07 maio 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - VIII: António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência

1. Tive há dois dias o privilégio de conhecer pessoalmente o Prof. António Coutinho e de ouvir uma conferência sua sobre investigação biomédica e administração de saúde. Local e data: Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 5 de Maio de 2004.

António Coutinho é director do Instituto Gulbenkian de Ciência e é um dos poucos cientistas portugueses que, à partida, pode dar-se ao luxo de dizer, no seu invejável currículo, que já ultrapassou, há muito, os famigerados 100 artigos publicados em revistas internacionais referenciadas nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI), em Filadélfia, nos EUA. Como se sabe, esta é a bitola (dita, bibliométrica) para que um investigador português no estrangeiro possa candidatar-se a uma bolsa de dois anos e regressar a Portugal.

Pelas contas do jornal Público, de 22 de Abril de 2004, só o imunologista António Coutinho, de 57 anos, e o neurologista António Damásio, de 60, teriam lugar no Olimpo da ciência portuguesa. São já sobejamente conhecidas as críticas da comunidade científica portuguesa a esta medida, ridícula para uns e demagógica para outros.

Em contrapartida, a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, diz que está "convencida de que há cerca de 100 cientistas em Portugal com mais de 100 artigos", em entrevista ao Público, de 22 de Abril de 2004.

Segundo notícia do Público, também de 22 de Abril de 2004, Pedro Magalhães, professor de ciências políticas do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL), começou por pesquisar alguns nomes nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI Web of Knowledge), uma referência a nível mundial no que respeita à informação sobre a literatura científica. Verificou-se que "vários investigadores, incluindo premiados com o Nobel da Economia, não seriam contemplados com os critérios portugueses".

2. Retive algumas ideias-chaves da intervenção de António Coutinho sobre o papel da ciência numa sociedade moderna, que não sendo originais não deixam de ser muito actuais e relevantes para o debate sobre o nosso sistema de gestão da investigação científica: (i) não há democracia sem ciência; (ii) a ciência é a base em que deve assentar o desenvolvimento económico e social; (iii) é a fonte (essencial) da racionalidade; mas também é (iv) a escola da tolerância, a garantia do pluralismo teórico-ideológico, a matriz em que se produz e reproduz a cultura da pós-modernidade...

3. Achei interessante (ou saudavelmente provocatória ?) a ideia de que só se faz ciência enquanto se é jovem, que há uma idade (entre os 25 e os 45 anos) para se ser investigador... A revolução que o Prof. António Coutinho operou no Instituto Gulbenkian de Ciência (e da qual, de resto, sei pouco) vai nesse sentido: "Não quero que os jovens investigadores façam carreira no Instituto, dou-lhes apenas as condições para arrancarem com os seus projectos, criarem equipas, tornarem-se líderes e prepararem-se para outros voos, cá dentro ou no estrangeiro" (cito de cor). Não é esse, de resto, o entendimento do Prof. António Coutinho para quem nem sequer ainda chegámos à Biologia dos Sistemas...

4. Achei estimulante (e muito próprio de um fundamentalista, no sentido literal, biológico e francês do termo) aquela outra ideia de que a medicina ainda é uma tecnologia de base empírica, não científica, baseada na evidência, malgré les progrès de la biomedicine... É caso para se dizer que o novo paradigma biomédico, não sendo organicista, não deixa de ser menos redutor e imperialista ? Ou que durante às próximas décadas tudo vai ser explicado pelo determinismo genético ?

No futuro, daqui a cinco a dez anos, “a terapêutica vai ser mais biológica do que farmacológica” (sic) e o “velho patologista” pode arrumar o seu microscópio e desaparecer de cena... Estamos a falar de um número potencial de 30 a 40 mil doenças genéticas, tantos quanto os genes do genoma humano até agora descobertos... Mas o que é que isso representa em relação ao total das doenças humanas ? Qual o seu peso em termos de saúde pública ? “Menos de 1%” (sic)...

A verdade seja dita: "a doença pode ter uma base genética, mas não é só genética, é epigenética , logo multifactorial" (cito de cor)... Todas as doenças têm uma base genética, da depressão à simples gripe...Em maior ou menor grau... “Mesmo as doenças infecciosas... e até as intoxicações!” (sic)... Tão elementar , quanto isso, meu caro Watson, James Watson, um dos pais do DNA, com Francis Crick, em 1953 (co-laureados com o Prémio Nobel da Medicina em 1962).

5. Ninguém hoje se atreveria a negar ou a pôr em causa a revolução (silenciosa, primeiro; triunfante, depois) da genética nestes últimos 50 anos... As suas implicações para a saúde pública, para a protecção e a promoção da saúde para a investigação em saúde, para a formação dos profissionais de saúde ou para a prática da medicina também não são difíceis de advinhar: vamos passar, muito rapidamente, do diagnóstico e tratamento para a predição/prevenção: (i) mudança (mais fácil) de “estilo de vida”; (ii) mudança (mais difícil) no ambiente onde a gente nasce, respira, cresce, vive, trabalha , dorme, consome, descansa, adoece, envelhece e morre; (iii) terapia profiláctica...

Fica em aberto a (difícil, terrível) questão da equidade: a “medical genomics” chegou, viu e venceu, mas não é para todos... Os testes genéticos são “cost-effective”, mas quem, fora do mundo ocidental (mais Japão + outros tigres asiáticos...), terá acesso a esta nova tecnologia ? Pelo menos, para já ?

6. Falou-se também, entre outras coisas, da porno-science, da clonagem e da pretensão dos guardiões do templo que querem legislar em matéria de bioética... Mas que sei eu de biologia molecular ou de biologia evolutiva para discutir com os teólogos e os filósofos ? Retive também uma informação do Prof. António Coutinho: (i) "seriam precisas dois milhões de mulheres, voluntárias, para clonar um Hitler"; (ii) "clonagem já fazemos desde que inventámos a agricultura"... Curiosamente não falámos, por falta de tempo, da biodiversidade nem da agricultura transgénica...

7. Retemperarei o meu entusiasmo sobre o admirável mundo novo da Biologia Molecular e da Engenharia Genética com as eruditas e elegantes observações que o Prof. João Lobo Antunes fez, há uns anos atrás, numa oração de sapiência que já é hoje de antologia:

"Mas esta nova Biologia, a Biologia Molecular, que dá alma a que Lewis Thomas chamou a mais nova das ciências, a Medicina, brotou também do encontro da Física e da Química, que lhe cederam os conceitos e os instrumentos de investigação, a cromatografia, os radioisótopos, a microscopia electrónica, a cristalografia, provavelmente pela sedução que o último mistério da ciência, o segredo da vida, sempre exerce. Niels Bohr, por exemplo, dizia que a Biologia era fonte inesgotável de novas leis da Física à espera de serem descobertas. E vieram o ADN, a dupla hélice, a decifração do código genético, a transferência dos genes, em suma, a integração dos mundos das ciências básica e clínica, criando dois imperativos fundamentais para a educação dos jovens médicos. O primeiro é a necessidade de incorporar novos conceitos e nova linguagem; o outro é igualmente importante embora talvez menos evidente. É a que a Biologia Molecular, na sua acção unificadora, cria necessariamente, como disse François Jacob, "um modo diferente de olhar as coisas, que leva à descoberta de novas relações entre os fenómenos e portanto à mudança da ordem existente". Se deixarmos por isso que o ensino médico se isole deste novo saber, poderemos formar artesãos ou técnicos, mas não os médicos de que a Nação precisa".

8. Tinham-me dito, alguns dos meus amigos médicos, que o Prof. António Coutinho, beirão também ele como outro António, o Ribeiro Sanches (n. Penamacor, 1699-m. Paris, 1783), era arrogante, como qualquer bom portuga estrangeirado. Mentira, achei-o encantador, aberto, culto, humilde, um verdadeiro homem de ciência e seguramente um homem com um perfil de grande líder e gestor... Claro, crítico, e com um fino sentido de humor... E tem motivos para orgulho quando fala do seu Instituto Gulbenkian de Ciência, o qual já fabricou uma centena de doutorados em biomedicina, e que agora precisa, como pão para a boca, é de bio-informáticos... "Se for preciso, acaba-se a fileira dos doutoramentos em biomedicina e abre-se a da bio-informática" (cito de cor)...

O seu orgulho parece-me inteiramente justo quando se sabe que, com um orçamento de 8 milhões de euros, menos de 1% do orçamento da investigação científica em Portugal, O IGC produz um terço da investigação na área da saúde... E não é um terço qualquer, é um terço de excelência! Espero não me enganar, nem estar a fazer mal as contas: não sei exactamente qual é o orçamento da ciência em Portugal mas não ultrapassa os 0.75% do PIB, ou seja, deverá ser qualquer coisa como mil milhões de euros (200 milhões de contos em moeda antiga).

Por tudo isto, António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência merecem as minhas palmas. As nossas palmas. (...Embora seguramente não precisem delas!)


Post scriptum:

(i) É bom recordar que "fabricar doutorados não é igual a criar cientistas, cuja vocação tem de ser primeiro despertada, depois alimentada, multiplicada e, o que também não é comum entre nós, devidamente apreciada" (J. Lobo Antunes dixit).

(ii) No dia seguinte à publicação este post, deparei com uma excelente reportagem do Público (edição de 7 de Maio de 2004), assinada pela Clara Barata e pela Joana Gorjão Henriques, sobre o "ninho de formação de líderes cieníficos" que é hoje o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), sob a liderança do Prof. António Coutinho. Juro que só tive conhecimento deste texto, no sábado de manhã, dia 8. Trata-se, por isso, de uma feliz coincidência.

Para um país distraído, com tendência para a descrença, o pessimismo, o fatalismo e a depressão, é imprescindível e salutar ler mais esta história de sucesso no país de Abril. Não se pense, todavia, que o ICG é um oásis num deserto, e cheia de estrangeirados. Helena Soares, por exemplo, 41 anos, prestigiada investigadora, responsável pelo grupo de Stress e Dinâmica do Citoesqueleto, nunca quis sair de Portugal por razões pessoais, e diz à jornalista que "já não há uma diferença tão grande em relação ao exterior" embora o "meio científico ainda [seja] pequeno".

Parabéns também ao Público por esta notável série de reportagens ("30 anos do 25 de Abril: histórias de um país de sucesso").

Portugas que merecem as nossas palmas - VIII: António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência

1. Tive há dois dias o privilégio de conhecer pessoalmente o Prof. António Coutinho e de ouvir uma conferência sua sobre investigação biomédica e administração de saúde. Local e data: Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 5 de Maio de 2004.

António Coutinho é director do Instituto Gulbenkian de Ciência e é um dos poucos cientistas portugueses que, à partida, pode dar-se ao luxo de dizer, no seu invejável currículo, que já ultrapassou, há muito, os famigerados 100 artigos publicados em revistas internacionais referenciadas nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI), em Filadélfia, nos EUA. Como se sabe, esta é a bitola (dita, bibliométrica) para que um investigador português no estrangeiro possa candidatar-se a uma bolsa de dois anos e regressar a Portugal.

Pelas contas do jornal Público, de 22 de Abril de 2004, só o imunologista António Coutinho, de 57 anos, e o neurologista António Damásio, de 60, teriam lugar no Olimpo da ciência portuguesa. São já sobejamente conhecidas as críticas da comunidade científica portuguesa a esta medida, ridícula para uns e demagógica para outros.

Em contrapartida, a ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, diz que está "convencida de que há cerca de 100 cientistas em Portugal com mais de 100 artigos", em entrevista ao Público, de 22 de Abril de 2004.

Segundo notícia do Público, também de 22 de Abril de 2004, Pedro Magalhães, professor de ciências políticas do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL), começou por pesquisar alguns nomes nas bases de dados do Instituto para a Informação Científica (ISI Web of Knowledge), uma referência a nível mundial no que respeita à informação sobre a literatura científica. Verificou-se que "vários investigadores, incluindo premiados com o Nobel da Economia, não seriam contemplados com os critérios portugueses".

2. Retive algumas ideias-chaves da intervenção de António Coutinho sobre o papel da ciência numa sociedade moderna, que não sendo originais não deixam de ser muito actuais e relevantes para o debate sobre o nosso sistema de gestão da investigação científica: (i) não há democracia sem ciência; (ii) a ciência é a base em que deve assentar o desenvolvimento económico e social; (iii) é a fonte (essencial) da racionalidade; mas também é (iv) a escola da tolerância, a garantia do pluralismo teórico-ideológico, a matriz em que se produz e reproduz a cultura da pós-modernidade...

3. Achei interessante (ou saudavelmente provocatória ?) a ideia de que só se faz ciência enquanto se é jovem, que há uma idade (entre os 25 e os 45 anos) para se ser investigador... A revolução que o Prof. António Coutinho operou no Instituto Gulbenkian de Ciência (e da qual, de resto, sei pouco) vai nesse sentido: "Não quero que os jovens investigadores façam carreira no Instituto, dou-lhes apenas as condições para arrancarem com os seus projectos, criarem equipas, tornarem-se líderes e prepararem-se para outros voos, cá dentro ou no estrangeiro" (cito de cor). Não é esse, de resto, o entendimento do Prof. António Coutinho para quem nem sequer ainda chegámos à Biologia dos Sistemas...

