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26 maio 2006

Guiné 63/74 - DCCC: O colaboracionismo sempre teve uma paga ( 5) (Carlos Vinhal)

Post nº 800 (DCCC). Texto do Carlos Vinhal, ex-furriel miliciano da CART 2732 (Mansabá, 1970/72):

Ainda sobre o tema O colaboracionismo sempre teve uma paga (1)

Tenho acompanhado atentamente a troca de impressões entre os colegas que mais de perto conviveram ou comandaram tropas nativas da Guiné e que por isso mais sentiram os fuzilamentos perpetrados. Admiro os sentimentos expressos.

Queria dar a minha opinião, talvez coincidente com outros camaradas de blogue, sobre os acontecimentos pós-independência. Assim sou a expor:


(i) Foi mais fácil perdoar a Alpoim Galvão e outras personalidades portuguesas congéneres do que aos próprios guineenses. Porquê? Em causa esteve a cor da pele e a rivalidade existente entre etnias. Uma coisa foi ter-se combatido contra um inimigo branco considerado estrangeiro, ocupante e opressor. O abandono da luta e regresso ao país de origem, como foi o nosso caso, foi considerado para os guineenses uma vitória e isso bastou. Outra coisa foi combater contra um irmão da mesma cor, natural do mesmo chão e falando a mesma língua - pondo de parte o português que só oficialmente é língua da Guiné - que no pós guerra continuou a ocupar o mesmo espaço – no caso a Guiné-Bissau. O desejo de vingança foi naturalmente mais forte e o inimigo continuava ali mesmo à mão. Não esqueçamos também as rivalidades ancestrais entre as diversas etnias. Olhai, a propósito, para o triste exemplo de Timor, hoje [24 de Maio de 2006] mesmo notícia nos telejornais.


(ii) Os Comandos africanos seriam os principais alvos, porque eles foram os mais sanguinários. Mataram a torto e a direito os seus verdadeiros compatriotas, indistintamente mulheres e crianças, civis ou militares. Não se pode desmentir ou branquear esta verdade. Lembro-me de uma operação helitransportada feita a partir de Mansabá, era Comandante o então Major Almeida Bruno. Aquilo demorou dois ou três dias e, na volta, um dos militares, que trazia pendurada a tiracolo uma lata, dizia cheio de orgulho e apontando para ela: Manga de orelhas, manga de orelhas. Nunca percebi se aquilo eram troféus de caça ou se se destinava a fazer algum petisco.

(iii) Pergunto: Aqueles que combateram pelo nosso lado, fizeram-no por convicção política e/ou patriótica ou, pelo dinheiro e condições de vida que a luta lhes proporcionava a eles e às respectivas famílias? Estariam eles convencidos que a guerra era interminável e por isso nunca se preocuparam com o seu futuro?

(iv) Foi notória a dificuldade que o país teve para receber e integrar todos os retornados e refugiados -filhos de colonos lá nascidos - vindos das ex-colónias. Como se integrariam cá os ex-combatentes que só sabiam de guerra, porque nunca tinham feito outra coisa na vida?

(v) Finalmente, com a devida vénia, faço minhas as palavras do nosso colega João Tunes no Post 777 (2) do nosso Blogue.

Carlos Vinhal
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Nota de L.G.

(1) Vd. post de 25 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXCV: O colaboracionismo sempre teve uma paga (1) (A. Marques Lopes)

(2) Vd. pots de 24 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXVII: Fazer a catarse antes de vestir a toga de juiz (João Tunes)

05 maio 2006

Guiné 63/74 - DCCXXXVI: Em 22 de Novembro de 1970 eu estava em Mansabá (Carlos Vinhal)

Texto do Carlos Vinhal (ex-furrel miliciano da CART 2732, uma companhia de madeirenses aquartelada Mansabá, Região do Oio, 1970/72).

Caro Luis e camaradas:

Confesso que já estava a ficar triste, e ainda me considero periquito no blogue, por aceder diariamente ao Blogueforanada e vê-lo imutável. Que o Luís nos faz falta, isso é inquestionável.

