11 outubro 2004

BlogAngola - I: O meu álbum de fotografias de Luanda

Car@s ciberamig@s (avilos ou cambas, na fala de Angola):

Ficam convidad@s para visitar os meus mais recentes álbuns de fotografia sobre Angola. Na volta, espero que me façam chegar críticas, sugestões e comentários.O meu propósito é sobretudo (in)formativo. Este é um olhar possível, o meu olhar, sobre Angola, e mais concretamente Luanda e os seus arredores, que eu conheci pela primeira vez em Setembro de 2003.

É trabalho de um turista acidental, modesto, despretensioso, feito mais com o coração do que com a razão, que tem por objectivo dar a conhecer melhor a Angola e os angolanos de hoje… É um trabalho generoso e solidário, mas que não deixa de ser crítico... É também uma pequena homenagem aos meus amigos angolanos.

O álbum está alojado no Portal Care2.com. Está divido em sete áeras temáticas:

Angola > Paisagens / Landscapes
Angola > Saúde / Public Health
Angola > Trabalho / Work
Angola > Luanda > Cidade / City
Angola > Luanda > Soleme Hospedaria / Guest House
Angola > Luanda > Musseques / Urban Slums
Angola > Os meus amigos / My friends

Aqui fica uma pequena amostra. Até à data, tenho nos vários álbuns temáticos mais de duas centena de fotografias disponíveis para visualização. Foram tiradas em Canon Dgital IXUS 430 e depois editadas, estando legendadas em português (ou melhor, sociologuês) e em inglês...

1. Angola > Paisagens / Landscapes:

Portuguese version / Versão em português:

Angola: Um imenso parto com dor, um grande país lusófono, um grande povo irmão, uma grande nação africana em construção, uma mãe natureza generosa... Espero que o povo angolano rapidamente encontre os caminhos da verdadeira independência,da verdadeira liberdade e da verdadeira paz, que não volte a ter mais nenhuma madrasta (nem nenhum padastro), que recupere a sua identidade, que tenha orgulho em si próprio e que seja um exemplo para todos os outros povos de África e para o resto do mundo, incluindo nós, os tugas. Este álbum é também uma pequena homenagem aos angolanos que aamm a sua terra. Como diz Hondjaki, no seu romance "Quantas madrugadas tem a noite" (Luanda: Nzila, 2004.184); " vamos só, malembemente - faz conta somos os cágados e as lesmas - enfrentar o nosso dia-a-dia: se essa é a terra que nascemos com ela, vamos afzer mais como então...?".

English version / Versão em inglês:

Angola: It has been a childbirth with pain, but it is today a great Portuguese-speaking country, a brother country.. It is also a great African nation under construction, a generous mother nature... I wait that the Angolan people quickly finds the main path for the true independence, the true freedom and the true peace... Angola needs to rediscover and claim its roots, its identity, its pride and its self-esteem in order to become an example to all the world, including the Portuguese guys. This photo album is also a small but friendly homage to the Angolan people, including the novelist Hondjaki whose last novel I have enjoyed very much.



Legenda: A liberdade só pode ser livre. Aves exercendo o direito à liberdade.
Angola, Luanda, algures numa das praias atlânticas da península do Mussulo. 26 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)


2. Angola - Saúde / Public Health:

Portuguese version / Versão em português:

O futuro de Angola não são (só...) as suas riquezas naturais (o petróleo, os diamantes e outros recursos minerais), são sobretudo as suas crianças... O seu futuro vai depender do investimento que for feito na saúde e na educação dos seus filhos... Há grandes desafios que se põem à saúde pública em Angola: (i) a luta contra a malária, a tuberculose, a Sida, a mortalidade infantil...; (ii) a reorganização e modernização do Serviço Nacional de Saúde; (iii) a melhoria das competências em gestão dos responsáveis dos serviços públicos de saúde; etc.

English version / Versão em inglês:

The future of Angola is not only its natural wealth (the mineral oil, the diamonds and the other underground resources), it is mainly its children... Its future depends on the health and education investments... Public health is facing great challenges but also opportunities: (i) the fight against the malaria, the tuberculosis, the AIDS/HIV, infantile mortality...; (ii) the reorganization and modernization of the National Health Service; (iii) the improvement in management knowledge and skills concerning the medical doctors and other health professionals in charge of hospitals and health centres.



Legenda: O futuro de Angola são as suas crianças... Criança que vai para a escola. Luanda, Maianga, Hospedaria Soleme. 30 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)


3. Angola - Luanda - Cidade:

Portuguese verson / Versão em português:

Veja (ou reveja) Luanda, de mente aberta, sem estereótipos, sem preconceitos, sem ressentimentos... O património cultural, as ruas, o quotidiano, o trabalho, as gentes, a gente boa e corajosa que lá vive... Veja o mapa da cidade em: http://www.gindungo-online.freehomepage.com/tourist_attractions.htm

English version:

Be a open-minded guy and see (or see again) Luanda without stereotypes and prejudices: its cultural heritage, the streets, the work, the everyday life, the nice and brave people who is living there... Please look at the city map on: http://www.gindungo-online.freehomepage.com/tourist_attractions.htm

Legenda: Vendedeiras nas imediações do hospital Maria Pia/Josina Machel. Luanda, Maianga. 22 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

4. Angola - Luanda - Musseques / Urban Slums:

Portuguese version / Versão em português:

Luanda, o grande musseque... Uma cidade de 3 e meio a 4 milhões de habitantes, na sua maior parte deslocados e desenraízados devido a décadas de guerra... 40 km de comprido por 20 de largo, diz-me o meu taxista, usando o olhómetro e a sua experiência de kaluanda que conhece Seca e Meca... Em kimbundu, musseque quer dizer 'terreno ou local arenoso'...

English version / Versão em inglês: Luanda, the big slum... People living here are over 3 or 4 million, the great majority of them having been dislocated by a long and cruel war... In Kimbundu, 'musseque' (slum) means 'built with sand'...




Legenda: A Odebrecht em acção... Estrada do sul, ao longo do Musseque da Samba, à saída de Luanda. Inúmeros casas do bairro foram ou estão a ser demolidas por causa do alargamento da estrada e das obras de saneamento. A Odebrecht Angola Lda emprega quadros brasileiros e operários angolanos. Disseram-me que os salários médios dos angolanos não devem ultrapassar os 100 a 120 dólares/mês. 20 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

5. Angola - Luanda - Soleme Guest House:

Portuguese version / Versão portuguesa:

Soleme, hospedaria, pensão, 'guest house'... Chamem-lhe o que quiserem. Aqui sinto-me em casa. Provalmente o sítio mais cosmopolita e, ao mesmo tempo,amigável de Luanda... A minha chapelada à Lady Eugénia e às demais meninas Leal Monteiro: Paulina, Rita, Antónia, Magui... E aos cavalheiros: o Jaime, o embaixador Norberto...

English version: Soleme is a good place to stay in Luanda: located at the Maianga quarter, it is close to Josina Machel Hospital, the President's Palace and the Angolan Parliament. It belongs to the Portuguese-origin family Leal Monteiro. I wish a long life to Mrs. Maria Eulalia Augusta, the 97 year old matriarch of this nice family. She had eight children, two sons and six daughters. Her husband, Jaime, would celebrated 100 years if alive today. Many thanks to Gena, Paulina, Rita, Jaime, Norberto (the embassador), Antónia (Viteix's widow) and the nice and gentle people I have met there, including a lot of world citizens.



Legenda: Hospedaria Soleme: Fachada Principal. Luanda, Maianga. 19 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

6. Angola - Trabalho / Work:

Portuguese version / Versão em português:

O trabalho não é pera doce em Angola, ou pelo menos em Luanda, cidade de formiguinhas... Do segurança ao padeiro, do condutor de candongueiro à quitandeira, trabalha-se no duro, muitas horas, para no fim levar para a casa umas escassas centenas de kwanzas...

English version / Versão em inglês: In Luanda one works very hard. These photos ilustrate people's struggle for life, from the crazy, collective taxi drivers to the thousands of 'zungueiros', men and specially women who make their living selling goods on the streets. The price of one piece of bread is equivalent to one litre of oil, twenty kwanzas.



Legenda: "Não há vagas, obrigado". Estaleiro de construção. Futura sede do Centro Nacional de Informação sobre o Sida. Luanda, Maianga. 21 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

BlogAngola - I: O meu álbum de fotografias de Luanda

Car@s ciberamig@s (avilos ou cambas, na fala de Angola):

Ficam convidad@s para visitar os meus mais recentes álbuns de fotografia sobre Angola. Na volta, espero que me façam chegar críticas, sugestões e comentários.O meu propósito é sobretudo (in)formativo. Este é um olhar possível, o meu olhar, sobre Angola, e mais concretamente Luanda e os seus arredores, que eu conheci pela primeira vez em Setembro de 2003.

É trabalho de um turista acidental, modesto, despretensioso, feito mais com o coração do que com a razão, que tem por objectivo dar a conhecer melhor a Angola e os angolanos de hoje… É um trabalho generoso e solidário, mas que não deixa de ser crítico... É também uma pequena homenagem aos meus amigos angolanos.

O álbum está alojado no Portal Care2.com. Está divido em sete áeras temáticas:

Angola > Paisagens / Landscapes
Angola > Saúde / Public Health
Angola > Trabalho / Work
Angola > Luanda > Cidade / City
Angola > Luanda > Soleme Hospedaria / Guest House
Angola > Luanda > Musseques / Urban Slums
Angola > Os meus amigos / My friends

Aqui fica uma pequena amostra. Até à data, tenho nos vários álbuns temáticos mais de duas centena de fotografias disponíveis para visualização. Foram tiradas em Canon Dgital IXUS 430 e depois editadas, estando legendadas em português (ou melhor, sociologuês) e em inglês...

1. Angola > Paisagens / Landscapes:

Portuguese version / Versão em português:

Angola: Um imenso parto com dor, um grande país lusófono, um grande povo irmão, uma grande nação africana em construção, uma mãe natureza generosa... Espero que o povo angolano rapidamente encontre os caminhos da verdadeira independência,da verdadeira liberdade e da verdadeira paz, que não volte a ter mais nenhuma madrasta (nem nenhum padastro), que recupere a sua identidade, que tenha orgulho em si próprio e que seja um exemplo para todos os outros povos de África e para o resto do mundo, incluindo nós, os tugas. Este álbum é também uma pequena homenagem aos angolanos que aamm a sua terra. Como diz Hondjaki, no seu romance "Quantas madrugadas tem a noite" (Luanda: Nzila, 2004.184); " vamos só, malembemente - faz conta somos os cágados e as lesmas - enfrentar o nosso dia-a-dia: se essa é a terra que nascemos com ela, vamos afzer mais como então...?".

English version / Versão em inglês:

Angola: It has been a childbirth with pain, but it is today a great Portuguese-speaking country, a brother country.. It is also a great African nation under construction, a generous mother nature... I wait that the Angolan people quickly finds the main path for the true independence, the true freedom and the true peace... Angola needs to rediscover and claim its roots, its identity, its pride and its self-esteem in order to become an example to all the world, including the Portuguese guys. This photo album is also a small but friendly homage to the Angolan people, including the novelist Hondjaki whose last novel I have enjoyed very much.



Legenda: A liberdade só pode ser livre. Aves exercendo o direito à liberdade.
Angola, Luanda, algures numa das praias atlânticas da península do Mussulo. 26 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)


2. Angola - Saúde / Public Health:

Portuguese version / Versão em português:

O futuro de Angola não são (só...) as suas riquezas naturais (o petróleo, os diamantes e outros recursos minerais), são sobretudo as suas crianças... O seu futuro vai depender do investimento que for feito na saúde e na educação dos seus filhos... Há grandes desafios que se põem à saúde pública em Angola: (i) a luta contra a malária, a tuberculose, a Sida, a mortalidade infantil...; (ii) a reorganização e modernização do Serviço Nacional de Saúde; (iii) a melhoria das competências em gestão dos responsáveis dos serviços públicos de saúde; etc.

