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11 outubro 2004

BlogAngola - I: O meu álbum de fotografias de Luanda

Car@s ciberamig@s (avilos ou cambas, na fala de Angola):

Ficam convidad@s para visitar os meus mais recentes álbuns de fotografia sobre Angola. Na volta, espero que me façam chegar críticas, sugestões e comentários.O meu propósito é sobretudo (in)formativo. Este é um olhar possível, o meu olhar, sobre Angola, e mais concretamente Luanda e os seus arredores, que eu conheci pela primeira vez em Setembro de 2003.

É trabalho de um turista acidental, modesto, despretensioso, feito mais com o coração do que com a razão, que tem por objectivo dar a conhecer melhor a Angola e os angolanos de hoje… É um trabalho generoso e solidário, mas que não deixa de ser crítico... É também uma pequena homenagem aos meus amigos angolanos.

O álbum está alojado no Portal Care2.com. Está divido em sete áeras temáticas:

Angola > Paisagens / Landscapes
Angola > Saúde / Public Health
Angola > Trabalho / Work
Angola > Luanda > Cidade / City
Angola > Luanda > Soleme Hospedaria / Guest House
Angola > Luanda > Musseques / Urban Slums
Angola > Os meus amigos / My friends

Aqui fica uma pequena amostra. Até à data, tenho nos vários álbuns temáticos mais de duas centena de fotografias disponíveis para visualização. Foram tiradas em Canon Dgital IXUS 430 e depois editadas, estando legendadas em português (ou melhor, sociologuês) e em inglês...

1. Angola > Paisagens / Landscapes:

Portuguese version / Versão em português:

Angola: Um imenso parto com dor, um grande país lusófono, um grande povo irmão, uma grande nação africana em construção, uma mãe natureza generosa... Espero que o povo angolano rapidamente encontre os caminhos da verdadeira independência,da verdadeira liberdade e da verdadeira paz, que não volte a ter mais nenhuma madrasta (nem nenhum padastro), que recupere a sua identidade, que tenha orgulho em si próprio e que seja um exemplo para todos os outros povos de África e para o resto do mundo, incluindo nós, os tugas. Este álbum é também uma pequena homenagem aos angolanos que aamm a sua terra. Como diz Hondjaki, no seu romance "Quantas madrugadas tem a noite" (Luanda: Nzila, 2004.184); " vamos só, malembemente - faz conta somos os cágados e as lesmas - enfrentar o nosso dia-a-dia: se essa é a terra que nascemos com ela, vamos afzer mais como então...?".

English version / Versão em inglês:

Angola: It has been a childbirth with pain, but it is today a great Portuguese-speaking country, a brother country.. It is also a great African nation under construction, a generous mother nature... I wait that the Angolan people quickly finds the main path for the true independence, the true freedom and the true peace... Angola needs to rediscover and claim its roots, its identity, its pride and its self-esteem in order to become an example to all the world, including the Portuguese guys. This photo album is also a small but friendly homage to the Angolan people, including the novelist Hondjaki whose last novel I have enjoyed very much.



Legenda: A liberdade só pode ser livre. Aves exercendo o direito à liberdade.
Angola, Luanda, algures numa das praias atlânticas da península do Mussulo. 26 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)


2. Angola - Saúde / Public Health:

Portuguese version / Versão em português:

O futuro de Angola não são (só...) as suas riquezas naturais (o petróleo, os diamantes e outros recursos minerais), são sobretudo as suas crianças... O seu futuro vai depender do investimento que for feito na saúde e na educação dos seus filhos... Há grandes desafios que se põem à saúde pública em Angola: (i) a luta contra a malária, a tuberculose, a Sida, a mortalidade infantil...; (ii) a reorganização e modernização do Serviço Nacional de Saúde; (iii) a melhoria das competências em gestão dos responsáveis dos serviços públicos de saúde; etc.

English version / Versão em inglês:

The future of Angola is not only its natural wealth (the mineral oil, the diamonds and the other underground resources), it is mainly its children... Its future depends on the health and education investments... Public health is facing great challenges but also opportunities: (i) the fight against the malaria, the tuberculosis, the AIDS/HIV, infantile mortality...; (ii) the reorganization and modernization of the National Health Service; (iii) the improvement in management knowledge and skills concerning the medical doctors and other health professionals in charge of hospitals and health centres.



Legenda: O futuro de Angola são as suas crianças... Criança que vai para a escola. Luanda, Maianga, Hospedaria Soleme. 30 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)


3. Angola - Luanda - Cidade:

Portuguese verson / Versão em português:

Veja (ou reveja) Luanda, de mente aberta, sem estereótipos, sem preconceitos, sem ressentimentos... O património cultural, as ruas, o quotidiano, o trabalho, as gentes, a gente boa e corajosa que lá vive... Veja o mapa da cidade em: http://www.gindungo-online.freehomepage.com/tourist_attractions.htm

English version:

Be a open-minded guy and see (or see again) Luanda without stereotypes and prejudices: its cultural heritage, the streets, the work, the everyday life, the nice and brave people who is living there... Please look at the city map on: http://www.gindungo-online.freehomepage.com/tourist_attractions.htm

Legenda: Vendedeiras nas imediações do hospital Maria Pia/Josina Machel. Luanda, Maianga. 22 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

4. Angola - Luanda - Musseques / Urban Slums:

Portuguese version / Versão em português:

Luanda, o grande musseque... Uma cidade de 3 e meio a 4 milhões de habitantes, na sua maior parte deslocados e desenraízados devido a décadas de guerra... 40 km de comprido por 20 de largo, diz-me o meu taxista, usando o olhómetro e a sua experiência de kaluanda que conhece Seca e Meca... Em kimbundu, musseque quer dizer 'terreno ou local arenoso'...

English version / Versão em inglês: Luanda, the big slum... People living here are over 3 or 4 million, the great majority of them having been dislocated by a long and cruel war... In Kimbundu, 'musseque' (slum) means 'built with sand'...




Legenda: A Odebrecht em acção... Estrada do sul, ao longo do Musseque da Samba, à saída de Luanda. Inúmeros casas do bairro foram ou estão a ser demolidas por causa do alargamento da estrada e das obras de saneamento. A Odebrecht Angola Lda emprega quadros brasileiros e operários angolanos. Disseram-me que os salários médios dos angolanos não devem ultrapassar os 100 a 120 dólares/mês. 20 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

5. Angola - Luanda - Soleme Guest House:

Portuguese version / Versão portuguesa:

Soleme, hospedaria, pensão, 'guest house'... Chamem-lhe o que quiserem. Aqui sinto-me em casa. Provalmente o sítio mais cosmopolita e, ao mesmo tempo,amigável de Luanda... A minha chapelada à Lady Eugénia e às demais meninas Leal Monteiro: Paulina, Rita, Antónia, Magui... E aos cavalheiros: o Jaime, o embaixador Norberto...

English version: Soleme is a good place to stay in Luanda: located at the Maianga quarter, it is close to Josina Machel Hospital, the President's Palace and the Angolan Parliament. It belongs to the Portuguese-origin family Leal Monteiro. I wish a long life to Mrs. Maria Eulalia Augusta, the 97 year old matriarch of this nice family. She had eight children, two sons and six daughters. Her husband, Jaime, would celebrated 100 years if alive today. Many thanks to Gena, Paulina, Rita, Jaime, Norberto (the embassador), Antónia (Viteix's widow) and the nice and gentle people I have met there, including a lot of world citizens.



Legenda: Hospedaria Soleme: Fachada Principal. Luanda, Maianga. 19 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

6. Angola - Trabalho / Work:

Portuguese version / Versão em português:

O trabalho não é pera doce em Angola, ou pelo menos em Luanda, cidade de formiguinhas... Do segurança ao padeiro, do condutor de candongueiro à quitandeira, trabalha-se no duro, muitas horas, para no fim levar para a casa umas escassas centenas de kwanzas...

English version / Versão em inglês: In Luanda one works very hard. These photos ilustrate people's struggle for life, from the crazy, collective taxi drivers to the thousands of 'zungueiros', men and specially women who make their living selling goods on the streets. The price of one piece of bread is equivalent to one litre of oil, twenty kwanzas.



Legenda: "Não há vagas, obrigado". Estaleiro de construção. Futura sede do Centro Nacional de Informação sobre o Sida. Luanda, Maianga. 21 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

BlogAngola - I: O meu álbum de fotografias de Luanda

Car@s ciberamig@s (avilos ou cambas, na fala de Angola):

Ficam convidad@s para visitar os meus mais recentes álbuns de fotografia sobre Angola. Na volta, espero que me façam chegar críticas, sugestões e comentários.O meu propósito é sobretudo (in)formativo. Este é um olhar possível, o meu olhar, sobre Angola, e mais concretamente Luanda e os seus arredores, que eu conheci pela primeira vez em Setembro de 2003.

É trabalho de um turista acidental, modesto, despretensioso, feito mais com o coração do que com a razão, que tem por objectivo dar a conhecer melhor a Angola e os angolanos de hoje… É um trabalho generoso e solidário, mas que não deixa de ser crítico... É também uma pequena homenagem aos meus amigos angolanos.

O álbum está alojado no Portal Care2.com. Está divido em sete áeras temáticas:

Angola > Paisagens / Landscapes
Angola > Saúde / Public Health
Angola > Trabalho / Work
Angola > Luanda > Cidade / City
Angola > Luanda > Soleme Hospedaria / Guest House
Angola > Luanda > Musseques / Urban Slums
Angola > Os meus amigos / My friends

Aqui fica uma pequena amostra. Até à data, tenho nos vários álbuns temáticos mais de duas centena de fotografias disponíveis para visualização. Foram tiradas em Canon Dgital IXUS 430 e depois editadas, estando legendadas em português (ou melhor, sociologuês) e em inglês...

1. Angola > Paisagens / Landscapes:

Portuguese version / Versão em português:

Angola: Um imenso parto com dor, um grande país lusófono, um grande povo irmão, uma grande nação africana em construção, uma mãe natureza generosa... Espero que o povo angolano rapidamente encontre os caminhos da verdadeira independência,da verdadeira liberdade e da verdadeira paz, que não volte a ter mais nenhuma madrasta (nem nenhum padastro), que recupere a sua identidade, que tenha orgulho em si próprio e que seja um exemplo para todos os outros povos de África e para o resto do mundo, incluindo nós, os tugas. Este álbum é também uma pequena homenagem aos angolanos que aamm a sua terra. Como diz Hondjaki, no seu romance "Quantas madrugadas tem a noite" (Luanda: Nzila, 2004.184); " vamos só, malembemente - faz conta somos os cágados e as lesmas - enfrentar o nosso dia-a-dia: se essa é a terra que nascemos com ela, vamos afzer mais como então...?".

English version / Versão em inglês:

Angola: It has been a childbirth with pain, but it is today a great Portuguese-speaking country, a brother country.. It is also a great African nation under construction, a generous mother nature... I wait that the Angolan people quickly finds the main path for the true independence, the true freedom and the true peace... Angola needs to rediscover and claim its roots, its identity, its pride and its self-esteem in order to become an example to all the world, including the Portuguese guys. This photo album is also a small but friendly homage to the Angolan people, including the novelist Hondjaki whose last novel I have enjoyed very much.



