14 abril 2005

SOS Assédio - II: O meu nome é H...

1. Mensagem recebida por e-mail, ontem, 13 de Abril de 2005, às 16.45h:

"Boa tarde!

"O meu nome é H..., tenho 30 anos e venho por este meio pedir mais informação sobre o assédio moral no trabalho, que desconhecia até ver na SIC Mulher [ o programa Elas em Marte, apresentado por Ana Marques, das 18h às 19h, no dia 7 de Abril de 2005, e que foi dedicado ao tema do Mobbing/Assédio no Local de Trabalho, tendo contado com a presença de Cláudia Cardoso, Luís Graça e Maria do Rosário Ramalho].

"Eu há um ano que fui despedido, por ter faltado ao trabalho, por stresse, causado pelo excesso de trabalho, por ter tido algumas pressões e exigências da empresa e até minhas (medo de perder o trabalho).

"O que se passou foi o seguinte: em 2004 a empresa cresceu muito rápido, vendo-se obrigada a mudar os horários do funcionamento de algumas secções. Aí foi quando começou o problema. Ou seja, houve uma pequena reunião do pessoal da secção onde eu trabalhava e fizeram como que um ultimato aos empregados: ou nós aceitávamos trabalhar por turnos e trabalhar ao fim-de-semana, ou então eramos excluídos do grupo. Nós aceitámos porque tínhamos medo de ser despedidos.

"Ao fim de algum tempo as pessoas ficam cansadas e a precisar de descanso, depois de estar a trabalhar, de 2ª a 6ª feira, mais de 8 horas, e ao fim-de-semana outras 8 horas (exigência da empresa). Até que um dia faltei ao trabalho, por já não andar bem. Fui falar com o meu chefe de secção a explicar o motivo porque faltei e a empresa aceitou-me de volta. Mais tarde, isto já em 2005, voltei a faltar ao trabalho, mas desta vez fui ao médico de família pedir baixa. Andei de baixa algum tempo e, depois de me sentir melhor, tentei voltar ao trabalho, mas desta vez fui transferido para outra secção.

"Na outra secção, houve um período de adaptação do novo trabalho que tinha que fazer, onde era pressionado por duas pessoas, uma a dizer-me para trabalhar mais rápido e outra a criticar-me por ir beber café, coisas assim.

"Pouco tempo depois saí pela porta fora e não quis saber mais do trabalho. Como é normal fui despedido, mas o mais grave foi ter ficado doente. Entrei em depressão profunda, isolei-me do mundo, não queria ver e falar com ninguém, maltratava verbalmente a minha família, fugi de casa 2 vezes e até tentei o suicídio uma vez (não me matei porque não encontrei o revólver do meu pai). Neste período andei em neurologistas, psiquiatras, psicólogos, tudo pago pelos meus pais.

"Depois deste paleio todo, o que quero saber é que até que ponto o que me aconteceu é assédio moral? Quais são os meus direitos? O que devo fazer para melhorar a minha situação, no campo emocional, psicológico e até profissional? O que se pode fazer aos outros empregados que ficaram a trabalhar nessa empresa?

"Obrigado pela sua atenção".

2. Comentário:

As minhas primeiras palavras são de simpatia e de solidariedade para com este jovem, que me relata uma dramática experiência profissional. Não sou médico, nem psicólogo, nem terapeuta, nem jurista, pelo que não o poderei ajudar muito, a nível pessoal. Só espero que hoje esteja melhor, e que se sinta capaz de encontrar a tão necessária "luz ao fundo túnel". O facto de ter procurado a ajuda de profissionais de saúde e de contar com o apoio da família é, já por si, encorajante. Esta experiência culminou numa crise grave, de que o H... felizmente conseguiu sair. E a prova é o seu testemunho.

Quanto ao que me pergunta: Isto foi um caso típico de assédio moral ? Faltam-me mais dados (incluindo o conhecimento do contexto) para lhe responder honestamente. Não podemos confundir assédio com o exercício (legítimo) do poder hierárquico e disciplinar.

Socorro-me aqui da autoridade de Marie-France Hirigoyen, uma psiquiatra francesa, especialista em apoio à vítima, para quem o assédio moral no trabalho define-se como sendo “qualquer comportamento abusivo (gesto, palavra, comportamento, atitude...) que atente, pela sua repetição ou pela sua sistematização, contra a dignidade ou a integridade psíquica ou física de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego ou degradando o clima de trabalho” (Hirigoyen, 2002. 14-15).

Mais concretamente, o assédio moral no trabalho deve ter as seguintes características: (i) um comportamento de intimidação e de hostilidade, (ii) reiterado, (iii) consciente, (iv) sistemático, (v) prolongado no tempo, (vi) e que visa, em última análise, pôr em causa a capacidade da vítima (colega ou subordinado) para se manter no emprego e cumprir as suas obrigações profissionais. É "uma violência em pequenos golpes", a conta gotas, que passa muitas vezes despercebida, mas é muito destruidora: "é o efeito cumulativo de microtraumatismos frequentes e repetidos que constitui a agressão" (Hirigogyen, 2002.15).

As consequências são graves, em muitos casos, como se depreende desta história pessoal do H... O que se pode fazer para melhorar a situação da vítima, a nível emocional, legal e profissional ? Esta é uma pergunta difícil.

O H... não estava, em condições, na altura, de "ir à luta", de pedir ajuda, de denunciar a situação, tendo optado por "bater com a porta" e por romper, unilateralmente, o seu contrato de trabalho.

Mas aqui falta-nos também o ponto de vista do jurista... Não é o meu domínio... Agradeço, em todo o caso, o seu depoimento. Espero que o tenho ajudado a romper o muro (do sofrimento, da dor, do sofrimento, do silêncio e às vezes até da culpa e da vergonha). Espero que o relato da sua experiência também possa ajudar outras pessoas, e nomeadamente os homens e as mulheres que neste país são vítimas de violação sistemática da sua dignidade e dos seus direitos humanos no local da trabalho, e de exposição a factores de risco psicossocial como o assédio e outras formas de violência no trabalho.

SOS Assédio - II: O meu nome é H...

1. Mensagem recebida por e-mail, ontem, 13 de Abril de 2005, às 16.45h:

"Boa tarde!

"O meu nome é H..., tenho 30 anos e venho por este meio pedir mais informação sobre o assédio moral no trabalho, que desconhecia até ver na SIC Mulher [ o programa Elas em Marte, apresentado por Ana Marques, das 18h às 19h, no dia 7 de Abril de 2005, e que foi dedicado ao tema do Mobbing/Assédio no Local de Trabalho, tendo contado com a presença de Cláudia Cardoso, Luís Graça e Maria do Rosário Ramalho].

"Eu há um ano que fui despedido, por ter faltado ao trabalho, por stresse, causado pelo excesso de trabalho, por ter tido algumas pressões e exigências da empresa e até minhas (medo de perder o trabalho).

"O que se passou foi o seguinte: em 2004 a empresa cresceu muito rápido, vendo-se obrigada a mudar os horários do funcionamento de algumas secções. Aí foi quando começou o problema. Ou seja, houve uma pequena reunião do pessoal da secção onde eu trabalhava e fizeram como que um ultimato aos empregados: ou nós aceitávamos trabalhar por turnos e trabalhar ao fim-de-semana, ou então eramos excluídos do grupo. Nós aceitámos porque tínhamos medo de ser despedidos.

"Ao fim de algum tempo as pessoas ficam cansadas e a precisar de descanso, depois de estar a trabalhar, de 2ª a 6ª feira, mais de 8 horas, e ao fim-de-semana outras 8 horas (exigência da empresa). Até que um dia faltei ao trabalho, por já não andar bem. Fui falar com o meu chefe de secção a explicar o motivo porque faltei e a empresa aceitou-me de volta. Mais tarde, isto já em 2005, voltei a faltar ao trabalho, mas desta vez fui ao médico de família pedir baixa. Andei de baixa algum tempo e, depois de me sentir melhor, tentei voltar ao trabalho, mas desta vez fui transferido para outra secção.

"Na outra secção, houve um período de adaptação do novo trabalho que tinha que fazer, onde era pressionado por duas pessoas, uma a dizer-me para trabalhar mais rápido e outra a criticar-me por ir beber café, coisas assim.

"Pouco tempo depois saí pela porta fora e não quis saber mais do trabalho. Como é normal fui despedido, mas o mais grave foi ter ficado doente. Entrei em depressão profunda, isolei-me do mundo, não queria ver e falar com ninguém, maltratava verbalmente a minha família, fugi de casa 2 vezes e até tentei o suicídio uma vez (não me matei porque não encontrei o revólver do meu pai). Neste período andei em neurologistas, psiquiatras, psicólogos, tudo pago pelos meus pais.

"Depois deste paleio todo, o que quero saber é que até que ponto o que me aconteceu é assédio moral? Quais são os meus direitos? O que devo fazer para melhorar a minha situação, no campo emocional, psicológico e até profissional? O que se pode fazer aos outros empregados que ficaram a trabalhar nessa empresa?

"Obrigado pela sua atenção".

2. Comentário:

As minhas primeiras palavras são de simpatia e de solidariedade para com este jovem, que me relata uma dramática experiência profissional. Não sou médico, nem psicólogo, nem terapeuta, nem jurista, pelo que não o poderei ajudar muito, a nível pessoal. Só espero que hoje esteja melhor, e que se sinta capaz de encontrar a tão necessária "luz ao fundo túnel". O facto de ter procurado a ajuda de profissionais de saúde e de contar com o apoio da família é, já por si, encorajante. Esta experiência culminou numa crise grave, de que o H... felizmente conseguiu sair. E a prova é o seu testemunho.

Quanto ao que me pergunta: Isto foi um caso típico de assédio moral ? Faltam-me mais dados (incluindo o conhecimento do contexto) para lhe responder honestamente. Não podemos confundir assédio com o exercício (legítimo) do poder hierárquico e disciplinar.

Socorro-me aqui da autoridade de Marie-France Hirigoyen, uma psiquiatra francesa, especialista em apoio à vítima, para quem o assédio moral no trabalho define-se como sendo “qualquer comportamento abusivo (gesto, palavra, comportamento, atitude...) que atente, pela sua repetição ou pela sua sistematização, contra a dignidade ou a integridade psíquica ou física de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego ou degradando o clima de trabalho” (Hirigoyen, 2002. 14-15).

Mais concretamente, o assédio moral no trabalho deve ter as seguintes características: (i) um comportamento de intimidação e de hostilidade, (ii) reiterado, (iii) consciente, (iv) sistemático, (v) prolongado no tempo, (vi) e que visa, em última análise, pôr em causa a capacidade da vítima (colega ou subordinado) para se manter no emprego e cumprir as suas obrigações profissionais. É "uma violência em pequenos golpes", a conta gotas, que passa muitas vezes despercebida, mas é muito destruidora: "é o efeito cumulativo de microtraumatismos frequentes e repetidos que constitui a agressão" (Hirigogyen, 2002.15).

As consequências são graves, em muitos casos, como se depreende desta história pessoal do H... O que se pode fazer para melhorar a situação da vítima, a nível emocional, legal e profissional ? Esta é uma pergunta difícil.

O H... não estava, em condições, na altura, de "ir à luta", de pedir ajuda, de denunciar a situação, tendo optado por "bater com a porta" e por romper, unilateralmente, o seu contrato de trabalho.

Mas aqui falta-nos também o ponto de vista do jurista... Não é o meu domínio... Agradeço, em todo o caso, o seu depoimento. Espero que o tenho ajudado a romper o muro (do sofrimento, da dor, do sofrimento, do silêncio e às vezes até da culpa e da vergonha). Espero que o relato da sua experiência também possa ajudar outras pessoas, e nomeadamente os homens e as mulheres que neste país são vítimas de violação sistemática da sua dignidade e dos seus direitos humanos no local da trabalho, e de exposição a factores de risco psicossocial como o assédio e outras formas de violência no trabalho.

SOS Assédio - I: Romper a barreira do sofrimento, da culpa e do silêncio

1. O assédio moral e outras formas de violência no local de trabalho não são de ontem nem de hoje mas agravam-se em épocas de crise e de mudança. Um indício disso é o facto de hoje se falar mais nestes fenómenos, de haver mais casos que chegam ao nosso conhecimento, de haver inclusivamente uma tentativa para lhe dar uma moldura legal, criminalizando este tipo de comportamentos.

Por exemplo, o nosso Código do Trabalho, que entrou em vigor a partir de 1 de Dezembro de 2003, consagra a figura do assédio e dá uma definição alargada (se bem que imprecisa) desta forma de violência.