4. Achei estimulante (e muito próprio de um fundamentalista, no sentido literal, biológico e francês do termo) aquela outra ideia de que a medicina ainda é uma tecnologia de base empírica, não científica, baseada na evidência, malgré les progrès de la biomedicine... É caso para se dizer que o novo paradigma biomédico, não sendo organicista, não deixa de ser menos redutor e imperialista ? Ou que durante às próximas décadas tudo vai ser explicado pelo determinismo genético ?

No futuro, daqui a cinco a dez anos, “a terapêutica vai ser mais biológica do que farmacológica” (sic) e o “velho patologista” pode arrumar o seu microscópio e desaparecer de cena... Estamos a falar de um número potencial de 30 a 40 mil doenças genéticas, tantos quanto os genes do genoma humano até agora descobertos... Mas o que é que isso representa em relação ao total das doenças humanas ? Qual o seu peso em termos de saúde pública ? “Menos de 1%” (sic)...

A verdade seja dita: "a doença pode ter uma base genética, mas não é só genética, é epigenética , logo multifactorial" (cito de cor)... Todas as doenças têm uma base genética, da depressão à simples gripe...Em maior ou menor grau... “Mesmo as doenças infecciosas... e até as intoxicações!” (sic)... Tão elementar , quanto isso, meu caro Watson, James Watson, um dos pais do DNA, com Francis Crick, em 1953 (co-laureados com o Prémio Nobel da Medicina em 1962).

5. Ninguém hoje se atreveria a negar ou a pôr em causa a revolução (silenciosa, primeiro; triunfante, depois) da genética nestes últimos 50 anos... As suas implicações para a saúde pública, para a protecção e a promoção da saúde para a investigação em saúde, para a formação dos profissionais de saúde ou para a prática da medicina também não são difíceis de advinhar: vamos passar, muito rapidamente, do diagnóstico e tratamento para a predição/prevenção: (i) mudança (mais fácil) de “estilo de vida”; (ii) mudança (mais difícil) no ambiente onde a gente nasce, respira, cresce, vive, trabalha , dorme, consome, descansa, adoece, envelhece e morre; (iii) terapia profiláctica...

Fica em aberto a (difícil, terrível) questão da equidade: a “medical genomics” chegou, viu e venceu, mas não é para todos... Os testes genéticos são “cost-effective”, mas quem, fora do mundo ocidental (mais Japão + outros tigres asiáticos...), terá acesso a esta nova tecnologia ? Pelo menos, para já ?

6. Falou-se também, entre outras coisas, da porno-science, da clonagem e da pretensão dos guardiões do templo que querem legislar em matéria de bioética... Mas que sei eu de biologia molecular ou de biologia evolutiva para discutir com os teólogos e os filósofos ? Retive também uma informação do Prof. António Coutinho: (i) "seriam precisas dois milhões de mulheres, voluntárias, para clonar um Hitler"; (ii) "clonagem já fazemos desde que inventámos a agricultura"... Curiosamente não falámos, por falta de tempo, da biodiversidade nem da agricultura transgénica...

7. Retemperarei o meu entusiasmo sobre o admirável mundo novo da Biologia Molecular e da Engenharia Genética com as eruditas e elegantes observações que o Prof. João Lobo Antunes fez, há uns anos atrás, numa oração de sapiência que já é hoje de antologia:

"Mas esta nova Biologia, a Biologia Molecular, que dá alma a que Lewis Thomas chamou a mais nova das ciências, a Medicina, brotou também do encontro da Física e da Química, que lhe cederam os conceitos e os instrumentos de investigação, a cromatografia, os radioisótopos, a microscopia electrónica, a cristalografia, provavelmente pela sedução que o último mistério da ciência, o segredo da vida, sempre exerce. Niels Bohr, por exemplo, dizia que a Biologia era fonte inesgotável de novas leis da Física à espera de serem descobertas. E vieram o ADN, a dupla hélice, a decifração do código genético, a transferência dos genes, em suma, a integração dos mundos das ciências básica e clínica, criando dois imperativos fundamentais para a educação dos jovens médicos. O primeiro é a necessidade de incorporar novos conceitos e nova linguagem; o outro é igualmente importante embora talvez menos evidente. É a que a Biologia Molecular, na sua acção unificadora, cria necessariamente, como disse François Jacob, "um modo diferente de olhar as coisas, que leva à descoberta de novas relações entre os fenómenos e portanto à mudança da ordem existente". Se deixarmos por isso que o ensino médico se isole deste novo saber, poderemos formar artesãos ou técnicos, mas não os médicos de que a Nação precisa".

8. Tinham-me dito, alguns dos meus amigos médicos, que o Prof. António Coutinho, beirão também ele como outro António, o Ribeiro Sanches (n. Penamacor, 1699-m. Paris, 1783), era arrogante, como qualquer bom portuga estrangeirado. Mentira, achei-o encantador, aberto, culto, humilde, um verdadeiro homem de ciência e seguramente um homem com um perfil de grande líder e gestor... Claro, crítico, e com um fino sentido de humor... E tem motivos para orgulho quando fala do seu Instituto Gulbenkian de Ciência, o qual já fabricou uma centena de doutorados em biomedicina, e que agora precisa, como pão para a boca, é de bio-informáticos... "Se for preciso, acaba-se a fileira dos doutoramentos em biomedicina e abre-se a da bio-informática" (cito de cor)...

O seu orgulho parece-me inteiramente justo quando se sabe que, com um orçamento de 8 milhões de euros, menos de 1% do orçamento da investigação científica em Portugal, O IGC produz um terço da investigação na área da saúde... E não é um terço qualquer, é um terço de excelência! Espero não me enganar, nem estar a fazer mal as contas: não sei exactamente qual é o orçamento da ciência em Portugal mas não ultrapassa os 0.75% do PIB, ou seja, deverá ser qualquer coisa como mil milhões de euros (200 milhões de contos em moeda antiga).

Por tudo isto, António Coutinho e o Instituto Gulbenkian de Ciência merecem as minhas palmas. As nossas palmas. (...Embora seguramente não precisem delas!)


Post scriptum:

(i) É bom recordar que "fabricar doutorados não é igual a criar cientistas, cuja vocação tem de ser primeiro despertada, depois alimentada, multiplicada e, o que também não é comum entre nós, devidamente apreciada" (J. Lobo Antunes dixit).

(ii) No dia seguinte à publicação este post, deparei com uma excelente reportagem do Público (edição de 7 de Maio de 2004), assinada pela Clara Barata e pela Joana Gorjão Henriques, sobre o "ninho de formação de líderes cieníficos" que é hoje o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), sob a liderança do Prof. António Coutinho. Juro que só tive conhecimento deste texto, no sábado de manhã, dia 8. Trata-se, por isso, de uma feliz coincidência.

Para um país distraído, com tendência para a descrença, o pessimismo, o fatalismo e a depressão, é imprescindível e salutar ler mais esta história de sucesso no país de Abril. Não se pense, todavia, que o ICG é um oásis num deserto, e cheia de estrangeirados. Helena Soares, por exemplo, 41 anos, prestigiada investigadora, responsável pelo grupo de Stress e Dinâmica do Citoesqueleto, nunca quis sair de Portugal por razões pessoais, e diz à jornalista que "já não há uma diferença tão grande em relação ao exterior" embora o "meio científico ainda [seja] pequeno".

Parabéns também ao Público por esta notável série de reportagens ("30 anos do 25 de Abril: histórias de um país de sucesso").

06 maio 2004

Blogantologia(s) - X: O poemombro

Um ombro amigo



Às vezes a gente pensa

que o mundo vai desabar.

Às vezes a gente julga

que o céu vai cair

em cima das nossas cabeças.



Às vezes a gente deixa de ver.

E de sentir. E até de pensar.

Às vezes a gente vê que não há luz.

Que estamos num túnel.

Que não há luz ao fundo do túnel.

Que há alguém que te diz:

É o fim! Acabou-se!

É bom que esqueças,

Parte para outra!



Às vezes a gente tem dúvidas.

E pergunta se vale a pena.

Se valeu a pena.

Às vezes a gente até duvida

do amor e da amizade

dos que nos amam e gostam de nós.

Às vezes a coisa parece que está feia.

Às vezes parece que tudo é feio.

Que a coisa está preta e feia.

A vida, o país, o mundo à nossa volta.

Os outros. O marido ou a mulher. Os filhos

Os amigos, os colegas de trabalho.



Às vezes dá-te uma enorme vontade de chorar.

E de parar no caminho.

E de chorar numa pedra do caminho.

Às vezes a gente quer desistir de caminhar.

A gente sente que lhe faltam as forças.

E que já que foi longe de mais.

Que não nascemos para caminhantes.

Que já fizemos a nossa parte.

Que já cumprimos o nosso papel.

Que as pernas estão cansadas.

As pernas. O corpo. A alma.

Que andamos a caminhar há muito tempo.

Que já demos a volta ao mundo

não sei quantas vezes.



Às vezes a gente apercebe-se

Que tem uma enorme vontade de chorar.

Mas que não tem lágrimas para o fazer.

Não tem sequer forças para o fazer.



E é então que nos dá uma raiva danada.

Telúrica. Fulminante. Brutal.

Uma raiva de vulcão.

E descobrimos o terrível vulcão que há em nós.

E a gente, de repente,

dá de novo à chave de ignição.

E retoma o caminho.



Querid@ amig@:

Eu sei que não podemos competir com os vulcões.

Que só explodem de mil em mil anos.

Ou de cem mil em cem mil, tanto faz.

E que são uma força bruta da natureza.

Brutal. Fulminante. Telúrica.

Mas temos o direito de explodir.

De dizer o que nos vai na alma.

Temos o direito ao nosso vulcão.

Tu tens direito ao teu vulcão.

Tens direito mesmo ao teu vulcãozinho.

O direito de mostrar o que te dói

no corpo e na alma.

De chorar. De chorar de raiva.



A única diferença, além da escala de tempo,

é que os vulcões não têm uma ombro amigo.

Para chorar.

Para encostar a cabeça e chorar.

No dia dos teus anos, como hoje,

Ou em qualquer outro dia da semana.

Em qualquer outro dia do ano.

Sempre que te apetecer.

Sempre que te der raiva de chorar.



Se @s amig@s têm algum préstimo

É justamente para saber ouvir.

Ouvir, escutar, entender

Mais do que falar, analisar ou compreender.

Para estar contigo.

Simplesmente para estar ao pé de ti.

Ou para te segredar ao ouvido

Qualquer coisa que te faça sorrir.

Ao ouvido, baixinho.

E sobretudo para te oferecer

o ombro amigo.

Pode até ter pouco préstimo

Mas sempre é mais macio e quente

Do que a pedra do caminho.



L.G.



Lisboa, 29 de Abril de 2004



PS - Um (pre)texto que serviu de prenda de aniversário para uma amiga, a Matilde, que fazia anos neste dia e que estava a precisar de um ombro amigo. Do nosso ombro amigo. LG/AC



Blogantologia(s) - X: O poemombro

Um ombro amigo

Às vezes a gente pensa
que o mundo vai desabar.
Às vezes a gente julga
que o céu vai cair
em cima das nossas cabeças.

Às vezes a gente deixa de ver.
E de sentir. E até de pensar.
Às vezes a gente vê que não há luz.
Que estamos num túnel.
Que não há luz ao fundo do túnel.
Que há alguém que te diz:
É o fim! Acabou-se!
É bom que esqueças,
Parte para outra!

Às vezes a gente tem dúvidas.
E pergunta se vale a pena.
Se valeu a pena.
Às vezes a gente até duvida
do amor e da amizade
dos que nos amam e gostam de nós.
Às vezes a coisa parece que está feia.
Às vezes parece que tudo é feio.
Que a coisa está preta e feia.
A vida, o país, o mundo à nossa volta.
Os outros. O marido ou a mulher. Os filhos
Os amigos, os colegas de trabalho.

Às vezes dá-te uma enorme vontade de chorar.
E de parar no caminho.
E de chorar numa pedra do caminho.
Às vezes a gente quer desistir de caminhar.
A gente sente que lhe faltam as forças.
E que já que foi longe de mais.
Que não nascemos para caminhantes.
Que já fizemos a nossa parte.
Que já cumprimos o nosso papel.
Que as pernas estão cansadas.
As pernas. O corpo. A alma.
Que andamos a caminhar há muito tempo.
Que já demos a volta ao mundo
não sei quantas vezes.

Às vezes a gente apercebe-se
Que tem uma enorme vontade de chorar.
Mas que não tem lágrimas para o fazer.
Não tem sequer forças para o fazer.

E é então que nos dá uma raiva danada.
Telúrica. Fulminante. Brutal.
Uma raiva de vulcão.
E descobrimos o terrível vulcão que há em nós.
E a gente, de repente,
dá de novo à chave de ignição.
E retoma o caminho.

