23 maio 2006

Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)

Guiné > Bissau > Em Brá, a nordeste de Bissau, nasceram os primeiros comandos da Guiné, primeiro organizados em grupos e depois em companhia. Estes comandos, de primeira geração (ou os "velhos comandos") antecederam a primeira companhia de comandos metropolitana, formada em Lamego, e aqui chegada em Junho de 1966 (3ª CCmds).

Foto: © Virgínio Briote (2005) Guiné > 1964 > Brá, Comandos > Equipa Os Fantasmas. O João Parreira foi substituir o Furriel Artur Pereira Pires (aqui na foto, ao meio, de bigode, mais a sua equipa, os Fantasmas, composta por António Joaquim Vieira Ferreira, Manuel Coito Narciso, José da Rocha Moreira e João Ramos Godinho) . O Furriel Cmd Pires foi umas das vítimas do rebentamento de uma mina em 28 de Novembro de 1964, na estrada de Madina do Boé para Contabane (1).

O Furriel Pires fazia parte do pequeno grupo de militares (nove) que , em 29 de Outubro de 1963, seguiu da Guiné para Angola afim de frequentar um curso de Comandos, e onde se incluíam entre outros o nosso camarada Mário Dias,(na altura Fur Inf), bem com o Abdulai Queta Jamanca (1º Cab Atir Inf) e Adulai Jaló (Sold At Inf). (LG)

Foto: © João Parreira (2005)


Guiné > Bissau > Fins de Fevereiro de 1965 > O Furriel Miliciano Comando João Parreira, numa esplanada em frente ao Hotel Portugal, no Café Universal.

Foto: © João Parreira (2005)


Texto do João Pareira que, juntamente com o Virgínio Briote e o Mário Dias, representa o melhor da primeira geração de comandos da Guiné, os velhos comandos de Brá, os três mosqueteiros, como eu lhes chamei (2). Agradeço-lhe o gesto e até a coragem. Não é fácil falar dos nossos mortos, e sobretudo de alguns dos nossos mortos. Por pudor, por vergonha, por culpa...

Alguns destes homens com quem o João Parreira, o Mário Dias e o Virgínio Briote privaram e que eram comandos como eles, eu também conheci, circunstancialmente: refiro-me aos da 1ª Companhia de Comandos Africanos que foram hóspedes, em Fá, do meu e nosso amigo e camarada Jorge Cabral. Já aqui os evoquei, tal como os vi e conheci em 1970 (3).

Julgo que muitos deles foram heróis, embora perdedores e amorais. Lamento, mesmo assim, que tenham, morrido sem dignidade nem glória. E nem sequer tenham sido enterrados, com a dignidade que qualquer ser humano merece: é uma das 14 obras de misericórdia que constam do Evangelho dos cristãos (São Mateus). Nenhuma revolução ou movimento social pode, de resto, justificar a execução sumária de um ser humano nem a existência de valas comuns....

É importante, por isso, que esta lista seja publicada no nosso blogue: eles fazem parte dos nossos camaradas e dos nossos mortos, mesmo que incómodos, mesmo que alguns de nós tenham criticado o seu comportamento como militares e como homens. De alguma maneira, é como exumar os cadáveres que estão nas valas comuns das nossas guerras civis... (Reparem que os espanhóis ainda não o fizeram, e já não o farão, em relação às vítimas da guerra civil de 1936-39, e nomeadamente às vítimas que morreram às mãos dos vencedores!...).

O nosso gesto, para já, é meramente simbólico. Mas acho que um dia teremos que ir rezar, no Cumeré, no poilão de Bambadinca ou algures na orla de uma bolanha, por estes nossos mortos mal amados... Nossos, de Portugal e da Guiné... Nunca haverá paz na Guiné se os mortos da guerra colonial e das suas sequelas não repousarem em paz...

Os comandos africanos que serviram o Exército Português, que pertenciam ao Exército Português, e foram executados pelo PAIGC (11 da 1ª Companhia, 19 da 2ª e 8 da 3ª, num total de 38), são ainda um assunto tabu, passados mais de 30 anos, sobre o fim da guerra... Por isso, obrigado, João, porque tu, como bom comando ousaste lutar e vencer o velho tabu... LG

PS - Há também aqui um elemento de rigor e de contribuição para a verdade histórica: amigos e camaradas, neste blogue lutamos pelo direito à verdade (a começar pela verdade dos factos, que em geral é a mais fácil de apurar). Por isso, toda a gente, independentemente do antigo posto ou da actual condição, tem direito à palavra... Sobre este assunto tabu, temos fantasiado muito, por falta de informação de arquivo, de um lado e de outro. Como diz Galileu Galileu (1564-1642), na peça do Bertold Brecht agora em cena no Teatro Aberto , em Lisboa (e que eu recomendo), "a verdade é filha do tempo, não da autoridade"...

