GAC 7)
Sold Art Jaló Seidi (GAC 7)
Sold Art Bacar Seidi (GAC 7)
Sold Inf Sello Jaló (GAC 7)
Sold Inf Demba Ganó (CCAÇ 11)
Sold Inf Sidi Jaló (CCAÇ 12)(2)
Sold Inf Aliu Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Baba Gallé Jaló (CCAÇ 18)
Sold Inf Bacar Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Mori Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Braima Jau (CCAÇ 18)
Sold Inf Amadu Baldé (CCAÇ 21)(3)
Sold Condutor Napoleão Jaló (Marinha)
Cmdt Milícia Bacar Alansó Cassamá (Empada)
Cmdt Mil Cabá Santiago (Bissorã)
Cmdt Mil Dantil Mendes (Jolmete)
Cmdt Mil Mamadu Seidi (Mansabá)
Um abraço.
João Parreira
___________
Nota de L.G.
(1) Vd. post de 23 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)
(2) Sold 82116369 Sidi Jaló (Apontador de Dilagrama), futa-fula, pertencente à 1ª secção do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 (Bambadinbca, 1969/71). Era Comandante deste Gr Comb o Alf Mil de Inf 13002168 António Manuel Carlão. A ele também pertenciam os nossos queridos amigos e camaradas, os furriéis milicianos António Levezinho e Humberto Simões.
Vd. post de 21 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)
(3) Poderá tratar-se do Sold 82105669 Amadu Baldé, futa-fula, que pertenceu à 3ª secção do 1º Grupo de Combate da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71), grupo esse que era comandado pelo Alf Mil Op Esp Francisco Magalhães Moreira. O comandante da secção era o Fur Mil António Manuel Martins Branquinho, natural de (e residente em) Évora. Houve sodlados e graduados da CCAÇ 12 que integraram, em 1973, a nova CCAÇ 21. O Amadu Baldé poderá ter sido um deles: é apenas uma hipótese.
Vd. post de 21 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)
Mais: é um dever dos tugas que conhecerem, treinaram e foram camaradas de armas destes homens, uma obrigação de Portugal e da Guiné-Bissau, dois países que se dizem irmãos e onde ainda existe uma enorme complexo de culpa e um sentimento de vergonha que nos impede falar publicamente, olhos nos olhos, da guerra colonial e pós-colonial, das suas sequelas e dos seus fantasmas... Em Portugal e na Guiné-Bissau, os armários da nossa memória colectiva estão cheios de cadáveres, reais ou fantasmagóricos: temos que os abrir, por mor da verdade histórica e da nossa saúde mental... (LG).
Caro Luís Graça,
Sobre o que tem vindo a lume, posso garantir que durante o tempo que permaneci na Guiné, 1964/66, nunca assisti ou ouvi falar de assassinatos de guineenses pelos comandos africanos que integraram os Grupos existentes na altura.
Estávamos em estado de guerra, onde ninguém pediu para ir, e a intenção, julgo eu, era matar para não morrer. Assim, em ambas as partes, por vezes era inevitável não haver mortos ou feridos em combate. Felizes os camaradas que nunca estiveram metidos em combates, e por isso desconhecem quanto traumatizante é essa situação.
Como todos nós que por lá andámos sabemos, os Grupos de guerrilheiros, a que muitos guineenses se juntaram voluntariamente, estavam nìtidamente em vantagem pois conheciam bem o terreno, tinham grande resistência e mobilidade, sobreviviam com pouco, estavam bem armados e conheciam bem as tácticas de guerrilhas, aprendida em vários países estrangeiros, para além de terem a colaboração natural ou forçada das populações. Em caso de necessidade tinham a vantagem de terem santuário em países vizinhos.
Se os guineenses que mais tarde fizeram parte das companhias de comandos não tivessem optado por se alistarem, e como tal sido treinados pelo nosso Exército, seriam por certo forçados a lutar ao lado dos guerrilheiros.
Agora visto por outro prisma. Se estes africanos eram assim tão sanguinários e assassinos como dizem, pois desconheço, pobres de nós, militares portugueses, se os mesmo se tivessem aliado aos seus irmãos de côr. Ou pior ainda, se mais tarde desertassem e se juntassem à causa da guerrilha.
Veio a verificar-se que fizeram uma opção errada, pois não seriam executados e hoje seriam, talvez, heróis nacionais, já que com o seu treino e perícia, teriam por certo no seu palmarés a morte de manga de portugueses, e quem sabe se algum de nós.
Outros fuzilamentos após a Independência da Guiné:
1º. Sargento Enfermeiro João Baptista (Depósito de Adidos)
2º. Sarg Inf Agnaldo Quinde Baldé (CCS/QG)
Soldado Infantaria Dicó Baldé (CCS/QG)
Sold Inf Miguel Francisco Pires (CCS/QG)
Sold Artilharia Henrique Sello Jaló (GAC 7)
Sold Art Jaló Seidi (GAC 7)
Sold Art Bacar Seidi (GAC 7)
Sold Inf Sello Jaló (GAC 7)
Sold Inf Demba Ganó (CCAÇ 11)
Sold Inf Sidi Jaló (CCAÇ 12)(2)
Sold Inf Aliu Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Baba Gallé Jaló (CCAÇ 18)
Sold Inf Bacar Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Mori Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Braima Jau (CCAÇ 18)
Sold Inf Amadu Baldé (CCAÇ 21)(3)
Sold Condutor Napoleão Jaló (Marinha)
Cmdt Milícia Bacar Alansó Cassamá (Empada)
Cmdt Mil Cabá Santiago (Bissorã)
Cmdt Mil Dantil Mendes (Jolmete)
Cmdt Mil Mamadu Seidi (Mansabá)
Um abraço.
João Parreira
___________
Nota de L.G.
(1) Vd. post de 23 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)
(2) Sold 82116369 Sidi Jaló (Apontador de Dilagrama), futa-fula, pertencente à 1ª secção do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 (Bambadinbca, 1969/71). Era Comandante deste Gr Comb o Alf Mil de Inf 13002168 António Manuel Carlão. A ele também pertenciam os nossos queridos amigos e camaradas, os furriéis milicianos António Levezinho e Humberto Simões.
Vd. post de 21 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)
(3) Poderá tratar-se do Sold 82105669 Amadu Baldé, futa-fula, que pertenceu à 3ª secção do 1º Grupo de Combate da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71), grupo esse que era comandado pelo Alf Mil Op Esp Francisco Magalhães Moreira. O comandante da secção era o Fur Mil António Manuel Martins Branquinho, natural de (e residente em) Évora. Houve sodlados e graduados da CCAÇ 12 que integraram, em 1973, a nova CCAÇ 21. O Amadu Baldé poderá ter sido um deles: é apenas uma hipótese.
Vd. post de 21 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)
29 maio 2006
Guiné 63/74 - DCCCXIV: Ao Fernando Sousa: Sei que estás em festa, pá
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Natal de 1969 > Sargentos e furriéis da CCAÇ 12 e da CCS do BCAÇ 2852:(i) da esquerda para a direita, na 1ª fila: o Jaime Soares Santos (Fur Mil SAM, vulgo vagomestre); António Eugéndio da Silva Lezinho, Fur Mil At Inf; António M. M. Branquinho, Fur Mil At Inf; Humbero Simões dos Reis, Fur Mil Op Esp; Joaquim A. M. Fernandes, Fur Mil At Inf):
(ii) da esquerda para a direita, 2ª fila, de pé: 2º sargento Inf José Martins Rosado Piça; Fur Mil Armas Pesadas Inf Luís Manuel da Graça Henriques; um 2º sargento, de cujo nome não me lembro; 1º Sargento Cav Fernando Aires Fragata; Fur Mil Enfermeiro João Carreiro Martins; e um outro 1º sargento de cujo nome também já não me lembro mas que julgo ser da CCS do BCAÇ 2852... (LG)
Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
_________
Eu estou em falta com os meus camaradas da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e da CCS do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70): encontraram-se anteontem, sábado, 27, na Trofa, na casa do Fernando Andrade de Sousa, ex-1º cabo auxiliar enfermeiro da CCAÇ 12, um dos nossos maqueiros (era o termo, injusto, depreciativo, usado no nosso tempo, para estes nossos anjos da guarda, os homens do soro que salvaram algumas vidas nas matas do Xime) ...
Telefonei-lhe, depois do almoço: era um homem feliz, um camarada sortudo entre 65 camaradas sortudos (por ainda estarem vivos!...), 65 convivas lá em casa, todos cheios de sede e de fome. É obra... É preciso espaço, tempo, paciência, competência, logística, meios... Mas ele, o Fernando, é - imagino e tanto quanto me lembro! - um minhoto dos quatro costados e, como tal, tem a cultura da hospitalidade...
Com muita pena minha, à última hora, não me foi possível dar lá um salto, já que tinha previsto com antecedência ir até à casa que tenho na região, não muito longe, no Douro Litoral (Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canavezes)...
Sei que esteve lá o Humberto, o último dos moicanos, que, diga-se de passagem, nunca faltou a nenhum convívio anual da malta de Bambadinca: ele, o Marques, o Fernandes, todos eles ex-furriéis milicianos (1); mais o Sousa da Trofa, o nosso valente cabo enfermeiro... São os quatro magníficos da CCAÇ 12, a quem eu presto a minha homenagem, e a quem atribuiria a Ordem da Torre e Espada, do Valor, da Amizade e da Camaradagem, se fosse eu o presidente honorífico das ordens honoríficas portuguesas...
Pela minha parte, devo desde já declarar que sou um péssimo exemplo: fui a um único convívio, anual, nestes anos todos...
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Algures com o Soldado Condutor Auto Alcino Carvalho Braga num burrinho...Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)© Humberto Reis (2006)
Hoje, soube através do Humberto (a quem tinha garantido que ia e até ofereci alojamento na nossa casa de Candoz, e que naturalmente ficou chateado comigo...) que o convívio, o catering, o dia foram do melhor que podia haver: cinco estrelas!...
Eu fico feliz (e infeliz, ao mesmo tempo) sempre que sei que há uma festa de amigos, para qual estão a contar comigo e à qual, à ultima hora, não posso ir por motivos de força maior... Vem-me sempre à memória a nostálgica e fabulosa letra da canção do Xico Buarque que ele escreveu para os seus amigos portugueses, em festa, ainda em 1975:
Tanto mar (1975, primeira versão) (2)
Sei que estás em festa, pá,
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim.
Eu queria estar na festa, pá,
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar.
Lá faz primavera, pá,
Cá estou doente,
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim.