Legenda: A liberdade só pode ser livre. Aves exercendo o direito à liberdade.
Angola, Luanda, algures numa das praias atlânticas da península do Mussulo. 26 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)


2. Angola - Saúde / Public Health:

Portuguese version / Versão em português:

O futuro de Angola não são (só...) as suas riquezas naturais (o petróleo, os diamantes e outros recursos minerais), são sobretudo as suas crianças... O seu futuro vai depender do investimento que for feito na saúde e na educação dos seus filhos... Há grandes desafios que se põem à saúde pública em Angola: (i) a luta contra a malária, a tuberculose, a Sida, a mortalidade infantil...; (ii) a reorganização e modernização do Serviço Nacional de Saúde; (iii) a melhoria das competências em gestão dos responsáveis dos serviços públicos de saúde; etc.

English version / Versão em inglês:

The future of Angola is not only its natural wealth (the mineral oil, the diamonds and the other underground resources), it is mainly its children... Its future depends on the health and education investments... Public health is facing great challenges but also opportunities: (i) the fight against the malaria, the tuberculosis, the AIDS/HIV, infantile mortality...; (ii) the reorganization and modernization of the National Health Service; (iii) the improvement in management knowledge and skills concerning the medical doctors and other health professionals in charge of hospitals and health centres.



Legenda: O futuro de Angola são as suas crianças... Criança que vai para a escola. Luanda, Maianga, Hospedaria Soleme. 30 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)


3. Angola - Luanda - Cidade:

Portuguese verson / Versão em português:

Veja (ou reveja) Luanda, de mente aberta, sem estereótipos, sem preconceitos, sem ressentimentos... O património cultural, as ruas, o quotidiano, o trabalho, as gentes, a gente boa e corajosa que lá vive... Veja o mapa da cidade em: http://www.gindungo-online.freehomepage.com/tourist_attractions.htm

English version:

Be a open-minded guy and see (or see again) Luanda without stereotypes and prejudices: its cultural heritage, the streets, the work, the everyday life, the nice and brave people who is living there... Please look at the city map on: http://www.gindungo-online.freehomepage.com/tourist_attractions.htm

Legenda: Vendedeiras nas imediações do hospital Maria Pia/Josina Machel. Luanda, Maianga. 22 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

4. Angola - Luanda - Musseques / Urban Slums:

Portuguese version / Versão em português:

Luanda, o grande musseque... Uma cidade de 3 e meio a 4 milhões de habitantes, na sua maior parte deslocados e desenraízados devido a décadas de guerra... 40 km de comprido por 20 de largo, diz-me o meu taxista, usando o olhómetro e a sua experiência de kaluanda que conhece Seca e Meca... Em kimbundu, musseque quer dizer 'terreno ou local arenoso'...

English version / Versão em inglês: Luanda, the big slum... People living here are over 3 or 4 million, the great majority of them having been dislocated by a long and cruel war... In Kimbundu, 'musseque' (slum) means 'built with sand'...




Legenda: A Odebrecht em acção... Estrada do sul, ao longo do Musseque da Samba, à saída de Luanda. Inúmeros casas do bairro foram ou estão a ser demolidas por causa do alargamento da estrada e das obras de saneamento. A Odebrecht Angola Lda emprega quadros brasileiros e operários angolanos. Disseram-me que os salários médios dos angolanos não devem ultrapassar os 100 a 120 dólares/mês. 20 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

5. Angola - Luanda - Soleme Guest House:

Portuguese version / Versão portuguesa:

Soleme, hospedaria, pensão, 'guest house'... Chamem-lhe o que quiserem. Aqui sinto-me em casa. Provalmente o sítio mais cosmopolita e, ao mesmo tempo,amigável de Luanda... A minha chapelada à Lady Eugénia e às demais meninas Leal Monteiro: Paulina, Rita, Antónia, Magui... E aos cavalheiros: o Jaime, o embaixador Norberto...

English version: Soleme is a good place to stay in Luanda: located at the Maianga quarter, it is close to Josina Machel Hospital, the President's Palace and the Angolan Parliament. It belongs to the Portuguese-origin family Leal Monteiro. I wish a long life to Mrs. Maria Eulalia Augusta, the 97 year old matriarch of this nice family. She had eight children, two sons and six daughters. Her husband, Jaime, would celebrated 100 years if alive today. Many thanks to Gena, Paulina, Rita, Jaime, Norberto (the embassador), Antónia (Viteix's widow) and the nice and gentle people I have met there, including a lot of world citizens.



Legenda: Hospedaria Soleme: Fachada Principal. Luanda, Maianga. 19 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

6. Angola - Trabalho / Work:

Portuguese version / Versão em português:

O trabalho não é pera doce em Angola, ou pelo menos em Luanda, cidade de formiguinhas... Do segurança ao padeiro, do condutor de candongueiro à quitandeira, trabalha-se no duro, muitas horas, para no fim levar para a casa umas escassas centenas de kwanzas...

English version / Versão em inglês: In Luanda one works very hard. These photos ilustrate people's struggle for life, from the crazy, collective taxi drivers to the thousands of 'zungueiros', men and specially women who make their living selling goods on the streets. The price of one piece of bread is equivalent to one litre of oil, twenty kwanzas.



Legenda: "Não há vagas, obrigado". Estaleiro de construção. Futura sede do Centro Nacional de Informação sobre o Sida. Luanda, Maianga. 21 de Setembro de 2004. © Luís Graça (2004)

11 julho 2004

Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada

Para o António, o Xico, o Daniel, o Mário, a Evelize, o Miguel, o Cunha, o Jorge e os demais companheiros da saúde pública, portugueses e angolanos, que acreditam e apostam no humanware angolano, tendo concebido, planeado e implementado o 1º Curso de Introdução à Administração dos Hospitais (3 blocos, com mais de 20 módulos, num total superior a 600 horas), num discreto mas notável projecto de cooperação que envolve, pelo lado angolano, o Ministério da Saúde de Angola e a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e pelo lado português a Fundação Calouste Gulbenkian e a Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa. E para o pessoal de secretariado, da Idalisa (Lisboa) à Elisabete (Luanda), que na retaguarda asseguram as mil e uma pequenas coisas que garantem o sucesso das grandes coisas.

Um especial kandandu para o Jorge que eu não pude rever desta vez, em Luanda, e que me dizem estar doente. As tuas melhoras, amigo e companheiro.

Para a Rita, a Paulina, a Eugénia e a Maria Antónia, as meninas Leal Monteiro dessa Casa Grande & Sanzala que é a Hospedaria Soleme, em Luanda, na Maianga, que tem sido a nossa casa, o nosso oásis e o nosso porto de abrigo. Sem esquecer a velha senhora Maria Eulália, a matriarca da família, que eu infelizmente ainda não conheço.

Trata-se, além disso, de um lugar único em Luanda já que a casa está também cheia de recordações e de obras do grande pintor angolano Viteix (Vítor Teixeira) (1940-1993), só agora conhecido em Portugal (A galeria da Caixa Geral de Depósitos, no Porto, teve em exposição entre Abril e Junho de 2004 uma importante colecção de obras do pintor, do período de 1958 a 1993, uma parte das quais temporariamente cedidas pela família Leal Monteiro a que o pintor estava ligado pelos laços do casamento).

Um enorme painel de azulejos, reproduzindo um das suas telas, feito em Portugal e montado sob orientação do seu filho, passou entretanto a partir de Dezembro último a figurar no alto de uma das paredes, adjacentes à fachada principal do edifício da Soleme. Devidamente iluminado à noite por projectores, o painel é perfeitamente visível da Rua Kwamme N'krumah e constitui uma justa e terna homenagem da família ao Viteix. Os dez anos da sua morte também foram devidamente assinalados na sua terra, com uma exposição em Maio de 2003, sob o título "Reviver Viteix".

Queridas amigas: Continuo a pensar que a vossa casa, a Soleme, é um verdadeiro oásis em Luanda, um lugar onde se alia a tradição, a cultura, a gastronomia, a hospitalidade, o cosmopolitismo, a arte de bem receber e sobretudo o human touch, o toque humano, que faz de uma simples relação comercial uma verdadeira relação de amizade...

Quero aqui prestar, em meu nome, a minha homenagem às grandes mulheres que mantêm de pé a belíssima casa, feita de granito angolano, talhada por artesões portugueses dos anos 20, que foi do vosso pai e avô, João Monteiro, quadro superior da administração colonial que faria este ano cem anos se fosse vivo (1904-2004)... Tivemos pena, eu e o Daniel, de não podermos estar na vossa festa, na passada sexta-feira... De qualquer modo ficámos sensibilizados pelo vosso convite. A viagem de regresso a Lisboa correu bem. Até sempre, amig@s!




Fonte: Fotografia gentilmente cedida pela Hospedaria Soleme, Rua Kwamme N'krumah, 1, Maianga, Luanda


Luanda revis(i)tada

Não vi flores,
Não vi acácias vermelhas,
Dessas rubras acácias de Benguela,
No teu imenso muceque;
Não vi o esplendor celebrado
Da tua baía,
Nem senti o sortilégio da tua ilha dos amores,
Ó cidade de Luanda
Que a gente nunca esquece,
Outrora tão jovem e tão bela.

Porém, no teu rosto (re)visitado
Pelas rugas velhas
Da guerra, da pobreza e da malária,
Descobri diamantes em estado puro
No teu olhar de criança
Perdida em viagem imaginária.

De modo nenhum te quereria
Em postal ilustrado,
Decadente e saudosista,
Com carimbo de correio pós-colonial:
A restinga do Mussulo ao pôr-do-sol,
A laguna, o mangal, a marginal,
E o estúpido turista em férias,
No Coconuts, na ilha, elitista,
Ou na piscina do Hotel Tropical!

Não li sequer os graffiti do FMI,
Gravados a duro pau de giz
Nos muros dos palácios da cidade alta,
Proclamando urbi et orbi
Que doravante toda a malta
Seria rica e feliz!

Há muito que os kaluandas partiram,
Deixando atrás de si,
Com um misto de saudade e de glória,
O calor húmido e fraterno
Da grande nação crioula.
Mais os imbondeiros que resistiram
À seca, à fome, ao inferno,
Ao lixo, à sida, à história.

O cheiro fétido do humano
Viaja nos candongueiros
Que atravessam de lés a lés
A tua rede de túneis-formigueiros,
As tua entranhas, o teu tutano,
A tua essência.
Alguém poderia achar essas correrias loucas
Se não soubesse quem tu és,
Mas tu tens o teu tempo e a tua medida,
Ó cidade das mulheres empreendedoras,
Peritas na arte da sobrevivência.

Um enorme exército de formigas obreiras,
Com os jerricãs de plástico à cabeça,
Leva o fio da água da vida,
Tão preciosa quanto parca,
Ao teu ventre de Jocasta,
Mãe África, mãe de kixikila,
Zungueira, matriarca,
Moça reguila, parideira,
Quitandeira, kinguila.

Na praia dos pescadores
Há meninos, brancos e pretos,
Pé descalço e calças rotas,
A chutar a bola às balizas da sorte.
Poderão não vir a ser uns senhores,
E sorrir como o Mantorras,
O rosto espalhado em outdoors pela cidade.
Mas contarão, decerto, aos seus netos
Como souberam fintar a morte
Desde a mais tenra idade.