Querid@ amig@:
Eu sei que não podemos competir com os vulcões.
Que só explodem de mil em mil anos.
Ou de cem mil em cem mil, tanto faz.
E que são uma força bruta da natureza.
Brutal. Fulminante. Telúrica.
Mas temos o direito de explodir.
De dizer o que nos vai na alma.
Temos o direito ao nosso vulcão.
Tu tens direito ao teu vulcão.
Tens direito mesmo ao teu vulcãozinho.
O direito de mostrar o que te dói
no corpo e na alma.
De chorar. De chorar de raiva.

A única diferença, além da escala de tempo,
é que os vulcões não têm uma ombro amigo.
Para chorar.
Para encostar a cabeça e chorar.
No dia dos teus anos, como hoje,
Ou em qualquer outro dia da semana.
Em qualquer outro dia do ano.
Sempre que te apetecer.
Sempre que te der raiva de chorar.

Se @s amig@s têm algum préstimo
É justamente para saber ouvir.
Ouvir, escutar, entender
Mais do que falar, analisar ou compreender.
Para estar contigo.
Simplesmente para estar ao pé de ti.
Ou para te segredar ao ouvido
Qualquer coisa que te faça sorrir.
Ao ouvido, baixinho.
E sobretudo para te oferecer
o ombro amigo.
Pode até ter pouco préstimo
Mas sempre é mais macio e quente
Do que a pedra do caminho.

L.G.

Lisboa, 29 de Abril de 2004

PS - Um (pre)texto que serviu de prenda de aniversário para uma amiga, a Matilde, que fazia anos neste dia e que estava a precisar de um ombro amigo. Do nosso ombro amigo. LG/AC

28 abril 2004

Guiné 69/71 - III: Excertos do diário de um tuga (2)

Mapa da actual República da Guiné-Bissau



Fonte: © STN - SuperTravelNet.com (2004)

1. Os termos IN (abreviatura de inimigo) e NT (nossas tropas) são aqui usadas, de acordo com os usos e costumes castrenses da época em referência (Julho de 1969 a Fevereiro de 1971). Muito em particular, o termo IN não tem qualquer conotação negativa. É apenas um termo técnico usado, por comodidade minha, para designar as forças (a guerrilha do PAIGC, hoje partido político da Guiné-Bissau) que combatiam pela independência do território (bem como das Ilhas de Cabo verde), contra as tropas portuguesas (as NT).

2. Em 1969/71, o triângulo Bambadinca-Xime-Xitole correspondia, grosso modo, ao Sector L1 da Zona Leste da Guiné (que estava dividida, por sua vez, em cinco sectores, abrangendo o chão fula, ou seja, a região tradicionalmente habitada pela população de etnia fula e futa-fula).

Coincidindo basicamente com a charneira Rio Geba / Rio Corubal, este sector era de vital importância para as comunicações fluviais e terrestres da Zona Leste. O Rio Geba era navegável até ao Xime (LDG - Lanchas de Desembarque Grandes, da Marinha Portuguesa) e Bafatá (embarcações mais pequenas, em geral civis). Depois do Xime o Rio Geba estreitava e serpenteava ao longo do território, tornando-se a segurança fluvial mais difícil, em particular na temível zona do Mato Cão.

Na época, as ligações (e sobretudo o transporte de homens e material) entre Bissau e a Zona Leste (Xime, Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego/Gabu, Pitche) eram feitas ou por via aérea ou por barco (até ao Xime) e depois, por terra, em colunas militares e com um forte dispositivo de segurança.

Entretanto, o único percurso relativamente seguro, no Sector L1, era a estrada (asfaltada) de Bambadinca-Bafatá. O Rio Corubal, por seu turno, estava interdito à navegação, sendo controlado pela guerrilha do PAIGC, em toda área compreendida pelo Sector L1 (desde o seu estuário até ao Saltinho). O Rio Corubal, com cerca de 400 km. de extensão, nasce no maciço do Futa Djalon, na Guiné-Conakry, e vai desaguar no estuário do Rio Geba.

No triângulo Bambadinca-Xime-Xitole, as NT só chegavam à margem esquerda do Rio Corubal quando iam reabastecer o Saltinho, o famoso Saltinho, de grande importância estratégica, já que a sua ponte de quatro arcos, construída em 1955, era o único sítio que permitia a ligação, por terra, da capital, Bissau, com o sul.

Era, além disso, um sítio pitoresco devido aos rápidos do rio que lhe deram o nome. Só por ocasião de grandes operações, como a Operação Lança Afiada, que decorreu em Março de 1969 e que mobilizou mais de 1300 homens, é que as NT podiam chegar à margem esquerda do Rio. O estratégico aquartelamento da Ponta do Inglês, na região do Xime, tinha sido, entretanto, abandonado pelas NT, ainda antes da chegada de Spínola à Guiné.

3. Em rigor, havia ainda mais duas áreas que faziam parte do Sector L1, uma a norte do Rio Geba e outra a leste da estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole. A actividade da guerrilha era mais intensa e regular no triângulo Bambadina-Xime-Xitole e na área a norte do Geba, até ao limite sul da mítica zona do Oio-Morés, de matas densas, cercadas de bolanhas, e que eram um dos grandes "santuários do IN" (usando um termo do jargão miliar, omnipressente nos relatórios de operações).

4. Em Jullho de 1969, o dispositivo das NT no Sector L1 era o seguinte:

(i) Comando e Companhia de Comando e Serviços do BCAÇ. 2852 (Bamdabinca) (a partir de Julho de 1970, BART 2917);

(ii) Forças de intervenção (Bambadinca): CCAÇ. 12; Pelotão de Caçadores Nativos 53 (a partir de Junho de 1970, Pel.Caç. Nat. 52);

(iii) Subunidades em quadrícula: CCAÇ 2520 (Xime), 2339 (Mansambo) e 2413 (Xitole), substituídas em Junho de 1970 pelas CART 2715, 2714 e 2716, respectivamente.

Se considerarmos ainda o Pelotão de Cavalaria Daimler (Bambadinca), os Pel. Caç. Nat. 52 (Missirá) e 53 (Fá Mandinga), além das forças militarizadas (pelotões de milícias aquarteladas em Taibatá, Dembataco e Finete, excluindo a população fula armada nas tabancas em autodefesa), a nossa força poderia ser estimada em cerca de 1250 homens em armas, o que nos dava uma vantagem , em relação à guerrilha do PAIGC, de talvez cinco para um (vd. GRAÇA, L. - Documento: Guiné 69/711: subsídios para a história da africanização da guerrra (conclusão). O Jornal. 18 de Junho de 1981).

Haveria ainda que considerar a existência de tropas especiais, aquarteladas em Fá Mandinga, embora às ordens do Comandante-Chefe. De facto, Fá Mandinga ficou conhecida sobretudo por ter sido o berço e a sede da 1ª Companhia de Comandos Africanos, a partir de inícios do ano de 1970 (vd. GRAÇA, L. - Documento: memória da guerra colonial: a tropa macaca e a elite da tropa. O Jornal.14 de Abril de 1981).

A CCAÇ. 12 era uma unidade de intervenção às ordens do comandante do Sector L1. E no período em causa (meados de 1969 e 1º trimestre de 1971), foi de facto a principal força de intervenção.

5. Nesse período, todas as posições da NT foram atacadas mais do que uma vez (com excepção de Bambadinca, Fá Mandinga, Ponte do Rio Undunduma e algumas tabancas em autodefesa nas proximidades de Bambadinca). As mais atacadas foram Xime, Mansambo, Missirá, Enxalé e todos os destacamentos de mílicias. Com muita frequência e a diferentes horas do dia e da noite. Embora menos vezes, também eram atacados os aquartelamentos de Xitole a Ponta dos Fulas. Os ataques podiam durar até duas horas e envolver efectivos do IN entre 30 e 200 elementos, fortemente armados.

6. As nossas operações em território controlado pelo IN eram geralmente efectuadas a nível de batalhão, mobilizando entre 150 e 300 homens, e contando com cobertura aérea. As colunas de reabastecimento (a Mansambo, Xitole e Saltinho) também mobilizavam importantes recursos, em homens e material. Eram particularmente penosas no tempo das chuvas.

7. No período de Julho de 1969 a Fevereiro de 1971, no Sector L1 as baixas do IN foram as seguintes:

(i) Guerrilheiros capturados: 3; população: 13;
(ii) Mortos confirmados no terreno: 13;
(iii) Mortos e/ou feridos graves estimados ou "confirmados posteriormente": 23.

Do lado das NT (nossas tropas, pertencentes ao Sector L1, sem considerar a população, nem as milícias, nem a 1ª Companhia de Comandos Africanos, nem outras tropas especiais como os paraquedistas), as baixas foram as seguintes:

(i) Mortos: 14 (2 da CCAÇ. 12);
(ii) Feridos graves (evacuados para Bissau ou Lisboa): 40 (dos quais 17 da CCAÇ. 12)
(iii) Feridos não evacuados: 9 da CAÇ. 12 (o número de feridos, ligeiros ou menos graves, das unidades em quadrícula é desconhecido). Fonte: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971.

8. Ainda sobre a Zona Leste, convirá dizer que Spínola, o "pai dos guinéus", soube conquistar o coração dos fulas por várias vias: por um lado, reprimindo certos abusos do poder colonial (PIDE/DGS, chefes de posto, exército); por outro, mantendo excelentes relações pessoais com os "homens grandes", os chefes tribais, os régulos, os dignatários religiosos (como o famoso Cherno Rachid, de Aldeia Formos); e, por fim, promovendo o turismo religioso (por exemplo, as peregrinações a Meca).

Os fulas, tal como os mandingas, eram islamizados, contrariamente aos balantas e outros povos do litoral, que apoiavam o PAIGC. De qualquer modo, os fulas estavam condenados ao colaboracionismo por razões que tinham a ver com a história colonial, já que as autoridades portuguesas haviam feito deles, contra os restantes povos da Guiné, os auxiliares do aparelho político-administrativo (régulos, sipaios...) e militar (milícias, soldados regulares...) (Graça, L.: Documento: memória da guerra colonial: Guiné 1969/71: subsídios para a história da africanização da guerra (2). O Jornal. 29 de Maio de 1981).


O obus de Bambadinca...

Vestígios da guerra colonial: uma peça de artilharia (obus de 140 mm) abandonada pelos tugas. Guiné-Bissau, Bambadinca, Abril de 1997.



© Frederico Amorim (1997) (Reprodução gentilmente autorizada pelo autor: vd. O Mundo do Fred)

Outros links de interesse:


Portal da Guiné-Bissau


CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa > Guiné-Bissau

Centro de Documentação 25 de Abril, Universidaded e Coimbra > Treze anos de guerra > Inbtervenientes > Guiné

Associação Nacional de Cruzeiros > Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa > Conakry, 22 de Novemrbo de 1970

Viriato > Campanhas Ultramarinas, 1961-1974 > Armamento

Companhia de Caçadores CCAÇ. 13 - Os Leões Negros

Guiné 66/67 > CCAÇ. 1496 > Crónicas Perdidas no Tempo > Página de Pereira Monteiro (Esta página estava alojada no Portal Terravista, que em 2004 deixou de prestar o serviço gratuita aos cibernautas)

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Guiné 69/71 - III: Excertos do diário de um tuga (2)

Mapa da actual República da Guiné-Bissau



Fonte: © STN - SuperTravelNet.com (2004)

1. Os termos IN (abreviatura de inimigo) e NT (nossas tropas) são aqui usadas, de acordo com os usos e costumes castrenses da época em referência (Julho de 1969 a Fevereiro de 1971). Muito em particular, o termo IN não tem qualquer conotação negativa. É apenas um termo técnico usado, por comodidade minha, para designar as forças (a guerrilha do PAIGC, hoje partido político da Guiné-Bissau) que combatiam pela independência do território (bem como das Ilhas de Cabo verde), contra as tropas portuguesas (as NT).

2. Em 1969/71, o triângulo Bambadinca-Xime-Xitole correspondia, grosso modo, ao Sector L1 da Zona Leste da Guiné (que estava dividida, por sua vez, em cinco sectores, abrangendo o chão fula, ou seja, a região tradicionalmente habitada pela população de etnia fula e futa-fula).

Coincidindo basicamente com a charneira Rio Geba / Rio Corubal, este sector era de vital importância para as comunicações fluviais e terrestres da Zona Leste. O Rio Geba era navegável até ao Xime (LDG - Lanchas de Desembarque Grandes, da Marinha Portuguesa) e Bafatá (embarcações mais pequenas, em geral civis). Depois do Xime o Rio Geba estreitava e serpenteava ao longo do território, tornando-se a segurança fluvial mais difícil, em particular na temível zona do Mato Cão.

Na época, as ligações (e sobretudo o transporte de homens e material) entre Bissau e a Zona Leste (Xime, Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego/Gabu, Pitche) eram feitas ou por via aérea ou por barco (até ao Xime) e depois, por terra, em colunas militares e com um forte dispositivo de segurança.