Fonte: UOL > Chico Buarque
Fico à espera, tal como prometido, que venham chegando mais detalhes (incluindo as provas do crime, que são as fotos) sobre a festa da Trofa... Do Marques e do Fernandes, bem como de outros camaradas da Bambadinca do nosso tempo, não temos tido notícia... Também gostaria de rever outros camaradas que compunham a CCAÇ 12, de origem metropolitana, e que eram, para além dos oficiais e sargentos já aqui listados neste blogue (1), mais os seguintes graduados:
1º Sargento Cavalaria Fernando Aires Fragata;
2º Sarg Infantaria José Martins Rosado Piça;
2º Sarg Inf Alberto Martins Vieira;
Furriel Miliciano MAR Joaquim Moreira Gomes;
Fur Mil Enfermeiro João Carreiro Martins;
Fur Mil Trams José Fernando Gonçalves;
Fur Mil Armas Pesadas Inf Luís Manuel da Graça Henriques;
1º Cabo Aux Enf José Maria S. Faleiro;
1º Cabo Aux Enf Fernando Andrade de Sousa;
1º Cabo Aux Enf Carlos A. R. dos Santos;
1º Cabo Trams Inf António Domingos Rodrigues;
1º Cabo Cripto José António Damas Murta;
1º Cabo Cripto Gabriel da Silva Gonçalves;
1º Cabo Manut Material João Rito Marques;
1º Cabo Mec Auto Renato B. Semedos;
1º Cabo Mec Auto António Alves Mexia;
1º Cabo Escriturário Eduardo Veríssimo de Sousa Tavares;
1º Cabo Cond Auto Luís Jorge M.S. Monteiro;
1º Cabo Radiotelegrafista Manuel da Graça S. Zacarias;
1º Cabo Corneteiro Manuel Joaquim Martins Ferreira;
1º Cabo Cozinheiro José Campos Rodrigues;
1º Cabo Apont de Armas Pesadas José Manuel P. Quadrado;
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada de Bambadinca-Mansambo. Eu e o Dalot, o Diniz G. Dalot, talvez o melhor condutor de GMC do mundo ou pelo menos o melhor que eu alguma vez conheci... Berliet e GMC nas mãos dele, carregadas de sacos de arroz, não ficavam atoladas na famosa estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole, a menos que rebentassem debaixo de uma mina. Eu dizia que era preciso ser maluco para conduzir uma GMC. Ele ofendia-se: era o mais profissional dos nossos condutores auto... Reguila, setubalense (se não me engano), apanhou logo no princípio da comissão, em Julho de 1969, cinco dias de detenção.Foto: © Luís Graça (2005)
Refira-se os nossos soldados de origem metropolitana (para além dos operacionais já eventualmente citados, neste caso apenas o Sold At Inf Arménio Monteiro da Fonseca):
Sold Básico João Fernando R. Silva;
Sold Básico Salvador J. P. Santos;
Sold Mec Auto Gaudêncio Machado Pinto;
Sold Trams Inf José Garcia Pereira;
Sold TICA António Fernando Cruz Marchão;
Sold TICA José Leite Pereira;
Sold TICA António Diuas dos Santos
Sold Cozinheiro Henrique Manuel;
Sold Corneteiro Orlando da Cruz Vaz;
Sold Corneteiro José de Sousa Pereira;
Sold Radioteleg João Gonçalves Ramos;
Sold Radiot Manuel Maria Catita André;
Sold Cond Auto António S. Fernandes;
Sold Cond Auto Manuel J. P. Bastos;
Sold Cond Auto Manuel da Costa Soares;
Sold Cond Auto Alcino Carvalho Braga;
Sold Cond Auto Adélio Gonçalves Monteiro;
Sold Cond Auto João Dias Vieira;
Sold Cond Auto Tibério Gomes da Rocha;
Sold Cond Auto António S. Fernandes;
Sold Cond Auto Francisco A. M. Patronilho;
Sold Cond Auto Manuel S. Almeida;
Sold Cond Auto António C. Gomes;
Sold Cond Auto Fernando S. Curto;
Sold Cond Auto Aniceto R. da Silva;
Sold Cond Auto Diniz G. Dalot;
Sold Cond Auto Manuel G. Reis.
Seria injusto ainda não referir dois soldados africanos que não eram operacionais ou que, pelo menos, não constavam da lista dos grupos de combate (1):
Sold Cozinheiro 82116869 Gale Camará
Sold Cozinheiro 81117669 Amadú Camará
Pergunto-me: o que será feito destes homens ? Lembro-me, com um sentimento de gratidão e de admiração, sobretudo dos soldados condutores auto que tantas vezes fintaram a morte nas picadas do leste da Guiné, na estrada do Xime-Bambadinca ou na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole... O Bastos, o Braga, o Monteiro, o Vieira, o Rocha, o Fernandes, o Patronilho, o Almeida, o Gomes, o Curto, o Silva, o Dalot, o Reis... Por onde andam vocês, velhos malucos das GMC, Berliet, Unimog ? Houve, pelo menos, um que não sobreviveu, que pagou com a vida a lotaria russa que era andar pelas picadas da Guiné: chamava-se Manuel da Costa Soares, morreu no dia 13 de Janeiro de 1970, na estrada Nhabijões-Bambadinca (1)...
_______
Notas de L.G.
(1) O Humberto era do 2º Grupo de Combate; O Marques e o Fernandes eram do 4º Grupo de Combate: ambos foram gravemente feridos no mesmo sítio, no mesmo dia, a horas diferentes, por minas anti-carro, diferentes, mas que levavam destinatário: os tugas e os nharros da CCAÇ 12 e da CCS do BART 2817, destacados em Nhabijões, no dia 13 de Janeiro de 1971... A mina do Marques também sobrou para mim, felizmente sem outros danos, irreversíveis, que não os psicológicos...
Vd. posts de
21 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)
2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXIX: E de súbito uma explosão
23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)
(2) Letra original, vetada pela censura da Ditadura Militar Brasileira; gravação editada apenas em Portugal (1975).
(3) Vd. posts de:
11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CLXX: As heróicas GMC e os malucos dos seus condutores (CCAÇ 12, Septembro de 1969)
20 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXII: O inferno das colunas logísticas na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho).
Guiné 63/74 - DCCCXIV: Ao Fernando Sousa: Sei que estás em festa, pá
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Natal de 1969 > Sargentos e furriéis da CCAÇ 12 e da CCS do BCAÇ 2852:(i) da esquerda para a direita, na 1ª fila: o Jaime Soares Santos (Fur Mil SAM, vulgo vagomestre); António Eugéndio da Silva Lezinho, Fur Mil At Inf; António M. M. Branquinho, Fur Mil At Inf; Humbero Simões dos Reis, Fur Mil Op Esp; Joaquim A. M. Fernandes, Fur Mil At Inf):
(ii) da esquerda para a direita, 2ª fila, de pé: 2º sargento Inf José Martins Rosado Piça; Fur Mil Armas Pesadas Inf Luís Manuel da Graça Henriques; um 2º sargento, de cujo nome não me lembro; 1º Sargento Cav Fernando Aires Fragata; Fur Mil Enfermeiro João Carreiro Martins; e um outro 1º sargento de cujo nome também já não me lembro mas que julgo ser da CCS do BCAÇ 2852... (LG)
Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
_________
Eu estou em falta com os meus camaradas da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e da CCS do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70): encontraram-se anteontem, sábado, 27, na Trofa, na casa do Fernando Andrade de Sousa, ex-1º cabo auxiliar enfermeiro da CCAÇ 12, um dos nossos maqueiros (era o termo, injusto, depreciativo, usado no nosso tempo, para estes nossos anjos da guarda, os homens do soro que salvaram algumas vidas nas matas do Xime) ...
Telefonei-lhe, depois do almoço: era um homem feliz, um camarada sortudo entre 65 camaradas sortudos (por ainda estarem vivos!...), 65 convivas lá em casa, todos cheios de sede e de fome. É obra... É preciso espaço, tempo, paciência, competência, logística, meios... Mas ele, o Fernando, é - imagino e tanto quanto me lembro! - um minhoto dos quatro costados e, como tal, tem a cultura da hospitalidade...
Com muita pena minha, à última hora, não me foi possível dar lá um salto, já que tinha previsto com antecedência ir até à casa que tenho na região, não muito longe, no Douro Litoral (Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canavezes)...
Sei que esteve lá o Humberto, o último dos moicanos, que, diga-se de passagem, nunca faltou a nenhum convívio anual da malta de Bambadinca: ele, o Marques, o Fernandes, todos eles ex-furriéis milicianos (1); mais o Sousa da Trofa, o nosso valente cabo enfermeiro... São os quatro magníficos da CCAÇ 12, a quem eu presto a minha homenagem, e a quem atribuiria a Ordem da Torre e Espada, do Valor, da Amizade e da Camaradagem, se fosse eu o presidente honorífico das ordens honoríficas portuguesas...
Pela minha parte, devo desde já declarar que sou um péssimo exemplo: fui a um único convívio, anual, nestes anos todos...
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Algures com o Soldado Condutor Auto Alcino Carvalho Braga num burrinho...Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)© Humberto Reis (2006)
Hoje, soube através do Humberto (a quem tinha garantido que ia e até ofereci alojamento na nossa casa de Candoz, e que naturalmente ficou chateado comigo...) que o convívio, o catering, o dia foram do melhor que podia haver: cinco estrelas!...
Eu fico feliz (e infeliz, ao mesmo tempo) sempre que sei que há uma festa de amigos, para qual estão a contar comigo e à qual, à ultima hora, não posso ir por motivos de força maior... Vem-me sempre à memória a nostálgica e fabulosa letra da canção do Xico Buarque que ele escreveu para os seus amigos portugueses, em festa, ainda em 1975:
Tanto mar (1975, primeira versão) (2)
Sei que estás em festa, pá,
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim.
Eu queria estar na festa, pá,
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar.
Lá faz primavera, pá,
Cá estou doente,
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim.