Segundo o art. 24º (Assédio):

i) constitui discriminação o assédio a candidato a emprego e a trabalhador;

(ii) entende-se por assédio todo o comportamento indesejado relacionado com um dos factores indicados no nº1 do art. 23º, praticado aquando do acesso ao emprego, ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou o efeito de afectar a dignidade da pessoa, ou criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador;

(iii) constitui, em especial, assédio, todo o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objectivo ou o efeito referido no número anterior".

O nº 1 do artº 23º diz explicitamente que "o empregador não pode praticar qualquer discriminação, directa ou indirecta, baseada, nomeadamente, na ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical".

2. Com o Código do Trabalho o legislador português procurou também transpor a Directiva 2000/78/CE do Conselho, de 27 de Novembro de 2000, a qual veio estabelecer o quadro legal de igualdade de tratamento no emprego e na actividade profissional. O art. 24º vem consagrar um conceito mais alargado de assédio, que já não é apenas sexual, mas pode também ter por motivo a orientação sexual da vítrima, a idade, a etnia ou outro atributo sociodemográfico.

Em teoria, não cabe à vítima de assédio fazer o ónus da prova. Na prática, continua a ser muito difícil falar destes comportamentos de hostilidade e intimidação e sobretudo criminalizar o assédio, seja ele praticado pelo empregador e/ou seus representantes, ou seja ele imputado aos colegas de trabalho da vítima...

3. Há um anoa trás recebi um pedido de ajuda, bastante dramático, de alguém, uma mulher, que estava a ser alvo de comportamentos de intimação no seu local de trabalho. Falei com ela pelo telefone, e dei-lhe o conforto e a solidariedade possíveis. Nestas situações, o mais importante é saber ouvir mais do que falar... Dei-lhe também algumas dicas, por e-mail: Por exemplo, falei-lhe de Marie France Hirigoyen, a psiquiatra francesa que tem dois livros publicados em Portugal, e que tive o prazer o conhecer pessoalmente em Lisboa, poor ocasião do 7º Fórum Nacional da Medicina do Trabalho, que se realizou em 2003.

Marie-France Hirigoyen é hoje reconhecida como uma autoridade a nível mundial neste domínio. Aconselhei a minha interlocutora, vítima de assédio no seu local de trabalho, a comprar o livro mais recente da Marie-France. O livro, editado pela Pergaminho, custa à volta de 15 euros. "É excepcional, você vai reconhecer-se nele... Pode ajudá-la a defender-se e sobretudo a sobreviver em toda esta história, com saúde mental, que é o mais importante".

Aqui ficam, para outros interessados, as referências bibliográficas:

Hirigoyen, M.-F. (1999). Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano. Lisboa: Pergaminho.
Hirigoyen M.-F. (2002). O Assédio no Trabalho - Como Distinguir a Verdade. Lisboa: Pergaminho.

Veja-se também o sítio oficial, na Net, de Marie-France Hirigoyen, em francês. Há um grupo de profissionais brasileiros, ligados à saúde e segurança do trabalho, que também têm um excelente sítio sobre este tópico: Assédio moral no trabalho: chega de humilhação!

Em inglês há muito mais bibliografia em diversos sites.


4. Recebi logo a seguir a resposta desta jovem, ndoutorada, ou doutoranda (já não posso precisar), a trabalhar precariamente no ensino superior). Eis alguns extractos do e-mail que me mandou:

" (...) Estou-lhe muito agradecida pela amabilidade e prontidão com que atendeu o meu pedido e por toda a informação que me enviou. Vou certamente comprar o livro que me aconselhou e também ver se consigo que o meu colega o leia pois, de facto, não sabemos ambos como lidar com a situação.

"Apenas tive oportunidade de dar uma vista de olhos [aos sites citados. Num deles] é referido que muitos autores e a generalidade das pessoas que foram vítimas de assédio recomendam a mudança de emprego como medida de preservação da saúde física e mental. Como concordo com esta afirmação, esta questão é para mim a mais preocupante. Tenho consciência de que tanto eu como o meu colega não o conseguiremos fazer rapidamente uma vez que, na nossa área, há inclusivamente doutorados a candidatar-se a bolsas anuais de 150 contos e maior parte das pessoas chega a levar anos a encontrar um emprego que, na maioria das vezes, é tão ou mais precário que o nosso. Dedicámos também já muito trabalho ao emprego que temos e à progressão na carreira, conseguindo isto à custa de muito sofrimento pessoal e das nossas famílias. Acho, por isso, está mesmo na altura de ler o livro que me recomendou.

"Também já me apercebi que a maioria das pessoas que se encontra na nossa situação não fala a maior parte das vezes do seu caso e, por isso, estamos ainda mais isolados. O sigilo obriga-nos ainda a isolar-nos mais e, por isso, penso que o melhor é recorrer directamente aos serviços jurídicos dos sindicatos que mencionou" (por ex., sindicatos dos professores, sindicatos da função pública).

5. Infelizmente, para além do apoio jurídico, muitas das pessoas que são vítimas de violência no local de trabalho (e mais concretamente de assédio, sexual ou moral), também precisam de apoio clínico e psicoterapêutico. Repare-se que esta violência não é, em princípio, física, mas sobretudo psicológica. Há várias desiganções para este fenómeno, nas nossas línguas europeias: harrassement, mobbing, bullying, assédio, terrorismo organizacional, intimidação... Gosto particularmente do termo castelhano acoso ... A vítima de assédio moral no local de trabalho sente-se, em muitos casos, como um "animal acossado"!

E a verdade é que os nossos serviços de saúde (a começar pelos Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, mas também o Serviço Nacional de Saúde) não estão ainda sensibilizados e preparados para lidar com estes casos. Considero, no entanto, que o médico de família, nos centros de saúde, e o médico do trabalho, nos serviços de saúde/medicina do trabalho, podem e devem ter uma intervenção qualificada nestes casos.

6. Infelizmente, este é um mundo de sigilo, silêncio, solidão, vergonha, medo... Mas é bom que falemos bem alto destas coisas, porque elas também parte do tripaliu(m) que mata a gente .

Foi a pensar nestas pessoas, portugueses ou não, vítimas de uma nova forma de violência que está a aumentar nas nossas empresas e demais organizações, que eu passo a ter aqui uma nova secção: SOS Assédio. A intenção é apenas a de acolher e divulgar os casos de assédio ou de outras formas de violência, física, verbal ou psicológica. De qualquer modo, há uma barreira que é preciso romper: a do sofrimento, da culpa e do silêncio.

Sobre este tema também pode ser consultada a minha página na Net, e em particular o texto "Factores de risco psicossocial no trabalho: assédio moral e outras formas de violência".

SOS Assédio - I: Romper a barreira do sofrimento, da culpa e do silêncio

1. O assédio moral e outras formas de violência no local de trabalho não são de ontem nem de hoje mas agravam-se em épocas de crise e de mudança. Um indício disso é o facto de hoje se falar mais nestes fenómenos, de haver mais casos que chegam ao nosso conhecimento, de haver inclusivamente uma tentativa para lhe dar uma moldura legal, criminalizando este tipo de comportamentos.

Por exemplo, o nosso Código do Trabalho, que entrou em vigor a partir de 1 de Dezembro de 2003, consagra a figura do assédio e dá uma definição alargada (se bem que imprecisa) desta forma de violência.

Segundo o art. 24º (Assédio):

i) constitui discriminação o assédio a candidato a emprego e a trabalhador;

(ii) entende-se por assédio todo o comportamento indesejado relacionado com um dos factores indicados no nº1 do art. 23º, praticado aquando do acesso ao emprego, ou no próprio emprego, trabalho ou formação profissional, com o objectivo ou o efeito de afectar a dignidade da pessoa, ou criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador;

(iii) constitui, em especial, assédio, todo o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objectivo ou o efeito referido no número anterior".

O nº 1 do artº 23º diz explicitamente que "o empregador não pode praticar qualquer discriminação, directa ou indirecta, baseada, nomeadamente, na ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical".

2. Com o Código do Trabalho o legislador português procurou também transpor a Directiva 2000/78/CE do Conselho, de 27 de Novembro de 2000, a qual veio estabelecer o quadro legal de igualdade de tratamento no emprego e na actividade profissional. O art. 24º vem consagrar um conceito mais alargado de assédio, que já não é apenas sexual, mas pode também ter por motivo a orientação sexual da vítrima, a idade, a etnia ou outro atributo sociodemográfico.

Em teoria, não cabe à vítima de assédio fazer o ónus da prova. Na prática, continua a ser muito difícil falar destes comportamentos de hostilidade e intimidação e sobretudo criminalizar o assédio, seja ele praticado pelo empregador e/ou seus representantes, ou seja ele imputado aos colegas de trabalho da vítima...

3. Há um anoa trás recebi um pedido de ajuda, bastante dramático, de alguém, uma mulher, que estava a ser alvo de comportamentos de intimação no seu local de trabalho. Falei com ela pelo telefone, e dei-lhe o conforto e a solidariedade possíveis. Nestas situações, o mais importante é saber ouvir mais do que falar... Dei-lhe também algumas dicas, por e-mail: Por exemplo, falei-lhe de Marie France Hirigoyen, a psiquiatra francesa que tem dois livros publicados em Portugal, e que tive o prazer o conhecer pessoalmente em Lisboa, poor ocasião do 7º Fórum Nacional da Medicina do Trabalho, que se realizou em 2003.

Marie-France Hirigoyen é hoje reconhecida como uma autoridade a nível mundial neste domínio. Aconselhei a minha interlocutora, vítima de assédio no seu local de trabalho, a comprar o livro mais recente da Marie-France. O livro, editado pela Pergaminho, custa à volta de 15 euros. "É excepcional, você vai reconhecer-se nele... Pode ajudá-la a defender-se e sobretudo a sobreviver em toda esta história, com saúde mental, que é o mais importante".

Aqui ficam, para outros interessados, as referências bibliográficas:

Hirigoyen, M.-F. (1999). Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano. Lisboa: Pergaminho.
Hirigoyen M.-F. (2002). O Assédio no Trabalho - Como Distinguir a Verdade. Lisboa: Pergaminho.

Veja-se também o sítio oficial, na Net, de Marie-France Hirigoyen, em francês. Há um grupo de profissionais brasileiros, ligados à saúde e segurança do trabalho, que também têm um excelente sítio sobre este tópico: Assédio moral no trabalho: chega de humilhação!

Em inglês há muito mais bibliografia em diversos sites.


4. Recebi logo a seguir a resposta desta jovem, ndoutorada, ou doutoranda (já não posso precisar), a trabalhar precariamente no ensino superior). Eis alguns extractos do e-mail que me mandou:

" (...) Estou-lhe muito agradecida pela amabilidade e prontidão com que atendeu o meu pedido e por toda a informação que me enviou. Vou certamente comprar o livro que me aconselhou e também ver se consigo que o meu colega o leia pois, de facto, não sabemos ambos como lidar com a situação.

"Apenas tive oportunidade de dar uma vista de olhos [aos sites citados. Num deles] é referido que muitos autores e a generalidade das pessoas que foram vítimas de assédio recomendam a mudança de emprego como medida de preservação da saúde física e mental. Como concordo com esta afirmação, esta questão é para mim a mais preocupante. Tenho consciência de que tanto eu como o meu colega não o conseguiremos fazer rapidamente uma vez que, na nossa área, há inclusivamente doutorados a candidatar-se a bolsas anuais de 150 contos e maior parte das pessoas chega a levar anos a encontrar um emprego que, na maioria das vezes, é tão ou mais precário que o nosso. Dedicámos também já muito trabalho ao emprego que temos e à progressão na carreira, conseguindo isto à custa de muito sofrimento pessoal e das nossas famílias. Acho, por isso, está mesmo na altura de ler o livro que me recomendou.

"Também já me apercebi que a maioria das pessoas que se encontra na nossa situação não fala a maior parte das vezes do seu caso e, por isso, estamos ainda mais isolados. O sigilo obriga-nos ainda a isolar-nos mais e, por isso, penso que o melhor é recorrer directamente aos serviços jurídicos dos sindicatos que mencionou" (por ex., sindicatos dos professores, sindicatos da função pública).

5. Infelizmente, para além do apoio jurídico, muitas das pessoas que são vítimas de violência no local de trabalho (e mais concretamente de assédio, sexual ou moral), também precisam de apoio clínico e psicoterapêutico. Repare-se que esta violência não é, em princípio, física, mas sobretudo psicológica. Há várias desiganções para este fenómeno, nas nossas línguas europeias: harrassement, mobbing, bullying, assédio, terrorismo organizacional, intimidação... Gosto particularmente do termo castelhano acoso ... A vítima de assédio moral no local de trabalho sente-se, em muitos casos, como um "animal acossado"!