English version / Versão em inglês:

The future of Angola is not only its natural wealth (the mineral oil, the diamonds and the other underground resources), it is mainly its children... Its future depends on the health and education investments... Public health is facing great challenges but also opportunities: (i) the fight against the malaria, the tuberculosis, the AIDS/HIV, infantile mortality...; (ii) the reorganization and modernization of the National Health Service; (iii) the improvement in management knowledge and skills concerning the medical doctors and other health professionals in charge of hospitals and health centres.



Legenda: O futuro de Angola são as suas crianças... Criança que vai para a escola. Luanda, Maianga, Hospedaria Soleme. 30 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)


3. Angola - Luanda - Cidade:

Portuguese verson / Versão em português:

Veja (ou reveja) Luanda, de mente aberta, sem estereótipos, sem preconceitos, sem ressentimentos... O património cultural, as ruas, o quotidiano, o trabalho, as gentes, a gente boa e corajosa que lá vive... Veja o mapa da cidade em: http://www.gindungo-online.freehomepage.com/tourist_attractions.htm

English version:

Be a open-minded guy and see (or see again) Luanda without stereotypes and prejudices: its cultural heritage, the streets, the work, the everyday life, the nice and brave people who is living there... Please look at the city map on: http://www.gindungo-online.freehomepage.com/tourist_attractions.htm

Legenda: Vendedeiras nas imediações do hospital Maria Pia/Josina Machel. Luanda, Maianga. 22 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

4. Angola - Luanda - Musseques / Urban Slums:

Portuguese version / Versão em português:

Luanda, o grande musseque... Uma cidade de 3 e meio a 4 milhões de habitantes, na sua maior parte deslocados e desenraízados devido a décadas de guerra... 40 km de comprido por 20 de largo, diz-me o meu taxista, usando o olhómetro e a sua experiência de kaluanda que conhece Seca e Meca... Em kimbundu, musseque quer dizer 'terreno ou local arenoso'...

English version / Versão em inglês: Luanda, the big slum... People living here are over 3 or 4 million, the great majority of them having been dislocated by a long and cruel war... In Kimbundu, 'musseque' (slum) means 'built with sand'...




Legenda: A Odebrecht em acção... Estrada do sul, ao longo do Musseque da Samba, à saída de Luanda. Inúmeros casas do bairro foram ou estão a ser demolidas por causa do alargamento da estrada e das obras de saneamento. A Odebrecht Angola Lda emprega quadros brasileiros e operários angolanos. Disseram-me que os salários médios dos angolanos não devem ultrapassar os 100 a 120 dólares/mês. 20 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

5. Angola - Luanda - Soleme Guest House:

Portuguese version / Versão portuguesa:

Soleme, hospedaria, pensão, 'guest house'... Chamem-lhe o que quiserem. Aqui sinto-me em casa. Provalmente o sítio mais cosmopolita e, ao mesmo tempo,amigável de Luanda... A minha chapelada à Lady Eugénia e às demais meninas Leal Monteiro: Paulina, Rita, Antónia, Magui... E aos cavalheiros: o Jaime, o embaixador Norberto...

English version: Soleme is a good place to stay in Luanda: located at the Maianga quarter, it is close to Josina Machel Hospital, the President's Palace and the Angolan Parliament. It belongs to the Portuguese-origin family Leal Monteiro. I wish a long life to Mrs. Maria Eulalia Augusta, the 97 year old matriarch of this nice family. She had eight children, two sons and six daughters. Her husband, Jaime, would celebrated 100 years if alive today. Many thanks to Gena, Paulina, Rita, Jaime, Norberto (the embassador), Antónia (Viteix's widow) and the nice and gentle people I have met there, including a lot of world citizens.



Legenda: Hospedaria Soleme: Fachada Principal. Luanda, Maianga. 19 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

6. Angola - Trabalho / Work:

Portuguese version / Versão em português:

O trabalho não é pera doce em Angola, ou pelo menos em Luanda, cidade de formiguinhas... Do segurança ao padeiro, do condutor de candongueiro à quitandeira, trabalha-se no duro, muitas horas, para no fim levar para a casa umas escassas centenas de kwanzas...

English version / Versão em inglês: In Luanda one works very hard. These photos ilustrate people's struggle for life, from the crazy, collective taxi drivers to the thousands of 'zungueiros', men and specially women who make their living selling goods on the streets. The price of one piece of bread is equivalent to one litre of oil, twenty kwanzas.



Legenda: "Não há vagas, obrigado". Estaleiro de construção. Futura sede do Centro Nacional de Informação sobre o Sida. Luanda, Maianga. 21 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

09 outubro 2004

Portugas que merecem os nossos assobios - IV: O camartelo da Câmara Municipal de Lisboa

1. Estão a destruir o Convento dos Inglesinhos, no Bairro Alto. Recebi um alerta através da minha caixa de correio. Ontem, sexta-feira, dia 8 de Outubro, pelas 22 hoars, estava convocada uma vigília na Travessa dos Inglesinhos,para protestar contra mais um crime de lesa-património que está a ser alvo a nossa cidade, a nossa capital...



2. Aqui fica o texto que recebi ontem, com pedido de ampla divulgação:



"O Bairro Alto está a ser vítima de mais um abuso por parte da Câmara Municipal! Depois da demolição de um quarteirão antigo entre a Rua da Rosa e Rua do Trombeta para a construção de um Condomínio Privado, é tempo de proceder a mais uma destruição: Desta vez o ataque é ao CONVENTO DOS INGLESINHOS!



"A sua descaracterização já está em curso, É URGENTE TRAVÁ-LA ! Património inalienável deste Bairro, cuja construção é do século XVII, portador de uma enorme riqueza, desde os seus muros ao seu jardim de árvores centenárias, enquadrando a magnificência da Igreja de São Pedro e São Paulo e os seus preciosos salões, a sua cozinha e as suas celas, culminando com o Observatório dos seus terraços de onde se pode contemplar a cidade de Lisboa, de nascente a poente, de norte a sul!



"Monumento magnífico implantado em espaço desafogado na mais alta vertente deste Bairro Alto de construção densa e carente de espaços livres, vendido e deixado ao abandono e à especulação imobiliária pela Santa Casa da Misericórdia, a sua existência é vital para o equilíbrio ecológico do Bairro e da Cidade e como tal deve ser recuperado PARA USO E FRUIÇÃO DE TODOS OS CIDADÃOS !



"O Grupo Amorim aproveitou-se do desprezo da Câmara pelo património

colectivo e quer transformar o CONVENTO DOS INGLESINHOS num Condomínio

de Apartamentos de Luxo. VERGONHA: O IPPAR TAMBÉM APROVOU !!!



"Os moradores do Bairro Alto recusam a desfiguração sistemática do seu

Bairro e apelam à presença de todos numa vigília de protesto. VAMOS TRAVAR ESTE 'NEGÓCIO' CONTRA O BAIRRO ALTO !"





3. Ouvi também ecos na imprensa sobre o que se está a passar, bem como da mobilização de moradores do Bairro Alto, incluindo personalidades com relevo na nossa sociedade e na nossa cultura, como por exemplo o cineasta José Fonseca e Costa.



A mim também muito me indigna o que se está a passar. Espero, ao menos, que os 'habitués' do Bairro Alto, e muito em particular os nossos jovens, tenham sensibilidade e coragem para se baterem contra mais esta desavergonhada tentativa de destruição daquele emblemático sítio da nossa Lisboa... A autorização é da Câmara Municipal, o parecer favorável terá sido dado pelo IPPAR, o abandono é imputável à Santa Casa da Misericórida de Lisboa e o crime está a ser praticado por uma empresa do Grupo Amorim...



Pessoalmente, e é o mínimo que posso fazer, mando daqui uma monumental assobiadela em quatro direcções: (i) o camartelo camarário de Lisboa; (ii) o IPPAR; (iii) a Misericórdia de Lisboa; (iv) o Grupo Amorim... Para que, desta vez (ou a partir de agora), a culpa não morra mais solteira...

Portugas que merecem os nossos assobios - IV: O camartelo da Câmara Municipal de Lisboa

1. Estão a destruir o Convento dos Inglesinhos, no Bairro Alto. Recebi um alerta através da minha caixa de correio. Ontem, sexta-feira, dia 8 de Outubro, pelas 22 hoars, estava convocada uma vigília na Travessa dos Inglesinhos,para protestar contra mais um crime de lesa-património que está a ser alvo a nossa cidade, a nossa capital...

2. Aqui fica o texto que recebi ontem, com pedido de ampla divulgação:

"O Bairro Alto está a ser vítima de mais um abuso por parte da Câmara Municipal! Depois da demolição de um quarteirão antigo entre a Rua da Rosa e Rua do Trombeta para a construção de um Condomínio Privado, é tempo de proceder a mais uma destruição: Desta vez o ataque é ao CONVENTO DOS INGLESINHOS!

"A sua descaracterização já está em curso, É URGENTE TRAVÁ-LA ! Património inalienável deste Bairro, cuja construção é do século XVII, portador de uma enorme riqueza, desde os seus muros ao seu jardim de árvores centenárias, enquadrando a magnificência da Igreja de São Pedro e São Paulo e os seus preciosos salões, a sua cozinha e as suas celas, culminando com o Observatório dos seus terraços de onde se pode contemplar a cidade de Lisboa, de nascente a poente, de norte a sul!

"Monumento magnífico implantado em espaço desafogado na mais alta vertente deste Bairro Alto de construção densa e carente de espaços livres, vendido e deixado ao abandono e à especulação imobiliária pela Santa Casa da Misericórdia, a sua existência é vital para o equilíbrio ecológico do Bairro e da Cidade e como tal deve ser recuperado PARA USO E FRUIÇÃO DE TODOS OS CIDADÃOS !

"O Grupo Amorim aproveitou-se do desprezo da Câmara pelo património
colectivo e quer transformar o CONVENTO DOS INGLESINHOS num Condomínio
de Apartamentos de Luxo. VERGONHA: O IPPAR TAMBÉM APROVOU !!!

"Os moradores do Bairro Alto recusam a desfiguração sistemática do seu
Bairro e apelam à presença de todos numa vigília de protesto. VAMOS TRAVAR ESTE 'NEGÓCIO' CONTRA O BAIRRO ALTO !"


3. Ouvi também ecos na imprensa sobre o que se está a passar, bem como da mobilização de moradores do Bairro Alto, incluindo personalidades com relevo na nossa sociedade e na nossa cultura, como por exemplo o cineasta José Fonseca e Costa.

A mim também muito me indigna o que se está a passar. Espero, ao menos, que os 'habitués' do Bairro Alto, e muito em particular os nossos jovens, tenham sensibilidade e coragem para se baterem contra mais esta desavergonhada tentativa de destruição daquele emblemático sítio da nossa Lisboa... A autorização é da Câmara Municipal, o parecer favorável terá sido dado pelo IPPAR, o abandono é imputável à Santa Casa da Misericórida de Lisboa e o crime está a ser praticado por uma empresa do Grupo Amorim...

Pessoalmente, e é o mínimo que posso fazer, mando daqui uma monumental assobiadela em quatro direcções: (i) o camartelo camarário de Lisboa; (ii) o IPPAR; (iii) a Misericórdia de Lisboa; (iv) o Grupo Amorim... Para que, desta vez (ou a partir de agora), a culpa não morra mais solteira...