Entretanto, o único percurso relativamente seguro, no Sector L1, era a estrada (asfaltada) de Bambadinca-Bafatá. O Rio Corubal, por seu turno, estava interdito à navegação, sendo controlado pela guerrilha do PAIGC, em toda área compreendida pelo Sector L1 (desde o seu estuário até ao Saltinho). O Rio Corubal, com cerca de 400 km. de extensão, nasce no maciço do Futa Djalon, na Guiné-Conakry, e vai desaguar no estuário do Rio Geba.

No triângulo Bambadinca-Xime-Xitole, as NT só chegavam à margem esquerda do Rio Corubal quando iam reabastecer o Saltinho, o famoso Saltinho, de grande importância estratégica, já que a sua ponte de quatro arcos, construída em 1955, era o único sítio que permitia a ligação, por terra, da capital, Bissau, com o sul.

Era, além disso, um sítio pitoresco devido aos rápidos do rio que lhe deram o nome. Só por ocasião de grandes operações, como a Operação Lança Afiada, que decorreu em Março de 1969 e que mobilizou mais de 1300 homens, é que as NT podiam chegar à margem esquerda do Rio. O estratégico aquartelamento da Ponta do Inglês, na região do Xime, tinha sido, entretanto, abandonado pelas NT, ainda antes da chegada de Spínola à Guiné.

3. Em rigor, havia ainda mais duas áreas que faziam parte do Sector L1, uma a norte do Rio Geba e outra a leste da estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole. A actividade da guerrilha era mais intensa e regular no triângulo Bambadina-Xime-Xitole e na área a norte do Geba, até ao limite sul da mítica zona do Oio-Morés, de matas densas, cercadas de bolanhas, e que eram um dos grandes "santuários do IN" (usando um termo do jargão miliar, omnipressente nos relatórios de operações).

4. Em Jullho de 1969, o dispositivo das NT no Sector L1 era o seguinte:

(i) Comando e Companhia de Comando e Serviços do BCAÇ. 2852 (Bamdabinca) (a partir de Julho de 1970, BART 2917);

(ii) Forças de intervenção (Bambadinca): CCAÇ. 12; Pelotão de Caçadores Nativos 53 (a partir de Junho de 1970, Pel.Caç. Nat. 52);

(iii) Subunidades em quadrícula: CCAÇ 2520 (Xime), 2339 (Mansambo) e 2413 (Xitole), substituídas em Junho de 1970 pelas CART 2715, 2714 e 2716, respectivamente.

Se considerarmos ainda o Pelotão de Cavalaria Daimler (Bambadinca), os Pel. Caç. Nat. 52 (Missirá) e 53 (Fá Mandinga), além das forças militarizadas (pelotões de milícias aquarteladas em Taibatá, Dembataco e Finete, excluindo a população fula armada nas tabancas em autodefesa), a nossa força poderia ser estimada em cerca de 1250 homens em armas, o que nos dava uma vantagem , em relação à guerrilha do PAIGC, de talvez cinco para um (vd. GRAÇA, L. - Documento: Guiné 69/711: subsídios para a história da africanização da guerrra (conclusão). O Jornal. 18 de Junho de 1981).

Haveria ainda que considerar a existência de tropas especiais, aquarteladas em Fá Mandinga, embora às ordens do Comandante-Chefe. De facto, Fá Mandinga ficou conhecida sobretudo por ter sido o berço e a sede da 1ª Companhia de Comandos Africanos, a partir de inícios do ano de 1970 (vd. GRAÇA, L. - Documento: memória da guerra colonial: a tropa macaca e a elite da tropa. O Jornal.14 de Abril de 1981).

A CCAÇ. 12 era uma unidade de intervenção às ordens do comandante do Sector L1. E no período em causa (meados de 1969 e 1º trimestre de 1971), foi de facto a principal força de intervenção.

5. Nesse período, todas as posições da NT foram atacadas mais do que uma vez (com excepção de Bambadinca, Fá Mandinga, Ponte do Rio Undunduma e algumas tabancas em autodefesa nas proximidades de Bambadinca). As mais atacadas foram Xime, Mansambo, Missirá, Enxalé e todos os destacamentos de mílicias. Com muita frequência e a diferentes horas do dia e da noite. Embora menos vezes, também eram atacados os aquartelamentos de Xitole a Ponta dos Fulas. Os ataques podiam durar até duas horas e envolver efectivos do IN entre 30 e 200 elementos, fortemente armados.

6. As nossas operações em território controlado pelo IN eram geralmente efectuadas a nível de batalhão, mobilizando entre 150 e 300 homens, e contando com cobertura aérea. As colunas de reabastecimento (a Mansambo, Xitole e Saltinho) também mobilizavam importantes recursos, em homens e material. Eram particularmente penosas no tempo das chuvas.

7. No período de Julho de 1969 a Fevereiro de 1971, no Sector L1 as baixas do IN foram as seguintes:

(i) Guerrilheiros capturados: 3; população: 13;
(ii) Mortos confirmados no terreno: 13;
(iii) Mortos e/ou feridos graves estimados ou "confirmados posteriormente": 23.

Do lado das NT (nossas tropas, pertencentes ao Sector L1, sem considerar a população, nem as milícias, nem a 1ª Companhia de Comandos Africanos, nem outras tropas especiais como os paraquedistas), as baixas foram as seguintes:

(i) Mortos: 14 (2 da CCAÇ. 12);
(ii) Feridos graves (evacuados para Bissau ou Lisboa): 40 (dos quais 17 da CCAÇ. 12)
(iii) Feridos não evacuados: 9 da CAÇ. 12 (o número de feridos, ligeiros ou menos graves, das unidades em quadrícula é desconhecido). Fonte: História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971.

8. Ainda sobre a Zona Leste, convirá dizer que Spínola, o "pai dos guinéus", soube conquistar o coração dos fulas por várias vias: por um lado, reprimindo certos abusos do poder colonial (PIDE/DGS, chefes de posto, exército); por outro, mantendo excelentes relações pessoais com os "homens grandes", os chefes tribais, os régulos, os dignatários religiosos (como o famoso Cherno Rachid, de Aldeia Formos); e, por fim, promovendo o turismo religioso (por exemplo, as peregrinações a Meca).

Os fulas, tal como os mandingas, eram islamizados, contrariamente aos balantas e outros povos do litoral, que apoiavam o PAIGC. De qualquer modo, os fulas estavam condenados ao colaboracionismo por razões que tinham a ver com a história colonial, já que as autoridades portuguesas haviam feito deles, contra os restantes povos da Guiné, os auxiliares do aparelho político-administrativo (régulos, sipaios...) e militar (milícias, soldados regulares...) (Graça, L.: Documento: memória da guerra colonial: Guiné 1969/71: subsídios para a história da africanização da guerra (2). O Jornal. 29 de Maio de 1981).


O obus de Bambadinca...

Vestígios da guerra colonial: uma peça de artilharia (obus de 140 mm) abandonada pelos tugas. Guiné-Bissau, Bambadinca, Abril de 1997.



© Frederico Amorim (1997) (Reprodução gentilmente autorizada pelo autor: vd. O Mundo do Fred)

Outros links de interesse:


Portal da Guiné-Bissau


CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa > Guiné-Bissau

Centro de Documentação 25 de Abril, Universidaded e Coimbra > Treze anos de guerra > Inbtervenientes > Guiné

Associação Nacional de Cruzeiros > Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa > Conakry, 22 de Novemrbo de 1970

Viriato > Campanhas Ultramarinas, 1961-1974 > Armamento

Companhia de Caçadores CCAÇ. 13 - Os Leões Negros

Guiné 66/67 > CCAÇ. 1496 > Crónicas Perdidas no Tempo > Página de Pereira Monteiro (Esta página estava alojada no Portal Terravista, que em 2004 deixou de prestar o serviço gratuita aos cibernautas)

Sapo > Sociedade > Grupos e Associações > Antigos Combatentes

25 abril 2004

Guiné 69/71 - II: Excertos do diário de um tuga (1)

1. Trinta anos e tal anos depois. Para que não digam, os (por)tugas mais novos, que a Guiné nunca existiu. Que a guerra da Guiné nunca existiu. Ou que nunca ouviram falar da guerra colonial (em África). Uma guerra que marcou, se não um povo inteiro, pelo menos toda uma geração. A minha geração.

Desenterro estes escritos, guardados no sótão da casa e sobretudo no sótão da memória, em homenagem a todos os que derramaram o seu sangue na Guiné, entre meados de 1969 e o 1º trimestre de 1971. Ou que deram o melhor da sua vida, a sua juventude, a sua generosidade, os seus sonhos, as suas ilusões. Pela Pátria, dizia-se então. Ou por nada, o que é pior.

Há trinta e tal anos... Em homenagem aos que combateram, de um lado e de outro, nos três teatros de operações (Angola, Moçambique e Guiné). Em particular aos meus camaradas, portugueses e guineenses, da Companhia de Caçadores nº 12 (CCAÇ 12). Que se bateram com dignidade, bravura, galhardia e honra (mas também com ética!) na Zona Leste, Sector L1, da Guiné.

"Guiné... país de azenegues e de negros, ali morreram alguns dos primeiros navegadores, varados por azagaias envenenadas....": pode ainda ler-se algures, em Coimbra, no "Portugal dos Pequenitos", no Portugal ternurento e salazarento dos anos 40.

Há trinta e tal anos... Em homenagem também aos que fizeram o 25 de Abril de 1974. Foi no meu tempo, na Guiné, entre os milicianos, que o moral das tropas começou a deteriorar-se. Inexoravelmente. E a contaminar os oficiais e os sargentos do quadro, já poucos, velhos e cansados. Por exemplo, em 26 de Novembro de 1970, a escassos três meses da minha rendição individual e do meu regresso a casa, mandei impunemente à merda toda a hierarquia militar do aquartelamento de Bambadinca, do tenente-coronel aos majores e capitães, depois de termos sofrido um dos nossos piores reveses militares, a CCAÇ 12 e a CART 2714 [Companhia de Artilharia aquartelada no Xime] , no decurso da Operação Abencerragem Candente: seis mortos e nove feridos...

Tudo aconteceu por grave erro que na altura imputámos ao major, segundo comandante do BART 2917, um militarão de artilharia que não gozava da simpatia dos alferes e furriéis milicianos. Abreviando razões, o comandante da força, que integrava a fatídica Operação Abencerragem Candente [vd, o meu post de 25 de Abril de 2005], obrigara-nos a repetir o percurso de véspera (25 de Novembro de 1970), a caminho da Ponta do Inglês (Região do Xime, na confluência dos Rios Geba e Corubal)... Contra as mais elementares regras de segurança militar! É que na Guiné bichos e homens sabiam que nunca se pisava duas vezes o mesmo trilho e nunca se bebia duas vezes a água do mesmo rio...

Ainda recordo, com nitidez, as palavras que dirigi, depois do regresso a Bambadinca, na parada, alto e em bom som, frente às instalações do comando do BART [Batalhão de Artilharia] 2917, utilizando a mesma linguagem de caserna com que me fizeram soldado à força "contra a minha própria guerra" (Manuel Alegre): "Assassinos, criminosos de guerra, limpo o cu às folhas do RDM [ Regulamento de Disciplina Militar]"... ~

Podiam ter-me mandado prender por insubordinação, por grave infracção ao RDM, por crime de lesa-pátria... Não o fizeram, não tiveram coragem de o fazer: pediram apenas ao médico (miliciano) que me desse um Valium 10; o meu capitão, por seu turno, achava que eu andava muito cansado... Diagnóstico: distúrbio emocional, muito frequente na época entre as NT (nossas tropas).

E no final da comissão fiz-lhes a história dos seus gloriosos feitos em combate. Deram-me um louvor, averbado na minha caderneta militar, pela qualidade e seriedade do meu trabalho ... jornalístico. Dei-lhes a volta e fiz a crónica da guerra, baseado em toda a informação classificada a que tive acesso, para além das minhas próprias memórias, já que também fui um operacional com intensa actividade (Devo acrescentar que me orgulho de nunca ter dado um tiro em combate, apesar de ter estado debaixo de fogo nas mais diversas situações).

O acesso aos arquivos da CCAÇ 12/CCAÇ 2590 contou, naturalmente, com a cumplicidade de um dos sargentos do quadro. Um alentejano, de origem proletária, que meteu o chico (leia-se: seguiu a vida da tropa), e que me alcunhou carinhosamente de soviético ou camarada Sov, ao que julgo saber por eu ser do contra (entre os meus camaradas, pelo menos era conhecida a minha contestação do regime político e da guerra colonial).

Dezenas de exemplares da história da CCAÇ 12, tirados a stencil, acabaram por ser distribuídos pelos tugas da companhia ( e em particular pelos meus camaradas milicianos), chegando assim à Metropóle, mau grado as instruções do capitão que, aflito e em vésperas de ser promovido a major, a mandara classificar como documento reservado. Onde quer estejas, meu caro Sargento P., vivo ou morto, eu ainda tenho uma dívida de gratidão para contigo! E do meu capitão, então com 37 anos, uma comissão na Índia e três em África, eu só posso dizer que era um bom homem e um bom portuga.

Esta é, de resto, a prova de que, mesmo em condições difíceis, era possível, nessa época, exercer o mais elementar direito à resistência (activa e passiva). Havia ainda outras, mais ou menos arriscadas, mais fáceis ou mais difíceis: desertar, desobedecer, sabotar os planos de operações, evitar o contacto com o IN (inimigo), falsificar os relatórios...