E a verdade é que os nossos serviços de saúde (a começar pelos Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho, mas também o Serviço Nacional de Saúde) não estão ainda sensibilizados e preparados para lidar com estes casos. Considero, no entanto, que o médico de família, nos centros de saúde, e o médico do trabalho, nos serviços de saúde/medicina do trabalho, podem e devem ter uma intervenção qualificada nestes casos.

6. Infelizmente, este é um mundo de sigilo, silêncio, solidão, vergonha, medo... Mas é bom que falemos bem alto destas coisas, porque elas também parte do tripaliu(m) que mata a gente .

Foi a pensar nestas pessoas, portugueses ou não, vítimas de uma nova forma de violência que está a aumentar nas nossas empresas e demais organizações, que eu passo a ter aqui uma nova secção: SOS Assédio. A intenção é apenas a de acolher e divulgar os casos de assédio ou de outras formas de violência, física, verbal ou psicológica. De qualquer modo, há uma barreira que é preciso romper: a do sofrimento, da culpa e do silêncio.

Sobre este tema também pode ser consultada a minha página na Net, e em particular o texto "Factores de risco psicossocial no trabalho: assédio moral e outras formas de violência".

13 abril 2005

Portugas que merecem as nossas palmas - XVI: O Serviço Jesuíta aos Refugiados

1. "Cada vez mais, o nosso Gabinete Social é solicitado pelos Hospitais para arranjarmos solução para os imigrantes doentes, que ali se encontram internados, que não têm família em Portugal e que estão em vias de terem alta 'clínica', mas longe de terem alta 'social'. Em desespero de causa, muitos imigrantes são deixados pelos Hospitais à porta do nosso serviço, para que lhes encontremos uma resposta de vida mais digna em Portugal. Não é tarefa fácil, porque eles se encontram ainda visivelmente debilitados. Só graças ao grande esforço da nossa técnica, em conjunto com o de organizações parceiras, se vão encontrando algumas soluções para a vida destas pessoas.

"Também os outros serviços do JRS têm sido igualmente muito procurados, pelo que precisávamos de um reforço dos nossos recursos humanos. Neste novo ano lectivo, são vários os estagiários dos cursos de Política Social, de Serviço Social, de Sociologia e de Relações Internacionais que entraram para o JRS. Estes jovens terão aqui um primeiro contacto com a vida laboral e com a realidade social, através da problemática da imigração. Neste Boletim temos o testemunho de alguns deles".

Notícias do JSR - Boletim trimestral do JRS-Portugal. 7 (Julho-Setembro de 2004). Directora: Rosário Farmhouse.


2. O Serviço Jesuíta aos Refugiados (Estrada da Torre, 26 – 1750-296 Lisboa; telef. 21 754 16 20, Fax 21 754 16 25;e-mail: jrs-portugal@netcabo.pt) é uma organização internacional da Igreja Católica, sob a responsabilidade da Companhia de Jesus (vulgo, jesuítas).

O JSR (do inglês, Jesuit Refugee Service) foi fundado em 1980 pelo então Superior Geral da Companhia de Jesus, o Padre Pedro Arrupe, tocado pelo drama dos boat people, os refugiados vietnamitas, largamente noticiado na época.

O JRS tem como missão "acompanhar, servir e defender" (sic) os direitos das pessoas refugiadas e deslocadas à força, em qualquer parte do mundo. Está presente em 70 países, incluindo o espaço lusófono (Portugal, Angola, Brasil e Timor Leste).

O que se entende por servir, acompanhar e defender ?

(i) ao servir, o JRS procura "resolver os principais problemas que atingem tais pessoas, em síntese, nas áreas do social, da saúde, do emprego, do foro jurídico, da educação";

(ii) o acompanhar quer dizer "estar presente nos momentos mais difíceis, dando primazia ao diálogo com as pessoas envolvidas, ouvindo as suas angústias e problemas, orientando-as nos passos que têm que dar para darem solução aos seus problemas, estando a seu lado, sempre que necessário";

e, por fim, (iii) defender é promover a "defesa dos direitos dos refugiados e deslocados à força (...), não só nas zonas de conflito, mas também a nível internacional, sempre que tal se torna necessário e possível".

Em Portugal, que é um país actualmente não de acolhimento de refugidados, como sobretudo de imigração, destaca-se o seu programa de apoio ao emprego, para além da assistência médica e do apoio jurídico e psicossocial. Na sua página na Net, o seu apelo nº 1 é "Empregos precisam-se!". Cerca de sessenta pessoas, nomeadamente imigrantes do leste Europeu, procuram diariamente o JSR.

Um outro programa, coordenado com sucesso pelo JRS, tem sido o da creditação e de inserção de médicos e de enfermeiros do leste Europeu no nosso sistema de saúde.

3. As pessoas que lá trabalham, a começar pela sua directora, a antropóloga Rosário Farmhouse, merecem as minhas, as nossas palmas. Elas, de facto, dão voz a quem a não tem.


Para saberes mais os problemas dos imigrantes em Portugal, consulta:

ACIME - Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas

Observatório da Imigração

Programa do XVII Governo Constitucional > Novas Políticas Sociais > Para uma política de imigração inclusiva

SOS Racismo

Portugas que merecem as nossas palmas - XVI: O Serviço Jesuíta aos Refugiados

1. "Cada vez mais, o nosso Gabinete Social é solicitado pelos Hospitais para arranjarmos solução para os imigrantes doentes, que ali se encontram internados, que não têm família em Portugal e que estão em vias de terem alta 'clínica', mas longe de terem alta 'social'. Em desespero de causa, muitos imigrantes são deixados pelos Hospitais à porta do nosso serviço, para que lhes encontremos uma resposta de vida mais digna em Portugal. Não é tarefa fácil, porque eles se encontram ainda visivelmente debilitados. Só graças ao grande esforço da nossa técnica, em conjunto com o de organizações parceiras, se vão encontrando algumas soluções para a vida destas pessoas.

"Também os outros serviços do JRS têm sido igualmente muito procurados, pelo que precisávamos de um reforço dos nossos recursos humanos. Neste novo ano lectivo, são vários os estagiários dos cursos de Política Social, de Serviço Social, de Sociologia e de Relações Internacionais que entraram para o JRS. Estes jovens terão aqui um primeiro contacto com a vida laboral e com a realidade social, através da problemática da imigração. Neste Boletim temos o testemunho de alguns deles".

Notícias do JSR - Boletim trimestral do JRS-Portugal. 7 (Julho-Setembro de 2004). Directora: Rosário Farmhouse.


2. O Serviço Jesuíta aos Refugiados (Estrada da Torre, 26 – 1750-296 Lisboa; telef. 21 754 16 20, Fax 21 754 16 25;e-mail: jrs-portugal@netcabo.pt) é uma organização internacional da Igreja Católica, sob a responsabilidade da Companhia de Jesus (vulgo, jesuítas).

O JSR (do inglês, Jesuit Refugee Service) foi fundado em 1980 pelo então Superior Geral da Companhia de Jesus, o Padre Pedro Arrupe, tocado pelo drama dos boat people, os refugiados vietnamitas, largamente noticiado na época.

O JRS tem como missão "acompanhar, servir e defender" (sic) os direitos das pessoas refugiadas e deslocadas à força, em qualquer parte do mundo. Está presente em 70 países, incluindo o espaço lusófono (Portugal, Angola, Brasil e Timor Leste).

O que se entende por servir, acompanhar e defender ?

(i) ao servir, o JRS procura "resolver os principais problemas que atingem tais pessoas, em síntese, nas áreas do social, da saúde, do emprego, do foro jurídico, da educação";

(ii) o acompanhar quer dizer "estar presente nos momentos mais difíceis, dando primazia ao diálogo com as pessoas envolvidas, ouvindo as suas angústias e problemas, orientando-as nos passos que têm que dar para darem solução aos seus problemas, estando a seu lado, sempre que necessário";

e, por fim, (iii) defender é promover a "defesa dos direitos dos refugiados e deslocados à força (...), não só nas zonas de conflito, mas também a nível internacional, sempre que tal se torna necessário e possível".

Em Portugal, que é um país actualmente não de acolhimento de refugidados, como sobretudo de imigração, destaca-se o seu programa de apoio ao emprego, para além da assistência médica e do apoio jurídico e psicossocial. Na sua página na Net, o seu apelo nº 1 é "Empregos precisam-se!". Cerca de sessenta pessoas, nomeadamente imigrantes do leste Europeu, procuram diariamente o JSR.

Um outro programa, coordenado com sucesso pelo JRS, tem sido o da creditação e de inserção de médicos e de enfermeiros do leste Europeu no nosso sistema de saúde.

3. As pessoas que lá trabalham, a começar pela sua directora, a antropóloga Rosário Farmhouse, merecem as minhas, as nossas palmas. Elas, de facto, dão voz a quem a não tem.


Para saberes mais os problemas dos imigrantes em Portugal, consulta:

ACIME - Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas

Observatório da Imigração

Programa do XVII Governo Constitucional > Novas Políticas Sociais > Para uma política de imigração inclusiva

SOS Racismo

03 abril 2005

Blogantologia(s) - XXVI: Na hora da nossa morte

Mark Twain comentou um dia que a notícia da sua morte tinha sido um exagero… A morte é sempre excessiva. E mais excessivo ainda tudo o que se disser sobre ela. Por mim, não consegui evitar mandar, a meus amigos, algumas dos meus excessos sobre este momento que nos tocou a todos, de uma maneira ou de outra…

É a minha maneira pessoalíssima de homenagear um homem de paz que, como alguém disse, estava longe de ser o meu papa preferido. Espero bem não ferir, com isto, os sentimentos cristãos (ou até mais: católicos apostólicos romanos) dos amigos (cristãos e católicos) da minha e-mailing list).




1.

Enoja-me
O espectáculo da morte em directo,
Transmitida pela televisão,
Em todos os canais,
Com direito a uma caneca de cerveja
E um balde de pipocas.
A morte de um santo homem de igreja,
De qualquer homem,
Mais justo ou menos justo,
Mais recto ou menos recto,
Cristão, mouro ou judeu,
Budista, hindu ou animista,
Agnóstico ou ateu,
Deveria merecer discrição
E compaixão.
Não este espectáculo impúdico.
Não este serviço público.

Mas estes são os tempos,
Indecorosos,
Em que vivemos,
A contragosto, a custo,
Com o espanto a escancarar as nossas bocas.
Este é o tempo da mensagem massagem,
Do circo mediático,
Da manipulação.
Tempos também vertiginosos,
Que são os da redundância da comunicação,
Do enfático,
Da função fática,
Do ruído e da sobre-exposição.

Não sou crente
No sentido etimológico do termo
(O que dá algo como certo, verdadeiro ou confiável),
Mas peço aos deuses,
Aos do sul e aos do norte
(Para ficar bem com todos!):
- Por favor, não sejam tão belicosos,
E tenham pena de nós!
Não sejam tão proactivos,
Sejam simples agentes passivos,
Na hora da nossa morte,
No silêncio da nossa morte,
No minuto derradeiro da nossa vida.
E que essa seja a hora da boa morte.
Por favor, deixem-nos morrer em paz,
Desliguem o botão da máquina
Depois de fazermos as contas
Com a terra, com a vida
E com o tudo o mais que é humano,
Porque, como diz o cante
Do meu irmão alentejano,
"Eu sou devedor à terra
E a terra me está devendo,
Ela paga-me em vida
E eu pago à terra em morrendo".
Só não sei é se vocês,
Celestes criaturas,
Distantes deuses do Olimpo,
Senhores do além,
São capazes de ser compreensivos
E ter pena de alguém,
Dos comuns mortais.

A questão é que
Já não se pode mais
Ouvir o silêncio,
Em estado puro,
Nos novos templos,
Que são os centros comerciais
Do mercado globalizado.
O mundo é hoje um gigantesco shopping,
Com um écrã gigante
Onde tudo é reduzido ao estatuto de mercadoria.

Em Epidauro
Passa hoje uma autoestrada
Da informação e do conhecimento;
Em Epidauro e noutros sítios
Do império e da sua paz tão aclamada,
Já não há lugar para Asclépio
Aparecer-nos em sonhos
E curar-nos das doenças delirantes,
Psicossomáticas e civilizacionais,
De que sofremos,
Nós, o povo dos turistas errantes.
Em Epidauro, na Grécia Antiga,
Ficaram os derradeiros heróis homéricos,
Pisados pelos cavalos dos bárbaros.