07 outubro 2004

Blogantologia(s) - XIX - Ondjaki ou a 'maka' da existência

Ponham olho neste puto: Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, escritor angolano, 27 anos, licenciado em sociologia. Um talentoso contador de estórias. Um recriador da língua portuguesa, na esteira de Mia Couto. Último romance: "Quantas madrugadas tem a noite" (Luanda: Nzila, 2004; Lisboa: Caminho, 2004). Uma descida ao inferno do quotidiano de Luanda. Empolgante. Lido em 'in loco', entre duas 'ngalas' ou 'birras' (garrafas de cerveja), tem outro fascínio. Porque a "morte morrida" é de pessoa, e a "morte matada" é de cão...



Porque a maka da existência, em Angola, é que se pode morrer e sobreviver, morrer e nascer de novo, podes ter morrido e ter sobrado um pouco de ti... Como insinua o narrador, na primeira pessoa do singular, no final do seu longo solilóquio nocturno: "Sobrei, muadiê? A verdade só: sobrei ou morri mesmo tudo ?".



Indispensável é o recurso ao glossário que vem apenso ao romance, para entender o calão dos caluandas (naturais de Luanda) e das outras desvairadas gentes que lá foram arribar. Não apenas o calão mas também outros termos falados pelas gentes de Luanda, como o kimbundu. Aqui fica uma pequena amostra de entre cerca de 200 termos, e que de algum modo sugerem a atmosfera da história (ou das muitas estórias que se podem contar numa noite):



Avilo, broda, camba, (amigo, companheiro)

Bazeza, djedjedje, matumbo (idiota, boçal)

Bofa, ngaia (bofetada)

Bufunda, cumbú, dodó, guitos (dinheiro, dólar), no caso de dodó)

Bumbar (trabalhar)

Campar, cubar (dormir, mas também morrer, no caso de campar)

Candengue, muadiê, mona (garoto, moço, rapaz)

Capurroto, kimbombo, maluvo (bebida alcoólica)

Dreda (que está na moda, babalado)

Éme (MPLA)

Fobado (faminto)

Janguê (órgão sexual masculino)

Kabomba, ninja (polícia, sendo ninja a polícia de choque)

Kêta (música)

Kijila, maka, malamba (problema)

Kilunza, makarov (pistola)

Kimba (velório)

Mboa, quitía (rapariga, moça, dama)

Mbumbu (negro)

Mô (meu)

Monandengue, ndengue, piô (criança, miúdo)

Muangolê (natural de Angola)

Muata (chefe)

Mujimbo (boatao)

Nguendeiro (grande farrista, frequentador de festas)

Nzambi (Deus)

Paiar (lixar, taramar alguém)

Pitar (comer)

Píter (comida, pitéu)

Quarra (prostituta)

Ruca (carro)

Salo (trabalho)

Sekulu, dikota, kota (mais velho)

Tibaria (bebedeira)

Tuga (português)

Tuji (merda)

Uáine (vinho)

Vuzar (ter relaçõe sexuais)

Xaxeiro (engatão, conquistador)

Xuxuta (órgão sexual feminino)

Zaicô (zairota)



Blogantologia(s) - XIX - Ondjaki ou a 'maka' da existência

Ponham olho neste puto: Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, escritor angolano, 27 anos, licenciado em sociologia. Um talentoso contador de estórias. Um recriador da língua portuguesa, na esteira de Mia Couto. Último romance: "Quantas madrugadas tem a noite" (Luanda: Nzila, 2004; Lisboa: Caminho, 2004). Uma descida ao inferno do quotidiano de Luanda. Empolgante. Lido em 'in loco', entre duas 'ngalas' ou 'birras' (garrafas de cerveja), tem outro fascínio. Porque a "morte morrida" é de pessoa, e a "morte matada" é de cão...

Porque a maka da existência, em Angola, é que se pode morrer e sobreviver, morrer e nascer de novo, podes ter morrido e ter sobrado um pouco de ti... Como insinua o narrador, na primeira pessoa do singular, no final do seu longo solilóquio nocturno: "Sobrei, muadiê? A verdade só: sobrei ou morri mesmo tudo ?".

Indispensável é o recurso ao glossário que vem apenso ao romance, para entender o calão dos caluandas (naturais de Luanda) e das outras desvairadas gentes que lá foram arribar. Não apenas o calão mas também outros termos falados pelas gentes de Luanda, como o kimbundu. Aqui fica uma pequena amostra de entre cerca de 200 termos, e que de algum modo sugerem a atmosfera da história (ou das muitas estórias que se podem contar numa noite):

Avilo, broda, camba, (amigo, companheiro)
Bazeza, djedjedje, matumbo (idiota, boçal)
Bofa, ngaia (bofetada)
Bufunda, cumbú, dodó, guitos (dinheiro, dólar), no caso de dodó)
Bumbar (trabalhar)
Campar, cubar (dormir, mas também morrer, no caso de campar)
Candengue, muadiê, mona (garoto, moço, rapaz)
Capurroto, kimbombo, maluvo (bebida alcoólica)
Dreda (que está na moda, babalado)
Éme (MPLA)
Fobado (faminto)
Janguê (órgão sexual masculino)
Kabomba, ninja (polícia, sendo ninja a polícia de choque)
Kêta (música)
Kijila, maka, malamba (problema)
Kilunza, makarov (pistola)
Kimba (velório)
Mboa, quitía (rapariga, moça, dama)
Mbumbu (negro)
Mô (meu)
Monandengue, ndengue, piô (criança, miúdo)
Muangolê (natural de Angola)
Muata (chefe)
Mujimbo (boatao)
Nguendeiro (grande farrista, frequentador de festas)
Nzambi (Deus)
Paiar (lixar, taramar alguém)
Pitar (comer)
Píter (comida, pitéu)
Quarra (prostituta)
Ruca (carro)
Salo (trabalho)
Sekulu, dikota, kota (mais velho)
Tibaria (bebedeira)
Tuga (português)
Tuji (merda)
Uáine (vinho)
Vuzar (ter relaçõe sexuais)
Xaxeiro (engatão, conquistador)
Xuxuta (órgão sexual feminino)
Zaicô (zairota)

15 setembro 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - XII: O presidente da Assembleia da República

O motivo é simples mas pode parecer insólito: O presidente da Assembleia da República é o anfitrião de uma exposição sobre os "Dinossauros da Lourinhã", a inaugurar hoje na casa da nossa democracia.



A organização coube ao GEAL - Museu da Lourinhã, ao qual me prendem laços afectivos e funcionais: mais do que o cargo (quase honorífico) que lá desempenho (como presidente da assembleia geral), o que me leva a deslocar-me até lá e a aceitar o convite para estar presentar, às 17h., na inauguração da exposição, é o poder prestar a minha homenagem ao trabalho de um pequeno grupo de gente generosa e competente (o Horácio, a Isabel, o Octávio, o Simão, o Rui, o Nuno, o Dário, a Marta, o Teles Antunes...), com o apoio da Câmara Municipal da Lourinhã, que quer mostrar aos deputados da nação e aos demais visitantes o que de melhor se faz em paleontologia em Portugal e o que se pode e deve fazer para motivar os jovens para a aventura da ciência, para o desafio da cultura, para a necessidade do estudo, para a defesa do património e do ambiente...



Houve já quem brincasse com a situação, parodiando o tema e dizendo que os verdadeiros dinossauros, os dinossauros excelentíssimos, já lá estão... Parece é que os nossos humoristas de serviço não ainda perceberam o significado que esta exposição tem, ao abrir também as portas da Assembleia da República à sociedade civil, aos cidadãos, à crianças e aos jovens e a coisas tão sérias e tão importantes como a paleontologia dos dinossauros... De qualquer modo, o humor é sempre saudável e, neste caso, está a conribuir também para divulgar o projecto (que é do GEAL, da Lourinhã, do Oeste, do País...) da criação de um futuro Parque Jurássico.



A referida exposição até patente ao público até 15 de Outubro próximo, no horário das 10 às 18h. A entrada é livre. O jornal "Público" consagrou hoje uma página inteira a esta exposição e aos vencedores do 4º Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros, organizada pelo GEAL.



Ao GEAL e à Assembleia da República, a minha chapelada!

Portugas que merecem as nossas palmas - XII: O presidente da Assembleia da República

O motivo é simples mas pode parecer insólito: O presidente da Assembleia da República é o anfitrião de uma exposição sobre os "Dinossauros da Lourinhã", a inaugurar hoje na casa da nossa democracia.

A organização coube ao GEAL - Museu da Lourinhã, ao qual me prendem laços afectivos e funcionais: mais do que o cargo (quase honorífico) que lá desempenho (como presidente da assembleia geral), o que me leva a deslocar-me até lá e a aceitar o convite para estar presentar, às 17h., na inauguração da exposição, é o poder prestar a minha homenagem ao trabalho de um pequeno grupo de gente generosa e competente (o Horácio, a Isabel, o Octávio, o Simão, o Rui, o Nuno, o Dário, a Marta, o Teles Antunes...), com o apoio da Câmara Municipal da Lourinhã, que quer mostrar aos deputados da nação e aos demais visitantes o que de melhor se faz em paleontologia em Portugal e o que se pode e deve fazer para motivar os jovens para a aventura da ciência, para o desafio da cultura, para a necessidade do estudo, para a defesa do património e do ambiente...

Houve já quem brincasse com a situação, parodiando o tema e dizendo que os verdadeiros dinossauros, os dinossauros excelentíssimos, já lá estão... Parece é que os nossos humoristas de serviço não ainda perceberam o significado que esta exposição tem, ao abrir também as portas da Assembleia da República à sociedade civil, aos cidadãos, à crianças e aos jovens e a coisas tão sérias e tão importantes como a paleontologia dos dinossauros... De qualquer modo, o humor é sempre saudável e, neste caso, está a conribuir também para divulgar o projecto (que é do GEAL, da Lourinhã, do Oeste, do País...) da criação de um futuro Parque Jurássico.

A referida exposição até patente ao público até 15 de Outubro próximo, no horário das 10 às 18h. A entrada é livre. O jornal "Público" consagrou hoje uma página inteira a esta exposição e aos vencedores do 4º Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros, organizada pelo GEAL.

Ao GEAL e à Assembleia da República, a minha chapelada!

14 setembro 2004

Blogantologia(s) - XVIII: Quando os ventos sopram em Assuão é verão

Egipto, 22-29 de Agosto de 2004
Portugal, verão 2004


Quando os ventos sopram em Assuão é verão

O verão é fértil,
O verão é fútil,
O verão é fértil em coisas fúteis.
O verão é fértil
No Vale do Nilo.
E fútil
Em Abu Simbel.

É no Verão
Que se come melancia
Ao quilo.
Enquanto amadurecem as tâmaras
Vende-se a cultura a granel
Em folhas de falso papiro:
- Welcome, sejam bem vindos a Assuão!

Senhores do norte,
Em Agosto resiste-se melhor à melancolia
Do entardecer
Em África,
Bem como ao medo das escuras câmaras
Da morte,
Na linha do horizonte,
Abaixo do Trópico de Câncer.

Em Abu Simbel,
O verão é ostentação.
Eu prefiro
Os ostraca
Onde o operário
De Deir el-Medina
Falava da sua condição
De produtor, de artesão,
De construtor de túmulos,
De guardador de segredos,
De malandro e de grevista,
De salteador e de ladrão,
De violador de medos
E de barqueiro de Queronte.

Eu sempre achei que esta estação
Não rimava com poesia.
Mas eu não sou o Ramsés Segundo
Nem conheço o caminho irreversível
Para a imortalidade.

Aqui o verão é fértil
Em coisas fúteis
Como o escriba acocorado
Perante o espectáculo risível
Do mundo globalizado.

Na terra prometida do pão e do mel
Tenham cuidado, meus senhores,
Com os vegetais,
Bebam águas minerais,
Levem dimicina e ultralevure
Por causa dos desarranjos intestinais.

- E o vírus do Nilo ? É mortal ?
- Descanse, minha senhora,
Que o barco tem escolta policial.