Os oficiais, sargentos e praças da antiga CCAÇ 2590, que em Contuboel (Sector L2) formaram a CCAÇ 12, e que estiveram juntos na Guiné desde Abril de 1969 a Março de 1971, reunem-se com regularidade para matar saudades e conviver. Juntamente com outros camaradas de outras unidades que na época actuaram no Sector L1 (Bambadinca) e estiveram aquartelados, fizeram operações ou passaram por sítios com nomes ainda hoje tão míticos e tão exóticos e ao mesmo tão familiares para nós como Belel, Madina, Missirá, Finete, Mato Cão, Enxalé, Foz do do Rio Malafo, Xime, Nhabijões, Amedalai, Ponte do Rio Undunduma, Ponta Varela, Poindon, Ponta do Inglês, Ponta Luís Dias, Baio Buruntoni, Rio Corubal, Mangai, Fiofioli, Mina, Galo Corubal, Satecuta, Seco Braima, Xitole, Saltinho, Ponte dos Fulas, Jagarajá, Mansambo, Candamã, Camará, Afiá, Taibatá, Dembataco, Sinchã Mamadjai, Sansancuta, Rio Geba, Fá, Bafatá...

Durante a sua primeira comissão, a CCAÇ 12 (designação por que passou a chamar-se a CCAÇ 2590 a partir de Janeiro de 1970, por ter sido considerada uma unidade de guarnição normal e parte integrante da "nova força africana" e da estratégia do general António Spínola no sentido da "guineização da guerra"), actuou no Sector L1 às ordens do Batalhão de Caçadores 2852 (até Maio de 1970) e, depois, do já citado Batalhão de Artilharia 2917 (até Fevereiro de 1971).

2. Este ano o convívio do pessoal que esteve na Guiné, no Sector L1, entre 1968 e 1971, incluindo as companhias do BCAÇ 2852, é na Quinta da Graça, em Riade, Resende, junto ao Rio Douro, no próximo dia 29 de Maio de 2004.

A Quinta da Graça é propriedade do camarada Pinto dos Santos (Contactos: Telemóvel: 91 472 1651; telefone: 254 875 290). O preço por pessoa é de 30 euros (o convívio inclui almoço com animação regional, além de missa por alma dos camaradas já falecidos). A confirmação deve ser feita até ao dia 15 de Maio próximo. Contactar o José Manuel Amaral Soares (Largo Vieira Caldas, 6-A dtº 1685-585 CANEÇAS. Telemóvel: 96 242 8053).

Tanto o Pinto dos Santos (ex-furriel miliciano de informações) como o Amaral Soares (ex-fur. mil. sapador de minas e armadilhas) pertenciam à Companhia de Comandos e Serviços do BCAÇ 2852. Eu vou tentar estar presente no nosso convívio
em Resende, no dia 29 de Maio próximo, embora tenha provas académicas a 15 de Junho... E espero lá encontrar camaradas da CCAÇ 12.

Luís Graça (ou ... ex-Fur. Mil. Henriques)
__________________

Bambadinca,13.2.1971 > Esquecer a Guiné... por uma noite

(Poema republicado em 16 de Junho de 2005)

Guiné 69/71 - II: Excertos do diário de um tuga (1) (Luís Graça)

1. Trinta anos e tal anos depois. Para que não digam, os (por)tugas mais novos, que a Guiné nunca existiu. Que a guerra da Guiné nunca existiu. Ou que nunca ouviram falar da guerra colonial (em África). Uma guerra que marcou, se não um povo inteiro, pelo menos toda uma geração. A minha geração.

Desenterro estes escritos, guardados no sótão da casa e sobretudo no sótão da memória, em homenagem a todos os que derramaram o seu sangue na Guiné, entre meados de 1969 e o 1º trimestre de 1971. Ou que deram o melhor da sua vida, a sua juventude, a sua generosidade, os seus sonhos, as suas ilusões. Pela Pátria, dizia-se então. Ou por nada, o que é pior.

Há trinta e tal anos... Em homenagem aos que combateram, de um lado e de outro, nos três teatros de operações (Angola, Moçambique e Guiné). Em particular aos meus camaradas, portugueses e guineenses, da Companhia de Caçadores nº 12 (CCAÇ 12). Que se bateram com dignidade, bravura, galhardia e honra (mas também com ética!) na Zona Leste, Sector L1, da Guiné.

"Guiné... país de azenegues e de negros, ali morreram alguns dos primeiros navegadores, varados por azagaias envenenadas....": pode ainda ler-se algures, em Coimbra, no "Portugal dos Pequenitos", no Portugal ternurento e salazarento dos anos 40.

Há trinta e tal anos... Em homenagem também aos que fizeram o 25 de Abril de 1974. Foi no meu tempo, na Guiné, entre os milicianos, que o moral das tropas começou a deteriorar-se. Inexoravelmente. E a contaminar os oficiais e os sargentos do quadro, já poucos, velhos e cansados. Por exemplo, em 26 de Novembro de 1970, a escassos três meses da minha rendição individual e do meu regresso a casa, mandei impunemente à merda toda a hierarquia militar do aquartelamento de Bambadinca, do tenente-coronel aos majores e capitães, depois de termos sofrido um dos nossos piores reveses militares, a CCAÇ 12 e a CART 2714 [Companhia de Artilharia aquartelada no Xime] , no decurso da Operação Abencerragem Candente: seis mortos e nove feridos...

Tudo aconteceu por grave erro que na altura imputámos ao major, segundo comandante do BART 2917, um militarão de artilharia que não gozava da simpatia dos alferes e furriéis milicianos. Abreviando razões, o comandante da força, que integrava a fatídica Operação Abencerragem Candente [vd, o meu post de 25 de Abril de 2005], obrigara-nos a repetir o percurso de véspera (25 de Novembro de 1970), a caminho da Ponta do Inglês (Região do Xime, na confluência dos Rios Geba e Corubal)... Contra as mais elementares regras de segurança militar! É que na Guiné bichos e homens sabiam que nunca se pisava duas vezes o mesmo trilho e nunca se bebia duas vezes a água do mesmo rio...

Ainda recordo, com nitidez, as palavras que dirigi, depois do regresso a Bambadinca, na parada, alto e em bom som, frente às instalações do comando do BART [Batalhão de Artilharia] 2917, utilizando a mesma linguagem de caserna com que me fizeram soldado à força "contra a minha própria guerra" (Manuel Alegre): "Assassinos, criminosos de guerra, limpo o cu às folhas do RDM [ Regulamento de Disciplina Militar]"... ~

Podiam ter-me mandado prender por insubordinação, por grave infracção ao RDM, por crime de lesa-pátria... Não o fizeram, não tiveram coragem de o fazer: pediram apenas ao médico (miliciano) que me desse um Valium 10; o meu capitão, por seu turno, achava que eu andava muito cansado... Diagnóstico: distúrbio emocional, muito frequente na época entre as NT (nossas tropas).

E no final da comissão fiz-lhes a história dos seus gloriosos feitos em combate. Deram-me um louvor, averbado na minha caderneta militar, pela qualidade e seriedade do meu trabalho ... jornalístico. Dei-lhes a volta e fiz a crónica da guerra, baseado em toda a informação classificada a que tive acesso, para além das minhas próprias memórias, já que também fui um operacional com intensa actividade (Devo acrescentar que me orgulho de nunca ter dado um tiro em combate, apesar de ter estado debaixo de fogo nas mais diversas situações).

O acesso aos arquivos da CCAÇ 12/CCAÇ 2590 contou, naturalmente, com a cumplicidade de um dos sargentos do quadro. Um alentejano, de origem proletária, que meteu o chico (leia-se: seguiu a vida da tropa), e que me alcunhou carinhosamente de soviético ou camarada Sov, ao que julgo saber por eu ser do contra (entre os meus camaradas, pelo menos era conhecida a minha contestação do regime político e da guerra colonial).

Dezenas de exemplares da história da CCAÇ 12, tirados a stencil, acabaram por ser distribuídos pelos tugas da companhia ( e em particular pelos meus camaradas milicianos), chegando assim à Metropóle, mau grado as instruções do capitão que, aflito e em vésperas de ser promovido a major, a mandara classificar como documento reservado. Onde quer estejas, meu caro Sargento P., vivo ou morto, eu ainda tenho uma dívida de gratidão para contigo! E do meu capitão, então com 37 anos, uma comissão na Índia e três em África, eu só posso dizer que era um bom homem e um bom portuga.

Esta é, de resto, a prova de que, mesmo em condições difíceis, era possível, nessa época, exercer o mais elementar direito à resistência (activa e passiva). Havia ainda outras, mais ou menos arriscadas, mais fáceis ou mais difíceis: desertar, desobedecer, sabotar os planos de operações, evitar o contacto com o IN (inimigo), falsificar os relatórios...

Os oficiais, sargentos e praças da antiga CCAÇ 2590, que em Contuboel (Sector L2) formaram a CCAÇ 12, e que estiveram juntos na Guiné desde Abril de 1969 a Março de 1971, reunem-se com regularidade para matar saudades e conviver. Juntamente com outros camaradas de outras unidades que na época actuaram no Sector L1 (Bambadinca) e estiveram aquartelados, fizeram operações ou passaram por sítios com nomes ainda hoje tão míticos e tão exóticos e ao mesmo tão familiares para nós como Belel, Madina, Missirá, Finete, Mato Cão, Enxalé, Foz do do Rio Malafo, Xime, Nhabijões, Amedalai, Ponte do Rio Udunduma, Ponta Varela, Poindon, Ponta do Inglês, Ponta Luís Dias, Baio Buruntoni, Rio Corubal, Mangai, Fiofioli, Mina, Galo Corubal, Satecuta, Seco Braima, Xitole, Saltinho, Ponte dos Fulas, Jagarajá, Mansambo, Candamã, Camará, Afiá, Taibatá, Dembataco, Sinchã Mamadjai, Sansancuta, Rio Geba, Fá, Bafatá...

Durante a sua primeira comissão, a CCAÇ 12 (designação por que passou a chamar-se a CCAÇ 2590 a partir de Janeiro de 1970, por ter sido considerada uma unidade de guarnição normal e parte integrante da "nova força africana" e da estratégia do general António Spínola no sentido da "guineização da guerra"), actuou no Sector L1 às ordens do Batalhão de Caçadores 2852 (até Maio de 1970) e, depois, do já citado Batalhão de Artilharia 2917 (até Fevereiro de 1971).

2. Este ano o convívio do pessoal que esteve na Guiné, no Sector L1, entre 1968 e 1971, incluindo as companhias do BCAÇ 2852, é na Quinta da Graça, em Riade, Resende, junto ao Rio Douro, no próximo dia 29 de Maio de 2004.

A Quinta da Graça é propriedade do camarada Pinto dos Santos (Contactos: Telemóvel: 91 472 1651; telefone: 254 875 290). O preço por pessoa é de 30 euros (o convívio inclui almoço com animação regional, além de missa por alma dos camaradas já falecidos). A confirmação deve ser feita até ao dia 15 de Maio próximo. Contactar o José Manuel Amaral Soares (Largo Vieira Caldas, 6-A dtº 1685-585 CANEÇAS. Telemóvel: 96 242 8053).

Tanto o Pinto dos Santos (ex-furriel miliciano de informações) como o Amaral Soares (ex-fur. mil. sapador de minas e armadilhas) pertenciam à Companhia de Comandos e Serviços do BCAÇ 2852. Eu vou tentar estar presente no nosso convívio em Resende, no dia 29 de Maio próximo, embora tenha provas académicas a 15 de Junho... E espero lá encontrar camaradas da CCAÇ 12.

Luís Graça (ou ... ex-Fur Mil Henriques)
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Bambadinca,13.2.1971 > Esquecer a Guiné... por uma noite

(Poema republicado em 16 de Junho de 2005)

23 abril 2004

Guiné 69/71 – I: Saudosa(s) madrinha(s) de guerra

Trinta e cinco anos depois.
No 25 de Abril de 2004 presto a minha homenagem às mulheres portuguesas.
Que se vestiam de luto enquanto os maridos ou noivos andavam no ultramar.
Às que rastejavam no chão de Fátima, implorando à Virgem o regresso dos seus filhos, sãos e salvos.
Às que continuavam, silenciosas e inquietas, ao lado dos homens nos campos, nas fábricas e nos escritórios.
Às que ficavam em casa, rezando o terço à noite.
Às que aguardavam com angústia a hora matinal do correio.
Às que, poucas, subscreviam abaixo-assinados contra o regime e contra a guerra.
Às que, poucas, liam e divulgavam folhetos clandestinos ou sintonizavam altas horas da madrugada as vozes que vinham de longe e que falavam de resistência em tempo de solidão.
Às que, muitas, carinhosamente tiravam do fumeiro (e da barriga) as chouriças e os salpicões que iriam levar até junto dos seus filhos, no outro lado do mundo, um pouco do amor de mãe, das saudades da terra, dos sabores da comida e da alegria da festa.
E sobretudo às, muitas, e em geral adolescentes e jovens solteiras, que se correspondiam com os soldados mobilizados para a guerra colonial, na qualidade de madrinhas de guerra.