Fonte: UOL > Chico Buarque
Fico à espera, tal como prometido, que venham chegando mais detalhes (incluindo as provas do crime, que são as fotos) sobre a festa da Trofa... Do Marques e do Fernandes, bem como de outros camaradas da Bambadinca do nosso tempo, não temos tido notícia... Também gostaria de rever outros camaradas que compunham a CCAÇ 12, de origem metropolitana, e que eram, para além dos oficiais e sargentos já aqui listados neste blogue (1), mais os seguintes graduados:
1º Sargento Cavalaria Fernando Aires Fragata;
2º Sarg Infantaria José Martins Rosado Piça;
2º Sarg Inf Alberto Martins Vieira;
Furriel Miliciano MAR Joaquim Moreira Gomes;
Fur Mil Enfermeiro João Carreiro Martins;
Fur Mil Trams José Fernando Gonçalves;
Fur Mil Armas Pesadas Inf Luís Manuel da Graça Henriques;
1º Cabo Aux Enf José Maria S. Faleiro;
1º Cabo Aux Enf Fernando Andrade de Sousa;
1º Cabo Aux Enf Carlos A. R. dos Santos;
1º Cabo Trams Inf António Domingos Rodrigues;
1º Cabo Cripto José António Damas Murta;
1º Cabo Cripto Gabriel da Silva Gonçalves;
1º Cabo Manut Material João Rito Marques;
1º Cabo Mec Auto Renato B. Semedos;
1º Cabo Mec Auto António Alves Mexia;
1º Cabo Escriturário Eduardo Veríssimo de Sousa Tavares;
1º Cabo Cond Auto Luís Jorge M.S. Monteiro;
1º Cabo Radiotelegrafista Manuel da Graça S. Zacarias;
1º Cabo Corneteiro Manuel Joaquim Martins Ferreira;
1º Cabo Cozinheiro José Campos Rodrigues;
1º Cabo Apont de Armas Pesadas José Manuel P. Quadrado;
Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Estrada de Bambadinca-Mansambo. Eu e o Dalot, o Diniz G. Dalot, talvez o melhor condutor de GMC do mundo ou pelo menos o melhor que eu alguma vez conheci... Berliet e GMC nas mãos dele, carregadas de sacos de arroz, não ficavam atoladas na famosa estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole, a menos que rebentassem debaixo de uma mina. Eu dizia que era preciso ser maluco para conduzir uma GMC. Ele ofendia-se: era o mais profissional dos nossos condutores auto... Reguila, setubalense (se não me engano), apanhou logo no princípio da comissão, em Julho de 1969, cinco dias de detenção.Foto: © Luís Graça (2005)
Refira-se os nossos soldados de origem metropolitana (para além dos operacionais já eventualmente citados, neste caso apenas o Sold At Inf Arménio Monteiro da Fonseca):
Sold Básico João Fernando R. Silva;
Sold Básico Salvador J. P. Santos;
Sold Mec Auto Gaudêncio Machado Pinto;
Sold Trams Inf José Garcia Pereira;
Sold TICA António Fernando Cruz Marchão;
Sold TICA José Leite Pereira;
Sold TICA António Diuas dos Santos
Sold Cozinheiro Henrique Manuel;
Sold Corneteiro Orlando da Cruz Vaz;
Sold Corneteiro José de Sousa Pereira;
Sold Radioteleg João Gonçalves Ramos;
Sold Radiot Manuel Maria Catita André;
Sold Cond Auto António S. Fernandes;
Sold Cond Auto Manuel J. P. Bastos;
Sold Cond Auto Manuel da Costa Soares;
Sold Cond Auto Alcino Carvalho Braga;
Sold Cond Auto Adélio Gonçalves Monteiro;
Sold Cond Auto João Dias Vieira;
Sold Cond Auto Tibério Gomes da Rocha;
Sold Cond Auto António S. Fernandes;
Sold Cond Auto Francisco A. M. Patronilho;
Sold Cond Auto Manuel S. Almeida;
Sold Cond Auto António C. Gomes;
Sold Cond Auto Fernando S. Curto;
Sold Cond Auto Aniceto R. da Silva;
Sold Cond Auto Diniz G. Dalot;
Sold Cond Auto Manuel G. Reis.
Seria injusto ainda não referir dois soldados africanos que não eram operacionais ou que, pelo menos, não constavam da lista dos grupos de combate (1):
Sold Cozinheiro 82116869 Gale Camará
Sold Cozinheiro 81117669 Amadú Camará
Pergunto-me: o que será feito destes homens ? Lembro-me, com um sentimento de gratidão e de admiração, sobretudo dos soldados condutores auto que tantas vezes fintaram a morte nas picadas do leste da Guiné, na estrada do Xime-Bambadinca ou na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole... O Bastos, o Braga, o Monteiro, o Vieira, o Rocha, o Fernandes, o Patronilho, o Almeida, o Gomes, o Curto, o Silva, o Dalot, o Reis... Por onde andam vocês, velhos malucos das GMC, Berliet, Unimog ? Houve, pelo menos, um que não sobreviveu, que pagou com a vida a lotaria russa que era andar pelas picadas da Guiné: chamava-se Manuel da Costa Soares, morreu no dia 13 de Janeiro de 1970, na estrada Nhabijões-Bambadinca (1)...
_______
Notas de L.G.
(1) O Humberto era do 2º Grupo de Combate; O Marques e o Fernandes eram do 4º Grupo de Combate: ambos foram gravemente feridos no mesmo sítio, no mesmo dia, a horas diferentes, por minas anti-carro, diferentes, mas que levavam destinatário: os tugas e os nharros da CCAÇ 12 e da CCS do BART 2817, destacados em Nhabijões, no dia 13 de Janeiro de 1971... A mina do Marques também sobrou para mim, felizmente sem outros danos, irreversíveis, que não os psicológicos...
Vd. posts de
21 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)
2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXIX: E de súbito uma explosão
23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)
(2) Letra original, vetada pela censura da Ditadura Militar Brasileira; gravação editada apenas em Portugal (1975).
(3) Vd. posts de:
11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CLXX: As heróicas GMC e os malucos dos seus condutores (CCAÇ 12, Septembro de 1969)
20 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XXII: O inferno das colunas logísticas na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho).
21 maio 2006
Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)

Guiné > Zona Leste > Contuboel > Junho de 1969: O 2º Grupo de Combate da CCAÇ 2590 (futura CCCAÇ 12), ainda em período de instrução da especialidade . O 2º Gr Comb era comandado pelo Alferes Miliciano Carlão que aparece na fotografia, na primeira fila, ajoelhado, olhando no sentido oposto ao do fotógrafo. Atrás dele o soldado Arménio, de alcunha o Vermelhinha (era cabo, antes de embarcar mas foi despromovido, por ter apanhado uma porrada da PM). De pé, na terceira fila, os furriéis milicianos Levezinho e Reis. Na segunda fila, meio agachados, os 1ºs cabos Branco e Alves (de alcunha o Alfredo) .
Um grupo de combate da CCAÇ 2590 (mais tarde, CCAÇ 12) era constituído por 30 homens. Havia 4 Gr Comb. Cada grupo de combate, comandado por um alferes, tinha três secções (1 furriel e 1 cabo e oito soldados, estes africanos).
Casa secção era especializada. Havia a secção dos lança-granadas, com o respectivo apontador e municiador (1 LGFog 8.9, 1 LGFog 3.7). Havia a secção do Morteiro 60 (apontador e municiador ). E havia ainda a secção da Metralhadora Ligeira HK 21 (apontador e municiador). Cada combatente estava equipado com a espingarda automática G-3 e granadas defensivas. Em geral havia ainda dois apontadores de dilagrama (neste caso, 1ª e 3ª secção) (LG)
Foto: © António Levezinho (2005)
__________
Pode parecer fastidiosa, inútil, irrelevante... a minha lista de Baldés... Não penso o mesmo: pode ter (ou vir a ter) algum interesse documental, historiográfico, eu sei lá... Pode facilitar a pesquisa de informação, de testemunhos, de depoimentos...
É também um pequeno, modestíssimo, gesto de elementar justiça para com aqueles guineenses que lutaram ao nosso lado, que fizeram parte da CCAÇ 12 e, portanto, da nova força africana com que sonhou Spínola e que tanto atemorizou o PAIGC. Infelizmente, uma parte deles (quantos, exactamente?) já não hoje estarão vivos. Uns foram fuzilados, como o Abibo Jau (1), outros terão morrido de morte natural, que a sua esperança de vida era muito menor que a nossa, em 1969...
Eu estou à vontade para publicar esta lista: sempre critiquei a africanização da guerra da Guiné, embora longe de imaginar que, no dia seguinte à nossa retirada, começasse a caça aos traidores, aos contra-revolucionários, aos mercenários, aos colaboracionistas... Em 1969, ainda estava vivo o Amílcar Cabral e eu admirava-o, intelectualmente... Achava que na Guiné, depois da independência, tudo seria diferente, e não aconteceriam os ajustes de contas que se verificaram noutras revoluções ou guerras civis, na Rússia, na China, na Espanha franquista, na França depois da libertação, etc. Pobre de mim, ingénuo...
Mas, por outro lado, também fui cúmplice da sua integração no nosso exército: mesmo sendo de da especialidade de armas pesadas, e não fazer parte formalmente de nenhum dos quatro grupos de combate da CCAÇ 12, participei em muitas das operações em que estes participaram, fui testemunha da sua coragem e do seu medo, dormi com eles nas mais diversas situações, incluindo nas suas tabancas... Foram meus camaradas, em suma.
Soldados ex-milícias, a maior parte com experiência de combate, os nossos camaradas guineenses da CCAÇ 12 (originalemnte, CCAÇ 2590), eram oriundos do chão fula e em especial dos regulados do Xime, Corubal, Basora e Cossé, com excepção de um mancanhe, oriundo de Bissau.
“Todos falam português mas poucos sabem ler e escrever", lê-se na história da CCAÇ 12 (O que só verdade, 21 meses depois de os termos conhecido e instrúiído em Contuboel, em Junho e Julho de 1969). Foram incorporados no Exército como voluntários, acrescentou o escriba, para branquear a instustentável situação dos fulas, condenados a aliarem-se aos tugas.
Tirando o 1º Cabo José Carlos Suleimane Baldé (promovido ao actual posto em 16 de Setembro de 1969),era, todos Praças de 2ª classe. Samba Só, Mamadá Baldé, Braima Bá e Quecuta Colubali passaram a soldados arvoraddos na mesma data, por reunirem qualidades para uma eventual promoção ao posto de primeiros cabos: "ascendente sobre os camaradas, experiência de combate e aprumo militar" (sic). Entretanto, houve mais promoções no final da 1ª Comissão da CCAÇ 12 (a rendiçãoo individual dos quadros metropolitanos fez-se a partir de Fevereiro de 1971).
É muito provável que todos ou quase todos os graduados africanos da CCAÇ 12 ( e da CCAÇ 21, para a qual transiatram em 1973) tenham sido fuzilados, em 1974 e 1975 (1)...
Guiné > Região Leste > 1969 > Estrada Xime-Bambadinca> O comandante da CCAÇ 12 (ex-CCAÇ 2590), Capitão Inf 50156311 Carlos A. M. Brito, promovido a major no final da comissão. Oficial do quadro, já tinha feito duas comissões anteriormente, uma na Índia e outra em Angola.Foto do Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).
© Humberto Reis (2006).
Composição orgânica dos grupos de combate (Fonte: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971. Capítulo I).