Correspondendo ao repto do nosso camarada João Tunes (1), sou a comunicar que em 22 de Novembro de 1970 estava em Mansabá a digerir, ainda, os efeitos de um violentíssimo ataque ao aquartelamento e povoação, acontecido 10 dias antes desta data.

Em 12 de Novembro de 1970 Mansabá foi flagelada por numeroso grupo IN que utilizou Canhão s/r, morteiro 82 e 60, LGF e armas automáticas. O ataque durou cerca de 45 minutos e deixou-nos exaustos e sem munições.

As NT sofreram 1 morto e 4 feridos. Na população houve 14 mortos e 45 feridos. O fogo IN atingiu o Bar dos Praças e a Enfermaria Militar que ardeu. As imediações dos quartos dos Oficiais, a Secretaria, o Bar dos Sargentos e a Casa dos geradores também foram premiadas com morteiradas quase certeiras. Quem lhes teria fornecido as coordenadas?

O General Spínola visitou-nos no dia seguinte, porque, dias antes, tinha sido reactivado o COP6 no nosso quartel, para coordenar toda a actividade operacional com vista à protecção dos trabalhos de construção da estrada Mansabá-Farim, a partir do Bironque para Norte. A conclusão desta estrada era de primordial importância para o controle daquela zona utilizada pelo IN, como corredor de passagem para o Morés.

Voltando ao 22 de Novembro de 1970, só quando vim de férias à Metrópole em Fevereiro de 1971, soube mais pormenores sobre a Operação Mar Verde, pois tinha sido libertado um militar aqui de Leça da Palmeira que estava prisioneiro e por isso não se falava de outra coisa.

Se a operação foi em parte um fracasso, teve pelo menos o lado positivo da libertação dos nossos camaradas aprisionados. Quem sabe como teria evoluído a guerra, se tudo tivesse decorrido como o estabelecido no plano inicial. As implicações políticas seriam desastrosas para Portugal, pois não se conseguiria enganar a comunidade internacional durante muito tempo. A Guiné Conacri poderia retaliar e nós, que lá estávamos, podiamos ser sacrificados ainda mais.

Saudações para todos

Carlos Vinhal

Leça da Palmeira

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Nota de L.G.

(1) Vd post nº 732, de 4 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXXII: Onde é que vocês estavam em 22 de Novembro de 1970 ? (João Tunes)

(...) "Talvez fosse interessante conhecermos como cada um de nós, os que lá estávamos em 22 de Novembro de 1970, vivemos a tensão desse dia e seguintes. O que achas, Luís, da sugestão como desafio aos camaradas tertulianos?" (...)

04 maio 2006

Guiné 63/74 - DCCXXXIV: Na guerra (não) se limpam armas (Carlos Vinhal)

Texto de Carlos Vinhal (ex-furrel miliciano da CART 2732, Região do Oio, Mansabá,1970/72)

Na guerra (não) se limpam armas

Dia 21 de Abril de 1971

Foi o dia em que integrados na Acção Urtiga XXVII saímos para patrulhamento e emboscadas, em Tungina, Buro e Colimansacunda. No dia anterior o meu amigo Cabo Ornelas (1), Apontador do morteiro 60, meteu-me uma cunha para eu pedir ao nosso Alferes Bento para que o dispensasse desta Operação, porque tinha necessidade urgente de ir a Bissau. Assim fiz e o Alf Bento anuiu. Ficou combinado que o habitual municiador, Soldado Silva, passaria a apontador e eu assumiria a função de municiador.

A força de intervenção na operação foi constituída pelos 3.º e 4.º Pelotões da CART 2732, reforçados com uma Secção do Pelotão de Milícias 253. O Comandante era o Alf Mil Bento.

Fomos progredindo conforme estava determinado e, numa emboscada por nós montada ao IN, na região da Bolanha de Iribato, interceptámos um numeroso grupo fortemente armado. Por puro azar, um dos valorosos milícias que nos acompanhavam, de seu nome Sul Bissau, pôs-se de pé, tendo sido detectado pelo IN e logo atingido gravemente por um RPG, precipitando uma intensa troca de fogo.