Pelo que eu deduzo da lista do João Parreira (que não sei se está completa, nem sei qual foi a fonte que ele utilizou) não foi um batalhão inteiro de ex-comandos africanos que foram fuzilados. Para já são 38, o que são muitos. Para mim, um hoimem que seja já é muita gente. Por isso não direi, nunca poderia dizer, que foram só 38... De resto, quantos não terão fugido a tempo, para Portugal ou para os países vizinhos da Guiné-Bissau, quantos não terão estado presos anos a fio sem culpa formada nem julgamento, quantos não foram perseguidos e discriminados ?!... Não sei... Por isso, é importante que se continue a falar deste assunto, por muito doloroso ou incómodo que ele seja...


Caro Luís Graça:

Agora que este melindroso assunto está ser aflorado mais em profundidade, junto envio mais alguns dados sobre os camaradas da 1ª. Companhia de Comandos Africanos que - para além do Justo, ex-soldado (CIM) dos ex-Vampiros que foi executado em Cumeré, e do Tenente Cmd Abdulai Queta Jamanca , 1º. Cabo 25/E dos ex-Panteras, executado em Bambadinca - , também foram fuzilados:


Da 1ª Companhia de Comandos Africanos (para além Tenente Justo e do Tenente Jamanca):

Capitão Cmd Zacarias Sayegh (3);
Tenente Cmd Thomaz Camará - ex. 1º cabo cmd 60/E dos Fantasmas – em Cumeré;
Alferes Cmd Braima Baldé;
Alferes Cmd Demba Tcham Seca;
Alferes Cmd João Uloma (3);
Alferes Cmd António Samba Juma Jaló;
1º Sarg Cmd Fodé Baió;
1º Sarg Cmd Fodé Embaló;
2º Sarg Cmd José Manuel Sedjali Embaló;
2º Sarg Cmd Quebá Dabó;

Da 2ª. Companhia de Comandos Africanos foram executados:

Capitão Cmd Adriano Sisseco;
Tenente Cmd Cicri Marques Vieira;
Tenente Cmd Armando Carolino Barbosa;
Alferes Cmd Mamadú Saliu Bari - ex-1º cabo 59/E dos Camaleões – em Cumeré;
Alferes Cmd Marcelino Pereira;
Alferes Cmd Carlos Bubacar Jau; Alferes Cmd Bailó Jau;
Alferes Cmd Aliu Sada Candé;
1º Sarg Cmd Kool Quessangue;
1º Sarg Cmd Aruna Candé;
1º Sarg Cmd José Aliu Queta;
1º Sarg Cmd Mamadú Jaló – ex-soldado (AGR 16) dos Diabólicos - em Cumeré;
2º Sarg Cmd Quecumba Camará;
2º Sarg Cmd Augusto Filipe;
2º Sarg Cmd Carlos Daniel Fassene Samá;
Soldado Cmd Carlos Ussumane Baldé;
Soldado Cmd Alfa Candé;
Soldado Cmd Aliu Jamanca;
Soldado Cmd Per Sanhá

Da 3ª. Companhia de Comandos Africanos foram executados:

Tenente Cmd José Bacar Djassi;
Alferes Cmd Malam Baldé;
Alferes Cmd António Vasconcelos;
Soldado Cmd Silla;
Soldado Cmd Bubacar Trawalé.

Com alguns destes valorosos camaradas tive o prazer de conviver em Brá.

Um abraço.

João Parreira

____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 13 de Dezembro 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXV: Brá, SPM 0418 (3): memórias de um comando (Virgínio Briote).

(2) Vd. post de 3 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74- CCCXXX: Velhos comandos de Brá: Parreira, o últimos dos três mosqueteiros

(3) Vd. post de 11 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri

(4) Vd. post de 12 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLIX: O fuzilamento do Abibo Jau e do Jamanca em Madina Colhido (J.C. Bussá Biai)

(5) Breve historial da 1ª Companhia de Comandos Africanos (CCA):

(i) 9 de Julho de 1969 - Início da organização da companhia, em Fá Mandinga, formada exclusivamente por naturais da Guiné e com base em anteriores grupos de comandos já existentes nos batalhões;

(ii) 6 de Fevereiro de 1970 - Início da sua instrução; instrutor: Capitão Art Barbosa Henriques, ex-comandante da 27ª CCmds;

(iii) 26 de Abril de 1970 - Cerimónia de juramento de bandeira em Bissau, na presença do COM-CHEFE;

(iv) 21 de Junho / 15 de Julho de 1970 - Treino operacional na região de Bajocunda. No final é colocada em Fá Mandinga (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca) com a missão de interevenção e reserva do COM-CHEFE;