Na Ilha Elefantina
Não há manicure,
Há apenas pessoas inúteis
Que adoram subir aos píncaros do verão.
De camelo.

- Sobretudo não tome uísque
Com gelo,

Pode ler-se numa tabuleta
À beira do lago Nasser.
- Meus senhores, estamos em África,
'Be careful'.


Aqui o verão é, por excelência,
O paraíso com o ocre
Como pano de fundo.
O verão é uma casa de adobe
E uma esteira no chão
E os altos muros do deserto
Estrangulando o fio de água da vida.

- Ah, o nascer e o pôr do sol,
Não esquecer de desfrutar
O deus-sol.

Porque o verão no Egipto
É a rosa do mundo.
O misticismo. A demência.
Os calores de Santa Teresa d’Ávila
Em trabalho de múltiplos orgasmos.
No Vale dos Reis.
E das Rainhas.
E dos Nobres.
Esqueçam, por favor,
A mastabas dos pobres:
- Não vêm nos roteiros turísticos!

O verão é o sexo distendido.
O músculo relaxado.
A alma em carne viva.
A praia. O creme Nívea.
O postal ilustrado.
A alegre promiscuidade
Dos cinco sentidos.
O Cairo em três dimensões.
O meu gin tónico com limão.
A carne em decomposição.
O desastre humanitário.
Mais ao fundo a Núbia, o Sudão.
Os dóceis núbios.
As volúpteis núbias.
A tragédia de Darfur.
A louca montanha russa.
O bazar.
A dança do ventre
Dançada por travestis, canastrões.
A mesquita de alabastro.
O mítico mar vermelho.
A Sagrada Família.
Jesus, Maria e José.
O burrinho puxando a nora.
A felicidade a preço de saldo.
O exotismo com molho de bechamel.
O oásis no deserto.
Todos os estereótipos do mundo.
- Tirem uma fotografia digital.
Da varanda do hotel Marriott.


Gostaria de apresentar uma reclamação,
Por escrito, ao senhor vizir:
- Eu estive em Abu Simbel
E experimentei as dificuldades
Da comunicação humana.


O verão é o Vale do Nilo
Um gigantesco falo
Que penetra, fundo,
A terra árida e seca
Da Mãe África.
Gretada, a terra, a carne.
- White women, carne branca.
I Egiptian man, fertility man.
Portugal ? Good, Luís Figo.


Do alto da mesquita de Najaf,
Mais acima no mapa do corpo humano,
Diz o guia, o nosso guia,
Com o coração sangrando
De dor
Pelos seus irmãos,
Xiitas, sunitas, ismaelistas;
Ou do alto das pirâmides de Sakara
Há um imã que te notifica
Por carta registada com aviso de recepção:
- Que a vida eterna te chama
E exige a mortificação, a mumificação.


Recebi hoje correio de Lisboa
Onde a fertilidade da futilidade
É agora um problema de saúde pública.
Um osso duro
De roer.
Tão duro como o granito de Assuão
Donde sopra o vento que modela
O rosto das esfinges.

De Lisboa ao Cairo
Ergo o templo do futuro
Com paragem técnica em Luxor
Para consultar os arquitectos da eternidade.
A antiga Tebas, a cidade das cem portas,
É hoje um pequeno burgo.
E o meu guia, egípcio, brasileiro,
Diz que tem o coração a sangrar.
Marcos chora pelos seus irmãos
De Najaf, no Iraque,
E confidencia:
- Eu nunca poderia trabalhar
Para os meus inimigos e vizinhos de Israel.
Por muito dinheiro que me pagassem.


Tenham santa paciência.
Os pobres. Os diabos.
Os pobres diabos.
Os santos. Os turistas.
Os contribuintes.
Os camponeses.
Os escribas.
Os romancistas policiais.
Os arqueólogos.
Os caçadores de tesouros.
As esposas dos ricos homens de negócios das arábias.
Os sacerdotes do templo de Kom-Omb
Que eram carecas.
- E sobretudo os pobres.
Porque deles será o reino da terra.


Pobre planeta, sem rei nem roque.
E com tantos súbditos.
Por favor ponham a escrita em dia.
Pesem a alma.
Meçam as bolsas.
Leiam o Livro dos Mortos
Ou A Morte no Nilo,
Que o barco vai zarpar.
- Um oiro um oiro, amigo.
Para o Habibo.
E para o camelo do Habibo.
Óscar, de seu nome.


E o Estado garante
Que não pode ser,
Que não pode mais no futuro
Garantir que é Estado.
E muito menos Estado-Providência.
E pagar o leitinho às criancinhas.
E o funeral aos velhinhos.
E a múmia do faraó.
Deixem isso às madraças
E à caridade em tempo de Ramadão.

Resta-nos a Alta Autoridade do Nilo
Que regula os influxos
E os defluxos dos deuses.
E a exploração do trabalho infantil
Nas escolas-fábricas de tapeçarias
Em Memphis.

Na verdade,
O verão é apenas uma estação.
De comboio.
Do comboio de via estreita
Que vai do nascer ao morrer.
Ou quem diz estação
Diz cais. De chegar. De apodrecer.
Como esta falua do Nilo à beira Tejo
Que é o rio que passa à minha porta.

Sexta-feira, treze
De Agosto.
Dia de azar,
Quer queiram, quer não.
A indústria do lazer, aposto,
Vai ser o principal foco de infecção
Neste pico de verão.
Tenham cuidado com o cão
E com a maldição
Do Faraó Tutankamon.

Morreu a indústria dos metais pesados,
Viva a indústria do lazer.
Leve. Ecológica. De terceira vaga.
Com homologação.
Com certificação.
Com acreditação.
Com exemplos de boas práticas.
Com análises de custo/benefício.

Graças ao lóbi da qualidade
O mundo vai bem melhor.
Que a vida é dura.
E o que a gente faz para ganhá-la.
Como o búfalo que pasta
Nas margens do Nilo.
Como qualquer búfalo domesticado
Depois de trabalhar o dia inteiro
Para o seu suserano,
O camponês egípcio.
Que por sua vez alimenta
O Faraó e as suas esposas e concubinas,
O seu exército, a sua polícia núbia
E a legião de escribas
Que têm o monopólio da escrita.
E do saber.

Hoje as partes pudendas,
A zona púbica,
A coisa pia
Do Portugal contemporâneo
Vai ser matéria de alto relevo
Na televisão.
Diz o Eça, o escriba acocorado,
Em missão de reportagem
Na inauguração do Canal do Suez.

Já não temos rei.
Nem o tique aristocrático
Do beija-mão.
Nem o Conde de Burnay
Nem faraó. Nem deuses. Agora é
A república quem mais ordena.
Senão popular, pelo menos populista.
A coisa pia mais fino
No Portugal pequenino
Mas democrático.

Imagino.
Sem imagem nem voz.
Porque estou em férias
Num cruzeiro do Nilo.
A observar o elegante voo da garça.
- Onde estará o pelicano ?
E a cegonha preta ?
E os filhos ilegítimos do povo ?


No barco não apanho
A RTP, felizmente de todos nós.
Nem sei se o Porto perdeu na supertaça
E o Obikwelo ganhou
A medalha de prata dos 100 metros
Nas Olimpíadas de Atenas.

- Turco, grego, tunisino ?
Espanhol, italiano, palestino ?
- Não, português !
- Ah!, Portugal, Luís Figo! Compra, amigo.

- Quanto, quanto ? Dez nove oito sete seis cinco.
Quatro três dois, um!
- É só um oiro, amigo.
Que o Habibo tem fome mais o camelo.


Maria do Patrocínio
Minha avó materna.
Lembrei-me de ti, Tia Patxina.
Patxina, de alcunha,
Uma alcunha tão terna.
Nunca foste rainha,
Nunca te chamariam Hatshepstut,
Nem te construiriam o templo
Mais belo do mundo
Na aldeia do Nadrupe.
Morreste cega,
Sem hieroglifos gravados na estela,
Tia Patxina,
Apalpando os netos
O cabelo a cara.
E não te mumificaram
Nem muito menos te operaram
Que no teu tempo
As obras de misericórdia
Eram sete espirituais
E sete corporais.
Como no Egipto dos faraós.
Como as pragas do Egipto.
Como nesta triste aldeia núbia
Que é uma espécie de reserva dos índios
Cá do sítio.
Com crocodilos de plástico
E pretos garanhões de olhos verdes.
E onde há uma velhota
Cega como tu, minha avó,
Que vende bugigangas pró turista.

De Assuão a Luxor
Eu gostaria de ter escrito
Um poema sobre os meus estados de alma.
Tão contraditórios que se anulam.
A verdade é que encontrei aqui
Um povo afável.
Mas que me adianta o pedigree
E os cinco milénios de civilização
E o templo de Edfu
Se nada nudou na minha condição
De burro carrejão ?

Sopra o vento dessecante.
Estou em Assuão.
Nos píncaros do verão.

Blogantologia(s) - XVIII: Quando os ventos sopram em Assuão é verão

Egipto, 22-29 de Agosto de 2004
Portugal, verão 2004


Quando os ventos sopram em Assuão é verão

O verão é fértil,
O verão é fútil,
O verão é fértil em coisas fúteis.
O verão é fértil
No Vale do Nilo.
E fútil
Em Abu Simbel.

É no Verão
Que se come melancia
Ao quilo.
Enquanto amadurecem as tâmaras
Vende-se a cultura a granel
Em folhas de falso papiro:
- Welcome, sejam bem vindos a Assuão!

Senhores do norte,
Em Agosto resiste-se melhor à melancolia
Do entardecer
Em África,
Bem como ao medo das escuras câmaras
Da morte,
Na linha do horizonte,
Abaixo do Trópico de Câncer.

Em Abu Simbel,
O verão é ostentação.
Eu prefiro
Os ostraca
Onde o operário
De Deir el-Medina
Falava da sua condição
De produtor, de artesão,
De construtor de túmulos,
De guardador de segredos,
De malandro e de grevista,
De salteador e de ladrão,
De violador de medos
E de barqueiro de Queronte.

Eu sempre achei que esta estação
Não rimava com poesia.
Mas eu não sou o Ramsés Segundo
Nem conheço o caminho irreversível
Para a imortalidade.

Aqui o verão é fértil
Em coisas fúteis
Como o escriba acocorado
Perante o espectáculo risível
Do mundo globalizado.

Na terra prometida do pão e do mel
Tenham cuidado, meus senhores,
Com os vegetais,
Bebam águas minerais,
Levem dimicina e ultralevure
Por causa dos desarranjos intestinais.

- E o vírus do Nilo ? É mortal ?
- Descanse, minha senhora,
Que o barco tem escolta policial.


Na Ilha Elefantina
Não há manicure,
Há apenas pessoas inúteis
Que adoram subir aos píncaros do verão.
De camelo.

- Sobretudo não tome uísque
Com gelo,

Pode ler-se numa tabuleta
À beira do lago Nasser.
- Meus senhores, estamos em África,
'Be careful'.


Aqui o verão é, por excelência,
O paraíso com o ocre
Como pano de fundo.
O verão é uma casa de adobe
E uma esteira no chão
E os altos muros do deserto
Estrangulando o fio de água da vida.

- Ah, o nascer e o pôr do sol,
Não esquecer de desfrutar
O deus-sol.

Porque o verão no Egipto
É a rosa do mundo.
O misticismo. A demência.
Os calores de Santa Teresa d’Ávila
Em trabalho de múltiplos orgasmos.
No Vale dos Reis.
E das Rainhas.
E dos Nobres.
Esqueçam, por favor,
A mastabas dos pobres:
- Não vêm nos roteiros turísticos!