Mãe África, mãe coragem,
Para quem pouco te basta,
Mesmo se muito tu queres
Daquilo a que tens pleno direito:
Cidade revis(i)tada,
Sem mapa nem roteiro,
Simples lugar de passagem,
Onde um litro de gasolina, imagina!
Custa tanto quanto um pão,
Vinte kwanzas.

Poderei dizer em Lisboa, se quiseres,
Que o melhor de ti, Luanda, terra quente,
É a tua gente, a quem mando um chicoração:
As tuas infatigáveis mulheres,
E as tuas ternas, eternas, crianças.


Glossário de termos do falar local:

Candongueiros - Os endiabrados táxis colectivos de Luanda. Param um qualquer sítio e levam sempre mais um passageiro para além da sua lotação máxima Cada viagem custa 30 kwanzas. O termo vem de candonga (contrabando). "Inicialmente o contrabando de peixe seco. Só muitos anos mais tarde se passaria a usar o termo candongueiro para designar os contrabandistas de diamantes ou, mais tarde ainda, os novos taxistas luandenses do chamado processo dos 500" (Segundo leio no sítio de um brasileiro sobre os países e comunidades de língua portuguesa) .

Imbondeiro - Também conhecido por n´bondo (Adansonia digitata, Lin.):

Kaluanda - Nome antigo, colonial, dado ao habitante de Luanda.

Kandandu - Abraço (Plural: Jindandu). Ver outras expressões usadas nas saudações em kimbundu.

Kimbundu - Considerado o maior grupo etnolinguístico de Angola (c. 25% da população na costa oeste e no norte), a seguir ao ovimbundu (c. 37%, a sul), mas à frente do bakongo (13%) (Estas são as três principais línguas de Angola, todas elas pertencentes ao grupo bantu). A língua oficial é, como se sabe, o português. No Ciberdúvidas da Língua Portuguesa há uma interessantíssima nota de Rui Ramos sobre as relações nem sempre fáceis entre o português (colonial, dominante) e o kimbundu (ou quimbundo, o falar das gentes de Luanda-Malanje). Termos usados hoje pelos nossos jovens, como cota (dikota, pessoa mais velha) são provenientes do kimbundu. Sobre as questões de grafia (kimbundu ou quimbundo), ver igualmente a resposta do angolano Rui Ramos, especialista em línguas africanas, no mesmo sítio. Não se deve confundir, no entanto, o kimbundu com o calão de Luanda (caso de bué, e outras expressões que se ouvem na noite lisboeta).

Kinguila - Rapariga ou mulher que, no mercado paralelo, se dedica ao câmbio de moeda. Em geral, os maços de kwanzas e de dólares são guardados nos seios. Este negócio era tradicionalmente dos zairotas, habitantes do Zaire. Segundo o portal Netangola, numa página com preciosas dicas para os homens de negócios estrangeiros em visita a Luanda, "one can often find in the streets of the city the typical Kinguila - the seller of money - who normally offers the best quotation. This practice is forbidden by the authorities and offers some risks".

Kixikila - Em kimbundu, quer dizer contribuição, em dinheiro, para um dado fim colectivo. Em África, em geral, e em Angola, em particular, é aquilo que se designa pela expressão inglesa Rotating Savings and Credit Associations (ROSCA), um sistema informal de poupança e crédito, um grupo de ajuda mútua, liderado em geral por uma mulher, a "mãe de kixikila". O pequeno grupo, de cinco a dez elementos, tende a ser constituído por pessoas que estão ligadas entre si por laços de amizade, parentesco, vizinhança ou profissão. Cada elemento faz periodicamente uma determinada contribuição para um fundo comum que é depois utilizado rotativamente por cada um, com uma taxa de juro nula ou de valor reduzido. Na ausência de sistemas de crédito bancário acessíveis à generalidade da população, o kixikila voltou aos hábitos dos kaluandas como forma de atenuar ou reduzir o impacto da pobreza. O kixikila está hoje vulgarizado, não só entre as vendedeiras, quitandandeiras e kinguilas, mas também nos serviços públicos e nas empresas (vd. Neto, S. - Kixikila não é uma lotaria. Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004). 40-42). Vd. também: Ducados, H.L.; Ferreira, M.E. (1998) - O financiamento informal e as estratégias de sobrevivência económica das mulheres em Angola : a Kixikila no caso do município do Sambizanga (Luanda). Lisboa: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento. Instituto Superior de Economia e Gestão. Universidade Técnica de Lisboa. 1998 (Documentos de Trabalho, 53).

Kwanza - Moeda local. 1 dólar equivale a c. 85 kwanzas. O cacete (tipo de pão) custa cerca de 20 kwanzas (Julho de 2004). Consultar também o sítio oficial da República de Angola.

Muceques - Bairros populares degradados de Luanda.

Quitandeira - Vendedora de rua (ou de mercado), em geral de produtos hortofrutícolas. Vem de quitanda, um termo kimbundu que significa expor (determinados produtos para venda), e, por extensão, feira ou mercado. Há um belíssimo poema de Agostinho Neto sobre a quitandeira, que vem no seu livro Sagrada Esperança (1974): "A quitanda. Muito sol /e a quitandeira à sombra / da mulemba. /- Laranja, minha senhora, /laranjinha boa!"...

Zungueira - Vendedor ambulante, uma figura típica da economia paralela de Luanda. Em geral é do sexo feminino, mas também há cada mais jovens e crianças do sexo masculino. Estima-se que 70% da população de Luanda, em idade activa, seja zungueira. Ninguém sabe ao certo qual é a população actual da cidade e periferia: estima-se que possa chegar aos 4 milhões (a maior parte deslocados de guerra), ou seja, mais de 1/3 da população angolana actual, estimada actualmente pela CIA em c. 11 milhões de habitantes. Do verbo zunguar (andar para cima e para baixo, circular tentando vender alguma coisa). As zungueiras abastecem-se em mercados como o Roque Santeiro ou o Kikolo, onde não é aconselhável, por razões de segurança, a visita do turista estrangeiro. Considerando a sua densidade populacional e o drama do seu quotidiano, Luanda é apesar de tudo uma cidade com uma baixa taxa de criminalidade. Sobre o comércio informal, a figura da zungueira e a arte de sobreviver em Luanda, veja-se uma excelente reportagem assinada pelo jornalista e sociólogo Paulo de Carvalho (paulodecarvalho@sociologist.com, na revista Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004).34-39.

Fotos de Luanda e de outros sítios de Angola:

O meu álbum de fotografias > Angola > Luanda > Cidade / City (tiradas em data posterior a este post)

Angola > Imagens

Luanda > Ilha do Mussulo > Imagens

Luanda > 1983 > Imagens

Lusoáfrica > Angola > Fotografias


Outros sítios sobre Angola (história, sociedade, economia, cultura):

Nhamalanda > História da Família Costa

SanzalAngola > Página de Helder de Sousa

UEA - União dos Escritores Angolanos


Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada

Para o António, o Xico, o Daniel, o Mário, a Evelize, o Miguel, o Cunha, o Jorge e os demais companheiros da saúde pública, portugueses e angolanos, que acreditam e apostam no humanware angolano, tendo concebido, planeado e implementado o 1º Curso de Introdução à Administração dos Hospitais (3 blocos, com mais de 20 módulos, num total superior a 600 horas), num discreto mas notável projecto de cooperação que envolve, pelo lado angolano, o Ministério da Saúde de Angola e a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e pelo lado português a Fundação Calouste Gulbenkian e a Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa. E para o pessoal de secretariado, da Idalisa (Lisboa) à Elisabete (Luanda), que na retaguarda asseguram as mil e uma pequenas coisas que garantem o sucesso das grandes coisas.

Um especial kandandu para o Jorge que eu não pude rever desta vez, em Luanda, e que me dizem estar doente. As tuas melhoras, amigo e companheiro.

Para a Rita, a Paulina, a Eugénia e a Maria Antónia, as meninas Leal Monteiro dessa Casa Grande & Sanzala que é a Hospedaria Soleme, em Luanda, na Maianga, que tem sido a nossa casa, o nosso oásis e o nosso porto de abrigo. Sem esquecer a velha senhora Maria Eulália, a matriarca da família, que eu infelizmente ainda não conheço.


Trata-se, além disso, de um lugar único em Luanda já que a casa está também cheia de recordações e de obras do grande pintor angolano Viteix (Vítor Teixeira) (1940-1993), só agora conhecido em Portugal (A galeria da Caixa Geral de Depósitos, no Porto, teve em exposição entre Abril e Junho de 2004 uma importante colecção de obras do pintor, do período de 1958 a 1993, uma parte das quais temporariamente cedidas pela família Leal Monteiro a que o pintor estava ligado pelos laços do casamento).


Um enorme painel de azulejos, reproduzindo um das suas telas, feito em Portugal e montado sob orientação do seu filho, passou entretanto a partir de Dezembro último a figurar no alto de uma das paredes, adjacentes à fachada principal do edifício da Soleme. Devidamente iluminado à noite por projectores, o painel é perfeitamente visível da Rua Kwamme N'krumah e constitui uma justa e terna homenagem da família ao Viteix. Os dez anos da sua morte também foram devidamente assinalados na sua terra, com uma exposição em Maio de 2003, sob o título "Reviver Viteix".

Queridas amigas: Continuo a pensar que a vossa casa, a Soleme, é um verdadeiro oásis em Luanda, um lugar onde se alia a tradição, a cultura, a gastronomia, a hospitalidade, o cosmopolitismo, a arte de bem receber e sobretudo o human touch, o toque humano, que faz de uma simples relação comercial uma verdadeira relação de amizade...

Quero aqui prestar, em meu nome, a minha homenagem às grandes mulheres que mantêm de pé a belíssima casa, feita de granito angolano, talhada por artesões portugueses dos anos 20, que foi do vosso pai e avô, João Monteiro, quadro superior da administração colonial que faria este ano cem anos se fosse vivo (1904-2004)... Tivemos pena, eu e o Daniel, de não podermos estar na vossa festa, na passada sexta-feira... De qualquer modo ficámos sensibilizados pelo vosso convite. A viagem de regresso a Lisboa correu bem. Até sempre, amig@s!





Fonte: Fotografia gentilmente cedida pela Hospedaria Soleme, Rua Kwamme N'krumah, 1, Maianga, Luanda





Luanda revis(i)tada



Não vi flores,

Não vi acácias vermelhas,

Dessas rubras acácias de Benguela,

No teu imenso muceque;

Não vi o esplendor celebrado

Da tua baía,

Nem senti o sortilégio da tua ilha dos amores,

Ó cidade de Luanda

Que a gente nunca esquece,

Outrora tão jovem e tão bela.



Porém, no teu rosto (re)visitado

Pelas rugas velhas

Da guerra, da pobreza e da malária,

Descobri diamantes em estado puro

No teu olhar de criança

Perdida em viagem imaginária.