As NT reagiram, respondendo com fogo de armas ligeiras, dilagramas, metralhadora, bazooka e morteiro 60. Eu, inexperiente na arte de municiar, facilmente me adaptei às novas funções sem descurar contudo o comando do resto da Secção. Imodéstia à parte, até fui distinguido pelo meu comportamento debaixo de fogo no Relatório da Acção.

Causámos vários feridos confirmados e provavelmente 1 morto ao IN que fugiu em debandada, arrastando de qualquer maneira as suas vítimas. Do nosso lado houve a lamentar o ferimento grave do já referido soldado milícia.

Serenados os ânimos, pedimos evacuação urgente do Sul Bissau. Organizámos um perímetro de segurança para permitir a aterragem do heli e assim estivemos instalados até se concretizar a evacuação que demorou relativamente pouco tempo, porque o General Spínola andava por ali perto e disponibilizou um helicóptero da sua segurança para resolver a situação.

Mais tarde, quando o Alferes Bento deu ordem para a retirada, aconteceu uma situação caricata. Um dos soldados do 4.º Pelotão pediu mais um pouco de tempo porque, talvez preocupado com o asseio da sua G3, ali mesmo a tinha desmontado, procedendo à sua limpeza e manutenção. Uns riam-se incrédulos e outros diziam que se houvesse novo contacto não havia problema, porque ele defender-se-ia atirando uma a uma as peças da G3 e respectivas munições, tentando assim atingir o IN.

Claro que esperámos mais um pouco pelo diligente militar que naquele dia foi o alvo da chacota da rapaziada.

Carlos Vinhal
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Nota de L.G.

(1) Vd post de 25 de Março de 2005 > Guiné 63/74 - DCLI: A madeirense CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

18 abril 2006

Guiné 63/74 - DCCXI: Breve historial da CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

Guiné > Região do Oio > Mansabá > Emblema da CART 2732 ( 1970/72)
© Carlos Vinhal (2006)
Texto de Carlos Vinhal (ex-furrel miliciano):

No dia 17 de Abril de 2006 faz 36 anos que a CART2732 desembarcou em Bissau. Assim, a jeito de homenagem aos valorosos militares que compunham a minha Companhia, elaborei uma breve história.


BREVE HISTÓRIA DA CART 2732


A CART 2732 foi constituída em 23 de Fevereiro de 1970, tendo como Unidade Mobilizadora a BAG 2, sita no Pico de S. Martinho, no Funchal, Ilha da Madeira. A sua concentração fez-se na Posição Fortificada do Palheiro Ferreira, destacamento daquela Unidade.

A maior parte do seu pessoal era originário da Ilha da Madeira, com excepção dos Oficiais, Sargentos e Praças Especialistas.

Em 7 de Abril de 1970 a CART 2732 recebeu o seu Estandarte.

No dia 13 de Abril realizou-se no Cais do Porto do Funchal a cerimónia de despedida da Companhia. Ao acto estiveram presentes o Governador do Distrito Autónomo do Funchal, Coronel Braancamp Sobral e o Comandante Militar da CTI da Madeira, Brigadeiro Nascimento.

A CART 2732, sob o comando interino do Alf Mil Art Manuel Casal, embarcou nesse mesmo dia, cerca das 12H00, no navio Ana Mafalda, que largou pouco depois com destino à Guiné. No cais ficou uma multidão de populares, familiares e amigos dos militares, que ali se deslocaram para assistirem à cerimónia de despedida, embarque e partida da Companhia.

A CART 2732 desembarcou no cais de Bissau pelas 16H00 do dia 17 de Abril de 1970, ficando alojada em tendas de campanha no Depósito de Adidos.
Guiné > Região do Oio > Mansabá > Vista aérea do aquartelamento.

© Carlos Vinhal (2006)

No dia 20 de Abril realizou-se a parada de apresentação da Companhia ao Comandante-Chefe do CTI da Guiné, General António de Spínola.

Na manhã do dia seguinte, seguiu para Mansabá [entre Mansoa e Farim, na região do Oio], onde chegou cerca das 13H00 para render a CCAÇ 2403. Neste mesmo dia, Mansabá foi flagelada pelo IN com morteiro 82 e armas ligeiras, causando 16 feridos na população. Assim estava consumado o baptismo de fogo.