O verão é o sexo distendido.
O músculo relaxado.
A alma em carne viva.
A praia. O creme Nívea.
O postal ilustrado.
A alegre promiscuidade
Dos cinco sentidos.
O Cairo em três dimensões.
O meu gin tónico com limão.
A carne em decomposição.
O desastre humanitário.
Mais ao fundo a Núbia, o Sudão.
Os dóceis núbios.
As volúpteis núbias.
A tragédia de Darfur.
A louca montanha russa.
O bazar.
A dança do ventre
Dançada por travestis, canastrões.
A mesquita de alabastro.
O mítico mar vermelho.
A Sagrada Família.
Jesus, Maria e José.
O burrinho puxando a nora.
A felicidade a preço de saldo.
O exotismo com molho de bechamel.
O oásis no deserto.
Todos os estereótipos do mundo.
- Tirem uma fotografia digital.
Da varanda do hotel Marriott.


Gostaria de apresentar uma reclamação,
Por escrito, ao senhor vizir:
- Eu estive em Abu Simbel
E experimentei as dificuldades
Da comunicação humana.


O verão é o Vale do Nilo
Um gigantesco falo
Que penetra, fundo,
A terra árida e seca
Da Mãe África.
Gretada, a terra, a carne.
- White women, carne branca.
I Egiptian man, fertility man.
Portugal ? Good, Luís Figo.


Do alto da mesquita de Najaf,
Mais acima no mapa do corpo humano,
Diz o guia, o nosso guia,
Com o coração sangrando
De dor
Pelos seus irmãos,
Xiitas, sunitas, ismaelistas;
Ou do alto das pirâmides de Sakara
Há um imã que te notifica
Por carta registada com aviso de recepção:
- Que a vida eterna te chama
E exige a mortificação, a mumificação.


Recebi hoje correio de Lisboa
Onde a fertilidade da futilidade
É agora um problema de saúde pública.
Um osso duro
De roer.
Tão duro como o granito de Assuão
Donde sopra o vento que modela
O rosto das esfinges.

De Lisboa ao Cairo
Ergo o templo do futuro
Com paragem técnica em Luxor
Para consultar os arquitectos da eternidade.
A antiga Tebas, a cidade das cem portas,
É hoje um pequeno burgo.
E o meu guia, egípcio, brasileiro,
Diz que tem o coração a sangrar.
Marcos chora pelos seus irmãos
De Najaf, no Iraque,
E confidencia:
- Eu nunca poderia trabalhar
Para os meus inimigos e vizinhos de Israel.
Por muito dinheiro que me pagassem.


Tenham santa paciência.
Os pobres. Os diabos.
Os pobres diabos.
Os santos. Os turistas.
Os contribuintes.
Os camponeses.
Os escribas.
Os romancistas policiais.
Os arqueólogos.
Os caçadores de tesouros.
As esposas dos ricos homens de negócios das arábias.
Os sacerdotes do templo de Kom-Omb
Que eram carecas.
- E sobretudo os pobres.
Porque deles será o reino da terra.


Pobre planeta, sem rei nem roque.
E com tantos súbditos.
Por favor ponham a escrita em dia.
Pesem a alma.
Meçam as bolsas.
Leiam o Livro dos Mortos
Ou A Morte no Nilo,
Que o barco vai zarpar.
- Um oiro um oiro, amigo.
Para o Habibo.
E para o camelo do Habibo.
Óscar, de seu nome.


E o Estado garante
Que não pode ser,
Que não pode mais no futuro
Garantir que é Estado.
E muito menos Estado-Providência.
E pagar o leitinho às criancinhas.
E o funeral aos velhinhos.
E a múmia do faraó.
Deixem isso às madraças
E à caridade em tempo de Ramadão.

Resta-nos a Alta Autoridade do Nilo
Que regula os influxos
E os defluxos dos deuses.
E a exploração do trabalho infantil
Nas escolas-fábricas de tapeçarias
Em Memphis.

Na verdade,
O verão é apenas uma estação.
De comboio.
Do comboio de via estreita
Que vai do nascer ao morrer.
Ou quem diz estação
Diz cais. De chegar. De apodrecer.
Como esta falua do Nilo à beira Tejo
Que é o rio que passa à minha porta.

Sexta-feira, treze
De Agosto.
Dia de azar,
Quer queiram, quer não.
A indústria do lazer, aposto,
Vai ser o principal foco de infecção
Neste pico de verão.
Tenham cuidado com o cão
E com a maldição
Do Faraó Tutankamon.

Morreu a indústria dos metais pesados,
Viva a indústria do lazer.
Leve. Ecológica. De terceira vaga.
Com homologação.
Com certificação.
Com acreditação.
Com exemplos de boas práticas.
Com análises de custo/benefício.

Graças ao lóbi da qualidade
O mundo vai bem melhor.
Que a vida é dura.
E o que a gente faz para ganhá-la.
Como o búfalo que pasta
Nas margens do Nilo.
Como qualquer búfalo domesticado
Depois de trabalhar o dia inteiro
Para o seu suserano,
O camponês egípcio.
Que por sua vez alimenta
O Faraó e as suas esposas e concubinas,
O seu exército, a sua polícia núbia
E a legião de escribas
Que têm o monopólio da escrita.
E do saber.

Hoje as partes pudendas,
A zona púbica,
A coisa pia
Do Portugal contemporâneo
Vai ser matéria de alto relevo
Na televisão.
Diz o Eça, o escriba acocorado,
Em missão de reportagem
Na inauguração do Canal do Suez.

Já não temos rei.
Nem o tique aristocrático
Do beija-mão.
Nem o Conde de Burnay
Nem faraó. Nem deuses. Agora é
A república quem mais ordena.
Senão popular, pelo menos populista.
A coisa pia mais fino
No Portugal pequenino
Mas democrático.

Imagino.
Sem imagem nem voz.
Porque estou em férias
Num cruzeiro do Nilo.
A observar o elegante voo da garça.
- Onde estará o pelicano ?
E a cegonha preta ?
E os filhos ilegítimos do povo ?


No barco não apanho
A RTP, felizmente de todos nós.
Nem sei se o Porto perdeu na supertaça
E o Obikwelo ganhou
A medalha de prata dos 100 metros
Nas Olimpíadas de Atenas.

- Turco, grego, tunisino ?
Espanhol, italiano, palestino ?
- Não, português !
- Ah!, Portugal, Luís Figo! Compra, amigo.

- Quanto, quanto ? Dez nove oito sete seis cinco.
Quatro três dois, um!
- É só um oiro, amigo.
Que o Habibo tem fome mais o camelo.


Maria do Patrocínio
Minha avó materna.
Lembrei-me de ti, Tia Patxina.
Patxina, de alcunha,
Uma alcunha tão terna.
Nunca foste rainha,
Nunca te chamariam Hatshepstut,
Nem te construiriam o templo
Mais belo do mundo
Na aldeia do Nadrupe.
Morreste cega,
Sem hieroglifos gravados na estela,
Tia Patxina,
Apalpando os netos
O cabelo a cara.
E não te mumificaram
Nem muito menos te operaram
Que no teu tempo
As obras de misericórdia
Eram sete espirituais
E sete corporais.
Como no Egipto dos faraós.
Como as pragas do Egipto.
Como nesta triste aldeia núbia
Que é uma espécie de reserva dos índios
Cá do sítio.
Com crocodilos de plástico
E pretos garanhões de olhos verdes.
E onde há uma velhota
Cega como tu, minha avó,
Que vende bugigangas pró turista.

De Assuão a Luxor
Eu gostaria de ter escrito
Um poema sobre os meus estados de alma.
Tão contraditórios que se anulam.
A verdade é que encontrei aqui
Um povo afável.
Mas que me adianta o pedigree
E os cinco milénios de civilização
E o templo de Edfu
Se nada nudou na minha condição
De burro carrejão ?

Sopra o vento dessecante.
Estou em Assuão.
Nos píncaros do verão.

11 setembro 2004

Car@s ciberamig@s - V: De luto, pelo portal Terràvista

1. Em 23 de Junho de 1999 criei, no portal Terràvista, a minha página pessoal, subordinada ao tópico Saúde e Trabalho (http://www.terravista.pt/meco/5531). Devo confessar que acabei por ter um certo orgulho, uma pontinha de orgulho, neste cantinho, lusófono, do ciberespaço.

Recorde-se que o portal tinha sido lançado dois anos antes e que, de então para cá, se haviam criado dezenas de milhares de páginas nas mais desvairadas "praias" onde se falava português, desde Portugal (vg. Meco) ao Brasil (vg.,Praia Brava) e de Cabo Verde (vg., Baía das Gatas)a Angola (vg., Mussulo).

Até à data a minha página teve mais de 40 mil visitantes, o que não é nada mau.
Entretanto, o Terràvista mudou de mãos e perdeu o acento grave (Terravista), sinal quiça dos movos tempos globalizadores e padronizadores. Mas o mais grave não foi isso: Há dias fui/fomos surpreendido(s)pelo seguinte aviso no Portal Terravista: "Dada a antiguidade dos sistemas de alojamento de páginas pessoais disponibilizados pelo Terravista.pt, a Administração do Terravista.pt decidiu dar por terminada a disponibilização do serviço de páginas pessoais (www.terravista.pt/praia/número e 7mares.terravista.pt)". Convenhamos que é uma justificação pouco ou nada convincente. Era preferível não serem cínicos e correrem connosco como hóspedes indesejáveis...

Acrescentava-se a seguir: "No sentido de permitir a todos os utilizadores recuperar as suas páginas e conteúdos, o Terravista.pt criou um sistema simples e rápido: basta colocar o endereço da sua página e um endereço de correio electrónico (válido) e todos os ficheiros correspondentes que estejam alojados nos nossos servidores ser-lhe-ão devolvidos". Enfim: era o mínimo que se podia esperar do senhorio...

Em resumo: o actual dono do portal (a empresa T-online)vai pôr fim ao serviço de alojamento de páginas pessoais no dia 20 de Setembro próximo. Muitos cibernautas como eu fomos surpreendidos por esta ordem de despejo, em plenas férias, ao ler um artigo no jornal "Público", no suplemento "Computadores (6 de Setembro de 2004).

2. A primeira reacção é de revolta e de desalento. Senti-me como um náufrago, destroçado e despejado pela borda fora. Mas a seguir recompus-me e tratei de procurar outro porto de abrigo. De qualquer modo, os economistas já me tinham vindo a avisar, ao longo de todos estes anos, que, no planeta azul, nesta terra que é nossa (mas é sobretudo mais de alguns), "não há almoços de borla".

Segundo o "Público" nos lembra, "o Terràvista foi, de início, um projecto estatal, que (...) acabou por ser vendido à operadora de telecomunicações Jazztel - para vir a ser mais tarde adquirido pela Ya.com".

E davam-se mais pormenores: "O projecto foi idealizado no seio da iniciativa Mosaico - A Cultura Portuguesa na Sociedade da Informação, do Ministério da Cultura, e lançado a 23 de Março de 1997, visando facultar a milhares de cidadãos o alojamento gratuito de conteúdos e a criação de uma vasta comunidade virtual de língua portuguesa, fomentando a produção de conteúdos nacionais para a rede das redes".

A vida deste portal foi, desde o início, atribulada: por exemplo, em Julho de 1998, na sequência de uma notícia que denunciava a persistência de páginas pornográficas, o senhor ministro da Cultura de então, Manuel Maria Carrilho, decidiu encerrar o portal, no meio de um coro de protestos de que ainda hoje há ecos na Net.

Uma semana depois, era "constituída uma associação com o mesmo nome, para a qual foram transferidos os activos e a marca Terràvista - uma solução arranjada para afastar o Ministério da Cultura da responsabilidade dos conteúdos alojados no projecto Terràvista". Nem o Estado nem o ministério da cultura nem muito menos o filósoo Manuel Maia Carrilho têm vocação para gestores. A solução encontrada não era menos desastrada: amanhem-se para aí...