De modo nenhum te quereria

Em postal ilustrado,

Decadente e saudosista,

Com carimbo de correio pós-colonial:

A restinga do Mussulo ao pôr-do-sol,

A laguna, o mangal, a marginal,

E o estúpido turista em férias,

No Coconuts, na ilha, elitista,

Ou na piscina do Hotel Tropical!



Não li sequer os graffiti do FMI,

Gravados a duro pau de giz

Nos muros dos palácios da cidade alta,

Proclamando urbi et orbi

Que doravante toda a malta

Seria rica e feliz!



Há muito que os kaluandas partiram,

Deixando atrás de si,

Com um misto de saudade e de glória,

O calor húmido e fraterno

Da grande nação crioula.

Mais os imbondeiros que resistiram

À seca, à fome, ao inferno,

Ao lixo, à sida, à história.



O cheiro fétido do humano

Viaja nos candongueiros

Que atravessam de lés a lés

A tua rede de túneis-formigueiros,

As tua entranhas, o teu tutano,

A tua essência.

Alguém poderia achar essas correrias loucas

Se não soubesse quem tu és,

Mas tu tens o teu tempo e a tua medida,

Ó cidade das mulheres empreendedoras,

Peritas na arte da sobrevivência.



Um enorme exército de formigas obreiras,

Com os jerricãs de plástico à cabeça,

Leva o fio da água da vida,

Tão preciosa quanto parca,

Ao teu ventre de Jocasta,

Mãe África, mãe de kixikila,

Zungueira, matriarca,

Moça reguila, parideira,

Quitandeira, kinguila.



Na praia dos pescadores

Há meninos, brancos e pretos,

Pé descalço e calças rotas,

A chutar a bola às balizas da sorte.

Poderão não vir a ser uns senhores,

E sorrir como o Mantorras,

O rosto espalhado em outdoors pela cidade.

Mas contarão, decerto, aos seus netos

Como souberam fintar a morte

Desde a mais tenra idade.



Mãe África, mãe coragem,

Para quem pouco te basta,

Mesmo se muito tu queres

Daquilo a que tens pleno direito:

Cidade revis(i)tada,

Sem mapa nem roteiro,

Simples lugar de passagem,

Onde um litro de gasolina, imagina!

Custa tanto quanto um pão,

Vinte kwanzas.



Poderei dizer em Lisboa, se quiseres,

Que o melhor de ti, Luanda, terra quente,

É a tua gente, a quem mando um chicoração:

As tuas infatigáveis mulheres,

E as tuas ternas, eternas, crianças.





Glossário de termos do falar local:



Candongueiros - Os endiabrados táxis colectivos de Luanda. Param um qualquer sítio e levam sempre mais um passageiro para além da sua lotação máxima Cada viagem custa 30 kwanzas. O termo vem de candonga (contrabando). "Inicialmente o contrabando de peixe seco. Só muitos anos mais tarde se passaria a usar o termo candongueiro para designar os contrabandistas de diamantes ou, mais tarde ainda, os novos taxistas luandenses do chamado processo dos 500" (Segundo leio no sítio de um brasileiro sobre os países e comunidades de língua portuguesa) .



Imbondeiro - Também conhecido por n´bondo (Adansonia digitata, Lin.):



Kaluanda - Nome antigo, colonial, dado ao habitante de Luanda.



Kandandu - Abraço (Plural: Jindandu). Ver outras expressões usadas nas saudações em kimbundu.



Kimbundu - Considerado o maior grupo etnolinguístico de Angola (c. 25% da população na costa oeste e no norte), a seguir ao ovimbundu (c. 37%, a sul), mas à frente do bakongo (13%) (Estas são as três principais línguas de Angola, todas elas pertencentes ao grupo bantu). A língua oficial é, como se sabe, o português. No Ciberdúvidas da Língua Portuguesa há uma interessantíssima nota de Rui Ramos sobre as relações nem sempre fáceis entre o português (colonial, dominante) e o kimbundu (ou quimbundo, o falar das gentes de Luanda-Malanje). Termos usados hoje pelos nossos jovens, como cota (dikota, pessoa mais velha) são provenientes do kimbundu. Sobre as questões de grafia (kimbundu ou quimbundo), ver igualmente a resposta do angolano Rui Ramos, especialista em línguas africanas, no mesmo sítio. Não se deve confundir, no entanto, o kimbundu com o calão de Luanda (caso de bué, e outras expressões que se ouvem na noite lisboeta).



Kinguila - Rapariga ou mulher que, no mercado paralelo, se dedica ao câmbio de moeda. Em geral, os maços de kwanzas e de dólares são guardados nos seios. Este negócio era tradicionalmente dos zairotas, habitantes do Zaire. Segundo o portal Netangola, numa página com preciosas dicas para os homens de negócios estrangeiros em visita a Luanda, "one can often find in the streets of the city the typical Kinguila - the seller of money - who normally offers the best quotation. This practice is forbidden by the authorities and offers some risks".



Kixikila - Em kimbundu, quer dizer contribuição, em dinheiro, para um dado fim colectivo. Em África, em geral, e em Angola, em particular, é aquilo que se designa pela expressão inglesa Rotating Savings and Credit Associations (ROSCA), um sistema informal de poupança e crédito, um grupo de ajuda mútua, liderado em geral por uma mulher, a "mãe de kixikila". O pequeno grupo, de cinco a dez elementos, tende a ser constituído por pessoas que estão ligadas entre si por laços de amizade, parentesco, vizinhança ou profissão. Cada elemento faz periodicamente uma determinada contribuição para um fundo comum que é depois utilizado rotativamente por cada um, com uma taxa de juro nula ou de valor reduzido. Na ausência de sistemas de crédito bancário acessíveis à generalidade da população, o kixikila voltou aos hábitos dos kaluandas como forma de atenuar ou reduzir o impacto da pobreza. O kixikila está hoje vulgarizado, não só entre as vendedeiras, quitandandeiras e kinguilas, mas também nos serviços públicos e nas empresas (vd. Neto, S. - Kixikila não é uma lotaria. Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004). 40-42). Vd. também: Ducados, H.L.; Ferreira, M.E. (1998) - O financiamento informal e as estratégias de sobrevivência económica das mulheres em Angola : a Kixikila no caso do município do Sambizanga (Luanda). Lisboa: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento. Instituto Superior de Economia e Gestão. Universidade Técnica de Lisboa. 1998 (Documentos de Trabalho, 53).



Kwanza - Moeda local. 1 dólar equivale a c. 85 kwanzas. O cacete (tipo de pão) custa cerca de 20 kwanzas (Julho de 2004). Consultar também o sítio oficial da República de Angola.



Muceques - Bairros populares degradados de Luanda.



Quitandeira - Vendedora de rua (ou de mercado), em geral de produtos hortofrutícolas. Vem de quitanda, um termo kimbundu que significa expor (determinados produtos para venda), e, por extensão, feira ou mercado. Há um belíssimo poema de Agostinho Neto sobre a quitandeira, que vem no seu livro Sagrada Esperança (1974): "A quitanda. Muito sol /e a quitandeira à sombra / da mulemba. /- Laranja, minha senhora, /laranjinha boa!"...



Zungueira - Vendedor ambulante, uma figura típica da economia paralela de Luanda. Em geral é do sexo feminino, mas também há cada mais jovens e crianças do sexo masculino. Estima-se que 70% da população de Luanda, em idade activa, seja zungueira. Ninguém sabe ao certo qual é a população actual da cidade e periferia: estima-se que possa chegar aos 4 milhões (a maior parte deslocados de guerra), ou seja, mais de 1/3 da população angolana actual, estimada actualmente pela CIA em c. 11 milhões de habitantes. Do verbo zunguar (andar para cima e para baixo, circular tentando vender alguma coisa). As zungueiras abastecem-se em mercados como o Roque Santeiro ou o Kikolo, onde não é aconselhável, por razões de segurança, a visita do turista estrangeiro. Considerando a sua densidade populacional e o drama do seu quotidiano, Luanda é apesar de tudo uma cidade com uma baixa taxa de criminalidade. Sobre o comércio informal, a figura da zungueira e a arte de sobreviver em Luanda, veja-se uma excelente reportagem assinada pelo jornalista e sociólogo Paulo de Carvalho (paulodecarvalho@sociologist.com, na revista Economia & Mercado. 19 (Maio-Junho de 2004).34-39.



Fotos de Luanda e de outros sítios de Angola:



O meu álbum de fotografias > Angola > Luanda > Cidade / City (tiradas em data posterior a este post)



Angola > Imagens



Luanda > Ilha do Mussulo > Imagens



Luanda > 1983 > Imagens



Lusoáfrica > Angola > Fotografias





Outros sítios sobre Angola (história, sociedade, economia, cultura):



Nhamalanda > História da Família Costa



SanzalAngola > Página de Helder de Sousa



UEA - União dos Escritores Angolanos





10 julho 2004

Blogantologia(s) – XV: A novíssima poesia angolana

1. Ilha de Luanda. 8 de Julho de 2004. 18h. Esplanada do Restaurante Coconuts. Meia dúzia de adoradores do sol. Aristocracia crioula. Novos ricos. Homens de negócio russos. Cooperantes de desvairados sítios. Dois seguranças em cada ponta. Mais dois no parque de estacionamento. Aqui não chega o cheiro fétido do sub-humano mundo dos candongueiros. Aqui não há o incómodo ziguezaguear das corajosas zungueiras nas ruas atulhadas de Luanda. Não longe nas praias dos pescadores os futuros Mantorras-de-pé-descalço chutam a bola às balizas esfarradas do destino.



2. Descubro a poesia do José Luís Mendonça (n. 1955). O último livro: "Gramática do amor contemporâneo". Luanda: Editorial Nzila, 2002 (Colecção Letras Angolanas/Poesia, 7).



Escreve Luís Kandjimbo, na contracapa: “Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética”.



Aqui fica uma sugestão de leitura (poema 21, página 29):



__________



21



aqui, no fundo do oceano, tudo se filma em câmara ardente.

pouso o lápis no cerne desse êxtase de hungos-violinos, aliás,

escuto: será essa a vibração do mundo ? deixo a música

desfraldar o mastro das eternas sílabas de areia.



idólatra da carne, elevo a minha prece ao deus escaldante

da sede e da tortura da alma. o vento e as chuvas subiram

as escadas, um anjo alisa a argila microscópica do altar

coberto de moscas de basalto e um incêndio de nuvens de

arame coroa a mão do mundo, beijado pela suprema ciência

da poesia.



que diferença existe entre a vagina e a mão que escreve

este poema ?


________________





3. Por um feliz acaso, descobri desta vez a editora e livraria Chá de Caxinde, um sítio de visita obrigatória na baixa de Luanda (sita no edifício do Nacional Cine-Teatro). Da mesma editora (Nzila) e colecção (Letras Angolanas / Poesia, 3), comprei o livro do consagrado João Maimona (n. 1955). Aqui fica um dos mais belos poemas deste livro de 2001 ("No útero da morte"):



Feliz reencontro (p. 52)



uma crinça me trouxe,

com as mãos vazias, a ternura verde

nas vértebras, uma carta de renascimento.

a seca se volatilizou. dia dos homens.

noite de passos segundos. a hipertermia

deixou a pele. fruto de imenso acontecimento.

existem agora rios de luz. existe água

potável nos rios de luz.

e diante do templo que precede

o renascimento

leio chuvas de imenso silêncio:

reencontro minhas veias

no sistema vascular

dos meus antepassados.