1º Gr Comb
Comandante Alf Mil Op Esp 00928568 Francisco Magalhães Moreira
1ª secção
1º Cabo 8490968 José Manuel P Quadrado (Ap dilagrama)
Soldado Arvorado 82107469 Abibo Jau (F)
Soldado 82105869 Demba Jau (F)
Sold 82107769 Braima Jaló (Ap LGFog 8,9) (FF)
Sold 82106069 Sajo Baldé (Mun LGFog 8,9) (FF)
Sold 82106869 Suleimane Djopo (Ap Dilagrama) (FF)
Sold 82105469 Baiel Buaró (F)
Sold 82106269 Mamadu Será (FF)
2ª Secção
Fur Mil 04757168 Joaquim João dos Santos Pina
1º Cabo 17765068 Manuel Monteiro Valente (Ap Dilagrama)
Soldado Arvorado 82106369 Vitor Santos Sampaio (Mancanhe)
Soldado 82106469 Mamadu Au (Ap Metr Lig HK 21)
Sold 82105969 Samba Camará (Mun Metr Lig HK 21) (FF)
Sold 82105269 Sherifo Baldé
Sold 82106669 Mussa Bari (FF)
Sold 82106969 Mamadu Jau (F)
Sold 82105369 Mamadu Silá (Ap LGFog 3,7) (F)
Sold 82107669 Ussumane Sisse (Mun LGFog 3,7) (M)
3ª Secção
Fur Mil 19904168 António Manuel Martins Branquinho
1º Cabo 18998168 Abílio Soares
Soldado Arvorado 82107169 Mamadu Baló (F)
Soldado 82106569 Mustafá Colubalii (Ap Mort 60) )(FF)
Sold 82106169 Sana Camará (Mun Mort 60) (FF)
Sold 82105669 Amadu Baldé (FF)
Sold 82106169 Saico Seide(F)
Sold 82107569 Gale Jaló (FF)
Sold 82105569 Sana Baldé (Ap Dilagrama) (F)
2º Gr Comb
Comandante: Alf Mil de Inf 13002168 António Manuel Carlão
1ª secção
Soldado Arvorado 82107969 Alfa Baldé (Ap LGFog 3,7)
Soldado 18968568 Arménio Monteiro da Fonseca
Sold 82118169 Samba Camará (FF)
Sold 82115369 Iéro Jaló (F)
Sold 82118869 Cheval Baldé (Ap LGFog 8,9) (F)
Sold 82103269 Aruna Baldé (Mun LGFog 8,9) (F)
Sold 82105169 Mamadú Bari (FF)
Sold 82116369 Sidi Jaló (Ap Dilagrama) (FF)
Sold 82118669 Mussa Seide (F)
Sold 82117669 Amadú Camará (FF)
2ª Secção
Fur Mil Op Esp 05293061 Humberto Simões dos Reis
1º Cabo 17626068 José Marques Alves
Soldado Arvorado 82116569 Mamadu Baldé (F)
Soldado 82101469 Udi Baldé (FF)
Sold 82101069 Sajo Candé (F)
Sold 82108069 Alfa Jaló (F)
Sold 82116469 Iéro Juma Camará (Ap Mort 60) (FF)
Sold 82111969 Mamadú Jaló (Mun Mort 60) (F)
Sold 82111069 Adulai Baldé (F)
Sold 82117269 Adulai Bal (F)
3ª Secção
Fur Mil 17207968 Antonio Eugénio S. Levezinho
1º Cabo 18880368 Manuel Alberto Faria Branco
Soldado Arvorado 82116969 Braima Bá (F)
Soldado 82116669 Gale Colubali (Ap Metr Lig HK 21) (FF)
Sold 82116769 Mamadú Uri Colubali (Mun Metr Lig HK 21) (FF)
Sold 82111369 Amadú Turé (F)
Sold 82117469 Demba Jau (Ap Dilagrama) (F)
Sold 82107869 Iero Jaló (FF)
Sold 82116869 Gale Camará (F)
3º Gr Comb
Comandante: Alf Mil Inf 01006868 Abel Maria Rodrigues
1ª secção
1º Cabo 02920168 Carlos Alberto Alves Galvão
Soldado Arvorado 82108769 Totala Baldé (F)
Sold 82108569 Sambel Baldé (F)
Sold 82108969 Mauro Baldé (Ap LGFog 8,9) (F)
Sold 82110369 Jamalu Baldé (Mun LGFog 8,9) (F)
Sold 82109169 Malan Baldé (F)
Sold 82109569 Iéro Jau (Ap Dilagrama) (F)
Sold 82110969 Samba Baldé (Ap Metr Lig HK 21) (F)
Sold 82109969 Malan Nanqui (M)
2ª Secção
Fur Mil 07098068 Arlindo Teixeira Roda
1º Cabo 17625368 António Braga Rodrigues Mateus
Soldado Arvorado 82108369 Mamadú Jau (Ap Dilagrama) (F)
Soldado 82109369 Malan Jau (Ap Mort 60) (F)
Sold 82100769 Amadú Candé (Mun Mort 60) (F)
Sold 82108869 Quembura Candé (F)
Sold 82109769 Sherifo Baldé (F)
Sold 82115369 Ussumane Jaló (FF)
Sold 82110169 Madina Jamanca (F)
3ª Secção
Fur Mil 06559968 José Luís Vieira de Sousa
1º Cabo 12356668 José Jerónimo Lourenço Alves
Soldado Arvorado 82108469 Sajo Baldé (Ap Metr Lig HK 21) (F)
Soldado 82109669 Cherno Baldé (Mun Metr Lig HK 21) (F)
Sold 82109469 Sanuchi Sanhã (Ap LGFog 3,7) (F)
Sold 82109269 Sori Jau (Ap Dilagrama) (F)
Sold 82110569 Mamadu Embaló (F)
Sold 82110769 Chico Baldé (F)
Sold 82115169 Demba Jau (F)
Sold 82108669 Cutael Baldé (F)
4º Gr Comb
Comandante: Alf Mil Cav 10548668 José António G. Rodrigues
1ª secção
Fur Mil 15265768 Joaquim A. M. Fernandes
1º Cabo 18861568 Luciano Pereira da Silva
Soldado Arvorado 82115469 Samba Só (F)
Soldado 82109869 Samba Jau (Mun Metr Lig HK 21) (F)
Sold 82115269 Cherno Baldé (Ap Metr Lig HK 21) (F)
Sold 82117569 Mamai Baldé (F)
Sold 82117869 Ansumane Baldé (Ap Dilagrama) (F)
Sold 82118269 Mussa Jaló (Ap Dilagrama) (FF)
Sold 82118969 Galé Sanhá (FF)
2ª secção
Fur Mil 11941567 António Fernando R. Marques
1º Cabo 17714968 António Pinto
1º Cabo 82115569 José Carlos Suleimane Baldé (F)
Soldado Arvorado 82118369 Quecuta Colubali (F)
Soldadado 82110469 Mamadú Baldé (F)
Sold 82115869 Umarú Baldé (Ap Mort 60) (F)
Sold 82118769 Alá Candé (Mun Mort 60) (F)
Sold 82118569 Mamadú Colubali (FF)
Sold 82119069 Mamadu Balde (F)
3ª secção
1º Cabo 00520869 Virgilio S. A. Encarnação
Soldado 82116069 Sajuma Jaló (Ap LGFog 8,9) (FF)
Sold 82110269 Suleimane Baldé (Ap LGFog 8,9) (F)
Sold 82111069 Sori Baldé (F)
Sold 82115669 Sherifo Baldé (F)
Sold 82115769 Tenen Baldé (F)
Sold 82117169 Ussumane Baldé (F)
Sold 82117769 Califo Baldé (F)
Sold 82118469 Califo Baldé (F)
Legendas:
F= Fula
FF= Futa Fula
M= Mandinga
Mc=Mancanhe
Ap= Apontador
Mun= Municiador
Mort= Morteiro
LGFOg= Lança-granadas foguete
Met= Metralhadora
Lig= Ligeira
_________
Notas de L.G.
(1) Vd. posts de:
11 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLV: Ex-graduados da CCAÇ 12 também foram fuzilados (António Duarte)
(...) "grande parte dos graduados da CCAÇ 21 foram fuzilados.
"Ora, para nós, ex-militares da CCAÇ 12, esta situação toca-nos profundamente, pois em 1973 esta companhia [a CCAÇ 21], que ficou em Bambadinca comandada pelo Ten Jamanca [ex-comando africano], foi constituída, tendo por base furriéis que eram ex-cabos da CCAÇ 12 (na época colocada no Xime)" (...).
12 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLIX: O fuzilamento do Abibo Jau e do Jamanca em Madina Colhido (J.C. Bussá Biai)
(...) "Eu (com os meus quase 11 anos) e muitos outros, em 1974, vimos os militares do PAIGC em dois camiões de fabrico russo, um deles completamente tapado de toldo. Passaram por Xime, de manhã, para Madina Cudjido (Colhido, como vocês dizem). Passados uns 30 minutos ouvimos muitos tiros. Só que por volta da hora do almoço ouvimos [dizer] que foram lá fuzilados 8 pessoas. E das pessoas que nós ouvimos que tinham sido fuzilados - não sei se corresponde a verdade ou não - um deles era o tal Abibo Jau que esteve na CCAÇ 12 em Xime. A outra pessoa seria o Tenente Jamanca, da CCAÇ 21 que estava em Bambadinca" (...).
16 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXIV: Fala-se em 11 mil fuzilados (Leopoldo Amado, historiador)
(...)"No período pós-independência, os fuzilamentos dos antigos colaboradores africanos incidiram sobre os Comandos Africanos, Milícias, agentes das forças especiais, fuzileiros, cipaios, régulos, agentes da PIDE, elementos da Acção Nacional, guias, e até agentes que trabalhavam para a administração colonial.
"Só no caso da Guiné, fala-se em cerca de 11.000 o número de elementos fuzilados pelo PAIGC imediatamente após a independência. Certo ou não, a verdade é que houve como que uma espécie de vingança quando os ânimos se serenaram, depois que o PAIGC assumiu a administração política do país" (...).
Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)

Guiné > Zona Leste > Contuboel > Junho de 1969: O 2º Grupo de Combate da CCAÇ 2590 (futura CCCAÇ 12), ainda em período de instrução da especialidade . O 2º Gr Comb era comandado pelo Alferes Miliciano Carlão que aparece na fotografia, na primeira fila, ajoelhado, olhando no sentido oposto ao do fotógrafo. Atrás dele o soldado Arménio, de alcunha o Vermelhinha (era cabo, antes de embarcar mas foi despromovido, por ter apanhado uma porrada da PM). De pé, na terceira fila, os furriéis milicianos Levezinho e Reis. Na segunda fila, meio agachados, os 1ºs cabos Branco e Alves (de alcunha o Alfredo) .
Um grupo de combate da CCAÇ 2590 (mais tarde, CCAÇ 12) era constituído por 30 homens. Havia 4 Gr Comb. Cada grupo de combate, comandado por um alferes, tinha três secções (1 furriel e 1 cabo e oito soldados, estes africanos).
Casa secção era especializada. Havia a secção dos lança-granadas, com o respectivo apontador e municiador (1 LGFog 8.9, 1 LGFog 3.7). Havia a secção do Morteiro 60 (apontador e municiador ). E havia ainda a secção da Metralhadora Ligeira HK 21 (apontador e municiador). Cada combatente estava equipado com a espingarda automática G-3 e granadas defensivas. Em geral havia ainda dois apontadores de dilagrama (neste caso, 1ª e 3ª secção) (LG)
Foto: © António Levezinho (2005)
__________
Pode parecer fastidiosa, inútil, irrelevante... a minha lista de Baldés... Não penso o mesmo: pode ter (ou vir a ter) algum interesse documental, historiográfico, eu sei lá... Pode facilitar a pesquisa de informação, de testemunhos, de depoimentos...
É também um pequeno, modestíssimo, gesto de elementar justiça para com aqueles guineenses que lutaram ao nosso lado, que fizeram parte da CCAÇ 12 e, portanto, da nova força africana com que sonhou Spínola e que tanto atemorizou o PAIGC. Infelizmente, uma parte deles (quantos, exactamente?) já não hoje estarão vivos. Uns foram fuzilados, como o Abibo Jau (1), outros terão morrido de morte natural, que a sua esperança de vida era muito menor que a nossa, em 1969...
Eu estou à vontade para publicar esta lista: sempre critiquei a africanização da guerra da Guiné, embora longe de imaginar que, no dia seguinte à nossa retirada, começasse a caça aos traidores, aos contra-revolucionários, aos mercenários, aos colaboracionistas... Em 1969, ainda estava vivo o Amílcar Cabral e eu admirava-o, intelectualmente... Achava que na Guiné, depois da independência, tudo seria diferente, e não aconteceriam os ajustes de contas que se verificaram noutras revoluções ou guerras civis, na Rússia, na China, na Espanha franquista, na França depois da libertação, etc. Pobre de mim, ingénuo...