Não admira, por isso, que a Associação Terràvista seja obrigado a vender o portal, apesar da sua popularidade tanto no Velho como no Novo Mundo lusófono, alegando "dificuldades financeiras com os custos de manutenção da sua infra-estrutura" na ausência ou impossibilidade de uma exploração comercial do Terràvista (continuo a citar o artigo do "Público" de 6 de Setembro último).

A venda é feita em Fevereiro de 2000 à Jazztel Internet Factory, do grupo de telecomunicações Jazztel, que a integra "na Ya.com, a sua divisão para a Internet". Dá-se então início a "uma mudança de identidade do projecto, transformando-o num portal com conteúdos próprios mas mantendo as comunidades de cibernautas e o serviço de alojamento gratuito".

Mal passados seis meses, logo em Setembro de 2000, as páginas pessoais alojadas no Terràvista passaram a ter "banners" publicitários. A marujada (como o pessoal era carinhosamente tratado nos primórdios) foi confrontada com a política do facto consumado, tendo sido avisada com apenas dois dias de antecedência (!). Mas quem mandava já falava noutra língua, a castelhana... A polémica rebentou mais uma vez mas de pouco valeram os (fracos) protestos dos marujos.

Dois anos depois, em Setembro de 2002, o Terràvista muda novamente de mãos, "quando a Jazztel anunciou a venda da Ya.com Internet Factory - que integrava os portais português Terràvista e o espanhol Ya.com - por 414,3 milhões de euros à T-online, uma empresa fornecedora de acesso à Internet, subsidiária da operadora alemã Deutsche Telekom". Não sei se foi ou não um mau negócio, mas tenho que reconhecer que era uma pipa de massa.

Foi nessa altura que o Terràvista perdeu o acento grave no primeiro "a"... Um pequeno detalhe que não deixava de ser simbólico... Entretanto, em 20 de Setembro de 2004 (mais uma vez no mês de Setembro, de má memória!) lá irão matar e enterrar o Terràvista. O grande perdedor é seguramente a língua portuguesa e a comunidade lusófona.


3.O que me apetece dizer, em sinal de luto e de protesto, é apenas o seguinte: O projecto original do Terràvista morreu, viva o Terràvista! E vivam todos os cibernautas lusófonos que puseram a sua criatividade em marcha!

De qualquer ao último e aos anteriores senhorios deste espaço no ciberespaço, eu tenho que endereçar os meus agradecimentos. Afinal, sou um cavalheiro civilizado, atento e obrigado. Só tenho pena é que muitas e belíssimas páginas em português se percam, nomeadamente por falta de alternativas de alojamento (gratuito). Estou a pensar nos nossos companheiros lusófonos de países com menos recursos que o nosso em matéria de novas tecnologias da informação, de Cabo verde a Timor, de São Tomé Príncipe ao Brasil...

Pela minha parte, estou grato ao Terràvista por estes cinco anos de utilização de um serviço de que não fui o único beneficiário e que, na prática, não era inteiramente gartuita. É bom recordar que desde há quatro anos a minha página exibia "banners" publicitários, devidamente seleccionados em função da sua temática principal (a saúde e a segurança do trabalho)e do seu público-alvo. De qualquer modo, foi graças ao projecto Terràvista que eu me atrevi a fazer a minha primeira página na Net. Isso não posso negar nem esquecer.

Na hora da despedida, o meu muito obrigado vai sobretudo para os ciberamigos (e foram bastantes) que ganhei. Vou/vamos continuar noutro cantinho do ciberespaço, agora cada vez mais globalizado...

Para os que quiserem continuar a visitar-me, aqui fica o novo endereço da minha página a partir de 10 de Setembro de 2004:

http://www.ensp.unl.pt/luis.graca

É caso para dizer que, a partir de agora, não preciso de atravessar a rua e ser atropelado: fico em casa, o mesmo é dizer que a minha página pessoal está alojada no sítio da instituição onde trabalho, a Escola Nacional de Saúde PÚblica, da Universidade Nova de Lisboa.

Car@s ciberamig@s - V: De luto, pelo portal Terràvista

1. Em 23 de Junho de 1999 criei, no portal Terràvista, a minha página pessoal, subordinada ao tópico Saúde e Trabalho (http://www.terravista.pt/meco/5531). Devo confessar que acabei por ter um certo orgulho, uma pontinha de orgulho, neste cantinho, lusófono, do ciberespaço.

Recorde-se que o portal tinha sido lançado dois anos antes e que, de então para cá, se haviam criado dezenas de milhares de páginas nas mais desvairadas "praias" onde se falava português, desde Portugal (vg. Meco) ao Brasil (vg.,Praia Brava) e de Cabo Verde (vg., Baía das Gatas)a Angola (vg., Mussulo).

Até à data a minha página teve mais de 40 mil visitantes, o que não é nada mau.
Entretanto, o Terràvista mudou de mãos e perdeu o acento grave (Terravista), sinal quiça dos movos tempos globalizadores e padronizadores. Mas o mais grave não foi isso: Há dias fui/fomos surpreendido(s)pelo seguinte aviso no Portal Terravista: "Dada a antiguidade dos sistemas de alojamento de páginas pessoais disponibilizados pelo Terravista.pt, a Administração do Terravista.pt decidiu dar por terminada a disponibilização do serviço de páginas pessoais (www.terravista.pt/praia/número e 7mares.terravista.pt)". Convenhamos que é uma justificação pouco ou nada convincente. Era preferível não serem cínicos e correrem connosco como hóspedes indesejáveis...

Acrescentava-se a seguir: "No sentido de permitir a todos os utilizadores recuperar as suas páginas e conteúdos, o Terravista.pt criou um sistema simples e rápido: basta colocar o endereço da sua página e um endereço de correio electrónico (válido) e todos os ficheiros correspondentes que estejam alojados nos nossos servidores ser-lhe-ão devolvidos". Enfim: era o mínimo que se podia esperar do senhorio...

Em resumo: o actual dono do portal (a empresa T-online)vai pôr fim ao serviço de alojamento de páginas pessoais no dia 20 de Setembro próximo. Muitos cibernautas como eu fomos surpreendidos por esta ordem de despejo, em plenas férias, ao ler um artigo no jornal "Público", no suplemento "Computadores (6 de Setembro de 2004).

2. A primeira reacção é de revolta e de desalento. Senti-me como um náufrago, destroçado e despejado pela borda fora. Mas a seguir recompus-me e tratei de procurar outro porto de abrigo. De qualquer modo, os economistas já me tinham vindo a avisar, ao longo de todos estes anos, que, no planeta azul, nesta terra que é nossa (mas é sobretudo mais de alguns), "não há almoços de borla".

Segundo o "Público" nos lembra, "o Terràvista foi, de início, um projecto estatal, que (...) acabou por ser vendido à operadora de telecomunicações Jazztel - para vir a ser mais tarde adquirido pela Ya.com".

E davam-se mais pormenores: "O projecto foi idealizado no seio da iniciativa Mosaico - A Cultura Portuguesa na Sociedade da Informação, do Ministério da Cultura, e lançado a 23 de Março de 1997, visando facultar a milhares de cidadãos o alojamento gratuito de conteúdos e a criação de uma vasta comunidade virtual de língua portuguesa, fomentando a produção de conteúdos nacionais para a rede das redes".

A vida deste portal foi, desde o início, atribulada: por exemplo, em Julho de 1998, na sequência de uma notícia que denunciava a persistência de páginas pornográficas, o senhor ministro da Cultura de então, Manuel Maria Carrilho, decidiu encerrar o portal, no meio de um coro de protestos de que ainda hoje há ecos na Net.

Uma semana depois, era "constituída uma associação com o mesmo nome, para a qual foram transferidos os activos e a marca Terràvista - uma solução arranjada para afastar o Ministério da Cultura da responsabilidade dos conteúdos alojados no projecto Terràvista". Nem o Estado nem o ministério da cultura nem muito menos o filósoo Manuel Maia Carrilho têm vocação para gestores. A solução encontrada não era menos desastrada: amanhem-se para aí...

Não admira, por isso, que a Associação Terràvista seja obrigado a vender o portal, apesar da sua popularidade tanto no Velho como no Novo Mundo lusófono, alegando "dificuldades financeiras com os custos de manutenção da sua infra-estrutura" na ausência ou impossibilidade de uma exploração comercial do Terràvista (continuo a citar o artigo do "Público" de 6 de Setembro último).

A venda é feita em Fevereiro de 2000 à Jazztel Internet Factory, do grupo de telecomunicações Jazztel, que a integra "na Ya.com, a sua divisão para a Internet". Dá-se então início a "uma mudança de identidade do projecto, transformando-o num portal com conteúdos próprios mas mantendo as comunidades de cibernautas e o serviço de alojamento gratuito".

Mal passados seis meses, logo em Setembro de 2000, as páginas pessoais alojadas no Terràvista passaram a ter "banners" publicitários. A marujada (como o pessoal era carinhosamente tratado nos primórdios) foi confrontada com a política do facto consumado, tendo sido avisada com apenas dois dias de antecedência (!). Mas quem mandava já falava noutra língua, a castelhana... A polémica rebentou mais uma vez mas de pouco valeram os (fracos) protestos dos marujos.

Dois anos depois, em Setembro de 2002, o Terràvista muda novamente de mãos, "quando a Jazztel anunciou a venda da Ya.com Internet Factory - que integrava os portais português Terràvista e o espanhol Ya.com - por 414,3 milhões de euros à T-online, uma empresa fornecedora de acesso à Internet, subsidiária da operadora alemã Deutsche Telekom". Não sei se foi ou não um mau negócio, mas tenho que reconhecer que era uma pipa de massa.

Foi nessa altura que o Terràvista perdeu o acento grave no primeiro "a"... Um pequeno detalhe que não deixava de ser simbólico... Entretanto, em 20 de Setembro de 2004 (mais uma vez no mês de Setembro, de má memória!) lá irão matar e enterrar o Terràvista. O grande perdedor é seguramente a língua portuguesa e a comunidade lusófona.


3.O que me apetece dizer, em sinal de luto e de protesto, é apenas o seguinte: O projecto original do Terràvista morreu, viva o Terràvista! E vivam todos os cibernautas lusófonos que puseram a sua criatividade em marcha!

De qualquer ao último e aos anteriores senhorios deste espaço no ciberespaço, eu tenho que endereçar os meus agradecimentos. Afinal, sou um cavalheiro civilizado, atento e obrigado. Só tenho pena é que muitas e belíssimas páginas em português se percam, nomeadamente por falta de alternativas de alojamento (gratuito). Estou a pensar nos nossos companheiros lusófonos de países com menos recursos que o nosso em matéria de novas tecnologias da informação, de Cabo verde a Timor, de São Tomé Príncipe ao Brasil...

Pela minha parte, estou grato ao Terràvista por estes cinco anos de utilização de um serviço de que não fui o único beneficiário e que, na prática, não era inteiramente gartuita. É bom recordar que desde há quatro anos a minha página exibia "banners" publicitários, devidamente seleccionados em função da sua temática principal (a saúde e a segurança do trabalho)e do seu público-alvo. De qualquer modo, foi graças ao projecto Terràvista que eu me atrevi a fazer a minha primeira página na Net. Isso não posso negar nem esquecer.

Na hora da despedida, o meu muito obrigado vai sobretudo para os ciberamigos (e foram bastantes) que ganhei. Vou/vamos continuar noutro cantinho do ciberespaço, agora cada vez mais globalizado...

Para os que quiserem continuar a visitar-me, aqui fica o novo endereço da minha página a partir de 10 de Setembro de 2004:

http://www.ensp.unl.pt/luis.graca

É caso para dizer que, a partir de agora, não preciso de atravessar a rua e ser atropelado: fico em casa, o mesmo é dizer que a minha página pessoal está alojada no sítio da instituição onde trabalho, a Escola Nacional de Saúde PÚblica, da Universidade Nova de Lisboa.