07 outubro 2004

Blogantologia(s) - XIX - Ondjaki ou a 'maka' da existência

Ponham olho neste puto: Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, escritor angolano, 27 anos, licenciado em sociologia. Um talentoso contador de estórias. Um recriador da língua portuguesa, na esteira de Mia Couto. Último romance: "Quantas madrugadas tem a noite" (Luanda: Nzila, 2004; Lisboa: Caminho, 2004). Uma descida ao inferno do quotidiano de Luanda. Empolgante. Lido em 'in loco', entre duas 'ngalas' ou 'birras' (garrafas de cerveja), tem outro fascínio. Porque a "morte morrida" é de pessoa, e a "morte matada" é de cão...



Porque a maka da existência, em Angola, é que se pode morrer e sobreviver, morrer e nascer de novo, podes ter morrido e ter sobrado um pouco de ti... Como insinua o narrador, na primeira pessoa do singular, no final do seu longo solilóquio nocturno: "Sobrei, muadiê? A verdade só: sobrei ou morri mesmo tudo ?".



Indispensável é o recurso ao glossário que vem apenso ao romance, para entender o calão dos caluandas (naturais de Luanda) e das outras desvairadas gentes que lá foram arribar. Não apenas o calão mas também outros termos falados pelas gentes de Luanda, como o kimbundu. Aqui fica uma pequena amostra de entre cerca de 200 termos, e que de algum modo sugerem a atmosfera da história (ou das muitas estórias que se podem contar numa noite):



Avilo, broda, camba, (amigo, companheiro)

Bazeza, djedjedje, matumbo (idiota, boçal)

Bofa, ngaia (bofetada)

Bufunda, cumbú, dodó, guitos (dinheiro, dólar), no caso de dodó)

Bumbar (trabalhar)

Campar, cubar (dormir, mas também morrer, no caso de campar)

Candengue, muadiê, mona (garoto, moço, rapaz)

Capurroto, kimbombo, maluvo (bebida alcoólica)

Dreda (que está na moda, babalado)

Éme (MPLA)

Fobado (faminto)

Janguê (órgão sexual masculino)

Kabomba, ninja (polícia, sendo ninja a polícia de choque)

Kêta (música)

Kijila, maka, malamba (problema)

Kilunza, makarov (pistola)

Kimba (velório)

Mboa, quitía (rapariga, moça, dama)

Mbumbu (negro)

Mô (meu)

Monandengue, ndengue, piô (criança, miúdo)

Muangolê (natural de Angola)

Muata (chefe)

Mujimbo (boatao)

Nguendeiro (grande farrista, frequentador de festas)

Nzambi (Deus)

Paiar (lixar, taramar alguém)

Pitar (comer)

Píter (comida, pitéu)

Quarra (prostituta)

Ruca (carro)

Salo (trabalho)

Sekulu, dikota, kota (mais velho)

Tibaria (bebedeira)

Tuga (português)

Tuji (merda)

Uáine (vinho)

Vuzar (ter relaçõe sexuais)

Xaxeiro (engatão, conquistador)

Xuxuta (órgão sexual feminino)

Zaicô (zairota)



Blogantologia(s) - XIX - Ondjaki ou a 'maka' da existência

Ponham olho neste puto: Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, escritor angolano, 27 anos, licenciado em sociologia. Um talentoso contador de estórias. Um recriador da língua portuguesa, na esteira de Mia Couto. Último romance: "Quantas madrugadas tem a noite" (Luanda: Nzila, 2004; Lisboa: Caminho, 2004). Uma descida ao inferno do quotidiano de Luanda. Empolgante. Lido em 'in loco', entre duas 'ngalas' ou 'birras' (garrafas de cerveja), tem outro fascínio. Porque a "morte morrida" é de pessoa, e a "morte matada" é de cão...

Porque a maka da existência, em Angola, é que se pode morrer e sobreviver, morrer e nascer de novo, podes ter morrido e ter sobrado um pouco de ti... Como insinua o narrador, na primeira pessoa do singular, no final do seu longo solilóquio nocturno: "Sobrei, muadiê? A verdade só: sobrei ou morri mesmo tudo ?".

Indispensável é o recurso ao glossário que vem apenso ao romance, para entender o calão dos caluandas (naturais de Luanda) e das outras desvairadas gentes que lá foram arribar. Não apenas o calão mas também outros termos falados pelas gentes de Luanda, como o kimbundu. Aqui fica uma pequena amostra de entre cerca de 200 termos, e que de algum modo sugerem a atmosfera da história (ou das muitas estórias que se podem contar numa noite):

Avilo, broda, camba, (amigo, companheiro)
Bazeza, djedjedje, matumbo (idiota, boçal)
Bofa, ngaia (bofetada)
Bufunda, cumbú, dodó, guitos (dinheiro, dólar), no caso de dodó)
Bumbar (trabalhar)
Campar, cubar (dormir, mas também morrer, no caso de campar)
Candengue, muadiê, mona (garoto, moço, rapaz)
Capurroto, kimbombo, maluvo (bebida alcoólica)
Dreda (que está na moda, babalado)
Éme (MPLA)
Fobado (faminto)
Janguê (órgão sexual masculino)
Kabomba, ninja (polícia, sendo ninja a polícia de choque)
Kêta (música)
Kijila, maka, malamba (problema)
Kilunza, makarov (pistola)
Kimba (velório)
Mboa, quitía (rapariga, moça, dama)
Mbumbu (negro)
Mô (meu)
Monandengue, ndengue, piô (criança, miúdo)
Muangolê (natural de Angola)
Muata (chefe)
Mujimbo (boatao)
Nguendeiro (grande farrista, frequentador de festas)
Nzambi (Deus)
Paiar (lixar, taramar alguém)
Pitar (comer)
Píter (comida, pitéu)
Quarra (prostituta)
Ruca (carro)
Salo (trabalho)
Sekulu, dikota, kota (mais velho)
Tibaria (bebedeira)
Tuga (português)
Tuji (merda)
Uáine (vinho)
Vuzar (ter relaçõe sexuais)
Xaxeiro (engatão, conquistador)
Xuxuta (órgão sexual feminino)
Zaicô (zairota)

10 julho 2004

Blogantologia(s) – XV: A novíssima poesia angolana

1. Ilha de Luanda. 8 de Julho de 2004. 18h. Esplanada do Restaurante Coconuts. Meia dúzia de adoradores do sol. Aristocracia crioula. Novos ricos. Homens de negócio russos. Cooperantes de desvairados sítios. Dois seguranças em cada ponta. Mais dois no parque de estacionamento. Aqui não chega o cheiro fétido do sub-humano mundo dos candongueiros. Aqui não há o incómodo ziguezaguear das corajosas zungueiras nas ruas atulhadas de Luanda. Não longe nas praias dos pescadores os futuros Mantorras-de-pé-descalço chutam a bola às balizas esfarradas do destino.

2. Descubro a poesia do José Luís Mendonça (n. 1955). O último livro: "Gramática do amor contemporâneo". Luanda: Editorial Nzila, 2002 (Colecção Letras Angolanas/Poesia, 7).

Escreve Luís Kandjimbo, na contracapa: “Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética”.

Aqui fica uma sugestão de leitura (poema 21, página 29):

__________

21

aqui, no fundo do oceano, tudo se filma em câmara ardente.
pouso o lápis no cerne desse êxtase de hungos-violinos, aliás,
escuto: será essa a vibração do mundo ? deixo a música
desfraldar o mastro das eternas sílabas de areia.

idólatra da carne, elevo a minha prece ao deus escaldante
da sede e da tortura da alma. o vento e as chuvas subiram
as escadas, um anjo alisa a argila microscópica do altar
coberto de moscas de basalto e um incêndio de nuvens de
arame coroa a mão do mundo, beijado pela suprema ciência
da poesia.

que diferença existe entre a vagina e a mão que escreve
este poema ?

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3. Por um feliz acaso, descobri desta vez a editora e livraria Chá de Caxinde, um sítio de visita obrigatória na baixa de Luanda (sita no edifício do Nacional Cine-Teatro). Da mesma editora (Nzila) e colecção (Letras Angolanas / Poesia, 3), comprei o livro do consagrado João Maimona (n. 1955). Aqui fica um dos mais belos poemas deste livro de 2001 ("No útero da morte"):

Feliz reencontro (p. 52)

uma crinça me trouxe,
com as mãos vazias, a ternura verde
nas vértebras, uma carta de renascimento.
a seca se volatilizou. dia dos homens.
noite de passos segundos. a hipertermia
deixou a pele. fruto de imenso acontecimento.
existem agora rios de luz. existe água
potável nos rios de luz.
e diante do templo que precede
o renascimento
leio chuvas de imenso silêncio:
reencontro minhas veias
no sistema vascular
dos meus antepassados.

20 dezembro 2004

BlogAngola - III: A cooperação no domínio da formação em saúde pública

1. “Portugal e os portugueses podem dar à Angola e aos angolanos aquilo em que são especialistas: o saber-ser, o saber-estar e o saber-fazer em saúde pública”, dizia-me há um ano, em Luanda, José Vieira Dias Van-Dúnem, vice-Ministro da Saúde do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional da República de Angola e membro do Comité Central do MPLA. Cito de cor mas julgo não estar a atraiçoar o pensamento do autor.

Médico licenciado, em 1988, pela Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, de Luanda (FML/UAN), o Dr. José Vieira Dias Van-Dúnem frequentou no ano lectivo de 1994/95 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde, Universidade Nova de Lisboa (ENSP/UNL), como bolseiro da OMS.

Qual é o sentido exacto das palavras daquele dirigente político angolano e antigo aluno da ENSP/UNL ? Em que circunstâncias foram ditas ? Que recado subentendiam ?

O que o meu interlocutor pretendia dizer-me ou transmitir-me, a mim, à instituição e até ao país que eu estava ali, de certo modo, a representar, era que a cooperação (i) não se resume aos grandes projectos que envolvem muitos milhões de dólares, transferência de alta tecnologia, grande volumes de trocas comerciais, mediáticas declarações políticas e, por vezes até, tráfico de interesses ligados a poderosos lóbis, internos e/ou externos; pelo contrário, que a cooperação também pode (e deve) ser vista, antes de mais, (ii) como uma relação recíproca, duplamente ganhadora, uma relação de amizade entre dois povos que têm valores, interesses e afinidades em comum (a história, a língua, a cultura, o imaginário, a economia…). E justamente em áreas que são vitais para o desenvolvimento do capital humano e que fazem mais apelo às soft sciences do que às hard sciences.

Estava, além disso, a defender uma concepção integrada e sustentada da formação e da cooperação no domínio da formação. Por fim, estava implicitamente a lembrar-me a origem etimológica da palavra cooperar, que significa trabalhar juntamente com outros para um mesmo fim, do latim cu(m) + operari.