Mas, por outro lado, também fui cúmplice da sua integração no nosso exército: mesmo sendo de da especialidade de armas pesadas, e não fazer parte formalmente de nenhum dos quatro grupos de combate da CCAÇ 12, participei em muitas das operações em que estes participaram, fui testemunha da sua coragem e do seu medo, dormi com eles nas mais diversas situações, incluindo nas suas tabancas... Foram meus camaradas, em suma.
Soldados ex-milícias, a maior parte com experiência de combate, os nossos camaradas guineenses da CCAÇ 12 (originalemnte, CCAÇ 2590), eram oriundos do chão fula e em especial dos regulados do Xime, Corubal, Basora e Cossé, com excepção de um mancanhe, oriundo de Bissau.
“Todos falam português mas poucos sabem ler e escrever", lê-se na história da CCAÇ 12 (O que só verdade, 21 meses depois de os termos conhecido e instrúiído em Contuboel, em Junho e Julho de 1969). Foram incorporados no Exército como voluntários, acrescentou o escriba, para branquear a instustentável situação dos fulas, condenados a aliarem-se aos tugas.
Tirando o 1º Cabo José Carlos Suleimane Baldé (promovido ao actual posto em 16 de Setembro de 1969),era, todos Praças de 2ª classe. Samba Só, Mamadá Baldé, Braima Bá e Quecuta Colubali passaram a soldados arvoraddos na mesma data, por reunirem qualidades para uma eventual promoção ao posto de primeiros cabos: "ascendente sobre os camaradas, experiência de combate e aprumo militar" (sic). Entretanto, houve mais promoções no final da 1ª Comissão da CCAÇ 12 (a rendiçãoo individual dos quadros metropolitanos fez-se a partir de Fevereiro de 1971).
É muito provável que todos ou quase todos os graduados africanos da CCAÇ 12 ( e da CCAÇ 21, para a qual transiatram em 1973) tenham sido fuzilados, em 1974 e 1975 (1)...
Guiné > Região Leste > 1969 > Estrada Xime-Bambadinca> O comandante da CCAÇ 12 (ex-CCAÇ 2590), Capitão Inf 50156311 Carlos A. M. Brito, promovido a major no final da comissão. Oficial do quadro, já tinha feito duas comissões anteriormente, uma na Índia e outra em Angola.Foto do Arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).
© Humberto Reis (2006).
Composição orgânica dos grupos de combate (Fonte: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971. Capítulo I).
1º Gr Comb
Comandante Alf Mil Op Esp 00928568 Francisco Magalhães Moreira
1ª secção
1º Cabo 8490968 José Manuel P Quadrado (Ap dilagrama)
Soldado Arvorado 82107469 Abibo Jau (F)
Soldado 82105869 Demba Jau (F)
Sold 82107769 Braima Jaló (Ap LGFog 8,9) (FF)
Sold 82106069 Sajo Baldé (Mun LGFog 8,9) (FF)
Sold 82106869 Suleimane Djopo (Ap Dilagrama) (FF)
Sold 82105469 Baiel Buaró (F)
Sold 82106269 Mamadu Será (FF)
2ª Secção
Fur Mil 04757168 Joaquim João dos Santos Pina
1º Cabo 17765068 Manuel Monteiro Valente (Ap Dilagrama)
Soldado Arvorado 82106369 Vitor Santos Sampaio (Mancanhe)
Soldado 82106469 Mamadu Au (Ap Metr Lig HK 21)
Sold 82105969 Samba Camará (Mun Metr Lig HK 21) (FF)
Sold 82105269 Sherifo Baldé
Sold 82106669 Mussa Bari (FF)
Sold 82106969 Mamadu Jau (F)
Sold 82105369 Mamadu Silá (Ap LGFog 3,7) (F)
Sold 82107669 Ussumane Sisse (Mun LGFog 3,7) (M)
3ª Secção
Fur Mil 19904168 António Manuel Martins Branquinho
1º Cabo 18998168 Abílio Soares
Soldado Arvorado 82107169 Mamadu Baló (F)
Soldado 82106569 Mustafá Colubalii (Ap Mort 60) )(FF)
Sold 82106169 Sana Camará (Mun Mort 60) (FF)
Sold 82105669 Amadu Baldé (FF)
Sold 82106169 Saico Seide(F)
Sold 82107569 Gale Jaló (FF)
Sold 82105569 Sana Baldé (Ap Dilagrama) (F)
2º Gr Comb
Comandante: Alf Mil de Inf 13002168 António Manuel Carlão
1ª secção
Soldado Arvorado 82107969 Alfa Baldé (Ap LGFog 3,7)
Soldado 18968568 Arménio Monteiro da Fonseca
Sold 82118169 Samba Camará (FF)
Sold 82115369 Iéro Jaló (F)
Sold 82118869 Cheval Baldé (Ap LGFog 8,9) (F)
Sold 82103269 Aruna Baldé (Mun LGFog 8,9) (F)
Sold 82105169 Mamadú Bari (FF)
Sold 82116369 Sidi Jaló (Ap Dilagrama) (FF)
Sold 82118669 Mussa Seide (F)
Sold 82117669 Amadú Camará (FF)
2ª Secção
Fur Mil Op Esp 05293061 Humberto Simões dos Reis
1º Cabo 17626068 José Marques Alves
Soldado Arvorado 82116569 Mamadu Baldé (F)
Soldado 82101469 Udi Baldé (FF)
Sold 82101069 Sajo Candé (F)
Sold 82108069 Alfa Jaló (F)
Sold 82116469 Iéro Juma Camará (Ap Mort 60) (FF)
Sold 82111969 Mamadú Jaló (Mun Mort 60) (F)
Sold 82111069 Adulai Baldé (F)
Sold 82117269 Adulai Bal (F)
3ª Secção
Fur Mil 17207968 Antonio Eugénio S. Levezinho
1º Cabo 18880368 Manuel Alberto Faria Branco
Soldado Arvorado 82116969 Braima Bá (F)
Soldado 82116669 Gale Colubali (Ap Metr Lig HK 21) (FF)
Sold 82116769 Mamadú Uri Colubali (Mun Metr Lig HK 21) (FF)
Sold 82111369 Amadú Turé (F)
Sold 82117469 Demba Jau (Ap Dilagrama) (F)
Sold 82107869 Iero Jaló (FF)
Sold 82116869 Gale Camará (F)
3º Gr Comb
Comandante: Alf Mil Inf 01006868 Abel Maria Rodrigues
1ª secção
1º Cabo 02920168 Carlos Alberto Alves Galvão
Soldado Arvorado 82108769 Totala Baldé (F)
Sold 82108569 Sambel Baldé (F)
Sold 82108969 Mauro Baldé (Ap LGFog 8,9) (F)
Sold 82110369 Jamalu Baldé (Mun LGFog 8,9) (F)
Sold 82109169 Malan Baldé (F)
Sold 82109569 Iéro Jau (Ap Dilagrama) (F)
Sold 82110969 Samba Baldé (Ap Metr Lig HK 21) (F)
Sold 82109969 Malan Nanqui (M)
2ª Secção
Fur Mil 07098068 Arlindo Teixeira Roda
1º Cabo 17625368 António Braga Rodrigues Mateus
Soldado Arvorado 82108369 Mamadú Jau (Ap Dilagrama) (F)
Soldado 82109369 Malan Jau (Ap Mort 60) (F)
Sold 82100769 Amadú Candé (Mun Mort 60) (F)
Sold 82108869 Quembura Candé (F)
Sold 82109769 Sherifo Baldé (F)
Sold 82115369 Ussumane Jaló (FF)
Sold 82110169 Madina Jamanca (F)
3ª Secção
Fur Mil 06559968 José Luís Vieira de Sousa
1º Cabo 12356668 José Jerónimo Lourenço Alves
Soldado Arvorado 82108469 Sajo Baldé (Ap Metr Lig HK 21) (F)
Soldado 82109669 Cherno Baldé (Mun Metr Lig HK 21) (F)
Sold 82109469 Sanuchi Sanhã (Ap LGFog 3,7) (F)
Sold 82109269 Sori Jau (Ap Dilagrama) (F)
Sold 82110569 Mamadu Embaló (F)
Sold 82110769 Chico Baldé (F)
Sold 82115169 Demba Jau (F)
Sold 82108669 Cutael Baldé (F)
4º Gr Comb
Comandante: Alf Mil Cav 10548668 José António G. Rodrigues
1ª secção
Fur Mil 15265768 Joaquim A. M. Fernandes
1º Cabo 18861568 Luciano Pereira da Silva
Soldado Arvorado 82115469 Samba Só (F)
Soldado 82109869 Samba Jau (Mun Metr Lig HK 21) (F)
Sold 82115269 Cherno Baldé (Ap Metr Lig HK 21) (F)
Sold 82117569 Mamai Baldé (F)
Sold 82117869 Ansumane Baldé (Ap Dilagrama) (F)
Sold 82118269 Mussa Jaló (Ap Dilagrama) (FF)
Sold 82118969 Galé Sanhá (FF)
2ª secção
Fur Mil 11941567 António Fernando R. Marques
1º Cabo 17714968 António Pinto
1º Cabo 82115569 José Carlos Suleimane Baldé (F)
Soldado Arvorado 82118369 Quecuta Colubali (F)
Soldadado 82110469 Mamadú Baldé (F)
Sold 82115869 Umarú Baldé (Ap Mort 60) (F)
Sold 82118769 Alá Candé (Mun Mort 60) (F)
Sold 82118569 Mamadú Colubali (FF)
Sold 82119069 Mamadu Balde (F)
3ª secção
1º Cabo 00520869 Virgilio S. A. Encarnação
Soldado 82116069 Sajuma Jaló (Ap LGFog 8,9) (FF)
Sold 82110269 Suleimane Baldé (Ap LGFog 8,9) (F)
Sold 82111069 Sori Baldé (F)
Sold 82115669 Sherifo Baldé (F)
Sold 82115769 Tenen Baldé (F)
Sold 82117169 Ussumane Baldé (F)
Sold 82117769 Califo Baldé (F)
Sold 82118469 Califo Baldé (F)
Legendas:
F= Fula
FF= Futa Fula
M= Mandinga
Mc=Mancanhe
Ap= Apontador
Mun= Municiador
Mort= Morteiro
LGFOg= Lança-granadas foguete
Met= Metralhadora
Lig= Ligeira
_________
Notas de L.G.
(1) Vd. posts de:
11 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLV: Ex-graduados da CCAÇ 12 também foram fuzilados (António Duarte)
(...) "grande parte dos graduados da CCAÇ 21 foram fuzilados.
"Ora, para nós, ex-militares da CCAÇ 12, esta situação toca-nos profundamente, pois em 1973 esta companhia [a CCAÇ 21], que ficou em Bambadinca comandada pelo Ten Jamanca [ex-comando africano], foi constituída, tendo por base furriéis que eram ex-cabos da CCAÇ 12 (na época colocada no Xime)" (...).