A CART 2732 ficou administrativa e operacionalmente dependente do BCAÇ 2885 sediado em Mansoa. Por sua vez a minha Companhia ficou com o Pel Caç Nat 57; o Pel Art 21; o Pel Mil 253; 1 Esquadra de Morteiros 81 e 2 AML Daimler, como adidos.

A minha Companhia ficou com uma ZA de aproximadamente 1036 Km2.

No dia 22 de Abrild e 1970 assumiu o Comando da CART 2732 o Capitão de Inf Carreto Maia, ex-comandante da CCAÇ 2403, em substituição do Capitão Prego Gamado que tinha dado baixa ao HMP [Hospital Militar Principal] antes do embarque no Funchal.

No dia 20 de Junho de 1970 a CART passou a ser comandada pelo Capitão de Art José Maria Belo para substituir o Capitão Carreto Maia que tinha terminado a sua Comissão de Serviço na Guiné.

Em Setembro de 1970 o Capitão José Maria Belo deu baixa ao HMP.

Em Outubro de 1970 assumiu o comando da Companhia o Capitão de Art Domingos Alberto Pinto Catalão que por sua vez baixou ao HM 241 em Fevereiro, Março e Junho de 1971 . Em Agosto de 1971 foi evacuado definitivamente para o HMP.

Em 11 de Novembro de 1970 a CART 2732 deixou de pertencer ao BCAÇ 2885, passando a estar integrada no Comando Operacional n.º 6, reactivado pela necessidade da construção da estrada Mansabá-Farim. O COP6 ficou instalado em Mansabá e a CART apoiou, fornecendo todos os meios logísticos necessários à sua operacionalidade.

Em Outubro de 1971 assumiu o comando da CART o Capitão Mil Armando Vieira dos Santos Caeiro.

Na ausência de capitães, o comando da Companhia foi sempre assegurado pelo Alf Mil Art Manuel Casal.

Em 17 de Janeiro de 1973, a CART 2732 completou 21 meses de Comissão na Guiné. E em 21 desse mês, completou 21 meses de permanência em Mansabá.

No dia 8 de Fevereiro de 1972 começou a rendição pela CCAÇ 2753, pelo que 2 Gr Comb da CART 2732 partiram para Bissau.

No dia 23 de Fevereiro os 2 últimos Gr Comb da CART deixaram Mansabá com destino a Bissau.
No dia 19 de Março de 1972, cerca das 18H00, um avião da FAP partiu do aeroporto de Bissau levando a bordo a CART 2732 com destino a Lisboa, onde chegou cerca das 23H30. Os militares da Ilha da Madeira seguiram no dia seguinte para o Funchal.

É minha obrigação lembrar a memória daqueles que partiram do Funchal e que, por morrerem, não regressaram connosco. São eles:
- Alf. Mil. Art.ª MA Couto que em 6 de Outubro de 1970 foi vítima do rebentamento de 1 mina A/P;
- Soldado Malcata que em 16 de Maio de 1971 faleceu por motivo de doença;
- Soldado Silvestre que em 17 de Maio de 1971 faleceu por motivo de acidente;
- Soldado Vieira que em 6 de Dezembro de 1971 foi morto numa emboscada;
- e, por fim, Soldado Barbosa que foi ferido na mesma emboscada, acabando por morrer no HM 241 em 17 de Dezembro de 1971.
Por eles direi sempre PRESENTE.

Carlos Vinhal

Fonte: Companhia de Artilharia 2732. História da Unidade 1970-1971-1972.

08 abril 2006

Guiné 63/74 - DCLXXXII: O outro Carlos Fabião (5) (Carlos Vinhal)

Texto do do Carlos Vinhal, ex-furriel miliciano da CART 2732 (Mansabá, 1970/72):

O homem é o resultado do seu tempo e das suas ideias. Não há democratas sem democracia nem ditadores sem ditadura. Ambos estão manietados se não estiverem integrados no seu tempo e meio.