A cooperação no domínio da educação, da formação e até da investigação em saúde pública é um campo onde se pode (e deve) estabelecer relações igualitárias, senão mesmo fraternas, entre instituições, povos e países. É algo que obriga à hospitalidade e à partilha, tal como uma refeição tomada à mesma mesa entre amigos. É um terreno onde todos aprendem a aprender e aprendem uns com os outros, o que os coloca num mesmo nível. Qualquer atitude de imperialismo, cultural e científico, ou até de simples paternalismo, é hoje inaceitável, de parte a parte, neste como noutros campos da cooperação bilateral.

2. Tratou-se, além disso, de uma conversa informal, num jantar que nos foi oferecido por ocasião da inauguração do 1º Curso de Especialização em Gestão em Saúde (Opção Administração Hospitalar), curso esse que resultou da solicitação, à FML/UAN, parte do Ministério da Saúde de Angola (MINSA), e que contou com o entusiástico apoio de duas instituições portuguesas: o apoio científico e pedagógico da ENSP/UNL e o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).

A FML/UAN ainda não tinha então a experiência e os recursos suficientes para montar um curso de especialização ou um mestrado nesta área (tem noutros, por exemplo o mestrado em educação médica que está a decorrer em Luanda). Decidiu por isso
recorrer à ENSP/UNL mas não quis um curso de "chaves na mão", participou desde o princípio na concepção, desenvolvimento, aplicação e avaliação do produto.

Usando a metáfora do conhecido provérbio chinês, os nossos amigos e parceiros angolanos não querem apenas o peixe, mas também o anzol e a cana de pesca para poderem passar a pescar. Como está na moda dizer-se, a isto chama-se empowerment.

O supracitado curso teve início em Setembro de 2003 e terminou , na sua parte lectiva, em Dezembro de 2004. Até meados de Março de 2005, os alunos deverão entregar uma monografia final de 40 páginas (cerca de 50 mil caracteres), incidindo sobre um tema concreto, actual e relevante da administração hospitalar em Angola.

Os destinatários deste primeiro curso, em número de 33, são profissionais de saúde (cerca de 80% são médicos) que exercem ou podem vir a exercer funções ou cargos de gestão (director geral e director administrativo) e direcção técnica (director clínico) no subsistema hospitalar angolano, de Cabinda ao Cunene.

O Curso teve a duração de um ano (2003/2004) e 630 horas presenciais, repartidas por três Blocos separados no tempo (Setembro a Novembro de 2003, Maio a Julho de 2004; Setembro a Dezembro de 2004).

Cada módulo, semanal, foi leccionado por 2 formadores ou prelectores portugueses (em geral, docentes da ENSP/UNL ou formadores de outras instituições ligadas ao ensino da gestão em saúde). Estes formadores foram coadjuvados, em cada módulo, por 1 monitor local recrutado pela FML/UAN, com o propósito de (i) contextualizar as diferentes áreas temáticas no quadro político, jurídico, cultural, sócio-económico, demográfico e sanitário de Angola, e ainda de (ii) promover o seu próprio treino e formação como potencial docente angolano de futuras edições deste curso de especialização.

No Curso estiveram incluídos dois Estágios Hospitalares (um no Bloco II e outro no Bloco III) para constatação in loco da realidade de diferentes hospitais de referência de Angola, apresentada e discutida sob a forma de um relatório crítico. Nestes estágios colaboraram ainda tutores locais para efeitos de acompanhamento e orientação dos formandos.

O sucesso deste curso deve-se a muitas dezenas de pessoas competentes e e empenhadas. Gostaria de citar aqui, pela parte portuguesa, o Prof. Dr. António Correia de Campos; e pela parte angolana, o Prof. Dr. Mário Fresta.

Embora não querendo incorrer no risco do elogio em boca própria, não posso deixar de apontar este exemplo como um caso de sucesso que serviu três propósitos: (i) formar gestores de saúde angolanos ou melhorar os seus conhecimentos e competências (técnicas, sociais e humanas); (ii) capacitar uma equipa de docentes angolanos na área da administração de serviços de saúde; e, por fim, (iii) garantir o reforço da capacidade educativa e formativa do MINSA e da FML/UAN e a sustentabilidade deste projecto de cooperação, criando ao mesmo tempo condições para instalação da futura e tão desejada Escola Nacional de Saúde Pública de Angola.

De facto, o desafio agora é “consolidar a capacidade formativa”, sendo desejável para 2005 a realização de um curso de formação pedagógica em Lisboa, que reunisse docentes angolanos e portugueses com vista à preparação do próximo 2º Curso de Especialziação em Gestão em Saúde, a ministrar em Luanda com recursos locais.

Mas a cooperação da ENSP com o MINSA e a FML/UAN não se circunscreve apenas a este curso. A ENSP está também a apoiar o curso pós-graduado em saúde pública e, portanto, a formação dos futuros médicos de saúde pública de Angola em duas áreas disciplinares específicas onde os nossos parceiros angolanos pediram apoio: o ensino da epidemiologia e da administração de saúde. Além disso, tem recebido de braços abertos os profissionais de saúde, oriundos daquele país, que se inscrevem no seus cursos (mestrado de saúde pública e cursos de especialização de administração hospitalar, saúde pública e medicina do trabalho). Mais de metade dos cerca de 30 alunos oriundos de Macau e dos PALOP que frequentaram, nos últimos oito anos, os referidos cursos eram oriundos de Angola.

Todos fazemos votos para que a cooperação com Angola (e os demais países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) se reforce no próximo ano de 2005, muito em particular no domínio da educação, formação e investigação em saúde pública.

(Editorial, Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2/2004)

BlogAngola - III: A cooperação no domínio da formação em saúde pública

1. “Portugal e os portugueses podem dar à Angola e aos angolanos aquilo em que são especialistas: o saber-ser, o saber-estar e o saber-fazer em saúde pública”, dizia-me há um ano, em Luanda, José Vieira Dias Van-Dúnem, vice-Ministro da Saúde do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional da República de Angola e membro do Comité Central do MPLA. Cito de cor mas julgo não estar a atraiçoar o pensamento do autor.



Médico licenciado, em 1988, pela Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, de Luanda (FML/UAN), o Dr. José Vieira Dias Van-Dúnem frequentou no ano lectivo de 1994/95 o Curso de Especialização em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde, Universidade Nova de Lisboa (ENSP/UNL), como bolseiro da OMS.



Qual é o sentido exacto das palavras daquele dirigente político angolano e antigo aluno da ENSP/UNL ? Em que circunstâncias foram ditas ? Que recado subentendiam ?



O que o meu interlocutor pretendia dizer-me ou transmitir-me, a mim, à instituição e até ao país que eu estava ali, de certo modo, a representar, era que a cooperação (i) não se resume aos grandes projectos que envolvem muitos milhões de dólares, transferência de alta tecnologia, grande volumes de trocas comerciais, mediáticas declarações políticas e, por vezes até, tráfico de interesses ligados a poderosos lóbis, internos e/ou externos; pelo contrário, que a cooperação também pode (e deve) ser vista, antes de mais, (ii) como uma relação recíproca, duplamente ganhadora, uma relação de amizade entre dois povos que têm valores, interesses e afinidades em comum (a história, a língua, a cultura, o imaginário, a economia…). E justamente em áreas que são vitais para o desenvolvimento do capital humano e que fazem mais apelo às soft sciences do que às hard sciences.



Estava, além disso, a defender uma concepção integrada e sustentada da formação e da cooperação no domínio da formação. Por fim, estava implicitamente a lembrar-me a origem etimológica da palavra cooperar, que significa trabalhar juntamente com outros para um mesmo fim, do latim cu(m) + operari.



A cooperação no domínio da educação, da formação e até da investigação em saúde pública é um campo onde se pode (e deve) estabelecer relações igualitárias, senão mesmo fraternas, entre instituições, povos e países. É algo que obriga à hospitalidade e à partilha, tal como uma refeição tomada à mesma mesa entre amigos. É um terreno onde todos aprendem a aprender e aprendem uns com os outros, o que os coloca num mesmo nível. Qualquer atitude de imperialismo, cultural e científico, ou até de simples paternalismo, é hoje inaceitável, de parte a parte, neste como noutros campos da cooperação bilateral.



2. Tratou-se, além disso, de uma conversa informal, num jantar que nos foi oferecido por ocasião da inauguração do 1º Curso de Especialização em Gestão em Saúde (Opção Administração Hospitalar), curso esse que resultou da solicitação, à FML/UAN, parte do Ministério da Saúde de Angola (MINSA), e que contou com o entusiástico apoio de duas instituições portuguesas: o apoio científico e pedagógico da ENSP/UNL e o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).



A FML/UAN ainda não tinha então a experiência e os recursos suficientes para montar um curso de especialização ou um mestrado nesta área (tem noutros, por exemplo o mestrado em educação médica que está a decorrer em Luanda). Decidiu por isso

recorrer à ENSP/UNL mas não quis um curso de "chaves na mão", participou desde o princípio na concepção, desenvolvimento, aplicação e avaliação do produto.



Usando a metáfora do conhecido provérbio chinês, os nossos amigos e parceiros angolanos não querem apenas o peixe, mas também o anzol e a cana de pesca para poderem passar a pescar. Como está na moda dizer-se, a isto chama-se empowerment.



O supracitado curso teve início em Setembro de 2003 e terminou , na sua parte lectiva, em Dezembro de 2004. Até meados de Março de 2005, os alunos deverão entregar uma monografia final de 40 páginas (cerca de 50 mil caracteres), incidindo sobre um tema concreto, actual e relevante da administração hospitalar em Angola.



Os destinatários deste primeiro curso, em número de 33, são profissionais de saúde (cerca de 80% são médicos) que exercem ou podem vir a exercer funções ou cargos de gestão (director geral e director administrativo) e direcção técnica (director clínico) no subsistema hospitalar angolano, de Cabinda ao Cunene.



O Curso teve a duração de um ano (2003/2004) e 630 horas presenciais, repartidas por três Blocos separados no tempo (Setembro a Novembro de 2003, Maio a Julho de 2004; Setembro a Dezembro de 2004).



Cada módulo, semanal, foi leccionado por 2 formadores ou prelectores portugueses (em geral, docentes da ENSP/UNL ou formadores de outras instituições ligadas ao ensino da gestão em saúde). Estes formadores foram coadjuvados, em cada módulo, por 1 monitor local recrutado pela FML/UAN, com o propósito de (i) contextualizar as diferentes áreas temáticas no quadro político, jurídico, cultural, sócio-económico, demográfico e sanitário de Angola, e ainda de (ii) promover o seu próprio treino e formação como potencial docente angolano de futuras edições deste curso de especialização.



No Curso estiveram incluídos dois Estágios Hospitalares (um no Bloco II e outro no Bloco III) para constatação in loco da realidade de diferentes hospitais de referência de Angola, apresentada e discutida sob a forma de um relatório crítico. Nestes estágios colaboraram ainda tutores locais para efeitos de acompanhamento e orientação dos formandos.



O sucesso deste curso deve-se a muitas dezenas de pessoas competentes e e empenhadas. Gostaria de citar aqui, pela parte portuguesa, o Prof. Dr. António Correia de Campos; e pela parte angolana, o Prof. Dr. Mário Fresta.