12 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLIX: O fuzilamento do Abibo Jau e do Jamanca em Madina Colhido (J.C. Bussá Biai)
(...) "Eu (com os meus quase 11 anos) e muitos outros, em 1974, vimos os militares do PAIGC em dois camiões de fabrico russo, um deles completamente tapado de toldo. Passaram por Xime, de manhã, para Madina Cudjido (Colhido, como vocês dizem). Passados uns 30 minutos ouvimos muitos tiros. Só que por volta da hora do almoço ouvimos [dizer] que foram lá fuzilados 8 pessoas. E das pessoas que nós ouvimos que tinham sido fuzilados - não sei se corresponde a verdade ou não - um deles era o tal Abibo Jau que esteve na CCAÇ 12 em Xime. A outra pessoa seria o Tenente Jamanca, da CCAÇ 21 que estava em Bambadinca" (...).
16 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXIV: Fala-se em 11 mil fuzilados (Leopoldo Amado, historiador)
(...)"No período pós-independência, os fuzilamentos dos antigos colaboradores africanos incidiram sobre os Comandos Africanos, Milícias, agentes das forças especiais, fuzileiros, cipaios, régulos, agentes da PIDE, elementos da Acção Nacional, guias, e até agentes que trabalhavam para a administração colonial.
"Só no caso da Guiné, fala-se em cerca de 11.000 o número de elementos fuzilados pelo PAIGC imediatamente após a independência. Certo ou não, a verdade é que houve como que uma espécie de vingança quando os ânimos se serenaram, depois que o PAIGC assumiu a administração política do país" (...).
11 fevereiro 2006
Guiné 63/74 - DXXIII: O IN emboscado a caminho de Dulombi (CCAÇ 2405, Galomaro, Julho de 1969)
Guiné > Bafatá > Espectacular vista aérea da bela Bafatá colonial, segunda cidade da província e principal centro militar da zona leste.Até Julho de 1969, Galomaro fazia parte do Sector L1 (BCAÇ 2852, Bambadinca). Em Agosto de 1969, a zona de acção (ZA) da CCAÇ 2405 passou a constituir o COP 7, criando-se em Outubro seguinte o Sector L5, sob a responsabilidadew do BCAÇ 2851 e formado pelas ZA das CCAÇ 2405 (Galomaro) e 2406 (Saltinho).
Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
Pouco ou nada se tem aqui falado do subsector de Galomaro que, em 1968/70, era guarnecido pela CCAÇ 2405, a sacrificada companhia que viu morrer 17 dos seus melhores elementos na travessia do Rio Corubal, em 6 de Fevereiro de 1969, em Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios).
A essa companhia pertenciam os nossos amigos e camaradas Victor David e Rui Felício. O primeiro já entrou para a nossa tertúlia (1). O segundo mandou-me há dias (9 de Fevereiro) a seguinte mensagem:
"Meu Caro Luis Graça,
"Por indicação do meu amigo de juventude e mais tarde camarada de armas na CCAÇ 2405, Victor David, tive conhecimento e acesso ao excelente blogue que criaste sobre a nossa passagem por terras da Guiné.
"Transmitirei aos meus conhecidos e amigos a existência do blogue e procurarei colaborar nele se tal for possivel, levando ao conhecimento de todos alguns episódios marcantes das nossas vidas, relativamente à nossa estadia na bela e martirizada terra da Guiné.
"Até breve e um abraço
"Rui M.S.Felício (ex-alferes miliciano, CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/69)"
Em homenagem aos dois novos tertulianos, passo a transcrever o relatório (texto digitalizado e revisto por mim) da Op Ginja Verde [o adjectivo está pouco legível] em que o Rui Felício participou, como comandante de um dos grupos de combate... Infelizmente ainda não temos on line o mapa de Padada. Em todo o caso, os pontos principais aqui referidos (Galomaro, Dulombi, Mondajane, Paiai Numba...) podem ser facilmente localizados no mapa geral da Guiné e nos mapas locais.
Fonte: História do BCAÇ 2852 (Guiné, 1968/70): Bambadinca: BCAÇ 2852. 1970. Cap II. 93-95. Documento policopiado, classificado como reservado. (Cópia em papel facultada pelo Humberto Reis, meu ex-camarada da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).
Op Ginja Verde
Iniciada às 16h00 de 13 de Julho de 1969 com a duração de dois dias para fazer uma batida cuidadosa à região de Paiai Numba, procurando detectar vestígios IN, aniquilá-lo e destruir meios de vida se os houvesse.
Composição e articulação das Forças:
Cmdt – Cap Mil Jerónimo – Cmdt da CCAÇ 2405
Cmdt do 1º Gr Combate / CCAÇ 2405 – Alf Mil Rijo
Cmdt 3º Gr Comb CCAÇ / 2405 - Alf Mil Felício
Cmdt 4º Gr Comb CART / 2520 (2) – Alf Mil Oliveira
Desenrolar da acção:
As NT iniciaram o movimento a 13 [de Julho de 1969], às 16h00, deslocando-se até Mondajane. Reiniciaram o movimento apeado por volta das 4h00 do dia 14.
Saiu o movimento apeado de Mondajane na direcção leste, patrulhando sempre a margem esquerda do Rio Queuel. A progressão era feita a TT [todo o terreno], mas apesar disso era relativamonte fácil por se nos deparar uma mata pouco densa.
Cerca das 7h00 foi atingido o Rio Cantor, que seguimos na direcção norte. Entretanto a progressão tornava-se cada vez mais difícil, quer pela ausência de trilhos quer pelo terreno que se nos ia deparando mais arborizado à medida que se caminhava para norte.
A progressão continuou sem novidade tendo-se atingido o Rio Sinhandi cerca das 11h00, onde parei cerca de meia hora para descansar. Prosseguiu-se depois ao longo da margem direita do Rio Nhancam cujo curso segui por saber que este me conduziria à tabanca de Paiai Numbá.
A cerca de 1 Km desta tabanca, onde cheguei por volta das 13h00, tomei a direcção sudeste e patrulhei a área adjacente à tabanca do Vendu Jangala.
Até a este momento não foram detectados quaisquer vestígios IN nem a existência de quaisquer trilhos que não estivessem marcados na carta. Reiniciei o movimento, desta vez na direcção nordeste caminhando paralelamente ao itinerário Dulombi – Paiai Lemini – Paiai Numba e a cerca de 2 Kms para o lado esquerdo.
0 terreno apresentava-se de difícil progressão pela ausência de acidentes geográficos bem referenciados, e por ter de se atravessar uma mata densíssima. A navegação foi sempre feita por carta e bússula já que os guias nativos diziam não saber orientar-se pela inexistência de trilhos. Atingimos o itinerário Dulombi-Paiai às 16h00 em PADADA 2F4 onde mandei fazer um alto para fazer descansar a tropa.
A testa da coluna encontrava-se junto ao itinerário e o resto da força estava embrenhada na mata em sentido oblíquo ao da estrada. Comecei a montar o dispositivo de defesa mas só tive tempo de colocar dois grupos de sentinelas avançadas, um de cada lado da estrada. Às 16h05, um desses grupos de sentinelas detectou um grupo IN quo se aproximava pelo itinerário em direcção ao Dulombi. As referidas sentinelas abriram fogo de espingarda automática, logo seguido pelo fogo de alguns elementos da minha tropa que se encontravam junto a estrada. Aos primeiros tiros dois elementos IN que vinham à frente caíram enquanto os restantes se embrenhavam apressadamente na mata em posição frontal às nossas forças e debaixo de fogo de dilagrama, armas automáticas e granadas de mão.
Desencadeou-se forte tiroteio com consumo indiscriminado de munições por parte do IN, que utilisava lança-rockets, morteiro 60, metralhadora ligeira e grande quantidade de armas automáticas. Ao fim de cerca de 10 minutos de tiroteio o IN conseguiu com um tiro de lança-rockets atingir alguns elementos das NT com vários estilhaços, tendo dois deles ficado gravemente feridos.
Tentei comunicar com o posto de rádio de Mondajane mas o operador de transmissões informou-me que o aparelho de rádio CHP-1 se encontrava inoperacional por ter sido atingido pelo mesmo rocket. Quase simultaneamente um dos nossos apontadores de LGFog aniquilou con um tiro certeiro um elemento IN que se encontrava em cima da uma árvore a fazer fogo preciso sobre nós. 0 fogo continuou de parte a parte, tendo o IN tentado o envolvimento mas a reacção pronta das NT impediu-o.
0 IN, com o efectivo que estimo em cerca de 60 elementos entre carregadores e combatentes, acabou por retirar na direcção sudoeste, sob o nosso fogo de morteiro e de LGFog. Não me foi possível efectuar una batida ao local da emboscada, senão no dia seguinte, porque no final da refrega constatei que o IN nos tinha causado um ferido muito grave (que veio a falecer pouco depois) mais dois feridos graves e três ligeiros que ocupavam imediatamente um grupo de combate para os transportar e auxiliar.
Todo estes factores, aliados ao facto de nos encontrarmos ainda a uma distância de 6 quilómetros de Dulombi e de o patrulhamento ter extenuado a tropa, obrigaram-me a ter de desistir da batida ao local, em benefício da evacuação [- que por heli se mostrou] impossível por o único nosso meio de transmissão a longa distância se encontrar inoperacional. Além disso, as NT por terem estado cerca de 35 minutos debaixo de fogo intenso consumiram quase todas as munições. Portanto, achei inconveniente sujeitar-me a novo contacto organizando a batida.
O IN pareceu-me excepcionalnente bem municiado. 0 que me fez crer que o seu objectivo era ir atacar o Dulombi se não tivesse tido o contacto connosco.
__________
Notas de L.G. :
(1) Vd post de 8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DIV: CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)
(2) CART 2520 (1968/70): estava sediada no Xime.
Etiquetas:
CART 2520,
CCAÇ 2405,
Dulombi,
Op Ginja Verde,
Rui Felício
Guiné 63/74 - DXXIII: O IN emboscado a caminho de Dulombi (CCAÇ 2405, Galomaro, Julho de 1969)
Guiné > Bafatá > Espectacular vista aérea da bela Bafatá colonial, segunda cidade da província e principal centro militar da zona leste.Até Julho de 1969, Galomaro fazia parte do Sector L1 (BCAÇ 2852, Bambadinca). Em Agosto de 1969, a zona de acção (ZA) da CCAÇ 2405 passou a constituir o COP 7, criando-se em Outubro seguinte o Sector L5, sob a responsabilidadew do BCAÇ 2851 e formado pelas ZA das CCAÇ 2405 (Galomaro) e 2406 (Saltinho).
Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
© Humberto Reis (2006)
Pouco ou nada se tem aqui falado do subsector de Galomaro que, em 1968/70, era guarnecido pela CCAÇ 2405, a sacrificada companhia que viu morrer 17 dos seus melhores elementos na travessia do Rio Corubal, em 6 de Fevereiro de 1969, em Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios).
A essa companhia pertenciam os nossos amigos e camaradas Victor David e Rui Felício. O primeiro já entrou para a nossa tertúlia (1). O segundo mandou-me há dias (9 de Fevereiro) a seguinte mensagem:
"Meu Caro Luis Graça,
"Por indicação do meu amigo de juventude e mais tarde camarada de armas na CCAÇ 2405, Victor David, tive conhecimento e acesso ao excelente blogue que criaste sobre a nossa passagem por terras da Guiné.