A maioria dos soldados correspondia-se, em média, com uma meia dúzia de madrinhas, para além dos seus familiares e amigos. Em treze anos de guerra, cerca de um milhão de soldados terá escrito mais de 500 milhões de cartas e aerogramas. E recebido outros tantos. Como este que aqui se reproduz.
______________

Guiné, 24 de Dezembro de 1969

Exma menina e saudosa madrinha:

Em primeiro de tudo, a sua saúde que eu por cá de momento fico bem, graças a Deus.

Estava um dia em que meditava e lamentava a triste sorte que Deus me deu até que toquei na necessidade de arranjar uma menina que fosse competente e digna de desempenhar tão honroso e delicado cargo de madrinha de guerra. Peço-lhe desculpa pelo atrevimento que tive em lhe dedicar estas simples letras. Mas valeu a pena e é com muita alegria que recebo o seu aero (1).

Vejo que também está triste por mor (2) da mobilização do seu mano mais novo para o Ultramar. Não sei como consolá-la, mas olhe: não desanime, tenha coragem e fé em Deus. Eu sei que custa muito, mas é o destino e, se é que ele existe, a ele ninguém foge. Nós, homens, temos esta difícil e nobre missão a cumprir.

Nós, militares, que suportamos o flagelo desta estadia aqui no Ultramar, não temos outro auxílio, quer material quer espiritual, que não seja o que nos dão os nossos amigos e entes queridos. E sobretudo as nossas saudosas madrinhas de guerra.

Sendo assim para nós o correio é a coisa mais sagrada que há no mundo. Porque nos traz notícias da nossa querida terra e nos faz esquecer, ainda que por pouco tempo, a situação de guerra em que vivemos e os dias que custam tanto a passar.

As notícias aqui são sempre tristes, nestas terras de Cristo, habitadas por povos conhecidos e desconhecidos. Não lhe posso adiantar pormenores, mas como deve imaginar uma pessoa anda triste e desanimanada sempre que há uma baixa de um camarada.

Lá na metrópole há gente que pensa que isto é bonito. Que a África é bonita. Eu digo-lhe que isto é bonito mas é para os bichos. São matas e bolanhas (3) que metem medo, cobertas de capim alto, e onde se escondem esses turras (4) que nos querem acabar com a vida. E mais triste ainda quando se aproxima o dia e a hora em que era pressuposto estarmos todos em família, juntos à mesa na noite da Consoada. Vai ser a primeira noite de Natal que aqui passo. Com a canhota (5) numa mão e uma garrafa de Vat 69 (6) na outra.

São duas horas da noite e vou botar este aero na caixa do correio. Daqui a um pouco saio em missão mais os meus camaradas. Reze por nós todos. Espero voltar são e salvo para poder ler, com alegria, as próximas notícias suas. Queira receber, Exma. Menina e saudosa madrinha, os meus mais respeitosos cumprimentos. Desejo-lhe um Santo e Feliz Natal.

O soldado-atirador da Companhia de Caçadores (...)

_________

Notas (L.G.):

(1) Aerograma. Também conhecido por corta-capim (o correio era, muitas vezes distribuído em cima de uma viatura, e o aerograma lançado por cima das cabeças dos soldados, à maneira de um boomerang). Os aerogramas foram uma criação do Movimento Nacional Feminino, dirigida pela célebre Cecília Supico Pinto desde 1961, e o seu transporte era assegurado pela TAP ("uma oferta da TAP aos soldados de Portugal"). Os aerogramas também foram usados na guerra da propaganda do regime, ostentando carimbos de correio com dizeres como "Povo unido, paz e progresso", "Povo português, povo africano", "Os inimigos da Pátria renunciarão" ou "Muitas raças, uma Nação, Portugal" (vd. Graça, L. - Memória da guerra colonial: querida madrinha. O Jornal. 15 de Maio de 1981).

(2) Por mor de =por causa de (expressão usada no norte).

(3) Terras alagadiças da Guiné onde tradicionalmente se cultivava o arroz (... e se pescava). Durante a guerra colonial, foram praticamente abandonadas como terras de cultivo, devido à deslocação de muitas das populações ribeirinhas e à escalada das operações militares. A Guiné, que chegou a exportar arroz, passou a importá-lo.

(4) Corruptela de terroristas. Termo depreciativo que era usado para referir os combatentes do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Os soldados portugueses eram, por sua vez, conhecidos como tugas (diminuitivo de Portugal, português ou portuga).

(5) Espingarda automática G-3, de calibre 7.62, de origem alemã, que passou a equipar as forças armadas portuguesas no Ultramar. Em 1961 o exército português ainda estava equipado com a velha Mauser (!).

(6) Marca de uísque escocês, muito popular na época entre os militares (Havia uma generosa distribuição de bebidas alcoólicas nas frentes de guerra, com destaque para o uísque, "from Scotland for the exclusive use of the Portuguese Armed Forces"). Na época o salário de um soldado-atirador (cerca de 1500 a 1800 escudos, parte dos quais depositado na metrópole) dava para comprar mais de uma garrafa de uísque (novo) no serviço de aprivisionamento militar (cerca de 40 pesos ou escudos por unidade). No entanto, a bebida mais popular entre os soldados era cerveja. Uma garrafa de cerveja de 0,6 litros chamava-se bazuca.

Guiné 69/71 – I: Saudosa(s) madrinha(s) de guerra

Trinta e cinco anos depois.
No 25 de Abril de 2004 presto a minha homenagem às mulheres portuguesas.
Que se vestiam de luto enquanto os maridos ou noivos andavam no ultramar.
Às que rastejavam no chão de Fátima, implorando à Virgem o regresso dos seus filhos, sãos e salvos.
Às que continuavam, silenciosas e inquietas, ao lado dos homens nos campos, nas fábricas e nos escritórios.
Às que ficavam em casa, rezando o terço à noite.
Às que aguardavam com angústia a hora matinal do correio.
Às que, poucas, subscreviam abaixo-assinados contra o regime e contra a guerra.
Às que, poucas, liam e divulgavam folhetos clandestinos ou sintonizavam altas horas da madrugada as vozes que vinham de longe e que falavam de resistência em tempo de solidão.
Às que, muitas, carinhosamente tiravam do fumeiro (e da barriga) as chouriças e os salpicões que iriam levar até junto dos seus filhos, no outro lado do mundo, um pouco do amor de mãe, das saudades da terra, dos sabores da comida e da alegria da festa.
E sobretudo às, muitas, e em geral adolescentes e jovens solteiras, que se correspondiam com os soldados mobilizados para a guerra colonial, na qualidade de madrinhas de guerra.

A maioria dos soldados correspondia-se, em média, com uma meia dúzia de madrinhas, para além dos seus familiares e amigos. Em treze anos de guerra, cerca de um milhão de soldados terá escrito mais de 500 milhões de cartas e aerogramas. E recebido outros tantos. Como este que aqui se reproduz.
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Guiné, 24 de Dezembro de 1969

Exma menina e saudosa madrinha:

Em primeiro de tudo, a sua saúde que eu por cá de momento fico bem, graças a Deus.

Estava um dia em que meditava e lamentava a triste sorte que Deus me deu até que toquei na necessidade de arranjar uma menina que fosse competente e digna de desempenhar tão honroso e delicado cargo de madrinha de guerra. Peço-lhe desculpa pelo atrevimento que tive em lhe dedicar estas simples letras. Mas valeu a pena e é com muita alegria que recebo o seu aero (1).

Vejo que também está triste por mor (2) da mobilização do seu mano mais novo para o Ultramar. Não sei como consolá-la, mas olhe: não desanime, tenha coragem e fé em Deus. Eu sei que custa muito, mas é o destino e, se é que ele existe, a ele ninguém foge. Nós, homens, temos esta difícil e nobre missão a cumprir.

Nós, militares, que suportamos o flagelo desta estadia aqui no Ultramar, não temos outro auxílio, quer material quer espiritual, que não seja o que nos dão os nossos amigos e entes queridos. E sobretudo as nossas saudosas madrinhas de guerra.

Sendo assim para nós o correio é a coisa mais sagrada que há no mundo. Porque nos traz notícias da nossa querida terra e nos faz esquecer, ainda que por pouco tempo, a situação de guerra em que vivemos e os dias que custam tanto a passar.

As notícias aqui são sempre tristes, nestas terras de Cristo, habitadas por povos conhecidos e desconhecidos. Não lhe posso adiantar pormenores, mas como deve imaginar uma pessoa anda triste e desanimanada sempre que há uma baixa de um camarada.

Lá na metrópole há gente que pensa que isto é bonito. Que a África é bonita. Eu digo-lhe que isto é bonito mas é para os bichos. São matas e bolanhas (3) que metem medo, cobertas de capim alto, e onde se escondem esses turras (4) que nos querem acabar com a vida. E mais triste ainda quando se aproxima o dia e a hora em que era pressuposto estarmos todos em família, juntos à mesa na noite da Consoada. Vai ser a primeira noite de Natal que aqui passo. Com a canhota (5) numa mão e uma garrafa de Vat 69 (6) na outra.

São duas horas da noite e vou botar este aero na caixa do correio. Daqui a um pouco saio em missão mais os meus camaradas. Reze por nós todos. Espero voltar são e salvo para poder ler, com alegria, as próximas notícias suas. Queira receber, Exma. Menina e saudosa madrinha, os meus mais respeitosos cumprimentos. Desejo-lhe um Santo e Feliz Natal.

O soldado-atirador da Companhia de Caçadores (...)

_________

Notas (L.G.):

(1) Aerograma. Também conhecido por corta-capim (o correio era, muitas vezes distribuído em cima de uma viatura, e o aerograma lançado por cima das cabeças dos soldados, à maneira de um boomerang). Os aerogramas foram uma criação do Movimento Nacional Feminino, dirigida pela célebre Cecília Supico Pinto desde 1961, e o seu transporte era assegurado pela TAP ("uma oferta da TAP aos soldados de Portugal"). Os aerogramas também foram usados na guerra da propaganda do regime, ostentando carimbos de correio com dizeres como "Povo unido, paz e progresso", "Povo português, povo africano", "Os inimigos da Pátria renunciarão" ou "Muitas raças, uma Nação, Portugal" (vd. Graça, L. - Memória da guerra colonial: querida madrinha. O Jornal. 15 de Maio de 1981).

(2) Por mor de =por causa de (expressão usada no norte).

(3) Terras alagadiças da Guiné onde tradicionalmente se cultivava o arroz (... e se pescava). Durante a guerra colonial, foram praticamente abandonadas como terras de cultivo, devido à deslocação de muitas das populações ribeirinhas e à escalada das operações militares. A Guiné, que chegou a exportar arroz, passou a importá-lo.

(4) Corruptela de terroristas. Termo depreciativo que era usado para referir os combatentes do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Os soldados portugueses eram, por sua vez, conhecidos como tugas (diminuitivo de Portugal, português ou portuga).

(5) Espingarda automática G-3, de calibre 7.62, de origem alemã, que passou a equipar as forças armadas portuguesas no Ultramar. Em 1961 o exército português ainda estava equipado com a velha Mauser (!).

(6) Marca de uísque escocês, muito popular na época entre os militares (Havia uma generosa distribuição de bebidas alcoólicas nas frentes de guerra, com destaque para o uísque, "from Scotland for the exclusive use of the Portuguese Armed Forces"). Na época o salário de um soldado-atirador (cerca de 1500 a 1800 escudos, parte dos quais depositado na metrópole) dava para comprar mais de uma garrafa de uísque (novo) no serviço de aprivisionamento militar (cerca de 40 pesos ou escudos por unidade). No entanto, a bebida mais popular entre os soldados era cerveja. Uma garrafa de cerveja de 0,6 litros chamava-se bazuca.

21 abril 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - VII: O pessoal dos centros de saúde do Baixo Alentejo

1. Às vezes este país parece-me quase perfeito e sem mácula. Em certos dias. A uma certa hora. Em certos sítios. Visto de um determinado ângulo. Num dia qualquer, tirado à sorte do calendário. Por exemplo, no mês de Abril, em pleno Baixo Alentejo. Ao pôr do sol. Experimenta ver este país sentado no banco da frente do piso superior do autocarro. Ao sul. A 250 km ao sul de Lisboa. Ao fim da tarde. Ao pôr do sol.



2. Tu podes achar este país quase perfeito e sem mácula, numa viagem de regresso a casa, de Beja a Lisboa. Viaja sobre as planícies de Beja. Podes ver as cegonhas que não já trazem os bebés de França. Num certo troço da estrada não-sei-quantos que vai desembocar na A2. A tal, que é mais conhecida como a autoestrada do Sul, a que te leva para o Algarve. Visão panorâmica. A dois metros e meio acima do solo. Em voo raso de cegonha. Toma nota que a hora é importante para veres o teu país. Tal como o sítio e o ângulo de visão. Ao fim da tarde, no conforto relativo do autocarro da Rede Expresso. Nada como deixares o teu carro em Lisboa e viajares na Rede Expresso. Toma a viatura nº 95, de preferência o lugar nº 1. Podias ter reservado o bilhete pela Internet ou enviado um SMS. Mas não vais estragar este momento único contaminando os teus pensamentos poéticos com as coisas prosaicas das novas tecnologias.