12 agosto 2004

Blogantologia(s) – XVII: Paimogo da minha infância III

Nova versão em relação à de 20.06.04. O blogador, em férias, pode ser visto a fazer o seu jogging matinal, na baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia do Paimogo. Que, diga-se baixinho, é um dos mais belos recantos do litoral português. Oxalá os deuses e sobretudo os homens não sejam dominados pela súbita febre do cimento armado que tem destruído outros recantos belíssimos, selvagens, da nossa costa. Vejo, no entanto, com preocupação as pontas dos guindastes a avançarem da Praia da Areia Branca para norte...





Não preciso de ser geólogo

Para te amar,

Ó Praia de Paimogo

Da minha infância.



Nem de ser paleontólogo

Para desenhar na areia

As peugadas da tua errância

De dinossauro do Jurássico Superior.



Nem muito menos biólogo ou sociólogo

Para te conhecer aí onde

Se alimenta o recolector-caçador

E o polvo, o povo, se esconde

Nas marés vivas de lua cheia.



Fugi de terramotos e tempestades,

Procurei abrigo na tua enseada,

Domei as ondas e o vento,

Desfiz mitos, adorei divindades,

Esculpi a esfinge alada

Que guarda a porta do teu templo.



Andei na pesca ao candeio,

Fui pescador de lagosta,

Camponês, jornaleiro, camarada,

Andarilho de costa a costa,

Negociante de peixe, almocreve,

Apanhador de algas, caçador submarino,

Amigo do fado e da boémia,

Poeta, pirata e frade,

Mulher e fêmea,

Viúva de vivo e de morto,

Zé-Ninguém, cidadão clandestino.



Vim da Bretanha em barcos a vapor,

Fui avieiro nos meses longos de verão,

Fenício, cartaginês, romano e moçárabe,

Português do mundo em cada porto.



Armei navios, enriqueci, trafiquei,

De escravos fui senhor

E dono de engenhos nos brasis.

Embarcadiço e capitão do norte,

Aventureiro e explorador colonial,

Bandeirante, garimpeiro,

Prostituta e proxeneta,

E até de príncipes fui conselheiro.



Carreguei vinho nos barris

Da nossa Nau Catrineta,

Para a corte russa, imperial;

Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,

Adubei as minhas terras

Com o limo do mar dos sargaços,

Fiz o meu ninho de ave de rapina

No alto das tuas falésias,

Fui presa e predador,

Dos contrabandistas segui os passos,

Lavrei o mar, semeei a morte,

Sobrevivi a mil e uma guerras,

E os meus mortos enterrei

Nas tuas areias.



Vigiei o mar, o céu e a terra

Do alto setecentista do teu forte:

Tive visões, vi monstros e sereias,

Fugi das garras dos terópodes,

Escapei dos mandíbulas dos crocodilos,

Lutei contra muitas outras feras,

Fiz a paz e a guerra,

Da vida conheci todo os estilos,

Fui condenado às galeras

E quase devorado por gastrópodes,

Peguei de caras o minotauro,

Estive cativo do mouro

Nas longínquas mauritânias,

Choquei os teus ovos de dinossauro,

Construí castros, citânias,

Andei à deriva dos continentes,

Sobrevivi à fome e à peste,

Andei a monte, fugi a salto,

Lutei pela liberdade,

Pela lei e pela grei gritei bem alto,

De norte a sul, de leste a oeste,

E a pátria te defendi,

Contra todos os invasores.



A verdade, a verdade,

É que cobiçada por muitas gentes,

Desejada por muitos senhores,

Nunca nenhuma armada invencível te venceu,

Ó Praia de Paimogo da minha infância.

Se te perdeste,

Se alguma vez te perdeste,

Foi só por amores.



Quando eu era criança,

Quando eu tive a sorte de ser criança

Como diria o Fernando Pessoa,

As sardinhas voltavam sempre

Em frágeis cardumes de prata e luar

À praia onde haviam desovado.



Quando eu era menino e moço,

No tempo em que ainda partiam soldados

Para a Índia, para Goa,

Havia uma princesa, moura, encantada,

Num das tuas grutas submarinas;

O corpo coberto de ágar-ágar,

Era fonte de água pura, quente e doce,

Donde bebiam os ofegantes cavalos alados,

Com as suas enormes narinas.



E o vento, a nortada,

Nas velas dos barcos e dos moinhos,

Falavam-me da tragédia antiga,

Mas ainda viva,

Da filha do teu capitão

Que se havia matado do alto da arriba,

Dizem que por amor e solidão.



No antigo reino mouro

E depois franco e fero da Lourinhã,

Também os búzios me diziam

Que à noite as luzinhas,

A sul das Ilhas Berlengas,

Eram as alminhas

Dos que morriam

No mar, sem sepultura cristã.



Pobres náufragos,

Marinheiros, pescadores,

Poetas loucos, errantes, noctívagos,

Imigrantes clandestinos,

Corsários, contrabandistas, pecadores,

À deriva, sem um ui nem um ai,

Agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.



Hoje não acredito mais

Nessas lendas das alminhas

Que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,

Vendedores de letras de fado

E do Borda-d’Água:

Afinal essas luzinhas,

Lá longe e ali tão perto,

São apenas as traineiras

Ao largo do Mar do Serro,

Atrás dos cardumes de sardinhas.





Forte de Paimogo, visto do lado nascente.

Fotografia gentilmente cedida por © António Pena Luís (2004)





Notas explicativas:



1) O Forte de Paimogo, construído em 1674, construído durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontra-se há muito em estado de ruína. Apraz-me saber que a Cãmara Municipal da Lourinhã tem um projecto para a sua recuperação.



2) O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Cipriano (2001.261-262) refere a ocorrência, de 1968 a 2000, de seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de Março de 1971, no Mar do Serro, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de Maio de 1968), Altar de Deus (6 de Novembro de 1982), Arca de Deus (17 de Fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de Julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de Julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico.



3) Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”.



4) A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão, que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã (Cipriano, 2001. 17-25).



Referência bibliográfica:



Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.



Outras fontes:



Lusodino > Página pessoal de Octávio Mateus



GEAL - Museu da Lourinhã





Blogantologia(s) – XVII: Paimogo da minha infância III

Nova versão em relação à de 20.06.04. O blogador, em férias, pode ser visto a fazer o seu jogging matinal, na baixa-mar, entre a Praia da Areia Branca e a Praia do Paimogo. Que, diga-se baixinho, é um dos mais belos recantos do litoral português. Oxalá os deuses e sobretudo os homens não sejam dominados pela súbita febre do cimento armado que tem destruído outros recantos belíssimos, selvagens, da nossa costa. Vejo, no entanto, com preocupação as pontas dos guindastes a avançarem da Praia da Areia Branca para norte...


Não preciso de ser geólogo
Para te amar,
Ó Praia de Paimogo
Da minha infância.

Nem de ser paleontólogo
Para desenhar na areia
As peugadas da tua errância
De dinossauro do Jurássico Superior.

Nem muito menos biólogo ou sociólogo
Para te conhecer aí onde
Se alimenta o recolector-caçador
E o polvo, o povo, se esconde
Nas marés vivas de lua cheia.

Fugi de terramotos e tempestades,
Procurei abrigo na tua enseada,
Domei as ondas e o vento,
Desfiz mitos, adorei divindades,
Esculpi a esfinge alada
Que guarda a porta do teu templo.

Andei na pesca ao candeio,
Fui pescador de lagosta,
Camponês, jornaleiro, camarada,
Andarilho de costa a costa,
Negociante de peixe, almocreve,
Apanhador de algas, caçador submarino,
Amigo do fado e da boémia,
Poeta, pirata e frade,
Mulher e fêmea,
Viúva de vivo e de morto,
Zé-Ninguém, cidadão clandestino.

Vim da Bretanha em barcos a vapor,
Fui avieiro nos meses longos de verão,
Fenício, cartaginês, romano e moçárabe,
Português do mundo em cada porto.

Armei navios, enriqueci, trafiquei,
De escravos fui senhor
E dono de engenhos nos brasis.
Embarcadiço e capitão do norte,
Aventureiro e explorador colonial,
Bandeirante, garimpeiro,
Prostituta e proxeneta,
E até de príncipes fui conselheiro.

Carreguei vinho nos barris
Da nossa Nau Catrineta,
Para a corte russa, imperial;
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
Adubei as minhas terras
Com o limo do mar dos sargaços,
Fiz o meu ninho de ave de rapina
No alto das tuas falésias,
Fui presa e predador,
Dos contrabandistas segui os passos,
Lavrei o mar, semeei a morte,
Sobrevivi a mil e uma guerras,
E os meus mortos enterrei
Nas tuas areias.

Vigiei o mar, o céu e a terra
Do alto setecentista do teu forte:
Tive visões, vi monstros e sereias,
Fugi das garras dos terópodes,
Escapei dos mandíbulas dos crocodilos,
Lutei contra muitas outras feras,
Fiz a paz e a guerra,
Da vida conheci todo os estilos,
Fui condenado às galeras
E quase devorado por gastrópodes,
Peguei de caras o minotauro,
Estive cativo do mouro
Nas longínquas mauritânias,
Choquei os teus ovos de dinossauro,
Construí castros, citânias,
Andei à deriva dos continentes,
Sobrevivi à fome e à peste,
Andei a monte, fugi a salto,
Lutei pela liberdade,
Pela lei e pela grei gritei bem alto,
De norte a sul, de leste a oeste,
E a pátria te defendi,
Contra todos os invasores.

A verdade, a verdade,
É que cobiçada por muitas gentes,
Desejada por muitos senhores,
Nunca nenhuma armada invencível te venceu,
Ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste,
Se alguma vez te perdeste,
Foi só por amores.

Quando eu era criança,
Quando eu tive a sorte de ser criança
Como diria o Fernando Pessoa,
As sardinhas voltavam sempre
Em frágeis cardumes de prata e luar
À praia onde haviam desovado.

Quando eu era menino e moço,
No tempo em que ainda partiam soldados
Para a Índia, para Goa,
Havia uma princesa, moura, encantada,
Num das tuas grutas submarinas;
O corpo coberto de ágar-ágar,
Era fonte de água pura, quente e doce,
Donde bebiam os ofegantes cavalos alados,
Com as suas enormes narinas.

E o vento, a nortada,
Nas velas dos barcos e dos moinhos,
Falavam-me da tragédia antiga,
Mas ainda viva,
Da filha do teu capitão
Que se havia matado do alto da arriba,
Dizem que por amor e solidão.

No antigo reino mouro
E depois franco e fero da Lourinhã,
Também os búzios me diziam
Que à noite as luzinhas,
A sul das Ilhas Berlengas,
Eram as alminhas
Dos que morriam
No mar, sem sepultura cristã.

Pobres náufragos,
Marinheiros, pescadores,
Poetas loucos, errantes, noctívagos,
Imigrantes clandestinos,
Corsários, contrabandistas, pecadores,
À deriva, sem um ui nem um ai,
Agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.

Hoje não acredito mais
Nessas lendas das alminhas
Que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,
Vendedores de letras de fado
E do Borda-d’Água:
Afinal essas luzinhas,
Lá longe e ali tão perto,
São apenas as traineiras
Ao largo do Mar do Serro,
Atrás dos cardumes de sardinhas.


Forte de Paimogo, visto do lado nascente.
Fotografia gentilmente cedida por © António Pena Luís (2004)


Notas explicativas:

1) O Forte de Paimogo, construído em 1674, construído durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontra-se há muito em estado de ruína. Apraz-me saber que a Cãmara Municipal da Lourinhã tem um projecto para a sua recuperação.