O que acabei de escrever será discutível, muito, mas conheci alguns democratas e ditadores que pacientemente esperaram pela queda da ditadura. Muitos a milhares de quilómetros. Conheci outros que lutaram pelos seus ideais, mas as suas lutas eram pouco produtivas face ao que lhes custava, a eles pessoalmente e às suas famílias. A estes últimos as minhas homenagens. O nosso colega Rui Felício reforça a minha ideia da capacidade que o homem tem de adaptar as suas ideias e acções ao seu meio, conveniências e momento da sua vida.

Os militares do QP que fizeram múltiplas comissões em África, mais não fizeram que alimentar o regime que não queria, ou não sabia, dar a liberdade de escolha aos povos das Províncias Ultramarinas, mas muitos deles depois do 25 de Abril foram essenciais para a consolidação da democracia. Assim de momento, e sem pensar muito, lembro os nomes Salgueiro Maia, Melo Antunes e Ramalho Eanes a quem tanto devemos.

Os militares recrutados por imposição por sua vez, independentemente das suas convicções políticas ou posição face à guerra, tinham que alinhar ou destruiam o seu futuro. Eramos apanhados na idade em que iniciávamos os cursos superiores ou consolidávamos os nossos conhecimentos profissionais.

Ainda hoje me pergunto se o 25 de Abril, que foi feito pelos capitães (classe mais explorada pela guerra), teve como fim principal derrubar o regime ou se se aproveitou do estado de podridão do mesmo, para acabar com uma guerra sem solução.

Felizmente correu tudo bem; a guerra acabou, o regime caiu e a democracia foi imposta (no melhor dos sentidos) para nosso bem. Pode-se discutir os diversos modelos de democracia (se os há) que as diversas facções do MFA preconizavam e nos queriam impor.

Lá voltamos ao artigo do nosso camarada Felício (1) que em palavras directas retrata essas pessoas e esses tempos, imediatamente antes e depois do levantamento militar. Havia militares adaptados (ou inadaptados?) ao seu meio e ao seu tempo. A História falará deles com menos paixão do que nós o fazemos hoje. Há-de discutir-se no futuro o 28 de Setembro, o 11 de Março e o 25 de Novembro e, dependendo dos ideais de cada observador, os resultados serão considerados negativos ou positivos.

Saudações para todos os camaradas e amigos.

Carlos Vinhal

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Nota de L.G.

(1) Vd. post de 5 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 : DCLXXV: O outro Carlos Fabião (3) (Rui Felício)

"(...)Ficaria sossegado no meu canto, a observar as opiniões dos tertulianos a propósito da morte do CARLOS FABIÃO, sem nenhuma intenção de intervir, se não acabasse neste mesmo momento de ler um e-mail do Zé Teixeira em resposta a um outro do J.Vacas de Carvalho (meu contemporâneo na E.P.I. em Mafra).

"O Zé Teixeira afirma que o Carlos Fabião que conheceu na Guiné não é o mesmo que o Vacas de Carvalho retrata no seu e-mail. E eu acredito que o Zé Teixeira fale verdade. Mas não precisava que o Vacas de Carvalho escrevesse o que escreveu para saber que o que este diz também é verdade... Ou seja, ambos retratam o mesmo homem, em tempos diferentes mas próximos, com dois comportamentos completamente antagónicos!" (...)

02 abril 2006

Guiné 63/74 - DCLXIV: Homenagem aos majores Magalhães Osório, Passos Ramos e Pereira da Silva (Carlos Vinhal)

Texto do Carlos Vinhal (ex-furriel miliciano airador de infantaria, com a especialidade de minas e armadilhas, CART 2732, Mansabá, 1970/72):

Costumo dizer que andei na guerra porque não tive coragem de fugir dela. Até ir para a tropa nunca tinha pegado numa arma, a não ser nas de plástico para brincar, e nunca tinha atirado uma bomba de S.João.

Ironia do destino, fui para atirador e tirei um curso de minas e armadilhas. Para falar verdade nunca dei um tiro em combate, mas fiz umas coisas na área das minas. Nunca entendi a guerra embora a ache inevitável enquanto o animal homem dominar a Terra.