"Transmitirei aos meus conhecidos e amigos a existência do blogue e procurarei colaborar nele se tal for possivel, levando ao conhecimento de todos alguns episódios marcantes das nossas vidas, relativamente à nossa estadia na bela e martirizada terra da Guiné.
"Até breve e um abraço
"Rui M.S.Felício (ex-alferes miliciano, CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/69)"
Em homenagem aos dois novos tertulianos, passo a transcrever o relatório (texto digitalizado e revisto por mim) da Op Ginja Verde [o adjectivo está pouco legível] em que o Rui Felício participou, como comandante de um dos grupos de combate... Infelizmente ainda não temos on line o mapa de Padada. Em todo o caso, os pontos principais aqui referidos (Galomaro, Dulombi, Mondajane, Paiai Numba...) podem ser facilmente localizados no mapa geral da Guiné e nos mapas locais.
Fonte: História do BCAÇ 2852 (Guiné, 1968/70): Bambadinca: BCAÇ 2852. 1970. Cap II. 93-95. Documento policopiado, classificado como reservado. (Cópia em papel facultada pelo Humberto Reis, meu ex-camarada da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).
Op Ginja Verde
Iniciada às 16h00 de 13 de Julho de 1969 com a duração de dois dias para fazer uma batida cuidadosa à região de Paiai Numba, procurando detectar vestígios IN, aniquilá-lo e destruir meios de vida se os houvesse.
Composição e articulação das Forças:
Cmdt – Cap Mil Jerónimo – Cmdt da CCAÇ 2405
Cmdt do 1º Gr Combate / CCAÇ 2405 – Alf Mil Rijo
Cmdt 3º Gr Comb CCAÇ / 2405 - Alf Mil Felício
Cmdt 4º Gr Comb CART / 2520 (2) – Alf Mil Oliveira
Desenrolar da acção:
As NT iniciaram o movimento a 13 [de Julho de 1969], às 16h00, deslocando-se até Mondajane. Reiniciaram o movimento apeado por volta das 4h00 do dia 14.
Saiu o movimento apeado de Mondajane na direcção leste, patrulhando sempre a margem esquerda do Rio Queuel. A progressão era feita a TT [todo o terreno], mas apesar disso era relativamonte fácil por se nos deparar uma mata pouco densa.
Cerca das 7h00 foi atingido o Rio Cantor, que seguimos na direcção norte. Entretanto a progressão tornava-se cada vez mais difícil, quer pela ausência de trilhos quer pelo terreno que se nos ia deparando mais arborizado à medida que se caminhava para norte.
A progressão continuou sem novidade tendo-se atingido o Rio Sinhandi cerca das 11h00, onde parei cerca de meia hora para descansar. Prosseguiu-se depois ao longo da margem direita do Rio Nhancam cujo curso segui por saber que este me conduziria à tabanca de Paiai Numbá.
A cerca de 1 Km desta tabanca, onde cheguei por volta das 13h00, tomei a direcção sudeste e patrulhei a área adjacente à tabanca do Vendu Jangala.
Até a este momento não foram detectados quaisquer vestígios IN nem a existência de quaisquer trilhos que não estivessem marcados na carta. Reiniciei o movimento, desta vez na direcção nordeste caminhando paralelamente ao itinerário Dulombi – Paiai Lemini – Paiai Numba e a cerca de 2 Kms para o lado esquerdo.
0 terreno apresentava-se de difícil progressão pela ausência de acidentes geográficos bem referenciados, e por ter de se atravessar uma mata densíssima. A navegação foi sempre feita por carta e bússula já que os guias nativos diziam não saber orientar-se pela inexistência de trilhos. Atingimos o itinerário Dulombi-Paiai às 16h00 em PADADA 2F4 onde mandei fazer um alto para fazer descansar a tropa.
A testa da coluna encontrava-se junto ao itinerário e o resto da força estava embrenhada na mata em sentido oblíquo ao da estrada. Comecei a montar o dispositivo de defesa mas só tive tempo de colocar dois grupos de sentinelas avançadas, um de cada lado da estrada. Às 16h05, um desses grupos de sentinelas detectou um grupo IN quo se aproximava pelo itinerário em direcção ao Dulombi. As referidas sentinelas abriram fogo de espingarda automática, logo seguido pelo fogo de alguns elementos da minha tropa que se encontravam junto a estrada. Aos primeiros tiros dois elementos IN que vinham à frente caíram enquanto os restantes se embrenhavam apressadamente na mata em posição frontal às nossas forças e debaixo de fogo de dilagrama, armas automáticas e granadas de mão.
Desencadeou-se forte tiroteio com consumo indiscriminado de munições por parte do IN, que utilisava lança-rockets, morteiro 60, metralhadora ligeira e grande quantidade de armas automáticas. Ao fim de cerca de 10 minutos de tiroteio o IN conseguiu com um tiro de lança-rockets atingir alguns elementos das NT com vários estilhaços, tendo dois deles ficado gravemente feridos.
Tentei comunicar com o posto de rádio de Mondajane mas o operador de transmissões informou-me que o aparelho de rádio CHP-1 se encontrava inoperacional por ter sido atingido pelo mesmo rocket. Quase simultaneamente um dos nossos apontadores de LGFog aniquilou con um tiro certeiro um elemento IN que se encontrava em cima da uma árvore a fazer fogo preciso sobre nós. 0 fogo continuou de parte a parte, tendo o IN tentado o envolvimento mas a reacção pronta das NT impediu-o.
0 IN, com o efectivo que estimo em cerca de 60 elementos entre carregadores e combatentes, acabou por retirar na direcção sudoeste, sob o nosso fogo de morteiro e de LGFog. Não me foi possível efectuar una batida ao local da emboscada, senão no dia seguinte, porque no final da refrega constatei que o IN nos tinha causado um ferido muito grave (que veio a falecer pouco depois) mais dois feridos graves e três ligeiros que ocupavam imediatamente um grupo de combate para os transportar e auxiliar.
Todo estes factores, aliados ao facto de nos encontrarmos ainda a uma distância de 6 quilómetros de Dulombi e de o patrulhamento ter extenuado a tropa, obrigaram-me a ter de desistir da batida ao local, em benefício da evacuação [- que por heli se mostrou] impossível por o único nosso meio de transmissão a longa distância se encontrar inoperacional. Além disso, as NT por terem estado cerca de 35 minutos debaixo de fogo intenso consumiram quase todas as munições. Portanto, achei inconveniente sujeitar-me a novo contacto organizando a batida.
O IN pareceu-me excepcionalnente bem municiado. 0 que me fez crer que o seu objectivo era ir atacar o Dulombi se não tivesse tido o contacto connosco.
__________
Notas de L.G. :
(1) Vd post de 8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DIV: CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)
(2) CART 2520 (1968/70): estava sediada no Xime.
Etiquetas:
CART 2520,
CCAÇ 2405,
Dulombi,
Op Ginja Verde,
Rui Felício
15 novembro 2005
Guiné 63/74 - CCXCI: CCAÇ 2636 (Có, 1969/71) (1): De Santa Margarida ao Cupilom...
Post nº 291 (CCXCI)Caserna-abrigo com trincheira de armas pesadas em Có (Pelundo). © João Varanda (2005)
Primeira parte da história da CCAÇ 2636 (Cacheu e Zona Leste, 1969/71). Autor: João José Varanda, ex-furriel miliciano da CCAÇ 2636, actualmente funcionário da Faculdade de Diereito da Universidade de Coimbra (FD/UC) (1).
Dada a situação geográfica em relação à Metrópole, do Arquipélago dos Açores, onde se situa o B II / 18 e o aspecto quase repentino como se revestiu a mobilização, uma parte dos graduados sé se apresentou quando a Companhia se encontrava no Centro de Instrução Militar (CIM), em Santa Margarida, onde chegou em 24 e 25 de Agosto de 1969, depois de ter feito viagem a bordo dos Navios da Marinha "Ponta Delgada" e "Angra do Heroísmo" até Lisboa, tendo a deslocação para Santa Margarida sido efectuada de comboio.
Seria no Centro de Instrução Militar, em Santa Margarida, que se iria desenrolar o IAO [Instrução de Aperfeiçoamento Operacional].
Convém, aqui referir que a maior parte dos graduados tomou, desde início, contacto com a Companhia, já que foram os instrutores dos próprios recrutas sob o seu Comando, no capítulo da ER (Escola de Recrutas) e respectiva especialidade.
Durante o IAO , a Companhia ficou instalada em Santa Margarida. Do ponto de vista administrativo ficou sob a dependência do CIM (Centro de Instrução Militar), já que para efeitos de instrução, foi a Companhia colocada sob a dependência do BCAÇ 2888.
Como o tempo de que se dispunha na IAO era demasiado curto para um completo adestramento do pessoal, para o particular tipo de luta que nos foi imposta, procurou-se incidir a instrução sobre os aspectos julgados mais convenientes: técnica individual do combate, tiro, emboscadas e reacção às mesmas, golpes de mão e, finalmente, e porventura o ponto fulcral, uma adequada mentalização. Neste aspecto, se bem que não se lograsse atingir o óptimo, dada a limitação de meios, conseguiu-se, todavia, alcançar um grau de instrução razoável, grau esse que se notou quando do falecimento de um recruta ainda durante a IAO
A composição da Companhia, segundo os locais de nascimento dos seus componentes, é algo heterogénea, notando-se, como se depreende, uma predominância do pessoal do pessoal açoreano sendo só os especialistas e a quase totalidade dos graduados do Continente.
Da contribuição ultramarina para a composição da Companhia, há a mencionar o Comandante que é oriundo de Moçambique, um Alferes de Macau e um Furriel de Cabo Verde.
Descolamento para o CTIG - Comando Territorial Independente da Guiné
A Companhia saiu de Santa Margarida, em caminho de ferro, no dia 22 de Outubro de 1969, pelas 0,30 horas, tendo chegado pelas 8,00 horas ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos. Após o desfile e as cerimónias de despedida a Companhia embarcou em 22 de Outubro de 1969 a bordo do Navio da Marinha "Uíge", desembarcando em Bissau seis dias depois a 28 de Outubro de 1969.
Durante a viagem que de correu sem incidentes, procurou-se encontrar a linha adoptada para a mentalização do pessoal através de reuniões diárias, onde lhe eram ministradas frequentes instruções de Educação Moral Cívica e Militar com vista a dar uma noção da Província para onde se dirigiam com carácter mais objectivo, relações com a população, suas características e palestras com a finalidade de consolidar o espírito de corpo de Unidade.
A Companhia, após o desembarque seguiu para o Aquartelamento de Brá, tendo no dia seguinte participado na cerimónia de Boas Vindas realizada na parada do Depósito de Adidos e presidida por Sua Excia. o Governador e Comandante - Chefe das Forças Armadas da Guiné, António Sebastião Ribeiro Spínola.
No dia 4 de Novembro de 1969 a Companhia seguiu, em coluna auto, para Có no sector do Pelundo, tendo chegado nesse mesmo dia.
A Companhia foi empregue, logo no dia seguinte da permanência em Có, na protecção aos trabalhos da estrada Có-Pelundo.