2) O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Cipriano (2001.261-262) refere a ocorrência, de 1968 a 2000, de seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de Março de 1971, no Mar do Serro, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de Maio de 1968), Altar de Deus (6 de Novembro de 1982), Arca de Deus (17 de Fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de Julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de Julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico.

3) Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ninho de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e doutorando Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”.

4) A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão, que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã (Cipriano, 2001. 17-25).

Referência bibliográfica:

Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.

Outras fontes:

Lusodino > Página pessoal de Octávio Mateus

GEAL - Museu da Lourinhã


23 julho 2004

Portugas que merecem as nossas palmas - XI: Sophia de Mello Breyner Andresen ( 1919-2004) e Carlos Paredes (1925-2004)

Pura beleza, a poesia da Sophia,  pura emoção, a música do Carlos!



Seguramente dois dos melhores portugas da geração dos meus pais, dois dos melhores dos nossos melhores em todas as gerações.



Dois portugas que marcaram a minha adolescência e a minha juventude: eu nunca seria o mesmo (nós nunca seríamos os mesmos ...) se em 1962 não tivessem ocorrido dois momentos mágicos: (i) o Livro Sexto, da Sophia; e (ii) os Verdes Anos (o filme de Paulo Rocha, com banda sonora do Carlos Paredes).



Ah!, este país que ainda consegue emocionar-me, mexer comigo e até ser motivo de orgulho!



"Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar." (Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962).



Obrigado, amiga! Obrigado, amigo!



Portugas que merecem as nossas palmas - XI: Sophia de Mello Breyner Andresen ( 1919-2004) e Carlos Paredes (1925-2004)

Pura beleza, a poesia da Sophia,  pura emoção, a música do Carlos!

Seguramente dois dos melhores portugas da geração dos meus pais, dois dos melhores dos nossos melhores em todas as gerações.

Dois portugas que marcaram a minha adolescência e a minha juventude: eu nunca seria o mesmo (nós nunca seríamos os mesmos ...) se em 1962 não tivessem ocorrido dois momentos mágicos: (i) o Livro Sexto, da Sophia; e (ii) os Verdes Anos (o filme de Paulo Rocha, com banda sonora do Carlos Paredes).

Ah!, este país que ainda consegue emocionar-me, mexer comigo e até ser motivo de orgulho!

"Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto ao mar." (Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962).

Obrigado, amiga! Obrigado, amigo!

22 julho 2004

Humor com humor se paga - XVI: A (e)terna sabedoria popular

1. A revolução é a festa dos deprimidos (… e o futebol, a dos comprimidos).



2. À noite todas as pardas são gatas (… e todas as loiras são inteligentes mas daltónicas).



3. Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras (…dão mais jeito, são mais práticas, dão mais pica).



4. Amor livre, sexo pago (… não se pode ter tudo).



5. As mulheres perdidas são as mais procuradas (… na secção de Perdidos & Achados da esquadra de polícia mais próxima).



6. Até encontrares o homem  certo, diverte-te com os errados (... para sermos socialmente correctos: Até encontrares a mulher certa, diverte-te com as erradas). 



7. Cuidado com as mulheres fáceis:  será difícil  livrares-te delas!  (... mas também não sei o que as mulheres pensam dos homens fáceis).



8. Conselho (para)suicidário: existe, insiste! (... ah!, o duro ofício de viver).



9. Dizem que o diabo não é tão feio como o pintam (... o que é decepcionante:  já não posso diabolizar  a outra metade do mundo que eu detesto).



10. Entra merda, sai merda (… ou será  melhor dar o benefício da dúvida ?).



11. Errar é  tão humano quanto divino (... acho que assim é teologicamente mais correcto).



12. Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro (... é o que eu costumo dizer ao meu chefe para justificar os meus já crónicos problemas de pontualidade). 



13. Mulher que sabe latim, não tem marido nem bom fim! (… é uma hipótese de investigação para a socio(b)logia dos gender-relatade studies).



14. Melancia grande e gaja boa, ninguém come sozinho (... viva a socialização do prazer!) .



15. Médico novo e puta velha, todos gostam de experimentar (... o que é confirmadoi pelo ICEP quando diz que Portugal é particularmente sensível à modernidade, por um lado, e à tradição, por outro).



16. Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador (... não sei qual será o estatuto dos gajos que andam à boleia no país do Zé) .



17. Não roubarás, diz um dos Dez Mandamentos da lei de Deus (… além disso,  o Estado detesta concorrência).



18. No teatro do poder, todos somos diplomados: uns em artes cénicas e outros em artes cínicas (... não me venhas dizer, companheiro, que o poder não te interessa de todo).



19. O beijo pode não matar a fome, mas abre o apetite (... foi você quem pediu um beijo ?).



20. O dinheiro pode não  trazer a felicidade, mas ajuda-te a gerir a depressão  (… em sítios in como a Quinta do Lago que eu só conheço como excursionista).



21. O dinheiro não compra a saúde (... mas eu prefiro ser rico com saúde do que pobre com doença).



22. O Homem é um erro de 'casting' de Deus (… o contrário não é verdadeiro e, se o fosse, seria blasfémia!) .



23. O hóspede e o peixe aos três dias fedem (…é melhor pô-los no frigorífico!).



24. O meu Banco ? O Alimentar Contra a Fome (... que a fome dos outros, em Portugal ou em Angola, é apenas um fait-divers).



25. Os negócios do Zé (… afinal, quem os não tem?) .



26. Pensamento (não-oficial, mas oficioso) do dia:  Percebe-se melhor o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida de  um país quando até o Primeiro-Ministro é um emigrante (de luxo).



27. Portugal: 0; Europa: 1 (… "Perdi um mau primeiro-ministro portuga; espero ganhar um bom presidente europeu", disse um dos indefectíveis apoiantes da selecção nacional de futebol que ainda não despiram a camisola, não penduraram o cachecol nem retiraram da janela a bandeira das quinas, na ressaca do Euro2004-de-todas-as-emoções-excepto-a-da-vitória-final).

28. Quando pobre come frango, um dos dois está doente (... ou fora do prazo de validade).



29. Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu (... esta é miserabilista!).



30. Se a morte é um descanso, então eu prefiro viver cansado (... o que não me resolve o problema, a avaliar pelo provérbio 'Muita saúde, pouco vida, porque Deus não dá tudo').



31. Se Deus escreve direito por linhas tortas, a culpa só pode ser da caneta, do papel ou do professor.



32. Se te queres matar, porque não te queres matar?  (… Se o Álvaro de Campos estivesse aqui acrescentaria: Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria...). 



33. Sous le pavé, la plage!  ("Debaixo da calçada, a praia!") (1968) (...os estudantes hoje não têm mais imaginação: vão directamente à agência de viagens da respectiva associação, em vez de levantarem as pedras da calçada).



34. Terra virgem (…que a minhoca é mole).



35. Uns têm veia poética, outros têm varizes (… é um problema de equidade em saúde).



36. Velho dá bom conselho (… já que não consegue dar mau exemplo).



37. Zé: A família tem orgulho em ti. Boa sorte! Desculpa lá qualquer coisinha...









Humor com humor se paga - XVI: A (e)terna sabedoria popular

1. A revolução é a festa dos deprimidos (… e o futebol, a dos comprimidos).

2. À noite todas as pardas são gatas (… e todas as loiras são inteligentes mas daltónicas).

3. Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras (…dão mais jeito, são mais práticas, dão mais pica).

4. Amor livre, sexo pago (… não se pode ter tudo).

5. As mulheres perdidas são as mais procuradas (… na secção de Perdidos & Achados da esquadra de polícia mais próxima).

6. Até encontrares o homem  certo, diverte-te com os errados (... para sermos socialmente correctos: Até encontrares a mulher certa, diverte-te com as erradas). 

7. Cuidado com as mulheres fáceis:  será difícil  livrares-te delas!  (... mas também não sei o que as mulheres pensam dos homens fáceis).

8. Conselho (para)suicidário: existe, insiste! (... ah!, o duro ofício de viver).

9. Dizem que o diabo não é tão feio como o pintam (... o que é decepcionante:  já não posso diabolizar  a outra metade do mundo que eu detesto).

10. Entra merda, sai merda (… ou será  melhor dar o benefício da dúvida ?).

11. Errar é  tão humano quanto divino (... acho que assim é teologicamente mais correcto).

12. Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro (... é o que eu costumo dizer ao meu chefe para justificar os meus já crónicos problemas de pontualidade). 

13. Mulher que sabe latim, não tem marido nem bom fim! (… é uma hipótese de investigação para a socio(b)logia dos gender-relatade studies).

14. Melancia grande e gaja boa, ninguém come sozinho (... viva a socialização do prazer!) .

15. Médico novo e puta velha, todos gostam de experimentar (... o que é confirmadoi pelo ICEP quando diz que Portugal é particularmente sensível à modernidade, por um lado, e à tradição, por outro).

16. Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador (... não sei qual será o estatuto dos gajos que andam à boleia no país do Zé) .

17. Não roubarás, diz um dos Dez Mandamentos da lei de Deus (… além disso,  o Estado detesta concorrência).

18. No teatro do poder, todos somos diplomados: uns em artes cénicas e outros em artes cínicas (... não me venhas dizer, companheiro, que o poder não te interessa de todo).

19. O beijo pode não matar a fome, mas abre o apetite (... foi você quem pediu um beijo ?).

20. O dinheiro pode não  trazer a felicidade, mas ajuda-te a gerir a depressão  (… em sítios in como a Quinta do Lago que eu só conheço como excursionista).

21. O dinheiro não compra a saúde (... mas eu prefiro ser rico com saúde do que pobre com doença).

22. O Homem é um erro de 'casting' de Deus (… o contrário não é verdadeiro e, se o fosse, seria blasfémia!) .

23. O hóspede e o peixe aos três dias fedem (…é melhor pô-los no frigorífico!).

24. O meu Banco ? O Alimentar Contra a Fome (... que a fome dos outros, em Portugal ou em Angola, é apenas um fait-divers).

25. Os negócios do Zé (… afinal, quem os não tem?) .

26. Pensamento (não-oficial, mas oficioso) do dia:  Percebe-se melhor o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida de  um país quando até o Primeiro-Ministro é um emigrante (de luxo).

27. Portugal: 0; Europa: 1 (… "Perdi um mau primeiro-ministro portuga; espero ganhar um bom presidente europeu", disse um dos indefectíveis apoiantes da selecção nacional de futebol que ainda não despiram a camisola, não penduraram o cachecol nem retiraram da janela a bandeira das quinas, na ressaca do Euro2004-de-todas-as-emoções-excepto-a-da-vitória-final).
28. Quando pobre come frango, um dos dois está doente (... ou fora do prazo de validade).

29. Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu (... esta é miserabilista!).

30. Se a morte é um descanso, então eu prefiro viver cansado (... o que não me resolve o problema, a avaliar pelo provérbio 'Muita saúde, pouco vida, porque Deus não dá tudo').

31. Se Deus escreve direito por linhas tortas, a culpa só pode ser da caneta, do papel ou do professor.

32. Se te queres matar, porque não te queres matar?  (… Se o Álvaro de Campos estivesse aqui acrescentaria: Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, se ousasse matar-me, também me mataria...). 

33. Sous le pavé, la plage!  ("Debaixo da calçada, a praia!") (1968) (...os estudantes hoje não têm mais imaginação: vão directamente à agência de viagens da respectiva associação, em vez de levantarem as pedras da calçada).

34. Terra virgem (…que a minhoca é mole).

35. Uns têm veia poética, outros têm varizes (… é um problema de equidade em saúde).

36. Velho dá bom conselho (… já que não consegue dar mau exemplo).

37. Zé: A família tem orgulho em ti. Boa sorte! Desculpa lá qualquer coisinha...