Não invocarei os deuses, em vão,
Nesta hora, neste dia, neste ano,
Em que os feios abutres
Pousam sobre o cadáver
Do velho e mediático globetrotter,
Que não morreu às mãos dos seus assassinos
Em Fátima ou no Vaticano,
Mas pela boca do teleponto,no telejornal.
Por que deles, os abutres, sopram os miasmas
Da irrisão e da loucura
Que nos levam à imitação divina,
Doença essa que julgo não ter cura.

Hoje morreste duplamente,
Karol Wojtyla, João Paulo, o segundo:
Confiscaram o teu corpo,
A tua imagem, a tua identidade,
O teu gesto, a tua voz,
Socializaram o espectáculo da tua morte,
Decretaram o luto em todo o planeta.
E quando o Papa, ou o Faraó, ou o Imperador morre,
Também todos nós,
Seus súbditos,
Morremos, um pouco.
E os nossos mortos queridos
Voltam a morrer,
Pela segunda vez,
Ajudando-nos talvez com isso
A fazer melhor o luto.


2.

Posso talvez não te olhar com ternura.
Ou até mesmo com simpatia.
Porque não tive o privilégio de te conhecer,
Nem de privar contigo,
Como o fizeram os grandes deste mundo.
Mas admiro a tua fibra de lutador
E a tua resistência à dor.
E a tua bonomia de pastor
E o teu papel de mensageiro da paz.
A verdade
É que nunca te ouvi falar com raiva.
Nem com ódio.
Nem com rancor.
Mesmo face à estupidez do mundo,
Ou à exibição das máquinas do terror.
Nunca te ouvi dizer uma palavra excessiva
Sobre os que te queriam matar.
Ou que fizerem de ti um verdadeiro Papa pop-star.
Talvez isso seja santidade,
Ou ingenuidade,
Carisma ou simples telegenia,
Não sei.

Todavia inquieto-me,
Quando os teus concidadãos,
Os teus vizinhos,
Os teus servos,
Os teus rebanhos
E os teus animais de estimação,
O teu povo e o teu Deus,
E a tua poderosa corte de cardeais,
Às vezes se calam,
Se refugiam na sombra da ambiguidade
Ou não são frontais
Ante o mal,
Ante as forças portentosas do mal,
E os dilemas pouco metafísicos
Da humanidade.

Mas quem sou eu
Para te atirar a primeira pedra ?
Quantas vezes tu e eu,
Nós, os homens e as mulheres de boa vontade,
Nós e os nossos concidadãos,
Nós e os nossos amigos,
Nós e os nossos parentes,
Não protestámos,
Não contestámos,
Não nos insurgimos,
Não gritámos,
Preferindo encolher os ombros,
Ou tapar as bocas e os olhos,
Perante o inevitável,
Perante o indizível,
Perante o indescritível,
Perante o inenarrável,
Perante o inumano,
A solidez de pedra do sistema.

O problema é que o comboio passa
E os cães ladram,
Enquanto o filósofo fabrica o seu teorema
E o poeta faz um soneto,
Sobre o custo de vida
Que está pela hora da morte;
Ou sobre o sentido da marcha do comboio
E do ladrar dos cães.
Mas não creio que
Esta seja a ordem natural
Das coisas.
Mesmo quando tu és pedra
E sobre essa pedra te edificaram
Um reino, o teu reino eclesial,
Que impressiona muitos dos comuns dos mortais
Pela sua solidez e perenidade.

3.

Estive há dois anos
Na tua histórica Cracóvia,
Na tua Kadowice natal,
Karol Wojtyla,
João Paulo, o segundo,
Papa da Igreja Católica,
Agora defunto.
Não sei nada do Santo Espírito
Nem dos dogmas
De que a tua igreja é a guardiã,
Nem dos mistérios da tua fé,
Polaca e cristã,
Sólida como uma rocha de granito,
Mas que não seriam mistérios
Se o fossem da razão.

Sei pouco da tua vida,
Karol Wojtyla,
Com o teu ar tão adoravelmente tosco
Quanto humano
De lenhador
Ou de camponês,
Órfão de mãe,
Fã de Maria, a Virgem.
Procurei, e não em vão,
Da tua terra entender
Os sinais da história,
E tive pena e ao mesmo tempo orgulho
Da tua Polónia,
Terra mártir.
Dos teus mineiros de sal e de carvão.
E da tua virgem negra de Czestochowa.
E dos teus camponeses, ex-servos da gleba.
E dos teus operários dos estaleiros navais de Gdanz,
Ex-heróis de músculo e de aço do proletariado.
E do seu trabalho de Sísifo.

Mas foi do inferno de Auschwitz-Birkenau,
Bem ao pé da tua casa da infância,
Que trouxe o cheiro do mal absoluto,
Entranhado no meu corpo,
Dos pés à cabeça,
Corpo não de santo peregrino, como o teu,
Mas de vulgar turista.
O cheiro da morte total
Que hoje ainda nos persegue, aos vivos,
E que há-de perseguir-nos
Pelos séculos dos séculos.

Sei que pediste perdão aos judeus,
Ao povo judeu,
Não por este holocausto,
Mas por outros infernos,
E nisso foste digno.
Um outro sucessor teu,
Talvez Pedro, talvez Paulo,
Irá pedir perdão, em vida,
E com a conveniente solenidade,
Aos milhões de homens e mulheres,
Da tua aldeia global,
Que tu conhecias tão bem,
Da América à África e à Ásia,
Passando pela Europa e pela Oceania;
Aos homens e às mulheres que, depois de ti,
Irão morrer
Do HIV/Sida.
Sem fé.
Sem esperança.
Sem caridade.

Afinal, Karol Wojtyla,
É na hora da nossa morte
Que descobrimos que, na terra,
Há mais inferno do que céu.

Blogantologia(s) - XXVI: Na hora da nossa morte

Mark Twain comentou um dia que a notícia da sua morte tinha sido um exagero… A morte é sempre excessiva. E mais excessivo ainda tudo o que se disser sobre ela. Por mim, não consegui evitar mandar, a meus amigos, algumas dos meus excessos sobre este momento que nos tocou a todos, de uma maneira ou de outra…

É a minha maneira pessoalíssima de homenagear um homem de paz que, como alguém disse, estava longe de ser o meu papa preferido. Espero bem não ferir, com isto, os sentimentos cristãos (ou até mais: católicos apostólicos romanos) dos amigos (cristãos e católicos) da minha e-mailing list).




1.

Enoja-me
O espectáculo da morte em directo,
Transmitida pela televisão,
Em todos os canais,
Com direito a uma caneca de cerveja
E um balde de pipocas.
A morte de um santo homem de igreja,
De qualquer homem,
Mais justo ou menos justo,
Mais recto ou menos recto,
Cristão, mouro ou judeu,
Budista, hindu ou animista,
Agnóstico ou ateu,
Deveria merecer discrição
E compaixão.
Não este espectáculo impúdico.
Não este serviço público.

Mas estes são os tempos,
Indecorosos,
Em que vivemos,
A contragosto, a custo,
Com o espanto a escancarar as nossas bocas.
Este é o tempo da mensagem massagem,
Do circo mediático,
Da manipulação.
Tempos também vertiginosos,
Que são os da redundância da comunicação,
Do enfático,
Da função fática,
Do ruído e da sobre-exposição.

Não sou crente
No sentido etimológico do termo
(O que dá algo como certo, verdadeiro ou confiável),
Mas peço aos deuses,
Aos do sul e aos do norte
(Para ficar bem com todos!):
- Por favor, não sejam tão belicosos,
E tenham pena de nós!
Não sejam tão proactivos,
Sejam simples agentes passivos,
Na hora da nossa morte,
No silêncio da nossa morte,
No minuto derradeiro da nossa vida.
E que essa seja a hora da boa morte.
Por favor, deixem-nos morrer em paz,
Desliguem o botão da máquina
Depois de fazermos as contas
Com a terra, com a vida
E com o tudo o mais que é humano,
Porque, como diz o cante
Do meu irmão alentejano,
"Eu sou devedor à terra
E a terra me está devendo,
Ela paga-me em vida
E eu pago à terra em morrendo".
Só não sei é se vocês,
Celestes criaturas,
Distantes deuses do Olimpo,
Senhores do além,
São capazes de ser compreensivos
E ter pena de alguém,
Dos comuns mortais.

A questão é que
Já não se pode mais
Ouvir o silêncio,
Em estado puro,
Nos novos templos,
Que são os centros comerciais
Do mercado globalizado.
O mundo é hoje um gigantesco shopping,
Com um écrã gigante
Onde tudo é reduzido ao estatuto de mercadoria.

Em Epidauro
Passa hoje uma autoestrada
Da informação e do conhecimento;
Em Epidauro e noutros sítios
Do império e da sua paz tão aclamada,
Já não há lugar para Asclépio
Aparecer-nos em sonhos
E curar-nos das doenças delirantes,
Psicossomáticas e civilizacionais,
De que sofremos,
Nós, o povo dos turistas errantes.
Em Epidauro, na Grécia Antiga,
Ficaram os derradeiros heróis homéricos,
Pisados pelos cavalos dos bárbaros.

Não invocarei os deuses, em vão,
Nesta hora, neste dia, neste ano,
Em que os feios abutres
Pousam sobre o cadáver
Do velho e mediático globetrotter,
Que não morreu às mãos dos seus assassinos
Em Fátima ou no Vaticano,
Mas pela boca do teleponto,no telejornal.
Por que deles, os abutres, sopram os miasmas
Da irrisão e da loucura
Que nos levam à imitação divina,
Doença essa que julgo não ter cura.

Hoje morreste duplamente,
Karol Wojtyla, João Paulo, o segundo:
Confiscaram o teu corpo,
A tua imagem, a tua identidade,
O teu gesto, a tua voz,
Socializaram o espectáculo da tua morte,
Decretaram o luto em todo o planeta.
E quando o Papa, ou o Faraó, ou o Imperador morre,
Também todos nós,
Seus súbditos,
Morremos, um pouco.
E os nossos mortos queridos
Voltam a morrer,
Pela segunda vez,
Ajudando-nos talvez com isso
A fazer melhor o luto.


2.

Posso talvez não te olhar com ternura.
Ou até mesmo com simpatia.
Porque não tive o privilégio de te conhecer,
Nem de privar contigo,
Como o fizeram os grandes deste mundo.
Mas admiro a tua fibra de lutador
E a tua resistência à dor.
E a tua bonomia de pastor
E o teu papel de mensageiro da paz.
A verdade
É que nunca te ouvi falar com raiva.
Nem com ódio.
Nem com rancor.
Mesmo face à estupidez do mundo,
Ou à exibição das máquinas do terror.
Nunca te ouvi dizer uma palavra excessiva
Sobre os que te queriam matar.
Ou que fizerem de ti um verdadeiro Papa pop-star.
Talvez isso seja santidade,
Ou ingenuidade,
Carisma ou simples telegenia,
Não sei.

Todavia inquieto-me,
Quando os teus concidadãos,
Os teus vizinhos,
Os teus servos,
Os teus rebanhos
E os teus animais de estimação,
O teu povo e o teu Deus,
E a tua poderosa corte de cardeais,
Às vezes se calam,
Se refugiam na sombra da ambiguidade
Ou não são frontais
Ante o mal,
Ante as forças portentosas do mal,
E os dilemas pouco metafísicos
Da humanidade.

Mas quem sou eu
Para te atirar a primeira pedra ?
Quantas vezes tu e eu,
Nós, os homens e as mulheres de boa vontade,
Nós e os nossos concidadãos,
Nós e os nossos amigos,
Nós e os nossos parentes,
Não protestámos,
Não contestámos,
Não nos insurgimos,
Não gritámos,
Preferindo encolher os ombros,
Ou tapar as bocas e os olhos,
Perante o inevitável,
Perante o indizível,
Perante o indescritível,
Perante o inenarrável,
Perante o inumano,
A solidez de pedra do sistema.

O problema é que o comboio passa
E os cães ladram,
Enquanto o filósofo fabrica o seu teorema
E o poeta faz um soneto,
Sobre o custo de vida
Que está pela hora da morte;
Ou sobre o sentido da marcha do comboio
E do ladrar dos cães.
Mas não creio que
Esta seja a ordem natural
Das coisas.
Mesmo quando tu és pedra
E sobre essa pedra te edificaram
Um reino, o teu reino eclesial,
Que impressiona muitos dos comuns dos mortais
Pela sua solidez e perenidade.

3.

Estive há dois anos
Na tua histórica Cracóvia,
Na tua Kadowice natal,
Karol Wojtyla,
João Paulo, o segundo,
Papa da Igreja Católica,
Agora defunto.
Não sei nada do Santo Espírito
Nem dos dogmas
De que a tua igreja é a guardiã,
Nem dos mistérios da tua fé,
Polaca e cristã,
Sólida como uma rocha de granito,
Mas que não seriam mistérios
Se o fossem da razão.