3. Nada como um perfeito pôr do sol no Alentejo. Nada como um montado de sobro e um bando de cegonhas em formação de voo. De regresso a casa, também elas. Nada como um horizonte quase perfeito e sem mácula. Tão pouco como isto. Tu podes achar este país quase perfeito e sem mácula. Por nove euros e meio. Viajando na Rede Expresso. Em certos dias, a uma certa hora, em certos sítios. Saíndo de Beja, a caminho de Lisboa.



4. Tanto e tão pouco, afinal, para te reconciliares com o teu país. Noutra hora e noutro lugar, eu acrescentaria: Nada como um pedaço de pão alentejano, umas azeitonas com o gosto dos orégãos, um bocado de requeijão, uma roda de amigos. Na Festa de Nossa Senhora das Pazes, entre ficalheiros e azinheiras centenárias. Todos os anos no domingo seguinte à Páscoa. Este ano veio muito menos gente. Que a morte bateu, com mão pesada, a muitas portas de Vila Verde de Ficalho. Vinte e cinco mortes, dizem-me desde Janeiro. A festa e o luto não combinam. Mas veio gente de outras partes do mundo, do Montijo, do Seixal, do Barreiro, de Lisboa, da diáspora alentejana. E a alegria e a festa do reencontro são universais. Todos os anos na primeira semana a seguir à Páscoa. Quer faça chuva, quer faça sol. E mesmo que os homens não se incorporem na procissão da santa que dá três voltas à capelinha. A um tiro de distância da raia espanhola. Nossa Senhora das Pazes. Lembrando, pelo caminho, os ódios e os amores antigos que atraem e repelem os vizinhos separados pelas extremas de dois países do Al-Andaluz. Desde 1232 quando o lusitano e cristão D. Sancho II reconquista aos mouros a margem esquerda do Guadiana. Mesmo que haja quem queira desistir da vida. Ou dela se despedir com dignidade. Doutor, em passando a festa, eu dou um rumo à minha vida. E aí tu percebes a diferença entre ter e não ter um médico de família, um equipa de saúde, um centro de saúde, ao alcance do teu braço.



5. Para trás deixas o verde das searas de trigo, do Alentejo que ainda dá pão. Para trás deixas gente fantástica. No mínimo, gente competente, boa e generosa. Que trabalha nos centros de saúde e suas extensões do Baixo Alentejo. Para trás deixas amigos. Em Vila Verde de Ficalho. Em Serpa. Na Cuba. Na Vidigueira. Em Aljustrel. Em Almodôvar e no Alvito. Em Barrancos. Em Beja. De Castro Verde a Ferreira do Alentejo. Em Mértola e em Moura. Em Odemira ou em Ourique. Médicos de família, enfermeiros, administrativos. Em condições muitas vezes difíceis, sem o conforto do teu gabinete de Lisboa. Sem o ar condicionado da Sony. Com 37 graus à sombra. Com um frio de rachar. Com falta de equipamentos sociais. Dando consultas em insólitos lugares, como o Sporting Clube de A do Pinto. Ou fazendo SAP em velhos conventos transformados em hospitais. Remando contra a maré do individualismo, do cinismo, da arrogância, da gestão mercantilista da saúde, da descrença, da desmotivação. Remando contra os doentes da saúde, as vítimas da aculturação médica, os tiques, os taques, as contas, os ajustes de contas do Portugal Sociedade Anónima dos Hospitais, da indústria farmacêutica, dos lóbis, do poder, da política politiqueira... Gente que cuida dos outros e que se cuida pouco. Que cuida pouco de si própria. E que pode estar trinta anos numa carreira administrativa como terceiríssimos oficiais. Ou que continua a fazer urgências mesmo para além do limite legal de idade. Que trabalha sem rede. E que às vezes é até agredida ou maltratada.



6. Um dia quiseram trabalhar em equipa. Para prestar melhores cuidados de saúde. Para trabalhar com outra motivação e satisfação. Um dia pensaram na utopia igualitária. Nos idos anos de setenta. Que nenhum deles era perfeito mas que juntos podiam sê-lo. Que podiam organizar o trabalho nos cuidados de saúde primários numa base cooperativa e, sobretudo, igualitária. Fora da tradicional relação hierárquica chefe / subordinado ou especialista / leigo. Pondo também na equipa o utente. Subvertendo a organização burocrática que o prussiano Max Weber considerava o tipo-ideal da racionalidade legal.



Hoje a utopia não morreu. Mas está mais velha e cansada. A utopia também envelhece mas não morre. Há muito que as equipas nucleares de saúde perderam o seu vigor ou se desfizeram. Mas contaminaram a cultura organizacional da Sub-Região de Saúde de Beja. O bichinho está lá e não morreu. Sempre discordei dos que pensam a utopia sem tempo nem lugar. A utopia também pode ter um tempo e um lugar. Porque na sua dupla etimologia, utopia tanto quer dizer "nenhum lugar" (ou + topia) como "lugar perfeito" (eu + topia).



Eles não são heróis nem levam nenhum existência heróica. São portugas como os outros. Profissionais de saúde como os outros. Apenas fazem alguma diferença. Eu diria que é um certo modo de ser e de estar. Algo que não se ensina em escola nenhuma. Que não se aprende nos cursos de formação do Fundo Social Europeu. Para os quais não há receitas de cozinha. Pequenos detalhes que fazem a diferença. Por isso, por tudo isso, gostei de os ver, gostei de voltar a encontrá-los. Eles são portugas que merecem as minhas palmas. As nossas palmas.

Portugas que merecem as nossas palmas - VII: O pessoal dos centros de saúde do Baixo Alentejo

1. Às vezes este país parece-me quase perfeito e sem mácula. Em certos dias. A uma certa hora. Em certos sítios. Visto de um determinado ângulo. Num dia qualquer, tirado à sorte do calendário. Por exemplo, no mês de Abril, em pleno Baixo Alentejo. Ao pôr do sol. Experimenta ver este país sentado no banco da frente do piso superior do autocarro. Ao sul. A 250 km ao sul de Lisboa. Ao fim da tarde. Ao pôr do sol.

2. Tu podes achar este país quase perfeito e sem mácula, numa viagem de regresso a casa, de Beja a Lisboa. Viaja sobre as planícies de Beja. Podes ver as cegonhas que não já trazem os bebés de França. Num certo troço da estrada não-sei-quantos que vai desembocar na A2. A tal, que é mais conhecida como a autoestrada do Sul, a que te leva para o Algarve. Visão panorâmica. A dois metros e meio acima do solo. Em voo raso de cegonha. Toma nota que a hora é importante para veres o teu país. Tal como o sítio e o ângulo de visão. Ao fim da tarde, no conforto relativo do autocarro da Rede Expresso. Nada como deixares o teu carro em Lisboa e viajares na Rede Expresso. Toma a viatura nº 95, de preferência o lugar nº 1. Podias ter reservado o bilhete pela Internet ou enviado um SMS. Mas não vais estragar este momento único contaminando os teus pensamentos poéticos com as coisas prosaicas das novas tecnologias.

3. Nada como um perfeito pôr do sol no Alentejo. Nada como um montado de sobro e um bando de cegonhas em formação de voo. De regresso a casa, também elas. Nada como um horizonte quase perfeito e sem mácula. Tão pouco como isto. Tu podes achar este país quase perfeito e sem mácula. Por nove euros e meio. Viajando na Rede Expresso. Em certos dias, a uma certa hora, em certos sítios. Saíndo de Beja, a caminho de Lisboa.

4. Tanto e tão pouco, afinal, para te reconciliares com o teu país. Noutra hora e noutro lugar, eu acrescentaria: Nada como um pedaço de pão alentejano, umas azeitonas com o gosto dos orégãos, um bocado de requeijão, uma roda de amigos. Na Festa de Nossa Senhora das Pazes, entre ficalheiros e azinheiras centenárias. Todos os anos no domingo seguinte à Páscoa. Este ano veio muito menos gente. Que a morte bateu, com mão pesada, a muitas portas de Vila Verde de Ficalho. Vinte e cinco mortes, dizem-me desde Janeiro. A festa e o luto não combinam. Mas veio gente de outras partes do mundo, do Montijo, do Seixal, do Barreiro, de Lisboa, da diáspora alentejana. E a alegria e a festa do reencontro são universais. Todos os anos na primeira semana a seguir à Páscoa. Quer faça chuva, quer faça sol. E mesmo que os homens não se incorporem na procissão da santa que dá três voltas à capelinha. A um tiro de distância da raia espanhola. Nossa Senhora das Pazes. Lembrando, pelo caminho, os ódios e os amores antigos que atraem e repelem os vizinhos separados pelas extremas de dois países do Al-Andaluz. Desde 1232 quando o lusitano e cristão D. Sancho II reconquista aos mouros a margem esquerda do Guadiana. Mesmo que haja quem queira desistir da vida. Ou dela se despedir com dignidade. Doutor, em passando a festa, eu dou um rumo à minha vida. E aí tu percebes a diferença entre ter e não ter um médico de família, um equipa de saúde, um centro de saúde, ao alcance do teu braço.

5. Para trás deixas o verde das searas de trigo, do Alentejo que ainda dá pão. Para trás deixas gente fantástica. No mínimo, gente competente, boa e generosa. Que trabalha nos centros de saúde e suas extensões do Baixo Alentejo. Para trás deixas amigos. Em Vila Verde de Ficalho. Em Serpa. Na Cuba. Na Vidigueira. Em Aljustrel. Em Almodôvar e no Alvito. Em Barrancos. Em Beja. De Castro Verde a Ferreira do Alentejo. Em Mértola e em Moura. Em Odemira ou em Ourique. Médicos de família, enfermeiros, administrativos. Em condições muitas vezes difíceis, sem o conforto do teu gabinete de Lisboa. Sem o ar condicionado da Sony. Com 37 graus à sombra. Com um frio de rachar. Com falta de equipamentos sociais. Dando consultas em insólitos lugares, como o Sporting Clube de A do Pinto. Ou fazendo SAP em velhos conventos transformados em hospitais. Remando contra a maré do individualismo, do cinismo, da arrogância, da gestão mercantilista da saúde, da descrença, da desmotivação. Remando contra os doentes da saúde, as vítimas da aculturação médica, os tiques, os taques, as contas, os ajustes de contas do Portugal Sociedade Anónima dos Hospitais, da indústria farmacêutica, dos lóbis, do poder, da política politiqueira... Gente que cuida dos outros e que se cuida pouco. Que cuida pouco de si própria. E que pode estar trinta anos numa carreira administrativa como terceiríssimos oficiais. Ou que continua a fazer urgências mesmo para além do limite legal de idade. Que trabalha sem rede. E que às vezes é até agredida ou maltratada.

6. Um dia quiseram trabalhar em equipa. Para prestar melhores cuidados de saúde. Para trabalhar com outra motivação e satisfação. Um dia pensaram na utopia igualitária. Nos idos anos de setenta. Que nenhum deles era perfeito mas que juntos podiam sê-lo. Que podiam organizar o trabalho nos cuidados de saúde primários numa base cooperativa e, sobretudo, igualitária. Fora da tradicional relação hierárquica chefe / subordinado ou especialista / leigo. Pondo também na equipa o utente. Subvertendo a organização burocrática que o prussiano Max Weber considerava o tipo-ideal da racionalidade legal.

Hoje a utopia não morreu. Mas está mais velha e cansada. A utopia também envelhece mas não morre. Há muito que as equipas nucleares de saúde perderam o seu vigor ou se desfizeram. Mas contaminaram a cultura organizacional da Sub-Região de Saúde de Beja. O bichinho está lá e não morreu. Sempre discordei dos que pensam a utopia sem tempo nem lugar. A utopia também pode ter um tempo e um lugar. Porque na sua dupla etimologia, utopia tanto quer dizer "nenhum lugar" (ou + topia) como "lugar perfeito" (eu + topia).

Eles não são heróis nem levam nenhum existência heróica. São portugas como os outros. Profissionais de saúde como os outros. Apenas fazem alguma diferença. Eu diria que é um certo modo de ser e de estar. Algo que não se ensina em escola nenhuma. Que não se aprende nos cursos de formação do Fundo Social Europeu. Para os quais não há receitas de cozinha. Pequenos detalhes que fazem a diferença. Por isso, por tudo isso, gostei de os ver, gostei de voltar a encontrá-los. Eles são portugas que merecem as minhas palmas. As nossas palmas.

13 abril 2004

Portugal sacro-profano - XIX: Boas e Santas Páscoas. Nós, por cá, todos bem!