Embora não querendo incorrer no risco do elogio em boca própria, não posso deixar de apontar este exemplo como um caso de sucesso que serviu três propósitos: (i) formar gestores de saúde angolanos ou melhorar os seus conhecimentos e competências (técnicas, sociais e humanas); (ii) capacitar uma equipa de docentes angolanos na área da administração de serviços de saúde; e, por fim, (iii) garantir o reforço da capacidade educativa e formativa do MINSA e da FML/UAN e a sustentabilidade deste projecto de cooperação, criando ao mesmo tempo condições para instalação da futura e tão desejada Escola Nacional de Saúde Pública de Angola.



De facto, o desafio agora é “consolidar a capacidade formativa”, sendo desejável para 2005 a realização de um curso de formação pedagógica em Lisboa, que reunisse docentes angolanos e portugueses com vista à preparação do próximo 2º Curso de Especialziação em Gestão em Saúde, a ministrar em Luanda com recursos locais.



Mas a cooperação da ENSP com o MINSA e a FML/UAN não se circunscreve apenas a este curso. A ENSP está também a apoiar o curso pós-graduado em saúde pública e, portanto, a formação dos futuros médicos de saúde pública de Angola em duas áreas disciplinares específicas onde os nossos parceiros angolanos pediram apoio: o ensino da epidemiologia e da administração de saúde. Além disso, tem recebido de braços abertos os profissionais de saúde, oriundos daquele país, que se inscrevem no seus cursos (mestrado de saúde pública e cursos de especialização de administração hospitalar, saúde pública e medicina do trabalho). Mais de metade dos cerca de 30 alunos oriundos de Macau e dos PALOP que frequentaram, nos últimos oito anos, os referidos cursos eram oriundos de Angola.



Todos fazemos votos para que a cooperação com Angola (e os demais países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) se reforce no próximo ano de 2005, muito em particular no domínio da educação, formação e investigação em saúde pública.



(Editorial, Revista Portuguesa de Saúde Pública, 2/2004)



31 maio 2005

BlogAngola - IV: Museu da Lourinhã descobre o primeiro dinossauro de Angola

1. O meu amigo Octávio Mateus, paleontólogo de dinossauros, do Museu da Lourinhã, acaba de chegar do sul de Angola, e de enviar-nos o seguinte relatório da sua curta mas frutuosa expedição científica, sob a forma de um "press release", que tomo a liberdade de divulgar:

"Instituições científicas europeias, norte-americanas e angolana estão a associar-se para estudarem o património paleontológico de Angola. Fósseis de mosassauros, dinossauros, e outros répteis do tempo dos dinossauros, assim como peixes e outros vertebrados foram o objectivo de uma expedição de reconhecimento realizada em Maio passado.

"Desde o início da guerra em Angola que nenhum paleontólogo tinha feito trabalho de campo à procura de vertebrados fósseis. Os trabalhos mais importantes neste domínio foram conduzidos durante os anos 60 por Miguel Telles Antunes, da Universidade Nova de Lisboa, que estudou a área em detalhe e desde aí tem publicado estudos sobre os fósseis de vertebrados de Angola. Antunes é o professor e orientador de Octávio Mateus, que em breve estará a apresentar o Doutoramento nesta Universidade.

Figura - Escavação de crânio de mosassauro no sul de Angola.

Figura - Escavação de crânio de mosassauro no sul de Angola. © Octávio Mateus e Museu da Lourinhã (2005)

"No fim de Maio, Octávio Mateus, do Museu da Lourinhã e da Universidade Nova de Lisboa participou numa expedição de reconhecimento acompanhado com o norte-americano Louis Jacobs da Universidade Metodista do Sul, do Texas.

"Com esta viagem, estreitou-se a cooperação científica entre as instituições portuguesas e angolanas, com destaque para a Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto, Museu de História Natural de Angola, Instituto Superior Privado de Angola e Instituto Geológico de Angola.

"O reconhecimento e recolha de fósseis no terreno superou largamente todas as expectativas mais ousadas. O paleontólogo português Octávio Mateus descobriu inúmeros fósseis entre os quais o primeiro dinossauro de Angola. Trata-se da parte do braço de um dinossauro saurópode, do Cretácico Superior, cujo alguns ossos estão agora no museu em Luanda, mas a maioria do esqueleto está ainda no terreno à espera de uma escavação a ser conduzida pelo Museu da Lourinhã em 2006.

"Além do primeiro dinossauro angolano, o Museu da Lourinhã descobriu ainda crânios de mosassauros, plesiossauros (répteis marinhos do tempo dos dinossauros), tartarugas e peixes fósseis com cerca de 65 milhões de anos. Todo o espólio recolhido foi entregue no Museu de Geologia da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, embora alguns fósseis estejam agora no Museu da Lourinhã, onde serão preparados e estudados. Os fósseis regressarão a Angola em 2006 após o estudo e uma exposição temporária no museu lourinhanense.

Figura - Crânio quase completo de mosassauro, actualmente em estudo no Museu da Lourinhã

Figura - Crânio quase completo de mosassauro, actualmente em estudo no Museu da Lourinhã. © Octávio Mateus e Museu da Lourinhã (2005)

"As recolhas no terreno foram realizadas no deserto da província do Namibe, no sul de Angola, e nas arribas costeiras da província de Bengo. A experiência obtida em Portugal, nomeadamente na Lourinhã, foram essenciais para o sucesso da expedição em Angola.

"Será preparada uma expedição em 2006 com mais recursos e uma equipa maior. O país é vasto e rico em fósseis e daí provêem alguns fósseis emblemáticos como o Angolasaurus, um réptil marinho mosassauro que viveu há cerca de 65 milhões de anos. A equipa espera encontrar mais vestígios deste e outros animais de forma a aumentar o conhecimento sobre o passado de Angola e de África".

2. Os meus parabéns ao Octávio Mateus e ao Prof. Doutor Teles Antunes, assessor científico do Museu da Lourinhã. Mas parabéns também aos angolanos, pessoas e instituições, que apoiaram esta iniciativa que, espero, venha a ser uma grande janela de oportunidade para a cooperação científica entre os dois países no domínio da geologia, paleontologia e museologia.

25 outubro 2005

Guiné 63/74 - CCLVIII: Antologia (22): Madina do Boé, por Jorge Monteiro (CCAÇ 1416, 1965/67)

Vista aérea do aquartelamento de Madina do Boé (1966)

© Manuel Domingues (s/d) (?) (1)



Madina do Boé foi varrida do mapa da memória dos portugueses, excepto muito provalvelmente no nosso caso, ex-combatentes. A geração dos nossos filhos e netos não conhece esta pequena parte da nossa história do Século XX. Madina do Boé não lhes diz nada, a não a ser talvez o termo bué, que nada tem a ver com Madina do Boé: Bué "é um calão luandense, que tem o significado do beaucoup francês, muito de: bué de charros, bué de confusão, bué de preconceitos. Tudo o resto (incluindo a variante boé) são corruptelas derivadas de uma apropriação crescente da linguagem popular portuguesa" (Fonte: Ciberdúvidas da Língua Portuguesa).

Para a nossa tertúlia e demais ciberamigos, achei por bem transcrever uma velha entrevista que o ex-capitão miliciano Jorge Monteiro, comandante da CCAÇ 1416 (1965/67) deu ao semanário luandense A Palavra, em 1 de Fevereiro de 1974.

Este depoimento foi depois reproduzido no livro do Manuel Domingues, já aqui recenseado pelo nosso camarada A. Marques Lopes (2): Uma campanha na Guiné (1965/67): história de uma guerra: relatos e memórias dos intervenientes.

Neste livro, que é edição de autor e que relata a experiência dos homens do BCAÇ 1856, espalhados pela região do Gabu (Nova Lamego, Madina do Boé, Béli, Bajocunda, Copá, Buruntuma, Ponte Caiúm)(3), há pelo menos quatro depoimentos sobre Madina do Boé:

(i) Afinal o que é Madina do Boé?", por Jorge Monteiro, Cap Mil da CCAÇ 1416;

(ii) Retalhos de uma campanha, por António Sousa Madureira, Fur Mil da CCAÇ 1416;

(iii) Aconteceu em Madina do Boé, por José Miranda Alves, 1º Cabo da CCAÇ 1416;

(iv) Aspectos caricatos de uma guerra, por António Araújo, da CCAÇ 1416.


Infelizmente ainda não encontrei nem li o livro. Reproduzo, com a devida vénia, o depoimento do Jorge Monteiro, a partir de uma versão digital que encontrei no Blogue do Fernando Gil > Moçambique para todos. A uns e a outros a minha homenagem e agradecimento.

Mais do que a leitura que entrevistado e entrevistador fazem da retirada de Madina do Boé (que é a da desvalorização do seu significado político-militar) e da proclamação posterior de Madina do Boé como capital - não do PAIGC, mas da nova Guiné-Bissau, imediatamente reconhecida por dezenas países -, importa sobretudo perceber as duras condições físicas e psicológicas em que os nossos camaradas viveram, durante anos, em Madina do Boé. Tiro o meu quico aos bravos de Madina do Boé, heróis de ontem, hoje já esquecidos tal como a sua/nossa guerra, perdida (4). L.G.


2.2. Afinal o que é Madina do Boé? Por Jorge Monteiro, Capitão Miliciano da CCaç 1416

Nota: Este documento foi-me entregue por Jorge Monteiro e reproduz uma entrevista que concedeu ao Semanário de Luanda A Palavra, em 1 de Fevereiro de 1974. O motivo próximo, conforme é referido pelo entrevistador, cujos comentários aparecem no texto em itálico, tem a ver com o facto de o PAIGC, em 24 de Setembro de 1973, ter proclamado a unilateralmente a Independência, exactamente em Madina do Boé.

O significado político deste acto era muito mais importante do que o valor que Madina do Boé militarmente pudesse representar para o Exército Português, o que na altura parece ter passado despercebido aos estrategas militares. Mantivemos o texto integral da entrevista de quem viveu onze meses, naquele que em 1966/67 era considerado o pior local da Guiné. MD [Manuel Domingues]

Entrevista de Jorge Monteiro, ao semanário A Palavra, Luanda, 1 de Fevereiro de 1974:

A recente visita de Baltazar Rebelo de Sousa, Ministro do Ultramar, a terras guineenses, aproximou de mim Madina do Boé. Ela veio personificada num amigo de todos os dias, o ex-capitão miliciano Jorge Monteiro, que em 1965 iniciou prestação e serviços na Guiné como comandante de Companhia 1416 (integrando o BCAÇ 1856) reconhecido posteriormente como um dos mais valorosos servidores da causa portuguesa em terras ultramarinas.

Em 1967, regressado à Metrópole, ele foi condecorado, nas cerimónias do 10 de Junho, pelo próprio Salazar, com a condecoração de grau mais elevado atribuída esse ano, a medalha de valor militar com palma, ganha precisamente por actos praticados na defesa intransigente, durante onze meses, de Madina do BOÉ, ora apontada pelo PAIGC como capital da Guiné Livre.

Já tinha lido muito sobre essa localidade, tão na boca do mundo ultimamente, mas jamais poderia ter chegado a conclusão tirada após a conversa esclarecedora: Madina, afinal, é apenas um escroto, um resto deixado ao desbarato pelos planos tácticos portugueses, desde que se entendeu ter ela pouco ou nulo valor estratégico, mesmo olhada como base tamponária.