Sei pouco da tua vida,
Karol Wojtyla,
Com o teu ar tão adoravelmente tosco
Quanto humano
De lenhador
Ou de camponês,
Órfão de mãe,
Fã de Maria, a Virgem.
Procurei, e não em vão,
Da tua terra entender
Os sinais da história,
E tive pena e ao mesmo tempo orgulho
Da tua Polónia,
Terra mártir.
Dos teus mineiros de sal e de carvão.
E da tua virgem negra de Czestochowa.
E dos teus camponeses, ex-servos da gleba.
E dos teus operários dos estaleiros navais de Gdanz,
Ex-heróis de músculo e de aço do proletariado.
E do seu trabalho de Sísifo.

Mas foi do inferno de Auschwitz-Birkenau,
Bem ao pé da tua casa da infância,
Que trouxe o cheiro do mal absoluto,
Entranhado no meu corpo,
Dos pés à cabeça,
Corpo não de santo peregrino, como o teu,
Mas de vulgar turista.
O cheiro da morte total
Que hoje ainda nos persegue, aos vivos,
E que há-de perseguir-nos
Pelos séculos dos séculos.

Sei que pediste perdão aos judeus,
Ao povo judeu,
Não por este holocausto,
Mas por outros infernos,
E nisso foste digno.
Um outro sucessor teu,
Talvez Pedro, talvez Paulo,
Irá pedir perdão, em vida,
E com a conveniente solenidade,
Aos milhões de homens e mulheres,
Da tua aldeia global,
Que tu conhecias tão bem,
Da América à África e à Ásia,
Passando pela Europa e pela Oceania;
Aos homens e às mulheres que, depois de ti,
Irão morrer
Do HIV/Sida.
Sem fé.
Sem esperança.
Sem caridade.

Afinal, Karol Wojtyla,
É na hora da nossa morte
Que descobrimos que, na terra,
Há mais inferno do que céu.

28 março 2005

O tripaliu(m) que mata a gente - VII: A morte volta, de novo, ao estaleiro

1. "Queda de grua em Almornos mata três trabalhadores", leio no Publico 'on line', de hoje. A morte de trabalhadores da construção volta a ser notícia de jornal. É estranho. Pensava que tinha deixado de ser notícia. Ou que tinham deixado de morrer trabalhadores no local de trabalho e por causa do trabalho. Enganei-me. Afinal, continuam a morrer trabalhadores em Portugal no ano da graça de 2005... Com uma particularidade: começa a banalizar-se a morte de trabalhadores estrangeiros, imigrantes, ucranianos, brasileiros, africanos...

Esporadicamente, um jornal ou outro dá o fait-divers, dependendo do número de vítimas e das cicunstâncias, mais ou menos espectaculares, do acidente. A Inspecção Geral do Trabalho deixou, entretanto, de fornecer estatísticas on line: alguém deve ter entendido que era muito terceiro-mundista publicitar os acidentes de trabalho. Era capaz de dar mau aspecto. Ora não convém chocar o estrangeiro, em geral, incluindo turista, o investidor directo e os eurocratas de Bruxelas que regulamentam, tutelam, supervisionam e fiscalizam a cada vez mais difícil e pobre vida dos portugueses.

2. Eis um extracto da notícia, para registo (do) presente e memória (do) futura(o):

"Três trabalhadores morreram hoje na queda de uma grua num estaleiro de materiais de construção em Almornos, Belas, no concelho de Sintra.

"Segundo a GNR de Pêro Pinheiro, um dos lados da grua que sustentava os contrapesos partiu-se, provocando a queda dos três trabalhadores (dois portugueses e um ucraniano).

"O acidente ocorreu às 12h08 no estaleiro da empresa Soenvil (...). Quando as equipas médicas chegaram ao local, os três operários já estavam sem vida, adiantou a mesma fonte.

"Em 2004, a Inspecção-Geral do Trabalho (IGT) levou a cabo uma série de inspecções no âmbito da Campanha Europeia de Segurança na Construção. A IGT detectou mais de 500 empresas que não cumpriam ou cumpriam de forma muito deficiente as regras respeitantes à avaliação dos riscos das quedas em altura. As normas de prevenção nesta área são respeitadas em menos de metade (40 por cento) dos casos.

3. A notícia que é da Lusa, acrescenta ainda, sem citar a fonte, que "em 2001, registaram-se 280 mortes em acidentes de trabalho, das quais 156 na construção. Em 2002, o total de acidentes mortais foi de 219 (103 na construção) e em 2003 há registo de 181 mortes (88 na construção)".

O tripaliu(m) que mata a gente - VII: A morte volta, de novo, ao estaleiro

1. "Queda de grua em Almornos mata três trabalhadores", leio no Publico 'on line', de hoje. A morte de trabalhadores da construção volta a ser notícia de jornal. É estranho. Pensava que tinha deixado de ser notícia. Ou que tinham deixado de morrer trabalhadores no local de trabalho e por causa do trabalho. Enganei-me. Afinal, continuam a morrer trabalhadores em Portugal no ano da graça de 2005... Com uma particularidade: começa a banalizar-se a morte de trabalhadores estrangeiros, imigrantes, ucranianos, brasileiros, africanos...

Esporadicamente, um jornal ou outro dá o fait-divers, dependendo do número de vítimas e das cicunstâncias, mais ou menos espectaculares, do acidente. A Inspecção Geral do Trabalho deixou, entretanto, de fornecer estatísticas on line: alguém deve ter entendido que era muito terceiro-mundista publicitar os acidentes de trabalho. Era capaz de dar mau aspecto. Ora não convém chocar o estrangeiro, em geral, incluindo turista, o investidor directo e os eurocratas de Bruxelas que regulamentam, tutelam, supervisionam e fiscalizam a cada vez mais difícil e pobre vida dos portugueses.

2. Eis um extracto da notícia, para registo (do) presente e memória (do) futura(o):

"Três trabalhadores morreram hoje na queda de uma grua num estaleiro de materiais de construção em Almornos, Belas, no concelho de Sintra.

"Segundo a GNR de Pêro Pinheiro, um dos lados da grua que sustentava os contrapesos partiu-se, provocando a queda dos três trabalhadores (dois portugueses e um ucraniano).

"O acidente ocorreu às 12h08 no estaleiro da empresa Soenvil (...). Quando as equipas médicas chegaram ao local, os três operários já estavam sem vida, adiantou a mesma fonte.

"Em 2004, a Inspecção-Geral do Trabalho (IGT) levou a cabo uma série de inspecções no âmbito da Campanha Europeia de Segurança na Construção. A IGT detectou mais de 500 empresas que não cumpriam ou cumpriam de forma muito deficiente as regras respeitantes à avaliação dos riscos das quedas em altura. As normas de prevenção nesta área são respeitadas em menos de metade (40 por cento) dos casos.

3. A notícia que é da Lusa, acrescenta ainda, sem citar a fonte, que "em 2001, registaram-se 280 mortes em acidentes de trabalho, das quais 156 na construção. Em 2002, o total de acidentes mortais foi de 219 (103 na construção) e em 2003 há registo de 181 mortes (88 na construção)".

21 março 2005

Blogantologia(s) - XXV: Sobre o dia mundial da poesia e da água

Celebrou-se hoje,
Dia 21 de Março,
O Dia Mundial da Poesia.
Eu não o celebrei,
Como devia.
Nem eu
Nem sequer o senhor ministro de Estado
De-qualquer-coisa
Que escolheu o dia
Para falar do choque tecnológico
E do risco biológico
Que resulta
Do simples facto de eu existir.
E de tu existires.
Por sermos um corpo de intervenção
Ser pura água potável
Mais de 70% do nosso escudo de protecção.

Eu, pela minha parte,
Estava demasiado distraído
Ou cansado.
Por pura usura.
Pura usura do trabalho.
Usura física.
De facto, não celebrei o dia como devia
Por fadiga, fadiga física.
Mas também por falta de co-celebrantes
E ainda, confesso, pela minha falta
De sentido eclesial.

Não, não é nada pessoal,
Simplesmente acontece
Que tenho um ponto de vista mais dramático
Sobre a relação dos poetas com o bem e com o mal.
Em Angola, na província do Uíge,
O vírus de Marburgo mata,
E isso não é metafísica,
Todavia não tira o sono a ninguém
Nem é notícia de jornal.
Ou se o é, é fait-divers
À falta de título de caixa alta.
Os fluídos do corpo matam,
O sangue, o suor, as lágrimas,
A saliva, a merda, o vomitado, o sémen.
Já o ministro da arte, exportável,
É mais pragmático,
Ao proclamar que a poesia quando nasce
É para todos.
Ámen.

Agora que eu faço
O meu exame de consciência,
À hora mortal do deitar,
Como qualquer menino bem comportado,
Falando com o seu anjo da guarda,
Vejo que o Dia Mundial da Poesia
Passou por mim, ao meu lado,
Na rua, a caminho do metro
Da Falagueira,
Um bairro do meu burgo,
Onde os polícias se deixam matar
Por balas de aço
De calibre de 9 milímetros,
Tão mortíferas
Como as febres hemorrágicas
Do Ébola e do Marburgo.
Pobre corpo de intervenção
Que não é imune aos vírus nem às balas
Nem aos quatro humores.

Não me adianta saber,
Como os doutores
Que são pagos para pensar e para saber,
Que os maiores poetas do mundo
Andam distraídos
Com a parte nebulosa do centro do planeta,
Donde brota a água, o fogo, a terra e o ar.
E quiçá o Ébola e o Marburgo.
E que os seus densímetros
Não captam a essência da coisa.
Ou das coisas e dos seus pormenores.

É a própria existência da falta de água
Que alimenta a vida
E rega o horto, seco, dos poetas menores,
Que constitui o âmago do problema,
Não o seu alfa e o seu omega.

É por isso que a poesia, sem âmago,
Não se vende
Nem chega às esquadras da polícia
Nem às escolas
Nem às igrejas
Nem aos locais de trabalho
Nem aos campos de refugiados
Nem aos bares de alterne
Nem às tristes putas da minha avenida triste
Nem aos oásis aprazíveis da civilização
Nem à Casa Branca
Nem às crianças do meu país
Nem aos agentes patogénicos de Pasteur
Nem à clínica de Roma onde o Papa sofre
Por todos nós, pecadores, poetas ou não.

A poesia, mesmo sem âmago nem alma,
Simplesmente não chega
Tal como a água do Alqueva.
A poesia e a água não chegam
A nenhures.
Nestes tempos de incerteza e oportunidade
(De crise, dizem eles!),
A poesia e a água
Não chegam, juntas,
Através dos canais de irrigação,
Das condutas do gás
Ou dos cabos de fibra óptica.
Não chegam nem do ar nem do mar.
Nem por meio do spam do terror.

Há a poesia da punição, da oração, da expiação:
Entra-nos pelos vasos sanguínios
Da fábrica do corpo humano
Desde os tempos da Santa Inquisição.
Há a poesia mais terrorista,
E aquela que é mais hedonista.
A existencialista e a essencialista.

Para mim,
A poesia quer-se livre, de liberdade:
A solução é desalfandegá-la,
Desembrulhá-la, pô-la viva,
Comprá-la, comê-la, digeri-la,
E proclamá-la artigo de primeira necessidade,
Isenta de IVA
E de qualquer outra alcavala.

A verdade é que
A poesia não se vende nem se come
Nos bairros ditos problemáticos
Onde homicidas e suicidários
Se acoitam na anomia do Durkheim.

Confesso que
Não dei por ser Dia Mundial da Poesia.
Não dei por nada.
Não houve rancho melhorado.
Nem alvoroço do povo.
Nem uivei à lua como um cão com cio.
Ou com raiva.
Que a raiva de cão também pode matar.
Tal como o cio.
E a anomia. E o HIV/Sida.
E as febres hemorrágicas.
E as dores menstruais do PIB
Do nosso descontentamento.

Ia caminho da Falagueira
Fazendo contas à vida
E ao passe social
Do metro de Lisboa,
Da CP e da Carris.
E ao que me resta, do mês,
Do deve-e-haver de um marginal.
Não sou de pôr os pontos nos is,
Não sei poesia,
Nem fazê-la nem dizê-la,
Não sei conjugar o verbo existir
Quanto mais soletrar o verbo sobreviver.