Vem isto a propósito de se estar a falar no nosso blogue dos nossos heróicos majores (1), que no cumprimento de uma missão quase impossível, foram cobardemente assassinados, pois morreram desarmados e indefesos por um inimigo que não queria diálogo, pelo menos naquela altura, como ficou provado.

Quando se deu este trágico acontecimento, estava a minha Companhia há pouco tempo na Província. Naquela altura foi-me difícil perceber como se puderam mandar 3 homens desarmados para o mato. Como se veio infelizmente a provar, não se conheciam as verdadeiras intenções da outra parte. Por ventura outras facções do PAIGC não concordavam com as mediações intentadas pelo general Spínola, mas daí a se matar 3 oficiais superiores inimigos, a sangue frio... Mesmo na guerra há limites.

Que coragem demonstraram aqueles homens ao prestarem-se a tal missão!

O Marechal Spínola, quanto a mim, demonstrou, antes e mesmo depois do 25 de Abril, uma certa ingenuidade quando se metia em acções políticas. A missão dos nossos majores foi uma acção política, mais que militar e o Marechal Spínola, sendo um brilhante militar, não tinha sensibilidade para a política.

Sabe-se agora que estas acções foram do conhecimento restrito de algumas pessoas do Regime, mas a responsabilidade e a condução política era da responsabilidade do Governador e Comandante Chefe da Província.

Os nossos majores Magalhães Osório, Passos Ramos e Pereira da Silva, são sem dúvida o exemplo da abnegação, cumprimento do dever, patriotismo e coragem. São merecedores da nossa consideração e agradecimento. Não sei se nas suas terras existe alguma rua com os seus nomes, mas porque não? Aqui fica a ideia. Fizeram-se heróis de acções mais comezinhas. Só pessoas como nós sentem estas coisas mais profundamente.

Carlos Vinhal
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Nota de L.G.

(1) Vd posts de:

1 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXVIII: A Internet e o menino do quartel de Teixeira Pinto (João Tunes)


11 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLIX: Antologia (15): Lembranças do chão manjaco (Do Pelundo ao Canchungo)

30 março 2006

Guiné 63/74 - DCLX: À sexta-feira, dia 13, o melhor era ficar na cama (Carlos Vinhal)

Post nº 660 (DCLX). Texto do Carlos Vinhal (ex-Fur Mil, de Minas e Armadilhas, da CART 2732, Mansabá, 1970/72):

Mansabá, 13 de Agosto de 1971 – Sexta-feira

Tarde quente de Agosto que se adivinhava enfadonha. Como não tinha nada que fazer, estava deitado na cama, deixando correr o tempo e ouvia pela milionésima vez uma das duas cassetes que tinha.

O meu Pelotão estava de Serviço ao Aquartelamento e eu, como estava de Sargento de Ronda, entraria ao serviço só lá pela meia-noite. De repente lembrei-me que era Sexta-feira e ao mesmo tempo dia 13.

Como não sou supersticioso, saltei da cama e logo pensei que era o dia indicado para se fazer aquelas tarefas que se não devem fazer nestes dias ditos azarentos. Vesti-me e fui à caserna dos condutores procurar um voluntário para ir comigo ao exterior do arame farpado rebentar granadas velhas. Não foi difícil encontrar alguém, porque toda a gente gostava assistir ao espectáculo dos rebentamentos.

Enquanto ele foi aprontar um Unimog, fui levantar um Rádio e avisar o meu alferes que estava de Oficial de Dia, dos meus intentos, para que ele por sua vez avisasse todos os Postos à volta do Aquartelamento e mais quem achasse por direito ser prevenido.

Carregado o Unimog, dirigimo-nos para o exterior do arame farpado, estrada de Mansabá para o K3, para junto de uma árvore morta onde eu costumava, num buraco existente junto dela, destruir o material que ia armazenando.

Depois de dispostas, com cuidado, as granadas velhas no buraco, juntei-lhes uns pedaços de TNT providos de detonadores eléctricos para provocar o rebentamento controlado com comando remoto.