1. É domingo de Páscoa na aldeia. Faz frio mas o sol está esplêndido. É um daqueles dias em que a gente se reconcilia com a vida. Nem que seja por uns breves instantes. Com a vida, mas não necessariamente com o mundo. Como o Eça e o seu príncipe Jacinto, em Tormes, aqui ao lado, à volta de um copo de vinho branco e de umas favas suadas. A manhã, primaveril, traz-me os sons, as cores e os cheiros do campo. Um outro campo que não o da minha infância. Descobri, tarde, esta parte do Portugal sacro-profano que me dizem ser mais celta do que mouro.

2. Um citadino não sabe o que é isso de ouvir, logo pela manhã, os galos a cantar nos galinheiros. Ou ver as cerdeiras (cerejeiras) em flor. Ou observar os melros de bico amarelo pousados nas videiras que desabrocham. Um citadino nunca ouviu falar dos gaviões nem das suas frágeis presas. Nem sabe por que auto-estradas andam as toupeiras e os ouriços-caixeiros deste país. Nem por que razão falam alto e bom som as gentes de além-Douro. Nem o seu gosto desmedido pelo fogo que ribomba como o trovão.

3. Nos campos de erva, de diversas tonalidades de verde, são visíveis as partes que foram cortadas para as ovelhas, agora recolhidas nas cortes à medida que os gamões das videiras crescem a olhos vistos. Na grande matança da Páscoa, o sacrificado é o cordeiro, o anho, o ex-libris da gastronomia da região. Ao longe ouve-se o estralejar dos foguetes. O compasso pascal anda por aí. Com a cruz abrindo os tortuosos caminhos e exorcizando os medos ancestrais. In hoc signo vinces. Desde Constantino, o Imperador, que a cruz marca a vida dos camponeses, do nascer ao morrer. Com este sinal vencerás. Vai levar dois dias a percorrer a freguesia. A cruz, o Cristo pregado na cruz, o compasso, os homens da opa vermelha e o menino da sineta, de sobrepeliz branca como o anjo. Menos de mil almas e algumas escassas centenas de fogos a visitar. Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou, diz o homem da opa vermelha, o mordomo da festa sacro-profana.

4. Em frente o vale e a montanha. O rio Douro ao fundo. Pacificado. Cem anos depois, o Eça não voltaria a escrever A cidade e as serras. Há trinta ou quarenta anos atrás, talvez. Havia ainda um mundo a desmoronar-se. E testemunhas vivas desse mundo. O mundo dos rendeiros e dos camponeses pobres que decidiram trocar o arado e as juntas de bois pela linha de montagem automóvel ou pelos chantiers da construção civil nos arredores de Paris. Hoje há a barragem do Carrapatelo, as antenas das telecomunicações e os moinhos eólicos no alto das serras. E o Mercedes de matrícula K. O progresso cobra o seu preço. A globalização também. Estradas e estradões esventraram o cenário bucólico que escondia a miséria dos casebres dos cabaneiros, os mais pobres dos pobres. O Zé do Telhado já há muito que morreu, desterrado em Angola, mas ainda continua meio vivo na memória das gentes do Douro Litoral. Os netos dos antigos senhores, os fidalgos,proprietários agrícolas absentistas da Foz do Douro, recuperam as casas dos caseiros e fazem delas a sua casa de campo. Com piscina e court de ténis. O povoamento continua disperso pelo verde e pelos socalcos. Os montes estão carecas depois das últimas décadas de incêndios. Já há muito que regressou o último soldado das colónias e se escreveu o último aerograma. E o Porto aqui tão perto. Cada vez mais perto com as auto-estradas, as IP e as IC do país motorizado.

5. Um mundo quase perfeito, visto da janela do meu quarto. Domingo de Páscoa, de manhã. Faltam-lhe só, porventura, os camponeses, que morreram. E os que emigraram. E os que não voltaram. E os que morreram, mal nasceram. Que as famílias eram numerosas mas a mortalidade infantil altíssima. Passo os olhos pelas paredes da casa, de grosso granito. Já albergaram sete ou oito gerações. Não é nada, se tu souberes que os australopitecos, teus antepassados, evoluíram há 5 milhões de anos, 200 mil gerações atrás.

6. No Século XXI, Cristo continua a ressuscitar todos os anos, pela Páscoa. No Entre-Douro e Minho da minha aldeia. E os cristãos reunem-se em casa uns dos outros para comer o agnus Dei com arroz de forno. E para celebrar o milagre da vida. A vitória da vida sobre a morte. Há quinhentos anos que se deitam foguetes nas vilas e aldeias do Portugal sacro-profano. Não sei nada da história do fogo de artifício. Sei apenas que veio da velha China com as naus quinhentistas. Para celebrar a ressurreição de Cristo. Ou mais prosaicamente para fazer a festa. Que é a vitória sobre o trabalho. O tripaliu(m) que mata a gente. E para marcar o tempo, o fluir do tempo, o solstício do inverno e do verão, a inexorável usura do tempo. E todos os anos pela Páscoa, eu, descendente de austrapolitecos, assisto da minha varanda de granito à alegria infantil dos camponeses durienses que já morreram, face à orgia de fogo que assinala, em cada freguesia, o recolher do compasso pascal. Da minha janela vejo o mundo ou uma parte dele, mesmo ínfíma: Paredes de Viadores, Mesquinhata, Santa Leocádia, Porto Antigo, Paços de Gaiolo... Estes nomes, medievos, passaram a ser-me familiares. E as serras à volta do meu presépio: Montemuro, Aboboreira... Mas este ano, os de Paço é que lançaram o fogo mais vistoso: dois mil contos de réis!, dizem as gentes da terra, ainda incapazes de raciocinar em termos de euros, de milhões de euros. Capricharam, os de Paços de Gaiolo, mas também é verdade que eles têm o dobro dos fogos da minha adoptiva freguesia de Paredes dxe Viadores.

7. Da janela do quarto da aldeia que eu também fiz minha, só não posso ver o mar. E faz-me falta o mar. E o pôr do sol no mar. Na exacta e nítida linha do horizonte. Ah!, quanto falta nos faz o mar, ó Sofia, deusa grega antiga. Mas não penso nele, no mar. Nem na mediterrânica luz da poesia da Sofia. Neste domingo de Páscoa, se me é legítimo ter um pensamento de admiração e agradecimento, ele vai direitinho para os meus australopitecos que nunca terão chegado a estas terras frias de Candoz e de Fandinhães, parte do concelho, extinto em 1836, a que chamavam Bem Viver. Sei também que nunca receberão as minhas mensagens, porque já estão extintos, mas eu mandei-lhes um SMS: "Boas e Santas Páscoas. Nós por cá, todos bem!".

Portugal sacro-profano - XIX: Boas e Santas Páscoas. Nós, por cá, todos bem!

1. É domingo de Páscoa na aldeia. Faz frio mas o sol está esplêndido. É um daqueles dias em que a gente se reconcilia com a vida. Nem que seja por uns breves instantes. Com a vida, mas não necessariamente com o mundo. Como o Eça e o seu príncipe Jacinto, em Tormes, aqui ao lado, à volta de um copo de vinho branco e de umas favas suadas. A manhã, primaveril, traz-me os sons, as cores e os cheiros do campo. Um outro campo que não o da minha infância. Descobri, tarde, esta parte do Portugal sacro-profano que me dizem ser mais celta do que mouro.

2. Um citadino não sabe o que é isso de ouvir, logo pela manhã, os galos a cantar nos galinheiros. Ou ver as cerdeiras (cerejeiras) em flor. Ou observar os melros de bico amarelo pousados nas videiras que desabrocham. Um citadino nunca ouviu falar dos gaviões nem das suas frágeis presas. Nem sabe por que auto-estradas andam as toupeiras e os ouriços-caixeiros deste país. Nem por que razão falam alto e bom som as gentes de além-Douro. Nem o seu gosto desmedido pelo fogo que ribomba como o trovão.

3. Nos campos de erva, de diversas tonalidades de verde, são visíveis as partes que foram cortadas para as ovelhas, agora recolhidas nas cortes à medida que os gamões das videiras crescem a olhos vistos. Na grande matança da Páscoa, o sacrificado é o cordeiro, o anho, o ex-libris da gastronomia da região. Ao longe ouve-se o estralejar dos foguetes. O compasso pascal anda por aí. Com a cruz abrindo os tortuosos caminhos e exorcizando os medos ancestrais. In hoc signo vinces. Desde Constantino, o Imperador, que a cruz marca a vida dos camponeses, do nascer ao morrer. Com este sinal vencerás. Vai levar dois dias a percorrer a freguesia. A cruz, o Cristo pregado na cruz, o compasso, os homens da opa vermelha e o menino da sineta, de sobrepeliz branca como o anjo. Menos de mil almas e algumas escassas centenas de fogos a visitar. Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou, diz o homem da opa vermelha, o mordomo da festa sacro-profana.

4. Em frente o vale e a montanha. O rio Douro ao fundo. Pacificado. Cem anos depois, o Eça não voltaria a escrever A cidade e as serras. Há trinta ou quarenta anos atrás, talvez. Havia ainda um mundo a desmoronar-se. E testemunhas vivas desse mundo. O mundo dos rendeiros e dos camponeses pobres que decidiram trocar o arado e as juntas de bois pela linha de montagem automóvel ou pelos chantiers da construção civil nos arredores de Paris. Hoje há a barragem do Carrapatelo, as antenas das telecomunicações e os moinhos eólicos no alto das serras. E o Mercedes de matrícula K. O progresso cobra o seu preço. A globalização também. Estradas e estradões esventraram o cenário bucólico que escondia a miséria dos casebres dos cabaneiros, os mais pobres dos pobres. O Zé do Telhado já há muito que morreu, desterrado em Angola, mas ainda continua meio vivo na memória das gentes do Douro Litoral. Os netos dos antigos senhores, os fidalgos,proprietários agrícolas absentistas da Foz do Douro, recuperam as casas dos caseiros e fazem delas a sua casa de campo. Com piscina e court de ténis. O povoamento continua disperso pelo verde e pelos socalcos. Os montes estão carecas depois das últimas décadas de incêndios. Já há muito que regressou o último soldado das colónias e se escreveu o último aerograma. E o Porto aqui tão perto. Cada vez mais perto com as auto-estradas, as IP e as IC do país motorizado.

5. Um mundo quase perfeito, visto da janela do meu quarto. Domingo de Páscoa, de manhã. Faltam-lhe só, porventura, os camponeses, que morreram. E os que emigraram. E os que não voltaram. E os que morreram, mal nasceram. Que as famílias eram numerosas mas a mortalidade infantil altíssima. Passo os olhos pelas paredes da casa, de grosso granito. Já albergaram sete ou oito gerações. Não é nada, se tu souberes que os australopitecos, teus antepassados, evoluíram há 5 milhões de anos, 200 mil gerações atrás.

6. No Século XXI, Cristo continua a ressuscitar todos os anos, pela Páscoa. No Entre-Douro e Minho da minha aldeia. E os cristãos reunem-se em casa uns dos outros para comer o agnus Dei com arroz de forno. E para celebrar o milagre da vida. A vitória da vida sobre a morte. Há quinhentos anos que se deitam foguetes nas vilas e aldeias do Portugal sacro-profano. Não sei nada da história do fogo de artifício. Sei apenas que veio da velha China com as naus quinhentistas. Para celebrar a ressurreição de Cristo. Ou mais prosaicamente para fazer a festa. Que é a vitória sobre o trabalho. O tripaliu(m) que mata a gente. E para marcar o tempo, o fluir do tempo, o solstício do inverno e do verão, a inexorável usura do tempo. E todos os anos pela Páscoa, eu, descendente de austrapolitecos, assisto da minha varanda de granito à alegria infantil dos camponeses durienses que já morreram, face à orgia de fogo que assinala, em cada freguesia, o recolher do compasso pascal. Da minha janela vejo o mundo ou uma parte dele, mesmo ínfíma: Paredes de Viadores, Mesquinhata, Santa Leocádia, Porto Antigo, Paços de Gaiolo... Estes nomes, medievos, passaram a ser-me familiares. E as serras à volta do meu presépio: Montemuro, Aboboreira... Mas este ano, os de Paço é que lançaram o fogo mais vistoso: dois mil contos de réis!, dizem as gentes da terra, ainda incapazes de raciocinar em termos de euros, de milhões de euros. Capricharam, os de Paços de Gaiolo, mas também é verdade que eles têm o dobro dos fogos da minha adoptiva freguesia de Paredes dxe Viadores.

7. Da janela do quarto da aldeia que eu também fiz minha, só não posso ver o mar. E faz-me falta o mar. E o pôr do sol no mar. Na exacta e nítida linha do horizonte. Ah!, quanto falta nos faz o mar, ó Sofia, deusa grega antiga. Mas não penso nele, no mar. Nem na mediterrânica luz da poesia da Sofia. Neste domingo de Páscoa, se me é legítimo ter um pensamento de admiração e agradecimento, ele vai direitinho para os meus australopitecos que nunca terão chegado a estas terras frias de Candoz e de Fandinhães, parte do concelho, extinto em 1836, a que chamavam Bem Viver. Sei também que nunca receberão as minhas mensagens, porque já estão extintos, mas eu mandei-lhes um SMS: "Boas e Santas Páscoas. Nós por cá, todos bem!".