Em tempos sabia de cor
Alguns duros versos do Aleixo,
Poeta menor, popular,
E analfabeto.
Hoje estou de vigília
À fábrica da Bombardier.
Desempregado.
Ex-soldado
Da guerra do ultramar.
Ex-soldador,
Miseravelmente despedido
Por um robô.
Ou trocado.
Posto a um canto.
O meu perfil ?
Uma merda, com a sua licença,
De ex-operário,
Alentejano de nascença.
Por sinal, pouco esperto.
Estado civil ?
Casado.
Um trabalhador descartável.
Sem lugar
Na Eurolândia da excelência.
Resta-me o punho, erguido,
À espera da luta,
À espera que a luta continue,
Mesmo devagar,
Sem esmorecer.

Se hoje foi Dia Mundial da Poesia,
Devo dizer que o dia foi mal escolhido.
Digo-o com mágoa.
Mas em jeito de adenda,
Acrescento que me resta o de amanhã,
O qual, para não me esquecer,
Apontei na agenda:
Será o Dia Mundial da Água.

Blogantologia(s) - XXV: Sobre o dia mundial da poesia e da água

Celebrou-se hoje,
Dia 21 de Março,
O Dia Mundial da Poesia.
Eu não o celebrei,
Como devia.
Nem eu
Nem sequer o senhor ministro de Estado
De-qualquer-coisa
Que escolheu o dia
Para falar do choque tecnológico
E do risco biológico
Que resulta
Do simples facto de eu existir.
E de tu existires.
Por sermos um corpo de intervenção
Ser pura água potável
Mais de 70% do nosso escudo de protecção.

Eu, pela minha parte,
Estava demasiado distraído
Ou cansado.
Por pura usura.
Pura usura do trabalho.
Usura física.
De facto, não celebrei o dia como devia
Por fadiga, fadiga física.
Mas também por falta de co-celebrantes
E ainda, confesso, pela minha falta
De sentido eclesial.

Não, não é nada pessoal,
Simplesmente acontece
Que tenho um ponto de vista mais dramático
Sobre a relação dos poetas com o bem e com o mal.
Em Angola, na província do Uíge,
O vírus de Marburgo mata,
E isso não é metafísica,
Todavia não tira o sono a ninguém
Nem é notícia de jornal.
Ou se o é, é fait-divers
À falta de título de caixa alta.
Os fluídos do corpo matam,
O sangue, o suor, as lágrimas,
A saliva, a merda, o vomitado, o sémen.
Já o ministro da arte, exportável,
É mais pragmático,
Ao proclamar que a poesia quando nasce
É para todos.
Ámen.

Agora que eu faço
O meu exame de consciência,
À hora mortal do deitar,
Como qualquer menino bem comportado,
Falando com o seu anjo da guarda,
Vejo que o Dia Mundial da Poesia
Passou por mim, ao meu lado,
Na rua, a caminho do metro
Da Falagueira,
Um bairro do meu burgo,
Onde os polícias se deixam matar
Por balas de aço
De calibre de 9 milímetros,
Tão mortíferas
Como as febres hemorrágicas
Do Ébola e do Marburgo.
Pobre corpo de intervenção
Que não é imune aos vírus nem às balas
Nem aos quatro humores.

Não me adianta saber,
Como os doutores
Que são pagos para pensar e para saber,
Que os maiores poetas do mundo
Andam distraídos
Com a parte nebulosa do centro do planeta,
Donde brota a água, o fogo, a terra e o ar.
E quiçá o Ébola e o Marburgo.
E que os seus densímetros
Não captam a essência da coisa.
Ou das coisas e dos seus pormenores.

É a própria existência da falta de água
Que alimenta a vida
E rega o horto, seco, dos poetas menores,
Que constitui o âmago do problema,
Não o seu alfa e o seu omega.

É por isso que a poesia, sem âmago,
Não se vende
Nem chega às esquadras da polícia
Nem às escolas
Nem às igrejas
Nem aos locais de trabalho
Nem aos campos de refugiados
Nem aos bares de alterne
Nem às tristes putas da minha avenida triste
Nem aos oásis aprazíveis da civilização
Nem à Casa Branca
Nem às crianças do meu país
Nem aos agentes patogénicos de Pasteur
Nem à clínica de Roma onde o Papa sofre
Por todos nós, pecadores, poetas ou não.

A poesia, mesmo sem âmago nem alma,
Simplesmente não chega
Tal como a água do Alqueva.
A poesia e a água não chegam
A nenhures.
Nestes tempos de incerteza e oportunidade
(De crise, dizem eles!),
A poesia e a água
Não chegam, juntas,
Através dos canais de irrigação,
Das condutas do gás
Ou dos cabos de fibra óptica.
Não chegam nem do ar nem do mar.
Nem por meio do spam do terror.

Há a poesia da punição, da oração, da expiação:
Entra-nos pelos vasos sanguínios
Da fábrica do corpo humano
Desde os tempos da Santa Inquisição.
Há a poesia mais terrorista,
E aquela que é mais hedonista.
A existencialista e a essencialista.

Para mim,
A poesia quer-se livre, de liberdade:
A solução é desalfandegá-la,
Desembrulhá-la, pô-la viva,
Comprá-la, comê-la, digeri-la,
E proclamá-la artigo de primeira necessidade,
Isenta de IVA
E de qualquer outra alcavala.

A verdade é que
A poesia não se vende nem se come
Nos bairros ditos problemáticos
Onde homicidas e suicidários
Se acoitam na anomia do Durkheim.

Confesso que
Não dei por ser Dia Mundial da Poesia.
Não dei por nada.
Não houve rancho melhorado.
Nem alvoroço do povo.
Nem uivei à lua como um cão com cio.
Ou com raiva.
Que a raiva de cão também pode matar.
Tal como o cio.
E a anomia. E o HIV/Sida.
E as febres hemorrágicas.
E as dores menstruais do PIB
Do nosso descontentamento.

Ia caminho da Falagueira
Fazendo contas à vida
E ao passe social
Do metro de Lisboa,
Da CP e da Carris.
E ao que me resta, do mês,
Do deve-e-haver de um marginal.
Não sou de pôr os pontos nos is,
Não sei poesia,
Nem fazê-la nem dizê-la,
Não sei conjugar o verbo existir
Quanto mais soletrar o verbo sobreviver.

Em tempos sabia de cor
Alguns duros versos do Aleixo,
Poeta menor, popular,
E analfabeto.
Hoje estou de vigília
À fábrica da Bombardier.
Desempregado.
Ex-soldado
Da guerra do ultramar.
Ex-soldador,
Miseravelmente despedido
Por um robô.
Ou trocado.
Posto a um canto.
O meu perfil ?
Uma merda, com a sua licença,
De ex-operário,
Alentejano de nascença.
Por sinal, pouco esperto.
Estado civil ?
Casado.
Um trabalhador descartável.
Sem lugar
Na Eurolândia da excelência.
Resta-me o punho, erguido,
À espera da luta,
À espera que a luta continue,
Mesmo devagar,
Sem esmorecer.

Se hoje foi Dia Mundial da Poesia,
Devo dizer que o dia foi mal escolhido.
Digo-o com mágoa.
Mas em jeito de adenda,
Acrescento que me resta o de amanhã,
O qual, para não me esquecer,
Apontei na agenda:
Será o Dia Mundial da Água.

17 março 2005

Blogantologia(s) - XXIV: Bons augúrios para a governança da coisa pública

1. Era costume, no tempo dos romanos, desejar-se bons augúrios aos novos governantes. Augúrio (do latim, auguriu) significava a arte de advinhação e interpretação do futuro mediante o canto e o voo dos pássaros. Em termos mais genéricos, significa, hoje, nas línguas latinas, sinal, indício ou presságio de coisa futura. Não sou augure nem conheço, pessoalmente, nenhum. Nem menos o Velho do Restelo. E ainda bem por que, como lá diz o provérbio, se um augure visse outro augure, não deixaria de rir.

Nem por isso deixo de desejar os bons augúrios ao novo governo, em geral, e ao novo ministro da saúde, em particular. Não rezo por eles por que não sou religioso. Mas gostaria que fizessem boas obras e boas acções. Que deixassem obra feita. Por mor de todos nós, como se diz em terras de Entre Douro e Minho. Por mor de nós e dos hão-de vir atrás de nós.

Por mor do meu país e da coisa pública.

Por mor da boa governação da coisa pública.
Por mor da saúde de todos nós.
Por mor do nosso futuro.
Por mor da nossa memória futura.
Por mor dos vindouros e dos perdedores.
Por mor dos historiadores que escreverão a história
Em nome dos vencedores.
Por mor dos que vierem depois de eu fechar a porta.
Por mor dos guardiões da Torre do Tombo.
Por mor de quem de direito.
Por mor dos pagantes.
E dos não-pagantes.
Por mor dos actores e dos espectadores.
Por mor dos marginais-secantes.
Por mor do mercado e da bolsa de Lisboa
E da casa forte do Banco de Portugal.
Por mor do meu querido Portugal S.A.
Que não quer dizer Portugal Sociedade Anal.
Por mor dos loucos e dos menos loucos.
Por mor dos poetas que têm um pouco de gestores.
E dos gestores que têm um pouco de médicos.
Mas também dos médicos que têm um pouco de loucos.
Por mor dos economistas que gostariam de governar o mundo.
Este mundo e não o outro.
Sem esquecer os políticos que gostariam de mandar
Nos economistas, nos gestores, nos médicos e nos doentes.
Por mor daqueles dos políticos que falam em nome do povo.
E daqueles que gostariam de mandar no povo.
Por mor do povo de esquerda, de centro e de direita.
(Abaixo a unicidade nacional!).
Por mor dos da lista de espera que desesperam de esperar.
Por mor dos que vão morrer esta noite
Nos Hospitais S.A. e nos Hospitais S.P.A.
Por mor dos que foram hoje ao serviço de atendimento permanente
Do meu centro de saúde
E que deram com a porta na cara.
Por mor dos cirurgiões que afiam a faca
À espera dos da lista de espera.
Por mor dos doentes agudos.
E dos doentes crónicos.
E dos hipocondríacos.
E dos doentes da saúde.
Por mor da saúde doente e das doenças saudáveis.
Por mor da saúde emprezarializada.
Por mor das vítimas da guerra, dos terramotos, dos tsunamis,
Da fome, da peste e do bispo da nossa terra, de que Deus nos livre!
Por mor dos simples, dos utentes, dos pacientes, dos clientes,
Dos beneficiários, dos misericordiosos e das crianças.
Por mor das catorze obras de misericórida, sete espirituais e sete corporais.
Por mor dos meus (con)cidadãos, os remediados e os ricos.
Por mor dos pobres, dos tristes, dos descrentes, dos desempregados,
Dos velhos, dos sós, dos esquecidos e dos desconsolados
Da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, do meu país.
Sem esquecer os apátridas e os que perderam a identidade.
Por mor daqueles de quem um dia se disse que eram os bem-aventurados
porque deles seriam o reino dos céus, amen.
Por mor do meu fornecedor da revista cais
no semáforo da esquina da rua da alegria com a avenida da liberdade.
Por mor da minha médica de família que conta os dias
que lhe faltam para a reforma.
Por mor do médico do gabinete ao lado
que se enganou no curso que queria tirar
e que está a atender os gajos da propaganda médica.
Por mor do boticário do meu bairro.
Por mor do meu barbeiro-sangrador.
Por mor de mim e de ti, meu amor.
Por mor do meu psicanalista, do meu psicoterapeuta,
do meu confessor e do meu curandeiro.
Por mor do meu médico do trabalho
E do meu técnico de higiene e segurança do trabalho.
Por mor do ergonomista que está a desenhar
o meu sistema técnico e organizacional de trabalho.
Por mor dos habitantes da minha casa inteligente do futuro.
Por da minha cartomante preferida.
Por mor dos mais distraídos.
Dos votantes.
Das debutantes.
Dos amantes.
Por mor do meu patrão
Para que Deus lhe conserve a saúde e a riqueza.
E lhe aumente o empreendedorismo e a capacidade de inovação.
Por mor dos meus dinossauros de estimação.
Por mor dos médicos da noite.
Dos médicos na noite.
Da minha querida Médis.
Por mor dos mercadores de sonho
Que trazem com eles a peste onírica e bubónica.
Por mor do meu rico seguro contra todos os riscos.
Por mor do Estado, que se quer menos Estado e melhor Estado.
Por mor dos contínuos, porteiros e seguranças do Estado.
Mais os cobradores de impostos.
E os pagadores de promessas.
E os guarda-costas das figuras de Estado.
Por mor do Estado de todos nós, sem pompa nem circunstância.
Por mor da nossa jovem democracia.
Por mor dos gestores e administradores dos serviços de saúde.
Por mor dos que passam as noites e os dias a pensar
Na reforma do serviço nacional de saúde.
Por mor dos reformadores de sistemas.
De todos os reformadores.
E das vítimas das reformas.
Dos reformados e aposentados.
Por mor da nossa frágil saúde.
E dos vírus que hão-de vir.
E do mal gálico.
E do mal italiano.
E do mal espanhol.
E do mal americano.
E do mal chinês.
E do mal português.
E do Ribeiro Sanches
Que curava os males de amor
Na Rússia Imperial.
O amor em carne viva.
Por mor das doenças emergentes e re-emergentes
Que nos querem matar.
Por mor das galinhas
Eda gripe dos comedores de galinhas.
Por mor dos codificadores de grupos de dignósticos homogéneos de doença.
Por mor dos marcadores biológicos do Homo Sapiens Sapiens.
E sobretudo dos grandes arquitectos do genoma humano.
Por mor do meu antepassado troglodita
Que era recolector-caçador
E que quando almoçava nunca sabia onde e o quê iria jantar.
Por mor do meu Professor de economia
Que me lembra que não há almoços grátis.
Nem entradas grátis
No céu, no purgatório ou no inferno.
Por mor dos actuais e futuros ministros da saúde.
Por mor dos ministros do futuro.
Por mor da utopia do futuro sem ministros.
E até dos ministros sem futuro.
Por mor dos servidores do povo,
Para que nunca esqueçam que ministro vem do latim minus, pequeno.
Para que os deuses iluminem os nossos governantes
E os pescadores que andam perdidos no mar alto.
E os pecadores dos sete pecados mortais.
Por mor dos nossos governantes e dos seus governados.
Para que o canto e o voo dos pássaros lhes sejam favoráveis.
Por mor do Zé Portuga.
Do Zé Manel.
Do Zé, simplesmente.
E para que, eu, Blogador, me confesse
E nunca perca de vista
O essencial.
Por mor da minha terra, Portugal.