Após o rebentamento e enquanto o fumo se dissipava, aproximei-me para verificar se tinha corrido tudo bem. Mal me abeirei do local, fui recebido por um enxame de abelhas selvagens, em polvorosa, que me perseguiram, enquanto eu fugia a sete pés.

Como não fui suficientemente lesto fui picado na cabeça e nas mãos. Enquanto corria, pelo Rádio começaram a chamar por mim. Quando pude, parei e atendi: era um soldado das Transmissões a comunicar-me que o Comandante, pessoa com quem eu não simpatizava e vice-versa, ordenava que me apresentasse imediatamente no seu gabinete.

Desmontei o serviço, carregámos as tralhas na viatura e lá fomos a caminho do Aquartelamento, não prevendo já nada de bom.

Quando entrei na porta da Secretaria, o gabinete do Comandante só tinha acesso por lá, fui alvo de riso por parte dos presentes. O meu aspecto era algo caricato pelos inchaços na testa provocados pelas picadas das abelhas. Ao mesmo tempo vi caras de preocupação pelo que me esperava lá dentro.

Bati à porta e à voz de ENTRE, entrei, fiz a continência da praxe e em sentido esperei pela pancada. Indiferente ao meu aspecto, perguntou-me o Comandante, muito furioso:

- Nosso Furriel, quem o autorizou a fazer rebentamentos? - Respondi que ninguém e que julgava ter competência suficiente para saber qual era a melhor ocasião para destruir material perigoso, depositado na Arrecadação do Material de Guerra, à minha responsabilidade, desde que antecipadamente desse conhecimento.

- Mas eu não soube de nada!!!

Disse-lhe que previamente tinha avisado o nosso Alferes B. que estava de Oficial de Dia, para que ele por sua vez alertasse os postos de vigilância e providenciasse pela minha segurança e do condutor que me acompanhava.

- Vá chamar imediatamente o nosso alferes.

Fui ao Bar dos oficiais procurar o Oficial de Dia para ele me acompanhar ao gabinete do nosso Capitão. Com os dois já na presença dele, foi a vez de ser o alferes o interpelado:

- Nosso alferes, o nosso furriel Vinhal deu-lhe conhecimento de que ia fazer rebentamentos?

- Sim, meu comandante, deu.

- E você avisou-me?

- Não meu comandante, avisei toda a gente mas não me lembrei do senhor, peço desculpa pelo esquecimento.

- Nosso furriel, pode retirar-se. Por esta vez escapou de uma porrada, mas tenha cuidado comigo.

O que se passou no Gabinete do Comandante depois de eu sair não sei, mas adivinho que o alferes tenha ouvido das boas.

Na Secretaria fiquei a saber pelo nosso Primeiro que, quando se deu o rebentamento, o Capitão, julgando tratar-se de um ataque ao aquartelamento, deitou a fugir pelo gabinete fora, mas quando viu que toda a gente continuava sentada a trabalhar, impávida e serena e, ainda por cima com ar de riso, ficou furioso. Sabendo posteriormente que fui eu o autor do rebentamento, gostando de mim como gostava, julgou chegada a hora de me dar a porrada há muito prometida.

Restabelecida a ordem, dediquei-me a tratar as picadas das abelhas e a reflectir sobre a tarde que tinha passado. Não foi enfadonha, mas convenhamos que às Sextas-feiras dias 13, o melhor é ficar na cama, sossegadinho, a ouvir pela milionésima vez a música de uma de duas cassetes que se tenha e da qual se sabe de cor e salteado a sequência das canções.

Felizmente, para mim, mais tarde este comandante deu baixa por doença (?) ao Hospital Militar 241, sendo posteriormente evacuado definitivamente para Lisboa.

Carlos Vinhal

Ex-Fur Mil Minas e Armadillhas

CART 2732 (1970/72) (1)

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Nota de L.G.