(v) 30 de Outubro a 7 de Novembro de 1970 - Operação a norte da região do Enxalé, na zona de acção do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72);

(vi) 21/22 de Novembro de 1970 - Toma parte na Op Mar Verde, sob o comando de Alpoim Galvão (invasão da Conacri). Perde um dos seus grupos de combate (comandando pelo tenente graduado Januário que será posteriormente fuzilado com os seus homens);

(vii) Princípios de Dezembro de 1970 / Finais de Janeiro de 1971 - Três pelotões em reforço temporário das guarnições fronteiriças de Gandembel e Guileje;

(viii) Finais de Julho de 1971 - Segue de Tite para Bolama, para um curto período de descanso e recuperaçã;

(ix) Meados de Agosto de 1971 - É colocada em Brá (Bissau), nas instalações do futuro Batalhão de Comandos;

(x) Continua a sua intensa actividade operacional, durante o resto do ano de 1971 e o ano de 1972, em conjunto com a 2ª Companhia de Comandos Africanos, entretanto formada;

(xi) Penetra em santuários da guerrilha do PAIGC que eram verdadeiros mitos no nosso tempo, como por exemplo o Morés (20-24 de Dezembro de 1971; 7-12 de Fevereiro de 1972), o Choquemone [a nordeste de Bula, na região do Oio] (18-22 de Outubro de 1971), a região de Salancaur-Unal-Guileje (28 de Março a 8 de Abril de 1972) e outras;

(xii) 2 de Novembro de 1972 - É integrada no Batalhão de Comandos;

(xiii) 7 de Setembro de 1974 - A 1ª CCA é desactivada e extinta, bem como as restantes forças do Batalhão de Comandos.


Fonte:

Comandos: tropa de elite > Companhias: Guiné> 1ª Companhia de Comandos Africana

Associação de Comandos > Historial dos comandos: efemérides

1 comentário:

Paulo Reis disse...

Escrevi várias vezes sobre os Comandos Africanos, durante os anos em que trabalhei como jornalista, em vários jornais portugueses (actualmente resido em Macau e trabalho como freelancer). Nas minhas investigações, apurei que os Comandos Africanos foram chamados ao quartel, poucos meses após o 25 de Abril, tendo-lhe sido entregue um papel onde eram dispensados do serviço por um período concreto, com ordens para se apresentarem no quartel a 1 de Janeiro de 1976. Vi um destes papéis numa das minhas deslocações à Guiné-Bissau, mas nunca consegui uma cópia. No lugar da assinatura havia um rabisco tão simples que me pareceu propositdo - ou seja, uma falsificação. No dia 1 de Janeiro de 1976, um grupo de Comandos dirigiu-se à Embaixada Portuguesa, depois de se aperceberem que todos os quartéis estavam ocupados pelo PAIGC. O embaixador telefonou logo para o Governo que mandou meia dúzia de chaimites para dispersar os comandos.

Uma das minhas grandes frustações como jornalista foi não ter tido tempo de descobrir quem foram os oficiais portugueses que montaram esta manobra de traição dos Comandos Africanos. Outro episódio (e foram-me contados, ambos, por vários Comandos Africanos) deu-se antes desta manobra. Preocupados com o evoluir da situação, já depois do 25 de Abril e iniciado o reembarque par a metrópole dos soldados brancos, os Comandos Africanos barricaram-se em Brá e exigiram a presença do governador e comandante militar.

Carlos Fabião lá foi, mas as coisas correram mal. Embora os graduados mais velhos o tentassem impedir, o general saiu de Brá em passo acelerado, em direcção ao carro, mas não conseguiu escapar a alguns "caldos" e um ou outro pontapé. O seu ajudante de campo, um oficial da Marinha, foi em direcção contrário e só parou de correr quando chegou a Bissau. Os Comandos Africanos, percebendo que estavam condenados, dirigiram-se ao paiol para se armarem e venderem caro a vida. Porém, alguém (oficiais portugueses, necessariamente!) tinha tirado as culatras às metralhadoras e a espoleta das granadas. Aí, foi cada por si e fugiram em direcção às sus tabancas. Uma das testemunhas deste episódio, segundo me referiram as minhas fontes, é o cineasta guineense Flora Gomes.

Porventura alguém saberá mais algum pormenor desta "jogada" do papel de licença, com ordens de se apresentarem no quartel em 1 de Janeiro de 1976, quando, nessa altura, a independência já estava marcada para Setembro de 1975?

Para isto ser feito, mais a sabotagem do armamento no paiol, tinha que haver um grupo razoável de oficiais superiores envolvidos e a sua execução também pressupunha movimentações por parte de bastantes pessoas.


Paulo Reis
pjcv.reis@gmail.com