Blogantologia(s) - XXIV: Bons augúrios para a governança da coisa pública

1. Era costume, no tempo dos romanos, desejar-se bons augúrios aos novos governantes. Augúrio (do latim, auguriu) significava a arte de advinhação e interpretação do futuro mediante o canto e o voo dos pássaros. Em termos mais genéricos, significa, hoje, nas línguas latinas, sinal, indício ou presságio de coisa futura. Não sou augure nem conheço, pessoalmente, nenhum. Nem menos o Velho do Restelo. E ainda bem por que, como lá diz o provérbio, se um augure visse outro augure, não deixaria de rir.

Nem por isso deixo de desejar os bons augúrios ao novo governo, em geral, e ao novo ministro da saúde, em particular. Não rezo por eles por que não sou religioso. Mas gostaria que fizessem boas obras e boas acções. Que deixassem obra feita. Por mor de todos nós, como se diz em terras de Entre Douro e Minho. Por mor de nós e dos hão-de vir atrás de nós.

Por mor do meu país e da coisa pública.

Por mor da boa governação da coisa pública.
Por mor da saúde de todos nós.
Por mor do nosso futuro.
Por mor da nossa memória futura.
Por mor dos vindouros e dos perdedores.
Por mor dos historiadores que escreverão a história
Em nome dos vencedores.
Por mor dos que vierem depois de eu fechar a porta.
Por mor dos guardiões da Torre do Tombo.
Por mor de quem de direito.
Por mor dos pagantes.
E dos não-pagantes.
Por mor dos actores e dos espectadores.
Por mor dos marginais-secantes.
Por mor do mercado e da bolsa de Lisboa
E da casa forte do Banco de Portugal.
Por mor do meu querido Portugal S.A.
Que não quer dizer Portugal Sociedade Anal.
Por mor dos loucos e dos menos loucos.
Por mor dos poetas que têm um pouco de gestores.
E dos gestores que têm um pouco de médicos.
Mas também dos médicos que têm um pouco de loucos.
Por mor dos economistas que gostariam de governar o mundo.
Este mundo e não o outro.
Sem esquecer os políticos que gostariam de mandar
Nos economistas, nos gestores, nos médicos e nos doentes.
Por mor daqueles dos políticos que falam em nome do povo.
E daqueles que gostariam de mandar no povo.
Por mor do povo de esquerda, de centro e de direita.
(Abaixo a unicidade nacional!).
Por mor dos da lista de espera que desesperam de esperar.
Por mor dos que vão morrer esta noite
Nos Hospitais S.A. e nos Hospitais S.P.A.
Por mor dos que foram hoje ao serviço de atendimento permanente
Do meu centro de saúde
E que deram com a porta na cara.
Por mor dos cirurgiões que afiam a faca
À espera dos da lista de espera.
Por mor dos doentes agudos.
E dos doentes crónicos.
E dos hipocondríacos.
E dos doentes da saúde.
Por mor da saúde doente e das doenças saudáveis.
Por mor da saúde emprezarializada.
Por mor das vítimas da guerra, dos terramotos, dos tsunamis,
Da fome, da peste e do bispo da nossa terra, de que Deus nos livre!
Por mor dos simples, dos utentes, dos pacientes, dos clientes,
Dos beneficiários, dos misericordiosos e das crianças.
Por mor das catorze obras de misericórida, sete espirituais e sete corporais.
Por mor dos meus (con)cidadãos, os remediados e os ricos.
Por mor dos pobres, dos tristes, dos descrentes, dos desempregados,
Dos velhos, dos sós, dos esquecidos e dos desconsolados
Da minha rua, do meu bairro, da minha cidade, do meu país.
Sem esquecer os apátridas e os que perderam a identidade.
Por mor daqueles de quem um dia se disse que eram os bem-aventurados
porque deles seriam o reino dos céus, amen.
Por mor do meu fornecedor da revista cais
no semáforo da esquina da rua da alegria com a avenida da liberdade.
Por mor da minha médica de família que conta os dias
que lhe faltam para a reforma.
Por mor do médico do gabinete ao lado
que se enganou no curso que queria tirar
e que está a atender os gajos da propaganda médica.
Por mor do boticário do meu bairro.
Por mor do meu barbeiro-sangrador.
Por mor de mim e de ti, meu amor.
Por mor do meu psicanalista, do meu psicoterapeuta,
do meu confessor e do meu curandeiro.
Por mor do meu médico do trabalho
E do meu técnico de higiene e segurança do trabalho.
Por mor do ergonomista que está a desenhar
o meu sistema técnico e organizacional de trabalho.
Por mor dos habitantes da minha casa inteligente do futuro.
Por da minha cartomante preferida.
Por mor dos mais distraídos.
Dos votantes.
Das debutantes.
Dos amantes.
Por mor do meu patrão
Para que Deus lhe conserve a saúde e a riqueza.
E lhe aumente o empreendedorismo e a capacidade de inovação.
Por mor dos meus dinossauros de estimação.
Por mor dos médicos da noite.
Dos médicos na noite.
Da minha querida Médis.
Por mor dos mercadores de sonho
Que trazem com eles a peste onírica e bubónica.
Por mor do meu rico seguro contra todos os riscos.
Por mor do Estado, que se quer menos Estado e melhor Estado.
Por mor dos contínuos, porteiros e seguranças do Estado.
Mais os cobradores de impostos.
E os pagadores de promessas.
E os guarda-costas das figuras de Estado.
Por mor do Estado de todos nós, sem pompa nem circunstância.
Por mor da nossa jovem democracia.
Por mor dos gestores e administradores dos serviços de saúde.
Por mor dos que passam as noites e os dias a pensar
Na reforma do serviço nacional de saúde.
Por mor dos reformadores de sistemas.
De todos os reformadores.
E das vítimas das reformas.
Dos reformados e aposentados.
Por mor da nossa frágil saúde.
E dos vírus que hão-de vir.
E do mal gálico.
E do mal italiano.
E do mal espanhol.
E do mal americano.
E do mal chinês.
E do mal português.
E do Ribeiro Sanches
Que curava os males de amor
Na Rússia Imperial.
O amor em carne viva.
Por mor das doenças emergentes e re-emergentes
Que nos querem matar.
Por mor das galinhas
Eda gripe dos comedores de galinhas.
Por mor dos codificadores de grupos de dignósticos homogéneos de doença.
Por mor dos marcadores biológicos do Homo Sapiens Sapiens.
E sobretudo dos grandes arquitectos do genoma humano.
Por mor do meu antepassado troglodita
Que era recolector-caçador
E que quando almoçava nunca sabia onde e o quê iria jantar.
Por mor do meu Professor de economia
Que me lembra que não há almoços grátis.
Nem entradas grátis
No céu, no purgatório ou no inferno.
Por mor dos actuais e futuros ministros da saúde.
Por mor dos ministros do futuro.
Por mor da utopia do futuro sem ministros.
E até dos ministros sem futuro.
Por mor dos servidores do povo,
Para que nunca esqueçam que ministro vem do latim minus, pequeno.
Para que os deuses iluminem os nossos governantes
E os pescadores que andam perdidos no mar alto.
E os pecadores dos sete pecados mortais.
Por mor dos nossos governantes e dos seus governados.
Para que o canto e o voo dos pássaros lhes sejam favoráveis.
Por mor do Zé Portuga.
Do Zé Manel.
Do Zé, simplesmente.
E para que, eu, Blogador, me confesse
E nunca perca de vista
O essencial.
Por mor da minha terra, Portugal.

15 março 2005

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - VI: Até daqui a quatro anos, António!

1.Correia de Campos despediu-se dos seus leitores do Público no dia em que tomou posse do XVII Governo Constitucional, como ministro da saúde. À sua última crónica (quinzenal) deu-lhe um título sucinto mas programático: "Quatro anos" (Público, 11 de Março de 2005).

Começa por dizer-nos que quatro anos é muito tempo e pouco tempo, dependendo do balanço final que vier a ser feito da sua acção à frente da tutela da saúde. Será muito tempo ou tempo perdido, diz Correia de Campos, se daqui a quatro anos continuarmos a ter (itálicos meus):

(i) "as mulheres condenadas pela procriação não desejada ou desiludidas pela não assistida";

(ii) "os doentes de cancro tardiamente diagnosticados e mediocremente tratados";

(iii) "os doentes mortalmente infectados nos hospitais que os deveriam recuperar";

(iv) "os imigrantes que não entendem os labirintos da burocracia sanitária";

(v) "os doentes terminais";

(vi) "os portadores de deficiência mal assistida";

(vii) os sem-abrigo ("os que dormem nas arcadas ou nos vãos de escada");

(viii) "os velhos sós que mendigam conversa e se plantam, de madrugada, à porta do centro de saúde";

e, por fim, (ix) os velhos doentes e os doentes crónicos ("cada vez mais velhos e cada vez mais doentes, a cargo de famílias desesperadas, sem meios nem apoios, empurrados do hospital para um domicílio inexistente, um divã numa marquise suburbana").

2. Estes quatro anos que os cidadãos eleitores portugueses deram ao Partido Socialista e ao seu líder José Sócrates e à sua equipa governativa, não foram um cheque em branco mas serão tempo perdido, segundo o novo ministro da saúde, se:

(i) "o conhecimento, a inovação e a adequada tecnologia para a saúde continuarem a ser mal copiados, descuidados sem ambição ou meramente comprados ao estrangeiro";

(ii) "os interesses profissionais dos assistentes sobrelevarem o interesse dos assistidos";

(iii) "a estratégia do crescimento em mais um mercado vencer a estratégia da equidade;

(iv) "a desejável lógica de mercado em tudo o que o mercado faça melhor que o Estado deixar perverter a concorrência pela dominação";

(v) "não se contiver a hemorragia da despesa desnecessária";

(vi) "não se conseguirem introduzir novos parceiros locais na relação de proximidade entre serviços de saúde e cidadãos-utentes";

e, last but not the least, (vii) "não se conseguir (...) passar a mensagem do nº 1 do artigo 64º da Constituição de que todos têm direito à protecção da saúde, [mas todos têm] o dever de a defender e promover".