(1) Vd post de 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLI: A madeirense CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

25 março 2006

Guiné 63/74 - DCLI: A madeirense CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

Guiné > Região do Oio > Mansaba > CART 2732 (Mansabá, 1970/72)> 1970 > : 3º Pelotão, secção do Fur Mil Vinhal (primeira fila, à direita, ladeado pelo seu amigo Ornelas). © Carlos Vinhal (2006)


Guiné > Região do Oio > Mansaba > CART 2732 (Mansabá, 1970/72)> 1970 > 3º Pelotão a que pertencia o Fur Mil Vinhal (na primeira fla, à esquerda).© Carlos Vinhal (2006)



Amigos e camaradas de tertúlia: Abram aulas para receber mais um camarada da Guiné. Aqui vai o testemunho do Carlos Vinhal, ex-furriel miliciano da CART 2732 (Mansabá, 1970/72):

Caro Luis Graça


Entrei recentemente no seu site e, como antigo combatente da Guiné, queria deixar o meu modesto contributo para aumentar o número daqueles que não têm complexos em assumir-se como antigos combatentes de uma guerra que, a não querendo, dela não fugiram.

A propósito, lembro-me que após o 25 de Abril foi um tal de aparecerem heróis que fizeram a "guerra colonial" em França, na Suécia e outros países similares que albergavam aqueles que tinham mais coragem para fugir do que para enfrentarem a dura realidade de uma guerra sem fim. Questões ideológicas? Talvez.

Passo a apresentar-me:

(i) chamo-me Carlos Esteves Vinhal, fui Furriel Miliciano Atirador com a especialidade de Minas e Armadilhas;

(ii) fui incorporado como instruendo do CSM em Abril de 1969 nas Caldas da Rainha (RI5);

(iii) a especialidade de Atirador tirei-a em Vendas Novas (EPA);

(iv) em Novembro fui para Tancos (EPE) onde tirei o 33.º Curso de Minas e Armadilhas;

(v) em Dezembro rumei para o Funchal onde ajudei a dar a Especialidade de Atirador a um grupo de militares madeirenses com os quais se formaram as duas primeiras Companhias do Grupo de Artilharia de Guarnição n.º 2 (GAG2) a irem para o Ultramar: a CART2731 foi para Angola e a minha, a CART2732, embarcou no Cais do Funchal para a Guiné no dia 13 de Abril de 1970, chegando a 17;

(vi) uns quantos dias em Brá e no dia 21 do mesmo mês seguimos para Mansabá, situada entre Mansoa e Farim, onde permanecemos até finais de Fevereiro de 1972.

Como se tratava de uma Companhia independente ficámos dependentes administrativa e operacionalmente ao BCAÇ 2885, sediado em Mansoa. Os Oficiais, Sargentos, Cabos e Soldados especialistas eram todos continentais. Os madeirenses, homens de comprovada bravura, eram aquilo que poderíamos chamar a carne para canhão. A verdade é que muitos deles foram feridos em combate mais de uma vez e nunca viraram a cara à luta. Verdadeiros heróis anónimos, embora alguns reconhecidos e louvados até pelo General e Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné.

Perdemos três militares madeirenses, dois em combate quase no fim da comissão (o Vieira e o Barbosa) e um por acidente (o Silvestre). O soldado Malcata, oriundo do continente, morreu de doença. Perdemos também o Alferes Couto que, tendo como eu o Curso de Minas e Armadilhas, viu-lhe rebentar nas mãos uma mina antipessoal.

Futuramente escreverei mais umas coisas, porque memórias não faltam.

É com muita honra e a título de homenagem aos meus valorosos camaradas madeirenses da CART2732 e em particular ao meu 3º Pelotão que anexo duas fotografias. Na de cima a minha Secção e na de baixo o meu Pelotão.

Refira-se que nesta altura - e só tínhamos 6 meses de comissão - já a Companhia se encontrava desfalcada. Já havia morrido o Alferes Couto e estava hospitalizado o Alferes Bento comandante do meu Pelotão, vítimas do mesmo incidente. Por que estou presente nas fotografias, na Secção estou em baixo à direita, ladeado pelo meu grande amigo Ornelas e, no Pelotão, em baixo à esquerda.

Cordiais saudações para todos os camaradas combatentes da Guiné. Espero e agradeço futuros contactos.

Leça da Palmeira

Carlos Esteves Vinhal