Depois de desembarcarmos no cais de Bissau , sobrou a azáfama de transferir material e pessoal para o aquartelamento de Brá onde aguardaríamos continuar a viagem para Có. A instalação no aquartelamento foi um alvoroço habitual, embora controlado e emprestado do tédio de quem vem para uma guerra iniciar uma comissão temperada pela novidade de se enfrentar um novo cenário, o do combate.
Aqui nos foi servida a refeição do jantar, depois e dado o cansaço da viagem marítima tocou a dormir no chão, para esquecer os dias incontáveis que teríamos de aguardar por aquele monstro de ferro que, no momento nos fazia negaças, ancorado ao largo, talvez vinte e quatro meses até nos receber, de retorno.
Tudo tinha ficado para trás, passados que foram aqueles seis dias de mar com cor azul a que chamam marinho. Os peixes voam, enquanto os golfinhos, por períodos largos de viagem a nossa guarda de honra, são prateados e refulgem ao sol como os nossos sonhos. Finalmente, África.
Bissau podia resumir-se a uma avenida com ligeiro declive com estrada para a base aérea de Bissalanca e o cais do rio Pidgiguiti a seus pés. No seu seio de cidade capital, para os periquitos alí chegados Bissau era, sem dúvida alguma, simpática e de serena geometria, sem outro atractivo que não a ausência de guerra e a abundância de cerveja, lagostins, camarão e mancarra frita.
Era uma cidade pequena com o seu tédio específico e com as suas peculiaridades. Quem chega ao palco da que foi guerra colonial, os primeiros passos em terra firme eram para fazer visita à cidade, procurando um amigo, também ele pouco afortunado pela sorte, para se saber o que era a guerra e se obter notícias da guerra. Assim, e de uma maneira geral com os periquitos em terra, foi o primeiro ataque ao nosso grande amigo 2º. Sargento Cruz (todos queríamos dispensa de recolher).
Homem de saber benévolo, ainda e sempre a impor rigor para os seus subordinados nas horas das refeições, regras de atavio e diversas outras normas estritas de comportamento, que no contexto eram perfeitamente ajustadas, começámos por receber a sua primeira palestra avisando-nos do rigor da polícia militar [PM], enquanto materializava o transporte, fardamo-nos a rigor: sapatos bem polidos, meias até ao joelho calções lavados, camisa impecável, boina na cabeça com a ordem na mão, nada de roncos, fora que se faz tarde, lá vai a malta dar os primeiros passos para em pouco mais de meia hora ficar a conhecer a capital Bissau.
Pelo caminho, dada a brancura da nossa pele , os Guinéus e a velhice recebiam-nos bem, entoando a canção de guerra "Periquito vai no mato, olé lé-lé, que a velhice vai para a metrópole, ólaré lé-lé “. Os nativos exibiam uma impassibilidade no olhar e uma neutralidade de porte, recebiam-nos com gentileza no seu distanciamento e a naturalidade dos seus costumes que nunca nos permitiram discernir qual o lado da barricada porque tinham optado.
Bissau, a insalubre capital, sofreu a clássica invasão de refugiados de todas as capitais de territórios em guerra que procuraram fugir das convulsões e encontrar uma actividade para sobreviver, aproveitando a presença dos efectivos militares. A cidade mais que duplicou a sua população durante a guerra, tendo-se formado à volta da urbe de cimento, a “cidade branca”, imensos bairros negros – o Cupilon. Um quarto da população da Guiné concentrava-se no "concelho de Bissau" e ali tinham a sede o governo, os comandos militares, os estabelecimentos de ensino, o porto, o aeroporto e as principais actividades económicas.
Estes primeiros seis dias na Guiné viveram-se entre o deslumbramento do novo e o sobressalto do risco e logo aprendemos que na guerra o tempo perdia sentido objectivo. O relógio tornava-se num aparato inútil, a noite e o dia confundiam-se, fundiam-se. Fomos pontuando pela marcha do calendário, nas nossas mentes sobrava sempre o inopinado da guerra a intrometer-se no fascínio de cada pôr do sol e a escangalhar as noites africanas de que nunca perdemos a saudade.
O tempo passa a acelerar, mas tínhamos de aproveitar todos os minutos até para gastar os derradeiros escudos que restassem do último ordenado e das economias feitas na metrópole, mas não foi difícil em Bissau descobrir em que gastar dinheiro. Nas esplanadas ao longo da marginal de Bissau a tropa mostrava a sua presença a gastar na cerveja nos célebres bifes à bota da tropa, nos armazéns da Cuf, na Casa Gouveia e no Pintozinho, os artigos fotográficos, gira-discos e gravadores seduziam-nos como montras de brinquedos às crianças que nós deixávamos de ser. O que sobrou foi para repartir pelas bajudas e pelos meninos engraxadores de Bissau, o escudo deu para tudo mas como tínhamos chegado a África teríamos de nos adaptar a nova moeda os "pesos", como eram chamados os escudos na Guiné.
Breves notas de seis dias de Bissau.
1 – Cupilon
Bairro tabanca da população, geralmente na periferia, eram um misto de atractivo irresistível e de perigo potencial mas nós, os militares recém-chegados, ignorávamos que a guerrilha tinha apoio em todo o lado, e assim todos os militares chegados a esta querida terra africana procuravam saber onde era e onde ficava (local de africanização e de gozo sexual) sempre apinhado de militares, dado que nele permaneciam lindas bajudas sem cabaço e partiam catota a toda a força: desprendidas da vida teriam nos prazeres da carne sustento bastante para fazerem vida desafogada, que de uma outra forma não conseguiam (2).
O convívio com aquela gente de população fascinava. Fosse pelo exótico dos usos, fosse pela atracção das raparigas, que designávamos por bajudas, independentemente de o serem. E só o eram enquanto virgens. Os seus erectos seios, tensos de jovem e dos nossos apetites, não escapavam ao despudorado atrevimento dos militares brancos.
Apalpar era palavra de ordem. Fiquei sempre, todavia, com a ideia que se riam de nós (era o custo da moeda escudos: os militares tinham esses escudos os africanos tinham necessidade deles. Algumas bajudas com quem conseguimos ter relação de alguma confiança, disputavam-nos abertamente assumindo elas o direito de posse, cortejavam-nos descaradamente e apaixonavam-se por nós. Contudo cobiçavam-nos, o seu olhar de cúpido concentrava-se sempre no prolongar da noite e com o olhar no infinito onde sempre dentro de ingenuidade não se cansavam de perguntar "se em Lisboa tínhamos bajuda e se era linda".
Bissau era local obrigatório de estacionamento, para além dos militares de diversos orgãos ligados ao comandos da máquina militar, estacionavam as tropas de elite: comandos, pára-quedistas e fuzileiros. Estes tão depressa disputavam as beldades como pensavam e tinham as mais variadas suposições de adultério e traições e não era raro, ao menor pretexto, às vezes sem pretexto nenhum, se envolviam entre si em verdadeiras batalhas. E que era a PM [Polícia Militar]e a PA [Polícia Aérea] a ser chamada para pôr cobro à situação.
2 – Clima
O clima, na Guiné, apresenta duas zonas diferenciadas: tropical, com elevadas temperaturas e humidade nas zonas costeiras, e continental, seco e quente, subsariano no interior. Existem duas estações; a seca, entre Dezembro e Fevereiro, em que as temperaturas chegam a descer aos 15º., e a das chuvas. A partir de Fevereiro, o calor associado ao vento leste, torna a atmosfera “irrespirável”, com temperaturas de 35º a 40º à sombra. O regime de monções provoca tornados no início das estações, que dificultam particularmente o tráfego aéreo.
Num clima como o da Guiné-Bissau, com altas temperaturas e elevados índices de humidade do ar, era vital acomodar a acção ao movimento, e para tal havia de adequar as nossas atitudes às condições climatéricas de cada circunstância, o pino do calor durante o dia, era matéria que não se podia deixar ao acaso, assim e na fase de adaptação para os periquitos, nada melhor que aprender os segredos depressa.
Para adaptação ao clima e como o calor na Guiné é impiedoso, nada melhor que bem sentados á volta de uma mesa de esplanada bem servida de incontáveis cervejas e whiskies de mais de 12 anos com [água de] Perrier ou Seven-up ou Coca-cola, bem gelados.
Para o guerreiro, o cigarro é de uma maneira geral companheiro inseparável. Por entre umas fumaças tínhamos longas conversas de guerra, sobre tudo e sobre nada, as mesmas aproveitavam-se para curta cura de esquecimento que o álcool providencia em maior ou menor grau.
Na Guiné só as chuvas tinham época e datas certas, de resto toda ela era na verdade um barril de pólvora, bastava um simples movimento de acender um cigarro, que já era mais que o suficiente para tudo mexer á nossa volta, fazia-se silêncio, ouviu-se no subúrbios de Bissau o súbito troar da saída de morteiro e o sequente rebentamento de granadas algures nas matas, foi o rastilho, logo de seguida o som cavo das granadas dos canhões sem recuo anunciavam mais um ataque com armas pesadas.
Que horror, os estrondos por muito longe que fossem, provocaram-nos um arrepio que nem a proximidade da morte alguma vez conseguira, por momentos pela frente dos nossos olhos passou o absurdo da guerra, porque não dizâ-lo daquela guerra.
Ainda há pouco tempo tínhamos chegado, seis dias foram o suficiente para entrar-mos dentro da dimensão do conflito que estava desenhado, das conversas da mesa da esplanada da marginal, encontramos sempre quantidade enorme de pontos obscuros e sombrios onde se escondiam as nuances que acompanhavam os momentos mais agudos da luta que iríamos travar com o PAIGC. Eram conversas de estilo conspirativo e de ambiente com armas na mão.
Destes dias para nós combatentes do ultramar ficou o cheiro. África tem cheiro a África. Ele é indisfarçável, indefinível, inesquecível, hoje é um cheiro de saudade.
___________
(1) O João Varanda já me tinha telefonado, em tempos, a prometer este material. Ele fez parte da açoreana CCAÇ 2636, que esteve na região do Cacheu (Có/Pelundo e Teixeira Pinto) e depois foi para a zona leste (passando por Bafatá, Saré Bacar e Pirada).
Vd. post de 22 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLIII: Notícias da açoreana CCAÇ 2636 (Bafatá, Contuboel, Saré Bacar, Pirada)
(2) Questões terminológicas:
Cupilon, Cupilom, Cupelon ou Pilão ? No meu tempo (1969/71), eu dizia Pilão... Na planta da cidade de Bissau, capital da Guiné-Bissau, que nos foi fornecida pelo A. Marques Lopes, vem Cupelon (de Cima e de Baixo),na parte setentrional, ladeada à direita pela Estrada de Santa Luzia...
Para os tugas que nunca estiveram na Guiné: (i) cabaço = hímen (o símbolo da virgindade): bajuda (com cabaço) = rapariga virgem; cabaço também é usado no nordeste do Brasil, nesta acepção; (ii) partir catota = dormir com uma mulher, ter relações íntimas com uma mulher (partir = dar, partilhar); não sei exactamente o que quer dizer catota, no creoulo da Guiné; no nordeste brasileiro, é sinónimo de meleca, ou mucosidade do nariz). L.G.
Subscrever:
Mensagens (Atom)