3. É um desafio, não direi temerário, mas antes lúcido, assertivo e corajoso, este que compromete mais o homem e o cidadão do que o político (ver-se-á o seu programa daqui a dias). Que compromete mas também honra o professor e o intelectual. Em contrapartida, quatro anos serão pouco tempo, "tempo bem utilizado", se:

(i) "os cuidados primários florescerem paulatinamente, com profissionais suficientes, bem treinados e bem apoiados, tratamento urbano dos assistidos";

(ii) "idosos e suas famílias encontrarem uma solução adequada a cada caso, sem descarte egoísta nem fardo insuportável";

(iii) "os toxicodependentes forem agarrados pelo sistema de saúde em vez de pelo sistema de distribuição da droga";

(iv) "os portadores de VIH e outras doenças transmissíveis souberem onde se tratar e como parar a cadeia de contágio";

(v) "hospitais e centros de saúde estiverem ligados entre si sem hegemonias nem recriminações";

(vi) "todos os hospitais souberem e puderem tratar bem o cancro, deixando para os mais especializados os casos mais complexos";

(vii) "todas as escolas disseminarem conhecimentos de saúde e sobretudo de vida saudável pelos seus alunos, criando nos adolescentes a noção de que o desporto sadio é tão cool como a 24 de Julho ou a Ribeira, que a entreajuda e a alegria de viver e o ar livre são pelo menos tão saborosos como a cervejada semanal e o maço diário, que beber com moderação em ocasiões festivas, designando um condutor rotativamente abstémio, é a melhor forma de não perder dolorosamente amigos e amigas na flor da vida";

(viii) "os nossos velhos vierem a ser mais bem acompanhados";

(ix) "os nossos doentes crónicos, nomeadamente de cancro e outras doenças de alta severidade, vierem a ser mais bem assistidos";

(x) e, por fim, "em cada ano, os ainda mais de mil mortos de acidentes de viação, os quase 500 de acidentes de trabalho, os quase mil de sida, as dezenas de milhares de mortos prematuros devido a doença cárdio e cérebro-vascular, a patologias respiratórias e digestivas evitáveis com exercício regular e redução do tabaco e álcool, os quase 80 mil atingidos por infecção hospitalar, dez por cento dos quais morrem, puderem deixar de contar nessa epidemia silenciosa".

3. Meu caro António, senhor ministro da saúde: sob a tua liderança, não tenho dúvidas de que na saúde nada será como dantes, mesmo que não tenhas, felizmente, prometido o céu. Os teus amigos conhecem-te as qualidades (e os defeitos), com destaque para as tuas reconhecidas capacidades de liderança, determinação, organização, competência, empenhamento e relacionamento, a par da tua cultura, inteligência e sentido de missão. E, no final, embora seguramente mais velho e cansado, terás achado que valeu a pena, que valeram a pena os sacrifícios pessoais, familiares e profissionais, que a análise de custo/benefício foi positiva, que todos ganhámos, os portugueses e as portuguesas, os novos, os adultos, os velhos e os doentes, a saúde pública, a universidade, as empresas, a economia, a economia da saúde e as demais ciências da saúde pública, os utentes mas também os profissionais de saúde, todos nós, afinal, os verdadeiros e legítimos stakeholders da saúde...

PS- Só posso desejar-te boa sorte. Até daqui a quatro anos, António!.

Em Lisboa nem sangria má nem purga boa - VI: Até daqui a quatro anos, António!

1.Correia de Campos despediu-se dos seus leitores do Público no dia em que tomou posse do XVII Governo Constitucional, como ministro da saúde. À sua última crónica (quinzenal) deu-lhe um título sucinto mas programático: "Quatro anos" (Público, 11 de Março de 2005).

Começa por dizer-nos que quatro anos é muito tempo e pouco tempo, dependendo do balanço final que vier a ser feito da sua acção à frente da tutela da saúde. Será muito tempo ou tempo perdido, diz Correia de Campos, se daqui a quatro anos continuarmos a ter (itálicos meus):

(i) "as mulheres condenadas pela procriação não desejada ou desiludidas pela não assistida";

(ii) "os doentes de cancro tardiamente diagnosticados e mediocremente tratados";

(iii) "os doentes mortalmente infectados nos hospitais que os deveriam recuperar";

(iv) "os imigrantes que não entendem os labirintos da burocracia sanitária";

(v) "os doentes terminais";

(vi) "os portadores de deficiência mal assistida";

(vii) os sem-abrigo ("os que dormem nas arcadas ou nos vãos de escada");

(viii) "os velhos sós que mendigam conversa e se plantam, de madrugada, à porta do centro de saúde";

e, por fim, (ix) os velhos doentes e os doentes crónicos ("cada vez mais velhos e cada vez mais doentes, a cargo de famílias desesperadas, sem meios nem apoios, empurrados do hospital para um domicílio inexistente, um divã numa marquise suburbana").

2. Estes quatro anos que os cidadãos eleitores portugueses deram ao Partido Socialista e ao seu líder José Sócrates e à sua equipa governativa, não foram um cheque em branco mas serão tempo perdido, segundo o novo ministro da saúde, se:

(i) "o conhecimento, a inovação e a adequada tecnologia para a saúde continuarem a ser mal copiados, descuidados sem ambição ou meramente comprados ao estrangeiro";

(ii) "os interesses profissionais dos assistentes sobrelevarem o interesse dos assistidos";

(iii) "a estratégia do crescimento em mais um mercado vencer a estratégia da equidade;

(iv) "a desejável lógica de mercado em tudo o que o mercado faça melhor que o Estado deixar perverter a concorrência pela dominação";

(v) "não se contiver a hemorragia da despesa desnecessária";

(vi) "não se conseguirem introduzir novos parceiros locais na relação de proximidade entre serviços de saúde e cidadãos-utentes";

e, last but not the least, (vii) "não se conseguir (...) passar a mensagem do nº 1 do artigo 64º da Constituição de que todos têm direito à protecção da saúde, [mas todos têm] o dever de a defender e promover".

3. É um desafio, não direi temerário, mas antes lúcido, assertivo e corajoso, este que compromete mais o homem e o cidadão do que o político (ver-se-á o seu programa daqui a dias). Que compromete mas também honra o professor e o intelectual. Em contrapartida, quatro anos serão pouco tempo, "tempo bem utilizado", se:

(i) "os cuidados primários florescerem paulatinamente, com profissionais suficientes, bem treinados e bem apoiados, tratamento urbano dos assistidos";

(ii) "idosos e suas famílias encontrarem uma solução adequada a cada caso, sem descarte egoísta nem fardo insuportável";

(iii) "os toxicodependentes forem agarrados pelo sistema de saúde em vez de pelo sistema de distribuição da droga";

(iv) "os portadores de VIH e outras doenças transmissíveis souberem onde se tratar e como parar a cadeia de contágio";

(v) "hospitais e centros de saúde estiverem ligados entre si sem hegemonias nem recriminações";

(vi) "todos os hospitais souberem e puderem tratar bem o cancro, deixando para os mais especializados os casos mais complexos";

(vii) "todas as escolas disseminarem conhecimentos de saúde e sobretudo de vida saudável pelos seus alunos, criando nos adolescentes a noção de que o desporto sadio é tão cool como a 24 de Julho ou a Ribeira, que a entreajuda e a alegria de viver e o ar livre são pelo menos tão saborosos como a cervejada semanal e o maço diário, que beber com moderação em ocasiões festivas, designando um condutor rotativamente abstémio, é a melhor forma de não perder dolorosamente amigos e amigas na flor da vida";

(viii) "os nossos velhos vierem a ser mais bem acompanhados";

(ix) "os nossos doentes crónicos, nomeadamente de cancro e outras doenças de alta severidade, vierem a ser mais bem assistidos";

(x) e, por fim, "em cada ano, os ainda mais de mil mortos de acidentes de viação, os quase 500 de acidentes de trabalho, os quase mil de sida, as dezenas de milhares de mortos prematuros devido a doença cárdio e cérebro-vascular, a patologias respiratórias e digestivas evitáveis com exercício regular e redução do tabaco e álcool, os quase 80 mil atingidos por infecção hospitalar, dez por cento dos quais morrem, puderem deixar de contar nessa epidemia silenciosa".

3. Meu caro António, senhor ministro da saúde: sob a tua liderança, não tenho dúvidas de que na saúde nada será como dantes, mesmo que não tenhas, felizmente, prometido o céu. Os teus amigos conhecem-te as qualidades (e os defeitos), com destaque para as tuas reconhecidas capacidades de liderança, determinação, organização, competência, empenhamento e relacionamento, a par da tua cultura, inteligência e sentido de missão. E, no final, embora seguramente mais velho e cansado, terás achado que valeu a pena, que valeram a pena os sacrifícios pessoais, familiares e profissionais, que a análise de custo/benefício foi positiva, que todos ganhámos, os portugueses e as portuguesas, os novos, os adultos, os velhos e os doentes, a saúde pública, a universidade, as empresas, a economia, a economia da saúde e as demais ciências da saúde pública, os utentes mas também os profissionais de saúde, todos nós, afinal, os verdadeiros e legítimos stakeholders da saúde...

PS- Só posso desejar-te boa sorte. Até daqui a quatro anos, António!.

11 março 2005

Humor com humor se paga - XXX: Deus e Mourinho

O Papa João Paulo II, a Irmã Lúcia e o Zé Mourinho morrem num desastre de avião e, pela ordem natural das coisas, são apresentados por São Pedro a Deus, Nosso Senhor.
Pergunta o Criador ao Chefe Máximo dos Católicos:
- Então, meu filho, para ti o que é que foi mais importante na tua vida lá em baixo ?
O Papa respondeu-lhe, com a voz trémula:
- A paz na terra entre os homens de boa vontade…
Deus simpatizou com o simpático velhinho, e convidou-o a ficar no Céu:
- Vem sentar-te aqui ao meu lado.

A seguir, interpelou a Irmã Lúcia sobre a sua longa vida de mistério e de clausura:
- E tu, minha filha, ainda tens mais algum segredo de Fátima para desvendar ?
- Não, meu Pai, antes de morrer já tinha deixado os papéis todos arrumados no convento, prontos a seguirem para a Torre do Tombo…
- Também gosto dessa resposta na ponta da língua, para uma velhinha como tu que teve o privilégio de conhecer a Virgem Maria…

Deus fitou, por fim, o Zé Mourinho que parecia não constar da sua base de dados… Algo provocatoriamente, o maior treinador de futebol do mundo desafiava o Criador, com um gesto quase obsceno, o dedo espetado na boca como se O quisesse mandar calar. Diz-lhe Deus, depois de São Pedro ter-Lhe segredado o nome:
- Então, qual é o teu problema, Zé Mourinho?
Ao que este retorquiu:
- Eu acho que TU... estás sentado no banco errado; é que esse, por acaso, é o...MEU!

PS - Este anedota só pode ter uma segunda leitura: os portugas são o povo mais igualitário do mundo, de tal maneira que não sequer admitem a hipótese (teórica) de haver, entre eles, um "primus inter pares", um primeiro entre iguais. No entanto, muito secretamente admiram (ou morrem de inveja por) um Zé Mourinho, um portuga que está a ter um grande sucesso na estranja, e para quem nem o céu parece constituir um limite...

Humor com humor se paga - XXX: Deus e Mourinho

O Papa João Paulo II, a Irmã Lúcia e o Zé Mourinho morrem num desastre de avião e, pela ordem natural das coisas, são apresentados por São Pedro a Deus, Nosso Senhor.
Pergunta o Criador ao Chefe Máximo dos Católicos:
- Então, meu filho, para ti o que é que foi mais importante na tua vida lá em baixo ?
O Papa respondeu-lhe, com a voz trémula:
- A paz na terra entre os homens de boa vontade…
Deus simpatizou com o simpático velhinho, e convidou-o a ficar no Céu:
- Vem sentar-te aqui ao meu lado.

A seguir, interpelou a Irmã Lúcia sobre a sua longa vida de mistério e de clausura:
- E tu, minha filha, ainda tens mais algum segredo de Fátima para desvendar ?
- Não, meu Pai, antes de morrer já tinha deixado os papéis todos arrumados no convento, prontos a seguirem para a Torre do Tombo…
- Também gosto dessa resposta na ponta da língua, para uma velhinha como tu que teve o privilégio de conhecer a Virgem Maria…

Deus fitou, por fim, o Zé Mourinho que parecia não constar da sua base de dados… Algo provocatoriamente, o maior treinador de futebol do mundo desafiava o Criador, com um gesto quase obsceno, o dedo espetado na boca como se O quisesse mandar calar. Diz-lhe Deus, depois de São Pedro ter-Lhe segredado o nome:
- Então, qual é o teu problema, Zé Mourinho?
Ao que este retorquiu:
- Eu acho que TU... estás sentado no banco errado; é que esse, por acaso, é o...MEU!

PS - Este anedota só pode ter uma segunda leitura: os portugas são o povo mais igualitário do mundo, de tal maneira que não sequer admitem a hipótese (teórica) de haver, entre eles, um "primus inter pares", um primeiro entre iguais. No entanto, muito secretamente admiram (ou morrem de inveja por) um Zé Mourinho, um portuga que está a ter um grande sucesso na estranja, e para quem nem o céu parece constituir um limite...