Diz-me Jorge Monteiro:

Madina do BOÉ eram (hoje não são) cinco casas, incluindo uma escola. Escola, que já nessa altura, estava completamente abandonada, Aliás, tudo estava abandonado, por que Madina servia em tempos tão somente como passagem entre a desolação Sul do BOÉ e as riquezas nortenhas do Gabu, parecendo incrível como um rio, o Corubal que separa as duas regiões, seja suficiente para demarcar uma fronteira de potencialidades.

O BOÉ, a zona mais pobre de toda a Província, sofre a inclemência impiedosa do tempo que vai de Maio a Setembro, com chuvas torrenciais contínuas que alagam por completo a região vedando portanto qualquer tipo de plantio para a agricultura mesmo arcaica.

Como te disse já, em 1967 só lá havia a minha Companhia, completamente isolada nessas alturas do mundo circundante, a tal ponto que só podíamos ser abastecidos de pára-quedas. Felizmente que assim era, pois esse isolamento fazia com que não tivéssemos uma população civil por quem responder, toda ela preventivamente evacuada Não nos podemos esquecer, aliás, que o primeiro indício de actividades do PAIGC, no BOÉ, data de Novembro de 1964.

Com efeito, o PAIGC tinha começado muito antes a sua actividade, organizando-se burocraticamente desde aquele ano de 1959 quando Amílcar Cabral, hoje falecido por causas ainda não totalmente determinadas ingressou no Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), quando do regresso da União Soviética.

Porém, o conflito armado, com acção directa sobre o território português da Guiné, só se verificaria mais tarde, em 1962, nas povoações limítrofes de Susana e Varela, na fronteira Norte, muito longe do Sector Leste, onde está integrado o BOÉ.

Nesse lado, vis-a-vis o Senegal, há uma fronteira de quarenta quilómetros, muito mais pequena do que a que delimita o território português a Sul e a Leste, num total de 350 quilómetros face à República da Guiné, de e por onde, a infiltração dos efectivos do PAIGC nunca encontrou quaisquer dificuldades, progredindo sem perigos de retaguarda, por todo um baldio, e dominando as posições estratégicas que sobranceavam Madina, flagelada constantemente com fogo cerrado, acobertados pelos contrafortes que dominavam a antiga povoação em três quartos do seu perímetro topográfico.

Madina, diz-me o ex-capitão Monteiro, era o penico dos gajos. Havia horas certas para eles fazerem as suas dejecções muito desajeitadamente com obuses, granadas, rockets, e utilizando indiscriminadamente bazucas, morteiros e canhões sem recuo. Foi assim sempre, eu e os meus homens aguentámos aquilo durante onze meses, contados dia a dia pelas salvas com que eles nos mimoseavam.

Naquela, altura a ordem era AGUENTAR, por ser necessário tamponar convenientemente a retaguarda, implantando um sistema defensivo eficaz. Porque aquilo era mesmo de abandonar, pela pobreza da Zona e sobretudo não merecer sequer a conclamação das atenções, a vigília constante e a tensão desgastadora com que lá se vivia. Com um cordão defensivo, como o que se efectivou, atrás da posição de Madina ter Madina ou não ter era a mesma coisa.

Vou explicar: 200 homens da minha Companhia, aliás antes eram também 200 de outra e, depois de mim, eram outros 200 da que nos substituiu, chegaram e sobraram para manter a posição. Um número tão diminuto de homens nunca foi ultrapassado territorialmente pelos efectivos do PAIGC, que se entretinha a dar tiros de longe para marcar uma posição mais sonora que física.

Só uma vez tentaram o assalto, chegando mesmo a lançar cordas com ganchos para destruir a vedação farpada, servindo-se da chuva mais opaca que já vi na minha vida que nos impedia a visibilidade e lhes abafava ou confundia os ruídos dos passos. Mesmo assim foram repelidos, sofreram baixas bastante consideráveis e optaram por voltar à origem preferindo continuar no dia seguinte os tiros de longe e repudiando para sempre o corpo a corpo. Ora bem: se 200 homens aguentaram a posição ano após ano, e repara que em 1967 eles já tinham todo aquele potencial bélico, quem acredita que o abandono de Madina foi imposto?

Pensar isso é ridículo, mesmo objectando que eles poderiam ter aumentado os seus efectivos para um ataque maciço: Mas ainda há dois meses o general Bettencourt Rodrigues esteve lá, e quem faz guerra, quem viveu ou vive a guerra sabe que não se brinca com essas coisas, mesmo num bluff cuidadosamente calculado, mas mesmo assim sempre irresponsável, as balas matam seja lá quem for e os próprios jornalistas que o acompanharam por certo também não arriscavam de ânimo leve, as suas vidas, eles que são correspondentes de guerra com experiência de outras, por virtude muito mais violentas e que ainda se desenrolam. Em resumo: ninguém estava lá. O interesse de Madina era limitado a um certo tempo, e a partir daí não contava mais.

Eu, que vivi em MADINA durante onze meses, que constatei a inutilidade daquele chão, o clima inóspito, a desolação desértica, sei que Madina não vale sequer a chuva que lá cai. E eu, deixa-me ser um pouco contemporizador, que me apercebi duma certa coerência por parte de quem norteava a táctica das guerrilhas do PAIGC (porque é sempre preciso ser-se coerente para não se perder tudo de uma só vez, contra um adversário técnica e tacticamente muito mais evoluído), não posso sequer admitir que ATÉ ELES apregoem Madina, uma autêntica fossa, como capital do seu orgulhoso desiderato. Se isso for verdade, se de facto eles dizem isso, então nem sequer é um grito de liberdade, mas apenas um facto ridículo, caricato até, mesmo para os olhos de quem confere as guias de despacho do armamento que eles utilizam...

Madina, a sete quilómetros da fronteira da Guiné-Conackry, está ligada por estrada a Nova Lamego ao Norte, ramificação rodoviária para toda a Provinda, com estradas que servem bem no tempo seco mas que são pântanos autênticos nos dias de chuva, principalmente os de Julho e Agosto.

O Boé, tem solo muito pouco permeável, sem elevações consideráveis e consequentes declives escoatórios causando portanto a estagnação da água, que só a absorção lenta pela terra, já de si saturada de humidade, fará acabar com a ajuda do sol violento de Setembro, a apressar a evaporação. São dezenas e dezenas de quilómetros de área inundada charco imenso de que apenas as rãs parece acharem uma justificativa.

Quando tínhamos uma operação, fosse de que tipo fosse, andávamos com água pela cintura. Há por lá muitos riachos e rios pequenos (o único verdadeiramente rio, é o Corubal, o maior da Guiné) mas quando a chuva cai, e eu conheço a chuva de Angola há mais de vinte anos!, tanto faz caminhar pela estrada, pelo capim ou pelo leito dos rios: o "boal" imenso é raso, e a água nem sequer é mais alta aqui ou acolá. O nível é sempre igual, como se a Natureza caprichasse em transferir para ali toda a inutilidade que a chuva possa querer significar na Guiné.

Ao princípio, causava-nos uma certa perturbação andarmos com os fundilhos molhados, depois de habituados acabámos por aceitar a nova situação com uma filosofia muito própria — enquanto caminhássemos, era sinal de que não boiávamos, o que, naquelas circunstâncias, não era bem uma questão de natação. Mas como se pode depreender, tanto a manobra táctica, como a movimentação física, e sobretudo enfim, a própria lei da sobrevivência, estavam reduzidas em muito, com um desgaste anímico, multiplicado por um coeficiente que só os nossos corpos conheciam...

Acontece, contudo, que tínhamos uma vantagem: a exemplo do sol, a chuva quando vem também é para todos e assim os elementos do PAIGC tinham precisamente os mesmos problemas.

E por muito paradoxal que pareça, a tropa da Europa, habituada à amenidade do seu próprio clima, dava melhor conta de si naquelas condições verdadeiramente incríveis, por inóspitas e insalubres, do que no tempo seco, já que o desaparecimento das águas activava sobremodo os nossos «amigos» do outro lado...

O refúgio da Companhia 1416 era um acampamento subterrâneo protegido por arame farpado e seteiras, um alvo apetecido para os ataques diários dos revolucionários, que em Dezembro de 1966 bateram todos os recordes de desperdício de munições. Recorrendo ao seu diário de combate Jorge Monteiro diz-me, entre irónico e nostálgico:

Tenho um certo carinho por este livro, não só por ter sido escrito por mim, mas sobretudo por ser eu a ler, ainda algumas passagens para teu esclarecimento, sinal óbvio de que estou vivo e de boa saúde.

Ora vê: No dia 01 de Dezembro às 18H15, mandaram-nos seis granadas de morteiro 82. Às 19H30, se calhar por não terem acertado, mais seis. Estas deviam ser as do dia seguinte, porque só no dia 03 voltaram à fogaceira, e desrespeitosamente às seis da manhã: mais meia dúzia.

À tarde do dia 4 (para eles era demasiado acordarem dois dias seguidos às seis da manhã...) nove granadas, também de 82. No dia 5 descansaram, mas o dia seis vingaram -se bem, puseram dois morteiros e dois canhões sem recuo a trabalhar, conseguindo deitar abaixo uma parede. Uma das tais casas abandonadas. No dia 7, sem olhar a que merecíamos descanso começaram as três da madrugada: 15 granadas.

No dia 8, às seis da tarde, cinco granadas, e logo a seguir, às sete e meia, e duas granadas de canhão sem recuo. Onde elas caíram não sei... Não vale a pena continuar, por ser fastidioso e maçador. Por que, acredita, foi sempre assim, durante todos os onze meses que lá estive, uma e outra vez sujeitando-nos a um bombardeamento de quatro e cinco horas seguidas.

Como curiosidade, digo-te que houve um dia que assinaram o ponto cinco vezes, mas respeitaram religiosamente o Natal: houve tiros só no dia 23, mas voltaram à carga no dia 26, logo às seis a manhã. Para o fim, já era monótono pois sabíamos a horas certas dos tiros...

Conclui-se, portanto, que o bombardeamento sobre Madina era contínuo e eles próprios lá iam esburacando as casas, já por si a cair de podres. Pouco ficou, e se implantaram lá a Independência, então meteram água pela certa, pois não há qualquer tecto que os proteja da chuva.

Madina do Boé. O vazio de todo um pesadelo muito e mais vazio depois de Spínola ter inutilizado o abrigo e armadilhado tudo aquilo em redor. Madina do Boé, cinco casas esventradas, pântano perpétuo, chão inútil. A capital do PAIGC.
_____________

Notas de L.G.:

(1) Imagem reproduzida, sem menção da fonte, no Blogue do Fernando Gil > MOçambique para todas. Presumo que a sua autoria seja do Jorge Monteiro ou do Manuel Domingues.

(2) Vd. post de 18 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CXI: Bibliografia de uma guerra (5)

(3) Para uma melhor localização destes sítios, vd. o mapa da Guiné dos Serviços Cartográficos do Exército (1961).

(4) Vd. posts de:

(i) 17 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIX: Antologia (7): Os bravos de Madina do Boé (CCAÇ 1790);

(ii) 2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé (5 de Fevereiro de 1969).